Resumo de HAZARD, PAUL. “A crítica universal”. In: Pensamento europeu no século XVIII. Portugal: Presença, 1989. pp. 13-25 por Gabriela B.

Munin – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Paul Hazard (1878-1944) foi um crítico e historiador francês. Foi professor catedrático das Universidades de Lyon e Sorbonne. Professor de Literatura moderna e comparada do Collège de France, Membro da Academia Francesa e co-diretor da Revista de literatura comparada. Sua obra de maior destaque foi A Crise da Consciência Europeia de 1680 à 1715. O século XVIII se abriu como um momento de crítica universal, que é possível de se notar em todos os domínios: na literatura, na moral, na política, na filosofia. Paul Hazard demonstra como era possível perceber na literatura diversas obras que, por meio de sátiras, apresentavam censuras à sociedade, aos costumes e à religião, expondo os defeitos e os vícios da Europa. A conclusão do autor é a de que essa crítica universal provinha de uma alteração no modo de ver o mundo, que contava com um novo elemento, a razão. O autor inicia o capítulo dizendo que o século XVII havia acabado no desrespeito e que o século XVIII começou na ironia. Foi o século das sátiras iluministas. Tudo eram alfinetadas. Para exemplificar isso, o autor fala sobre o fator que anunciou a época da crítica universal, que foi o Scriblerus Club, um clube de caricaturistas, formado por John Arbuthnot com outros representantes do pensamento inglês, como Jonathan Swift, Alexander Pope, John Gay, Henry St. John e Thomas Parnell. Martinus Scriblerus era um pseudônimo que estes autores utilizavam. Este clube foi formado em 1712 e durou até 1745, quando morreu o último dos fundadores. O autor discorre sobre três formas em que a crítica universal foi empregada: Primeiramente, o burlesco, que consistia na paródia de textos clássicos. O burlesco tratava de ridicularizar os grandes temas, como as epopeias, mas também de engrandecer os temas medíocres. O autor conclui que é possível perceber que a antiguidade deixa de ser venerada. Vários clássicos foram satirizados, como Virgílio, Telémaco. Segundo, viajantes que observavam a Europa e desmascaram essas nações europeias, mostrando tudo o que tinha de imperfeito, como os persas de Montesquieu, na França; o chinês de Oliver Goldsmith, na Inglaterra e as Cartas Marruecas de José Cadalso, na Espanha. E, por último, os viajantes imaginários, que descobriram países maravilhosos que envergonhavam a Europa. Isso lembrava as antigas Utopias. O objetivo dos autores com estes viajantes imaginários era mostrar como a vida era absurda na Inglaterra, na Alemanha, na França, em todos os países civilizados; e como essa vida poderia se tornar melhor desde que se obedecesse às leis da razão. A partir de 1726, os autores começam a sofrer a influência de Jonathan Swift, mestre

deste estilo. Swift escreve As Viagens de Gulliver. Nesta obra, ele se ocupa da criatura humana, transporta-a para países onde todas as formas de nossa vida normal foram subvertidas. Ataca tudo que aprendemos a respeitar, a crer, como homens de Estado, reis, partidos, sábios, filósofos. Cada lugar que ele visita é uma crítica diferente. E mexe muito com o imaginário da nossa própria existência também. Por exemplo, no reino de Lugnagg, Gulliver encontra seres imortais, os Straldbruggs e descobre que a imortalidade é horrível, que estes seres imortais, ao longo da vida, perderam recursos e esperança. E, no país dos cavalos, conhece os Yahus, animais horríveis que vivem como escravos. Estes seres são os homens. Hazard diz que, ao ler a obra, “Temos a tentação de lhe mudar o título para Tratado da fraqueza do gênero humano”. Essa tribo de críticos, que foram influenciados por Swift e Gulliver, vão mostrar ao século uma humanidade que soube encontrar constituições melhores, religiões mais puras, a liberdade, a igualdade e a felicidade. O autor diz que também surgiram os que acreditavam que a situação pode ser modificada. O inimigo destes era o estado social. Ao se destruir e substituir esse estado, o futuro seria melhor. A crítica destes é sempre acompanhada por uma reivindicação. Hazard toma como exemplo a The Beggar's Opera, escrita em 1728. O autor, John Gay, ridiculariza a ópera e seus cantores. Coloca ladrões, prostitutas, salteadores de estrada, ridiculariza todas as cenas da ópera e a música consiste em canções populares, ou seja, algo inaceitável para as classes mais altas. Cada personagem tem uma representação, da vida política, da nobreza. John Gay chega à conclusão de que não existe diferença entre as classes nobres e a dos vagabundos, os costumes são os mesmos, os crimes são os mesmos. (pág. 23) “Acaso faz essa gente, tão bem ataviada, outra coisa que não seja procurar o interesse ou o prazer? Falam da honra: mas não estão sempre prontos a trair? Falam da virtude: mas não é certo que têm todos os vícios? Que são infieis? Que fazem batota ao jogo? Que andam à caça de dinheiro?” e que “Os vagabundos valem mais que esses hipócritas: obtendo sem tantas cerimônias aquilo de que precisam para viver, industriosos, infatigáveis, corajosos, não hesitando em arriscar cada dia a liberdade e a vida, prontos a socorrer um amigo e a morrer por ele, fieis ao seu código, estes filósofos práticos procuram repartir com maior equidade os bens deste mundo, tentam corrigir a iniquidade do destino.” E é assim até o fim do século. A crítica acaba em apelo, em pedido, em exigência dos críticos, sempre procurando a felicidade.

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