JOSÉ PEREIRA MALVEIRO GUERREIRO

ORDENS RELIGIOSO-MILITARES. BELLUM JUSTUM. CONSIDERAÇÕES SÓCIO-ECONÓMICAS SOBRE O CONTEXTO HISTÓRICO DA OUTORGA DO FORAL DE GARVÃO

Professor: Henrique Pinto

Universidade Lusófona De Humanidades E Tecnologias
Departamento De Humanidades

LISBOA 2011

1

. BELLUM JUSTUM. CONSIDERAÇÕES SÓCIO-ECONÓMICAS SOBRE O CONTEXTO HISTÓRICO DA OUTORGA DO FORAL DE GARVÃO Trabalho apresentado para a cadeira de “Igrejas Cristãs e Cristianismo”. Professor: Henrique Pinto Universidade Lusófona De Humanidades E Tecnologias Departamento De Humanidades LISBOA 2011 2 . conferido pela Universidade lusófona de Humanidades e Tecnologias.JOSÉ PEREIRA MALVEIRO GUERREIRO ORDENS RELIGIOSO-MILITARES. no curso de Mestrado em Ciências da Religião.

e como os conceitos de Agostinho e de Bernardo sobre a guerra justa vão chegar até ao papa Inocêncio III para justificar as cruzadas.Resumo Este trabalho debruça-se sobre a as condições históricas e sócio-económicas do princípio da nacionalidade. às povoações de fronteira como o caso do extinto concelho medieval de Garvão. e a sua legitimação através dos próprios escritos das escrituras sagradas que condenavam a violência. primeiro numa postura de assistência. 3 . Garvão. Palavras chave: Ordens militares. as cruzadas num contexto mais ocidental como a península Ibérica e a visão agostiniana acerca de guerra justa. Aborda o problema da segurança dos peregrinos que se dirigiam à terra santa em procissão ao santo sepulcro. Santo Agostinho. também. Foral. Pretende-se entender. depois numa postura defensiva: logo militar. que levaram às necessidades de defesa e povoamento do reino e. A Igreja vai ao longo da Idade Média construindo uma ideia sobre a guerra que vai se diferenciar da pregação dos primeiros cristãos. Concelhos. pela ordem militar de Santiago. Guerra justa. o cavaleiro de Cristo vai ser formulada desde o século IV até meados do século X. A reflexão agostiniana em muito vai ser responsável por essa mudança. a concepção do miles Christi. daí o nascimento das ordens militares. às respectivas outorgas das cartas foralengas.

.... 17 4 .......2....3..............................…………... A ordem de Santiago em Portugal ……………………. ......... – Contexto Ibérico 2............. 16 Bibliografia ..1......................................... 8 1...… 13 2....................... Ordens religioso-militares em Portugal ………………...................Índice Resumo Introdução ...2...................... 14 Conclusão ...... Bellum Justum – A retórica legitimadora …………………... 10 Capítulo 2......................…................................................................ Cruzadas e Ordens religioso-militares …………………........... 7 1.............. Factores Sócio-económicos ………………............Contexto Histórico 1. 5 Capítulo 1...............1......

origem na dedicação de cavaleiros europeus em prosseguir o cumprimento de seu voto ou propósito de cruzada. era santificada. é importante para perceber o enquadramento geral e em que condições históricas foi outorgado o Foral à vila de Garvão. a instituição das ordens militares de Cavalaria. a dos Hospitalários de São João de Jerusalém. os maometanos permaneceram senhores das vastas regiões que a circundavam. Entendia-se que. Após a conquista da Cidade Santa. portanto. já no âmbito das Cruzadas. A guerra. após as grandes invasões do século V. era um facto que não excluía a santificação do guerreiro de Deus. a sacralização da cavalaria e. não ensinou o pacifismo às culturas bárbaras que. todas. Pelo contrário: ensinou-lhes o 5 . as Tréguas de Deus.INTRODUÇÃO Este trabalho representa o início da pesquisa feita para a dissertação de mestrado a ser apresentado no final do segundo ciclo em Ciências da Religião. Apesar da dissertação não tratar especificamente sobre as ordens militares ou sobre o movimento cruzadístico que se desenvolveu na Europa. a Igreja lapidou a sua doutrina acerca das noções de guerra justa e de guerra santa. Tal compreensão será adaptada posteriormente na Baixa Idade Média. obrigando-se por voto e desempenhando as suas actividades militares por dedicação religiosa. tornando as rotas de peregrinos inseguras. São bem conhecidas as operações da Pax Dei. Uma das consequências mais imediatas da conquista de Jerusalém. a Igreja Católica teve extrema dificuldade para controlar a belicosidade dos europeus. a sua compreensão. a prática da vida militar era consagrada. para a recuperação dos lugares santos na Palestina. foi a constituição de ordens religioso-militares de cavalaria. protegendo os peregrinos e também assistindo-os nas suas doenças. quando o papa Inocêncio III usará as ideias de Santo Agostinho para justificar os motivos que levou às cruzadas. As primeiras ordens de cunho religioso e militar – a dos Templários. e dos conceitos que justificavam a guerra justa na visão agostiniana. Pouco a pouco. a do Santo Sepulcro. a dos Cavaleiros Teutônicos – tiveram. por fim. se mesclaram à cultura romana. Por ser considerada natural pela sociedade de então. em 1099.

