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CRE8PO, N. Freud, um otimiata: notaa aobre o 'MaI-Eatar da CiviIização'. Rev. DIz. PsIc.,
Curitiba, v.2, n.1, p.83-92, jan./jun.2009

FRE0D, 0M OTIMI8TA: NOTA8 8OBRE O "MAL-E8TAR DA CIVILI2AÇÃO"


CRE8PO, N.
Psicanalista da Escola Letra Freudiana
Professora do Departamento de Psicologia (UFES)




RESUMO – Embora o senso comum credite a Freud uma visão sombria tanto da
condição humana, quanto da cultura e suas perspectivas, é possível fazer uma
leitura muito diferente da obra freudiana. O presente artigo buscará evidenciar que
Freud sustentava uma aposta essencialmente otimista na liberdade humana,
embora não se furtasse a registrar, com o rigor que lhe era característico, o preço
que tal liberdade custa ao homo sapiens. Esta tese parecerá contradizer outro lugar-
comum - o de que a teoria freudiana de constituição do sujeito é fortemente
determinista; no que se segue, contudo, também se buscará demonstrar que
liberdade e determinação, longe de constituírem uma antítese, estão logicamente
vinculadas na teoria freudiana.
Palavras-chave: Mal-estar. Felicidade. Liberdade. Ética. Desejo.


Tornou-se lugar comum afirmar que Freud era um “pessimista”. Seu
artigo “O Mal-Estar na Civilização”, já desde o título, constituiria a expressão máxima
de uma concepção bastante sombria da condição humana, desenganada do
progresso, da harmonia e da felicidade. Pode-se, porém, fazer uma leitura muito
diversa do texto freudiano, desvelando um insuspeitado otimismo imanente a certas
apostas que o criador da psicanálise sustenta, recorrentemente, ao longo de sua
obra.
Um percurso possível para tal releitura começa pela revisão atenta das
principais proposições contidas no “Mal-Estar”. Uma das mais inquietantes se refere
ao problema da felicidade. Freud afirma que algo na constituição de nosso aparelho
psíquico inviabiliza experimentarmos qualquer tipo de satisfação de forma contínua;
habituamo-nos, entediamo-nos
1
. A nota de rodapé - “Goethe chega a advertir-nos:

1
“Toda persistência de uma situação almejada pelo princípio do prazer só proporciona uma sensação
de tênue bem-estar; nossa constituição psíquica não nos permite gozar intensamente senão de um
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Nada mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos” – ilustra com humor
este aspecto da condição humana. Nem a paixão, nem a sexualidade, foco das mais
intensas sensações de prazer que os humanos conseguem experimentar, escapam
a esta maldição
2
. Freud acusa diversos fatores – em sua maioria, inelimináveis -
pela subtração do gozo sexual à espécie falante: adoção da postura ereta, interdição
do incesto, etc..
Havia, talvez, barreiras ao gozo suscetíveis de eliminação: as
restrições que a cultura da época de Freud impunha à atividade sexual,
submetendo-a aos imperativos da monogamia, heterossexualidade, etc. Mas, na
atualidade, é preciso reconhecer: uma liberdade sexual muito mais ampla que a de
antanho não parece ter contribuído para um aumento da felicidade geral...
Paradoxalmente, a própria definição de felicidade apresentada no “Mal-
Estar...” - “satisfação, de preferência repentina, de necessidades represadas em alto
grau” - pressupõe uma perda fundante, um “represamento” prévio da necessidade.
Bem antes, num artigo de 1912, Freud já avançara uma proposição quase idêntica
a esta:
Não é difícil comprovar que a necessidade erótica perde considerável
valor psíquico quando sua satisfação se torna fácil e cômoda. Para que
a libido alcance um alto grau, é preciso opor-lhe um obstáculo. (Freud,
1912/1981:1715).

Ora, Lacan, ao longo de toda a sua obra, subscreve e aprofunda este
argumento freudiano. Teoriza o desejo como uma função tributária da falta como tal.
O desejo seria, antes de tudo, desejo de continuar desejando
3
. Desta perspectiva,
nada seria mais temível que uma saciação completa, ou uma obturação da falta; a

contraste – e só em muita escassa medida de algo estável. Assim, nossas faculdades de felicidade
estão já limitadas de saída pela nossa própria constituição.” Freud, 1930/1981: 3025.
2
“Às vezes, cremos advertir que a pressão da cultura não é o único fator responsável, e que haveria
algo inerente à própria essência da função sexual que nos priva de satisfação completa,
impulsionando-nos a seguir outros caminhos” (Freud, 1930/1981: 3042-3043)
3
“Para todo o sempre, o desejo humano restará irredutível a qualquer redução e adaptação.
Nenhuma experiência analítica poderá contradizer isto. O sujeito não satisfaz simplesmente um
desejo, ele goza de desejar, e esta é uma condição essencial de seu gozo” (Lacan, 1957-1958/1998:
313, grifo nosso).
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angústia mesma sinalizaria “a falta da falta”, perigo de reengolfamento no útero
materno
4
.
A felicidade plena, quando parecesse possível, seria sufocante. Algo
disso também já se encontrava esboçado no texto de Freud; este, por exemplo, num
artigo de 1916 - “Os Arruinados pelo Êxito” - registrava que alguns sujeitos chegam
ao ponto de destruir suas próprias conquistas, quando as mesmas de algum modo
lhes parecem metaforizar a realização do incesto (ou, em termos lacanianos, o
reengolfamento no útero materno). Muitos anos depois, num texto de 1936, Freud
revisitara este mesmo tema, ao comentar o desassossego de que fora ele próprio
tomado por ocasião de sua primeira visita à Acrópole
5
.
Para Lacan, é precisamente o poder de “reengolfar” que o interdito do
incesto barra primordialmente - “enquadrando”, antes de tudo, a Mãe, Outro “pré-
histórico e inesquecível”, do qual a cria humana depende para sobreviver e
constituir-se como falante. “Não reintegrarás o teu produto” é um mandamento que
deve fazer-se valer, para a mãe, num tempo lógico anterior ao “não copularás com
tua mãe” (ou com teu pai) para os filhos. É a onipotência do Outro que a Lei
fundante interdita, proibindo-lhe fazer da criança sua propriedade particular
6
.
Relendo o Mal-Estar na Civilização, com o recurso da teorização
lacaniana, pode-se então encontrar naquele artigo uma tese nem um pouco sombria:
o que nos priva da felicidade plena e contínua, o que nos condena a ter, no máximo,

