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PROJETO FILOSOFIA NAS COMUNIDADES:

UMA INICIATIVA EM PROL DA FILOSOFIA

Iltomar Siviero∗
iltomar@ifibe.edu.br

Apresentação do Projeto Filosofia nas Comunidades

O projeto Filosofia nas Comunidades nasceu em 2005 com objetivo


de discutir temas contextuais à luz da filosofia, tanto com grupos de
lideranças comunitárias, bem como, com escolas e outros grupos,
segmentos e categorias profissionais interessados.
A noção que perpassa o surgimento do projeto não é uma novidade
para o IFIBE. É, muito mais, uma recuperação da sua missão institucional.
Outras atividades foram realizadas no passado que convergem para essa
maneira de “lidar” com a filosofia. Entre as atividades marcantes que
podem ser registradas as seguintes: a realização do Projeto “América
Latina – 500 anos?”, de 1990-92, que desenvolveu debates e atividades
diversas, entre seus saldos pode-se contabilizar a criação da Revista
Filosofazer, que já completa no primeiro semestre do 2007 seu décimo
sexto ano de publicação semestral regular; em 1998, desenvolveu um
Curso de Extensão em Filosofia Política sobre “O estado atual das Coisas
da Política” que reuniu 50 lideranças sociais de todo o Estado do Rio
Grande do Sul, com uma carga horária de 180 horas-aula; em 2001,
desenvolveu o Curso Ágora – Sobre as Dinâmicas dos Processos
Organizativos Sociais – procurando identificar o lugar político da
Sociedade Civil, trabalhado com 42 lideranças de Organizações Sociais de
todo o Estado do RS; em 2003, promoveu outro curso de Extensão
denominado Curso Kairós: Introdução à Compreensão Filosófica da Ação
Social, contando com um número de 28 inscritos.


Professor do Instituto Berthier (IFIBE), Passo Fundo, RS. Mestre em Filosofia pela
UNISINOS. Membro da Coordenação do Projeto Filosofia nas Comunidades edição 2006.
Em 2005 o IFIBE lançou o projeto Filosofia nas Comunidades, tendo
como tema o Referendo sobre o desarmamento. O Projeto consistiu na
realização de debates de esclarecimento sobre o referendo. O objetivo
principal era oferecer subsídios para que a comunidade pudesse conhecer as
principais posições em torno do assunto e, de modo especial, sobre a
importância de participar do referendo como forma de exercício da
democracia direta prevista na Constituição Federal. O desenvolvimento do
projeto consistiu na realização de um encontro com duração de uma hora,
sendo que, na primeira parte era apresentado o referendo, sua importância
e organização e as principais opiniões favoráveis ao Sim e ao Não na
implantação do desarmamento e, na segunda parte, abria-se espaço aos
presentes para discussão sobre o tema do desarmamento.

Em 2006 o IFIBE deu continuidade ao projeto tendo como tema a


relação entre ética e política. O objetivo dessa edição era discutir a forma
de realização e compreensão da política no cenário brasileiro, visando
aprofundar filosoficamente quais são os fundamentos da política, sua
relação com a ética e com o exercício da cidadania. A justificativa nasceu
diante dos diversos fatos de corrupção no terreno da política. Em
praticamente todos os veículos de comunicação predominou a
disseminação dessa idéia, gerando indignação, ojeriza e preconceito da
grande maioria das pessoas pela política. Predominou(a) a idéia de política
como lugar dos corruptos, bons retóricos, que só estendem cumprimentos
e voltam às comunidades de origem no momento que precisam de votos;
homens de pouca ação concreta na busca de melhorias de vida para as
pessoas de classe média e/ou baixa; que não fazem outra coisa senão
gozar de privilégios pela estrutura de suporte para exercício de seus
mandatos; que demonstram grande esforço quando se trata de aprovar
medidas que gerem aumento de seus salários; enfim, são este alguns dos
sentimentos e percepções que a maioria da população brasileira têm em
relação aos “chamados” políticos. A centralidade está pautada numa visão
pessimista, antiética e sem esperança na política como meio para garantir

