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03/05/2011

Apontamentos sobre a convergência d…

Apontamentos sobre a convergência das crises do capital: Uma abordagem ecossocialista - João Alfredo
“O progresso é um elevador sem mecanismo de descida, inteiramente autônomo e cego, donde não sabemos sair, nem aonde irá parar” (Serge Moscovici, “Natureza: para pensar a ecologia”).

ENLACE PARA OUTRA SOCIEDADE

João Alfredo 1. Há uma convergência entre as crises do capital, tanto a de aspecto econômico-financeira, quanto a climáticoambiental, que, por sua vez, se relacionam com a crise alimentar, de natureza social. Para tratar de como a atual crise vem sendo analisada, buscamos iniciar nossos apontamentos a partir de algumas reflexões teóricas que consideramos importante socializar. No dizer de Ladislau Dowbor, em entrevista recente concedida à IHU-On Line, a crise atual do sistema capitalista “é bem mais ampla”, pois, “ao desencadear, com extrema visibilidade para todo o planeta, a irracionalidade e a fraude sistemática que existe nos mecanismos financeiros põe em discussão as regras do jogo para a regulação planetária para o conjunto dos problemas sociais e ambientais”. Eric Toussaint, também para o IHU-On Line, diz que a interconexão entre as crises financeira, alimentar e climática, está ligada ao modo de produção capitalista, pois “a busca do lucro privado máximo provocou nos últimos tempos uma evolução que resultou principalmente na crise financeira e na crise alimentar”. Já a crise climática, em sua opinião, resulta “de uma evolução mais longa do capitalismo”. Em artigo intitulado “As Várias Crises”, Paulo Piramba afirma: “a crise não começou agora, nem é somente financeira. Ela é uma crise financeira que, a partir do estouro da bolha subprime, tornou-se uma crise da economia capitalista. Mas também já era uma crise social, mesmo nos melhores momentos do neoliberalismo. Ao invés de trazer o progresso e a satisfação das necessidades dos habitantes do planeta, o endeusamento do deus-mercado e a destruição dos controles do Estado sobre ele, só trouxeram miséria e violência. Além disso, o saque sobre os recursos naturais, com a transformação da natureza em um estoque de mercadorias, trouxe o desequilíbrio ambiental e um enorme risco sobre a continuidade da vida na Terra, por conta do aquecimento global e de seus efeitos sobre o clima”. Mesmo aqueles que se debruçaram mais sobre a crise em sua face econômica, como François Chesnais, não deixam de reconhecer o entrelaçamento entre as crises, quando afirma que “as primeiras e realmente brutais manifestações da crise climática mundial que temos visto vão combinar-se com a crise do capital enquanto tal” (“Como a crise de 29, ou mais... Um novo contexto mundial”). A própria crise de alimentos está relacionada às demais, devido ao “boom” dos agrocombustíveis que, em função da demanda de mais terras para o etanol e o biodiesel, avançaram seus plantios de cana, palma e soja sobre as florestas, diminuíram áreas de produtos agrícolas de primeira necessidade, expulsaram pequenos produtores familiares, empurraram o gado e as monoculturas para dentro das matas tropicais e encareceram o preço dos alimentos em todo o mundo. O que comprova o quão equivocada é essa resposta, dentre outras, gestada pelo capital, às mudanças climáticas. Trata-se, portanto, de uma crise do próprio sistema produtor de mercadorias, que se manifesta em vários aspectos, não podendo, portanto, ser tratada de forma compartimentada, nem tampouco com remédios já superados pela própria dinâmica do capital e da sociedade. Reduzi-la ao seu aspecto economicista e não compreender o seu alcance ou sua centralidade significa não só uma fuga para a frente, sem sua resolução, mas uma perda grande de oportunidade para os socialistas em todo o mundo.

2. A crise socioambiental – cujas manifestações mais visíveis, mas não únicas, são as mudanças climáticas e o aquecimento global – é infinitamente mais grave do que a atual crise financeira. O Quarto Relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, em sua sigla em inglês), infelizmente ainda não devidamente conhecido e assimilado pela própria esquerda, é um alerta gravíssimo sobre a situação da vida em nosso planeta. As constatações são as de que a elevação da temperatura da terra e dos mares é causada pelas atividades humanas (industriais, energéticas, de transporte e agropecuárias), em função dos gases do efeito estufa (GEEs), em especial o CO2, e não mais um fenômeno natural e de que, a se continuar nesse nível de emissões, poderemos entrar em uma era marcada por tragédias socioambientais de proporções nunca vividas pela humanidade. O furacão Katrina, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, há mais de dois anos, e, mais recentemente, as chuvas em Santa Catarina, aqui no Brasil, nos demonstram que as previsões do IPCC não são alarmistas e nem são para um futuro distante. Já entramos na era em que os fenômenos climáticos graves passam a ocorrer com muito mais intensidade e de forma ainda mais recorrente. Elevação do nível dos mares, em função do aquecimento dos oceanos e derretimento de geleiras, atingindo cerca de 60% da população mundial que vive em zonas costeiras; perda da

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da crise socioambiental em que estamos mergulhados.1 trilhões de dólares (sabemos hoje que passaram de 5 trilhões) para salvar os banqueiros de uma crise financeira que eles mesmos provocaram. como no que se refere à própria esquerda. quando afirma que os “dois grandes eixos que desafiam o planeta” são a desigualdade social e a crise ambiental. a questão não só dos supérfluos. oriundos de um modelo de desenvolvimento predatório – que foi gestado pelo capitalismo e seguido pelo leste europeu. em documento enviado para a XIV Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas. Se assim entendermos. apesar de alguns reconhecerem – e me refiro a Chesnais. mais uma vez com Dowbor. na perspectiva de uma sociedade para além do capital. A título de exemplo. No entanto. lamentando que o tema ambiental venha sendo quase que excluído das discussões. o uso da energia solar ainda se resume a aquecedores para água de chuveiro”. Não pretendemos. não é com velhos remédios. Concordamos. É nosso dever lutar pelo emprego. só em 2007. ainda não foram capazes de sensibilizar os que detêm o poder político e econômico mundial. bem como de outras espécies animais e vegetais. O Presidente da Bolívia. mas também da própria matriz energética. maiores contribuintes para o aquecimento global. como Alemanha e Espanha. Nações de clima temperado e com territórios muito menores. Ali encontramos – e são importantes. antes da queda do chamado “socialismo real” e agora pela China – que vamos dar conta de superá-la. consequentemente. O grau de aproveitamento dessa energia para produção de eletricidade.. "O lugar menos ensolarado do Brasil (Florianópolis) recebe 40% mais energia solar do que o lugar mais ensolarado da Alemanha". Evidentemente. numa perspectiva sistêmica.org. são algumas dessas previsões que. publicada neste Fórum Social de Belém proclama: “O movimento ecossocialista visa parar e inverter o processo desastroso de aquecimento global em particular e do ecocídio capitalista em geral. educação. Segundo ele. na perda da cobertura vegetal por desmatamento irresponsável. É o país com a maior área territorial dos trópicos e. pelo salário e contra a transferência da mais-valia social para bancos e montadoras. nossa Declaração Ecossocialista. perda da metade de nossa Floresta Amazônica. e construir uma alternativa prática e radical ao sistema capitalista. o Brasil já era uma das nações mais ricas do mundo em energia. Não é à toa que Chesnais. mas não se criticam os impactos sociais e ambientais do PAC sobre o meio ambiente e as populações indígenas e tradicionais. com impactos significativos no regime de chuvas em toda a América do Sul e o incremento do fenômeno da desertificação. Um sintoma dessa visão nacional-desenvolvimentista se traduz na campanha em defesa do petróleo encontrado no pré-sal. tanto nos marcos do capitalismo (cujo embate mais explícito se dá entre liberais e keynesianos. mais uma vez – a centralidade da questão ambiental. denunciava que. na erosão dos solos. compara o especialista Ricardo Rüther. veja-se esta notícia da Agência Estado. que passam vários meses cobertos de neve. se quer aumentar a produção. as demissões em massa que estão ocorrendo. 3. reforma agrária e moradia popular. do último dia 25: “Muito antes de descobrir as reservas de óleo do pré-sal. na atual conjuntura. para a garantia do emprego e do salário (e são direitos que devemos defender com unhas e dentes) e para a regulação do mercado de capitais. não só de fazer a propaganda socialista. É claro que não podemos aceitar propostas como redução da jornada com redução de salários e. ou seja. porém. que a vida de nossa espécie. fazer uma análise mais aprofundada – por mais necessária que seja – sobre as medidas que jogam a conta da crise nas costas dos trabalhadores e dos pobres. O debate sobre as propostas para a superação da(s) crise(s) evidentemente que se configura no debate mesmo sobre projetos de sociedade. do Laboratório de Energia Solar da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). que a crise climática é apenas um aspecto. “enquanto os Estados Unidos e a União Européia destinam US$ 4. destinam apenas US$ 13 bilhões de dólares aos programas vinculados à mudança climática. com a combinação da crise econômica com a crise ambiental. expressa não somente pelo aquecimento global. na contaminação da água doce no planeta”. Fala-se de investimentos públicos. por não ser objetivo deste texto. já tivessem sido extintas. mas sem discutir o que e como se está produzindo. pois. com a diminuição das fontes d´água em todo o planeta. do que é ecologicamente agressivo e insustentável. com remédios oriundos do modelo produtivista-consumista. por mais importante que seja do ponto de vista do resguardo de nosso patrimônio público. um valor 313 vezes menor que aquele reservado aos bancos” (“É preciso salvar o planeta do capitalismo”). afirme que estamos diante de um “novo tipo de crise”. onde “a natureza. O Ecossocialismo enlace. Cabe aos socialistas resistir. o mais grave. mas nenhuma análise sobre o que significa para o ambiente centenas de milhares de automóveis individuais que congestionam nossas ruas e agravam a poluição e o efeito estufa. Não se supera a atual crise econômica.. ela passa ao largo nas propostas que a esquerda apresenta para a superação da(s) crise(s). portanto. sob a roupagem do nacional-desenvolvimentismo. em dezembro último. com vantagem para os últimos. repito – propostas para os investimentos sociais. mas de avançarmos. É mais que justa. que. recebe uma quantidade gigantesca de radiação solar. Nos marcos do entendimento de que só se superará a crise ambiental planetária superando o capitalismo.200 megawatts) (. os alemães instalaram em seus telhados. principalmente. produzem mais energia a partir do Sol do que o Brasil. o equivalente ao que produz a usina nuclear de Angra 2 (1.) No Brasil. De forma bastante acertada. Evo Morales. até agora. é verdade. fundada nos combustíveis fósseis. infelizmente. reage agora de forma brutal”. Em suma. não enxerga que recursos aplicados para pesquisa e equipamentos poderiam estar sendo direcionados para o desenvolvimento das energias limpas e renováveis. se faz necessário formular hoje um programa de enfrentamento da crise na perspectiva da construção da sociedade ecossocialista mundial. com propostas de cunho ecossocialista para a(s) crise(s) 4. na forma de painéis solares. mas também pelo “esgotamento da vida nos mares. propõe-se o incentivo para um mercado de consumo de massas. tratada sem a menor consideração e golpeada pelo homem no marco do capitalismo.br/…/apontamentos-sobre-… 2/3 . da qual somos signatários. urgente e necessária a defesa de que investimentos públicos sejam direcionados para a saúde. Estamos. óbvio). é pífio. atingindo cerca de 60% da população mundial que vive em zonas costeiras. Os padrões insustentáveis de produção para o consumo de uma minoria abastada e perdulária fazem com que hoje já estejamos gastando de trinta a quarenta por cento do capital que a natureza pode repor.03/05/2011 Apontamentos sobre a convergência d… e derretimento de geleiras. perdendo a oportunidade de. O que equivale dizer que é a desigualdade social profunda – que condena cerca de quatro bilhões de seres humanos à miséria em todo o mundo – que impediu.