4
“Vocês não sabem que não é a nostalgia do seio materno que gera a angústia, mas a iminência
dele? O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia, que nos permite entrever que
voltaremos ao colo (…). Passemos à etapa seguinte, à do amor do supereu, com tudo o que este
supostamente comporta no chamado caminho do fracasso. O que quer dizer isso senão que o que se
teme é o sucesso? Trata-se sempre do isso não falta” (Lacan, 1962-1963 / 2005:64, grifo nosso).
5
“'Então tudo isto realmente existe, tal como aprendemos no colégio!' (…) A que se deve semelhante
incredulidade frente a algo que nos promete (…) aportar um sumo prazer? Eis aqui uma reação
realmente paradoxal! Recordo, contudo, ter-me referido certa vez ao caso semelhante daquelas
pessoas que, como então o formulei, 'wrecked by success'. Regra geral, os indivíduos adoecem
devido à frustração, em consequência da insatisfação de uma necesssidade ou um desejo de
importância vital. Mas nestes casos acontece precisamente o contrário: adoecem e até são
completamente aniquilados, porque se lhes realizou um desejo poderosíssimo” (Freud, 1936/1981:
3330).
6
“O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade (…) Margem que,
embora sendo linear, deixa transparecer sua vertigem, por mais que seja recoberta pelo pisoteio de
elefante do capricho do Outro. É esse capricho, no entanto, que introduz o fantasma da Onipotência,
não do sujeito, mas do Outro em que se instala sua demanda (já era tempo de esse clichê imbecil ser
recolocado, de uma vez por todas, e por todos, em seu devido lugar), e, juntamente com esse
fantasma, a necessidade de seu refreamento pela Lei.” (Lacan, 1960/1998:828).
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visitações transitórias e evanescentes de algum êxtase, é o mesmo dispositivo que
nos assegura a conservação do desejo como tal. Ou, ainda melhor: é o mesmo
dispositivo que interdita ao Outro fazer de nós uma extensão de seu território de
gozo. Não seremos felizes é uma aposta que tem os seguintes corolários: não
seremos totalmente domesticados. Não seremos legumes. Não seremos fantoches
satisfeitos de qualquer saber ou poder.
Para Freud, nossa liberdade é incurável, determinada pela constituição
mesma do aparelho psíquico. Assim, liberdade e determinação encontram-se
logicamente articuladas na teoria freudiana. Como já percebera Rousseau,
estaríamos literalmente condenados à liberdade. Condenados a desejar em vão,
ironiza Lacan; ou, simplesmente, a existir como sujeitos do desejo.
Ora, nos dias que correm, esta tese freudiana revela um otimismo
notável. Ela subentende uma aposta: nenhum totalitarismo é sustentável – nem o
dos velhos fascismos, nem o das futurologias que prometem a “apatia do bem
universal”. Não teremos nenhuma variante de um Admirável Mundo Novo...
Existem outros aspectos da condição humana destacados por Freud
que podem parecer um pouco menos promissores. Diferentemente da felicidade, diz
ele, o sofrimento é muito mais fácil de se experimentar de forma contínua. Como
sempre, os poetas sabem disso melhor. Como cantou Vinicius de Moraes: “Tristeza
não tem fim/ Felicidade, sim!”
7

O sofrimento, diz Freud, ameaça-nos a partir das forças esmagadoras
da Natureza, do nosso corpo condenado à caducidade e morte, ou... das nossas
relações com os outros. Nenhuma civilização jamais conseguiu coibir
suficientemente o abuso de poder, a injustiça e a crueldade. E parte desse mal
talvez não tenha mesmo cura, devido à incidência da pulsão de morte: os homens

7
Observe-se, porém, que os versos do poeta são muito menos “pessimistas” que sua premissa
pareceria antecipar; como no texto de Freud sobre a transitoriedade, para Vinicius, o fato da
felicidade ser efêmera só faz aumentar o seu valor... “Tristeza não tem fim/ Felicidade, sim/ A
felicidade é como a gota/ De orvalho numa pétala de flor/ Brilha tranquila/ Depois de leve oscila/E cai
como uma lágrima de amor/ A felicidade do pobre parece/ A grande ilusão do carnaval/ A gente
trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia/ De rei ou de pirata ou
jardineira/ e tudo se acabar na quarta feira/ Tristeza não tem fim/ Felicidade sim/ A felicidade é como
a pluma/ Que o vento vai levando pelo ar/ Voa tão leve/ Mas tem a vida breve/Precisa que haja vento
sem parar/ A minha felicidade está sonhando/ Nos olhos da minha namorada/ ? como esta noite/
Passando, passando/ Em busca da madrugada/ Falem baixo, por favor/ Pra que ela acorde alegre
como o dia/Oferecendo beijos de amor/ Tristeza não tem fim/ Felicidade sim” (Tom Jobim/ Vinícius de
Morais).

