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DIMENSÕES DO FILOSOFAR/PENSAR EM HANNAH ARENDT1

Sandra Janice Nunes*


sandra.nunes@unijui.tche.br
Cláudio Boeira Garcia*
garcia@unijui.tche.br

Esse texto destaca algumas reflexões de Hannah Arendt a respeito da


atividade do pensamento; do filósofo como espectador e da dimensão
pária do filosofar. As referências principais para os percursos do presente
texto são A vida do espírito; Pensamento e considerações morais de
Hannah Arendt e Filosofia e Política no Pensamento de Hannah Arendt, de
Odílio Alves Aguiar (2001).
Aguiar (2001) enfatiza que o espectador é uma imagem presente nos
textos de Arendt na qual ora ele é “... relacionado ao gosto, como
condição para o aparecimento da esfera pública, cuja realidade pressupõe
uma abertura para algo diferente de si mesmo, ao outro.”(AGUIAR, 2001,
p. 194). Ora ele aparece antes como interrogador ou como alguém que
procura reconhecer e compreender os acontecimentos políticos do que
alguém preocupado em se envolver com os interesses e ações especificas
e concretas da “coisa da política”.

O participante absorvido em coisas específicas e pressionado


por afazeres urgentes não pode ver como todas as coisas
particulares do mundo e como todos os feitos particulares
ajustam-se uns aos outros e produzem uma harmonia que
não é, ela mesma, dada à percepção sensorial. Esse invisível
no visível permaneceria para sempre oculto se não houvesse

1
O texto apresenta resultados parciais do sub-projeto de pesquisa Arendt:
educação e política que conta com o apoio do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq. Período 08/2006 – 7/2007.
*
Acadêmica do Curso de Filosofia da Unijuí. Bolsista do PIBIC/CNPq, integrante
do Projeto de Pesquisa Educação e Política alocado no Programa de Pós-
Graduação em Educação nas Ciências, Mestrado, da UNIJUÍ.
*
Co-autor e Professor Orientador. UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO
NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. / End: AV: São Luis, 2270,
Bairro Getúlio Vargas, Ijuí – RS, Cep 98700-000 / Telefones: (55) 8405-0424 ou
(55) 3332-5775.
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um espectador para cuidar dele, admirá-lo, endireitar as


histórias e pô-las em palavras. (ARENDT, 2002a, p. 102).

O espectador é visto por Arendt como aquele que se abstém da ação


como condição para a compreensão do espetáculo, pois “[...] somente o
espectador, e nunca o ator, pode conhecer e compreender o que quer que
se ofereça como espetáculo.”(ARENDT, 2002a, p. 72). O ator enquanto
participação ativa do espetáculo só consegue ver e compreender a parte,
o singular, enquanto o espectador por sua quietude e imparcialidade
devido à retirada do jogo, consegue perceber a totalidade do espetáculo
que acontece. Nesse sentido pode-se dizer que o espectador está
preocupado com o mundo das aparências e não com o agir, no entanto
isso não significa que o agir seja menos importante, para Arendt, do que o
pensamento, mas a retirada é justamente para melhor compreender e
valorizar aquilo que aparece.

O termo filosófico “teoria” deriva da palavra grega que


designa espectadores, theatai; a palavra “teórico”, até há
alguns séculos, significava “contemplando”, observando do
exterior, de uma posição que implica a visão de algo oculto
para aqueles que tomam parte no espetáculo e o realizam.
[...] como espectador, pode-se compreender a “verdade”
sobre o espetáculo; mas o preço a ser pago é a retirada da
participação no espetáculo. (ARENDT, 2002a, p. 72-73).

