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A EDUCAÇÃO ENQUANTO PROBLEMA


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Eric Weil
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o mínimo que se pode dizer é que os problemas contem- , 'l ''''
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sados. Todas as pessoas sensatasreflectem intensamente,ou ~', h ~
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pelo menos consagrammuito do seu tempo, a questõesrela- 'i 'li1j!
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tivas ao ensino superior,secundárioe elementar,à educação l
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destinada às crianças, aos adolescentes e adultos, às nações


bárbaras e civilizadas,aos cidadãos e estados de todo o tipo,
aos membrosdas assembleiaslegislativas,aos administrado-
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res, aos quadros sindicais et caetera2.Além disso, existem !'"~ ~
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associações privadas, Ministérios da Educação, encontros, !1A1'!i

simpósios que se ocupam destas questões; há a UNESCO; li! II

há os defensores dos sagrados valores nacionais. Que mais 1II


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haverá ainda para dizer sobre um assunto a propósito do 11,;:


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qual, se a probabilidadeestatísticaé válida neste domínio,já !I1
tudo deve ter sido dito e redito muitas e muitas vezes? ,
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I É-nos grato recordar que uma primeira versão da tradução deste texto foi en- ',\;
saiada por Paulo Dias, aluno finalista da licenciatura em Ensino da Matemática da
FCUL no ano lectivo de 1996/97. (N.T.) :Ir
I,
2 Em latim no original. (N.T.)
., 56 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 57

Contudo, talvez seja possível fazer ainda uma observação do que suficientes. Não porque se pensasse que o homem
em favor da oportunidade de retomar, uma vez mais, esta vulgar pudesse dispensá-Ios, mas porque não havia nem
questão. A experiência adquirida em numerosos domínios uma oferta suficiente deste tipo de instrução nem mesmo
indica que uma questão não se toma necessariamentemais uma suficiente procura.
clara por ter sido discutida em toda a parte e por muito tem- Creio no entanto que não deveríamos abandonar com
..- -r.. po. Pelo contrário, quap9:.Qq debate se prolonga ao longo de . demasiada ligeireza o ideal da educação pela instrução. In-.~"~,
um certo número de anos, constata-se com frequência que felizmente, para uma grande parte da humanidade contem-
há inúmeras receitas que são propostas mas que, muitas ve- porânea este ideal ainda permanece um ideal. É certo que,
zes, se deixa de saber quais os problemas que essas respos- nos países ocidentais, praticamente toda a população é ins-
tas era suposto resolverem. Sem sermos exageradamente truída. Também é certo que, por vezes, somos tentados a
pessimistas, poderíamos pensar que foi exactamente isso confessar que nem por isso a marcha do mundo se tomou !
que nos aconteceu- e não apenas no domínioda educação. mais harmoniosa ou as pessoas de convívio mais fácil.' I
Uma vez mais, as árvores teriam encoberto a floresta. Nu- Mas os homens que, no decurso do século XIX - e tam- . !!
ma situação tão desagradável como esta, o melhor é sempre bém do século XVIII, para dar a cada um o que lhe é de-
regressar à atitude do perfeito ingénuo e, como o velho ma- vido - insistiram na necessidade da educação popular,
rechal Foch, perguntar: mas afinal, de que se trata? nunca acreditaram que a instrução fosse um fim em si mes-
De que se trata na educação? O século XIX tinha uma ma. O que pensaram e ensinaram foi que os analfabetos se-
resposta: a educação é a instrução. Bem entendido, a ins- riam sempre seres violentos, incapazes de compreender os
trução não era sempre suficiente. Para lá do ideal da pura seus próprios interesses racionais, que não teriam oportu-
instrução, em países como a Inglaterra, a Fral1çae a Ale- nidades reais, que nunca poderiam ser membros úteis, e
manha,subsistiaum outro ideal. O gentleman3, o homem por consequência prósperos, numa sociedade moderna, in- '[
do mundo, der edle Charakter4 (ou ainda - e a alternati- dustrial e racional. Eles não admitiriam nunca algo que,
va é significaiiva - der grosse Manll 5)não podiam ser re- hoje em dia, é por todo o lado proclamado como uma ver-
sultado da instrução. E mesmo quando se exigia instrução dade histórica evidente, a saber, que durante as épocas por
(o que nem sempre acontecia) essa não era a condição pré- eles audaciosamente designadas como idade das trevas e
via principal. Em todo o caso, para as massas, os «Three idade bárbara, todas as coisas estavam bem ordenadas, ca-
R'S»6eram considerados suficientes. De facto, eram mais da homemno seu lugar natural,cada instituiçãocumprin-
do um papel cordato e satisfatório.
3 Em inglês no original. (N.T.) Por outro lado, esses homens também nunca afirmaram
4 Em alemão no original. (N. T.) que a instrução fosse capaz de satisfazer todas as nossas
5 Em alemão no original. (N.T.) :i I'
necessidades: a instrução era uma condição necessária, :Il r
6 Em inglês no original, Os Three R"s são a leitura. a escrita e a aritmética, isto é,
as três bases do ensino primário. Cf. os objectivos da escola de Jules Ferry: ler, mas não suficiente. Condição de quê? Do aparecimento de :I .
escrever e calcular. um homem novo, capaz e desejoso de desempenhar o seu ..
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58 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 59

