You are on page 1of 4

ENTREVISTA

Luiz Aubert Neto
Presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos)
Luciana Fleury

é

um grito de alerta: o Brasil está sob o sério risco de viver um processo

Esta experiência acumulada o fez colocar a entidade em estado de atenção diante do avanço da China no mercado de bens de produção mecânico brasileiro. De forma inédita, a Abimaq entrou com cinco salvaguardas contra o país asiático no Departamento de Defesa Comercial da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), e já prepara outras 17. “Foi uma forma de dizer que não dá mais para suportar esta situação. Como o Brasil não tem nenhuma política de proteção industrial tivemos de fazer a nossa parte”. Para falar sobre este alerta, Aubert recebeu a Revista da SBCC. Acompanhe.

alertado as instâncias públicas sobre o perigo da desindustrialização brasileira. Que dados indicam que o Brasil corre este risco? Luiz Aubert Neto: Basta olhar para nossa pauta de exportações e de importações. O Brasil é o maior produtor de café do mundo, mas é a Alemanha quem mais vende café industrializado; somos um dos maiores produtores de algodão e vendemos a maior parte para a China, para depois comprarmos de volta, em forma de camisas. Nossa produtividade em celulose é três vezes maior do que do principal concorrente, porém exportamos 93% da produção e, assim, 50% do papel consumido no Brasil é importado. Isso acontece com a soja, com o minério de ferro e com tantas outras commodities. Estamos

de desindustrialização, minando as possibilidades de desenvolvimento e crescimento e voltando a ter uma rela-

ção de colônia com o resto do mundo. A mensagem tem sido repetida pelo presidente da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), Luiz Aubert Neto, que tem uma longa atuação na Abimaq (onde exerceu diversos cargos e foi vice-presidente nas duas últimas gestões) e está há mais de 25 anos no setor. Engenheiro mecânico de produção, graduado pela Faculdade de Engenharia Industrial – FEI e pós-graduado em Administração Financeira e Contábil pela CEAG/FGV, é diretor da Aubert Engrenagens, empresa criada em 1950 por seu avô.

6

Revista da SBCC: A ABIMAQ tem

entregando nossas riquezas para o

Foto: Divulgação / Abimaq – SP

mundo e fazendo com que o Brasil se torne novamente colônia, desta vez uma colônia chinesa. No caso da indústria de bens de capital mecânicos, o total de máquinas importadas vem há muito superando o de máquinas exportadas. Ano passado o déficit do setor foi de US$ 15 bilhões. Revista da SBCC: Mas a importação de máquinas não indica aquecimento do setor industrial? Luiz Aubert Neto: Sim, a indústria automobilística continua indo bem, a indústria de bebidas também, e assim por diante, mas com equipamentos importados. Isso mata uma indústria que agrega valor, que é a que desenvolve a engenharia, tecnologia e acaba com toda sua cadeia. Vende-se milhares

Vendem-se milhares de carros, mas os setores de fundição e ferramentaria estão morrendo no Brasil

e equipamentos que seja pobre. Não existe país desenvolvido sem um setor de máquinas forte. E com a globalização, não importa onde a empresa esteja produzindo, o que importa é o mercado. Existem poucos mercados com potencial de crescimento, e o Brasil é um deles. Porém, estamos sendo atacados pela Alemanha, pela Itália e, principalmente, pela China que pegam nosso mercado. Estrategicamente isso

de carros, mas os setores de fundição e de ferramentaria estão morrendo. Fala-se em geração de emprego, mas é preciso avaliar que tipo de emprego, está sendo gerado. O salário médio no nosso segmento é de R$ 2.800,00 sem encargos, com trabalhadores com, no mínimo, nove anos de estudo. Procure um país forte em máquinas

é péssimo. Virar um país exportador de commodities é péssimo, pois a conta não fecha. Vamos continuar comprando bens de maior valor, importando peças de carro. Isso não gera emprego nem desenvolvimento, nem nada de bom. Revista da SBCC: Isto traz, então, impactos para o setor de inovação.