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abrigam inclinações congênitas para a ruindade, motivo pelo qual atormentam a si
mesmos e aos semelhantes.
Vemos que Freud escapa às ilusões da “bela alma” denunciadas por
Hegel; não proclama inocência e pureza. Inclui a si mesmo no conjunto dos
“pecadores” - aqueles que somos habitados pela pulsão de morte
8
. Isto reduz em
boa parte o alcance de seus protestos contra o mandamento cristão de “amar ao
próximo como a si mesmo”: se o próximo é tão pouco santo quanto eu mesmo, devo
ser tão cauteloso em amá-lo quanto em evitar as armadilhas do amor-próprio...
Que fazer, porém, diante da ameaça permanente de sofrimento
proveniente de nossas relações com os outros – mal que pode assumir as
configurações extremas da tortura, guerra, genocídio, e mesmo devastação terminal
do planeta, contra a qual já nos tempos de Freud percebia-se que não havia garantia
nenhuma?
Confrontados com nossa falta de felicidade, harmonia e justiça,
insistimos em encomendar solução a algum sucedâneo do Outro onipotente de
nossa primeira infância. É daí, diz Freud, que nasce a religião: da nostalgia infantil
por um pai provedor, capaz de resolver nossos problemas. Mas... “Esse Quem será
que existe?” (Lispector, 1997:14)
No entender de Freud, nascemos como sujeitos porque desejados pela
Mãe ou suplente – mas nunca da maneira “certa”: sempre demais ou de menos. O
desejo do Outro faz trauma.
A mãe, quando somos bem crianças, parece saber e poder tudo; e,
ainda por cima, atribuir um valor de gozo ao que “somos” para ela. Um dia, contudo,
percebemos a castração (e infidelidade) da Mãe. Então, pensamos que o Pai é o
Outro do Outro. Corremos para o colo do Pai; mas logo descobrimos a castração do
Pai também. Aí deslocamos nossos anseios de proteção para o Pai Nosso que está
no Céu, ou algum avatar do mesmo (o Destino, a Evolução da Humanidade, o
Futuro da Ciência...)

8
A existência de tais tendências agressivas, que podemos perceber em nós mesmos e cuja presença
supomos com toda a razão no próximo, é o fator que perturba nossa relação com os semelhantes
(…). Devido a esta primordial hostilidade entre os homens, a sociedade civilizada se vê
constantemente ameaçada de desintegração” (Freud, 1930/1981:3046).
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A última figura desta série iniciada pelos pais é o Destino,
obscuro poder que só uma limitada minoria humana chega a
apreender impessoalmente. (…) Todos aqueles que transferem
a direção do devir universal a Deus, ou a Deus e à Natureza,
despertam a suspeita de que sentem ainda estes poderes tão
extremos e longínquos como um casal parental, e se crêem
enlaçados a eles por laços libidinais. (Freud, 1924/1981:2757).

Tentamos fugir de nosso desamparo adotando a condição de
escravos, subornando esse Outro consistente (herdeiro dos pais do Complexo de
Édipo) numa posição de objeto – tentando parecer-nos com o que fantasiamos “ser”
de gozo para ele.
Podemos tomar sobre nós a falta de Deus, fazendo de nossas próprias
faltas um álibi para a intolerável tolerância de Deus com o mal. Freud detecta a
lógica deste mecanismo na trajetória moral de povos inteiros, e nas raízes mesmas
da atitude religiosa – que reputa de infantis e regressivas
9
. Em “Moisés e o
Monoteísmo”, por exemplo, escreve:

O povo /judeu/ viu seu caminho fustigado por duros azares; as
esperanças colocadas no favorecimento por parte de Deus
tardavam em realizar-se; não era fácil nessas condições
continuar aferrando-se à ilusão de ser o povo eleito de Deus. Se
não queriam renunciar a tal felicidade, então a consciência de
culpa pela própria pecaminosidade oferecia uma oportuna
desculpa para explicar a dureza de Deus.” (Freud,
1939/1981:3322-3323, grifo nosso.)

9
“Recapitulando nosso exame da gênese das idéias religiosas: tais idéias, que nos são apresentadas
como dogmas, não são precipitados da experiêcia nem conclulsões do pensamento; são ilusões,
realizações dos desejos mais antigos, intensos e prementes da Humanidade. Já sabemos que a
penosa sensação de impotência experimentada na infância foi o que despertou a necessidade de
uma proteção amorosa, satisfeita naquela época pelo pai, e que a descoberta da persistência de tal
desamparo através de toda a vida levou depois o homem a forjar a existência de um pai imortal muito
mais poderoso. O governo bondoso da divina Providência mitiga o medo aos perigos da vida. A
instituição de uma ordem moral universal assegura a vitória final da Justiça, tão aviltada no seio da
civilização humana; e o prolongamento da existência terrena por uma vida futura amplia infinitamente
os limites temporais e espaciais nos quais deverão realizar-se os desejos.” (Freud, 1927/1981:29976-
2977).
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Podemos também resignar-nos com as desgraças deste mundo,
entregando a Deus o poder de restaurar Felicidade e Justiça em algum Além.
Freud, porém, adverte: o Outro é furado e sem conserto. Mesmo o
Progresso da Ciência, avatar modernizado de Papai Noel ao qual tantos confiam os
maiores sonhos de eliminação do sofrimento, parece trazer consigo pelo menos
tantos males quanto bens. O homem contemporâneo, dizia Freud em 1930, tornou-
se um Deus de prótese, mas não está feliz assim
10
. Como negar a atualidade
dessas palavras em pleno século XXI?
O Outro reduzido a um buraco, é o futuro de uma ilusão; é o que resta
ao final de um percurso de enxugamento da neurose infantil, pela qual nos
constituímos como sujeitos. É a isso que conduz a subjetivação efetiva da castração
(a do Outro e a minha - uma só e mesma “coisa”).
Pessimismo? Nonada, diria Guimarães Rosa. É, isso sim, a boa nova
freudiana. Nossa liberdade é irredutível.
Freud exorta-nos a fazer o luto das ilusões, e do espectro do Pai
provedor; convida-nos a “deixar o Céu para os anjos e os pardais”, e assumir nossas
responsabilidades no Aquém.
Assim como podemos estar bem seguros de que jamais seremos
engolidos pelo Outro da felicidade, também podemos confiar que jamais teremos a
harmonia social das formigas e abelhas. Felicidade e justiça serão sempre “não-
todas”. Mas disso não deriva que possamos, ou devamos, abandonar nossos
esforços para realizar o que disso é possível. Muito pelo contrário: daí deriva o dever
ético de o fazermos, e alguma chance de o podermos (na medida mesma em que,
assegurados de nosso exílio, não precisaremos arruinar os poucos êxitos que
consigamos nessa via).
O mal-estar na civilização torna-se então o legado de nossa condição
falante. Um legado que nos assegura contra a temível sucessão de dias belos, e nos