Segundo Arendt, “Historicamente, esse tipo de retirada do agir é a mais


antiga condição postulada para a vida do espírito.”(ARENDT, 2002a, p.
72). No entanto essa retirada não significa, absolutamente, que o filósofo
espectador ocupe um lugar fora do mundo como pensaram, segundo ela,
Platão e Parmênides, mas sim como teria pensado Aristóteles ao elaborar
a idéia de Schole que Arendt entende que deve ser compreendida como:

Schole não é o tempo para o lazer, tal como entendemos


hoje, o tempo de inatividade que sobra depois do trabalho
diário, “usado para cumprir as exigências da existência”;
mas o ato deliberado de se abster, de se conter (schein) e
de não participar das atividades comuns determinadas pelas
nossas necessidades cotidianas (he ton anagkaion schole)
com a finalidade de ativar o lazer (schole agein), que era por
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sua vez, o verdadeiro objetivo de todas as outras atividades,


assim como a paz era o verdadeiro objetivo da guerra, para
Aristóteles. (ARENDT, 2002a, p. 72).

Devido a constante busca do espectador pela significação a filosofia deixa


de ser, para Arendt, uma mera contemplação para tornar-se uma
atividade, assim nesse contorno, dado por ela, a filosofia passa a ser o
filosofar e restabelece sua relação com a política que como tal é fim em
mesma.
A partir daí, Arendt vislumbra a possibilidade de uma tematização
filosófica das experiências políticas, sem a pretensão de subordinar e
controlar a ação dos homens, mas apenas compreender, uma atividade
que tem um fim em si mesma. (AGUIAR, 2001, p. 195).
A combinação entre o desinteresse, próprio da filosofia, e a prioridade
pela busca da significação torna o filósofo, e não mais o político, o
guardião do mundo e das aparências, pois o reconhecimento singular que
ele fará das coisas estará livre de qualquer inclinação que possa lhe
direcionar a elas assim como acontece na política e na contemplação.
(AGUIAR, 2001).
Para Arendt teria sido Kant o único filósofo a formular uma idéia de
filosofia política, pois teria compreendido que somente “O espectador, e
não o ator, tem a chave do significado dos negócios humanos [...]”.
(ARENDT, 2002a, p. 74). Por outro lado à autora discorda da idéia de
Platão de que os espectadores seriam auto-suficientes. Na visão dela o
espectador por mais imparcial, livre de interesses e inclinações do lucro ou
da fama jamais pode se colocar numa postura de completa independência
do ponto de vista dos outros, mas ao contrário deve sempre levá-la em
conta.

Os espectadores, embora livres da particularidade


característica do ator, não estão solitários. Tampouco são
auto-suficientes, como o “deus mais elevado” que o filósofo
tenta imitar pelo pensamento e que, segundo Platão, “é
eternamente ... solitário em razão de sua excelência,
sempre capaz de estar junto a si mesmo, não precisando de
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mais ninguém, amigo ou conhecido, e bastando a si mesmo.


(ARENDT, 2002a, p. 73).

Caso exemplar para Arendt, teria sido Sócrates, pois seu pensar estava
livre de qualquer tentativa de dar a ele uma utilidade. Seu pensamento
teria sido guiado pelo simples desejo de compreender e manifestar o
sentido das coisas, sem estar aprisionado a um fundamento anterior ou
obrigação na obtenção de resultados. Além de que segundo Aguiar,

Sócrates, como o espectador arendtiano, não se ausentou da


cidade para o mundo da contemplação nem se engajou na
política. O mestre da maiêutica passou a vida refletindo
sobre as coisas da cidade, mas não se preocupou em dar um
padrão de comportamento para os cidadãos nem em
participar das suas atividades práticas. Sua ocupação era de
observador, a qual exige a retirada. (AGUIAR, 2001, p. 197).

