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DEDICATÓRIA

À Mabel Ao meu filho, João

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AGRADECIMENTOS

Por mais que possa considerar-se uma tese como um trabalho em grande parte solitário, ela não seria possível sem a disponibilidade, o incentivo e apoio constantes de um sem número de outras pessoas. É para elas que vai o meu sentido e sincero agradecimento. Naturalmente, na hora de agradecer, é impossível referir todos aqueles que contribuíaram, de um modo ou de outro, directa ou indirectamente, para a efectuação de um trabalho como este. Limitamo-nos, por isso, a mencionar algumas delas. Agradeço, antes de mais, ao orientador da presente tese, Acílio da Silva Estanqueiro Rocha, por ter acreditado, desde o princípio, que ela poderia ser levada a bom porto. A sua disponibidade foi uma constante. A simpatia e o entusiasmo por si manifestados ficarão para sempre gravados em mim. Atento e claro nas indicações fornecidas, ele soube ao mesmo tempo manter a sobriedade, propiciadora de uma investigação que se pretende essencialmente autónoma. Por tudo isso, o meu profundo e reconhecido obrigado. Ao amigo José Manuel Rodrigues Alves, a quem devo a ponte que se ergueu, inicialmente, entre mim e o orientador da presente tese. É a prova de que a chama da amizade se mantém viva mesmo quando o espaço físico cava alguma distância entre nós. Ao José Martinho, por ser, em grande medida, a causa primeira do meu interesse pela psicanálise e, em particular, por Lacan. A ele devo o rigor e a constância que procurei colocar, ao longo dos anos, na leitura dos escritos e seminários deste último. Agradeço-lhe também algumas observações e reparos que tão gentilmente partilhou comigo. À Alexandra Lúcio, pela amizade e ajuda preciosa, em particular na tradução do “resumo”em francês. À amiga Selma Calasans, cuja simpatia e constante incentivo me deixarão eternamente reconhecido.

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Sem ela. a quem devo o exemplo de serenidade que se impõe nos momentos difíceis. se não mesmo impossível. amigos e colegas. pelo entusiasmo. tudo seria mais difícil. Ao Carlos e à Isabel.Ao amigo Fernando Cavaco. v . Ao amigo Francisco Alves. Eles têm um lugar reservado no meu coração. A todos os outros. a quem devo palavras e gestos de incentivo. a quem ficarei eternamente grato pela sua generosidade. o meu profundo e sincero obrigado. estima e sentido crítico.

“A finalidade do meu ensino seria justamente fazer psicanalistas à altura desta função que se chama o sujeito, pois é evidente que é só a partir deste ponto de vista que se vê bem aquilo de que se trata na psicanálise.” *** « La fin de mon enseignement, eh bien, serait de faire des psychanalystes à la hauteur de cette fonction qui s‘appelle le sujet, parce qu‘il s‘avère qu‘il n‘y a qu‘à partir de ce point de vue qu‘on voit bien ce dont il s‘agit dans la psychanalyse». (Jacques Lacan, Mon Enseignement)

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“(…) precisamente no ponto em que deveria como filósofo confrontar-se com o tropeço do sujeito (…)”. *** «(…) au point même où l‘on devrait comme philosophe se confronter à l‘achoppement du sujet (…)». (Jacques Lacan, Autres Écrits)

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RESUMO

A PROBLEMÁTICA DO SUJEITO À LUZ DA TEORIA DE JACQUES LACAN

Propomos, com a nossa investigação, uma abordagem da problemática do sujeito à luz da teoria de Jacques Lacan. O tema do sujeito está hoje, aparentemente, desacreditado. Com efeito, se o triunfo do capitalismo e da ciência produziu novos impasses, sintomas e modalidades de gozo, não parece ter gerado – nem ter capacidade de gerar – um novo sujeito, mesmo se contribuiu para a emergência de novas formas de subjectividade e subjectivação ligadas a tais modalidades de gozo. Por outro lado, o velho sujeito fundador, uno e autónomo, foi entretanto desqualificado por toda uma série de críticas e desconstruções. A ciência avança por si própria sem necessidade de uma fundamentação subjectiva (contrariamente ao que pensavam Descartes, Kant ou mesmo Husserl) e o gozo consumista, instigado pelo capitalismo, empurra a modernidade para o seu próprio estertor, pós ou hipermoderno (Lipovetsky). Um dos paradoxos ligados a semelhante estado de coisas, na era da globalização, é que, ao mesmo tempo que predomina um discurso promotor do elo e coesão entre as pessoas, os povos e as instituições, assiste-se cada vez mais, de forma imparável e sistemática, à destruição maciça dos velhos laços sociais, com toda a série de novos sintomas e impasses que uma tal situação tende a gerar, tanto a nível individual como colectivo. Neste contexto, que significado pode ter hoje a promoção psicanalítica do termo sujeito, levada a cabo em particular por Lacan desde o início do seu ensino? Antes de mais, importa distinguir o sujeito da psicanálise relativamente ao Eu da filosofia ou da psicologia tradicionais. A subversão lacaniana do sujeito implica um apagamento, um esvaziamento, um eclipse - à maneira de um “quadrado negro sobre fundo branco” (Malevitch) - de toda a “subjectividade” vulgar, filosñfica ou psicolñgica. É nessa justa medida que ele pode equivaler, paradoxalmente, segundo Lacan, ao “sujeito da ciência”: um sujeito sem qualidades (Musil), vazio de todo o conteúdo substancial, psicológico ou metafísico, apenas suportado pelos significantes que o representam e dividem irremediavelmente.
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Porém, ao contrário da ciência, que se afirma como um conhecimento sem sujeito (Popper), Lacan estabelece como finalidade do seu ensino formar psicanalistas à altura da função do sujeito. É este sujeito singular, falado e falante, que é convidado, numa época como a nossa, dominada por estranhos imperativos, a bem dizer o seu modo sintomático de gozo, para que uma nova forma de subjectivação do sintoma possa advir. Eis onde a problemática do sujeito confina e se revela devedora de uma ética da psicanálise.

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RÉSUMÉ

LA PROBLÉMATIQUE DU SUJET À LA LUMIÈRE DE JACQUES LACAN

Avec notre recherche, nous nous proposons d‟aborder la problématique du sujet à la lumière de la théorie de Jacques Lacan. Le thème du sujet est de nos jours, apparament, discrédité. Si le triomphe du capitalisme et de la science a produit de nouvelles impasses, symptômes et modalités de jouissance, il ne semble pas avoir été capable de engendrer – voire même de ne pas avoir cette capacité – un nouveau sujet, même si cela a contribué à l‟émergence de nouvelles formes de subjectivité et subjectivation liées à de telles modalités de jouissance. D‟un autre côté, et dans ces entrefaits, le vieux sujet fondateur, un et autonome, a été disqualifié par toute une série de critiques et de déconstructions. La science avance de son propre chef sans le besoin d‟un fondement subjectif (contrairement à ce que pensaient Descartes, Kant et même Husserl) et la jouissance de consommation, incitée par le capitalisme, pousse la modernité vers son propre râle, post ou hypermoderne (Lipovetsky). Un des paradoxes liés à cet état de choses, à l‟époque de la globalisation, c‟est que, en même temps que prédomine un discours instigateur du lien et de la cohésion entre les personnes, les peuples et les institutions, nous assistons de plus en plus, de façon imparable et systématique, à la destruction massive des vieux liens sociaux, avec toute la série de nouveaux symptômes et impasses qu‟une telle situation tend à engendrer, aussi bien à un niveau individuel que collectif. Dans ce contexte et de nos jours, que peut bien vouloir dire la promotion psychanalytique du terme de sujet, en particulier celle menée par Lacan depuis le début de son enseignement? Avant toute chose, il importe de distinguer le sujet de la psychanalyse par rapport au Moi de la philosophie ou de la psychologie traditionnels. La subversion lacanienne du sujet implique un effacement, un vidage, une éclipse – à la façon d‟un « carré noir sur fond blanc » (Malevitch) – de toute « subjectivité » vulgaire, philosophique ou psychologique. C‟est dans cette juste mesure qu‟il peut être l‟équivalent,
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paradoxalement et selon Lacan, du « sujet de la science » : un sujet sans qualités (Musil), vide de tout contenu substantiel, psychologique ou métaphysique, supporté seulement par les signifiants qui le représentent et le divisent irrémédiablement. Néanmoins, au contraire de la science qui s‟affirme comme une connaissance sans sujet (Popper), Lacan établis comme finalité de son enseignement former des psychanalystes à la hauteur de la fonction du sujet. C‟est ce sujet singulier, parlé et parlant, qui est invité à une époque comme la nôtre, dominée par d‟étranges impératifs, à bien dire son mode symptômatique de jouissance, pour qu‟une nouvelle forme de subjectivation du symptôme puisse surgir. Voilá où la problématique du sujet confine et se révèle débitrice d‟une étique de la psychanalyse.

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1 PARTE I ......................................................................................................................... 12 DA QUESTÃO DO SUJEITO AO SUJEITO DA QUESTÃO ..................................... 12
Capítulo primeiro .................................................................................................................... 13 A questão do sujeito............................................................................................................ 13 Capítulo segundo..................................................................................................................... 29 O sujeito da questão ........................................................................................................... 29 Capítulo terceiro...................................................................................................................... 40 Um novo sujeito? ................................................................................................................ 40

PARTE II ........................................................................................................................ 51 UM RETORNO A DESCARTES .................................................................................. 51
Capítulo primeiro .................................................................................................................... 52 Um sintoma chamado Descartes ........................................................................................ 52 Capítulo segundo..................................................................................................................... 57 Paradoxos “cartesianos” de Lacan ...................................................................................... 57 Capítulo terceiro...................................................................................................................... 68 Variações em torno de uma fórmula .................................................................................. 68

PARTE III ...................................................................................................................... 89 O SUJEITO NO CAMPO DA FALA E DA LINGUAGEM ......................................... 89
Capítulo primeiro .................................................................................................................... 90 A revolução copernicana do sujeito .................................................................................... 90 Capítulo segundo..................................................................................................................... 99 A “viragem linguística” ........................................................................................................ 99 Capítulo terceiro.................................................................................................................... 127 De um Outro ao outro ....................................................................................................... 127 xi

Capítulo quarto ..................................................................................................................... 138 O significante ou a letra .................................................................................................... 138

PARTE IV .................................................................................................................... 157 O SUJEITO E O GOZO ............................................................................................... 157
Capítulo primeiro .................................................................................................................. 158 A questão do gozo ............................................................................................................. 158 Capítulo segundo................................................................................................................... 166 O problema da satisfação.................................................................................................. 166 Capítulo terceiro.................................................................................................................... 179 Paradigmas do gozo .......................................................................................................... 179 Capítulo quarto ..................................................................................................................... 190 Gozo e sexuação ................................................................................................................ 190 Capítulo quinto...................................................................................................................... 207 Um sujeito paradoxal ........................................................................................................ 207 Capítulo sexto........................................................................................................................ 228 Os suportes do sujeito....................................................................................................... 228

PARTE V...................................................................................................................... 239 UMA QUESTÃO ÉTICA ............................................................................................ 239
Capítulo primeiro .................................................................................................................. 240 Ética do desejo ou ética do bem-dizer? ............................................................................ 240 Capítulo segundo................................................................................................................... 248 Devir-sujeito ...................................................................................................................... 248

CONCLUSÃO .............................................................................................................. 253 BIBLIOGRAFIA GERAL............................................................................................ 258

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INTRODUÇÃO

―Da nossa experiência da análise, a subjectividade é ineliminável.‖1

A modernidade fez coincidir, por um momento – a que poderíamos chamar o momento cartesiano2 –, dois processos ou exigências que não são necessariamente compatíveis entre si, como ficou posteriormente claro: a “subjectivação”, por um lado, e a “racionalização”, por outro3. De tal forma é assim, que no momento em que se dá a famigerada “crise da razão” (a que poderìamos chamar, igualmente, crise da modernidade), esta parece significar o mesmo que “crise do sujeito”. Como dizia Michel Meyer, a este respeito, “a crise da razão não é senão uma crise do sujeito”4. Porém, a modernidade era habitada por uma antinomia, contradição ou “fractura” internas que tenderam a acentuar-se ao longo do tempo, em vez de desaparecerem. Como reconheceu Alain Touraine, a modernidade define-se por uma “separação crescente entre o mundo objectivo, criado pela razão de acordo com as leis da natureza, e o mundo da subjectividade (…)”5. Deste modo, com a expansão da modernidade, e sobretudo com a sua “crise” (desencadeamento e manifestação dessa fractura interna e latente), ambos os processos ou exigências atrás referidos, isto é, a subjectivação e a racionalização, ganham uma autonomia recíproca. O que acontece, então, a cada um destes processos ou exigências?

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Cf. LACAN, Jacques, Le Séminaire, Livre V, Les Formations de l‘inconscient. Paris: Éditions du Seuil, 1998, p. 104. Evidentemente, Descartes funciona aqui de modo emblemático, como paradigma ou representante de uma certa direcção ou ten-

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dência do pensamento ocidental que tem em Kant e Husserl, para referir apenas dois nomes dos mais representativos, a sua continuação e aprofundamento. Cf. PORGE, Erik, SOULEZ, Antonia (dir.), Le Moment Cartésien de la Psychanalyse – Lacan, Descartes, le Sujet. Paris: Éditions Arcanes, 1996.
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Retomamos aqui dois termos de Alain Touraine. Cf. TOURAINE, Alain, Crítica da Modernidade. Lisboa: Instituto Piaget, S/d. Cf. MEYER, Michel, A problematologia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p. 124. Cf. TOURAINE, Alain, op.cit., pp. 12-13.

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Quebrado o elo inicial que parecia mantê-los ligados, a subjectivação entra em declínio, ou, em alternativa, torna-se cada vez mais “irracional”. O recrudescimento, nos últimos anos, de teorias e práticas que pareciam ter caído em desuso ou estar ultrapassadas graças ao suposto triunfo do “espìrito cientìfico”6, constitui um bom exemplo de um tal fenómeno. Tudo parece servir, hoje, em termos discursivos, para alimentar a ilusão de que o Eu pode ser mestre de si mesmo, condutor da sua vida e do seu pleno desenvolvimento pessoal e subjectivo7. Ao mesmo tempo, porém, este fenómeno dá que pensar: não será ele, no seu exagero irracionalista, uma resposta à crise do processo ou exigência de subjectivação, numa época de triunfo generalizado e planetário do discurso da ciência? Com efeito, ao mesmo tempo que se dá a “crise”, “morte” ou “desfundamentalização” do sujeito8 (causa e consequência de toda uma série de críticas e desconstruções), o processo ou exigência de racionalização torna-se cada vez mais sinónimo de objectividade e objectivação científica. De tal modo que, no limite, a “razão” tende a confundir-se com a ciência, sendo esta, cada vez mais, uma ciência sem sujeito cognoscente9. De ora em diante, a ciência torna-se no único e exclusivo critério ou modelo de racionalidade. De tal forma que todas as práticas e teorias, mesmo aquelas que parecem mais delirantes e estranhas ao espírito científico10, pretendem apoiar-se, de um modo ou de outro, na ciência, como uma referência que deveio incontornável. Todos os procedimentos, teorias ou práticas aspiram hoje à cientificidade. A ciência, como lembrava
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Com uma presença maciça nos media, na Internet ou mesmo na literatura mais ou menos light. Não se trataria, neste caso, de uma

simples oposição entre o “espìrito cientìfico” e o “espìrito poético” (segundo a já clássica distinção de Gaston Bachelard), mas de uma espécie de “terceira via” que teria o condão de misturar num mesmo caldo indiferenciado uma série de tendências divergentes, desde fñrmulas cientìficas a crenças retrñgradas (Astrologia) ou espiritualidades mais ou menos exñticas… Um exemplo paradigmático (já com uma série de sequelas) é o livro de BYRNE, Rhonda, The Secret, O Segredo, Lua de Papel, 2007.
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Cf. LIPOVESTKY, Gilles, Le Bonheur Paradoxal – Essai sur la société d‘hyperconsommation. Paris : Gallimard, 2006, pp. 13. Cf. MEYER, Michel, A problematologia, op.cit., pp. 123-129. Cf. POPPER, Karl, La Connaissance Objective. Paris: Aubier, 1991. Aparentemente, nos últimos anos, as ciências cognitivas, em

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particular as neurociências (ver, por exemplo, os trabalhos de António Damásio), parecem ter reintroduzido o “sujeito” na ciência; porém, vale a pena perguntar se esse sujeito não constitui uma “denegação” do mesmo. Como diz Lacan, numa passagem dos Escritos, “o sujeito que acredita poder ter acesso a si mesmo é apenas objecto” (Cf. LACAN, Jacques, Écrits, op.cit., p. 832).
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Veja-se o caso, por exemplo, da mediática Cientologia. Cf. HUBBARD, L. Ron, Dianética – A Ciência Moderna da Saúde Men-

tal. Dianética, 2002.

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p. pp. 50-51. 2002. Edmund. e os melhores avaliadores. Entreprise. a guerra. Não é porque há cálculo que há ciência. Paris: P. Isso não tem nada de científico. Fonction Publique. MILLER. MILNER. da “pseudo-ciência”16. etc. “Un phénomème essentiel des temps qui courent”. Paris : Gallimard. Stany (dir. Jean-Claude. Paris : Gallimard.o fenñmeno da “especialização” faz parte intrìnseca da “ciência moderna”17. foi a própria educação que abandonou. por exemplo. participa em todas as formas de organização da vida moderna: a indústria. mas um arte da gestão (management). Martin. que vivem o problema (qui sont aux prises avec le problème). Santé Mentale. como inoperante. Jacques-Alain. p. imagina-se que é científico. MILNER. FREUD.. En Finir Avec L'evaluation : École. que se afere (étalonne). 41. in Essais et Conférences. p. Cf. Sigmund. Recherche. 2ª Ed. Lisboa: Gradiva. baseado na relação mestre-discípulo14. op. 2005.. HUSSERL. a actividade económica. Cf. para aderir definitivamente ao paradigma cientìfico. da famosa histeria (a que Freud deveu. 65-66.U. etc. HEIDEGGER. Cf. 13 Cf. Voulez-vous Être Éva- 14 15 lué ? Paris: Bernard Grasset. A Filosofia Como Ciência de Rigor. as publicaçõs. sabem perfeitamente que não se trata de uma ciência. 17 Cf. a política. a invenção da psicanálise). 16 “A avaliação não é uma ciência. Também a filosofia não escapou à atracção da ciência. o que está bem patente na expressão “ciências da educação”. por exemplo. Vacarme. Vide também GRELET. Verão 2008.). 1965. compara. Um outro exemplo é a supressão de categorias ou entidades clínicas que figuravam tradicionalmente nos manuais de Psicologia ou Psiquiatria. 13.. supostamente. As Lições dos Mestres.. o ensino. 12 315. “Esquisse d‟une psychologie scientifique”. in La Naissance de la Psychanalyse. Nº 44. 3 . os mais inteligentes. in Essais et Conférences. tentou fazer reconhecer a psicanálise como uma ciência. “um fenñmeno essencial dos tempos que correm” – como dizia Jean-Claude Milner em 200415 – se nota o poder do discurso da ciência ou. procurando integrá-la no quadro das ciências naturais12. Sob o pretexto de que há medida. Voulez-vous Être Évalué ?. mais claramente. Desde há alguns anos. é da palavra do “especialista” que se espera um esclarecimento “cientìfico” sobre a questão. É o caso. STEINER. a tal ponto que Husserl. 2004. quando pensou refundá-la em bases seguras. já em finais do século XIX.” Cf.. Também na exigência de tudo submeter à avaliação. pp. 2004.. Coimbra: Atlântida.F. « Science et Méditation ». George. lhe chamou “ciência de rigor”13. Aliás – como reconhecia Heidegger no texto já citado . Jean-Clause. Cada vez mais a ciência é chamada a intervir nos domínios reservados tradicionalmente à política ou à ética. a qual 11 Cf. cifra. neste caso.cit. Martin. « Science et Méditation ». 2004. HEIDEGGER. Antes de tomar certas decisões importantes. o modelo pedagógico tradicional.11 O próprio Freud.Heidegger já em 1953.

Lost in Cognition. 2001. Jacques-Alain. in Le Nouvel Âne.VV. Disponível em WWW : 22 http://www. 37. e não de “sintomas” que revelem ou façam apelo à presença de um sujeito e careçam. Paris : Éditions du Seuil. FREUD. « Une théologie du normal » [Em linha]. numa clínica que se pretende “cientìfica”. neste caso. Le Magazine International Lacanien. Cf.. Tal como na ciência. enquanto estrutura autónoma. Nº 8. “Allocution sur l‟enseignement”. MILLER.causefreudienne. Éditions Cècile Défaut. 18 Actualmente o manual de referência da psiquiatria a nível mundial. constitui a tradução psicológica desta tendência22. trata-se. Percebe-se o motivo de uma tal supressão: a histeria sempre foi considerada uma entidade demasiado vaga. do DSM – IV18. Mais do que escutar um sujeito que fala. 21 Cf. p. PsiqWeb – Psiquiatria Geral. O triunfo. DSM-IV. in Autres Écrits. Jacques. 2008.net/orientation-lacanienne/orientation-lacanienne/une-theologie-du-normal/. op. LACAN. ÉRIC. o ensino e a educação. Sigmund. objectiva. 4 . de modificar ou corrigir comportamentos e pensamentos disfuncionais. Cf. de uma subjectivação.pt/instrumentos/dsm_cid/dsm. p. um tropeço.foi abolida. e se perde na própria fala. 20 Cf. distúrbios ou comportamentos19. pouco objectiva. Cf. um estorvo. e que parece implicar o desejo de submeter todos os aspectos da existência humana a uma quantificação “furiosa (forcenée)”. O exemplo mais recente do triunfo do “discurso da ciência” (discours de la science)23 é a onda positivista que varre as universidades. MILLER. 23 Cf. 363-367. segundo a expressão de Jacques-Alain Miller24. das perturbações ou distúrbios (disorders). padronizada e tendencialmente automatizável – isto é. passíveis de objectivação e quantificação. restando dela apenas um conjunto disperso de sintomas. Laurent. ao fingimento ou à simulação20. 24 Fevereiro 2008. passível de um tratamento estatístico e informático –. Jacques-Alain. “La méthode du Professeur Monteil ». tudo o que implique a presença de um “sujeito” constitui um embaraço. Uma clìnica dos comportamentos. “Esquisse d‟une Psychologie Scientifique”. 302. AA. das terapias cognitivo-comportamentais (TCC)21.com. também aqui parece aspirar-se fundamentalmente a uma “clìnica sem sujeito”. Gjballone. flutuante. [Em linha]. num “culto imbecil do número” (culte imbécile du chiffre). De tal modo que Freud dedica alguns parágrafos do seu “Esboço de uma Psicologia Cientìfica” à “primeira mentira (proton pseudos) histérica”.cit.psicologia. designadamente a nìvel europeu. enquanto as histéricas pareciam dadas à mentira. nos últimos anos. Disponível em WWW : 19 http://www. Cf.php. Ora. pp. por isso.

o que se traduz. Principes de la Philosophie du Droit. isto é. a ciência deixou cair o outro elo da cadeia que estava implícito na modernidade: a subjectivação.. segundo a qual “todo 28 29 real é racional e todo o racional é real”. “Resposta à pergunta „O que é o iluminismo?‟” [Em linha]. segundo ele. Miller. “A doença do século”.e de forma aparentemente contraditória . num consumo cada vez mais vasto e desenfreado de fármacos. 25-38.pdf . Uma das consequências. pp. Cf. Pelo contrário. 1989. à sua maneira. (Tradução de Artur Morão). mesmo se o discurso da “autonomia” (dos indivìduos. não são de modo algum respeitados.o “mal-estar”. Lisboa: Fim de Século. um avatar. em 2004. chamava. obediência.“fetichista” (fétichiste) e sem resto25. a decisão e a acção pessoais. Jacques-Alain. individual e colectivo. de acordo com a famosa equação hegeliana.” 27 Cf. Ao mesmo tempo que isto acontece . a que Foucault prestara uma grande atenção) para uma sociedade que se encontra sob o primado da autonomia. numa das grandes doenças – senão mesmo a doença. p. supostamente capazes de resolver a “depressão” que arrisca tornar-se. É uma das consequências. procurando ao mesmo 5 . segundo o que estava inscrito no programa das Luzes (Aufklärung)30. Georg Wilhelm Friedrich. MARTINHO. in Le Nouvel Âne. segundo a Organização Mundial de Sáude. ou do Homem. HEGEL.net/textos/kant_o_iluminismo_1784. pelo menos segundo Heidegger. « Au Lecteur ». na passa- gem de uma sociedade que se refere à disciplina (interdição. nomeadamente. MILLER. Voulez-vouz être évalué? Paris : Bernard Grasset. o projecto de racionalização do mundo29. É aquilo a que Jacques-Alain Miller. 30 Cf. por exemplo. Segundo uma expressão que os brasileiros puseram a circular. 65 : «(…) pode dizer-se que a avaliação está 26 em curso desde a emergência do discurso da ciência. 2004. não é um acidente. foi que o avanço cada vez maior da ciência e da tecnologia não implicou uma concomitante emancipação do sujeito. na era da globalização em que vivemos. Cf. KANT. 31 O trabalho de Alain Ehrenberg tem-se focalizado grandemente no estudo da evolução social que consistiu.cit. não dá sinal de tréguas. por antonomásia – do século XXI27. op. Immanuel. na era da globalização.. com Descartes. Disponìvel em WWW: http://www. o triunfo 25 Cf. etc. das comunidades…) não pára de crescer e invadir todas as esferas31. (Prefácio). José. in Ditos III. autoridade. é um momento necessário que faz parte da grande cifragem do ser (chiffrage de l‟être) que começou. entre outras.lusosofia. Até que não reste mais diferença entre o “real” e o “racional”. *** Ao retomar. Jacques-Alain. A avaliação generalizada (partout). do triunfo da ciência e do capitalismo: produzem-se cada vez mais “drogas” para cada vez mais “drogadictos”28. Paris: Vrin. Um bom exemplo é hoje a coexistência da ciência e da tecnologia mais avançada em países e regimes políticos onde os direitos humanos. p. inspirando-se em Heidegger. a “grande cifragem (chiffrage) do ser”26. 3.

do capitalismo e dos imperativos consumistas a ele ligados. doi: 10. isto é. Alain. mais do que recuperar um “acordo” ou elo pedido entre o sujeito e a razão. de forma imparável. consistiria em superar o modelo “cartesiano” de racionalidade. Jogos de Racionalidade. por uma outra racionalidade. Manuel Maria (Cf.br/scielo. enveredar por uma outra racionalidade “não cartesiana” (mesmo se esta não deixa de ser uma tarefa necessária e. dedutiva e proposicional. 7. pp. Michel. p.cit. “retñrica” (Perelman35). 81-131. MEYER. John. 39 Cf.entre os dois processos ou exigências que temos vindo a referir. n. com todos os novos sintomas e impasses que tal situação acarreta. Jürgen. 6 . TOURAINE. 1993.. talvez. colocar a seguinte questão: por que motivo a racionalidade. em alternativa. a fim de superar o impasse em que caímos. “pragmática”36. ou. 143-153. “comunicacional” (Habermas34). Cf. 125. doença da autonomia?” (entrevista concedida a a Michel Botbol). 12-13. pp. “Depressão. Cf.scielo. [Em linha]. Disponível em : <http://www. não deixa de gerar certos impasses e sintomas? Como que provando que a “cifragem do ser” e da existência tem tempo analisar as diversas consequências. HABERMAS. muitas vezes paradoxais. O Império Retórico. 35 Cf. 10-01-09].da ciência. op. Mesmo se este autor opõe a “razão comunicacional” à “razão centrada no sujeito”. Uma outra via. tanto individual como colectivamente. a destruição maciça dos velhos laços sociais.PERELMAN. tentar um novo “acordo” .cit.. igualmente possìvel. 1990. emocional37 ou outra38. Um dos exemplos mais recentes é a tentativa de António Damásio de ligar a emoção à razão. Lisboa: publicações Dom Quixote. a racionalização e a subjectivação. 275-307. de Peirce a Davidson. tal como desenvolveremos mais à 36 37 frente no nosso trabalho. O Pragmatismo. 1994. op. Porém. O Discurso Filosó- 33 34 fico da Modernidade.como propõe Alain Touraine32 . Chaïm. pp. de tal evolução. 38 Segundo uma pluralidade de “racionalidades”.1590/S1516-14982004000100009. Seria talvez necessário. MURPHY. aliás. v. 2004. MEYER. EHRENBEG. Michel. cit. Cf. Cf. para usar a expressão de CARRILHO.. Alain.php?script=sci_arttext&pid=S151614982004000100009&lng=en&nrm=iso>. Porto: Edições Asa. têm vindo a promover. pp.> 32 Cf. 1993. ISSN 1516-1498. pp. irreversível e sistemática. Ágora (Rio Janeiro). já em curso desde há vários anos). na “sua forma mais acabada”39. op. 1 [Consult. Porto: Edições Asa. a cientificidade. 123-127. seria necessário. Porto: Edições Asa. quer esta seja entendida num sentido “problematolñgico” ou “interrogativo” (segundo a proposta de Michel Meyer33).

LACAN. uma vez que em Freud aquele não detinha semelhante autonomia conceptual42. vivemos hoje imersos num mundo de objectos de consumo (alimentos. segundo a psicanálise. 6ª Ed. 31-42. tanto a psicanálise em geral. ao instaurar uma “fractura” não apenas entre a “razão” e “o sujeito” (segundo a distinção efectuada por Alain Touraine). L‘envers de la Psychanalyse. Jacques. o mesmo acontece com o nome de Lacan. Cf. Cf. Paris : Seuil. p. os quais são impossìveis de “cifrar”. Eis porque consideramos que ela é incontornável no questionamento que pretendemos efectuar em torno do sujeito. Porém. Na verdade. no qual o sujeito ocupa o lugar dominante. Mesmo se toda a concepção freudiana do “aparelho psìquico” pressupõe uma certa “divisão subjectiva”43 e. uma consideração do sujeito. Mon Enseignement. Association mondiale de psychanalyse. gadgets…) sem sujeito. FREUD. Problèmes.U. mas no coração do próprio do sujeito. foi este quem verdadeiramente introduziu o termo de sujeito na psicanálise.. Paris: Éditions du Seuil. a psicanálise contribuiu. 42 Cf. a psicanálise só é possível com o 40 De um certo ponto de vista. para a crise da modernidade. Livre XVII. Idées. é definitivamente com Lacan que este ganha a sua primazia na psicanálise. Não porque o sujeito seja equivalente ao sintoma.os seus limites e deixa restos. na “reivindicação” ou na “queixa” que o “discurso da histérica” (discours de l‟hystérique). É o advir de uma tal subjectivação o que se visa. fármacos. 43 Um dos últimos artigos de Freud gira precisamente em torno dessa clivagem ou “divisão subjectiva” (Ich Spaltung). hoje. Buenos Aires: École de la Cause Freudienne. LACAN. SOLIMANO. 283286. enquanto conceito específico. pp. “Le clivage du moi dans le processus de défense ». tais impasses e sintomas (e não calandoos simplesmente com ordens ou fármacos) que se pode resgastar o sujeito. *** Se a psicanálise é incontornável quando se trata de interrogar o sujeito. mas porque o sintoma. 2006. quer estes se chamem objecto40 ou sujeito41. isto é. 157-159. com a sua quota-parte. 58 : « O fim do meu ensino seria justramente fazer psicanalistas à altura da função que se chama o sujeito (…) [La fin de mon enseignement. Le Séminaire. Paris: P. Jacques. antes de mais. in Résultats. ce serait de faire des psychanalystes à la hauteur de cette fonction qui s‟appele le sujet …) »]. Maria Leonor. Por outro lado. “Gadjet”. como tal. Sigmund. pretende formalizar.F. pp. in Scilicet. 2005. É interrogando ou questionando. Cf. pp. Les Objets a dans l‘expérience analytique. VIe Congrès. eh bien. 41 Reconhecìvel. por exemplo. 2002. Por um lado. na psicanálise. de reduzir completamente a zero. como o nome de Lacan em particular. 7 . carece de uma subjectivação. drogas. não deixam de constituir aqui um certo paradoxo.

enquanto esta implica igualmente uma “crise”. MILLER. Disponível em WWW: <URL: 45 lyse http://ri2009. Paris : Gallimard. Programme International de Psychanaappliquée d‟Orientation Lacanienne [Em linha].org/index. O que não deixa de colocar um novo desafio ético: como subjectivar o sintoma quando parece não haver um sujeito que seja capaz de responder por ele? Ou então: como produzir um sujeito a vir (à venir)47. será objecto de um desenvolvimento pormenorizado na Parte IV da nossa investigação. como finalidade do seu ensino. pp. a bulimia ou “desinserção social ”45 . “desconstrução” ou “eclipse” do sujeito. 2006.advento da ciência moderna. por exemplo as várias formas de “adição”. sintomas e modalidades de gozo. ou esta forma inédita de subjectivação. 47 8 . Cf. a mesma que. como até. Aliás. A Subjectividade por Vir. Com efeito. Com efeito. *** 44 Cf. de gozo. estabelecendo mesmo. não foi capaz de gerar. Martin. em certa medida. in Essais et Conférences. no limite.php?nav=116> 46 Este conceito. Lisboa: Relñgio D‟Água. a acentua e desenvolve até às últimas consequências. em muitos dos sintomas contemporâneos. « Science et Méditation ». formar psicanalistas à altura da função do sujeito? Na realidade. suprime o sujeito.sem que esteja constituído o domìnio da “objectidade” (segundo a expressão de Heidegger). Jacques-Alain. “Clinique et Pragmatique de la désinsertion ». ele não só participa do movimento de “crise da modernidade”. Perante isto.champfreudien. ZIZEK. como entender que Lacan não abdique do termo. por contraponto com um excesso de objecto e de gozo46. Champo Freudien. a anorexia. próprio da ciência moderna44. embora produzindo novos impasses. Cf.para referir apenas alguns dos mais falados . mesmo se contribuiu para a emergência de novas formas de subjectividade ligadas a tais modalidades de gozo. Slavoj. 2004. que o triunfo do capitalismo e da ciência. Subjectividade mergulhada numa série de paradoxos – como tentaremos mostrar – e coagida por estranhos imperativos de gozo. para Lacan. a questão é ainda mais complexa. Vers Pipol IV. 62-65. não é possível falar de “sujeito” ou mesmo de “subjectividade” – no sentido estrito em que Lacan usa os termos . onde parece haver apenas gozo e sintoma? É este sujeito.o que parece prevalecer é um défice de sujeito e de subjectivação. HEIDEGGER.

ou seja. como uma “extimidade” (extimité)50. 49 50 9 . Paris: Éditions du Seuil. fundador. no entanto. transcendental…) e o “sujeito”: este último nasce da “fractura” que o inconsciente provocou naquele. que o coração do sujeito deixe de ser concebido como uma espécie de interioridade por oposição a uma exterioridade – segundo a velha dicotomia entre o sujeito e o objecto. 97. 1966. isto é. no sentido em que o sujeito se revela essencialmente no que lhe é mais estranho (como o sintoma. encontramo-nos perante um “sujeito” dividido. a problemática do sujeito reenvia para uma questão topológica e. A primeira destas operações consiste em desfazer a confusão entre o “Eu” (vulgar. como a fala e a linguagem ou o conjunto das relações simbólicas. p. culturalmente estabelecidas. Jacques. epistemolñgico. Livre VII. para usar aqui uma expressão de Lacan48 . quer este seja entendido como um Outro efectivo. ao longo do seu ensino. que precedem e condicionam a entrada e o acolhimento de um ser humano no mundo. LACAN. o Innenwelt e o Umwelt49 –. que mais do que para um indivíduo. lido com e a partir de Freud. Desta mudança de perspectiva resulta. em terceiro lugar. Ele efectua. uma questão prévia que importa colocar: de que sujeito falamos nós aqui? O que significa o termo sujeito? Também deste ponto de vista. Éditions du Seuil. por último. Le Séminaire. da modernidade (Descartes. LACAN. Autres Écrits. 2001. heterñnomo . Um tal deslocamento implica uma alteração de perspectiva: em vez de um “Eu” supostamente uno. uma entidade ou uma substância. de carne e osso.ou heterotópico. Paris: Editions du Seuil. autónomo e constituinte. segundo um neologismo forjado por Lacan. « Le Stade du miroir ». Husserl). do plano “imaginário”) para o Outro (o plano “simbñlico”). Lacan é decisivo. 167. L‘Ethique de la Psychanalyse. A segunda operação consiste em deslocar o acento do “Eu” (isto é. Jacques. p. num sentido mais preciso. essen48 « Hétérotopie ». LACAN. Isso implica. 1960. Paris. Jacques. mas antes. por exemplo) e familiar ao mesmo tempo. sob pena de se cair numa série de confusões conceptuais e terminológicas. psicolñgico. Cf. metafìsico. p. in Écrits. quer. Fractura esta que se trata de resgastar por meio de um “retorno a Descartes”. 256. o interior o e exterior.Há. um conjunto de operações em torno do termo sujeito que é necessário ter em conta. o que está dentro e o que está fora. Cf. Cf.e constituído pela acção do Outro. uma “exclusão interna”. Kant.

ao contrário do que é suposto acontecer na ciência. por conseguinte. não pode ficar indiferente a este questionamento e às consequências que ele implica. a promoção lacaniana do sujeito de toda a “viragem subjectivista” (tournant subjectiviste).scienceshumaines.com/-0aalain-ehrenberg--contre-le---tournant-subjectiviste--0a_fr_14679.com [Consult. Disponível em WWW: <http://www. Sciences Humaines. de uma questão de cidadania. « L‟analyste citoyen ». também aqui. 2003. no sentido mais lato e global do termo53. São as etapas de uma tal subversão o que nos propomos acompanhar. contra a qual se insurge.e não “subjectivista” .cit. Éric. Na verdade. como procuraremos mostrar ao longo da nossa investigação. por vir. Xavier. A esta série de operações. poderíamos chamar. “Subversion du sujet et dialectique du désir ». mostrando a pertinência e actualidade da questão do sujeito. Buenos Aires: Ed. Alain Ehrenberg51. pp. 2008]. op. mas também ética e política.conserva actualidade. 53 LAURENT. Na segunda parte. “subversão do sujeito” (subversion du sujet)52. in Psicoanálisis y salud mental. a sua “viragem subjectiva” . por meio dele. empreendemos um “retorno a Descartes” – lido a partir de Freud e Lacan –. « Alain Ehrenberg : contre le « tournant subjectiviste ». dividimos a nossa investigação em cinco partes fundamentais: na primeira delas. Cf. 15 Dez. Que a psicanálise não seja indiferente a esta questão.html> 52 Cf. 10 . Jacques. procurando auscultar em que medida. in Écrits. É nossa convicção de que a filosofia. tentamos delimitar o problema. explicitar e desenvolver ao longo do nosso trabalho. conseguir mostrar igualmente que o questionamento lacaniano e a concomitante subversão do sujeito têm implicações e consequências não apenas de ordem clínica ou epistemológica. MOLÉNAT. por exemplo. com Lacan. Há que distinguir. *** Para finalizar. não há cidadania sem sujeito. nomeadamente aquela que nos é hoje oferecida pelas neurociências. Esperamos. ao mesmo tempo que precisamos o significado do termo e demarcamos o âmbito específico da nossa abordagem relativamente a outras.. e de que modo. [Em linha]. LACAN. prova-o o termo que Éric Laurent pôs a circular: “L‟analyste citoyen”.cialmente. Tres Haches. apesar dos paradoxos que a 51 Cf. uma vez se trata. ética. 793-827.

no ensino de Lacan. Tenta ainda responder-se. procuramos evidenciar o carácter essencialmente ético da problemática do sujeito. se vai de um Outro (A) ao outro (a)? Finalmente. 11 . como dissemos. Mostra-se ainda como o gozo é essencialmente plural. parece deter a primazia. quais as consequências de um tal fenómeno para o sujeito e respectiva subjectivação? Por outro lado. tentando responder às seguintes questões: em que medida se pode falar de uma “revolução copernicana “ do sujeito? De que modo a “viragem linguìstica” efectuada por Lacan na psicanálise tem consequências. aparece aí como a resposta lacaniana ao problema da satisfação herdado de Freud: é um outro nome para aquilo que este nomeou como radicando num para além do princípio de prazer. segundo o termo por nós eleito. Na parte seguinte. querendo com isto significar que ela não remete para uma suposta realidade psicológica ou substancial. mas antes. finalmente. como da necessidade ou do desejo. equivalente ao sujeito da ciência). para um devir-sujeito. damos um novo passo no sentido de articular a questão do sujeito com a questão do gozo. em que o gozo. des-substancializado. isto é. Na terceira parte. sem qualidades (e nessa medida.mesma implica e do sintoma ou sintomas que ela provocou e continua a provocar no pensamento ocidental. é sempre o sujeito falado e falante que está aqui em causa. O gozo. trata-se de situar o sujeito no campo da fala e da linguagem. implicando diversas modalidades e paradigmas. para a consideração do sujeito? Sendo este constituído no campo do Outro. suportá-lo na sua falta-em-ser (manque-à-être)? Finalmente. se o sujeito “lacaniano” é essencialmente vazio. e quais. quando falamos de significante – o coração da viragem linguística lacaniana – estamos sobretudo a falar de uma dimensão fónica. como a nossa. o que vem dar-lhe ser e consistência. a duas questões: numa época. segundo as mais diversas e paradoxais modalidades. que convém distinguir tanto do prazer. na última parte do nosso trabalho. literal ou de ambas ao mesmo tempo? Independemente da resposta que é dada a cada uma destas questões em particular. o que sucede quando.

PARTE I DA QUESTÃO DO SUJEITO AO SUJEITO DA QUESTÃO 12 .

Os aparelhos do Estado estão lá desde os primeiros anos da sua formação. » Não poderíamos aplicar estas palavras igualmente ao que está a acontecer em Portugal. La Question de L‘analyse profane. o “Relatñrio INSERM” (Institut National de Santé et de Recherche Médicale). nomeadamente. façamos um pequeno resumo. o que no fundo implicava uma redução da psicanálise à medicina. entre outros). zero: ele obedece a protocolos. e ele restar-lhe-á subsmisso ao longo do tempo por meio de avaliações periódicas. Benard-Henri (dir. com este domínio (estão neste caso não apenas psicanalistas. Eu sei: pensaríamos tratar-se de ficção científica. Jacques-Alain. destacaria três: a “emenda Accoyer”. primeiro em França. neste artigo. como se de uma “impostura intelectual” e uma “pseudo-ciência” se tratasse. Nº 30. depois alastrando a outros países. e mais recentemente. A prova de que a questão ainda não foi sanada. psiquiatras ou psicoterapeutas. Sobre esta questão. conta. Observa comportamentos.blogspot. Act. no n°1868. que concluìa. 1998) e parecia suprimir. Paris: Éditions Grasset. 2006. a expressão « tecno-psi » (opondo este ao « psi » que provém ou é inspirado pela psicanálise) e descreve-o nos seguintes termos: “ (…) o techno-psi não escuta. pp. Paris. Sigmund. Jacques-Alain Miller usa. FREUD. mas igualmente filósofos ou escritores de renome.html>. entrega-os às equipas de pesquisa. nomeadamente.conferências psicanalíticas. Em segundo lugar. nº 166. [Consult.La Psychanalyse Contre-Attaque. Polémique: mort aux Psys [Em linha]. assinala (repère) déficits. Paris: Fórum Psy. recolhe dados. sobre a avaliação das psicoterapias. de um modo ou de outro. em Junho de 2003.com/2008/07/polmique-mort-aux-psys. que o deputado francês Bernard Accoyer fez votar na Câmara dos Deputados da Assembleia Nacional. avalia distúrbios (troubles). em 03/07/2008. antes pelo contrário. MILLER. nomeadamente no domínio da educação? 13 . mais ou menos recentes54. De entre os referidos acontecimentos. 03 de Novembro 2008]. “A nova caça às bruxas” (in Ditos III . Vale a pena referir igualmente o número trinta da revista La Règle du Jeu. inteiramente consagrada ao testemunho das mais diversas personalidades (e não só psicanalistas) sobre a experiência singular e o impacto “subjectivo” da psicanálise nas suas vidas (cf. Um bom resumo desta problemática pode ser encontrado no texto de José Martinho. sendo a psicanálise incluìda nestas últimas.) . Gallimard. ele mesmo sob vigilância constante. Cf. faz o que lhe dizem. desse modo. mostram que a questão do sujeito é plena de actualidade. Sob a direcção de Jacques-Alain Miller. Disponível em WWW: <http://forumpsy. 2006). todos estes acontecimentos parecem apontar na mesma 54 Sem pretendermos ser exaustivos. Nos últimos anos. uma série de acontecimentos. compara. com o título L‘Anti Livre Noir de la Psychanalyse (Paris: Éditions du Seuil. 5 de Julho 2008. impossíveis de negligenciar. a tomar uma posição ao mesmo tempo ética e política. que as Terapias Cognitivo-Comportamentais (TCC) são mais eficazes que as “terapias relacionais”. e propunha que os médicos e os psicólogos diplomados fossem os únicos a exercer a psicoterapia. 44-47). foi entretanto publicada uma resposta ao Livro Negro. Para além das dimensões clínica e política da questão. está bem patente no artigo que Jacques-Alain Miller escreveu para o Jornal francês Le Point. 87-100). vieram abalar. em particular no domínio preferencial em que se movia Lacan: a psicanálise. o “Livro Negro da Psicanálise” (Éditions Les Arènes: 2005) propunha-se desmistificar a psicanálise. por assim dizer. Nicolas “L‟affaire du Livre noir” (Sciences Humaines. O Livro Negro aparece aì como o “terceiro acto” de uma série que engloba a “emenda Accoyer” e o “relatñrio INSERM”.CAPÍTULO PRIMEIRO A questão do sujeito Uma série de acontecimentos. obrigando todos aqueles que se inserem ou identificam. Autonomia. o mundo “psi”. o artigo de JOURNET. afere (étalonne). Dezembro de 2005. pp. Por último. o que constitui a especificidade da psicanálise. ver. Lisboa: Fim de Século. LÉVY. A verdade é que o techno-psi não é um psi: é um agente de controlo social total. contrariamente ao que Freud havia proposto no seu famoso artigo de 1926 sobre a “a psicanálise leiga” (cf.

tendo-lhe até consagrado uma boa parte da lição introdutória do seu Seminário XI. da interpelação da psicanálise em nome de um conhecimento plenamente objectivo. Trata-se de uma abordagem objectivista do conhecimento que pretende romper definitivamente com o ponto de vista subjectivista tradicional (herdeiro. O pró55 Não significa que seja o único. A psicanálise é colocada ao lado de certas concepções filosóficas (como o marxismo) ou pseudo-científicas (como a astrologia). o mundo dos estados de consciência e dos pensamentos subjectivos (2) e o mundo do pensamento objectivo. A questão não é inteiramente nova. um dos principais representantes da orientação lacaniana em França. 14 . que “avaliar a psicanálise é reduzir (…) a complexidade da existência humana a um esquema matemático para contentar os administradores da segurança social”. nem objectiva59. numa entrevista 56 publicada no jornal “Le Point” (22/09/05. de Descartes) e estabelecer um “conhecimento sem sujeito cognoscente”. n° 473.Le Séminaire. POPPER. Pari: Payot. 80). a pretensão a toda e qualquer cientificidade da psicanálise. n°1723. com a literatura. Paris: Bernard Grasset. nomeadamente. 1984. Paris: Éditions du Seuil. se bem que não seja o único. Karl Popper é um exemplo clássico e paradigmático. POPPER. nem susceptível de generalização ou tratamento meramente estatístico57. então. nomeadamente. mars 2008. Jacques-Alain Miller. É a dimensão epistemológica da questão. próprio da ciência58. das teorias. de momento. 2004. etc (3). Les Quatre Concepts Fondamentaux de la Psychanalyse. Jacques (1964) . 61 LACAN. o que parece atrapalhar ou fazer problema é o carácter ineliminável do sujeito e da singularidade – do “caso a caso” – não redutível a uma pura objectividade. com a “não objectividade” dos seus resultados e procedimentos. Paris. ver. vide Les écrivains et la psychanalyse -Magazine litté- raire . Aubier. Popper estabelece aqui a diferença entre três mundos: o mundo físico (1). entre o que é e não é ciência – ela não é científica. o que é. segundo o autor. desta forma. 60 Sobre a relação da psicanálise e. p. 1991. Quer se trate de legislar sobre o exercício da psicanálise e de avaliar a eficácia dos seus resultados (dimensão ao mesmo tempo clínica e política56) ou de a denunciar como um “falso saber” (dimensão epistemolñgica). dizia a este propósito. 59 Cf. Jean Claude. Livre XI. contrariamente ao que pretendia Freud. Jacques-Alain e MILNER. dedicado aos Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise61. 58 Cf. Voulez-vous être évalué ?. 57 Sobre esta questão. Se não é científica nem objectiva. invalidando. 1990.direcção: há um problema na psicanálise55 que tem a ver.La Logique de la Découverte Scientifique. constituído pelos conteúdos lógicos dos livros. mas é aquele que nos parece. Podemos resumir a tese fundamental de Popper do seguinte modo: visto que a psicanálise não é refutável – critério de demarcação. estar mais próximo da nossa problemática. a psicanálise? Uma nova religião? Uma magia? Uma arte? Simples literatura?60 Eis algumas das questões a que Lacan não se furta. Karl . em particular. Karl . MILLER.La Connaissance Objective. em particular de Freud.

1ª Edição. supor que a psicanálise é uma ciência. Segundo ele – numa clara controvérsia com Popper – a ciência é uma forma de pensamento entre outros e não existe um critério (único e seguro) que permita distinguir ou demarcar a ciência de pseudo-ciência. uma certa premissa – ou um conjunto de premissas – que. Lisboa: Relógio D‟Água.S. Paul – Contra o Método. não tem interesse. Sigmund . visto que tal não acontece. Lisboa: Cotovia. No entanto. Cf. consiste em saber se aquilo que se ganha em brevidade e custos não acabará por ter um preço tão ou mais elevado para o sujeito. Segundo eles. pp. Cf. WITTGENSTEIN. M. por exemplo. válido. ela não é ciência. De resto. dizem. a acusação de “nova mitologia”63. BENNETT.R.prio Freud chegou a nomear a sua importante teoria das pulsões como “a nossa mitologia”62. FREUD. subiam igualmente de tom as críticas à psicanálise e ao seu carácter pouco ou nada científico64. por assim dizer. Fundamentos Filosóficos da Neurociência. É a tese “cientista”. 64 Nos últimos anos.M. Tomo III. nessa medida.“La angustia y la vida instintiva” (Nuevas Lecciones Introductorias al Psicoanálisis). embora pressupostas. A primeira diz-nos que só a ciência tem valor de conhecimento65. subjacente ao que é dito. Madrid: Biblioteca Nueva. in Aulas e Conversas. Ou seja. não parou de crescer. que deixaremos para já em aberto. “só há maneiras diferentes de explicar fenómenos diferentes do mundo”. perturbando ou fazendo “ruìdo”. O que parece estar subjacente a grande parte destas críticas é um certo tipo de argumentação – para não dizer retórica – que consiste mais ou menos no seguinte: em primeiro lugar. resumindo: ou a psicanálise se apresenta como ciência e peca segundo o critério de demarcação popperiano (visto que não é refutável). 1996. Ao mesmo tempo que crescia efectivamente a sua influência no mundo. p. nesse caso. in Obras Completas de Sigmund Freud. com o número de psicanalistas e analisandos a aumentar. 1991. Isto significa que “há formas de explicação e compreensão que não são cientìficas nem teñricas”. de Wittgenstein. ou não se apresenta como ciência e. 65 É contra esta ditadura que a ciência exerce sobre todas as outras formas de saber. não estão devidamente explicitadas. FEYERABEND. breves e por isso menos “custosas”. que Paul Feyerabend se manifesta. 63 Veja-se o caso. Cf. ainda que ele tivesse mantido para com Freud e a psicanálise uma certa “ambiva- lência”: ao mesmo tempo que admirava profundamente Freud e alguns dos seus achados. enquanto suposta ciência – e é certo que Freud não cessou de aspirar a tal – a psicanálise deveria obedecer a um determinado critério de cientificidade. a este propñsito. “Conversas sobre Freud”. P. não há nenhuma explicação “única” do mundo. Lisboa: Instituto Piaget. não há razão para privilegiar a ciência em detrimento de outras formas de saber. 406-407. Assim sendo. 15 . 3154. HACKER. na validade das conclusões. considerava que a psicanálise não passava de uma “mitologia poderosa” ou uma “maneira de pensamento que precisa de ser combatida”. por excelência66. 2005. 1993. a propósito da psicanálise.. Ludwig. por isso.. Poderíamos subdividir em duas as premissas em causa. que a ideia de que “todo o conhecimento e compreensão genuìna são cientìficos é uma crença “moderna primitiva”. uma outra questão. pretendendo-se o único modelo de racionalida- de. Max Bennett e Peter Hacker. vale a pena perguntar se não há aqui. Parece ser um tipo de raciocínio bem estruturado e. Uma tese 62 Cf. a psicanálise parece ter vindo a perder terreno para as terapias comportamentais e cognitivas.

”68 A segunda premissa do raciocínio a que aludimos. de alguma forma. 68 LACAN. antes de mais. 15. Fevereiro 2004. Magazine Littéraire. a saber um certo número de artigos de fé que eu não partilho de modo algum. científica. 8ª edição. 71 LACAN. Les Quatre Concepts Fondamentaux de la Psychanalyse. as ciências humanas. sem que isso lhe retire qualquer valor. Gérard . sustenta que só a ciência da natureza constitui um verdadeiro modelo de ciência. et elle est autrement plus despotique. Paris: Éditions du Seuil. V. no domínio da ciência. que ela é. Ou melhor. Progrès au nom de quoi ? »]. Flammarion. 315. dos modelos e métodos usados nas ciências da natureza (sentido forte). que se tratava de “fazer entrar a psicologia69 no quadro das ciências naturais”70. in La Naissance de la Psychanalyse. Jacques. ou não são verdadeiras ciências. LACAN. la psychanalyse est fini. “a ciência substitui-se à religião. Progresso em nome de quê? [“le scientisme. sendo. o deus em falta. Eis o modo de pensar que levou o próprio Freud – ele que pusera em evidência algo que parecia desnaturar por completo a natureza humana – a afirmar. Porém. neste caso. 97-98. etc. Jacques – Le Séminaire. 16 . o mais possível. a psicanálise está acabada.que não é. mas o seu fantasma ideológico67. FREUD. como faz Gérard Pommier. » 69 Por Psicologia. Paris: PUF. um deusespaço. obtuse et obscurantiste. 1990. entrevista concedida a Emílio Granzotto. etc. nº 428. e ela é de longe mais despótica. uma praxis71. Livre XI. in La Psychanalyse: nouveaux enjeux. Paris. obtusa e obscurantista. Como tal.Comment les Neurosciences Démontrent la Psychanalyse. pp. nouvelles pratiques. por isso. há outras práticas. op. em 1895. em 1964. Seria preferível. diversas e com valor. Sigmund . pp.. de forma consistente. Como dizia Lacan num artigo inédito. Jacques . que tipo de praxis é a psicanálise? Ou – como perguntava o próprio Lacan – o que a funda enquanto praxis? Na verdade. 319- 403.Mon Enseigment. Paris: Éditions du Seuil. Lacan dizia. à savoir un certain nombre d‟articles de foi auxquels je ne participe à aucun degré. É por exemplo a ideia de que tudo isso representaria um progresso. numa religião sem Deus. 2005. vindo a lume há algum tempo atrás no Magazinne Littéraire. C‟est par exemple l‟idée que tout cela représenterait un progrès. entenda-se. Há um deus-átomo. o “fantasma ideolñgico” da ciência. Il y a un dieu-atome. Se ganha a ciência ou a religião. p. Não pode provar-se. Cap. A resposta a estas dificuldades poderia consistir em afirmar que a psicanálise não tem pretensões de cientificidade. a psicanálise.cit.« Esquisse d‟une Psychologie Scientifique ». em si mesma. ela própria. No original : « La science se substitue à la religion. 28. Si la science gagne ou la religion. POMMIER. un dieu-espace. É a ciência transformada. p. ou são ciências (em sentido fraco) apenas na medida em que se aproximem. Mas será que a 66 « (…) O cientismo. p. 67 Cf. como por exemplo a arte. 2004. chamar-lhe. 70 2002. Não a ciência propriamente dita.

com aquilo que tende a escapar a toda a tentativa de imaginarização ou simboli- 72 Mesmo se isto tem a sua importância. pp. no sentido pleno do termo. se não é. John Searle equacionou este problema do seguinte modo: “Como inserimos nñs a subjectividade dos estados mentais no interior 73 74 de uma concepção objectiva do mundo real? Parece-me um erro que a definição da realidade tenha de excluir a subjectividade. está agora sob a alçada da mesma. Além do mais. de Lacan – não é apenas a expressão de uma impotência ou de um fracasso. tratar-se-ia. 1984. pelo facto de pertencer ao domínio da subjectividade. (…) Se o facto da subjectividade vai contra uma certa definição da “ciência”. Dizer impossível – um termo. MILNER. sem sujeito cognoscente). tem vindo a mostrar que muito do que era tradicionalmente considerado como inabordável pela ciência. 2004. então é a definição e não o facto que teremos de abandonar. de uma ciência impossível. desde logo. MILLER. Desenvolveremos esta questão. 68. porém. um facto novo e irredutível a toda a consideração objectivista.” SEARLE. Voulez-vous être évalué ?. que “não há clìnica do sujeito sem clìnica da civilização” [Pas de clinique du sujet sans clinique de la civilisation]. Não seria mal dito. mas também a afirmação de um poder: a psicanálise lida com o que há de mais impossível de suportar no sujeito e na civilização75. nos últimos anos. Talvez pudesse dizer-se que a psicanálise é a ciência do sujeito. Lisboa: Edições 70. no que este remete para uma particularidade ou singularidade radicais? Não só Popper (que liga a ciência ao conhecimento objectivo. 75 Jacques. como veremos. Se a “ciência” é o nome do conjunto de verdades objectivas e sistemáticas que podemos enunciar acerca do mundo.psicanálise é simplesmente uma arte (do bem-dizer ou do bem-fazer)?72 Talvez a maior parte dos psicanalistas não estivesse disposto a responder afirmativamente a esta pergunta sem colocar algumas reticências ou sugerir uma ou outra objecção. e também a nossa.Alain Miller dizia. Paris: Bernard Grasset. sendo tal. a posição de Lacan. de uma forma mais exaustiva. Cf. Cérebro e Ciência. ao objectivar o sujeito – segundo as exigências do conhecimento objectivo – não se estará a perder a subjectividade do mesmo?74 A ser encarada como ciência do sujeito. mas também Aristóteles (que afirmava não haver ciência do particular) estariam em desacordo com uma tal formulação. É verdade que o grande desenvolvimento sofrido. no capítulo 3 da Primeira Parte. Eis porque a questão da cientificidade da psicanálise tende a reaparecer de forma recorrente. embora uma tal formulação nos obrigasse. no fundo. a perguntar: poderá haver uma ciência do sujeito. como veremos. nomeadamente. O problema reside em saber se é como facto que a subjectividade do sujeito deve ser abordada ou. 31-32. Jean-Claude. então a existência da subjectividade é um facto cientìfico objectivo como qualquer outro. p. na última parte do nosso trabalho. É esta. John – Mente. pelas “ciências cognitivas” e pela “neurobiologia”. por excelência. (…) A existência da subjectividade é um facto objectivo da Biologia. 17 . Jacques-Alain. se é o mesmo sujeito que está em causa na psicanálise73. Resta saber. há algum tempo atrás.

com a influência da religião. em particular no capítulo 3: paradoxos cartesianos de Lacan. que não pára de expandir a sua influência a todos os domínios da vida. Jacques . é ou não um efeito. por isso. por assim dizer. um retorno do religioso. nada disso aconteceu. constituísse uma espécie de “retorno do recalcado” do sujeito excluído da tecno-ciência80. p. p. 18 . de alguma forma. 2007). Tavares (Cf. 143. apesar de tudo. despejando sentido sobre o real cada vez mais insistente e insuportável graças à ciência 79. O impossível de que aqui se fala é. Lacan pensava. Talvez pudéssemos acrescentar.Le Triomphe de la Religion.zação e. 79 Cf. Jacques (1969-1970). um “resto”. longe disso.o título do último livro de Gonçalo M. pois. paradoxalmente. LACAN. mas de uma profusão generalizada de “novas” religiões. não foi capaz de acabar. 77 Esta problemática será desenvolvida na segunda parte. Lisboa: Caminho. o que há de mais real76. essencialmente de saber se a psicanálise é ou não uma ciência. de diversos modos e em diferentes momentos do seu ensino. Aprender a rezar na era da técnica. c‟est l‟impossible”. 78 FREUD. Não se trata. dedicada à subversão cartesiana. Sigmund . como se ao triunfo da ciência correspondesse. uma consequência lógica do advento da ciência moderna77. mas antes. como dizia Lacan. o sujeito. acreditava que a religião seria. 80 A este propósito. seitas e movimentos. ou.L‘envers de la psychanalyse. Volume III. o que Lacan tenta mostrar. Freud. Mem-Martins: Publicações Europa-América. que não se trata apenas da religião “romana”. S/d. na borda ou banda topológica da mesma. Le Sémininaire. contrariamente a Freud. LACAN. a romana. como Freud gostava de dizer do inconsciente. que a verdadeira religião. impossível de eliminar? É como se a religião. Ora. velho optimista das luzes.“A Dissecação da Personalidade psìquica”. deixa. *** Uma questão colateral. 76 “Le réel. Como explicar semelhante paradoxo? Não será porque o manto da “objectividade”. A resposta (lacaniana) a esta questão talvez permita situar a psicanálise não dentro ou fora da ciência. como é possível constatar diariamente. Livre XVII . é que este real do sujeito é. como espécie de “territñrio estranho interno”78. um produto ou um resto da própria ciência. 2005. que tende a cobrir o mundo. 69. nas suas diversas formas e acepções. hoje. Paris: Éditions du Seuil. Porém. destronada pelo espírito científico. não deixa de ser curioso – e ao mesmo tempo paradoxal . in Textos Essenciais de Psicanálise. acabaria por triunfar. real. é por que razão a ciência. Précédé de Discours aux Catoliques. o religioso. mas igualmente pertinente. melhor dizendo. em breve. mas antes de saber se aquilo de que se ocupa a psicanálise. Paris: Seuil.

este “impossìvel” de objectivar (não inteiramente cientìfico) que parece retornar na religião e que a psicanálise.mas também porque num dos seus artigos de maturidade mais relevantes – “Construções na Análise”82 – ele acaba por defender que o psicanalista e a psicanálise nem sempre têm razão (contrariamente à perspectiva popperiana) e que. em vez de tentar defender-se das objecções ou demonstrar o seu carácter “cientìfico”. Por um lado. houve mesmo quem usasse a expressão adleriana “Complexo de Inferioridade” para caracterizar a situação “epistemolñgica” da psicanálise relativamente às demais ciências. seguem. por isso. até certo ponto. desde o princípio. não só porque. os seus enunciados são.“Construcciones en psicoanálisis”. Mas há cada vez mais. Sigmund . London: Karnac Books. Todos aqueles que posteriormente tentaram responder à objecção popperiana. Dezembro de 2004). em particular as neurociências. Kandel R. uma certa apreensão. para ganhar um estatuto epistemológico credível83.& Solms. 83 A “neuropsicanálise” (Cf. pp. que têm hoje em dia um peso e uma influência assinaláveis. in Obras Completas. não deixa os psicanalistas indiferentes e tem causado até. 82 FREUD. podendo até encontrar-se nela um esboço de refutabilidade. K. como demonstram. em alguns deles. os trabalhos mundialmente reconhecidos do neurobiólogo António Damásio. passíveis de refutação. como dissemos atrás . muitas das afirmações e teorias de Freud. 3365-3373. têm-se destacado sobretudo duas posições. “Biology and the future of Psychoanalysis: a new intellectual frame work for psychiatry revisited”. este tipo de argumentação. Fala-se hoje de vários 81 Num Encontro Internacional sobre Ensino e Investigação da Psicanálise na Universidade (Coimbra. 1996. de um modo ou de outro. Como reacção a este cenário. 19 .Seja como for. e apesar de tudo. Madrid: Biblioteca Nueva. por exemplo. aqueles que pensam que mais vale a psicanálise aliar-se à ciência (a neurobiologia. Em apoio dos que argumentam neste sentido.em particular das “ciências da natureza”. Clinical studies in neuro-psychoanalysis – Introduction to a depth neuropsychology. embora não exactamente como as demais. ainda que de um modo diverso. por outro lado. in American Journal of Psychiatry. Abril 1999) são dois exemplos recentes desta linha de pensamento. designadamente sobre a importância dos “processos inconscientes” no nosso psiquismo. 2000) ou a “psicanálise cognitiva” (Cf. há os que tentam demonstrar que num certo sentido. Kaplan-Solms. angústia e mal-estar81. a psicanálise é uma ciência. procurou integrar a psicanálise no quadro das ciências . por exemplo). Tomo III. mais complementares do que divergentes. M. num certo sentido. está o facto de que nos últimos anos toda uma série de investigações no domínio das neurociências parece vir confirmar. O pioneiro desta posição é o próprio Freud. se propõe escutar.

Mem Martins: Publicações Europa-América. igualmente. num texto publicado no 84 Neste aspecto. alguns psiquiatras. onde havia já diferentes concepções pré-freudianas sobre a importância das “forças” ou dos “instintos” inconscientes” na vida e na acção humanas. in Sciences Humaines. “terapias” e “medicinas” alternativas nos últimos anos. François e MAGISTRETTI. 1998. psicólogos. da ciência. por exemplo. O próprio Damásio. O Erro de Descartes. do ponto de vista científico-tecnológico. apesar do extraordinário desenvolvimento. relativo ao estatuto “cientìfico” da psicanálise. 18 Edição. ou de mal-estar na civilização. de um modo ou de outro. à profusão e aumento exponencial de toda uma série de práticas. Sacrificando o sujeito. num apêndice final do seu livro.. 85 Cf. pp. nos últimos anos. estranhas e até perturbadoras. Paris: Flammarion. HODENT-VILLAMAN. a nível colectivo. 20 . Pommier. por exemplo85. como sejam. também aqui o “discurso da ciência” (para usar a expressão de Lacan que já referimos atrás) passou a dar cartas. nº 166.“Nos trois inconscients”. DAMÁSIO António. mas também o cognitivo ou o darwiniano. fazendo lembrar a própria época de Freud. de saber o que fazer do sujeito “excluìdo”. pp. Mas talvez a questão de fundo seja ainda outra. G. N° 166. de Mark Solms ou Peter Fonagy. 30-33. salientava. de resto. a ensaiar uma reaproximação entre estes dois domínios. não é este que retorna sob formas inéditas. de que as novas formas de queixa e de sintoma. 259-262. por exemplo. Jacques-Alain Miller. um dos principais impulsionadores do movimento lacaniano em França e no mundo após a morte de Lacan. antes de mais. Gérard Pommier86 ou François Ansermet87. Dezembro 2005 pp. “metafìsico”. e confina com a ética. Celia. O Erro de Descartes. como faz a ciência. mas também de nomes mais próximos do movimento lacaniano.. 86 Décembre 2005 (De Darwin à l'inconscient cognitif: Nos trois inconscients). tradicionalmente de costas voltadas um para o outro. no sentido kantiano do termo. a nível individual. 2004. in Sciences Humaines. Cf. psicanalistas. Ver. “Psychanalyse et neurosciences: vers une réconciliation ? ».À Chacun son Cerveau. 88 Cf. Postscriptum. etc. Eis uma das razões que tem levado.88 A resposta adequada a este fenómeno vai para além do âmbito meramente epistemológico. 34-36. Pierre . Comment les neurosciences démontrent la psychanalyse. que ela sofreu nos últimos anos. denuncia o que considera “a amputação do conceito de natureza humana com o qual a medicina trabalha”. se bem que hoje a pluralização do inconsciente tenha perdido o carácter vago. Jean-François . são uma boa ilustração? O que tem levado. Paris: Odile Jacob.“inconscientes”84: não apenas o freudiano. pois se trata. São os casos. 87 ANSERMT. adquirindo uma operacionalidade e um estatuto cientìfico novos. plasticité neuronale et inconscient. 2004. DORTIER.

em nosso entender. Isto porque.. “preclusão” e “recalcamento”. apesar de todo o trabalho desconstrutivo reali- 89 Miller. 92 Traduzo desta forma o termo “forclusion” que Lacan forjou. que há uma especificidade da psicanálise que faz com que os métodos que tiveram sucesso em epidemiologia ou em cancerologia. da Ciência no real. 91 Sirvo-me aqui de um termo lacaniano a que já fizemos referência e que será progressivamente explicitado ao longo do nosso trabalho. 30 Octobre 2003.jornal Le Monde. cada vez mais imprevisìveis. *** Permanece. por exemplo. mas depende do sujeito que o diz e. do testemunho do analisando. mais do que epistemológica. é irredutível e ineliminável na psicanálise. A este respeito. op. Como tal. necessariamente excluído da ciência. Nessa medida. se revela essencialmente ética. é interessante o percurso de Fernando Gil. talvez a questão de fundo. em 30 de Outubro de 200389.cit. a própria avaliação da cura é devedora. é que o primeiro se aplica à “psicose” (fazendo com que aquilo que é abolido do simbólico retorne no real) enquanto o segundo é um processo essencialmente simbólico que se aplica à “neurose”. contudo. em grande parte. um filósofo que começou por interessar-se pelos procedimentos cientìficos como “paradigmas” da inteligibilidade do real (por exemplo. o vai construindo em análise. Eis onde a questão do sujeito. Poderíamos formulá-la com recurso aos termos Slavoj Zizek: “por que é que Lacan. diferentemente do que acontece com o sintoma médico ou psiquiátrico. É a ciência tornada “religião” ou “metafìsica”. enquanto prática e modo especìfico e irredutìvel de entender e lidar com o “real”91. 2005). emanada da mesma – releva já do “cientismo” 90 vigente. não inteiramente redutìvel ao modelo científico. 1999. por afirmar a existência de uma “inteligibilidade” especìfica da filosofia. mas antes se. a partir do direito. Acentos. Modos de Evidência. como dizíamos mais atrás. em trabalhos mais recentes (cf. op. GIL Fernando . Por isso. “De l‟utilité sociale de l‟écoute ». o sujeito. não seja a de saber se a psicanálise é ou não é uma ciência90. A diferença entre os dois mecanismos. o qual tende a excluir toda a forma de “inteligibilidade” que não seja cientìfica. Deixo em aberto a questão de saber se alguns dos “efeitos”. por imperativos de ordem metodológica.Tratado da Evidência. não interpela a própria ciência quanto à “preclusão” (mais do que “recalcamento”) do sujeito 92 que ela implica. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.. encontram obstáculos de estrutura em psicanálise. não são reveladores da sua estrutura “psicotizante”. 1998. Tal modo de colocar a questão – bem como a polémica estéril. 21 . Jacques-Alain. no próprio movimento do dizer. uma questão. a prova) e acaba. Le Monde. o sintoma propriamente analítico não é objectivo (por isso não pode traduzir-se num conjunto de números nem ser apreciado de fora). para o mecanismo psíquico envolvido na psicose.cit.

entre outros. 1987. como diriam Wittgenstein e os seus seguidores? 93 Cf. mesmo se a abordagem da mesma sofreu um devir permanente? Tratar-se-á. Valor e Verdade. retomar a questão do sujeito quando. Cf. na questão do sujeito. simplesmente. ZIZEK. a saber: falar de um problema do século XX [no nosso caso. de uma vez por todas. sobretudo ao nível daquilo que se designa. expressa-se. 94 SEARLE. de entre os quais poderíamos destacar . Ludwig – Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas. John. o quanto de mítico. assujeita e des-centra. durante praticamente todo o seu ensino. como denunciam alguns?96 Podemos levar este tipo de raciocínio ainda mais longe e perguntar se não foi o próprio Freud a desqualificar. em frases do género: “é tudo muito subjectivo”. p. Lisboa: edições 70. ela foi desqualificada por toda uma série de autores. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições. mantém o conceito de sujeito?”93 Com efeito. século XXI] com um vocabulário fora de moda e próprio do século XVII? 94 Sabemos o quanto Wittgenstein não cessou de chamar a atenção para os “pseudo-problemas” que nascem do próprio (ab)uso da linguagem95. pode parecer intempestivo. num escrito recente. 22 . não apenas científica. 2006. se não mesmo anacrónico. WITTGENSTEIN. Slavoj . Marx.“Toma de partido: una autoentrevista”. 19. Cf. in Las metástasis del Goce: seis ensayos sobre la mujer y la causali- dad. Desídério – Pensar Outra Vez: Filosofia. por comodidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Como conciliar este descrédito geral em relação à questão do sujeito com o crédito que Lacan lhe confere. tal como ele se apresentava tradicionalmente. falacioso e sem fundamento há em frases deste género.Nietzsche. de discurso corrente. 274. nomeadamente contemporâneos. por exemplo. esta questão. Buenos Aires: Paidos. 96 Desidério Murcho mostrou. Tratar-se-á. não se dará aqui o caso denunciado por John Searle no seu livro Mente. Pode dizer-se até que reside aqui um dos elos de ligação entre o primeiro e o segundo Wittgenstein: uma concepção “terapêutica” 95 da filosofia que procura libertar-nos dos “pseudo-problemas” que ela mesma gera pelo facto de desconhecer a lógica da linguagem ou fazer um uso indevido da mesma. de exumar uma problemática há muito enterrada? De levantar um “pseudo-problema”. 1984. 65-75. como dono e senhor. deste tipo de proposições abusivas. Cérebro e Ciência. Mente. 2003. Abuso de linguagem. Cérebro e Ciência. MURCHO. pp. Foucault. 1ª Edição. entre outros. Além do mais. mas filosoficamente falando.para além dos dois citados por Zizek . Deleuze. p. descobrindo que ele habita (ou é habitado) por “outra cena” que o cliva. a propósito do problema mente-corpo.zado por Heidegger e Derrida. ao subverter o sujeito.

começar por saber o que criticam exactamente na tradição subjectivista os autores que pretendem desacreditar a questão do sujeito. 100 23 . por “sujeito”? Arriscar-nos-íamos a dizer que. substancial. mais à frente. sublinha-se a fractura entre o “eu penso” e o “eu sou”100. Deste modo. uno. Paris: Seuil. o que não deixa de ser paradoxal é que Lacan. na parte II deste trabalho. Heidegger. para responder às questões colocadas. o “Inconsciente” e a “Pulsão”. tanto do ponto de vista epistemológico. contra Kant e Husserl.) o que se pretende desacreditar. escrito que traduz a comunicação profe- 98 rida por Lacan no Congresso de Royaumont. é o eu (autónomo. sem conciliação última possível. cada um deles põe em causa e supera. por assim dizer. Esta estrutura não pode ser indiferente a um público como este. retome igualmente grande parte das críticas que haviam sido endereçadas ao eu. estabelecer uma diferença.Talvez seja necessário. 793. de uma simples revisitação do pensamento dos velhos filósofos. em Descartes. o que Lacan pretende revelar. supposée être philosophiquement avertie]. as “Relações econñmicas”. Ora. o “Dasein”. a “Episteme””. Nietzsche propõe a “Vontade de poder”. a “Disseminação” e o próprio Freud. afinal. É esta diferença que permite entender e situar adequadamente o tipo de diálogo que Lacan encetou ao longo do seu ensino – com especial relevância durante toda a década de cinquenta – com a filosofia e os filósofos98. ao reaver a questão do sujeito. LACAN. Jacques (1966) – “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l‟inconscient freudien ». decisiva. constituinte. a esta questão. O que permite. no ano de 1960 (19 a 23 de Setembro) e que começa da seguinte forma: “Uma estrutura é constitutiva da prática a que chamamos psicanálise. contra Hegel. o eu da tradição filosófica. apesar de tudo. de uma forma geral. a convite de Jean Wahl. em particular. é-nos dito 97 Esta diferença será progressivamente explicitada ao longo do trabalho. O que entendem eles. 99 Voltaremos. Foucault. Eis o contexto que serve de fundo ao escrito subversão do sujeito e dialéctica do desejo. resumidamente. Este tema será desenvolvido. Cette structure ne saurait être indifférente à une audience comme celle-ci. como ontológico ou ético. in Écrits. desde já. o “Plano de imanência”. etc. em cada caso. Marx. entre o sujeito e o eu97. é uma certa fractura do pensamento consigo mesmo: em Aristóteles – uma companhia frequente de Lacan – destaca-se a diferença entre o sujeito (hypokeimenon) e a substância (ousia)99. Não se trata. Deleuze. pelo contrário. de um modo sui generis. Assim. não devemos esquecê-lo. p. Derrida. Cf. propõe-se um sujeito irremediavelmente dividido. que se supõe filosoficamente informado” [Une sctructure est constituante de la praxis qu‟on appelle la psychanalyse.

Seuil. à une certaine avancée du discours de la science.que o sujeito.Simulacros e Simulação. *** Restam ainda. a um certo progresso do discurso da ciência”[“la psychanalyse n‟est pas venue à n‟importe quel moment historique. Cf. op. o que está essencialmente em causa. num tempo em que a ciência expande o seu império por toda a parte. 100. 24 . p. é mostrar que o próprio sujeito do inconsciente é uma consequência lógica do discurso da ciência103. 105 Parece-nos ser ainda no horizonte desta abordagem psicologista do sujeito (sujeito=eu) que Baudrillard situa a psicanálise (e não sem razão. em 1975: “A psicanálise não nasceu num momento qualquer da histñria. 2005. Jacques . Jacques. [« Pourquoi avez-vous trouvé nécessaire de mettre dans le coup le sujet ? Où y a-t-il trace dans Freud du sujet ? »]. em muitos casos). Le Triomphe de la Religion – précédé de Discours aux Catholiques. consiste em saber se esta é uma questão filosófica ou psicanalítica. relegando para um estatuto marginal tudo aquilo que parece não obedecer aos seus critérios mais estritos. 106 LACAN. p. Uma delas consiste em saber se a questão do sujeito é uma questão lacaniana ou freudiana. ao sustentar que esta manteria a “ilusão pejorativa de uma unidade perdida do sujeito”.Mon Enseignement. Ela nasceu correlativamente a um 104 passo decisivo. Eis um tema que nos últimos tempos invadiu maciçamente o domínio dos media. 2005. de salvar o eu (psicológico) do naufrágio102. Paris: Éditions du Seuil. embora como se ela proviesse do lugar do outro. bem como de muita da literatura que se publica por esse mundo fora. 102 Contraraimente ao que parece acontecer com toda uma série de propostas “terapêuticas” actuais. 101 “O sujeito é o que eu defino no sentido estrito como efeito do significante” [“Le sujet est ce que je définis au sens strict comme effet du signifiant”]. Paris. 1991. a questão da seguinte forma: “por que haveis achado necessário meter o sujeito neste assunto? Onde é que há em Freud traço do sujeito?”106 A segunda questão. Lisboa: Relógio D‟Água. Cf. Eis o que afasta. Como dizia Lacan. 103 Tentaremos esclarecer este paradoxo na segunda parte do nosso trabalho. pelo contrário. na auto-ajuda e na livre e plena expressão das potentialidades do eu. que dizem apostar no pleno desenvolvimento pessoal. Freud só pode inventar o inconsciente e criar a psicanálise após o advento do discurso da ciência104. LACAN. Não se trata. no seguimento da anterior.Mon Enseignement. Jean . pelo menos. Jacques . a consideração lacaniana do sujeito de toda a abordagem psicologista do mesmo105. desde logo.”]. elle est venue corrélativement à un pas capital. duas questões. 139. p. o próprio Lacan colocava. LACAN. por isso. Numa conferência datada de 20 de Abril de 1968. na subversão lacaniana do sujeito. BAUDRILLARD.cit.. é um “efeito do significante”101. p. mais do que “constituinte” (transcendental). 80-81. 98.

tanto ao nível prático como teórico. onde se mostra. segundo as exigências próprias da teoria e da prática psicanalíticas. para iluminar.Le Sujet. tal como ela foi equacionada pela tradição filosófica. Écrits. 793). p. pois toda a problemática do sujeito estava já nos textos de Freud. sendo filosófica. embora fosse necessário que Lacan a tivesse resgatado. em particular do contexto filosófico da época107. também a “questão do sujeito” é embebida ou originada a partir de “fora”. e até ocioso. que Lacan não se limita a reproduzir o que disseram os filñsofos sobre a questão do sujeito.LACAN. que a formação do mesmo é anterior aos anos cinquenta. mas antes de um certo ambiente teórico e de uma “tonalidade afectiva”. Jacques. OGILVIE. por outro lado. Se é a filosofia que ajuda ou permite a Lacan nomear a questão. responder à outra. responder a uma é também. si l‟on peut dire. 109 Cf. Jackobson. por exemplo. este termo de sujeito. por isso. onde mergulha o Lacan dos primórdios. 98 e sgs. é já clássico o trabalho de Bertrand Ogilvie. LACAN. no momento em que se trata enfim de lhe mudar o uso?” [“Que le sujet ait survécue à la tradition philosophique est démonstratif. Lévi-Strauss. Cf. Sendo lacaniana. entre outros). Tal como este começa por revisitar Freud a partir do estruturalismo e da linguística moderna (onde se incluem nomes como Saussure. Jacques – Mon Enseignement. op. E sobretudo porque se trata. se podemos dizer.. também é certo que é em Freud que se encontra a matéria ou a substância do mesmo109. Não é essa a razão para não o abandonar. de um verdadeiro compor- 110 tamento de fracasso do pensamento. d‟une véri- 25 . de alguma forma. dando-lhe um conceito108 que não existia propriamente em Freud – pelo menos enquanto conceito fundamental. 108 Sobre o conceito de sujeito. Paris: PUF.Parece-nos que há uma implicação entre as duas questões e. É por isso descabido. iniciada por Freud e continuada por Lacan110. mas “subverte” o modo como ela fora até aí abordada. Com efeito. de cariz eminentemente filosófico. ela é também psicanalítica. 107 Eis uma das razões que faz com que Lacan enderece o texto Subversão do sujeito e dialéctica do desejo a um “público filosofi- camente informado” (Cf. a questão do sujeito não é apenas herdeira de Freud e da psicanálise. essencialmente. na medida em que o conceito serve aqui. Não obstante. de subverter a questão do sujeito. é igualmente verdade. fazendo um convite à releitura dos mesmos.. Betrand . a partir da viragem. “Que o sujeito tenha sobrevivido ao longo da tradição filosñfica é demonstrativo. específico e autónomo –.cit. por outro lado. p. ela é também freudiana. dar conta de uma experiência que é a de Freud e da psicanálise. no fim de contas. por assim dizer. filosófica ou psicanalítica. inìcio do que é conhecido como o “verdadeiro ensino” de Lacan.cit. op. discutir até que ponto a questão do sujeito é lacaniana ou freudiana. 1987.

Depois de Lacan (e de Freud) é impossìvel falar do “sujeito” como se aqueles não tivessem existido. 1984... o corpus filosñfico clássico (a metafísica.). etc. Cf. psicanálise não é uma “concepção do mundo” (Weltanschauung)113. “desconstruir”. Por último. je les vomis”].cit. integralmente dedicada às relações entre a psicanálise e a filosofia. nos últimos anos do seu ensino (anos 70). é o “diálogo” que Lacan não cessou de manter com os grandes filósofos do passado e do presente114. o logocentrismo. “Philosophes de Lacan”. Merecem igualmente destaque.]. Paris. de ter implicações na própria filosofia. pp. BIAGICHAI. in Obras Completas. Finalmente. nouvelles pratiques. Jean-Paul DOLLÉ. RELIER. 112. nº 64: Agalma – Seuil. Madrid: Biblioteca Nueva. “El problema de la concepcion del universo”. Quantable conduite d‟échec de la pensée. 1999. eu as vomito” [“(…) Aucune Weltanschauung. 3191-3206 113 “(…) Nenhuma Weltanschauung. Cf. LACAN. LACAN. não hesita em dar a Lacan o tìtulo de “filñsofo transcendental”. in Quarto – Revue de Psychanalyse. Et même toutes les autres. in Horizon – Número Hors-Série: École de la Cause Freudienne. 26 . 112 1996. a questão poderia colocar-se a contrario sensu: não só como é que a abordagem filosófica sobre o sujeito. nº 428.Mon Enseignement. p. para citar apenas dois exemplos mais recentes. in La Psychanalyse – nouveaux enjeux. anterior a Lacan. e Lacan não deixou de reafirmar. Jacques . Inverno 1998.Subversions du Sujet: psychanalyse. de um modo ou de outro. a propñsito da sua “teoria dos nñs”115. Jacques – Mon Enseignement. Nesse sentido. relembra algumas das etapas deste “diálogo” de Lacan com a filosofia. Por um lado. 91 114 A tal ponto que Slavoj Zizek. 2003). a prática teórica de Lacan. influenciou a reflexão deste último. 37). Lacan et la philosophie. Como Freud já havia sublinhado112. que aquilo era “filosofia”. “Não é toda a sua obra uma tentativa de responder à questão de saber como o desejo é possìvel?” E o autor chega mesmo a arriscar a hipñtese de que aquilo a que se opõe a “antifilosofia” de Lacan é à prñpria “antifilosofia” de filñsofos diversos que procuraram. é já clássico o livro de Alain Juranville. por exemplo. Assim sendo. Sigmund. “Des philosophes à l‟envers”. não podíamos deixar de referir o nº 4 da revista Dispar (Buneos Aires: Grama Ediciónes. Francesca. proposta e empreendida por este. e igualmente relevante. Janeiro de 2004 e MILLER. Sobre este tema. p. de Weltanschauungen. num artigo incluído num dossiê que a revista Magazine Littéraire dedicou à Psicanálise (“Subvertir 116 l‟empérialisme de la conscience”. ZIZEK. como tal. sintetizando. ele declara-se “antifilñsofo”. é o avesso da psicanálise. que a sua posição vacila entre duas posturas. teria mais a ver com uma espécie de “retorno à filosofia”.116 Hoje. Fevereiro de 2004. 115 Voltaremos a esta questão na Parte IV do nosso trabalho. ce terme de sujet. Slavoj . Cf. FREUD. considera que a filosofia está do lado do “discurso do amo” (discours du maître)111 e. op. E mesmo todas as outras Weltanschauungen. Rennes: Presses Universitaires de Rennes. 111 A teoria lacaniana dos discursos será posteriormente abordada. Tomo III. Annick (dir. já muito se escreveu. segundo Zizek. PUF. mas como é que a “subversão do sujeito”.cit. 15. N‟est-ce pas là la raison pour ne pas le quitter. op. p. au moment où il s‟agit enfin d‟en faire tourner l‟usage ? ». p. não pode deixar de “subverter”. Poderíamos dizer. philosophie et politique. isto é. na justa medida em que a filosofia (enquanto metafìsica) se apresente como um saber que se pretende totalizador sobre o ser e sobre o mundo. ele chegou mesmo a afirmar. Por outro lado.). Jacques-Alain [et al.Sobre o tipo de relação de Lacan com a filosofia e os filósofos.