embora geralmente se suponha que o Cristianismo. Na realidade. no decurso dos séculos. a teoria da guerra justa. 6 . no seu início. a Igreja sempre viu com bons olhos a condição militar.ideal da guerra justa. no âmbito das Cruzadas. o ideal do guerreiro cristão. das Ordens militares. o ideal da Cavalaria. e a sua justificação teológica. recorrendo inicialmente à fundamentação bíblica. tenha sido uma religião eminentemente pacifista e somente pouco a pouco tenha desenvolvido.

(1991). com indulgências e remimento de pecados em tudo idênticas às outorgadas aos que iam à terra santa. P. 1991) “Pese embora que no ano de 1241 a 18 de Fevereiro. unilinear e masculina. o Capelo”. Lisboa: Editorial Presença. in: Cunha. nos países pós-Pirenéus. Afonso III. marcava a sociedade europeia (Marques. que ameaçavam os lugares santos. em relação ao Marques A. o pontífice concedia indulgências de cruzadas a todos aqueles que o ajudassem na sua luta contra os sarracenos e na ocupação de terras abandonadas que por ele (D.Contexto Histórico 1. restava-lhes somente a via clerical ou militar. não só reclamando um espaço territorial ancestral mas unida numa fé comum. afastados da linha sucessiva e de qualquer herança. A par do aumento demográfico. M. igualmente. P. desempenhar uma acção importante nas pretensões ao trono pelo Conde de Bolonha. 73. 1 7 . 4 Esta classe de nobres. (…) em Outubro de 1234. A sociedade na transição do século XI para o século XIII era marcada por profundas alterações no mundo cristão: um forte crescimento demográfico. 1991) A reconquista aos infiéis na península Ibérica promovida pelos vários reinos cristãos. principalmente os nobres. 1. A Ordem Militar de Santiago (das origens a 1327). 3 Transcrita em vernáculo na crónica de D. 2 (Cunha. (1997). segundogénitos. 2 José Mattoso. segundo o exemplo da sucessão régia. (1991). Sancho II) fossem conquistadas”. A Ordem Militar de Santiago (das origens a 1327). Factores Sócio-económicos. futuro D. 73. Dissertação de Mestrado em História Medieval apresentada à Faculdade de Letras do Porto. descendentes do reino visigótico que se tinham refugiado nas montanhas a norte da península. P. Sancho II. M. (…)3(Cunha. Afonso III em oposição ao seu irmão D. na península ibérica processava-se um movimento de reconquista. no reinado de D. observava-se uma certa instabilidade provocada pelos filhos segundogénitos.CAPÍTULO 1 . in: Cunha. tinha todos os condimentos para a ajuda das cruzadas e da vinda de cavaleiros pós-Pirenéus afastados da linha linhagística4 cujo caso mais paradigmático. Sancho II. História de Portugal: das origens ao renascimento. 150 e seguintes. a concederem ao rei o seu auxílio na luta contra os muçulmanos. reservada ao filho mais velho. Sancho II. a santa sé tenha exortado os portugueses. Porto. iriam. 1997)1: na terra santa a defesa do santo sepulcro e dos peregrinos exigia medidas defensivas por parte dos cristãos contra os infiéis. “D.