O pensamento do filósofo deve estar livre de qualquer comprometimento


ou parcialidade em relação a fundamentos, grupos ou causas para que
possa perceber o sentido e ouvir a voz dos acontecimentos no momento
em que eles aparecem. O filósofo não deve obedecer a padrões, pois
assim ele se fecha para os acontecimentos e à dimensão humana fazendo
do pensar apenas uma contemplação passiva. Ou seja, a atividade
filosófica, ou o pensar, refletido por Arendt está vinculado à apreciação
descomprometida e particular em relação ao fenômeno que acontece.
Arendt aponta que

O que nos faz pensar? – não procura nem causas nem


objetivos. Sem questionar a necessidade humana de pensar,
ela parte da suposição de que a atividade de pensar está
incluída entre as energeiai, aqueles atos que (como o de
tocar flauta) têm o seu fim em si mesmos e não deixam
nenhum produto, externo e tangível, no mundo que
habitamos. (ARENDT, 2002a, p. 99).

Por muito tempo a tradição filosófica teria defendido a idéia de que a


ocupação da filosofia deveria ser com as coisas que valem a pena ser
pensadas que seriam aquelas evidentes por si mesmas. Segundo Arendt,
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“[...] para Platão era evidente – que o conhecimento puro diz respeito às
coisas que “são sempre as mesmas, sem mudança nem mistura, ou, pelo
menos, as que mais se aproximam delas” [...]”. (ARENDT, 2002a, p. 106).
Isso quer dizer que até o final da era moderna os assuntos humanos
estavam excluídos do pensamento filosófico já que por dizerem respeito
às ações humanas estavam sujeitos a modificações e transformações, não
servindo para a ocupação filosófica.
Arendt destaca, também, como forma de descrever a posição do
espectador, a palavra imparcialidade que para ela é uma tentativa de dar
voz aos acontecimentos sem impor, necessariamente, um valor. Seria
como a prática de Tucídides, Homero e Heródoto que contavam as glórias
e os feitos da história a partir das diferentes versões narradas e vividas
por diferentes pessoas. “Uma coisa é querer impor um valor ou interesse
a um acontecimento, outra muito deferente é, apesar dos próprios
valores, tentar dar voz às vozes presentes nos acontecimentos.”(AGUIAR,
2001, p. 196). Além do mais, Arendt vai dizer que

O homem que faz a revelação não está envolvido com as


aparências; ele é cego, protegido contra o visível, para
poder “ver” o invisível. E o que ele vê com os olhos cegos e
põe em palavras é a história, não é nem o próprio ato, nem
o agente, embora a fama do agente venha a atingir grandes
alturas. (ARENDT, 2002a, p. 102).

O alheamento do filósofo pode ser interpretado pelo senso comum como


uma busca pela morte, pois segundo Arendt, para o senso comum aquele
que se retira do mundo das aparências o faz somente quando morre.
Porém não há um grande número de suicidas entre os filósofos o que
aponta para o fato de que os filósofos também são dotados de senso
comum, assim como qualquer outra pessoa, tendo então a consciência de
seu desaparecer da realidade no momento do pensar. Arendt observa que

É muito mais o próprio senso comum do filósofo – o fato de


ser ele “um homem como você e eu” – que o torna
consciente de estar “fora de ordem” quando se empenha em
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pensar. Ele não está imune à opinião comum, pois, afinal,


compartilha da “qualidade do ser comum” [commonness] a
todos os homens; e é seu próprio senso de realidade
[realness] que o faz suspeitar da atividade de pensar.
(ARENDT, 2002a, p. 63).

Outro ponto que Arendt esclarece é o fato de que a multidão ou o senso


comum não odeiam ou procuram hostilizar o filósofo assim como Platão
teria declarado e encontrado seguidores dessa perspectiva por
praticamente toda a história, para Arendt apesar do caso de Sócrates não
há o que comprove que a multidão tenha declarado guerra ao poucos. No
entanto Arendt afirma que

No que diz respeito aos muitos e aos poucos, tem ocorrido


justo o contrário. Foi o filósofo que espontaneamente
abandonou a Cidade dos homens e dirigiu-se àqueles que
deixou para trás, dizendo que, no melhor dos casos, eles
haviam sido enganados pela confiança que depositaram em
seus sentidos, pela sua disposição em acreditar nos poetas e
a se deixar instruir pela gentalha, em lugar de usar os seus
espíritos. (ARENDT, 2002a, p. 64).