Cognitive Therapy of Depression. mas também de dela extrair algumas consequências práticas quanto à questão decisiva da democratização das sociedades liberais”. a questão do sujeito. não cessou de sublinhar esta “consistência” prñpria do problema enquanto problema. a essas duas perspectivas. sem desconsiderar a importância histórica e crìtica dessa “crise” da subjectividade clássica (cartesiana).La Cause Freudienne . A. Na época “pñs-moderna” em que vivemos será que a questão é ainda pertinente? Independentemente da resposta que se der a esta questão. EMERY. reais. não há problemas. pp. WITTGENSTEIN. Derrida. Todo o problema seria um “falso problema”. Lisboa: Fundação Calouste Gulben- 120 kian. consideram que há problemas enquanto problemas. duas grandes perspectivas que se confrontam:118 por um lado. pelo menos. por exemplo. Por outro lado. através. a daqueles para quem. 235-241) coloca o nome de Lacan em série com Heidegger. Haveria. Quixote.Nouvelle Révue de psychanalyse. enquanto promotores. (…) pensar em novos termos a questão do sujeito. Dicionário do Pensamento Contemporâneo. 1ª Ed. sobretudo nas primeiras obras. B. dos “falsos problemas”. uma coisa é certa: quando de trata de pensar. num artigo intitulado “Modernidade e Sujeito” (cf.F. A. Os “falsos problemas” resultariam de um pensamento errado ou deficiente do sujeito que é preciso corrigir corrigir (cognitivismo)119. como Diferença e Repetição e Lógica do Sentido. *** Mas será a questão do sujeito um “falso problema”? Não se trataria. de um modo ou de outro. como faz o “discurso da ciência”. pelo contrário. Ou seja: trata-se de pensar a questão do sujeito não apenas do ponto de vista “cientìfico” ou epistemológico.. New York: The Guilford Press. Jacques-Alain . Sobre esta questão.. 1991. neste caso. 118 Jacques-Alain Miller. “em termos novos”. mas de lhe negar a prñpria “existência” ou legitimidade. a própria filosofia teria por vocação essencial curar-nos dos pseudo-problemas que ela própria engendra. 162-163. em última análise. Althusser. Barthes. impossìveis de eliminar. Foucault.. 1979. da crise e/ou desconstrução da ideia de “sujeito”. Les Pièces Détachés (inédito) faz referência. Navarin Éditeur: Junho 2005. e que toda a “solução” é provisñria e passageira121. ao afir- 27 . a daqueles que. Lisboa: Publicações D. o nome de Lacan é incontornável. uma espécie de “incurável” do 117 Luc Ferry. por exemplo. Também o escritor Eduardo Agualusa partilha desta posição.J. neste caso.. simplesmente de excluí-lo.T. G.do se trata de pensar o sujeito “em termos novos”117 – e do seu carácter ineliminável – é impossível fazer de conta que Lacan não existiu e que fez da “questão do sujeito” um “nñ” essencial do seu ensino. Cf. não deixa de reafirmar a importância de admitir um “mìnimo irredutìvel de subjectividade” e apontar para a necessidade de “depois dessa critica e não só contra ela. en passant. 1987 121 Deleuze. de uma mudança de perspectiva ou ponto de vista. entre outros)120. SHAW. ou de um mau “uso” da linguagem ou das regras da lógica (Wittgenstein. uma espécie de “nevoeiro” que se trata de dissipar. pp. mas também político e ético. É nesse sentido que a questão do sujeito confina com as Luzes e a Modernidade. Deste ponto de vista. Ludwig – Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas. Pelo contrário. temos. nº 60. MILLER. no seu seminário de 2004-2005. RUSH. o autor. 119 BECK.

10) que “para todos os momentos há uma pergunta certa e as perguntas são sempre mais importantes do que as respostas”. é essencialmente zetética . 122 “(…) o questionamento é realmente o princìpio do prñprio pensamento. o princìpio filosñfico por excelência. a aproximar a psicanálise de um certo cepticismo. pelas diversas razões que atrás enunciámos. a posição de Lacan 123. num dos seus últimos seminários. uma questão actual e pertinente. p. digamos o sujeito. 15. em grande medida. a questão do sujeito é não só legítima como crucial. já na última fase do seu ensino (anos 70). Eis o que levou Jacques-Alain Miller. Lisboa: Publicações Dom Quixote. Michel. p. passando. então. mais do que suprimir. Paris: Navarin Éditeur. Cf. sobre esta questão: enquanto na primeira fase do seu ensino (até finais dos anos 60). Para nós. Parece-nos ser esta também. mar (Revista “Pública”. Junho 2005. ela é. chercher. qualificativo que se atribuìa aos cépticos. MILLER.” Cf.problema enquanto problema. segundo ele. Nº 60. se trataria de dar consistência e dignidade próprias122.« Pièces Détachées ». procurar.du grec zetei. 123 Mesmo se ele variou.Nouvelle Revue de Psychanalyse. ao longo do tempo. além do mais. A Problematologia. de 7 de Julho de 2005. 163. »]. ele costumava afirmar. parafraseando Picasso. p. a que. qui foncièrement cherche. ele inverteu a fórmula.do grego zetei. MEYER. nº 480.” [“(…) la psychanalyse. Jacques-Alain . Para ele. Com efeito. 1991. que essencialmente procura. qualificatif qu‟on attribuait aux sceptiques. est foncièrement zététique . “eu não procuro. a dizer: “eu não encontro. procuro”. encontro”. “(…) a psicanálise. in La Cause Freudieenne . 28 . disons le sujet.

Para uma leitura mais exaustiva deste e de outros aspectos da investigação de Damásio. dessa forma. por exemplo. António – O Sentimento de Si. É impossìvel encontrar no cérebro uma única estrutura que seja capaz. a impressão de que tudo ocorre no mesmo local. 9-46. no seu livro O Erro de Descartes124. é possível ligar as partes ocultas. Como recordava. 29 . A mente resulta desta actividade. no cérebro humano em funcionamento não se vislumbra nada de “centralizador” que se assemelhe a um “sujeito”. Na medida em que esta actividade ocorre em regiões anatomicamente separadas. “a maneira como surge a subjectividade em semelhante processo conti124 Cf. um forte sentido de integração mental – base daquilo que o investigador vai analisar em pormenor no livro seguinte. mas dentro de uma mesma janela temporal. Da mesma forma. dentro de uma mesma “janela temporal” (temporal window). Filipe – “Freud com 126 Damásio: psicanálise e neurobiologia”. O Sentimento de Si125 – ele é criado a partir da acção concertada de vários sistemas cerebrais e da sincronização de conjuntos de actividade neural em regiões anatomicamente separadas. in Psicanálise & Arredores. Em vez deste local. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. 2003. Lisboa: Publicações Europa- América. graças à “memñria de trabalho”. o que existe são vários sistemas a funcionar ao mesmo tempo. DAMÁSIO. segundo a expressão de Damásio. 2005. António – O Erro de Descartes – Emoção. Se existe em nós. de integrar e centralizar todo o múltiplo e diverso conjunto de fenómenos que aí ocorrem. 1995. pp. António Damásio. 125 DAMÁSIO. por assim dizer. também não é possível aceder-lhe recorrendo às novas e sofisticadas técnicas de imagem cerebral. ou desta estrutura única. Lisboa: Publicações Europa-América. criando. Será que isto esgota ou responde inteiramente à nossa questão? Citando o próprio Damásio. simultaneamente fragmentada e sincronizada. a dizer-se da alma: não consegue encontrar-se na ponta do bisturi. Especialmente o capítulo V. Razão e Cérebro humano. parte I e o capítulo X. a certa altura. apesar de tudo. 6ª Edição. É a este fenómeno que se deve a ilusão de que há um local no cérebro “responsável” pela coordenação de tudo o que nele acontece.CAPÍTULO SEGUNDO O sujeito da questão Poder-se-ia dizer do sujeito o que chegou. parte III. a que Damásio vai dar uma grande relevância126. vide PEREIRINHA.

Lisboa: Gradiva. reside 30 . 248.”127 A este embaraço aparente. p. “Proponho – diz ele – que a subjectividade emerge durante esta última fase. daì que Dirk Fabricius . da nature- za. p. consegue dar conta daquilo de que falamos quando usamos a palavra sujeito num contexto humano? O próprio Damásio estabelece uma diferença entre o self (fenómeno puramente neural e não verbal) e o eu.denuncie o esvaziamento do termo culpabilidade para a dogmática jurídico-penal. o direito e a ética. 2008 e SINGER. mas está sem dúvida na origem do eu. de uma das suas principais condições de possibilidade131. careceriam. uma das noções centrais é o 128 129 130 termo de “culpabilidade”. Curitiba: Juará Editora. quando o cérebro está a produzir não só imagens de um objecto e imagens das respostas do organismo ao objecto mas um terceiro tipo de imagem. por exemplo. entre outros.cit. 249. DAMÁSIO. sobretudo os capítulos 3. 2ª Edição. A linguagem pode não estar na origem do self. como fenñmeno inteiramente biológico.”128 Será. DAMÁSIO. António – op. responsabilizando-se ou sendo responsabilizado pelos seus actos130.apoiando-se. António – op.nuaria a ser um mistério..não haveria nada nem ninguém que respondesse ou a quem pedir contas por um acto. igualmente pertinente. de responsabilização (o que pressupõe já a existência de um sujeito). em particular. Dirk . o nome de Peter Singer . António .O Erro de Descartes.”129 É neste sentido que uma outra via começa a perfilar-se. op. 2ª Edição. Libertação Animal. pelo menos em parte. nesse caso. enfim. 5 e 10). de constituir-se ou ser constituìdo como “sujeito”: dizendo “eu”. o neurobiólogo vai responder. Com efeito. Como ele prñprio diz: “os seres humanos dispõem de capacidades narrativas de segunda ordem. Sem esta suposição do sujeito suposição indesligável do acto de fala que a institui .não é também devedor.Culpabilidade e seus Fundamentos. pensamentos ou palavras. mesmo no domínio da filosofia . Neste processo..cit. Peter. complexo. Uma outra questão. Para não ir mais longe. o indivíduo não pára de “subjectivar”. FABRICIUS. de novo. com a importância da memória de trabalho e da sincronização dos processos em jogo. 131 Na verdade. Ética Prática. a do organismo no acto de perceber e responder a um objecto. A forma apurada da subjectividade humana resultaria deste último processo. e até mesmo na experiência mais comum.onde ressalta. Peter. SINGER. p. que esta “subjectividade” neural. mas também a política. 127 DAMÁSIO. etc. deste processo de subjectivação Cf.cit. na psicanálise . Porto: Via Optima.. que podem produzir narrativas verbais a partir das não verbais. poderíamos ir ainda um pouco mais longe e perguntar se o crescente interesse pelos direitos dos animais. 247. proporcionadas pela linguagem. 2006). apontando diversas razões por que as ciências criminais não podem nem devem prescindir do princípio da culpabilidade (Cf.

S/d. Luís . se a biologia nos deixa de alguma forma desamparados? Além disso. Eis o que salta imediatamente à vista quando consultamos. de que falamos nós.A Ilusão do Fim ou a Greve dos Acontecimentos. não o conseguindo. Lisboa: Terramar. 134 HOUAISS. BAUDRILLARD. Talvez esta ambiguidade e polissemia do termo sujeito não seja algo simplesmente a descartar. Jean . 2005. Seguir estes fios de sentido é quase tão difícil como aprender a respirar outra vez a língua. 132 Se não nos contentamos aqui com a definição de sujeito como “uma entidade singularizada e autñnoma que age de modo livre” (Cf. não o descobrindo. tal como interrogava Jean Baudrillard há alguns anos. Lisboa: Temas e Debates. em saber. onde encontrar este suposto sujeito. o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa134. descobri-lo na ponta do bisturi ou graças às novas técnicas de imagem cerebral. como dizíamos mais atrás. se este reconhecimento da “natureza como sujeito de direito” não significa tão sñ que “ ela foi já mortalmente objectivada” (Cf. 18 Volumes. A natureza torna-se sujeito quando já foi irreversivelmente sujeitada por meio da intervenção humana. Mauro de Salles – Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. pelo contrário. que o sujeito de que falamos aqui não é monocromático. não se trataria tanto de reduzir os equívocos que o termo sugere. e. com vista à sua plena objectivação. o verbete relativo ao termo sujeito deixa claro que não é possível reduzir esta palavra a um caminho de sentido único. é a ambiguidade e a polissemia que constituem a sua tónica. António. porém.Órbitas da Modernidade: da era do sujeito à consciência global. 133 Um dos nomes do Outro (Autre) lacaniano por excelência. mas constituam um traço essencial do mesmo. como um acidente de percurso.como o campo da fala e da linguagem. p. concluir que ele é monocromático. Ocupando um espaço considerável. *** Acontece. mas antes de vislumbrar nesses equívocos uma razão ou argumento suficientes para fundamentar o seu carácter irredutível. 2002. negar a sua existência ou declará-lo como um falso problema? Servindo-nos de uma comparação. 13) é porque a subversão freudiana e lacaniana do sujeito fazem com que este saia definitivamente da órbita da modernidade. (Com o apoio e patrocínio da Academia de Ciências de Lisboa). 120). que fala e é falado. em vão. Lisboa: Mareantes Editora. CARMELO. VILLAR. p. na medida em que este é definido . seria como pretender ver o mundo colorido com uns óculos escuros e. não inteiramente objectivável.Porém. 31 . habitualmente. fazendo-a irradiar em múltiplos sentidos. por exemplo. quando falamos de sujeito?132 Não seria melhor começar pelo dicionário – tesouro das palavras que estão ou já estiveram em uso133 – em vez de tentar. Nesse caso.tal como mostraremos mais à frente .

apoiando-nos simultaneamente em Lalande e no Dicionário Houaiss. André – Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia. ARISTÓTELES – Categorias. pp. no verbete consagrado a este termo no seu já clássico Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia135. Retomamos. 207. tal como denunciou em particular Wittgenstein. pp. é que talvez este carácter “flutuante” do termo sujeito revele algo de essencial sobre o mesmo. afirmar que “há necessidade de fixar esta terminologia tão flutuante. pretendendo significar com isto que a melhor forma de apreender o sentido deste termo é prestar atenção ao uso ou usos que lhe foram consagrados. mas também Aristóteles que. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. o que propomos. deste modo. sem esquecer que muitas vezes. 573-577. com particular realce para a substância139). LALANDE. como pretendia Lalande. 1987. Não que o propósito aristoté135 Cf. desenvolver e problematizar as várias ambiguidades ou “dualismos” inerentes ao uso do termo. A ponto de o autor. nomeadamente pela prática linguística. não apenas a ideia proposta por Wittgenstein de que “o sentido é o uso” (the meaning is use)137. muito antes de Wittgenstein.” Cf.André Lalande.”136 Ora. se havia dado conta de que a melhor forma de sabermos o que quer dizer uma expressão (por exemplo cada uma das categorias138 que ele apresenta e explicita no livro homónimo. do que “fixá-lo”. capítulo 5. 139 32 . André – op. Porto: Porto Editora. 39-44. é possível tentar “fixar” uma semântica e uma pragmática mìnimas do termo sujeito. Porto: Rés. ainda que numa perspectiva algo diversa. “Para uma grande classe de casos – embora não todos – do emprego da palavra „sentido‟ pode dar-se a seguinte explicação: o 136 137 sentido de uma palavra é o seu uso na linguagem. Cf. ARISTÓTELES – Ibidem. 37-67.cit. 1995. Ludwig – “Investigações filosñficas”. WITTGENSTEIN. há falsos problemas que resultam. p. LALANDE. trata-se mais de acompanhar o movimento dessa flutuação. do fumo ou nevoeiro da linguagem. é dedicado a ilustrar. é começar por recorrer ao que é dito. *** Apesar de tudo. 138 Cf. 575. pp. num misto de lamento e desafio. chamava a atenção para esta ambiguidade ou complexidade do termo sujeito. in Tratado LógicoFilosófico e Investigações Filosóficas. p. por assim dizer. Grande parte da secção crítica do referido verbete. Sendo assim. em particular na tradição filosófica.

do logos. usa a designação de “psicologia crìtica ou reflexiva”. c) um uso metafísico (o ser ao qual é atribuído o predicado e que é por assim dizer o seu suporte). portanto. mesmo se ele não deixa igualmente de reconhecer – muito antes de Kant e Wittgenstein – que por vezes o uso indevido de certos termos pode gerar ilusões141. quanto às substâncias segundas. Jacques (1974-1975) – Le Séminaire. mas homem e animal são ditos de muitas coisas. comme je l‟appele. especialmente a partir do cartesianismo e do pensamento 33 . Vol. que. in Problèmes de Linguistique Générale. pois a coisa revelada é individual e numericamente uma. 141 O exemplo que Aristñteles dá. op. embora pareça. 42. pp. LACAN. à sua maneira. pois o sujeito não é um com a substância primeira. pela forma como são nomeadas [sublinhado nosso] quando dizemos „homem‟ ou „animal‟ . Émile . Sintetizando. em vez deste termo.que significam igualmente um certo isto. Lição de 8 de Abril de 1975. como eu o chamo. temos: a) um uso temático (aquilo que é submetido à reflexão. enquanto via régia... pp. mas antes que parece haver nele uma certa confiança no poder da palavra. d) um uso médico-psicológico (o ser individual submetido à observação).lico seja essencialmente linguístico140. Aristóteles parece acreditar que aquilo que dizemos expressa ajustadamente aquilo que é. recorre a um ou mais ditos de diversos autores. ARISTÓTELES – op. que há entre a linguagem e a realidade. é o seguinte: “Todas as substâncias parecem significar um certo isto. aquilo de que se trata). São sete os usos principais que Lalande põe em evidência143. a este propñsito. as palavras e as coisas. p. ter defendido a tese de que terá sido através de uma análise não inteiramente consciente das diferentes formas gramaticais da língua grega que Aristóteles chegou à sua lista das categorias.cit. I. segundo o texto estabelecido por Jacques-Alain Miller para Ornicar? 143 LALANDE. por exemplo. “(…) o parlêtre. b) um uso lógico ou proposicional (aquilo de que se fala por oposição àquilo que se afirma ou nega disso). Pareceu-nos. 63-74. André – Vocabulário Técnico e Crítico de Filosofia. se podemos dizer assim. ne croit plus (…) à l‟être hors l‟être de parler. Não se trata. é incontestavelmente verdade que elas significam um certo isto.cit. Lalande. e) um uso epistemológico144 (relativo ao sujeito do 140 Isto apesar de Émile Benveniste. mais inteligível e 144 actual a designação usada no Dicionário Houaiss: “em epistemologia. livre XXII. que a melhor forma de apreender o sentido de uma palavra é destacar o seu uso. Il croit à l‟être (…) uniquement parce qu‟il y a le verbe être »]. no entanto. mas antes que é através do dito que podemos responder à questão sobre o que é. Cf “BENVENISTE. 142 Cf. uma natural adequação ou conformidade. a fim de ilustrar cada um dos sentidos do termo sujeito. Ele crê no ser (…) unicamente porque há o verbo ser” [“ (…) le parlêtre. Parece ser também esta a perspectiva adoptada por Lalande. já não crê (…) no ser fora do ser de falar. à discussão. RSI (inédito). isso não é de facto verdade.” Cf. para aceder ao que é.« Catégories de pensée et catégories de langue”. Mas. O que elas significam é antes uma certa qualificação. 573-574. Paris : 1966. confirmando. No que respeita às substâncias primeiras. de pensar – como fará Lacan muitos séculos depois – que ser é ser dito142.

Fica claro. 7536-7537. pelo menos. e sujeitos como submetidos às leis do Estado”. o que é dotado de algo). finalmente. reflecte ou analisa como do objecto de discussão. c) que se sujeitou ao poder do mais forte. poderíamos acrescentar a esta lista alguns itens mais. Sem pretendermos ser exaustivos. f) um uso sociológico-político145 (o indivíduo enquanto submetido à autoridade do soberano ou do Estado). o eu pensante. Cf. nos vários sentidos elencados. e chamam-se em particular cidadãos como participando na autoridade soberana. quando é considerado como sujeito de conhecimento) como pode chegar a confundir-se com ele (daí que algumas línguas usem o mesmo termo para falar tanto do sujeito que discute. ao sujeito que fala. 7536. a saber146: a) pessoa indeterminada ou cujo nome não se enuncia. o saber sobre o sujeito numa suposição básica: que isso fala ou. pelo menos de modo explícito. b) termo da oração sobre o qual recai a predicação e com o qual o verbo concorda. um uso jurídico (as pessoas ou os seres humanos considerados como sujeitos do Direito). consciência. Não assenta. sem acção própria. a uma lei inelutável.. 146 Vide Dicionário Houaiss. Não deixa de causar alguma estranheza que. como tema de conversa. p. passiva (o que está submetido ou subordinado a algo) e. p. que o termo “sujeito” tende a oscilar entre uma vertente activa (o que conhece. nesta pequena amostra. cativo. 34 . reflexão ou análise). dócil. como se vê pela citação de Rousseau a que o autor recorre: “Os associados…tomam colectivamente o nome de povo. op. d) que se sujeita facilmente à vontade dos outros. digamos. espírito ou mente enquanto faculdade cognoscente e princìpio fundador do conhecimento”. enfim.. súbdito. Também no caso em que o termo sujeito designa uma pessoa subordinada ou submetida a algo ou alguém. ele tanto se opõe a objecto (por exemplo. ainda que o sentido seja também político e até jurídico. pela sua condição. objectal (por exemplo. pp. g) e. 145 Lalande diz apenas sociológico. não seja feita qualquer referência. escravo. Dicionário Houaiss – op. a um destino natural.cit. cit. É esta a situação que o poeta Luís de Camões soube bem dizer no seu famigerado verso: transforma-se o amador (sujeito) na coisa amada (objecto). obediente. De igual modo.. g) ou.cit. que é dotado de palavra. e) submetido. domado. que podemos falar sobre isso? É como se o sujeito que moderno. ou pode confundir-se com o objecto. a apresentar certos estados clínicos.conhecimento enquanto correlato ou condição necessária do objecto conhecido). o que possui. LALANDE. reflexão ou análise). sem liberdade. André – op. ele se confunde. 574. f) que está exposto a contrair doenças. escravizado. Cf. afinal.

ele confronta-nos com a abordagem lógica e metafísica do termo sujeito por parte de Aristóteles. Yan [et al.. 35 . fazendo-os brilhar por contraste relativo. p. É aqui. Retrospectivamente. que enuncia algo sobre o sujeito. nomeadamente.789 148 Néologismes de Jacques Lacan. Historicamente falando. 1993. 70. nunca tivessem sido ditas por ninguém. 4. Não 147 Cf. em particular as de Kant e Husserl. “Nñs somos „parlêtres” [seres que falam e são falados]. Lisboa: Verbo. a inventar o neologismo parlêtre148. in Logos: Enciclopédia Luso-Basileira de Filosofia. mesmo que seja para reconhecer que a maior parte do tempo ele é mais falado do que fala. Lisboa: Cotovia. No seguimento de Freud. in Sete Rosas Mais Tarde (edição bilingue). à sua maneira. 1992.fala. É para dizer esta condição primacial de ser falado e falante que Lacan será levado. 97-117. d‟équivoquer sur la „parlote‟. 1337-1340. cavaqueira]. FREITAS. se excluísse ou retirasse no próprio momento em que termina a sua enunciação. Como se fossem. palavra que há toda a vantagem de substituir ao inconsciente. como se nunca tivesse existido. Uma exaustiva recolha dos principais neologismos criados por Lacan pode ser encontrada em PELISSIER. ele considera que só faz sentido falar de sujeito supondo que há um sujeito falante.] . “a rosa de ninguém” (Die Niemandsrose)147. pp. parece consensual que foi com Descartes que se deu a ruptura decisiva quanto à noção de sujeito150. pp. porém. Como se as palavras que habitam o dicionário. Paris: EPEL. por equivocar com „parlote‟ [conversa. 2002. Vol. que começa a primeira subversão lacaniana do sujeito.cit. Manuel da Costa.789 Néologismes de Jacques Lacan. parafraseando Paul Celan. 149 “Nous sommes des „parlêtres‟. prospectivamente. da viragem cartesiana e do que esta representou. na medida em que cada um deles é devedor.] . e com o facto de que é da linguagem que nñs apanhamos esta loucura que há ser.”149 *** Não é esta. inclusive a palavra sujeito. mot qu‟il y a avantage à substituer à l‟inconscient. d‟une part. Yan [et al. poderíamos dizer. Ou. Paul – “A rosa de ninguém”. já na última fase do seu ensino. capaz de falar. op. tagarelice. por um lado. pior ainda. 150 Sobre a evolução histórica deste conceito. CELAN. ele abre-nos o horizonte dentro do qual é possível conceber as diversas – se bem que irredutíveis – considerações posteriores sobre o mesmo. mais tarde. É como se o passo dado por Descartes tivesse o dom de iluminar simultaneamente o antes e o depois. a única subversão do sujeito que importa considerar. “Sujeito”. ver. então. et sur le fait que c‟est du langage que nous tenons cette folie qu‟il y a de l‟être ». PELISSIER.

não é ao termo coisa ou substância155.cit. 36 . pp. 855-877. parece existir. que Descartes faz apelo? Como se o esplendor inaugural da verdade do cogito tivesse rapidamente cedido o passo ao saber156 aristotélico que havia dominado o pensamento ocidental durante vários séculos e a identidade substancialista fizesse retorno sob a diferença aparente entre os dois momentos. cit. entre a consideração lógica e metafísica deste e a consideração epistemológica daquele. 1993.seria de todo possível analisar as condições de possibilidade da função de sujeito151. LACAN. também não seria compreensível sem esta ruptura epistemológica levada a cabo por Descartes153. entre o momento aristotélico e cartesiano. vale a pena perguntar se por detrás desta ruptura. A própria crítica heideggeriana à razão calculadora e ao horizonte de subjectividade que a funda. Jacques – “Allocution sur l‟enseignement”. Paris. “La science et la vérité”.Uma Teoria da Justiça. em especial. op. ainda que pensante. Manuel da Costa . no âmbito da filosofia política. in Écrits. 153 Mais recentemente. quer num sentido lógico. in Autres Écrits. porém. Dito isto. ainda que menos apreendida. a partir de Descartes o sujeito passa a designar e entender-se sobretudo como foco ou centro de actividades154. entre Descartes e Aristóteles. segundo os diversos autores.cit. 1339. Porém. Éditions du Seuil. FREITAS. p. Cf. com a noção de objecto. em vários textos e momentos do seu ensino. e a correlacionar-se. 1338-1339 Desenvolveremos este problema mais pormenorizadamente na segunda parte do nosso trabalho. não haverá. uma diferença de peso: enquanto naquele o sujeito é tomado como suporte de atributos ou predicados.. em particular a cognitiva. que parecem devedores desta “varredura de saberes” empreendida por Descartes. 2001. Manuel da Costa – op. uma continuidade mais essencial. tal como ela é enunciada por John Rawls. são os próprios fundamentos da teoria da justiça. e da diferença que ela implica. FREITAS. 154 Cf. John .op. p. pp. como se propuseram fazer os autores citados. ou seja. por assim dizer. Desde logo.. sem que aquele tivesse sofrido a “varredura (balayage) de saberes”152 (dos sentidos e da tradição) a que Descartes o submeteu. surge uma pergunta inevitável: quando se trata de nomear o sujeito. Cf. Socorro-me aqui de uma distinção que vai ser largamente desenvolvida por Lacan. de um modo ou de outro. 155 156 Ver. RAWLS. 151 Cf. quer num sentido onto-lógico. conduzindo a uma posição original (ideal) de ignorância (o “véu de ignorância”) por parte do sujeito (também este entendido mais num sentido transcendental do que empírico. 302 [“le balayage à 152 quoi Descartes procède des savoirs”]. Lisboa: Editorial Presença.

op. É verdade que o filósofo usa dois termos para nomear aquilo de que se trata: ousia (substância) e hypokeimenon (sujeito)160. Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyse.cit. crucial.Uma mesma equivalência fundamental parece. chegamos inevitavelmente ao momento de concluir. ao nível do que é dito. percebe-se que o dizer aristoté- 157 “A dificuldade quando se fala de subjectividade. *** Mas.. Jacques (1954-1955) . em particular o de ousia. Paris: Éditions du Seuil. Contudo. op. também aqui. que se trata de duas coisas distintas: “substância (…) é aquilo que não é dito de algum sujeito nem existe em algum sujeito (…)”161. na apresentação linguística do termo.Le Séminaire. 2ª 160 Edição. 159 Esta questão será desenvolvida em pormenor na segunda parte do presente trabalho. É nessa medida que podemos falar. é a de não entificar o sujeito” [“La difficulté quand on parle de la subjectivité. falar mais alto: tanto para Aristóteles como para Descartes.Mon Enseignement. Por um lado. o projecto lacaniano consiste fundamentalmente. ver PETERS. o próprio sujeito de que se fala162. por um instante.cit. – Termos Filosóficos Gregos: um léxico histórico.”]. cit. como entender que. ou lisez. é como se pensássemos.” [“Relisez. como entender a declaração que Lacan chegou a fazer de que o próprio Aristóteles teria estabelecido uma distinção. de uma subversão lacaniana do sujeito.. F. a substância só não é dita de nenhum sujeito nem existe em nenhum sujeito porque é. c‟est de ne pas entifier le sujet”]. 162 37 . 158 Cf. assim. desde o princípio. numa des-substancialização (ou des-entificação) do sujeito157. Jacques . entre o sujeito e a substância158? Por outro lado. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. LACAN. 112: “Releiam. que. ou leiam. 40-41. duas novas questões se nos apresentam. ARISTÓTELES – Categorias. p. 71. o sujeito equivale à substância. 1978. Lacan tenha feito equivaler o sujeito da psicanálise ao sujeito cartesiano? Deixemos para mais tarde a resposta à segunda questão159 e vejamos como as coisas se passam em Aristóteles. op. ARISTÓTELES. a certa altura. p. Sobre o uso destes dois termos. p. 39. Contra Descartes e Aristóteles. Por outro lado. para Aristóteles. passado que é o efeito momentâneo e após um certo tempo para compreender. ela mesma. as Categorias (…) e vejam no princìpio a dife- rença que há entre o sujeito e a substância. Livre II.. sem grande margem para dúvidas. sendo assim. LACAN. pp. Sob a diferença aparente. les Catégories (…) et voyez au début la différence qu‟il y a entre le sujet et la substance. 161 Cf.

in Autres Écrits. 164 Esta distinção será desenvolvida. op. pp. cit. o segundo é o que se retira. O sujeito da enunciação pressupõe um dizer que ainda não se transformou em dito. op. a diferença subjectiva no seio da substância. 165 p. falado e falante. Slavoj Zizek (Cf. uma verdade que ainda não se cristalizou num saber. des-substancializado. in El Espinoso Sujeto: el centro ausente de la ontología política. “El espinoso sujeto hegeliano”. 2001. que desaparece no preciso momento que Aristóteles identifica sujeito a substância. Como explicar. Mon enseignement. 166 Retomo aqui o termo de Slavoj Zizek (Cf. Se o primeiro é o que dá corpo à substância. a frase de Lacan? Tal não é possível sem fazer apelo a uma nova subversão lacaniana do sujeito. mais tarde. há que acrescentar um sujeito da enunciação164. uma identidade que demoraria alguns séculos a ser posta em causa. p. Jacques. É como se a consideração linguística fosse unicamente um organon (para usar um termo do próprio Aristóteles). A um sujeito do enunciado. qual é o “novo” sujeito que elas propõem? 163 Hegel. ao nível das coisas163. cit. as três subversões a que aludimos reduzem-se a uma e mesma subversão do sujeito: um sujeito da enunciação. na terceira parte do nosso trabalho. mas também. irá introduzir.. um instrumento para aceder àquilo que é. 38 . Buenos Aires: Editorial Paidós. LACAN. como sabemos. o tenha dito. op. antes disso. É este o fio de Ariadne que pode começar a guiar-nos no labirinto da questão do sujeito. e sobretudo. desse modo. Cf. que Aristóteles. proposicional. Porém.. O que tende a permanecer esquecido é que isso se tenha dito. dar-lhe um novo alento? Nesse caso. 79-133) não deixaram de sublinhar e comentar abundantemente. quando encarado de um ponto de vista não apenas lógico.lico aponta para uma identidade essencial. estabelecendo. “Qu‟on dise reste oublié derrière ce qui se dit dans ce qui s‟entend”. “l‟étourdit”. em particular. mais em pormenor. No fim de contas. 449. tal com ela é equacionada e desenvolvida por Lacan. El Espinoso Sujeto: el centro ausente de la ontologia política. aquele que serve de ponto de partida a Aristóteles. há que responder previamente a uma outra questão que não deixa de ser actual: quais os novos dados que trazem para a discussão do problema as neurociências? Poderão elas desacreditar definitivamente a questão do sujeito ou. Eis um tema que Lacan (Cf. É o que permanece esquecido sob o que se diz naquilo que se ouve165: uma espécie de “centro ausente”166. então.). pelo contrário. 111). mas onto-lógico. cit.

no próximo capítulo.Tentaremos. 39 . responder a estas e outras questões correlacionadas.

CAPÍTULO TERCEIRO

Um novo sujeito?

Tratámos, nos primeiros dois capítulos, de situar o problema em causa neste trabalho. Para tal, começámos por interrogar a pertinência ou a actualidade da questão do sujeito, esboçando, em seguida, uma resposta à questão de saber o que deve entender-se pelo mesmo. Encetámos, assim, um percurso que foi da questão do sujeito ao sujeito da questão. É chegada a altura de colocar uma nova questão. Para a entendermos, é necessário, antes de mais, explicitar o seu contexto. Por um lado, os avanços recentes (e espectaculares) das neurociências – e em particular da neurobiologia – não podem deixar de interpelar-nos relativamente à questão de saber se não estamos perante uma nova concepção e abordagem da velha questão da subjectividade, tal como esta foi tematizada por várias gerações de filósofos. Importa, nesse caso, saber se estamos meramente perante uma nova abordagem (científica) de uma velha questão (filosófica)167 ou, pelo contrário, de uma mudança tal de paradigma que os próprios dados do problema sofrem uma reformulação. Nesse caso, estaríamos não sñ perante uma novo “homem neuronal” – segundo a expressão de Jean Pierre Changeux168 – mas também, ao mesmo tempo, perante um “novo sujeito”169. Por outro lado, Lacan – o autor de cuja teoria do sujeito visamos progressivamente acercar-nos – não deixou de prestar atenção e de apropriar-se, quando foi caso disso, do que havia de mais inovador e produtivo ao nível da ciência do seu tempo. Nos primórdios do seu ensino, para lutar contra aquilo que lhe parecia uma redução e abuso
167

Parece-nos ser esta a posição de John Searle. Cf. Mente, Cérebro e Ciência, op. cit., p. 31. “Rien ne s‟oppose plus désormais, sur le plan théorique, à ce que les conduites de l‟homme soient décrites en termes d‟activité

168

neuronales. Il est grand temps que l‟homme neuronal entre en scène. » Cf. CHANGEUX, Jean Pierre - L‘Homme neuronal. Paris : Fayard, 1983, p. 159.
169

Alain Ehrenberg, Director do Cesames, CNRS – Paris, chamou a esse novo sujeito “O sujeito cerebral” (Cf. EHRENBERG,

Alain - “Le sujet cérébral”, in Esprit: les guerres du sujet. Novembre 2004).

40

dos conceitos fundamentais que Freud introduzira na psicanálise, Lacan recorreu, por exemplo, à Antropologia Estrutural (Lévi-Strauss), à linguística moderna (Saussure, Jackobson), à lógica (Frege, Russel) e à topologia (Moebius, Klein), para não ir mais longe. Foi com estes instrumentos que ele empreendeu uma contínua, sistemática e inovadora releitura do legado freudiano. Hoje, alguns autores acreditam – não sem polémica – que o gesto lacaniano teria correspondência ao nível das neurociências. É indiscutível que as últimas décadas assistiram a um desenvolvimento sem par nesta área do conhecimento e da investigação. Por outro lado, a velha e recorrente aspiração à cientificidade por parte da psicanálise, bem como o “sonho biolñgico” de Freud170, levaram muitos a enveredar, nos últimos anos, por essa via171. Como recordava, há algum tempo François Ansermet, tratar-se-ia de “ir na direcção aberta por Lacan quando ele se perguntava o que seria uma ciência que incluìsse a psicanálise.”172

170

Freud ambicionava, desde o princìpio, fazer entrar a psicanálise no quadro da ciência (Cf. “Esquisse d‟une psychologie scientifi-

que, in Naissance de la Psychanalyse. PUF, Paris, 2002, p. 315 : « Neste esboço procurámos fazer entrar a psicologia no quadro das ciências naturais»). Por outro lado, ao mesmo tempo que depositava grandes esperanças nos desenvolvimentos futuros da biologia, como “um domìnio de possibilidades ilimitadas”, ele temia que esses desenvolvimentos pudessem fazer ruir o edifìcio da psicanálise (Cf. “Au-delà du principe de plaisir”, in Essais de psychanalyse, Éditions Payot, Paris, 1995, p. 110). Na verdade, a posição de Freud é, neste aspecto, bastante paradoxal, ambígua e até hesitante. Ao mesmo tempo que continua a alimentar o sonho científico, não deixa, nos momentos cruciais, de defender a especificidade da psicanálise em relação a tudo o resto, inclusive a própria ciência. Um bom exemplo disto é o texto de 1926 sobre a questão da “análise leiga”, isto é, praticada por não médicos. Cf. FREUD, Sigmund, La Question de L‘analyse Profane. Collection Folio/Essais. Paris: Gallimard, 1985.
171

De entre os vários exemplos possíveis, poderíamos referir apenas dois, sobretudo porque eles ilustram bem como o fenómeno

tende a contagiar até aqueles que tradicionalmente se mostram mais reticentes a uma tal e inusitada aproximação, na medida em que entre estes dois domínios parece haver uma particular incomensurabilidade. É, de resto, a perspectiva de um desses autores, François Ansermet, tal como se pode ver na passagem seguinte: “l‟incommensurabilité de ces deux champs n‟en reste pas moins incontournable”. Apesar disto, o autor defende que as diferenças entre os dois campos não devem impedir o “diálogo” entre eles; sobretudo porque há certos fenñmenos, como o conceito de “plasticidade” – longamente desenvolvido pelo autor – que justificam uma tal aproximação (Cf. ANSERMET, François, MAGISTRETTI, Pierre - À Chacun son Cerveau: plasticité neuronale et inconscient. Paris: Odile Jacob, 2004, p. 25. O outro nome eminente é Gérard Pommier. Apoiando-se, por sua vez, no fenómeno neurológico da “atrição” - “les neurones présents à la naissance dégénèrent s‟ils ne sont pas utilisés avant une date limite. Ce phénomène, appelé attrition” (cf. Commment les Neurosciences Démontrent la Psychanalyse. Paris: Éditions Flammarion, 2004, p. 24) - ele mostra não só como a psicanálise teria a ganhar se prestasse mais atenção ao que se passa nesta área de investigação, mas também como muitas das descobertas efectuadas pelas prñprias neurociências ganhariam uma outra “legibilidade” se estas prestassem mais atenção ao que se diz na psicanálise.
172

Cf. ANSERMET, François, MAGISTRETTI, Pierre - op.cit., p. 25.

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Esta via, porém, está longe de ser consensual. Há quem a considere uma “via sem saìda”173. Como relembrava Éric Laurent, a este propósito, em vez de usar as neurociências para lhes fazer dizer que elas dizem a mesma coisa que a psicanálise ou que a confirmam, tratar-se-ia antes de distinguir os dois planos: o da objectividade (objectivité) científica e o da objectalidade (objectalité) da psicanálise174. Seja como for, esta polémica parece demonstrar pelo menos duas coisas: por um lado, fica a ideia de que os avanços recentes no domínio das neurociências não deixam os psicanalistas indiferentes, levando-os a ter de responder, de uma forma ou de outra, a este novo desafio; por outro lado, parece que estamos confrontados com aquilo a que alguém já chamou “as guerras do sujeito”175. Que significa isto? *** A expressão “guerras do sujeito” é de Alain Ehrenberg176. Ela pretende traduzir o que parecem ser duas concepções heterogéneas acerca do sujeito: de um lado, os defensores do “sujeito falante” (sujet parlant), com destaque para os psicanalistas, mas não só; do outro, os defensores do “sujeito cerebral” (sujet cérébral), como é o caso dos neurocientistas. Enquanto os primeiros se inquietam em relação ao futuro da subjectividade humana e do seu tratamento, os segundos consideram que vai ser enfim possível resolver certas questões que atormentaram milenarmente o espírito e o corpo humanos177. No fundo, parecem estar em causa duas concepções do próprio ser humano: uma que o encara como ser cerebral e corporal e outra como ser social e falante 178. Enquanto tal acontece, aquilo em que consiste um sujeito permanece obscuro179. Mais do que entrar na polémica (estéril), Ehrenberg decide interrogar a natureza do “programa” que subjaz às investigações levadas a cabo pelas neurociências. Tratar173

Cf. LAURENT, Éric - “Les voies sans issue de la psychanalyse cognitive”, in La Cause freudienne - Nouvelle Revue de Psycana-

lyse. Nº 60. Paris: Navarin Éditeur, Juin 2005, pp. 17-22.
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Cf. LAURENT, Éric, op.cit., p. 22. Cf. EHRENBERG, Alain, op. cit, pp. 74-85. Cf. EHRENBERG, Alain, op.cit., p. 131. Cf. EHRENBERG, Alain, op.cit., p. 82. EHRENBERG, Alain, Le sujet cérébral“, op. cit., p. 131. EHRENBERG, Alain, op.cit., p. 84.

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se-á de um programa “fraco” (faible) ou de um programa “forte” (fort)?180 Dizendo de outra maneira: no que está em jogo nas neurociências, qual a parte que cabe respectivamente às “hipñteses estritamente cientìficas” e às “teses filosñficas”? Esta questão não deixa de ter a sua importância. Antes de mais, pensando que estamos a resolver velhos problemas filosóficos de modo científico, poderemos, pelo contrário, estar a cair em novas confusões conceptuais. Como recorda Ehrenberg, se é importante que não se misturem os assuntos do filósofo e do sábio, há o perigo de este se transformar, malgré lui, num “mau” filñsofo181. Isto pode conduzi-lo a uma espécie de “cegueira conceptual” que o leva a dar um passo demasiado grande e ilegìtimo (un pas de trop) quando pretendia apenas dar um passo mais (un pas de plus) na resolução dos problemas182. Um bom exemplo é a confusão, segundo o autor, entre causas (causes) e razões (raisons)183. Uma causa traduz a descoberta de uma regularidade natural, verificável empiricamente e previsível. Como tal, uma causa não tem autor nem faz sentido. Pelo contrário, uma razão pressupõe um autor – diríamos nós, um sujeito – e faz apelo ao sentido. A razão é o que torna a acção inteligível, dando-lhe um sentido. Este sentido não é independente do Outro (perante quem invoco as minhas razões ou me justifico), do contexto (sociocultural) e da linguagem. Na verdade, não somos compostos no mesmo sentido de proteínas e desejos184. Esquecer isto, deixa campo aberto a todo o tipo de confusões conceptuais185. ***

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Cf. EHRENBERG, Alain, op.cit., p. 132. Cf. EHRENBERG, Alain, op.cit., p. 183. Cf. EHRENBERG, Alain, op.cit., p. 139. Esta diferença é inspirada em Wittgenstein. Cf. EHRENBERG, Alain, op.cit., pp. 139-141. Cf. EHRENBERG, Ibidem, p. 140. “L‟usage d‟une perspective exclusivement naturaliste consiste soit à mettre sur le même plan l‟être considéré à partir de son

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corps, ici le cerveau, et l‟être considéré comme un tout pensant et agissant, soit à faire du second la conséquence du premier. La confusion de l‟individuation et de l‟individualisation conduit à penser que le cerveau est à la fois le sujet qui dirige la personne entière. (…) On croit avoir enfin corrigé «l‟erreur (dualiste) de Descartes » et on ne fait que la reconduire avec des méthodes scientifiques. » EHRENBERG, Alain, ibidem, p. 42.

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Que estas “confusões conceptuais” não possam – ou não devam – ser descuradas é o que defendem, por exemplo, Peter Hacker e Max Bennet, numa monumental obra consagrada aos fundamentos filosóficos da neurociência186. Antes de mais, porque é preciso distinguir as questões conceptuais das questões empíricas, o que a neurociência nem sempre tem feito de um modo rigoroso187. Quando se lida com problemas empíricos sem ter em conta esta distinção fundamental, estamos sujeitos a uma de duas coisas (ou a ambas ao mesmo tempo): pôr problemas mal concebidos ou seguir uma investigação mal orientada188. Além disso, pode igualmente acontecer que haja uma representação (ou interpretação) incorrecta dos resultados e das implicações das experiências efectuadas189. Seria apropriado adaptar aqui, em jeito de paráfrase, a conhecida frase de Kant: conceitos sem intuições são vazios, mas intuições (isto é, experiências) sem conceitos adequados são cegas. Daì a importância do “esclarecimento conceptual” (na esteira de Wittgenstein, mas também de Aristóteles) a que procedem os autores desta obra. De entre as várias confusões apontadas, destacamos três: a “falácia mereolñgica” (que consiste em outorgar a uma parte do ser humano (por exemplo, o cérebro) qualidades ou atributos psicológicos que só faz sentido atribuir ao ser humano inteiro)190; o “criptocartesianismo” (que consiste em manter um cartesianismo dissimulado ao mesmo tempo que se é abertamente anticartesiano); o “reducionismo” (que consiste em explicar o que se passa num nível mais elevado a partir da explicação do que acontece num nível inferior)191. Na base destas confusões – profusamente ilustradas ao longo da obra – está, em grande medida, um problema de “linguagem”. E isto num duplo sentido: por um lado,

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BENNET, M.R., HACKER, P.M.S. – Fundamentos Filosóficos da Neurociência. Lisboa: Instituto Piaget, 2005. Denis Noble, no prefácio que escreveu para esta obra, começa, desde logo, por chamar a atenção para este facto: “ (…) a neuro-

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ciência tem confundido com frequência e sistematicamente as questões conceptuais com as empìricas”. Cf. Op.cit., p. 11. Os autores dão inúmeros exemplos, ao longo da obra, de uma tal confusão.
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Cf. BENNET, M.R., HACKER, P.M.S., op.cit., p. 16 Cf. BENNET, M.R., HACKER, P.M.S., op.cit. p.124. “Não é a mente que é o sujeito dos atributos psicolñgicos, tal como também não é o cérebro. É o ser humano vivo - o animal

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inteiro, e não uma das suas partes ou um subconjunto das suas faculdades.” Cf. BENNET, M.R., HACKER, P.M.S, op.cit. p. 77.
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“A principal pretensão do anti-reducionismo na ciência é que uma tal explicação exaustiva dos mecanismos a um nível não

explica necessariamente o que existe e o que se passa a nìveis mais altos” (Cf. BENNET, M.R., HACKER, P.M.S., op. cit., p. 14.

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com vista ao esclarecimento cabal dos princípios subjacentes à tomada de decisã por parte do sujeito individual. Um bom exemplo disto. 194 Sirvo-me aqui da diferença estabelecida por Alain Ehrenberg a que já fizemos referência anteriormente. p. cit. M. DAMÁSIO. 2000. é a concepção e o papel atribuído à linguagem por António Damásio. um dos mais reputados neurocientistas da última geração a nível mundial193.. Antñnio – O Sentimento de Si: o corpo.M..S. alargando.” Cf. no seu último livro. são o sentido e o contra-senso para a filosofia. a “ciência da regulação da vida”. quer até da ética e da política (Ao Encontro de Espinosa). Enquanto o primeiro é estritamente científico. numa concepção incorrecta ou desajustada da própria linguagem. Trata-se. Se a ética (tal como outras dimensões socio-polìticas da vida humana) são apanhadas pelo fio desta investigação é porque “a 192 “O que a verdade e a falsidade são para a ciência. P. “ (…) A homeostasia é uma chave para a biologia da consciência. mas também conducentes à tomada de decisões (clìnicas. na investigação de Damásio dois tipos de “programa”: um “fraco” (ou minimalista) e outro “forte” (ou maximalista)194. por outro. em nosso entender. 45 . 7ª Edição. Como é possível investigar os limites do sentido? Só pelo exame do uso das palavras. depois. Qual é a base para esta extensão cada vez maior não só do campo de pesquisa como igualmente da aplicação dos resultados da mesma? Parece-nos que a palavrachave – tal como o próprio Damásio sugere – é o conceito de “homeostasia”195. éticas. *** A investigação que António Damásio tem vindo a realizar desde há vários anos possui uma amplitude cada vez maior. 193 O nome deste investigador é profusamente referido ao longo ao longo das quase quinhentas páginas que compõem a obra de Max Bennet e Peter Hacker.R. O erro de observação e o erro teórico resultam em falsidade. BENNET. Mem-Martins: Publicações Europa-América. o erro conceptual resulta em falta de sentido. Não sendo um termo criado por Damásio. 20. assim. o segundo já assume uma pretensão explicativa (e prática) de maior alcance. Parece haver. mas de toda a vida humana. 60. ele dá conta daquilo que o investigador chama. p. finalmente. O contra-senso é muitas vezes provocado quando uma expressão é usada contrariamente às regras do seu uso. a sua investigação aos fundamentos biológicos quer da consciência (O Sentimento de Si). op.em não se prestar a devida atenção ao uso das palavras 192. HACKER. Começou com a procura dos fundamentos neurobiológicos da racionalidade (O Erro de Descartes). polìticas) que visem o “bem-estar” e a sobrevivência do indivíduo e da espécie..” Cf. a 195 emoção e a neurobiologia da consciência. de descobrir os fundamentos neurobiológicos não só da racionalidade ou da subjectividade.

eram essencialmente os fundamentos neurobiológicos da razão que pareciam ocupá-lo. 187. Uma das consequências é – como resume Éric Laurent. Talvez não seja por acaso que estes dois autores façam parte do leque dos convocados no último livro consagrado a Espinosa. Cf. ou seja. Num primeiro tempo. desde o inìcio da sua vida. com um enorme repertñrio de sabedoria que diz respeito à forma como o organismo deve ser gerido. A expressão é de Lacan. O Outro (Autre) de que aqui se fala é a própria linguagem198. parece-me estar subjacente a quase tudo quanto ele diz 198 199 200 201 sobre este assunto. sobretudo.construção a que chamamos ética deve ter começado – segundo o investigador – como parte de um programa geral de regulação biológica.. 21. num artigo dedicado a Damásio – “a curto-circuitagem (court-circuitage) do Outro e a redução do corpo a um organismo”197. DAMÁSIO. das convenções sociais. pp.cit. de forma contínua. antes 196 DAMÁSIO. Aristñteles e Freud. a linguagem é vista por Damásio como algo de secundário – e até negligenciável – no “grande esquema das coisas”200. Mas com a entrada em cena do problema da consciência e. O projecto de Damásio revela-se. Sirvo-me aqui de uma das muitas metáforas de que Damásio faz uso. “O cérebro está animado. 197 LAURENT. não é possível apreender o verdadeiro alcance e significado que isto tem para o sujeito humano sem antes perceber qual o papel ou o lugar que é reservado por Damásio à linguagem numa tal “orquestração”199 homeostática da vida. op. p. Nessa medida. éticas e políticas. Mem-Martins: Publica- ções Europa-América. Antes de mais. Esta questão será desenvolvida na Parte III do nosso trabalho. 4ª Edição.”196 Tanto as emoções e os sentimentos (ao nível do indivíduo. cada vez mais ambicioso. assim. a ideia da homeostasia é alargada ao governo da vida social. op. mas também do grupo social) como a consciência servem o mesmo propósito fundamental: a sobrevivência e o bem-estar do organismo. 2003. António . mas. 133-139. António . embora não sendo usada por Damásio. a “eudaimonia” e o “princípio de prazer” andam aqui de mãos dadas. nomeadamente à forma como a vida deve ser organizada e como o organismo deve res- 46 ..O Sentimento de Si. Se não houvesse já um “saber no real” biolñgico 201. Um mesmo cordão umbilical parece ligar. Éric – “Les voies sans issue de la psychanalyse cognitive ».Ao Encontro de Espinosa: as emoções sociais e a neurologia do sentir. cit. A razão principal de uma tal secundarização parece clara. p. as dimensões bio-psico-social da existência.

” (Cf. ECO. 422-424. 4ª Edição.. 1996. Mas há ainda. p. ambiguidades e erros de tradução sem pôr em perigo a sobrevivência do organismo? Este argumento parece indiscutível. DAMÁSIO. 203 Umberto Eco deu-nos alguns ecos da história dessa busca. M. para além dos mecanismos meramente biológicos.. Antñnio . na terminologia de Lacan) que fala – e não apenas de um “outro” (autre) que se limitaria apenas a suprir a necessidade – parece. ponder a certos acontecimentos exteriores. (…) Tudo isto quer dizer que o cérebro traz consigo sabedoria e savoir faire inatos que se antecipam aos sinais do corpo. Cf. esta permite a ficção e a mentira e é recheada de ambiguidades202. porventura. Eis igualmente o que tem levado outros a argumentar acerca da “pobreza da linguagem natural”204.M.Portugal. Hoje.. Lisboa: Relñgio D‟Água. “uma mãe pode investir toda a sua ternura no acto de amamentar um bebé. GIL. No entanto. 2005. Cit. isto é. DAMÁSIO. 202 “ (…) Quando a mente criativa é traduzida em linguagem. facilmente resvala para a ficção.” (Cf. Ela pressupõe estes mecanismos. José . 219. como ontogenético. Eis o que levou muitos a empreender uma busca desesperada e insensata para encontrar uma língua perfeita. Lisboa: Editorial Presença. 231). ele deixa um resto.. p. uma razão mais forte que leva Damásio a secundarizar a linguagem.cit. BENNET. op.O Senti- mento de Si. isenta de tais ambiguidades203. Antñnio .do advento da linguagem. assim. pp.. o medo de existir. Se é verdade que a vida estaria em risco se dependesse da linguagem para funcionar. têm de estar presentes os mecanismos neurobiológicos que a tornem possível. não é também verdade que a vida humana estaria igualmente em perigo sem o amparo da linguagem? Como relembrava José Gil no seu Portugal. Para que esse acto se inscreva (…) tanto nela como no bebé é preciso que ela lhe fale enquanto amamenta.cit. A vida não pode esperar que a linguagem entre em cena para actuar. 205 47 . Além disso.S. Como poderia a vida dar-se ao luxo de permitir tais mentiras. parece igualmente óbvio que.Ao Encontro de Espinosa. as exigências da vida precedem a linguagem.R. fundamental e indispensável. para dar “vida” (humana) ao sujeito in statu nascendi. a sobrevivência do organismo estaria em perigo. op. op. 204 Cf. HACKER. antes que surja a linguagem propriamente dita. Umberto – A Procura da Língua Perfeita. P. Tanto do ponto de vista filogenético. hoje: o medo de existir.”205 Esta presença de um “Outro” (Autre. Na verdade.

com as suas palavras e frases. p. ECO. Há.fr/lacan/1966-12-02a. nº ¾. pelos motivos que já adiantámos atrás. 208 “A linguagem.. Este e o anterior são apenas dois exemplos. que língua ou idioma falariam as crianças. a linguagem tem. para o sujeito. p. para Damásio.op. a latina ou a árabe.faz o seu crescimento . ao chegarem à adolescência. relações ou inferências. se nunca tivessem tido a possibilidade de falar com ninguém. Não sabemos. onde é narrado o famigerado episódio que teve como protagonista o rei da Sicília. por assim dizer.A Procura da Língua Perfeita.fait sa croissance autant immergé dans un bain de langage que dans un milieu dit naturel. A “curto-circuitagem do Outro” – segundo a expressão de Éric Laurent – pode ter implicações desastrosas para o sujeito (humano).O Sentimento de Si. Ela limita-se.. Frederico III. uma abolição do equívoco. vai no mesmo sentido. de que tivessem nascido. é uma conversão de imagens não linguísticas que representam entidades. 20: «abolition de l‟équivoque au profit de la représentation ». 134).. [Disponível na www: <http://www. segundo Damásio. Além de secundária. António . Queria descobrir se falariam a língua hebraica. Foram provavelmente várias as circunstâncias que estiveram na base do sucedido. da presença ou ausência daquilo que Lacan chamava o banho de linguagem207. Mas foi trabalho perdido. »] Esta entrevista [Em linha] foi originalmente publicada com a autorização de Jacques Lacan e de Georges Charbonnier (o condutor da emissão) na revista Recherches. mesmo quando os mecanismos e as necessidades “vitais” estão assegurados. 206 Cf. Este banho de linguagem determina-o mesmo antes que ele tenha nascido. Éric . por altura da publicação dos Escritos. A 2 de Dezembro de 1966. porque todos os meninos ou recém nascidos morriam. op. cit. ou antes a grega. A linguagem é a “tradução” de outra coisa: imagens não linguìsticas que representam eventos.” (DAMÁSIO. páginas 5-9.imerso tanto num banho de linguagem como num meio dito natural. Ce bain de langage le détermine avant même qu‟il soit né.A célebre crónica de Salimbene de Parma. em proveito da representação209.” [“(…) l‟homme croît . op. Umberto .htm>].cit. Querendo saber. um papel eminentemente tradutor ou representativo208. 48 . 209 Cf.cit. relações e inferências. é a tradução de outra coisa. eventos.org/aejcpp. foi difundida pela rádio France-Culture uma entrevista onde 207 Lacan afirmava o seguinte: “(…) o homem cresce . em 1967. por meio de uma experiência. dois entre muitos. a simbolizar em palavras e frases conceitos ou acontecimentos não verbais.”206 Estas crianças não viveram tempo suficiente para contar o que realmente aconteceu. p.lutecium. 15. das consequências. ordenou às aias e amas que dessem leite às crianças sem nunca falarem com elas.free. ou se não falariam em todas as circunstâncias a língua dos pais. LAURENT.

371). uma suspeita ou um pressentimento em relação a algo que pode ou não acontecer. 49 . esta palavra teria uma ligação evidente ao ritmo cardíaco. falar não é traduzir pensamentos não verbais na linguagem verbal. As palavras são elas próprias imagens. sabemos como se usa a palavra. Distinguir entre um sentido e outro depende do contexto de uso e não de qualquer adequação natural a esta ou àquele estado de coisas. ele ilustra a sua argumentação apelando à palavra de língua portuguesa “palpite”. por imagens. como dizer respeito a uma conjectura. cit. op. traduzindo verbalmente um sinal emocional do corpo à maneira dos “marcadores somáticos”. DAMÁSIO. “A maioria das palavras que utilizamos na nossa fala interior. António . Um exemplo dado por Max Bennet e Peter Hacker é o seguinte: “Não é necessária qualquer imagem nem nenhuma figura de uma 211 pessoa a passear para servir de guia ou padrão para o uso correcto do verbo “passear” (Cf. Isto não significa apenas que ela traduz verbalmente as imagens do pensamento. mas que é tecida. representativa e imagética – que vai ser rebatida. Veremos. 122. nem confrontar uma palavra com uma imagem mental. a palavra “palpite” é ambígua: ela tanto pode remeter para a palpitação do “ñrgão”. por Peter Hacker e Max Bennet. nomeadamente na forma como perspectivou a questão do sujeito. Parece-me que há aqui uma confusão (e seria legítimo perguntar se esta e outras confusões do género não resultam da uma má compreensão da linguagem).”211 É este reenvio de uma palavra a outra. O dicionário grafa o significado da palavra. p. Pois bem. se dizemos que o coração “palpita” ou que temos “palpitações” é porque. Em primeiro lugar. segundo Damásio. mais tarde. de inspiração wittgensteiniana.. como Wittgenstein (mostrando que o sentido depende do uso) puseram definitivamente em causa. Resumindo a tese dos autores. antes de dizermos ou escrevermos uma frase. Pensar o contrário. Um outro exemplo. Por outro lado. Segundo ele. antes de mais.”210 *** É esta concepção de linguagem – tradutora. de uma frase a outra.O Erro de Descartes. existe sob a forma de imagens auditivas ou visuais na nossa consciência. é aquele que o próprio Damásio dá no livro Ao Encontro de Espinosa.Além de tradutora. op. pressupõe um entendimento da linguagem que tanto Saussure (mostrando que o signo é imotivado). ponto por ponto. igualmente interessante. mas antes saber usar a dita palavra. de um significante a outro que levará Lacan a definir este último como “o que representa um sujeito para um 210 Cf. Querendo exemplificar o papel dos “marcadores somáticos” nas estratégias e nos mecanismos de raciocínio. p. mas especificando outras palavras ou frases equivalentes – dá-nos uma regra para o uso da palavra.cit. não através de uma listagem das imagens que lhe estão associadas. ela mesma. como esta “viragem linguìstica” foi decisiva para Lacan.. a linguagem tem uma natureza fundamentalmente imagética. “Se eu não tiver a certeza do significado de uma palavra não evoco imagens (…) mas vou procurá-la no dicionário.

pp. Descartes. 50 . 214 A este propósito. o sujeito foi apercebido como um efeito: o “momento cartesiano”? 213. pondo em relevo o que houve nele de absolutamente decisivo e incontornável. o momento (ou os momentos) em que este decidiu levar a sério a operação cartesiana (Cf.” [“ (…) le signifiant. Na verdade. substância pensante e extensa. as teorias científicas (com alcance empírico) de Descartes podem estar todas (ou quase todas) erradas. L‘envers de la Psychanalyse. 31. pode ser um erro (Damásio) ou.cit. como não retornar àquele ponto inaugural em que. O sujeito como efeito da linguagem. diferentemente do signo. ou seja. PORGE. Mas não é nada claro se a questão faz sentido (e é isto o que a investigação pode elucidar). SOULEZ. Livre XVII. biológico – é o que serve de ponto de partida a Lacan. pela primeira vez. 212 “ (…) O significante. antes de traduzir ou representar o que quer que seja de exterior (uma coisa ou um acontecimento) ou interior (um conceito ou um pensamento). o significante produz o que não hesitaríamos em chamar: um efeito-de-sujeito. a sua distinção entre a mente e o corpo. 1973. como uma condição para esclarecer o sentido da relação da mente com o corpo. LACAN. Cf. 491-492. op. Paris: Éditions du Seuil. Na verdade. Eric. Sendo assim. Antónia (dir.escrevem: “ (…) uma questão “Como se relaciona a mente com o corpo?” é principalmente uma questão filosófica que necessita de uma investigação conceptual e não empírica. Ela exige o esclarecimento do conceito de mente. Jacques (1969-1970) .) . mas também como “o momento cartesiano da psicanálise” (e em particular do prñprio Lacan). 213 Tomo aqui a expressão num duplo sentido: não apenas como o momento (ou os momentos) em que Descartes “intuiu” o cogito. mais do que isso. é o que representa um sujeito para um outro significante. É a esse efeito que Lacan se propõe retornar. todo um contrasenso ou uma confusão conceptual214. à la différence du signe. p.recordando a perpectiva de Jonh Searle sobre a matéria .Le Séminaire. est ce qui représente un sujet pour un autre signifiant.outro significante”212. nada disso apaga o efeito-de-sujeito que o momento cartesiano fez irromper no pensamento ocidental. do deslize significante – e não como um dado natural. da mesma forma. »]. Lição de 14 de Janeiro de 1970. 1996). porém. le sujet.Le Moment cartésian de la Psychanalyse: Lacan. Hacker e Bennet ..” Cf. Paris: Éditions Arcanes.

PARTE II UM RETORNO A DESCARTES 51 .

ele tornou-se. DESCARTES – Meditações sobre a Filosofia Primeira. Mente. ego existo) parece. Cérebro e Ciência. Tanto filósofos (Cf. Paris: Vrin. Descartes deixa cair o donc presente na fórmula do Discurso do Método e substitui o je pense por je suis. biológica em particular. a que aparece na quarta parte do Discurso do Método: “je pense. Descartes não pára. por excelência. parece ser. R. Discours de la Méthode. já que tanto a fórmula dos Principia Metaphysica (Cogito. cit. Cf. pp. 52 . tradução e notas pelo Prof. eu existo” (ego sum. e é desse modo. tal como mostraram. parece que cada um tem o seu “erro de Descartes” predilecto. no mínimo. a todos aqueles que pretendem ilustrar o que o seu pensamento não é. pp. Inquisitio veritatis per lumen naturale: “Dubito.) têm denunciado o prejuízo para o pensamento e a investigação. segundo um conhecido termo de Damásio215. em algo que assombra: o nome 215 Um dos erros paradigmáticos de Descartes . António. não haverá aqui igualmente uma certa confusão entre problemas empíricos e conceptuais. da modernidade. DAMÁSIO. têm oposto estes pensadores e investigadores um primado do corpo ou uma redução (ou resolução) das operações mentais em termos puramente neurobiológicos (Cf.cit. (Sobre estas variações. em negativo. Porém. Max e HACKER. elas se reduzirem a duas: em primeiro lugar. apesar de. ergo sum”. Qu‘est-ce que la Philosophie.se bem que não seja o único . Desde os “clássicos” aos mais recentes pensadores e investigadores. DESCARTES. 1967. foi objecto de todo o género de críticas.cit. de uma tal concepção do espírito e do corpo. donc je suis” (cf.cit. Com efeito. no fundo. 119).). 1991. Com efeito. op. op. Coimbra: Almedina. Gilles e GUATTARI. 253-257). tornar-se ainda mais frágil. e em mais do que uma versão. por BENNET.. 65). anacrónico ou despropositado. Mais do que uma sombra. Nas Meditações Metafísicas. John. SEARLE. como a que aparece na edição póstuma de 1701. desde que inscreveu pela primeira vez. R. de fazer sintoma. Paris: Les Éditions Minuit. não há apenas uma única fórmula. Fundamentos Filosóficos da neurociência. op. 1992. nomeadamente. antes de mais. De certa forma. são. vale a pena interrogar se. de forma magistral. por assim dizer. 1963. ele tornou-se numa espécie de figura caricatural que serve de referência. deste modo. Gustavo de Fraga. Gilles Deleuze e Felix Guattari.) como neurocientistas (Cf. Ao primado cartesiano do pensamento. p.. ver Meditações Sobre a Filosofia Primeira. de algo que sustivesse na sua imponderabilidade. p. DAMÁSIO. daì que Descartes acrescente: “sempre que proferida por mim ou concebida pelo espìrito”. Méditations Méthaphysiques. DESCARTES. 29-31). Peter. tal como foi denunciado. Livraria Almedina. que ele deve ser apreendido nas suas diversas componentes (cf. assim. 119. Félix. superações e desconstruções. op. p. meras variações da primeira e não alteram substancialmente a sua estrutura de base. Paris: Garnier. 1992. a fórmula da discórdia no pensamento ocidental216. introdução. DELEUZE.residiria na separação da mente e do corpo. António. o cogito cartesiano é “um conceito filosófico”. Coimbra. como se necessitasse de um complemento. para lá da pertinência evidente de algumas destas críticas.. 25. a fórmula – “eu sou.CAPÍTULO PRIMEIRO Um sintoma chamado Descartes Falar hoje de Descartes. ergo sum). 216 Na verdade. mas várias. O Erro de Descartes. este fundador. em especial a nota explicativa 51. essencialmente.

graças a um exemplo (se o paciente diz que tal pessoa presente no seu sonho “não é a sua mãe”.« Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je telle qu‟elle nous est révélée dans l‟expérience 218 219 220 psychanalytique ».op. uma coisa parece certa: se o sujeito cartesiano ainda não parou (completamente) de fazer sintoma. Segundo o autor. é certo tratar-se da sua mãe). p. Sigmund . cit. Cf. Slavoj.cit. op. 9-13. apesar de tudo. 2001. os já citados Max Bennet e Peter Hacker?222 Seja qual for a resposta que dermos à questão. HACKER.El Espinoso Sujeto . E não foram apenas os filósofos nem. L‘identification. op. ZIZEK. 127. mas que. “todos os poderes académicos entraram numa santa aliança para o exorcizar.daquele (ou daquilo) que pretende evitar-se a todo o custo. Roland (org. p. ao mesmo tempo. do recalcamento. pp. Paris : Larousse. como denunciaram. Peter . Buenos Aires: Paidós. e como tal se afasta. segundo o mecanismo que Freud pôs em evidência221.”218 É por isso. ZIZEK.) .cit. LACAN. De acordo com o mecanismo aì descrito por Freud.“La Négation”.la Psychanalyse. 468-471. do embaraço causado no pensamento pelo cogito cartesiano219. A (de)negação é uma maneira de tomar consciência do recalcado. como recordava Lacan em 1961. 9. de toda e “qualquer filosofia directamente oriunda do cogito”220. sem admissão.Le Séminaire. há algo aqui que merece ser interrogado: se o nome de Descartes ainda não cessou. O sujeito cartesiano faz sintoma porque ele é essen- 217 Cf. Voltaremos a esta questão no capítulo seguinte. talvez seja porque ele deva ser apreendido como sintoma. Max. Jacques . Slavoj Zizek. in Écrits. Slavoj . numa expressão feliz. de ser evocado (mesmo se o motivo de uma tal evocação é. também o próprio Lacan. Lição de 15 de Novembro de 1961 (inédito). in CHEMAMA. 53 . FREUD. LACAN. um conteúdo de representação ou pensamento recalcado emerge na consciência sob a condição de fazer-se negar. os neurocientistas. mais recentemente. p. 221 Cf. porém.. 222 BENNET. pp. talvez. 93. 1996. num dos textos mais conhecidos dos Escritos – O Estádio do Espelho – dizia que a experiência analítica se opõe. salvo raras excepções. Cf. uma supressão. chama-lhe “um espectro que ronda a academia ocidental”: o “espectro da subjectividade cartesiana”217. ou seja. o descrédito) não estaremos perante uma espécie de denegação. ou um criptocartesianismo. não pára de nos atormentar com a sua presença espectral. Jacques (1961) .el centro ausente de la ontología política. por exemplo. que os filósofos não fizeram outra coisa senão tentar livrar-se disso. Ao mesmo tempo. Livre IX..

encontra uma ausência. ZIZEK. 17. teriam sido tentados a arrepiar caminho. inclusive o próprio Descartes. 2001. Slavoj . a medicina farmacológica ou as terapias correctivas.o eu de toda a evidência (seja ela qual for. *** Uma outra questão. Paris: Éditions du Seuil. isto é. como pretendem. mais pertinente talvez. Luís . por assim dizer? (Cf. que toda a subversão implica uma certa des-órbita. que voltam sempre ao mesmo lugar. Um retorno. »]. É neste sentido que poderíamos dizer que o sintoma com que lida a psicanálise é cartesiano. 2002. Luís Carmelo .cit. Levando um pouco mais longe o raciocínio como faz. capaz de dar conta de uma posição subjectiva e não meramente de um desarranjo disfuncional que importa eliminar. um vazio: je pense… 223 “A dificuldade de ser do psicanalista decorre daquilo que ele encontra como ser do sujeito. politique. da passagem de uma “era do sujeito”. à “consciência global”. 201 224 LACAN. é se não haveria no passo cartesiano uma radicalidade tal. como também este. Jacques . philosophie. no centro mesmo do sujeito. 1999. esvaziado ou “varrido” . Com efeito. [« (…) le mot d‟ordre d‟un retour à Descartes ne serait pas superflu. o que resta de indubitável senão o “cogito: um vazio chamado sujeito”226? Eis o instante propriamente subversivo de Descartes. responda por isso.Autres Écrits. isso significa que há que distingui-lo de outro que lhe 225 anda geralmente associado: o de revolução. Com efeito. Nesse caso.Écrits. o momento em que este.. claro está. op. CARMELO. A utilização deste termo por nós segue de perto o seu emprego por Lacan. p.subversions du sujet : psychanalyse. por excelência). “a palavra de ordem de um retorno a Descartes – como se exprime Lacan numa certa época do seu ensino – não seria supérflua”224. fundamentalmente. que todos. Diríamos. 54 . e após todas as críticas ou ultrapassagens a que foi sujeito. uma saìda de órbita. Lisboa: Mareantes Editora. Rennes: Presses Universitaires de Rennes. é suposto-sujeito. em particular a primeira parte. como uma das suas “ñrbitas”. a saber: o sintoma [La difficulté d‟être du psychanaliste tient à ce qu‟il rencontre comme être du sujet: a savoir le symptôme] LACAN. Jacques .poderíamos interrogar-nos sobre as consequências da tecnologia e do globalismo contemporâneos para a consideração moderna do sujeito: tratar-se-á. ou.Órbitas da Modernidade: da era do sujeito à consciência global. na medida em pressupõe um sujeito que. 226 Cf.como se expressa Lacan . p. por exemplo. pelo contrário. um sintoma223. pp. ao que houve de subversivo225 no passo cartesiano. em torno do qual girou a modernidade. E isto num duplo sentido: não apenas porque o velho sujeito (cartesiano) entrou em “crise” (sendo esta um dos nomes do sintoma. uma desórbita. 21-131). o que é garantido por meio do carácter hiperbólico da dúvida). um desvio que introduz algo radicalmente novo e que não estava inteiramente previsto no movimento original. o sintoma.cialmente. não há revolução a não ser a dos astros na sua órbita. para não ir mais longe de momento. de um modo ou de outro. enquanto sujeito. para Lacan. p. por exemplo. 163.

pp. neste contexto. Qual é. ao mesmo tempo. igualitária. o sentido do retorno a Descartes empreendido por Lacan? Diria que se trata. 2003. Livre XVIII. e paradoxalmente. 2006. antes de mais. 2006. todas as certezas. que o sujeito cartsiano é verdadeiramente um sujeito sem qualidades227. para além da certeza vazia do eu penso. e em primeiro lugar. sexual ou outro. emancipadora)228. Como recordava Slavoj Zizek. BAUDRIALLARD. 229 Cf. respectivamente. parecem ficar suspensas: a certeza de termos um corpo e uma alma. Lisboa: Relñgio D‟Água. dizendo-o à maneira de Foucault. 2008 É neste sentido preciso que poderìamos dizer que o famoso “Quadrado negro sobre fundo branco”. Robert. ZIZEK. o sujeito traz consigo o gérmen da modernidade (abstracta. O termo lacaniano para caracterizar esta situação é semblant (Cf. as demais certezas subjectivas. Jacques (1971) . de fazer 227 MUSIL. De tal modo que ele pode ser encarado como uma espécie de dobradiça que liga. pintado por Malevitch em 228 1915 . duas realidades opostas como são. 230 Eis uma das leituras possíveis do sujeito barrado ($) lacaniano. p. 44. desde logo. parece coincidir. pelo seu carácter vazio. na medida em que está “privado do menor suporte fenome- 231 nolñgico (…) e a aposta de Lacan consiste em dizer que a redução cartesiana do sujeito ao puro cogito já implica essa mesma redução de todos os conteúdos substanciais. psicológico. pelo próprio Descartes231. entre si. o sujeito lacaniano é um “puro vazio”. Slavoj . como escrevia Jean Baudrillard há alguns anos229. Malevitch.49-69) . O Homem sem Qualidades (2 volumes). cartesiano. a modernidade e a pós-modernidade. moderno. relativamente às “suturas” posteriores do mesmo. no limite. Voltaremos na esta questão na Parte IV do nosos trabalho. universal. LACAN. Jean – Simulacros e Simulação. A certeza vazia do cogito suspende. D‘un discours qui ne serait pas du semblant. 1991.” Cf. Com efeito. na precariedade desse instante que não pode durar. a certeza. inclusive a dimensão mais ìntima do psiquismo: a ideia de um „teatro cartesiano‟ enquanto lugar originário da subjectividade já é uma „reificação‟ do sujeito $ do puro vazio da negatividade. Por outro lado.é ainda uma genuína e culminante representação do sujeito vazio. com a incerteza característica da pós-modernidade. parafraseando o título de um dos mais emblemáticos e atípicos romances do século vinte. de recuperar o vazio do sujeito230.Le Séminaire. Taschen. por mais que pareça distanciado de tais referências. 55 . Gilles.bem como as suas múltiplas variações (Cf. porém. levadas a cabo. de ser verdade ou engano o que pensamos.Por momentos. ao esvaziar-se de todo o conteúdo sensorial. É nesse sentido que poderíamos dizer. Eis a radicalidade da subversão introduzida pelo cogito cartesiano. de sermos homens ou mulheres. a época do simulacro e da simulação (simulacres et simulation) por excelência. Paris : Éditions du Seuil. Lisboa: Relñgio D‟Água. Lisboa: Dom Quixote. NÉRET.A Subjectividade por Vir. num instante evanescente e pontual.

pp. no seguinte: em ler Descartes com Freud e Freud com Descartes. basicamente. Lacan empreende uma determinada operação que consiste. o que se pretende. restituir. Lisboa: edições 70. Slavoj . op. de alguma forma (por meio do termo sujeito). de seguida. ni Freud ne peuvent être „dépassés‟ en tant qu‟ils ont mené leur recherche avec cette passion de dévoiler qui a un objet : la vérité. têm algo de paradoxal. Les Quatre Concepts Fondamentaux de la psychanalyse.como sublinha o próprio Lacan. Ler Descartes com Freud permite-lhe resgatar não sñ o impensado (a “outra cena”) do cogito.emergir o “impensado” que habita o coração do cogito 232.Écrits. E. É nesse sentido que Descartes ou Freud (tal como Sócrates ou Marx) “não podem ser „ultrapassados‟. É o movimento desta. como reintroduzir nele uma discordância (ou uma não-coincidência) fundamental do pensamento consigo mesmo e com o ser. »]. sob a inércia do saber. aqui. p. p. 10. Michel . 193 : «Está muito na moda nos nossos dias „ultrapassar‟ os filñsofos clássicos. na lição de 5 de Fevereiro de 1964 . (…) ni Socrate. do sujeito233. op. Veremos. na medida em que conduziram a sua pesquisa com essa paixão de desvelar que tem um objecto: a verdade”235. “Je ne dis pas que Freud introduit le sujet dans le monde (…) puisque c‟est Descartes”. na medida em que conduziram a sua pesquisa com essa paixão de desvelar que tem um objecto: a verdade. LACAN. 361-367. 1990. permite-lhe unificar.Le Séminaire. nem Marx. esta verdade. Jacques . 56 . trata-se de reencontrar no enunciado. Para tal. Em qualquer dos casos. Finalmente.. por outro lado.” [Il est assez à la mode de nos jours de „dépasser‟ les philosophes classiques. Porém. bem como a sua restituição por Lacan. o que isto pode significar. do sujeito. Cf. FOUCALT.El Espinoso Sujeto. tanto de Descartes como de Freud.. ni Descartes. Ler Freud com Descartes. Jacques . há que não esquecer . cit. nem Freud podem ser „ultrapassados‟. 1998.que foi Descartes. p. a enunciação viva. sobretudo. ZIZEK. ni Marx. e não Freud. 53 235 LACAN. de trazer à luz o “reverso esquecido” e o “núcleo excedente”. um campo que parecia disperso pelas mais variadas tópicas e instâncias. não reconhecido. (…) Nem Sñcrates. 232 Cf.As Palavras e as Coisas. Paris: Éditions du Seuil (Points-Essais). ainda não petrificada ou cristalizada. Livre 233 234 XI. cit. quem introduziu o sujeito no mundo234. como diz Zizek. nem Descartes.

Importa. pp. e como um facto a distinguir da questão de saber se a psicanálise é uma ciência (se o seu campo é científico). 863. a embaraçar os espíritos). de saber se a psicanálise é ou não uma ciência (questão que volta. que a questão. mas de vários. “Los recuerdos encubridores”. ce fait précisément que sa praxis n‟implique d‟autre sujet que celui de la science.. 236 LACAN.”236 Fica claro. p. precisamente o facto de que a sua praxis não implica outro sujeito senão o da ciência. no fim de contas. op. Na verdade. neste pequeno excerto. de saber sobre o que opera a psicanálise na sua praxis. como dizíamos no final do capítulo anterior. »] 237 Parafraseando aqui uma expressão que Freud costumava usar relativamente a certo tipo de recordações: as recordações “encobri- doras”. FREUD.CAPÍTULO SEGUNDO Paradoxos “cartesianos” de Lacan O retorno a Descartes. mais fundamental. Para tal. não se trata apenas de um único paradoxo. acaba por se revelar como o mais importante.cit. é secundária. uma simples tela encobridora237. por assim dizer. Sigmund.cit. de forma recorrente..“La Science et la vérité ». algo de paradoxal. como se estas fossem uma espécie de tela que cobre. antes de mais. de antinómico. [« C‟est pourquoi il était important de promouvoir d‟abord. por isso. relativamente à questão. tem. oculta ou relega para segundo plano algo que. in Obras Completas. inicialmente colocada por nós. Tomo I. op. ou. neste capítulo. esclarecer a natureza de tais paradoxos e mostrar como podem elucidar-se. Écrits. et comme un fait à distinguer de la question de savoir si la psychanalyse est une science (si son champ est scientifique). 330-341 57 . comecemos por citar Lacan: “Eis por que era importante promover. Jacques . Cf. efectuado por Lacan.

já não é tão óbvio que esse sujeito seja idêntico ao da ciência. enquanto este último releva de uma dimensão imaginária. esteja do lado do conhecimento. tal como este foi tradicionalmente abordado pela filosofia.. durante muito tempo. três coisas: “1) que a psicanálise opera sobre um sujeito (…). 58 . num dos seus livros fundamentais. que o sujeito da psicanálise deve ser situado. Jean-Claude . 241 MILNER. É por isso que o próprio Lacan. Karl Popper. bem pelo contrário. como vimos na primeira parte do nosso trabalho. por assim dizer. ao promover o sujeito. Pelo contrário – e é nisso que pode afigurar-se um paradoxo – a afirmação lacaniana. Jacques . Buenos Aires: Bordes Manantial.”239 De resto. LACAN. é fundamental distingui-lo de um outro termo (moi) que lhe anda geralmente associado. escreve o seguinte: “dizer que o sujeito sobre o qual operamos em psicanálise só pode ser o sujeito da ciência pode parecer um paradoxo. 1996. la ciencia. em Lacan. no sentido em que não há sujeito. pelo menos. p. num outro lugar. op. [« Dire que le sujet sur quoi nous opérons en psychanalyse ne peut être que le sujet de la science. como resumia Jean-Claude Milner.cit. senão como efeito da intervenção do significante no real. que haja um sujeito da ciência. Partindo de uma tal equação. Na verdade. É certo que Lacan poderia estar genericamente de acordo com uma tal perspectiva. Não se trata. em outros contextos. Porém. p. »]. um corpo mudo ou mesmo um eu psicológico238 – parece evidente. por isso. reconhecendo a natureza problemática de semelhante equação. tenha escrito que “a ciência é a ideologia da supressão do 238 Tal como veremos um pouco mais adiante. e não do lado do conhecimento. je) por Lacan. Ou seja. na medida em que ela.“La Science et la vérité ». op. do outro lado do muro240. Objective Knowledge. Cf. 858. E isto essencialmente por duas razões: em primeiro lugar. não é certo.Autres Écrits. peut passer pour paradoxe.cit.. sem sujeito cognoscente. não é evidente que ele seja idêntico ao da psicanálise.Que a psicanálise opera sobre um sujeito (que fala. p. a existir um tal sujeito. procura libertar a ciência de toda a consideração subjectivista tradicional. de que a psicanálise. a metáfora das relações do homem com a mulher imaginada. para entender o uso do termo sujeito (sujet ou. 2) que há um sujeito da ciência. o termo sujeito apela para uma dimensão simbólica. 239 LACAN. que tem a possibilidade de falar) – e não sobre uma matéria inerte. la filosofía. 3) que estes dois sujeitos fazem um”241. implica. 240 “(…) Se a teoria do conhecimento foi. num livro dedicado a Jacques Lacan.La Obra Clara: Lacan. 35. é justamente para se opor a isso que se situa o discurso analìtico (…)”. e em sentido radicalmente oposto. é do lado da ciência. como entender que Lacan. seria um conhecimento objectivo. segundo o autor. enquanto a ciência habitaria. Jacques . 549. além disso. também ele considera que o sujeito com que opera a psicanálise é rebelde (chegando mesmo a ser o avesso) do sujeito do conhecimento.

o que fora consi- 59 . etc. p. do seu emprego em Lacan. mas antes que é uma prática que opera pela fala e pelo sentido. op. finalmente.“Estudios sobre la Histeria”. do Discurso do Amo). façamos um pequeno desvio. Da mesma forma. é algo que não tem sentido: o real.« Télévision ».sujeito?”242 Como conceber que o sujeito que a psicanálise promove coincida.VII . Sigmund . não estaríamos antes perante uma radical disjunção? *** Para elucidar um pouco melhor o problema em questão.Ibidem. p. não é tanto no sentido de que a psicanálise seja uma prática fraudulenta. De tal forma que Lacan acabou. graças à histeria. as perversões. pp. a sua fala aparentemente vazia (segundo a medicina da época). com o sujeito suprimido da ciência? Em vez de uma conjunção entre os dois sujeitos. je suis freudien”. Tomo I. Foi a partir do momento em que Freud se propôs escutar. esta matriz inicial não deixou de gravar a sua marca indelével na psicanálise.“Radiophonie”.“Radiophonie”. a histeria enquanto discurso. curiosamente. há que acrescentar mais dois : o Discurso da Ciência (que Lacan diz. nos últimos anos do seu ensino. Autres Écrits. Autres Écrits. degradada. Autres Écrits. Editado en CD com ocasión del 1º Con- greso de los Miembros de la Associación Mundial de Psicianálisis y el Xº Encuentro Internacional del Campo Freudiano en Barcelona del 21 al 26 de Julio de 1998).). 436) e o Discurso do Capitalista (enquanto versão. Cf. como vemos.. Cf. ora. p. Jacques . quando este usa o termo de escroquerie.1980) . desse modo. não temendo as repercussões do termo. [No original : “(…) docile à l‟hystérique (…) »] Cf. 447. o Discurso da Histérica (Discours de L‟ Hystérique). 247 Preferimos manter o termo no original. Mesmo se entretanto surgiram novos focos de irradiação e interesse (a neurose obsessiva.cit. LACAN. o que Lacan tenta promover nesta última fase do seu ensino. as fobias. ganhar “importância a partir do discurso da histérica” . pois não nos parece que qualquer das expressões que o traduzem habitualmente (burla. a psicose. p. 437 [« la science est une idéologie de la suppression du sujet »]. Sabemos que a psicanálise nasceu. LACAN. fraude) dêem conta. in Obras Completas de Sigmund Freud. o Discurso da Universidade (Discours de L‟Université). 246 “Moi. LACAN. quando a referência a Freud se assemelhava cada vez mais a uma paródia – mesmo se Lacan continua a afirmar-se “freudiano”246 – e há uma desconfiança crescente em relação aos poderes da palavra – o que leva Lacan. como sugere Lacan. op. Jacques . Jacques (12 . no limite.cit. por elevá-la à categoria de discurso245. o Discurso do Analista (Discours de L‟Analyste) ..cit. 39-168. de forma cabal. “dñcil à histérica”243...cit.Le Séminaire de Caracas. a dizer que a prática da psicanálise é uma escroquerie247 – não deixa de ser elucidativo que Lacan volte ao tema da histeria nos seguintes termos: 242 LACAN. FEEUD. A estes quatro discursos. em certa medida. Jacques .faz parte. op. vigarice. Com efeito. que a psicanálise começou realmente a dar os primeiros passos244. 514. Dos quatro discursos fundamentais isolados por Lacan – a saber: o Discurso do Senhor/do Amo/ou do Mestre (Discours du 243 244 245 Maître). op.

aversão ou protesto cumprirão. este manual torna-se cada vez mais uma referência hegemónica para a comunidade psi do mundo inteiro. à histeria [“La loufoquerie psychanaly- tique ne l‟aurait elle pas remplacé?”]. ces femmes merveilleuses. os sintomas histéricos de outrora..Propos sur L‘Hystérie. poderia ser formulada de outro modo: o que é feito da histeria enquanto nome próprio de uma determinada categoria clínica? Com efeito.br/dsm. a velha função da histeria? Por outro lado.org/>.“O que aconteceu às histéricas de outrora. a pergunta de Lacan. Disponível na WWW: <http://psicoanalisis. mas quando Freud se pôs a escutá-las. Disponível na WWW: <http://virtualpsy. de alguma forma. LACAN. tanto em termos individuais como colectivos. difusos ou disseminados por uma série de perturbações. DSM-IV. algo de problemático e a problematizar (Cf. LACAN. torna-se agora. de um sintoma que importa analisar? derado como um ponto de Arquimedes.249 Que novas formas de queixa. 250 Apesar de ser da responsabilidade da Associação Amercicana de Psiquiatria. indiscutível. do ponto de vista do real. »]. Conferência dada em Bruxelas em 1977 (inédita). ela incide sobre a questão de saber o que terá substituído. num primeiro tempo (anos 50). les Emmy von N… ? Elles jouaient non seulement un certain rôle (…) social.. Ibidem. reivindicação. mais quand Freud se mit à les écouter. A que tipo de deslocamentos estes sintomas terão sido sujeitos. as Emmy von N…? Elas desempenhavam não somente um certo papel (…) social. ce furent elles qui permirent la naissance de la psychanalyse. 251 Cf.locaweb. na mais recente versão do DSM. antes. apesar de os seus sintomas estarem. [“Où sont-elles passées les hystériques de jadis. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders.com. a histeria deixou de ser contemplada como tal. 249 Lacan chega mesmo a perguntar se psicanálise não se teria substituìdo. distúrbios ou transtornos251. O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais250. as Anna O. les Anna O. 248 Cf. essas mulheres maravilhosas. ao nível social.php>. foram elas que permitiram o nascimento da psicanálise. que ganha uma especial relevância na actualidade.”248 A pergunta de Lacan pode ser entendida de várias maneiras: por um lado. O que significa esta supressão da histeria? Tratar-se-á de um verdadeiro progresso ou. de alguma forma. dispersos. Jacques . Jacques. 60 .

