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SOBRE A EXPERIÊNCIA DE USAR A WEB EM CURSOS DE

FILOSOFIA

Renato Janine Ribeiro*


rjanine@usp.br

Quero compartilhar com os colegas a experiência que tive, no


ano de 2003, ao pedir que os alunos me enviassem seus trabalhos
por e-mail e não em papel. Na verdade, foram duas experiências,
uma muito bem sucedida, na pós-graduação, outra bem mais
complicada, na graduação. Descrevo, comento e sugiro.
No primeiro semestre de 2003, ministrei a disciplina de pós-
graduação em Filosofia que intitulei A cultura pela cultura, no
departamento de Filosofia da USP, onde trabalho. O curso, que tinha
muitos inscritos para uma pós (cerca de 40), deslanchou mesmo foi
quando decidi abrir um site na Internet e propus que os alunos o
abastecessem com artigos, estudos e – no caso de uma aluna artista
– fotografias e pinturas. Isso criou uma relação ótima no interior da
classe e fez que alunos até então calados se manifestassem. Também
abriu lugar para uma polêmica vivaz mas educada entre dois
estudantes psicanalistas.
Pedi que me mandassem os trabalhos por e-mail, e os corrigi,
ou melhor dizendo, para não ficar na posição de quem tem a razão e
vê os outros como imaturos, comentei-os. Usei para isso a
ferramenta Controlar Alterações, do Word. Para quem não sabe, ela
permite deixar bem salientes as modificações que o leitor introduza
no texto. Falando em termos de estética da recepção, ela explicita o
quanto a leitura é, também, uma escrita. É como passar o lápis
vermelho ou azul: ficam evidentes as correções e os comentários. E
tem a vantagem de não gastar papel e de permitir guardar todos os