Se a pressão demográfica. assistiu-se à constituição de ordens militares-religiosas na terra santa. e a consolidação não só territorial. J.6 (Mattoso. Roberto.5 pai de D Afonso Henriques. teremos. Quarto filho do duque Henrique de Borgonha e de Sibila.futuro reino de Portugal. ao longo do século XII. Lisboa: Estampa. duque de Borgonha-Baixa. também. na Europa e o afastamento dos filhos segundogénitos da herança familiar explica as cruzadas. Este novo conceito de milícia-cristã conciliava as necessidades tanto assistenciais como defensivas nesta nova figura do monge-cavaleiro. não deixará. 5 8 . por esta altura. Henrique de Borgonha. Se o aumento populacional a que se assistia. 14 e 26. era igualmente neto de Roberto I. onde de facto se poderá encontrar o ideal deste monges-cavaleiros e em cujo contexto global cruzadistico não se poderão desassociar. 6 Mattoso. a progressão deste movimento unificador. Identificação de um país. e bisneto do rei da França. dinamizada pelo rei. as assimetrias regionais encontradas no território. quando o protagonismo dos freires resultava na defesa dos lugares Nasceu em Dijon por volta de 1057. Apesar das diferenças culturais entre um Norte Cristão e um Sul Islamizado. 1995) 1. (1995). de absorver politicamente e culturalmente o Centro e Sul na unidade política em formação “Portucale”. mesmo para aqueles nascidos longe do espaço onde teve origem este movimento de reconquista. de colocar a própria fundação da identidade nacional nestes factores. 13. misturou gentes com origem em várias procedências. Cruzadas e Ordens religioso-militares A fundação das ordens religioso-militares encontra-se. a confirmar-se a extensão desse crescimento demográfico à Península Ibérica. na necessidade de assistência aos peregrinos que visitavam a terra Santa. 2. mas essencialmente religioso-cultural. e faleceu em 1114 na cidade de Astorga. moldou assim o conceito de nacionalidade. absorve. “(…) esta nova função guerreira acaba por ser aceite. P. cujo conceito de uma posição meramente assistêncial evoluíram para uma posição de defesa e posteriormente para a conquista territorial como se veio a observar nas cruzadas. inevitavelmente. vinda do norte. por estes motivos. encontra-se na figura do conde D. Ensaio sobre as origens de Portugal (1096-1325). primeiro rei de Portugal. principalmente depois da primeira cruzada e da conquista de Jerusalém em 1099. originalmente.

9 . constituindo uma força militar permanente que colabora com a monarquia. que não esconde as suas pretensões hegemónicas no universo feudal. não somente numa perspectiva marcada pela expansão territorial. cerca de 1119. os freires vivem sob uma regra. Incorporam desta forma.as Cruzadas -. Os Hospitalários. Dissertação de mestrado em História Medieval e do Renascimento. nos seus primórdios. ao ofício da guerra. não se dedicando. P. entendidas estas. personificam a conciliação do ideal monástico com a cavalaria. os seus princípios fundacionais não são exactamente os mesmos.”7 (Fernandes. como um instrumento ao serviço de um Papado. a análise das Ordens Militares não pode nunca ser separada do contexto em que nascem . Atendendo à sua perspectiva monástica. juram votos de pobreza. tendo tomado votos de pobreza. depois de uma primeira fase de existência. mas também. 2002) As Ordens monástico militares. estes miles Christi consagram-se à Guerra Santa. castidade e obediência. mas com a função especial de proteger dos ataques islâmicos os peregrinos que se dirigiam à Terra Santa ou de prestar assistência aqueles que dela necessitavam. Apesar de partilharem a antiguidade de formação. Porto. Contudo. M. Assim. Estas características contribuem de forma decisiva para a definição destas instituições. Por seu lado. de acordo com a conjuntura do reino que os enquadra e com a política régia que animava a luta contra o infiel. tal como acontecia no caso específico da Ordem do Hospital. dado que privilegiavam uma faceta assistencial de apoio aos peregrinos em jornada à Terra Santa. dois conceitos distintos e aparentemente contraditórios: uma vertente monástica associada a uma acção guerreira. por um grupo de cavaleiros que aí se dirigiam em peregrinação. A Ordem Militar de Santiago no século XIV. pela remissão dos seus pecados e tendo como 7 Fernandes.santos da ameaça do Islão e na reconquista territorial em cenários mais ocidentais. (2002). na sua vertente guerreira. Entre as primeiras Ordens Militares contam-se as do Hospital e do Templo criadas na Terra Santa para auxiliar os peregrinos. como. castidade e obediência. apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tratavam-se de ordens religiosas. a Ordem do Templo é fundada em Jerusalém. algo similares às ordens monásticas no seu modo de viver. na península Ibérica. estão dependentes de uma casa-conventual. foram formalmente reconhecidos por bula de 1113. 32. oriundas do movimento de Cruzada. por exemplo.