. “O cientismo rejeita o sujeito e o real singular com que ele lida (auquel il a affaire). Paris: Édi- tions du Seuil. procurar abrigo numa qualquer psicologia dos “afectos”. tecnologia e farmacopeia tenderão a dar-se. ao promover o sujeito. mais uma vez. por assim dizer. tão em voga255. 48). o mesmo é dizer: uma singularidade irredutível. Jacques . Lição de 19 de Dezembro de 1972) para sublinhar o facto de que esta paixão do sujeito é. um pau para toda a colher. Nesse caso. as mãos. op.A histeria. de certa literatura proveniente do domínio psi. Livre XX. Seria tentador. Como dizia Agnès Aflalo.. LACAN. encarnava a paixão do sujeito252. 254 O desafio que se propuseram os colaboradores do Anti-Livro Negro da Psicanálise foi. des mots. A psicanálise ensina que ele é demonstrável. p.” (Cf. se não há aqui. em vez de diminuir. a segunda pressupõe um sujeito. Basta lançar um breve olhar sobre os livros que inundaram. uma autêntica “ideologia da supressão do sujeito. Ciência. LACAN. É neste sentido que poderíamos perguntar. in MILLER. Ao suprimir a histeria. ou. no esforço de cientificação que um tal projecto parece implicar. 61 . têm-lhe oposto sob diversas formas: „isso não passa de palavras. 253 A codificação cada vez maior (para cada distúrbio.des mots. ou de l‟affect. assim. uma genuína salvaguarda da subjectividade. “Le symptôme biopsychosocial”. no limite. para o sujeito.Autres Écrits. ou da pulsão?‟” [“Depuis vingt ans que vous avez avancé votre formule. Cf. não é essa a 252 Eis um dos motivos que levarão Lacan a inventar o neologismo “linguisteria” (Cf. nos últimos tempos. das suas implicações teñricas e práticas.Autres Écrits. não apenas ao nìvel do linguajar quotidiano. Le Séminaire. Encore. que Lacan. O termo afecto tornou-se. 2006. se visa? Uma clínica dos comportamentos (disorders) – plenamente objectivável e tendencialmente automatizável253 – em vez de uma clínica do sujeito254? A diferença fundamental entre as duas reside no seguinte: enquanto a primeira visa uma completa e fria objectivação dos sintomas. ou do afecto. um código) a que obedece o projecto DSM faz pensar que. desde que propôs a fñrmula de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. on vous oppose. fundamentalmente. mas não é inefável. qu‟en faîtes-vous ? Quid de l‟énergie psychique. que l‟inconscient est structuré comme un langage. num futuro não muito longínquo. des mots. de forma a permitir um tratamento estatístico sobre os mesmos. Este real é sem lei. extraindo as diversas consequências. com Lacan. Et de ce qui ne s‟embarrasse pas des mots. entre outras coisas. até. o factor humano dará à progressivamente lugar à automatização do processo. 255 Nos últimos anos. não é uma clínica sem sujeito o que. a aumentar. cada vez mais. mais do que uma doença. uma chave para toda a fechadura. sous des formes diverses : „ce ne sont là que . as livrarias – e não apenas os grandes espaços comerciais – para constatar a presença maciça deste género de literatura afectiva. 366. p. Já em 1973. uma “paixão da linguagem” (le sujet en tant que passion du langage). afirme ao mesmo tempo que este não pode ser outro senão o sujeito da ciência? O paradoxo tende. como se diz na língua do povo. Cf. como se esta constituísse um último reduto. Porém. como entender. perante o triunfo imparável do “discurso da ciência”. mas caso a caso. de forma crescente e acrítica. 1972-1973. op. no sentido nosológico do termo. Jacques-Alain (dir) . ou de la pulsion »]. Jacques-Alain Miller questionava Lacan nos seguintes termos: “Há vinte anos.L‘Anti Livre Noir de la Psychanalyse. E que faz daquilo que não se atrapalha com palavras? Que dizer da energia psìquica.cit. mas também ao nível do discurso mediático dos opinion makers ou. Paris: Seuil. tem-se usado e abusado do termo “afecto”. Jacques .cit. p. palavras. o de opor estas duas clínicas. 521. palavras.

em grande parte. op.Ibidem [“(…) J‟ai pris pour fil conducteur l‟année dernière un certain moment du sujet que je tiens pour être un corrélat essentiel de la science : un moment historiquement définie dont peut-être nous avons à savoir s‟il est strictement répétable dans l‟expérience. entre o momento inaugural do cogito e o aparecimento da ciência moderna. Jacques .”257 Sob a correlação entre o sujeito da psicanálise e o sujeito da ciência.“Propos sur la causalité psychique”. assim. sobre o qual talvez tenhamos de saber se ele é estritamente susceptível de repetição na experiência: o que foi inaugurado por Descartes e que se chama cogito. como é reconhecido explicitamente por Lacan.via seguida por Lacan. por isso. 257 LACAN.cit. o paradoxo.cit. Jacques. estabelecida por Lacan. e o cogito.. Se o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência. Jacques . que há uma outra correlação. tal só é possível porque ambos coincidem. mas antes que é. psicanálise e ciência256. deste modo. p. desse modo. “ (…) Tomei como fio condutor no último ano um certo momento do sujeito que considero ser um correlato essencial da ciência: um momento historicamente definido. da leitura que Alexan- dre Koyré faz de Descartes e da ciência moderna. Um retorno a Descartes parece. num mesmo nó. entre o sujeito da psicanálise e o sujeito da ciência258. de esclarecimento. Todavia.”] LACAN. 258 «Eis porque eu penso que a palavra de ordem de um retorno a Descartes não seria supérflua” [“C‟est pourquoi je pense que le mot d‟ordre d‟un retour à Descartes ne serait pas superflu. La science et la vérité. alguns anos antes. p. LACAN. 62 . »]. 163. percebe-se. igualmente defendida por Lacan. o nome em falta. Écrits. um novo paradoxo surge no horizonte: como conciliar este retorno a Descartes com a ideia. Cf. Daí que o brilho do paradoxo seja ainda mais ofuscante. *** Talvez falte aqui um terceiro elemento para restabelecer o elo e superar. 856 [« Koyré ici est notre guide et l‟on sait qu‟il est encore méconnu. carecendo. no limite. Descartes é. indispensável para clarificar o paradoxo resultante da equação. no dizer de Lacan. op. de que a experiência da psicanálise se opõe “a toda a filosofia oriunda directamente do cogi- 256 Resta acrescentar que este nó é devedor.. porventura mais essencial. deste modo. o seu correlato essencial. o elo que permite atar. com o sujeito cartesiano. Não que o primeiro seja exactamente a causa do segundo. celui que Descartes inaugure et qui s‟appelle le cogito »].

259 Cf. porventura. LACAN. sobretudo. uma torção que convém apreender e destacar. entre os dois momentos. op. sobre o conjunto de textos que antecederam o início do seu verdadeiro ensino261. crucial. Jacques . 263 Cf. a escrever. 63 .cit. por conseguinte. 93. 99. não existe. em ambos os casos. »]. como “Os nossos antecedentes”260.cit. LACAN. »]. sem essa distinção (nomeadamente entre o imaginário e o simbólico) não é possível conciliar as duas afirmações. uno e autónomo) é estruturalmente alienado. op.cit.“De nos antécédents ». Jacques . em 1966. LACAN. Estamos ainda.cit. Écrits. 260 Cf. nas Formulações Sobre a Causalidade Psíquica. emerge de forma explícita. sem descontinuidade entre si.“Le stade su miroir comme formateur de la fonction du Je telle qu‟elle nous est révélé dans l‟expérience psychanalytique ». LACAN. recolocar estes textos num futuro anterior: eles terão antecipado a nossa inserção do inconsciente na linguagem. 65 e sgs Esta expressão será convenientemente esclarecida no início da terceira parte do nosso trabalho. op.“De nos antécédents”. aquando da saída dos Escritos (1966). uma descontinuidade de princípio. do “simbñlico” e do “real” sejam distinguidos e isolados como tal. op. p. o seguinte: “vemo-nos. Entre o que diz Lacan em 1936. o que levou Lacan.. p. Há algo que já começou a trabalhar. no Estádio do Espelho. heterónimo e. A diferença entre o eu (função imaginária) e o sujeito (função simbólica) torna-se. p. no seu intervalo e que só mais tarde. Jacques . que os torna aparentemente tão discordes? Há aqui. pois. p.. Vai ser necessário esperar mais alguns anos para que os registos do “imaginário”.to”259? O que há entre as duas afirmações. [« (…) elle nous oppose à toute philosophie issue directement du cogito. É ela que nos permite torcer moebianamente (à maneira de uma Banda de Moebius) as duas faces da questão. numa época que Lacan designou. Jacques . Porém... por assim dizer. assim. Eis. après-coup. Écrits. 71 [« Nous nous trouvons donc replacer ces textes dans un futur antérieur : 261 262 ils auront devancé notre insertion de l‟inconscient dans le langage. e o que o mesmo afirma dez anos depois. mais tarde.“Le stade do miroir”. caracteriza-se por uma função de desconhecimento (fonction de la méconnaissance)263. aparentemente.”262 Se a psicanálise se opõe a toda a filosofia oriunda do cogito é porque ela trata de demonstrar que o eu (do conhecimento.

cit. LACAN. é o desfile de uma rejeição de todo o saber (…)” [“Ce corrélat. a sua verdade.Mon Enseignement. 861. a nota dominante é também o esvaziamento do sujeito relativamente a toda a psicologização (psychologisation)266 do mesmo. p. comme moment. mas antes a sua enunciação. de todo o saber e de todo o ser. Não é o saber que se elaborou. ao cogito. mas antes o sujeito vazio – ou o esvaziamento do sujeito . o sujeito da ciência e o cogito cartesiano. Jacques . sobretudo a partir dos anos 50 – não é o enunciado (cristalizado) do cogito. segundo o modo como Lacan restitui. « La science et la vérité ». estabeleceu ou fixou entretanto sobre o cogito.. LACAN. 856. p. 100... p. Jacques. Eis o que levará Lacan a dizer que “o campo freudiano sñ foi possìvel algum tempo apñs a emergên- 264 «Este correlato.cit. mas a sua verdade. Cf. no limite. op. uma concomitante dessubjectivação (ou destituição subjectiva) fundamental265. e de forma paradoxal.cit. Cf. est le défilé d‟un rejet de tout savoir (…)”]. in Écrits. no limite. O sujeito da ciência não é o cogito (se o entendermos como um saber). “o sujeito de que se trata não tem nada a ver com o que se chama subjectivo (…)” [“Le sujet dont il s‟agit n‟a rien à faire avec ce que l‟on appele le subjectif (…)”]. o sujeito da psicanálise.O sujeito a que se trata de retornar e pôr em evidência – tal como vai ficando progressivamente mais claro. fugidia e evanescente. implica. De tal forma que o processo de subjectivação do cogito que todo este movimento parece envolver. LACAN.cit. Um sujeito barrado ($). Jacques . 861. 265 Também aqui se aplicaria a diferença que Lacan estabelece entre o sujeito e o subjectivo. op. p.” LACAN. “(…) un sujet strictement réduit à la formule d‟une matrice de combinaisons signifiantes. op. De tal forma que este é. 267 64 . por um instante. embora não se reduzam mutuamente. 266 Cf. quer este provenha dos sentidos ou da tradição264) que se torna num “correlato essencial” da ciência. É este momento de verdade (que põe em causa todo o saber estabelecido. É em torno deste vazio fundamental do sujeito (ou deste sujeito esvaziado de todo o saber e conteúdo psicológicos) que se articulam.que este instaura.“la science et la vérité ». “estritamente reduzido à fñrmula de uma matriz de combinações significantes”267. Do lado da psicanálise. o momento de irrupção da verdade no saber. op.. como momento. Jacques. Pelo menos.

861. Dizer que o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência pressupõe. O que está em falta é.. O que implica dizer que o sujeito da psicanálise é o sujeito suprimido (ou excluído) da ciência. Se é verdade. esquecendo facilmente as “peripécias de que nasceu”271. si l‟on y regarde de prés. que l‟inconscient. LACAN. segundo a nossa hipótese. não tem memñria” [“(…) la science. Daí que seja necessário matizar um pouco a formulação de Lacan: o sujeito da psicanálise só é o correlato da ciência se o entendermos como “um correlato antinñmico”273. É desta verdade.cit. de la science (…) »]. 869. LACAN. p.Le Séminaire. que a psicanálise acaba por fazer causa. Jacques . » Cf. 874. celui de Freud. que o inconsciente. n‟a pas de mémoire”] Cf. que a psicanálise seria impensável antes do advento da ciência269. 268 “(…) Le champ freudien n‟était pas possible sinon un certain temps après l‟émergence du sujet cartésien. op. Mais do que um recalcamento (verdrängung) – que aproximaria a ciência da neurose –. por imperativos de ordem metodológica). Jacques . 65 . 269 “É impensável que a psicanálise como prática. um outro entendimento possível. Cf. p. 274 “(…) a ciência mostra-se definida pelo esforço sem saìda para o suturar (o sujeito)” [“(…) la science s‟avère définie par la non- issue de l‟effort pour le suturer.cit. termos reservados à Psicose. se a examinarmos de perto. tivessem tido lugar antes do nascimento.« La science et la vérité ». a sutura que a ciência se esforça. p. como diz Lacan. o termo: suprimido. 271 LACAN. Cf. o de Freud. Jacques – op. por assim dizer. Jacques . 270 “(…) a ciência.op. p. 857.. le XVII. talvez mais decisivo. em determinadas circunstâncias. p. A psicanálise reabre. aient pris leur place avant la naissance. Aquilo de que a ciência geralmente não faz caso (nem tem de fazer.”] Cf. Livre XI. Jacques – op. 861.. en ceci que la science moderne ne commence qu‟après que Descartes à fait son pas inaugural.cia do sujeito cartesiano. LACAN. p.. também é verdade que esta última “não tem memñria”270. no século XVII. no entanto. 273 “(…) le sujet en question reste le corrélat de la science. para se tornar legível.cit. mais un corrélat antinomique (…) » Cf. o XVII. O que é suprimido da ciência retorna sob a forma de sintoma. da afirmação paradoxal de Lacan... op. em vão. LACAN. na medida em que a ciência moderna só começa depois de Descartes ter dado o seu passo inaugural.cit. 56.”268 *** Há ainda. comme découverte. au siècle qu‟on a appelé le siècle du génie. Jacques – op. estaríamos aqui perante uma verdadeira 272 Verwerfung (Freud) ou forclusion (Lacan).cit. no século a que se chamou o século do génio.. que a frase seja completada por algo que parece estar em falta. causa de sintoma. op. 869. da ciência (…)” [“Qu‟il est impensable que la psychanalyse comme pratique. LACAN.cit. LACAN. p. por costurar no sujeito274.cit. Jacques. torna-se. como descoberta. de que a ciência “nada quer saber”272.

formalizar ou reduzir).cit. o drama subjectivo que custa cada uma destas crises. como tal.”] LACAN. 276 “É o drama. Jacques .Itinerários da Racionalidade.”] LACAN. excluído ou suprimido. Livre XVII. da ciência. p. de formalizar. a de Freud. éticas.Um bom exemplo disso foi ilustrado por Thomas Kuhn no seu livro The Structure of Scientific Revolutions275. ao nìvel da teoria dos conjuntos. Nesses momentos. p. 870.cit. Kuhn neste livro pode ser lido em CARRILHO. é o impossìvel” [“Le réel. Um sujeito-suposto-sintoma. Um correlato antinómico.. epistemológicas e. Thomas . O sintoma da ciência. que tais crises e dramas desencadeiam. na medida em que a histeria. por isso. por vezes. 66 . em conjunto. do discurso da ciência. Esse drama é o do cientista” [“C‟est le drame. não deixa de causar um certo “drama subjectivo”.. Jacques . o próprio Lacan se refere constantemente a outras “crises” (por exemplo o caso de Cantor.Le Séminaire. ou paixão do sujeito – como dizíamos mais atrás – acabou por permitir. la science prend ses élans du discours de l‟hystérique. Ela só reaparece. com todas as consequências. Para além dos exemplos ilustrados por Kuhn. c‟est l‟impossible”] LACAN. movidos por um certo desejo. a psicanálise ganha impulso a partir do discurso da histérica” [“Si paradoxale qu‟en soit 278 l‟assertion. de “drama subjectivo”276. sem dúvida. e não um dado natural. Jacques . É nos momentos em que surgem determinadas anomalias que resistem aos esforços dos cientistas para as assimilarem a um determinado paradigma (em que a ciência funciona de forma normal). em que irrompe algo da ordem de um impossivel (de normalizar.. Paris: Flammarion. Revela-se igualmente que a ciência é feita por cientistas. numa certa época. e que. isto é: o seu mal-estar. pp. p. op. para Lacan. 111-138.cit. ou aos famosos teoremas de Gödel) que acabam por revelar. um dos nomes do real por excelência277. 1983. a emergência do sujeito. A histeria é o sujeito da ciência enquanto sintoma. 277 “O real. mas cuja causa tende constantemente a ser denegada. “Por mais paradoxal que seja a asserção.Autres Écrits. 436. O que faz a psicanálise é supor 275 KUHN. Manuel Maria . a pura objectividade da ciência revela-se como sendo relativa a um determinado paradigma.La Structure des Révolutions Scientifiques. o seu sintoma. 143. Ce drame est le drame du savant. Lisboa: Dom Quixote: 1989. que se revela o sujeito da ciência. Um bom resumo das teses apresentadas por T. Este impossìvel é. op. nesses momentos de crise.op. le drame subjec- tif que coute chacune de ces crises. como drama subjectivo. um impossível de obturar. a sua crise. É talvez aqui que poderíamos estabelecer um certo correlato entre a histeria e o discurso da ciência278.

a esse sintoma. 67 . É essa suposição que torna incontornável e dá sentido ao retorno a Descartes empreendido por Lacan.um sujeito. Um sintoma-suposto-sujeito. que fala.

aquele que Freud. Existe aqui um problema de alguma forma análogo ao que resulta de uma outra palavra de ordem que Lacan promoveu nos anos cinquenta: o “retorno a Freud”280. mas antes como um pressuposto (ou correlato) necessário da ciência moderna. ao longo de praticamente todo o seu ensino.CAPÍTULO TERCEIRO Variações em torno de uma fórmula A afirmação de que o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência – afirmação paradoxal. Positivamente. de um modo diferente. jamais deixou de “retornar” a Freud. ela diz-nos que o sujeito da psicanálise é uma consequência lógica do advento. A questão é a seguinte: na medida em que Lacan. vale a pena interrogar. por assim dizer. não é o sujeito filosófico da consciência reflexiva. na medida em que Lacan não deixou igualmente de referir-se a Descartes. embora o fizesse. no seu gesto inaugural. mas antes o que houve. LACAN. ainda que o fizesse de forma cada vez menos ortodoxa – o mesmo poderia dizer- 279 Não tanto no sentido empírico. do princípio ao fim do seu ensino. outra positiva. Porém. Negativamente. Jacques . com o seu “retorno a Descartes”. 280 68 .cit. restitui com a invenção da psicanálise. Écrits. no plural. de cada vez. de todo o conteúdo de saber) que Lacan pretende restituir. da ciência moderna e do seu correlato cartesiano. no século XVII. op. por um instante. É esta verdade (esvaziada. pp. de fundador da ciência moderna279: o momento. o Eu da Psicologia ou mesmo o que resta de infantil (no adulto) ou de primitivo (no homem civilizado). o “retorno a Descartes” que Lacan promove numa certa época. como vimos no capítulo anterior – tem duas vertentes: uma negativa. em vez de um retorno apenas? Da mesma forma.“La chose freudienne ou Sens du retour à Freud en psychanalyse ».. 401-436. ela diz-nos que o sujeito de que se trata. antes de mais. em que a verdade fez irrupção no saber. como vimos no capítulo anterior. lido après-coup. não seria mais ajustado falar de “retornos”. se a expressão “retorno a Descartes” faz inteira justiça ao procedimento lacaniano. Como tal. não visa tanto o conteúdo filosófico que possa existir no empreendimento levado a cabo por Descartes.

283 Na linguagem corrente. l‟imaginaire et le réel. p. nos anos noventa. explícito e literal. Com efeito. in Des Noms du Père. em vez de um único retorno? É por esta razão que o título que Eric Porge.) . por exemplo. Em primeiro lugar. a esta “referência incontornável de Lacan”281. 69 . no uso alegórico ou analógico que se faz do termo). outras. 2005. Antónia Soulez e outros dedicaram. Em vez de dizer “o momento cartesiano da psicanálise”. Eric. Lacan propõe-se. também aqui. Paris: Éditions du Seuil. de “retornos”. como algo de que ainda não conseguimos livrar-nos por completo. trata-se de uma releitura – ou reescrita – da fórmula cartesiana. Descartes. porém. recuperando a enunciação (através de constantes variações) de um enunciado que tendeu. o que encontramos em Lacan é uma série de variações – por vezes de um modo mais directo.“Le symbolique. a reduzir-se. le sujet.. como diria Mallarmé. 282 LACAN. a 281 PORGE. 13 [« (…) trois registres très distincts qui sont bien les registres essentiels de la réalité humaine. Écrits. mais do que um “retorno” único ao legado cartesiano. ao longo do tempo. Se bem que Lacan mantenha a distinção destes três registos ao longo de todo o seu ensino. 8. salientar a profunda divergência entre os dois registos: o imaginário (domínio das imagens e das relações especulares) e o simbólico (domínio da fala e da linguagem). eles irão sofrendo uma reescrita de acordo com o primado que é concedido a cada um deles em cada momento: ou o simbólico (como é o caso presente) ou o real (em que Lacan passa a escrever RSI. »]. al. o termo simbólico nem sempre se distingue nitidamente do imaginário (como se nota. segundo o que o próprio estabelece desde o início dos anos cinquenta: o simbólico. por exemplo. do ponto de vista simbólico283. et qui s‟appellent le symbolique. do ponto de vista imaginário. trata-se de distinguir o sujeito da sua sombra imaginária (o eu). via Freud. Por último. desde o início.se relativamente a Freud – não seria mais correcto falar. insuficiente. ver. 697-717. SOULEZ. em nosso entender. e respectivas versões. qual moeda gasta. a cristalizar-se. o imaginário e o real282. l‟imaginaire et le réel ». Sobre o carácter específico do simbólico lacaniano. seria preferìvel. que tende a passar de mão em mão (de boca em boca). do ponto de vista do real. p. Estas variações poderiam ser enquadradas .Le Moment Cartésien de la Psychanalyse: Lacan. opcit. procura denunciar-se o que houve de desconhecimento no passo cartesiano do cogito – razão por que este deveria ser evitado pela psicanálise. Paris : Éditions Arcanes. Antónia (et. Jacques .dentro dos três registos essenciais da realidade humana. p. Jacques – “À la mémoire d‟Ernst Jones: Sur la théorie du symbolisme”. implícito e menos ao pé da letra – em torno de Descartes. apesar de tudo. 1996. mas a que já não reconhecemos um genuíno valor. de um modo mais indirecto. nos parece.como de resto todo o ensino de Lacan . relativamente a outros simbolismos. como fazem os autores. Em cada caso. nos últimos anos do seu ensino). no plural. e nomeadamente da fórmula. usar a expressão “momentos cartesianos”. se bem que pertinente no contexto da reflexão que é por eles aí efectuada. do cogito. LACAN. Em segundo lugar.

No fim de contas. a tentar promover na psicanálise? Ou. nos últimos anos. Assim. do simulacro.Autres Écrits. 2003. MILLER. Cf.fórmula cartesiana aparece cada vez mais como algo da ordem daquilo que Lacan irá chamar semblant284. em cada momento. um sentido cujo “sentido” tende a escapar irremediavelmente. por antonomásia. em particular o famigerado retorno a Freud. 287 José Martinho tem chamado a atenção.. Do ponto de vista do real. trata-se. LACAN. para esse carácter parñdico dos “retornos” lacanianos. cours de l‟Orientation lacanienne (inédito). de situar a problemática do sujeito no registo do Simbólico (por oposição aos inevitáveis engodos do imaginário). na academia ocidental. o nome da questão do sujeito por antonomásia. « La fuite 285 du sens » (1995-96). isto é. fugidio. designadamente sobre o sujeito. algumas dessas respostas. mas antes uma retomada sempre nova e diversa do respectivo pensamento. um sintoma (e não há nada de mais real que o sintoma). Jacques (1971) . apreendendo a 284 Cf. Ela é também. MARTINHO. 553. ou um sentido cada vez mais periclitante.287 De tal modo que a fórmula cartesiana é cada vez mais irreconhecível. um nome do prñprio devir lacaniano. para Lacan. *** Antes de mais. op. Lisboa: Fim de Século. algo que faz sintoma no pensamento. 70 .cit.Le Séminaire. D‘Un discours qui ne serait pas du semblant. ao mesmo tempo que nela descobrimos cada vez mais o próprio Lacan e o momento preciso em que se encontra o seu questionamento. Descartes (tal como Freud. de um sonho (mau) de que urge despertar. Jacques . da ordem da aparência.cit. p. torna-se progressivamente (tal como acontece em relação a Freud) numa espécie de paródia. p. Nessa medida. o qual deve ser “lido finalmente como uma paródia”. para Lacan. qual é. o “retorno a Descartes” a que Lacan apelava em meados dos anos quarenta. de resto) é. Sirvo-me aqui de uma expressão a que Jacques Alain Miller deu relevo há alguns anos. como vimos já. cada vez que retoma Descartes. a fórmula cartesiana aparece cada vez mais como uma fuga de sentido285. como dirá Lacan mais tarde286. 286 “O sentido do sentido na minha prática capta-se por escapar/fugir (…)” [“Le sens du sens dans ma pratique se saisit de ce qu‟il fuie (…)”]. seguidamente. Cf. sem sentido. Livre XVIII. José – Ditos III: conferências psicanalíticas. Jacques-Alain. 9. mas antes: o que é que Lacan está. a pergunta que devemos colocar não é se Lacan respeita ou desrespeita a fórmula cartesiana. dizendo de outro modo: na medida em que Descartes é. op. querendo isto significar não uma qualquer ridicularização. a resposta lacaniana à referida questão? Vejamos. LACAN.

a dúvida é primeira. a favor de Descartes. 129. WITTGENSTEIN. Ludwig – Da Certeza (edição bilingue). DESCARTES . Desde logo. assim. O jogo (de linguagem) da dúvida pressupõe a certeza (Gewissheit)289. de forma decisiva. segundo o filósofo. captou o sujeito na sua certeza. Uma dúvida que duvidasse de tudo não seria. p. nesta matéria.Meditações sobre a Filosofia Primeira. op. ela parece ser guiada por uma finalidade (a certeza). É certo que poderíamos objectar. p. como também o próprio projecto de pôr tudo em dúvida é.. e segunda em relação a esta. 1990. desde logo. segundo Descartes) permanecem fora do seu âmbito. Eis por que Lacan considera que Descartes é. 177. Uma dúvida que se pretende radical (a ponto de chegar a ser hiperbólica) e universal (não excluindo nada). A certeza subjectiva parece. Uma dúvida sem fim nem sequer seria uma dúvida290. 2ª meditação. p. É nesse sentido que ela pode ser designada como uma dúvida metódica. Ibidem. 288 Cf. incontornável. Lisboa: Edições 70. cit. a certeza ou a dúvida? Segundo Descartes. 289 290 291 71 . dúvida nenhuma288. Daí que pudéssemos questionar a pureza da intenção cartesiana de pôr tudo em dúvida. como o seu ponto de chegada. orientado pelo desígnio de chegar à certeza. Cf. mas igualmente porque. desde o princípio. Mas será isto inteiramente verdade? Wittgenstein mostrou. Ibidem. a algo indubitável. que a sua dúvida. mas antes um meio de chegar à certeza. no último ano e meio da sua vida. totalmente dependente da dúvida. não é propriamente “uma dúvida sem fim”. A dúvida não é um fim em si mesmo. peculiar. somos confrontados com uma pergunta que não podemos evitar: o que é primeiro.natureza e a medida da certeza subjectiva que um tal sujeito implica. na medida em que não só algumas regras da moral (provisória. até que ponto é infundada esta suposição de que a dúvida pode ter o primado relativamente à certeza. 47. pois foi o primeiro que. Ela é o ponto de partida de um trajecto que desemboca na certeza. não sñ porque tem um fim (no momento do cogito291). porém.

que devemos estar certos” [“Parce que le sujet doute.le doute. implicita- mente . Como recordava Lacan em 1964.cit. 43.ce qui est par lui oublié. LACAN.cit. segundo a distinção classicamente estabelecida292. Por outro lado. LACAN. Lacan suprime e acrescenta alguns sinais gráficos de pontuação. de algo absolutamente novo relativamente a tudo aquilo que tinha recebido o nome de “inconsciente” antes de Freud. desse modo. também aqui. parecem confluir. Mas talvez falte aqui um terceiro elemento.diferenciando-se. avançar um pouco mais. o apoio da certeza295. que estabeleça o elo. É esta elisão do dizer296 que Lacan pretende colmatar. a dúvida parece constituir. acrescentando apenas que. 296 “(…) O eu penso. Jacques. 45 [« (…) ça pense avant qu‟il entre dans la certitude »]. »] Cf. da dúvida céptica. Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Jacques (1953-1954) . Livre I. 294 Cf. quer a dúvida quer a certeza pressupõem uma condição de possibilidade mais básica: a linguagem. o que Freud nos demonstra – como sintetizava Lacan em 1964 – é que “isso pensa antes que chegue à certeza. E Lacan explica: “ (…) na expe292 Mesmo que pudéssemos questionar se a própria dúvida céptica não pressupõe uma certeza de ordem prática (ou ética) que a orienta. Em vez de dizer simplesmente “penso. Paris: Éditions du Seuil (Points-essais). p.. texto reproduzido nos Escritos..o que é por ele esquecido. embora pertinente.Le Séminaire. Paris: Éditions du seuil (Point Essais). dizer que “eu duvido” ou que “eu penso” fica esquecido no prñprio movimento da dúvida ou da certeza que uma tal formulação instaura. Descartes e Freud. sob o título A ciência e a verdade. Já no Seminário I. Eis o sentido da reescrita da fórmula cartesiana a que ele procede na aula de abertura do seminário de 1965-1966. apoiando-nos desta vez na descoberta do inconsciente293. »] Cf. LACAN.Le Séminaire. não pode ser isolado do facto de que ele (Descartes) não pode formulá-lo sem no-lo dizer. Na verdade. isto é. entre a dúvida e a certeza. ne peut assurément pas être détaché du fait qu‟il ne peut le formuler qu‟à nous le dire.”294 Dito de outra forma.Le Séminaire. do ponto de vista de Lacan. Neste aspecto. consagrado ao objecto da psicanálise. 293 Deixamos de lado a questão. c‟est l‟appui de sa certitude. Les Écrits Techniques de Freud. 295 “(…) C‟est là que Freud met l‟accent de toute sa force . Livre XI. logo existo”.” [“ (…) ce je pense. p. filosofia e psicanálise. sem solução de continuidade. em 1966. de modo que a fórmula passa a ser reescrita nos seguintes termos: penso: “logo existo”. por isso. 44. LACAN. 1998. pour nous. op. Jacques . de saber se o inconsciente é fruto de uma descoberta ou de uma invenção. on doit être sûr. se trata sobretudo de uma invenção. op. implicitement . 1990. 72 . Lacan chamava a atenção para a dúvida como apoio ou suporte da certeza: “é na medida em que o sujeito duvida. para nós. segundo o enunciado clássico do cogito. 75. Livre XI. p. permitindo.”] Cf. por assim dizer. Jacques (1964) . p.

apesar de tudo. 864-865.riência de escrever: penso: “logo existo”. p. 303 Deste ponto de vista. 119. lê-se que o pensamento só funda o ser ao atar-se à fala onde toda a operação toca na essência da linguagem. op. considerada. Jacques . Pelo contrário. sem considerar. com aspas em redor da segunda oração. em relação ao pensamento. que tem “vantagem em relação ao homem que pensa e não sabe que fala” 298. 1992. fico todavia preso às prñprias palavras e quase sou enganado pela prñpria prática da linguagem. avec des guillemets autour de la seconde clausule. por excelência. um dos nomes paradigmáticos. é que se assiste a uma 300 301 verdadeira “viragem linguìstica”. Todavia.Écrits. É o que lhe permite dizer. A linguagem não tem. se lit que la pensée ne fonde l‟être qu‟à se nouer dans la parole où toute opération touche à l‟essence du langage. Jacques . DESCARTES. Vantagem que eu só devo à minha exeperiência” [“C‟est là mon avantage sur l‟homme qui pense et ne s‟aperçoit pas que d‟abord il parle. Como um mal necessário303. uma convergência de princípio entre autores tão diversos como Aristóteles. Avantage que je ne doit qu‟à mon expérience. 299 DESCARTES . Coimbra: Livraria Almedina. desta viragem. se a linguagem é.”297 Que Descartes diga “penso.cit. 130. eu existo” é necessariamente verdadeira “sempre que proferida por mim”299. 302 “ (…) Embora eu reflicta em silêncio e intimamente sobre isto. logo existo”. até certo ponto. » LACAN. pp.. pois Descartes logo acrescenta: “ou concebida pelo espìrito”300. Kant ou Wittgenstein: trata-se de promover uma espécie de “terapia” da linguagem. nas Meditações Metafísicas. Descartes. op. eis o que Lacan pretende corrigir.” Cf. só na aparência é dada importância ao dizer. que permanece.. Esse homem é aquele de que Descartes é não só o nome próprio. ou carácter primordial. desta ideia. Estamos ainda muito longe da chamada “viragem linguìstica” (linguistc turn)301. num outro lugar. p. por isso. qualquer autonomia constitutiva. há. neste campo. p. que a proposição “eu sou. como facto primordial. mas também o paradigma. se bem que já houvesse toda uma série de considerações anteriores dignas de registo. que o tenha dito. Só no século XX. é apenas como possível estorvo ou obstáculo ao pleno exercício do pensamento302. 297 “(…) à l‟épreuve d‟écrire: « je pense: donc je suis ». Ibidem. Não obstante. ao dizer.Meditações Sobre a Filosofia Primeira..cit. a fim de ver “clara e distintamente”. de forma a dissipar a “ilusão” ou o “nevoeiro”.cit. que esta tende a produzir. em particular com a importância dada aos “jogos de linguagem” por Wittgenstein. 298 “Essa é a minha vantagem sobre o homem quer pensa e não se apercebe que antes de mais ele fala.Autres Écrits. o próprio Descartes não deixa de aproximar-se. apesar de tudo. op. 317.”] LACAN. 73 .

como vemos. do ponto de vista lógico. ameaçando ruir a qualquer momento. que je cesserais en même temps d'être ou d'exister »].. instaurasse um vazio tão grande que fosse necessário ultrapassá-lo rapidamente. não necessariamente conforme ao tempo cronológico. a partir do momento em que é enunciada como tal? 304 Cf. est nécessairement vraie. p. 74 . logo depois: “certamente enquanto penso. do ponto de vista cronológico. op. autant de temps 306 que je pense. ela é primeira. eu existo) depende ou implica uma certa temporalidade. [Em francês: « Je suis.cit. inteiramente de ser. toutes les fois que je la prononce. eu existo (…) mas por quanto tempo?”305 E a responder. como se fosse preciso um segundo tempo para compreender o que efectivamente sucedera. Ela remete para aquilo que Lacan. mais combien de temps? A savoir. 122. ou que je la conçois en mon esprit »]. j‟existe: cela est certain.”306 É por isso que o autor será levado. dar consistência de verdade a uma fórmula tão escorregadia. Como se a frágil consistência do cogito.Contudo. 130. car peut-être se pourrait-il faire. apressado. op. A temporalidade aqui implicada parece ser. DESCARTES. op. a certa altura: “eu sou. Ou seja: ela apenas subsiste de cada vez (ou em cada instante) em que eu a digo ou concebo. à primeira vista. Mas será realmente assim? Ou. Eis o que leva Descartes a perguntar. a certeza detém. evanescente. só depois da dúvida. Cronologicamente. chamava o tempo lógico. de concluir. a do próprio instante. A temporalidade do cogito é. sobra desta formulação a importância concedida ao tempo por Descartes.. de chegar à certeza após a dúvida. a supor um sujeito (divino) que possa garantir. DESCARTES. para logo o recuperar. para subsistir. teremos de admitir que mesmo se a certeza é apresentada. mais complexa do que poderia supor-se a uma primeira análise. Ao dizer “sempre que a pronuncio ou concebo pelo espìrito”304. carecesse de tempo. um pouco mais tarde. a certeza parece vir depois da dúvida (até na forma como o pensamento cartesiano se vai desdobrando ao longo das meditações). desde logo. Dito de outra maneira: é como se o momento. sendo este o seu suporte. Se a dúvida parecia deslizar metonimicamente de objecto em objecto. j'existe. porque pode porventura acontecer que se eu cessasse totalmente de pensar deixaria.. p. pelo contrário. numa certa época.cit. esse movimento. Ponto fugidio. 122 [Em francês: «Je suis. p. por um instante. si je cessais de penser. ele mostra que a certeza subjectiva (eu sou.cit. 305 DESCARTES.

cit. resumidamente.O tempo lógico aqui implicado é composto. se quer concluir antes dos outros. A hipótese inicialmente colocada parece invalidada. pp. o que acaba por precipitar os três em direcção à saída. uma falácia. num conjunto de três brancos e dois negros. À terceira.. como se diz na gíria. porém. recuperando o tempo de atraso que supõe deter em relação aos outros dois. o tempo para compreender e o momento de concluir307. contudo. a possibilidade de descobrir rapidamente a solução do problema. A partir daqui. de entre eles. as coisas mudam. aos seguintes passos: cada um deles começa por emitir a hipótese de que é negro. como diz o subtítulo do artigo). LACAN. Com efeito. Falta tempo onde sobram 307 Cf. in Écrits. Jacques . tendo como protagonistas três prisioneiros e como ponto de partida a oferta da liberdade concedida pelo director da prisão ao primeiro que. é de vez.« Le temps logique et l‟assertion de la certitude anticipé . consiga descobrir qual é o disco. op. Já não há mais tempo para duvidar. após duas hesitações. apenas pela observação dos seus dois companheiros de cárcere. 197-213. É esta suposição de um atraso relativamente aos outros que gera uma tensão temporal e precipita (apressa) o raciocínio no sentido de uma conclusão: a asserção – como diz Lacan – de certeza antecipada. Ele é ilustrado por meio de um problema de lógica (no fundo. invalida a hipótese anterior e implica a sua contrária. que tem colocado nas suas próprias costas. de apressar-se. que este movimento precipitado pode igualmente estar de acordo com a primeira hipótese – “eu sou negro” – o que obriga os três prisioneiros a uma paragem. continua a haver razões para oscilar. tentando desse modo antecipar-se. há um momento em que o sujeito se apercebe de que tem de antecipar-se. para duvidar. por três dimensões: o instante do olhar. do ponto de vista do mero raciocínio lógico (ou do sofisma que ele traduz). numa vacilação tendencialmente infinita.un nouveau sophisme ». Acontece. para os restantes. o que abre. O raciocínio estabelecido obedece. segundo Lacan. Que os outros dois permaneçam imóveis. É colocado um disco branco nas costas de cada um dos três prisioneiros. 75 . seguida da mesma objecção lógica e de uma nova paragem. É preciso dar todo o seu valor à expressão: certeza antecipada. o que precipita cada um deles na certeza de que é branco e na pressa de concluir. Toda a situação descrita se repete uma segunda vez: um mesmo raciocínio e uma nova partida.

468-471. Não existe dúvida a não ser onde há. no Seminário I. Jacques .. daí que aquilo que sobrevenha. libertando-se. no tocante à forma de asserção aqui estudada. convém observar que. pp. Cf. Se o paciente diz que tal pessoa que aparece nos seus sonhos não é a sua “mãe”. Paris: Larousse. no sentido usual do termo. p. um núcleo de certeza. Antecipada. apesar de tudo. porque descobre. 1996. Roland Chemama). o inconsciente freudiano. intromete-se. Eis onde Freud e Wittgenstein parecem. caso contrário. antes de mais. se Lacan retoma Descartes é. do transitivismo especular que o mantinha enredado numa teia de hesitações). sñ podem resultar de uma certeza antecipada. 75. apressa-se a concluir. mesmo que inconscientemente. qualquer um poderia concluir instantaneamente que ele é branco) ou indefinido recíproco (vendo dois brancos. pois. 209. op.cit. ela nem sequer viria à fala do sujeito. Les Écrits Techniques de Freud. permanece a dúvida sobre qual a cor de cada um relativamente aos outros dois. o que vai exigir uma tempo para compreender). [« Parce que le sujet doute. esse valor prende-se menos à dúvida que a suspende do que à certeza antecipada que a introduziu. como diz Lacan. 76 . » LACAN. Entre o primado da certeza wittgensteiniana e o primado (aparente) da dúvida cartesiana.”310 308 FREUD. LACAN. est intégré à la valeur du jugement. pour la forme d‟assertion ici étu- diée. na medida em que o sujeito duvida”309. é certo que tal negação. de forma mais evidente. assim.Le Séminaire. 309 Ou.Écrits. 310 “(…) Si le doute.Textes essentiels (org. É esse também o sentido do mecanismo que Freud pôs em relevo em 1925: a denegação (Die Verneinung)308. Paris: Éditions du Seuil (Collection Points-Essais). e a dúvida que a mesma instaura. No entanto. 1998. assim. também aì. Tal implica um sujeito que não é meramente impessoal (em face de dois discos negros.as razões. il faut remarquer que. mais à letra : « é porque o sujeito duvida que devemos estar seguros ». está integrada no valor do juízo. Sigmund .“La Négation”. seja a própria dúvida. devemos estar seguros. a certeza relativiza a função da própria dúvida. encontrar-se. um núcleo de certeza subjectiva que importa restaurar. Livre I. Não obstante. esta certeza antecipada não é necessariamente consciente. Jacques (1953-1954) . on doit être sûr »]. p. mas uma sujeito da asserção antecipada de si mesmo (subjectivando um atraso em relação aos outros dois. desde Descartes. cette valeur tient moins au doute qui la suspend qu‟à la certitude anticipé qui l‟a introduite. depuis Descartes. Como dizia Lacan. in La psychanalyse . “ (…) Se a dúvida.

314 Cf LACAN. o que acabamos por encontrar num determinado ponto do percurso. que isso pensa (inconsciente) antes que chegue à certeza (consciente). o sujeito cartesiano. o caminho da dúvida. Livre XI. a introdução do sujeito312. certitude. até suficientemente longe. ela só tem uma face. LACAN. p. se Lacan promove um ou vários retornos a Descartes é porque reconhece que Freud (tal como ele próprio. por exemplo.cit. mas a certeza (Gewissheit)314. circulando sempre pelo mesmo lado. quando percorremos. do sujeito da certeza. Esta superfície topológica. 53. não coube a Freud. LACAN. na medida em que a ciência moderna sñ começa depois que Descartes deu o seu passo inaugural.. Jacques . acabamos por descobrir que há uma descoincidência entre esta e o pensamento (contrariamente à pretensão cartesiana). a cada momento. como aparenta a um primeiro olhar. Na realidade. 77 . op. Com efeito. se abstrairmos do resto do percurso. o sujeito (vazio) da ciência313. n‟est pas vérité. Isto significa que podemos ir do direito ao avesso. de uma Banda de Moebius. o termo maior a destacar não seja a verdade. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor. Seja como for. o caminho da certeza.cit. não tem duas “faces”. finalmente. É por isso que. Livre XI. se percorrermos. A Topologia de Jacques Lacan. 1990 “Não digo que Freud introduz o sujeito no mundo (…) visto que foi Descartes” [“Je ne dis pas que Freud introduit le sujet dans le 312 monde (…) puisque c‟est Descartes”] Cf.” [«(…) le champ freudien n‟était pas possible sinon un certain temps après l‟émergence du sujet cartésien. no entender de 311 Cf. Partindo.. até suficientemente longe. op. é a certeza (eis onde os percursos de Descartes e Freud se tocam: em ambos. 56.Le Séminaire. antes. apesar de tudo. en effet. Lacan. 43. e. op. ela aparente ter duas311. sem qualquer solução de continuidade. e todos nós) é seu devedor. mesmo se. a que Lacan recorre frequentemente. GRANON-LAFONT. en ceci que la science moderne ne commence qu‟après que Descartes a fait son pas inaugural.Le Séminaire. ou seja. Eis onde os percursos de Freud e Descartes desconvergem. »] Cf. Jacques. Il est Gewissheit. também ele.. isto é. »].A relação da dúvida com a certeza é menos entre algo que é primeiro e algo que é segundo e mais entre o direito e o avesso de uma superfície sui generis como é o caso. Da mesma forma. a dúvida é não sñ o apoio da certeza como a sua “face” aparente). [« Le terme majeur. Jacques . Jeanne. Todavia. como tal. mas sim a Descartes. o sujeito freudiano não seria possível sem ter emergido.cit. 313 “(…) o campo freudiano sñ era possìvel um certo tempo apñs a emergência do sujeito cartesiano. p.

. da mesma forma que o trajecto da dúvida nos conduziu à certeza. que nega. 318 DESCARTES . Cf. DESCARTES – op. por uma via topológica isenta de solução de continuidade (como mostrámos mais atrás).320 É nesse sentido que poderíamos dizer que o eu penso. eu existo (…) mas por quanto tempo?”316 Estando o ser do sujeito. sempre que proferida por mim ou concebida pelo espìrito. desde logo. LACAN. à certeza (subjectiva) quando o sujeito deixa de pensar? Ou.cit. segundo a expressão de Lacan) de todo o saber anterior. contrairement au 319 320 321 prétendu paradoxe. paradoxalmente. na sua existência pontual e evanescente. p.. 316 DESCARTES . que não quer. que afirma.. pode dizer-se que o procedimento (démarche) de Freud é cartesiano. mesmo se o lugar da certeza é outro e ex-cêntrico em relação àquele onde Descartes a situa315. ou até. com o eu duvido. inteiramente de ser. eu existo. 124. garantir e dar consistência à frágil e momentânea certeza subjectiva? Na verdade. qu‟on affirme – Je mens.. p. 122. p. op. op.op. DESCARTES . o paradoxo é que pensar é perfeitamente compatível com duvidar. Ora. o que acontece quando o pensamento ou a fala se retiram. Cf.. mas também o próprio Descartes.en ce sens qu‟elle part du fondement du sujet de la certitude. [« La démarche de Freud est cartésienne . »]. etc. 122..cit. Jacques . o que poderá constituir um novo saber que possa fixar. é necessariamente verdadeira”. cit.cit. nos termos de Descartes: “eu sou. nomeadamente o que provem dos sentidos ou da imaginação. 119. no limite. por assim dizer? Porque pode “acontecer que se eu cessasse totalmente de pensar.op.Le Séminaire.. *** O que acontece. mas o quê? “Uma coisa pensante (res cogitans)”. p. cit.Le Séminaire.Lacan. responde Descartes319. Por isso. 123. como o demonstra.. com o eu minto321. “Eu sou. coincide. se o cogito é esvaziado (ou varrido. p. hipotecada ao tempo do instante em que eu a concebo ou pronuncio317. que quer. Livre XI. porém. 43. por exemplo. » 78 . DESCARTES - 317 op. deixaria.op.cit. para que esta certeza 315 LACAN. a clínica (em particular do neurótico obsessivo). que responde à pergunta sobre o que significa ser uma coisa pensante da seguinte forma: uma coisa que duvida.cit.”318 Por outro lado. 46: “(…) cette vérité qui rend parfaitement possible. p. p. Livre XI. Jacques . eu sou.

como sujeito-suposto-saber. em substância pensante) corresponde. 325 LACAN. Deus. dedicado à Transferência323. de quê? . 323 LACAN. evanescente ou frágil da verdade). DESCARTES. pp.”325 O paradoxo que resulta disto é que. parece um correlato essencial ao percurso cartesiano. O nome de Descartes voltará aí a ser recordado. Lacan voltará a usar a expressão. 194 e 195.cit.mas o verdadeiro mantém-se de tal maneira exterior (au-dehors) que é preciso em seguida a Descartes assegurar-se. entre o pensamento e o ser. Paris: Éditions du Seuil. a partir do momento em que Descartes transporta ou deslocaliza326 para o Outro divino o fardo da garantia da verdade327. onde o custo da mão-de-obra é menos dispendioso. op. assim. o 322 Sobre o Deus que não é enganador e de que dependem toda a verdade e toda a certeza. uma deriva metafísica (a exigência de um Outro (sujeito).Le Séminaire. por Descartes. Se bem que anunciada ou pressuposta. les fondements nécessaires à ce que le réel même dont il vient de s‟assurer puisse trouver la dimension de la vérité. Lacan vai chamar sujeito-suposto-saber.mais le vrai reste tellement au-dehors qu‟il faut ensuite à Descartes s‟assurer. é um real . esta fórmula só será explicitamente introduzida nas duas primeiras sessões do seminário sobre a Identificação324. (…) os fundamentos necessários para que o real de que ele acaba de assegurar-se possa encontrar a dimensão da verdade.. em particular as multinacionais.subjectiva não resvale de novo para a dúvida. suposto garantir a verdade do pensamento e do ser. é necessária uma garantia. LACAN. ver.Le Séminaire. Livre VIII. 1991. Livre IX. para além da temporalidade instantânea da certeza subjectiva)322. c‟est un réel . em grande parte.. et qui (…) puisse de sa seule existence garantir les bases de la vérité (…). Aí será desenvolvida como preconceito filosófico (emanado em particular de Descartes) de que é preciso demarcar-se. nomeadamente.Le Séminaire. Le Transfert. o carácter não transitório. 79 . Jacques . Como diz Lacan. Jacques . “ (…) o que visa o eu penso enquanto oscila no eu sou. A este sujeito Outro (ou Outro do sujeito) suposto garantir as “verdades eternas” (ou a eternidade.cit. uma vez que permanece uma falha.cit. que deslocalizam parte ou a totalidade da sua produção para paìses “terceiros”. À deriva substancialista do sujeito (transformado. »] 326 Como se diz agora de certas empresas. isto é. que importa suturar.senão de um Outro que não seja enganador. pp. pp. 44-45 [« (…) ce que vise le je pense en tant qu‟il bascule dans le je suis. 256-289). não enganador.sinon d‟un autre qui ne soit pas trompeur. Jacques (1960-1961) . Livre XI. no seminário anterior. op. e que (…) possa pela sua existência garantir as bases da verdade. como uma das suas possibilidades intrínsecas. nas últimas lições do seminário XI (em particular as lições de 3 de Junho de 1964 e 10 de Junho de 1964. desta vez em articulação com a transferên- 324 cia. de quoi ? . op. o que será de ora em diante uma constante.

o que não deixa. uma vez que ele implica uma certa dessubstancialização do sujeito –. Se Deus existe. como afirmava Einstein329) que. 329 É neste sentido preciso que Lacan dizia. Lição de 15 Novembro de 1961 [“L‟autre n‟est pas un sujet. só faz sentido. LACAN. Cf. antes de mais. que o Outro não é um sujeito. Livre IX. deste modo. cartesiano (o Outro da garantia) e “um Deus que engana” (o “outro” do psicñtico Schreber). sendo ambígua. Falar de “sujeito da ciência”. p. se entendermos a expressão como o limite de um paradoxo extraído do próprio trajecto cartesiano. [“(…) Eins- tein en restait au même point que Descartes. repovoando-o de novos e surpreendentes objectos. de ter consequências para o sujeito.il. uma vez que nos primeiros seminários. Madrid: Editorial Tecnos. como acontece. Paris: Éditions du Seuil. Lição de 14 de Dezembro de 1955. aliviado do mesmo. “sem sujeito”. seja ou não divino (ainda que isso também possa estar presente. Por outro lado.sujeito é. por assim dizer. Le Seigneur. carecendo da radicalização que ele se propõe levar por diante. 80 . Cf. 328 Mesmo se Husserl mostra até que ponto essa redução é ainda incompleta. deixando o campo aberto a uma ciência que é. Jacques (1961-1962) . eu não tenho de estar sempre a pensar e posso retirar-me. naturalmente. Neste aspecto. »] LACAN. vai habitar esse vazio. de ora em diante. disait. reduzindo-o ao puro cogito328 – vazio que Lacan põe em destaque. ao mesmo tempo que assinala a diferença relativamente a Descartes. Descartes garante a consistência (científica) desse vazio pela presença ausente de Deus: sujeito-suposto-saber.Le Séminaire. É a ciência. como pretende Descartes. mas com a garantia de Deus (de um deus que não joga aos dados nem é desonesto. 1978. ele tendia. Jacques (1954-1955) . Livre III. Edmund . sem sujeito. como vimos na primeira parte deste trabalho. Livre II. o passo lacaniano consistirá em mostrar. L‘Identification (inédito). 1981. 330 Cf LACAN. Le Moi dans la Théorie de Freud et dans la Technique de la Psychanalyse. HUSSERL. no Seminário II. Jacques (1955-1956) . ao nível da transferência). mas um lugar330. 263. mais il n‟est pas malhonnête.Le Séminaire. a identificar o Outro com o sujeito ou a (inter) subjectividade. e garante a verdade. de um modo geral. É este o paradoxo cartesiano: ao mesmo tempo que esvazia do sujeito. 1997. 2ª Edição. deverá sobretudo ser entendida não tanto como a suposição de saber que é feita em relação a um sujeito qualquer. mas sobretudo como a suposição de um sujeito no ou ao saber 327 Poderìamos estabelecer aqui a diferença entre “um Deus que não engana”. não deixa de dialogar consigo mesmo. Paris: Éditions du Seuil.Le Séminaire. que Einstein permanecia no mesmo ponto que Descartes.Meditaciones Cartesianas. c‟est un lieu auquel on s‟efforce (…) de transférer le savoir du sujet. Perante isto. Lacan. como é o caso de Lacan. por vezes. fundamentalmente. a fórmula sujeito-suposto-saber. »]. est certainement un petit rusé. Les Psychoses.

destituído) em relação ao saber (inconsciente) que o determina e sujeita. uma referência incontornável de Lacan. pelo contrário. pp. *** 331 “Cabe aqui uma explicação (…). as consequências lógicas de um tal esvaziamento334) e.. do pensamento e do ser. Jacques . o vazio de uma negatividade auto- 333 334 335 referencial. Slavoj . queda e não princípio. autónomo e constituinte. cit. além do mais. esse facto de o grande Outro (…) poder rir. deste modo. é suposto (isto é. 332 « (…) Ce sujet du « je pense » révèle ce qu‟il est : l‟être d‟une chute. Ibidem.”332 Queda esta realçada por Lacan através da reescrita da fñrmula cartesiana: “sou aquilo que pensa „logo existo”333 O „logo existo‟. Vale a pena citar Zizek a este propñsito: “(…) o sujeito lacaniano (assinalado como $). Isto é: o sujeito. como sendo essencialmente sujeitado. Jacques – Autres Écrits. no segundo. efeito. entre aspas. op. um puro vazio sem qualquer conteúdo substancial positivo. 81 . in A Subjectividade por Vir. durante largos anos.. e que Lacan não deixa de sublinhar: “ (…) esse sujeito do „eu penso‟ revela o que é: o ser de uma queda. dependente em relação ao Outro (mesmo que esse Outro não tenha o nome de Deus. p. 2006. Descartes. est supposé au savoir dont il consiste comme sujet de l‟inconscient (…) »]. um sujeito “barrado”. » LACAN. E a aposta de Lacan consiste em dizer que a redução cartesiana do sujeito ao puro cogito já implica essa mesma redução de todos os conteúdos substanciais. a sublinhar o facto de que o sujeito é essencialmente vazio (e se Descartes é criticável é porque não assume.op. 531. como pretenderam. A diferença é que no primeiro caso é o sujeito quem é suposto saber. O sujeito revela-se.(inconsciente)331. mas de Outra cena). par le transfert. apesar de tudo. que serve de fundamento e garantia. isto é. deposto. Soit: que le sujet. através da transferência. LACAN. Eis o passo que Descartes não dá. ele sofre uma queda. até ao fim e em toda a sua amplitude. ZIZEK. apesar de tudo. a ideia de um “teatro cartesiano” enquanto lugar originário da subjectividade já é uma “reificação” do sujeito $ do puro vazio da negatividade. 43-44. situa-se na linha directa do descentramento primordial: o próprio facto de ser privado dos mais íntimos conteúdos psíquicos (…) que me constituem. se Descartes continua a ser. O sujeito lacaniano é portanto vazio no sentido radical em que está privado do menor suporte fenomenológico: nenhuma riqueza de experiências pode preencher esse vazio. bem como as sequelas posteriores do seu modo de pensar. 204. assinala o facto que o sujeito é suposto. pp. Porém. acreditar e sofrer no meu lugar. Lisboa: Relñgio D‟Água.“O sujeito interpassivo”. fazem de mim um $. nomeadamente.cit. é suposto no saber em que ele consiste como sujeito do inconsciente (…)” [“ Il y a là explication (…). é porque este não deixa de ser o primeiro. A escrita lacaniana do sujeito barrado ($) não assinala outra coisa senão esse vazio. passivo ou interpassivo (segundo uma expressão de Zizek) em relação ao Outro335. inclusive a dimensão mais ìntima do psiquismo.

Intervention au Congrès de Rome (31. deixando. Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychana- lyse. não constitui forçosamente um acto. mais tarde.74).. com aspas em torno da segunda oração. mas justa- mente esta cisão do sujeito. denegando (no sentido freudiano do termo.10. n°16. LACAN. legítimo. o procedimento cartesiano parece consistir. op. As diversas reescritas ou variações da fórmula cartesiana vão dar progressivamente conta dessa fissura. 338 “Num ponto eminente da ascese cartesiana (…) consciência e sujeito coincidem. 337 Cf. op. o sujeito e a consciência. Jacques. por exemplo. uma certa fissura. como demonstra. »] LACAN. por exemplo. uma não transparência – entre os dois planos338. a cisão.11.1974 / 3. a fenda irremediável que separa o pensamento do ser. p. já há uma cisão fundamental que importa apreender e destacar. Jacques . sou‟”. não coincidência ou identidade entre o pensamento (je pense) e o ser ( je suis). consiste em escrever: “penso portanto”. Ao escrever. das considerações anteriores. transparecer uma tal fissura nas entrelinhas) o que possa haver de hiato entre os dois. logo existo. pelo contrário. C‟est de tenir ce moment privilégié pour exhaustif du sujet qui est trompeur (…) »]. No entanto. La 340 Troisième.cit. o obsessivo na sua interminável ruminação340. no estabelecimento de uma coincidência entre os dois planos. Jacques (1954-1955) . LACAN. penso: “logo existo”339. segundo cremos. „logo. o procedimento lacaniano vai consistir em restabelecer a fissura. cit. de separar o “mental” do “fìsico”. op.Autres Écrits. 339 LACAN. 15 [« (…) l‟acte de réflexion où la conscience se saisit transparente à elle-même (…) »]. É tomar esse momento privilegiado como algo exaustivo quanto ao sujeito que é enganador (…)” [“En un point éminent de l‟ascèse cartésienne (…) conscience et sujet coïncident. separado de “sou” (“je pense donc: “je suis”). quando o gozo já adquiriu no seu ensino um carácter primacial. um ser. 203. onde se percebe que o pensamento. 1975. porventura mais radical. pp. É essa fissura que Lacan pretende destacar nas suas diversas retomadas do cogito336. paru in Lettres de l'Ecole freudienne. “Je pense donc se jouit” (Cf. Jacques . 82 . isto é.Ressalta.. Paris: Éditions du Seuil. Pois bem. légitime. mostrando que há uma não coincidência – e. mais justement cette refente du sujet. Como dirá Lacan. croyons-nous. Livre II. 864. O “portanto” da 336 “(…) o emprego que fizemos este ano do cogito. Não se trata. como tal. em vez de penso. apesar de tudo.Le Séminaire. 199. mesmo quando não pára de pensar. p. a alma do corpo. uma cisão entre o pensamento e o ser. mas antes de mostrar que ao nível da própria constituição do cogito como tal.177-203.cit. p. o que Lacan pretende sublinhar é o corte. Uma outra versão. Basta escrevê-lo: Sou (estou) pensando. a res cogitans da res extensa. 1978.Autres Écrits. [“(…) l‟emploi que nous avons fait cette année du cogito . Écrits. O sujeito é concebido como sendo resultado de “um acto de reflexão em que a consciência se apreende (saisit) como transparente a si mesma”337.. p. de que o cogito não funda a consciência. de ce que le cogito ne fonde pas la conscience. como faz Descartes. [No original : je pense : « donc je suis »].

por outro. por um lado. 2008]. 1990. em particular na lição de 27 de Maio de 1964 (op. e podendo. escolher aquilo que mais lhe agradar. a exclusiva. Disponível em WWW : <URL: http : www. podemos optar. num restaurante em que existem dois ou mais pratos à escolha. Voltaremos a esta questão. no segundo caso. L‘Envers de la Psychanalyse. como tal. uma vez que somos obrigados a optar unicamente por um dos termos da alternativa (por exemplo. a alternativa inclusiva e. de alienação (aliénation)342. no segundo caso. Se colocarmos o problema sob o ângulo do que se ganha ou se perde em cada um dos casos.. Livre XVII. Jacques( 1969-1970) . est à mettre du côté du cogito. como diz Lacan. basicamente. No primeiro caso.cit. 181. o sujeito (que tem de optar) acaba por ganhar algo: tendo à sua disposição. se o leque de possibilidades parece idêntico. Je pense donc: ―je suis‖. 227-240). deve ser situado do lado do cogito341 É por isso que Lacan dá um novo passo na reescrita da fórmula cartesiana por meio de uma operação a que ele mesmo dá o nome. [Em linha].pagesperso-orange. de forma mais desenvolvida e promenorizada. distingui-la das modalidades clássicas da alternativa. em momentos anteriores: enquanto alienação imaginária (Estádio do espelho) ou simbólica (a dependência. Com efeito. O ou da “alienação” é diferente tanto do “inclusivo”. 83 . 342 Lacan apresenta e desenvolve este conceito de um modo explícito no Seminário XI. 31 Out. estrutural. devemos escolher apenas uma das possibilidades. Trata-se aqui de mostrar que o pensamento. o ou que introduz a alternativa deixa em aberto os dois termos ou possibilidades da mesma (por exemplo. talvez a questão se torne mais clara. ainda que num sentido menos específico. 341 “ (…) L‟ergo. como “exclusivo”. o ergo. Mesmo se o exemplo é algo simplista e caricatural. do sujeito relativamente à ordem do discurso e da linguagem).fr>. indiferentemente. em cada um deles. Espaces Lacan. de uma alternativa. p. é um modo de gozo. Paris: Seuil. pp. importa. no primeiro caso. qui n‟est rien d‟autre que l‟ego en jeu. » LACAN.Le Séminaire. à pergunta se somos ou não fumadores. voilà qui donne sa vraie portée à la formule. se bem que a “noção” de alienação já tivesse sido objecto de várias incursões por parte do autor.frase é ainda um pensamento e nada mais. qualquer dos pratos sem restrições. por um ou por outro. o que implica que ocupemos uma zona ou outra do restaurante). O que significa a “alienação” na terminologia de Lacan? Trata-se. antes de mais. na Parte IV do nosso trabalho. segundo o nosso desejo). Existe. Para apreender o seu verdadeiro significado. desde o Seminário XI. a lógica parece ser esta. em vez de constituir uma via de acesso ao ser. a realidade é diferente. [Consult.

Um dos exemplos dados por Lacan é o seguinte: “A bolsa ou a vida. qualquer que seja a sua opção. num artigo intitulado Variations sur le cogito. “je ne pense pas là ou je suis ». etc.cit. O resultado é que a fórmula cartesiana se torna cada vez mais estranha e irreconhecível.. para além de sublinhar a não coincidência entre o pensamento e o ser. L‘acte psychanalytique (inédito). permite dar conta de diferentes estruturas ou fenómenos clínicos. cit. É evidente que. Cf. [« La bourse ou la vie. 437. Cf. É com o conceito de alienação em mente. Na verdade. nomeadamente. Si je choisis la bourse. e respectivas implicações. « je suis. Isto só é possível porque entre o procedimento cartesiano e a operação lacaniana há. se escolho a vida. irremediavelmente. Lacan escreve vel (ou). je ne pense pas ». esse desfalque ou essa perda estrutural e irremediável343. perco as duas. introduz uma outra modalidade lógica. RELIER. tenho a vida sem a bolsa. em que o sujeito. de permeio.Autres Écrits. ou je ne suis pas”. ficando dessa forma. onde Descartes atava o pensamento ao ser (do sujeito). op. a anorexia nervosa. Cada uma destas variações. Livre XV. Paris: École de la Cause Freudienne. uma vida desfalcada (écornée)”344. perdido na operação em causa. que Lacan reescreve e subverte a fórmula cartesiana. dirigida ao saber. LACAN. j‟ai la vie sans la bourse. isto é. segundo Lacan. Lacan repõe a disjunção. Livre XI. Jacques . Assim. « je ne suis pas là ou je pense ». Jacques (1967-1968) . p. Si je choisis la vie. je pense. como se vê pela seguinte enunciação “ou não és. »] 345 “Leiamos o cogito para o traduzir segundo a fórmula que dá Lacan da mensagem no inconsciente. com uma vida desfalcada.Horizon . op. c‟est alors : « ou tu n‟es pas.” [“Lisons le cogito à le traduire selon la formule que Lacan donne du message dans l‟inconscient. « je pense. temos: « ou je pense ou je suis ». a saber.Le Séminaire. esta é apenas uma de múltiplas variações a que a formulação dá lugar. Igualmente LACAN. mais je ne suis pas ». »]. onde o esforço cartesiano ia todo no sentido de estabelecer uma conjunção. num certo sentido. “ou je ne pense pas. ou não pensas‖. Lacan passará a escrever o sujeito com uma barra por cima ($) para assinalar. Lacan desata. adressé au savoir. por exemplo. Se escolho a bolsa. acaba sempre por perder algo.Já o ou alienante.Des Philosophes à L‘Envers. como igualmente das diversas versões desta última variação que tem por base e mola o conceito de alienação. faz o recenseamento não apenas das variações lacanianas em torno do cogito. a invenção freudiana do inconsciente. esta modalidade de alternativa se aproxima mais do ou exclusivo. lição de 17 de Janeiro de 1968. 237. Nº Hors-Série. subtraído. p. Onde Descartes escrevia logo (ergo ou donc). do que fica excluído. à savoir. p. Janvier 2004.. Jacques . eis então: ―ou não és. ou tu ne penses pas ». je perds les deux. ou não pensas”345. mas apenas se a entendermos na vertente da exclusão. Francesca. 84 . Annick . a deslocalização do “ser” do sujeito (do inconsciente) para lá do sujeito consciente. une vie écornée. BIAGI-CHAI. Marie-Hélène Brousse. o sujeito é capaz de jogar com essa perda e propô-la ao Outro como objecto: “poderás perder-me?” 344 LACAN. 343 Como mostram certos fenómenos clínicos. 61. je pense.Le Séminaire.

na imanência dos seus princípios. no Capítulo V do Seminário XI. Volume 59. isso permitir-vos-á fazer um pequeno progresso”349. pondo em causa as nossas maneiras habituais de pensar. 11. Relativamente a este. o pensamento não é. segundo a expressão de Lacan347. Esse encontro é sempre. e a um “sonho mau”. O pensamento. um mau encontro ou um encontro falhado (Cf. Lição de 17 de Janeiro de 1978.” ZIZEK. Les non-dupes errent (inédito). como mostrou. o remoinho por onde se esvai. por assim dizer.. 2.Isto significa. escrevia o seguinte: “o pensa- mento nunca chega à luz do dia espontaneamente.cit. Livre XXI. por um lado. traumático. Deleuze. Fasc. mas não podemos adaptar-nos ao real. do real (traumático)348. por assim dizer. de alguma forma. vários psicanalistas criticados por Lacan). cela vous fera faire un petit progrès. in Revista Portuguesa de Filosofia. O pensamento verdadeiro. ele está sempre desfalcado de uma parte de si mesmo. Abril-Junho de 2003. em vez constituir o ser. 346 Num livro que escreveu em 2004. o encontro (adaptação) é sempre mau. e nos obrigue a pensar346: um encontro traumático com o real.A subjectividade por Vir. 348 Uma das distinções possíveis entre o real (lacaniano) e a realidade seria a seguinte: podemos adaptar-nos à realidade (como defenderam. LACAN. 315-337. violento. 63-75. BORGES-DUARTE. que. o remoinho e o tempo .Le Séminaire. pp. estariam na base do seu procedimento metodológico350. como diz Lacan no Seminário XXI: “aprendei a ler Descartes como um sonho mau (um pesadelo). » LACAN. por exemplo. que irrompa de fora. o procedimento e as conclusões a que chega Descartes não podem deixar de assemelhar-se a um sonho. numa espécie de movimento contínuo e auto-reflexivo. parafraseando Descartes. o que nos incita a pensar é sempre um encontro traumático. op. É preciso algo mais. que qualquer que seja o ângulo por onde se tome o sujeito. *** Se bem que esta formulação lacaniana não seja inteiramente simples. 350 Cf. A leitura mais óbvia consiste em ver na frase de Lacan uma referência. 85 . p. 347 Esta ideia do encontro (traumático) com o real [“la rencontre du réel”] é desenvolvida por Lacan.cit. a coisa mais natural e bem distribuída do mundo). em particular. o seu ponto de fuga. por exemplo. velada. 349 “Apprenez à lire Descartes comme un cauchemar. com um real exterior que se nos impõe brutalmente. op. Slavoj Zizek. Irene – “O melão.Descartes e o sonho de uma noite de Outono”. Por outro lado. aos famosos sonhos de Descartes. falhado. algo natural (ou. segundo confissão do próprio.. somos forçados a pensar. Jacques (1973-1974) . é sempre descentrado: não pensamos espontaneamente. Slavoj . pp. recordando a crìtica de Deleuze ao cartesianismo. enquanto tal. per se. desenha. vejamos o que está em causa por esta altura do seu ensino. Deste ponto de vista.

op.Mas Lacan vai mais longe. Les non-dupes errent353. 2890. Les non-dupes errent. 1ª edição. 1971. um sonho (o sonho da modernidade). A expressão tanto pode significar “os nomes do pai” como “os não-iludidos erram”. por homofonia. Lacan não diz simplesmente (embora também pudesse ser uma leitura) que devemos abandonar ou ultrapassar Descartes. é preciso acordar desse sonho. o que torna possìvel. p. Lisboa: Editorial Verbo. extraindo todas as consequências dos seus postulados. como se tocasse em algo demasiado “real” – segundo o termo de Lacan – que fosse impossìvel de “simbolizar” ou de “imaginar” pelo sonhador. que permite chegar a uma espécie de “umbigo” do sonho (cartesiano) que revela a sua natureza de pesadelo. A Vida é Sonho. no fundo. Contrariamente ao que sugere o título da conhecida peça de Calderon de la Barca352. in Obras Completas de Sigmund Freud. O termo usado por Lacan (cauchemar) é aqui essencial. mantendo embora a referência cartesiana. 352 BARCA. o sonho mau.cit. Se o sonho está fundamentalmente “ao serviço da conservação do repouso”351.Le Séminaire. FREUD.“Los limites de la interpretabilidad de los sueðos”. tal como pode escutar-se no título. se o soubermos (re)ler. a vida não é apenas sonho. é o próprio Descartes. Da mesma forma. por esta altura. 353 86 . o termo “errar” tanto pode querer dizer “cair no erro” como “divagar” ou “andar à deriva”. sobretudo nos últimos escritos sobre o mesmo. Se Descartes representa. Jacques (1973-1974) . Por isso. em francês. o pesadelo é o que vem perturbar este repouso “homeostático”. Sigmund . É o próprio Descartes. e que nós mesmos podemos fazer da frase 351 Cf. Madrid: 1996. Calderón de la. O que importa e é sublinhado por Lacan nesta altura é o termo “real”. percebe-se uma ambiguidade no termo “errent”. tal como assinala Freud. apelando a uma leitura de Descartes que implique um “pequeno progresso”. um pesadelo é algo que geralmente nos faz despertar do sonho. mas antes que devemos lê-lo de uma certa maneira: como um pesadelo. do seu seminário de 1973-1974. Eis o que permite dar um “pequeno passo” em frente. ambíguo. Com efeito. Tomo III. O paradoxo é que a frase de Lacan diz que o pesadelo. Livre XXI. duas leituras diferentes: “erram” (de errar) e “R” (enquanto letra do alfabeto). fazendo despertar do sonho. LACAN. Além disso. Estas ambiguidades não deixam de ter consequências na leitura que Lacan faz do empreendimento cartesiano.

de acordo com o nosso ponto de partida. Livre XVII. Mas há ainda outra leitura possível. tal como Lacan havia tentado. Miguel de .Le Séminaire. Le Sinthome. mas que serve aqui para mostrar a impossibilidade de reduzir o cogito a um puro significante. É como se ele pretendesse dizer: a consideração do “real” faz-nos despertar do “erro” em que Descartes nos fez cair. Daì a fñrmula: “Je pense. 66. ao mostrar o “avesso” de Descartes. Paris: Éditions du Seuil. então o “erro” de que é preciso despertar é o prñprio “sonho cartesiano” de Lacan354. o cogito. Livre IX. de algum modo. Nessa medida. daí que tenhamos optado por mantê-la no original. Paris: Éditions du Seuil. Disponível na WWW : <http://psicoanalisis. L‘Envers de la Psychanalyse. 355 LACAN. mantendo-lhe a letra. A “pança” representa aqui a revalorização do corpo357. No lugar reservado por Descartes ao pensamento (cogito). que deixou um “resto”. ao puro domínio do significante358. A partir daqui. uma modalidade de “objecto” especificamente lacaniana (como veremos depois).Le Séminaire. Intervention au Congrès de Rome. no seminário IX359. a lição de 22 de 359 Novembro de 1961. significante. é um delírio à Dom Quixote. 354 Poderíamos dizer que este sonho consiste essencialmente numa tentativa de significantizar o cogito. a referência a Descartes transforma-se em paródia. Não só o corpo numa dimensão imaginária (como foi quase sempre a perspectiva de Lacan). donc se jouit” (Cf. a pança.Dom Quixote de la Mancha. 87 .de Lacan. fracassada. 2005. 358 Estes termos serão explicitados de um modo mais claro e exaustivo na terceira parte deste trabalho. isto é. Jacques . donc je l‟essuie”355. o alcance e a inteligibilidade. reduzi-lo a um puro significante.“La Troisième ». Ao mesmo tempo. Jacques (1961-1962) . isto é. poderìamos dizer. isto é. reduzir-se a um “traço unário” (trai unaire). tenta mostrar que experiência cartesiana do sujeito pode. o corpo e o seu ventre. os seus apetites. em particular. É disso testemunho a última reformulação lacaniana do cogito cartesiano: “je le panse (…). o termo freudiano « Einziger Zug ». p. LACAN. relativamente ao qual o pensamento. logo a limpo/seco/enxugo”. prova-o o facto de Lacan ser levado. 356 Cf. 2005. LACAN. se considerarmos. Com efeito. mais tarde (Cf. absolutamente despersonalizado e vazio de todo o “conteúdo” subjectivo. por exemplo. 1/11/74 (inédita). retomando. em última análise. Uma possìvel tradução seria: “eu a panço (…). que “Descartes” é um dos nomes do percurso lacaniano. numa clara alusão à obra maior de Cervantes: o Dom Quixote de la Mancha356. Lisboa: Dom Quixote. É praticamente impossível verter a expressão lacaniana para português. Que esta tentativa foi.org/lacan/index. Cf. CERVANTES. L‘Identification (inédito). mas também o corpo enquanto 357 goza. em que Lacan. Lacan reintroduz.htm?B1=J%27+accepte+%21>. Lacan acaba por revelar igualmente o seu próprio avesso. lição de 20 de Maio de 1970) a ligar o cogito ao objecto a. Livre XXIII.Le Séminaire. Jacques (1975-1976) . representa uma impossibilidade de reduzir o cogito (e respectiva consideração) ao simbólico. Ver. Jacques (1969-1970) . com esta última variação. LACAN.

»] LACAN. p.) – 789 Néologismes de Jacques Lacan. ou.cit. 566. em particular. como acontece em Descartes. Jacques . op. Este termo significa. 237-321 364 88 . Daí que a referência.). LACAN.Autres Écrits. 360 “(…) Que o homem tenha um corpo. en tant que parlêtres. pp. Seria interessante – embora não seja este o tema do nosso trabalho – pensar as diversas consequências do “discurso da ciência”. 2002. Paris: EPEL.« Fonction et cham de la parole e du langage en psychanalyse. 461 [« Fiction et chant de la parole et du langage(…) »]. 70-71. que Lacan “atravessa” ao longo de praticamente todo o seu ensino. op. voltar a esse texto e às consequências que advêm do mesmo. para além do cómico a que reduz a fórmula cartesiana. dos “dez anos” (1953-1963) em que ele promoveu a fórmula do inconsciente estruturado como uma linguagem. etc. 70. PELISSIER . seja também uma auto-paródia do prñprio Lacan e. autrement dit qu‟il parlêtre de nature. que fale com o seu corpo . por isso. Yan (e tal. isto é. pp.. Finalmente. para a consideração da problemática do sujeito.. efectuada a travessia. que é parlêtre (fala-ser) por natureza. bem como de outros com ele relacionados. isto é. implícita. temos de haver-nos”. mesmo quando isso é deixado de parte ou não é tomado suficientemente em consideração. mas também o ser que é falado. Jacques . nos últimos anos do ensino de Lacan. Importa.. Jacques . o cogito revela o que é: pura ficção e canto da fala e da linguagem363. 361 “(…) du rapport que nous avons. Cf. não sem mal-estar. o cogito cartesiano não passa de um sonho (tornado pesadelo362). 362 tal como Lacan as põe em evidência e de que hoje começamos a sentir. É o passo que daremos em seguida.cit. enquanto seres falados e falantes. ao mesmo tempo. dizendo de outro modo. op. 363 LACAN. como nunca. ao Quixote de Cervantes. seres falados e falantes. a partir do texto inaugural que é: Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise364. p. cit.cit. Do ponto de vista do “real”. E de onde vem esse sonho senão do facto de sermos parlêtres. como resultado do “sonho” cartesiano… tornando-se pesadelo. p.Autres Écrits. in Écrits. os efeitos (poluição. au réel » Cf. Um inventário bastante exaustivo dos empregos que Lacan faz deste termo pode encontrarse em PELISSIER. soit qu‟il parle avec son corps.. o ser (o sujeito) que fala. alterações climáticas. com o qual. Lacan será levado a inventar um novo termo para falar do “sujeito do inconsciente”: parlêtre360. de uma “fantasia fundamental”.Como consequência desta impossibilidade.op. Ele remete tanto para uma revalorização do corpo (imaginário) – contra a tentativa de reduzir o sujeito ao puro significante (simbólico) – como para uma primazia dada ao “real” (do gozo) 361. se é possìvel dizê-lo assim.” [“(…) Que l‟homme ait un corps.

PARTE III O SUJEITO NO CAMPO DA FALA E DA LINGUAGEM 89 .

parece colocar “entre parêntesis” tudo o que não assente na certeza subjectiva. Eis porque Husserl. p. 38-59. ingenuamente crédula na realidade do mundo. 90 . parece que o eu penso cartesiano. 1991. 1997. ao mesmo tempo. podemos estar seguros de que este Qualquer coisa reintroduz o transcendente”. 367 Cf. p.CAPÍTULO PRIMEIRO A revolução copernicana do sujeito Pensar não é um dado evidente por si mesmo. 59). p. pp. por não conseguir manter-se inteiramente fiel ao “plano de imanência”366 por si traçado. de evitar um conjunto de “extravios sedutores” em que teria caìdo Descartes367. tal como ele é concebido pelos autores. a “viragem subjectiva” de Descartes – como lhe chama Husserl nas Meditações Cartesianas365 – tem algo de paradoxal: ao mesmo tempo que. Edmund . subverte tanto as velhas categorias da imanência e da transcendência (“cada vez que se interpreta a imanência como imanente a Qualquer coisa. Pensamos porque somos compelidos. como também as categorias de interior e exterior (“o fora não exterior e o dentro não interior”. começa por esclarecer que se trata. 4. 2ª Edição. na sua busca de uma fundamentação rigorosa da ciência. num relativo fracasso. vindo a recair numa série de “erros” (ou derivas) que não deixaram de ser profusamente criticados. Madrid: Editorial Tecnos. realiza. na medida em que “o plano de imanência” (le plan d‟immanence). obrigados a pensar. HUSSERL. ao retomar a radicalidade do “impulso cartesiano”. HUSSERL. Edmund . não estando os resultados conseguidos à altura do fim inicialmente pretendido.cit. por momentos. de certa forma. Servimo-nos aqui do termo que Deleuze e Guattari apresentam e desenvolvem em Qu‘est-ce que la Philosophie? Paris: Éditions 366 Minuit. Seja como for. O pensamento implica uma conversão do olhar que rompe com a atitude natural. Poderia questionar-se a pertinência do seu uso. nomeadamente ao converter o ego em substância 365 Cf. despojado de todo o conteúdo. algo que resulte por assim dizer de uma adequação natural às coisas. por isso. 10. O empreendimento cartesiano saldou-se.op. o pensamento resulta antes de uma coacção (Deleuze) ou de um mau encontro (Lacan) com o real. com vimos anteriormente. acaba. Deste ponto de vista. também ele. esse “plano de imanência” em que o interior e o exterior perdem o seu estatuto e evidência habituais. 47). Pelo contrário. p.Meditaciones Cartesianas.

a confusão entre o eu transcendental e o eu psicológico. visto que este foi objecto. Da mesma forma que o mundo. p. Paul .. sem. HUSSERL. mas também as que naturalizam ou objectivam o próprio sujeito (como é o caso. Edmund. que esse é apenas um aspecto preliminar ou “inferior” da questão. Ibidem. Edmund Idées Directrices Pour une Phénoménologie. p. mostrando.op.“Introduction à Ideen I de E. Se bem que esta “redução” seja apenas uma das faces da moeda da intencionalidade. Husserl”. RICOEUR. com efeito. a “fenomenologia transcendental” representa uma das tentativas mais sistemáticas e consequentes de constituir uma “ciência do sujeito” sem que tal implique uma objectivação do mesmo. por exemplo. no pai do “realismo transcendental”369. HUSSERL. de uma “redução”. em seguida. Deste ponto de vista. da psicologia científica)373. Porém. pp. Cf. restaurar o carácter radical do projecto encetado por Descartes. segundo Husserl. uma certa dessubjectivação do sujeito. 1950. HUSSERL. Não se trata de um “solipsismo” psicológico. Edmund. também o eu (psicolñgico) é objecto de uma “suspensão”. o eu psicológico. p. Segundo ele. in HUSSERL. parece que estamos a cair num novo “extravio” . implica. enquanto resto de uma operação de redução371. Paris: Éditions Gallimard. a “constituição” (Cf. O eu transcendental. cair na tentação realista e substancialista cartesianas. mas de um “solipsismo transcendental”. Ibidem. 368 Cf. Edmund . a redução ao ego transcendental só na aparência conduz a uma ciência definitivamente solipsista. 34. 43. 369 370 371 na introdução a Ideen I . ao mesmo tempo. paradoxalmente. XI-XXXIX). p. É o preço de uma ciência que se pretende “absolutamente subjectiva”372.que importa evitar. ou melhor. Husserl começa por aceitar o reparo. Cf. isto é. A colocação do mundo “entre parêntesis”. ao colocar o mundo “entre parêntesis” e “reduzir”. não só as que têm por objecto o mundo natural. 46. Ibidem.o “solipsismo” . 43. distinguindo-se das ciências objectivas. sendo a outra. cit. Ibidem. assim. pp. como mostrou Paul Ricoeur. graças à “suspensão do juìzo” (èpokhé) acerca da sua existência e a concomitante “redução fenomenolñgica” pretendem. 34. como lhe chama Husserl.pensante (substantia cogitans)368. Uma outra tentação que Husserl se propõe denunciar é o psicologismo370. 372 Cf. o que o converte. como vimos. 373 91 . Cf. do eu psicológico. ao mesmo tempo. 36.

Jacques (19561957) . que ele não deixa. HUSSERL. recuos e impasses. quando se poderia apelidar o seu procedimento de “metafìsico. Além disso. 375 De tal forma é importante para Husserl denunciar (e evitar) esta deriva metafísica.cit.. 119-196). procurando evitar. por assim dizer. Paris : Éditions du Seuil. se descobre. Tal como Lacan. instaurando. (Cf. Mesmo se Husserl emprega geralmente o termo eu (ego) tanto para o eu psicológico como transcendental. Antes de mais. nota-se em ambos uma idêntica preocupação em estabelecer uma diferença. na relação do sujeito com o Outro377. Edmund . implica. HUSSERL. HUSSERL. 241. a denúncia. nomeadamente. Cf.op.op.op. LACAN. 181. por meio da intencionalidade. uma verdadeira divisão na esfera subjectiva. entre o eu psicológico e o sujeito. quando este parecia definitivamente superado e improdutivo.. p. o procedimento husserliano confina com o de Lacan. A quinta meditação é dedicada integralmente ao problema da intersubjectividade. os seus os erros. Por conseguinte. sem cair nos mesmos erros. p. “A dimensão original de cada sujeito é sempre correlativa da realidade da perspectiva intersubjectiva (…)” [“La dimension 377 originale de chaque sujet est toujours corrélative de la réalité de la perspective intersubjective (…) »] Cf.39. Livre IV. 1994. de estabelecer uma nìtida diferença entre a sua “metafìsica” (no que esta diz respeito aos conhecimentos últimos do ser) de “toda a aventura metafìsica “ e respectivos “excessos especulativos”. Edmund . crucial e decisiva. p. a presença do outro. pp.Le Séminaire. Retornar a Descartes. no coração mesmo do sujeito transcendental. tal como em Lacan.visto que. cit. *** Em muitos aspectos. Ao mesmo tempo. é mais o estilo376 do gesto cartesiano o que importa a ambos do que propriamente o conteúdo (ou os desenvolvimentos geralmente problemáticos ou inviáveis) dos respectivos enunciados. 92 . La relation D‘objet. é clara a sua intenção de demarcar o ego transcendental do ego psicológico. a problemática do sujeito desemboca na intersubjectividade. ao mesmo tempo. pela decisão de retornar a Descartes.. cit. 376 Cf. op. Edmund . p. isto é. das derivas substancialista e metafísica375 em que aquele teria caído. cit. trata-se de retomar o “impulso cartesiano”. em ambos. o que conduz a uma “fenomenologia da intersubjectividade transcendental”374. Porém – e aqui começam as divergências – o problema é diferente em ambos os casos: enquanto Husserl dedica toda a sua análise ao problema da constituição do outro (concebido como alter ego) a partir 374 Cf. 44.

