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Teoria e prática do partido arquitetônico

Mario Biselli
Arquitextos, São Paulo, 12.134, Vitruvius, jul 2011.

Nam June Paik Croquis de Mario Biselli

Muitos autores acadêmicos têm se debruçado recentemente sobre temas e termos correntes da arquitetura na tentativa de compreender e explicar o processo de projetação. O aprofundamento recente destas pesquisas e reflexões tem produzido noções sempre mais didáticas e esclarecedoras, tanto para estudantes e professores como para arquitetos com interesses teóricos e mesmo para leigos e amantes da arquitetura. A história é rica em exemplos do interesse em resumir o projeto a um processo linear, possuidor de uma técnica de realização passo a passo, como montar uma máquina, como cultivar soja, primeiro isto, depois aquilo e aquilo outro, e assim por diante numa sequência de procedimentos idêntica a tantas outras técnicas e disciplinas inventadas pelo homem.

Escola Coreana Croquis de Mario Biselli

Um aspecto interessante da atividade de projeto é justamente a quantidade de teorias, metodologias, manuais de procedimentos e técnicas as mais diversas da qual foi objeto historicamente. Mais interessante ainda é observar que, embora partes do processo de produção do projeto possam estar sujeitas a uma sequência de procedimentos, o processo inteiro jamais poderá se enquadrar neste modelo, e, portanto, as metodologias não se sustentam enquanto sistemas universais, embora seja obrigatório conhecê-las, pois a nenhum arquiteto é permitida a ignorância sobre a experiência acumulada que compõe a história da arquitetura. O termo projetação tem sido pouco usado no Brasil, mas é o termo que define a produção do projeto de
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E não creio se tratar de um exagero cogitar a exclusividade do assunto. Este momento crítico é o momento que envolve as decisões relativas ao que conhecemos por partido arquitetônico. Em Teoria e projeto na primeira era da máquina. para quem a composição era o tema perene. o projeto de arquitetura tem sido descrito como resultado de um raciocínio lógico. estética etc. o assunto central. Outros temas relativos às atividades criativas – como composição. Este processo tem um momento crítico e imponderável que foge a qualquer metodologia. estilo. creio. do ensino de projeto. estrutura e relações de espaço.arquitetura como um processo. todas elas questões centrais para os arquitetos. – embora tenham sido objeto de interesse da teoria da arquitetura recentemente. que enfatiza a construção. ambos teóricos da 2 . Com base na experiência pode-se também dizer que “partido” é o termo comum à linguagem própria dos arquitetos. portanto. dado que em “partido” se compreende a discussão de aspectos como estratégia de implantação e distribuição do programa. Bienal de Arte de SP Croquis de Mario Biselli Para efeito desta reflexão usarei o termo partido arquitetônico por ser o mais comum no Brasil e. e Choisy. são tratados no âmbito da prática com pudor e desinteresse. mais específico do campo da arquitetura do que estratégia ou conceito. e as reflexões sobre seu significado. Escola Cáritas Croquis de Mario Biselli Desde o período acadêmico até as primeiras definições modernas. senão como meros epifenômenos. tem sido tarefa de vários autores e todas elas contêm aspectos novos e esclarecedores. das conversas informais. senão único. A definição de partido arquitetônico. dado o interesse geral. Banham compara Guadet. os quais são muito comuns em outras áreas. entre arquitetos no âmbito da produção. termo que em outros lugares é também conhecido como estratégia ou conceito. do julgamento de concursos de arquitetura. mesmo quando a projetação estava sujeita às regras da composição clássica. O exame destas definições é um primeiro objeto de meu interesse.

que inclui aquela intenção plástica. para quem a natureza lógica da concepção constitui o tema mais destacado: “a forma como consequência lógica da técnica – que torna a arte da arquitetura sempre e em toda parte a mesma. o clima. a 3 .composição arquitetural. ou condicionadores. segundo os recursos locais. o programa das necessidades. nos quais uma ideia de lógica permanece implícita: “A mencionada definição é a seguinte: Arquitetura seria. afirma Corona-Martinez (3) –. f. às vezes. e caracterizada por aquilo que chamamos de partido. a legislação regulamentadora e/ou as normas sociais e/ou as regras da funcionalidade” (2). quase sempre com determinada intenção plástica. neste caso. do partido seriam: a. abrir uma “caixa preta”: “Le Corbusier enfatizou ainda mais o uso da lógica matemática de Descartes ao dizer que o início do processo de criação é a definição da planta arquitetônica. após a qual a forma do edifício seguir-se-ia logicamente dos meios técnicos a seu dispor” (1). subordinada aos estilos arquitetônicos. que por sua vez é a representação do programa arquitetônico (função da edificação). a função do arquiteto sempre foi esta: fazer uma avaliação correta do problema com que se deparava. seria o resultado físico da intervenção sugerida. como materiais. em arquitetura parece que temos uma lógica para cada projetista. então. através de seus computadores e máquinas. [Para Choisy] a essência da arquitetura foi sempre a construção. Partido seria uma consequência formal derivada de uma série de condicionantes ou de determinantes. a técnica construtiva. para atender a necessidades imediatas ou a expectativas programadas. As condições físicas e topográficas do sítio onde se intervém. tanto humanos. pois se dependêssemos meramente da lógica. o processo seria universal e já não caberia qualquer preocupação sobre o assunto. a ação de projetar e construir já teriam sido integralmente resolvidos pela indústria. costumes populares ou conveniências do empreendedor. as condições financeiras do empreendedor dentro do quadro econômico da sociedade. É certo que todo arquiteto defende seu projeto como um produto da aplicação da lógica face aos dados fornecidos para sua elaboração. Assim. c. há um claro incômodo a respeito – “Esa incómoda situación del partido”. toda e qualquer intervenção no meio ambiente criando novos espaços. também propõem definições fazendo uso dos termos “consequência” e “resultado”. Autores modernos. segundo os usos. Mas. como se sempre mais estivéssemos interessados em desvendar um mistério. sempre surgem novas explicações e teorias. E o que se vê é justamente o contrário. e. d. Os principais determinantes. Talvez. b. perscrutar as mentes criadoras para pôr às claras algo nebuloso. como Carlos Lemos.