10
“O homem chegou a tornar-se, por assim dizer, um deus de prótese: bastante magnífico se coloca
sobre si todos os seus artefatos, mas estes não crescem em seu corpo, e às vezes, além disso, ainda
lhe trazem muitos dissabores. Por outro lado, tem direito a consolar-se com a reflexão de que este
desenvolvimento não se deterá precisamente no ano de graça de 1930. Tempos futuros trarão novos
e talvez inconcebíveis progressos neste território da cultura, exaltando ainda mais a deificação do
homem. Mas não esqueçamos, no interesse do rigor de nossos estudos, que tampouco o homem
de hoje se sente feliz em sua semelhança com Deus.” (Freud, 1930/1981: 3024, grifo nosso).
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obriga a um trabalho incessante. É a cada um que cabe o afazer permanente de
limitar o sofrimento, a injustiça e o mal – pois não há Outro que vá fazer isso por
nós. Não nos faltará lugar para enganchar nosso desejo na enormidade desse
buraco, desde que suportemos a falta de garantias inerente à estrutura.
Em vez de nos convocar ao desespero, ou à melancolia, Freud nos
convida investir nossa libido no pouco-e-em-pura-perda que temos. A
Transitoriedade: é o que temos. Mesmo efêmera, ou exatamente por ser efêmera, a
beleza pode e deve ser valorizada, produzida e usufruída. E o mesmo se aplica a
tudo o que a vida humana pode nos dar de desejável
11
.
Exatamente por ser um alvo inalcançável - e na medida mesma em
que estivermos muito bem assegurados de que é inalcançável - a felicidade, a
justiça, etc., podem e devem ser “aproximadas”; sempre num modo não-todo.
É exatamente porque felicidade e justiça não estão “dadas” - e o
pouco que delas temos é evanescente, ou está em permanente ameaça de
destruição - que cabe a cada um de nós a responsabilidade de lutar por elas,
inventá-las. Enfim, cabe-nos a responsabilidade intransferível de existir como
sujeitos do desejo.
Mesmo diante do máximo da estupidez e miséria que a condição
humana é capaz de apresentar-nos – a guerra – Freud nos diz: não importa.
Desenganados do paraíso, da harmonia, do progresso, da esperança em “amanhãs
que cantam”, da Felicidade e da Justiça plenas; ainda assim, e por isso mesmo,
construiremos de novo tudo o que a guerra tenha destruído
12
. Investiremos tudo de
novo. Se a falta é o abrigo de nosso desejo, a garantia de nossa liberdade, o que
nos caberia senão tomar posse dela, e tratar de fazê-la valer o preço que ela custa?

11
“Também o que é doloroso pode ser verdadeiro; por isso, não pude refutar que a transitoriedade é
uma característica geral, nem impor uma exceção para o belo e o perfeito. Em compensação, neguei
ao poeta pessimista que a transitoriedade do que é belo implique em sua desvalorização. Pelo
contrário, implica num incremento de seu valor! A transitoriedade comporta um valor de escassez no
tempo. As limitadas possibilidades de gozar de algo tornam-no ainda mais precioso” (Freud, 1915-
16/1981:2118).
12
“Uma vez que se tenha renunciado a tudo o que foi perdido, [o luto] se esgotará por si mesmo e
nossa libido ficará novamente livre para substituir os objetos perdidos por outros novos,
possivelmente tão valiosos, ou ainda mais valiosos que aqueles (…). Cabe esperar que suceda o
mesmo com as perdas desta guerra. Uma vez superado o luto, perceberemos que nossa elevada
estima pelos bens culturais não sofreu menoscabo pela experiência de sua fragilidade. Voltaremos a
construir tudo o que a guerra destruiu, talvez em terreno mais firme e com maior sustentabilidade”
(Freud, 1915-16/1981:2120).
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REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund (1912/1981). Sobre uma degradação geral da vida erótica. In:
Obras Completas.. Madrid : Biblioteca Nueva. v.2.

FREUD, Sigmund (1915-16/1981). A Transitoriedade. In: Obras Completas. Madrid
: Biblioteca Nueva. v.2.

FREUD, Sigmund (1916/1981). Vários tipos de caráter descobertos no trabalho
analítico. In: Obras Completas. Madrid : Biblioteca Nueva. v.3.

FREUD, Sigmund (1924/1981). O problema econômico do masoquismo. In:
Obras Completas.. Madrid : Biblioteca Nueva. v.3.

FREUD, Sigmund (1927/1981). O futuro de uma ilusão. In: Obras Completas.
Madrid : Biblioteca Nueva. v.3.

FREUD, Sigmund (1929[30]/1981). O mal-estar na civilização. In: Obras
Completas. Madrid : Biblioteca Nueva. v.3.

FREUD, Sigmund (1934-8[39]/1981). Moisés e o monoteísmo. In: Obras
Completas. Madrid : Biblioteca Nueva. v.3.