Para Arendt é óbvia a diferença entre a atividade do filósofo e da


multidão, mas isso não quer dizer que os filósofos sejam excomungados e
caçados por ela como Platão teria afirmado.
O riso dispensado ao filósofo pela multidão não seria um riso de
hostilidade, segundo Arendt, mas uma reação natural, pois considera
inúteis os problemas e questões que ele se propõe a resolver. Para ilustrar
sua idéia menciona como exemplo a

[...] história da camponesa trácia explodindo às gargalhadas


quando vê Tales cair no poço enquanto observava os
movimentos dos corpos celestes, “declarando que ele estava
ansioso para conhecer as coisas dos céus, enquanto lhe
escapavam ...as que se encontravam aos seus pés.”
(ARENDT, 2002a, p. 64).

Diante dessa história Platão teria dito que “Qualquer pessoa que dedique
sua vida à filosofia está vulnerável a esse tipo de escárnio ... Toda ralé se
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juntará à camponesa rindo dele, ... pois em seu desamparo, ele parece
um tolo.” (ARENDT, 2002a, p. 65). Mas para Arendt, já que o filósofo é
dotado também de senso comum este evitará que outros possam rir dele
antecipando a informação de sua palermice.
Os gregos, para Arendt, viram uma superioridade da atividade
contemplativa sobre o praticar, pois essa teria sido uma forma deles
aproximarem-se dos deuses imortais, tornando-se deuses mortais. Os
deuses, porém, não padeciam de algumas necessidades, característica dos
mortais, e dentre as suas ocupações divinas estava o lugar de espectador
que eles ocupavam, entretendo-se com o espetáculo dos atores mortais.

A paixão de ver, [...] precede, na língua grega, até mesmo


gramaticalmente, a sede do conhecimento. Que ela tenha
caracterizado a atitude grega básica diante do mundo parece
algo óbvio [...] O que induziu os homens à mera
contemplação foi o kalon, a simples beleza das aparências,
de tal forma que “a mais alta idéia do bem” encontrava-se
no que mais brilhava [...]. Assim Aristóteles atribuiu aos
gregos a faculdade do logos, da fala racional, como traço
distintivo frente aos bárbaros. Mas atribuiu o desejo de ver a
todos os homens. (ARENDT, 2002a, p. 100).

Portanto a contemplação era partilhada, pelos mortais, com os seus


deuses na medida em que diminuíam suas necessidades e ocupações com
o corpo elevando assim a supremacia do espírito. Os gregos acharam na
filosofia uma forma de obter a imortalidade que, segundo Arendt, se dá de
duas formas, através do nous e do logos, ou seja,

O homem como homem, distinto de outras espécies animais,


é um composto de nous e logos: “sua essência é ordenada
de acordo com o nous e o logos” [...] Dos dois, apenas o
nous habilita o homem a tomar parte no eterno e no divino,
enquanto o logos, que se destina a “dizer o que é” [...] é a
habilidade singular e especificamente humana que se aplica
também ao mero “pensamento mortal”, opiniões ou
dogmata, a habilidade que ocorre no âmbito dos assuntos
humanos e do que meramente “parece”, mas não é.
(ARENDT, 2002a, p. 105).
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De um modo geral o corpo sempre foi visto como um aprisionamento da


alma, uma espécie de carma, e as atividades do fazer eram designadas
aos escravos, enquanto as almas mais elevadas ocupam-se da
contemplação. O corpo sujeito aos desejos de bens materiais e aos
apetites sexuais, irascível e impulsivo ocupava um lugar inferior
atrapalhando a alma na sua concentração e impedindo a elevação do
espírito. O nous que “[...] abrange todas as atividades espirituais, além de
designar especificamente a inteligência de uma pessoa.” (ARENDT, 2002a,
p. 104), e não o logos permite ao espírito alcançar a imortalidade. Para os
gregos

O espírito pode diretamente tomar parte nessa eternidade,


mas “se um homem abandona-se aos apetites e às
ambições, e só com eles ocupa-se..., ele não deixará de
tornar-se totalmente mortal, pois só alimenta sua parte
mortal. Mas se ele “empenhou-se ardentemente” na
contemplação dos objetos eternos, “não poderá deixar de
possuir a imortalidade no mais alto grau que a natureza
humana admite”. (ARENDT, 2002a, p. 105).

