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Tragédia Grega?

Já há muito que a situação em que a Grécia está envolvida me faz confusão. Como é que um país com aqueles pergaminhos, com aquela grandeza clássica, está naquele estado? Conhecer o legado dos clássicos gregos, mesmo que superficialmente como eu, é conhecer também o presente. É irónico que num momento em que a Grécia se desmorona, eu esteja a ouvir aulas de retórica da Univ. de Berkeley (no iTunes U), aulas essas que obviamente se socorrem de muitos conceitos, textos e exemplos gregos. A cultura grega é o início da nossa cultura, especialmente se usarmos a palavra na sua acepção mais moderna. A desvantagem de "ninguém" conhecer o grego é não apenas tornar os clássicos mais distantes, mas também não conseguir sentir o pulso daquele país, e perceber como é que os Gregos vêem a sua própria situação. Encontrei dois sites de jornais gregos, mainstream, que publicam em Inglês, o Athens News (http://www.athensnews.gr) e o ekathimerini (http://www.ekathimerini.com). Traduzi também um site em grego no Google Translate, o comunista e algo radical (http://www1.rizospastis.gr), que poderia ser uma versão grega do Avante não fosse o ligeiro pormenor de usar muito a palavra (lá estão os clássicos) plutocracia. Eis o que retirei, sem nenhuma ordem especial: ● Os direitos adquiridos são muito mencionados, especialmente os dos funcionários públicos. Tenta evitar-se a diabolização destes últimos, embora admitindo que muitos não tem grandes qualificações e que estão lá porque dantes saia-se da faculdade e ia-se para o Estado. ● Há um projecto de lei do governo que permitiria um referendo em qualquer circunstância, dando como exemplos de uso uma moção de confiança ao Governo ou uma pergunta sobre a saída do Euro. Quem escreve o artigo de opinião diz "não precisamos de perguntas, precisamos de respostas" ● Há uma sondagem de opinião num dos jornais mainstream em que a saída do Euro e regresso ao Dracma está a ganhar. ● Foi passada uma lei que obriga ao pagamento de uma taxa/imposto sobre a propriedade; o vice primeiro ministro, que ajudou a passá-la, diz na TV que não sabe se tem dinheiro para a pagar e que talvez tenha que vender uma das 8 casas. À pergunta do jornalista "e se não puder mesmo pagar?" ele responde "não sei, o Ministro das Finanças que me mande prender" ● Fala-se muito de outro haircut da dívida, depois dos 21% de Julho, e que pode chegar aos 50%.

● Há um tal de Makis Psomiadis, executivo do futebol com um historial de 40 anos em acusações e condenações que vão do tráfico de ouro à fraude fiscal passando pela chantagem; está neste momento em tribunal por alegadamente ter um esquema de apostas ilegais em jogos de futebol que ele próprio influenciava/comprava. Entretanto saiu sob fiança de 600000 euros que supostamente não teria porque fiscalmente não se lhe conhece riqueza. ● O governo introduz impostos e taxas em tudo o que pode, incluindo a já falada taxa sobre a propriedade e uma taxa sobre o gás natural, grande aposta energética há uns anos, o que fez com que muita gente tenha convertido os seus sistemas energéticos. ● O Primeiro Ministro, socialista do PASOK, quer reformas, mas os ministros demonizam o memorando e sabotam-nas por uma questão de imagem política, não querendo arriscar danos para a sua futura carreira. ● O partido da Nova Democracia, centro direita, que segundo me lembro muito ajudou na situação do endividamento do país, está à frente nas sondagens, dizendo que os gregos não aguentam mais impostos. ● No tal jornal comunista, o discurso é muito parecido com o do nosso Avante. Uma frase: "As medidas do governo vão provocar a aniquilação das massas populares, para salvar os nossos credores, o capital acumulado da plutocracia, a Zona Euro e a competitividade". Interessante, a competitividade ser apresentada como algo mau. Mais do que querer inferir paralelos, dolorosamente óbvios, com alguns aspectos da sociedade portuguesa, a minha principal conclusão é esta: reagem ao que "lhes está a acontecer" e não há um discurso claro do caminho que se quer que o país siga. Além disso há muito pouco de pensamento político e de filosofia. Nem que seja para honrar o legado dos clássicos, esperava-se mais.