1988. 378 Veremos depois. da relação (ou alienação) imaginária com o semelhante.) já existe. por meio de setas orientadas.. LACAN. 381 93 . op. Jacques .distingue-se claramente do eu (moi). costumes. por sua vez. p. leis.como resultado da relação simbólica com o Outro (Autre) . como o carácter primordial do Outro tem igualmente algo de problemático. como é que este advém ou é constituído a partir do lugar do Outro como tal379. 339). Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. como um dado ou um lugar primordial378. Este esquema mostra claramente. « Son ineffable et stupide existence » Cf. ROCHA. 284. 380 Cf. Em 1955. que Lacan se aproxima do estruturalismo e se afasta da fenomenologia. como veremos. a resposta vem sob a forma de um esquema. para se constituir como tal. o que faz problema é o próprio sujeito. por exemplo. que o sujeito (S).do carácter apodíctico do sujeito (o ego transcendental). 549. op. no Outro. Ele é um produto ou um efeito desta relação. neste caso. etc. É neste sentido. pois este pré-existe ao sujeito. por isso. o tema da consciência produtiva ou constitutiva (Cf. por assim dizer.Le Séminaire. enquanto o estruturalismo se interessa sobretudo pelas estruturas. não é tanto o Outro. Não é constituinte do outro. o sujeito (S) . Da mesma forma. no terceiro capítulo desta parte III. ou seja. num mundo onde este (com as suas regras. para além da sua “estúpida e inefável existência” (assinalada no esquema pelo tracejado)381 está numa relação de dependência em relação ao Outro simbólico (Autre). p. Problemática do Estruturalismo. LACAN. Lacan responde a esta questão de diversas maneiras e em diferentes momentos. Acílio da Silva Estanqueiro. resultante. na medida em que esta 379 está mais interessada em atingir o pólo constitutivo da subjectividade transcendental. Écrits. na medida em que o ser humano nasce. O que faz problema. mas constituído por ele e a partir dele. em Lacan o que faz problema é a constituição do sujeito (e também do eu) a partir da alteridade (quer esta seja concebida num sentido imaginário ou simbólico). p. Livre II.cit. cuja denominação é a primeira letra do seu próprio nome: o esquema L380.. abandonando.cit. o pequeno “outro” (autre) do esquema. Jacques.

no seguimento de Freud. p. p. ele tem de ser situado do lado do Outro e não do sujeito. por exemplo. compreende pela primeira vez.” LACAN. op. Jacques . Mais do que um outro sujeito. o sentido último de umas tesouras. mas antes do Outro. 384 Cf. onde Husserl acredita num fundamental acordo transcendental entre o sujeito e o objecto. Não deixa de ser interessante. Por consequência. Onde Husserl realça o papel do olhar. as tesouras como tais. ou do ser falante.. Cf. Sendo assim. Será que o menino entende o “sentido” das tesouras porque vê a prñpria coisa na sua “essência” (visual) ou porque aprende a usar (ou para que serve) uma tesoura? Seja como for. ao olhar (do espírito)385. o privilégio é dado à visão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. o que caracteriza fundamentalmente a intersubjectividade é que o sujeito pode mentir383. 20.Em qualquer dos casos. Aliás. HUSSERL. “O menino que já vê 385 386 coisas. naturalmente ambígua. em detrimento do “significante” ou do contexto de uso. Ibidem. mas que faz parte da condição do sujeito. Se faz sentido falar em “transcendental” em Lacan. em Lacan o primado reside na fala e na linguagem. Eis o que constitui verdadeiramente a “primeira mentira” (proton pseudos) que Freud reservava à histeria.Le Séminaire. se bem que purificado386. como “condição de possibilidade”. 1985. com o qual o primeiro poderia relacionar-se intersubjectivamente.” Seria talvez preciso confrontar esta perspectiva do “sentido” com aquela que alguns filñsofos da linguagem. tomamo-lo aqui no sentido original. Edmund . Lacan afirma. Livre II. 385. o carácter uno. autónomo e constitutivo (“transcendental”) não está do lado do sujeito.. em particular Wittgenstein. como tal. Poder mentir significa ser habitado pela fala e pela linguagem. digamos. e desde então verá sem dificuldade. kantiano.Crítica da Razão Pura.cit. que o “sujeito está 382 Se bem que o uso que é feito do termo por um e outro não seja absolutamente coincidente. 17. É talvez um desejo de “ir às prñprias coisas” que está na base da desconfiança de Husserl relativamente à linguagem comum. Immanuel . 383 “(…) Ce qui caractérise l‟intersubjectivité. este exemplo mostra o privilégio que é dado por Husserl ao “olhar”. 94 . ao primeiro olhar. o Outro é o lugar da fala e da linguagem. em Kant e Husserl382. Cf. fluida e plena de segundos sentidos384. Lacan afirma a primazia do significante. à savoir que le sujet peut nous mentir. um exemplo dado por Husserl nas Meditações Cartesianas. Pelo contrário. É esta que torna possível tanto a verdade como a mentira.cit. desenvolveram. KANT. na medida em que as palavras não são (irremediavelmente) as prñprias coisas. como diz Lacan no Seminário II.op. p. contrariamente ao que aconteceu. a este propósito.

quer este seja concebido como sujeito da certeza (Descartes). 95 . Até que ponto isto implica uma certa “revolução copernicana” do sujeito.. Cf. Evidentemente. op. mas antes no acordo entre o sujeito e o objecto. en exclusion interne à son objet »]. mas também da ética ou estética.cit. 387 LACAN.Écrits. A hipótese de Kant é que o problema em causa. o exemplo de Kant. a “revolução copernicana” por si poposta.Crítica da Razão Pura. se resolveriam (ou dissolveriam) mais facilmente. de ora em diante. *** Falar em “revolução copernicana” do sujeito. si l‟on peut dire. evidente. essencialmente. Jacques . pp. se trata de não objectivar o outro sujeito. é a pergunta que fica. de uma adequação entre o pensamento e a coisa. esta questão mereceria um outro desenvolvimento que está fora do âmbito do nosso trabalho. E não falamos apenas da vertente epistemológica do problema. implica uma reformulação do problema. na constituição do outro (Cf. Meditações Cartesianas. Tal implica a possibilidade de um conhecimento a priori desses objectos. se torna definitivamente problemática389.. em aberto. por Descartes (pois foi este um dos primeiros a substituir o velho problema da adequação pelo problema da certeza subjectiva) e prolongado. ao mesmo tempo que a coisa (Das Ding). consistiu. não é.cit. De uma forma geral. bem como os problemas tradicionais da metafísica. como condição de possibilidade (Kant) ou como eu transcendental (Husserl). capí- tulo V). Immanuel . em Husserl. passa a colocar-se da seguinte maneira: como é que o sujeito pensa. anunciado. num deslocamento (ou reformulação) do problema do conhecimento388: já não se trata. de modo a que a questão. até certo ponto. por exemplo. de todo. Se tomarmos. KANT. a título paradigmático. conhece ou constitui o objecto390. 390 A questão de Husserl é um pouco mais complexa. embora com o risco da generalização. por mais tentador que se afigure. admitindo que os objectos deveriam regular-se pela nossa capacidade de conhecimento e não o inverso. p. sem que tal signifique uma recaìda no “realismo transcendental”. visto que. 19-20. poderíamos afirmar que o grande impulso da “modernidade” consistiu neste recentramento do mundo em torno do sujeito. op.numa exclusão interna ao seu objecto387”. 861 [« Le sujet est. com as devidas ressalvas. 1985. para já. Prefácio da segunda edição 388 389 (1787). como acontecera até aí. distinta daqueles. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. O gesto kantiano.

foi justamente à chamada revolução copernicana que Freud comparou a sua descoberta (…)”393. ainda. ao lado de Freud: “Com efeito. mas com Kepler. no fim de contas. A verdadeira “viragem” (tournant) dá-se. dans la subversion. antes. como acontecia na modernidade. à l‟articulation canonique.. p. Jacques . a certa altura. é deslocalizado para o Outro (Autre). neste aspecto. op. tanto em relação a si mesmo (moi) como ao semelhante (autre). são noções suplementares então necessárias para manter o princìpio do descentramento do sujeito” [“Ce que Freud à introduit à 1920.Écrits. Este é apenas um exemplo de uma ideia constantemente reafirmada por Lacan.Autres Écrits. fê-lo com base numa concepção arcaica da forma perfeita (o cìrculo). p. 20. a subversão lacaniana do sujeito não é “copernicana”. uma metáfora grosseira. O que não deixa.Autres Écrits. Copérnico permaneceu ptolomaico. de l‟ellipse en occasion.. reproduzido mais atrás. Le Séminaire. op. j‟y insiste.Deste ponto de vista. op. LACAN. trata-se. Jacques – op. no fundo. 262. la 393 394 395 seule digne de ce nom. LACAN. isto é. É isto o que permite a Lacan dizer que “a revolução copernicana é. uma vez que este efectua a passagem do imaginário da forma dita perfeita (o círculo) para a elipse395. Jacques. Jacques . não com Copérnico.cit. Jacques .. a questão não é completamente ociosa. p. em diferentes momentos e lugares do seu ensino. ce sont les notions supplémentaires alors nécessaires pour mantenir le principe du décentremente du sujet”] LACAN.cit. se podemos dizer assim. » 96 . op. Segundo Lacan. p. a perguntar: “o que há de revolucionário no recentramento em torno do sol do mundo solar?”394 De certa forma. 516. sem ter posto verdadeiramente em questão a ideia mesma de centro. uma vez que. alinhando.cit. 420. p. como se vê pelo esquema L. O “coração do ser” do sujeito.cit.. Cf. de constituir um certo paradoxo. Na verdade. segundo Lacan. a verdadeira 391 “O que Freud introduziu em 1920. que constitue le passage (…) de l‟imaginaire de la forme dite parfaite comme étant celle du cercle. por meio deste giro. não se trata de recentrar o mundo em torno do sujeito. en termes mathématiques. LACAN. ao recentrar o mundo em torno do sol. Com efeito. Uma outra questão. 431 : « Le tournant véritable est dû à Kepler et. Copérnico ter-se-ia limitado a recentrar o movimento da terra em torno do sol. o que levou Lacan. porém. consistiria em saber se o próprio Copérnico foi (ou até que ponto foi) copernicano.cit. Livre II.. Lacan não deixa de comparar a subversão do sujeito que ele empreende com a revolução copernicana.”392 Ao mesmo tempo. 392 LACAN. o seu reflexo especular391. Por conseguinte. de descentrar (ou excentrar) o próprio sujeito.

Eis o que permite dar um outro relevo à frase de Lacan: “o sujeito está numa exclusão interna ao seu objecto”402.cit. expressamente. Jacques. consciente e autónomo400. sem cair no realismo ingénuo ou transcendental. » 401 As diversas incursões lacanianas no domínio da Topologia visam.”[“Je voudrais qu‟on sache que ce texte ne prétend pas rendre compte de la „révolution copernicienne‟ (…) mais l‟usage…mythique qui en est fait.cit. c‟est que la révolution copernicienne fait métaphore appropriée au-delà de ce dont Freud la commente (…) »] LACAN. p. op. decorreu. 429. a partir da esfera imanente do sujeito transcendental (concebido como mónada). como em Husserl.. Jacques. em particular a Freud. Par Freud notamment. Sendo assim. Cf. que Lacan continue a manter. 97 . p. op. mas antes em mostrar que a própria ideia de esfera (do sujeito) deve ceder o lugar a uma outra topologia (“asférica”. LACAN. 396 Cf. »]. Jacques . dans le recours à Copernic allégorise de la destitution d‟un centre au profit d‟un autre. 421 : « O que Freud.Autres Écrits. à son dire exprès. Isto parece-nos essencial. (…) ».” [“Ce que Freud. op. 399 “O interessante é que a revolução copernicana serve de metáfora apropriada para além daquilo pelo qual Freud a comenta (…)”[“Le piquant. de alegoria (e ocasião) para questionar toda a ideia de centro.Autres Écrits. op.cit. da necessidade de rebaixar a soberba ligada a todo o monocentrismo. um outro nome da revolução freudiana. de saber como é possível. 420 : « O senhor diz que a descoberta do inconsciente conduz a uma segunda 397 revolução copernicana. respectivamente. Autres Écrits. LACAN. p. »] 398 “Gostaria que se soubesse que este texto não pretende explicar a „revolução copernicana‟ (…). na verdade. no sentido em que esta implica um descentramento ou uma “destituição subjectiva” do sujeito. a referência a Copérnico?397 Tratar-se-á de uma simples paródia398 ou metáfora399? Sem dúvida. Écrits. pois não se trata. Nomeadamente por Freud. 421.. mas o uso… mìtico que é feito dela. assim. LACAN. à elipse ou à “asfera”396.cit. Jacques . alegorizou no recurso a Copérnico a propó- sito da destituição de um centro em benefício de um outro. LACAN. para Lacan.. p. op. nomeadamente no que respeita ao “eu” psicolñgico. LACAN. Autres Écrits.cit.Autres Écrits. apesar de tudo. 400 Cf. Cf. entre outras.cit.cit. a seguinte finalidade: pôr em causa e destronar a geometria do círculo e a topologia da esfera. apostrophe. na esteira de Freud. op. 402 Cf. mas antes topológico: onde o círculo ou a esfera cedem lugar. uma vez que o sujeito é intimamente habitado pelo Outro (a “outra cena” do inconsciente. p. p.. na sua transcendência. de que falava Freud). Jaques . 471 : « C‟est l‟asphère. A “revolução copernicana” é. LACAN. Jacques . Jacques. por assim dizer401). à l‟écrire : l. constituir o outro (e a comunidade monádica que daí advém). 861. op..Autres Écrits.“revolução copernicana” não se dá no domìnio cosmológico. relève en fait de la nécessité d‟abaisser la superbe qui tient à tout monocentrisme.” [Vous dites que la découverte de l‟inconscient aboutit à une seconde révolution copernicienne. mas só na medida em que esta metáfora (da destituição de um centro em benefício de outro) serviu.. como entender.

ou. mas nasce por meio (ou graças) a ela. como diz Lacan. ao facto de o homem. não só ele nasce na linguagem.. como diria Heidegger. antes de mais. »] 98 . mais il naît par le langage. Jacques . antes de mais. LACAN. isto é.Mon Einseignement. op. p. por isso. Cf.cit. habitar a linguagem. nessa medida. habitado pela linguagem. É o que procuraremos acompanhar de seguida. 39: [“Ça veut dire que le langage est là avant l‟homme (…).Esta “exclusão interna” do sujeito – ou o sujeito como exclusão interna – devese. uma certa “viragem linguìstica” do problema. o homem é. na medida em que a linguagem existe antes do homem e. Lacan acaba por evidenciar sobretudo a sua voz passi- va. Isto implica deslocalizar a questão do sujeito (do “eu” imaginário para o “Outro” simbñlico) e pressupõe. 403 Comentando a frase de Heidegger de que o “homem habita a linguagem”. Non seulement l‟homme naît dans le langage (…). ser habitado por ela403.

Será o Outro um “sujeito” (o Deus de Descartes. Les Formations de L‘inconscient. na linguagem de todos os dias. o humor e o cómico. Optámos por traduzir o termo Witz por “dito espirituoso”.. parece não haver grande diferença. *** Em primeiro lugar. Jacques. com efeito. Cf. L‘Humanisme de l‘autre homme. L. Nessa medida. que o sujeito é deslocalizado para o Outro. Se habitualmente. em português. continuamos sem saber o que é o Outro. uma vez que nos parece. o correspondente mais adequa- 405 406 407 do. por exemplo. Mas como situar ou conceber o Outro? Dizer. e mesmo decisivo. LACAN. que o Outro (a “outra cena”) é o inconsciente. o “alter-ego” de Husserl.G. ele remete para uma dimensão linguística. como veremos. 1998. consagrado às “formações do inconsciente”: o dito espirituoso (Witz)406. Biblio-Essais. na análise a que Freud submete cada um destes termos. 1987. anteriormente. a que já fizemos referência mais atrás. LEVINAS. Le Séminaire. esta não deixa de constituir um aspecto relevante. Emmanuel.CAPÍTULO SEGUNDO A “viragem linguística” Dissemos. Cf. 99 . uma vez que Lacan tende a conceber o inconsciente como “discurso do Outro”404. Livre V. que é. importa distinguir o dito espirituoso407 de outros congéneres. ou o “outro homem” de Levinas405)? Vejamos a questão por meio do exemplo a que Lacan dedica as primeiras lições do Seminário V. de um modo 404 Eis o que está bem patente no esquema L. no seguimento de Freud. Le livre de Poche. quer seja de forma mais aberta e rasgada ou.F. visto que todos eles acabam por desencadeá-lo. como são. um aspecto essencial da análise a que procedem Freud e Lacan em torno do mesmo. por assim dizer. a diferença não é muito perceptível. Paris: Éditions du Seuil. Se virmos a questão do ponto de vista do riso que cada um deles provoca no espectador. visto que nos faz cair numa espécie de círculo vicioso. acaba por não ser muito esclarecedor.

in Textos Essenciais sobre Literatura. A diferença é que o humorista transforma grandes dificuldades numa pequena brincadeira de crianças. Por outro lado. p. É por isso que a capacidade humorística é um dom raro e valioso. a semana começa lindamente!”409 Não sentimos propriamente vontade de rir perante o que é dito (a não ser. Em primeiro lugar. ao local onde vai ser enforcado.. op. uma certa “grandeza de alma”410. Que tira proveito até da infelicidade. Um criminoso. pp. FREUD. não é absolutamente certo que todo o humor implique o riso. um dissabor em satisfação. 1988. com um riso amarelo) e é-nos difícil até imaginar que isso possa acontecer com a personagem em causa. “O humor”. vale a pena interrogar. Gallimard. p. tem esta saída: “pois é. Ver igualmente FREUD. Arte e Psicanálise. Mem Martins: Publicações Euro- pa-América. Sigmund . 410 Cf. FREUD. Como sabemos. dá-se o nome de “humor negro” a este tipo singular de humor. Sigmund . S/d. Temos um bom exemplo do primeiro caso no filme de Roberto Benigni: “A Vida é Bela”(La vita è bella. uma simples brincadeira de crianças ou um bom tema para uma piada411. 411 100 . Contudo. enquanto as outras pessoas. p. 400. transformam pequenas brincadeiras de crianças numa grande dor de cabeça. talvez. em geral. vejamos. a outros. Freud dá-nos um bom exemplo disso num texto dedicado ao assunto em 1927408. na medida em que é reveladora de um sujeito que não se deixa abater perante as maiores agruras da vida. FREUD. eles parecem proporcionar igualmente um certo ganho de prazer (Lustgewinn). para aquele que faz o humor.Le Mot D‘esprit et sa Relation à L‘inconscient.mais contido. 1997). Sigmund . Este filme conta a história de Guido.cit. 243-247. De qualquer modo. numa segunda-feira. 243. Como se o mundo. quer no sujeito que os produz. que parece. op. Paris. fosse. 409 Ibidem. ele parece revelar. Cf. 401.“O humor”. um judeu que é levado para um campo de concentração nazi e que tem de usar toda a sua imaginação para fazer com que o seu pequeno filho (Giosué) acredite que estão a participar num 408 Cf.Le Mot D‘esprit et sa Relation à L‘inconscient. não sendo dado a todas as pessoas. p..cit. quer no espectador ou em ambos simultaneamente. um pouco mais de perto. ao ser conduzido. 247. Senão. como diz Freud. que consegue transformar um eventual desprazer em fonte de prazer. tão perigoso. esta suposta evidência. como reconhece Freud.

400. como entender a nítida oposição que Freud estabelece entre o “pequeno eu” (narcìsico e prazenteiro) e o “enfatuado supereu” (autêntico “imperativo de gozo”. de forma desconcertante: “para lá de avião. Cf. em Las Vegas. o humor pode existir perfeitamente numa única pessoa. p. Onde há todas as razões para pensar que ele vai sucumbir. 243. Sigmund op. Cf. uma das personagens principais. nesta situação-limite. 244. assim. quando falamos de humor referimo-nos sobretudo a um certo dom ou capacidade de um determinado sujeito (como no exemplo dado por Freud) perante o qual nós somos meros espectadores. p. pp. Cf. perante a adversidade. op.“O humor”. 412 Numa passagem do filme de Clint Eastwood.cit. p.. 398-411) e aquelas que consagra ao mesmo tema em 1927 (Cf. como reagiria. FREUD. 414 Mesmo se Freud tende a situar esta satisfação do lado do princípio de prazer... não inteiramente explicitada. p. o humorista aguenta-se de pé. op. entre as notas que Freud dedica ao humor em 1905.jogo. Podemos até supor que a satisfação proporcionada pelo humor pode ser guardada para si mesmo sem que o sujeito se sinta compelido a comunicá-la a outrem417. Sigmund . O humor é. Mais do que um mero ganho de prazer413. Se não. Por conseguinte. definitivamente. ao voltar do ringue de Box. num segundo tempo (S2) que esta primeira declaração (S1) ganha sentido. assim.cit. como dirá Lacan. FREUD. 400. para cá de carro”. não permitindo que o seu “pequeno eu” reaja. Sigmund . ou apesar do desprazer (eventual) que uma determinada circunstância acarrete. Million Dollar Baby. mais tarde. a norma moral. FREUD.. rebelde e não resignado415. da coisa inominável ou do horror sem nome que lhes está reservado412. para cá de carro”. 245). 416 417 101 . para além dos limites estreitos do prazer)? É esta uma das diferenças. O humor resulta do facto de ela ter respondido à pergunta: “como é que preferes ir para Las Vegas.Le Mot D‘esprit. Além disso. sem lhe acrescentarmos realmente nada de novo416. parece-nos que grande parte do texto vai numa outra direcção. FREUD. no texto sobre o Witz. em nosso entender. p. que se revelaria fatal. 413 A tese de Freud é que o ganho de prazer humorístico provém da poupança feita no que toca ao dispêndio afectivo. todo o sentido. É sñ depois. (Cf. uma criança.. por exemplo.cit.cit.cit. feita pelo seu treinador antes da partida para o seu último combate. Recordo que este filme desemboca no difícil problema da eutanásia e no acto (ético) que suspende ou questiona. 415 Cf. de carro ou de avião?”. não se apercebendo. Sigmund .. do destino.cit. onde sofrera um acidente que a deixaria tetraplégica. op. o humor parece mostrar que há uma satisfação para além do prazer414. tem esta saìda humorìstica: “para lá de avião. op. O humor representa aqui um resto de sentido (paradoxal) no que perdeu. FREUD.op. Sigmund. FREUD.

como eu querer que Deus vele pela minha prosperidade. 109. senhor Professor. ainda que haja situações que provocam um efeito 420 cómico sem que esteja envolvida. Também rirmos. do semelhante. das relações que mantém com um rico banqueiro. a facilidade com que rimos da queda de um outro. p. Trata-se de uma personagem criada pelo escritor alemão H. como em outros exemplos422. do conhecido Gato Fedorento.Já o cómico. Les Formations de L‘inconscient. op. Livre V. 56.. o contributo freudiano sobe a questão do cómico.. Outra coisa. op. eu estava sentado ao lado de Salomon Rothschild e ele tratou-me como se eu fosse seu igual.cit. por exemplo. Em vez disso. que resulta o efeito cómico. Como se pensássemos para nós mesmos: ainda bem que foi ele que caiu (desta vez) e não eu! Isto implica um sentimento de superioridade419 da nossa parte (tu caíste e eu não!). p. vale a pena interrogar. é o dito espirituoso (Witz). en quoi cela consiste-t-il? Limitons-nous pour l‟instant à dire qu‟il est lié à une situation duelle ». Limitamo-nos aqui à situação em que o objecto do cómico é uma outra pessoa. FREUD. Hirsch-Hyacinth. aquela que ri e aquela que é objecto do riso. adultos. é um pobre homem de Hamburgo. Eis como Lacan resumia.Le Mot D‘esprit. se mesmo quando não estão envolvidas pessoas. o barão de Rothschild. as ambiguidades. Le Mot D‘esprit. Cf. Faz parte da série Meireles. de “uma situação dual”418. porém. não resistimos a con- 422 frontá-los com um exemplo mais actual. O mais famoso é. Sigmund . Heine no seu livro Quadros de Viagem (Reisebilder). p. bem diferente.cit. seguindo Freud. supostamente já não fazemos) ou dos trejeitos infantis dos próprios adultos. cauteleiro e calista. Sigmund. uma outra pessoa. no dia 11 de Dezembro de 1957. mas também uma relativa identificação com o outro que sofre a queda (poderia ter sido eu!). Jacques (1957-1958) . 393. pelo contrário. directamente. Freud dá inúmeros exemplos. Neste. a concisão no modo de dizer.cit.. de forma absolutamente familionária (Famillionär)”421.. 419 Cf. Um padre catñlico diz: “Jesus 102 . Trata-se. no fundo. FREUD.Le Mot D‘esprit. Como prova do que afirma. FREUD.Le Séminaire. ele diz o seguinte: “Tão certo. 264. Cf. Sigmund . aquele que abre a série. É por comparação que rimos e isso parece ser a alma do cómico420. sem dúvida. não é de uma certa “personificação” de animais ou objectos. Rimos por comparação entre a outra pessoa (em quem encontramos a particularidade cómica) e nós próprios. a 418 “Le comique. de seu nome. Eis o que explica. ante o poeta. por exemplo. op. dos trejeitos das crianças (porque fazem algo que nós. op. exige pelo menos duas pessoas: por exemplo.cit. há um certo jogo com as palavras. LACAN. O texto de Freud está de tal forma recheado de exemplos que seria fastidioso enumerá-los. que certo dia se vangloria. por exemplo. 421 Cf. As condensações (como em familionário).

. como tendem alguns a pensar. somos obrigados a comunicar o dito espirituoso a outrem427. como o telemóvel ou a Internet. completando-o com o seu riso e reconhecendo-o como tal. até que um Outro feche o arco.cit. um Outro. É apenas uma aproximação. No cómico. o dito espirituoso exige um terceiro elemento. op. É o domínio do imaginário426. visto que podemos gozar deste a sós onde quer que o encontremos (quem nunca deu por si a rir sozinho desta ou daquela situação?). Cristo é o Senhor!”.Le Mot D‘esprit. a quem ele é comunicado. 423 Cf. pp. Jesus Cristo é o Senhor!” Ao que o padre responde: “Jesus Cristo é o Senhor!” E o equívoco repete-se indefinidamente. mas também como satisfação ou “experimentação lúdica”. FREUD. para aquém da necessidade de comunicar. 427 Cf. Esta questão será retomada mais à frente.. Como se aquilo que se diz da obra de arte (Umberto Eco). op. Replica aquele que está à sua frente: “Perdão. contudo esta comunicação não é essencial ao cómico. que saibamos. do visível. tudo aquilo a que Freud chama “a técnica do dito espirituoso”423 –. Isto revela já uma diferença importante do dito espirituoso (witz) em relação ao cómico: enquanto no dito espirituoso prevalece a dimensão linguística425.Le mot D‘esprit. o imaginário (cómico) e o real (humor). a mímica.cit. isto é. em particular a materna (pois não há. que são as primeiras que efectivamente aprendem a brincar com as palavras. do que pode ser visto ou dado a ver. como sublinha Freud. Pelo contrário. pudesse dizer-se igualmente do dito espirituoso: este permanece aberto. piadas em esperanto ou numa outra “lìngua” artificial qualquer). Poderíamos estabelecer aqui uma distinção entre as três variedades de que temos vindo a falar com base nas três categorias 424 425 426 lacanianas: o simbólico (dito espirituoso). FREUD. diferentemente do que sucede no cómico. Ele mostra que a língua. Sigmund . 103 . que se faz ver ou que é apanhado pelo olhar. 235. FREUD. actualmente.cit. Sigmund. Cf. 56-175. e se satisfazem plenamente nesse jogo significante424. Sigmund . 263.metáfora e a metonímia. p. op. o nonsense – enfim. também pode haver comunicação – como acontece cada vez mais. graças aos novos meios tecnológicos. Por outro lado. p. O que não deixou de ser realçado por Lacan na análise que fez do mesmo nas primeiras lições do Seminário V. No cómico. há sempre algo ou alguém que é visto. fazem parte essencial deste jogo. no cómico impera a gestualidade. servindo-se do exemplo das crianças. indeciso.. não serve apenas de veìculo de comunicação. Le Mot D‘esprit.

op. através do fenómeno da interpassividade. pp. Cf. uma segunda pessoa. permitindo que esta não se confunda com um simples e puro sintoma [“(…) la sanction donnée par l‟Autre à cette création (…) distingue le trait d‟esprit du pur et simple phénomène de la création de symptôme par exemple. ele careça de um Outro para ser reconhecido e autenticado. Le comique est la relation duelle. Slavoj . Livre V. dificilmente faria rir os outros. é uma terceira pessoa. FREUD. 104 . É o Outro que torna possível. se reconhece. 263 Slavoj Zizek. op. a “ìntima exterioridade” que o habita. Sou inter-passivo por meio do riso do Outro. 429 Cf. Le Mot D‘esprit.“O sujeito interpassivo”. o dito espirituoso aproxima-se do humor. no sujeito. a diferença. p. para além do eu (imaginário). Nesse caso. 434 Cf. Mas o Outro. Daì a necessidade. as reconheça e aprove. permitir-nos-ia ainda colocar a questão de outro modo: não só o Outro ri 430 no meu lugar. de que falamos aqui. na volta. É também este aspecto que Lacan sublinha : “(…) la différence du trait d‟esprit et du comique. Jacques. essencial.. que consiste em pensar que o sujeito se preocupa sobretudo em fazer rir o Outro. como no caso do cómico. 432 É através do Outro que o sujeito. através do Outro. 139-148. qui tient en ceci que le comique est duel. fazendo-as existir como tal.. 2006. 433 Eis uma nuance relativamente ao modo habitual de colocar a questão. como vimos. Livre V. que pode existir num só.. pp. Embora sendo verdade que o Outro.cit. a título de hipótese. importa igualmente apreender uma certa contiguidade topológica entre o sujeito e o Outro. a quem é comunicado o dito espirituoso. 264. Apelando aqui a uma voz intermédia. ver igualmente. 431 Além deste aspecto. contrariamente a este. é essencial. é necessariamente uma pessoa? Aceitemos que sim. e não. do mesmo autor. Le Mot D‘esprit. só possível por ricochete. 2006. 428 Neste aspecto. Podemos até supor que alguém que risse facilmente das suas criações “espirituosas”. poderíamos dizer que o sujeito faz-se rir (ou permite-se rir) através do Outro433. nós próprios.É verdade que no cómico também podemos rir.”] Cf. de um Outro a quem ele possa comunicá-las429 e que. ao comunicá-lo a um outro. É como se a satisfação proporcionada pelo dito espirituoso fosse indirecta. Lisboa: Relñgio D‟Água. O Elogio da Intolerância.cit. Eu só adopto essa passividade de forma indirecta. a mensagem que lhe fora endereçada com o dito espirituoso. 45. Sigmund. embora. entre a activa e a passiva. Lisboa: Relñgio D‟Água.. poupa-me à fundamental passividade do meu ser. Lacan sublinha igualmente o facto de ser o Outro que sanciona a criação espirituosa. LACAN. pelo seu riso. 11-46. op. ZIZEK. é que do dito espirituoso que nos vem à ideia. objecto de comparação por meio do riso434. Le Sémaire.Le Séminaire. digamos assim430. como tal. e reenviando-lhe. A Subjectividade por Vir. pp. FREUD. et il faut qu‟il y ait le tiers Autre pour qu‟il y ait le trait d‟esprit. que garante431 o meu quinhão de prazer. porém.cit. op. Sigmund. a minha quota-parte de satisfação no dito espirituoso432. 24-25. mas. » LACAN. geralmente.cit. ao fazê-lo. onde eu não consigo rir. não conseguimos rir428. desocultar ou manifestar. o riso do Outro tem o poder de revelar. Jacques .

fundamentalmente. pp. Além disso. cit. que encontram o seu contexto propício. a maior parte dos ditos circulam anonimamente437. p. a “terceira pessoa”.. Jacques . op. O que tem piada ou despoleta o riso num determinado contexto. à questão das leituras freudiana e lacaniana do Witz. LACAN. ce qui lui donnera deux sens complètement différents”] Cf. aliás. Cf. Por conseguinte. dedicada às relações do dito espirituoso com o inconsciente. LACAN. 296. o “contexto” é indesligável de uma rede significante ou de um enquadramento simbólico. Jacques. 435 Cf.Le Mot D‘esprit. 289-322. Mesmo se Lacan não deixou de chamar a atenção para a importância do contexto: “uma palavra pode ser ligada de maneira 441 diferente em dois contextos diferentes. Há ditos espirituosos. 25. este Outro não é necessariamente. Jacques (1956-1957) . desconhecendo nós não apenas o seu autor. 105 . vale a pena considerar uma delas: o contexto438.cit. Cf. como a pessoa a quem ele primeiramente se dirigiu. FREUD. Livre IV. não é. então? De entre as várias possibilidades de resposta. 261. uma realidade comum (mesmo que inconsciente439) entre aquele que conta a piada e aquele ou aqueles que a escutam para que esta surta o seu efeito.cit. com o sublinha Lacan. 63. O que é. outras que não. Cf. Cf... La Relation D‘object. 439 Uma parte considerável do texto de Freud é. Que haja ou não realmente três pessoas não é o essencial436. neste caso. op. mas instantaneamente compreendida e identificada como uma palavra plena de sentido desde que aparece no seu contexto (…)”.cit. p. Livre V. op. op.Le Mot D‘esprit. A propósito do dito espirituoso que lhe serve de paradigma (familionário).. porém. mais à frente. Sigmund . 1994. que parece tão essencial ao dito espirituoso. LACAN. uma pessoa. o que lhe dará dois sentidos completamente diferentes” [“Un mot peu être lié de façon différente dans deux contextes différents. Acontece. que no caso do ser humano.cit. Sigmund . FREUD. Paris: Éditions du Seuil. p. “suportado por um indivìduo”435.Le Mot D‘esprit. Sigmund . 62.Le Séminaire. deixanos indiferentes noutro. 440 Voltaremos. É sobretudo a dimensão linguística do Outro que Lacan põe em relevo neste momento do seu ensino: o Outro como lugar da fala e da linguagem441. Freud escreve: “(…) Esta palavra mista é incompreen- 436 437 438 sível em si mesma. É preciso uma certa afinidade ou convergência de interesses. Le Séminaire. pois. FREUD.Porém. da fala e da linguagem440. Daí que Lacan tenha destacado e insistido no Outro sobretudo como lugar do código.op. piadas. p. remete para um qualquer que preencha as condições contextuais que desencadeiam o riso. p. O Outro.

no ensino de Lacan relativamente à concepção do Outro que importa deslindar..cit. mas também a Alteridade (ou a “exclusão interna”443) do próprio sujeito em relação a si mesmo. 861. literalmente. Ele sñ é “sujeito” (e não um mero objecto) porque recebeu. capable de tromper”] 443 Cf. se faz sentido utilizar o termo. o ser que lhe é (im)próprio. Cf. para Lacan. op. Talvez a antinomia possa resolver-se se pensarmos que estamos perante dois movimentos diferentes que importa apreender: por um lado. significa. p. de impossível de prever. Jacques . que tem o dom da fala. LACAN. por assim dizer. é por meio desta “alteridade” que o sujeito se reconhece como diferente do “eu”.. quando se trata de mostrar que o outro não é o semelhante. o riso é um dom gratuito. que não é redutìvel a uma relação ou projecção dual. Écrits. enquanto lugar. p. A “revolução copernicana” de Lacan.Não obstante.cit. 237-322. op. porém. a tendência é pensar o Outro como um sujeito. O Outro é essencialmente. op. 106 . mais. alguém que foi apanhado na rede da linguagem. um outro-eu. LACAN. o lugar da palavra” [“L‟Autre n‟est pas simplement l‟autre 444 qui est là. un sujet par excellence. le lieu de la parole”]. pp. p. instaurando neste uma fundamental heteronomia e ex-centricidade. Eis como Lacan se demarca de toda a concepção “moderna” da subjectividade. da fala. Écrits. um sujeito por excelência.cit. e mesmo um sujeito radical. assiste-se a uma certa subjectivação do Outro. como acontece no exemplo do witz: não se pode forçar alguém a rir. o campo e a função da fala e da linguagem445. O riso do outro revela não apenas a sua Alteridade (o seu carácter imprevisível).cit. 445 Cf. Livre IV. « O Outro não é simplesmente o outro que está aì. littéralement. de todo o conteúdo “subjectivo”444. na medida em que ele recebe do Outro o ser e o discurso 442 Cf. que ele se constitui. especular442. Lacan. cada vez mais. capaz de enganar” [« (…) le grand Autre. 12 : « (…) O grande Outro. a esvaziar o Outro. há uma espécie de antinomia. o sujeito. “que pode mentir”. 80. autónoma e fundadora. de controlar. enquanto una. Daí que Lacan tenda. Jacques. É nesse lugar (e desse lugar). por esta altura. Jacques. enquanto sujeito (e não meramente objecto) teria algo de imprevisível. mas. ou seja.“Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse”. LACAN. esta “dessubjectivação” do sujeito. Le Séminaire.. enquanto ele é um outro sujeito. ao mesmo tempo que a tendência maior parece ir no sentido inverso – o de uma completa e radical dessubjectivação – ao conceber o Outro essencialmente como um lugar. op. da fala e da linguagem. en tant qu‟il est un autre sujet. o Outro sujeito é. antes de mais. O Outro. Por um lado. Ao mesmo tempo.. antes de mais. O riso do Outro divide.

LACAN. “linguìstica” e “estrutural”. a expressão já está em circulação. passando a ocupar o lugar cimeiro. e sobretudo. Le Séminaire. »] Cf. RORTY. »] Cf. Le Séminaire. 372. que lhe marca o destino446. Second. salientando cada vez mais a sua dimensão “maiúscula” (A). não deixa de ter implicações a vários níveis: tanto na releitura que é feita da própria história da filosofia. É também neste sentido que é possìvel dizer que o sujeito está numa “exclusão interna”. mais rien dans notre propre développement ne peut se réali- ser. bem como a mensagem. por assim dizer.Textes Choisis. Esta fórmula vai sendo retomada ao longo dos primeiros seminários de Lacan. op. Richard.) 450 Mesmo se a linguagem sempre esteve no horizonte das preocupações filosóficas. Les Écrits Techniques de Freud. Livre IV. 182.o inconsciente é o discurso do outro” [“(…) la formule que je vous donne toujours - l‘inconscient est le discours de l‘autre”]. a “filosofia da linguagem” propriamente dita. Livre IV. relativamente ao “filosofar” propriamente dito. p. Éric.. numa acepção mais restrita e rigorosa. p. sobretudo. quer se acredite ou não que é possível resolver (ou dissolver) esses problemas recorrendo a uma análise da linguagem. de tal modo que a linguagem deixa de ser apenas uma música de fundo. 1998. LACAN (1953-1954). op. Lacan. Pascal.(inconsciente) que o animam. *** Mesmo se não é fácil dar uma definição do termo “linguistic turn”449. 448 “Cet Autre est d‟ores et déjà en nous sous la forme de l‟inconscient. p. É neste sentido preciso que é legítimo aplicar. Tal mudança. Paris: Flammarion. cifrada. Jacques. em meados dos anos sessenta. o termo “viragem linguìstica” (linguistic turn). 138. mas também. a expressão “linguistic turn” acaba por ser outro nome para a “filosofia da linguagem”450. quanto no modo de fazer filosofia e. enlarged. O Outro como Alteridade essencial ao prñprio sujeito (inconsciente). Chicago: University of Chicago Press. La Philosophie du Langage.. Le Langage . Paris: Éditions du Seuil (Points-Essais). também a Lacan.cit. cit. Le Séminaire. Livre I. The Linguistic Turn. 1997. 107 . No fim de contas. dominante no mundo anglo-saxñnico” que implica uma “mudança de perspectiva” com diversas implicações tanto a nìvel teñrico como prático (Cf. 449 Quando. GRILLO. Cf. 5. LUDWIG. edition l992. 1997). 447 “(…) A fñrmula que eu sempre vos dou . como “outro absoluto. si ce n‟est à travers une constellation qui implique l‟Autre absolu comme siège de la parole. na convicção de que muitos dos problemas filosñficos tradicionais têm uma natureza “linguìstica”. Richard Rorty intitula um conjunto de ensaios “Linguistic Turn”. Paris: Éditions du Seuil. segundo Lacan: o discurso do Outro447. embora a partir daì ela passe a ser usada com mais frequência e de um modo mais abrangente ” (Cf. 1967. desde Platão e Aristóteles até aos dias de hoje (Cf. É isso o inconsciente. p. mas fundamentalmente em relação a si mesmo. designa uma “corrente maior da filosofia do nosso século. como sede da palavra”448. não sñ em relação ao objecto. 446 “O sujeito recebe do Outro a sua prñpria mensagem de forma invertida” [“(…) la structure de la parole implique dans l‟Autre que le sujet reçoive son propre message sous une forme inversé. a expressão aponta para uma certa mudança de paradigma no campo da filosofia.

Uma inventariação completa dos autores que contribuíram. 2003-204. cit.p. Lisboa: Publicações Dom Quixote. e haveria que acrescentar muitos outros autores: Peirce. e paralelamente. 31-36. De tal forma que. in Dicionário das Ciências da Linguagem. 1969. Ferdinad. que levarão à constituição de uma ciência verdadeiramente nova. 452 Coube a Charles Morris a distinção entre estas três dimensões (sintáctica. não é apenas a filosofia que provoca determinados efeitos no campo “linguìstico”. Tzvetan. isto é. 108 . Cours de Linguistique Générale. Problèmes de Linguistique Générale. Richard Rorty afirmava que existem duas origens para a disciplina actualmente chamada “filosofia da linguagem”: uma tendo a ver com o conjunto de problemas apontados por Frege e discutidos. visando a relação dos signos com os utentes linguísticos (Cf. 453 Num pequeno artigo dedicado à “filosofia da linguagem”. Paris: Gallimard. Richard. atinente à relação intralinguística dos signos entre si. a partir de certa altura. Lisboa: Publicações Dom Quixote. o que está fundamentalmente em causa na “filosofia da linguagem” é um problema de “significância”. 119-123. sublinham que E. para a implementação e desenvolvimento da “filosofia da linguagem” excede. Cf. e 451 Em 1979. op. ou de como o sujeito conhece ou constrói o objecto (problema da modernidade por excelência).Apesar dos inúmeros. 1988. semântica e pragmática) da linguagem: a sintaxe. o âmbito do nosso trabalho. Russel e toda uma série de nomes que desenvolveram as suas reflexões nomeadamente a partir do “segundo Wittgenstein” e das suas Philosophical Investigations (em particular toda a corrente da chamada “filosofia analìtica”. e nem sempre congruentes. É evidente que nem todos os filósofos estariam de acordo com uma definição tão estrita. 1980. nomeadamente. por exemplo.. ao ser usada por diversos “utentes linguìsticos”452. Ver igualmente BENVENISTE. « Saussurianimo ». Se bem que esta revolução filosñfica aconteça “fora” do âmbito propriamente linguístico. à significação ou à referência) ou até mesmo pragmática (isto é. a segunda tendo a ver com a tentativa de produzir um empirismo não psicológico mediante a reformulação de questões filosóficas em termos de questões de lógica (Cf. TODO- ROV. Foundations of the Theory of Signs (1938) I. desta vez científica. Chicago (1938-1946)]. por Wittgenstein.. a semântica. 2 [in International Encyclopedy of Unified Science. pp. das investigações de Ferdinand de Saussure 454. a par de uma mudança de perspectiva. 1982. de um modo ou de outro. 454 Cf. A Filosofia e o Espelho da natureza. Além disso. DUCROT. ela implica. Tzvetan. igualmente. naturalmente. p. como Austin ou Searle. Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov. pp. através. Paris : Payot. Charles. uma reformulação do problema: em vez da tradicional questão de saber como é possível que o intelecto se adeque à coisa. ela não deixa de surtir os seus efeitos nesse campo453. Émile. Ver. DUCROT. Oswald. mas também esta que surte os seus efeitos na investigação filosñfica. respeitante à relação dos signos com os factos extralinguísticos e a pragmática. saber como é que os signos significam algo. significados da expressão “filosofia da linguagem” (remetendo esta para vários autores e múltiplas direcções451). Benveniste foi um dos primeiros linguistas (muitos outros se seguiriam) a interessar-se pelas investigações da filosofia analítica. como numa dimensão semântica (relativa ao significado. por exemplo). no campo especificamente linguístico. SAUSSURE. respeitante aos diversos contextos de uso em que uma dada expressão ganha sentido). Oswald. há uma outra revolução. tanto numa dimensão lógico-sintáctica (de acordo com as regras lógico-gramaticais). Dicionário das Ciências da Linguagem. RORTY. MORRIS. no Tractatus e por Carnap em Meaning and Neccessity. em especial a 5ª parte. TODOROV.

Acìlio da Silva. lévistraussiano ou mesmo jakobsoniano458. ao libertar a linguagem do paradigma “representativo”. não podia ser indiferente a toda esta “viragem linguìstica”. 109 . Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. pretende dar um novo alento. de tal modo que. de Saussure. saussuriano. op. com os restantes elementos do sistema457. a “obra de Lévi-Strauss (…) singulariza o estruturalismo” (Cf. Acílio Estanqueiro Rocha. Lévi-Strauss (através da primazia dada à(s) estrutura(s)) e R. ele não se limita a “copiar” estas influências. desde 1953459. ou seja. Le Séminaire. 458 De entre as muitas influências de Lacan. de forma original. da obra de Freud. 459 Cf. Jakobson (com particular realce para a distinção entre a metáfora e a metonímia). 7. Se é verdade que Lévi-Staruss é o “pai do estruturalismo”. inspiradora. desde o início da sua monumental investigação consagrada ao estruturalismo. instituindo-a como “sistema”. Sobre esta questão. em particular no domínio das ciências humanas. p.. poderíamos destacar esta tríade composta por Saussure (em particular através da distin- ção entre significante e significado). Ao mesmo tempo. Problemática do Estruturalismo. para toda uma série diversificada de estudos e investigações. Eis o que dá sentido ao famigerado “retorno a Freud”. Livre I. Durante toda uma época. Lacan. Um exemplo paradigmático é Lévi-Strauss e o “estruturalismo” que a sua obra singulariza455. ver. como um determinado tipo de “organização” em que os elementos linguìsticos não têm qualquer realidade independentemente da sua relação com o todo. Jacques.cit. 456 Cf. naturalmente. também é indiscutìvel que “o seu antepassado é F. a certa altura. o fundador da linguìstica estrutural. ano após ano. quer elas venham do domìnio da filosofia ou da ciência do seu tempo. isto é. igualmente. Lacan vai retomar cada um destes contributos de um modo original. cit. ESTANQUEIRO ROCHA. 1988. em particular as páginas 457 22-38. mas retoma-as à sua maneira. palavra de ordem de uma certa época do ensino de Lacan: “o sentido de um 455 Como faz notar Acílio da Silva Estanqueiro Rocha. como homem profundamente atento ao que de mais inovador estava a acontecer na sua época. “a linguìstica” torna-se numa espécie de ciência rainha. porém.não só. Problemática do estruturalismo. op. que viria a constituir o seu modelo metodolñgico”456. já é difícil destrinçar o que é propriamente lacaniano. tendo como marca distintiva esse pendor “linguìstico”. Isto não deixa de ter profundas implicações no campo propriamente psicanalítico a que Lacan. Ibidem. A começar pela leitura que Lacan vai fazendo. LACAN. p. 9. como psicanalista que é. na esteira de Freud.

uma das caracterìsticas daquilo que se chama a filosofia 460 LACAN. ainda que vá sofrendo ligeiras alterações (que. Para Lacan. LACAN. Tal distinção não teria sido possível sem que a linguagem tivesse sido elevada (como foi durante uma época que parece agora começar a findar464) ao primeiro plano. Les Psychoses. LACAN. Jacques. p. LACAN. no conjun- 461 to. a identificar-se com o “eu da consciência”. em relação a Husserl.. 464 As investigações no domìnio das “neurociências”. ou seja. mas sim que é linguagem. quer apenas dizer. op. Paris: Éditions du Seuil. há que empreender um “retorno a Freud”. Jacques. já esboça uma tal distinção. 110 . 2005. mesmo se na maior parte do tempo de forma simplificada. mais différence radicale”]. Livre II. como veremos mais à frente). Le Séminaire. ela é retomada por diversas vezes.. A partir do Séminário III (Cf. permaneciam indistintas: a função imaginária do “eu”462 e a função simbólica (do sujeito)463. Mon Enseignement. LACAN. 50. 463 A um certo nìvel. Écrits. il n‟y a seulement dissymétrie absolue.”] Cf. 462 “O eu. 405. nomeadamente a propósito de Damásio. uma vez que o sujeito continua.. De uma forma geral. “La chose freudienne ou sens du retour à Freud en psychanalyse”. Le Séminaire. de outra maneira.retorno a Freud é um retorno ao sentido de Freud”460. está estruturada como tal. ela não é levada até às últimas consequências. Mas o que é a linguagem? *** Colocar a questão deste modo. mais atrás. se torna absolutamente crucial entre dois tipos de funções que. Cf. no entanto. resumindo toda esta problemática.cit. nesta altura. Jacques. o seguinte: para restituir o “sentido” da descoberta freudiana do inconsciente. Jacques (1955-1956). de ter efeitos na forma como o sujeito com que lida a psicanálise é encarado. dão uma grande alteração. Como dizia Lacan em 1967. Ora. Livre II. Sem isso. 78. a “modernidade”. est une fonction imaginaire”]. naturalmente. o sujeito não é o eu. Não que o inconsciente seja a linguagem (pois é um dos seus efeitos e não a sua causa). mas “diferença radical” [“entre le sujet le l‟inconscient et l‟organisation du moi. op. mais ou menos enigmática e circular. parece ter um ar demasiado “metafìsico”. 42. O primeiro deles é a distinção que. Cf. Esta é uma fórmula que percorre praticamente todo o ensino de Lacan. Eis o que é condensado na fórmula: o inconsciente é estruturado como uma linguagem461. entre um e outro existe não apenas “ dissimetria”. de um modo ou de outro. “se o inconsciente não fosse linguagem. de ora em diante. como vimos na primeira parte do nosso trabalho. 1981). op. apoiando-se nas descobertas da linguística moderna. como vimos. p. no seu aspecto mais essencial. il n‟y aurait pas d‟inconscient au sens freudien. É de uma tal confusão “mental” que Lacan espera libertar o sujeito graças aos instrumentos fornecidos pela linguìstica moderna. Esta fórmula. parecem relegar para segundo plano a função e a importância da linguagem. perguntando o que é a linguagem. não haveria inconsciente no sentido freudiano” [“(…) si l‟inconscient n‟était pas langage. p. p.cit. pretende sobretudo destacar a importância da “linguagem” para a consideração do inconsciente e respectivas “formações”. Daì que ela apareça muitas vezes sob uma forma simplificada em que é estabelecida uma certa equivalência entre o inconsciente e a linguagem. é uma função imaginária” [“Le moi dans son aspect le plus essentiel. o legado freudiano facilmente poderá resvalar para todo o tipo de reducionismos.cit. quando Lacan a retoma. Uma tal “viragem linguìstica” não deixa. Paris: Seuil.

John. para o que aqui nos interessa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. no código. a função poética (poetic). em particular Jakobson. a perspectiva adoptada é agora fundamentalmente “pragmática”466. ver MURPHY. Tomo 1. insere-se dentro desta linha. os trabalhos de Roman Jakobson em torno das diversas “funções”469 da linguagem470. pp. Charles. por exemplo. por exemplo) funciona ou é usado e não o que ele é na sua essência. o princípio geral mantém-se. Para outros desenvolvimentos. 470 Cf. como um dos seus paradigmas. concebida não como “metafìsica”. que nasce nos Estados Unidos. adquire para muitos linguistas. de figura: já não se trata de colocar as questões em termos de “essência” (metafìsica). Lisboa: INCM. 1998. mas de “modo de funcionamento”. está centrada num determinado elemento do processo de comunica- 469 ção: a função expressiva ou emotiva (emotive). Cada uma das « funções » da linguagem. O Pragmatismo. PEIRCE. JAKOBSON. Essais de Linguistique Générale. na mensagem. Investigações Filosóficas. Cf WITTGENSTEIN. Roman. inclusivamente. 1993. Explicitar essa lógica e esse modo de funcionamento é a tarefa que compete.da linguagem é a desconfiança em relação aos problemas metafísicos ou ao estilo metafísico de colocar os problemas. 467 A relevância que o estudo das “afasias”. 111 . esta concepção da filosofia como “actividade” mantém-se constante ao longo dos dois períodos. 466 O “pragmatismo” é uma corrente vasta. a função fática (phatic). 1987. mas como “actividade”465. DUCROT. acreditava. 123-140). à filosofia. in Essais de linguistique générale. Oswald. segundo Jakobson. e que nem sempre tem um desenvolvimento unívoco. Cf. No campo da linguística propriamente dita. Tratado Lógico-Filosófico. 43-49). a função conativa (connative) no destinatário ou receptor da mensagem. “O que é o Pragmatismo”. TODOROV. JAKOBSON. no entanto. no emissor. a função metalinguística (metalinguistic). por isso. a questão poderia ser reformulada da seguinte maneira: não apenas como é que a linguagem (os elementos e mecanismos que nela intervêm) funcionam ou disfuncionam467. que estes problemas resultam de uma má compreensão da lógica ou do modo de funcionamento da linguagem. por último.. op. Paris : Minuit. no meio que estabelece o contacto. mas principalmente quais as funções desempenhadas por esses elementos e mecanismos468. no referente. Tzvetan. “Funcionalismo”. 465 Apesar de haver um “primeiro” e um “segundo” Wittgenstein. por excelência. Roman. respectivamente do “Tractatus Logico-Philosophicus” e “Philoso- phical Investigations”. a função referencial ou denotativa (referential). em particular com os trabalhos de Peirce (Cf. in Diccionario das Ciências da Linguagem. De acordo com a distinção efectuada por Charles Morris. Ou seja: trata-se de saber como é que isso (um termo. e. pp. Paris: Editions de Minuit. 1963 (em particular a 4ª parte). in Antologia Filosófica. Ludwig. 468 Cf. a que fizemos referência mais atrás. por exemplo. Porto: Edições Asa. cit. "Deux aspects du langage et deux types d'aphasie". por exemplo. É neste contexto que se inserem. Wittgenstein. O problema muda.

2003. centrada no destinador. isoladas por Bühler. Não se trata de afirmar que não existam outras funções para além destas (como a prescritiva. ao passo que as últimas podem subsistir sem as primeiras473. A partir desses factores básicos. na medida em que incide sobre alguma coisa. Para ilustrar as diversas funções assinaladas. em particular. ele formulou três funções para a linguagem verbal: a função expressiva ou sintomática. etc. ou um acordo. segundo o autor. No fundo. Em 1934. demonstrando um ponto de vista relativamente a uma situação ou um estado de coisas. na medida em que nenhuma das superiores pode estar presente sem que todas as de nível inferior igualmente o estejam. é “descritiva”. 395-396. Karl. Ibidem. a função estimulante ou sinalizante. A estas três funções. Conjecturas e Refutações. num artigo escrito em 1953. mas apenas que as quatro funções mencionadas constituem uma espécie de hierarquia. Esta está para a filosofia. a consultiva.). na medida em que pode desencadear uma resposta. a função descritiva. pp. Karl.. dedicado à linguagem e ao famigerado problema do corpo-mente. Karl Popper dá o exemplo de uma discussão: esta serve como “expressão” na medida em que constitui um sintoma exterior de um estado interno (fìsico ou psicolñgico) do organismo. é “argumentativa”. Karl Popper acrescentou uma outra: a “função argumentiva”472. de Jakobson. o destinatário e o contexto. é igualmente um “sinal”. Karl. 471 POPPER.Este modo de colocar o problema. Vejamos a questão mais em pormenor. como a função descritiva está para a ciência. no destinatário. p. POPPER. em termos de “funções da linguagem” não é exclusivo da linguística e. centrada no destinatário. dado que se trata de apresentar razões para defender uma determinada ideia. Cf. por último. POPPER.cit. por outro lado. centrada no contexto. o psicólogo austríaco Karl Bühler propusera um modelo triádico da linguagem. apontando três factores básicos da mesma: o destinador. Cf. op. identificou “quatro funções essenciais da linguagem”471. apontando dificuldades ou inconsistências numa outra474. 395. Ibidem. Coimbra: Almedina. 472 473 474 112 . Um filósofo tão importante como Karl Popper. o seu objectivo é descobrir quais destas funções têm interesse tanto para a filosofia como para a ciência.

Oswald. É o que permite. 237-322. op. os actos “elocutñrios (por exemplo: “prometo…”. o destinatário e o contexto). a função “argumentativa” (caracterìstica essencial da filosofia. que atribui a uma dada fórmula. pp. POPPER.cit. que Habermas. Com efeito. TODOROV. p. op. nos últimos anos do século XX. de forma recorrente. Karl. uma vez que pressupõem a existência de uma espécie de cerimonial social. Karl Popper e Roman Jakobson.Pois bem. precisamente em 1953. mais tarde . não fazem mais do que acrescentar novas funções e elementos ao processo comunicacional. J. na fala. como uma constante. op. segundo Popper) sem uma comunidade 478 onde se trocam.cit. AUTIN. De tal forma o “modelo comunicacional” é poderoso. às diferentes abordagens e funções identificadas. “ordeno-te que…”. por exemplo. 1953 (Cf. é um certo “modelo” da linguagem que poderìamos chamar “comunicacional”. um dos autores que mais realçou. Jacques. naturalmente. Lacan inicia o seu “verdadeiro ensino” . 393). Quand Dire C‘est Faire (tradução francesa: de How to Do Things With Words). pp. De uma forma ou de outra. Mesmo os trabalhos inovadores de Austin479. sem lhe alterar a essência478.cit. defendem ou justificam ideias – o que pressupõe. que implicam uma certa transformação das relações entre os interlocutores. no entender do autor. são sempre convencionais. 7. o ano em que veio a lume pela primeira vez o artigo de Popper475.como dirá. DUCROT.. LACAN.com o relatório de um congresso ocorrido em Roma. 477 Cf. empregue por esta ou aquela pessoa em determinadas circunstâncias.. adoptaremos uma ou outra tradução. por exemplo. o que parece estar subjacente. a comunicação? 479 Cf. por seu lado.L. parecem estar ainda assentes neste modelo comunicacional. in Écrits. “Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse”. 401-403. Paris: Éditions du Seuil. a linguagem é entendida como meio ou veículo de comunicação. essa vertente. os actos “locutñrios” dos actos “elocutñrios”. “aconselho-te a…). a tripartição de Bühler (pois cada uma das três funções identificadas está ligada a um certo elemento do processo de comunicação: o destinador. 476 “Parole” (no original) tanto pode ser traduzido por “fala” como por “palavra”. O que seria. ao distinguir. Tratar-se-á do mesmo tipo de abordagem e problemática referidas? Que função (da fala e da linguagem) é esta? Nos diversos exemplos anteriores. Segundo o contexto. um valor particular480. chegou a 475 Publicado pela primeira vez em Proceedings of the 11th International Congresso of Philosophy. 1970.. Cf. intitulado “Função e campo da fala476 e da linguagem em psicanálise”477. Tzvetan. 480 113 ..

É este que preside à construção do famoso “grafo do desejo” (graphe du désir). Jacques-Alain Miller dedicou uma parte da sétima lição do seu curso L‘orientation lacannienne (La Fuite du Sens) a esta ques- 482 tão. in La Cause Freudienne. esta versão final do Grafo483. pp. herdeira de Descartes) assentava na “razão comunicacional”481. a linguagem deixa de ser concebida como “diálogo” e passa a ser encarada como “monñlogo” e “aparelho de gozo”. não sñ a construção do “Grafo do desejo”. também ele. de forma pormenorizada. na quarta parte do nosso trabalho. Jürgen. Na verdade.defender que a saída da filosofia centrada no sujeito (uma das características da “modernidade”. pode ser acompanhada no texto “Subversion du sujet et dialectique du désir”. poderia hoje. mais tarde. de tal forma que quando esta “referência à comunicação” se afunda. o segundo (andar de cima) assenta numa outra concepção da linguagem – como “aparelho de gozo”484. Lisboa: Publicações Dom Quixote. numa dada época. obedece a esse modelo assente na “comunicação” e no “diálogo”. Diffusion Navarin Seuil. O Discurso Filosófico da Modernidade. 1990. L‟apparole et autres blablas. nº 34. in Écrits.cit. de dobra. à sedução” do modelo comunicacional. Cf. a esta questão. mostrando. MILLER. entre um primeiro e um segundo Lacan: enquanto o primeiro (andar de baixo) assenta no “modelo comunicacional” da linguagem. 805-817. Voltaremos. com base nos desenvolvimentos posteriores de Lacan. e da “vontade de dizer” que lhe subjaz482.. Jacques-Alain. ser visto como uma espécie de linha de fronteira. 483 A construção progressiva do Grafo do Desejo. 484 Retomaremos esta questão do gozo (jouissance). até à sua versão final que aqui se apresenta. op. 114 . como todo o ensino do primeiro Lacan. HABERMAS. Outubro 1996. “Le monologue de l‟apparole”. em última análise. pp. Também Lacan não ficou imune. 275-307. que. 481 Cf.

2008. entre outros – porque a “função poética”. Cf. isto é. está ainda dependente do modelo comunicacional. de um modo ou de outro. “…L‟homme habite en poète…”. que deu igualmente um relevo especial à linguagem. Paris: Éditions Gallimard.cit. o que Heidegger pôs sobretudo em destaque foi.”485 Não a poesia como mera arte poética. 2004. ganham sentido com base no andar inferior do grafo do desejo.. é uma constante nesta época do ensino de Lacan. isolada por Jakobson. simultaneamente. Trakl. E dizemos poiética. Rilke. 487 115 . Ora. a que alude Lacan no texto homónimo. Martin. p. O Outro é aqui concebido como lugar do código ou tesouro significante. em vez (ou antes) de ser meio de expressão ou veículo de comunicação. “…L‟homme habite en poète…”. ao modelo comunicacional. como poder criador. fundamental. há que fazer referência a um outro autor. não sejam inteiramente redutíveis ao referido modelo comunicacional. de nome Martin Heidegger. deturpada. Martin. frequentes no perìodo inicial do ensino de Lacan. uma outra dimensão da linguagem a considerar. 255-256. deformada e rebaixada a um meio de comunicação e a uma mera expressão de uma designada interioridade. Lógica – A pergunta pela essência da linguagem. Mas há. A essência da linguagem está aí onde ela acontece como poder criador do mundo (…). HEIDEGGER. mas como poiesis486. É precisamente esta função criadora da fala (la fonction 485 Cf. o que Heidegger pretende sobretudo realçar é que a linguagem. se bem que reformulado para dar conta dos fenómenos específicos da clínica psicanalítica. a sua função “poiética”. in Essais et Conférences. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. op. e não simplesmente poética – apesar de Heidegger se interessar pelos mais diversos poetas. “A essência da linguagem – diz ele – não se revela aí onde ela é abusada e trivializada. seguindo a etimologia grega da palavra.Frases do género: “o sujeito recebe do Outro (A) a sua própria mensagem sob forma invertida”. resumidamente. pp. Para o situarmos. filósofo da maior importância no século XX. A linguagem originária é a linguagem da poesia. 244. 225. da habitação humana487. Novalis. 486 HEIDEGGER. hipotecadas. como Hölderlin. que faz com que a “função” (e o campo) da fala e da linguagem. Martin. HEIDEGGER. Diferentemente das restantes abordagens. p. é essencialmente criadora. A presença do modelo “comunicacional”.

492 Oswald. 111. pp. Lacan estabelece uma distinção entre dois tipos de fala: a “fala vazia” (prñpria do “discurso corrente”) e a “fala plena” (revelado- 489 490 ra do sujeito na sua verdade mais essencial). É o que fazem. a fala tem de criar o sujeito: uma excrescência em relação ao real.. Lacan chega a comparar a linguagem (o simbñlico) a uma “máquina” que funciona sozinha.cit. a grande inovação de Austin não reside no simples estabelecimento desta diferença entre enunciados verificativos e performativos. referir..cit. Jacques. um “lapso” ou um “acto” sintomático. orientada por Eduardo Prado Coelho. traduzir. por exemplo.L. 401. un acte est une parole”]. op. implica sempre um sujeito. LACAN. cada qual à sua maneira. já a fala. no campo da linguagem. Mas aqui é preciso estabelecer. pp. 97. é fazer advir o sujeito. Livre I. mas na generalização do carácter performativo a enunciados ou expressões que não parecem ter.. DUCROT. É este sujeito que pode não só padecer dos efeitos da fala e da linguagem (como acontece. Cf. Le Séminaire. A função essencial da fala. mostra que a sua enunciação é o mesmo que cumprir a acção. J. pelo contrário. Jacques.. enquanto o segundo. op. Le Séminaire. uma diferença entre a fala (parole) e a linguagem (langage). independentemente do sujeito489.créatrice de la parole) e da linguagem que é destacada por Lacan. op.cit. ao mesmo tempo que descreve uma acção do seu emissor. essa 488 Cf. Como diz Lacan. Com efeito. à partida. mas também o homem comum. por exemplo. Cf. desde o início do seu ensino488. O primeiro tende a descrever um acontecimento. Livre II. Sigo aqui a tradução portuguesa do Dicionário das Ciências da Linguagem. 116 . apesar de tudo. Antes de expressar. 63. 491 Cf. Le Séminaire. isto é. Tzvetan. do Verbo. os dois termos que compõem o título do relatório a que fizemos referência mais atrás: “Função e campo da fala e da linguagem”. *** O ponto de partida das pesquisas levadas a cabo por Austin491 é a oposição entre dois tipos de enunciado: verificativo492 (constative) e performativo (performative). TODOROV. 363-64. p. 1998. onde nada falta (segundo a definição de Lacan). Cf. op. em certas formas de psicose).cit. 95. etc. sempre que fala veridicamente490. Paris: Éditions du Seuil. p. Livre I. “na medida em que se trata para um sujeito de se fazer reconhecer. Porém. o espirituoso ou o poeta. um acto é uma palavra” [“Pour autant qu‟il s‟agit pour le sujet de se faire reconnaître.. AUSTIN. graças ao poder criador do simbólico. 374. LACAN. A “fala plena” (parole pleine) pode ser. Les Écrits Techniques de Freud. LACAN. mas também servir-se delas.

em última análise. de pôr em destaque esta dimensão da linguagem. mesmo quando vazia (de conteúdo)497. p. parole pleine en tant qu‟elle réalise la vérité du sujet (…) »]. 136. Livre I.como é o caso dos monges da Grande 117 . na medida em que a enunciação. 83. Na verdade. LACAN. 2004. de uma forma peculiar. serve igualmente fins mais longínquas. como dizia Lacan no inìcio do seu ensino [“La parole est essentiellement le moyen d‟être reconnu”]. trata-se aqui de uma inversão da proposta lacaniana. tem um efeito performativo sobre o próprio sujeito. TODOROV. toda a frase é performativa. Cf.cit. antes denotar o que quer que seja. Gérard Pommier mostra como a palavra.. quando se interroga alguém.. Oswald. A fala performatiza o sujeito. 493 Lacan não deixou. a elocução (illocution). Eis onde a distinção lacaniana da “fala vazia” e da “fala plena” se revela sob um novo ângulo496. também poderíamos dizer. acaba por ter uma certa plenitude. pode não perceber. parodiando Lacan com base na proposta de Pommier. mesmo quando a frase parece ter uma simples dimensão “descritiva”. 366). 401-403. Jacques. a fala. Le Séminaire. op. Por exemplo.natureza. todo o enunciado é performativo. num certo sentido. LACAN. Neste caso. Tal como Austin afirma que. na medida em que falar. produzindo pelo menos o seu sujeito495. “Função e campo da fala e da linguagem”. entre muitas outras coisas. Cf. p. op. Comment les Neurosciences Démontrent la Psychanalyse. pode ter-se em vista ajudá-lo. embaraçá-lo. Flammarion. Cf. visando o reconhecimento. plena (pois reveladora de um sujeito). op. para além das “funções” apontadas. 494 Um resumo do contributo de Austin pode ser encontrado em DUCROT.494 Servindo-se dos termos de Austin. uma vez que ele fundamenta a oposição da fala vazia (parole 495 496 497 vide) e da fala plena (parole pleine) no facto de sñ esta última realizar a verdade do sujeito [“(…)les fonctions de la parole? à savoir l‟opposition de la parole vide et de la parole pleine. Le Séminaire. na medida em que é reveladora de um sujeito. que o interlocutor. que toda a fala é. Com ou sem denotação. Paris. Cf. O admirável filme de Philip Gröning “O grande silêncio” (Die Grosse Stille. A fala é essencialmente um meio de ser reconhecido. na medida em que combina sons e religa sintaxicamente as noções representadas pelas palavras. esta dialéctica entre a “fala vazia” e a “fala plena”: fazer silêncio . embora a inspiração lacaniana seja por demais evidente. apela sempre a um Outro. pp. a perlocução (perlocution). Jacques. p. POMMIER. Gérad. É com base numa tal generalização que Austin estabelece o princípio de que qualquer enunciado (acto de fala) realiza simultaneamente três actos: a locução (locution). Tzvetan. mesmo quando “vazia” de conteúdo. embora domine a língua. Um dos exemplos dados por Gérad Pommier é o acto quotidiano de falar sem dizer nada de preciso. uma certa transformação entre os interlocutores493. LACAN. cit. ao longo dos anos. Jacques. in Écrtis.cit. 2005) dá a ver. na medida em que a enunciação da frase constitui em si própria um certo acto. Livre I.

Textes Essentiels. com que Lacan inicia o texto de 1973. revelar. algo enigmática. 468-471. LACAN. o presidente da Câmara de Deputados austríaca. p. em consonância com o seu desejo inconsciente. Psychopathologie de la Vie Quotidienne. o estilo. Sigmund. Um sujeito toma a palavra para dizer que não se trata daquilo que disse (“não é a minha mãe”). Tratase de deixar falar o prñprio Deus por meio do “grande silêncio” dos humanos. Por um lado. o que acaba por revelar-se. Roland (Org. Étourdit: “Que se diga fica esquecido 499 por detrás do que se diz naquilo que se ouve” [“Qu‟on dise reste oublié derrière ce qui se dit dans ce qui s‟entend”]. É por isso.significa calar toda a fala vazia. Quando. dizendo: “Meus senhores (…).cit. é a própria singularidade de um estilo499 e nada mais. Editora Record. pp. Paris : Larrousse. Manuel. Mais do que tentar saber se é ou não (realmente) a sua mãe. p. Livro Sobre Nada. na medida em que declara a sessão encerrada. pelo Cartuxa que aí são filmados . como dizia Lacan. como diz Pommier. Ibidem. Autres Écrits. que é impropriamente que dizemos que um lapso é algo de falhado. em última análise. antes mesmo de a ter aberto. ele consegue. Cf. daí que se precipite. 449. 498 Cf. O primeiro é retirado do poeta Manuel de Barros. apesar de tudo. O segundo exemplo é um certo uso da “negação” a que Freud dedica uma atenção especial. para que advenha uma fala plena. a encerrar a sessão. mundana. sob o que é dito. não esperava nada de bom desta sessão. DE BARROS. in La Psychanalyse . Há uma divisão subjectiva entre o que é dito e o que se quis dizer. Jacques. 1996. 72. 11ª Edição.Poderíamos ilustrar este carácter performativo da fala (relativamente ao sujeito) recorrendo a vários exemplos. 501 502 118 . CHEMAMA. prñprio de um sujeito.. por outro lado. Uma boa parte da análise de Freud vai precisamente no sentido de mostrar que este sujeito. fundador e autónomo). “La Négation”. no seu íntimo. 2004.). O exemplo seguinte é retirado da psicopatologia da vida quotidiana501. declaro a sessão encerrada”502. ele falha o que pretende dizer. é essencialmente o modo de dizer. É neste sentido que a fala performatiza o sujeito. FREUD. 500 Cf. comete um lapso. Paris: Éditions Payot. segundo declaração programática do autor498. Quando decide escrever um Livro sobre Nada. ao abrir a sessão. Eis uma possível leitura da frase. Cf. não no sentido “moderno” (uno. o que parece estar aqui em causa é que esta (de) negação tem um efeito sobre o próprio sujeito. vindo a consagrar-lhe um artigo em 1925500. sustentado apenas no estilo. certo dia. provocando-lhe uma divisão. deixar transparecer o desejo que o habita. podemos analisar a questão pelo menos de dois pontos de vista. mas na medida em que o sujeito. op. 1197. a do próprio Deus.

isto é. 503 “Nos actes manqués sont des actes qui réussissent (…) » Cf. Ora. na medida em que pertencem ao mesmo paradigma.a que Lacan dá uma importância crucial: a metáfora paterna. Joseph 504 Breuer. Segundo ele. a ordem lógica ou gramatical das frases. no outro. o uso da sinonímia.contrário. por exemplo. Por último. Le Séminaire. como são. Cf.. A metáfora e a metonímia são dois eixos fundamentais da linguagem. em 1909. postos em destaque por Roman Jakobson. no segundo. as afasias motrizes e sensoriais. ou fosse impossível. que o mérito do nascimento da psicanálise não se deve a ele. como se lhe estivesse vedado. apesar deste elogio a Breuer. p. cada qual. o caso de uma jovem histérica. a dois eixos diferenciados de uma unidade linguística qualquer: o paradigmático e o sintagmático. Paris: Éditions Payot. em particular. LACAN. correspondendo. também. Sigmund. Cinq Léçons sur la Psychanalyse. Isto significa que o sentido de uma palavra é determinado. FREUD. antes de mais. 404. No primeiro caso. a adequação daquilo que diz ao que se pretende (conscientemente) dizer. É por isso. entre 1880 e 1882. as páginas 9-21). Ao mesmo tempo que a palavra falha a coisa. Eis por que Lacan. Freud vai ainda mais longe ao dizer. nomeadamente a partir da consideração de certas perturbações da mesma. que no princípio de uma análise. que pertencem ao mesmo sintagma. à própria jovem histérica. com recurso à paráfrase. Jacques. Jakobson vai postular a existência de dois mecanismos independentes. 1996 (Ver. os actos falhados. ao mesmo tempo. A partir daqui. escolhemos um exemplo de performatização do sujeito . que poderiam substituí-la. pela influência das que a rodeiam no discurso (eixo sintagmático) e pela evocação das que teriam podido vir em seu lugar. sem se preocupar com a verdade ou a falsidade. girando em volta. 119 . homenageando a origem da psicanálise. ou seja. a degradação da linguagem acontece em duas vertentes da linguagem: num dos casos.para continuarmos a servir-nos aqui deste termo austiniano . Livre I. o que se constata pela leitura das primeiras páginas. que havia tratado. mas ao Dr. à histerização do sujeito. o sujeito é convidado a dizer tudo o que lhe passe pela cabeça. ela performatiza o sujeito. como demonstra este caso. da afasia sensorial. é estabelecida uma comparação com as unidades semelhantes.cit. é que a invenção de psicanálise se deve. o sujeito afectado não consegue dizer a palavra. é estabelecida uma relação com as unidades coexistentes. há perturbação da contiguidade (sendo afectadas a articulação e a sintaxe). vai utilizar o termo histerização do sujeito para caracterizar a entrada numa análise504. op. são actos bem sucedidos503.

ou seja. a metáfora e a metonímia. a conexão de um significante a outro significante507. no outro. é ainda nesta oposição.cit. por exemplo no texto A Instância da Letra506. “(…) la connexion du signifiant au signifiant (…)” Cf. op. p. patente na fórmula que dá Lacan da mesma509. LACAN. A metonímia é. no essencial. op. mesmo se retoma as coisas à sua maneira.243-262. op. Fórmula da metonímia: f (S…S‟) S  S (-) s. “(…) la substitution du signifiant au signifiant (…)” Cf. op. Eis o que levará Lacan a aproximar a metonímia do desejo. LACAN.cit.cit. 120 . Essais de Linguistique Générale. capítulo II. Há aqui. in Écrits. interessam Jakobson. Roman. dedicado às Psicoses. 515. Cf. Jacques. Cf. 505 Cf. pp. a metáfora. Além disso. 510 Fórmula da metáfora: f (S‟/S) S  S (+) s. Mas nem só a perturbação. que está a pensar. dois tipos de substituição significante: um pela via paradigmática. outro. Le Séminaire. é a substituição de um significante por outro significante508. “L‟instance de la lettre dans l‟inconscient ou la raison depuis Freud”. 515. o disfuncionamento. pelo contrário. metonímica. pela via sintagmática. das figuras de retórica mais utilizadas na linguagem literária: a metáfora (em que um objecto é designado pelo nome de um objecto semelhante) e a metonímia (em que um objecto é designado pelo nome de um objecto que lhe está associado na experiência)505. Livre III. associativa. p. Quando Lacan retoma estas duas figuras de retórica. (Lições de 2 de Maio de 1956 e 9 de Maio de 1956).As duas perturbações atrás referidas traduzem dois níveis ou eixos de impossibilidade: num caso. Jacques. Lacan dedica especificamente duas lições do Seminário III. Jacques. metafórica.cit. a impossibilidade de ligar os elementos utilizados a outros elementos do seu paradigma. a impossibilidade de ligar os elementos uns aos outros. similar. enquanto a metáfora. de tal modo que lhe cabe o papel de criação de um novo sentido. estabelecida por Jakobson. Esta dualidade – paradigma. segundo o autor. por seu turno.. à questão da metáfora e da metonímia. Jacques. produz um mais (+) de significação510. enquanto a metonímia remete para um menos (-) de significação.. dizendo que este é 506 507 508 509 essencialmente metonímico. de constituir sintagmas. Ibidem. 511 LACAN. é a metáfora que responde511. sintagma – estaria igualmente na base.. Sempre que está em causa o aparecimento de uma significação nova. LACAN. JAKOBSON. portanto.

desejo de outra coisa.. Trata-se aqui. por assim dizer. Com efeito. da criação do sujeito (desejante). É nesta fala. o pedido ou a exigência (que é 513 sempre um pedido ou uma exigência. quer do disfuncionamento (quando a metáfora falha). que se inscreve (ou não) o nome do pai. incondicional. por isso. verdadeiramente. como é o caso do exemplo a que Lacan vai consagrar um texto dos Escritos: De uma questão preliminar a todo o tratamento possível da psicose. que fala. de décalage. e. carece de uma significação fálica. a saber. graças a uma certa operação metafórica que implica a substituição de um significante por outro. mas também aquela que se ausenta. por uma razão ou outra. op. Lacan estabelece uma diferença entre a necessidade. o desejo resulta de uma espécie de hiato. é particularmente sensível quando as coisas falham. de amor) e o desejo (estruturalmente. a que Lacan vai chamar metáfora paterna ou metáfora do nome do pai512. Écrits. mas da metáfora. Dizer desejo da Mãe e Nome do Pai (e não simplesmente mãe ou pai). 557. sobretudo. A passagem de simples objecto do capricho materno para sujeito. de nada de particular). a mãe não é apenas aquela que alimenta. simbolicamente. p. de vez em quando514. LACAN. no caso em que a metáfora funciona. produz os seus efeitos). no campo do Outro (A). Segundo Lacan. 514 Na esteira de Freud. antes de mais. Tal como acontecia em Jakobson. e. o Desejo da Mãe pelo Nome do Pai. primordial. da fala e da linguagem. O nome do pai (que não deve ser confun- 512 Cf. Jacques.cit.Semelhante efeito metafórico. entre a necessidade e o pedido. precisamente. que supre a necessidade ou exige513. 121 . é já retirar um e outro da pura dimensão biológica para os situar como duas funções simbólicas. Lacan dedicou algumas passagens ao famoso jogo do Fort-Da. Importa aqui relembrar que. em que uma criança lida. da criação de um sentido novo. que falta no seu lugar. também aqui se trata de abordar a questão do ponto de vista quer do funcionamento (quando a metáfora funciona. com as ausências da mãe. Não se trata aqui de uma metáfora qualquer. isto é.

verdadeiramente. “(…) à l‟appel du Nom-du-Père répond. o bebé que é alimentado). a que Lacan consagra grande parte do Seminário III. Jacques. no campo do Outro. da falta. Livre I. de novo. non pas l‟absence du père réel. op. Jacques.cit. *** Mas voltemos. Eis o sentido da segunda parte do título da Subversão do sujeito e dialéctica do desejo. Quando esta operação não funcionou. permitindo-lhe o acesso ao desejo. no que este implica uma dialéctica fundamental518. ao apelo do Nome do pai. ele deixa de ser apenas falado. A partir daí.dido com o patronímico) vem no lugar da ausência. p. desejo de Outra coisa. 519 “(…) le thème hégélien fondamental . mas também porque é. em seu nome próprio517. até às últimas consequência. op. é o próprio sujeito que é afectado.cit. no sujeito. Cf... 232. inspirada em Hegel. mas a carência do próprio significante516. op. para falar. p. op. p. 139. mais la carence du signifiant lui-même ». É a esta função significante que cabe. implica. tal como diz Lacan. 517 Como diz Pommier: “le sujet cesse d‟être parlé pour parler ». op.. para dizê-lo em termos hegelianos. Cf. É também a substituição significante (juntamente com o efeito de significado para o sujeito) produzido pela metáfora paterna que retira o sujeito da pura necessidade (a mãe que alimenta.cit. a eternização do desejo.. não é a ausência do pai real. « D‟Une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose ». Jacques. 557. Isto não apenas porque implica o outro imaginário ou que releva de uma função simbólica. p. primeira de oito conferências que Jacques-Alain Miller dedicou ao ensino do mesmo. Cf. 122 . à tese de Lacan sobre a relação entre o inconsciente e a linguagem. de que o desejo do homem é o desejo do outro519. o autor avança a ideia de que o ensino de Lacan é o desenvolvimento. cit. car cette absence est plus que compatible avec la pré- 516 sence du signifiant. LACAN. Em “O percurso de Lacan”. A morte da coisa. estruturalmente. Eis o sentido da fórmula lacaniana. 518 793.le désir de l‟homme est le désir de l‟autre ».. LACAN. do desejo da mãe. Neste caso. Écrits. pois esta ausência é perfeitamente compatível com a presença do significante. a criação do sujeito enquanto sujeito desejante. sobre As Psicoses515. da hipótese de que o inconsciente está 515 Cf. Eis o que leva Lacan a falar de metonímia do desejo. LACAN. lições de 14 de Dezembro de 1955 a 15 de Fevereiro de 1956.cit. in Écrits. ou poder falar. Le Séminaire. LACAN. por uma razão ou outra. o que responde. Cf. O exemplo é o caso de Schreber. Jacques.