Aguiar observa que Arendt examina a condição do filósofo a partir da sua


própria condição pária do filosofar. Para ele o pensamento de Arendt “[...]
não é fruto de uma ocupação com as idéias, mas da sua experiência como
pária.” (AGUIAR, 2001, p. 212). Para melhor compreender a condição
pária do filosofar podemos ler no texto, já mencionado, do professor
Aguiar os seguintes esclarecimentos.

O modo pária indica uma capacidade de ser e pensar como


se estivesse numa posição na qual não se está em casa. [...]
o pária contrapõe-se ao assimilacionista, “que deseja deixar
a casa para trás”, e ao turista, que “viaja sem sair de casa”.
Na postura pária, há a idéia de visita, uma “temporária
mudança de lugar, um encontro com o não familiar”, o outro
não é reduzido ao eu. Ao contrário do assimilacionista que se
sente em casa onde não é sua casa e do turista que viaja
sem sair de casa, o pária distancia-se do familiar para poder
alcançar o diferente. (AGUIAR, 2001, p. 216).

Assim podemos compreender que Arendt a partir de sua condição pária


elaborou seu pensamento filosófico nas mesmas condições que julgava ser
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necessárias para o pensamento filosófico crítico. De alguma forma Arendt


também se afastou do mundo das aparências para avaliar os
acontecimentos sem impor valores, mas deixando que suas vozes
pudessem fluir. A condição pária de Arendt se deu no momento em que
passou da qualidade de cidadã alemã para a qualidade de refugiada judia,
exilada e expatriada Arendt perdeu sua possibilidade de “[...] compartilhar
o mundo com os outros, sem uma tradição a que pudesse recorrer [...]”.
(AGUIAR, 2001, p. 212). Ela foi excluída pelo mundo e embora não
possuísse um lugar continuou em contato com esse mundo.
A condição pária em que Arendt se coloca é a mesma condição, que
tratávamos anteriormente, do alheamento do filósofo, condição esta que
não permite o comprometimento com teorias, ideologias, grupos ou
causas. A forma pária de pensar não rompe a conexão com a tradição,
porém mantém uma relação crítica entre ela e o mundo, pois é no mundo
que se dão as ações humanas. “Ao contrário do modo tradicional de
pensar, o modo pária não enseja resolver nem normalizar a ação dos
homens no mundo, permanece pária, quer instigar a reflexão, mas não
enseja substituir a atividade de pensar por parte de cada um.” (AGUIAR,
2001, p. 215).
Falamos sobre a forma pária de pensar e, portanto parece imperativo
abordar o pensar em Arendt que significa aproximar aquilo que está
ausente e afastar aquilo que se faz presente, ou seja, quando se pensa os
sentidos, o próprio corpo, se torna ausente para que aquilo que foi
afastado dos sentidos possa vir a se tornar presente. No momento em que
se pensa perde-se a noção da corporalidade cercando-se de imagens
invisíveis e afastando os objetos visíveis. (ARENDT, 2002a). Arendt afirma
que

Se o pensamento estabelece suas próprias condições, se ele


cega a si mesmo para o sensorialmente dado, quando
remove tudo que está à mão, isso acontece para que o
distante se torne manifesto. [...] no alheamento proverbial
do filósofo, todo o presente está ausente, porque algo
realmente ausente está presente em seu espírito, e entre as
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coisas ausentes está o seu próprio corpo. (ARENDT, 2002a,


p. 66).