38-42. Instituídas no século XII. De facto várias são as passagens existentes tanto na Bíblia como noutros escritos. tendo proliferado de forma rápida sob o olhar atento e protector dos monarcas. 1. a condenarem o uso da violência e da guerra. porque todos os que tomarem espada morrerão à espada”. também na Península Ibérica vão exercer a sua actuação. Segundo S. que se encontra a justificação 10 . contribuiu para fortalecer o ideal e os objectivos da Cruzada. subjacentes ao processo da Reconquista. essencialmente em reinos onde a oposição entre cristãos e muçulmanos criavam situações de conflito. para a justificação moral. travando um duplo conflito com a carne e com as forças invisíveis do mal e representando uma combinação única das figuras de cavaleiro e de monge. ou simplesmente a introdução nesta região daquelas já aí existentes. porque serão chamados filhos de Deus” ou em Mateus 26-52: “Põe a tua espada no seu lugar. os Templários representavam «um novo tipo de cavalaria. Esta evolução de uma religião que nas palavras dos primeiros patriarcas condenava o uso da violência e da guerra. 3. em nome de Deus. Estes institutos internacionais são em breve seguidos pelo estabelecimento das Ordens Ibéricas. e mais tarde com a dos Hospitalários. e Lucas VI. apresenta-lhe também a outra” ou em Mateus 5-9: “Bem-aventurados os pacíficos. contrariava as escrituras cristãs primitivas. criadas ab initio para funções guerreiras e assistenciais. Na verdade. surge com a intervenção na luta contra o Infiel da Ordem do Templo. O atenuar das fronteiras existentes entre o mundo bélico e o mundo religioso. também é nos mesmos livros sagrados tanto no Novo como no Antigo Testamento. da “Guerra Santa”.missão defender os peregrinos de ataques dos salteadores. Se por um lado esta condenação se pode encontrar em Mateus V. considerados sagrados para os cristãos. as Ordens militares rapidamente encontraram condições favoráveis para o seu desenvolvimento. redigido em 1128. respectivamente. desconhecida até então no mundo secular». a criação na Península Ibérica de Ordens Religiosas e Militares com os mesmos fins das criadas na Palestina. mas se alguém te bater na tua face direita. Bernardo de Clairvaux no seu De laude novae militiae. Neste contexto. 27-36 5-39: “Digo-vos que não resistais ao mal. Bellum Justum – A retórica legitimadora.

pelo menos a que vinha de Roma. Logo a partir do século IV. são os violentos que o conquistam”. para que sejam freados os maus e favorecidos os bons”. Na Bíblia. nomeadamente Santo Agostinho8 considerado um dos doutores da igreja e cujos escritos influenciou e moldou a religião cristã nos séculos seguintes. divide o mundo entre o bem e o mal) e o cepticismo (corrente filosófica originária da Grécia antiga que coloca em questão se o saber adquirido e a certeza absoluta são possíveis) e só mais tarde em 387 se converte e é baptizado na religião cristã. com a consolidação do cristianismo assegurada e o estabelecimento do papado em Roma. É como Bispo de Hipona que Santo Agostinho (354-430) desenvolve uma intensa actividade pastoral e intelectual que irão marcar o mundo cristão. mas a espada”. se o cristianismo inicial assentava a sua base doutrinal numa postura pacifista. tornava-se. primeiramente contra o uso da violência. era também preciso assegurar a primazia do Vaticano no plano temporal. Os teóricos da Igreja. 8 11 . sendo a guerra a forma de extinguir os infiéis e alcançar a paz. já não era só os proveitos do conforto espiritual que estava em causa. Santo Agostinho aborda a questão da guerra. Filho de mãe cristã começa por abraçar o maniqueísmo (filosofia religiosa que surgiu na Pérsia no século III. são frequentes as referências ao uso da violência como em Mateus 11-12: “O Reino de Deus adquire-se pela força. até as guerras são pacíficas. pois é o desejo a paz que os move. encontraram nos próprios livros sagrados referencias para a justificação moral da guerra santa e da violência. posteriormente preconiza a guerra justa. Se no seu livro Contra Fausto. necessário justificar militarmente não só a defesa de Roma fase às ameaças das tribos barbaras europeias como inclusivamente expandir o cristianismo e defender os locais considerados sagrados pelos cristãos.para a guerra e o emprego da violência. já com 33 anos. não vim trazer a paz. De facto Santo Agostinho (354-430). depois da consolidação do poder cristão e do papado em Roma. agora. tanto numa postura defensiva como ofensiva. agora. esta postura iria-se alterar. onde se encontrava. Assim. talvez traumatizado pela tomada de Roma por Alarico. observou-se ao longo de vários anos e de vários concílios a moldagem da religião cristã. às necessidades mais mundanas dos homens que a representavam. e não a cobiça ou a crueldade. ou em Mateus 10-34: “Não julgueis que vim trazer a paz à Terra. já na obra posterior A Cidade de Deus defende claramente a guerra contra os pagãos. e afirma que: “Entre os verdadeiros adoradores de Deus.