*
Professor do Departamento de Filosofia da USP/CAPES.
trabalhos, se isso for interessante. Eles também podem circular entre
os alunos, ser publicados no site do curso, enfim, há várias
possibilidades.
Tudo funcionou muito bem. É claro que pedi aos alunos que
passassem anti-vírus. Para devolver os trabalhos, imprimi-os em
papel e marquei uma reunião presencial, em pleno mês de julho: de
uns 30 trabalhos comentados, compareceram 26 autores ao
encontro. Não podiam ser melhores os resultados. As aulas tinham-se
estendido além do necessário (a pós requer 12 aulas na USP, tivemos
15, mais esse encontro) e a lembrança do curso ficou boa.
Na graduação, os resultados foram mais tímidos. Num curso
como no outro, aliás, o site foi montado graciosamente por um aluno
– Edson Teles no primeiro, Pedro Milliet no segundo. Nos dois casos,
o site era o nome do curso, colocado no provedor gratuito hpg –
portanto, os sites foram www.aculturapelacultura.hpg.com.br e
www.etica1.hpg.com.br. Mas, na graduação, o site acabou sendo
unilateral: ficaram nele o programa do curso, os critérios de trabalho
final e três textos básicos que trabalhamos, todos eles de domínio
público – O Príncipe, de Maquiavel, em português, o Leviatã, de
Hobbes, em inglês, e o Contrato Social, de Rousseau, em francês.
Não houve mão dupla.
A entrega dos trabalhos na graduação, essa sim, foi muito
complicada. Recebi mais de 150, o que é bom sinal. Contudo, o
primeiro ponto que constato é que os pós-graduandos dominam e
usam muito melhor a Web do que os graduandos. Os primeiros a
abrem todo dia ou quase, enviam arquivos legíveis, respondem a e-
mails. Os segundos, com certa freqüência, não colocam o próprio
nome no texto e até mesmo usam programas para redigi-los que não
podem ser lidos pelo Word, o que dá um problema enorme para o
professor. Além disso, é grande o número dos que não abrem seus e-
mails. Isso fez que alguns deles me pedissem algum favor – como
aceitar o trabalho atrasado – e minha resposta fosse devolvida,
porque tinham estourado a cota do servidor ou simplesmente não
abrissem o e-mail antes de dez ou quinze dias.
O problema mais simples no recebimento dos trabalhos de
graduandos foi o seguinte: eu precisava, a cada trabalho, gravá-lo no
disco rígido. Mas raríssimos tinham o nome do autor como título do
arquivo! Portanto, precisei quase 150 vezes abrir o arquivo, procurar
o nome do autor (em alguns casos, não constava e eu precisei
remontar ao e-mail de remessa – mas este às vezes pertencia a outra
pessoa...), fechar o arquivo e gravá-lo tendo como título o nome do
aluno. Só isso me custou umas três horas.
Penso que é óbvia a diferença entre graduandos e pós-
graduandos. Estes são em menor número, mais maduros, mais
acostumados à responsabilidade. Aqueles são numerosos, menos
afeitos a uma via de mão dupla nas relações, menos freqüentadores
da Web do que seria de se pensar.
Disso, formulo algumas sugestões:
1. Se você quiser receber os trabalhos pela Internet, use isso de
preferência em classes pequenas e com boa dinâmica interna.
Procure fazer isso ligado a um site de curso que tenha aberto no
início do semestre e que seja de mão dupla, isto é, não apenas um
site de avisos, mas um em que os alunos colaborem com produção
própria. O importante é que assim você irá além do uso da Internet
como apenas algo técnico, para com isso fazer o melhor uso dela.
Não estará apenas poupando papel, mas melhorando as relações.
2. Para receber os trabalhos, abra uma conta em provedor
gratuito, como Hotmail ou equivalente. Essa conta você fechará ou
deixará desativar-se ao terminar o curso, de modo que o lixo que virá
por ela não o afetará mais. Na verdade, você usará a conta apenas
para um final de curso, e depois a esquecerá. Também poderá, a
cada trabalho que chegar, dar um comando de Resposta e assim
tranqüilizar o aluno, que saberá que está tudo certo com a entrega do
texto dele.
3. Exija que cada aluno mande o trabalho em attachment; que a
casa Assunto, no e-mail, tenha o nome completo do aluno; que o
título do arquivo também seja o nome completo de quem escreveu o
trabalho; que esse nome conste na página de rosto, bem no alto; que
o trabalho seja escrito num programa de sua escolha (uma boa opção
é o RTF, que não é de Bill Gates mas é legível em quase todas as
máquinas).
4. Se quiser, também determine um tamanho máximo do
trabalho. Esta experiência é uma das que mais me satisfez, de dez
anos para cá. Notei que os trabalhos muito longos geralmente são
ruins, porque mostram exatamente que o aluno não sabe selecionar o
essencial e o secundário. O mais simples, se você receber o trabalho
em suporte eletrônico, é definir seu limite máximo em número de
caracteres. O Word, na opção Ferramentas/Contar palavras, também
dá o número de caracteres, com espaço ou sem espaço (isto é,
incluindo ou não os brancos entre uma palavra e outra). Convém
deixar claro, para o aluno, se o limite que você está definindo é com
ou sem espaços.
5. Exija também que cada aluno passe um anti-vírus no seu
computador e deixe claro que é responsabilidade dele abrir o e-mail
com freqüência, para atender a questões suas (o trabalho pode ter
chegado ilegível, incompleto etc, e necessitar de complementação
urgente por parte do aluno).
6. Corrija os trabalhos usando Ferramentas/Controlar alterações.
Devolva os trabalhos para cada aluno, usando o comando Responder.
7. Se combinar isso com a classe, coloque os trabalhos (todos ou
os melhores) no site do curso. O ideal seria não só fazer isso, mas
deixar espaço para eles serem comentados, pelo professor antes de
mais nada, mas também pelos outros alunos. Neste caso, o site
poderia ser aberto à leitura de qualquer interessado, mas a escrita
nele dependeria de ter uma senha de acesso, que só os alunos do
curso teriam, para evitar o lixo que geralmente ingressa em listas de
discussão abertas. Mas isso deve depender do gosto das pessoas.
Pode também ser facultado o acesso a estranhos.
Isto é muito importante, porque faz que um curso – que pode
ser uma pequena ágora, um espaço coletivo de discussão – não
termine em queda livre, ao converter todos os seus resultados em
mero relacionamento privado entre o professor e o aluno, focado na
questão da nota. Já tendemos demais a isso. Já é comum demais
que, quando abrimos a discussão sobre o curso, a questão central
sejam o trabalho e os critérios de correção dele. Então, se a dinâmica
do curso, se o seu ser-ágora não terminar no último dia de aula, mas
resultados dele continuarem disponíveis e se ele gerar listas de
discussão, isso será ótimo!
Fui um tanto detalhista, mas creio que tudo o que eu disse é
razoável. E em breve é provável que estejamos recebendo boa parte,
se não todos, dos trabalhos em e-mail. Neste momento, aliás,
tendem as Universidades a mandar que o próprio professor lance as
notas pela Internet. A questão decisiva é a seguinte: não vamos
deixar o uso desses instrumentos ser só um assunto técnico. Para
que valha a pena, é preciso que seja um modo de ampliar a ágora,
talvez escassa, de que hoje dispomos.