Arendt afirma que as noções de tempo, espaço e distância assim como a


sensorialidade desaparecem no momento em que se está pensando. Diz
ela “O pensamento anula distâncias temporais e espaciais. Posso antecipar
o futuro, pensá-lo como se já fosse presente, e lembrar do passado como
se ele não tivesse desaparecido.” (ARENDT, 2002a, p. 67).
Em suma o pensamento para Arendt é sair em visita, é a posição pária, é
não ter um ancoradouro que aprisione o pensamento fazendo-o parar,
mas deixa-o livre para ser crítico e poder pensar o já pensado. O
pensamento é como o vento que passa, remove e renova aquilo que
estava estabilizado movendo para longe o que construiu para novamente
reconstruir, é como a teia de Penélope que desmancha pela manhã o que
foi tramado à noite para outra vez retomar. Arendt ainda cita Sócrates
acrescentando que ele

[...] consciente de que o pensamento lida com invisíveis e é


ele mesmo invisível, carecendo da manifestação exterior de
todas as outras atividades, parece ter, por isso mesmo,
utilizado a metáfora do vento: "os ventos são eles mesmos
invisíveis, e ainda assim o que fazem mostra-se a nós,
fazendo com que de certa maneira sintamos quando se
aproximam." (ARENDT, 2002b, p. 157).

Além disso, como foi dito anteriormente, o pensamento tem efeito


destrutivo sobre os valores estabelecidos e para Arendt “Está em sua
natureza desfazer, degelar, por assim dizer, aquilo que a linguagem, o
medium do pensamento, congelou como pensamentos-palavra (conceitos,
frases, definições, doutrinas), [...]”. (ARENDT, 2002b, p. 157).
Para Aguiar a única forma que Arendt concebe como possibilidade do
pensamento no mundo contemporâneo “[...] é assumindo uma posição
crítica em relação ao mundo, [...] distanciando-se dos donos do poder, da
composição tirânico-dominadora da política e das suas instâncias
legitimadoras: fundamentos, modelos, tradições, [...]”. (AGUIAR, 2001, p.
218).
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O pensamento não tem uma função na sociedade, não cria valores e não
seria o responsável por descobrir as grandes verdades, além de ser ele
mesmo o elemento de dissenso na afirmação de normas de
comportamento e é por isso que Arendt vai dizer que o pensamento é
marginalizado socialmente. Porém ele seria tido como necessário somente
nos momentos de crise em que “[...] “as coisas se despedaçam; o centro
não se sustenta;/ A mera anarquia está à solta no mundo”, momentos em
que “Aos melhores falta de todo a convicção, ao passo que os piores/
Enchem-se de uma intensidade passional”. (ARENDT, 2002b, p. 167).
Seria exatamente nesse momento que o pensamento deixaria de ser
marginal nas questões políticas, ou seja,

Quando todos se deixam levar impensadamente pelo que os


outros fazem e por aquilo em que crêem, aqueles que
pensam são forçados a aparecer, pois sua recusa a aderir
fica patente, tornando-se uma espécie de ação. O
componente depurador no pensamento, a maiêutica
socrática, que traz à tona as implicações das opiniões não
examinadas e, portanto, as destrói - valores, doutrinas,
teorias e até mesmo convicções -, é política por implicação.
(ARENDT, 2002b, p. 167).

Essa destruição acaba sendo libertadora das faculdades humanas,


principalmente a faculdade de julgar que é a “[...] mais política das
habilidades espirituais do homem.” (ARENDT, 2002b, p. 167).
O pensamento pode, legitimamente, ser considerado um empreendimento
perigoso sem resultados ou de resultados imprevisíveis. O efeito corrosivo
do pensamento tem a capacidade de destruir normas e regras
estabelecidas, porém pode voltar-se contra si mesmo legitimando antigos
valores como se fossem novos. Eis a capacidade humana de interromper
processos automáticos e criar novos com o seu milagroso dom da ação.
Em relação a esse perigo do pensamento como uma ameaça a si mesmo
Arendt cita o exemplo de Sócrates dizendo que