Nas pinturas do Apocalipse de Lorvão é a espada ou a cruz que corta as cabeças? Símbolo humano de retenção e sacrifício. 2º edição. num movimento de conquista que se vinha a afirmar e precisava de justificação pelo papado para implementar as cruzadas. 12 . Lisboa: Caminho. Prólogo. Comunas ou Concelhos. (1986). espada que retalha e crucifica.Os fundamentos teóricos de Santo Agostinho foram mais tarde recuperados e reforçados para justificar a guerra santa. tanto Bernardo de Claraval (1090-1153) como São Tomás de Aquino (1225-1274). 9 Coelho. . justificam teologicamente o movimento cruzadistico com fundamentação bíblica e as ordens religioso-militares no conceito de guerra justa. que abre os braços e logo crava o ferro?9 (Coelho. A. a cruz virou espada. 1986).

2. um ramo desta ordem. efectivamente já há muito os reis portugueses procuravam a independência do ramo português da ordem face a Leão. para o estabelecimento das ordens religioso-militares já existentes na terra santa. Ordens religioso-militares em Portugal O processo de reconquista na península Ibérica. já tinha nomeado um cavaleiro da sua confiança para o comando da importante comenda-mor de Mértola. de aproximação ao poder régio e de uma efectiva estratégia de defesa dos territórios conquistados. A ordem de Santiago oficialmente fundada no reino de Leão a 1 de Agosto de 1170 com sede em Uclés. numa altura em que disputava as fronteiras das terras conquistadas aos muçulmanos. Dinis. terá. de facto a posse.1. para Portugal. Estas alterações de facto ditaram a independência do ramo português face a leão e ao alinhamento da ordem com o monarca português. não deixou de preocupar os reis portugueses que viam nesta dependência uma falta de fidelidade. como ficou demonstrado na crise entre o rei D. passado. quer em relação ao Muçulmanos quer em relação aos outros reinos peninsulares. no seguimento de um efectivo controle destas Ordens Religios-Militares. Dinis e o seu filho. Apesar da só em 17 de Junho de 1453 a bula papal Ex Apostolice Sedis. já em 1172. tendo. 1288. a capacidade para nomear mestre próprio através da bula Pastoralis officii. o mesmo rei D. havendo noticia da sua presença com a doação de várias castelos e praças na linha defensiva do Tejo. punha em causa a fidelidade destas ordens religioso-militares principalmente em épocas de crise e conflito como as varias vezes que opuseram os reis portugueses aos outros reinos ibéricos. de territórios e castelos reclamados pelo rei português. em que Castela apoia o pretendente e a ordem o 13 . obtido do papa Nicolau IV em. A dependência do ramo português da ordem de Santiago à sede no reino de Leão. como inclusivamente da criação de outras ordens religioso-militares de cariz tanto peninsular como nacional. por ordens e mestres dependentes doutros reinos peninsulares. em 1284. Dinis. não só. criou as condições favoráveis. desvincular o ramo português da ordem de Santiago à sua casa-mãe em Uclés. que opunha cristãos e muçulmanos. Afonso VI. o futuro D.CAPÍTULO 2. inclusivamente. durante o reinado de D.