FREUD, Sigmund (1936/1981). Um Transtorno de Memória na Acrópole. In
Obras Completas.. Madri, Biblioteca Nueva.v.3

JOBIM, Antonio Carlos; MORAES, Vinicius. A Felicidade. Disponível em
http://www.youtube.com/watch?v=Ka44wBAypuA

LACAN, J. (1957-1958/1998). Sem. 5: Les Formations de L'Inconscient. Paris :
Editions du Seuil.

LACAN, J. (1959-1960/1998). Sem. 7: A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro :
Jorge Zahar.

LACAN, J. (1960/1998). Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no
Inconsciente Freudiano. In: Escritos. Rio de Janeiro : Jorge Zahar.

LACAN, J. (1962-1963/2005). Sem. 10: A Angústia. Rio de Janeiro : Jorge Zahar.

LISPECTOR, Clarice (1997). A Hora da Estrela. Rio de Janeiro : Editora Rocco.

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FREUD, AN OPTIMISTIC: NOTES ON THE “CIVILIZATION AND ITS DISCONTENTS”

ABSTRACT - While common sense attributes to Freud a dark vision of both the human
condition and culture and its prospects, it is possible to make a very different reading of the
Freudian work. This article find evidence that Freud sustained an essentially optimistic bet on
human freedom, but has not failed to register, with the accuracy that was typical of his style,
the price that freedom costs the homo sapiens. This argument seems to contradict another
cliche - that the Freudian theory of the constitution of the subject is highly deterministic; in
what follows, however, we also seek to demonstrate that freedom and determination, far
from being antithetic, are logically linked in Freudian theory.
Key words: Discontentment. Happiness. Freedom. Ethics. Desire.

Lacan. inelimináveis pela subtração do gozo sexual à espécie falante: adoção da postura ereta. O sujeito não satisfaz simplesmente um desejo. o desejo humano restará irredutível a qualquer redução e adaptação.” Freud. impulsionando-nos a seguir outros caminhos” (Freud. e que haveria algo inerente à própria essência da função sexual que nos priva de satisfação completa. ele goza de desejar.Nada mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos” – ilustra com humor este aspecto da condição humana. barreiras ao gozo suscetíveis de eliminação: as restrições que a cultura da época de Freud impunha à atividade sexual. Havia. 1930/1981: 3042-3043) 3 “Para todo o sempre. Ora. é preciso opor-lhe um obstáculo. Desta perspectiva. talvez..pressupõe uma perda fundante. nossas faculdades de felicidade estão já limitadas de saída pela nossa própria constituição. é preciso reconhecer: uma liberdade sexual muito mais ampla que a de antanho não parece ter contribuído para um aumento da felicidade geral. interdição do incesto. 1930/1981: 3025. Teoriza o desejo como uma função tributária da falta como tal. Paradoxalmente. antes de tudo. 2 “Às vezes. (Freud. Bem antes. de necessidades represadas em alto grau” . etc. Assim. desejo de continuar desejando3. e esta é uma condição essencial de seu gozo” (Lacan.“satisfação... Nenhuma experiência analítica poderá contradizer isto. nada seria mais temível que uma saciação completa. a contraste – e só em muita escassa medida de algo estável. nem a sexualidade. cremos advertir que a pressão da cultura não é o único fator responsável. ou uma obturação da falta. a própria definição de felicidade apresentada no “MalEstar. num artigo de 1912. etc. Nem a paixão. subscreve e aprofunda este argumento freudiano. 84 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . escapam a esta maldição2. O desejo seria. submetendo-a aos imperativos da monogamia.” . heterossexualidade. Freud já avançara uma proposição quase idêntica a esta: Não é difícil comprovar que a necessidade erótica perde considerável valor psíquico quando sua satisfação se torna fácil e cômoda. de preferência repentina. 1957-1958/1998: 313. foco das mais intensas sensações de prazer que os humanos conseguem experimentar. na atualidade. Para que a libido alcance um alto grau. 1912/1981:1715). ao longo de toda a sua obra. um “represamento” prévio da necessidade.. Mas. Freud acusa diversos fatores – em sua maioria. grifo nosso)..

tal como aprendemos no colégio!' (…) A que se deve semelhante incredulidade frente a algo que nos promete (…) aportar um sumo prazer? Eis aqui uma reação realmente paradoxal! Recordo. à do amor do supereu. que nos permite entrever que voltaremos ao colo (…). para a mãe.“Os Arruinados pelo Êxito” . com tudo o que este supostamente comporta no chamado caminho do fracasso. 6 “O desejo se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade (…) Margem que. 5 “'Então tudo isto realmente existe.registrava que alguns sujeitos chegam ao ponto de destruir suas próprias conquistas.” (Lacan. o que nos condena a ter. no entanto. e por todos. Muitos anos depois. a necessidade de seu refreamento pela Lei. juntamente com esse fantasma. é precisamente o poder de “reengolfar” que o interdito do incesto barra primordialmente . É esse capricho. num tempo lógico anterior ao “não copularás com tua mãe” (ou com teu pai) para os filhos. de uma vez por todas. “Vocês não sabem que não é a nostalgia do seio materno que gera a angústia. do qual a cria humana depende para sobreviver e constituir-se como falante. não do sujeito. antes de tudo. contudo. e. pode-se então encontrar naquele artigo uma tese nem um pouco sombria: o que nos priva da felicidade plena e contínua. com o recurso da teorização lacaniana. os indivíduos adoecem devido à frustração. 4 85 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . por mais que seja recoberta pelo pisoteio de elefante do capricho do Outro. Para Lacan. seria sufocante. em consequência da insatisfação de uma necesssidade ou um desejo de importância vital. proibindo-lhe fazer da criança sua propriedade particular6. no máximo. O que quer dizer isso senão que o que se teme é o sucesso? Trata-se sempre do isso não falta” (Lacan. num texto de 1936. 1962-1963 / 2005:64. a Mãe. Relendo o Mal-Estar na Civilização.angústia mesma sinalizaria “a falta da falta”. 1936/1981: 3330). Freud revisitara este mesmo tema. 'wrecked by success'. que introduz o fantasma da Onipotência. em termos lacanianos. num artigo de 1916 . grifo nosso). mas do Outro em que se instala sua demanda (já era tempo de esse clichê imbecil ser recolocado. Mas nestes casos acontece precisamente o contrário: adoecem e até são completamente aniquilados. este. Algo disso também já se encontrava esboçado no texto de Freud. mas a iminência dele? O que provoca a angústia é tudo aquilo que nos anuncia.“enquadrando”. o reengolfamento no útero materno). como então o formulei. quando parecesse possível. porque se lhes realizou um desejo poderosíssimo” (Freud. perigo de reengolfamento no útero materno4. deixa transparecer sua vertigem. A felicidade plena. ao comentar o desassossego de que fora ele próprio tomado por ocasião de sua primeira visita à Acrópole 5. “Não reintegrarás o teu produto” é um mandamento que deve fazer-se valer. 1960/1998:828). Passemos à etapa seguinte. por exemplo. embora sendo linear. em seu devido lugar). É a onipotência do Outro que a Lei fundante interdita. Outro “préhistórico e inesquecível”. quando as mesmas de algum modo lhes parecem metaforizar a realização do incesto (ou. Regra geral. ter-me referido certa vez ao caso semelhante daquelas pessoas que.