No círculo de Sócrates havia homens como Alcebíades e


Crítias - e Deus sabe que não eram de modo algum os piores
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entre os assim chamados pupilos -, homens que acabaram


por tornar-se uma ameaça muito real à polis, e isso não por
estarem paralisados pela arraia-elétrica, mas, ao contrário,
por terem sido despertados pelo moscardo. Foi para a
licenciosidade e para o cinismo que foram despertados. Não
se satisfizeram em aprender como pensar sem que lhes
ensinassem uma doutrina, e transformaram os não-
resultados da investigação socrática em resultados
negativos: se não podemos definir o que é a piedade,
sejamos ímpios - o que é quase o oposto do que Sócrates
pretendera alcançar ao falar sobre a piedade. (ARENDT,
2002b, p. 158).

O que Arendt pretende dizer é que não há pensamentos perigosos e sim


que o próprio pensar é perigoso, pois embora Sócrates não tenha negado
que o pensamento possa perverter também não sustentou que ele
aperfeiçoe mesmo tendo “[...] declarado que “não houve jamais bem
maior” para a polis do que aquele que ele mesmo fazia [...]”. (ARENDT,
2002b, p. 160).
Para o filosofar Arendt considera indispensável a condição pária do pensar,
a retirada do mundo para pensar as ações humanas e inclusive a política,
nisso assemelha-se à forma como a tradição filosófica pensava o filosofar,
porém discorda do retorno do filósofo querendo ditar regras ao
comportamento humano e querendo dar uma função à política. A condição
pária do filosofar indica que se deve respeitar o outro, não oferecer
modelos, abandonar as ideologias, conquistar a maioridade e estar livre
de qualquer dogma religioso e filosófico.
O pensar filosófico do espectador é perigoso e divergente, pois ora pode
corromper ora pode fazer o bem, mas o caminho que Arendt nos aponta é
o mesmo apontado por Sócrates e quer dizer que

Se “não vale a pena viver uma vida sem reflexão”, então o


pensar acompanha o viver, quando se envolve com
conceitos como justiça, felicidade, moderação, prazer, com
palavras que designam coisas invisíveis que a língua nos
ofereceu para explicar o significado de tudo o que acontece
em nossa vida e quando estamos vivos. (ARENDT, 2002b, p.
160).
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O caminho a ser percorrido, o da significação, que Sócrates chamara de


eros, é a conquista do que não se têm, é a busca pela liberdade quando
se está acorrentado, é a procura da autonomia quando se é menor, amar
a beleza e fazer o belo quando não se é, descobrir um meio de aproximar-
se do divino quando se é mortal, “[...] amar a sabedoria e fazer filosofia
(philosophein) por não ser sábio [...]”. (ARENDT, 2002b, p. 160). Essa
busca é um misto de amor e desejo que só oferece espaço para as
“coisas-pensamento” merecedoras de amor - bondade, sabedoria, justiça.
“A feiúra e o mal excluem-se por definição do interesse do pensamento,
embora possam de vez em quando surgir como deficiências, como falta de
beleza, de justiça, e como o mal (kakia), na qualidade de falta do bem.”
(ARENDT, 2002b, p. 160).

Bibliografia

ARENDT, Hannah. A vida do espírito. 5. ed. Rio de Janeiro: Relume


Dumará, 2002a.

ARENDT, Hannah. Pensamento e considerações morais. In.: ARENDT,


Hannah. A dignidade da política. 3.ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará,
2002b.

AGUIAR, Odílio Alves. Filosofia e política no pensamento de Hannah


Arendt. 1. ed. Fortaleza: UFC, 2001.

GARCIA, Claudio Boeira. Ensaios sobre a política e suas escritas -


Política e Escritas sobre a Política. Linha de pesquisa: linguagem sociedade
e poder. Trabalhos acadêmico-científicos. Série relatórios de pesquisa.
Ijuí: Unijuí, 1999.