ENTREVISTA
Luiz Aubert Neto: Claro. A palavra mágica de qualquer setor de máquinas e equipamentos é inovação tecnológica. É isso que dá perenidade nesta indústria. A Alemanha é a maior fabricante de máquinas e equipamentos do mundo porque investe bilhões em inovação tecnológica. Se não há demanda, se tudo vem de fora, pesquisa e desenvolvimento acabam e ficamos sempre dependentes de soluções e perdendo conhecimento, formação, valorização da mão de obra. Uma coisa puxa a outra. Ninguém duvida da qualidade de um carro alemão e de toda a tecnologia acoplada. Já um carro chinês deixa dúvidas. Mas é só questão de tempo. O Japão passou por isso há 30 anos, mas ganhou mercado, investiu e hoje Revista da SBCC: Quais as ações precisariam ser tomadas para se evitar este processo? Luiz Aubert Neto: Não é preciso inventar nada. Só manter o chamado tripé mágico do desenvolvimento: o primeiro apoio é ter um câmbio justo, o segundo é desonerar o investimento e o terceiro é ter linhas de financiamento a longo prazo com juros civilizados. Mas o que faz o Brasil? Nós temos o câmbio mais valorizado do mundo; a maior carga tributária do mundo, inclusive somos o único país que tributa quem investe; e ainda temos a maior taxa de juros do mundo. Com isso, não vamos sair do lugar. Estamos entregando nosso mercado de bandeja para nossos concorrentes. E esse não é um pedido para beneficiar os fabricantes de máquinas. Este é um pedido para o País como um todo, para todos os setores. Revista da SBCC: E as reivindicações específicas para o setor, como elas estão sendo trabalhadas? Luiz Aubert Neto: Estamos participando de vários debates e temos várias conquistas, como a isenção de IPI que já é realidade para 95% do setor. PIS e COFINS, que pagávamos 48,5%, já estão em 12%. Estamos acompanhando a questão da desoneração da Folha, com muita expectativa de que seja aprovada. Ela irá acabar com os 20% da conRevista da SBCC: A entidade apresentou ações de salvaguarda transitória contra a China. O que motivou isso e que desdobramento é esperado? Luiz Aubert Neto: Já entramos com salvaguardas para chave de fenda, válvulas tipo borboleta, correntes, caminhão-guindaste e bombas, produtos para os quais a situação está mais aguda e está claro o prejuízo para o mercado local. Mas temos mais 17 processos em andamento. É um grito de alerta, é para dizer que não dá mais para suportar esta situação. Sabemos que apresentar e dar sustentação a salvaguardas dá trabalho, foi preciso contratar gente para fazer e estamos trabalhando muito intensamente. Mas a Abimaq tem obrigação moral de fazer isso. Não dá para aceitar máquina chinesa chegando aqui a seis, sete dólares por quilo, entrando assim livremente. Também estamos atacando pelo lado técnico: as máquinas brasileiras precisam seguir normas de segurança, como, por exemplo, possuir sensores de segurança para proteger o operador. Agora quem exige isso do vendedor chinês? O comprador precisa escolher entre uma máquina brasileira que custa 100 e segue todas as recomendações a Toyota é a maior do mundo. O Brasil poderia ir por este caminho, mas não está indo. Para desenvolver indústria é preciso inovar e para inovar é preciso incentivar o investimento e não tributálo. Pois para quem tem o recurso financeiro, é melhor aplicar do que correr os riscos inerentes ao processo de inovação, que pode ou não dar certo, e que tem um tempo longo para ocorrer. tribuição patronal em troca de aumento de 1% na PIS e COFINS. Em termos de arrecadação é trocar seis por meia dúzia, como se diz. Mas é positivo, pois faz com que a empresa não “exporte” mais este custo. Como não há cobrança de PIS e COFINS na exportação, a venda para o exterior fica favorecida. E também estimula a contratação formal e traz equilíbrio para o mercado, pois se uma empresa paga de maneira formal e outra não, gera uma concorrência desleal. Também acredito que haverá um fim na guerra fiscal entre os estados.

CACR Engenharia e Instalações Ltda.
Av. dos Imarés, 949 • Indianópolis 04085-002 • São Paulo • SP Tel: (11) 5561-1454 Fax: (11) 5561-0675
Produtos:
• Projeto Executivo • Sistemas de Ar Condicionado Central • Sistema de Ventilação Industrial • Salas Limpas • Sistema de Coleta de Pó • Climatização Têxtil • Sistemas de Recuperação de Resíduos • Comissionamento, Validação • Contrato de Manutenção
www.cacr.com.br • cacr@cacr.com.br

8

e boas práticas de fabricação e uma chinesa que custa 10. Mesmo em uma eventual fiscalização e aplicação de multa ainda vai sair mais barato. O que eu espero é que tenhamos uma resposta favorável e que estes produtos sejam proibidos de entrar no Brasil. Revista da SBCC: As indústrias têm se mostrado cada vez mais preocupadas em ações voltadas para a preservação do meio ambiente. Como a ABIMAQ se posiciona diante disso? Luiz Aubert Neto: Somos defensores de que a sustentabilidade é um grande diferencial competitivo e fomentamos a área ambiental brasileira do setor industrial de máquinas e equipamentos. Em 2009 lançamos o Projeto Carbono Zero, com o intuito de promover um

O tripé mágico do desenvolvimento é formado por câmbio justo, desoneração do investimento e linhas de financiamento com juros competitivos

meio deste projeto, o compromisso de responsabilidade ambiental, reconhecendo que o meio ambiente deve ser alvo contínuo de intervenções e ações em prol da sua conservação. Revista da SBCC: Qual a expectativa do senhor com relação ao Governo da presidente Dilma Rousseff? Luiz Aubert Neto: Eu estou acendendo cinco velas por dia para ela ser iluminada e tomar as melhores decisões. Coragem, sabemos que ela tem. Basta ver o histórico dela, de quem lutou contra a ditadura e até lutou contra uma doença

novo modelo de gestão a ser adotado pelas empresas associadas e favorecer a diminuição de emissão de carbono. Como representante das empresas associadas, a ABIMAQ firmou, por

e se recuperou. Não falta coragem, é só colocar estas questões em prática. E ela tem capital político para isso, pois é o primeiro presidente do Brasil que tem maioria no Congresso e no Senado.