João I) Mestre de Avis. abrindo assim caminho ao relançamento da Reconquista. tenha sido o rei que menos beneficiou directamente com a vitoria cristã de Naves de Tolosa. de Uma Fronteira e de Uma Identidade: A Margem Esquerda do Guadiana em Tempos Medievais). Apesar de. nomeadamente Alcácer do Sal em 1217. A ordem de Santiago em Portugal A actuação da Ordem religioso-militar de Santiago em Portugal. pauta-se tanto pela defesa dos territórios conquistados como na expansão territorial para sul. Afonso II. 11 Segundo certos autores. Leonor. D. Fernando) completar catorze anos. Apesar do acordo de casamento. Beatriz. 10 14 . o sucesso esmagador desta empresa ditou a desagregação do império e o enfraquecimento das ofensivas almóadas. nomeadamente Anísio Miguel De Sousa Saraiva. Leonor Teles (viúva de D. 2. Beatriz. incluindo Garvão. principalmente a partir de Navas de Tolosa11. Este apoio veio-se a mostrar fundamental na defesa das pretensões portuguesas na crise de 1383/8510 que opôs o Mestre de Avis às pretensões Leonesas/castelhanas ao trono português apesar de primeiramente a ordem de Santiago apoiar D. Na verdade. administração e consolidação territorial. É assim neste A crise de sucessão ao trono português (conhecida como crise de 1383/1385) deu-se pelo facto da única herdeira ao reino de Portugal. contudo. após a morte de D. D.2. mas não por Portugal. Mercê de inúmeras doações pelos monarcas portugueses é nos campos do sul que a ordem de Santiago vai desenvolver uma série de conquistas e. esposa do rei de leão e portanto às pretensões castelhanas. Fernando.” Contudo é inegável que o enfraquecimento das hostes muçulmanas facilitou as aspirações e as conquistas territoriais dos portugueses no Alentejo. aragoneses. Beatriz (neto de D. (futuro D. (A formação de Um Território. assim como a proibição dos corregedores reais entrarem nas terras da ordem sem autorização destas. o que provoca o descontentamento geral no reino e a aclamação de D. claramente. filha de D. consubstancia esse momento de viragem. vocacionada para e reconquista cristã da Península Ibérica. pela expedição liderada pelo exército castelhano apoiado pelos seus congéneres leoneses. na batalha das Naves de Tolosa. a hegemonia desta ordem militar e a sua importância no povoamento. expandir. Afonso VI nas crises com Castela. o rei português D. os seus já vastos territórios. prever a independência de Portugal e D. talvez devido à sua enfermidade. em 1212. não deixou de conceder grandes domínios fronteiriços às ordens militares para reforçar a salvaguardar a defesa do reino. Fernando) ficar como regente do reino até o filho de D. A atribuição do foral a várias terras. demonstra. celebrado em Salvaterra de Magos. João I de Castela. estar casada com o rei D. Fernando manda aclamar (em desacordo com o tratado) D. João. o que de facto foi positivamente aproveitado por Leão e Castela. portugueses e de além-Pirenéus. como regedor e defensor do reino. através de doações régias. A posição da Ordem religioso-militar de Santiago vai-se reforçando ao sabor da reconquista com doações territoriais e privilégios nomeadamente a nomeação de procuradores e juízes nas terras da ordem e poderes jurisdicional.“A vitória alcançada. cível e crime. à frente de cujo exercito se encontrava o Condestável D. Nuno Álvares Pereira. com a reconquista definitiva de vários lugares antes perdidos para os muçulmanos.monarca e posteriormente no apoio dado a D. navarros. Beatriz como rainha de Portugal.

1991) 12 Cunha. D. M. Panoias e Torredões. Paio Peres Correia conjuntamente com João Raimundo. 236/238. Dinis. (1991). Em 23 de Maio de 1320.12 (Cunha. A Ordem Militar de Santiago (das origens a 1327). P. Salvador de Ourique. 15 . igreja de Santa Maria. se outorga a carta de Foral de Garvão em cujas armas figura a cruz espatária. por bula do papa João XXII a D. concedia-lhe o direito de cobrar a dízima de todas as igrejas do reino incluindo as da Ordem de Santiago: assim a igreja de Garvão era taxada em 540 libras anuais. sendo mestre da Ordem de Santiago. taxada em 240 libras. Comendador de Mértola.quadro sócio-político que em Fevereiro de 1267. Ourique. 210 libras e igual valor de 210 libras para a igreja de S.