1
a participação, realização das pessoas e possibilidade de melhorias da
qualidade de vida das pessoas.
Frente a tal situação, bem como, aos equívocos em relação à
política, reduzindo-a à prática dos representantes do legislativo e
executivo, onde a participação é delegada e que nosso compromisso
político se encerra no voto, urge desmistificar e refletir sobre o verdadeiro
sentido da política. Este é o desafio que se apresenta em nosso contexto,
sobretudo, na sua relação com o ser humano, como espaço de confronto
de opiniões e manifestação da pluralidade humana, cuja característica
sintetiza nossa condição de ser humano.
Os passos metodológicos utilizados nas oficinas do projeto foram os
seguintes: 1. Apresentação geral do projeto; 2. Encenações (3) que
apresentem como conteúdo de fundo o que é e qual é a tarefa da
Filosofia, da Ética e da Política; 3. Reconstruir com os presentes sobre o
que é e importância da filosofia a partir da cena 1, sobre o que é e a
importância da ética a partir da cena 2; sobre o que é e a importância da
política a partir da cena 3. 4. À luz das cenas, refletir com os presentes
sobre algumas questões1 que subsidiem a discussão. 5. Avaliação e
conclusão da oficina.
Para a edição de 2007 já está definido o tema que é Filosofia e
Direitos Humanos: contribuição filosófico-pedagógica para o
fortalecimento da luta pelos Direitos Humanos em Passo Fundo. A
perspectiva será de trabalhar a noção afirmativa dos Direitos Humanos,
procurando refletir sobre o jargão “Direitos Humanos só defende
bandidos”. Atualmente, o projeto encontra-se ainda na fase de definição
da parte metodológica.

1
As questões foram as seguintes: a) À luz da filosofia, da ética e da política, que
avaliação fazemos do contexto político nacional? Quais os principais desafios? b) Com
base na importância e amplitude da política, que significa votar? O voto é a única forma
de participação política? c) Qual o papel do partido político? d) Quais as grandes
conquistas e vitórias que percebemos na política?

2
Implicações Filosóficas presentes no Projeto Filosofia nas
Comunidades

Institucionalmente o projeto é concebido como atividades de


extensão, embora revele algo mais profundo, a saber, sobre a tarefa que
cabe à filosofia. Se ligada ao ensino, direcionado ao âmbito escolar, e/ou,
se ligada à extensão, estendida a diferentes grupos, cabe, perguntar
sobre o objeto da Filosofia, mesmo que seja independente do lugar. A
resposta parece ser óbvia, pois o objeto da filosofia é o próprio ser
humano e as questões que ele compreende como necessária de reflexão
diante do mundo em que vive, habita. Mas isso não significa dizer que o
seu objeto é simples e de fácil tratamento. Discutir sobre o ser humano e
sobre o mundo e, mais que isso, relacioná-los, pois quando tratamos das
grandes questões e problemas de nossa época o fazemos a partir dessa
relação, significa enfrentar um caminho difícil e complexo. Neste sentido,
à filosofia cabe a tarefa de ser essa ponte entre ser humano e mundo, na
perspectiva de levantar questões e problemas que o ser humano enfrenta.
Sua sustentabilidade filosófica está no intento de recuperar a tarefa
filosófica essencial: questionamento e problematização frente os fatos e
acontecimentos de nossa época. Além de provocar os participantes, essa
noção ultrapassa o núcleo fundamental da mídia na abordagem dos fatos
e acontecimentos, considerando que ela se sustenta pelo viés emotivista,
causando impacto pela dramaticidade de como os acontecimentos são
passados. A permanência neste estágio é o que nós chamamos muitas
vezes, no plano filosófico, de enfrentamento do senso comum. Essa é a
primeira noção que perpassou o nascimento do projeto filosofia nas
comunidades.
Na esteira da filosofia abordaremos duas posições filosóficas que
mereceram respeito pelos seus investimentos voltados a essa noção da
tarefa filosófica como tarefa que problematiza acontecimentos a partir
dessa relação entre ser humano e mundo. Trataremos, mesmo que de
maneira breve, as posições de Sócrates e Arendt.