esta tese freudiana revela um otimismo notável. E parte desse mal talvez não tenha mesmo cura. devido à incidência da pulsão de morte: os homens Observe-se. para Vinicius. estaríamos literalmente condenados à liberdade. Existem outros aspectos da condição humana destacados por Freud que podem parecer um pouco menos promissores.. nossa liberdade é incurável. Não seremos fantoches satisfeitos de qualquer saber ou poder. o fato da felicidade ser efêmera só faz aumentar o seu valor. Para Freud. ou... Não seremos legumes. a existir como sujeitos do desejo. sim/ A felicidade é como a gota/ De orvalho numa pétala de flor/ Brilha tranquila/ Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor/ A felicidade do pobre parece/ A grande ilusão do carnaval/ A gente trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia/ De rei ou de pirata ou jardineira/ e tudo se acabar na quarta feira/ Tristeza não tem fim/ Felicidade sim/ A felicidade é como a pluma/ Que o vento vai levando pelo ar/ Voa tão leve/ Mas tem a vida breve/Precisa que haja vento sem parar/ A minha felicidade está sonhando/ Nos olhos da minha namorada/ ? como esta noite/ Passando. ironiza Lacan. sim!”7 O sofrimento. Como já percebera Rousseau. 7 86 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . a injustiça e a crueldade. diz ele. Condenados a desejar em vão.visitações transitórias e evanescentes de algum êxtase. Ou. ameaça-nos a partir das forças esmagadoras da Natureza. é o mesmo dispositivo que nos assegura a conservação do desejo como tal. nos dias que correm. liberdade e determinação encontram-se logicamente articuladas na teoria freudiana. por favor/ Pra que ela acorde alegre como o dia/Oferecendo beijos de amor/ Tristeza não tem fim/ Felicidade sim” (Tom Jobim/ Vinícius de Morais). como no texto de Freud sobre a transitoriedade. Ela subentende uma aposta: nenhum totalitarismo é sustentável – nem o dos velhos fascismos. os poetas sabem disso melhor. ainda melhor: é o mesmo dispositivo que interdita ao Outro fazer de nós uma extensão de seu território de gozo. ou. do nosso corpo condenado à caducidade e morte. Não teremos nenhuma variante de um Admirável Mundo Novo. Como cantou Vinicius de Moraes: “Tristeza não tem fim/ Felicidade. diz Freud. Não seremos felizes é uma aposta que tem os seguintes corolários: não seremos totalmente domesticados. determinada pela constituição mesma do aparelho psíquico. nem o das futurologias que prometem a “apatia do bem universal”. “Tristeza não tem fim/ Felicidade. Assim. que os versos do poeta são muito menos “pessimistas” que sua premissa pareceria antecipar. Nenhuma civilização jamais conseguiu coibir suficientemente o abuso de poder.. passando/ Em busca da madrugada/ Falem baixo. das nossas relações com os outros. Ora. simplesmente. porém. Como sempre. Diferentemente da felicidade. o sofrimento é muito mais fácil de se experimentar de forma contínua...

ainda por cima. Aí deslocamos nossos anseios de proteção para o Pai Nosso que está no Céu. diante da ameaça permanente de sofrimento proveniente de nossas relações com os outros – mal que pode assumir as configurações extremas da tortura.. a Evolução da Humanidade. Isto reduz em boa parte o alcance de seus protestos contra o mandamento cristão de “amar ao próximo como a si mesmo”: se o próximo é tão pouco santo quanto eu mesmo. é o fator que perturba nossa relação com os semelhantes (…). É daí.. insistimos em encomendar solução a algum sucedâneo do Outro onipotente de nossa primeira infância. a sociedade civilizada se vê constantemente ameaçada de desintegração” (Freud.aqueles que somos habitados pela pulsão de morte8.. Devido a esta primordial hostilidade entre os homens. percebemos a castração (e infidelidade) da Mãe.. nascemos como sujeitos porque desejados pela Mãe ou suplente – mas nunca da maneira “certa”: sempre demais ou de menos. harmonia e justiça. o Futuro da Ciência. Corremos para o colo do Pai. 1997:14) No entender de Freud. e mesmo devastação terminal do planeta. ou algum avatar do mesmo (o Destino. contra a qual já nos tempos de Freud percebia-se que não havia garantia nenhuma? Confrontados com nossa falta de felicidade. capaz de resolver nossos problemas. que podemos perceber em nós mesmos e cuja presença supomos com toda a razão no próximo. contudo. pensamos que o Pai é o Outro do Outro. Então. motivo pelo qual atormentam a si mesmos e aos semelhantes. Vemos que Freud escapa às ilusões da “bela alma” denunciadas por Hegel. guerra. porém. 1930/1981:3046).abrigam inclinações congênitas para a ruindade.) A existência de tais tendências agressivas. que nasce a religião: da nostalgia infantil por um pai provedor. Um dia. quando somos bem crianças. não proclama inocência e pureza. e.. A mãe. devo ser tão cauteloso em amá-lo quanto em evitar as armadilhas do amor-próprio. genocídio. Mas. “Esse Quem será que existe?” (Lispector. mas logo descobrimos a castração do Pai também. Inclui a si mesmo no conjunto dos “pecadores” . 8 87 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . diz Freud. O desejo do Outro faz trauma.. parece saber e poder tudo. Que fazer. atribuir um valor de gozo ao que “somos” para ela.