BALIBAR. Buenos Aires: Editorial Hacia el Tercer Encuentro del campo Freudiano. ainda que entrelaçadas. Essa estrutura é isomorfa523 à da linguagem. mas uma linguagem: o inconsciente está estruturado como uma linguagem. » Cf. p. pour ce qui 522 523 524 525 est de la philosophie. « Le structuralisme. esta hipótese tem uma dimensão ou um sentido não apenas linguístico. Lacan não diz simplesmente a linguagem. une destitution du sujet ?”.je vais dire en quel sens il faut entendre ce terme . p. Esta hipótese tem um valor simultaneamente retrospectivo (permitindo retornar a Freud com os instrumentos da linguística e da etnologia que estavam em voga na época) e prospectivo ou heurístico (na medida em que permite vislumbrar novos caminhos para a clínica psicanalítica). première parution dans la Revue de Métaphysique et de Morale. a condensação e o deslocamento. numéro spécial « Repenser les structures ». mas tem uma ordem.aura été le moment vraiment marquant.ocho conferencias. significa dizer que o inconsciente não é um puro caos indiferenciado (um caldeirão de pulsões. é a resposta lacaniana à questão crítica fundamental. por assim dizer). nas figuras da metáfora e da metónímia522).estruturado como uma linguagem520. uma estrutura.net/article. dizer que o inconsciente está estruturado como uma linguagem. MILLER. p. No fundo. 1984. p. Exposé présenté le 21 Mars 2001 au Colloque « Normes et structures ». dizer. 6. 123 . 521 Cf. Em primeiro lugar. Université de Rennes I.rhapsodyk. bem como estrutural. Jacques-Alain. “El inconsciente (…) sea isomorfo en su estructura con el lenguaje (…)”. Dizer que o inconsciente está estruturado como uma linguagem pode querer significar várias coisas.php3?id_article=172. Jacques-Alain. Janvier 2005. No entanto. Recorrido de Lacan . 6. sous la direction de Guy-Félix Duportail (Disponível na WWW : <http://ciepfc. acaba por colocar Lacan no campo aberto por um dos mais produtivos e dinâmicos movimentos do pensamento contemporâneo: o estruturalismo525. « (…) le structuralisme . Voltaremos a esta questão no capítulo seguinte. dans la pensée française de la deuxième moitié du 20 e siècle. Ibidem. Ibidem. É isto um puro acaso ou carece de um esclarecimento adicional?524 Por outro lado. como faz Miller. 7. Cf. mas igualmente retórico (eis o que permite a Lacan traduzir os mecanismos primários do inconsciente. Cf. Significa isto que Lacan é estruturalista? Finalmente. Étienne. que o ensino de Lacan é o progressivo desenvolvimento da hipótese de que o inconsciente 520 “Cf. Ao mesmo tempo. 6. sobre as condições de possibilidade da psicanálise: esta é possível e somente se o inconsciente está estruturado como uma linguagem521. MILLER. dizendo-o à maneira kantiana.

portanto. mas de mostrar. à cabeça. ou. p. também aquela se vai progressivamente transformando em algo de completamente diferente? Deixemos a primeira e a última questão para desenvolver no capítulo seguinte e concentremo-nos. 89-117. pelo contrário. 527 São vários os autores que Deleuze enquadra dentro do estruturalismo: Lévi-Strauss. Não se trata de reduzir o pensamento desses autores. À pergunta que fizemos mais atrás. 528 Com o dizia recentemente Vladimir Safatle. O que acontece é que este termo vai ter cada vez menos uma conotação estruturalista. Editora UNESP. ESTANQUEIRO ROCHA. in CHÂTELET. SAFATLE. entre outros. resumindo. Porém. História da Filosofia . que. afirmativa529. 16. constantemente. Volume 8. Acílio da Silva.cit. o diferenciante e a diferenciação. 531 124 . ESTANQUEIRO ROCHA. do estruturalismo. Acílio da Silva. DELEUZE. há uma inflexão no pensamento lacaniano. que é apenas um momento. Gilles. podemos afirmar. ele não deixa. desde que a completemos com uma ressalva temporal: numa certa época. se Lacan é estruturalista. Embora alguns destes critérios se apliquem mais a uns. Foucault. isto é. Cf.. Poderíamos dizer. Ibidem. tem cada vez mais uma dimensão topológica. pp. de acordo com os vários critérios enunciados. Gilles Deleuze enuncia um conjunto de critérios para reconhecer o estruturalismo526: o simbólico. no sentido matemático do termo. de usar e referir-se ao temo estrutura. o diferencial e o singular. como são Lévi-Satruss. sem grande hesitação. enquanto outros critérios se aplicam mais a outros dos diversos autores convocados por Deleuze527. qual a natureza deste objecto. que há um momento estruturalista de Lacan528. numa certa época e num dado momento. que à medida que se vai desenvolvendo o seu ensino. entre muitos outros. Vladimir. 529 Eis o que permite situá-lo ao lado de outros pensadores estruturalistas. o serial. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 1983. o local ou posicional. a resposta só pode ser. a estrutura. VI e VII. entre outros. como ciência dos espaços e suas proprieda- 526 Cf. ele foi estruturalista. pp. “Como reconhecer o estruturalismo (À quoi reconnaît-on le structuralisme) ”. op. o ensino de Lacan se enquadra em praticamente todos eles. Cf. Cf. em particular os capítulos II. 2005. começando progressivamente a afastar-se de uma tal linha de pensamento. de tal modo que o momento estruturalis- ta. em Lacan. Lacan. significa que a tese fundamental de Lacan não é jamais alterada.Lacan e a Dialéctica. Veremos. de um modo ou de outro. para já. François. 530 Cf. no estruturalismo de Lacan. 81-84. que eles fazem parte.está estruturado como uma linguagem. Althusser.O Século XX. acaba por ser ultrapassado graças ao reconhecimento da importância do objecto. a casa vazia. depois. 245-273. Num famoso texto consagrado ao tema. A Paixão do Negativo . pp. Enquanto o estruturalismo residia numa eficacidade530 ou primazia do simbólico/significante531.

no dizer de LéviStrauss. Cf. Étienne. em que o real. Evidentemente. Simbólico. 1990. uma vez que não se trata simplesmente de forcluir536 o sujeito. mas de o situar como um 532 Cf.Bulletin Périodique du Champ Freudien. Mesmo se há que reconhecer. no caso da “preclusão” tal não acontece. DOR. A prova é a forma como Lacan vai escrever a articulação desses três registos no seminário que levou a cabo entre 1974-1975: RSI 533 534 (Real. Jeanne. o estruturalismo implicou uma certa destituição subjectiva535. A Topologia de Jacques Lacan. segundo o termo que o psicanalista José Martinho já foi pondo em circulação ao longo dos Seminários e escritos que tem dedicado ao ensino de Lacan [cf. A “estrutura do sujeito”. 10. 125 . De certa forma.des532. por outro lado. tome 2 : La structure du sujet. Algumas lições deste seminário foram publicadas em Ornicar . a instauração de um “transcendental sem sujeito”. Já não se trata sobretudo de ver como se articulam os elementos. tendo cada vez mais uma natureza nodal. Livre XXII (inédito). Jacques (1974-1975).wikipedia. pois enquanto neste há um processo de simbolização. Sirvo-me aqui do mecanismo que Lacan reservou para a psicose: a forclusion (que poderìamos traduzir em português por “pre- 536 clusão”. Cf. não é redutível ao estruturalismo. GRANON-LAFONT. Imaginário). discretos. um tal progresso tem implicações na consideração do sujeito. o simbólico e o imaginário se equivalem. 535 Cf. mas de acompanhar as dobras ou deformações contínuas do espaço topológico e respectivos efeitos ou consequências para o sujeito. http://pt. Foi. não tendo nenhum deles a primazia sobre qualquer um dos outros534. Paris : Denoël.cit. que a questão é de alguma forma mais complexa. para usar uma expressão de Joël Dor533. Joël. Le Séminaire. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. ou sistema de relações. op. Introduction à la lecture de Lacan. graças a Jacques-Alain Miller. 1992. p. parafraseando Kant. LACAN. numa estrutura.org/wiki/Jos%C3%A9_martinho]) distingue-se do recalcamento. BALIBAR. como recordava o título de uma intervenção de Etienne Balibar em 2001. da assunção simbólica da falta ou da castração.

antes de mais. o apagamento. uma vez que ela mostra como a questão do sujeito não deixou de acompanhar. 126 . com a seguinte precisão: ele implicou um duplo movimento de destituição (destitution) ou desconstrução (déconstruction) do sujeito. função. enquanto constituída (constituée) e não constituinte. 537 A tese de Étienne Balibar é interessante. 363-367). autónomo. ao mesmo tempo que a sua abordagem singular da questão do sujeito constitui já uma espécie de “ponto de fuga” (point de fuite) do próprio estruturalismo. o sujeito lacaniano já não é mais o sujeito da epistemologia clássica. BALIBAR.. “Como Reconhecer o Estruturalismo”. e não como causa. Acílio da Silva. 538 Cf. consentânea com a de Acílio sa Silva Estanqueiro Rocha: segundo ele. do jogo simbólico539. mais tarde. Gilles. de definir a orientação do estruturalismo. Ela implica. princípio constituinte (constituante). sobre o sujeito. no sentido forte. pp.cit. e até. assinala o afastamento. Um efeito evanescente.. A diferença entre o primeiro e o segundo Lacan (a que Miller tem prestado alguma atenção nos seus seminários) reside nesta 539 540 substituição progressiva do simbólico pelo real e. p. como efeito. causa. op. sem dúvida: pura “casa vazia” (case vide). Cf. uma pura função simbólica? Para responder à questão. Eis o que permite. antes de mais. tal como Lacan passará a escrevê-lo ($): a barra. 270. na medida em que este era. e a reconstrução (réconstruction) da subjectividade como efeito. Etienne. como recordava Deleuze.cit. p. DELEUZE. conservando-o. quando o simbólico cede progressivamente a primazia ao real540. é de desconstruir e esvaziar o sujeito da modernidade. origem. é já “pñs-estruturalista” (Cf. Ora. da ordem simbólica537. por isso. 263-269. o estruturalismo implicou uma espécie de desafio dirigido a toda a tradição das filosofias do sujeito. a este propósito. uma destituição do sujeito da modernidade. menos sujeito do que sujeitado538. ao mesmo tempo que abre o terreno para um outro tipo de consideração sobre a problemática do mesmo. É a ordem simbólica que o constitui e não o inverso. essencialmente. aliás. Esta tese é. op.cit. até Sartre. a rasura…relativamente a toda a concepção moderna e psicológica da subjectividade. enquanto ele foi concebido com o uno. Eis uma das leituras possíveis do sujeito barrado. em certa medida. desde Descartes. numa equivalência entre os vários registos. O que se trata. Ibidem). Ele é. o sujeito afasta-se simultaneamente de toda a tradição moderna e de todo o psicologismo substancialista. ou que este. op. por exemplo. Gilles. o eclipse. ESTANQUEIRO ROCHA. DELEUZE. Como função simbólica. situar Lacan dentro do movimento estruturalista. passando por Kant.efeito. entendido como causa. apesar de tudo. o esvaziamento. um certo trajecto que vai do Outro (como campo e função da fala e da linguagem) ao outro (como objecto irredutível ao simbólico).. mas um sujeito marcado por uma ex-centricidade fundamental (Cf. há que efectuar. o que acontece ao sujeito.

segundo o termo de Lacan544.). importa saber até que ponto a hipótese lacaniana não vai sofrendo. de uma hipótese fundamental: a de que o inconsciente está estruturado como uma linguagem541. a que Freud deu uma especial atenção (Cf. bem como 541 Cf. Les Formations de L‘inconscient. pretende dar conta de um conjunto de fenñmenos da “psicopatologia da vida quotidiana”. uma mutação progressiva. o ensino de Lacan é o desenvolvimento. Uma tal hipótese. os erros…. estando essencialmente ligado a um certo arranjo das palavras. 6. 1997). o Witz (Cf. até às últimas consequências. por exemplo. Um bom exemplo é a reescrita. Poderíamos ilustrar a questão. a sua significação deixa de ser a mesma542. ao longo do seu ensino. Jacques-Alain. do título emblemático do Escritos “Função e campo da fala e da linguagem em psicaná- 542 lise” (1953). os lapsos. formalmente. ele é uma boa maneira de introduzir o problema. Lacan é bem claro: não se trata de dizer que o inconsciente é a linguagem. 127 . Paris: Éditions Payot. a algumas “formações do inconsciente”543. Autres Écrits. p. mesmo se. a que já dedicamos algumas páginas no capítulo anterior. Le Séminaire. Psychopatologie de la Vie Quotidienne. um conjunto de questões. cit. op. Livre V. como sejam os esquecimentos. à forma (linguística) como estas são articuladas entre si. esclarecer as restantes. no texto L‘étourdit. 461). a que fizemos referência no capítulo anterior. mas também. os termos permanecem. levanta. 543 O termo é de Lacan. Por outro lado. mas apenas que está estruturado como uma. Lacan vai parodiar o seu próprio texto dos Escritos. p. escrevendo: Fiction e chant de la parole et du langage (Cf. Sigmund. como dissemos na altura. FREUD. op. FREUD.CAPÍTULO TERCEIRO De um Outro ao outro De acordo com a tese de Jacques-Alain Miller. LACAN. ela própria.cit. a título de exemplo. em 1973. MILLER. Com efeito. Porquê uma tal precisão nos termos? Se consideramos que não se trata de um simples modo de dizer. Jacques.. de tal modo que.cit. neste capítulo. recorrendo. 544 Cf. op. procuramos agora. op.cit.. Uma dessas questões foi já abordada no capítulo anterior. Comecemos pelo dito espirituoso (Witz). há que explicitar o sentido desta precisão de Lacan.

op. Quando não é possível manter directamente esta homofonia e a tradução carece de uma série de explicações e notas de rodapé. Sigmund. Sigmund. por exemplo. para os demais. 23). como acontece com a maior parte dos exemplos fornecidos por Freud. uma proximidade bastante grande com este. in La Vie Sexuelle. que Freud nos conta nesse texto é o de um jovem que havia elevado à categoria de fetiche (isto é.. apesar de terem grafias diferentes. traduzindo-a por meio de uma outra forma ou nível de linguagem. de condição única e exclusiva de desejo e satisfação sexual) um certo “brilho sobre o nariz”. aliás.. se bem que não seja homófono do 548 alemão. esse brilho. uma tal fixação a um determinado 545 Freud consagra todo o capítulo II a demonstrar precisamente esta ligação do Witz a diversas técnicas linguísticas e retóricas (Cf.como faz. o efeito desaparece. o próprio Freud -. cit. a questão é um pouco mais complexa. O livro de Freud sobre o Witz não se lê. Importa acrescentar que. 546 Eis uma boa ilustração do que Lacan pretendia dizer quando afirma que “não há metalinguagem” (Cf. “Le Fetichisme” (1927). conservam a mesma sonoridade.ao jogo que resulta de semelhante articulação545. o que já não acontece com a maior parte dos outros exemplos dados por Freud. excepções.cit. mas apenas que o seu efeito propriamente espirituoso se perde quando tal acontece. no entanto. Tal como não se explica uma piada sem que esta se perca. 56-175). Mas se tal acontece é pelo facto de tanto no original alemão (Famillionär). do dito espirituoso com que Freud abre a sua investigação sobre o Witz e a que Lacan dedica toda a primeira parte do seu seminário de 1957-1958: As Formações do Inconsciente547. está bem patente num famoso exemplo dado por Freud em 1927. op. num texto dedicado ao Fetichismo549. FREUD. Uma tal relação de homofonia. 2002. Há. Não significa isto que não se possa explicar o sentido das piadas . op. é traduzi-lo de uma língua para outra. 549 Cf. entre determinados significantes fazendo parte de duas línguas diferentes. Autres Écrits. Jacques. 133-138. 9-139. 547 Cf.U. LACAN. como é o caso.cit. No caso do português. tão singular. A homofonia é aqui um elemento essencial548.. mas como um ensaio ou uma investigação sobre o mesmo. como na tradução francesa efectuada por Lacan (Famillionaire). visto que o termo “familionário”. senão mesmo impossível.F. como um dito espirituoso. Ao tentar explicar uma piada. percebe-se o quão difícil. pp. nesse caso. apesar de tudo. pp. bastante elucidativo. por isso.cit. Livre V. era. mantém. O caso. também não se traduz um dito espirituoso de uma língua para outra sem que. 128 . o efeito espirituoso tende a desvanecer-se. op. Como explicar. pp. o seu efeito desapareça. na medida em que explicar é uma certa forma de traduzir um certo uso da linguagem num outro546. Paris: P. na maioria dos casos.. p.. 827. Le Séminaire. imperceptível. p. simplesmente. FREUD. Écrits.

porém. » Cf. um equívoco trans-linguístico.ponto da pele (aparentemente indiferente). Um primeiro ensinamento a retirar deste exemplo de Freud é que. atraído por esse brilho. Ao mesmo tempo. mais dans mon existence je suis regardé de partout. Livre XI. “Le fetichisme”. Le Séminaire. 129 . 79-91. Jacques. fascinante. p. portanto. É esse equìvoco que resulta da homofonia translinguìstica que vem fixar. objectivamente observável. sobre o nariz. que capta. prova. não se confundindo com ele. p. pelo contrário. O que faz com que uma parte do corpo – segundo uma espécie de geografia erógena. por parte deste sujeito.cit. de tal modo que a simples presença ou ausência do “brilho sobre o nariz” acaba por ser condição necessária e suficiente para a existência ou não do desejo e da excitação sexual? O facto de esse brilho ser invisível para as outras pessoas. e o olhar que prende. o jovem fetichista que serve de exemplo a Freud fora inicialmente criado em Inglaterra. 133. poderíamos dizer. LACAN.cit. 84. que não se trata de uma característica física. do olho. por homofonia entre Glanz (brilho) e Glance (olhar).. Só que. esta não se tinha esquecido dele. Na realidade. op. op. a que todos pudessem naturalmente ter acesso. op. de todos os demais. pp. Livre XI. na verdade. Há uma espécie de esquize550 entre a visão. Jacques. mesmo aí onde o problema parece residir numa simples questão de visão (ou de visibilidade). diz-nos Freud. que fascina este sujeito. a qual não respeita necessariamente a anatomia – seja destacada do resto do corpo e elevada à categoria de condição absoluta de satisfação do sujeito é. a causa e condição absoluta do desejo e satisfação do sujeito552. é olhado551. FREUD. LACAN. onde esquecera quase por completo a sua língua materna. absolutamente extraordinária. Sigmund. Com efeito. de forma evidente.. naquele ponto da pele. a frase alemã Glanz auf der Nase (ou seja: “brilho sobre o nariz”) devia ser entendida em inglês.cit. fornecida por Freud. lição de 19 de Fevereiro de 1964 intitulada “la schize de l‟oeil et du regard”. indo depois para a Alemanha. Mas permanece a pergunta: o que torna possível um brilho tão singular? É aqui que nos deparamos com uma explicação. 551 “(…) je ne vois que d‟un point. como “olhar sobre o nariz”. ele 550 Sirvo-me aqui de um termo que Lacan desenvolve no Seminário de 1964 (Cf. de tal forma que poderíamos perguntar se. a ponto de lhe vir a pregar uma estranha partida. Le Séminiare. 552 Cf. o objecto. a importância da dimensão linguística é incontornável.. é ele que olha ou se. O olhar que isola do resto do corpo esse ponto luminoso destaca-se.

est assujetti à l‟équivoque (…). propriamente falando.permite-nos fazer uma ressalva. não é. O que constitui motivo de regozijo para alguns (pois o que 553 Eis uma das razões que levará Lacan. Uma língua é feita essencialmente de equívocos. 53-54. Yan (et al. LACAN. percebe-se a razão por que. O que é determinante. Para outros esclarecimentos sobre esta figura topológica. Como dirá Lacan num texto de 1973. de restos significantes de ambas as línguas 553. mais tarde. Jeanne. 490. aquelas que são efectivamente faladas: é que estas são feitas essencialmente de equívocos. Esta homofonia é possível devido ao facto de que o significante. forçosamente. com a língua materna: lalangue. houve tanta desconfiança em relação.. 555 “(…) l‟inconscient. é uma materialidade sonora. uma língua. 130 . está sujeita à equivocidade. Efectivamente.cit. Sobre o inventário dos usos do termo Lalangue por Lacan. » Cf. pp. escrita numa só palavra. talvez. d‟être „structuré comme un langage‟. de ambiguidades. o exemplo dado por Freud mostra bem que aquilo que determina (até ao mais íntimo) um sujeito não é simplesmente a função da linguagem. ou seja. em abstracto. p. 789 Néologismes de Jacques Lacan. c‟est-à-dire lalangue qu‟il habite. a inventar um neologismo para esse tipo de língua que determina o sujeito e que não coincide. o inglês e o alemão. op. de tal modo que. é a pura relação de homofonia. o feliz (ou infeliz) encontro sonoro. Pois bem. nomeadamente. por assim dizer.). ou precisar melhor o que queremos dizer quando falamos da importância da dimensão linguística. Une langue entre autres n‟est rien de plus que l‟intégrale des équivoques que son histoire y a laissé persister. 25-41. ela não é mais do que a totalidade dos equívocos que a sua história aí deixou persistir555. op. Autres Écrits. antes de ser uma relação (natural ou artificial) com um significado. ele dá origem a múltiplos equívocos significantes. às línguas naturais. em que passamos do direito ao avesso sem descontinuidade. ver PELISSIER. que determina o sujeito.. ver GRANON-LAFONT. Graças a essa materialidade. A língua do sujeito é feita de ruínas. ao longo da história do pensamento ocidental. comentando de novo a fórmula do inconsciente estruturado como uma linguagem – e por aqui se percebe que o sentido da fórmula já não é o mesmo554 – alingua (lalangue). entre significantes de duas (ou mais) línguas. cit. a partir de um certo momento já estamos no seu avesso. inteiramente contingente. mas sim uma língua particular e os seus equívocos significantes. Sendo assim. acima de tudo. o que é mais extraordinário no exemplo dado por Freud é que essa língua particular. 554 Seria necessário introduzir aqui. pp. que o inconsciente habita. mas duas: no caso presente. sem descontinuidade. um pouco de topologia para dar conta do que acontece com a fórmula lacaniana do “inconsciente estruturado como uma linguagem”: tal como numa Banda de Moebius (figura a que Lacan faz constantemente referência). Jacques. também é possível pensar que a fórmula lacaniana vai sofrendo uma torção moebiana.

ambígua e pouco exigente em relação ao que se espera de uma enunciação que seja plenamente adequada ao pensamento558. na sua busca de uma ciência rigorosa e de uma fundamentação radical da filosofia. “num sistema de 556 Aproximando-se. AGOSTINHO. como tal. p. sem a equivocidade significante) foi igualmente. LACAN. Damos aqui. Como diz Santo Agostinho: por vezes. Também Husserl. Santo. p. e a perspectiva de Freud e Lacan sobre os mesmos. 1995.cit. DESCARTES. Com efeito. Como escreve Frege. Edmund. de perto. “aquele que ambiciona saber mais que a maioria das pessoas devia envergonhar-se de procurar motivos de dúvida nas formas de falar que o povo inventou”557. ao longo da história do pensamento ocidental. uma vez que são dadas ao erro. uma fala plena. enquanto santo Agostinho considera o lapso. Descartes. diz-nos. por um desvio da prñpria lìngua” (Cf. op. que embora as coisas se apresentem claras e distintas quando reflectimos em silêncio sobre elas556. Exemplos desta preocupação e desconfiança são de tal forma abundantes.seria do dito espirituoso. ao longo dos tempos. que seria fastidioso enumerá-los. Mas talvez o exemplo mais representativo. da tese de Santo Agostinho (De Magistro). que acabaria por ser retomado por toda uma linha de pensadores. segue a via dos que acusam a linguagem comum de ser fluida. para outros. digamos assim. à mentira e ao lapso. p. op. Porto: Porto Editora. uma fala vazia.. para Freud e Lacan ele constitui uma oportunidade de revelação da verdade do sujeito e. Percebe-se claramente a diferença entre esta maneira de entender a linguagem. 20.. por exemplo. apenas. segundo o qual as palavras são vãs ou deficientes para aceder à verdade (interior). saem umas palavras por outras. 557 Cf. são objecto de desconfiança. Segundo Descartes. como um defeito. 558 131 . De acordo com esse projecto.cit. Meditaciones Cartesianas. 96). neste aspecto. para começar. “contra a nossa vontade. uma deficiência. motivo de preocupação e desconfiança. livre I. entre outros. seja o projecto de “logificação” da matemática por parte de Gottlob Frege. projecto este antecipado por Leibniz e seguido. HUSSERL. as línguas vulgares vão ser inevitavelmente objecto de desconfiança. Jacques. por Russel. É o que permite dizer a Lacan que “a verdade surge do equìvoco” (“la vérité surgit de la méprise”). por exemplo. Le Séminaire.. a certa altura. erro e engano devido à prática da linguagem e ao facto de estarmos prisioneiros das palavras. p. Cf. op. crìtica e rectificação.397. e o lapso como uma das suas formações (com a concomitante primazia dada à intuição). Cf. três exemplos que servem de ilustração.cit. 130. O Mestre. Meditações Sobre a Filosofia Primeira.

completo e unívoco. MILLER. 562 Sobre a diferença entre o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. que se trata. Mesmo se a preocupação “lñgica” dos autores referidos mais atrás (com Frege à cabeça) parece ter sobretudo um sentido lógico-formal e não comunicacional. 104 560 Cf.”559 Com vista a superar ou evitar tais “flutuações de sentido”.signos perfeito. Gottlob. que se tornam insuportáveis no dizer de Frege560. « Sens et Dénotation (Sinn und Bedeutung) ». usando uma expressão de Jacques-Alain Miller. do “sonho dos filñsofos”563 por excelência. Lisboa: Editorial 561 Presença. dizendo de outra forma: de suprimir o sujeito da enunciação. in Ornicar . um sentido determinado deveria corresponder a cada expressão.) dos equívocos e ambiguidades inerentes à língua comum. aqui. Mon Enseignement. Mesmo se a direcção e o alcance dessa busca nem sempre têm um sentido unívoco. a resposta vai consistir na busca de uma “lìngua perfeita”561. pp. escrito por Leibniz em 1677.Bulletin Périodique du Champ Freudien (Adresse au Congrès de L‟École Freudienne.. como se a infelicidade se devesse. Cf. op. Sobre os nomes. da lógica. 1996. p. 23. Jacques. Ibidem. sem deixar resto562. Umberto. de libertar a linguagem (da ciência.cit. a questão de fundo parece ser consensual: trata-se de “purificar”. Roma. de alguma forma. 132 . ver LACAN. 1994. no processo de comunicação enquanto tal. p. ao mau funcionamento da linguagem ou estivesse ligada à imperfeição 559 Cf. o que parece estar em causa é a eliminação de tudo o que constitui ruído. 2 de Novembro de 1974). ver ECO. De acordo com o modelo comunicacional. etc. ser felizes. FREGE. 104 (nota de rodapé). Jacques-Alain. A Procura da Língua Perfeita. por assim dizer. Mas as línguas vulgares estão longe de satisfazer esta exigência. « Théorie de lalangue ». a história e as vicissitudes dessa busca. Ou seja. Podemos dizer. Um sonho que começa na busca de uma língua nova (diversa da que é falada por toda a gente) e acaba na pretensão de que esta língua nos permita. 563 “(…) le rêve des philosophes”. Paris: Éditions du Seuil. uma certa ligação entre estes dois registos está bem patente no “Prefácio à Ciência Geral”. de tal modo que os enunciados possam finalmente articular-se num todo. p. 49-50. finalmente. a que fizemos referência no capítulo anterior deste trabalho. in Écrits Logiques e Philosophiques.

em 2005. LEIBNIZ. Étourdit. Leibniz. Cf. eliminação. 133 .da razão564. “tem de se ficar em silêncio”569. Como escreve Leibniz. pp. Nessa medida. op. quando ele for efectuado “não restará aos homens mais do que ser felizes”565. 2006. Esta língua nova. Cf. Giorgio. Obras Escolhidas. entre outros) é hoje uma realidade. op. a grande ilusão foi pensar que elas podem igualmente ser faladas e não apenas escritas. MILLER.. ela permite igualmente “fechar a boca aos ignorantes”. a posteriori. como tal. como relembrava Jacques-Alain Miller numa comunicação apresentada em 1974. que o sujeito da enunciação é. Lisboa: Edições Cotovia.cit. p. não permitindo estabelecer a diferença entre o dito e o dizer566. 25. evitando os erros de cálculo. como diria Wittgenstein. Porém. tendo um grande uso e servindo maravilhosamente para a comunicação entre os povos. p. Ibidem. ao mesmo tempo que não permite o engano. 18 Sobre a diferença entre o dito e o dizer. o facto (hoje indiscutível) de que estas línguas não podem ser faladas. a ideia leibniziana (prosseguida graças aos trabalhos de Frege. As línguas formais. é “uma lìngua sem enunciador possìvel”570. o que é finalmente perseguido na busca de uma “lìngua perfeita” é a completa exclusão. Finalmente. supressão do sujeito. AGAMBEN. prova. Jacques. Ludwig. 17. S/d. segundo Leibniz. ela seria recebida por toda a gente. purificada de todo o equìvoco e ambiguidade. Além disso. e que têm uma utilidade e um alcance verdadeiramente assinaláveis em diversos domínios. sendo este projecto o último esforço do ser humano.cit. A língua com que sonhavam Leibniz e outros. comentando Walter Benjamin. Não obstante. por assim dizer. Profanações. realmente existentes. p. Quanto ao resto. 18. equivalência entre “magia e felicidade”. Giorgio Agamben escrevia. p. 25-30. segundo os termos de Lacan. p. 142. Russel.. Tratado Lógico Filosófi- 566 567 568 569 co. perfeita. uma vez que “não se poderá falar nem escrever nessa lìngua senão do que se entende”568. 570 Cf. um texto onde estabelecia uma estranha. Jacques-Alain. Cf. LEIBNIZ. « Acerca daquilo de que não se pode falar tem de se ficar em silêncio” (Cf. Na verdade. Um “lìngua morta”. uma vez que tudo seria “dito a propñsito”567. 565 Cf. “Prefácio à Ciência Geral”. Lisboa: Livros Horizonte.cit. 564 Contra esta ideia de que há uma certa equivalência entre a felicidade e a razão..cit. op. ver LACAN. mas elucidativa. devido à sua extrema facilidade. op. WITTGENSTEIN. constituem a tradução concreta de semelhante projecto. barbarismos e outras faltas de gramática. não teria “equìvocos nem anfibologias”. desde que seja usada correctamente.

o que está em causa em Lacan é destacar. a curto-circuitar o Outro (Autre) simbólico por meio do pequeno outro (autre) imaginário 573. ao mesmo tempo. LACAN. de que fazemos uso quotidianamente. 697-717. o que se tratou ali de fazer foi um começo de formalização571. pelo contrário. 571 “Ce que je vous aurai donc amorcé. é porque ela tende a “imaginarizar” as ditas relações. 572 “Au point où nous en arrivons. a posição de Lacan? De um certo ponto de vista. não é capaz de situar de forma adequada as “relações entre o sujeito e as diferentes modalidades do outro”.impossível de eliminar. Cf. que vous ait été suggéré la possibilité d‟utiliser de semblables formules pour situer les rapports entre le sujet et les différents modes de l‟autre. fechada e sem resto. Ibidem. Quer dizer: se a linguagem usual (usuel).cit. Jacques. o muro do imaginário) e o grafo do desejo (onde a cadeia significante encontra certas resistências e inércias imaginárias). c‟est un commencement de cette formalisation. neste primeiro momento do ensino de Lacan. no simbólico. o esforço de formalização lacaniano consiste essencialmente num movimento de significantização das relações entre o sujeito e o Outro. enquanto função e campo da fala e da linguagem. » Cf. 574 O simbólico lacaniano não se confunde com qualquer tipo de simbólica ou simbolismo. Eis o que impede que alíngua (lalangue) se transforme numa linguagem (langage) formalizada. Le Séminaire. unívoca. enquanto. “À la mémoire d‟Ernst Jones: Sur sa théorie du symbolisme ». a um esforço de formalização. é separar as águas entre os dois registos. *** Qual é. Jacques. pp. 411. qui ne peuvent être articulés autrement. completa. LACAN. Jacques. Desse ponto de vista. apelando.. 411.cit. op. car le langage usuel ne nous donne pas les fondements nécessaires pour ce faire. a saber: O esquema L (onde o eixo simbólico do discurso do Outro encontra a barreira. je crois. 573 Este “curto-circuito” está bem patente nos dois esquemas lacanianos a que já fizemos referência nos capìtulos anteriores. Como dizia Lacan na última lição do Seminário IV. por isso. A causa principal de um tal esforço reside nas deficiências da linguagem corrente para dar conta das relações do sujeito com as diversas modalidades do outro572. Livre IV. p. proferida no dia 3 de Julho de 1957. se trata de rebaixar o pequeno outro (quer seja o semelhante ou o próprio eu) a um plano imaginário574. E o que se trata. LACAN. elevando o Outro. a pura dimensão “significante”. 134 . in Écrits. » Cf. ele parece estar de acordo com os que criticam ou desconfiam da linguagem comum (usual ou corrente). p. op. a um plano simbólico. neste contexto. l‟important est.. desde que estes apelem a uma dimensão imaginária. ou seja.

como dirá Lacan mais tarde. Paris: Éditions du Seuil.nulle formalisation de la langue n‟est transmissible sans usage de la langue elle-même. c‟est l‟écrit. de tal maneira que não sobre resto576. mais qui ne subsiste que si j‟emploi à le présenter la langue dont j‟use. Editions du Seuil. Le Séminaire. Porquê? . Lacan não cessa de afirmar que não há metalinguagem. notre idéal. No limite. 576 O Símbolo SA/. por outro lado. porém. “o impasse da formalização”577. da que é empreendida por outros movimentos de pendor logicista. o nosso ideal. A formalização matemática é o escrito. Na verdade. Pourquoi? . Jacques (1968-1969). É aí que reside a objecção – nenhuma formalização da língua é transmissível sem o uso da prñpria lìngua. capaz de se transmitir integralmente. mas que só subsiste se eu emprego a língua que eu uso para a apresentar. em vez 575 “(…) não há metalinguagem. LACAN.” Cf. contrariamente aos que acreditam numa completa formalização da linguagem. Encore. um movimento de significantização do Outro (e do próprio sujeito. na medida em que este é concebido como um efeito do Outro). o “outro”. É por meio deste impossível de formalizar que se define o real lacaniano. C‟est là qu‟est l‟objection .” [“La formalisation mathématique est notre but. »] Cf.cit.” [“(…) il n‟y a pas de métalangage. vai adquirindo um estatuto cada vez mais fundamental no ensino de Lacan. Le Séminaire. que estancasse. Resumindo toda esta questão. a linguagem. 108.Ao mesmo tempo. Jacques. 579 Cf. na medida em que o esforço de uma formalização completa se revela impossìvel. por assim dizer. Livre XVI. É a expressão deste movimento de báscula. que dará o título ao Seminário que Lacan vai animar em 1968-1969: De um Outro ao outro579. et cela précisément parce qu‟il n‟y a pas de moyen de formaliser au delà de ce qui est donné comme structure primitive du langage. Não há metalinguagem no sentido em que isso quereria dizer por exemplo uma matematização completa do fenómeno da linguagem. op. 2006. e isso precisamente porque não há meio de formalizar para além do que é dado como estrutura primitiva da linguagem. p. Livre XX. isto vai implicar uma completa subversão da tese lacaniana de que o inconsciente está estruturado como uma linguagem. há formalizações (…). desde o princípio. Lacan diz o seguinte: “A formalização matemática é o nosso fim. 135 . La formalisation mathématique. Por outro lado. D‘un Autre à L‘autre. nenhuma formalização da língua é transmissìvel sem o uso da prñpria lìngua”578. LACAN. concebido não como semelhante ou como alter-ego (imaginário). mas como o resto que sobra desse esforço de formalização. a significação desse esforço demarca-se. Com efeito.porque 577 578 só ela é matema. “(…) l‟impasse de la formalisation. a fluidez da língua.. 85. quer dizer.parce que seule elle est mathème. de oscilação. c‟est-à-dire capable de se transmettre intégralement. Há aqui dois movimentos que convém apreender e separar: por um lado. il y a des formalisations (…). pretende matema-tizar uma tal impossibilidade. p. Il n‟y a pas de métalangage au sens où cela voudrait dire par exemple une mathématisation complète du phénomène du langage. »]. LACAN. Paris. no que esta implicaria um tal estancamento575. inscrito no andar superior do Grafo do Desejo. Ele é o que impede que um tal esforço de formalização chegue a bom porto. quer dizer: é impossível fechar o Outro num todo. Ele traduz.

No fundo. como função eminentemente simbólica. O resto é. Como dirá Lacan em 1973. esta subversão não deixará de ter implicações na forma como a questão do sujeito é equacionada. Le Séminaire. ele fica dependente do Outro. 2004. não existe. 580 “Le langage est une élucubration de savoir sur lalangue » Cf. 255. sendo este que o produz como efeito. » Cf. 125. “a linguagem é uma elucubração de saber sobre alìngua”580.cit. LACAN. 70-71. c‟est bien parce que le langage. ele é mais sujeitado (no sentido passivo do termo) a uma operação simbólica do que sujeito (no sentido activo do termo) da mesma. como diz Lacan. Ibidem. vai ser relegada para um segundo plano. De um sujeito supostamente. do que sobra da operação de formalização ou significantização. p. ver PELISSIER. destituído do poder fundador que lhe outorgava a modernidade. para quem estava habituado a declamar a tese do inconsciente estruturado como uma linguagem. Nessa medida. em Lacan. LA- 583 CAN. a um sujeito barrado ($). p. uma “função irredutìvel que sobrevive à prova do encontro [do sujeito] com o significante puro”583. 126. “Si j‟ai dit que le langage est ce comme quoi l‟inconscient est structuré. o termo parlêtre (ser falado e falante) corresponde a todo um movimento de oscilação que vai do Simbólico ao Real. op. sofre. 581 Le langage est ce qu‟on essaye de savoir concernant la fonction de lalangue. quer dizer. d‟abord. Livre X. o sujeito. antes de mais. é porque a linguagem..). uma nova destituição: já perdera o estatuto fundador (que lhe tinha sido concedido pela modernidade) em prol do lugar do Outro. Paris: Éditions du Seuil. Jacques. Jacques. De tal modo que Lacan será obrigado.da primazia que detinha nos primeiros anos do ensino da Lacan. LACAN. por assim dizer. do significante à letra. Le Séminaire. Dizendo de uma forma ainda mais estranha. Naturalmente. cette fonction irréductible qui survit à l‟épreuve de la rencontre avec le signifiant pur (…) » Cf. a inventar um neologismo. L‘angoisse. pp. ça n‟existe pas. Jacques (1962-1963). 136 . passamos. Em vez da autonomia e da unicidade que aquela lhe conferia. miticamente pleno (S). «(…) la fonction du reste. para dar conta desta subversão582. Com isto. digamos assim. parlêtre.cit. A linguagem é o que tentamos saber a respeito da função d‟alìngua”581. perde agora a primazia em favor do “outro”. op. livre XX. Lacan esclarece: “Se eu disse que a linguagem é como o inconsciente está estruturado. Yan (e tal. 582 Sobre os diversos usos do termo parlêtre. da linguagem à “alìngua”.. como o “nome do resto”.

op. 255. É também o nome. Ora.Por outro lado. Livre X. por conseguinte. Enquanto função simbñlica. do impossível de formalizar. » Cf. Jacques. quando a linguagem. que faz obstáculo. do que “resta”.cit. passa para segundo plano relativamente à língua (lalangue). p. no sentido em que este é “o que sobrevive à prova da divisão do campo do Outro pela presença do sujeito”584. LA- CAN. o “nome do resto”. na medida em que ele era essencialmente uma função da linguagem? 584 “Qu‟est-ce que le reste? C‟est ce qui survit à l‟épreuve de la division du champ de l‟Autre para la présence du sujet. 137 . ele é também. ao pleno e completo fechamento do Outro. o que acontece ao sujeito. Le Séminaire. de uma falta. enquanto elucubração de saber”. de alguma forma. ele é o nome de um certo “vazio”. no sentido em que impede..

après-coup. 1983). intitulado “O Seminário sobre a ‗a carta roubada‘”585. representaria o alvor do romance policial. por exemplo. p. como fizemos no capítulo anterior. de Jorge Luis Borges (Cf. Editions Mille et une nuits. 43). La Lettre Volée. UGE. O conto que Poe desenvolve. VERAIN. pp. para este efeito.. Ela faz parte de uma trilogia587 que.. comentário anexado à tradução francesa da Carta Roubada (cf. Jerôme. segundo o desenrolar da própria obra). Penguin 586 Books. LACAN. que o sujeito é antes de mais uma função simbólica equivale a afirmar que ele é essencialmente um efeito (e não uma causa) do significante. a colectânea dos Escritos. segundo alguns588. o efeito singular que ela produz em nós – ―a Carta Roubada priva-nos de um elemento essencial desta receita: nem assassínio nem cadáver. com 585 Cf. “Un Conte Policier”. E nada melhor. talvez. London. quer de um ponto de vista interno (isto é. The Purloined Letter. visto que Lacan se reporta igualmente a ela (cf. quer de um ponto de vista externo (isto é. Jacques. 11-61. faremos igualmente referência à tradução francesa de Baudelaire. convém começar por meio de um exemplo. op. Mas de que falamos nós quando falamos de significante? Para responder adequadamente à questão. O pequeno conto de Edgar Allan Poe intitulado A Carta Roubada586 é uma obra singular: pequena no tamanho. 587 Juntamente com O Duplo Assassínio na Rua Morgue e O Mistério de Maria Roget. De uma forma geral. por exemplo. no entanto. o sentido ou a direcção que Lacan lhes pretendeu imprimir. dando assim. as citações desta obra reportam-se ao original inglês (Cf. “Le conte policier”. Cf. Écrits. 1995 – com um comentário anexado de Jérôme Vérain). em 1966. É o caso. No entanto – e daí.cit. in Autopsies du Roman Policier. do que o conto de Edgar Allan Poe. 1994). 588 589 138 . op. a que Lacan dedicou um seminário em 1955.cit. segundo o impacto que causa. sempre que tal se mostre necessário. É este seminário que abre. in Selected Tales.‖589 A sua trama é composta unicamente por algo que caberia numa simples frase: uma carta que circula de mão em mão.CAPÍTULO QUARTO O significante ou a letra Dizer. nos seus leitores). mas grande na quantidade de efeitos que produz.

apesar da tentativa. finalmente. não só o documento furtado. a carta estava voltada. a rainha. O seu valor não reside. de resto). op. a sua própria insignificante. não sem antes se ter apoderado da carta que não lhe pertencia. Na sequência disto. o ministro.. por seu turno. em nome da dama (qual cavaleiro medieval) 593 e do dinheiro que esta. deixando. reconhece a escrita do endereço. ele tira do seu bolso uma carta análoga à primeira. o qual. em perspicácia. mas antes na “intensidade do efeito” que provoca. e penetra no seu segredo. chamar a atenção. por fim. na extensão dos feitos que narra. Jerôme. Como não teve tempo de guardá-la numa gaveta. Apesar da rainha se ter apercebido de tudo. chega o ministro D. o ministro sai precipitadamente. Entretanto. foi interrompida pela entrada súbita de uma outra ilustre personagem de quem ela desejava. 355: “Neste negñcio (matter) eu agi como partidário (partisan) da dama em questão”. No momento em que iniciara a leitura da mesma. VERAIN. promove as necessárias diligências a fim de restituir à rainha. despede-se. nota o embaraço da pessoa a quem ele é dirigido. esta. segundo a bela e ajustada expressão de Baudelaire591.cit. para que lhe seja devolvido o documento em questão. Não obstante. foi obrigada a colocá-la completamente aberta sobre uma mesa. faz uso de toda a sua argúcia para furtar o respectivo documento às investigações da polícia (o que consegue. esconder a carta: o rei. a rainha desdobra-se em esforços. junto da polícia de Paris. num reduzido número de páginas. por isso. ela não pode manifestá-lo abertamente em presença do rei. Cf. suplanta. p. como acontece muitas vezes numa certa literatura. de tal forma que “pode ler-se de um só fôlego”590. abre-a. quer a polícia. Cf.cit. resume-se nisso. estão dispostos a pagar do seu bolso. com o endereço para cima. 339. bem como o próprio inspector da polícia. portanto. O conto resume-se em poucas palavras: a rainha tinha recebido uma carta quando se encontrava no toucador real. percebe rapidamente a situação: vê o sobrescrito. op. a saber. Entretanto. sobre a mesa. e não parecia. por sua vez. finge lê-la e coloca-a ao lado da outra. Conversa ainda durante alguns minutos sobre diversos assuntos e. quer o ministro e desata finalmente o 590 “Tout d‟une haleine”. Cf..mestria absoluta. acima de tudo. 591 592 593 139 . cit. e Dupin. Após a realização apressada de algumas tarefas habituais. p. op. como igualmente a honra em vias de perder-se. que está ao seu lado. com seu olho de lince (his lynx eye)592. segundo a expressão de Baudelaire (citado por Jerôme Verain).

”595 Nota-se aqui. afirma na página 41 dos Écrits. op. Não é. e não quem a recebe. inicialmente. encontrando o documento desaparecido e fazendo-o chegar à rainha. Ela não tem. Ela vai surtindo os seus efeitos. sem que ninguém jamais tenha tido que se preocupar com o que ela queria dizer. isto é. como aconteceu. este conto de Poe. Jacques. segundo a fórmula da comunicação elaborada por Lacan: “o emissor (o sujeito) recebe do receptor (o Outro) a sua própria mensagem sob forma invertida”. o seu próprio desejo. Kafka endereçou ao pai (destinatário). Por meio da carta. que o verdadeiro destinatário da carta. em momento algum. da letra. diríamos nós. finalmente. pode ter simultaneamente o sentido de algo que é furtado e que se afasta ou distancia (se põe à 596 597 distância). Como relembra Dupin ao inspector da polícia: “é o facto da posse (possession) e não do uso (employment) da carta que cria ascendente. ela não pára de furtarse. o que cada um recebe (na medida em que é o seu destinatário) é a sua própria mensagem. é quem escreve a carta. a quem ele fora. isto é. de si mesma. não nos é dito. é ele próprio. Daí que o valor não seja de uso. em suma. um livro seria como 594 Tal como Lacan. Por conseguinte. mas um valor: o de conferir ascendente àquele que a detém em seu poder. por exemplo. pois. ou quer dizer. o seu sentido. em função do seu conteúdo que todo este enredo se organiza. Com efeito. o argumento resume-se em poucas palavras: uma carta que circula de mão em mão e acaba.cit.cit. da letra596. 503 No título original. mas tão só os efeitos ou as transformações que provoca pelo simples facto de estar na mão deste ou daquele. uma absoluta dominância da carta. por isso. que é o verdadeiro destinatário da mesma. por chegar ao seu destino. p. de afastar-se597. O que ela diz. LACAN. das acusações que ele dirige ao pai. Não interessa de onde ela provém ou o que esconde. isto é. Écrits. enquanto pura letra (significante puro que não quer dizer nada). de forma invertida. de subtrair-se a si mesma. endereçado. demonstrando assim. isto é. Com o uso.nó. o que. visto que baralha e confunde as coordenadas que presidem habitualmente à abordagem de uma obra. quer dizer. Kafka. de todos os pontos de vista. Em última análise. em si mesma. é igualmente desconcertante para o leitor. redistribuindo as peças do jogo. 595 Cf op. Isto porque. p. o ascendente desaparece. um sentido. 140 . aliás. 340. Por conseguinte.594 Sobre a carta. ou se as cartas nem sequer são enviadas. isto é. mas de posse. além de genial na sua contextura. com a famosa carta que F. ele não deixa de confirmar no próprio texto. “uma carta chega sempre ao seu destino” [“une lettre arrive toujours à sa destination”]. mas que nunca chegou a enviar. Cf. de faltar no seu lugar. como dissemos já. purloined. é deixada deliberadamente de lado. de resto. aparentemente. o que ela contém. Mesmo se o destino não é forçosamente o destinatário.

como é óbvio. in Essais Critiques. por outro lado. logo depois. Roland “Littérature et Signification”. 600 Tanto no original inglês. ou o que é que o autor quis dizer através do texto599. e a boa literatura é. 141 . o que é que o texto quer dizer.cit. 19)... Paris. p. Luc Ferry: “Afinal – pergunta-se ele a este respeito – por que razão não perguntamos apenas: „O que é que esta palavra diz?”. BARTHES.cit. afinal de contas. isto é. de facto. 351 (original).): “fazer sentido é muito fácil. da „circulação‟ pura e simples de uma carta/letra600).cit. finalmente. remeter finalmente a questão do sentido para o âmbito religioso. a palavra sentido?”. já que esta “é insubstituível no seu papel de conferir sentido” (op.598 Ou seja: trata-se de saber. 32 (tradução de Baudelaire). um sentido literal (letra) e epistolar (carta) é absolutamente evidente. p. Luc Ferry fazia a seguinte pergunta: “Que significa. como em francês (segundo a tradução de Baudelaire). 601 Cf. suspender o sentido é já uma tarefa infinitamente mais complicada. p. fazendo aqui apelo a uma expressão de Roland Barthes. a que luta abertamente contra a tentação do sentido (tentation du sens)”. é. em português não dá. se quisermos. O Homem-Deus. que pode ser lida na página 278 (Cf. neste conto de Poe. neste caso. op. para manter a ambiguidade. seriam ininteligíveis. Não seria difícil. 1997). sublinhado pelo autor). p. 28-29). ibidem. de forma a reduzir.cit.cit. de resto. a grande preocupação de Lacan por esta altura. neste caso. de um mero efeito de superfície. É o que poderíamos denominar. 318). ao mesmo tempo.uma mensagem que teríamos de compreender. de ―tentação do sentido”. esta ambiguidade da letra (letter. 1964. Seuil. pelo contrário. Seuil. a intenção de um sujeito (sublinhados do autor) – e portanto a presença subentendida de uma pessoa. respondendo. lettre). Diz ele. não deixa de ser interessante como a questão do sentido parece remeter para (e pressupor) um sujeito. Paris. o complexo ao simples. consoante o contexto assim o exigir. Ora. Poderìamos ainda acrescentar esta outra passagem. não se estabeleça uma separação muito nìtida entre o “sujeito” e o “eu” . ou seja.que é.. estarão tão essencialmente ligados à própria ideia de um sentido. op. quase no fim da vida: “A estabilidade da religião – dizia ele – resulta do facto de que o sentido é sempre religioso” (Cf. que. como reconhece. Lisboa: Asa. para lá do que revela a superfície. Por isso. aquando do seu primeiro encontro601: “Talvez o mistério seja um pouco simples 598 Cf. ainda que. mas „nadificar‟ (néantiser) o sentido é um projecto desesperado. é evidente que isto faz depender a questão do sentido de uma „intenção‟ subjectiva. 2001. uma arte. A pergunta não seria suficiente para obter a informação desejada? Por que razão o querer – ou seja. Eis o que torna um pouco menos obscuras estas palavras de Dupin. de outro modo. de um Eu. 28. toda a cultura de massas não faz outra coisa ao longo do dia. como também não é evidente que haja alguma coisa a compreender (da ordem de um mistério ou de um sentido a decifrar) para além do que está manifesto. Num livro publicado há alguns anos (Cf. impossibilitando-nos de nos abstrairmos disso numa pergunta tão banal?” (op. p. pelo contrário.” 599 É interessante como esta maneira de ver a questão permite estabelecer um elo entre campos aparentemente tão diversos como a literatura e a filosofia. desocultando ou fazendo emergir o que está oculto nas profundezas. com isto. 276 : “(…) a „má‟ literatura é a que pratica uma boa consciência dos sentidos plenos (sens pleins). Lettre de dissolution. que tem. Pois bem. in Autres Écrits. por meio de uma nova pergunta: “O que é que isso quer dizer “ (op. É o próprio Lacan quem o reconhece. Mas. afinal. na proporção da sua impossibilidade. dirigindo-se ao inspector da polícia de Paris. não só a profundidade não está oculta nas profundezas (resultando.. a própria letra do texto. faremos uso de uma ou outra (ou de ambas) as traduções possíveis. p.

Mesmo se em português a tradução pode soar um pouco forçada. LACAN. no prefácio da Lógica do Sentido. et dont on a fait un si mauvais usage». (inédito). recorrendo a uma frase de P. quais foram as razões que levaram tanto Lacan. diz o seguinte: “Não faço psicologia das profundezas. op. Cf. Da mesma forma. Eles constituem o avesso de uma certa tradição (tanto filosófica quanto psicanalítica) que defenderia a ideia de que seria preciso escavar. da expressão original. p. 603 Cf. esta depreciação do termo “profundezas” (profondeurs) o qual parecia ter para Freud – porventura segundo uma leitura apressada – um papel crucial. e deixem essa categoria nauseabunda para os senhores Jaspers e seus consortes. como Deleuze. uma perfeita ilustração do respectivo pensamento. o paradoxo até. Contra esta ideia. por seu turno. Le Moi dans la Théorie de Freud et dans la Technique de la Psychanalyse. L‘Objet de la Psychanalyse. in Écrits. Não é difícil adivinhar. Para Lacan. Gilles. p..”606 602 No original: “Perhaps the mystery is a little too plain” (sublinhado do autor). Lacan. 604 605 Paris. por agora. Jacques « Situation de la Psychanalyse en 1956 ». no Seminário XIII. 1978. Ele representa. do lado da psicanálise. na tradução de Baudelaire: “(…) un peu trop clair”. pelo que acaba de ser dito. vem geralmente a par de uma outra depreciação: a que diz respeita a uma certa tendência para compreender demasiado depressa. para o confirmar. aprofundar.] 142 .demais602. [« Gardez-vous de comprendre! Et laissez cette catégorie nauséeuse à Mrs Jaspers et consorts.”604 No ensino de Lacan. ela tenta conservar o contraste. sessão de 4 de Maio de 1966. alimentées par ce terme de profondeur que Freud aurait pu éviter. Paris: Éditions de Minuit. do lado da filosofia (para dar apenas dois exemplos paradigmáticos) a interessar-se por este conto de Poe. – conclui ele – era talvez em virtude da sua absoluta simplicidade”. Cf. Le Séminaire. num dado momento dos seus percursos. 370 [« (…) bien d‟absurdités. Le Séminaire. referindo-se àquele primeiro encontro com o inspector da polícia: “ (…) se o mistério o embaraçava tanto. em 1956 – „Abstenham-se de compreender!‟. Livre XIII. LACAN. Livre II. Valéry. Deleuze. o termo “compreensão”: “nñs repetimos aos nossos alunos – dizia Lacan num texto dos Escritos. LACAN. dois exemplos. 1969 (prefácio). desenterrar. DELEUZE. Jacques. 471. Logique du sens. Bastariam. “Muitas absurdidades são alimentadas por este termo de profundeza que Freud poderia ter evitado e de que se fez um tão mau uso”605. escreve: “(…) no sentido e no não sentido. „o mais profundo é a pele‟” 603 . descer às profundezas para ser capaz de apreender aquilo mesmo que se trata de apreender. Jacques. 606 Cf. Seuil. E já na parte final. o termo de „profundeza‟ é um mau termo.cit.

Livre III. mais vale não compreender para pensar. aquele que compreende. o efeito deste fascínio é directamente proporcional à infecundidade que ele gera na nossa capacidade de pensar: quanto mais somos atraìdos pelo sentido „dado‟. É o prñprio Lacan a reafirmá-lo desde os primeiros Seminários: “(…) é sempre o significado – dizia ele na sessão de 2 de Maio de 1956 – que colocamos no primeiro plano da nossa análise. num artigo intitulado “Linguisterie (” in Quarto. op. e é o que. já na última fase do mesmo. Porque o sentido. é apanhado numa armadilha. por exemplo. p.º 51. a vertente do sentido. et l‟on peut galoper à comprendre sur des lieues sans que la moindre pensée en résulte »]. Quer dizer: mais depressa deixamos de pensar. etc.cit. que tinha elaborado até essa data. Veja-se... os analistas no seu conjunto imaginam que compreender é um fim em si e que só pode ser um happy end. in Écrits. mais depressa abandonamos o terreno fecundo das aporias e questões. op.. n. algo que só muito mais tarde. parce que c‟est assurément ce qu‟il y a de plus séduisant. 250: “…) c‟est toujours le signifié que nous mettons au premier plan de notre analyse. ao conjunto de artigos. les analystes dans son ensemble s‟imaginent que comprendre porte sa fin de soi et que ce ne peut être qu‟un happy end. e é possível percorrer léguas compreendendo sem que disso resulte o menor pensamento. em 1966. L‟exemple de la science physique peut pourtant leur montrer que les plus grandioses réussites n‟impliquent pas que l‟on sache où l‟on va. O exemplo da ciência física. ficaria absolutamente claro. desde logo.» Valia a pena. Jacques.”607 Ora. porque é seguramente o que há de mais sedutor. foi para realçar.Tanto no que diz respeito à profundeza como à compreensão. 608 Cf. conferências. Muitas vezes.”608 Eis onde o título que Lacan deu. relembrar aqui as palavras de Elisabeth Doisneau. p. Le Séminaire. no entanto. ganha um novo alcance e um novo entendimento. a este propósito. o bom senso.cit. Jacques. Junho de 1993. fascinado. e bem entendido o senso comum não passam de „contra-sensos‟ (…)”. é em certa medida um sentido único. et c‟est ce qui au premier abord paraît être la dimension propre de l‟investigation symbolique de la psycanalyse. Se ele chamou Escritos a esse conjunto de trabalhos. Além disso. 55): “(…) Ao tomar a via do sentido. LACAN. tão fascinante que aí nos atolamos. à primeira vista. Daì que Lacan não se canse de afirmar o seguinte: “À força de compreender um montão de coisas (tas de choses). para aquele que se reclama de ter „compreendido‟ Freud. LACAN. o que ele 607 Cf. p. « La Direction de la Cure ». o aspecto literal que decidira imprimir ao seu ensino. Il vaut souvent mieux de ne pas comprendre pour penser. 615 [« À force de comprendre des tas des choses. 143 . universal (…): o do complexo de Édipo. o problema é basicamente o mesmo: trata-se de lutar contra o „fascìnio‟ ou a „sedução‟ que exerce em nñs o „significado‟. parece ser a dimensão própria da investigação simbólica da psicanálise. pode mostrar-lhes que os mais grandiosos sucessos não implicam que se saiba para onde se vai.

611 Cf. p. 609 Cf. tout autant qu‟au dehors : sur nous.”609 Ficam. ainda que provisória.dizia no Seminário XX: “isso. e também em seu autor. Como dissemos mais atrás. sans que jamais personne ait eu à se soucier de ce qu‟elle voulait dire. Livre XX. mas uma tal equação arrasta consigo um novo problema. a letra610 tanto pode surtir os seus efeitos internamente. inclusive o narrador. neste momento. que possua uma identidade (isto é. Lettre.. 35 [« L‟écrit. Lacan joga constantemente com a ambiguidade 610 que a homofonia lhe permite. sem que ninguém jamais tenha tido que se preocupar com o que ela queria dizer. O que. Por exemplo. ligadas as pontas do seu ensino. no entanto. ainda que com múltiplas variações. deste modo. tanto significa letra como carta. p. um ser. lecteurs.. não é para compreender. Le Séminaire. é o destino comum”611. y compris le narrateur. Encore. « Le séminaire sur „La Lettre Volée‟ ». a equação é formada a partir dos seguintes termos: letra  significante. nos actores do conto. uma pergunta: a que título é aqui convocada a letra por Lacan? Como primeira resposta. *** Resta. no original. 57 [« Dont l‟essence est que la lettre ait pu porter ses effets au-dedans : sur les acteurs du conte. que ele tenha um sentido (isto é. por acaso. do princípio ao fim. diríamos: a letra é convocada por Lacan. que Lacan decide abrir os seus Escritos com o Seminário dedicado à Carta Roubada de Poe: é que “na sua essência.cit. Jacques. uma natureza própria) e que ocupe um lugar (ou uma posição que lhe estaria reservada pela sua própria natureza). in Écrits. et aussi bien sur son auteur. de tudo o que se escreve. LACAN. uma essência. op. Jacques. leitores. Parece simples. 144 . que queira dizer algo). por exemplo.cit. finalmente. na medida em que. como conceber este termo: o significante? Espera-se. ça n‟est pas à comprendre »]. LACAN. Ce qui de tout ce qui s‟écrit est le sort ordinaire »]. a título de significante. uma mesma „direcção‟ fundamental lhes foi traçada: a direcção da letra. E não é. o escrito. Nesta fase inicial do seu ensino. quanto do lado de fora: em nós. op.

pelo contrário. “O nosso ponto de partida. LACAN. de tal forma o significante em relação ao significado. p. 12). Écrits. em seguida. mas 612 É evidente que Lacan foi colher este termo no Curso de Linguística Geral. 210 : «Notre point de départ. Como diz Lacan na Instância da letra. Le Séminaire. René. op. Paris: Flammarion. e que a primazia que tem o real em relação ao pensamento se inverte do significante para o significado. 613 Cf. op.”613 Isto quer dizer igualmente que o significante. enquanto tal. c‟est que tout vrai signifiant est. Começando por inverter a fórmula saussuriana (pondo o significante onde Saussure colocava o significado. LACAN. uma essência ou uma natureza própria do significante que o tornaria idêntico a si mesmo. Ce que recoupe ce qui se passe en vérité dans le langage où les effets de signifié sont crées par les permutations du signifiant. isto é. “Ou seja – como sublinha Lacan num texto de 1959 – (…) que a relação do real com o pensamento não é a do significado com o significante. um dos textos mais emblemáticos desta época. nenhuma destas características parece estar presente. Em primeiro lugar. daí a conhecida fórmula de Lacan: „um significante é o que diz o sujeito (e não o significado) para outro significante.” Em segundo lugar.cit.. em Lacan612. Lacan avec Derrida. Jacques. de Saussure.. além de não ter. é a sua diferença. o significado. 2001. O que confirma aquilo que em verdade acontece na linguagem. 502 [« le signifiant de sa nature anticipe toujours sur le sens… »]. por si mesmo. 705 [« (…) c‟est que le rapport du réel 615 au pensée n‟est pas celui du signifié au signifiant. um significante que não significa nada.»].cit.Pois bem. op. pelo menos. Les Psychoses. car nous serons toujours au point de départ. o que existe. não é decisiva. 145 . mas seria um equívoco pensar que ele se fica por aí. p. MAJOR. em si mesmo. não algo que lhe estaria colado e que permitiria identificá-lo. É a chamada “subversão por Lacan do signo saussuriano” (Cf. p. não depende do significado. Jacques. mas efeito do significante. é que todo o verdadeiro significante é. « Sur la Théorie du Symbolisme d‟Ernest Jones ». pois estaremos sempre no ponto de partida. um significante. Livre III.cit. não quer dizer nada. o que funda o significante.» 614 LACAN. le point où nous en reve- nons toujours. “ (…) o significante. Quer dizer: o significado não é causa. qualquer significação. que ele deixa de ter qualquer relação imediata com este para se relacionar primordialmente com o conjunto dos outros significantes. pela sua natureza antecipa-se sempre ao sentido (…)”614. onde voltamos sempre. en tant que tel. onde era suposto haver uma identidade. un signifiant qui ne signifie rien. sobre a barra) e autonomizando. et que le primat que le réel a sur le pensée s‟inverse du signifiant au signifié. Jacques. quando falamos do significante. onde os efeitos do significado são criados pelas permutações do significante615. Pelo contrário: é este. p. é uma „diferença‟: “porquanto o que caracteriza.. in Écrits. ou. não é de todo o que quer que seja que lhe esteja ligado enquanto sentido. quer dizer. que depende daquele.

Ora. a sua diferença reside nos outros. Livre XVI. por último. a segunda. É esta capacidade.cit. Le Séminaire. et qui permettrait de l‟identifier. Jacques. e de forma ainda mais radical. 501 [« Ce que nous appelons la letrre. no real nada falta 616 619 . poderíamos dizer que o significante não só difere de todos os outros (a sua identidade é a sua diferença). que ela não existe por si mesma. ela tem um lugar na estrutura. visto que uma aponta para a localização (isto é.. Jacques. cit. em poder faltar no seu lugar. à lui. Cf. aqui entendida como significante. op. mas antes simbólico. op. p. duas passagens. Le Séminaire. p. Lição de 12 de Fevereiro de 1969 [« Ce qui caractérise. aparentemente contraditórias. isto é. Livre XVI. Cf. Como conceber uma tal diferença? Confrontemos. Jacques.”616 Por último. independentemente da relação diferencial que estabelece com as outras. A sua „natureza‟ reside. LACAN. Cf. 618 Cf. como dissemos mais atrás. como tal. Écrits.. non pas quelque chose qui lui est collé. a atribuição de um lugar) à letra. Le Séminaire. LACAN. que uma letra não está em parte nenhuma618.o facto de que todos os outros sejam diferentes dele.. c‟est-à-dire. Sa différence réside dans les autres. mas difere igualmente de si mesmo. c‟est sa différence. de Lacan. 295 [« Si nous définissons le réel d‟une sorte d‟abolition pensée du 619 matériel symbolique. por estrutura. Sendo assim. não há nada que a fixe. 146 . Como conciliar estas duas frases. Por conseguinte. o estatuto do significante não pode ser real. Livre II. enquanto a outra diz que a letra. localizada. pelo contrário. embora o produza). A primeira diz que aquilo a que chamamos letra releva de uma estrutura essencialmente localizada do significante617. como é demonstrado pela carta/letra roubada. por fim. entre si. em relação a si mesma (na medida em que pode faltar no seu lugar). op. em relação aos outros significantes (que lhe dão retroactivamente sentido) e. LACAN.cit. embora não seja esse lugar. mais le fait que tous les autres soient différents de lui. nada que a prenda definitiva nem substancialmente a esse lugar. ce qui fonde le signifiant. não está em parte alguma? Ao afirmar que uma letra é. 236 [« (…) une lettre est justement nulle part »]. acontece que. Jacques. à savoir la structure essenciellement localisée du signifiant »]. D‘un Autre à L‘autre. que lhe dá um estatuto triplamente diferencial: em relação ao sentido (que ela não é. ce n‟est absolument pas quoi que ce soit qui lui soit attaché comme sens. que lhe dê uma identidade ou um ser. segundo a definição recorrente de Lacan. LACAN. il ne peut jamais rien manquer »].] 617 Cf. tal significa.

Dizer que o estatuto do significante é simbólico significa. como diz Lacan. p. Ibidem [“C‟est qu‟on ne peut dire à la lettre que ceci manque à sa place... DELEUZE. E é. Isso que não tem uma natureza real nem imaginária é um significante puro. do simbólico621.. LACAN. não é algo de real). 620 Cf. de ce qui peut en changer. na medida em que. Écrits. como o verdadeiro “motor” da mesma. op. Tem como propriedade não se encontrar onde é procurado. dos intervenientes do conto é. um elemento simbólico. finalmente. Ele está sempre deslocado em relação a si mesmo. 29. Jacques. de forma magistral. a qual é. p. Do mesmo modo que falta na sua própria semelhança (e. Com efeito.é determinado pelo lugar que vem ocupar (…) esse significante puro que é a carta roubada (…)”623. por isso. isto é. Aqui o termo sujeito deve entender-se em toda a sua ambiguidade: tanto como o objecto (ou 623 624 tema) em torno do qual gira a trama do conto. “Como Reconhecer o estruturalismo”. realmente. não é um conceito)622. LACAN.cit. op. não é uma imagem) – que falta na sua própria identidade (e. um livro só pode faltar simbolicamente no lugar onde é procurado. Referindo-se ao estatuto do elemento paradoxal que circula na Carta Roubada. como acontece à carta/letra roubada) algo que esteja inscrito numa estrutura ou rede de símbolos.cit. Isto porque só pode faltar no seu lugar (bem como mover-se de um lugar para o outro. ele não falta. antes de mais. de alguma forma.diz Lacan . visto que se encontra algures. Deleuze resumiu. 147 . de ser encontrado onde não está. determinado pela circulação desta carta/letra. O mesmo acontece à ficha ou ao livro perdido na biblioteca (segundo outro exemplo de Lacan). Jacques. 16. um lugar na rede simbólica620. por isso. Cf. deslocado em relação a si mesmo e faltando no seu lugar que ele pode determinar aquilo que acontece aos respectivos sujeitos (no sentido de sujeitados à ordem simbñlica). quer dizer. Écrits. Cada um dos sujeitos. por isso. c‟est-à- 621 dire du symbolique »]. Jacques. Só podemos dizer à letra que algo falta no seu lugar. “ o verdadeiro sujeito (le sujet véritable) do conto”624. Diremos que ele falta no seu lugar (e.. atribuir-lhe a capacidade de poder faltar no seu lugar. mas em contrapartida. sujeitado. p. 264.cit. isto é. como tal. opcit. Jacques. 25. ele escreve o seguinte: “(…) a natureza deste objecto vai ser precisada por Lacan. daquilo que pode mudar. determinado. op. Cf. o pensamento de Lacan sobre esta questão. 622 Cf. “Veremos que o seu deslocamento . Cf. Ele só falta porque lhe foi marcado. LACAN. Gilles. LACAN.

cit.. o que é estabelecido por Lacan é uma equivalência entre o significante e a “sonoridade”. Jacques. Ao jogar constantemente com o equìvoco entre lettre (missiva) e lettre (suporte material do significante). 148 . independentemente do significado (estabelecido pelo dicionário). mais do que uma relação entre o significante e o significado. Sendo assim. em Lacan.*** Recuemos um pouco. Écrits. tem efeitos de sentido inéditos graças ao poder da “homofonia”. em grande medida. (homo)fonia. Dizer significante equivale. se tornou algo de absolutamente resistente e o significante ganhou. Tal só é possível porque a “barra” que separa o significante do significado. pp. Por outro. tratase de estabelecer uma equivalência entre a letra e o significante. o que implica que. Em ambos os casos se nota que o significante. por seu turno. 493-528. a maior parte dos ditos espirituosos elencados por Freud é impossível de traduzir num outra língua sem que o seu efeito se perca. Com efeito. a dizer. Lacan não deixa de pôr em acção tais equívocos significantes. do witz. dissemos que uma das suas características é a extrema dificuldade ou a resistência que ele oferece à tradução. Um dos motivos por que tal acontece. nesta primeira fase do ensino de Lacan. trata-se de desligar cada vez mais o significante do significado para o ligar à (homo)fonia (isto é. de um termo fazerem equívoco. Por um lado. Esta (homo)fonia é ainda mais evidente no segundo exemplo a que fizemos referência: o caso de fetichismo. uma autonomia radical frente ao significado. No fundo. dizer letra (ou “instância da letra” 625) equivale a 625 Cf. o que acaba por condicionar o desejo e modo de satisfação sexual do sujeito que aí é retratado é unicamente um equívoco significante que resulta de uma pura homofonia entre dois significantes que pertencem originalmente a duas línguas diferentes. se bem que não seja o único. Com efeito. op. não há apenas uma mas pelo menos três equivalências que são estabelecidas por Lacan. a homofonia. LACAN. para Lacan é essencialmente esta capacidade de uma palavra. Quando falámos. mais atrás. um significante. o inglês e o alemão respectivamente: Glance (que significa olhar) e Glanz (brilho). Na verdade. é que a sua textura significante se baseia em grande medida numa certa consistência “fñnica” (senão mesmo homofñnica). aos equívocos sonoros).

significante e (homo) fónica. Écrits. entre o significante e a letra. MAJOR. Dizer. tem em Lacan um dos seus alvos preferenciais631. visto que há um campo não fonético da escrita ou elementos não fonéticos nas escritas ditas fonéticas632. o livro divide-se em duas partes distintas. neste contexto.dizer significante (ou lógica do significante). op. Paris: Editions Minuit. Como a “casa vazia” de certos jogos. Neste contexto.. Jacques. 628 Cf. [« la théorie des jeux. Le Titre de la Lettre: une lecture de Lacan. 629 630 631 632 149 . 626 Cf. Cf. de forma magistral. op. Por último. Cf. Jean-Luc. ele é estritamente reduzido à fórmula. calculável. MAJOR. René.cit. a primeira respeitante à “Lñgica do significante” e a segunda à “Estratégia do significante”.cit.cit. 52. Écrits. todas as restantes equivalências (nomeadamente a que liga a letra ao simbólico) começam também a ruir. p. a desconstrução do fono-logo-centrismo. 41. estabelecida esta equivalência. 1967. significa. “L‟axiomatique de la phonétisation de la lettre”. Cf.cit. que ela acaba. um produto ou uma função desta trama simbólica-significante-literal. en est l‟exemple.. num texto já famoso. DERRIDA. Philippe. Para aquilo que nos propormos aqui – a reconstituição da “lñgica do significante” em jogo – é sobretudo a primeira parte que nos interessa. Paris: Éditions Galilée. 860. De la Grammatologie.. p. o sujeito é concebido como estando “sujeitado” (tal como mostra. 50. Philippe Lacoue-Labarthe e Jean Luc Nancy626.. por revelar a sua natureza simbólica. op.. mais cedo ou mais tarde. Jacques. bem como o “recalcamento da escrita” desde Platão. Ou seja: o que é estabelecida é “uma equivalência entre a articulação simbñlica a fonematicidade (phonematicité)”630 da letra enquanto significante. où l‟on profite du caractère entièrement calculable d‟un sujet strictement réduit à la formule d‟une matrice de combinaisons signifiantes »]. que uma “carta (lettre) chega sempre ao seu destino”628. Ele é essencialmente um efeito. p. A partir do momento em que se começa a discutir a equivalência ou a redução da letra à “fonematicidade”. LACAN. Jacques. como mostraram. como faz Lacan. NANCY. mieux dite stratégie.cit. Deste ponto de vista. René. LACAN. Na verdade. Lacan avec Derrida. de uma matriz de combinações significantes”627. É o que René Major resume ao falar de uma “axiomática da fonetização da letra”629. op. p. MAJOR. 50. LACOUE-LABARTHE. 627 Cf. 1990. op. o exemplo do fetichismo) à ordem simbólica e aos equívocos significantes que daí resultam. trata-se de mostrar que ambas pertencem a um registo simbólico. a que procede Derrida.

après-coup. 25.cit. 25. Psychanalyser: un essai sur l‘ordre de l‘inconscient et la pratique de la lettre. o que está em causa. Vejamos. “Pois o significante é unidade por ser único. « Pois não se pode dizer à letra que isto falta no seu lugar senão do que pode mudar de lugar.. já neste primeiro tempo do ensino de Lacan. MAJOR. Jacques.. 150 . como uma prática da letra » [« La psychanalyse s‟avère donc être une pratique de la lettre »]. op. ele considera mesmo a psicanálise como sendo essencialmente “uma prática da letra”639. p. Écrits. LACAN. Serge Leclaire. mais em particular. peut toujours ne pas arriver à sa destination‟. 634 Para servir-me de dois termos de inspiração derridiana retomados por René Major (Cf. 639 Cf. op. „une lettre.cit.E é possível afirmar. isto é. Num estudo já clássico.cit. que uma carta (letra) pode ou não chegar ao seu destino633.. Écrits. 633 “Depuis Lacan. 640 Cf. op. Lacan avec Derrida.. também é justo dizer que. Cf. p. por ele analisado até à exaustão). ou a uma pura fórmula literal (como no caso do famoso sonho do Unicórnio (le rêve à la licorne)640. 99: “A psi- canálise revela-se.” [Nous désignons par lettre ce support matériel que le discours concret emprunte au langage. il arrive donc qu‟elle arrive ». 24. É talvez esta duplicidade (não completamente explicitada ou desenvolvida como tal) que está na base daquilo que poderíamos chamar. *** Apesar de tudo.. que de ce qui peut en changer. Cf.cit.. 638 “Designamos por letra este suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem. portanto. Cf. há uma certa “duplicidade” ou “divisibilidade” da letra634: por um lado. Jacques. por outro. c‟est-à-dire du symbolique »] Cf. op. op. Écrits. LACAN. senão sìmbolo de uma ausência” [“C‟est que le signifiant 635 est unité d‟être unique. não sendo. do simbólico637 – e. como “suporte material”638. inspirado por Lacan. p. Serge.). ela é encarada essencialmente como “sìmbolo de uma ausência”635. Jacques. neste sentido. por excelência. mais comme cela peut aussi ne pas arriver. 495. LACAN. op. por natureza. Écrits. pp. LECLAIRE. um certo malentendido entre Lacan e Serge Leclaire quanto ao respectivo uso e consideração da letra. como “aquilo que falta (ou pode faltar) no seu lugar”636 – característica. Munido de uma tal ferramenta. tal como acontece desde as primeiras páginas da Instância da Letra. Ibidem.cit. p. op. 19. dedicou uma especial atenção à letra. ele abordou o corpo. 97-117. no seminário dedicado à Carta Roubada.”] Cf. o desejo e o sonho. p.cit. de modo a destacar o que há na letra de irredutível ao sentido. p. com Derrida. n‟étant de par sa nature symbole que d‟une absence”]. René. do simbólico » [“C‟est qu‟on 637 ne peut dire à la lettre que ceci manque à sa place. 636 “(…) ce qui manqué à sa place(…)”.cit. numa tentativa de os reconduzir a uma ordem da letra. LACAN.

de justapor. dos perigos que podem advir (também aí na esteira de Lacan) da tentação de compreender. cit. Paris.cit. Leclaire estava ciente. conscient. Éditions du Seuil. lui. p. aliás. ou à ordem literal. 23). 151 . por exemplo. a pretexto de que ele. Écrits. Écrits. Psychanalyser. Serge. as seguintes passagens.) significantes que não querem dizer nada e que têm de ser decifrados” [“(…) signifiants qui ne veulent rien dire et qui sont à déchiffrer. mas a articulação. op. desse modo. porventura. 643 Cf. Jacques. por sua vez. na „necessidade‟ sentida por ele. ainda não fora dita a última palavra? Ou que mais vale. op. Primeira:“A evidenciação (la mise en evidence). cada vez que faz referência à letra.et encore moins ceci qui en résulte : que ce n‟est pas l‟effet de sens qui opère dans l‟interprétation. como que a dizer: sempre que aqui se fala de letra. também aqui. 108 : « la tentation de compreendre est forte. constitui o essencial da cura.cit. 644 Vejam-se. na situação analítica. o termo significante. sourtout lorsque l‟analyse fait ainsi apparaître des thèmes qui entrent assez commodément dans le cadre de notre savoir ».”643 A quem era. nos Escritos. o jogo combinatório das letras (significantes)”. p. em si mesmo. pois este havia dito e redito que um significante. op.. Leclaire retoma esta problemática em 1971 com o seu livro Desmascarar o Real. já nesse texto. é consciente dela. (Cf.. sobretudo quando a análise faz surgir temas que se encaixam comodamente no quadro do nosso saber. começar por não identificar demasiadamente depressa a letra ao significante. página 840: “(. Diz ele: “Que Serge Leclaire seja questionado por poder considerar inconsciente a sequência do Unicórnio (licorne). de reforçar esta ideia. que o próprio Leclaire já então suspeitava de que. 1971. LECLAIRE. »] 642 Cf. O próprio Lacan não deixaria. LECLAIRE. significa que não se vê que o inconsciente só tem sentido no campo do Outro ― e menos ainda o que decorre disso: que não é o efeito de sentido que opera na interpretação. deve entender-se como significante. Serge. . sous le pretexte qu‟il en est. no sintoma. ele escrevia nessa altura o seguinte: “A tentação de querer compreender é forte. ao vir em “socorro” do seu amigo Leclaire. A este propósito. LACAN.. afinal. dirigida esta advertência? Não seria. que tinha efectivamente „compreendido‟ Lacan... nada se modificou entretanto. Por ordem literal entendo (…) o fenñmeno da estrutura.644 641 Cf. Atente-se. LACAN. Aparentemente.confirmando. Position de L‟inconscient. dos significantes (sem nenhum sentido) nele encerrados:”642. veut dire qu‟on ne voit pas que l‟inconscient n‟a de sens qu‟au champ de l‟Autre. mais l‟articulations dans le symptôme des signifiants (sans aucun sens qui s‟y sont trouvés pris). a respeito da letra. não significa nada641. a título de exemplo. da falta (défaut) da ordem literal (significante). 842 : « Qu‟on dispute à Serge Leclaire le pouvoir de tenir la séquence à la licorne pour l‟inconcient. p. Démasquer le Réel. No entanto. entre parênteses.

11: « Desmascarar o real é o trabalho do psicanalista » [“Démasquer le réel est le travail du psychanalyste”]. Serge. diferenciando-o simultaneamente da realidade (imaginária) e do simbólico647. um texto emblemásegunda: “A dimensão do desejo não pode ser concebida. enquanto tal. ao pretender manter-se fiel à teoria do significante de Lacan. selon la formule de Lacan) et le fait qu‟en même temps chaque lettre se caractérise par sa singularité. 43. Leclaire apercebe-se da dificuldade. ou seja.. op. do impasse. como Lacan estabeleceu definitivamente.. 28).. igualmente. O problema poderia resumir-se da seguinte maneira: na medida em que ele pretende „salvar‟ a equivalência entre a sua letra e o significante de Lacan. 32).. da Instância da Letra no Inconsciente” (Cf. o prñprio Lacan e „trair-se‟ igualmente a si prñprio.do inconsciente – para uma outra. p. » 647 Cf. Vejamos como Leclaire colocava. de outra maneira que através do reconhecimento da primazia da organização literal (significante). op. cada letra se caracterizar pela sua singularidade”646. Ora. (Cf. LECLAIRE. 65 : «Le plus vif du problème posé par la lettre (…) réside dans le contraste entre le fait que n‟importe qu‟elle lettre assure ces mêmes fonctions (de représenter le sujet . aliás. p. 11-12.Porém. La Cause Freudienne. como diz Lacan em Lituraterre.cit. « Lituraterre é explicitamente a rescrita. há algo que não encaixa neste esquema redutor. p. “La 648 lettre volée et le vol de la lettre”. à equação que relacionava letra e significante. Serge. não ficara adormecido na sua prñpria „teoria do significante‟ e evoluíra para um novo entendimento da letra: já não como equivalente ao significante (enquanto função simbólica) mas fazendo aquela resvalar cada vez mais para a categoria de real. segundo a fórmula de Lacan) e o facto de. na medida em que este.cit.pour une autre. pois.de l‟inconscient . ao mesmo tempo. pp. LECLAIRE.cit. nos anos 70. Paris: Navarin. 1999. como desmascarar o real da letra (como se propusera no título e no prefácio do seu livro)645. p. op. Segundo Éric Laurent. reler a Carta Roubada e rescrever a Instância da letra648. Real este. ao mesmo tempo. Trair-se a si próprio na medida em que uma tal equação lhe impede de pensar a especificidade da letra. op. Leclaire acaba por „trair‟. É esta nova vertente que permite. nem como „separar‟ a singularidade da letra (enquanto função literal) da equivalência de todas as letras (enquanto estrutura ou rede simbólica). entretanto. à partida. a questão. acontece que. relativamente ao significante. Trair Lacan. 646 Cf. Serge. LECLAIRE. Ibidem. cit. ele não sabe. 152 . 645 Cf. “O mais vivo do problema colocado pela letra (…) reside no contraste entre o facto de que qualquer letra assegura as mesmas funções (de representar o sujeito . se podemos dizer assim. que Leclaire não deixa de pôr em destaque e precisar. por esta altura.

LACAN. mas ao real. LACAN. op. “ (…) a letra é no real e o significante no simbñlico”649. como vimos.” [“L‟écriture. que se deixou de imaginá-lo. fica igualmente desfeita uma das equações que esteve na base do diferendo entre Lacan e Derrida. Lituraterre. Daí. op. é o próprio real. progressivamente.cit. é isso que suporta o real. p. na medida em que “(…) o real con-siste (tient) na escrita”652. dans le symbolique ». onde Lacan parece não deixar qualquer tipo de dúvida. uma nova equação: a letra já não é equivalente ao simbólico (significante). com o 649 Cf. de pequenas letras matemáticas. na seguinte passagem.. op. Paris: Éditions du Seuil. Jacques. ça m‟intéresse. Jacques. O que eu inscrevi com a ajuda de letras das formações do inconsciente não autoriza a fazer da letra um significante”650. que René Major traduziu. „toca‟ no real. de uma forma geral. Le Séminaire. Le Sinthome. em última análise. É sua prñpria concepção inicial da letra que aqui está a ser posta em causa. 650 “Rien ne permet de confondre comme il s‟est fait. Jacques.tico deste segundo „perìodo‟. »]. assenta. como se fez. a letra com o significante. 651 Cf. no “primeiro” (a que tem inìcio nos anos cinquenta). feita pelo “segundo” Lacan (dos anos setenta). p. Lição de 13 de Janeiro de 76. on est rentré dans le réel. in D‘un Discours qui ne serait pas du Semblant.cit. la lettre avec le signifiant. É esta nova orientação. esta advertência. Letrareal. pode traduzir-se nos seguintes termos: fazer chegar a carta/letra do desejo ao seu verdadeiro destino consiste em „encaminhá-la na direcção do real. como acontecia nos primeiros tempos. Ce que j‟ai inscrit à l‟aide de lettres des formations de l‟inconscient n‟autorise pas à faire de la lettre un signifiant » (Cf. Impõe-se.. Ibidem). pois penso que historicamente foi por meio de pequenos pedaços de escrita que se entrou no real. que vai servir de fio condutor aos últimos seminários de Lacan. LACAN. Ou. Livre XXIII. a saber. não apenas como operação simbñlica. Cf. Se o sentido é a letra e se esta. o repto lacaniano que consistia em dizer que era preciso tomar o desejo à letra653. mas como „sulco‟ ou „atadura‟ no real. É pela escrita. Evidentemente. A escrita de pequenas letras. ao dizer que “(…) nada permite confundir. historiquement. Jacques. Jacques. talvez de forma ainda mais explícita. 68 : “A escrita interessa-me. Écrits. igualmente. Lição de 12 de Maio de 1971 : « (…) la lettre c‟est dans le réel et le signifiant. 2005. L‟écriture des petites lettres mathématiques est ce qui supporte le réel. LACAN. 620 : « Il faut prendre le désir à la lettre » 653 153 . uma nova valorização da escrita..cit. p. à savoir qu‟on à cessé d‟imaginer. Com isto. 652 Cf. pois o sentido (a direcção) do desejo. 136 : «(…) le réel tient à l‟écriture ». como uma luva. como vimos mais atrás. segundo esta perspectiva. então. puisque je pense que c‟est par des petits bouts d‟écriture que. LACAN. que acedemos ao real651.

657 Cf. 131. 233. René. op. “Notice de fil en aiguille”. Derrida.” Cf. ai-je dit.qui sont ce qu‟elle a “de plus précieux »]. nomeadamente a partir do texto Lituraterre (Cf. Livre XIII. op.cit. Para além de mostrar que não é inteiramente verdade que. equivalente ao significante. in La Carte Postale. 439-525. c‟est un discours sans paroles ». Paris : Flammarion. É o que permitirá a Lacan. Jacques-Alain Miller. 655 “Il y a déjà un monde entre une lettre et un symbole phonologique. Madelaine de Gide660. 656 Cf. Livre XVI. indivisìvel e ideal”658 ..com. para Lacan. dans son entièreté de femme. com base num texto dos Escritos onde as cartas (lettres) são destruídas por meio do acto de uma mulher. Le Séminaire. et même affiché un jour. “Há um mundo – recordava ele a 13 de Abril de 1976 – entre uma letra e um símbolo fonológico”655.jacquesderrida. 11 : « L‟essence de la théorie psychanalytique est un discours sans paroles ». a letra seja algo de “intangìvel. É por isso que. de desfazer uma tal equivalência. de uma verdadeira mulher. ele não deixa.. LACAN.cit. na lição de 26 de Novembro de 1969. Le Séminaire. in Écrits. na última fase do mesmo. Jacques. p.segundo a crítica de Derrida659 -. 658 Cf. ele não deixa de dar conta desta “evolução” do pensamento de Lacan no que diz respeito à consideração da letra. ele relembra igualmente que quan654 Mesmo se num texto mais recente. L‘envers de la Psychanalyse. Le Séminaire. Cf. no seminário de 13 de Novembro de 1968. por exemplo. “le facteur de la vérité ». Le Sinhtome. 154 . Jacques.que são o que ela tem « de mais precioso » [“(…) le seul acte où elle nous montre clairement s‟en séparer est celui d‟une femme. 1980. Livre XXIII. pp. indestrutìvel. num “discurso sem palavras” (discours sans paroles)656. Jacques. MAJOR. quando se trata de introduzir um conjunto de “letras” ($.cit. Jacques-Alain. em última análise. Jacques. Este acto é o de queimar as cartas . “Jeunesse de Gide ou la lettre et le désir ». Mesmo se uma tal equivalência existiu efectivamente no primeiro ensino de Lacan. in LACAN. não deixou de relembrar este diferendo entre Lacan e Derrida. p. LACAN.ar/restos/major_rene. Jacques.cit. no Seminário O Avesso da Psicanálise657. Cf. para adquirir um estatuto real. retomando a mesma ideia no ano seguinte. LACAN.. op. Cet acte est celui de brûler les lettres .. livre XVII.. LACAN. d‟une vrai femme. p.termo “axiomática da fonetização”654. num posfácio que escreveu aquando da publicação do Seminário XXIII.htm>. S2. 11 : «ce que je préfère. lecteur de Freud et de Lacan). em sua inteireza de mulher. p. Disponível em WWW : <URL : http://www. S1. op. DERRIDA. p.cit. MILLER. a) que vão dar origem à noção de discurso. D‘un Autre à L‘autre. mais do que um diferendo (em relação a Derrida) ou uma diferença (em relação a Leclaire). falar. de tal modo que ela perde o estatuto essencialmente simbólico. Le Séminaire. op. 761 : « (…) o único acto onde ela (Made- 659 660 laine) nos mostra claramente separar-se delas é o de uma mulher. o que importa sobretudo apreender é o movimento de constante torção a que Lacan vai submetendo a letra ao longo do tempo. Jacques.

op. como relembrava Lacan em 1972.cit. Jacques.. Livre XX. Serge. Se o sujeito representava. Gil. Cf.cit.do esta crítica é levada a cabo. LECLAIRE. só pode conceber-se o gozo por meio de 661 Cf. Quarto. isto é. Le Séminaire. p. Além disso. com um poema do mesmo. numa primeira época.. o grau máximo de dessubstancialização664. 664 665 666 667 155 . Algo que. Lacan já tinha uma outra concepção da letra e da escrita.cit. consequências para a problemática do sujeito. LACAN. LACAN. os capítulos 3. “Lituraterre”.. tal como demonstra o texto Lituraterre661. naturalmente.cit. Cf. Isto tem. no último ensino de Lacan. École de la Cause Freudienne . Aliás. nomeadamente à estreita articulação que este propôs entre a “letra”. Écrits. nesta última fase do seu ensino. “os nñs são uma escrita (…) e uma letra”662. onde o equívoco significante é uma constante. A letra acaba por funcionar. já não há maneira de introduzir qualquer equívoco significante663. Serge. Neste aspecto. 9. “Nevermore!”. acontece que para Lacan.cit. 11-20. nomeadamente. p.. op. assim. 662 “(…) dans le Sinthome. CAROZ. 186. Jacques. MILLER. Jacques-Alain. real. nomeadamente no Seminário O Sinthoma (Le Sinthome). Sobre este texto. intitulado Nevermore.ACF Belgique. LACAN. LACAN. Jacques. in Pouètes de Pouasie. op. tem muito pouco a ver com o significante dos anos cinquenta. pareceu-nos como predestinado a ocupar aqui o lugar reservado (dévolue) nos Escritos ao “Seminário sobre A Carta Roubada (La Lettre volée)”. 700. 236. in Autres Écrits. Cf. 26. de dobradiça entre o simbólico (do significante) e o real (do gozo). Le Séminaire.. Livre XXIII. o real se aproxima cada vez mais da noção de gozo (jouissance). Cf. pp. Autres Écrits. onde. Ora. Jacques. o que acontece quando Lacan introduz o termo de “substância de gozo” (substance jouissante) ”665? Talvez seja necessário. na verdade. p. op.. “O sujeito sñ designa o seu ser ao barrar tudo aquilo que ele significa” (Cf. (Ver. op. p.cit. a partir do momento em que surge pela primeira vez esta expressão.cit. les nœuds son une écriture (…) et une lettre ». valeria a pena confrontar o conto de Poe. op. “Lituraterre”. Jacques-Alain Miller escreveu o seguin- te : « Por muitas razões. 21. “Prologue”. o “corpo” e o “gozo”666. A Carta Roubada. voltar a Leclaire. 4 e 7). como uma espécie de “placa giratñria”. nº 70. p. Jacques. “Une interrogation sur la jouissance” (Cf. Eis onde ela demonstra o seu carácter literal. 663 Cf. desde o princìpio que ele concebia a psicanálise como “uma interrogação sobre o gozo”667. LECLAIRE. neste caso. in LACAN. op. E.

Écrits. qu‟un corps cela se jouit ». aparentemente. Mas será que o sujeito desaparece. o objecto. mas dividido. 669 Parlêtre: uma maneira de exprimir o inconsciente” (Cf. Jacques. Livre XX. agora trata-se sobretudo de mostrar como. “Biologie lacanienne et événement de corps”. o termo sujeito é.. O termo que Lacan inventa para isso é jouissance). nº 44.cit. nomeadamente. Neste caso. Sobre esta nova articulação entre o corpo e o gozo. a barra não deve entender-se como um apagamento. Será que. op. Fevereiro 2000. isso goza (ça jouit)671. Ao mesmo tempo. enquanto o segundo é uma tentativa de “formalizar” a pulsão freudiana. op. p. Jacques. o sintoma e o gozo. JacquesAlain. bem como aos diversos curto-circuitos imaginários dessa cadeia. 88. ou é eliminado pura e simplesmente? Antes de darmos o próximo passo. apontava já para essas duas 670 671 dimensões (a fala e a linguagem. segundo a forma como Lacan o escrevia: $. 26 : « (…) nous ne savons pas ce que c‟est que d‟être vivant sinon seulement ceci. finalmente. le Triomphe de la Religion. de um lado. Neste contexto. e segundo que modalidades. 805-817. só sabemos o que é estar vivo por meio disto: que um corpo (se) goza668. “Subversão do sujeito e dialéctica do desejo”. pp. Por outro lado.um corpo vivo. mas. a barra remetia para uma supressão do eu psicológico e respectivos engodos imaginários. um eclipse do próprio sujeito? Para responder a esta questão é necessário dar o próximo passo e interrogar. A resposta lacaniana a este novo intrincado de questões é a invenção do termo parlêtre669. um novo ponto de partida: onde. a barra assinala o facto de que o sujeito é estruturalmente dividido. 156 . a prñpria noção lacaniana de “gozo” (jouissance). p. LACAN. a palavra de ordem era isso fala (ça parle). É interessante como o texto-charneira dos Escritos. ver igualmente MILLER. porém. como diria Leclaire. Dizer “parlêtre” não é apenas um novo equìvoco significante (ainda que também possa funcionar como tal670). 668 Cf. nos anos cinquenta. e o gozo. Equívoco entre ser (être) e parler (falar). in La Cause Freudienne. vale a pena relembrar a letra do sujeito e a respectiva “barra”. Como entender esta barra? Relativamente à modernidade. relegado para segundo plano. cada vez mais. Diffusion Navarin Seuil.. dos dois “andares” do “Grafo do desejo”: o primeiro dizendo sobretudo respeito à cadeia significante. Cf.cit. do outro) por meio. LACAN. uno e autónomo. 759. Le Séminaire. quando o gozo sobe ao primeiro plano. Jacques. O que vem no seu lugar é.. LACAN.cit. antes de mais. ela parece clara: trata-se de mostrar que o sujeito não é inteiro. op. pp.

PARTE IV O SUJEITO E O GOZO 157 .

in Écrits. Uma tal “subversão” implicou essencialmente. na medida em que se entenda a subjectividade num sentido psicológico ou transcendental674. De acordo com as três ordens ou registos fundamentais que Lacan enuncia para dar conta dos fenómenos que surgem ao nível da clínica. como acontece. O sujeito é o que eu defino em sentido estrito como efeito do significante. 676 Lacan escreve de diferentes maneiras a articulação entre estas três ordens. poderíamos dizer que estiveram 672 Para continuarmos a servir-nos aqui da expressão emblemática de Lacan (Cf. em Ornicar? – Bulletin périodique du Champ Freudien. Livre XXII.cit. 675 Cf. op. ni non plus avec l‟individuel. Jacques. de l‟imaginaire et du réel. o sentido e as etapas da subversão do sujeito672. e o sujeito da tradição filosófica673. 158 . procurouse estabelecer a diferença entre este sujeito. Le sujet est ce que je définis au sens strict comme effet du signifiant. Eis o que é um sujeito (…)” [“Le sujet dont il s‟agit n‟a rien à faire avec ce que l‟on apelle le subjectif au sens vague. Écrits. tanto poderíamos escrever imaginário. Voilà ce qu‟est le sujet (…) »]. 100-101 : «O sujeito de que se trata não tem nada a ver com aquilo que se 674 chama subjectivo em sentido vago. Le Séminaire. Mon Enseignement. simbólico. Nº 5.CAPÍTULO PRIMEIRO A questão do gozo Procurámos mostrar. LACAN. 673 Onde pontuam nomes como Descartes. imaginário e real (uma vez que se trata. por mais paradoxal que possa soar uma tal afirmação. bem como da realidade humana em geral675 (o imaginário. De forma ainda mais precisa. op. sobretudo ao longo dos anos 50. simbólico e imaginário (tal como Lacan irá escrever nos anos finais do seu ensino. consoante o momento do seu ensino e a orientação que preside ao mesmo em cada um desses momentos: assim. Cf. pp. inédito. até agora. no sentido do que confunde tudo. Cf. poderíamos dizer que se visou. Husserl. Jacques. Kant. »].). desembaraçar o sujeito do subjectivo. LACAN. “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l‟inconscient freudien”. nos capítulos anteriores. Jacques.. de dar primazia à ordem simbólica) ou real.” [“ces registres élémentaires dont nous avons depuis posé le fondement dans les termes: du symbolique. p.. LACAN. nomeadamente. Algumas lições deste seminário foram publicadas. o simbólico e o real676).cit. entre outros. no seminário que teve lugar em 1974-1975). 309 : « (…) os registos elementares de que estabelecemos desde então os fundamentos nos termos: do simbñlico. op.cit. do imaginário e do real. por outro. por Jacques-Alain Miller. real. tratou-se de distinguir o sujeito (enquanto resultado ou efeito da ordem simbñlica) do “eu” (enquanto produto imaginário). dois movimentos de diferenciação: por um lado. em ambos os casos. nem com o individual. lacaniano. como simbólico. au sens de ce qui brouille tout.

e subordinada precisamente ao tema “o Simbñlico. consiga dizer por completo o seu ser.”]. LACAN. até aqui. LACAN. em Lacan. a categoria de real ainda não se apresenta como prioritária. que diga por completo e cabalmente o seu ser. pp. Ralph Eugene. isto é. Esta cadeia poderia ser bem ilustrada por meio de “todos os nomes”. Trata-se. impossível de dizer. Manual de Pintura e Caligrafia. Le Séminaire. o que se mantém irredutível quer ao imaginário. o sujeito é essencialmente uma falta que desliza metonimicamente681 ao longo da cadeia significante. 682 Cf. José. ao mesmo tempo que a metáfora corresponde à condensação.” [“(…) ce manque-à-être dont le signifiant introduit la dimension dans la vie du sujet. Jacques.com/lacan/textos/rs1-53. É esta impossibilidade que faz com que não haja. 465 : « (…) a falta-em-ser de que o significante introduz a dimensão na 679 vida do sujeito. para o sujeito. Livre III. MEATYARD. que causa em nós o desejo de continuar a dizer ou a escrever indefinidamente. fundamentalmente dois tipos de “subversão” ou.” Mesmo se Lacan tenta responder como pode à questão levantada. Cf. de dizer. Jacques. cujo primado vai inteiramente para o simbólico. por vezes. o Dr. mas havia o real. no sentido do real. 1983.psiconet. dos vivos e dos mortos. Mesmo se o imaginário parece dar-lhe. Cf.cit. dizendo que “falou um pouco. Jacques. Março de 1993. embora só o explicite e desenvolva. na Sociedade Francesa de Psicanálise. talvez o mais difícil. inédita. para Lacan. como é ilustrado por um outro romance de Saramago. 683 159 . agora. José. SARAMAGO. que precedem e sucedem à sua existência.cit. Cf. p. a este nível. todavia” do real.. tal como é ilustrado pelo romance homónimo de José Saramago682. por diversas vezes. 4ª Edição. do imaginário. Livre V. Lisboa: Editorial Caminho. Lacan da seguinte forma: “você falou-nos do simbólico. Lisboa: Editorial Caminho. 678 “Le réel. 1997. Livre XVII. de forma mais exaustiva. 680 A obra de Ralph Eugene Metayard dá-nos uma boa ilustração das diversas máscaras a que o sujeito se aliena na sua existência. Encontros de Fotografia/Loja da Atalaia. Há um resto. Lisboa. op. de per si.cit. nem um nome. é o impossível678: de imaginar. que o sujeito. LACAN. 143). nem uma imagem.. percebe-se que. de dar um novo passo. Antiga Loja do Olaio. sem que nenhum deles. intitulado Manual de Pintura e Caligrafia683. SARAMAGO. a certa altura. proferida em 8 de Julho de 1953. na última fase do mesmo677. segundo o termo que Lacan vai usar desde o início do seu ensino. op. Todos os Nomes. Le Séminaire. neste momento do seu ensino. 243-262. ao que Freud chamava deslocamento. c‟est l‟impossible” (Cf. op. o real. de escrever.htm). o imaginário e o real” (Disponìvel em www: http://www. quer ao simbólico.em causa. Liebschutz questionou. Daí que Lacan repita. uma consistência (alienando-o nesta ou naquela máscara680). p. Segundo uma formulação negativa.. é essencialmente uma falta-em-ser (manque-à-être)679. de que não falou. mesmo quando este é o seu nome próprio. 681 A metonímia é a figura de retórica que corresponde. É aquilo 677 Numa Conferência. de uma subversão orientada segundo dois vectores: a redução do “eu” a uma cristalização imaginária e a concomitante elevação do sujeito à dignidade simbólica. Cf. Le Séminaire. em alternativa.

Gozo. LACAN.” Cf. 78. a hetereronímia do sujeito684. Serge. se não à dignidade de um conceito fundamental da psicanálise687. pode “transforma-se em toda uma literatura”. servindo-nos aqui de uma expresão de Serge Leclaire. *** Se bem que Lacan tenha feito uso do termo gozo alguns anos antes. MARTINHO. Autres Écrits. seria preferível colocar a questão: quem goza (Cf. parafraseando Pessoa. 1975. 66. cit. fazendo apelo a um termo de Lacan. p. cit. LACAN. a sua fundamental e irremediável heterotopia (héterotopie)685. MARTINHO. 197-281) e “Subversion do sujet” (Écrits. op. quer pelo texto Subversão do Sujeito. sobretudo nos anos finais do seu ensino. Jacques. Eis como Don Juan. MOLINA. (em particular os capítulos dedicados ao “paradoxe de la jouissance”. 1968. O sujeito goza. p. aquele só parece adquirir um verdadeiro relevo ao longo dos anos setenta. José Martinho recordva. Cf. Tirso de. nomeadamente. 687 São quatro os “conceitos fundamentais da psicanálise” para Lacan: o Inconsciente. 2001. em particular com o Seminário XX690. “El Burlador de Sevilla”. pp. De um ponto de vista positivo. El Burlador de Sevilla. p. Livre VII. 20ª Ed. a Transferência e a Pulsão (Cf. Pessoa e a Psicanálise. op. 256. Jacques. 688 Cf.). Jacques. op. fundamentalmente. 186: “(…) une interrogation sur la jouissance”. Coimbra: Almedina. p.. Psychanalyser. Le Séminaire. esta não é a última palavra de Lacan. que mais do que perguntar o que é o gozo (o que elevaria este ao universal do conceito). em vez de desembocar simplesmente no nada ou num “pavor sem nome”. há alguns anos. A forma como Lacan apresenta o gozo nesta 684 Fernando Pessoa mostra bem como esta metonímia (ou esta falta-em-ser).). LECLAIRE. Paris: Éditions du Seuil. Porém. o real é o gozo. 13-14). 689 pp. Encore. José. op. Le Séminaire. Vide. Le Séminaire. Paris: Edition du Seuil. a Repetição. XX. de um modo ou de outro. que a psicanálise passou a ser concebida. cit. 1999. Lisboa: Fim de Século.a que poderíamos chamar. quer pelo seminário dedicado à Ética da Psicanálise. designadamente no início dos anos sessenta689. como “uma interrogação sobre o gozo”688. 160 . mesmo quando não sabe (ou não quer) dizer quem é686. este seminário reabre uma via que fora já encetada. 690 Cf. ou. 685 Cf. responde à pergunta sobre com é ele: “Quem sou? Um homem sem nome (Un 686 hombre sin nombre). Madrid : Editorial Espasa Calpe.cit. pelo menos ao estatuto de uma questão crucial e incontornável com que esta tem de se haver? De tal modo que poderíamos dizer. LACAN. Cf. No fundo. Mas o que é o gozo? De que modo entender este termo que Lacan elevou. José. 1996. Livre XI. ao nível do ser.

Porém. 692 693 Obras Completas.cit.. Esta dupla entrada na problemática do gozo. Goce. a introdução ao problema do gozo faz-se através do Direito. no Seminário XX. 694 Sobre esta problemática. Trata-se de definir as condições em que um sujeito pode usufruir. tirar proveito de um bem. Cada um deles. Lisboa: Fim de Século. Écrits. op. p. um problema: até que ponto será legítimo considerar o gozo como um “conceito” de Lacan. mas sem os malbaratar (gaspiller)692. Isto dá-nos desde já a dimensão plural e sem mestre do gozo. sintomáticos.. Cf. “El goce: de Lacan a Freud”. o gozo à dignidade de uma questão fundamental no âmbito da psicanálise.” 161 . O termo “gozo” (a par de outros termos como “arroubamento”. o 691 « Elle s‟appelle la Jouissance. ainda que diversamente. Jacques. 14: “(…) Gozo é para ler na primeira pesoa do indicativo do verbo gozar: eu gozo. isto é. Nestor. s/d). pp. é a mística. No Seminário XX. Mas o que queremos dizer exactamente quando usamos o termo Gozo? *** Talvez do gozo não possamos falar. como vimos. Gozo. p. procura acercar-se693. LACAN. é Lacan quem eleva. 3ª Edição. MARTINHO. José. Siglo Veintiuno Editores. explicitamente usado por alguns deles.altura – “aquilo cuja falta tornaria vão o universo”691 – indicia já o carácter primacial que lhe vai ser concedido mais tarde por ele. 10. por exemplo. a não ser no plural695. na linguagem do direito e na “lìngua” dos mìsticos694. são nomes aì convocados para o efeito. coloca. Uma outra via de aproximação ao gozo. dá testemunho de uma certa experiência de satisfação. pois só há gozos singulares. como algo que já circulava. é importante o livro de BRAUNSTEIN. em particular o capìtulo 1. É verdade que ele não é o criador do termo. Ele serve-se do termo como um readymade. 11-43. ou seja. 695 Cf.) é uma constante nos escritos de Santa Teresa de Jesus (Cf. cada um goza à sua maneira. 818. Cf. 1999. pela primeira vez. ele goza. Como diz Lacan. Jacques. mas sobretudo Santa Teresa d‟Ávila. Por um lado. etc. de que o termo gozo. Livre XX. op. et c‟est elle dont le défaut rendrait vain l‟univers ». como relembrava José Martinho num seminário decorrido no ano de 1998-99. a partir do direito e da mística. Oeiras: Edições Carmelo. Hadewijch d‟Anvers. p. São João da Cruz. Le Séminaire.cit. “o usufruto quer dizer que se pode gozar dos seus meios. 1990. LACAN. O gozo não faz parte dos múltiplos neologismos por si forjados. desde logo. tu gozas. Angelus Silesius.

nessa altura. p. Sigmund. Ludwig. trata-se de estabelecer. op. em particular a sua capacidade para fazer irromper significantes novos na cadeia. presente por exemplo no cómico. Procuramos aqui. famillionaire. Cf. como é ilustrado pelo neologismo “familionário”698. Invstigações Filosóficas. oû apparaît ce signifiant nouveau et paradoxal. É por isso que Freud recorre ao exemplo das crianças: quando estas aprendem a usar o vocabulário da sua língua materna. Mas estas não são as únicas vias de aproximação à experiência ou ao conceito de gozo. Le Séminaire. le point. op. Le Mot D‘esprit et sa Relation à L‘inconscient. por via do Direito. 29 : « O fenómeno essencial é o nó. de Bernini. A arte procurou acercar-se ou contornar este indizível do seguinte modo: dando a ver. onde aparece o significante novo e 698 paradoxal. op. Freud parece ir um pouco além de Lacan. é a dimensão linguística ou significante do witz.cit. FREUD. “designadamente lúdica. Jacques-Alain. o que é impossível de dizer697. Lacan. mais trivial e próxima de nós. 26-33. Neste caso. ou mostrando. Deste ponto de vista. c‟est le nœud. num primeiro tempo. 697 O Seminário XX é ilustrado. Uma outra via possível. O que é sobretudo valorizado por ele. sem que consigam dizer ao certo. é o domínio do Witz (dito espirituoso). que ele revela. familionário. a que Freud e Lacan prestaram uma atenção especial. no que ela consiste exactamente. pp. de um outro modo. Cf. Por outro lado.gozo é sinónimo de usufruto. por uma imagem do “êxtase de Santa Teresa”. suscita ou desencadeia”700. MILLER. 1998. para situar a dimensão do Outro (simbólico) por oposição ao pequeno outro (imaginário). ele reenvia para uma satisfação de que os místicos dizem ter a experiência. Barcelona: Escuela del Campo Frediano de Barcelona. Livre V. WITTGENSTEIN.. in Las Formationes del Inconsciente – El Seminario de 700 lectura del libro V de Jacques-Lacan. que nega a possibilidade de uma “linguagem privada” (Cf. na capa. 56-175.‖ [“Le phénomène essentiel. as condições ou os limites em que tal usufruto é possível. mas igualmente a satisfação particular.. 162 . na consideração que faz do witz. analisando as coisas retrospectivamente. 699 Cf.]. pp. experimentam um enorme prazer lúdico a juntar as palavras sem preocupações de 696 A única que existe. o ponto. cit. “La satisfacciñn particular del Witz ». pondo em relevo não apenas a sua dimensão linguística ou retñrica (através da inventariação de um conjunto de “técnicas do dito espirituoso”699). segundo Wittgensten. e numa linguagem publicamente acessível696. O Witz serve a Lacan. recuperar um exemplo a que já prestámos alguma tenção num capítulo anterior do nosso trabalho.cit.

Como tal. embora num sentido diverso). Jacques. Eis o que está bem patente.para o sujeito. ao desejo. Sigmund. c‟est ce qui ne sert à rien”. não inteiramente redutível ao significante. implicando. Jacques. Le Séminaire. como aconteceu em particular no Seminário V. 127 : « Le langage sans doute est fait de lalangue. Em vez do diálogo para que remete o desejo. de reduzi-lo a uma pura dimensão significante. Como demonstram as crianças do exemplo de Freud. a tentativa de “significantizar” o Witz. Deste ponto de vista. enquanto aparelho de gozo. satisfazendo-se de um modo autista. o gozo opõese ao útil e “ não serve para nada”704. LACAN. de alguma forma. Cf. Le Seminário.. Pelo contrário. não é completamente redutível à linguagem. mas com o único fim de obterem um efeito de prazer por meio do ritmo. na medida em que este. é essencialmente um desejo do Outro705. LACAN. op. o que Lacan irá desenvolver apenas na última parte do seu ensino: a língua. deixa um resto de satisfação. cit.. na sua materialidade sonora. Jacques. C‟est une élucubra- 702 tion de savoir sur lalangue ». isto é. 49. p. Écrits. ou um usufruto – ainda que paradoxal . op. para aquém dos efeitos de sentido que possam resultar de semelhante jogo. da rima ou da repetição do material sonoro701.706. Ibidem. igualmente. 163 . LACAN. e de que todos nós temos a experiência quotidiana. uma “elucubração de saber sobre “alíngua” (lalangue)702. 703 « Une autre satisfaction ».cit. Jacques. De tal forma que a 701 Cf. o gozo manifesta-se fundamentalmente através do monólogo. há uma satisfação – ou uma “outra satisfação703 que resulta do mero acto lúdico de jogar com os significantes. por isso. Cf. op. Cf. como mostrou Lacan. desde logo. Écrits.cit. “La jouissance. Não servir para nada. p.). Livre XX. de gozo.cit.sentido. LACAN. É como se Freud antecipasse aqui. do ponto de vista da necessidade. isto é. inspirando-se em Hegel. no tìtulo do texto: “Subversion du sujet et dialectique du désir dans l‟inconscient freu- 704 705 706 dien (Cf. Cf. 815 : « (…) le désir de l‟homme est le désir de l‟Autre (…) ». FREUD. o gozo parece dispensar o Outro. LACAN. op. não significa que não constitua um proveito. p. p. mesmo se este pode constituir o seu aparelho e a sua condição de possibilidade. A satisfação ou o gozo particular do witz revelam-se aqui como algo que se opõe tanto à lógica ou às exigências do sentido quanto à lógica da necessidade ou utilidade. op. Esta é já uma construção secundária (como diria Damásio.cit. uma dialéctica fundamental. p. Ele opõe-se. Livre XX. 10.. Jacques. 235.

Jacques. etc. op. *** A questão é tanto mais relevante quanto não é evidente que haja uma relação entre o sujeito (enquanto produto dessubstancializado do simbólico) e o gozo (enquanto substância708 real). cit. mas também. Aliás. op. uma proibição de ultrapassar um limite no gozo” [“Car le désir est une défense. p. 711 Cf. Seria talvez preferível escrever o sujeito ou o gozo a fim de sublinhar a sua oposição recíproca. o nascimento do sujeito implica um esvaziamento. dizer desejo é o mesmo. num texto intitulado. a partir deste monólogo do gozo707. LACAN. como fundamental. Lacan dedicou uma boa parte do Seminário XVII a esta questão. o próprio Freud põe em relevo essa oposição através do mito Totem e Tabu: para que seja instaurada a lei (do pai) que preside à criação do sujeito (ou da civilização). uma vez que o primeiro é a metonímia do segundo712. com as devidas ressalvas. o gozo (desse mesmo pai) tem de ser mortificado709. que dizer sujeito. Livre XX. p. Cf.. a criança vai “perdendo” um apñs outro. numa certa época. 713 Cf. 825821 : “ Porque o desejo é uma defesa. 164 . LACAN. Livre XVII. 707 Jacques Alain Miller. É preciso não esquecer que. cit. Le Séminaire.. não só na experiência analítica. como é possível constituir o Outro. pour qu‟elle puisse être atteinte sur l‟échelle renversée de la Loi du désir. O desejo opõe-se de tal modo ao gozo que pode até constituir um limite ou uma barreira em relação ao mesmo713. 827 : « (…) il faut que la jouissance soit refusée. Jacques. enquanto condição de possibilidade do próprio sujeito.cit. op. faz bem esta passagem. LACAN. inédito. Paris : Navarin Seuil.cit. défense d‟outre-passer une limite dans la jouissance”]. as diversas etapas de desenvolvimento de uma criança: graças à intervenção do Outro (por 709 710 exemplo a fala da mãe). “Le monologue de l‟apparole” (in La Cause Freudienne. Le Séminaire. mas na experiência humana em geral). Cf.questão muda de figura: já não se trata apenas de saber como o Outro constitui o sujeito (segundo uma dialéctica que Lacan considera. ainda que estejamos num momento de viragem do ensino de Lacan. Lição de 12 de Novembro de 1958. entre o « primeiro » e « segundo » Lacan. Outubro 1996). os diversos objectos ou “condensadores de gozo”: o seio. Como dizia Lacan em 1960. Écrits. Jacques. Deste ponto de vista. Nº 34. Livre VI. ou mudança de perspectiva. e sobretudo. LACAN. por exemplo. o gozo tem de ser recusado para que o sujeito possa aceder à Lei do desejo711. 26 : « la substance jouissante ». um eclipse ou uma dessubstancialização do gozo710. as fezes. Écrits. nesta época. pp.. Jacques. » 712 “O desejo é a metonìmia do ser do sujeito” [“Le désir est la métonymie de l‟être du sujet”]. op. 708 Cf. 99-163. 1958-1959. p. Le Séminaire. Eis como se podem ler. Le Désir et son interpretation.

nomeadamente. como na clìnica “clássica”. visto que não há apenas uma simples oposição entre o sujeito e o gozo. de produzir um sujeito capaz de responder. Le Bonheur Paradoxal – Essai sur la Société d‘hyperconsommation. mas. segundo uma “adição” (ou dependência) generalizada. mas também ética. Sobretudo ética. Estamos cada vez mais confrontados com formas acéfalas de gozo pelas quais nenhum sujeito parece responder.Actualmente. Vide. « Gadjet » (157-159) e « XXe siècle » (pp. segundo a expressão de Lipovetesky. fármacos ou gadgets714. 165 . Buenos Aires : 2008. ou. 715 Ou “hiperconsumo”. Paris: Gallimard. ao mesmo tempo que revelam um défice de subjectivação. hoje. 443-445). a questão é ainda mais complexa. mas antes uma profusão hegemónica de gozos. Deste ponto de vista. Quer sejam alimentos ou drogas. Esta é uma questão não apenas clínica. a questão. VI Congrés. 716 Recorrendo aqui à conhecida expressão de Freud: “Unheimlich”. 2006). 714 Cf. a admitir como seu ou familiar algo que lhe é intimamente estranho716. em objecto de consumo715. Muitos dos novos sintomas parecem ser dominados por este excesso (tóxico) de gozo. na última parte do nosso trabalho. parece modificar-se: já não se trata apenas. tudo parece transformar-se. Scilicet. Association Mondiale de Psychanalyse. de levar o sujeito a responder. mais propriamente. de “objectos” de gozo. Les objets a dans l‘expérience psychanalytique. Gilles (Cf. de forma mais desenvolvida. como tentaremos mostrar. a reconhecer. hoje. antes de mais. desportos ou espiritualidades mais ou menos exóticas. de usufruto ou de gozo.

1985. 69 : « Eu digo que o sujeito.CAPÍTULO SEGUNDO O problema da satisfação Introduzimos. o conceito de gozo. Paris : Éditions du Seuil. Paris: Gallimard. a um problema de satisfação. Mas por que resiste o sujeito? Aparentemente. É a resposta lacaniana a uma série de fenómenos encontrados ao nível da clínica. p. Estamos aqui perante aquilo a que. Como dirá Freud. no capítulo anterior. 264. FREUD. no ensino de Lacan. alguns anos mais tarde. mais tarde. quando as coisas parecem caminhar no sentido de uma 717 Cf. Sigmund. Cf. Esta estranha divisão e resistência à cura. pp. se o sintoma incomoda e atrapalha o sujeito (caso contrário. Ou. em 1923. 59-60. ne fonctionne que comme divisé. Sigmund.” [“Je dis que le sujet. só 718 719 funciona como dividido. em 1909: “o doente não quer (…) curar-se”717. Cf. ele não quer facilmente libertar-se disso. em 1926: “ele quer seguramente curar-se. in Essais de Psychanalyse. relativamente à qual o sujeito nutre uma relação paradoxal: ao mesmo tempo que se queixa de algo que o perturba e incomoda. Paris: Payot. 166 . por que razão ele se opõe à cura. Paris: Payot. FREUD. o nome de reacção terapêutica negativa720. Mon Enseignement. mas ao mesmo tempo não quer. “Le Moi et le Ça”. p. diríamos: o conceito de gozo responde. ele resiste à cura. tout en étant le sujet. nomeadamente por Freud. 1966. p. 720 Cf. Sigmund. há aqui um contra-senso. este não se queixaria). Com efeito. LACAN. »]. FREUD. Mas a que responde o conceito de gozo no ensino de Lacan? De uma forma sucinta. Lacan vai chamar sujeito dividido719. 90. por parte do sujeito. vai receber. que levam a postular a existência de uma estranha satisfação. Cinq Leçons sur la Psychanalyse. por oposição ao sujeito supostamente uno e fundador da tradição filosófica. La Question de L‘analyse Profane. procurando mostrar em que medida este é um conceito lacaniano. 1981. 2005. de forma tão veemente. sendo o sujeito.”718 Contrariamente a toda a expectativa. visto que o sujeito se queixa dos seus sintomas. como um corpo estranho que o embaraça e lhe causa sofrimento. Jacques.

1998. Autres Écrits.U. 39-168. um desejo. sob o devir dos conceitos. desde os Estudos Sobre a Histeria722. escritos em 1895. sob a forma de pergunta. Madrid: Biblioteca Nueva. Há novos conceitos que surgem.melhoria? É como se houvesse nele. somos confrontados inevitavelmente com uma dificuldade. consiste em admitir que. mas a oposta: o sujeito é infeliz. 1996. existe um longo trajecto. A única maneira de superar a dificuldade que um tal fenómeno coloca. Longo não apenas num sentido cronológico. 1ª Edição. mas também colectivo. num artigo publicado na revista La Cause 721 Cf. a par de uma vontade de curar-se. Dificuldade expressa. 167 . até ao Mal-estar na Civilização723. por detrás do embaraço e sofrimento que o sintoma acarreta para o sujeito. “o sujeito é feliz”721. pp. outros que ganham um alcance inusitado. Freud constata que o mal-estar não é apenas individual.cit. É a esta estranha felicidade ou satisfação do sintoma que o conceito de gozo pretende (co) responder e nomear. 722 Cf. estariam dispostos a corroborar. Jacques. Sigmund. Le Malaise dans la Culture. 3ª Edição. algo permanece imutável: o sofrimento do sujeito. por Jean-Pierre Klotz. pelo menos aparentemente. Se alguma coisa mudou entretanto. foi apenas o âmbito da queixa e não a sua intensidade. 723 Cf. Como dirá Lacan nos últimos anos do seu ensino. mesmo quando ele se queixa. em colaboração com Breuer. E se quisermos manter a afirmação lacaniana de que o sujeito é feliz. FREUD. mas também. LACAN. Tomo I. existe igualmente um proveito. C‟est même sa définition (…) »]. do ponto de vista prático e teórico. Com efeito. benefício ou satisfação de que aquele não quer abdicar. aliás. como pretenderia Lacan. in Obras completas. não é a afirmação anterior. É mesmo a sua definição (…)” [“Le sujet est heureux. clínico e epistemológico. e acima de tudo. com uma rápida leitura do percurso freudiano. Paris : P. Porém. O que não está em contradição. há alguns anos. O que todos. p. de permanecer doente.. mais forte e incompreensível. de 1930. Sigmund. *** Dizer que o sujeito é feliz está longe de ser uma afirmação evidente ou consensual. « Estudios sobre la histeria ». em princípio. FREUD. ou seja. op.F.. 526 : « O sujeito é feliz.

p. “La dépression. em tudo isso o que traz a felicidade. 17 : « O sujeito é descentrado em relação ao indivìduo. Dizer que o sujeito é feliz…por definição. de ser evidente. uma distinção. De tal forma que. Le Séminaire. LACAN. 526. para que ele se repita. “Le monologue de l‟apparole”. MILLER. Jacques. Pois bem. é sob a forma de uma queixa que o sujeito demanda alguém suposto poder ajudá-lo. servindo-me outra vez das palavras de Jean-Pierre Klotz. 168 . KLOTZ. Nº 35.cit. Cf. LACAN. “Onde está. Jean-Pierre.” [“le sujet est 725 726 décentré para rapport à l‟individu. Ela interpela. no entanto. 17. Cf. visto que ele só pode dever tudo à Sorte. de um modo radical. E acrescenta: “é mesmo a sua definição”. parafraseando uma conhecida frase de Nietzsche.”]. Lisboa: Círculo de Leitores. Fevereiro de 1997. uma questão: o que pretendemos dizer quando falamos de felicidade? 724 KLOTZ.. Autres Écrits. e que toda a sorte lhe é boa para o que o mantém. Nº 34.729” Resta. o próprio cerne da afirmação lacaniana. Ibidem. Por conseguinte. Jean Pierre. que é feliz. É importante fazer. A Gaia Ciência. o sujeito é feliz. poderíamos dizer que ―a felicidade do sujeito é a infelicidade do indivíduo‖727. Livre II. 31. Le sujet est heureux. para Lacan.cit. ce qui fait bon heur? Exactement partout. como podem a felicidade e a infelicidade ser irmãs gémeas?725 É evidente que a pergunta faz todo o sentido. C‟est même sa définition puisque 728 729 il ne peut rien devoir qu‟à l‟heur. op. comme un arrêt sur image”. F.. p. Vejamos. É mesmo a sua definição. trazendo à luz o paradoxo que a habita. De facto. como é visível desde os primeiros testemunhos clínicos de Freud. No ponto mesmo em que o indivíduo sofre. 1996. à Fortuna dizendo de outro modo. soit pour qu‟il se répète. apesar disso. p. p. 727 Cf. in La Cause Freudienne. Como acentua Jacques-Alain Miller. desde já. op. é o sujeito do inconsciente. Ao dizer que o sujeito é feliz. » Cf. Lacan insiste: o sujeito é feliz. na ìntegra. à la fortune autrement dit. ao nìvel do inconsciente ele é sempre feliz”728. et que tout heur lui est bon pour ce qui le maintien. 240. Outubro de 1996. “quaisquer que sejam os seus infortúnios. por que se queixa?”724 Ou. Jacques-Alain. não é o indivíduo726. o parágrafo onde Lacan insere a afirmação anterior. O sujeito é feliz. O sujeito. como dizíamos. p. in La Cause Freudienne. e não o indivíduo. convém esclarecer que não se trata do indivíduo.freudienne: “Se o sujeito é feliz. No original: “Où est en tout ça. a boa sorte? Exactamente em toda a parte. está longe. ou seja. NIETZSCHE. É o mal-estar e a insatisfação que o movem e não a felicidade.

satisfação. com Santo Agostinho. Na Carta a Meneceu. não concordam com ela. Santo. “Quando falamos do prazer como um fim não falamos dos prazeres dos dissolutos ou daqueles que têm o gozo por residência – como o imaginam algumas pessoas que ignoram a doutrina. De tal ou tal satisfação – pois esta admite um sem número de formas – e num grau maior ou menor. no fim de contas. 2003. AGOSTINHO. Carta Sobre a Felicidade. ao longo dos anos. p. a que poderíamos chamar. EPICURO. O que pode ir de um simples bem-estar (físico ou psíquico) até uma satisfação mais plena e absoluta. a qualidade do que é feliz: um estado de contentamento. É no dicionário – lugar de permanência de tais usos . o problema ainda não fica resolvido. É conhecido o interesse de alguns destes pensadores (por exemplo Aristóteles. resumidamente. infelizmente. tal como ensinaram Aristóteles e Wittgenstein. falamos de satisfação. Ele é “o princìpio e o fim da vida bem-aventurada”732. De pouco serviria. Poderíamos dizer. 3799. nomeadamente a filosofia antiga. Lisboa: Edições 70. 731 Cf.que o ser falado e falante foi depositando. naturalmente. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (Instituto António Houaiss de Lexicografia Portuguesa). 1994. ventura…730 Não se pretende aqui. o seguinte: a felicidade é uma forma de satisfação. Quando falamos de felicidade. Vejamos um exemplo. Diálogo sobre a Felicidade. entre outros. uma tal suposição permitiria reabrir o diálogo entre Freud e a filosofia. 1997. explorando as suas potencialidades. bem-estar. mas comedido. a título de hipótese. Lisboa: Relñgio D‟Água. 30. Tomo IX. Ela indica. esgotar o leque possível de sinónimos. uma vida ou um estado de beatitude (beata uita)731. Somos obrigados a repetir a pergunta. Não um prazer desregrado. p. Lisboa: Temas e Debates. 732 169 . a título de hipótese. quando falamos de satisfação? Será esta idêntica ou redutível ao prazer? Admitamos provisoriamente que sim. Aliás. (caso ela exista). os sedimentos da sua experiência verbal. Epicuro ou até mesmo os estóicos) pela questão do prazer. o melhor é buscar exemplos ou usos efectivos da língua que os possam ilustrar. A palavra felicidade é um desses sedimentos. De que falamos. provisoriamente. por exemplo. Tomemos um deles.*** Quando se trata de conceitos. ou são vítimas de uma falsa interpretação – 730 Cf. Mesmo assim. Epicuro baseia no prazer os alicerces da felicidade. evidentemente.

54. 1989.. sem dúvida. in Lógicas de La Vida Amorosa.”736 Um prazer dominado e regulado pelo Logos parece ser a constante que subjaz às duas concepções anteriormente apresentadas.”735 E acrescenta: “Que a virtude caminhe à frente. p. Contudo. o nosso trabalho vai noutra direcção. o “imoderado” ou o “excessivo”. moderados (…) e discretos”734. tal como ele o enuncia. 1991). Fundação Calouste Gulbenkian. acima de tudo. Jacques-Alain Miller já explorou. SÉNECA. mostrando que. Poderíamos.733 Nota-se desde logo. essa via737. concede-a ele ao prazer. há alguns anos atrás. alargando-a a outros pensadores. 1994. Da Vida Feliz. na “moderação”ou no logos e uma outra que é baseada no que ultrapassa os limites: o “descomedido”. por este trecho. Ibid.-A “La ética en Psicoanálisis”. Talvez a reflexão moral antiga pudesse sistematizar-se em torno desta correlação entre o prazer e logos — não sendo as várias concepções mais do que diferentes modalidades da mesma. é redutível a essa correlação entre prazer e logos? Dizendo de outro modo: é o princípio de prazer um herdeiro directo da sabedoria antiga? 733 EPICURO. que leve a bandeira. por exemplo. explorar um pouco mais esta vertente. 736 737 170 . nem por isso deixaremos de ter prazer. mudemos de rumo. J. fundada essencialmente na “medida”. 734 Lisboa. até certo ponto. SÉNECA. observados de mais perto. justos e que. A mesma posição é patente nas “Cartas a Lucìlio” (cf. De resto.. 735 Ibid. Por isso. tenda a aproximar as duas sabedorias. Pelo menos alguns dos estñicos perceberam muito bem a diferença. Ibid. p. uma poderia traduzir a verdade da outra. 53. Será que o princípio de prazer (Lustprinzip). p.mas de alcançar o estádio em que não se sofre do corpo e não se está perturbado da alma”. ele reduz o prazer a algo de mínimo e exíguo. 116. se revelam até severos. 31. p. “Sou pessoalmente de opinião – diz ele – (…) que Epicuro dá preceitos veneráveis. MILLER. Buenos Aires: Manantial. 56. Lisboa: Relñgio D‟Água.. Daí que Séneca. Também eles consideram que “os prazeres dos sábios são calmos. Interessa-nos. estabelecer aqui a ponte com Freud. É uma hipótese que fica em aberto. mas dominado e regulado. Cf. que há um claro antagonismo entre a concepção de prazer aqui exposta. p. e a regra que atribuímos à virtude.

Le Malaise dans la Civilisation. Esta introdução sucessiva de diversos princípios não é mais do que uma tentativa. Tal parece evidente na seguinte formulação: “o princìpio de prazer é. que Jacques-Alain Miller sublinha deste modo: “o princípio de prazer em Freud não tem nada a ver com o princípio de prazer antigo (…). Ibid. o princìpio de prazer vai já “além do prazer‖. 739 740 741 742 171 .F. É neste momento que entra em cena o chamado princípio de realidade (Realitätsprinzip).” 740 Ele é um projecto desmedido que tenta realizar-se por todos os meios ao seu alcance. p. ou mantê-la o mais baixo possível. 116. fazendo um „desvio‟ pela realidade. p. todas as normas do universo lhe são contrárias”739.. Buenos Aires : Manantial. devido à pressão interna de que não consegue libertar-se e que lhe provoca desprazer. uma tendência que visa anular ou reduzir a tensão a zero. 1995. como reconhece Freud no Mal-estar na Civilização. porém. 119. tal como “Clausewitz dizia que a guerra era a continuação da política por outros meios. em vez da concretização do objectivo almejado. 117.-A. MILLER. E. em Freud o prazer escapa à moderação e ao cálculo e não tem aliança com a razão.738” Na realidade. J. manter constante nele a quantidade de excitação. depois. Sigmund. Mas. 276. pois descobre-se nele a mesma tendência reguladora que havìamos notado já na concepção de “prazer” de alguns pensadores antigos. foi devido ao fracasso. parece que a resposta é afirmativa. resta sempre uma quantidade impossível de eliminar.. sempre fracassada. de obter um „grau zero‟ de tensão. I. alucinatoriamente. “à deficiência do princípio de prazer que Freud se viu obrigado a inventar o princìpio de realidade”741. p. por conseguinte. in Logicas de la Vida Amorosa. Ibid. Paris: P. p. V. Primeiro. 1989. neste sentido. Textos Essenciais de Psicanálise. Lisboa: Europa-América. Há neste princìpio um „para além do prazer‟. 33. De certa forma. também se pode dizer que o princípio de realidade é a continuação do princípio de prazer por outros meios”742. Como sublinha Jacques-Alain Miller. uma tendência que opera ao serviço de uma função cuja missão é libertar inteiramente o aparelho mental de excitações. É essa 738 FREUD. Porém.À primeira vista.. FREUD. pois. S.U. o que está aqui em causa é sobretudo um programa. “La ética en Psicoanálisis”. “não há possibilidade alguma de ele ser executado. p. s/d. “Além do princìpio de Prazer”.

em 1920 Freud introduz uma nova suspeita relativamente à predominância do princípio de prazer. por mantê-la constante. a propósito do cavalo de Schilda. porém. Se tal dominância existisse. 745 746 172 . Charles. na introdução do seu livro Os Paraísos Artificiais. De tal forma que. Isso. Sigmund. Paris: Payot. 1996. da catástrofe e da fatalidade”745. Sigmund. ou. ou seja.”746 743 Tal como no exemplo recordado por Freud. se quisermos continuar a apostar hiperbolicamente – à maneira de Descartes – na dominância de um tal princípio. é incorrecto falar da dominância do princípio de prazer sobre o curso dos processos mentais. 1971. ineliminável. que morreu de fome. p. V. 66. op. Cinq Leçons sur la Psychanalyse. Os Paraísos Artificiais. visto trazer à luz actividades das moções pulsionais recalcadas. ao passo que a experiência universal contradiz. Para complicar ainda mais a questão.cit. nenhum animal é capaz de sobreviver e trabalhar sem a indispensável ração de aveia (Cf. s/d. FREUD. p. BAUDELAIRE. in Textos Essenciais de Psicanálise. semelhante conclusão”744. começa aqui a delinear-se um “mais além do princìpio de prazer”. Quanto a Freud. Lisboa: Europa-América. Como se vê pela passagem anterior. p. Como pode facilmente observarse na seguinte passagem: “os factos que nos levaram a acreditar na dominância do princípio de prazer na vida mental encontram também expressão na hipótese de que o aparelho mental se esforça por manter a quantidade de excitação nele presente tão baixa quanto possível. a imensa maioria dos nossos processos mentais seria acompanhada de prazer ou conduziria ao prazer. constitui desprazer de um género que já considerámos e que não contradiz o princípio de prazer: desprazer para um sistema e. Lisboa: Editorial Estampa. pelo menos. 239. como designa ele este “prazer no desprazer”? “É ñbvio – diznos – que grande parte do que é revivido sob a compulsão à repetição deve causar desprazer ao ego. fazer-se notar que. por completo. que põe em movimento os diversos sistemas do aparelho psíquico743. 744 FREUD. (…) Deve. p. I. porém. será apenas naquele sentido de que fala Baudelaire. 129. 10. falando em sentido restrito. satisfação para outro. FREUD.quantidade. Sigmund “Além do princìpio de prazer”. simultaneamente. no privilégio sui generis de que goza o ser humano “de poder tirar prazeres novos e subtis mesmo da dor.

vem retomar e renomear esta problemática freudiana: “o nome de gozo traduz fundamentalmente o que resiste à moderação do princípio de prazer. integra-se nesse esforço: ela é “algo que parece mais primitivo. por conseguinte. op. “Como é isso em Freud – perguntase Lacan no seminário da Ética da Psicanálise? – Desde antes das formulações extremas do Mais Além do Princípio de Prazer. J.cit. o papel que sobra para este último? O de ser um limite. E em vez de dominar. p. Uma barreira. p. desenvolvendo.. MILLER. A compulsão à repetição.. Ibid. a essa estranha satisfação que ata..-A. as suas implicações. inverte-se por completo o cenário. de ora em diante. num mesmo nó. O princípio de prazer cede o lugar a outro senhor.. p. Mas esta compulsão à repetição (ilustrada por Freud através de uma série de exemplos) vai um pouco mais além: “ela recorda do passado experiências que não incluem qualquer possibilidade de prazer. Ibidem. p. 124-25. ou essa repetição (Wiederholung). na realidade.750” E qual é. ter dado satisfação a moções pulsionais que entretanto foram recalcadas”747. Deste modo. num esforço para dar conta da estranha satisfação que afecta o sujeito. se a hipótese do princípio de prazer. nem mesmo há muito tempo. e que não puderam nunca. o que satisfaz então esse “eterno retorno do mesmo”. a pulsão de morte. “La ética en Psicoanálisis”. neste momento. introduz o conceito de gozo (jouissance). mais elementar. então. começa a ruir? A não ser que haja algo mais primitivo e fundamental que o próprio princípio de prazer. até ao limite. 277. Ibid. Sendo assim. Sigmund. a que Freud vai chamar. 748 749 750 173 . 242. pulsão de morte (Todestrieb). inicialmente colocada.A Compulsão à repetição (Wiederholungszwang) é. mais pulsional que o princìpio de prazer”748. tal como Freud a concebe. como escreve Freud numa clara alusão a Nietzsche. é claro que a primeira formulação do princí- 747 Cf. “o princípio de prazer parece servir. 239. É esta hipótese que Freud vai postular. mais tarde.749” *** Quando Lacan. o nome que Freud dá. o prazer e o desprazer. FREUD..

Quer dizer: não só o prazer não dá conta integralmente da satisfação. Quer dizer: mais vale uma satisfação substitutiva do que nenhuma satisfação. p. talvez. Porque é o prazer que impõe ao gozo os seus limites (…). Sigmund. que faz as vezes do que está em falta. comporta evidentemente um para além. op. sem dúvida. de circunscrever a satisfação inerente ao sintoma. ou de moindre-pâtir. a resposta lacaniana ao problema da satisfação isolado por Freud. em si mesma. segundo uma estranha e singular temporalidade. É por isso. como até funciona como um limite. acontece que se esta satisfação pulsional (esperada) não ocorreu. continua na repetição e acaba na pulsão de morte e no problema económico do masoquismo. Na verdade. 7. [“Mais ce n‟est pas la Loi elle-même qui barre l‟accès du sujet à la jouissance (…). Jacques. ele não comemora uma satisfação que tivesse ocorrido no passado (pois tal não foi o caso).pio de prazer. ele não é apenas o sinal de alerta do que não funciona. o signo tem aqui um estatuto algo paradoxal.F. op.cit. que faz as vezes de algo. mas repete. por assim dizer. mas é também o signo de uma satisfação. mas que é feito justamente para nos manter aquém (…) do nosso gozo751“. FREUD. em vez disso. Trata-se. um modo de funcionamento e de satisfação. Livre VII. mais do que aquilo que falta (que está ausente). por isso. Symtôme et Angoisse. Car c‟est le plaisir qui apporte à la jouissance ses limites (…) »]. Uma “diz- 751 LACAN.. que barra o acesso do sujeito ao gozo (…).U. que o sintoma é tão renitente. Na verdade. 753 Cf. uma barreira em relação àquela752. Assim. p. Para além de signo. 821 : « Mas não é a Lei. segundo a definição de Freud. ao mesmo tempo. Com efeito. o sintoma é o signo (ou o índice) e o substituto de uma satisfação pulsional que não ocorreu753. o sintoma é também substituto. Ora..cit. 1993. il est claire que la première formulation du principe de plaisir comme principe de déplaisir. LACAN. » 752 Cf. comporte bien sûr un au-delà. O conceito de gozo é. é aquilo que supre. 174 . mais qu‟il est justement fait pour nous tenir en deçà (…) de notre jouissance. Le Séminaire. Écrits. Ora. o último nome de uma série que começa na reacção terapêutica negativa. Ele é. Jacques. 226 : « Qu‟en est-il chez Freud ? Dès avant les formulations extrêmes de L‟au-delà du principe de plaisir. nem mesmo uma forma indirecta de fazer chegar uma mensagem a alguém (ainda que ambos os aspectos possam estar. em qualquer dos casos. a expectativa de uma tal satisfação. ou do menor padecer. p. Há nesta definição do sintoma o reconhecimento de que este não é apenas o sinal de um desarranjo ou de uma disfunção. mas também. Paris: P. como diz o adágio. igualmente presentes). Um substituto é o que vem no lugar de algo. “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Inhibition.

”759. op. Seria uma forma de entender as coisas. Assim. o gozo que proporciona.. mesmo se esse gozo é um gozo paradoxal. pp. De tal forma que poderíamos perguntar-nos se o fim de uma “cura” psicanalítica não visa. incurável. de forma decisiva. Paris: Seuil. MILLER. 756 Cf. Cf. J. a capacidade de formar novos sintomas parece. afinal. in MILLER. 755 Cf.-A. isto é. 41 [No original: “trouver un nouvel arrangement. se nos é permitido o termo754. p. não se trataria tanto de resolver conflitos. “a capacidade de formar novos sintomas. como na clínica freudiana. Le Séminaire. d‟arriver à un fonctionement plus ou moins 757 758 759 coûteux pour le sujet. Cf. Judiht (org. é então. 38. Sigmund. Le Sinthome. O seu sentido é. resta ainda.39 : « Mode de jouissance ou modalité de satisfaction ». “A Diz-função do sintoma”. « Le Séminaire de Barcelone sur Die Wege der Symptombildung ». Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. precisamente. Paris : Seuil. O sintoma. PEREIRINHA. Eis o que Lacan vai chamar. 168: “(…) sinthome qui est ce qu‟il y a de singulier chez chaque individu (…)». pp.. igualmente possível – e talvez na sequência da anterior – seria pensar que ela visa permitir ao sujeito chegar até a um limite tal em que o velho sintoma (não só o que o faz sofrer e que o divide. p. Mesmo quando desapareceram os sintomas. que Freud não se contentava com a visão daqueles que pensam que a mera supressão dos sintomas significa a cura do paciente. Ibidem. Introduction à la Psychanalyse. de conseguir um funcionamento mais ou menos custoso para o sujeito. 337. 2003. le sinthome757. recorrendo a uma grafia antiga. mas antes de transformar. Paris: Payot. mas também 754 Cf. 1998. Filipe.função”. de um novo sintoma. É por isso. p. Eis uma das razões por que ele resiste e não cede tão facilmente como seria de esperar.] 175 . A outra.”756 Para lá da supressão (ou da cura) deste ou daquele sintoma em particular. mas de “encontrar um novo arranjo. singular e contingente. LACAN. 45-48. não se trataria propriamente de curar o sintoma (mesmo se a supressão ou a alteração de muitos deles pode vir como um acréscimo da cura psicanalítica).). Essa é uma questão não apenas clínica. Le Symptôme- Charlatan. MILLER. igualmente. confrontar o sujeito com esse incurável. segundo ele. FREUD. Cf. in Facetas da Psicanálise. essencialmente. 1996.cit. Livre XXIII.-A. J. para além de tudo o mais. em si mesma. uma modalidade de gozo ou satisfação755. a relação que o sujeito mantém com ele. na última fase do seu ensino. Vendo a questão por este prisma. Jacques. “o que há de singular em cada indivíduo”758. 2005. mas também o que não pára de repetir o mesmo) cede o lugar à invenção.

composto por quatro elementos: a pressão (Drang). que estamos habituados. Sigmund. 2004. Ela dobra-se. Lisboa: 762 Edições 70. Janis. a pressão e a finalidade são constantes. “Pulsions et destins des pulsions”. graças aos seus famosos ready-made. 246 : « (…) O desejo tal como ele é revelado por Freud (…) como desejo de nada. seria preferível apelar.. Porquê a Guerra – Reflexões sobre o Destino do Mundo. mais cedo ou mais tarde. 51-56. um conceito-limite entre o somático e o psíquico. Paris: Gallimard. “clìnica do sujeito sem clìnica da civilização. p. mas também um modo de funcionamento.ética e. do ponto de vista do desejo. todo o objecto convém764. isso funciona do outro. J. como vimos a propósito do sintoma. pp. como relembrava há algum tempo Jacques-Alain Miller. direito e avesso esta 760 Cf. p. 761 Cf. segundo uma topologia que não se compadece com oposições demasiado rígidas: quando algo parece não funcionar de um lado. Cf. FREUD. MINK. também aqui. isto é. hoje. implica reconhecer que ele é um dos “destinos” ou “vicissitudes” da pulsão761. um desejo de nada763. LACAN. a que as coisas tenham frente e verso. Le Séminaire. Livre II. é a fundamental variabilidade ou indiferença de todo e qualquer objecto. 2000.-A. 763 Cf.”760 *** Dizer que o sintoma não é apenas o sinal de algo que não funciona. Duchamp. MILLER. ainda que estranho e paradoxal. 11-43. no dia a dia. todo o objecto é vão. 1997. 764 Estamos aqui perante algo que um artista como Marcel Duchamp ilustra de forma magistral.. efémero e está condenado. política. »]. 68 : « Pas de clinique du sujet sans clinique de la civilisation ». pp. Voulez-vous être évalué ? Paris: Bernard Grasset. FREUD. na medida em que o desejo é fundamentalmente.” [“(…) le désir en tant qu‟il est révélé para Freud (…) comme désir de rien. A topologia é a ciência dos espaços e suas propriedades. de esta alcançar a satisfação. um meio. mais do que falar em dois lados. MILNER. Se a fonte e o objecto são variáveis. in Métapsychologie. do ponto de vista do gozo. isto é. Na verdade. da satisfação pulsional. Para nós. op. “Caducidade”. 176 . até. à caducidade762. O circuito pulsional tem apenas uma única finalidade: a satisfação (Befriedigung). Cf. uma vez que não há. J. o que ele descobre. Sigmund. 1986. modula-se. Taschen. A pulsão (Trieb) é. Jacques.C. A pulsão é intrinsecamente plástica. às figuras da topologia que têm um só lado. cit. segundo Freud. como diz Lacan. Na verdade. a fonte (Quelle). Se. o objecto (Objek) e a finalidade (Ziel). in Freud-Einstein. como é o caso da Banda de Moebius.

do outro lado. CF. 25-26. nº 1. 767 Revela-se aqui uma diferença da Banda de Moebius relativamente a outras figuras topológicas que não são passíveis de represen- tação no nosso espaço a três dimensões. forneceu uma boa ilustração desta figura. falar de direito e de avesso em relação a uma tal figura parece até absurdo. não se apercebendo de qualquer incongruência ou descontinuidade durante o percurso768. pp. op.769 765 Como recordava Jacques-Alain Miller. por exemplo. seja perceptível767. in Bulletin de la NLS. a uma tal figura766. uma vez que ela tem. Esta figura recebeu o nome do seu descobridor. Livre X. Escher. em 1861. 1990. resumindo. Com efeito. cit. desta superfície. Um homenzinho ou uma formiga. 768 Cf. J. encontrar-se-iam. “La psychanalyse mise à nu par son célibataire”. não deixou de referir-se. Lacan. o irrepresentável. por exemplo.figura da topologia não deixa de causar alguma estranheza e perplexidade. por diversas vezes e em diferentes momentos do seu ensino. em Bordeux. Daí o seu valor: ela consegue representar. p.) 766 Ela é a imagem que serve de capa. igualmente. LACAN. É. Bruno (1991). Banda ou Fita de Moebius. numa conferência que deu em 1992. A Topologia de Jacques Lacan. de algum modo. Berlim: Benedikt Taschen. Le Séminaire. na realidade. Para que uma tal propriedade. dedicado à angústia. uma figura unilátera765. basta efectuar um passeio ao longo da superfície da Banda de Moebius. aparentes. O espelho Mágico de Escher. ela tem propriedades tais que não conseguimos distinguir a sua frente do seu verso ou o seu direito do seu avesso. 2007. ao seminário de 1962-1963. 23. no sentido longitudinal da mesma. Cf. GRANON-LAFONT.” (Cf. um único lado. Aliás.. p. ERNST. unilátera. 769 177 . colocando diversas formigas em diferentes pontos da sua super- fície. daí ser conhecida como Laço. que frequentava com assiduidade a Topologia. O famoso artista gráfico holandês. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. que caminhassem ininterruptamente sobre um dos lados. no seu avesso. 80. Moebius. “o avesso e o suposto direito são do mesmo estofo.

falar do Supereu como um imperativo de gozo772. um direito e um avesso. pp. Jacques. O circuito da pulsão obedece de tal forma a esta topologia moebiana que pode até converter-se. Ela é. voltaremos a ter a sensação. Le Séminaire. ainda que ilusória.Apesar desta propriedade singular da Banda de Moebius. e não apenas um.cit. Eis o que é ilustrado por Freud. por assim dizer. o avesso moebiano da pulsão. 178 . segundo as palavras de Freud. Paris: Payot. FREUD. Livre XX. p. a pulsão. p. 10 : « O supereu. sem descontinuidade. Sigmund. em particular. através de um estranho paradoxo: quanto mais se reprime a pulsão. LACAN. mais esta se torna exigente770. Cf. Cf. há uma continuidade moebiana. FREUD. O paradoxo desfaz-se se o considerarmos à luz desta superfície moebiana: isso funciona. 770 Cf. como é realmente o caso. mesmo quando aparenta não funcionar. op. Um tal fenómeno explica-se apenas na medida em que entre a força pulsional e o “imperativo categñrico” (segundo o termo usado por Freud. o capítulo VII. 65-77. 1995. no que parece constituir o seu contrário. em 1923. 263. o circuito do gozo. Na sua plasticidade fundamental. no Mal-estar na Civilização. “Le Moi et le Ça”. Ele é. para falar do supereu) que a tenta limitar ou reprimir. dobras ou vicissitudes. de que ela tem efectivamente dois lados. o Supereu mergulha profundamente no Isso771. Eis o que acontece quando pensamos o sintoma. Ou. c‟est 771 772 l‟impératif de la jouissance – Jouis !»]. tem como única finalidade a satisfação. embora sofrendo inúmeros desvios. vide. in Essais de Psychanalyse. como vimos mais atrás. mais tarde. como um modo de disfuncionamento ou de funcionamento.cit. se nos detivermos num determinado ponto da sua superfície. Sigmund.. digamos assim. op. Eis o que permite a Lacan.. é o imperativo de gozo – Jouis ! » [« Le surmoi.

cit. empreende um “retorno a Freud”776. FREUD. B. há que tomar o último ensino de Lacan para interpelar o primeiro. representando. enquanto distinto e isolado como tal. Libido. por exemplo: Lust (prazer). a existência do primeiro e segundo Lacan. Apesar disso. Roland. no seu curso de Orientação Lacaniana. São emblemáticos desta atitude os seminários que Jacques-Alain Miller animou em 1994-1995 (Cf. pp. que é preciso aprender a ler Lacan contra Lacan. Um desses termos é o conceito de libido: a energia psíquica das pulsões sexuais que dá conta da manifestação do sexual na vida psíquica774.CAPÍTULO TERCEIRO Paradigmas do gozo O conceito de gozo. R. ao gozo. Autres Écrits. “La Chose freudienne ou Sens du retour à Freud en Psychanalyse ». »]. um conceito lacaniano que procura responder ao problema da satisfação com que se debate a prática e a teoria freudiana desde o seu início. à libido ou à pulsão freudianas? Dizendo de outro modo: se o conceito de gozo é a resposta lacaniana ao problema da satisfação com que se debate Freud. por vezes. VAN- DERMERSCH. Jacques. 1998. 774 Cf. Paris: Gallimard.). chegando mesmo a dizer. a pulsão aparece como um “conceito-limite” entre o psìquico e o somático. op. “Se o inconsciente é estruturado como uma linguagem. tal como Freud definirá a pulsão (Trieb). a que ele dará tanto relevo na última fase do mesmo? 773 Como sejam. sob o signo do “inconsciente estruturado como uma linguagem”777 – segundo o que mostrámos na terceira parte deste trabalho – uma pergunta se impõe: o que acontece. “Pulsions et Destins des Pulsions”. (Dir. por volta de 1915775. Silet. inédito) e 1995-1996 (Cf. cit. 1986. da presença da satisfação ao nível do cruzamento entre o psíquico e o somático. o que acontece. a medida 775 de exigência de trabalho que é imposta ao psìquico em consequência da sua ligação ao corpo (Cf.. Bernard (Dir. por assim dizer. VANDERMERSCH. CHEMAMA. 488. ou seja. Cf. p. por diversas vezes. CHEMAMA. Befriedigung (satisfação). mais tarde. 776 Cf. etc. op. LACAN. como vimos atrás.” [“Si l‟inconscient est structuré comme un langage. ou seja. 778 Miller tem sublinhado. La Fuite du Sens. ao longo dos anos. in Écrits. Jacques. Trieb (pulsão). p. 17-18. LACAN. eu não disse pela. Cf.).. Dictionnnaire de la Psychanalyse. cuja sétima lição apareceu no 179 . no primeiro ensino de Lacan778. a uma multiplicidade de termos773. Nesta altura. cit. Paris: Larousse. entretanto. in Métapsychologie. 231. Ele é. Sigmund. não existe propriamente em Freud. op. Quando Lacan. tal como este pretendeu ler Freud do avesso.. je 777 n‟ai pas dit par. Freud não deixa de nomear essa satisfação recorrendo.

por outro. in La Cause Freudienne. a significantização do gozo (la signifiantisation de la jouissance). nesta primeira fase do seu ensino (sobretudo durante os anos 50). Numa altura em que se trata sobretudo de valorizar. a problemática do gozo vai sendo enquadrada segundo diversos ângulos e paradigmas.cit. 180 . a não relação (le non-rapport) entre o gozo de um e o suposto gozo do Outro. e munido de tais instrumentos. da resposta. com o tìtulo “Le monologue de L‘apparole (Cf. o gozo normal (la jouissance normale). 7-12. o gozo impossível (la jouissance impossible). de acordo com os termos de Jacques-Alain-Miller780. em particular. estruturante da condição e experiência humanas em geral. Todo o esforço de Lacan. em cada momento. à questão de saber o que acontece à libido ou à satisfação quando o inconsciente freudiano passa a ser concebido como sendo estruturado como uma linguagem. Paris: Navarin Seuil. da fala e da linguagem. isto é.-A. pp. MILLER. diversas formações do inconsciente. à questão enunciada. Octobre 1999.. Jacques-Alain. o gozo discursivo (la jouissance discursive) e. 780 Cf. 779 Cf. nomeadamente as “estrutu- número 34 da revista da Cause Freudienne. e a significantização. Ao longo do ensino de Lacan. vai depender o modo como é concebida a relação entre o sujeito e o gozo. Cada um destes paradigmas constitui a resposta. Segundo Jacques-Alain Miller. MILLER. “Les six paradigmes de la jouissance ». é possível falar em seis paradigmas do gozo no ensino de Lacan779.A resposta é múltipla. por último. o gozo vai ser enquadrado segundo duas vicissitudes diversas: a imaginarização. de dar primazia à dimensão simbólica. tal como mostrámos. Octobre 1996. J. por um lado. op. L‘apparole et autres blablas. nº 43. 7-29. a saber: a imaginarização do gozo (l‟imaginarisation de la jouissance). por exemplo. É com esse intuito. *** A primeira resposta de Lacan assenta numa certa clivagem ou disjunção entre o registo do simbólico e do imaginário. pp. na terceira parte do nosso trabalho.. vai no sentido de interpretar o legado freudiano à luz da primazia do significante. Da mesma forma. 7-18). pp. num determinado momento do ensino de Lacan. Paris: Navarin Seuil. que ele vai analisar.

trata-se de mostrar. Le Séminaire. por assim dizer. tal como Freud havia posto em relevo a partir da sua prática clínica e da análise de diversos fenómenos da psicopatologia da vida quotidiana782. sente necessidade de o partilhar com um terceiro) parece ser a prova de que há uma satisfação no próprio reconhecimento ou de que a satisfação. S. 1998. que a satisfação pode ser significantizada. para ser reconhecido como tal e surtir o efeito desejado. pp. Vide Parte III do nosso trabalho. É o que acontece. por sua vez. este não é inteiramente redutível ao significante. Sigmund. no seu conjunto. FREUD. Cf. do dito espirituoso (Witz)781. pressupõe essa dimensão. (1966). FREUD. 9-139. 1997. à jovem Anna O. ele acaba por constituir um impasse. pp.ras freudianas do espìrito”. isto é. na constituição do sujeito. É relativamente a esses restos que o termo imaginarização do gozo (segundo a expressão de Miller) adquire pertinência. tal como vimos anteriormente. 9-21. como é o caso. A necessidade que sente o autor do dito espirituoso em contá-lo a um Outro (que. dialectizada por meio do significante. Lacan não deixa de reconhecer a existência de inúmeros restos. para acentuar a dimensão linguística e significante da experiência humana. que resistem à sua plena integração ou dialectização significante. Finalmente. (1957-1958). LACAN. nesta altura. isto é. da tradução 781 Cf. de uma deficiente (ou impossível) significantização do gozo.. Por outro lado. uma inércia ou uma fixação imaginária. do terceiro. pseudónimo por que ficou conhecido aquele que poderemos considerar como o caso inaugural da psicanálise784. em particular do desejo que corre entre as linhas do significante. Sempre que um acontecimento não é suficientemente introjectado. J. Paris: Seuil. como vimos quando analisámos mais em pormenor o dito espirituoso783. ele permite-lhe destacar a dimensão e importância do Outro. Livre V. isto é. Cinq Leçons sur la Psychanalyse. assumido simbolicamente pelo sujeito. Cf. Paris: Payot. Porém. por exemplo. 782 783 784 181 . Psychopathologie de la vie quotidienne. O exemplo do dito espirituoso serve a Lacan. uma vez que o witz. não seria mais do que esse reconhecimento (simbólico). Esta jovem sofria de uma série de sintomas que pareciam resultar. no fundo. Paris: Payot. por meio do Witz. Da mesma forma. Les Formations de L‘Inconscient. tanto ao nível do corpo como da mente.

182 . De acordo com estes primeiros dois paradigmas. como uma forma de alcançar satisfação para além do prazer. Foi só após ter verbalizado esta reminiscência que a perturbação desapareceu para sempre. vai baptizar a psicanálise. ou seja. como é o caso do inglês786. enfim possível. o facto de ela ter calado algo que a tinha afectado e que continua. Este pequeno – e sem dúvida incompleto – fragmento. a emudecer por completo. depois. de novo. FREUD.) por um copo. que não foi dita num determinado momento da história deste sujeito. por delicadeza não dissera nada. É aquilo. em certa ocasião. já quase não fala: junta penosamente as palavras que lhe restam a partir de quatro ou cinco idiomas (em particular o inglês. que aquele é finalmente erradicado. o inglês. uma vez que apela para a dimensão linguística da mesma: Talking Cure. com o termo a que Lacan deu uma grande importância. 786 Não deixa de ser interessante referir que é precisamente nessa língua. durante algumas semanas. por assim dizer. por exemplo. através da dificuldade que ela sente em encontrar palavras nessa língua. 1974). de quem ela não gostava. Psychose et Perversion. Tivera oportunidade. in Névrose. Sigmund. surgem pontos de contágio que acabam por afectar tudo. sofrido ou experimentado pelo sujeito como um desprazer. de ver que esta dava de beber ao seu cão (um bicho repugnante. como por exemplo o facto de ela conseguir exprimir-se com fluidez num idioma estrangeiro. “Le problème économique du masochisme”.(ou integração) significante de certas experiências que envolviam desprazer785. tornando-se cada vez mais ininteligível. o gozo pode ser concebi- do. na diferença entre o prazer e o gozo: se o prazer é um gozo limitado. o médico que a tratou). De tal forma o interdito (ou seja. acontecem fenómenos invulgares. perdendo o domínio da gramática. Chega mesmo. ou seja. que Anna O. uma “cura pela fala”. simbolização ou significantização do gozo. Apesar da violenta repugnância que sentira na altura. que é só por meio da verbalização. mostra bem como as inércias ou impasses imaginários – e respectivas consequências ao nível do gozo ou da satisfação .resultam de uma insuficiente. a jovem queixa-se um dia da sua governanta. a começar pela língua materna. Paris: PUF. a falar sozinho nos extravios do corpo e da linguagem) é condição do sintoma de que padece esta jovem. De uma palavra (ou um significante) que sofreu um interdito. Sob o efeito da hipnose (método usado na altura por Breuer. Com o passar do tempo. Simultaneamente. que não é a sua língua materna). a que Freud chamava o problema económico do masoquismo (Cf. em determinadas circunstâncias. no entender de Anna O. Primeiro. incompleta ou impossível verbalização. o gozo imaginário é aquilo 785 Deveremos insistir aqui.

num certo sentido. O gozo imaginário não é intersubjectivo e dialéctico. mortificado pelo significante. e a redução do pulsional (da libido) a uma pura cadeia significante ($ <>D)789. José. da “Conservatñria do Registo Civil”. é acentuada a disjunção entre o “eu” (concebido como um “reservatñrio da libido”788) e o sujeito (enquanto instância simbólica). p. Uma das consequências desta purificação do simbólico.-A. o gozo é domado. Todos os Nomes. por um lado. 817: 788 789 790 Cf. para existir. Neste primeiro momento. na dialéctica simbólica ou significante do desejo. o gozo imaginário aparece – como sublinha Jacques-Alain Miller – “como um obstáculo. quer dos mortos”790. quer dos vivos. Vide “Grafo do desejo”. mas intra-subjectivo e inerte. MILLER. ou não encontrou saída.. no fundo.-A.cit. Trata-se. J. *** 787 Cf. O sujeito instaura-se por uma disjunção primordial entre o significante e o gozo. Ibidem. De certa forma. Ao mesmo tempo... 1997. 9. de purificar o simbólico de toda a contaminação pela libido imaginária. SARAMAGO. onde estão arquivados todos os nomes. op. uma barreira à elaboração simbñlica”787. do ponto de vista do Outro. é sobretudo acentuada a disjunção entre o significante (simbólico) e o gozo (imaginário). p. do simbólico. J. Como na metáfora desenvolvida num dos romances de Saramago. pois.que não deu entrada. Deste ponto de vista. é o esvaziamento do sujeito ($). ele tem de ser originariamente mortificado pelo significante. Cf. 9 [«un réservoir de la libido »]. MILLER. é indiferente que o sujeito esteja vivo ou morto. 183 . Écrits. Lisboa: Editorial Caminho. p.

nós 792 seremos levados a definir o real como o impossìvel. inércias ou impasses do imaginário. 793 Cf. da Coisa794. como vimos. Ela mantém-se fora e irredutível a ambos os registos. Cf. LACAN. pp. Jacques. no entanto. segundo Lacan. como já sublinhámos por diversas vezes. L‘Éthique de la Psychanalyse. ou num sentido “trágico”. Livre VII.cit. Ver não apenas o Seminário VII (cf. 283-313. LACAN. 225-256). a imaginarização do gozo: há um resto de satisfação (de libido) que permanece ligado às fixações. então. implica que o gozo não passa (todo) pelos desfiladeiros do significante. Ver. não sendo. »]. Deste ponto de vista. cit. devem ser entendidas neste contexto: ele é 795 um dos autores da transgressão. quer este seja entendido num sentido perverso. que representa. a “essência da tragédia”796. mas também Kant com Sade (cf. Livre VII. Paris: Seuil. o simbólico (a lei significante) e o imaginário (o belo ou o bem. o real é o impossível”792. Écrits. 765-790). Jacques. 188 : «(…) visto que o oposto do possìvel é seguramente o real.. 12-14.. Le Séminaire. 184 . nous serons amenés à définir le réel comme l‟impossible. a pulsional (aquela a que Freud chamava Befriedigung) tanto ao imaginário como ao simbólico. 791 Cf. Para aceder a esse real é necessário um acto de transgressão. por isso. de acordo com a série enunciada por Jacques-Alain Miller: o gozo impossível791.-A. A resposta seguinte remete-nos para o terceiro paradigma do gozo. por exemplo) aparecem como barreiras relativamente ao real. Dizer impossível é o mesmo que dizer real. Livre XI. segundo o termo que Lacan vai apresentar e desenvolver ao longo do Seminário VII. Jacques. como demonstram os escritos de Sade795. impossível. 794 Cf. Le Séminaire. Para Lacan.” [“(…) puisque l‟opposé du possible c‟est assurément le réel. op. pp. nomeadamente. numa certa época do seu ensino. op. permanecendo do lado da Coisa (Das Ding). inspirando-se simultaneamente em Freud e Heidegger793. pp.cit. p. op. ao gozo em cada momento? Para onde vai (ou onde permanece) o gozo? A primeira resposta é. integralmente significantizável.. LACAN. como é o caso de Antìgona. 257-281. cit. MIller.. pp. op. As múltiplas referências a Sade. por excelência.cit. 796 Cf. Le Séminaire. J. por parte de Lacan. pp.. op. as partes I (introduction de la chose) e II (le problème de la sublimation).. LACAN. Significa isto que é impossível reduzir a verdadeira satisfação. O que acontece.Falar em disjunção.

no início do texto dedicado a este paradigma.do sujeito ao significante. para se constituir como tal. segundo um termo de Lacan a que já fizemos referência . de si mesmo. 14 [“dysharmonie foncière de la jouissance avec le sujet »].. J.O sujeito é aqui concebido como um herói trágico e a experiência psicanalítica como uma “dimensão trágica”797. confronté au signifiant primordial.. Cf. É o preço a pagar pela constituição do sujeito. por exemplo. Cf. cit. C‟est un 798 799 800 désir d‟obtenir la différence absolue. mais tarde. mas antes o desejo de obter a diferença absoluta.»]. nº 63. como igualmente para o facto de que ele é. MILLER. gozo fragmentado (jouissance fragmenté). MILLER. pp. por meio de um acto. cit. 185 . op. que o gozo pode confinar com o trágico. Paris: Flammarion.. 335-375 [“La dimension tragique de l‟expérience psychanalytique »]. num gozo normal ou fragmentado801. Lacan. através desse acto. Eis o que levará. o sintoma. a condição humana está espartilhada. com efeito. 1992. É relativamente a estes objectos que se pode falar. pela primeira vez800.. segundo Jacques-Alain Miller.cit. O autor esclarece. Le Séminaire. Cf. 801 Cf. que há uma “essencial desarmonia entre o gozo e o sujeito”798. ele prova. Ambas as designações se justificam: elas remetem não só para o facto de que este é um gozo parcial e múltiplo (fragmentado). mas que poderia avançar no sentido do gozo normal. enquanto modo através do qual o sujeito formula que o gozo é mau. Vivre Branché. mas antes o que este tem de perder. vai exigir um suplemento de vida.-A. celle qui intervient quand. puro. p. op. estilhaçada por uma multiplicidade de objectos efémeros e evanescentes. p. Junho-Julho de 2006. o mais usual e corrente (normal). 14-18. Jacques. incarnado paradigmaticamente na figura de Antígona. como resultado do avanço da cultura científico-tecnológica (cf. 797 Cf. La jouissance du tragique. ao afirmar. todo o domínio dos bens. confrontado com o significante primordial. O objecto de que aqui se fala não é o velho correlato epistemológico ou intencional do sujeito (segundo a tradição filosófica). por assim dizer. Le Nouvel Observateur. a este quarto paradigma. Esta sujeição . integralmente dedicado à simbiose com os novos objectos que tendem a modificar a nossa própria identidade. que intervém quando o sujeito.. está em posição de vir sujeitar-se-lhe.. no seminário XI. Para lá do domínio onde impera o belo. que é suposto habitá-lo. Cada vez mais. o desprazer e o mal. É um sujeito que arrisca. de modo a agir em conformidade com o desejo. Livre XI. pp.ou alienação (aliénation).. LACAN. Patrick. 307 [No original : «Le désir du psychanalyste n‟est pas un désir pur. Patrick Guyomard a perguntar se não estaremos aqui perante um “gozo do trágico”799. com o consequente esvaziamento e mortificação do mesmo. le sujet vient pour la première fois en position de s‟y assujettir.cit. GUYOMARD. op. Hors-série. incarnado em diversos “objectos”. que o desejo do psicanalista não é um desejo puro. por assim dizer. que havia já chamado. em Los Angeles. o prazer e o bem. Jacques-Alain. O próprio Lacan modifica a tese de um desejo puro. op. Eis o que mostra. LACAN.

Não obstante. enquanto objecto escópico. Marcelo. forçado a escolher perante duas possibilidades igualmente desfavoráveis. da fala e da linguagem. isto é. ainda que provisoriamente. por exemplo. se escolhe a vida. no campo onde reina a lei. 254-255. No Seminário XI. seja qual for a opção ou o termo escolhido da alternativa em jogo. pp. 806 Cf. J. 804 Cf. o sujeito tem de escolher. MILLER. do olhar805 ou da voz (postos em relevo por Lacan).cit. A alienação atrás referida.cit. Jacques. por exemplo. de tal forma que. Association Mondiale de Psychanalyse. de William Shakespeare 803. no Mercador de Veneza.Daí que Lacan. Oxford: Oxford 803 University Press. *** 802 Cf. do seio ou das fezes (isolados por Freud. École de la Cause Freudienne. O exemplo paradigmático de Lacan. L‘Angoisse. pp. traduz-se. no fundo – como vimos já – por uma escolha forçada: para se constituir no campo do Outro. op. em particular através da revisi- 805 tação de um quadro de Holbein: Os Embaixadores (Cf. perde ambas. Celina. acaba por ficar com uma vida desfalcada da bolsa. na medida em que eles venham ocupar. LACAN. in The Complete Works. Lacan. “The comical history of the Merchant of Venice”. Livre X. Paris: Seuil.. 237. apesar de estruturalmente vazio. Les Objects a dans l‟expérience analytique. LACAN. estrutural... 2001. é a bolsa ou a vida804: se o sujeito escolhe a bolsa. da incidência da lei da linguagem sobre o real (biológico) do sujeito falado e falante. como vimos atrás). op. um resto. o objecto a. simbólica. O sujeito é. isto é. do objecto perdido807.) (2008). 3ª Ed. um resto irrecuperável. L. Cf. O objecto a designa estruturalmente um vazio. p. HEKIER. Lacan vai conceder uma especial atenção ao olhar. 186 . 1988. Seja qual for a sua escolha. Cf. assim. (Dir. 77-135). Anorexia-bulimia: Deseo de Nada. do próprio nada (cuja importância em alguns dos novos sintomas. no Seminário XI. parece indiscutível)806.. o vazio. Lacan chamará ao que resta da operação significante. SHAKESPEARE. Buenos Aires. Vº Con- 807 grès. William. tenha invocado a famosa “libra de carne” que Shylock exige a António. Le Séminaire. Buenos Aires: Paidós. na medida em que ambas implicam uma perda. ele pode ser incarnado por diversos objectos: é o caso. como a anorexia. mas também de muitos dos objectos produzidos pela cultura e civilização. o ponto ou lugar onde ocorreu uma perda no processo de constituição subjectiva. já no Seminário X802. MAHJOUB. como exemplo paradigmático do objecto de que aqui se trata. ele acaba inevitavelmente por perder algo. há sempre uma perda.

Dizer objecto. sinon (…). p. uma articulação entre o significante e o gozo. deste ponto de vista. c‟est-à-dire. tornando-se definitivamente um desejo de outra coisa (no lugar. uma vez que não é possível conceber o sujeito (diferentemente do eu. de ce rien autour de quoi toute passion humaine resserre son spasme (…) ».cit. op. no quarto paradigma – o gozo normal – começa a esbater-se uma tal disjunção. articulação ou aliança () entre o significante e o gozo vai a par da manutenção de uma certa disjunção ()809 entre ambos. a uma nova aliança. que é. 59 : « Le désir n‟a pas d‟object. o objecto a. LACAN. Com efeito. para que o sujeito advenha. nos seus diferentes avatares. O sujeito. Neste contexto. o gozo é entendido sobretudo como aquilo que se perde ou tem de perder-se. impossível.cit. Ele permite.» 811 Cf.. tem sobretudo a função de assinalar ou localizar os pontos ou lugares onde houve uma perda de gozo. Como esclarece Lacan na Subversão do Sujeito. quer este último seja concebido como um obstáculo imaginário ou uma impossibilidade real. da Coisa perdida) ou um desejo de nada811.Se nos primeiros três paradigmas – a imaginarização. Le Triomphe de la Religion. O objecto a é o que resta dessa perda estrutural. impossível. LACAN. por assim dizer. que o gozo (maciço. 827 : « La castration veut dire qu‟il faut que la jouissance soit refusée. por assim dizer. graças à intervenção do significante. Ele é. “a castração significa que é preciso que o gozo seja recusado para que possa ser atingido na escala invertida da lei do desejo”810. apenas na medida em que este pressupõe já essa perda estrutural. Todavia. a significantização e o gozo impossível – tende a acentuar-se a disjunção entre o sujeito (ou o significante)808 e o gozo. op. por assim dizer.. enquanto instância imaginária) sem o significante. mortificado pelo significante ($). um complemento de vida relativamente ao sujeito mortificado. neste quarto paradigma. A clivagem dos primeiros paradigmas dá lugar. 808 É importante referir que nesta época dizer “sujeito” equivale praticamente a dizer “significante” (embora não se confundam). Écrits. irremediavelmente. aqui. da Coisa) condescenda ao desejo. pour qu‟elle puisse être 810 atteinte sur l‟échelle renversée de la Loi du désir. les confins de la chose. vai articular-se (<>) com um objecto (a) (passível de ser incarnado por meio de uma série de objectos). 187 . subsiste uma ambiguidade: a conjunção. não é o mesmo que dizer a Coisa (Das Ding): o objecto assinala o facto de que a Coisa está irremediavelmente perdida. 809 A fórmula lacaniana do fantasma ($ <> a) conserva simultaneamente a conjunção () e disjunção () lógicas. Cf. Jacques. p. um gozo sujeito à castração.

mas também o gozo. se satisfaz ou de que tira proveito. 56. 21 [“Ce paradigme repose sur une équivalence entre le sujet et la jouissance.. como até o propicia e torna possível. op. cujo dossiê tem por tìtulo: “Marx. que a satisfação ou o gozo não são plenos. No entanto – e daí a ambiguidade – o plus-de-jouir pode ser lido igualmente de um modo positivo. Cf. objectos com que o sujeito. que é preciso dizer “adeus” ao mito de um gozo pleno e absoluto. de certa forma. Com efeito. isto é. também o plus-de-jouir pode ser lido como uma espécie de mais-valia do gozo. então. torna-se possível uma nova aliança ou conjunção entre o significante e o gozo. MILLER. p.-A. meio. Livre XVII. brincando com as palavras.. cada um deles comemorando uma perda ou um limite. mesmo se a Coisa está irremediavelmente perdida. mas um sujeito estruturalmente desfalcado ($). incompletos ou parciais. Marx volta a ser um autor (contraditório e paradoxal. a linguagem e o significante passam a ser concebidos por Lacan como “meio” (moyen) ou “aparelho” (appareil) de gozo. Ou seja: graças à “castração” simbólica. como “plus-de-jouir813. Deste ponto de vista. aquém ou para além dos diversos “marxismos” que dele se apropriaram. 815 A palavra. 188 . este já não é mais um ser bruto do gozo (S). à intervenção do Outro. p.cit. na realidade biológica do ser falado e falante. MILLER. A existência do significante não só não impede que haja gozo. que tem abalado o mundo nos últimos tempos.. tal não impede que haja sobras. continua fecundo e produti- 813 814 vo. apesar de tudo.cit.. Seminário XVII. ou aparelho de gozo815.. les raisons d‟une renaissance” (nº 479. op. a mais-valia (Mehrwert). o plus-de-jouir significa que não-há mais gozo ou. O objecto a (e suas várias incarnações) assinala. incompleto.cit.cit. Perante a crise global. enquanto desejo de outra coisa. J. em francês. 57).O paradigma seguinte – o gozo discursivo812 – parece conservar a ambiguidade assinalada mais atrás. Não é apenas o sujeito que é um efeito do significante. Ele diz-nos que. Mais ainda: o próprio significante passa a ser concebido como condição. LACAN. Daí que Lacan. op. do significante. por um momento. Neste caso. mas faltosos. pp. Dizer que um significante é o que 812 Cf. Da mesma forma que o lucro. Que o pensamento de Marx. restos. pode ser lido negativamente como um não ou um stop ao gozo.”]. p. Le Séminaire. LACAN. prova-o o recente número da prestigiada revista francesa Magazine Littéraire. isolada por Marx como a essência do capitalismo814.. ou como um mais-de-gozar. Daí que. op. em particular na forma como Lacan passa a conceber e a denominar o objecto a. é causado por uma multiplicidade de objectos. Outubro de 2008). Jacques. 816 Cf. diga que o ser humano não tem mais que apalavrar-se/aparelhar-se (s‟apparoler) a um tal aparelho do gozo (Cf. económico-financeira. pareça haver uma estranha equivalência entre o sujeito e o gozo816. 18-24. “plus”. Jacques-Alain. cujo desejo. sem dúvida) a revisitar. Jacques. É a releitura lacaniana da pulsão “parcial” de que falara Freud.

133-138. segundo esta ou aquela modalidade – o enfoque é agora diverso: trata-se de acentuar sobretudo a disjunção. e mesmo comum.”818 Um bom exemplo da forma como o significante pode funcionar como condição. Cf. do seguinte modo: “o que se veicula na cadeia significante é o gozo.. 21 [“Ce qui se véhicule dans la chaine signifiante c‟est la jouissance..-A. em particular do Outro Sexo. pp.U. Entre o significante e o gozo não há (apenas) disjunção.cit. por excelência. Mesmo se o ponto de partida parece ter algo em comum – a afirmação primacial de que o sujeito goza. p.representa o sujeito para outro significante. Na medida em que o sujeito é um efeito do significante. é-nos dado por Freud. FREUD. J. 24-29. de um modo ou de outro. Exigência de rigor ou dene- 818 819 820 821 822 gação? 189 . in La Vie Sexuelle. J. Na terminologia cientìfica.F.. a desproporção ou a não-relação821 entre o gozo de Um e o gozo (problemático) do Outro. pp. meio ou aparelho de gozo. op. a que já fizemos referência anteriormente no nosso trabalho. 2002. mas (também) conjunção. Cf. do último Lacan é: “Il n‟y a pas de rapport sexuel”.cit.. Mais do que uma barreira ao gozo. pode ser retraduzido. sobre o Fetichismo819. o termo “sexo” tende a ser substituìdo por “género”. Cf. MILLER.-A. e em particular os equívocos que dele resultam.”]. Paris: P. num artigo escrito em 1927. A fñrmula. o significante. “O Fetichismo”. 13ª Ed. então. 817 Jacques Alain Miller procede a uma série de variações em torno desta fórmula. Daí que Freud e Lacan não tenham deixado de interrogar o Outro Sexo822. revela-se aí como o estofo.. como mostraremos no capítulo seguinte. entre o sujeito e o gozo pode haver igualmente conjunção. segundo uma fórmula repetida por Lacan817. op. MILLER. É em relação a esta possível conjunção que o paradigma seguinte – a nãorelação820 – vai constituir uma ruptura. o tecido ou a condição de possibilidade do próprio gozo. Sigmund.

uma vez que barra (/) o “eu” imaginário ou psicológico. Quando. visto que rasura (/) a diferença sexual. nos meios cientìficos. des-substancializado. como algo incontornável. esta rasura do “sexo” não terá algo de sintomático. Ela desdobra-se em duas outras questões: qual a modalidade de gozo específica a cada sexo? Quais as modalidades de subjectivação que lhe correspondem? Para responder às questões formuladas. ni de la femelle par le mâle. como vimos na segunda parte do nosso trabalho. O sujeito “cartesiano” (de Lacan) é. reconaissance. mas igualmente a diferença sexual. ao mesmo tempo. vazio e des-sexualizado. cit. du mâle par la femelle. ele apaga igualmente toda a diferença sexual823. Com efeito. a um mero ponto evanescente. por meio da dúvida. procedeu a um tal esvaziamento do cogito que o reduziu.. É nessa medida que podemos dizer. É nesse sentido que poderìamos dizer. Aliás. continuamos a usar os termos de 826 Freud e Lacan.” [“(…) il n‟y a point. 319 : « (…) não há de modo algum. na medida em que esvazia o sujeito ($) de todo e qualquer conteúdo ou atributo substancial824.. Desse ponto de vista. »]. como tais. ao nìvel do sujeito. 692 : « (…) o sujeito sñ designa o seu ser ao barrar tudo aquilo que ele significa (…) » [« (…) le sujet ne désigne son être qu‟à barrer tout ce qu‟il signifie (…) »]. Écrits. que ele equivale ao sujeito “cartesiano”. que ele é um sujeito “sem qualidades” (Ohne Eigenschaften)825. como tels. Lisboa: Dom Quixote. Le séminaire. LACAN. p. de dar preferência ao termo “género”. no ensino de Lacan. MUSIL. parafraseando Robert Musil.CAPÍTULO QUARTO Gozo e sexuação Comecemos por reafirmar o que já dissemos algures: o sujeito lacaniano é essencialmente vazio. dessexualizado. Jacques. o gozo se impõe como um novo ponto de partida. assim.cit. 824 Cf. O Homem sem Qualidades (2 volumes). LACAN. no 823 Cf. 825 Cf. por um instante. p. au niveau du sujet. a questão do sexo826 reaparece. do macho pela fêmea e da fémea pelo macho. 2008. É por isso que. é preciso ter em conta não apenas o sujeito. Robert. Jacques. Livre XVI. numa altura em que o “sexual” está disseminado por toda a parte? 190 . des-subjectivado. reconhecimen- to. Descartes. op. Apesar de haver hoje tendência. op.

o próprio conceito de “famìlia” está a ser redefinido. Luise. Madrid: Biblioteca Nueva. isto é. A Sexualidade Feminina.827 *** Se a questão do feminino pode ser (e tem sido efectivamente) abordada sob vários pontos de vista828. Susie. que se apresenta como um sintoma. Cf. 18 e 19 de Junho de 2008. numa redução do enigma da feminilidade à solução materna. perante algo que resiste. Nesse aspecto. Se bem que o devir mulher apresente uma série de dificuldades. essa diversidade de pontos de vista.. 829 Que esta é uma questão recorrente. uma vez que se considerava que. in Autres Écrits. segundo a formulação freudiana. S. 1996. os textos de Freud que mais directamente têm a ver com esta questão. o Outro sexo ou a sexualidade feminina.cit. Jacques. EICHENBAUM. O recente debate em torno da possibilidade de “casamentos homossexuais” é um sinal dessa redefinição. em particular a adolescência e a menopausa. antes de mais. prova-o um recente ciclo de cinema intitulado “Que querem elas?” (16. A sexualidade feminina (1931) e a Feminilidade (1933). C.. “Les complexes familiaux dans la formation de l‟individue ». Sigmund. ORBACH. que faz problema. 45-61). Tomo III. A Sexualidade Feminina. tanto ao nível da realidade fáctica. por exemplo. 191 . Vide. FREUD. no Instituto Franco-Português de Lisboa). o que querem elas?829 Como responde Freud a um tal enigma? Resumidamente. como aquilo que faz problema. A autora analisa algumas das fases problemáticas do devir mulher. Tomo aqui a palavra sintoma. poderíamos dizer que a sua posição não varia muito ao longo dos anos. igualmente. Lisboa: Edições Universitárias Lusófo- nas. O Que Querem Elas? Lisboa: Sinais de Fogo. 17. op. 830 Cf. tal como a família equivalia a uma instituição que tinha em vista assegurar a procriação e o cuidado dos filhos. ele não difere muito do ar do tempo. a saber: Algumas consequências psíquicas da diferença anatómica entre os sexos (1925). op. Obras Completas. cit. há no entanto algo que parece persistir ao longo dessas diferentes abordagens: a sensação de que estamos. basicamente. LACAN. basicamente. RODRIGUES.. 831 Numa época. em particular. vicissitudes ou impasses durante o seu percurso830. de alguma forma. 828 Se tomarmos como referência. 2004. ou seja. como a nossa. E o que faz problema é. também o papel e a realização da mulher equivaliam à maternidade831. reduzida ao seu núcleo conjugal (Cf. como do direito. a solução freudiana consiste. Cf. reparamos como os próprios títulos sugerem. de uma forma geral. 827 Retomo aqui o título da tese de Selma Calassans Rodrigues. estamos cada vez mais confrontados com uma pluralização pósmoderna da família. Mais do que a crise da famìlia tradicional (alargada) ou “moderna”. em que existem cada vez mais casais que não têm filhos por opção e mulheres que não parecem realizar-se (de modo algum ou inteiramente) no papel de mães. 2007.seguimento de Freud. Lacan não deixou de interrogar uma tal diferença e.