A transferência de tecnologias relacionadas com a mudança climática aos países em desenvolvimento sem cobrança de direito de propriedade intelectual. creio. que devemos pensar as propostas para a superação da crise. Acabar com os benefícios fiscais para os combustíveis fósseis e empresas produtoras de energia nuclear. 8. Ele redefine o trajeto e o objetivo do socialismo dentro de uma estrutura ecológica e democrática. 3. e a coletivização dos meios de produção. para que possamos enfrentar a grande disjuntiva de que falava Evo Morales: “ou continuar pelo caminho do capitalismo e da morte. São propostas que vão para além do capital e do desenvolvimentismo que tem marcado a matriz de pensamento dominante. com ênfase no valor de uso em vez do valor de troca. O Ecossocialismo. “O Ecossocialismo envolve uma transformação social revolucionária. Reduzir drasticamente os gastos militares. Trata-se. 2. ex-deputado e vereador pelo PSOL em Fortaleza/Ce. Pagar indenização aos países do Sul pela destruição ecológica provada pelo Norte. especialmente: 1. além de impostos sobre combustíveis. enlace. transporte marítimo e aéreo e bens de empresas transnacionais. Um é o documento já referido assinado pelo Presidente Evo Morales. de aproveitarmos esse momento de crise como uma oportunidade em nossa luta pela construção de uma sociedade que seja a um só tempo socialmente justa e igualitária. Introduzir tarifas e impostos sobre as importações de bens de luxo. Do documento de Pequim. 4. nas energias renováveis e na recuperação ambiental. pelo Fórum dos Povos da Ásia e Europa. Vale a pena. aprovada em Pequim. nos transportes públicos com baixa produção de emissões de carbono. radicalmente democrática e étnica e culturalmente diversa. de 1% do PIB dos países desenvolvidos. A sociedade ecológica e socialista. Investir maciçamente no aumento da eficiência energética. com forte participação dos países do Sul e da sociedade civil. o outro é a Declaração. que implique a limitação do crescimento e a transformação das necessidades por uma mudança profunda dos critérios econômicos quantitativos para os qualitativos. 2. João Alfredo Telles Melo é advogado. “Estes objetivos exigem a tomada de decisão democrática na esfera econômica. O reconhecimento da dívida ecológica dos países desenvolvidos com o planeta. 6. no mínimo.03/05/2011 Apontamentos sobre a convergência d… situa-se em uma economia transformada fundada nos valores não-monetários de justiça social e de equilíbrio ecológico. através da criação de um mecanismo financeiro integral para apoiar os países em desenvolvimento na implementação de seus planos e programas de adaptação e mitigação da mudança climática. o Transnational Institute e o Focus on Global South. dois documentos são importantes como fontes para pensarmos novas propostas. e 9. É nestes marcos. Introduzir a gestão democrática de todos os mecanismos de financiamento internacional para a redução das mudanças climáticas. ou empreender o caminho da harmonia com a natureza e do respeito à vida”. Ele critica tanto a "ecologia capitalista mercado" e o socialismo produtivista. ressaltamos: 1. Parar a expansão de empresas de monocultura que são social e ambientalmente destrutivas.br/…/apontamentos-sobre-… 3/3 . ambientalmente sustentável e equilibrada. transnacionais financeiras. permitindo a sociedade de definir coletivamente seus objetivos do investimento e da produção. que ignoraram o equilíbrio e limites da terra. Da carta de Evo. em última análise. em 15 de outubro do ano próximo passado. Introduzir um sistema global de compensação para os países que não explorem reservas de combustíveis fósseis no interesse global. Somente a tomada de decisão e a posse coletiva da produção podem oferecer a perspectiva a longo prazo que é necessária para o equilíbrio e a sustentabilidade de nossos sistemas sociais e naturais”. As inovações e tecnologias relacionadas com a mudança climática devem ser de domínio público e não estar sob um regime privado de monopólio de patentes. Neste sentido. transcrever algumas de suas proposições. portanto. podemos aludir. com um aporte. 5. 7.org. professor.Aplicar critérios socioambientais a todos os empréstimos.