subornando esse Outro consistente (herdeiro dos pais do Complexo de Édipo) numa posição de objeto – tentando parecer-nos com o que fantasiamos “ser” de gozo para ele. tão aviltada no seio da civilização humana. são ilusões. A instituição de uma ordem moral universal assegura a vitória final da Justiça. satisfeita naquela época pelo pai. e nas raízes mesmas da atitude religiosa – que reputa de infantis e regressivas 9. grifo nosso.” (Freud. intensos e prementes da Humanidade. obscuro poder que só uma limitada minoria humana chega a apreender impessoalmente. as esperanças colocadas no favorecimento por parte de Deus tardavam em realizar-se. Tentamos fugir de nosso desamparo adotando a condição de escravos. O governo bondoso da divina Providência mitiga o medo aos perigos da vida. (Freud. Podemos tomar sobre nós a falta de Deus. Em “Moisés e o Monoteísmo”. despertam a suspeita de que sentem ainda estes poderes tão extremos e longínquos como um casal parental. não são precipitados da experiêcia nem conclulsões do pensamento.A última figura desta série iniciada pelos pais é o Destino. e que a descoberta da persistência de tal desamparo através de toda a vida levou depois o homem a forjar a existência de um pai imortal muito mais poderoso. não era fácil nessas condições continuar aferrando-se à ilusão de ser o povo eleito de Deus. e se crêem enlaçados a eles por laços libidinais. 88 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . Freud detecta a lógica deste mecanismo na trajetória moral de povos inteiros. Já sabemos que a penosa sensação de impotência experimentada na infância foi o que despertou a necessidade de uma proteção amorosa. fazendo de nossas próprias faltas um álibi para a intolerável tolerância de Deus com o mal. 1939/1981:3322-3323. Se não queriam renunciar a tal felicidade. ou a Deus e à Natureza. e o prolongamento da existência terrena por uma vida futura amplia infinitamente os limites temporais e espaciais nos quais deverão realizar-se os desejos. realizações dos desejos mais antigos. 1924/1981:2757). por exemplo. que nos são apresentadas como dogmas. escreve: O povo /judeu/ viu seu caminho fustigado por duros azares.) 9 “Recapitulando nosso exame da gênese das idéias religiosas: tais idéias. então a consciência de culpa pela própria pecaminosidade oferecia uma oportuna desculpa para explicar a dureza de Deus.” (Freud. 1927/1981:299762977). (…) Todos aqueles que transferem a direção do devir universal a Deus.

e às vezes. assegurados de nosso exílio. exaltando ainda mais a deificação do homem. Freud. Como negar a atualidade dessas palavras em pleno século XXI? O Outro reduzido a um buraco. mas não está feliz assim10. Mas disso não deriva que possamos. É a isso que conduz a subjetivação efetiva da castração (a do Outro e a minha . no interesse do rigor de nossos estudos. e nos “O homem chegou a tornar-se. isso sim. parece trazer consigo pelo menos tantos males quanto bens. O mal-estar na civilização torna-se então o legado de nossa condição falante. porém. um deus de prótese: bastante magnífico se coloca sobre si todos os seus artefatos. diria Guimarães Rosa. Nossa liberdade é irredutível. ainda lhe trazem muitos dissabores. tornouse um Deus de prótese. ou devamos. grifo nosso). Muito pelo contrário: daí deriva o dever ético de o fazermos.uma só e mesma “coisa”). 10 89 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . Mesmo o Progresso da Ciência. adverte: o Outro é furado e sem conserto. além disso. que tampouco o homem de hoje se sente feliz em sua semelhança com Deus. por assim dizer. e alguma chance de o podermos (na medida mesma em que. Mas não esqueçamos. abandonar nossos esforços para realizar o que disso é possível. Tempos futuros trarão novos e talvez inconcebíveis progressos neste território da cultura. mas estes não crescem em seu corpo. a boa nova freudiana. entregando a Deus o poder de restaurar Felicidade e Justiça em algum Além. pela qual nos constituímos como sujeitos. Um legado que nos assegura contra a temível sucessão de dias belos. é o futuro de uma ilusão. Freud exorta-nos a fazer o luto das ilusões. É. não precisaremos arruinar os poucos êxitos que consigamos nessa via). Pessimismo? Nonada. avatar modernizado de Papai Noel ao qual tantos confiam os maiores sonhos de eliminação do sofrimento. convida-nos a “deixar o Céu para os anjos e os pardais”. tem direito a consolar-se com a reflexão de que este desenvolvimento não se deterá precisamente no ano de graça de 1930.” (Freud. dizia Freud em 1930. e do espectro do Pai provedor. Por outro lado. 1930/1981: 3024. Assim como podemos estar bem seguros de que jamais seremos engolidos pelo Outro da felicidade. e assumir nossas responsabilidades no Aquém.Podemos também resignar-nos com as desgraças deste mundo. é o que resta ao final de um percurso de enxugamento da neurose infantil. Felicidade e justiça serão sempre “nãotodas”. O homem contemporâneo. também podemos confiar que jamais teremos a harmonia social das formigas e abelhas.