Que Veut une Femme (Éditions du Seuil. a mulher não nasce mãe. Cf. a perguntar se. 835 A frase emblemática de toda uma geração feminista é a seguinte: “Não nascemos mulheres. é já clássico o livro de 833 834 Serge André. Parafraseando Simone de Beauvoir. 3178. ao confessar. p. 13 de Fevereiro 1993. c'est l'ensemble de la civilisation que élabore ce produit intermédiaire entre le mâle et le castrat qu'on qualifie de féminin. “a mulher mede-se pela sua distância à mãe – quanto mais mãe. Sigmund. O que nos leva. Aucun destin biologique. Pode acontecer que o normal diga apenas respeito a um dado estatístico e não traduza qualquer elemento de estrutura. cit. desde logo. como dizia. bem como da sua retomada por Lacan. que “as mulheres não são toda-mãe e a mãe não é toda desejo materno”836. FREUD. Por fim. foi levada a seguir um cami832 Cf. Le Deuxème Sexe. de Hélène Deutsch. esta equivalência entre a mulher e a mãe não traduzirá antes um impasse ou um sintoma freudiano.”837 É por isso que houve quem fosse tentado. Simone. 1995). Ibidem. uma tal solução não deixou. embora aceitando. de uma forma geral. já na época de Freud. MILLER. Hoje. pp. que apesar de ter dedicado muito tempo à questão do que quer a mulher (Was Will das Weib). pelo menos. économique ne définit la figure que revêt au sein de la société la femelle humaine. Sobre o devir desta e de outras questões conexas na obra de Freud. em vez de solução. já no final da vida. Jacques-Alain Miller. Jacques-Alain. Obras Completas. 13 de Fevereiro 1993. Foi o caso. Paris : Gallimard. “Conferência de Clausura das IXªs Jornadas del Campo Freudiano en España ». E podíamos ir ainda mais longe e dizer. op. torna-se835 ou não se torna mãe. a solução materna é apenas uma de entre várias. ele conclui um artigo de 1933. com as seguintes palavras: “Isto é tudo o que tinha para dizer-lhes sobre a feminilidade. há ainda o lamento de Freud. 837 192 . bastante parcelar e problemática. Na verdade. BEAUVOIR. finalmente. por exemplo. ou então. “Madre ou Mujer”.. mesmo se é a mais normal. com Marie-Hélène Brousse. numa altura em que diminui a natalidade em praticamente todos os países ditos “civilizados” e há cada vez mais mulheres que optam por outro tipo de “realização” diverso da maternidade. »]. tornamo-nos mulheres” [“On ne naît pas femme: on le devient. dedicado à Feminilidade832. A começar para o próprio Freud. a procurar a solução algures. os postulados e as conclusões de Freud. 1949. Ser mãe não responde cabalmente ao que quer uma mulher. esta permanecia sem resposta834. menos mulher. 836 BROUSSE. que. É certamente incompleto e fragmentário…”833 Além disso.Porém. no entender de Freud. Marie-Hélène. de causar problema. A mulher não é toda mãe. in Correo del Campo Freudiano en Andalucia. a “solução” freudiana é. 3164-3178. psychique. há alguns anos.

em absoluto. 193 . Livre XX. o que ela deseja na sua vida mental é ser humilhada”. sem dúvida. Karen. mas. por vezes. a identificar-se umas às outras. que se possa falar aqui d‘a mulher. mas sobretudo que a mãe não é toda desejo materno. K. Horney. como reconhece a K.. a sua orientação na vida normal e de proteger-se deste modo contra os perigos que.843 Há. FREUD. 227. Le Séminaire. cit. Paris. que “o masoquismo é a força mais elementar da vida psìquica feminina. p. “Não há dúvida – afirma a autora – que este é o caso de inúmeras mulheres neuróticas. “o que a mulher deseja no fim de contas no coito é o rapto (enlèvement) e a violação. Horney sustenta que eu considero o masoquismo feminino como uma “potência elementar da vida mental da mulher” e que. a existência de mulheres masoquistas. já em 1930. numa referência directa às teses de Hélène Deutsch.. não existe a mulher. 230. justamente. segundo aquilo que ele designou como identificação histérica. 841 HORNEY. ligadas por um único traço essencial842. p. 843 Cf. op. in Féminité Mascarade. 1981. alors que. Volume I. p. 239).”838 É a sua maneira de dizer que a mulher não é toda mãe. Paris . por exemplo. Foi o caso. É certo que eu considero o masoquismo como “um poder elementar da vida feminina”. artigo definido e universal. Payot.840 Isto não significa que ela negue. apesar de tudo. no final de um capìtulo dedicado ao “masoquismo feminino”: “Chegada a este ponto – dizia ela – quero defender o que escrevi contra uma falsa interpretação. discute longamente a ideia de que “ser mulher é ser masoquista”839. nos meus estudos anteriores e neste último.F. p. num texto de 1933. as mulheres tendem. justement. la femme n‟est pas toute. esforcei-me por mostrar que uma das tarefas da mulher é o domínio deste masoquismo. Segundo esta autora.U. ao afirmar. que. Karen. Jacques. Seuil. que tende a afirmar a existência de uma essência da feminilidade caracterizada pelo masoquismo. se bem que.”841 O que Karen Horney põe em questão é a ideia. como mostrou Freud. il n‟y a pas la femme. in Essais de Psychanalyse. Horney. mas supor que é essencial a todas as mulheres não é convincente. Paris : Payot. em meu entender. não 838 DEUTSCH. não deixou. Os ecos desta polémica continuaram a repercutir-se em textos posteriores. Mesmo se. algumas que são masoquistas – ou apresentam traços masoquistas – mas não todas. op. eu considerava como a sorte comum da mulher.. haveria na própria maternidade e nos fenómenos a ela adjacentes – a menstruação. 225. p. “Psychologie des foules et analyse du Moi”. intitulado “O Problema do Masoquismo na Mulher”.” (in La Psychologie des Femmes. nem todas as mulheres (ou nem tudo nas mulheres) passaria ou estaria sujeito a essa identificação (Cf. de que as mulheres fariam todas parte do mesmo conjunto. de causar polémica. a gravidez. como se pode ver por esta nota que Hélène Deutsch 839 840 escreveria.” [“(…) j‟ai dit de la femme. a mulher não é toda. de Karen Horney. etc. 13 : « (…) eu disse da mulher. “Le problème du masochisme chez la femme ». por assim dizer. P. desde logo. mais tarde. em particular ao sintoma ou ao 842 sofrimento de outras. HORNEY. Hélène. E poderíamos ir ainda mais longe e dizer – o que K. »]. Uma tal posição. 1997. “Le masochisme féminin et sa relation à la frigidité ». Sigmund. segundo Horney. 1981. Paris. dizendo à maneira de Lacan. LACAN. in La Psychologie de la Femme. cit. – uma dimensão de gozo (no que este tem de masoquista) irredutível ao desejo materno. o parto. Ou.nho algo diferente. 1994.

e a atracção que a mesma exerce em algumas delas. no texto já citado. 740 : « Podemos fiar-nos no 846 847 848 que a perversão masoquista deve à invenção masculina. desde logo nos apercebemos de que o masoquismo feminino de que aqui se fala é o que diz respeito a certos homens (ao qual. Paris : les Éditions Minuit. Porém. forma esta que seria não apenas a mais acessível à nossa observação. num outro texto paradigmático – “Uma Criança é Batida” –. como igualmente a que parece levantar menos problemas e de cujas relações se espera um “esclarecimento global”845 para a questão em análise. neste aspecto. Sigmund. se recuarmos de novo até Freud. quando ela se pergunta. coincidindo portanto o seu masoquismo com uma posição FEMININA”847. op. p. FREUD. diferindo. FREUD. para concluir que o masoquismo da mulher é um fantasma do desejo do homem?” [“Peut on se fier à ce que la perversion masochiste doit à l‟invention masculine. in Esquecimento e Fantasma. Sacher.. op. 1996. uma outra forma de masoquismo a que ele chama feminino. Talvez seja. Com efeito. como nas encenações para a realização dos mesmos.. se essa suposta natureza masoquista da mulher. ao lado do masoquismo erógeno (o prazer na dor) e do masoquismo moral (consciência de culpabilidade. MASOCH.faz – que mesmo numa mulher que apresenta traços masoquistas. Présentatation de Sacher-Masoch. p. “Propos directifs pour un Congrès sur la sexualité féminine”. Cf. na maior parte dos casos inconsciente).cit. Tomo III. in Obras Completas. por parte destas. “Uma criança é batida”. num texto de 1924 – “O Problema Económico do Masoquismo” – ele colocava. Isto é em tudo consentâneo com o que Freud tinha desenvolvido alguns anos atrás. levantada pela própria K. Esta pergunta. 2753. elas não é toda masoquista. pour conclure que le masochisme de la femme est un fantasme du désir de l‟homme ? »]. De qualquer modo. inteiramente devotado à realização do seu fantasma masoquista844. p. Lisboa: Assírio e Alvim. 1991. in DELEUZE. LACAN. por razões que dependem do material. Gilles. 44. Cf. “El problema econñmico del masoquismo”. Sigmund. Horney. não deixa de fazer eco a uma outra. a questão não deixa de ser pertinente. os homens colocam-se habitualmente no papel de mulheres.cit. formulada por Lacan em 1960. não resultaria simplesmente de uma conformação. quando diz que “ tanto nos fantasmas masoquistas. do perverso (homem). 845 FREUD Sigmund. a certa altura. Jacques. ajustado colocar a seguinte questão: não será “o masoquismo da mulher (…) uma fantasia do desejo do homem?”848. 194 . Freud diz que vai limitar a sua análise846). in Écrits. Ibidem. “La Vénus à la fourrure”. por isso. a um fantasma masculi844 Cf.

p. Éditions du Seuil. “as mulheres que apresentam estes traços especìficos são a maior parte das vezes escolhidas pelos homens. Patrick Monribot. cada mulher deve respeitar um código preciso. Segundo o autor. 36. 1993) e do “Cântico Espiritual” (S. Assírio e Alvim. Regard d‘hommes – Sociologie des Seins Nus.cit.no. no fundo. 18-31). Corps de Femmes. segundo esta perspectiva. 1972). 849 HORNEY Karen. o sujeito é tomado de pavor e arrepios (frissons) quando se apercebe de que a sua parceira é. MONRIBOT. op. conta um sonho paradigmático a este respeito. 27. falam destas como se a sua natureza ou o seu destino consistisse em sofrer. Resumidamente. Lisboa. se quiserem perceber como sofre a mulher. como o destapar dos seios.”849 Por outro lado. RIBEIRO. p. p. pp. nessa obra enigmática de Bernardim Ribeiro intitulada ―Menina e Moça”. Dom Quixote. Cf. a que valeria por todas e que D. 242. 850 Para além de “Menina e Moça” (Bernardim Ribeiro. uma montagem feita de pedaços de corpo de todas as mulheres que ele conhecera na vida. colocando-se sob a bandeira das mulheres.cit. « Les frissons d‟une cure ». respondendo por meio da adopção de posições do corpo e de gestos adequados. Paris: Nathan. no testemunho que deu sobre a sua própria análise854. por exemplo. graças. por exemplo. in Qui sont vos Psychanalystes. Editorial Verbo. É o que podemos ler. poderìamos dar o exemplo das “Cartas Portuguesas”. por detrás do rendilhado do que vai sendo dito e contado. como faz o narrador desta obra. segundo a sua morfologia. esta hipótese ajudar-nos-ia igualmente a perceber a razão por que certos homens. 851 Cf. João da Cruz. 852 853 854 195 . atribuìdas a Mariana Alcoforado (Lisboa. Ibidem. Patrick. 1995. Paris. a tese do autor consiste no seguinte: ao nível do comportamento aparentemente mais anódino. artigo definido e universal. Daí que estes tenham de colocar-se numa posição feminina. ao facto de que as mulheres não existem a não ser uma por uma. o livre de Jean-Pierrre Kaufmann. Mas há igualmente outras soluções. ao poder da enunciação850. sem jamais se poder encontrar “A” mulher. Lisboa. Assírio e Alvim. Poesias Completas. ou seja. o que implica que as suas possibilidades eróticas dependem da conformidade daquelas à imagem do que constitui (ou é suposto constituir) a sua verdadeira natureza. a este respeito. Isto porque.853 Eis uma fantasia masculina e uma possível solução – do lado do homem – para a inexistência da Mulher. a sua cultura e o contexto da praia e compreender os signos enviados pelos olhares que lhe são dirigidos. 2002. esta era a sua resposta sintomática à castração feminina. 1990. Aì se advoga a tese de que “sñ as mulheres são tristes”851 e que “não há tristezas nos homens”852. a sua idade. Bernardim. Não deixa de ser interessante. op. Seria interessante ler todo o livro. O seu conteúdo manifesto é o seguinte: ao preparar-se para fazer amor. segundo a autora.

Aliás. in Féminité Mascarade. “A” mulher que não existe.).cit. Fausto.. pela voz de Fausto857. este continua obscuro. Uma outra solução – ainda do lado do homem. 1975. dentro de uma lógica edipiana). do “eterno feminino”. através de uma Outra (a sra K. pp. in Ecrits. porém. No fundo. como dizia Goethe. do lado do homem. 494..Juan. Cf. na medida em que a mulher não existe para o homem. Axel. Vide. por meio destes. o seu próprio mistério. Paris: Éditions du Seuil. É a solução delirante de Schreber856. SCHREBER. poderíamos ir um pouco mais longe e colocar a seguinte questão: será que este masoquismo (que a autora reconhece como uma força elementar ou uma essência da feminilidade) não é tão só uma máscara? Apñs o estudo de Joan Rivière sobre “a feminilidade como mascarada” 858. Dora – para continuar a série – tinha igualmente uma solução. O mistério da feminilidade. mas. não era o sr. apesar de tudo.. PREISS. Paris. embora segundo uma estrutura diferente – consistiria. mas para fazer ex-sistir. Cf. “D‟une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose. o que Dora parecia amar. Daniel Paul. 1991. K. “La féminité en tant que mascarade”. ao suposto masoquismo das mulheres propriamente ditas (segundo a tese de Hélène Deutsch. nem a sra. em tornarse a mulher de Deus. p. Le mythe de Don Juan. não para o tomar como objecto sexual (como pretendia Freud. op. em que certas atitudes e comportamentos tidos como femininos não passam de uma másca- 855 Cf. A solução (onírica) encontrada neste caso consistia em servir-se de várias mulheres para fazer uma. Mémoires d‘un Névropathe. que consistia em identificar-se a este (o Sr K. igualmente.. 1987. que vínhamos discutindo). Cf. 856 Jacques. Joan. LACAN. 858 196 . GOETHE. Lisboa: Relñgio D‟Água. 857 Cf. Johann W.). Seuil. 561-583. Paris : Bordas. *** No que diz respeito. 1994. não chegou a encontrar na sua busca855. RIVIERE.

Livre X. extrair dele algumas notas reveladoras. na sua análise e que parece corresponder bem a uma tal atitude. quer de postura sacrificial – tudo fazer para os outros – adoptando aparentemente as formas mais elevadas da abnegação feminina. 202. Ela é não só independente e empenhada. p. a questão não deixa de ter alguma pertinência. no máximo grau e com satisfação. ele parece demonstrar uma não concordância entre a posição subjectiva assumida na existência por esta mulher (eminentemente activa) e o seu fantasma inconsciente (aparentemente passivo). que se manifestava após cada conferência dada em público. a certa altura. as funções femininas de dona de casa e de esposa. sob esta aparente completude e satisfação. Cf. ela sofria de uma angústia (afecto que não engana. preparando-se para se lavar. como se dissesse – mas vede... Em primeiro lugar. com as mangas arregaçadas e os braços nus. por vezes intensa. op. No 859 Como sublinha Lacan. 23 (« L‟angoisee (…) c‟est un affect ») e 92 (« L‟angoisse. poderíamos. a este propñsito. Como consequência disto. Le Séminaire. op. RIVIERE.‖863 Há um sonho que esta paciente conta. “La féminité en tant que mascarade”.ra usada por esta ou aquela mulher859. Jacques. Trata-se de uma mulher aparentemente completa e realizada nos vários domínios da sua vida. LACAN.. 863 Cf. ele começava a admirá-la e a acariciar-lhe os braços e o peito. o caso analisado por Joan Rivière. aterrorizada. ela precipitava-se numa série de “démarches‖. c‟est ce qui 862 ne trompe pas »). e pura mulher.. que. do ponto de vista profissional (escreve e dá conferências)861. cit. Ela resistia-lhe.cit.cit. op.cit. 860 No caso analisado – como resume Lacan no Seminário V – trata-se. fundamentalmente. Acontece. Joan. p. Vejamos. eu sou mulher. segundo Lacan)862.”864 Sem entrar nos pormenores da análise deste sonho. um Negro entrava e deparava com ela. eu não o tenho. o falo. de um desejo (e de um gozo) da supre- macia (o que trai a sua natureza eminentemente fálica). sozinha. não obstante. como parece igualmente assumir.“trata-se da análise de um caso específico – não da função da feminilidade em geral” (cf. LACA. para levar a bom porto um certo desejo inconsciente860. 255. p. op.. Le Séminaire. Livre V. quer de sedução. em determinado momento. em casa. resumidamente. O conteúdo manifesto do sonho é o seguinte: “Ela estava só.. 254). porém. livre IV. p. Le Sémininaire. mas com a intenção secreta de o seduzir sexualmente. 861 O que na altura era bem mais assinalável que actualmente. 864 197 .

159. e que estava estruturado sobre a história – tal como Joan Rivière desenvolve no seu artigo – da rivalidade com a mãe. op. Lisboa. BLOY. pp. talvez. finalmente. p. Léon. LACAN. p. aliás. A Mulher Pobre (Cf. ao balançar entre uma posição em que ostenta o ter (o seu triunfo e trunfos profissionais) e uma outra em que sobressai o parecer (submissa e servil). no seu artigo sobre a ―feminilidade”. amar é dar o que não se tem (donner ce qu‟on n‟a pas)868. Paris: Part Commune.”865 E o contrário. e com o pai. 2005). 1991). Diferentemente do homem. s/d. Sigmund.cit. como necessidade e gozo da supremacia como tal. “La Signification du Phallus”. que não é tal sem ter (o falo). Cf. “A femininilidade”. em particular ao longo do Seminário VIII (Cf. in Écrits. La Femme Pauvre. 866 867 868 Livre VIII (1960-1961). ao caracterizar a exigência de amor (infantil) como imoderada870. sem margem para dúvidas. depois. mostra não apenas que a própria feminilidade pode ser um logro (uma máscara). ou seja – como diz Lacan no seminário V – “a enganar aqueles que tivessem podido ofender-se com o que nela se apresentava fundamentalmente como agressão. 869 Um bom exemplo de um tal despojamento (a que o próprio Lacan não deixa de ser sensível) é o livro de Léon Bloy. pp. LACAN. primeiro.. exclusivo. FREUD. in Textos Essenciais da Psicanálise.. fazendo-se amar e desejar por isso mesmo867. Paris: Éditions du Seuil. 685-. de sublinhar e desenvolver longamente este aspecto do amor (insaciável. Horney não deixa. Europa-América. Freud. não deixou de o notar. K. Nessa medida.. Ibidem. Cf. por amor. 255. op. como já Freud alertava no seu artigo sobre a “feminilidade”. 166-167. intitulado: “A necessidade neurótica de amor”.entanto. que este amor 865 FREUD Sigmund. uma mulher estaria disposta a desfazer-se de tudo para ser amada pelo que não tem869. Na verdade.”866 Mas. Le Séminaire. a uma mulher seria dado ser ou parecer (como na mascarada) aquilo que não tem. também seria válido: a máscara da passividade servindo para ocultar uma activa reivindicação de mestria e domínio sobre o outro (rival). Aì se vê.695 É uma frase que percorre o ensino de Lacan. LACAN. 870 Cf. visto que para atingir um alvo passivo pode ser necessária uma grande dose de actividade. É por isso. mas também que uma mulher não é toda aquilo que tem. Jacques.cit. o que parece ressaltar de tudo isto é que esta mulher. Jacques. 198 . é preciso não cair na ideia fácil de que “dar preferência a alvos passivos” seja “ a mesma coisa que passividade”. segundo uma frase recorrente em Lacan. incondicional…) num artigo de 1926. que este amor acaba por ter algo de desmesurado e impossível de satisfazer. neste caso.

op. resulta da própria natureza do amor. uma maneira de dizer algo a alguém. natural). 259. no limite. Já no seu artigo sobre a “feminilidade‖. Cartas Portuguesas. o significante representa o sujeito para outro significante.cit. que uma mulher não se importa de sofrer até ao limite do insuportável. de endereçar uma mensagem ou de escrever uma carta…de amor a um Outro suposto poder decifrá-la873. 165. 874 FREUD. Poderíamos salientar. enquanto o signo diz algo para alguém (tal como Peirce havia 872 873 defendido). Segundo a distinção martelada por Lacan ao longo do seu ensino. em “Pulsões e suas vicissitudes‖. com uma nova luz..visa o próprio ser no que este coincide.cit. pelo menos. isto é. a dor não é condição. 19. digamos. isto é. poderíamos concluir. Segunda consequência: a transformação do amor em ódio. por desmesurado. Cf. op.”871 Uma tal exigência (absoluta e incondicional) de amor não é sem consequências. op. mas vejamos se continuareis a amar-me se não receberdes nada em troca. Diferentemente do masoquista perverso. no que este tem. mais do que uma essência (como pretendia. É que talvez o sofrimento experimentado não seja um fim (uma tendência. três delas: ou ele fracassa (por impossibilidade de o satisfazer). Sigmund. “O afastamento da mãe – dizia ele – é acompanhado de hostilidade. 199 . p. pois este mistura-se frequentemente com aquele na sua rela- 871 HORNEY. “A Feminilidade”.cit.. Mariana. a questão do masoquismo na mulher. Como percebeu muito bem o autor das “Cartas portuguesas” – as mais belas cartas de amor. p. segundo alguns – é sob a condição de ser amada. “Ama-me sempre – diz Mariana no final da primeira carta – e faz-me sofrer mais ainda. mas antes um meio de que a mulher se serviria para outra coisa: ser amada. e apenas como tal. de impossìvel de satisfazer. Freud recorda-nos que não é o ódio que se opõe verdadeiramente ao amor. O primeiro caso poderia ilustrar. Karen..”872 Então. mas antes condicionada. Hélène Deutsch). ALCOFORADO. resvala para o ódio ou é simplesmente traído. o masoquismo feminino seria um signo. Freud dava conta desta transformação. p. dentro da mesma linha. a certa altura. “Le besoin névrotique d‟amour ». “A necessidade incondicional de amor – diz a autora – revela-se na sua exigência de serem amadas sem nada para dar. com o nada. como que dizendo: “é simples amar alguém que nos dá.”874 Mais tarde. a propósito da desvinculação da menina em relação à mãe. a vinculação à mãe acaba em ñdio..

apesar de tudo.cit. “Amigas. Medeia. s/d. já na última época do seu ensino. também o objecto mais precioso. por meio deste acto. no Outro. no que ele tem de real – enquanto este. mas a indiferença875. Um dos corolários é que essa traição de amor. tapar o buraco do ser (a castração) com o ter (filhos). como Pandora. com um único termo: hainamoration (amoródio)876. acaba por esquecer Jasão e volta a casar-se). transforma-se facilmente no seu contíguo: o ódio.. Cf. que se lhe segue. Ela mostra. Cf. que apresentaremos mais à frente). p. op. se torna insuportável.ção com um objecto. um buraco irremediável881. como demonstra o mito (Medeia. 65. Todavia. EURÍPIDES. e em matar os próprios filhos. aqui trata-se antes de reabrir. p. inesperado e fulminante. É o que Lacan escreverá. Jacques. na sua inteireza de mulher. pois também esta não é 875 Cf. Assim. FREUD. de acordo com as fórmulas da sexuação. 739-764. pp. Jacques. no caso de Medeia) que Lacan utiliza o termo de verdadeira mulher880. ser capaz de abdicar e separar-se daquilo que possuía de mais precioso. está decidido o meu acto” (Cf. Jacques. Sigmund. o amor. “Pulsions et destions des pulsions”. Ibidem. Temos o exemplo de Medeia (ao nível do mito) e de Madelaine de Gide (caso retomado por Lacan. não é todo racional – que dá a uma mulher em particular (sempre de forma contingente) o seu momento de verdade. tal como esta. op. Mas. ou seja. LACAN. como o acto878. É o extremo oposto da solução materna: em vez de. 84. diferentemente do que pensava Hegel. 200 . 11-43. Isto quer dizer que é o acto. LACAN. Jacques. « Jeunesse de Gide ou la lettre et le désir ». Cf.cit. no caso de Madelaine de Gide 879. LACAN. Écrits.” [“(…) le Seul acte 876 877 878 879 880 (…) d‟une vrai femme. dans son entièreté de femme »]. 761. Cf. na sua busca insaciável de absoluto e exclusividade. Livre XX. Terceira consequência: a traição. LACAN. p.. É em relação a este acto (que consiste em queimar as cartas de amor. op.cit. a caixinha do ter. a fim de abrir. também esta solução é apenas contingente e parcial. é nisso que ela mostra ser irmã da verdade. Le Séminaire.. Ibidem: “(…) o único acto (…) de uma verdadeira mulher. quando acontece. Isto porque não existe um outro que corresponda e satisfaça plenamente esta exigência incondicional de amor. o objecto mais precioso. para (embora diferentemente daquela) não mais a fechar. Lisboa Inquérito. 881 Simbolizado pelo S de A barrado (SA/). num texto dos Escritos877) para ilustrar não só este insuportável.

3ª Edição. Teresa de Jesus. pelo menos. em 17 de Maio de 1976. um verdadeiro desejo de gozo (e não um desejo de desejo. senão para gozar. Ibidem. por exemplo. Em segundo lugar. por Deus. Santa Teresa. Uma mesma substância une o amor e o gozo. as santas passavam. não recobre inteiramente a mulher ou não responde. p. sendo incondicional na sua exigência e absoluto no seu propósito. dos grandes bens que lia haver no Céu. que “não há verdade que (…) não minta. p. Amor. trágica.”884 Ora. então resta-lhe elevar-se às alturas. até certo ponto. enfim – embora não totalmente – o que permanecia de mais obscuro no amor. p. Se o amor. 571. porque revela. Esta solução – a que Lacan deu um relevo e uma atenção especial ao longo do Seminário XX – é interessante por diversos motivos. é o mais necessário. se o caminho para o Gozo (de Deus) é amor (dito. Há ainda. “Préface à l‟édition anglaise du Sémianire XI ».toda…verdadeira. ele próprio. 943. da anoréctica) o que parece mover. à maneira. 883 884 201 . Em primeiro lugar. Eis talvez o que levou Lacan a dizer. parecia-me comprarem muito barato o ir gozar a Deus e desejava muito morrer assim. Jacques. por assim dizer. “Livro da Vida”.”883 É. à maneira de Hegel.”882 Mas também esta solução. “Sñ o amor – diz Teresa de Jesus – dá valor a todas as coisas. O gozo. Teresa de Jesus – é dizer gozo. desde o princípio. 2001. 5. de forma cabal. Numa passagem do “Livro da Vida”. e não outra coisa. Edições Carmelo. falando do que costumava fazer com o seu irmão mais querido. Paris: Éditions du Seuil. então este torna-se aqui. e que seja tão grande que nenhuma lhe estorve o amar. tão em breve. respectivamente. escreve o seguinte: “ (…) Juntávamo-nos ambos a ler a vida dos santos. Teresa de Jesus. portanto. noutros lugares. in Autres Écrits. Na verdade. É a solução. até um ser que seja. não encontra no outro (semelhante) condições para se satisfazer. segundo o testemunho que dela nos deu. oração) e se o fim almejado (Deus) é igualmente amor. Santa Teresa de Jesus. ela mostra-nos que um dos caminhos privilegiados para ter acesso a esse gozo tão intensamente desejado é o próprio amor. desde muito cedo. Eles são. por assim dizer. as duas “faces” 882 LACAN. uma outra solução. in Obras Completas. da histérica e. tanto no meio (que move) quanto no fim (que faz mover). ao que ela quer. é o verdadeiro motor imóvel do amor. dizer amor – é o que nos ensina. Não pelo amor que eu entendesse terLhe. ou um desejo de nada. a via seguida pela mística. Como via os martírios que.

trata-se de assegurar que esse Outro Gozo que ela experimenta não deriva de uma qualquer intrusão demoníaca. paradoxalmente. Santa Teresa não deixa. os seus lamentos. le ravissement. 133. nomeadamente no Capítulo Décimo Primeiro das “Moradas”. Pierre. p. 134). mas não sabe como dizê-lo em palavras. São frequentes. tão extremo que a alma parece deveras desfalecer. op. isto é. vejamos o que ela escreve. poésie ». esse Outro gozo. 21-29. que deveras o é. deste gozo: “duas coisas me parece haver neste caminho espiritual que são perigo de vida: à uma. Octobre 1995. a certa altura. apenas uma única face contínua. essa figura topológica que tem. in La Cause Freudienne. Mas não existe só uma modalidade de gozo. Dizendo de outra maneira. 886 Cf. Nº 31. um gozo todo e sem defeito – que seria próprio de uma alma unida a um corpo glorioso. não é muito que desatine. pp. e não pequeno. certo excessivo gozo e deleite. BRUNO. No “Livro da Vida”. Contudo. Daí a diferença que é preciso fazer entre o arrebatamento (que vem de Deus e eleva o próprio corpo) e a possessão (que vem do demónio e captura o sujeito numa identificação fálica)885. 887 202 . limites e que mistura por vezes. op. à outra. este gozo que Teresa se esforça por bem-dizer parece escapar-lhe. a mais profunda desolação e martírio (o que não deixa de lembrar-nos um certo masoquismo) com as mais suaves delícias. Dando apenas um exemplo. a este propñsito. ela escreve. esta pena. como é o caso – mas um gozo que tem. sexual.. um gozo pleno e completo. Este gozo não é.. aliás.cit. un homme.cit. 885 Cf. “Une femme. Uma preocupação constante de Teresa de Jesus é assegurar-se de que Aquele a quem ela se abandona por amor é Deus e não o demónio. Paris: Navarin Seuil. p. tal como já esclarecemos anteriormente. na verdade.”886 Ela sabe que o experimentou887. por exemplo. mundana. porém. aliás. não a um corpo terreno. apesar de tudo. “Não direi coisa que não tenha experimentado muito” (Cf. o seguinte: “(…) querer uma como eu falar em coisas tão altas e dar a entender algo daquilo que parece até impossível haver palavras para começar a dizer. fálica. de notar esses paradoxos do gozo.(aparentes) de uma banda de moebius.

o que não é dado a todos). por exemplo. segunda a pergunta freudiana (ser mãe. Daí que Santa Teresa.. Cf. Isto significa que de todas as soluções aqui apresentadas para a questão do que quer uma mulher891. mas também com um gozo Outro de que o significante não consegue dar inteiramente conta (S de A barrado). na medida em que é impossível dizê-lo todo.cit. o que em verdade não seria nenhuma desdita. p. LACAN. Le Séminaire. que uma das vias para abordar este gozo Outro (para além de experimentá-lo. op. Cf. Livre XX. p.cit. no Seminário XX. A mulher relaciona-se com o falo (Φ). Was will das Weib. é o paradoxo.cit. A outra via – se não quisermos ceder simplesmente perante o silêncio pulsional de um tal gozo – é a lógica ou. Foi o que Lacan propôs.. 203 . Jacques. o gozo específico ao Outro sexo.” Cf. Lacan. o Que quer a mulher” (Ce que j‟aborde cette anée est ce que Freud a expressément laissé de côté.75: “(…) la jouissance de l‟idiot. op. Was will das Weib. Lição de 13 de Março de 1973. Le Séminaire. se queixe constantemente das palavras. como veremos mais à frente. seduzir ou ser sedu- 888 Santa Teresa de Ávila. diferentemente do gozo masculino – a que Lacan também chama “gozo do idiota”890 – não é todo fálico.a tal ponto que já só lhe falta um nadinha para acabar de sair do corpo. 75 : « O que eu abordo este ano é o que Freud deixou expressamente de 889 890 891 lado.”888 Parece. Nelas se vê como o gozo feminino. a topologia. Livre XX. Jacques. Moradas.. op. LACAN. deste modo. p. 166. 1998. sofrer. Le séminiare. com as fórmulas quânticas da sexuação889. Livre XX. le Que veut la femme?”]. Lisboa: Assírio e Alvim.

Gilles. 2002. isto é. in La Vie Sexuelle. p. L‘Anti-Oedipe.zida. DELEUZE.cit. como dirá Lacan. Jacques. em inveja do pénis. L‟analyse avec fin et l‟analyse sans fin”. 897 Cf. Tal como a carta roubada899 ou o livro da biblioteca. porventura. segundo ele. Não deixa de ser interessante.. a homofonia. a dimensão significante. nenhuma delas diz tudo sobre a mulher. Para ele. 231-268. Dizer falo. mas fundamentalmente um significante898. por Deleuze e Guattari?893 Dizer “falocêntrico” significa colocar a primazia. 6ª Éd. a respeito da mulher. puisque (…) le la de la femme (…) ne peut s‟écrire. também o falo tem a característica. “L‟organisation génitale infantile”. pp. o equívoco significante entre falo e falo. LACAN.. in Écrits. Eis. op. 75. 13ª Éd. Problèmes. Jacques. a manter o termo. 893 Cf. Sigmund. p. FREUD. Livre XX. « La signification du Phalus ». LACAN. *** Mas dizer não-toda. Sigmund. (…). fálica.U. É precisamente esta equivalência ou significação do falo897 que Lacan questiona.cit. Porém. Le Séminaire.F. Paris: P. Mesmo deste 894 ponto de vista. in Écrits. nem sequer a imagem de tumefacção que o representa (ainda que esta tenha a sua importância). o que significa dizer falo?894 Para Freud. que faltam no lugar onde são procurados. a organização genital infantil diferia da do adulto pelo seguinte: a criança admite apenas um órgão genital. no falo. equivale a dizer pénis. mesmo se a 892 “(…) É impropriamente que a chamamos a mulher. o órgão genital masculino896. nomeadamente. op.. mas antes uma primazia do falo895. 898 899 204 . a esta fase do desenvolvimento da libido. para ambos os sexos. 1995. FREUD. pois (…) o a da mulher (…) não se pode escrever. »]. não-toda892. amar ou ser amada. Idées. uma primazia do genital.” [“(…) c‟est impropre- ment qu‟on l‟appelle la femme. « Le Séminaire sur La lettre Volée ». Uma mulher é essencialmente. « La Signification du Phallus ». 895 Cf. GUATTARI. op. numa inveja do falo? (Cf. in Résultats. o masculino.U. gozar…).. 690 : « (…) le phallus est un signifiant (…)». pp. op. o centro.F. Cf. neste caso. Cf. Félix. LACAN. num dos últimos textos. Daí que. é manifesta.cit. não existindo. simbólica do falo. Lacan. 2002. O que caracteriza essencialmente um significante – tal como vimos já na terceira parte do nosso trabalho – é que ele pode faltar no seu lugar. o falo não é o órgão real. do verbo falar. Cf. 113-116. realmente. neste caso.. Paris: Éditions Minuit. in Écrits. a confusão que leva Freud a falar.cit. Paris : P. de poder faltar no seu lugar. É por isso que ele chama. não resultará apenas da perspectiva falocêntrica adoptada por Lacan e denunciada. significante. Será que estamos. Jacques. 896 perante uma inveja do pénis ou. vingar-se. 11-61.

Jacques. Paris: Éditions du Seuil. Buenos Aires: Cuadernos del Passador. KIRK. p. pp. 735 : «(…) l‟effort d‟une jouissance enveloppé dans sa propre contigüité (…)» É também o sentido da afirmação lacaniana de que o gesto de Medeia ou de Madelaine representariam o acto. 732 : «(…) dans la dialectique phallocentrique. G. 825 : « Assim é a mulher por detrás do seu véu: é a ausência de pénis que faz dela falo. LACAN. em sua inteireza de mulher. J. num texto intitulado Directrizes para um congresso sobre sexualidade feminina.cit. d‟une vrai femme. cit. Já em 1960. 2006. LACAN.. 1994. 902 Cf.mulher não o tem. Segundo ele. LACAN. 761: “(…) o único acto onde ela nos mostra claramente separar-se dele é o de uma mulher. A sua resposta é negativa. Le Séminaire. D‘Un discours qui ne serait pas du semblant.. p. Écrits. ao órgão sexual masculino. que pretende limitar um gozo que é essencialmente ilimitado906. 205 . Jacques. RAVEN. 730: “(…) convient-il d‟interroger si la médiation phallique draine tout ce qui peut se manifester de pulsionnel chez la femme (…) ». pp. 105-117. ela possa sê-lo. op. op. 905 Cf. « De Mujeres e Semblantes ». dans son entièreté de femme.S. Acontece. igualmente. as mulheres estariam mais perto do real904. sendo o falo um mero semblant905. como vimos atrás) que vai acentuarse progressivamente ao longo do ensino de Lacan. 4ª Edição. LACAN. a mulher representa o Outro absoluto902.cit. é esta mesma ordem que vai ceder progressivamente o passo ao real do gozo. um simulacro.. como pensava Freud. Os Filósofos Pré-Socráticos. de uma 903 904 verdadeira mulher. constituindo a sexualidade feminina “o esforço de um gozo envolto na sua prñpria contiguidade. e invertendo completamente o cenário. Vide. Sendo o falo um efeito do significante. o que não seria possível se o falo equivalesse. no que eles têm de impossível de suportar e de inscrever no simbólico ou. real. op.. 900 Cf. porém. 901 Cf. segundo a distinção estabelecida por Lacan900.”903 É esta via de irredutibilidade do gozo feminino (o Outro gozo) à lógica falocêntrica (o gozo do um. Voltaremos de novo à questão do « semblant ». no capítulo seguinte. Livre XVIII. SHOFIELD.112. »]. object du désir. Jacques. até. p. que o gozo especificamente feminino parece não ser completamente redutível a esta lógica falocêntrica. »]. Écrits.. Desse ponto de vista. Jacques-Alain. p. op. LACAN. Jacques. na dialéctica falocêntrica. op. Écrits. 906 Valeria a pena relembrar aqui o “apeiron” de Anaximandro: um nome para o gozo feminino.. 61..E. p. MILLER. M.cit. Jacques. p. Jacques. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkián.cit.. 2000. objecto do desejo. no imaginário (Cf.» Cf. gozo idiota. da ordem simbólica. de uma verdadeira mulher.” [Telle est la femme derrière son voile: c‟est l‟absence du pénis qui la fait phallus.” [“(…) le seul acte où elle nous montre clairement s‟en séparer est celui d‟une femme. elle représente l‟Autre absolu. LACAN. Lacan perguntava – como se estivesse a interrogar o seu próprio falocentrismo – “(…) se a mediação fálica drena tudo o que se pode manifestar de pulsional na mulher (…)”901. ou também dito. avant le lettre? Cf.

que cito de cor. já com alguns anos de sucesso. fazendo-o aceder à dialéctica do desejo. por exemplo. isto é. 909 Cf. no domínio da moda. ―L‘analyse avec fine t l‘analyse sans fin”. 907 Numa conhecida gafe. tendem a desvanecer a “diferença sexual”. limitar esse gozo. segundo a tese desenvolvida por Freud num dos seus últimos textos909. op. 53-56. FREUD. o presidente francês. “Caducidade”. Sigmund. parecem ter entrado definitivamente em declìnio. que caricatura o perfeito idiota de bom coração. a rocha da castração. 908 Um fenómeno bem patente. Homer Simpson. Deste ponto de vista. 268. LACAN. Paris: Éditions du Seuil. Pois bem: o que pode. 65-104) na era pós-moderna. quando os velhos simulacros (como o falo ou o pai.cit. p. pp. dos Simpsons. ofereceu uma “gravata” a todas as deputadas com assento no parlamento. por outro. entre muitos outros. Reflexões Sobre o Destino do Mundo. Sigmund. do semblant907. Sarkozy. parece já não constituir o mesmo obstáculo de que falava o autor. as mulheres ocupam cada vez mais o domínio tradicionalmente masculino. Uma bela paródia sobre o declínio do pai é a famosa série. o recuo perante a feminilidade por parte de homens e mulheres. sem limites. hoje. por exemplo910). revelando a sua essencial “caducidade”911? A questão formulada sugere-nos ainda uma outra: que mundo é este em que vivemos e qual o sujeito ou o modo de subjectivação que lhe correspondem? É a questão a que tentaremos dar resposta no capítulo seguinte. 911 Cf. “Introduction aux Noms-du Pére”. assistimos a um fenómeno paradoxal: por um lado. mas sobretudo porque o imperativo que parece comandar as posturas e comportamentos de uns e outros se escuta cada vez mais como um: goza…sem limites. Jacques.Actualmente. (1997). em particular sobre o 910 pai de família. Einstein – Porquê a Guerra. Lisboa: Edições 70. não apenas no sentido em que muitos homens adoptam (ou são levados a adoptar) posturas ou comportamentos tidos tradicionalmente como apanágio das mulheres908. dizendo que só lhes faltava isso para serem homens. assiste-se àquilo a que poderíamos chamar uma feminização do mundo. in Freud. 206 . pp. onde nomes como Jean Paul Gautier. in Les Noms-du-Père. FREUD. que tinham por função essencial constituir uma barreira ao gozo. Eis um dos nomes-do-pai (cf.

p. ou o eu. « Fonction et champ de la parole et du langage en psychanalyse ». ao sujeito? 912 Cf. LACAN. é o lugar onde se exerce a função da fala no campo da linguagem 916. Edmund. como vimos anteriormente. em Lacan esta correlação entre o sujeito e o objecto dá lugar a uma exclusão: o sujeito. 1985. p. Tal como é perceptível.cit. en exclusion interne à son object ». Immanuel. às condições de possibilidade que permitem o conhecimento do objecto ou a sua constituição. “Le sujet est. até certo ponto. como diz Lacan. no Esquema L (Cf. 913 914 915 LACAN. um tal deslocamento não vai sem a introdução concomitante de um novo e decisivo elemento: a fala e a linguagem. HUSSERL.CAPÍTULO QUINTO Um sujeito paradoxal A operação cartesiana de viragem subjectiva e o concomitante esvaziamento do sujeito. em particular. se bem que proceda. Porém. 861. O que acontece. KANT. mas o Outro (Autre)915. 207 . nessa altura. enquanto condição de possibilidade. entretanto. a ideia de um plano “transcendental”. no fundo. 817). LACAN.. LACAN. Jacques. sendo este o correlato essencial daquele. Não obstante. Meditaciones Cartesianas.cit. não é o sujeito. Cf. e o plano ou o sujeito transcendental. Pelo contrário. por assim dizer.. por Kant912 e Husserl913. 53) ou no Grafo do Desejo (Cf. 2ª Edición. p.. op. 237-322. a que já fizemos referência ao longo do nosso trabalho. O sujeito transcendental equivale. enquanto entidade empírica. Madrid: Editorial Tecnos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. o primeiro Lacan (dos anos cinquenta) parece conservar. O Outro. Écrits. está numa exclusão interna relativamente ao seu objecto914. a que fizemos referência nos primeiros capítulos do nosso trabalho. enquanto condição de possibilidade. segundo a distinção levada a cabo. a um deslocamento do mesmo: o que tem. op. ao mesmo tempo. a primazia.cit. pp. criou. Jacques. Ibidem. 1997. Crítica da Razão Pura. si l‟on peut dire. por exemplo. Jacques. Jacques. enquanto realidade psicológica. op. 916 Cf. in Écrits. o terreno favorável à separação entre o indivíduo.

LACAN. Livre XIII. quando o pai923. é relegado para o estatuto de um “sintoma” (sinthome). A metáfora paterna920 ilustra bem em que medida a criação ou o advento do sujeito é fruto de uma substituição significante: quando o Nome-do-Pai (Nom-du-Père) se substitui ao Desejo-da-Mãe (Désir-de-la-Mère). 1981. Jacques. Jacques. (Cf. 61. um défice de sujeito e um excesso (tóxico) de gozo ou de sintoma. Paris: Éditions du Seuil. 167). pp.922 Ora.net). LACAN. 924 Segundo o título do texto homónimo de Lacan (Cf. por assim dizer. Jacques. a cena é. De tal forma que o “Nome do pai”.. Cf. o sujeito não advém ou advém imperfeitamente. op. p. Jacques-Alain. o exemplificam. Cf. « L‟Autre qui n‟existe pas et ses comités d‟éthique ». entre outros (Cf. é criada.cit. MILLER. LACAN. a significação fálica924 – como mostrámos no capítulo anterior – e o Outro começam a entrar em declínio925. Le Séminaire. igualmente. LACAN. ao mesmo tempo que assistimos à 917 Cf. uma das caracterìsticas da famìlia moderna é o “declìnio social da imago paterna” [“déclin social de l‟imago paternelle”]. de “psicose ordinária”. “Les complexes familiaux dans la formation de l‟individu”. op.. Éric. nº 925 35. Jacques-Alain. 208 . pp. op. pp. Silhouettes du déprimé.. Cf. LACAN. LAURENT.. Jacques. De igual forma. Écrits.. Livre III. Ele resulta do deslize metonímico ou da substituição metafórica917 do significante. O que domina. cada vez mais generalizada (Cf. tal como Lacan desenvolveu na última fase do seu ensino. há algum tempo atrás. 918 919 920 921 Inicialmente. 7-20. Écrits. o sujeito não se opõe propriamente ao sintoma. Paris: Navarin Seuil. Vide.cit. 531-583). Les Psychoses. No caso em que esta operação não resulta. opcit. “La signification du Pahallus”.. Jacques. 922 Poder-se-iam referir aqui os casos mais graves (psicose clássica. op. 161-178. Écrits. 9-139. pp.. 549. segundo Lacan. Fevereiro 1997. “Psichose ordinaire et clinique floue”. Le Séminaire. ou resulta mal. Claro que as coisas são hoje bem menos definidas do que eram no tempo em que Lacan escreveu o seu texto emblemático: De uma questão preliminar a todo o tratamento possível da psicose (Cf.cit.Como vimos já. mas é – como mostrámos ao longo do nosso trabalho – uma das suas faces. Livre V. MILLER. p. in Écrits. 685-695). entre outros.cit. 243-262. in La Cause Freudienne. o sujeito é um efeito – e não a causa ou a condição de possibilidade – do funcionamento dos mecanismos da fala e da linguagem. então.cit. no campo do Outro (Autre) uma significação (fálica) para o sujeito (por vir921). Cf. o sujeito (por vir) é apenas. p. ou “extraordinária”) mas também aquilo que Jacques-Alain Miller nomeou. p. tal como o lapso. Le Séminaire. op. pp.. in Ornicar? Disponível em: WWW: http://www.lacanian.cit. in Autres Écrits. pp. 557. op.cit. uma “inefável e estúpida existência” [“ineffable et stupide existence”]. 923 Segundo Lacan. Livre V. Le Séminiare. LACAN. op. Jacques. o dito espirituoso918 ou a metáfora paterna919.

como veremos seguidamente. máscara. mas também porque consideramos que nenhuma das suas traduções habituais (aparência. 929 Cf. não se trata disso. 931 Mantemos o termo original no corpo do texto pelas razões já apresentadas. aliás. semblante…) dá inteiramente conta da sua significação para Lacan. esta comparação tem um problema: ela faz-nos pensar numa simples oposição (ou numa correlação antinómica) entre a aparência (a manifestação fenomenal de algo) e a essência (aquilo que esse algo é em si mesmo). Le Bonheur Paradoxal. segundo o termo que Lacan põe a circular no Seminário XVIII927. Le Séminaire. 2006. Cf. D‘un discours qui ne serait pas du semblant.cit. Eis a pergunta que o próprio Lacan não deixa de formular na lição inaugural do seminário: “Du semblant. Mas o que é um semblant?928 Uma boa ilustração do semblant poderia ser dada pela peça de Shakespeare. semblant930. Livre XVIII. 24 : «Le semblant qui se donne pour ce qu‟il est. in Direito e Psicanálise. LACAN. o que acontece ao sujeito? *** Concluímos o capítulo anterior com a ideia de um gozo sem limites. por isso. onde. Filipe.932 Não se trata aqui. De tal forma que Lacan chega até a afirmar. 1988. “ Um enigma do “Mercador de Veneza”. 13). nada é o que parece. Essai sur la Société D‘hyperconsommation. a aparência à essência. Rio de Janeiro: Lumen Juris Editora. intitulada O Mercador de Veneza.». 2008. de opor a mentira à verdade. op. longe de corresponder a uma 926 Cf. LACAN. LACAN. mas com a verdade. que o semblant931. Livre XVIII. no Seminário XVIII. Jacques. é a função primária da verdade. no sentido lacaniano do termo. simulacro. Intersecões a partir de ―O Merca- dor de Veneza‖ de William Shakespeare. Jacques. “The Comical History of the Merchant of Venice” or Otherwise Called the Jew of Venice”. 209 . 235-259. comum a muitas outras peças do autor929. Paris: Éditions du Seuil. 930 Cf.expansão generalizada de um gozo hiperconsumista. pp. Le Séminaire. William. quando se dá por aquilo que é. Conservamos o termo no original por uma questão metodológica. Cf. não se correlaciona com a essência. poderíamos dizer. 2006. aparentemente sem limites926. Gilles. LIPOVETSKI. No grande teatro do mundo. segundo uma lógica. Oxford: Oxford University Press. p. tudo é aparência. p. Ibidem. Paris: Gallimard. O semblant. qu‟est-ce que cela veut 927 928 dire dans l‟énoncé du titre de cette année?” (Cf.. mas antes de mostrar que a própria essência da verdade. e de um falo como mero semblant. in The Complete Works (Compact Edition). Todavia. SHAKESPERARE. do princípio ao fim. Porém. est la fonction 932 primaire de a vérité. PEREIRINHA. no sentido em que não é (inteiramente) limitado pela significação fálica.

935 “Cf. LIvre XVIII. não minta” [“Il n‟y a pas de vérité qui. p. Le Séminaire. op. Cf.cit. Le Séminaire. A palavra ou a fala. Livre XVIII. mas entre o semblant e o real. op. Cf. LACAN. 936 Eis como deve entender-se a afirmação. op. como impossìvel. no Seminário XVIII940. Autes Écrits op. ne mente. Livre XVIII. p. Le Séminaire. LACAN. assume uma insistência cada vez maior no ensino de Lacan936. 937 Cf. 571: “Não há verdade que. com ele se correlacione. a passer par l‟attention. de mentira935 relativamente ao real..cit. Porto: Porto Editora. Écrits. Le Séminaire.cit. 940 Cf. Livre XVI. Jacques. op. de ficcão934.. segundo uma teoria da verdade como adequação (adaequatio) ou correspondência (Entsprechung). Cf.. por conseguinte. LACAN. isto é. Jacques. pelo seu efeito. na lição inaugural do Seminário XVI. é o próprio signifiante »[« Ce semblant. »]. Jacques. LACAN. p.cit. que Heidegger denunciou933. À progressiva desvalo- 933 Cf. 253 : « A verdade tem uma estrutura (…) de ficção. a diferença entre a palavra e a escrita. 210 . 1995. entre a aparência e a essência ou a mentira e a verdade. impossível. pp. 14 : « O semblant. pp. para além do semblant.” [“La vérité a une 934 structure (…) de fiction. que ele teria alguma possibilidade de ser um discurso que não fosse da ordem do “semblant”[“C‟est au contraire de ce qu‟un discours se centre de son effet comme impossible qu‟il aurait quelque chance d‟être un discours qui ne serait pas du semblant.”]. a questão de como aceder ao real. LACAN. Sobre a Essência da Verdade. no sentido em que não é o real. de um modo ou de outro. livre IV. ao passar pela atenção. Jacques. Jacques. 247 : « Parole vide et parole pleine dans la réalisation psychanalytique du sujet ».”]. LACAN. Le Séminaire. op. 11 : « L‟essence de la théorie psychanalytique est un discours sans pa- role ». HEIDEGGER.. p. feita por Lacan. ainda que. tidas por ele como o coração da experiência analìtica e como mola da “realização do sujeito” (réalisation du sujet) durante toda a primeira época do seu ensino937. Martin. De tal forma que o próprio significante passa a equivaler ao semblant938. p. de que é na medida em que um discurso se centra. A verdadeira oposição não é.”]. se não haveria um discurso que não fosse da ordem do semblant.adequação entre as palavras e as coisas.cit. que a essência da teoria psicanalítica é um discurso sem palavras/fala (parole)939 e a perguntar. O semblant é o que vela ou recobre o real. Jacques.cit. em particular a importância dada a esta última. 939 LACAN. que pudesse permitir-nos aceder ao real.cit.. Jacques. Deste ponto de vista. 21. tem algo de semblant. são agora relegadas ao estatuto de semblant. p. Daí que Lacan comece por afirmar. ganha cada vez mais relevância. Por isso. 17-23. c‟est le 938 signifiant en lui-même..

ele não se contenta apenas com a palavra dada por este último. op. Le Séminaire. historicamente. 431. Para que o contrato tenha validade. a mera palavra como garantia. se entrou no real. visto que penso que foi através de pequenos trechos de escrita que. Livre XVIII. SHAKESPEARE. ça m‟intéresse. É por isso que um contrato tem de ser escrito e assinado. “Um enigma do “Mercador de Veneza”. The Complete Works. LACAN. Eis a lição.. fundamentalmente. 68 : « A escrita interessa-me. “Hamlet”. todas as consequências. et le signifiant. em particular na 941 Cf. p. Cf. 248-250. pelo contrário. A palavra não basta. se formos coerentes. in Shakespeare. Filipe. mas antes coevo do próprio início da história. deveríamos ir um pouco mais longe e dizer que o declínio da palavra não é apenas um fenómeno moderno. E o que exige Shylock de António não é apenas conversa fiada. Duras. a que Lacan dedicou algumas passagens no Seminário X. Shylock é nosso contemporâneo. puisque je pense que c‟est par des petits bouts d‟écriture que. no Mercador de Veneza. a saber. como se diz. on est rentré dans le réel. palavras…)944. la lettre. caso este não lhe pague o que é devido em tal dia e em tal lugar. como a escrita e a letra estão do lado do real943. dans le 943 symbolique. Lisboa : Assírio e Alvim. Jacques.. p.cit. seja assinado por António. Nesse aspecto. »]. 1967. Joyce.” [“L‟écriture. Aquilo que caracteriza os tempos modernos é a desconfiança na palavra dada. à savoir. op. Wedekind. embora sem lhe retirar. PEREIRINHA. Paris: Éditions Minuit. A história humana é. cit. enquanto meio de aceder ao real941. com a primazia da letra. uma história escrita946. historiquement.cit. DERRIDA. » 944 Cf. ele tem de ser escrito e assinado942. op. Jacques. da personagem Shylock.rização da palavra. enquanto semblant. 122 : « L‟écritue. p. quando Shylock pede uma libra de carne como garantia do empréstimo que ele vai conceder a António. por exemplo. p. LACAN. no Mercador de Veneza. responde Shylock. William. que o contrato por si proposto. Mais do que nunca. Foi o esquecimento (ou recalcamento) da primazia da escrita em detrimento da fala que Derrida se propôs desconstruir desde o 945 946 início da sua vasta obra.. por essa altura. 211 . Jacques. c‟est dans le réel. palavras. pp.cit. que se cessou de imaginar. a única que pode servir de garantia para validar o contrato por este celebrado com António945. Ao desprezo votado à palavra pelo príncipe Hamlet (palavras. De la Grammatologie. hoje. Os tempos modernos limitaram-se a aprofundar a desconfiança na palavra. Jacques. LACAN. qu‟on à cessé d‟imaginer. 9-116.. sucede a crescente valorização da letra e da escrita. mas exige. Na verdade. 942 Cf. mas um pedaço de real. Ela está do lado do simbólico (do semblant). ninguém aceita. Le Séminaire. Aliás. Livre XXIII. 1989. op. Cf.

Com efeito. a palavra mente. Verdade e Política. estar escrito não significa. 947 Cf. Eis porque a palavra não parece constituir o meio mais eficaz de aceder ao real. Hannah. nos últimos tempos. como é o caso da publicidade produzida em nome das empresas de telecomunicações. não conta.palavra dada. poderíamos até afirmar que há uma dissimetria entre a escrita e a leitura. ARENDT. Cf.. in La Naissance de la Psychanalyse. Aliás. como diria o poeta Ruy Belo. a propósito da mentira na política. Lisboa: Assírio e Alvim. 2000. que há uma contradição. que proliferam na Internet. mesmo quando diz a verdade. se enganar não fará parte da própria essência do poder948. “Homem de palavras”. 212 . retomando uma expressão de Aristñteles. o que conta efectivamente (em particular para as referidas empresas. p. exigindo a letra por garantia. aqueles que exercem o poder limitam-se apenas a escancarar a mentira que faz intrinsecamente parte da palavra. 1985. 179-214. Na verdade. 2002. não engana: falar não custa nada porque. Paris: P. pp. num texto dedicado às relações entre a verdade e a política. praticamente ilegíveis. porém. que a publicidade. RUI. por estrutura. e em particular aquilo que se diz. segundo o que rezam as estatísticas. obrigatoriamente. da mesma forma que há uma dissimetria entre a escrita e a palavra. Eis um tema bastante comentado. 363-369. por exemplo. não vale nada. mas também os blogues. ao mesmo tempo que se lê cada vez menos. e menos homens de palavra947. na realidade. por exemplo. que seja para ler. Sigmund. É aquilo a que Freud. não custar mesmo nada. Lisboa: Relñgio D‟Água. mesmo quando se quer dizer ou mostrar outra coisa. Poderíamos pensar. pelo menos aparente. Já Hannah Arendt perguntava. onde falar parece custar cada vez menos ou. uma mentira fundamental inerente ao próprio acto de falar949. BELO. a que se fale sem parar. ou seja. 9: “Será (…) da prñpria essência do poder enga- 948 nar?” 949 Cf. in Todos os Poemas. 950 Estão. não apenas os livros. no plural. Contudo.F. entre esta desconfiança na palavra e o apelo. A prova mais evidente de que aquilo que se escreve não é necessariamente para ler. Somos cada vez mais. Daí o paradoxo que consiste no facto de se escrever cada vez mais 950. neste caso. chamava “proton pseudos”. FREUD. é a existência de pequenas letrinhas. como se dizia há algum tempo num spot publicitário. sobre tudo e mais alguma coisa. É aqui. não obstante. cada vez maior e mais insistente. p.U. isto é. “Esquisse d‟une psychologie scientifique”. “homens de palavras”. que servem aqui apenas de ilustração particular para uma tendência generalizada) é o que está escrito e assinado.

digamos assim. Roberto. Intraducción del Psicoanálisis. não significa que não se possa fazer algo. “Joyce Le symptôme ». 61-102. no fundo.1974 / 3. Livre XIII. até a provocou. James Joyce. Visto que não há um nome próprio que diga. em si mesmo.introduzidas sub-repticiamente em quase todos os contratos. LACAN. 1983. Manual de Pintura e Caligrafia.. n°16. ou operar. 1997. LACAN. um efeito ou uma função de auto-nomeação. il ne se traduit qu‟à peine. do próprio escritor) à impossibilidade de dizer realmente quem se é. não se preocupou muito – ou quase nada – com a (i)legibilidade da sua escrita952. 504 : « (…) o escrito como a-não-ler. op. »]. Vide. Pelo contrário. É também nesta linha.cit.. c‟est Joyce qui l‟introduit. sem dúvida. op. 953 Cf. embora num sentido diverso. Disponível em WWW : http : www. p. intitulado Manual de Pintura e Caligrafia954. Jacques. Autres Écrits. LACAN. pp. O próprio Lacan. Todos os Nomes. É como se a utopia de poder escrever “todos os nomes”955 – segundo o título de um outro romance do autor – tivesse. HARARI. como demonstram as pequenas letras da álgebra matemática. 161-169. pois ao fazer da palavra um tráfico para além das línguas.cit. « La Troisième ». com isso. como dizia Lacan. p. por inteiro e cabalmente. de dar conta do real de que se trata951. embora escrevendo sem cessar.” [“(…) l‟écrit comme pas-à-lire.fr: «Le symptôme. »]. o sintoma é o 951 Cf. 68 : « A escrita das pequenas letras matemáticas é o que suporta o real. paru in Lettres de l'Ecole 955 956 freudienne. 213 . 952 Cf. in Le Séminaire. Jacques. Madrid: Editorial Síntesis. LACAN. José. que vai o livro de de Roberto Harari sobre um dos últimos seminários de Lacan (Cf. Eis porque Lacan segue cada vez mais a via do “matema”. a ininterrupção da escrita é a resposta. José. capítulos IV. Jacques. igualmente. Também uma das grandes referências da literatura do século XX.74). é o que não pára de se escrever956. costumava dizer dos seus Escritos que não eram para ler. ele só dificilmente se traduz. Uma função. na medida em que este. seria melhor dizer: o intraduziu. d‟être partout également peut à lire. 2004. car à faire du mot traite au-delà des langues. a natureza do semblant. cit. como forma de aceder. Lisboa: Editorial Caminho. A possibilidade de nunca cessar de escrever é também o que fascina o protagonista do romance de José Saramago.177-203. da personagem (um alter-ego. Cf. Intervention au Congrès de Rome (31. c'est quelque chose qui avant tout ne cesse pas de s'écrire ». SARAMAGO. sintomática.10. o sujeito.11. Neste caso. SARAMAGO. 1975. foi Joyce que o introduziu. Não ser para ler. V e VI. pois todos têm. Jacques. da « intradução ». 954 Cf. je ferais mieux de dire : l‟intraduit. como forma de dar trabalho aos universitários de todo o mundo durante alguns séculos953.pagesperso-orange. pp. op. pp. de sintoma. por ser igualmente pouco legìvel por toda a parte. Le Séminaire. » [“L‟écriture des petites lettres mathématiques est ce qui supporte le réel. Livre XIII. Lisboa: Editorial Caminho..

op. Le Triomphe de la Religion. sem pausa. 89-114. 81 : « (…) le symptôme est ce qu‟il y a de plus réel. quando é instado a falar. pp. Hervet. como se fosse literalmente. ou seja. a estranha e singular personagem de um conto de Herman Melville. como do pensamento em geral958 Percebe-se. repetindo apenas uma fórmula que faria correr rios de tinta não só no domínio da literatura. Le choix de l‘écriture. a certa altura. 959 Cf. Cf. Jacques. que o suportava perante a iminência da queda. Lisboa: Assírio e Alvim. por assim dizer.. 1988. CASTANET. ilustram uma certa função da escrita enquanto sintoma. quer a do conto de Melville. suporta ou dá consistência real ao sujeito960. Era alguém que. ou la formule”. Enquanto a palavra estaria. enquanto ela tem. por assim dizer. LACAN. É neste sentido que se pode entender a escrita como “um tratamento do real”961 do sujeito. Paris: Éditions Minuit. Diferentemente do que acontece com a personagem de Saramago. uma função de nó. Le Séminaire. MELVILLE. aliás. até aquele momento. » Uma das mais conhecidas. 1993. La Rochelle. 45. p. do 957 Cf. p.que vem no lugar dessa ausência. 960 961 214 . Cf. Porém. Herman. Jacques. Bartleby. ele próprio. ele mergulha num abismo sem fundo e sem retorno959. que também neste caso a escrita tinha uma função de sintoma: não como algo de que o sujeito se queixava. in Critique et Clinique. 2004. a posteriori. pois ele nunca se queixava de nada – sendo esta. por assim dizer. uma das suas características mais desconcertantes – mas antes como um fio que o sustinha. certo dia pára de escrever. e interessantes. que decide não parar jamais de escrever. dia e noite. de nome Bartleby. Alain. no que há de mais real no sujeito957. tornando-se.cit. “(…) le noeud comme support du sujet”. sem prestar qualquer tipo de explicação. LACAN. Cada um à sua maneira. Quando pára de escrever. no sentido em que ata. reflexões em torno desta fórmula encontra-se num texto de Gilles Deleuze que se 958 chama. ele pura e simplesmente deixa de escrever. isto é. MERLET. a explicar-se. sempre escrevera. presecisamente. no seu nome mais próprio. a dar razões daquilo que faz mecânica e friamente. Livre XIII. uma máquina de escrever. Himeros/Rumeur des ages. “Bartleby. quer a personagem do romance de Saramago. como se pode ler no conto de Melville.

mesmo que a experiência seja comum e encantadora. vale a pena interrogar se ela não poderia ser encarada como uma espécie de semblant. contada em retrospectiva pelo narrador. que não sabem que o são. Cf. como um simples véu da verdade966. daí que a nossa preferência vá para uma tradução mais ao pé da letra. 75. Jacques. brincar com papagaios de papel parece ser uma experiência mais ou menos corrente e universal. da verdade. Um mundo e um tempo cada vez mais globalizados. O título original deste livro é The Kite Runner. faz parte da 962 Cf. pode bem tocar-se no real. Livre XIII. mas não no verdadeiro. Le Séminaire. 966 215 . 80 : « Quando se escreve. K. op. bem como das mudanças ocorridas no mundo ao longo das três últimas décadas. Jacques. segundo o termo usado no romance de Khaled Hosseini.. sobre o pano de fundo de um país em convulsão permanente (o Afeganistão).”]. on peut bien toucher dans le réel. 963 Cf. enquanto Amir e Hassan eram ainda meninos. de tela encobridora ou. a escrita funciona aqui como um meio de aceder ou tocar ao real962. pois nos pareça que a tradução portuguesa é completamente anódina e não dá conta daquilo que aí se passa. Toda esta história. op. Autres Écrits. Amir e Hassan. e mundialmente famoso – apesar de não poder enfileirar com os grandes livros da literatura universal – do escritor afegão: Khaled Hosseini: O Caçador de Papagaios963. 362 : « Os homens aventuram-se cada vez mais num tempo que se chama planetá- rio (…)” [“Les hommes s‟engagent dans un temps qu‟on appele planétaire (…)”]. Mas de que real se trata? Resumidamente. *** Uma boa ilustração para o fenómeno que temos vindo a apresentar é-nos dada por um livro relativamente recente. p. é embelezada pela recordação de um lançamento de papagaios de papel que acontecia nas ruas de Cabul. o livro de Khaled Hosseini conta a história de dois irmãos. Lisboa: Relógio de Água.lado do semblant e. Aliás. HOSSEINI. A imagem de vários meninos correndo atrás de papagaios de papel (no original: The Kite Runner). de máscara.cit. segundo um tema caro ao filósofo alemão Martin Heidegger. O Menino de Cabul. cit. LACAN. Porém. p. como diria Lacan.. mais “planetários”964. 2005. tem algo de encantador e idílico965. Khaled. 965 A adaptação do livro ao cinema que Marc Forster realizou em 2007 explora bem esta imagem. Amir.” [“Qu‟un on écrit. 964 Cf.haled. LACAN. como tal. mais non pas au vrai. Também neste caso a escrita funciona como um modo de aceder (ou assediar) o real. cit. op. Aliás. HOSSEINI. p.

cit. O dedo voa então até ao rosto de Hassan e produz um som seco.. mas eu recolho-a. O velho estende a mão para a minha. M. enquanto descreve a curva das suas faces. op. às voltas. HEIDEGGER. “Em nome de Alá. é ainda um véu. A mão detém-se aí. é como se aquele tivesse vislumbrado neste algo impossível de encarar de frente. 75-76. Eu deito outra. Que este gozo seja algo de traumático. Amir. Acerca da natureza desse real. Sendo assim. Só uma rupia cada um e destapo o véu da verdade (…) Não é um preço elevado pela verdade. de suportar: sob o véu da verdade. a sequência não engana: o que vem depois. como saberemos depois). impossível de suportar. meu amigo?”.”968 Quando o velho adivinho e Hassan cruzam o olhar. isto é. evitando confrontar-se com tudo o que pudesse trazer-lhe à memória qualquer rasto da referida cena. o mais misericordioso”.própria essência da verdade (aletheia) velar-se ao mesmo tempo que se desvela967. o seu próprio irmão. uma rupia cada um?” Hassan deita uma moeda na pele endurecida da palma da mão do homem. 1995. pois não. o seu grão de real – uma vez que a verdade. um núcleo de real traumático. Hassan (na realidade. prova-o o facto de Amir tentar por todos os meios fugir. qual seria o núcleo de verdade. às voltas. mais propriamente. Do outro lado do muro um galo canta. Pega primeiro na mão de Hassan. 967 Cf. um arranhar. Volta-se para mim. “E nñs. um semblant ou um manto que cobre o real – que uma tal imagem ocultaria? A certa altura do romance. diz. quando descreve a violação a que fora sujeito o seu melhor amigo. o contorno das orelhas. Uma sombra atravessa o rosto do velho. Porto: Porto Editora. o mais benévolo. Demora-se. como vimos. O velho pega na mão de Hassan e volta a colocar lá a rupia. filhos. Os dedos calejados pousam nos olhos de Hassan. Hassan e eu trocamos olhares. conta a seguinte lembrança: “Uma rupia cada um. a lembrança. murmura o velho. às voltas. Cf. 968 216 . Sobre a Essência da Verdade. impossível de suportar. p. a violação infligida ao amigo/irmão Hassan. ou. o real que esta recobre e que ameaça irromper no momento em que a descrição do narrador se aproxima perigosamente daquilo que poderíamos designar como a cena do gozo. isto é. serve para velar a verdade. o narrador. acaricia a palma com uma unha em forma de chifre.

embora dispersas. Lisboa: Gradiva. não há muitos anos. quem vive embaraçado pela máscara. 2004). aliás. Mil Sóis Resplandecentes. a páginas tantas. Porém. neste romance. parece ser a confirmação desta ideia. Écrits. que se firmam na suposta lei de Deus. na verdade. talvez. 972 Cf. elas são obrigadas. LACAN. podendo até constituir o seu contrário969. Na sequência dessa polémica. costuma associar-se muitas vezes a mulher ao culto da máscara e à arte do simulacro ou do fingimento (outros nomes para o semblant)972. DJAVANN. ao falar de mulheres e simulacros (sem- blantes). 970 Cf. 1994. em determinadas culturas e religiões. muito mais do que as mulheres. De Mujeres y Semblantes. Joan. sejam os homens quem está no lugar do simulacro (semblante)” (Cf. Lisboa: Editorial Presença. num mundo de homens.Contudo. in Féminité Mascarade. Quando não são obrigadas.cit. pelo fingimento. é preciso não esquecer. como acontece em certos países do ocidente. Desse ponto de vista. a cobrir uma parte ou o todo do seu corpo. 973 “Poderia ser que as mulheres estejam mais prñximas do real. *** Estamos habituados. num mundo e numa época em que a verdade é sempre velada. nas escolas francesas. Já nos detivemos um pouco. Todos nos lembramos ainda da polémica. 1993. onde perguntava. Jacques. Cf. 821. e com razão. op. e retomado por Lacan no seminário V. girando em grande medida em torno dos homens. sobre a reivindicação do uso do véu. às várias espécies de véu que cobrem o rosto ou o corpo das mulheres971. p. Jacques-Alain.. a tal ponto 969 É neste sentido que Lacan diz que o prazer impõe limites ao gozo [“(…) c‟est le plaisir qui apporte à la jouissance ses limites (…)”. quem padece do semblant973. nem por isso muitas delas deixam por vezes de reivindicar o seu uso970. que o gozo de que aqui se trata está para além do prazer (Jenseits des Lustprinzips). MILLER. São eles. 2008. por que haveríamos de espantar-nos “por. Buenos Aires: Cuadernos del Passador. “La féminité en tant que mascarade”. no capítulo anterior. a associar o véu às mulheres. no caso analisado por Joan Rivière. Por outro lado. acutilante. Sujeitas a uma lei emanada dos homens. Não faltam. Chahdortt. pelo simulacro ou pela mentira. como Lacan precisou no seguimento de Freud. por parte de alunas pro- vindas da comunidade muçulmana. Chadort Djavann escreveu um texto. 217 . O Significado do Véu. p. 83. RIVIÈRE. Todo este romance. É uma tentativa de fazer barreira à irrupção do gozo. referências. o véu estar na moda?” (Cf. o que é recoberto pelo véu da verdade é o próprio real do gozo. seria justo perguntar se não acontecerá exactamente o inverso e se não serão os homens. de tal maneira que. 971 Eis um tema amplamente desenvolvido no mais recente romance de Khaled Hosseini (Cf. em outros lugares e contextos. Paris: Seuil.

Sob a imagem. a verdade desse gozo. 218 . um dos simulacros (semblants). Assim Falava Zaratustra. Joël. Sobre os diversos “pais” e respectivas funções em psicanálise. por excelência.há um pai que. da ascensão dos papagaios de papel no céu de Cabul. 1996. sob a máscara de um pai todopoderoso."974 Mas talvez a grande mentira. 974 Cf. Paris: Payot. 2007. Talvez seja este o trauma fundamental de Amir: o confronto com o gozo do pai. senão o declínio generalizado dos simulacros ou do que havia funcionado a esse título. Com a queda do pai. O Manto da Paternidade. Sigmund. Lisboa: Círculo de Leitores. de pedra e cal. Um dos interesses deste romance. porventura. acima de tudo. Para usar aqui uma expressão de Mário Botas (Cf. isto. que dita a lei977. simulacro. 978 O velho tema da “morte de Deus”( Gott ist tot). embora de uma forma romanceada. 1989. como se resumisse toda a sua vida numa simples frase. Se este livro nos diz respeito é porque ele faz-nos assistir. O que é ilustrado através da queda dos papagaios de papel não é. mesmo em lugares onde este parecia manter-se firme. aparência ou faz de conta. o que é ilustrado. Ibidem. a mentira primordial. lançado por Nietzsche (Cf. Le Père et sa Fonction en Psychanalyse. é todo um universo de outros simulacros que começa igualmente a ruir978. diz: “toda a minha vida foi a merda de uma mentira. Na verdade. Cf. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. e que esconde. à queda. Totem et Tabu. contrariamente ao que diz Amir. e junto de quem se busca reconhecimento. p. tudo acaba por revelar-se como semblant. idílica. FREUD. que dita a lei. a certa altura. O romance é o progressivo desvelamento do manto que cobre a paternidade975: a revelação de que há um pai que goza (como é ilustrado pelo mito freudiano de Totem e Tabu976) sob o pai edipiano. como se diz. 208. pese sobre o pai e não sobre ele. do romance familiar. ao declínio do pai. até ao fim. goza. se bem que não seja o único. perante o real do gozo. da tradição. 12) antecipa este processo. por este romance é a progressiva e inexorável queda do pai. p. admiração e amor – sendo este um dos eixos fundamentais do romance . afinal. máscara. Paris: 975 976 977 Point Hors Ligne. Com efeito.que Amir. vide DOR. 1976.

“Caducidade” (1915). Aliás. É neste sentido que poderìamos afirmar que a nossa era é “cìnica”. ao mesmo tempo que ilustram bem como aquilo que constitiu o coração do funcionamento do capitalista dos mercados tem cada vez menos uma base real e mais uma natureza de semblant. Jean. num “mundo sem real”983. estamos cada vez mais confrontados com o real do próprio deserto. DELEULE. Cf. Didier (org. tende a ser também ela global980. Simulacros e Simulação. Acerca da queda generalizada dos “semblants” numa cultura cada vez mais cìnica. Ibidem. in Freud Einstein.” Cf. Aquilo a que assistimos hoje. BAUDRILLARD. as maciças injecções de capitais. 1991. Disponível em WWW: <http://www. Lis- 988 boa: Edições 70. op. BAUDRILLARD. como parecia estar a acontecer em finais do século XX. como exemplo emblemático da entrada no século XXI. Porquê a Guerra – Reflexões Sobre o Destino do Mundo. sur quelques effets du scientisme contemporain. não é apenas ao triunfo generalizado do simulacro. 9: “ o real nunca mais terá oportunidade de se produzir. Maurìcio. 2008. segundo a qual o mundo havia entrado definitivamente numa era de simulacro generalizado981. Cf. para servir-nos aqui de um termo de Freud a que já fizemos referência988. 979 SLOTERDIJK. Lisboa: Relñgio D‟Água. de ora em diante. BAUDRILLARD. De tal forma que em vez do deserto do próprio real.cit. É por isso que. em que sñ parece importar o gozo. Lisboa: Relñgio D‟Água. Association Himeros. Sigmund. 1997.. e paradoxalmente. a natureza do semblant revela-se essencialmente pela sua caducidade. Eis porque talvez seja necessário corrigir ou. no sentido em que abala e desmistifica o “semblant”. na era da globalização em que vivemos979. Slavoj. 984 As recentes quedas nas bolsas de todas as grandes praças financeiras do mundo inteiro (com as diversas consequências que conhecemos na economia global) são uma das manifestações mais evidentes deste declínio generalizado semblant. Arles: Actes Sud. 981 Cf. 219 . Paris: Ed. Hervé. faça sentido dizer: bem-vindos ao deserto do real987. 982 983 2006. Lisboa: Relñgio D‟Água. 987 Cf.). no seu tempo e à sua maneira. Peter. Palácio de Cristal – Para uma Teoria Filosófica da Globalização. após a queda das Torres Gémeas. FREUD. segundo a expressão do autor985. No fundo. à sua queda984.com>. por esse mundo fora. Cf. ZIZEK. 985 Cf. 8. isto é. vide o interessantìssimo texto de TARRAB. CASTANET. pp. mas também. J. p. dosear a conhecida tese de Baudrillard. como se o real tivesse desertado do mundo982 e passássemos a viver.consiste em mostrar que essa queda. 1998. tal 986 como. Un Monde sans Réel. com um mundo de onde os velhos simulacros têm vindo a desertar ou a ser derrubados um após outro986.. acéfalo.nucleosephora. pelo menos. e de forma imparável. “Produzir novos sintomas”. Les Cyniques Grecs – Lettres de Diogène et Cratès. Jean. Bem-Vindo ao Deserto do Real. 2006. de 980 cada um e em que as respostas terapêuticas tendem a reduzir-se a uma “clìnica do consumo”. têm por objectivo essencial salvar as “aparências” ou suster o semblant…em queda livre. p. 53-56. se propuseram os “cìnicos gregos”.

etc. há toda uma série de autores que se tem debruçado. de Marc Forster. tal como o zero na matemática.is.sami. pode ser uma bela imagem – ou uma bela metáfora – do nosso mundo. op. a virtualização das relações e a especulação económico-financeira. de que é sempre de outra coisa que se trata na arte ou na literatura. os fazem ex-sistir simbolicamente. perante o fenómeno paradoxal da subida ao zénite do sembant. pois rasura as arestas do livro. se quisermos levar a questão um pouco mais longe. à sua queda generalizada990.” [“Tout ce qui est réel est toujours et obligatoirement à sa place (…). de novo. Esta expressão é equìvoca: ela não designa apenas. L‟absence de quelque chose dans le réel est purement symbolique.cit. tem esta vantagem: mostra bem como o céu de Cabul.. Hervé.). o tipo de subjectividade ou subjectivação que lhe correspondem? *** Talvez não constitua um mero acaso o facto de que um dos títulos mais usados na arte contemporânea seja o estranho “sem-tìtulo”. Refiro apenas dois exemplos: “Um Monde sans réel” (CASTANET. cit. É por isso que todo o “tìtulo” 989 Para além de um livro já clássico de Guy Débord. sobre este fenómeno. porém – e daí o paradoxo – continua a assistir-se à escalada do semblant. ao mesmo tempo que se assiste. A ausência de algo no real é puramente simbñlica. La Societé do Spectacle. que mundo é este em que vivemos e qual o sujeito ou. um título. Paris: Gallimard. por outro lado. por exemplo.. a mediatização ou espectacularização dos fenómenos. apesar de tudo. op. Ele é uma espécie de cifra. embora criticável sob muitos aspectos. ele nomeia essencialmente o facto de que não é isso. a presença de uma ausência. O que nos faz perguntar. uma vez que no real nada falta991. “L‘homme sans Gravité – Jouir à tout Prix. um significante – como diria Lacan – que marca o lugar de uma falta. 38 : « Tudo o que é real está sempre e obrigatoriamente no seu lugar (…). Jacques. como hoje. 2005). ou seja. 991 Cf. Le Séminaire. Livre IV. uma coisa. »]. um certo nome para o inominável. mas também. mais propriamente. uma ausência de título. LACAN. 1967 (Disponível em WWW: http:www. De certa forma. uma imagem.Ao mesmo tempo. com todos aqueles papagaios a pairar no ar antes da sua queda. a falta ou o nada. poderíamos dizer que todo o “tìtulo” – quer seja ao nível da arte ou da literatura – tem esta natureza equìvoca do “sem-tìtulo”: ao mesmo tempo que pretende designar um objecto. Charles. 990 O filme sobre o “Menino de Cabul”. fossem tão acentuadas989. 220 . p. nos últimos anos. ” (MELMAN. como se nunca. que em vez de coincidir simplesmente com a ausência. negativamente.free).

também o nosso mundo se tornou definitivamente incaracterístico. Não deixa de ser igualmente elucidativo que Lyotard. em particular. Jean-François. neste trabalho. Paris: Les Éditions Minuit. ao mesmo tempo que lhes justa- pôs. 995 op. Duras. que habitam o nosso tempo. por exemplo. O Inumano – Considerações sobre o tempo. LACAN. nomeadamente algumas das suas criações menos ortodoxas e mais inovadoras. um título mais ou menos convencional. ela sempre precede o psicanalista995 na auscultação dos sintomas e paradoxos996 que nos habitam e.inédita. Cf. João “Os paradoxos do sintoma e da sublimação – o contribu- to da teoria psicanalítica de Freud e Lacan para a estética. LYOTARD. em particular. Joyce. O paradoxo é 992 Ralph Eugene Meatyard. Apesar de tudo. em prol de uma performatividade ou eficácia social. in Shakespeare. carecendo. em particular as que dizem respeito à categoria de sublime ou as que interrogam o humano a partir do inumano997. A expressão “pñs-moderno” apela a uma certa condição do homem num mundo que tem vindo a assistir ao declínio das grandes narrativas clássicas. cit. 998 221 . É como se todos os títulos do passado deixassem. intitulou grande parte das suas fotografias “Sem-tìtulo”. estamos em crer que a proliferação de sem-títulos na arte contemporânea tem algo não apenas significante – como todo e qualquer título – mas igualmente sintomático: ele é uma tentativa. quando cria a expressão “pñs-moderno” (como um título para nomear o nosso tempo) tenha como pano de fundo a arte. Jean-François. um vazio que não sabemos ainda como preencher. 1990. Tal como “o homem sem qualidades” (Der Mann Ohne Eigenschaften). Wedekind. impossível de nomear993. é porque ela tem aqui a sua importância. Robert. Cf. dos velhos discursos fundadores ou legitimadores. Lisboa: Editorial Estampa. desesperada. Doutoramento em Ciências da Arte/Estética. Se convocamos a arte. confuso. 993 É neste sentido que poderìamos dizer que o “sem-tìtulo” é uma espécie de nñ que liga o simbñlico (significante) ao real.– mesmo quando ele se apresenta sob esta forma paradoxal do “sem-tìtulo” – é insuficiente e provisório. 125.cit. 1979. op. Stein. MUSIL. 2005. por assim dizer. no fim de contas. graças. de um complemento992. à expansão e domínio da ciência e da tecnologia998. 994 Cf. p. «Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. na medida em que este – como repetia Lacan – é o impossível. Como diz Lacan. LYOTARD. 996 Para um bom desenvolvimento desta problemática. 997 Cf. vide PENEDA. entre parêntesis. La Condition Postmoderne. de nomear um mundo que se tornou realmente estranho.. segundo o título do romance de Robert Musil994.

a cerveja sem álcool. Paris. mas produzir sempre 1002 mais e mais necessidades (novas).se generaliza. ao mesmo tempo que estas se libertam de narrativas e discursos fundadores. 46-47. 49-98. o creme fresco sem gordura. in Sciences Humaines : Le Corps sur Contrôle. LIPOVETSKY. LIPOVETSKY. o que é ainda problemático. 2004. pp. 1001 Cf. 2006. Gilles. isso significa primeiro que se tem mais medo de consumir verdadeiramente”. é a própria idéia de "consumo". cada vez mais agressiva e sofisticada. Florence. Le Bonheur Paradoxal. 2008. e cuja essência não é informar. de ser consensual. de dizer toda a verdade. hoje. HABERMAS. mas também do poder político. Se quisermos insistir num título para o nosso tempo. que lhes impõe condições estritas de financiamento. MOTTOT. houve quem pretendesse que o projecto da “modernidade” não estava esgotado. e que era preciso retomá-lo. diríamos que ele é fundamentalmente um tempo paradoxal. Juillet. o nosso tempo não se caracteriza essencialmente por uma ultrapassagem da modernidade. pp. expande e torna imperativo1002. pelo menos. ZIZEK. Dizer que vivemos numa sociedade de hiperconsumo. Éditions 1000 Grasset et Frasquet. objecto de consumo. Seja como for. Paris: Gallimard. Desde o princìpio. Nº 195. como foi o caso. entrevista a Magazine Littéraire. Mais recentemente. ao extremo paradoxal. mas também porque. Gilles. 1990. Slavoj. ao mesmo tempo que o consumo de objectos – e quase tudo propende a tornar-se.que. tornam-se cada vez mais dependentes da referida performatividade e eficácia social. “Cinq fruits. emanados por exemplo da filosofia. Segundo ele. no entanto. desde um simples alimento até à espiritualidade mais exótica . in LesTemps Hypermodernes. para a satisfação das quais se fabricam sempre novos produtos. Com efeito.. 222 . de uma das suas características fundamentais: o consumo. Um bom exemplo é a publicidade. ou das exigências do mercado. É nesse sentido que podemos falar de uma “sociedade hipermoderna”1000 enquanto “sociedade de hiperconsumo”1001. por exemplo. 1004 Cf. Será que estamos realmente numa sociedade "de consumo"? O modelo da mercadoria é hoje o café sem cafeína. Jürgen. cinq légumes ». A meu ver. Essai sur la Société D‘hyperconsommation. Gilles Lipovestky propôs um novo título: hipermoderno. a expressão “pñs-moderno” não é pacìfica. está longe. se bem que em termos novos. sob a aparên999 Cf. de Habermas999. 1003 Cf. as auto e hetero-restrições sobre o mesmo não param igualmente de aumentar1003. Cf. Lisboa: Publicações Dom Quixote. Julho/Agosto de 2006 : « O que seria preciso criticar. O Discurso Filosófico da Modernidade. mas antes pela exacerbação ou elevação ao zénite. ou. antes pelo contrário. “Temps contre temps ou la societé hypermoderne ». Não apenas porque faz coabitar o consumo mais ilimitado com o mais restritivo1004.

quer o triunfo maciço do “cuidado de si” (le souci de soi). Lisboa: Relñgio D‟Água. Éric. Ibidem). quer estes digam respeito ao consumo. dia após dia. O Segredo (BYRNE. pp. a lógica do inimigo para assegurar a coesão social (Cf. 3ª Ed. Paris: Éditions Gallimard. ou um sintoma. 1998. The Secret. como recordavam Jacques-Alain Miller e Éric Laurent há alguns anos. à segurança1005 ou ao controlo1006 e avaliação de todos os aspectos da nossa existência1007. colóquios. com todos os efeitos paradoxais que isso gera. Essais sur L‘individualisme Contemporain. LIPOVESTKY.1008 Ligado aos paradoxos do consumo e. MILNER. MILLER. FOUCAULT. Voulez-vous être évalué ? Paris: Grasset.cit. Philosophie – anthologie. de que falam os autores. O Cuidado de Si. 2004. Paris: P.cia de uma ilimitação generalizada. Jean-Claude. de “panoptismo” . MILNER. MILLER. op. bem como as suas já imensas sequelas. Michel. História da Sexualidade. L‘Ère du Vide. Ronda.se por tal entendermos quer o individualismo crescente1009. Volume III. ou as intervenções estatais num mercado aparentemente à deriva. Nº 38. a uma expansão generalizada da subjectivação . Jacques-Alain. etc. e sobretudo através de uma consciência. Cf. Cf. filmes. 2007). Sciences Humaines. muitos dos “novos sintomas” (nouveaux symptômes) 1012 com que estamos actualmente confrontados. Ao mesmo tempo. Lua de Papel. a não descurar – poderia constituir aqui uma espécie de paradigma relativamente à profusão de obras.segundo a expressão que Michel Foucaut retoma de Bentham (Cf. mais ou menos avulsas.F. FOUCAULT. ao controlo (ou descontrolo) do corpo. Paris: Gallimrad. ad hoc. da legitimação ou da garantia. passando pela “retñrica avaliativa” (Cf. há cada vez mais necessidade de criar medidas. 1012 Cf. « L‟Autre qui n‟existe pas et ses comités d‟ethique ». parece assistirse. MILLER. Num mundo em que Outro. em particular. desde há algumas décadas. 1998. Sigmund. 1009 Cf. individual e colectiva. de restrição e controlo da actividade e existência humanas. em que tudo tem de ser avaliado.U. Cf. Malaise dans la Culture. Gilles. Jean-Claude. de que a ajuda que nos pode ser prestada depende fundamentalmente de nós e que o bem-estar resulta exclusivamente do nosso querer1011. há um outro paradoxo que importa ter em conta: por um lado. 1994. Paris: Navarin Seuil. ao crescimento de todo o género de limites e limitações. hoje manifesto em toda uma série de técnicas e práticas. Retomando aqui uma expressão que deu título à revista da Cause Freudienne. Michel. bem como as novas formas de 1005 Vivemos cada vez mais numa espécie de “paranñia securitária”. segundo a expressão de Michel Foucault 1010. nos faz assistir. 2004. Já o prñprio Freud havia denunciado que a civilização tende a trocar a liberdade por segurança” e a fomentar. em torno da temática da desenvovimento pessoal e da autoajuda. LAURENT. até ao frenesim legislativo em que vivemos. FREUD. 516-538. Jacques-Alain. porém. 223 .. deixou de existir. tudo parece valer para tentar suprir a ausência do Outro. como se fosse possível recobrir integralmente o real por meio do manto da lei. tanto a nível literário 1010 1011 como cinematográfico – o que demonstra que é um fenómeno.). op. suposto regular a convivência entre as pessoas e o adequado funcionamento das instituções. cit. Jacques-Alain. Desde as « comis- 1007 1008 sões de ética ». 1983. de um modo ou de outro. Cf. 1006 Cf..

o galopar do narcisismo na cultura contemporânea. Christopher. Também para ele. com uma sujeição. em vez de constituírem um sinal de autonomia. Como escrevia recentemente Florence Mottot. neste aspecto. a recusa do envelhecimento. que vê nele um fenómeno puramente egoísta. ou até o mundo de objectos em que vivemos mergulhados quotidianamente. A Era do Vazio. Le Nouvel Observateur. LASCH. para responder aos cânones da beleza. Nº 63. à autenticidade e plenitude interiores e exteriores. no limite. são vistos por ele essencialmente como novas formas de alienação do mundo contemporâneo 1016. 1979. Nouvel Observateur. Gilles. tanto mais eficaz quanto é livre e consentido1015.VV. é preciso impor-se uma ascese permanente. já haviam. 2005. em que a suposta liberdade e independência dos indivíduos. Nº Hors-série. AA. um controlo do corpo. p. diferindo. de tal forma que a posse de tais objectos parece definir cada vez mais a nossa própria identidade1014. De resto. libertas das barreiras repressivas e dos constrangimentos sociais. o desejo de realização pessoal. cit. há alguns anos. da análise menos pessimista de Lipovestky1017. a atenção. são vistas pelo autor como a forma mais radical de heteronomia. Ou então.. em particular às normas e ideais provindas do Outro. ele mostrava como Narciso tem necessidade dos outros para satisfazer a sua imagem de si. em particular no que concerne ao cuidado de si. Cf. op. Juin/Juillet 2006.cit. London: W W Norton & Co Ltd. op. Florence. a qualquer preço. fazem-nos pensar que ao invés de uma simples subjectivação. 36. 1014 1015 1016 1017 224 .VV. cada vez maior. MOTTOT. Cf. “Les Nouvelles addictions”. traduz – quer eles o saibam ou não – uma fundamental alienação. pelo contrário. entre outros. como expressão das potencialidades do indivíduo que busca aceder. Até certo ponto. para com a saúde e o cuidado do corpo.dependência ou “adição”1013. Vivre Branché. O consumo. AA. na medida em que coagem o indivíduo a viver perpetuamente obrigado a acomodar-se às 1013 Cf. LIPOVESTSKY. a exigência da auto-realização. com uma situação paradoxal em que a subjectivação coincide. Eis mais um dos paradoxos do nosso tempo. estamos sobretudo confrontados com uma ausência ou um deficit de subjectivação. Cf. Slavoj Zizek retoma e desenvolve as teses de Christopher Lasch. Cf. dado matéria de reflexão a Christopher Lasch: contrariamente a uma análise unilateral do fenómeno do narcisismo. Hors-série. este e outros paradoxos correlacionados. The Culture of Narcissism. Nouvel Observateur. da saúde e para realizar os seus desejos.

por um mal-estar interminável. o Supereu tem uma natureza tal que quanto mais se reprime a pulsão.exigências fluidas e variáveis do meio. em muitos aspectos. Este Outro ao qual o Eu está alienado é fundamentalmente o próprio Supereu. a lei ordenar: goza. op. até pode vê-la acentuar-se.S. que o sujeito sñ poderia responder a isso por um Oiço. 821. Livre XX. 1022 Cf. Le surmoi c‟est l‟impératif de la jouissance – Jouis ! »]. Pois bem. 2005. Jacques. pp.cit. Slavoj. com efeito. mais a sua exigência se torna impositiva1019. nº 14. O supereu é o 1019 1020 imperativo de gozo – goza!” [“Rien ne force personne à jouir. Malaise dans la Culture. subjectiva. Le Séminaire. ZIZEK. op. pela OMS. où la jouissance ne serait plus que sous-entendue. que le sujet ne pourrait y répondre que par un : J‟ouïs. Sigmund. LACAN. pp. Daí o paradoxo que consiste no aumento continuado dos casos de depressão . MARTINHO. individualista e narcísico. 65-77. o imperativo (pulsional) é o mesmo – goza! Eis o que escuta o sujeito contemporâneo cada vez com mais veemência. em vez da liberdade e autonomia supostas. omnipresente. p. “A doença do século”. Cf. Escutando este apelo1021.. Cf.ao mesmo tempo que cresce. Écrits. de si. 225 . Jacques.já considerada. Desse modo. ». acaba por ser acometido e siderado por uma angústia sem fim. op. FREUD. o fim mantém-se constante: tal como outrora. Lisboa: Fim de Século. p. pelo menos.. Amarrado a um tal imperativo categórico de gozo. « Narcisse aux U. bem como a corresponder às normas ou ideais provindos do Outro1018. Um Outro êxtimo do sujeito. do bem-estar e da autorealização pretendidos. enquanto este pressu- 1018 Cf. o sujeito vê-se literalmente sujeitado a um Supereu impositivo que o constrange ao sucesso social. Ditos III. salvo o supereu. em nome dos imperativos culturais e/ou civilizacionais. a nossa). sem parar. 1021 Equívoco entre « goza » (jouis) e « oiço » (j‟ouïs): “Viesse.. in L‘Âne. à auto-realização e à expressão livre da sua “verdadeira” personalidade. 10 : « Nada força ninguém a gozar. A culpabilidade era a tradução. o que os fenómenos contemporâneos atrás referidos parecem mostrar igualmente é que o supereu não perde a sua força. José. como a doença do século1022 . Cf. cit. 25-38. sauf le surmoi.” [“La Loi en effet commanderait-elle: Jouis. Tal como Freud já havia assinalado no Mal-estar na Civilização. o discurso em torno da felicidade e da desculpabilização. onde o gozo não seria mais do que sub-entendido.cit.A – La Jouissance du Succès ». transformar-se) num culto generalizado. mesmo quando tais imperativos culturais e/civilizacionais parecem ceder o lugar (ou. Se bem que mudem os meios (a sociedade de que falava Freud já não é. o sujeito. LACAN. o supereu revela-se essencialmente como um imperativo de gozo1020. da lei do desejo.