Este plenitudo potestatis vai dar a Inocêncio III a capacidade de interferir em uma série de assuntos que até há pouco tempo antes não fazia parte do alcance da cúria papal: apontamento de líderes em determinadas províncias. O papa Inocêncio III será um dos maiores responsáveis pela mudança que se observou no seio da Igreja. assim nenhum rei poderia contestar o representante de Cristo já que o seu poder ultrapassa o plano terreno. Uma das medidas tomadas por Inocêncio III e que será ratificada no IV Concílio de Latrão é a mudança na designação do título papal: de “vigário de Pedro” passa a ser “vigário de Cristo”. tanto Inocêncio IV como Bonifácio VIII. agora ele é o próprio representante de Cristo na terra. 16 . manifestarão um forte desejo de conjugar o poder temporal e poder secular nas suas mãos.Conclusão A partir do estudo de Agostinho compreendesse a formação do ideal da guerra justa. assenta essencialmente na argumentação agostiniana da guerra justa e na doutrina das ordens militares. representa um ponto de inflexão e uma série de diferenças em relação aos seus antecessores. cobrança de novas taxas. A defesa das cruzadas pelo papa Inocêncio III. o primeiro entre os apóstolos de Cristo. Agostinho desenvolveu uma teoria que atravessou todo o período medieval. venerava-se e venera-se muito mais os santos guerreiros do que propriamente os santos pensadores. Traçando uma tripla defesa da comunidade. Com isso muda-se o espectro da figura papal: o papa não é mais o representante da Igreja fundada por Pedro. É o retorno ao princípio agostiniano de uma autoridade capaz de legitimar uma guerra justa. Alicerçada em uma sólida base bíblica e fundamentada na tradição dos mártires da Igreja – ela própria construída no “sangue de seus mártires” – a guerra nunca foi um tema estranho ao pensamento medieval cristão. uma autoridade legítima e uma guerra movida com justiça. De facto os papas que se seguiram. mobilização de homens para a formação de um exército.

J. Mattoso. J. J. M. Coelho. in História do Regime Republicano em Portugal. Lisboa: Caminho.Bibliografia Azevedo. Lisboa: Bertrand. Lisboa.1. Barros. (1980). (1986). Afonso III. Historia da Administração Publica em Portugal nos séculos XII a XV. Identificação de um país. Lisboa: Editorial Presença. M. 2º edição. Lisboa: Estampa. Hespanha. (1991). Marques. (1945-1954). História de Portugal desde o começo da monarquia até ao fim do reinado de D. H. A. M. A Nobreza Medieval Portuguesa. Lisboa. Porto. Factores democráticos na formação de portugal. (1937). A Família e o Poder. Cunha.2. (1930). R. Lisboa. Dissertação de mestrado em História Medieval e do Renascimento. In História da Expansão Portuguesa no Mundo. (1981). v. (1987). Fernandes. Lisboa: Editorial Estampa. vol. Dissertação de Mestrado em História Medieval apresentada à Faculdade de Letras do Porto. Mattoso. A. Agentes colonizadores. A. Mattoso. Lisboa: Estampa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. A Ordem Militar de Santiago no século XIV. In: Territórios e Fronteiras. Lisboa. As terras doadas. (2002). Período de formação territorial: expansão pela conquista e sua consolidação pelo povoamento. 17 . (1984). Ensaio sobre as origens de Portugal (10961325). vol I. Comunas ou Concelhos. Fragmentos de Uma Composição Medieval. J.1. (1995). com prefácio e notas críticas de José MATTOSO. vol. Herculano. Os municípios portugueses: sua evolução em tempos medievais. Poder e instituições na Europa do Antigo Regime: colectânea de textos.(2001). A Ordem Militar de Santiago (das origens a 1327). História de Portugal. Porto. A. Cortesao. apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Coelho. (1997).

T. O repovoamento do Norte de Portugal no século1X». A Nobreza Medieval Portuguesa nos Séculos XI e XII. Marques A. (1997). J. (1982). por Joel Serrão e A. Mattoso. (1972). vols. T. (1931). In: Revista Ciências do Homem.Mattoso. Ricos-Homens. Lisboa. Lisboa: Editorial Presença. H. dir. Soares. in: Congresso do Mundo Português. (1940). de Oliveira Marques. H. Nova História de Portugal. Lisboa. Os Juizes. Infanções e Cavaleiros. J. Lisboa: Editorial Presença. Moreno. História de Portugal: das origens ao renascimento. 18 . Apontamentos para o estudo da origem das Instituições municipais portuguesas. Lourenço Marques. Soares. II. Lisboa: Guimarães Editores. (1993). vereadores Funcionários e Homens bons do Municipio de Serpa em 1441.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful