Capítulo II. A importância do Primeiro Congresso Afrobrasileiro do Recife.

2.1 – O congresso do Recife.

A década de 1930 foi um ponto de inflexão ao marcar discussões a cerca da identidade brasileira, oriunda da mistura do branco, do negro e do índio, e neste aspecto o Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife foi de muita importância. A partir deste evento pode-se vislumbrar pesquisas em andamentos, importantes na reestruturação de algumas teorias, que pontuaram toda uma intelectualidade do início do século XX. Para muitos intelectuais como Gilberto Freyre, Edison Carneiro e tantos outros, a mudança do pensamento social em relação ao papel do negro, só foi possível graças a uma nova bibliografia, da impressão de novos documentos pertencentes em cartórios e igrejas, reveladores de um novo paradigma em relação a atuação do negro em nosso meio social e cultural, e tudo possível a partir dos trabalhos apresentados ao Congresso do Recife. “Estudos Afro-Brasileiros vão ser, sem nenhuma dúvida, um manual de consulta diária.”1 Para Roquette Pinto a iniciativa de Gilberto Freyre funcionou como um divisor de águas em relação ao pensamento social brasileiro da época, em relação ao papel sócio-cultural do negro na sociedade brasileira. Ao prefaciar o primeiro volume dos ensaios reunidos Roquette Pinto afirmou a importância da postura de Freyre e a sua disposição ao dedicar uma maior atenção ao negro em seus estudos. Chamou à atenção para alguns nomes na arte e na técnica ao estudo do negro antes, do autor de “Casa grande & senzala” como: Nina Rodrigues, Braz do Amaral e Manoel Quirino. Observou que tais estudos acerca da incorporação do negro na formação da nacionalidade brasileira só foi retardado por causa de duas condições, presentes no primeiro volume dos anais: a primeira pela educação clássica de formação portuguesa que efetuou de forma lenta a incorporação das ciências naturais (antropologia e etnografia); e a segunda, utilizada como justificativa desde o alvorecer do século XX até a década de 1930, que apontava para a incineração de documentos históricos sobre a escravidão

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PINTO, Edgar Roquette. In. Congresso afro-brasileiro. (1.: 1934: Recife). Estudos afrobrasileiros. Apresentação: José Gonsalves de Mello. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana. Pg. 10.

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determinada pelo Ministro da Fazenda Rui Barbosa na circular de nº. 29 de 13 de Maio de 1891. E foi a partir de tais dúvidas e questionamentos em relação ao papel do negro na sociedade brasileira, após a abolição, que se iniciou o Primeiro Congresso Afrobrasileiro do Recife, em 1934, com o intuito de discutir e tentar sanar esta brecha presente nas ciências sociais. Estiveram presentes com apresentação de trabalhos: José Lins do Rego – “Xangô em Alagoas”; Gilberto Freyre e Cícero Dias – “O negro na arte popular e doméstica de Pernambuco”; Renato Mendonça – “O negro no folclore e na literatura do Brasil” - Neste trabalho o autor procurou analisar uma das questões que mais interessavam a etnologia à época: o de saber as crenças religiosas dos negros africanos; Alfredo Brandão – “O negro na historia de Alagoas” - Dividida em cinco tópicos, o autor procurou analisar a importância do negro na formação social e econômica do Estado das Alagoas, desde a sua colonização.

Outros pesquisadores e estudiosos sobre o negro brasileiro foram: Adhemar Vidal – “Negros fugidos na Paraíba” - Dividida em treze tópicos, o autor procurou analisar a inserção e a importância da mão-de-obra negra na formação social, política e econômica do Estado da Paraíba; Rodrigues de Carvalho – “Influência etnológica do negro no Brasil” - Neste trabalho o autor procurou analisar a importância do negro para a vida social, política e cultural do país; Geraldo de Andrade – “Psicologia do afro-brasileiro” - Neste trabalho o autor procurou analisar a forte presença mestiça no Brasil, observando através de estudos de craneologia uma aproximação biológica entre brancos e mulatos; Jarbas Pernambucano – “Maconha em Pernambuco” - Neste trabalho o autor procurou analisar os mais variados nomes que a maconha tinha na época de sua pesquisa, tentando verificar a sua utilização por indivíduos provenientes das camadas mais baixas da sociedade pernambucana: negros e mestiços pobres; Odorico Tavares – “O negro e a poesia brasileira”; José Valadares – “Organização dos Palmares”; Aderbal Jurema – “Potencial revolucionário do negro americano”; Rubens Saldanha – “Influência indiana do negro no espírito do Direito Nacional”; Pedro Cavalcanti – “Seitas africanas no Recife” - Neste artigo o autor procurou analisar a existência de algumas seitas africanas presentes na cidade do Recife; José Lucena – “Estudo psicotécnico de dois grupos de negros e brancos”; Paulo Barros – “O negro na obra de Silvio Romero”; Nóbrega da Cunha – “Macumba no Rio de Janeiro”; Gonsalves de Mello Neto – “Situação do negro sob o dominio holandez” - Neste trabalho o autor procurou analisar a relação dos negros escravizados que aqui chegaram, a serviço da 22

além de terem realizado peças teatrais. Dr. Astrogildo Pereira – “O negro e a sua situação atual no Brasil” . do negro e do mulato no Brasil” Neste trabalho o autor procurou através de estudos. observando de forma surpreendente que a população negra apresentava uma longevidade maior do que as demais populações presentes na formação do homem brasileiro. Dr. Octavio de Freitas – “Doenças trazidas pelos negros”. Diógenes Junior – “O negro na música do Nordeste”. idêntico na África. negro e mulato no Brasil” .Neste trabalho o autor procurou analisar. Samuel Campello – “Fizeram os negros teatro no Brasil” . apresentar resultados que tiveram como fonte de pesquisa dados estatísticos recolhidos do Hospital de Psicopatas do Rio de Janeiro. revelando a existência de doenças que tinham como causa a desnutrição. O trabalho versava sobre estudos acerca das doenças mentais entre os negros e que tais moléstias se dividiam em três categorias: psicoses constitucionais.Neste trabalho o autor procurou analisar através de estudos que a alimentação dos negros aqui no Brasil se conservou. concluindo que a carência alimentar era bem acentuada no negro brasileiro. 2 33 .Neste trabalho o autor procurou analisar que através dos autos da fé os negros participaram da formação cultural do Brasil. biologicamente. Tal pesquisa procurou verificar o tempo de vida do negr. contendo apenas vegetais. Luiz Robalinho Cavalcanti – “Longevidade do branco. especialmente para os trabalhos nos engenhos de açúcar. Professor Ulysses Pernambucano – “Doenças mentais entre os negros de Pernambuco” . Na linha deste pensamento em relação ao negro brasileiro também destacamos: Fernando Mota – “Influência do negro na formação religiosa do nosso povo”. J. Ascenço Ferreira – “O que eu devo a ifluência negra”. através de fichas dos recém-nascidos na maternidade do Recife. do mulato e do branco. Gonçalves Fernandes – “A pintura e a escultura entre os afro-brasileiros”. inclusive com algumas publicações nos Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco (revista de medicina do setor de psicologia da Faculdade de Medicina do Recife). psicopatias orgânicas e psicoses tóxicas ou infecciosas. A ortografia dos trechos citados foi atualizada. as mesmas condições dos que nascidos de mães ricas.Neste trabalho o autor apresentou pesquisas que já se encontravam em andamento. Robalinho Cavalcanti – “O recém-nascido branco.colonização holandesa. que reuniram as apresentações feitas. em alguns aspectos. Dr. Concluiu que os nascidos de mães pobres tinham.2 Trabalhos retirados do periódico Jornal Pequeno de 23/10/1934 e 25/10/1934 e dos Anais volumes VI e VII. Ruy Coutinho – “A alimentação do escravo negro no Brasil” . as condições de sobrevivência destas crianças.

Di Cavalcanti. a arte dos Villa-Lobos e dos Ciceros Dias nas suas raízes mais profundas. também tomou parte no evento do Recife. Noemia. Acadêmico e publicista apresentou um valioso trabalho intitulado: “Os negros dos Palmares”. Waldir Cavalcanti crítico e um dos maiores escritores da nova geração. Estudos afro-brasileiros. Edison Carneiro considerado um dos grandes autores e pesquisadores da nova geração de escritores baianos.: Congresso afrobrasileiro. bem como a apresentação de fotografias do fotógrafo Francisco Rebello com temas afro-brasileiros. pois este ainda se encontrava à margem da sociedade. como: “quatro águas-fortes” e “duas xilogravuras”. Manoel Bandeira.”3 3 FREYRE. de sensibilidade.:1934: Recife). Como relatou Freyre: “Gente que afinal se voltara para o assumto e descobrira nessas ‘coisas de negro’ mais do que simples pitoresco: uma riqueza nova de emoção. In. Luiz Jardim. até mesmo de espiritualidade. Gilberto. 1988. No salão nobre do Teatro Santa Isabel houve exposições de objetos de cultos afro-brasileiros e de arte popular. Pg. Justino de Oliveira apresentou o trabalho intitulado: “O trabalhador negro no tempo do Bangüê comparado com o trabalhador negro no tempo das uzinas”. dentre outros.neste trabalho procurou analisar a relação do orixá Xangô com o santo católico São Jerônimo. (1.O Congresso do Recife também contou com a participação do Secretário Perpétuo do Instituto Arqueológico. Lasar Segal foi outro artista que contribuiu com o evento enviando trabalhos de sua autoria. a questão social do negro não tinha sido resolvida. O evento também contou com as participações e trabalhos dos maiores artistas da época. Editora Massangana. O Centro Religião da Humanidade do Apostolado Positivista do Brasil também participou do evento. O que foi o 1º congresso afro-brasileiro do Recife.Neste trabalho o autor procurou analisar que como o fim da escravidão. enviando todos os seus boletins referentes a situação do negro no Brasil. 44 . Neste trabalho procurou através de pesquisas analisar a formação e o cotidiano do Quilombo dos Palmares. 349. o historiador Mário Melo. como: Cícero Dias. foi outro que participou da comunicação com a apresentação do trabalho intitulado: “Situação do negro no Brasil” . Santa Rosa e Tarsila do Amaral. Apresentação: José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: FUNDAJ. uma parte grande e viva da verdadeira cultura brasileira. Além deste apresentou também um outro trabalho: “Xangô” .

Em seguida. As idéias de Juliano Moreira sobre tais grupos foram lidas na reunião de abertura por sua esposa Viúva Juliano Moreira “Juliano Moreira e o problema do negro e do mestiço no Brasil” .2. na virada do século XIX para o século XX. É interessante observar como funcionou as sessões dos trabalhos apresentados: no dia 11 de Novembro. foram apresentados os trabalhos da senhora Augusta Moreira lidas pelo presidente da mesa sobre a questão da loucura nos negros e mestiços intitulado: “Notas sobre coloridos no Brasil”. que apontavam para o negro e para o mestiço como elementos deformadores da sociedade. pode-se assistir às 15 horas. pedindo proteção e bençãos ao evento.2 – Como funcionou o Congresso do Recife? O Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife teve início no Teatro Santa Isabel. cujo o tema era discutir sobre a questão psicológica do negro e do mestiço. às 17 horas. Os jornais noticiaram que para lá seguiram uma boa quantidade de participantes afim de presenciarem a cerimônia religiosa. houve toque solene aos orixás e ancetrais.neste trabalho a autora procurou abordar que em diversas pesquisas realizadas pelo médico Juliano Moreira. de culto gêgê. Ulysses Pernambucano. auxiliar nas 55 . sociologia e etnografia sobre a regência do professor Olívio Montenegro. como as que tiveram a presença do professor Ulysses Pernambucano. dando proseguimento as atividades do evento. às 20 horas no terreiro do babalorixá Pai Anselmo. Algumas mesas temáticas deram a tônica da sua importância. Havia muita espectativa para êxito por parte dos participantes e dos organizadores. Os periódicos da época noticiaram que o teatro estava totalmente cheio e com representantes de inúmeros terreiros espíritas da região. o professor de presidente de honra Ulysses Pernambucano apresentou o seu trabalho também sobre a questão da loucura intitulado: “Doenças mentais entre os negros de Pernambuco”. Com a abertura do Congresso do Recife inúmeros e importantes trabalhos foram apresentados. houve uma reunião na seção de antropologia. houve a sessão de abertura ás 15 horas com a apresentação de trabalhos proferidas por um dos organizadores do evento o Dr. havia referências. Este versou sobre seus estudos etnográficos em andamento e que tinham como objeto de estudo o negro. Ulysses Pernambucano. às 15 horas. no dia 11 de Novembro de 1934. No dia 12 de Novembro. No fim do dia. uma reunião na seção de etnografia sobre a presidência do Dr.

às 10 horas da manhã. pois havia a necessidade deste tipo de manifestação pelo fato de que o Congresso do Recife. Adhemar Vidal. a professora Ida Marinho Rego. Após a visitação. às 21 horas. No decorrer do dia não houve. às 21 horas houve uma manifestação religiosa no Terreiro do babalorixá Pai Oscar de culto gêgê. Noêmia e Cícero Dias. o Dr. podendo. No decorrer do dia visitações e pequenas excursões. com uma reunião na seção de folclore e arte. à Assistência a Psicopatas. ocorreu um toque no terreiro do babalorixá Pai Rosendo de culto Xambá. houve visitação por parte de alguns participantes. um babalorixá que participou das apresentações teria em seu terreiro. Recife. A cada final de dia de evento. houve uma reunião na seção de psicologia social sobre a presidência do professor Sylvio Rabello. localizado no bairro de Campo Grande. o Comandante da Brigada Militar do Estado Jurandyr Mamede. no Teatro Santa Isabel sobre a regência do Dr. No dia 13 de Novembro. ou de apresentação de trabalho. Às 15 horas. pelo que consta nos periódicos da época qualquer outra forma de manifestação cultural de cunho religioso. houve às 10 horas da manhã. as atividades só foram retomadas às 20 horas. dia comemorativo da Procalmação de República e penúltimo dia do evento. Este foi a maior manifestação de indivíduos num terreiro do Recife. ter sido uma forma de preservação da cultura e da identidade do negro e por isto. às 20 horas. ceia recheada de quitutes afro-brasileiros na Escola Doméstica de Pernambuco com a participação do Dr. José Lins do Rego. No dia 15 de Novembro. Odorico Tavares. o aspecto religioso deveria ser inserido de forma bem larga nos parâmetros das apresentações. Gilberto Freyre. então.pequisas junto a Ulysses Pernambucano. não constando na documentação 66 . em que tomaram parte do toque os escritores Mário Marroquino. Rodrigues de Carvalho. função muito comum à época para verificar se o indivíduo teria ou não patologias que pudessem degenerar a raça. os pintores Di Cavalcanti. houve excursão à Ilha do Joaneiro com a presença do professor Geraldo de Andrade. os participantes conhecerem melhor os serviços de profilaxia mental e os materiais utilizados nos estudos de antropologia social. a participação de convidados a assistirem uma pequena cerimônia de agradecimento pelo bom andamento das apresentações. No dia 14 de Novembro. dando prosseguimento às manifestações religiosas. Gildo Neto e família e o jornalista Nóbrega da Cunha. visitação ao Gabinete de Antropometria da Brigada Militar. dando prosseguimento ao evento. Aderbal Jurema. Nesta instituição os participantes e convidados verificaram como era executado trabalhos para medir o tamanho do crânio do indivíduo.

regado a muita cantoria: “No fim da ceia. hontem.o Congresso Afro-Brasileiro: a audição de hontem no Santa Isabel. às 16 horas. como relatou o periódico – Pequeno Jornal: “Vai despertando o maior interesse o projetado Congresso AfroBrasileiro a realizar-se nesta cidade. 6 Jornal Pequeno. Xuxuaglô. 77 . caruru e inhame com mel de engenho. para os estudos acerca do negro na sociedade brasileira. e tudo interpretado pelas alunas do Conservatório Pernambucano de Música. a realização da audição de músicas e entoadas afro-brasileiras colhidas pelos musicistas Ernani Braga e Vicente Fittipaldi era uma conseqüência das várias visitas feitas aos terreiros do Recife. na parte da tarde. Gilberto. o transporte dos babalorixás e ialorixás. 12/11/1934. Havia uma necessidade de oferecer o que havia de melhor sobre a musicalidade afro-brasileira. 26/10/1934. Pg. Op cit.”6 O Congresso do Recife até aquele momento foi o movimento. 5 FREYRE. 1. Kinimba. sobre a direção dos professores Ernani Braga e Vicente Fittipaldi4.”7 Foi de tanta expressividade e repercussão. cantou-se modinhas. Congresso afro-brasileiro. 7 Jornal Pequeno.”5 Estes trabalhos apresentados no último dia de evento pontuaram a importância do mesmo. toda ela de iguarias afro-brasileiras como: vatapá. que serviu para pagar a correspondência dos convites. “A audição deixou uma impressão magnífica na numerosíssima assistência que occorreu ao Santa Isabel. No último dia das apresentações dos trabalhos. As toadas colhidas foram: “Bamilê Odé.” A segunda parte constou das apresentações de toadas também colhidas nos terreiros e cantadas pelo Orfeão do Conservatório. último dia do Congresso. houve uma audição de encerramento no Teatro Santa Isabel de músicas afro-brasileiras. e tudo servido no jardim da Escola Doméstica do Recife. 13/11/1934 e 14/11/1934. das tais em que o inglês Beckford encontrou uma ternura tão grande – a ternura afro-brasileira. 1º Congresso afro-brasileiro: a sua instalação. Ogunde-Xangôdê. no próprio Teatro Santa Isabel. 351. 17/11/1934. 4 Jornal Pequeno. Ogundê-narêrê. Ogun-tóberinan.lida as pessoas que participaram do evento e o endereço do seu terreiro. no Santa Isabel – o programa do congresso. Para os ouvintes cobrou-se uma pequena quantia que serviu para sanar algumas despesas. E no dia 16 de Novembro. a compra de objetos de arte brasileira para enfeitar o ambiente e a ceia. Arrecadou-se a quantia de 876$000. mais importante que se teve notícia. em relação ao negro. Ogun-Kaloxó e ô Kinimba.

pois além de alavancar as discussões sobre o papel do negro na formação do brasileiro.que acabou tendo a adesão do proprietário da Revista Nacional o escritor pernambucano Affonso Costa. Gilberto Freyre. entre as quaes a seguinte: ‘1 – Sendo as classes trabalhadoras do Brasil. 88 . o Congresso do Recife procurou. Hontem.o Congresso Afro-Brasileiro protesta contra toda a especie de discriminação contra negros ou mestiços ainda que se verifique no Brasil. á tarde.o Congresso Afro-Brasileiro protesta contra a attitude da Commissão de Censura Esthetica do Recife querendo fazer desta capital uma cidade de cores chamadas delicadas isto é. 8 Jornal Pequeno. reunido nesta cidade e que alcançou brilhante exito. houve uma reunião movimentadissima. 16/11/1934. através de novos estudos e pesquisas. roxos. etc. e prohibindo os encarnados. e herdeira de elementos valiosos de cultura negra. impregnados de influencia africana. a sua finalização foi marcada pela leitura de um manifesto lida pelo senhor Gilberto Freyre: “Com a audição de hoje.o Congresso Afro-Brasileiro manifesta sua solidariedade a essas classes contra toda forma de opressão. Como foi um evento que procurou dignificar a postura do negro no nosso meio social e preservar a identidade deste grupo. como em tantos outros. tendo sido lidos as conclusões de varias theses e lidos. cinzentos. Com o êxito esperado. a cima de tudo reformular toda uma visão antropológica e social em relação ao negro. construir novos conceitos que pudessem dar um novo fôlego para estes estudos.”8 O manifesto fechava com chave de ouro o Congresso. pelo sr. diversas moções. gente de sangue negro.o Congresso AfroBrasileiro. encerra-se o 1. o 1. o grande homenageado e inspirador do certame. as cores vivas mais do gosto da nossa população e mais de accordo com as nossas tradições.o Congresso Afro-Brasileiro: o seu encerramento. 4 – O 1. iniciadas por estudiosos como Nina Rodrigues. roxos e amarellos. desde o fim da escravidão. procurou também. 1. homem de grande prestígio e de grande valor para o mundo dos letrados. tida como negativa. neste ponto. em grande parte. O 1.

como Jarbas Pernambucano e Clarival do Prado Valladares. E todos. Prefácio. pelo fato. In. (1. Consagra-lhe um pequeno monumento – singelo como a própria verdade. A década de 1930. Volume: 6. segundo alguns estudiosos contemporâneos. apresentados. realizado em 1934. a necessidade de um material escrito sobre um evento consagrado como este se fez necessário. Estudos afro-brasileiros.2. Para os que passaram a vida embrenhado no delicioso e árduo trabalho de pesquisar e recolher documentos antropológicos e etnográficos da sua terra – é uma alegria boa e sincera ver que as ciências do seu trato dileto vão agora fecundando almas de elite. A maioria dos participantes eram oriundos das faculdades de Direito e Medicina do Recife.:1934: Recife). Recife: FUNDAJ. José Antônio Gonsalves de Mello. Em especial. Edgar Roquette. mas valeu a pena. segundo relatos do próprio Freyre presentes nos anais. empenhados numa obra de conhecimento e gratidão. inéditos à época. numa biologia evolucionista e numa antropologia física as bases do seu saber. sem retórica e sem lantejoulas – alguns dos maiores espíritos do Brasil de hoje. palco que serviu para que Joaquim Nabuco dissesse: “ ganhamos aqui a causa da Abolição.”9 Nas palavras de Roquette Pinto. de ter sido uma forma de preservar e valorizar a cultura do negro. exaltou a importância do Congresso do Recife para uma análise mais densa em relação ao papel do negro na formação de identidade brasileira.3 – Um evento consagrado. 99 . a maioria. que se reuniram num dos lugares mais bonitos do Recife. não precisariam de um prefácio.: Congresso afro-brasileiro.” E assim foram marcadas as apresentações dos intelectuais envolvidos no certame: por um pensamento de vanguarda que procurou opor-se ao velho e arcaico pensamento que permeava os centros letrados e que tinha no cientificismo. Apresentação: José Gonsalves de Mello. idealizadores e organizadores do evento. e 9 PINTO. de simpatia e humanidade. o teatro Santa Isabel. editora: Massangana. foi um momento chave no que tange à discussão sobre a formação da nossa identidade nacional. os anais gerados pelo Primeiro Congresso Afrobrasileiro do Recife. “O negro esperou bastante. um dos participantes do certame. 1988. Porém. sob as inspirações de Gilberto Freyre e Ulysses Pernambucano. principalmente pelos indivíduos nele reunidos e pelos trabalhos.

sem nenhuma admiração dos contemporâneos. Segundo Rodrigues de Carvalho: “Tivemos aqui em Recife um centro de atividade patriótica. Nas palavras de Carvalho: “(. e a consagração do evento passava por esta questão. Nabuco já analisava que o Brasil era um país mestiço. núcleo de grande efficiencia na abolição da escravatura. havia um baobá árvore secular dos negros trazidos d’África. 19/10/1934. através da exaltação de personagens que foram importantes para a história de Pernambuco e em especial do Recife. o autor chama a atenção em observar a importância do baobá não enquanto uma simples árvore.”11 Desta forma.. mas também traços de resistência e da identidade de um grupo. 11 Idem. antigo Jardim das Princesas.”10 A partir desta Sociedade observou-se a força de todo um grupo pelo fim da escravidão. coube à Pernambuco a realização do Congresso por reunir alguns predicativos interessantes intelectualmente. que foi a Sociedade’Ave Libertas’. Rodrigues de. A partir destes pressupostos. exaltava aspectos e traços da geografia e do relevo pernambucano. criou-se uma disputa intelectual entre alguns Estados nordestinos pela hegemonia de terem sido berço da civilização brasileira. dando a tônica do lugar enquanto contribuinte para a formação do patrimônio nacional e de movimentos em relação ao negro. O Nordeste como um todo foi uma região de movimentos importantes no processo de construção da identidade nacional. “Esse baobá de Pernambuco está a merecer uma placa comemorativa do Congresso. somente o que se encontra no corpo do texto. como o próprio Freyre. na produção de trabalhos voltados ao passado colonial. aínda não foi encontrado nenhuma referência acerca da sua existência. de poucas folhas. Neste trabalho. significa a dôr muitas vezes secular da raça africana. como: Joaquim Nabuco – considerado como o melhor de todos os intelectuais da sua geração. 19/10/1934. segundo Gilberto Freyre. 1 10 . mas revestida de uma simbologia que marcava não apenas traços sagrados. A estátua de Nabuco deve ser engrinaldada no dia 10 CARVALHO.muitos eram as produções culturais voltadas à exaltação da pátria e da regionlalidade. Sobre esta Sociedade. Como já foi visto anteriormente. Jornal Pequeno. momento em que a região detivera o poder político e econômico.) é o baobá. Muitos intelectuais. que se utilizou muito de sua obra em seus escritos como o clássico “O abolicionismo”.. Na Praça da República. como forma de engrandecer a importância da cidade para a história da nação e como núcleo para os primeiros movimentos de estudo em relação ao negro. em especial. mas na muda expressão de sua lenda.

José Antônio Gonsalves de. como um trapo esquecido quando foi ela o braço da raça amargurada que desbravou os nossos campos. segundo Rodrigues de Carvalho – redator do Jornal Pequeno. 1-2. que tirou da terra pernambucana os primeiros frutos. a importância da obra de Joaquim Nabuco foi um Mártir. editora: Massangana. “A extraordinária repercussão que teve esse grande livro e o entusiasmo que despertou entre homens de letras do país explicam a pronta aceitação de tantos cientistas sociais de participar com colaboração para o projetado Congresso. ao Congresso cumpre bater se perante os poderes públicos pela fundação de um asilo para a velhice africana que mendiga por toda parte. devido a sua grandeza. então. Idem.: Congresso afro-brasileiro. In.”15 Segundo Freyre. Nesta obra publicada em 1933. que ensaiou as primeiras conquistas de nosso progresso! Os canaviaes verde-mar de nossas várzeas ainda estão a ondular como um grito de reivindicação!”13 Segundo Antônio Gonsalves de Mello ao prefaciar o primeiro volume dos anais. incorporadas e reinterpretadas por Gilberto Freyre que verificou a necessidade de alavancar novos estudos sobre o negro brasileiro e exigir. Passim. pois muitos eram os intelectuais voltados aos estudos africanistas e que 12 13 Idem.inicial do original certamen. 1988. 19/10/1934. Pp. ao verificar a grande participação do elemento negro na formação da identidade nacional. o Congresso do Recife teve repercurssão nacional e internacional. Freyre procurou estudar a participação do negro na vida e na cultura do país14. Apresentação: José Gonsalves de Mello. como no trecho a seguir: “E como ao lado da fantazia deve primar sempre um cunho de senso prático.”12 Tal citação apontava. 15 Idem. a idéia do Congresso foi de Gilberto Freyre que pretendia da proseguimento as discussões do livro que acabara de publicar que foi “Casa grande & senzala”.:1934: Recife). Uma reedição necessária. uma maior assistência aos negros. junto aos poderes públicos. Recife: FUNDAJ. 1 11 . Estudos afro-brasileiros. Suas análises e visões foram. 14 MELLO. Volume: 6. (1. 19/10/1934.

queriam participar de um evento que discutisse o papel do negro socialmente. e por isto é que estudiosos como: Melville Herskovits. Apenas o babalorixá Pai Adão de culto gêgê. foram alguns dos colaboradores para a realização do Congresso. pois foi responsável por conseguir desde 1932. Ruth Landes e Donald Pierson se voltaram foram estudiosos aos estudos africanistas em terras brasileiras e muitos participando de Congressos deste porte.. Ulysses Pernambucano foi um excelente personagem para a realização do Congresso do Recife e da participação dos pais e mães-de-santo ao evento. de grande influência e importância à época. o afastamento da polícia estadual do licenciamento e fiscalização dos terreiros em Recife: “Recordome que a casa de Ulysses Pernambucano (e não apenas a sua sala de Diretor da Tamarineira) vez por outra era visitada por algum babalorixá em dificuldade com a polícia ou com alguma colega de culto.”16 Gilberto Freyre tempos depois faria o seguinte depoimentos a respeito de Ulysses Pernambucano: “Foi com o apoio inteligente e corajoso de Ulysses que ousei organizar. etnógrafos e africanistas brasileiros e estrangeiros crescia consideravelmente. Pg. auxiliado por um pequeno grupo de amigos [. 1 12 . Fundador da Escola de Medicina do Recife e na época responsável pelo Departamento do Serviço de Higiene Mental. pois a partir da década de 1930.] o primeiro Congresso Afro-Brasileiro. MELLO. 2. José Antônio Gonsalves de. o intercâmbio entre antropólogos. 2.”17 Babalorixás com Pai Anselmo e Pai Oscar de Almeida. Estudar a manifestação e a preservação da cultura africana no Brasil era um tema corrente nas universidades americanas e canadenses. Possuidor de um caráter aglutinador. pois observava que estes não tiveram as suas iniciações 16 17 Idem.. Cf. reuniu desde intelectuais nacionais e estrangeiros a presença de babalorixás e iyalorixás do velho Recife. Dessa forma. A participação destes chefes e sacerdotes religiosos recifenses só foi possível graças a atuação de um dos colaboradores e organizadores do evento que foi o médico Ulysses Pernambucano. localizado na Estrada Velha da Água Fria não participou do evento. Pg. e não faltou intelectuais estrangeiros como o americano Melville J. Herskovits e tantos outros. tão necessários para que o evento adquirisse a magnitude e o brilhantismo que se deu. observou-se que a década de 1930 foi importante para este processo. E esta foi a idéia do Congresso Afro-brasileiro do Recife. Embora tivesse participado de algumas reuniões preparatórias justificava a não adesão ao evento por não considerar os outros babalorixás como igual. tracicionais na cidade do Recife.

bem como da sua importância para a formação da identidade brasileira e do patrimônio cultural brasileiro.) um congresso de ‘seitas’ ou ‘religiões’ de origem africana.. à formação de formas de resistência à escravidão. Idem.. como forma de evitar as tensões comuns nesse processo. Pg. que reunisse babalorixás ou delegados das principais seitas chamadas africanas existentes no Brasil. 2-3. A idéia do Congresso surgiu de fato a partir do trabalho que Ulysses Pernambucano havia realizado em relação “as seitas africanas do Recife”. José Antônio Gonsalves de. com a vinda dos africanos escravizados a cultura emanada destes grupos em conformidade com as outras formas culturais já presentes (a do branco e a do índio) não se perdeu por completo. Dessa forma. “Sobre esse fracasso é que se desenvolveu a idéia do Congresso Afro-Brasileiro do Recife. 1 13 . 3. mesclou-se as demais manifestações culturais já presentes. possibilitando assim. que a princípio. Em alguns momentos se acentuou. ao mesmo tempo. Pp. 18 19 Cf.”19 Observou-se então a importância da questão religiosa como uma forma de manifestação da identidade do negro. como tática ofensiva. realizado em Pernambuco por Ulysses Pernambucano e por seus colaboradores em torno das sobrevivências religiosas de cultura africana. Pois falar de cultura africana ou de cultura afrobrasileira seria o mesmo que se remeter dentre outras coisas.”18 Com a não realização do evento sobre as seitas africanas recifenses é que se realizou o Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife. tornado possível pelo trabalho de higiene mental e. Porém.na África como ele fora. nas Américas. Freyre havia relatado nos anais do Congresso. Os negros africanos sofreram com a diáspora da escravidão uma experiência traumática. Para estes babalorixás a importância do Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife foi visto como uma primeira tentativa de resgate e preservação da cultura africana. mas de “(. de investigação cientifica. o evento não principiaria por uma documentação viva ou de estudos panorâmicos de assuntos afro-brasileiros. tornando-se mais visível e enrijecida em oposição à cultura dominante. MELLO. à religião africana trazida pelos negros da África nos navios negreiros. se fundiu adquirindo uma nova função.

) resultados de traços que se tornaram diacríticos. assim. 76. Para estes homens a justificativa estava na realização de um evento que serviria apenas para a defesa e a 20 RAMOS. formando. segundo ele. Arthur. não poderiam ser estudados isoladamente21. muitos intelectuais e estudiosos apontaram que. por parte de alguns membros da sociedade brasileira. desde Nina Rodrigues”. 1946. apontaram para como o conjunto cultural do negro africano tornou-se. passando a ser tema dentre intelectualidade da época. como fabricação de instrumentos de música. Pg. desse modo. Diz o autor que tal fato “tem impressionado todos os africanistas brasileiros. Ademais. 76. “suas sobrevivências culinárias e sociais e até os vários traços da cultura material. Tais traços. não deixou de perceber como todo o aspecto cultural tornou-se importante para a inserção do negro na sociedade brasileira20. como velhos intelectuais que não aprovavam a realização de um congresso voltado para o estudo do negro.É importante analisar que as tradições africanas foram fundamentais para o processo de inserção do negro na América. vários candomblés (angola. Pg. Estavam preocupados em encontrar nossas origens. efon e etc. As culturas negras. Arthur Ramos e Edison Carneiro. esculturas. de um novo pensamento cultural que procurou valorizar o negro. A questão racial foi alavancada ao patamar de elemento fulcral da identidade brasileira. os estudos africanistas no Brasil se referiam com maior insistência aos aspectos das culturas negras. na virada do século XIX para o século XX. A religiosidade neste caso pode ser vista como forma de manifestação cultural que se fundiu e serviu para atenuar as disparidades entre dominantes e dominados. por isso. como Nina Rodrigues. no Brasil. Rio de Janeiro: Editora da Casa do Estudante Brasileiro. a base para a identificação dos negros no Novo Mundo. a rigor. Dessa forma. os trabalhos desenvolvidos possibilitaram o surgimento de instituições voltadas para os estudos etnológicos e antropológicos. no entanto. Euclides da Cunha e Raymundo Nina Rodrigues debruçaram-se nos mais variados tipos e formas de manifestação cultural. em sua maioria. E segue afirmando que. A década de 1930. Os estudos feitos pelos grandes estudiosos africanistas no Brasil. Arthur Ramos ao considerar tal questão estava ainda preso a idéias de pureza e sobrevivência culturais. congo. a nossa identidade nacional. 21 Ibid. 1 14 . marco temporal assim por dizer. estariam tão ligados às suas práticas religiosas que. autores como Sílvio Romero. em especial a cultura negra. indumentárias e ornamentação”. mostrava-se ainda assim.

apontou naquela altura 22 23 Idem. mas do branco e que a única saída para este mal estaria na revolução e na luta de raças. nacional e internacional. foram marcados por pensamentos paradoxais: pois se havia a defesa e a valorização de uma raça negra. 240. Edison. (1. Gilberto. 3. havia também um pensamento.exaltação de uma cultura tida ainda como “bárbara” e por isto. A realização do Primeiro Congresso Afro-brasileiro ocorreu em Recife. Sabe-se que o negro tem fornecido um grande contigente para as fileiras do Partido Comunista do Brasil. uma boa repercussão local.”22 Porém. visível nos jornais de Pernambuco e nos Estados Unidos como o New York Times24 principalmente pela querela em relação a sua realização. O pensamento arianista defendia a não inserção de outras raças que pudessem degenerar ou macular negativamente a humanidade e o negro encontrava-se neste processo. Para a não aceitação do Congresso do Recife havia também outras justificativas defendidas pelos elementos mais conservadores da sociedade recifense que não aprovavam a idéia de um evento realizado por comunistas. 24 FREYRE. 1 15 . Op. local onde os primeiros estudos sobre a cultura negra haviam se delineado. Recife: FUNDAJ.”23 O evento em si foi muito feliz obtendo. Situação do negro no Brasil. Volume: 6.:1934: Recife). responsável pelo descompasso social e econômico da nação. 349. editora: Massangana. abordando através de uma escrita agressiva que a abolição não resolveu o problema do negro. alguns participantes possuidores e ativistas de uma ideologia comunista estiveram presentes no certame como o antropólogo Edison Carneiro que apresentou o trabalho “Situação do negro no Brasil”. cabendo tempos depois à Salvador o feito do Segundo Congresso Afro-brasileiro.: Congresso afro-brasileiro. racista e de valorização de uma raça pura. outros intelectuais encabeçados por Ulysses Pernambucano defendiam a sua realização no Recife. Pg. Cit. é de se observar que os anos de 1930. Apresentação: José Gonsalves de Mello. “Os negros começam a tomar papel ativo na conquista desse objetivo. como visto anteriormente. Alguns intelectuais encabeçados por Edison Carneiro defendiam a sua realização em Salvador por ser considerada berço da cultura “afro-brasileira”. 1988. nascido na Europa. por ter sido durante muito tempo acusado de degenerar a raça brasileira. Pg. Desta forma. In. Sobre este episódio relata José Antônio Gonsalves de Mello: “Não posso negar que não tivesse havido tentativas de infiltração por parte de comunistas – todas repelidas por Gilberto Freyre. CARNEIRO. Segundo José Antônio Gonsalves de Mello: “Nuno Simões. Estudos afro-brasileiros. ilustre escritor português. Pg.

E. restou apenas a circular enquanto documento “concludente” por muito tempo. Anteriormente. segundo Roquette Pinto. a incorporação dos libertos aparecia como um obstáculo a mais para a definição do que seria o cidadão brasileiro. 3. começaram a interessar. Pg. Roquette. 1 16 . Tal mudança deveu-se a intelectuais como Gilberto Freyre construtor de uma nova forma de análise aos estudos sociais. 25 26 Cf.: Congresso afro-brasileiro. a preocupação dos novos rumos. CARVALHO.4 – Qual foi o papel do negro após o 13 de Maio? A República ainda nascente e com muitas dificuldades de implantação e institucionalização teve uma enorme dificuldade na incorporação da população negra. a prevalência era de uma ciência médica e jurídica que tiveram nas universidades de medicina e de direito do Recife e Salvador dois centros importantes.”26 Com o alvorecer do novo regime político encontrava-se a busca de uma identidade nacional que pudesse definir o novo Estado republicano e consolidar uma imagem daquilo que se pretendia forjar. o fim de certas fontes documentais desencadeou dúvidas e dificuldades sobre a questão do negro após o fim da escravidão. tidas como antropológicas. Recife: FUNDAJ.a reunião do Recife como exemplo a instituições do seu país para o estudo das populações da África portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras. Após diminuir a euforia da proclamação. 3. Prefácio. Apresentação: José Antônio Gonsalves de Mello. os intelectuais. 1988. A estes. refletindo apenas as necessidades das elites oligárquicas e dos setores dominantes. pois para Roquette Pinto: “No fim do Segundo Império já se vislumbra em Varnhagen. Desta forma. no Brasil. (1. José Murilo de. In. os próprios propagandistas do novo regime perceberam que a tão sonhada República não conseguia atender aos anseios imediatos da nação e a necessidade de legitimá-la tornou-se uma questão importante para que não se transformasse em uma representação grotesca de si mesma. Estudos afrobrasileiros. em Ladislau Netto e outros. Editora Massangana.:1934: Recife). 27 PINTO. Foi somente a partir do século XIX que as ciências naturais. “As representações da República nas caricaturas da época mostram a rápida deterioração da imagem do regime. A formação das almas: o imaginário da República do Brasil. José Gonsalves de. 7. 1990. Pg.”27 Aos estudiosos e intelectuais que se debruçaram em estudar a formação da nação.”25 2. MELLO. Pg. Havia uma preocupação latente com os rumos da nação.

o dever de zelar pela herança deixada por Nina Rodrigues. 1 17 . Explicou que desde 1926.. encontra a réplica dos pertinazes e talentosos trabalhadores que ele conseguiu reunir no ótimo Congresso Afro-Brasileiro do Recife. caboclo. sem qualquer definida caracterisação antropológica sistemática. Arthur Ramos prefaciou o segundo volume que reuniu o restante dos trabalhos apresentados ao Primeiro Congresso do Recife. Porém. tanto quanto possível. Idem. na Bahia. mas foi o primeiro a vê-lo enquanto agente social com a atenção merecida. segundo Ramos. Entretanto. Arthur Ramos trava uma pequena discussão com Roquette Pinto a respeito da trajetória sobre os estudos afro-brasileiros. objetivamente. considerei que os nomes vulgares preto. ficaria sobre sua responsabilidade.“De sorte que hoje a palavra de fé e de cultura. etc. Pg. observou que foi o “grupo do Recife”. havia sido retomado com o propósito de uma reinterpretação de sua obra.”29 Em dezembro de 1936. o nome do médico e estudioso sobre as coisas do negro Nina Rodrigues. Este trabalho. para delimitar. os primeiros a reinterpretarem o problema do negro a partir do que Nina Rodrigues havia estudado. Para Roquette Pinto: “Ao estudar as características antropológicas dos brasilianos. trouxe para os estudos sobre a participação do negro na formação social do Brasil novos métodos de pesquisa para o futuro de tais estudos. encabeçados por Gilberto Freyre. Mesmo não participando diretamente do evento. no prefácio que escreveu. os tipos que vem emergindo da grande massa dos mestiços. 8. articulada superiormente por Gilberto Freyre. mulato.”28 Freyre não foi talvez o primeiro ao analisar a importância do negro para a nossa formação nacional. nome que classificou os participantes do Congresso do Recife. a pedido de Gilberto Freyre. Coube a estes homens. procurou analisar que o evento ocorrido em novembro de 1934. 8. estavam secularmente consagrados a todo indivíduo pertencente aos contigentes raciais. Pg. 28 29 Idem.

Pg. a reinvidicação de uns tantos direitos que até hoje passam como condições negativas da sub-raça. que foi o fim da escravidão. na Bahia. eu levantava. os efeitos de sua cooperação no trabalho da lavoura. 19/10/1934.”31 Em nota. O congresso africanista. Observou que o Congresso africanista do Recife teve a importância de ter sido o primeiro do Brasil. dirigida por Arthur Ramos a tarefa de imprimi-las. cultural. bem como a publicação dos volumes que reuniram os trabalhos apresentados no Congresso. que foram de grande contribuição para a formação da identidade brasileira. 30 31 32 Idem. “A sua influência etnica. então. o evento não foi somente para intelectuais. o brado de alarme contra a conspiração do silêncio. em suma.”30 Foi. Rodrigues de Carvalho. 2. colunista do Jornal Pequeno do Recife. O evento realizado e organizado por Gilberto Freyre deveria primar pela valorização do negro na sociedade brasileira. 19/10/1934. voltada para os assumtos de etnografia e sociologia negro-brasileiras. Idem. as emulações artísticas do mestiço. que deveria cessar. a partir deste momento que as obras de Nina Rodrigues foram reeditadas por Afrânio Peixoto e cabendo à Biblioteca de Divulgação Científica. “Devemos sistematizar em programa alguma coisa que dignifique a raça sofredora de que fazemos parte. mas também para o povo comum. desde os tempos da colonização e deixando entender a existência de uma enorme dívida de nós brasileiros para com estes.“Quando a atenção dos estudiosos brasileiros ainda não se achava. como hoje. a emotividade negra na formação da mentalidade patrícia. política e econômica. o colunista exaltava a importância do negro na formação social. 1 18 . o seu contingente patriótico na elaboração política da nacionalidade. vista pelos ideólogos do evento. escreveu sobre a importância do evento. principalmente pela tarefa de reverter a vergonhosa campanha. Jornal Pequeno. Gilberto Freyre no término do Congresso ressaltou a importância do mesmo como um movimentos de extrema valia para a cultura brasileira: com uma técnica inteiramente nova que consistia numa circularidade de informações.”32 E o princípio de sanar esta dívida estaria no Congresso do Recife.

Dessa forma.)”33 O Congresso procurou analisar a presença do negro em cada indivíduo. De certa maneira.. 1 19 . representada no manifesto lido. o negro.. perfazendo e afirmando um raciocínio perverso que durou até a década de 1930. principalmente por ter trazido novos matizes em relação ao esudo do nego e para a formação social e cultural do pais. Freyre procurou criticar toda forma de opressão em relação ao negro.“Sentaram-se em volta da velha mesa. de que o evento do Recife foi um “monumento ao negro”. Nesta visão. nas palavras lidas por Freyre. Rüdiger Bilden e o professor Cannon. não só doutores. Dessa forma. 33 Idem. com grande erudição de gabinete e de laboratório. como ialorixás gordas. pretas de fogareiro. na figura da Comissão de Censura Estética do Recife que defendia a idéia de uma cidade de “cores delicadas”. Freyre analisou que o Congresso foi importante para os estudos afro-brasileiros. ainda é presente conceber que após a abolição o negro ficou largado à própria sorte. 348. o Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife foi muito importante para a época. Nancy Cunard. principalmente no alavancamento de novas discussões sobre o papel do negro no pós-abolição. na cabeceira da qual se sucederam os presidentes. por pretender estudar a trajetória do negro e a sua importância para o processo de formação da identidade sociocultural do país. (. conforme o assumto do dia. de pureza racial. quando é expressada que em cada classe de trabalhadores brasileiros havia sangue negro. trabalhador e povo que pudesse identificar o homem brasileiro daquele momento. cozinheiras velhas. tanto para antropólogos e etnólogos brasileiros quanto para estrangeiros como: Frans Boas. sem um papel relevante na formação da identidade nacional. aludindo ainda a um pensamento cientificista do final do século XIX. Pg. pensamento e atitude que rivalizavam com a proposta do Primeiro Congresso Afro-brasileiro do Recife. que na época era um grande mestre de psicologia na Universidade de Harvard. que trouxeram do fundo de cozinhas de mucambos receitas de quitutes afro-brasileiros quase ignorados. o mestiço e o asiático não deveriam ter espaço no processo de construção da identidade do povo brasileiro. Dessa forma o problema estaria vinculado a herança da escravidão. Isto só se torna possível. Todos estes estudiosos defenderam como positivo a realização do Congresso do Recife. grande orientador de Freyre neste evento. justificando a tese de Roquette Pinto.

20 2 20 .

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