ZIZEK. mas antes numa imposição categórica.Novembro 1024 2008.” 1025 Cf. contínua e desesperada por ser feliz. Livre XVIII. e na primeira pessoa. LACAN. A própria felicidade parece ter-se transformado. A um mundo paradoxal. Lisboa: Relñgio D‟Água. Le Séminaire. LACAN. ARISTÓTELES. p.” [“Un tout petit truc qui tourne. Jacques. Gilles. (…) Quando percebi que não fazia mal ser infeliz. não apenas no fim (ou no bem) ancestral que todo o ser humano acalenta1023. de que temos de ser felizes.punha o Nome-do-pai no lugar do Outro.. num mundo em que o pai declinou e o Outro não existe. com Lipovestky. Slavoj. como uma verdadeira “traição do desejo”1026. Uma felicidade que pode ser vista. o sujeito ($) é determinado por um significante (S1) que o representa para outro significante (S2). cit. O sujeito manifesta-se no paradoxo ou na série interminável de paradoxos com que estamos cada vez mais confrontados. 12: 226 . a angústia. esta situação: “(…) o que me faz confusão é a imposição da sociedade. 38-39). op. LIPOVESTKY. 129-157. um jovem actor português. cit. numa entrevista que deu recentemente ao Jornal Sol (Revista Tabu. no discurso do 1023 Cf. sem limites. op. a era da “felicidade paradoxal”1025. mais infelizes acabamos por sentir-nos1024. me provocava uma infelicidade horrível. enquanto imperativo de gozo. nos últimos anos. É o que poderíamos chamar. 1028 Cf. tirânica: quanto mais nos obrigamos ou somos obrigados a ser felizes. Bem-Vindo ao Deserto do Real. pp. (…) Um dos momenos mais importantes da minha vida. nº 113. et votre discours du maître se montre tout ce qu‟il y a de plus transformable dans le discours du capitaliste]. Livre XVII. e o vosso discurso do amo/senhor mostra-se como o que há de mais transformável no discurso do capitalista. Jacques. graças à torção que o triunfo do discurso do capitalista (discours du capitaliste) introduz no discurso do amo/senhor (discours du maître)1027: enquanto neste último1028. em tudo isto. pp. apresenta. Le Séminaire. Onde está. como vimos. 49: «Basta um pequeno jeito. p. p. o sujeito? Sem dúvida. é a manifestação da lei do gozo. op. no próprio paradoxo. Cf. de forma magistral. agressiva. a minha vida acalmou. 2006. Nuno Lopes. Eis o que está bem patente na mudança de lugar sofrida pelo sujeito. 1985. Ética Nicomáquea. que pode ser visto como o discurso do poder ou do próprio inconsciente. cit. comum a qualquer credo e reeligião. corresponde um sujeito ou um modo de subjectividade paradoxal. Madrid: Editorial Gredos. foi perceber que a busca horrorosa. 83: “(…) A traição do desejo tem um 1026 nome: a felicidade” 1027 Cf.

ele crê-se ligado directamente ao seu objecto (de consumo.337. não cunsumas!). op. 1029 Discours do capitaliste Gilles Lipovestky desenvolve. Plaisirs privés. na sua obra mais recente.. LIPOVETSKY. Porém. não estando sujeito a nada nem a ninguém. Cf. 143. Gilles. cit. parecendo ocupar o lugar de agente.. bonheur blessé.capitalista1029. ele vê-se sacudido num permanente vai-e-vem entre a euforia do consumo e da performance e a depressão ou “instisfação existencial”1031. 227 . sem obstáculos ou restrições de qualquer ordem. Cf. sobretudo a segunda parte. 42-47. o sujeito tem a ilusão de que é ele próprio dono e senhor. cit. a fim de responder aos imperativos paradoxais de consumo (consome. Em vez de ser determinado pelo significante1030. pp. de prazer ou de gozo). 1031 A obra de Lipovestsky tem de mérito de desenvolver todos estes paradoxos sem ceder ao optimismo ou pessimismo fáceis. op. pp. alguns paradoxos ligados à “paixão das marcas” no modo de consumo 1030 actual. Gilles. Le Bonheur Paradoxal. LIPOVETSKY.

2005). a racionalidade e a realidade são meras construções humanas? Se pretendemos que existe. Ele é a prova de que tanto a modernidade filosófica (ao identificar o sujeito ao eu e à consciência) como a ciência (ao suprimir o sujeito do conhecimento) acabam por deixar de fora um resto. p. Lisboa: Gradiva. não deixou igualmente de explorar esta vertente do paradoxo desde as suas primeiras grandes obras. os paradoxos assinalam a presença do sujeito. Um bom exemplo é a análise levada a cabo por Thomas Nagel em “A Última Palavra” (Cf. op. Em 228 . com as correntes relativistas de um modo geral. irredutível. desde o prefácio. e 1032 Lacan deu um grande relevo. tentámos mostrar como o sujeito reside cada vez mais no paradoxo ou nos paradoxos que habitam o homem e o mundo hodiernos. no seio do pensamento. por exemplo a do “relativismo” e do “irracionalismo” que sustentam que a verdade. com Lacan. Livre I. poderìamos chamar. sem dúvida. Também João Peneda (Cf. uma produtividade e um valor heurístico que importa não descurar1032. Jacques. não são apenas obscuras opacidades. o modo de aceder a esse real passa. Como aceder a esse real? Sendo o mundo e o sujeito contemporâneos cada vez mais paradoxais. dans la béance. Gilles. que tende a retornar de uma forma ou de outra. a cair em contradição. no que este tem de real. qui ne sont pas pour autant des opacités et des obscurcissements. Gilles Deleuze. dos hiatos. Le Séminaire. 1986). “dá relevo à noção de paradoxo como fórmula elementar do psiquismo ou resíduo último do ser vivo falante”. Le Séminaire. o “real do sujeito”( le réel du sujet)1033. o paradoxo e as contradições que o habitam. o que nos leva. La Logique du Sens. da lógica e da linguagem1034. pelo contrário.cit. é por meio das antinomias. se negamos a sua existência. Para ele. LACAN. dans la difficulté. pois nenhuma palavra é a última. pela via do paradoxo. Cf.. Um outro autor. estamos a pretender que a nossa palavra sobre a questão seja a última.cit. pelo contrário..CAPÍTULO SEXTO Os suportes do sujeito No final do capítulo anterior. nomeadamente na Lógica do Sentido. Mas esta não é a única via possível. que nous trouvons des chances de transparence. rapidamente caímos em contradição. op. mas como tendo um alcance. impasse ou dificuldade lógica. mas. como acontece. 1969).”]. Jacques. O paradoxo não é aqui entendido como um fenómeno meramente circunstancial ou uma pura contradição. que se trata de determinar o estatuto do sentido e do não-sentido através de séries de paradoxos antigos e modernos (Cf. Livre VI. Os Paradoxos do Sintoma e da Sublimação – Um Contributo da Teoria Psicanalítica de Freud e de Lacan para a Estética. das dificuldades que temos oportunidade de chegar a algo de transparente [“ (…) ces paradoxes et ces contradictions. na sìntese da sua tese de doutoramento. desde o início do seu ensino. por exemplo. onde explica. têm uma fecundidade própria. Paris: Éditions Minuit. como vimos. novamente. DELEUZE. A esse resto. (…) c‟est dans l‟antinomie. De uma forma geral. Existe ou 1034 não existe uma última palavra. LACAN. Universidade de Lisboa. impossível de suprimir. p. 396. à noção de paradoxo. 1033 Cf. 174.

a não ser virando-a do avesso. em parte autobiográfico. que se intitula: Um. que ela passa a ser a nossa “verdadeira” imagem. Joël. Livre XXIII. como sugere Lacan no Seminário XXIII1038. isto é.cit. Jean-Paul. Jacques. um dos grandes dramaturgos do século XX. 1035 De entre os vários estudos consagrados à topologia de Jacques Lacan. o qual revela a presença de um sujeito. Lisboa: Publicações Europa-América. in Textos Essenciais sobre Literatura. Um. frente e verso. Lisboa: Editorial Presença. Um bom exemplo é-nos dado pelo livro. Rio de Janeiro. Montréal: Éditions Balzac. buraco na realidade quotidiana. ao mesmo tempo que mantém estas irredutíveis. p. que não deixou. 229 . La Topologie de Lacan. que faz a travessia do ensino de Lacan do ponto de vista topológico. O difícil da topologia (a ciência dos espaços e suas propriedades1037) é que ela faz. Esta é uma realidade a três dimensões. 1037 Cf. o enunciado e a enunciação. LACAN. além de especularizável. 12. Centomila)1040. direito e avesso. op. habituámo-nos de tal forma a conviver com esta imagem invertida. Cem Mil (Uno. como a luva da mão direita que não serve na mão esquerda e vice-versa. 1990 e DOR. Jeanne. Ninguém e Cem Mil. Introduction à la Lecture de Lacan – 2. Cf. não é apenas para abordar o sujeito que Lacan faz uso da topologia. há.. Nessuno. s/d. mas é esta vertente que nos interessa sobretu- do explorar no nossa investigação. Cf. com interior e exterior. op. Uma das características do espelho (do especularizável) é que ele inverte a direita e a esquerda. Ao nível do quotidiano. por diversas vezes. Sigmund. 1994. Ninguém. 1989. 1992. 241-242. pp. por assim dizer. Jeanne. Arte e psicanálise. qualquer dos casos. impossível de suprimir – e por isso real – entre o dito e o dizer. A Topologia de Jacques Lacan. Cada vez mais. 1036 Naturalmente. Freud não deixou de explorar este efeito de estranheza num dos seus textos emblemáticos.cit. Uma outra referência importante. de a explorar. passível de ser observada num espelho. PIRANDELLO. por assim dizer. 1040 Cf. GRANON-LAFONT. um hiato. é o livro de GILSON. ao longo do seu ensino. Le Séminaire. poderíamos referir dois nomes já clássicos: GRANON- LAFFONT. segue igualmente uma outra via: a topológica1035. Éditions Denoël. La Structure du Sujet.Lacan. dada pelo espelho. “O sentimento 1038 1039 de algo ameaçadoramente estranho (Das Unhheimliche)”. FREUD. de Luigi Pirandello. com particular incidência nos últimos anos do mesmo. Lacan faz uso da Topologia como forma de aceder ao real do sujeito1036. Daì que haja um efeito de estranheza sempre que essa imagem é posta em causa ou abalada1039.

de novo. 11. contra o que é costume. Toda a percepção de si mesmo e dos outros fica irremediavelmente abalada. o espanto ou a estranheza. Habituámo-nos facilmente a conviver com essa imagem quotidiana de nós mesmos. Ibidem. demorar diante do espelho.O que estás a fazer? – perguntou a minha mulher quando me viu.Pensava que estivesses a ver para que lado te descai.Descai? O meu nariz? . Olha bem para ele: descai-te para a direita1041. 230 ..A personagem principal deste livro. Ao carregar sinto uma dorzinha. A minha mulher sorriu e disse: . Vitangelo Moscarda. com assombro. acaba progressivamente por enlouquecer com base num pormenor aparentemente insignificante: certo dia. isto é. Esta simples constatação torna-se numa espécie de bola de neve que vai arrastando. numa espécie de vertigem interior que o leva até à mais completa despersonalização. embora inapreendido ao nível do espelho. é apenas a máscara que o espelho nos 1041 Cf.E a minha mulher.Nada – respondi –.Claro. à medida que rebola. Vale a pena acompanhar o texto: . Voltei-me como um cão a quem tivessem pisado a cauda: . É nesses raros momentos que pode surgir um efeito de sujeito. querido. que o seu nariz tem uma ligeira inclinação para a direita. ele descobre. a revelação de que aquilo que tomámos pelo nosso eu. de tal forma que só um outro olhar ou uma outra voz nos podem restituir. todo o tipo de certezas subjectivas e desencadeando uma autêntica revolução interior no protagonista. estou a olhar para o meu nariz. graças a um reparo da sua mulher. placidamente: . fazendo lembrar a heteronímia pessoana. ou pelo nosso rosto. O comentário da sua mulher põe a descoberto algo que sempre estivera lá. p. . para esta narina.

fixado pela câmara fotográfica.devolve e a que nos habituámos. 1043 Cf. 93-100. paradoxal. especularizável. geralmente evanescente. ou seja. ao olhar dos outros em que nos formos (re)vendo e (de)formando1042. em vez de uma profundidade. Uma boa ilustração é a fotografia de Ralph Eugene Meatyard (um fotógrafo americano que viveu entre 1925 e 1972) que tem como tìtulo. da função do eu. telle quelle nos est révélé dans l‟expérience psychanalytique ». neste caso. é que o rosto da personagem em causa. MEATYARD.. um espelho quebrado: 231 . uma função essencialmente topológica. ou o eu verdadeiro sob o eu falso. simplesmente. um mero prolongamento do exterior. LACAN. Cf. “Sem tìtulo”. in Écrits. uma função ambígua: ao mesmo tempo que reflecte a realidade. Encontros de Fotografia /Loja da Atalaia. pp. Como se entre os dois. Neste caso. p. isto é. no centro ou no interior do indivíduo. Março de 1993. Nela vemos uma estranha e solitária personagem no acto de retirar a máscara (social ou outra) que ostentamos quotidianamente. pode servir para mostrar o que é impossível de ver ao nível dessa mesma realidade. quer este seja um espelho efectivo. o que permanece supostamente sob a máscara. Lisboa. o interior e o exterior. houvesse apenas a dobra de uma superfície moebiana1043. por assim dizer. são dois exemplos de uma tal perturbação. 1044 Uma das imagens que se pode observar nesta fotografia é. O que é estranho neste gesto. é ainda e tão só uma outra máscara. tendo. Daí que o espelho tenha. que se produz quando o espelho da realidade sofre uma perturbação ou revela uma fractura1044. quer diga respeito. “Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je. por assim dizer. Jacques.cit. 22. mas o efeito. op. Antiga Loja da Atalaia. A voz da mulher de Vitangelo Moscarda e o espelho quebrado sobre as pernas da personagem fotografada por Meatyard. Ralph Eugene. o sujeito não é o rosto sob a máscara. precisamente. *** 1042 É esta dupla dimensão de que “o estádio do espelho” (le stade du miroir) pretende dar conta: enquanto formador e (de)formador.

nos faz supor. que tinha como título original a família do rei Felipe IV. que tinha apenas cinco anos quando o quadro foi pintado. avant la lettre. Pablo Picasso. o pintor. Um pouco mais à esquerda (direita do quadro). ladeada pelas damas1047. tal como o seu olhar. Benedikt Tas- chen. anões. Cf. ligeiramente desviado em relação ao quadro. como que indecisa. Trata-se de José Nieto. é um dos que mais tinta fez correr na história da arte. 1990. 1047 Las Meninas. para dizê-lo sem rodeios. com o pincel numa das mãos e a paleta das cores na outra. uma outra personagem. a que o quadro deve o nome por que é conhecido. 232 . no quadro Las Meninas1045. p. vê-se o reverso de um quadro em que o pintor reproduz. Comecemos. o Génio do Século. Esta primeira tentativa de aproximação ao quadro não revela ainda. Este quadro. que não cessaram de o reproduzir ou recriar. uma quadro dentro do quadro. o modelo do que ele está a pintar numa tela. Do lado oposto. mas que não é na verdade um quadro. como se quisessem extrair um qualquer segredo que ele teimava em não revelar1046. aquilo que lhe serve de modelo. como Picasso. o rei Filipe IV e a sua esposa Mariana. camarista da rainha. WALTHER. É um espelho onde estão reflectidas duas personagens que são. houve pintores. outras personagens: cortesãos. Para onde olha o pintor? Para onde olham a infanta a as restantes personagens? O que oculta o quadro voltado do avesso? 1045 1046 Picasso fez 44 paráfrases desta tela de Velasquez. parece fixar o espectador.. por exemplo. como se este fosse o objecto. Vemos. não sabendo nós se vai entrar ou sair do cenário. inteiramente. Mas de onde brota essa impressão de segredo? Na parte mais à esquerda. aparentemente. então. de que vemos apenas o reverso.Um bom exemplo. por descrever o cenário visível e as personagens que o povoam. numa mancha de luz. a infanta Margarida. Ingo F. um cão aparentemente ensonado… Mais ao fundo. Além disso. ao centro. desta função topológica do espelho é o uso que dele fez o pintor espanhol Diego Velasquez. O seu braço direito parece apontar para algo que se afigura um quadro. 82-84. o segredo que ele parece ocultar.

espectadores. São eles. o centro real da cena. 1049 Cf. pois nós sabemos que sempre que uma outra pessoa se aproximar o suficiente do quadro será tomado pela mesma impressão. Lição de 11 de Maio de 1966. Le Séminaire. FOUCAULT. 70. enquanto indivíduos. Grande parte da análise que Michel Foucault dedicou a este quadro – a qual ocupa todo o primeiro capítulo do seu livro As Palavras e as Coisas – é orientada no sentido de restabelecer a natureza desse ponto invisível para onde convergem todos os olhares1049. p. num qualquer ponto invisível1048. como por encanto. Mas esse ponto. 59-71 Cf. como saberíamos com exactidão o ponto. ao do espectador. MIchel. o que falta em cada olhar: ao pintor. Jacques. esta impressão não é duradoura. como já sabemos. a resposta é simples: somos nós próprios. Ibidem. que esse olhar se dirige. É o lugar para onde se dirige e converge o olhar de grande parte das personagens que povoam este quadro: um lugar ou um ponto invisível.À primeira vista. que “restitui. Como diz Lacan no Seminário XIII. L‘objet de la Psychanalyse. que nem mesmo Foucault acredita numa tal generosidade. Lisboa: Edições 70.”1050 Seguindo o fio deixado por Michel Foucault. Porém. o modelo que o seu duplo representado copia no quadro. de que vemos apenas o reverso. cativado pelo mesmo olhar. MIchel. Todo aquele que olha atentamente este quadro. todos estes olhares parecem ter-se perdido algures. Acontece. o segredo estaria finalmente desvelado: não só o direito do quadro. não é a cada um de nós. É este reflexo no espelho. pp. FOUCAULT. porém. em direcção ao qual parecem convergir todos os olhares. há um espelho onde dois vultos. mas ao lugar que qualquer um de nós pode vir ocupar por um tempo. Livre XIII. o modelo do pintor. em que ele se colocou como um intruso. o seu retrato que está a ser concluído no lado da tela que ele não pode distinguir do lugar em que se encontra. o rei Filipe IV e a sua esposa Mariana. 1988. ao do rei. de convergência dos olhares está situado dentro ou fora do quadro? Bem no centro do quadro. fica preso na rede desse olhar que parece vir ao seu encontro. Na verdade. até agora invisível. Paris : Éditions du Seuil (inédito). “Talvez esta generosidade – assinala ele – seja simula- 1048 LACAN. 1050 233 . algo enevoados. segundo a análise de Michel Foucault. As Palavras e as Coisas. ou esse lugar. parecem observar a cena. estaria finalmente desvelado.

. p. Bruno. Jacques. Esta carta virada (o quadro dentro do quadro) está aí para barrar o sujeito. mas um olhar1052. cette extimité (…) »]. cette extériorité intime. *** Esta topologia particular. cada qual à sua maneira. op. Le Séminaire. p. Jacques. para cavar um buraco. para dar contra de um centro que é essencialmente ex-cêntrico. pp. centro e periferia. entre o olho daquele que olha e o olhar que estruturalmente lhe escapa1053. O Espelho Mágico de Escher. É esta a topologia do sujeito. Berlim: Taschen. cit. p.. esta extimi- dade (…) » [« (…) ce lieu central. FOUCAULT Michel.”1051 Isto quer dizer que no mais íntimo do quadro. abrir uma fenda. Lição de 13 de Maio de 1975 : « (…) este famoso olhar que é eviden- 1052 temente o sujeito do quadro (…) » [« (…) ce fameux regard qui est bien évidement le sujet du tableau (…) »]. uma esquize. direito e avesso. op. uma topologia diversa. algo de real. op.. 167 : « (…) este lugar central. o olhar do espectador. 70 Cf. 79-91. 1055 ERNST. olhando. como diz Lacan. esta exterioridade íntima. LACAN. o olhar do pintor. LACAN. contrariamente ao que sucede ao nível da realidade quotidiana. Cf. Livre XXII. isto é.. não encontramos uma coisa em si. o olhar do rei. 32 234 .. um olhar que ficaria estruturalmente elidido: a saber. em que não é possível distinguir. É como se um traduzisse a verdade do outro.da. não vê.cit. Le Séminaire. op. Le Séminaire. LACAN. 1991. naturalmente. Eis um tema que Lacan desenvolve longamente no Seminário XI. 1054 “Cf. entre interior e exterior. É por isso que é indicado em todas as partes um vazio essencial. 1053 Cf. Jacques.cit. que. procurassem acercar-se. de um interior que é ao mesmo tempo exterior ou de um íntimo que é também – segundo a expressão de Lacan – um êxtimo1054. para quem ele se desenrola e. 1051 Cf. Ou então. (…) Porque a função desse reflexo é a de atrair para o interior do quadro o que lhe é intimamente estranho: o olhar que o organizou e aquele para o qual ele se desenrola. poderia ser igualmente ilustrada por uma gravura do famoso artista holandês Maurits Cornelis Escher1055. Livre VII. também neste caso estamos confrontados com um quadro dentro do quadro e um vazio central. Livre XI. que organizou o quadro. talvez ela oculte tanto ou mais do que manifesta. É por isso que é necessária uma outra maneira de conceber o espaço. como se ambos os artistas. dando a ver. impossível de ver ao nível da realidade quotidiana. Tal como acontecia no quadro de Velasquez.cit.

por assim 1056 1057 Cf. 235 . faz parte ou é enquadrado por essa mesma realidade. estamos perante uma verdadeira subversão da velha correlação entre o sujeito e o objecto. o número da série e a proporção segundo a qual elaborou o sistema de rede que esteve na base da construção do quadro. a ponto de se referir a ele por diversas vezes . em direcção à direita do quadro. Interior e exterior.é deveras desconcertante1056. esta consistência moebiana do quadro só é conseguida graças a algo que faz buraco e que ex-siste ao mesmo. Como se pode ver. como o interior da galeria de arte não se distingue do seu exterior.cit. neste trabalho. Na verdade. verificamos que a última casa da série. olhando. com o olhar. GRANON-LAFONT. uma série de casas ao longo de um cais. é apenas um simples vazio. vemos um jovem. com o olhar. onde o artista inscreveu o seu nome. Pois bem.. faz parte do mesmo quadro que observa. como é o caso do vazio central. Quanto ao centro. não só descobrimos. efectuado este percurso. datado de 1956 . mais acima. onde se mostra uma exposição de quadros. Jeanne. aqui. Se agora seguirmos. 25-41. apenas instantes do olhar que percorre a superfície moebiana do quadro: um contínuo ligado por uma única superfície1057. Ele é. por sua vez. à direita do mesmo. que o jovem que nós vemos a observar um quadro na parede. op. onde estão expostos uma série de quadros. ele vê um barco e. até ao canto esquerdo da mesma. muito ao estilo de outros trabalhos do artista que parecia gostar especialmente de séries. como podemos verificar. Se percorremos.de que Escher gostava bastante. de pé. pp. sujeito e objecto são. a galeria onde estão expostos os quadros. o sujeito que parece olhar. avista-se a entrada de uma galeria. à esquerda. essa série. Porém. observar ou contemplar a realidade do exterior. No canto inferior direito do quadro.O que vemos. um dos quadros da série. Neste quadro. tem uma entrada que conduz a uma galeria de arte. no canto inferior do quadro. ou mais propriamente ao que resta dele.

Michel. este não é o verdadeiro suporte do sujeito. Jacques. Jacques. de incluir o exterior . Lacan acaba. p. de um irredutível. 54. segundo a expressão de Lacan.. Le Séminaire. Le Séminaire. libertar o sujeito do imaginário. o simbólico e o imaginário. Livre XXIII.cit. p. como acontece nos quadros de Velasquez e Escher . mas apenas a sua cristalização.. 1060 Cf.. Lição de 13 de Maio de 1975. Cf.cit. fixação ou impasse. op. Vide. p. op. LACAN. 60. LACAN. 53. 143 : « La notion de moi (…) accuse de la façon la plus précise ses fonctions 1061 1062 1063 irréalisantes : mirage et méconnaissance.. uma trança ou um entrançado subjectivo (tresse subjective)1061.cit. Há algo que fica estruturalmente de fora.cit. Le Séminaire.cit. op. op. do olhar do sujeito. LACAN. como é o caso. Cf. fazendo deste. O sujeito é suportado pelo nó que ata borromeanamente o real.cit. Mas é igualmente certo que essa ex-sistência (real) e esse buraco (simbólico) só consistem graças à sua articulação com o imaginário. quer ao imaginário. Livre XII. op. por exemplo. Livre XXIII. *** Desde o princípio. “miragem e desconhecimento”1063. quer ele seja o pintor ou o espectador. FOUCAULT.. de dessubstancializar. isto é. 50. É da tentativa. op. LACAN. Jacques. finalmente. de um real impossível de reduzir. por reduzir o imaginário. de tal modo que soltando qualquer deles. » 236 . 57-66. que ex-siste ao quadro. des-entificar ou des-subjectivar o sujeito. a certa 1058 Cf. o ponto invisível – para usar a expressão que Foucault aplicou ao quadro de Velasquez1058 – que faz corte no percurso moebiano do quadro. pp. que é o nó (e não o imaginário. Ibidem. p. por exemplo. Autres Écrits. o simbólico e o real – categorias fundamentais do seu ensino – ao que con- 1059 siste (consistance de l‟imaginaire) ao que faz buraco (trou symbolique) e ao que ex-siste (ex-sistance réel). Cf.no seu interior que resulta a circunscrição de um resto. Por outro lado. o sujeito lacaniano não é mais do que essa ex-sistência (real) ou esse buraco (simbólico) em relação ao imaginário1059. LACAN.dizer. No fim de contas. a preocupação de Lacan é dupla: por um lado. Cf. p. todo o conjunto se desliga1062. igualmente. 41: “Le nœud comme support du sujet ». Jacques. o simbólico ou o real concebidos separadamente) o que suporta o sujeito1060. finalmente. p. a ponto de Lacan dizer. Daí que Lacan diga. Jacques..o que fica de fora e não se vê. quer ao simbólico.

barrado ou recalcado. bien que le discours le détermine. mas também o corte ou a fractura.. Cf. o lugar do sujeito é sempre determinado por um discurso. a distinguir de intersubjectividade1065. p. Ou seja: o sujeito é o que representa um significante para outro significante e nada mais1066. 10. o 1071 Discurso da Universidade (Discours de L‟Université). no sentido em que o presentifica. Escritos..cit. op. op.cit. Livre XVIII.altura. como eu. LACAN. »]. op. Outra preocupação de Lacan. o sujeito. 1072 Cf. Jacques..» 1065 Cf. entre dois significantes1068. discours ne saurait d‟aucune façon se repérer d‟un sujet. p. Jacques. à partir du moment où apparaît le système symbolique. p. em grande medida. 68 : « O sujeito põe-se como operante.cit e “Radiophonie”. Cf. cit.465. o Discurso da Histérica (Discours de L‟Hystérique). Livre II.cit. LACAN. Jacques. São estes que o suportam. Discurso do Analista (Discours de L‟Analyste). Jacques. c‟est d‟où se désigne ce qui est. p. Le Séminaire. Le Séminaire. Em vez da suposta autonomia concedida pela modernidade. à proprement parler. Livre V. Livre XVII. LACAN.». nos restantes ele é. p. Cf. p. a intersignificância. Lacan. é mostrar como o sujeito é um efeito e não uma causa. Livre XVIII. o sujeito depende de uma estrutura (simbólica)1069. in Autres Écrits.” [“Le sujet se pose comme opérant. O que suporta o sujeito. Cf. » 237 . São quatro discursos principais que Lacan apresenta e desenvolve: O Discurso do Amo ou do Senhor (Discours du maître). 1070 Cf. p. diria Lacan.cit. op. a ligação. Seja como for. Le Séminaire. LACAN..cit. o seu destino. Daí que haja uma certa sensação de metonímia ou deslize. Le Séminaire. em que o sujeito ocupa o lugar dominante e o Discurso do Analista (em que ele é confrontado com a causa (a) do seu desejo). op.cit. op. 860 : «(…) un sujet sctrictement réduit à la formule d‟une matrice de combinaisons signifiantes. na sequência da anterior. de um modo ou de outro. Exceptuando O Discurso da Histérica. op. comme humain. Écrits. op. Le Séminaire.. Entre mim e eu. LACAN.. 10 : « Ces places et ses éléments. Jacques. 1064 Cf. de tal forma que o sujeito está condenado a uma falta-em-ser (manque-à-être) irremediável1067. isto é. de um objecto1070 ou de um discurso1071 que o determinam no seu próprio ser1072. 11: objecto a como causa (cause) do desejo e suporte (soutenant) do sujeito. 447. Cf. como humano. comme je. LACAN. Ibidem : «(…) le signifiant étant ce qui répresente un sujet pour un autre signifiant.. A resposta a uma tal preocupação é aquilo a que Lacan chama intersignificância (intersignifiance). Jacques. ao mesmo tempo que o mantém ausente. O tìtulo de uma música recente de Luìs Represas diz o seguinte: “Entre mim e eu ”. é o significante. no sentido em que é deles que depende. a partir 1066 1067 1068 1069 do momento em que aparece o sistema simbñlico. que ele é estritamente reduzido à fórmula de uma matriz de combinações significantes1064. LACAN.

Jacques. Le Séminaire. de entrançar o real. pp.cit. » [“la difficulté. p. Tentaremos mostrar. É o nó que suporta o sujeito. c‟est de ne pas entifier le sujet. 1073 Cf.. o imaginário e o simbólico1075. p. fundamentalmente. 1075 Cf. como uma questão topológica. como entender esta afirmação. LACAN. op. é de não entificar o sujeito. quand on parle de la subjectivité. 45-57. Jacques.Quando a substância do gozo1073 – e a articulação entre o sujeito e o gozo – ganham cada vez mais relevância no ensino de Lacan. Autres Écrits. Livre II. 327 : « Com esta referência ao gozo abre-se a única ôntica admissìvel para nñs” [“Avec cette référence à la jouissance s‟ouvre l‟ôntique seule avouable pour nous. quando se fala de subjectividade. a questão do sujeito revela-se aqui. LACAN. Livre XIII. 71 : « A dificuldade. LACAN. op. surge uma nova preocupação: como evitar cair numa re-substancialização ou re-entificação do sujeito?1074 A topologia dos nós é a resposta a essa preocupação. op.. Deste modo. Mas ela é igualmente – como temos vindo a repetir – uma questão ética. na última parte do nosso trabalho. Le Séminaire. 1074 Cf.cit.cit. »]. Jacques. Este é o resultado de um certo modo de ligar. »]. 238 .

PARTE V UMA QUESTÃO ÉTICA 239 .

Judith (org. Livre VII. op. por exemplo. “Sollen” (Cf. cit. op. 2000. cit. do utilitarismo de Bentham1079. o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (cf. Le Désir D‘éthique. mereceria um outro desenvolvimento que vai muito para além do âmbito do nosso trabalho. de que falamos nós quando falamos de ética? Não pretendemos. 1080 Saber se se trata se uma « ética da psicanálise” ou de uma “ética na psicanálise”. 1077 “Eudaimonia”Cf. de modo algum. é essencialmente uma experiência de ordem ética1082. bem como dos seus diversos usos linguísticos e históricos1076: por exemplo. Le Séminiare. 1081 Cf. 13. LACAN. a psicanálise. p. MILLER. op. segundo ele.. bem como a diversidade e abundância de usos que de que ele foi sendo objecto. Com efeito. 1078 1079 Jacques. como temos vindo a repetir ao longo do nosso trabalho.. Livre VII.cit. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. pp. fundamentalmente.cit.CAPÍTULO PRIMEIRO Ética do desejo ou ética do bem-dizer? Afirmar que o sujeito é fundamentalmente uma questão ética. na medida em que. p. Nesse sentido. Ética Nicomáqueia. da mesma forma que esta se distingue. Lisboa: Edições 70.). Jacques. Estes são alguns dos muitos filósofos que Lacan retoma e com quem dialoga no Seminário da Ética da Psicanálise. carece de um esclarecimento prévio. ARISTÓTELES. 129-157. Jacques. p. 3650) e ler o verbete relativo ao termo ética para verificar a grande complexidade conceptual que ele comporta. 1082 Cf. 1986.. Crítica da Razão Prática. pp. Le Séminaire. LACAN. na esteira de Freud.cit. 359 : « A questão põe-se – se há uma ética da psicanálise (…)” [“ S‟il y a une éthique de la psychanalyse – la question se pose (…)”]. em particular ao longo do seminário de 1959-19601081. op. o facto de a ética aristotélica (do bem-estar ou da felicidade1077) não poder. é clarificar o sentido de uma ética da psicanálise1080. Libro I. op. Aquilo que nos importa aqui. inquirir acerca do conceito de ética propriamente dito.. Cf. Livre VII. LACAN. Paris: Aubier. tal como Lacan a nomeia e desenvolve. com esta pergunta. ela distingue-se de toda a praxis adaptati- 1076 Basta abrir. KANT. 13-48. Immanuel. A Sessão Analítica – dos riscos éticos da clínica. como interroga Patrick Guyomard (Cf. por exemplo. 159 : « Abordamos aqui a experiência freudiana como ética (…)” [“Nous abordons ici l‟expérience freudienne comme éthique (…)”]. igualmente. 1998. 240 . Le Séminaire. Uma questão ética. confundir-se com a ética kantiana (do dever1078). Ver. fundamentalmente o capítulo 1.).

Jacques.. Livre VII. Jacques. Mas qual a razão que leva Lacan a pretender reescrever a ética da psicanálise? *** No final dos anos cinquenta. Naturalmente. Tese de Doutoramento. op. se lida apressadamente. 541 : « O que eu faço é extrair da minha prática a ética do Bem- dizer (…) » [« C‟est ce que je fais. segundo a expressão de Patrick Guyomard. Com isto. Universidade do Minho. no final dos anos cinquenta1085. neste caso. de ma pratique tirer l‟éthique di Bien-dire (…) »]. »]. o Seminário sobre A ética da psicanálise desemboca numa pergunta: agiste em conformidade com o teu desejo?1088 A pergunta pode ser enganadora. LACAN. LACAN. LACAN.cit. 50 : «É talvez. para uma ética do bem-dizer. de entre os vários seminários. in Autres Écrits. p. a questão de saber se se trata de uma verdadeira mudança ou apenas de uma reformulação não poderia deixar de ter consequências no modo de abordar e considerar o próprio sujeito. Braga. Ibidem. p. Paris: Aubier. 1998 (inédito). agir em conformidade com o desejo não implica qualquer tipo de conformismo. de todos os seminários (…) o único que eu mes- mo reescreveria. de tous les séminaires (…) le seul que je récrirai moimême. 350. Jacques. LACAN. parecendo evoluir de uma ética do desejo. RODRIGUES ALVES. Patrick. esta diferença de abordagem e consideração ética no ensino de Lacan – deixando de lado. na medida em que a consideração lacaniana sobre a ética da psicanálise não permanece imutável ao longo do tempo.cit. op. GUYOMARD. 1087 Cf. “Télévision”.. está fora do âmbito do nosso trabalho (Cf. todavia. 1083 Cf. LACAN. Le Séminaire.va ou readaptativa. Livre XX. Não entramos aqui na discussão de saber até que ponto esta ética do desejo traduziria essencialmente. Jacques. Ética e Psicanálise – Uma Abordagem à Luz de Freud e Lacan.. De tal forma que Lacan é levado a confessar. et dont je ferais un écrit. 1998. 31. o que implicaria uma “conformização” (conformisation)1083 do sujeito ao “serviço dos bens” (service des biens). mas deve ser entendido. Na verdade.. hoje.” [“C‟est peut-être aujourd‟hui. para já. no Seminário XX. 1086 Cf. um 1084 1085 “desejo de ética”. op. Le Séminaire. Le Désir D‘éthique.cit. p. Cf. 359: “As-tu agi en conformité avec ton désir?” Vide. que gostaria de reescrever1087. fazendo dele um escrito. o problema não fica ainda resolvido. Livre VII. mesmo se tem a sua pertinência. 241 . p. que a Ética da Psicanálise seria o único. no princípio dos anos setenta1086. uma vez que essa questão. Le Séminaire. p. no ensino de Lacan. sejam eles de que natureza forem1084. como dissemos atrás. como ir ao arrepio do culto dos bens. op. José Manuel.. igualmente.cit. 1088 Cf. Jacques.

. 340). É a transgressão (da norma ou do bem estabelecidos) e o acto que melhor o definem. 1090 É neste sentido que há algo de kantiano nesta ética do desejo.cit. à savoir la coupure signifiante (…) » 1094 Cf.” [“le satut de l‟inconscient. representa bem o extremo. pur et simple rapport de l‟être humain avec ce dont il se trouve être miraculeusement porteur. Livre VII.. isto é. segundo a expressão de Lacan. colocando o sujeito. no puro acto de desejar enquanto tal. em última análise. é ético. e da própria vida. o corte ou a fractura constitutivas do sujeito1093. um pouco mais tarde. Jacques. enquanto esta é consagrada como um bem absoluto. Lacan estabelece uma diferença crucial entre o desejo (désir) propriamente dito. Livre XI. p. Jacques.. uma vez que vai contra o domínio dos bens.. 368 : « (…) la seule chose dont on puisse être coupable.cit. p. o corte significante (…)” [“Antigone se presente comme “autonomos”.cit. Cf. p. LACAN. ao nível dos bens. Jacques. Crítica da Razão Prática. Immanuel.. 315-333). op. LACAN.1090. Segundo o Lacandesta época. 41 : « O estatuto do inconsciente. a revelação de um sujeito em acto. LACAN. Agir em conformidade com o desejo significa. Le Séminaire. Deste ponto de vista. mas puro desejar. “no entre-duas-mortes” (Cf. Jacques. acaba por se revelar essencialmente trágico. Ele é puro na medida em que não é. que eu vos indico tão frágil sob o plano 1095 1096 ôntico. op. na medida em que liberto do domínio e do limite imposto pelos bens da pessoa ou da cidade. mas ética”1096: ela mani1089 Desde cedo. Livre VII. p. KANT. a única coisa de que o sujeito pode sentir-se culpado é de ter cedido num tal desejo1092. A sua natureza – como dirá Lacan. LACAN. SÓFOCLES. na sua máxima pureza. Livre VII. Le Séminaire. c‟est d‟avoir cédé sur son désir ». a saber. p. o protagonista da tragédia do desejo. e não qualquer tipo de realidade substancial. o desejo. O desejo define-se como uma diferença ou um hiato (béance) irredutível entre a necessidade e a demanda (Cf. ou do receio das consequências. na medida em que o seu gesto incarna a dimensão radical e trágica daquele. 1092 Cf. a necessidade (besoin) e o pedido ou a exigência (demande) do outro ou endereçada ao outro.cit.cit. insuportável. Ao nível da ética da psicanálise. 242 . Le Séminaire. LACAN. Cf. desejo disto ou daquilo1091. p. 345 : « (…) O lugar do desejo enquanto ele é desejo de nada (…) » [« (…)la place du désir en tant qu‟il est désir de rien (…) »]. Le Séminaire. “o puro e simples desejo de morte como tal”1095. est éthique. 1091 Cf. JACQUES. op. Jacques. Le Séminaire. isto é. »].. do amor de si. a protagonista da obra homónima de Sófocles1094. 1093 Cf. do inconsciente – “não é ôntica. neste caso. op.quaisquer que sejam as formas que estes revestem1089. isto é. até ao fim. 2ª Edição. » Cf. Antígona. LACAN.cit. qui je vous indique si fragile sur le plan ontique. 329 : « (…) le pur et simple désir de mort comme telle. assumir. levando até ao limite a realização do desejo puro. op. o desejo assume um carácter ainda mais radical. Lisboa: Lisboa: INCM 1987. op. O sujeito apresenta-se aqui como um herói trágico. Ibidem: “Antìgona apresenta-se como “autonomos”. pura e simples relação do sujeito humano com aquilo de que ele é miraculosamente portador. Trata-se de um desejo puro. É por isso que Antígona. para além de toda a consideração egoísta. de um tal desejo. LACAN.

tal como Lacan não deixa de repetir1098.. 342 : «(…) este caminho do entre-dois onde eu tento levar-vos. É o estigma. Eis a “primeira morte”. 1100 É esse deslize metonímico que está inscrito no aforismo lacaniano de que o sujeito é o que um significante representa para outro significante. Livre VII. 377). para o transformar num puro deslize metonímico1100. op.. Livre XI.”].cit. p. cette chose. A reversibilidade a que aludimos significa que quanto mais o sujeito puramente deseja. op.cit. Livre VII. Jacques. desapossando o sujeito de toda e qualquer realidade fixa e substancial. ce qui (…) du réel primordial (…) pâtit du signifiant. Le Séminaire. cit. 317 : «(…) dans une zone limite entre la vie et la mort. e o sujeito. irremediável. 1103 243 . Autres Écrits. p.cit. Dizendo de outro modo: o acto por meio do qual o sujeito (enquanto desejante) advém ou se revela. Jacques. Livre VI. Le Séminaire. op. p. No seu extremo. p.. LACAN. ele é desejo de nada (désir de rien). LACAN. Jacques. 345 Cf. LACAN.entre Antígona e as personagens sadianas. Jacques. Le Séminaire. que marca o desejo decidido de Antígona no enfrentamento da segunda morte.” [“ (…) ce chemin de l‟entre- 1099 deux où j‟essais de vous mener.. 1098 Cf.a vários títulos improvável . LACAN. ao mesmo tempo. Ou seja. 315-333. » Cf. op. desta primeira morte. op.cit. que o sujeito é e não é representado pelo significante: ele é representado. O mesmo corte ou fractura que a linguagem provoca. Jacques. de um lado. cit. 142 : « (…) elle est. a pura expressão do acto de desejar enquanto tal. 241). de alguma forma. 1101 Cf. puro e transgressivo ao mesmo tempo.. mas. tal como mostra a tragédia de Antígona1097. uma certa reversibilidade entre o desejo. na sua pureza. a mortificação fundamental de que padece o real primordial. » 1102 Cf. Jacques. mais ele advém e se revela como um sujeito em acto: puro corte ou fractura “entre dois” significantes1099. p. a Coisa (Das Ding). op. O desejo é tanto mais puro quanto mais liberto do domínio dos bens. Livre VII... segundo o termo que Lacan retoma de Ernst Jones (Cf. LACAN.cit.festa-se por meio de um acto. sujeita à lei do significante1101. Lição de 4 de Fevereiro 1959 e Le séminaire. Le Séminaire. por assim dizer. LACAN. “no entre-duasmortes” (dans l‟entre-deuz-morts)1103. nesta altura do ensino de Lacan. Há aqui. do outro. LACAN. op. como sublina Lacan. 1097 Esta dimensão transgressiva do desejo é igualmente patente. Jacques. pp. Na realidade. na aproximação . irremediavelmente. op. ao mesmo tempo que se eclipsa ou sofre uma afânise (aphanisis). (Cf.cit. no ser vivo. p.. O desejo puro que ela representa situa-se numa zona limite não apenas entre a vida e a morte1102. esta fórmula diz.

e não um puro desejo de morte1106. isto é.. no Seminário XI. segundo o Lacan desta época1108. p. La Jouissance du Tragique – Antigone.como sugere Patrick Guyomard . pp.. *** De qualquer modo.cit. 27.. um desejo puro e trágico. Eis aquilo de que o sujeito é unicamente responsável. 1998. op. É um desejo de singularidade. LACAN. para atravessar o limiar da segunda sem vacilar (Cf. do corte significante. Paris : Flammarion. nesse caso. Jacques. Le Séminaire.. pelo próprio Lacan. Jacques. p. a par da tragédia do desejo . op. para a qual o personagem avança sem ceder ou abrir mão do seu desejo. 1106 Segundo Lacan. 95 : « Onde isso isso fala. Patrick. Lacan et le Désir de L‘analyste. 1108 Cf. de alguma forma. ao advertir que “o desejo do psicanalista não é um desejo puro.Mas será o desejo que move o psicanalista. Jacques.uma espécie de “gozo do trágico”. GUYOMARD. Le Séminaire XXIII. improvável na primeira época do ensino de Lacan.cit. mas de permitir-lhe lidar. 61 : « On est responsable que dans la mesure de son savoir-faire » 244 . Se é o gozo que predomina. p. ao nível da primazia do desejo. C‟est un désir d‟obtenir la différence absolue (…)”. com a introdução da problemática do gozo.cit. condenando-o. op. mas um desejo de obter a diferença absoluta”1105. haver-se. o novo ponto de partida – de tal modo que é possível estabelecer uma equivalência. Livre XI. 1104 Cf. sendo este. Uma nova inflexão. e a morte real. entre a fala e o gozo1107 – já não se trata apenas de levar o sujeito a agir em conformidade com o seu desejo. no seu acto. LACAN. 1105 Cf. continuamos ainda. isso goza (…)” [“Là où ça parle. poderíamos dizer. que importaria igualmente considerar? 1104 A resposta a esta questão será dada alguns anos mais tarde. Le Séminaire. LACAN. 315-333). Livre XX. para todo o sempre. Antígona serve-se da “primeira morte”.. J.. 1107 Cf. ça jouit (…)”]. nesta época. efectiva. p. porventura mais decisiva. 307 : « Le désir de l‟analyste n‟est pas un désir pur. De alguma forma. opcit. tal como Lacan parece afirmar nesta altura do seu ensino? Não haveria aqui. ou “saber-fazer” com o gozo. LACAN. a um primeiro exílio do seu ser. Antígona situa-se “entre duas mortes” (Antigone entre-deux-morts): a mortificação irremediável que o signifi- cante provoca no ser vivo. tal como vimos num dos capítulos anteriores do nosso trabalho. vai ser efectuada por Lacan nos anos finais do seu ensino.

dizendo: o estilo é o homem…a quem nos endereçamos. Buenos Aires : Ediciones Manantial. p. que é o que há de singular em cada indivìduo (…)” [(…) sinthome. in Revista Portuguesa de Filosofia. 1111 “Uma ética unida a uma estética” (Cf. o sinthoma (a distinguir do sintoma (symptôme). p.. qui est ce qu‟il y a de singulier dans chaque individue (…)]. 185). implicando aquilo que poderíamos designar como uma ética do estilo1112. o que implicava um inconfor1109 Uma das características do gozo é que ele pode fazer mal ao sujeito. MILNER. num certo amor da língua (Cf. ele completa a frase. 48.. Philippe. Finalmente. pp. o que há de mais singular em cada indivíduo1110. dá conta de um certo momento do seu ensino. 1113 Cf. Não se trata. Porém. “Simbñlico. o que desemboca. Cf. esta nova inflexão implica o seguinte: o sujeito é levado a dizer bem – não necessariamente o bem1109 – a singularidade do modo de gozar ou do sinthoma (sinthome) que o definem. que “o gozo é um mal” (la jouissance est un mal). cada vez mais.cit. 1996.cit. Nº 59. Em seguida. L‘Amour de la Langue. Ver. poderíamos acrescentar. Jacques. faz confinar. até certo ponto. Écrits. O lugar do Outro aparece aqui como essencial. igualmente. Jacques-Alain. de erradicá-lo ou interpretá-lo. O Retorno a Freud de Jacques Lacan. Linguagem. 1976. op. O que leva Lacan a dizer. Livre VII. Paris: Éditions du Seuil. nos últimos tempos1113. pp. Le Désir D‘éthique. nº 6/7. o modo como Lacan comenta a famosa frase de Buffon: “o estilo é o homem”.cit. Jacques. 3. p. 510-512. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul. Jean Claude. ROCHA. Com efeito. além de tudo o mais. Ou seja: a singularidade de um estilo que faz objecção a todo e qualquer universal e que vai em sentido inverso da normalização e uniformização do Homem e da existência a que temos vindo a assistir. op. mas de permitir ao sujeito haver-se com ele. por isso. a ética com a estética1111. se é o gozo que passa a ter. “não tenho concepção do mundo. MILLER. 217. uma “ética do estilo” (une éthique du style). no fundo. LACAN. como “formação do inconsciente”.cit. O famigerado estilo. Cada um dos comentários que Lacan acrescenta a esta frase. Livre XXIII. o bem dizer. Cf.Do ponto de vista da ética da psicanálise. p. não deixa de ser esclarecedor. o estilo é o modo como se diz. de Lacan .. como ilustra bem o sintoma. Cf. 1978). entre Psicanálise e Filosofia”.. mais un style (…)”]. Le Nouvel Âne. 1110 Cf. mas um estilo” [“je n‟ai de conception du monde.ser visto. por exemplo. Primeiro. segundo Lacan. op. Jean-Claude. a este respeito.mesmo se Jean Claude Milner falou deste como “um autor cristalino”1114 . 2003. no ensino de Lacan. 1112 Aliás. 71-74). “Conférences et entretiens dans des universités nord-americaines. 1993. MILNER. atando-o de uma forma inédita. op. Também Patrick Guyomard recordava. Acílio da Silva Estanqueiro. pp. Paris : Seuil. op. é.cit. p. La Obra Clara. e Ética – Lacan. 168 : «(…) sinthoma. p. como a realização prática de uma postura ou exigência ética. na esteira de Freud – e em particular na análise por este efectuada em torno do Mal-estar na Civilização. Le Séminaire. o papel predominante.. Como o próprio Lacan dizia. LACAN. num livro já citado (cf. 9-10). Le Séminaire. que a ética da psicanálise (ou na psicanálise) que Lacan tenta promover é. 7. 1114 245 . Esta nova maneira de pôr a questão. Scilicet. significa isto que à conformidade com o desejo (puro). LACAN. segundo a expressão de Jean-Claude Milner. JULIEN. ele diz que o estilo é…o objecto (Cf. supostamente difícil.

“Le boom de la Psychologie: révélateur de nos societés ». Slavoj. Buenos Aires: Paidós. a que temos vindo a assistir nos últimos anos. Septembre – Octobre 2008. p. 1120 Parafraseamos aqui o termo de Lipovestsky. Paris: Navarin Seuil. “Les paradigmes de la jouissance”. in La Cause Freudienne. 83: “Em psicanálise. (…)” [“Toute formation humanine a pour essence. ZIZEK. comme tel. 2008 e SLOTERDIJK. Vide. in Sciences Humaines. Nº 43.cit. Octobre 1999. Peter.. et non pour accident. São Paulo: Boitempo. VILLEROY. bem-estar ou felicidade. 2000. e de um certo ponto de vista. op. op. 1122 Cf. Le Séminaire. sucede uma conformidade do sujeito com o gozo? Aparentemente. De tal modo que ele se manifesta usualmente sob a 1115 Pragmatismo. 8). procura-se readaptá-lo à postura e condições particulares propiciadoras do seu modo de gozo. a que já fizemos referência anteriormente. 1116 Cf. Lisboa: Relñgio D‟Água. p.cit. 1117 Cf. 29). de pôr limites. LACAN. como lhe chama Zizek na esteira de Lacan 1118 . desta corrente. Slavoj. Mas não é semelhante “traição do desejo”. igualmente. in La Cause Freudienne. bem como o aumento da oferta de terapias “à la carte”1117. tal como Jacques Alain Miller mos- trou.. Aliás. 2003. Autres Écrits. Élise. a traição do desejo tem um nome: a felicidade” 1119 Cf. “Les thérapies à la carte”. não tem grande coisa que ver com o gozo (…)” [“Le sujet. op. de réfréner la jouissance.cit.. in Sciences Humaines. Serban. Livre XX. 306-308.. op. Jacques. pp. (…) »]. « L‟éventail des jouisances ». e não por acidente. Ver. p. p. op. têm participado.. o gozo é por natureza desconforme ao sujeito1122. Cf. p. 82-83. esse. ao falar de uma passagem do transcendental da estrutura ao pragmático. 370. 48 : « O sujeito. IONESCU. em que mais do que levar o sujeito a confrontar-se com a radicalidade do seu desejo. Las Metástasis del Goce. para falar com justeza. 246 . LACAN. 2ª Ed. ZIZEK. como tal. Bem-Vindo ao Deserto do 1118 Real. de lidar ou desconformar-se com o gozo. 80-81. A “psicologização da sociedade” (psychologisation de la société)1116. à sua maneira. p. p. Cf. SIQUEIRA. a resposta poderia ser afirmativa.cit. Livre VII. LACAN. há alguns anos (Cf. Paris: Cristian Bourgois. a ética do bem dizer é já um certo modo de refrear1121. igualmente. Jacques.mismo fundamental relativamente a todo o domínio dos bens e ideais estabelecidos. 362 : « Toda a formação humana tem por essência. Spécial nº 7. consentânea com a “era de cinismo”1119 e de “felicidade paradoxal”1120 em que parecem ter mergulhado o mundo e o sujeito contemporâneos? *** Na verdade. SAFATLE. Paulo. 2006. pp. e que Paulo Siqueira resumiu da seguinte forma: “Au Lacan structuraliste et freudien succède un Lacan pragmatique” (Cf. que o próprio Lacan não deixou de trilhar na última fase do seu ensino. n‟a pas grand-chose à faire avec la jouissance (…)”]. Cinismo e Falência da Crítica. Hors- Série. Jacques. La Grande Histoire de la Psychologie. Vladimir. Le Séminaire. Vivemos num mundo essencialmente pragmático1115.cit. refrear o 1121 gozo. Critique de la Raison Cynique.

ao bem-dizer o gozo do sintoma. 118). Jacques. mais depurada. p. 1123 “Que o gozo seja desconforme não apenas ao sujeito. o lugar do gozo que atrapalha ou embaraça o sujeito. 1124 Sintoma este. 511. 247 . op. que Lacan escreve numa só palavra: sinthome. LACAN. p. poderia ser ilustrado por uma recente entrevista dada pelo escritor Gonçalo M.forma de sintoma. isto é. Cf. Nesse sentido. desde Freud. ROCHA. “Campo. “Simbñlico. linguagem e ética”. op. o que lhe causa estranheza.” (Cf. não se trata de opor a ética do desejo à ética do bem-dizer – podendo a segunda ser entendida como uma outra fórmula. monotonia e autismo do gozo. da primeira – mas de mostrar que é pelo bem-dizer do desejo que o sujeito pode fazer face ao impossível de suportar do gozo. a fase dolorosa. Livre XXIII. de 23 a 29 de Outubro.. graças ao bem dizer. cit. Nº 816. O sintoma é. e diferentemente do que sugerimos no início deste capítulo. A certa altura. mal-estar ou sofrimento1123. Acílio da Silva Estanqueiro. O desejo. mesmo quando o sujeito tem. mas igualmente ao prazer. cit. aparece aqui como uma possibilidade inédita que se oferece ao sujeito. ele descreve assim o acto da escrita: “O que eu sinto é que há duas fases: essa fase do prazer e. a relação do sujeito com este tende a modificar-se. frente à repetição. 1125 Cf. Uma nova forma de atar o sintoma1124 é então possível. Contracampo”. in Visão. Tavares à revista Visão. que para mim significa sofrimento puro. como se disse algures. enorme dificuldade em desapegar-se dele.. depois. Le Séminaire. muitas vezes. tranformando este impossìvel numa “possibilidade existencial”1125.

” [“Le Es est ce qui. desde logo. p. Devir-sujeito é a tradução que propomos da fórmula freudiana que Lacan não deixou de comentar. Jacques. as más traduções. Eis ainda 1128 a melhor definição. A tradução é aqui elevada. Le Séminaire. op. implica já uma certa forma de o sujeito responder por aquilo que lhe acontece. a um estatuto ético. 248 . é susceptìvel (…) de devir Je.cit. interpretação e reescrita desta fórmula? *** Antes de mais. Cf.. Lacan pretende mostrar que o sujeito não é um estado ou uma substância que se possam fixar-se ou entificar-se. mas impliquem sobretudo um esforço ético de bem dizer o que está fundamentalmente em causa num tal enunciado.cit. no original alemão. p. acéfalo e sem nome1126. 46 : « O Es é o que. a questão de como devir (ou advir) sujeito ganha uma relevância particular. 1127 Cf. por diversas vezes e de diferentes maneiras. op. ao longo do seu ensino. em particular durante toda a primeira fase do mesmo. Por isso. aquelas que tenderam a imaginarizar o sujeito (o Ich freudiano). Voilà encore la meilleure définition. dans le sujet.. isto é. 416. Daí que as inúmeras releituras e reescritas do enunciado freudiano não se resumam simplesmente à questão de saber como traduzi-lo adequadamente. há que evitar ou descartar. nomeadamente em alguns textos dos Escritos. o que pressupõe um devir-sujeito. mas um devir1128. diz o seguinte: “Wo Es war. »]. quer adaptando-o à realidade 1126 Num mundo onde predominam cada vez mais – como vimos num dos capítulos anteriores – modos e objectos acéfalos de gozo. no sujeito. est susceptible (…) de devenir Je. LACAN. LACAN. Jacques. Livre IV. A letra da fñrmula. por assim dizer. Qual vai ser o procedimento lacaniano relativamente à leitura. onde parecia haver apenas algo de objectal. soll Ich werden”1127.CAPÍTULO SEGUNDO Devir-sujeito Bem dizer o desejo ou gozo que lhe são próprios.

numa “excentricidade radical”1134. no seguimento deste. ». 416). de onde o sujeito (Ich) recebe o ser (war) que lhe é próprio. para Lacan – tal como temos vindo a sublinhar ao longo do nosso trabalho – o verdadeiro sujeito está longe de confundir-se com o Eu1130. uma nova tradução para o enunciado freudiano: “aì onde isso era. Nesse sentido. É contra essas más traduções. na homofonia. em todos os casos. 417 : « (…) distinction fondamentale entre le sujet véritable de l‟inconscient et le moi comme 1131 constitué en son noyau par une série d‟identifications aliénantes. Écrits. por exemplo.cit. op. LACAN. Quer dizer: o que era 1129 Estão neste caso.. 1130 Cf. graças ao significante. op. que defende que “Where the id was. estão ligadas por um mesmo fio condutor. 1136 Cf. de tal modo que se faça aparecer1132 o sujeito da enunciação que lhe subjaz.. que. A novidade lacaniana consiste em mostrar que esse ser. op. assenta. isto é. p.cit. » Cf. a um certo ideal que passa.cit.cit. cit. em francês1136. op. Jacques.. Jacques. do psicanalista1129. Tudo aí é objecto de análise. num determinado momento ou contexto. Trata-se. Jacques. “Excentricité radicale” (Cf. no original alemão. Jacques. Écrits.. Pelo contrário. op. grandemente. A análise e reescrita que Lacan propõe da fórmula freudiana assentam. ou leituras redutoras e apressadas da fórmula freudiana. S. LACAN. e a inicial da palavra sujeito. 17 249 . op. LACAN. there the ego shall be” (cf. op.. em vez de reenviar para o que quer que seja de uno.. Lacan chega mesmo a produzir um novo verbo (“s‟être”) e. p. fixo ou substancial. tem particular relevância a desconstrução do enunciado que é efectuada por Lacan no texto “A Coisa freudiana”1133. 416-418. considerado são ou bem adaptado à realidade. LACAN. pode dizer-se. Écrits. e a tradução inglesa. LACAN. LACAN. pp.. 417-418). 417).cit. 417 Cf. 1133 1134 1135 pp. que Lacan vai propor uma série de reescritas. peut-on dire. LACAN. por realidade). pp. aì onde s‟era (…) é meu dever que eu chegue a ser”1135. de bem dizer o enunciado freudiano. p. p. 842). LACAN. 418. Jacques. Jacques. na equivocidade significante entre o “Es” freudiano. 585. 1132 “Venir au jour” (Cf. que pretende que “Le moi doit déloger le ça” (cf. p. p.cit. Jacques. simbólico. Jacques. op.. LACAN..cit. a começar pelo lugar (Wo). quer identificando-o ao ego. lá où s‟était (…) c‟est mon devoir que je vienne à être » (Cf.(isto é. Jacques. a tradução francesa.cit. reduzindo-se este a uma série de identificações alienantes1131. op. No original: “Lá où c‟était. 416 : « (…) ce sujet (…) n‟est justement pas le moi. embora diversas quanto à forma.

Há aqui. em nota de rodapé. op..tomado por um mero caldeirão pulsional.” [“Freud a écrit quelque part Wo es war. Por aqui se percebe.”]. Qu‟est-ce que ça peut vouloir dire ? – si ce n‟est pas que le sujet est déjà chez soi au niveau du Es. auquel il faut donner sa portée de croissance dans le devenir. é um dever no sentido moral que se anuncia” [“soll.cit. 105: “Freud escreveu algures Wo es war. 416: “Fñrmula onde a estruturação significante mostra bem a sua prevalência” [“Formule où la structuration signifiante montre assez sa prévalence.. 1141 Lacan faz questão de recordar. »]. neste lugar. op. numa equivalência entre o “Es” freudiano e o sujeito (S). war. uma tal equivalência não é simples. Mon Enseignement. 417. com o acento especial que tem em alemão o verbo werden. c‟est un devoir au sens moral qui là s‟annonce. mas fundamentalmente um movimento ético1140. soll Ich werden. e mesmo civilizacional. o modo como Freud termina o seu artigo: “Es ist Kulturarbeit etwa die Troc- kenlegung der Zuydersee. que em nada se confunde com o eu (moi). na medida em que está. quer dizer. que deve (soll) devir sujeito1138. op. o sujeito desprovido de qualquer das ou outro artigo objectivante. digamos assim. Lacan. antes de 1137 Cf. p. soll Ich werden. op. soll (…) ich. LACAN. LACAN. Não se trata unicamente de dizer que Isso (Es) é o sujeito. devir. Cf. É esse mesmo S (Es). wo. Porém. 417.cit. mas de “devir” (devenir): “aì. p. Jacques.”]. p. onde Es. 524 e 864) 1140 “Soll. A leitura lacaniana acaba por assentar.. 1138 Cf. avec l‟accent spécial que prend en allemand le verbe werden.cit. (…) Là où c‟était le règne du sommeil.cit. (Cf. devir. op. 250 . eu devo advir.. p.. entre um e outro há. moebiana. op. por assim dizer. O que é que isso pode querer dizer? – senão que o sujeito já está em sua própria casa ao nível do Es. ao qual é preciso dar todo o seu valor de ampliação no devir. no lugar. É uma tarefa civilizadora tão gigantesca como a drenagem do Zuydersee” [“ (…) c‟est une tâche civilisatrice de la sorte de l‟assèchement du Zuydersee. Jacques. por assim dizer. estruturado pelo significante1137. LACAN. é já um sujeito (Es. fundamentalmente. S).cit. LACAN. devenir. uma topologia particular que importa apreender. em outros lugares. sem dúvida. LACAN. eu (…) werden. Jacques. sujeito a um devir (werden). Na tradução que Lacan propõe do termo “werden”. ele sublinha que não se trata simplesmente de “sobrevir” (survenir) ou mesmo de “advir” (advenir). que Lacan não deixa de sublinhar1141. Mesmo se Lacan não deixa. Entre “Es” e o sujeito propriamente dito (S) há não apenas uma torção topológica. uma torção essencial a considerar: o sujeito (Es) só é tal (S). Jacques. p. não sobrevir nem mesmo advir (…)”1139. era (…).»]. p.cit. 1139 C. (…) Aì onde reinava o sono. 417. je dois advenir. de usar o verbo “advir” como tradução de “werden” (Cf.

ou de um postulado.. 251 . 350. le sujet. Voulez-Vous Être Évalué ? Paris: Bernard Grasset. KANT. o enunciado freudiano? Parafraseando Slavoj Zizek. MILNER. não é o indivíduo. a psicanálise e o direito. de não apostar (Cf. a cidadania1148 . Crítica da Razão Prática. p. de uma verdadeira aposta. há uma “subjectividade por vir” (subjectivité à venir).numa palavra. LACAN. p. A Subjectividade por vir. Écrits. Jacques-Alain.” [“Tout sujet (…) est toujours et n‟est jamais qu‟une supposition. a exigência. por exemplo. Não há clínica do sujeito sem clìnica da civilização. “Estamos embar- cados”. no sentido kantiano1145. 1144 A proposta de Pascal reside numa impossibilidade de não escolher. »].cit. Le Séminaire. mas o sujeito.como mostrámos na quarta parte do nosso trabalho . Pas de clinique du sujet sans clinique de la civilisation. Lisboa: Relñgio D‟Água. Livre VII. 1147 “(…) o paradoxo de um imperativo que me coage a assumir a minha prñpria causalidade” [“ (…) le paradoxe d‟un impératif qui me presse d‟assumer ma propre causalité. Jacques. mas parece-nos que é consentânea com o jogo temporal implícito no título original. Naturalmente. se bem que paradoxal1147.adquirem. neste caso.. c‟est aussi la civilisation.cit. Cf.”]. aí mesmo onde o gozo. 1143 Cf.” [“C‟est une nouvelle phase de notre réflexion. 73-87). impera.”1142 *** Pois bem: o que acontece quando a pulsão e o gozo .Jacques-Alain Miller o dizer explicitamente. o gozo. é também a civilização. uma exigência prática. mas também a ética ou mesmo a política . como temos vindo a repetir. seríamos tentados a propor a seguinte tradução: aí onde isso. pp. Le Séminaire. LACAN. op. p. de um sujeito por vir. mais le sujet. ce n‟est pas l‟individu. LACAN. acéfalo. que “não há clínica do sujeito sem clínica da civilização. no ensino de Lacan.. 2004. Jacques. tal como Lacan denuncia. MILLER. op. mas pressupostos (Voraussetzungen) sob um aspecto necessariamente prático. Certes. op. 1148 Desde que não se entenda este conceito como dizendo unicamente respeito ao mero “serviço dos bens” (service des biens).dificilmente seriam pensáveis. 1145 Cf. Jacques.” 1146 Cf. Certamente o sujeito. Livre XXIII. Filipe. ética. sem a suposição1146. isto é. p. era. ou a vir. op.cit.. 865. Immanuel.”].. Cf. PEREIRINHA. 1142 Cf. 31 : « Todo o sujeito (…) é sempre e não é mais do que uma supo- sição. 2006. a primazia? Como reler. 68 : « É uma nova fase da nossa reflexão. neste caso. in Psicanálise & Arredores. no sentido pascaliano do termo 1144.cit.1143 Tratase. op. Jean-Claude. ZIZEK. Com efeito. Slavoj. 151: “Estes postulados não são dogmas teñricos.cit. pode questionar-se a tradução proposta para “la subjectivité à venir”.

ÉPICTETE. soll Ich werden).cit. 858 : « De notre position de sujet. Tome 2. in Les Stoïciens. p. pp. p. op. « La science et la vérité ». Paris: Gallimnard. 1150 Seria apropriado relembrar aqui a diferença estabelecida por Epicteto entre aquilo que depende e aquilo que não depende de nós (Cf. Autres Écrits. nous sommes toujours responsables.. 1997. 808-811. que um sujeito ($) advenha e que seja capaz de assumir 1149ou responder. cada uma delas pressupõe. ao menos pela posição subjectiva que adopta perante isso (Es). somos sempre responsáveis.Com efeito. 1151 Cf. 180. »]. Cf. “pela nossa posição de sujeito. ainda que num sentido diverso.”1151 1149 Uma outra tradução do enunciado freudiano diz o seguinte: “no lugar do que era (Wo Es war…) e que é preciso que ele assuma (…).cit. soll Ich werden). se não por aquilo que lhe acontece – pois muito daquilo que lhe acontece ou aconteceu não depende inteiramente dele1150 –. “Entretiens”. in Écrits op. como dizia Lacan no último texto dos Escritos. » 252 . LACAN. Na verdade. Jacques.” [“à la place de ce qui était (Wo Es war…) et qu‟il faut qu‟il assume (….. LACAN.

206. o tempo lógico manifesta-se ou desdobra-se. Jacques. LACAN. por parte de cada um dos prisioneiros em questão. Cf. mas essencialmente o modo como se dá a passagem. Jacques. p. « Le temps logique et l‟assertion de certitude anticipée ». Aquilo que Lacan realça. de terem um tempo de atraso (temps de retard)1154 relativamente aos restantes.cit. como dissemos já. por parte de cada um dos sujeitos em causa. pôr em destaque a relação entre o “tempo para compreender” e o “momento de concluir”. op. suposições e hesitações. mais ou menos longo. Cf. impossível de eliminar. 1155 253 . pp. Ibidem. o “tempo para compreender” e o “momento de concluir” há todo um conjunto de avanços e recuos. Jacques.. há um sujeito. p. o que provoca. não é tanto. num total de três brancos e dois negros. in Écrits. necessariamente impessoal e objectivo. sempre problemática e não natural. a nosso ver. op. ao nível do tempo lógico. uniforme e objectivo. Jacques. dos relógios não coincide necessariamente com o tempo lógico de uma investigação. LACAN. o mero encadeamento lógico das diversas dimensões temporais aí presentes. que Lacan analisa pormenorizadamente e que mostram como. por meio desta pequena ilustração. ao que pode observar em cada um dos outros prisioneiros. Lacan ilustra as três dimensões da temporalidade lñgica por meio de um “pequeno sofisma”1153: a liberdade será oferecida ao primeiro de três prisioneiros que conseguir adivinhar qual o disco. precisamente. o tempo para compreender (temps pour comprendre) e o momento de concluir (moment de conclure)1152. O subtìtulo do texto de Lacan é. aqui. Entre o “instante do olhar”. Lacan mostra como aquilo que é finalmente determinante é a suposição. 209. p. para compreender e o momento de concluir.. 1154 Cf. 1153 197.cit. Quer dizer: o momento em que a mera 1152 Cf. entre um tempo. LACAN. Lacan. Interessa sobretudo. Ibidem. 197-213. que ele tem colado nas costas. Segundo Lacan. diferentemente do que acontece com o tempo cronológico. recorrendo apenas. a pressa (hâte)1155 ou a urgência de concluir1156. em cada um deles. “um novo sofisma” (un nouveau sophisme). em três dimensões fundamentais: o instante do olhar (temps du regard). para tal.CONCLUSÃO O tempo cronológico.

169 : « É porque ele encontra os seus limites que se pode falar de 1158 nñ. também neste caso seria possível escandir o tempo nas suas várias dimensões. como o impossível de escrever1159. p. p... op. a instituição) nos impõe. p. op. »]. LACAN. Com efeito. LACAN. 254 . igualmente.. LACAN. 1157 Cf. de pensar. Jacques. Jacques. Paradoxalmente. p. op.num tempo em que este parece cada vez mais ilimitado e impositivo. eles ter-se-iam anteci- pado a mim. isto é. um estilo ou um modo singular de enunciação. op. chega um momento em que há pressa ou urgência em concluir. é por meio do confronto com esse impossível que pode advir um sujeito. 1156 Cf. Jacques. de alguma forma. 330 : «É desta impossibilidade de (…) escrever (…) que surge o real. de outro modo. Esta urgência não resulta apenas dos limites temporais que o Outro (por exemplo. impossíveis de suprimir de um trabalho desta natureza. Livre XVI. Le Séminaire. *** Para nós. este pequeno sofisma lacaniano não deixa de ter a sua importância. 1160 O papel determinante ou o agente do discurso universitário. cit. que agora pontuamos. É por meio desta experiência dos limites que algo pode chegar a fazer nó1158 ou aceder ao real.cit. num tempo para dizer ou para escrever o que é suposto ter-se compreendido) e um momento de concluir. segundo Lacan. Le Séminaire. segundo o inevitável tempo dos relógios. em jeito de conclusão. LACAN.. 1159 Cf.de compreender. Cf.” [« C‟est parce qu‟il rencontre ses limites qu‟on peut parler du nœud. Cf. não inteiramente subsumível na articulação lógica ou significante.”]. LACAN. mas também dos limites que é preciso impor-se. op. nomeadamente entre um tempo para compreender (que se traduz. mesmo quando é o discurso universitário que o determina e a cujas regras e procedimentos tem necessariamente de obedecer1160. reconhecendo-se reciprocamente como brancos (…) » [« Je me suis hâté de conclure que j‟étais un blanc. Livre XXIII. segundo Lacan. o trabalho levado a cabo.. 208. na medida em que este se define. Concluise não porque se tenha dito ou compreendido tudo sobre a questão que nos mobilizou. Livre XVII. Le Séminaire. de escrever…. 210 : « Apressei-me a concluir que eu era branco porque. Jacques.cit. » [“C‟est de l‟impossibilité de (…) écrire (…) d‟où surgit ce réel.cit. Jacques.“compreensão” lñgica cede lugar ao acto (acte)1157. cabe ao saber (S2). que cada um de nós deve impor ao gozo .cit. parce qu‟autrement ils devaient me devancer à se reconnaitre réciproquement pour des blancs (…) »]. de dizer. mas porque.

Este não é um conceito pensado ou pensável. pp. Le Séminaire. serviu-nos de fio condutor a teoria. Também por aqui se demonstra o que Lacan não deixou de repetir: que “(…) a verdade. Linguìstica. 1167 1168 1169 255 . um planómeno. 1163 Cf.” [“Je dis toujours la vérité: pas toute. uma parcela da verdade. Paris: Les Éditions Minuit. se bem que mais sofisticada. p. 1164 Tal como desenvolvemos na última parte do nosso trabalho.. segundo Lacan. Cabem à filosofia. Gilles. HEIDEGGER. on ne peut jamais la dire qu‟à moitié.”].cit. de Jacques Lacan. parce que toute la dire (…) c‟est impossible (…). Jacques. Procurámos seguir as grandes etapas1166. Real. original e incontornável. no tìtulo. Martin. 38-59.” [“(…) la vérité. geralmente de grande interesse. 1991. 509: « Eu digo sempre a verdade : não toda. por exemplo. “toda a verdade”. de um modo ou de outro. Cf. LACAN. op. por isso.cit. segundo Deleuze. Qu‘est-ce que la Philosophie ?. e sempre. Livre XVII. Aristóteles. procurámos pensar e acercar-nos de alguns dos impasses e aporias da nossa contemporaneida- 1161 Num documentário. Com ele. Na verdade. como diria Deleuze. Simbólico e Imaginário. É justamente por este impossìvel que a verdade se liga ao real. 1162 Cf. por exemplo. in Autres Écrits. a par da ascensão da ciência (um conhecimento supostamente sem sujeito1165) e do capitalismo (um discurso em que “sujeito” está completamente alienado ao objecto de consumo). op. cit. C‟est même par cette impossible que la vérité tient au réel. porque dizê-la toda (…) é impossìvel (…). p. »]. pré-conceptual. mas antes de traçar. no sentido ético do termo1164. a ciência é a teoria do real enquanto objectidade ou objectivação (Cf. LACAN. 39. DELEUZE. um plano de consistência1163 em torno da sua problemática. seria legítimo perguntar se este novo sujeito não é outra forma. 1166 Entre um “primeiro” e “segundo” Lacan. a um 1165 novo paradigma. de o denegar. aquilo que nos é mostrado é apenas. nunca se pode dizer senão pela metade. Descartes. os eixos1167 e as articulações fundamentais1168 do seu ensino. “Télévision”. Mais do que esgotar exaustivamente cada um dos temas por nós desenvolvidos. em particular aqueles que. topolñgica. Mesmo se nas últimas décadas temos vindo a assistir. não esquecendo nunca o diálogo por ele encetado com alguns dos mais lídimos representantes da tradição filosófica. de tentar dizer “toda a verdade”1161 acerca do sujeito – pois esta. Para tal. mas o modo – atrever-me-ia a dizer – um estilo. 62-65. que passa periodicamente no canal de televisão SIC Notícias. entre outros. graças à investigação levada a cabo no domínio das neurociências. como reconhecia Heidegger já em 1953.. como vimos ao longo do nosso trabalho. “Science et méditation”. em que o sujeito se torna de novo objecto de interesse por parte da ciência – tal como desenvolvemos na primeira parte do nosso trabalho -. Jacques. é impossível de dizer1162 –. op. somos con- frontados com o seguinte paradoxo: embora sendo anunciado. Kant ou Husserl. essa problemática. pp. foi nossa preocupação bem dizer..Não se tratou. nomeadamente as que resultam do declínio da modernidade. de modo a extrair as suas diversas implicações e consequências. duas terefas interligadas : criar conceitos e traçar um plano de consistência ou de imanência. de orientar-se no pensamento. ética… Estão neste caso. não deixaram de abordar a questão do sujeito1169.

O nó borromeano é feito de tal modo que basta soltar um dos seus componentes para que todo o conjunto se desligue. Ele é chamado borromeu ou borromeano porque figurava no brasão da família italiana Borromeo.cit.. 856.. op. 53. Capítulo 6. a gestão de si mesmo. Écrits. finalmente. na “atopia do sujeito socrático” nesta lição. 1172 Cujo “fio” (fil) a tradição filosñfica conservou de Aristóteles. LACAN. 1174 Segundo os desenvolvimentos kantiano ou husserliano. LACAN.p.. LACAN. um foco transcendental constitutivo do objecto ou doador de sentido1174 ou uma realidade física ou psíquica1175. op. o sujeito foi aparecendo. tal como se dizia do sujeito socrático1178. Tal como desenvolvemos na última parte da nossa investigação. Livre XXIII. 80) – de que a auto-estima. e. por exemplo. são algumas das manifestações – a par de uma certa “subjectivação” generalizada. a auto-ajuda. Jacques. mas parece-me heuristicamente interessante abandonar o 1175 1176 1177 1178 1179 exemplo particular de Sócrates e fazer consistir a “atopia do sujeito” como tal. O lugar mais apropriado para o situar é. Tal como desenvolvemos. como efeito. por isso. no sentido lacaniano do termo. na Parte IV. uma “denegação” do sujeito. quanto do indivíduo1170. in Sciences Humaines.. Elise.de. exactamente. 111. “Le boom de la psycholo- gie”.cit. Lacan fala. *** Nesta investigação. Capítulo VII. etc. inclassificável. De acordo com as perspectivas da neurociência ou da psicologia cognitiva. Cf. 1173 op. por exemplo. VILLEROY. como sendo atado ou suportado por nós1171. Jacques. p. um polo epistemológico centralizador1173. LACAN.. Lição de 11 de Janeiro de 1961. p. Le Séminaire. a a atopia: um não-lugar ou um lugar insituável. É esta “atopia do sujeito” (atopie du sujet)1179 que faz objecção a todo o pensamento único. como sendo constituído e não constituinte do Outro (enquanto este é o lugar da fala e da linguagem). Livre VIII. Le Séminaire. como diverso tanto da consciência e do eu psicológicos. o sujeito foi-se revelando essencialmente como o devir de uma questão ética1176 e fazendo apelo a uma topologia particular1177. fechado e 1170 Daì que valha a pena perguntar se a crescente “psicologização da sociedade” (Cf.cit. como estando determinado discursivamente. Jacques. p. a três. Sñcrates é aqui apenas um exemplo. Mon Enseignement. cit. 256 . Jacques. Segundo “um certo momento do sujeito” (un certain moment du sujet) inaugurado por Descartes. op. Em vez de constituir uma entidade lógica ou metafísica1172. op. produto ou resultado (e não causa) de uma constelação significante. não representam igualmente. de acordo com o lugar que ocupa em cada discurso. cit. Cf. Cf. Cf. em especial. nomeadamente os sintomas e imperativos de gozo com que está confrontado o sujeito contemporâneo na era da globalização e do triunfo do capitalismo e da ciência. “o suporte de toda a espécie de sujeito” [“le support de toute espèce de sujet”]. sucessivamente. se bem de um modo menos ruidoso. 1171 Em particular o nó borromeano.

in Autres Écrits. LACAN. dos mesmos produtos e a adoptar os mesmos comportamentos e atitudes à escala global. cit. mas também o discurso do capitalista (Cf. Eis uma das perpectivas que se abre a uma futura investigação. Jacques. 257 . pp. Que consequências para o sujeito e quais as novas formas de subjectividade que resultarão do desenvolvimento vindouro da ciência e do capitalismo. 509-545). Veremos quais os novos paradoxos que virão a lume graças a um tal desenvolvimento. pretensamente sem resto – segundo o discurso que o sustenta1180 – que tende a dominar presentemente o mundo1181. 1181 Um dos paradoxos do nosso mundo é que nunca houve tanta reivindicação de originalidade e tanto discurso de autonomia. op.. “Télévision”. é uma questão que tem de ficar necessariamente em aberto.uniforme. ao mesmo tempo que tendemos todos a tornar-nos consumidores das mesmas ideias. 1180 Não apenas do discurso da ciência.

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