papel na sociedade moderna, preparado e apto para julgar contrar aquilo de que se necessita, ou que simplesmente se
todos os problemas inerentes à vida da comunidade a que deseja, em locais detenninados - nenhuma destas como-
pertence, satisfeito com a sua posição porque consciente didades conduz à felicidade, no sentido mais profundo (ou
da dignidade inerente e da necessidade social do seu traba- mais elevado) do termo. No entanto, estes pequenos nadas
lho, convencido do carácter racional da ordem existente, colocam-nos na situação daquele homem rico que dizia
. ..mas detenninado a melhorar essa ordem e a~slJ,a. posição '.~ que o dinheironão tomava o homeJ;Il.feliz, mas que s.,ó
nela. Operários, camponeses, membros das classes médias quem tivesse dinheiro em abundância estava em condições
e superiores compreenderiam que ninguém pode resistir ao de escolher a infelicidade preferida.
progresso, que a mudança é inevitável. Mudança essa que O facto, em toda a sua simplicidade, é que ninguém quer
devia efectuar::se - pelo menos a longo prazo - no inte- renunciar ao progresso, ao simples e vil progresso mate-
resse de todos. Só homens instruídos seriam trabalhadores rial. Ora, pelo contrário, coloca-se hoje o problema de sa-
competentes, só trabalhadores competentes seriam capazes ber como fazer chegar o progresso a todos os que dele não
de destruir a resistência produzida pelos reaccionários não beneficiam ainda. Por consequência, a instrução continua a
esclarecidos. Todos, do mais elevado ao mais baixo da es- ser uma das tarefas essenciais do nosso tempo: as pessoas
cala social, deviam colaborar nesse grande projecto que ti- são pobres porque não têm instrução, porque não conhe-
nha por nome: progresso. E, nesse sentido, cada um devia cem os meios e os recursos de uma sociedade moderna, in-
considerar-se como um operário. A instrução era o meio; o dustrial e racional e, por outro lado, é porque são pobres
progresso, o fim. que têm falta desses meios. Aquilo que as nossas comuni-
dades ocidentais conquistaram nas três ou quatro últimas
gerações tem que ser alcançado pelo resto da humanidade.
II As comunidades que ficaram para trás pretendem benefi-
ciar dos frutos da tecnologia moderna e o preço que vão ter
Entretanto, tomou-se moda deixar de acreditar no pro- que pagar para lá chegar é a aquisição, muítas vezes à re-
gresso. Porquê? É uma questão difícil à qual, de momento, velia das suas próprias tradições, das capacidades e do sa-
não tentaremos responder. Mas talvez possamos chamar a ber necessários para edificar uma indústria, formar operá-
atenção para o facto de, entre aqueles que maldizem o pro- rios, engenheiros, professores de ciências, administrado-
gresso, poucos serem os que estão dispostos a deixar levar res, funcionários. Para obter os mesmos resultados, essas
esse seu desprezo pelo progresso ao ponto de recusarem os comunidades vão ter que modificar, talvez mesmo mudar
contributos que este proporciona às comodidades da vida. radicalmente, as suas concepções e os seus valores funda-
Sem dúvida que a electricidade, a água canalizada, a pos- mentais, exactamente como nós o tivemos que fazer. Sem
sibilidade de viajar ou de visitar museus, de passear nas dúvida que, pela nossa parte, teremos também que melho-
ruas sem o perigo de nos cair na cabeça o conteúdo de to- rar o nosso próprio sistema de instrução, espalhar o saber
da a espécie de recipientes domésticos, a certeza de se en- ainda mais longe, elevando ao mesmo tempo o nível geral,
60 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 61