3
A posição socrática é bem lembrada pelos estudantes e professores
de filosofia, embora apresente controvérsias acerca do ensino de filosofia
no sentido que não se pode ensinar filosofia, mas convidar para filosofar
e, nessa atitude, dar possibilidade de realização o ato pedagógico. Não é o
caso para este propósito, pois a posição da recusa socrática acerca do
ensino de filosofia estava ligada ao processo de ensino de filosofia
desenvolvido pelos sofistas. Sócrates se opunha ao tipo de ensino que se
propunha a ser desenvolvido somente no âmbito da boa retórica e
apegado a lógica de vendedores ambulantes de saberes. A filosofia para
cumprir sua tarefa deverá estar voltada ao cultivo das virtudes como a da
sabedoria, justiça, fortaleza, temperança, rompendo com os vícios da
ignorância (Cf. REALE; ANTISERI, 2004, p.96-104).
Sócrates é conhecido pela sua atuação em praça pública. É o filósofo
que faz da filosofia uma atividade que se desenvolva no espaço público e
com abordagem das questões e problemas que o ser humano enfrenta.
Sua tentativa era clara no sentido de tornar a filosofia relevante para o
Polis grega, bem como para o próprio ser humano. Através dos dois
momentos de seu método – ironia – Sócrates indagava os transeuntes
que ficavam incomodados com as perguntas levantadas pelo mestre da
Agora. Os transeuntes alcançavam a noção de que as verdades cultivadas
e defendidas não eram verdades eternas, pois as conclusões alcançadas
quase sempre chegavam na certeza da ignorância (só sei que nada sei).
Alcançado este estágio de maturidade estava aberto o caminho para o
segundo momento do método - a maiêutica – exercer a sua arte, da
obstetrícia, na qual os transeuntes podiam dar a luz, por si mesmo, a
novas verdades, com novos fundamentos.
A atitude socrática permite, portanto, que se estabeleça na filosofia
uma noção de relação com o mundo na perspectiva do abalo e
rompimento com posições estagnadoras, incrustadas ideologicamente e
carregadas de “achismos”, ao modo que vivenciamos nas noções de
política durante a realização das oficinas. Neste sentido, a filosofia
recupera a sua essência incômoda, por que ela proporciona a

4
problematização e reflexão sobre os fatos e sobre o que dizemos e
pensamos sobre os fatos. Seja em sala de aula seja com grupos diversos
em atividades de extensão, essa noção desencadeia novas visões sobre as
coisas, sobre o ser humano e sobre o mundo.
Os relatos apresentados por muitos participantes revela exatamente
essa posição. Para Débora:

Foi muito bom. Gostei bastante. Aprendemos coisas novas,


diferentes. Espero ter de novo a realização do projeto,
porque foi uma coisa que a gente aprendeu bastante sobre
ética e política. Os temas foram muito bons e pra ver como
as coisas são diferentes de se aprender. O que a gente
aprende na sala de aula foi mostrado aqui de uma forma
diferente, ou seja, uma forma diferente de aprender o que a
gente já sabe.2

A segunda posição que abordaremos é a de Arendt. Conhecida pela


sua personalidade forte diante do enfrentamento de perseguição ao povo
judeu, Arendt deixou para nós escritos sobre fatos e acontecimentos de
seu tempo que mereceram não só elogios, mas a sua inserção na história
da filosofia com uma das primeiras mulheres filósofas3. É frente às
atrocidades e avanços da ciência e da técnica assistidos no século XX4 que
Arendt se levanta, convidando para que pensemos sobre aquilo que está
acontecendo. No prólogo de A Condição Humana destaca:

2
Entrevista realizada com Débora, estudante do Colégio Estadual Monteiro Lobato. A
entrevista foi realizada pelo monitores das oficinas após a sua realização. As gravações
encontram-se arquivadas no IFIBE.
3
Não é o termo que melhor a identifica segundo seus depoimentos a Gunter Gäus em
1964. Na sua posição está a de não se considerar como filósofa, mas como alguém que
pensa sobre a política. Todavia, em suas cartas Gershom Scholem não economiza
perguntas acerca dessa sua posição, levando-a quase que a um “beco sem saída” pelas
suas próprias posições nos textos que escrevera. Cf. respectivamente, ARENDT, 1993, p.
123-143 e COURTINE-DENAMY, 1994, p. 138-140.
4
Em relação às atrocidades, Arendt destaca o acontecimento de duas guerras mundiais,
o surgimento de regimes totalitários de governo, entre outros. Acerca dos avanços da
ciência e da técnica, Arendt destaca a criação e explosão da bomba atômica, a chegada
do homem à lua, a automação, entre outros. Sobre essa questão conferir Prefácio e
Prólogo, respectivamente, das obras: ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo.
Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. ARENDT, Hannah.
A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo, posfácio de Celso Lafer - 10ª ed. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

5
Este livro não oferece resposta a estas preocupações e
perplexidades. Respostas são dadas no âmbito da política
prática, sujeitas ao acordo de muitos; jamais poderiam se
basear em considerações teóricas ou na opinião de uma só
pessoa, como se se tratasse de problemas para os quais só
existe uma solução possível. O que proponho nas páginas
que se segue é uma reconciliação da condição humana à luz
de nossas mais novas experiências e nossos temores mais
recentes. É óbvio que isso requer reflexão; e a irreflexão – a
imprudência temerária ou a irremediável confusão ou a
repetição complacente de ‘verdades’ que se tornam triviais e
vazias – parece ser uma das características do nosso tempo.
O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas
de refletir sobre o que estamos fazendo” (ARENDT, 2004, p.
13).