nem impor uma exceção para o belo e o perfeito. Se a falta é o abrigo de nosso desejo. produzida e usufruída.e na medida mesma em que estivermos muito bem assegurados de que é inalcançável . a beleza pode e deve ser valorizada. podem e devem ser “aproximadas”. Enfim. Em compensação. 11 90 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . ou está em permanente ameaça de destruição . Mesmo diante do máximo da estupidez e miséria que a condição humana é capaz de apresentar-nos – a guerra – Freud nos diz: não importa. Freud nos convida investir nossa libido no pouco-e-em-pura-perda que temos. A Transitoriedade: é o que temos.obriga a um trabalho incessante.. desde que suportemos a falta de garantias inerente à estrutura. 1915-16/1981:2120). possivelmente tão valiosos. da esperança em “amanhãs que cantam”. 191516/1981:2118). implica num incremento de seu valor! A transitoriedade comporta um valor de escassez no tempo. [o luto] se esgotará por si mesmo e nossa libido ficará novamente livre para substituir os objetos perdidos por outros novos. É exatamente porque felicidade e justiça não estão “dadas” e o pouco que delas temos é evanescente. e tratar de fazê-la valer o preço que ela custa? “Também o que é doloroso pode ser verdadeiro.que cabe a cada um de nós a responsabilidade de lutar por elas. sempre num modo não-todo. da Felicidade e da Justiça plenas. Desenganados do paraíso. talvez em terreno mais firme e com maior sustentabilidade” (Freud. Pelo contrário. e por isso mesmo. ou à melancolia. 12 “Uma vez que se tenha renunciado a tudo o que foi perdido. Investiremos tudo de novo. Mesmo efêmera. inventá-las. É a cada um que cabe o afazer permanente de limitar o sofrimento. Uma vez superado o luto. da harmonia. perceberemos que nossa elevada estima pelos bens culturais não sofreu menoscabo pela experiência de sua fragilidade. ou ainda mais valiosos que aqueles (…). não pude refutar que a transitoriedade é uma característica geral. E o mesmo se aplica a tudo o que a vida humana pode nos dar de desejável11. ainda assim. o que nos caberia senão tomar posse dela. Voltaremos a construir tudo o que a guerra destruiu.a felicidade. Exatamente por ser um alvo inalcançável . etc. Não nos faltará lugar para enganchar nosso desejo na enormidade desse buraco. ou exatamente por ser efêmera. a garantia de nossa liberdade. a justiça. neguei ao poeta pessimista que a transitoriedade do que é belo implique em sua desvalorização. do progresso. Em vez de nos convocar ao desespero. construiremos de novo tudo o que a guerra tenha destruído12. por isso. As limitadas possibilidades de gozar de algo tornam-no ainda mais precioso” (Freud. Cabe esperar que suceda o mesmo com as perdas desta guerra. a injustiça e o mal – pois não há Outro que vá fazer isso por nós. cabe-nos a responsabilidade intransferível de existir como sujeitos do desejo.

v. In: Obras Completas. J. O futuro de uma ilusão.2. v. Clarice (1997). Rio de Janeiro : Jorge Zahar. Rio de Janeiro : Editora Rocco. O mal-estar na civilização.com/watch?v=Ka44wBAypuA LACAN.3.REFERÊNCIAS FREUD. In: Obras Completas. Madrid : Biblioteca Nueva. J.2. Sem. A Hora da Estrela. Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano. 7: A Ética da Psicanálise. FREUD. FREUD. FREUD. Madrid : Biblioteca Nueva. Sobre uma degradação geral da vida erótica. Biblioteca Nueva. In: Obras Completas.3. (1960/1998). O problema econômico do masoquismo. Sigmund (1934-8[39]/1981). Madrid : Biblioteca Nueva. Um Transtorno de Memória na Acrópole.v. Rio de Janeiro : Jorge Zahar. FREUD. Vários tipos de caráter descobertos no trabalho analítico.3.3 In JOBIM. (1957-1958/1998). In: Obras Completas. In: Obras Completas. LACAN.. Madrid : Biblioteca Nueva. MORAES. Madrid : Biblioteca Nueva. v.3. v. Vinicius. Sigmund (1924/1981). Sigmund (1936/1981).. 5: Les Formations de L'Inconscient. 10: A Angústia. Sigmund (1927/1981). J. 91 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . Sigmund (1912/1981). In: Obras Completas. Obras Completas. J. In: Escritos. Sigmund (1915-16/1981). Paris : Editions du Seuil. FREUD. LACAN. Antonio Carlos. Sigmund (1929[30]/1981). FREUD. Moisés e o monoteísmo. Disponível em http://www. Madri. Madrid : Biblioteca Nueva. Madrid : Biblioteca Nueva.youtube. LACAN.. LISPECTOR. (1962-1963/2005). FREUD. v. Sem. Sigmund (1916/1981). v. Rio de Janeiro : Jorge Zahar. A Transitoriedade. Sem. v.3. (1959-1960/1998). A Felicidade. In: Obras Completas.

it is possible to make a very different reading of the Freudian work. in what follows. the price that freedom costs the homo sapiens. Key words: Discontentment. Desire.that the Freudian theory of the constitution of the subject is highly deterministic. This argument seems to contradict another cliche . This article find evidence that Freud sustained an essentially optimistic bet on human freedom. are logically linked in Freudian theory. Freedom. Happiness. however. with the accuracy that was typical of his style. far from being antithetic. 92 ! " # $ % '" ( & ) ( "* ' * . but has not failed to register. Ethics. we also seek to demonstrate that freedom and determination.While common sense attributes to Freud a dark vision of both the human condition and culture and its prospects.FREUD. AN OPTIMISTIC: NOTES ON THE “CIVILIZATION AND ITS DISCONTENTS” ABSTRACT .