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A cidade no cinema

Ricardo Oliveira de Freitas - professor adjunto da UNEB e Doutor em Comunicação e Cultura/UFRJ Publicado em:

http://espacoacademico.wordpress.com/2011/09/28/a-cidade-no-

cinema/
MEDIANERAS – BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL,

ganhador dos prêmios de

Melhor Longa Estrangeiro, Melhor Diretor e Júri Popular no Festival de Gramado, é um filme de co-produção argentina, espanhola e alemã, dirigido pelo argentino Gustavo Taretto, que estreou neste mês de setembro nas salas brasileiras (antes mesmo de passar pela Argentina). Já no seu início, Medianeras deixa claro que tratará a desordem humana utilizando-se da desordem urbana como metáfora. Por isso, a cidade (nesse caso, Buenos Aires) e as aflições e desejos de boa parte das populações das metrópoles contemporâneas dão o tom à película, que, talvez, pelo fato de ser ambientada na capital portenha, muito nos faz lembrar as cenas da vida pós-moderna tratadas pela crítica cultural e literária argentina Beatriz Sarlo1. A cidade tem lugar especial no filme. Não à toa, o diretor faz menção ao clássico Manhattan, de Woody Allen, referência no conjunto de películas que têm cidades como cenários reais. O estado da solidão na multidão, da solidão ao lado, típico do individualismo da vida urbana contemporânea, é subliminarmente resolvido pelo uso e abuso da Internet e da participação em redes sociais, que, se parece provocar o isolamento mais total e absoluto do sujeito (trancafiado entre quatro paredes em frente à tela do computador), paradoxalmente, abre as portas e janelas para o mundo, provocando um tipo de sociabilidade e comunidade global, tão bem pensada por investigadores da comunicação e da cultura, debruçados sobre novos modos de sociabilidade. Assim, o filme trata de personagens angustiados pelas pressões do mundo moderno, alimentados pelo desamparo do anonimato e pelo isolamento proporcionado pelas inovações eletrônicas que, antagonicamente, tanto promovem a comunhão da grande aldeia global contemporânea como promovem o declínio das relações face-a-face. A comunicação enquanto fenômeno social tem, aliás, papel de destaque no filme, ao considerarmos a mídia, seus meios e recursos como importantes aliados na e da constituição dos modos de vida, das visões de mundo, do cotidiano das metrópoles contemporâneas.

através da assiduidade às redes sociais na Internet. das suas muitas fobias. arquiteta recém-formada. Medianeras não permite distração. O psicanalista de Martin lhe indica saídas esporádicas pela cidade a fim de fotografar cenas da vida pós-moderna. Mas. a outra personagem. A cidade estática e estética capturada pela lente da câmera é a cura para a sua fobia. que Mariana mais se sente confortável e ligada à cidade. desde o título escolhido pela tradução brasileira. é interessante e dá a leveza certa ao filme. para ele. Fora o espaço sideral. como preferem os portenhos) é cenário. flerta com a melancolia provocada pela solidão na multidão. se é um filme com expressiva participação de tomadas de externas. é o livro impresso. vive constantemente em sintonia com a cidade e com o que esta pode oferecer em termos arquitetônicos e urbanísticos. O roteiro. Mariana encontra outro ponto de fuga do turbilhão da cidade na água. Mas. com Onde está Wally?2. dando um dinamismo mais que especial à fita. Buenos Aires tem um lugar especial. que ocupará o papel principal na conclusão da trama. já que trabalha como vitrinista. Mariana. é no prédio do Planetário da Cidade e no interior deste. não por acaso. tendo. que encarar o turbilhão da movimentação da cidade. durante uma sessão de projeção. são as tomadas internas que dão o tom à película. é difícil chegar ao clube. que. tem menos opções de fuga. aos moldes do mundo de Martin. Entretanto. prendendo o espectador mesmo em cenas em que o interior de pequenas quitinetes (ou “caixas de sapatos”. já que os diálogos ágeis e sarcásticos alimentam a atenção do espectador do começo ao fim. este. A fotografia é muito bem realizada. placas e dezenas de quadros que retratam fachadas de modernos e velhos prédios valorizam a arquitetura da capital argentina e todas as suas expressões de urbanidade e modernidade. que dizem tratar-se. poucos são os personagens que compõem a trama. um dos personagens. Mariana. que beiram as raias da hipocondria e salvam Martin. Ruas.Se a sinopse (e mesmo o subtítulo brasileiro) privilegia o encontro entre os dois personagens. Martin também acredita que a natação é curativa. apesar de sequencial e previsível. fora o tabaco. de um filme sobre metrópole. através de aulas de natação. A trilha é bem escolhida e poupanos de qualquer bairrismo às formas de latinidade ao eleger o pop norte-americano como . mesmo que os vidros das vitrines a protejam do mundo exterior e lhe permitam fechar-se em um mundo próprio. painéis de elevadores. O além-da-cidade é a sua cura. Além de Martin e Mariana. através de enquadramentos de fachadas de prédios. à base do uso de muitos tranquilizantes. assim. campainhas. Aí reside outro ganho do filme: mesmo com pequeno número de personagens.