Em outra passagem de outra obra Arendt destaca que a sua atitude


frente ao que estava acontecendo era a de compreender que significa o
seguinte:

Compreender não significa negar o ultrajante, subtrair o


inaudito do que tem precedentes, ou explicar fenômenos por
meio de analogias e generalidades tais que se deixa de
sentir o impacto da realidade e o choque da experiência.
Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo
que os acontecimentos colocaram sobre nós - sem negar sua
existência nem vergar humildemente a seu peso, como se
tudo o que de fato aconteceu não pudesse ter acontecido de
outra forma. Compreender significa em suma, encarar a
realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela -
qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido (ARENDT,
1989, p. 21).

Os acontecimentos políticos de sua época marcaram o ponto de


partida das reflexões filosóficas arendtianas. Na sua obra A Vida do
Espírito5 Arendt procurou dar ênfase a essa questão do compreender
como algo vital, de tal modo que, “compreender, tal é, com efeito, a
máxima de Arendt” (COURTINE-DENAMY, 1994, p. 144 e 145).

5
ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Tradução de Antônio
Abranches et al. RJ: Relume-Dumará, 1991.

6
Nas reflexões sobre o pensar Arendt destacou que nossa marca
revela uma característica de se lamentar: “vazio de pensamento”6.
Embora pareça paradoxal, pois para pensar e compreender é necessário
afastar-se do mundo, dos acontecimentos e dos fatos, Arendt nos mostra
que esse afastamento deve ser parcial e provisório. O ser humano vive¸
está, faz parte do mundo. Dessa relação entre ser humano e mundo é que
deve nascer o thaumatzein (o espanto), no meio dos acontecimentos da
vida e do mundo. Portanto, é impossível separar por completo o
pensamento do mundo, até porque as questões e problemas refletidos
filosoficamente emergem do próprio mundo.
A noção de filosofia presente no pensamento de Arendt possibilita
que façamos da filosofia este diálogo com os acontecimentos e fatos que
ocorrem no mundo. Ora, o evento da corrupção, foi um acontecimento
que mereceu(e) nossa atenção. Os elementos de reflexão e discussão
extraídos dele foram sérios, a ponto de perguntarmos sobre a constituição
do próprio ser humano, dos valores e fins que norteiam a sua ação, o que
é política para fazermos dela algo tão danoso ao invés de ser um espaço
de realização do ser humano? Por que a política tende a ser desenvolvida
unicamente como atividade de alguns profissionais eleitos? O que é ética?
O que é filosofia? Em que ambas contribuem para o melhor
desenvolvimento e realização do ser humano e compreensão do mundo?
Estas, entre outras questões, estiveram presente em nossas oficinas.

Alcances da filosofia no diálogo com as Comunidades

A perspectiva de um trabalho que vise possibilitar a discussão e


problematização frente os acontecimentos de nosso tempo pode resultar
em boa aceitação pelos envolvidos na atividade, como pode resultar em
zombaria. Considerando a dificuldade das pessoas em fazer leituras mais

6
Só este ponto mereceria uma longa discussão. Contentamo-nos, por ora, em destacar
que “o pensar significa, antes de mais nada, abandonar momentaneamente o terreno do
senso comum [...]. [...] Ao perguntar: ‘o que o pensamento faz?’, Hannah Arendt
responde: ‘ele descobre ou cria significado’ ” (Cf. SOUKY, 1998, p. 116).

7
amplas e críticas sobre os fatos, a segunda situação, em muitos casos, é
perfeitamente tolerável, embora não aceitável. Não foi a experiência que
tivemos nas atividades que realizamos. E nisso está o primeiro elemento
dos alcances que o projeto proporcionou. Muitos participantes, em
entrevistas posteriores, revelaram o grande aprendizado e rompimento do
“sono dogmático” acerca dos temas filosofia, ética e política. Dois
depoimentos merecem destaque. O primeiro diz-nos:

Eu acho que isso ai é muito importante pra questão do povo,


da comunidade começar a refletir e parar de se omitir. Para
tudo nós buscamos arrumar um culpado. Mas não é só culpa
deles (políticos) lá, e se eles estão lá é porque a gente está
deixando eles estarem lá no governo, fazendo só o que
querem, na verdade não fazendo quase nada. Está na hora
de começar a se mobilizar porque a democracia em si é essa
vantagem e as pessoas não entenderam ainda o que é a
democracia. Então é muito importante esse projeto de vocês
para as pessoas começarem a pensar, raciocinar e ver que
elas têm uma grande parcela em tudo que está
acontecendo.7

O segundo diz-nos:

Ah, eu entendi que é super importante a Filosofia dentro de


uma escola. Eu acho fundamental, porque nós estamos
assim, completamente desiludidos. Eu vejo que o jovem
hoje não tem muita perspectiva de vida nessa sociedade que
está estruturada dessa forma que vivemos. Então, eu acho
que foi muito válida essa oportunidade, pena que foi pouco
tempo. Acho super importante mesmo que os estudantes
saibam realmente que isso nos faz pensar... Eu sempre falo
pra os jovens de hoje que aquele que se destaca, aquele que
lê, aquele que forma uma opinião ele sai da escola e
encontra lá fora alguma coisa boa pra fazer, com certeza.8

Os depoimentos revelam a importância do projeto e os alcances que


ele possibilitou aos participantes. A carência de tratamento de temas sob

7
Entrevista realizada com o estudante Jader no Núcleo Educação Estadual de Jovens e
Adultos – NEEJA. A entrevista foi realizada pelo monitores das oficinas após a sua
realização. As gravações encontram-se arquivadas no IFIBE.
8
Entrevista com a professora Lucia Desarte. A entrevista foi realizada pelo monitores das
oficinas após a sua realização. As gravações encontram-se arquivadas no IFIBE.

8
o crivo da problematização foi bem aceito e possibilitou um crescimento
na criticidade frente os acontecimentos, sobretudo, no campo da política.
Um segundo elemento que merece destaque foi o envolvimento dos
discentes do IFIBE nas oficinas do projeto. Eles participaram desde o
início, inclusive na escolha do tema. Os acadêmicos assumiram as
atividades de preparação como momento formativo, embora se sentiram
inseguros nas primeiras oficinas, mas com o desenrolar das atividades
foram assumindo com maior tranqüilidade, mas sempre desafiados em
realizar oficinas à altura do proposto. No final, a avaliação foi da alegria
de ter participado do projeto, mas, sobretudo, do grande aprendizado que
eles mesmos tiveram no desenvolvimento de conceitos filosóficos com
diversos públicos. O crescimento pessoal foi muito importante para todos
os envolvidos diretamente na realização dos trabalhos.
Um terceiro elemento que merece destaque refere-se a interligação
entre atividade de ensino e atividade de extensão. Estabelecer essa
relação é algo complexo e, muitas vezes, perplexo, porque conceitos
filosóficos, dependendo do método de abordagem, podem resultar em
efeito contrário, ou, como muito se ouve, “os filósofos fala coisas muito
difíceis”. Os depoimentos dos alunos e professores revelaram que os
temas e situações abordados no projeto voltaram à tona em sala de aula.
Oxalá isso possa continuar e que os cursos de graduação pudessem fazer
essa ponte entre ensino e extensão.
Por fim, um outro elemento que deve ser mencionado está no
âmbito da tarefa filosófica. À filosofia cabe a tarefa de ser crítica,
reflexiva, indagadora, a partir da relação entre o ser humano e mundo. Os
fatos e acontecimentos quando questionados e problematizados
transformar-se-ão em temas filosóficos. Essa noção de filosofia não
desmerece, pelo contrário, reforça a necessidade de estar em contato com
os textos escritos pelos filósofos ao longo da tradição, até porque, eles
mesmos, quando escreveram, o fizeram a partir dessa relação com o
mundo. Tal posição repercutiu nos debates entre os próprios discentes
acerca da importância presente na tarefa filosófica e possibilitou que

9
estudantes e outras pessoas perdessem um pouco do preconceito em
relação à filosofia diante de seu tratamento como “coisa muito difícil”, que
os filósofos andam sempre no mundo da lua, pois falam coisas que só eles
entendem, enfim, despertou-se para a importância da filosofia em nossa
vida e que ela pode ajudar todas as pessoas e compreender melhor o
mundo e agir de forma mais crítica diante dos fatos e acontecimentos que
se apresentam em nosso contexto.

Bibliografia

ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo,


posfácio de Celso Lafer - 10ª ed. - Rio de Janeiro: Forense Universitária,
2004.
_____. A Vida do Espírito. O pensar, o querer, o julgar. Tradução de
Antônio Abranches et al. RJ: Relume-Dumará, 1991.
_____. A Dignidade da Política. Ensaios e Conferências. Tradução de
Helena Martins, et. al. - 3ª ed. - Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002.
_____. As Origens do Totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
COURTINE-DENAMI, Silvie. Hannah Arendt. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Filosofia pagã e
antiga, v. 1. Tradução de Ivo Storniolo. 2. ed. São Paulo: 2004.
SOUKY, Nádia. Hannah Arendt e a banalidade do mal. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 1998.

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