Eixo temático: Novos modelos de Empresas Sociais e solidárias e superação da pobreza

Proposta de uma marcenaria coletiva com os princípios de economia solidária Autores: Juliano Souza Vasconcelos1, Michelle Francisco Azevedo2, Renata Cristina Geromel Meneghetti3, Tiago dos Santos Junior4, Ricardo Kucinskas5
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Universidade Federal de São Carlos, Incubadora de Cooperativas Populares

Universidade de São Paulo, Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação

Universidade Federal de São Carlos, Programa de Educação Tutorial - Conexões de Saberes em Economia Solidária
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Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Matemática

1- Introdução e Objetivo

Nos empreendimentos em economia solidária (EES), as filosofias de autogestão, democracia e cooperativismo oferecem condições inovadoras de reinserção de agentes em vulnerabilidade social no mercado de trabalho. No cenário econômico atual, com intensa e agressiva competição, vários empreendimentos buscam sempre estratégias de inovação dos serviços oferecidos, a fim de atrair cada vez mais consumidores, dentre as quais se destaca a busca por nichos de mercado pouco ou jamais explorados O sucesso de qualquer empreendimento, principalmente de um EES, é fortemente determinado pelos serviços ofertados. Sob as considerações acima, neste trabalho, pretende-se descrever o processo de criação de uma marcenaria que atuará em uma área de mercado pouco explorada, oferecendo produtos inovadores, de pequeno porte, confeccionados a partir de resíduos de madeira, como alternativa a outros materiais existentes. Por outro lado, visa-se também contribuir para a geração de renda de grupos em vulnerabilidade social e auxiliar na promoção do desenvolvimento territorial. Essa marcenaria será construída

em um bairro da cidade de São Carlos, interior do estado de São Paulo, para atender à demanda de trabalho desse bairro, o qual é formado por pessoas em situação de risco social.

2- Metodologia

O projeto do qual se refere esta pesquisa foi elaborado pelo corpo multiprofissional de uma Incubadora Regional de Cooperativas Populares da Universidade Federal de São Carlos (INCOOP/UFSCar). Na sequência, houve a captação de recursos através de agências oficiais de financiamento, os quais são destinados à compra de máquinas de marcenaria e à manutenção pessoal dos responsáveis pelo processo de criação desse EES. Uma equipe composta por estudantes de graduação e pessoas graduadas foi montada com o propósito de articular estratégias e efetivar a instalação desta marcenaria. Dentre as atividades executadas pelo grupo, é realizada a localização de fontes de matérias-primas, que compreendem resíduos de madeira de processos de fabricação de móveis, pallets, elementos de construção civil e podas de árvores de origem urbana. Também são feitas licitações para a compra das máquinas a serem utilizadas. Após a análise de possibilidades de mercado pelos membros da equipe, determinou-se que serão produzidos pequenos objetos de madeira para fins decorativos e materiais manipuláveis para o ensino e a aprendizagem da Matemática, valorizando nestes a acessibilidade (para diversos grupos e níveis cognitivos). O grupo prossegue estudando as possibilidades dos produtos a serem confeccionados e possui como membros pessoas de diversas áreas (Engenharias, Educação Matemática, Psicologia entre outras); caracterizando seu caráter multidisciplinar. Além disso, há constante interação com um grupo de pesquisa em Educação Matemática, para se discutir questões específicas concernentes ao ensino e aprendizagem em Matemática, no que se refere à elaboração de materiais didáticos alternativos. Posteriormente, a captação de recursos humanos para se associar ao

empreendimento será realizada, bem como a determinação do local de funcionamento . Parcerias serão firmadas entre vários agentes para o fornecimento da matéria-prima e entre os potenciais consumidores dos produtos confeccionados.

3- Marco teórico conceitual Nascimento (2004: p.1) caracteriza a Economia Solidária como “[...] o conjunto de empreendimentos produtivos de iniciativa coletiva, com certo grau de democracia interna e que remuneram o trabalho de forma privilegiada em relação ao capital, seja no campo ou na cidade”. Por sua vez, a autogestão é mais um “ideal” de democracia econômica e gestão coletiva que caracterizam um novo modo de produção (Singer, 2002). Contudo, este “ideal” se expressa em formas distintas nos diversos momentos da história, como possibilidades concretas dos trabalhadores constituírem suas utopias de uma sociedade igualitária e socialista.

A economia solidária, de acordo com Kraychete (2002), nos remete a um debate em um tema extremamente atual, que vem despertando o interesse de grupos populares, sindicatos, igrejas, órgãos governamentais, universidades e outros grupos sociais, mas que também suscita várias controvérsias e indagações presentes desde os ideais. Existe uma diversidade de denominações para, supostamente, o mesmo fenômeno. Trata-se de um conceito em construção. Os termos utilizados refletem o esforço de sistematização e a elaboração teórica. Domingues (2010) apud França (2003: p.33) entende que, “[...] a economia solidária é uma corrente de pensamento e de ação que visa recuperar o sentido social e ético da economia para enfrentar a desigualdade, a pobreza e a exclusão.”. Não se trata de um enfoque baseado na supremacia do indivíduo e da sua capacidade de realização, mas de um indivíduo capaz de apoiar e ser apoiado por outros e de reconhecer restrições à sua liberdade perante os direitos dos demais. Nesse sentido, pretende incidir sobre as relações sociais consubstanciadas nos intercâmbios econômicos, garantindo que estejam de acordo com os direitos e

obrigações de todos os envolvidos. A economia solidária procura a satisfação das necessidades e não a acumulação dos lucros. A futura extensão da economia solidária a todos os campos da atividade econômica é uma hipótese formulada por Singer (2000: p.23), que considera possibilidades de organização, via economia solidária, de processos produtivos e de distribuição. No entanto, para que a hipótese seja verificada, devem-se garantir as bases de sustentação da economia solidária. Dentre as várias bases, destaca-se o suporte técnico-científico, de financiamento, apoio institucional e jurídico. O planejamento dessa marcenaria leva em consideração suas possibilidades de sucesso no mercado tradicional, identificando áreas de produção e de consumo promissoras e pouco exploradas. As bases financiadoras e de apoio jurídico e institucional são garantidas pela INCOOP/UFSCar, que acumula mais de uma década de experiências com incubação desse tipo de empreendimento. Todo o suporte oferecido possibilitará a estruturação de um EES bem definido, com condições de se inserir no mercado tradicional com maior segurança. No que se refere a materiais

didáticos para o ensino e aprendizagem de Matemática, o apoio do grupo de Educação Matemática fez-se fundamental devido às peculiaridades da área na qual esses objetos se inserem.

4- Principais conclusões

A consolidação de um EES inovador oferece grandes condições de sucesso aos associados e ao empreendimento em geral. Assim, os sócios tornam-se proprietários de um empreendimento valorizado no mercado tradicional, apresentando assim a elevação dos benefícios monetários e humanos. O EES deste trabalho está em processo de implantação, mas já alimenta boas expectativas. Espera-se grande envolvimento dos associados, que compreendam e militem sob os princípios da Economia Solidária a todo instante. Também se espera o sucesso no combate à pobreza, elevando a renda e a valorização pessoal de cada cooperado e da região de localização da marcenaria, por meio do desenvolvimento territorial.

Vale salientar que nossa equipe, em conjunto com a INCOOP, já tem atuado em outro EES de mesma natureza uma marcenaria coletiva feminina rural, situada na cidade de Itapeva (sudoeste paulista). Isso tem contribuído na implantação do

empreendimento focado, que pertence à zona urbana de São Carlos. Os projetos de São Carlos e de Itapeva têm como finalidade promover o convívio do trabalho coletivo e o cooperativismo, além de fundamentos da economia solidária para a valorização do ser humano e para o bem estar social Na interação com o grupo de Educação Matemática, busca-se discutir e levantar possibilidades de materiais didáticos para o ensino e aprendizagem de Matemática que possam ser confeccionados com resíduos de madeira, a fim de gerar renda para os futuros cooperados. Além disso, esse grupo atuará também na formação e capacitação no que se refere aos conhecimentos matemáticos necessários. Percebe-se, portanto, que o caráter multidisciplinar no qual se estrutura o projeto faz-se muito importante, uma vez que com a atuação conjunta das várias instituições que formam a base de apoio à economia solidária, os empreendimentos autogestionários assumem um perfil mais agressivo, contornando as peculiaridades do mercado tradicional que debilitam a economia solidária, como a superexploração de certos nichos de mercado e a formação de trustes por empresas capitalistas.

5- Bibliografia

KRAYCHETE, Gabriel (2006). Economia Solidária: Conceitos e Contexto, São Paulo, Capina, (on-line), http://www.capina.org.br/download/pub/escc2002.pdf, (17 junho 2011).

LOMBARDI VERAGO, Josiani (2007). Autogestão e relações de mercado capitalistas: autonomia ou adaptação?, In: V Colóquio Marx & Engels, Campinas, Editora da Unicamp, 9 p. NASCIMENTO, Claudio (2004). AUTOGESTÃO E O “NOVO COOPERATIVISMO”. Texto para discussão, Ministério do Trabalho e Emprego, Brasília, (on-line), http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/prog_autogestaocooperativismo.pdf, (17 junho 2011).

SINGER, Paul (2002). Introdução à Economia Solidária, São Paulo, Editora Fundação Perseu Ábramo, 128 p.

SINGER, Paul e André Ricardo SOUZA (organizadores) (2000). Economia Solidária: um modo de Produção e distribuição, In A Economia Solidária no Brasil, São Paulo, Contexto, p.11-28.

TAVARES SOUZA DOMINGUES, Marco Paulo. ECONOMIA SOLIDÁRIA: A ECONOMIA REAL DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. In Actas do V Colóquio Ibérico de Cooperativismo e Economia Social, Santarém, (on-line),

http://www.inscoop.pt/inscoop/comunicacao/5Coloquio/Comunicacoes/Economia_Social -Solidariedade_e_Cooperacao/Economia_Solidaria__A_Economia_Real_do_Desenvolvimento_Sustentavel_-_Marco_Domingues.pdf, junho 2011). (17

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