O clube de natação é um destes lugares. num meio-lugar . O grafismo está presente nas telas dos Macs. separa. num desenrolar sucessivo de junções e separações. mesmo caninas. nas pichações e intervenções gráficas que compõem a cidade. medianero. Talvez por isso. Seus prédios estão face a face. A Internet que separa. teima em se separar da matilha conduzida por uma passeadora. no livro impresso que desvirtua o amor virtual do subtítulo brasileiro. Como seu dono. que. a trilha excessivamente norte-americana parece plausível. Alías. As janelas. prefere a solidão às multidões. A geometria e o desenho dos prédios são importantes aliados do acerto na escolha das imagens. como já dito. a mídia (com seus enormes caratzes) não permite que se vejam na relação face-a-face. É entre dois desses grandes painéis que os personagens têm as suas janelas. mesmo que permitalhes o encontro pela tela e teclado do computador. sobretudo. Como é um filme em homenagem à arquitetura. A pisicina que junta. no meio da parte frontal de uma sunga masculina que anuncia famosa marca de underwear. Entretanto. Martin. Mas. abertas sem nenhum respeito às convenções de ordem pública e urbana. nas laterais maltratadas dos grandes arranha-céus (medianeras). já que a animação tem um lugar especial no filme desde o seu início. ao encontrarmos uma personagem argentina que se recusa a falar em espanhol. as cenas que jogam com a mistura entre imagem em movimento. soam muito bem. se inscrevera pela enésima vez em um clube. junta. separa. nos anúncios imobiliários. Se são muitos os desencontros que permeiam o dia a dia dos dois personagens. Na piscina abarrotada de alunos Mariana descobre que “a vida saudável é estressante”. A cidade que junta. as cenas em que as imagens estáticas dão fade para as animações (e vice-versa) são escolhas acertadas. Mariana. preferindo falar em francês ou alemão. há um tanto de semelhanças que os levam a lugares comuns. nos tapumes das obras do Teatro Colón. dando ponto positivo para a fotografia. parece exagerar no tom. nos recursos do software iPhoto e. nas faixas das vitrines. O desenho parace ter um lugar especial dentro da película.regra. Às vezes. nas laterais medianeras de dois velhos arranha-céus. Tudo isso. planos fechados em imagens quase estáticas de prédios. Mesmo o pequeno cão de Martin. não menos fóbico que seu dono. na ponta de uma grande seta. ou outra personagem que vê na saída para os Estados Unidos a possiblidade de “encontrar-se”. Um Vivem. enquadramento de croquis e panfletos imobiliários. pois. através dos enormes outdoors que dão cara à metrópole. fazem com que os personagens tenham seus vãos no meio de dois grandes outdoors. separa. A Internet que junta. chegar à psicina seja uma das fobias de Martin. já que a trilha nada diz da moderna música argentina.

Vale conferir! Ficha técnica: Medianeras . com ela. Em meio a tanto concreto. Para variar. mesmo sendo um filme sobre angústia.outro cão. merecidamente. a possível felicidade. que determinam o tempo do filme e o humor dos seus personagens. Entretanto. . Na intencionalidade entre frio e quente. se joga da varanda de um velho prédio. o diretor opta por marcar o seu roteiro através das estações climáticas do ano. não menos solitário. A cidade é fria. Medianeras é nada angustiante. o frio do inverno portenho não os ajuda a serem livres. tendo. recebido críticas bastante positivas e elogiosas da imprensa brasileira. a primavera chega e. fazer um filme leve é o grande mérito do diretor. O exemplo reside no fato de que. Como previsível. o que mostra que a liberdade tem seu preço no mundo moderno.Buenos Aires na Era do Amor Virtual Título original: Medianeras País de produção: Argentina. como são frios os bonecos manequins que ocupam o apartamento de Mariana e as suas vitrines. Espanha e Alemanha Ano: 2011 Direção: Gustavo Taretto Distribuição: Imovision Duração: 95 min. Medianeras faz isso com tanta jovialidade e leveza. que mesmo o previsto torna-se desconfigurado no filme.

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1987. Cenas da vida pós-moderna: intelectuais. arte e videocultura na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. . Where’s Wally? Sumerville: Candlewick Press. 2 HAMDFORD.1 SARLO. 1997. Martin. Beatriz.