produzir cada vez mais e mais técnicos, administradores e zados, seres racionais com plena consciência dos nossos
especialistas em todos os domínios. O progresso nunca interesses pessoais, com uma vida muito melhor do que a
tem fim porque, uma vez aceite como tal, a ideia de um fim dos nossos antepassados. Temos hoje acesso a bens e pra-
do progresso toma-se uma contradição nos seus próprios zeres de que os antigos não podiam sequer suspeitar. So-
tennos. Tanto os povos atrasados como os avançados terão mos admitidos, ou melhor, cordialmente convidados, para
~ -. necessidade,por..mais.algum tempo, sempre-de mais e todas "aquelas manifestações ,de, espírito e da alma que, ~ -
mais instrução pela simples razão de que uns e outros que- dantes, eram privilégio do gentleman7, do homem de bem,
rem sempre mais e mais frutos do progresso. Pode esse do gebildete Mensch 8.É forçoso reconhecer que hoje isto
querer ser incorrecto. Mas o facto é que o querem. Podem só é verdade nas nações avançadas. Mas é mais do que pro-
os povos estar prontos a proclamar que há valores mais'iin:':' vável que esta situação venha a prevalecer em toda a parte
portantes que os valores do progresso. Mas isso não signi- num futuro não muito afastado. Grande número de seres
fica que estejam prontos a pensar que esses valores supe- humanos estão esfomeados, não têm tempo para si pró-
riores os obriguem a rejeitar os menos elevados. prios, não conhecem os meios e as comodidades da vida
Se, portanto, a instrução é uma necessidade, o problema moderna. Mas a fracção da humanidade que dispõe desses ,it
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desaparece. É certo que as dificuldades continuam. Mas bens é já relativamente importante e não há dúvida que os
são de ordem meramente técnica. Sabemos perfeitamente restantes acabarão por obter os mesmos benefícios. De '[i,'
o que é necessário fazer se quisennos realmente resolvê- uma maneira geral, o progresso é um facto e irá continuar. l
-Ias. Falta quem ensine; os alunos e os pais nem sempre es- O tempo consagrado aos lazeres ocupará uma parte cada li'
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colhem as especialidades socialmente mais úteis; às vezes, vez maior na vida humana. Pode-se pois dizer que a ins- l'I
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recusam mesmo categoricamente a aquisição da pouca ins- trução conduziu à liberdade, se entendennos por liberdade
trução elementar a que a lei obriga. Porém, se uma socie- a possibilidade dada ao homem de fazer o que quer, na me-
dade decidisse realmente modificar este estado de coisas, dida em que isso não interfira com a liberdade do seu vizi- ~I
seria perfeitamente capaz de o fazer. Dai bons salários e te- nho, sendo que o nosso homem pode dispor do seu tempo
reis bons mestres. Podemos talvez ficar por aqui, uma vez sem que, para isso, tenha que renunciar aos bens deste
que os nossos dirigentes sociais e políticos parece terem já mundo e à parte que lhe cabe no produto social. Os após-
começado a compreender este ponto. tolos do progresso tinhanLnlzão.
Uma única coisa poderia vir ainda perturbar-nos. É cer- Então, o que é que nos pode ainda perturbar? Muito sim-
to que se realizou aquilo que os apóstolos da educação po- plesmente, o facto de tennos obtido o que nos prometeram
pular - de uma educação popular sempre mais elevada - e desejámos e o facto de, mesmo assim, não estarmos ain-
profetizaram. As nações que primeiro compreenderam es- da completamente satisfeitos com os resultados. Podemos
sa mensagem deram realmente passos de gigante na estra-
da do progresso e os novos aderentes obviamente também 7 Em inglês no original. (N.T.)
compreenderam a lição. Tornámo-nos calculadores civili- 8 Em alemão no original. (N.T.)
.. 62 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 63

