OTHELLO E A REALIDADE BRASILEIRA: ENCONTROS E DESENCONTROS

Universidade Federal da Bahia – Faculdade de Direito Discente: Luis Henrique Monteiro Brecci Docente: Sérgio Habib Direito Penal II

não o pode. “a ciência considera os fenômenos do mundo seguindo o fio condutor do princípio da razão. é considerado o inventor da humanidade (e guardadas as devidas proporções partilhamos desta ideia). ou mais. escrever ou agir sem retornar ao „creador‟. pois uma obra de Debussy assim o disse (fazendo um paralelo entre Newton e Einstein)? Novamente partindo de perguntas. ao passo que a arte coloca totalmente de .1. tornando concepções outrora universalmente aceitas em absurdos de inaceitável crença? No que se refere à arte.Da arte como expressão das Ideias Não nos parece ao menos curioso que no mundo científico diversas teorias se sucedem. na concepção de diversos críticos literários. é um importante recurso de legitimação à nossa pesquisa. Essa opinião. estamos presos a essa humanidade shakespeariana. presente em qualquer época e lugar. Mas quão diferente? “A arte repete em suas obras as ideias apreendidas por pura contemplação” (Schopenhauer. Neste tópico partimos da seguinte pergunta: Quais razões nos permitem traçar linhas de convergência (e divergência) entre um autor inglês do século XVI e a realidade brasileira do século XXI. no entanto. Realizando fenomenalmente esta comparação. Schopenhauer afirma. antes de tudo. uma resposta: A arte é. deixando ao leitor a faculdade de dar-se por convencido ou não. Ainda hoje. anulando umas às outras ao longo do tempo. por estar condicionada pelo princípio da razão e permeada por uma vontade do sujeito. de forma satisfatória. mesmo tendo vivido a centenas de anos atrás? É possível dizer que „Der Ring der Nibelungen‟ de Wagner somente é válida sob certas condições. Segundo. A metafísica do belo). expressa na obra de Schopenhauer. Primeiramente. Da possibilidade deste Estudo Antes de adentrar na comparação entre a obra Othello. diferente da ciência. A ciência. sem dúvida. de forma rudimentar. é necessário avaliar a possibilidade material deste estudo. aquele ente imutável. 1. impedindo o conhecimento desinteressado do objeto. a construção histórica de tal realidade? Deparamos-nos então com duas respostas que serão melhor explanadas abaixo. de Shakespeare e a realidade brasileira. Shakespeare. sendo-nos impossível pensar. se dirigir a realizar as perguntas corretas e respondê-las na medida do possível. a arte é a expressão da Ideia.1. delimitamos já. Cremos que qualquer estudo deve. por sua vez. obsoletos. Parece razoável dizer que Bach ou Paganini são ultrapassados. algo parece divergir.

em „The Decay of Lying‟: "Life imitates Art far more than Art imitates Life". O expresso na Arte é portanto imutável. Sua comparação entre Shakespeare e Freud é interessantíssima: “In fact.” . O caráter da obra em análise neste estudo. é a Ideia. E por Ideia entendemos a união do sujeito e o objeto. Bloom afirma que imita Shakespeare. Sua única diferença ao conhecimento comum é o seu caráter sistemático. uma das portas de entrada ao „Rinascimento‟ e do intercâmbio entre oriente e ocidente. Um objeto puro.Da importância de Shakespeare na „creação‟ da humanidade Iniciamos este estudo com uma frase do crítico literário americano Harold Bloom: “Shakespeare is the true multicultural author. Qualquer um que se atreva a pensar ou a escrever estará reescrevendo Romeo and Juliet ou King Lear em outras palavras. It is Shakespeare who invents Freudian Psychology. O drama de seus personagens parecem tão reais que nos vemos e afeiçoamos a eles. mas o fez em certa medida. assim como Dante no Medievo.lado este princípio.. He exists in all languages. A arte. 1. O episódio que em que Othello luta é muito bem narrado no livro „Breve storia de Venezia‟. Shakespeare.” Ler Shakespeare é como nos ver num espelho. Shakespeare nos porta até a Veneza dos „Dogi‟ do século XV. não apenas retratou a mente moderna. Como afirmou Oscar Wilde. portanto. He is put on the stage everywhere. Até mesmo se referindo à nossa ciência. Shakespeare não apenas retratou o mundo. Everyone feels that they are represented by him on the stage.2.”.] In qualche modo i Veneziani si compensarono delle perdite subite nell‟Egeo com l‟acquisizione della importante isola di Cipro. presente de forma igual em qualquer espaço ou tempo. sem relação com algo exterior e um sujeito independente de quaisquer vontades individuais. mas a „creou‟.. Materialmente. De Judas a Raskolnikov. a Idea entre em cena”. Freud finds ways of translating it into supposedly analytical vocabulary. tal é a sua força centrípeta. it is Shakespeare who gives us the map of the mind. são iguais. assim. já denota a sua pretensão de universalidade. de Giovanni Scarabello: “La pace che chiuse il conflitto comporto per Venezia il riconoscimento della presenza turca nell‟Albania e nell‟Egeo [. A ciência apenas estuda os objetos sob relações. para que. todos nós já nos perguntamos a famosa frase de Hamlet: „To be or not to be?‟. por exemplo.

O personagem central. as relações raciais são tema central. algo também associado ao negro àquela época.Seria muito difícil sustentar que a cidade de Venezia foi escolhida ao acaso. Desde já. Brabantio. nas palavras de Iago. Shakespeare e a realidade brasileira. Como não possuímos todo o espaço suficiente para uma abordagem completa da obra (as possibilidades seriam infinitas). A Europa do século XVII já descobrira o continente americano e iniciara um intenso intercâmbio comercial entre metrópole e colônia. rompendo como uma luz de novidade em meio à barbárie medieval. Todo o drama racial se inicia quando no início do livro “an old black ram is tupping your white ewe”. o das relações raciais na obra Othello e no Brasil.‟. partiremos para o verdadeiro objetivo deste estudo. tornando-a uma das cidades mais populosas do mundo àquela época. qual seja. not to delight” a não ser que a tenha sob efeito de magia (“Abused her delicate youth with drugs or minerals”). Apesar de hoje lembrada pelo seu passado. O texto. Shakespeare o sabia e tomou-o como referencial à sua obra de „creação‟ da humanidade. associado à perversão sexual (tupping). O dramaturgo inglês não escolheu este tema à toa. then its history has made it one. é de extrema ambiguidade e nos leva a diversas formas de interpretação. é um mouro (Moor) e virtuoso militar da Repubblica Veneziana. Bem Okri já afirmara. no que tange a esta questão. a República do Leão foi e é um guia para o nosso futuro. 2. através de seus personagens. mas as diversas facetas que ele revela sobre o nosso mundo. optamos por nos focar em um só tema. Documentos datam a existência de negros e mouros na própria . 200 mil pessoas já viviam na pequena ilha. como ocorre em qualquer obra de Shakespeare. de forma a trata-lo satisfatoriamente. não vê outra possibilidade para amar “such a thing as thou – to fear. „If [Othello]did not begin as a play about race. Othello. O que vale aqui não é a opinião de Shakespeare (se é que há uma). Shakespeare vislumbrara em Veneza uma espécie de nova Roma. Em Othello. Agora que analisamos e concordamos sobre a legitimidade desta análise. tanto para protagonizar o ambiente da peça Othello quanto da peça “The Merchant of Venice”. Veneza já possuía a muito uma tradição de comércio com o oriente (fazendo uma espécie de bi pólio com Gênova). pai de Desdemona. vemos o negro.

após haver matado sua esposa. agonizado. (Indicando Cassio) Quell'azzimato capitano usurpa il grado mio. you know. Othello é mostrado. tal fu il voler d'Otello. from this time forth I never will speak word‟. Shakespeare nos apresenta a um aspecto anti-racista muito simples: os personagens que professam o racismo (Iago. por sua vez. il grado mio che in cento ben pugnate battaglie ho meritato. nos demonstra uma interessante faceta do universo psíquico de Iago. a prática racista se confunde em miscelânea a outras formas de práticas malignas. eccola. As interpretações para tamanha maldade iagoniana são diversas. Mesmo quando o Mouro. Além disso. Sua verdadeira razão para prejudicar Othello optou o autor por não nos explicitar. havendo inclusive um „ambassador of the Arab King of Barbary‟ no território bretão. Iago apenas responde. . . Verdi. guarda. no leito de morte. por vezes (e em breve explicaremos o porque não sempre). Dessa forma. Personagem central nesta tragédia é Iago. Portugal. como um virtuoso chefe militar querido pela nobreza veneziana (o que não o torne um homem tão bom quanto os brancos). . „Demand me nothing: what you know. havendo inclusive adaptações dramáticas onde Iago beija Othello. “what delight shall she [Desdemona] have to look on the devil? […] Very nature will instruct her in it and compel her to some second choice”. durante a invasão dos árabes à Ibéria e naquele momento com os índios brasileiros e negros das colônias africanas. a relação entre “this poor trash of Venice” e a bela mulher da “whiter skin of hers than snow and smooth as monumental alabaster” tratava-se de algo “against nature”.Inglaterra elisabetana.l'alfiere!” Por outro lado. Por outro lado. pergunta „Why he hath thus ensnared my soul and body?‟. em sua ópera. ed io rimango di sua Moresca Signoria. A constante referência negativa à raça nos mostra o quanto a cor da pele baseia e justifica o seu plano. aquele que é considerado o grande vilão. tomado por grande inveja e cólera: “E una cagion dell'ira. Roderigo e Brabantio) são os vilões. Iago não é somente um empregado frustrado. Para Iago. já convivera com povos racialmente diversos.

“abrimos mão de estudar as relações entre as raças. em contrapartida.Mas aquilo que é relevante para a nossa interdisciplinaridade é o pioneirismo shakespeariano ao subverter aquilo que era comum na época no estudo da raça. . uma relação harmoniosa entre as diversas raças (Gilberto Freyre). brancos e mulatos. seria discutível falar em antropólogos brasileiros pré-1930. Nunca houve no Brasil.] A consequência disso é a dificuldade de combater o nosso preconceito. visto que suas teorias eram meras repetições e seleções sobre o que estava em vigor no continente europeu. Sua atitude foi de maior valia à ciência e à arte que qualquer um dos „clássicos‟ antropólogos brasileiros (Nina Rodrigues. permitindo assim realizar uma permanente miopia em relação à possibilidade de autoconhecimento”. a necessidade de uma legislação que segregasse brancos e negros. típico nos EUA (diferente do Brasil. poucas pessoas conseguem se reconhecer como racialmente vitimadas. Othello.. pelo fato de ser variável. Até a década de 1930 no Brasil as raças sempre foram estudadas de forma isolada. chegava no Brasil via de regra sem nenhum espírito crítico. não havendo necessidade de reiteração de cada posição social. Acontece que negros. como nos Estado Unidos. já possuem seu lugar marcado. preferindo sempre o estudo das raças em si mesmas [. Em verdade. escuros. pelo contrário. nos abrindo à expiações vividas por Othello em meio a seus confrontos existenciais. que em certo sentido tem. Shakespeare expressa na sua obra aquilo que a doutrina brasileira chama de preconceito de origem. Shakespeare encara as relações raciais de forma aberta.. Euclides da Cunha etc). A singularidade da segregação racial brasileira. etc..”.. O tradição europeia e brasileira pouco se preocupava com a relação social entre as raças. “O pensamente racial que gerava a discussão aberta na Europa. admitimos gradações de negros. Isto significa que “o sistema americano não admite gradações e tem forma de aplicação axiomática: uma vez que se tem sangue negro não se pode mudar jamais”. No Brasil. morenos claros. A este fato. Ainda hoje. no entanto. Skidmore afirma. na sociedade brasileira. “O nosso preconceito seria muito mais contextualizado e sofisticado do que o norte-americano [. enorme e vantajosa invisibilidade”.. índios. O racismo à brasileira é completamente divergente de qualquer outra forma. Afirma o antropólogo Roberto DaMatta. em que impera o racismo de marca).] reificamos um esquema onde o biológico se confunde com o social e o cultural. nasceram teorias enganadoras e ainda correntes no imaginário popular de que no Brasil haveria pouco ou nenhum racismo. não se distingue racialmente. Somente em um caso extremo um branco brasileiro agiria de forma tão aberta contra um negro por argumentos raciais.. não se expressa na obra inglesa.

Voltando à obra Othello. que considera uma entidade social fundamental. sustentamos. Tanto na situação da Inglaterra quanto no Brasil percebemos um „Hintergrund‟ político-social para a instituição do racismo.. para justificar a posição determinista presente em Shakespeare: A descrição do negro por Gobineau encaixasse perfeitamente em Othello. ao afirmar que seu nome agora está para a sua “begrimed and black . Seu intelecto fraco o fez vítima fácil a Iago. Mesmo portador de grandes qualidades militares e da admiração do „Doge‟. ao afirmar. “Esses modelos pareciam justificar cientificamente organizações e hierarquias tradicionais que pela primeira vez – com o final da escravidão – começavam a ser publicamente colocadas em questão”. A Inglaterra necessitava de uma idealização de homogeneidade cultural para justificar a dominação de um reino.sendo por vezes chamados de mouro (moor) ou negro (black). evolucionista francês que foi diplomata no Brasil. com a independência. por outro lado. Suas propensões animais e moralidade volátil o tornaram o cruel assassino de uma esposa linda e inocente em sua própria cama.. após a morte de Desdemona. O próprio Othello reconhece a sua inferioridade. Nos valemos do personagem principal para justifica-lo. Em ambos os casos. No Brasil. um branco inteligente. não é mais facultado à elite brasileira colocar a culpa às mazelas sociais na metrópole portuguesa. teria nascido nas sociedades modernas industriais quando aparecem estados fortemente estruturados cujo crescimento econômico exige uma cultura homogênea [. No argumento da raça. Nos valemos de uma tabela traçado por Gobineau. Aí afirma Schwarcz. a ideia de nação e povo foi clássica para a justificação dos estados e dominações modernos.] É a „tese do Estado‟ que faz a nação e produz nacionalismos”. que a obra reitera o caráter racista de sua e de nossa idade. Negros são pobres pois a raça assim os fez. o estereótipo feito sobre o negro acaba por ser confirmado na obra. a despeito de fortes divergências. explicamos o porquê tanta má distribuição de renda entre a população. Afirma Marcel Detienne “A nação. como se fossem termos verossímeis.

and while he could be valuable as a fighter he was tolerated. the more angel she. Em face de conclusão. citamos uma passagem do ator negro Paul Robeson. just as a negro who could save New York from a disaster would become a great man overnight.face”. o primeiro a encenar Othello na Broadway em 1943. everything was changed. So soon. as Othello wanted a white woman. desafiando o costume daquela época." . just as New York would be indignant if their coloured man married a white woman. however. o racismo ainda se repete. Com isso objetivamos mostrar como a obra continua atual e como. a despeito de mais de 300 anos de diferença entre os anos de 1603 e 1943. A expressão dos outros personagens face ao assassínio também o confirma (Emilia – “O. and you the blacker devil”). Escreveu Robeson: "In the Venice of that time [Othello] was in practically the same position as a coloured man in America today [1930]. Desdemona. He was a general.

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