RESENHA

O PASSADO, A MEMÓRIA, O ESQUECIMENTO: SEIS ENSAIOS DA HISTÓRIA ∗ DAS IDEIAS. 

Paolo Rossi é um historiador com uma vasta obra sobre história da filosofia e da ciência, autor de “La scienza e la filosofia dei moderni” (1989), Rossi que é professor emérito de história da filosofia na Universidade de Florença organizou importantes edições de obras de Diderot, Rousseau, Vico e Bacon. Seu livro, um conjunto de ensaios, no original; “II passato, la memória, I’oblio” (1991), recebeu o prêmio Viareggio em 1992. O livro, como o título sugere é constituído de seis capítulos, no entanto, apenas quatro foram produzidos deliberadamente para este fim, os capítulos dois e cinco eram artigos que foram produzidos respectivamente em 1987 e 1989, enquanto o livro foi publicado na Itália em 1991. A obra só veio a ser publicada no Brasil no ano de 2007. Na introdução Rossi expressa suas “preferências” teóricometodológicas, na prática, o autor rejeita uma filosofia do sujeito histórico ligada ao “destino do ocidente”, ao contrário, entende que há objetos flutuantes no tempo passíveis de serem problematizados nas suas particularidades. Quanto a noção de “história das ideias”, Rossi diz tê-la introduzida no subtítulo do livro com intuito de distinguir seu trabalho de uma história filosófica ou epistemológica. O capítulo um “Lembrar e esquecer”, não deixa de ser uma introdução ao tema principal do livro; o papel do esquecimento e da reminiscência na história. Uma frase que exprime as inquietações do autor encontra-se na página 20, “mas é o esquecimento que suscita a memória e permite voltar-se para o esquecido.” O capítulo é dividido em três subtítulos, no primeiro, o autor pretende esclarecer os significados da “memória” e do “esquecimento”, Rossi faz desta forma, uma breve introdução ao tema de seu objeto de pesquisa que ele chama de “as artes da memória”, descrevendo como o objeto memória/esquecimento vem sendo tratado na tradição filosófica. Rossi revela os jogos de força que estão por trás do que aparece e do que é ocultado, no cotidiano somos “lembrados” constantemente do que não devemos esquecer, ambientes carregados de significados são construídos com o intuito de nos fazer lembrar. A memória, entretanto,

Resenha de Jonatas Carlos de Carvalho, mestrando pelo Programa de Pós Graduação em História Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, bolsista do CAPES. Ano 2011/1. ∗ Resenha foi produzida com base em: ROSSI, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento: seis ensaios da história das ideias. Tradução: Nilson Moulin. São Paulo, Editora UNESP, 2010. 240p.

A técnica comum empregada. como os estudos de Alexandre Luria. nele. na tentativa de construir um passado conveniente. Rossi procura demonstrar que as artes de memória como técnica e método nas tradições antigas com o tempo e as novas formas de racionalidade. subtraindo da história a verdade. tais casos eram tratados por seus relatores como artistas da memória. nos anos anteriores (meados dos setecentos) tais indivíduos eram tratados como superdotados e não como alguém seguidor e praticante de um tipo de arte. Rossi retorna ao movimento da “contrarreforma” mencionando vários tratados de ciência e filosofia que foram condenados ao índice (Index Librorium Proibitorium).não está relacionada apenas ao passado. ocultações e sumiços. Já na época de Cícero tratava de uma habilidade transmissível e assimilável. em alguns. apagamentos. embora alguns mnemonistas tenham dificuldades de explicar seus métodos. mas um apagamento que tem por finalidade ocultar e destruir a verdade. O terceiro e último subtítulo do capítulo primeiro chama-se “Os assassinos da memória”. obras inteiras teriam sido reescritas. foram esquecidas e na contemporaneidade traduzidas na forma de patologias. são cinco páginas que nos conduz a perceber que “ressurgir de um passado que foi apagado é muito mais difícil que lembrar de coisas esquecidas”. O capítulo é iniciado com a transcrição de vários casos relatados nos séculos XV. discípulo de Vygotsky sobre o homem que nada esquecia. O capítulo termina com uma breve análise das tentativas de apagar a memória da guerra. Nossa contemporaneidade é marcada por censuras.XVI e XVII até os mais recentes. contudo o autor nos afirma que os apagamentos que se sucederam no século XX nada devem ao período mais remoto da história. No capítulo dois. a conclusão a que se chega é que não havia diferença na capacidade de memorização dos “personagens”. escreve Rossi. Rossi percebe ainda que no contexto dos gabinetes neurológicos e hospitais psiquiátricos havia total desconhecimento da existência de uma tradição milenar de ars memorativa. ela também é vinculada a identidade o que nos permite pensar e ter expectativas sobre o futuro. Rossi percebe que os relatos dos séculos passados. sobretudo aquela dos campos de concentração. . mas o contexto e os métodos empregados para se avaliar eram totalmente diversos. Rossi realiza uma interessante discussão sobre aqueles “apagamentos” que não estão relacionados somente com as substituições das antigas verdades por novas. as técnicas e os métodos empregados eram descritos pelos próprios mnemonistas.

e contesta apresentando o . O capítulo encerra com uma questão: ter esquecido. também faz referência aos “profissionais da imagem”. A partir daí. Rossi discute a relação do tempo linear e do tempo cíclico. E verifica que a posição pela manutenção das mesmas na igreja católica defendida no concílio de Trento. Rossi está atrás das transfigurações e renascimentos da arte da memória. a criação de fichários. visava alcançar os iletrados. a imagem passa a ser o grande tema do capítulo. guias. Rossi critica o posicionamento de que a modernidade possa ser colocada na categoria de tempo linear. para o autor. dentre eles estão aqueles que irão preterir a memória. uma imagem de um santo pode ser reconhecida entre diferentes povos. as campanhas de publicidade e o marketing e as técnicas de leitura dinâmica são alguns exemplos deste renascimento. Assim ao mesmo tempo em que a igreja proibia a leitura dos textos sagrados nas línguas vernáculas. produzia seus manuais de catecismos repletos de imagens e ilustrações que eram carregados de sentidos. manuais. diz Rossi. onde a força da imagem aparece como recurso mnemônico. Trechos de obras de Inácio de Loyola (1535) e outros jesuítas são citados como exemplos de como a imagem era invocada para se chegar a consciência das coisas celestiais e infernais. uma “capacidade visual” capaz de estabelecer ‘combinações” com a fala e o pensamento. Rossi utiliza como exemplo o debate entre católicos e protestantes sobre a utilização de imagens como objeto de culto. Por fim. no mundo não letrado. não contínuas.é a utilização da imagem. ou seja. cenas que “falavam sozinhas”. O capítulo três “Vicissitudo rerum” (vicissitudes das coisas). desta forma ele aponta como formas de transfigurações as obras dos Jesuítas e da cultura barroca. como forma de universalizar a crença. a partir da imaginação era possível “sentir” e “perceber” esses dois mundos. Outro ponto importante é o papel da imagem na vida das pessoas simples. na psicologia social e comportamental. Rossi. Mas no capítulo três. apagado ou removido a arte da memória nos tornou mais difícil o conhecimento dos modos pelos quais se organiza o arquivo de nossos conhecimentos e a compreensão as vias de acesso àquele arquivo? A “arte da memória” desaparece. enciclopédias e mais tarde. pode-se verificar uma sucessão de recorrências. devido a vários fatores. os computadores e os bancos de dados fizeram da memória uma arte obsoleta. ele vê o renascimento da arte mnemônica sendo utilizadas nas atuais disciplinas sociais.

Assim.argumento antidicotômico. pois o primeiro segundo Rossi. Rossi segue com a discussão sobre a relação ambivalente do tempo entre os modernos. por sua vez. ficou conhecido como um dos maiores teóricos da ideia de progresso linear. tratou-se da retomada de uma concepção de tempo histórico. Bacon e Newton. isto é. Em seguida. os temas da antiguidade. O autor afirma que a redescoberta da ciência grega e árabe obrigou a escolástica medieval e assimilar uma visão física de mundo distinta da cosmologia bíblica e embora a relação entre esta visões de tempo tenham causado transtornos. acreditava que Deus criara o universo. avançando até Freud e Jung. Estes pensadores a quem Rossi recorre perceberam cada um ao seu modo que a modernidade não poderia ser colocada sob o signo unívoco da unilinearidade do tempo (p. sobretudo o modo como . agora é o passado o objeto de estudo. Newton. tornam a emergir e permanecem. A escolha de Bacon e Newton é proposital. do mundo estático é também para Rossi. crescimento. Rossi cita novos teóricos. A “flecha do tempo” e o “ciclo do tempo” são metáforas que segundo Rossi levaram os modernos a uma “tensão essencial. a tese de Bacon era do caráter cíclico do tempo e da eternidade do mundo.108). um mover que poderia progredir em direção ao “retorno” da verdadeira filosofia sepultada nas trevas por muito tempo (p. Assim o capitulo se desenvolve em um grande artigo sobre história das ciências. Bacon defendia uma visão da história onde os ciclos se davam numa ordem de começo. de uma forma ou de outra são retomadas nos textos modernos. porém reordenava o mundo de tempos em tempos. se vale de dois pensadores clássicos. O título do capítulo é uma alusão a um dos ensaios de Bacon “Of Vicissitude of Things”. para ele há uma simultaneidade e coexistência complexa das duas concepções de tempo entre os modernos. mas dessa vez ele utiliza os do século XVIII e XIX. as guerras. as coisas humanas. se nos três primeiros capítulos era a memória. Rossi cita também Giordano Bruno. as epidemias. afirma Rossi. O teórico da ciência mecanicista. as invasões. retoma a metáfora da flecha alegando que tal concepção se mistura imprevisivelmente a concepção de ciclo. As vicissitudes “naturais das coisas” fazem com que as “tábuas dos náufragos” (os fragmentos da filosofia).131). Todo o universo filosófico.” No capítulo seguinte. já o segundo é reconhecido como teórico da concepção estática da natureza. a noção cíclica de tempo no pensamento de Bacon. o ensaio revela segundo Rossi. estabilidade e declínio. para ancorar seu posicionamento e enriquecer o debate. adepto de uma cosmogonia cíclica. para quem a “roda do tempo se move perto do próprio centro”.

ou seja. Rossi cita Comte quando disse que a criança é réplica do homem primitivo. o jovem. segundo Rossi Freud nunca abandonara o “lamarckismo” (p. a libido. O inconsciente é neste caso. A ideia de seleção natural influencia a sociedade intelectualizada. adolescência. cuja teoria postula que a ontogênese. estaria relacionado diretamente a um modelo de ciência que se baseava nas similaridades e semelhanças. maturidade velhice. por exemplo. isto é o desenvolvimento individual dos embriões. mas tanto Pascal quanto Spengler. uma ciência que reuni a filologia e a filosofia. Rossi ainda cita outros trabalhos de Freud como a sua introdução à psicanálise onde aparecem estas analogias. por exemplo. Vico. as analogias entre indivíduo e espécie se tornam lugar comum entre os darwinistas sociais e outros evolucionistas. a humanidade passou pelas “fases” da infância. Jung por sua vez. atesta Rossi. Outras formas de retorno ao passado são colocadas pelo autor. acreditava que nas neuroses dos adultos poderiam ser encontrados além da “criança”. do homem medieval e o adulto do cientista positivo. os significados idênticos em diferentes situações históricotemporais (p. da filogênese e desenvolvimento da espécie. um . Freud. O paradigma do retorno do passado ultrapassa o século XIX. Para Vico as concepções de tempo histórico (linear e cíclico) são necessárias. é visto como “heranças” do desenvolvimento da humanidade. mas a teoria da recapitulação alcança sujeitos como Freud e Jung. a variedade. As histórias das sociedades são contadas. quanto fazendo referências e contrastes. desenvolve a noção de arquétipo para expressar uma inconsciência humana que constrói na coletividade.150). tanto de modo linear. com isso se poderia captar a simultaneidade. o “homem primitivo”. remetiam o ciclo temporal ao ciclo biológico. Um passado que retorna e tem sentidos diferentes.138). para Rossi. mas de uma forma ou de outra atesta a complexidade paradigmática da relação do homem com o tempo. não há razão para escolher uma em detrimento de outra. um depósito da experiência humana. é uma “recapitulação” ainda que abreviada e imperfeita.a modernidade lidou com o passado. O paralelismo entre o indivíduo e a espécie. abandona o paralelismo e evoca uma nova ciência. como a doutrina da recapitulação. Primeiramente o paralelismo que se estabelece entre o ciclo temporal e o ciclo biológico. escreve Rossi. este paralelismo remonta Agostinho. A história da humanidade passa a ser comparada ao ciclo da vida.

apriori desta experiência. que as teses de recapitulação estão sendo retomadas na contemporaneidade. mas um tipo de derrota que não envolve o derramamento de sangue. as novas descobertas lançam ao porão as velhas posições. falar de esquecimento na ciência é de algum modo falar de progresso da ciência. . O autor firma que quando uma ciência se constitui solidamente. onde se distingue o que ainda funciona do que não é mais funcional. são com os fósseis que Rossi pretende se ocupar. Rossi retoma o tema da história das ciências. A superação concerne valor ao esquecimento. mas também seu objetivo. quando este escreveu que todo trabalho científico quer ser superado. mas nem por isso compreende pior o passado. Estes manuais ao serem reescritos revelarão inúmeros cancelamentos e adequações atualizadas e a cada nova edição desaparecem informações outrora verdadeiras. o historiador da ciência se ocupa da história dos vencidos. No sexto e último capítulo. Rossi volta ao tema do esquecimento com ênfase na relação deste com a ciência. Os manuais de ciência apresentam apenas questões já solucionadas. daí a menção a Weber. aqueles que foram deliberadamente deixados para trás. O progresso não é dirigido rumo a alguma coisa. seus especialistas esquecem o passado do próprio saber (p. Este teria o compromisso em encontrar os objetos esquecidos. discuti o papel do historiador da ciência como algo peculiar. e que ser superado cientificamente não deveria ser só destino do cientista. mas superadas pelos novos saberes. se por um lado avança em direção ao progresso. Por fim. Para além da questão da descontinuidade da história de Bachelard e Camguilhem. O capítulo termina de modo surpreendente com um conjunto de questões formuladas por Rossi que tomam mais de duas páginas. mas há ao menos uma constatação. O capítulo foi constituído de subtítulos onde se percebe o papel da ciência no esquecimento. distanciando-se desta forma de vários objetos e do próprio tempo histórico.171). O progresso e os saberes científicos estão intimamente ligados a processos de seleção. A ciência.

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