comer quantos bolos quisermos, mas eis que, ou já não so- D.R.S.S., há filhos e filhas de dignatários que roubam pa-
mos as crianças que fomos outrora, ou o bolo já não tem o ra tirar aquilo de que não têm qualquer necessidade. Por
mesmo sabor. Não que o queiramos desperdiçar. outro lado, o tédio pode engendrar uma espécie de violên-
Recordamo-nos muito bem do tempo em que não nos po- cia que se vira contra o próprio. Homens de prósperos ne-
díamos satisfazer sequer com pão duro. Mas vejamos: co- gócios e funcionários com êxito nas suas carreiras
' !11.~csempre bolos ..de pastelaria? Sempre..cie. -pastelaria? suicidam-se, ou.tentam a morfina, o sexo, o álcool, as.reli-
Ainda que o bolo seja cada dia melhor e que nos dêem fa- giões estranhas. Procura-se por vezes uma explicação para
tias cada vez maiores, ainda que seja bom ter bolos para este facto no excesso de trabalho e na fadiga nervosa. Mas,
comer, parece que já nada nos satisfaz. longe de refutar a nossa tese, esta explicação vem antes
confirmá-Ia: por que Ôutrarazão um homem que tem tudo
aquilo de que necessita se deixaria cair numa tal situação
111 senão porque, sem a droga do excesso de trabalho, se ar-
risca a morrer de tédio? O fenómeno não tende a diminuir
Podemos porventura chamar tédio a isto. Normalmente, de importância. Podem tomar-se mais raros os crimes crá-
considera-se o tédio com um olhar desaprovador. Se al- pulas cometidos com violência, as tentativas ilegais de ad-
guém se queixa de tédio não o tomamos muito a sério. Que quirir bens legais. Mas a violência desinteressada, aquela
se ocupe, dizemos nós de bom grado, que faça alguma coi- que é, ela mesma, o seu próprio fim, quer seja dirigida con- ,\
sa para sair do seu tédio. Mas, se uma civilização inteira tra os outros quer contra si mesmo, está a espalhar-se cada
for atingida pelo tédio, este pode tomar-se uma coisa efec- vez mais. A percentagem não é a mesma em todo o lado e, I'
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tivamente séria até porque, nesse caso, não existiria nin- aqui e além, as tradições servem de dique. Mas servir de
guém para dizer aos outros porque razão se aborreciam e o dique é uma ocupação fastidiosa, particularmente quando 1I
1:
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que seria necessário fazer para remediar a situação. Se, ob- os diques estão a desaparecer e os construtores de diques
tido-ludo o que razoavelmente se pode desejar, as pessoas são cada vez mais raros.
A situação é inquietante. A sociedade pode esforçar-se, : It!
estão ainda insatisfeitas e se todo o mundo partilha do mes-
mo sentimento de insatisfação, pode então desencadear-se muitas vezes com êxito, para fazer compreender ao poten-
o recurso a coisas não razoáveis. Estamos todos certamen- cial criminoso - digamos, ao criminoso em...geral- que
te de acordo num ponto, a saber: que a violência é o único as vias legais conducentes à abundância são mais seguras;
verdadeiro passatempo. que é do seu próprio interesse conduzir-se de forma a não
Ora, é exactamente isto que parece estar a produzir-se desencadear sobre si a violência defensiva da sociedade.
nas sociedades mais avançadas do nosso tempo, se bem Mas o interesse particular tem muito poucas hipóteses de I
que, por agora, numa escala reduzida. Nos E.D.A., há jo- prevalecer sobre o tédio que nasce da insatisfação de um in- il
vens brilhantes e bem-educados que torturam e matam teresse satisfeito. O interesse pessoal tomou-se desinteres- \i'
mendigos nas praças públicas para se divertirem; na sante (o que, em grande parte, poderá explicar a moda lite- III
. I
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64 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 65

rária que vê na violência desinteressada a verdadeira reali- sobre um amontoado de tijolos e de vigas, rodeado de to-
zação da vida humana). Devemos, por consequência, tentar das as espécies de utensílios e de máquinas, sem a menor
compreender a natureza deste tédio e perguntarmo-nos se ideia do que se vai fazer com esses materiais, é igualmen-
ele não está, de alguma maneira, ligado à educação. te desagradável. A instrução diz-nos como proceder para
fazermos o trabalho, mas não nos indica como será a obra
-.,- ...---- final. Podemosjogar com a.spedras e a argamassa m~~.t_Ql!
IV levamos o jogo de tal modo a sério que, por medo incons-
ciente de ter que reconhecer que se trata de um jogo, nos
Se fosse necessário reduzir os fins da educação a um só, esgotamos nesse trabalho ou rapidamente descobrimosque
este seria o de, precisamente, dar ao homem a oportunida- se trata de um jogo e, nesse caso, somos tentados ã regozi-
de de levar uma vida que o satisfaça (enquanto ser racio- jarmo-nos com isso. Uma guerra, uma revolução, uma ca-
nal, isto é, na condição de que cada um procure a sua pró- tástrofe maior podém então aparecer como preferíveis à- .
pria satisfação sem impedir o seu vizinho de fazer outro simples continuação das coisas tais como estão, uma vez
tanto). A educação surge assim como uma questão de opor- que estas se tomaram absolutamente desprovidas de inte-
tunidade. Mas «oportunidade» é um termo ambíguo neste resse. E não se veja nesta.comparação uma invenção fan-
contexto. Os educadores antigos queriam atingir precisa- tasiosa. Pensemos quanto os terrores e os pânicos da nossa
mente este fim - e no entanto fomos confrontados com o época contêm de desejos reprimidos e antecipações deli- .11
problema do tédio precisamente porque essas pretensões ciosas (não confessados mas inconscientes); observemos a
I
obtiveram êxito. Muitos são os que têm a oportunidade de forma como, em tempo de guerra e violência, diminui a I
construir uma vida satisfatória se se entende por isso que curva dos casos de doenças mentais, provavelmente por- I
nenhum obstáculo exterior os impede. Mas são poucos que se passa enfim qualquer coisa que interrompe a me- i
aqueles que têm a oportunidade de aproveitar esta oportu- diocridade da vida. I!
nidade. A razão é evidente: se quisermos construir para nós Por consequência, para além da instrução e acima dela, I
I
próprios uma vida boa, devemos ser nós próprios a há lugar para a educação. Não que os antigos educadores I
I
construí-Ia, segundo os nossos próprios planos; devemos estivessem errados. Simplesmente, esqueceram-se de um I
II
ser o arquitecto da nossa própria_casa,_nãopodemos con- facto: porque pensavam sempre nos males que oprimiam a
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tactar especialistas para nos fazerem o trabalho. Se um vi- grande maioria dos seus contemporâneos, não reflectiram I,
zinho nos pretendesse vender ou alugar a sua casa, até naquilo que podia dar significado, valor e sentido à sua vi- i
mesmo se nos quisesse oferecê-Ia, ela seria sempre feita ao da. Porque eles próprios certamente levavam uma vida
seu gosto, não ao nosso, e, como tal, não nos agradaria. sensata, partiam compreensivelmente do pressuposto de
Ora, aqui, a instrução não nos pode ajudar. Sem ela - que os outros, aqueles que não tinham a mínima oportuni-
não é demais repeti-Io - não existiriam materiais de cons- dade de conduzir a sua própria vida, teriam feito como eles
trução, nem tempo, nem vontade de construir. Mas, viver se lhes tivesse sido permitido imitá-Ios. Desse modo, não
( (

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66 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 67

deram o devido valor àquilo que os seus alunos mais te- liberdade razoável e, nesse caso, que deveríamos encontrar
riam necessitado caso fossem livres: o conhecimento do os meios para levar aqueles que educamos a pensar por sua
que poderiam fazer com a sua liberdade. Acreditavam que própria conta nos dois sentidos que esta expressão possui:
esse saber emergiria naturalmente em cada um. Não pen- por sua própria conta, porque terão de ser eles a construir
saram nunca que é possível ficar paralisado por se ter de- o seu próprio pensamento e porque, para eles, pensar deve
. c._JDasiado tempo li}'..reà sua disposição. . _ . ter um-sentido.eonãoapenas cOtlstitun:um valor comeJicia-
Está hoje fora de dúvida que os planos e projectos dos lizável.
antigos educadores se modificaram. Mas, no entanto, con- Será que isto se pode fazer? A tarefa não é impossível.
tinuamos a proceder em conformidade com as orientações Ela exige a educação, qualquer coisa de radicalmente dife-
que eles traçaram. Inventámos novos estímulos para in- rente da instrução. Uma educação que não seria positiva !:
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centivar a aprendizagem; introduzimos métodos sofistica- mas negativa, que não mostraria onde reside o sentido mas
dos para estudar; abrimos ao público lugares onde cada um onde ele não pode estar. Uma educação que obrigaria cada
pode escolher livremente a sua alimentação numa lista ri- um a admitir a sua perplexidade, o seu tédio, o seu deses-
ca de ofertas. Mas, a cozinha está no andar inferior e os pero - não a confessá-Iospublicamente a uma autoridade I.il
clientes nunca aí vão (a menos, bem entendido, que quei- ou a um especialista, mas a-confessar a si mesmo que está
ram tomar-se cozinheiros), porque nunca são convidados a à procura de qualquer coisa que não tem e que deseja mais I~
visitar a cozinha, ou sequer informados dos procedimentos do que tudo no mundo. Não há uma impossibilidade ine-
culinários. Os clientes aprendem assim a avaliar - diga- rente a esta tarefa, nem para o educador, nem para o aluno. 'I!I
mos, a distinguir - uma alimentação boa, média ou má. É claro que não é tarefa fácil. Mas, se fosse fácil, não va- I,.
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Mas não aprendem a cozinhar um prato ou a descobrir os leria a pena ser uma tarefa. Embora, num primeiro mo- ~ 1'" I
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seus desejos mais pessoais em matéria de cozinha. São- mento, a utilidade social do indivíduo pudesse diminuir, a III!'!
-lhes oferecidas todas as espécies de ideais, de maneiras de sociedade moderna poderia tomar-se mais eficiente se per- \ ;:'1
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viver, de filosofias, de sistemas jurídicos e poiíticos, de ta- mitisse a irradicação da insegurança fundamental e da vio-
belas de valores. Mas, ao fim de um certo tempo, todos es- lência escondida que a caracterizam. As tensões sociais e 11,

ses pratos maravilhosos parecem ter o mesmo sabor - o


.11

internacionais poderiam diminuir. À humanidade poderia


cliente perde o apetite e fica entediado. ser revelado algo que ela quase esqueceu, a saber, que o I I
11

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Pode parecer «natural» dizer que o remédio consiste em
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pensamento é em si mesmo uma grande e bela coisa, que o I

instruir os homens no uso da sua liberdade. A resposta é sentimento é nobre quando não é adulterado pelo senti- \11;
natural para nós, velhos mestres e bons alunos de mestres mentalismo e pelo desejo de posse e que, quando ousamos
ainda mais velhos. Mas é uma resposta supremamente ri- olhá-Io, o mundo é belo.
dícula: é que não se pode instruir ninguém no uso da liber- Que não se pense que isto pode ser atingido sem a ins-
dade. Tudo o que a instrução pode fazer é tomar a liberda- trução. Nada nas páginas precedentes deveria permitir pen-
de possível. Poderíamos então dizer que nos cabe tomar a sar que a instrução é destituída de valor e que a educação I
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68 Eric Weil A Educação Enquanto Problema do Nosso Tempo 69

é possível sem ela. A instrução é necessária para que a so- num problema para todo o género humano. É imposssível
ciedade possa progredir e oferecer mais oportunidades de aceitar as soluções gregas que pressupõem condições que
aceder à liberdade e de um maior número de pessoas dela já não existem e que nunca mais se poderão voltar a dar.
fazer uso. Só a instrução pode dar a experiência da verda- Mas, aquilo que os Gregos tentaram talvez nos possa aju-
de objectiva, o respeito pela universalidade dos direitos, dar na nossa procura. Eles perceberam de forma muito cla-
- -;6: _. dos deveres.e dos .valores, a modéstia intelectual, .elemen- ra que os.homens.livres {}uese esquivam às responsabili-
tos que são indispensáveis se se pretende que a liberdade dades que a liberdade implica não poderão jamais ser feli-
não permita criar uma situação na qual se tornaria de novo zes nem continuar livres. E nisto não se enganaram. A Gré-
actual aquilo que o velho Hobbes pensava da natureza hu- cia chegou ao fim - e não foi um fim feliz - porque
mana, bem -âssim como 'as receitas que propunha. É um quem não está em condições de assumir a sua liberdade
facto - e um facto pouco agradável- que nascemos ego- tem necessidade de um mestre. Todas as comunidades que
cêntricos, violentos, egoístas e que só a instrução nos do- põem a eficácia acima de tudo e consideram a liberdade
mínios do conhecimento e das boas maneiras, nos trans- como um brinquedo acabam por ficar submetidas a um
forma em seres humanos, quer dizer, em seres cuja vida mestre. A instrução e o progresso material são condições "~I
H.
não consiste apenas na luta pela sobrevivência, mas que, prévias indispensáveis. Quando as transformamos num lii
'Ili
legitimamente, procuram libertar-se dos constrangimentos fim, é muito possível que se não destruam por si mesmas.
que a natureza humana e todas as outras espécies de vio- Mas podem ser destruídas pelo tédio e pelo desespero. En- \.:
Ii~
I:
lência natural exercem sobre eles. Porém, uma vez ganha a quanto o progresso não tiver reduzido as diferenças exis-
batalha da instrução, o problema de uma educação para a tentes entre os níveis de vida de comunidades avançadas e
liberdade adquire estatuto de primeiro plano. atrasadas, enquanto houver tarefas urgentes que tenham
Não estamos perante um problema novo. Se ele nos pa- que ser realizadas por intermédio de avanços técnicos, de .1
rece como pouco familiar é simplesmente porque as cir- instrução positiva, de organização racional, o perigo não
cunstâncias se modificaram desde a época em que surgiu está iminente. Mas, por mais impressionantes que sejam, li,
pela primeira vez. Formulado do ponto de vista do histo- os perigos mais graves não são necessariamente as fricções
riador, o nosso problema é o problema central da filosofia e os conflitos internacionais. O perigo futuro poderá I,
I
grega. Que procuraram filósofos como Sócrates, Platão e traduzir-se numa ameaça muito maior: o perigo de uma hu-
Aristóteles, senão um conteúdo para a vida do homem li- manidade liberta da necessidade e do constrangimento ex-
vre, do homem que nâo estava constrangido a trabalhar pa- terior mas impreparada para dar conteúdo à sua liberdaõe.
ra viver ou a combater a natureza com as suas próprias Neste sentido, não seria exagerado afirmar que não existe
mãos? O que é penoso para nós é que os Gregos tinham es- nenhum problema mais importante, mais urgente, que o da
cravos e nós temos máquinas. Quer dizer, aquilo que, no educação. E os nossos sucessores podem vir a ser incapa-
tempo dos Gregos, era um problema para uma pequena eli- zes de o resolver se demorarmos demasiado tempo e se,
te, transformou-se - ou vai transformar-se em breve - desde já, não reflectirmos suficientemente sobre esse pro-

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70 Eric Weil

blema. Podem mesmo vir a ser incapazes de ver o proble-


ma e de tomar consciência daquilo que já vem mal de trás
- exactamente da mesma maneira que a filosofia grega,
nos seus últimos momentos, deixou de procurar uma res-
posta válida para todos os homens livres e para toda a co-
. . -- munidade de homens-livres e apenas procurou--encontrar
consolação para os raros indivíduos que continuaram a
pensar que tudo tinha acabado mal. Ela renunciou assim a
perceber que era possível, ou teria sido possível, encpntrar
um remédio. - --
I

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