da sensibilidade do autor. que resulta o partido. constitui-se em algo de difícil controle. o ato de criação que nasce na mente do projetista. interferência e ordenamento” (6). Escola Cáritas Croquis de Mario Biselli Destes textos emergem duas ideias principais. pelo menos. é a sequência linear e crescente do raciocínio cartesiano. 4 . de Anna Paula Canez e Cairo Albuquerque da Silva. dizem que é inexplicável” (4). a feitura do seu esboço” (5). São elas Adoção do partido em arquitetura. o da escolha da idéia. Sendo assim. Vemos em Neves as definições nesta sequência. ninguém até hoje explicou o que acontece dentro dessa caixa preta. de sua percepção e intuição próprias. e outro em que a ideia escolhida é desenvolvida para resultar no projeto. Embora se saiba que Descartes ainda é apreciado nas escolas de arquitetura do Brasil para o ensinoaprendizagem do projeto arquitetônico. Apesar dos arquitetos conhecerem esse processo. É do primeiro procedimento. na essência. dois procedimentos: um em que o projetista toma a resolução de escolha dentre inúmeras alternativas. que esta ideia é uma criação autoral e inventiva. de uma ideia que deverá servir de base ao projeto do edifício do tema proposto. Em primeiro lugar: “Denomina-se Partido Arquitetônico a ideia preliminar do edifício projetado. um conceito usualmente utilizado pelos arquitetos para significar o momento em que a subjetividade psicológica do arquiteto define. nas paredes que por sua vez se tornariam volumes: linhas que se transformam em planos que se transformam em volumes. suas reflexões são a base para uma compreensão e críticas contemporâneas desta problemática. a de que o partido é a ideia inicial de um projeto e em segundo. É resultado do trabalho do pensamento. Idealizar um projeto requer. Antes. segundo ele.projeção vertical da planta resultaria. de Laert Pedreira Neves e Composição. sabe-se também que em algum momento do processo de criação surge algo estranho que parece não caber na lógica cartesiana: é a caixa preta. e artística na medida em que faz uso da composição. Duas publicações recentes abordam estes temas. Em primeiro lugar. este último se tratando de uma coletânea de ensaios de vários autores. no texto introdutório: “É importante ressaltar que projetar um edifício é. partido e programa – uma revisão de conceitos em mutação. por meio de um rabisco (croqui) o partido do projeto. a concepção inicial do projeto do edifício. É fruto da imaginação criadora.

desde as mais simples como as de Neves. por hipótese.Em Composição. tomar partido implica dar início a um percurso inventivo que se traça sobre um campo de relações em constante formação e renovação. que a sua formulação é uma criação autoral e inventiva com base na coerência e na lógica 5 . Todas estas definições. Nota-se que no âmbito da experiência prática no Brasil. quando se dedica a uma comparação entre os projetos de Le Corbusier e Lúcio Costa para a Cidade Universitária do Rio de Janeiro em 1939: “Para Lúcio Costa. ainda que aos tateios e sujeito a inúmeros e imprevisíveis retornos e desvios. Este dinamismo atribui à construção do partido um sentido eminentemente operativo. a partir destes teóricos brasileiros.. às mais sofisticadas. partido e programa – uma revisão de conceitos em mutação. ao contrário. Tais relações simultaneamente externas e internas ao objeto projetado implicam a construção de correspondências entre formas e conteúdos. no projeto de arquitetura. Primeiramente uma argumentação genérica: “Em suma. ilustrar e compreender o projeto de arquitetura e o momento de adoção do partido arquitetônico. alterando a ênfase neste ou naquele aspecto. e em face da maneira como o tema tem sido abordado tradicionalmente. de possibilidades projetuais. ou inventam. antecipador das configurações compositivas que conduzirão à finalização do projeto” (8). cada arquiteto poderia igualmente descrever a projetação de maneira muito similar. relações espaciais e programáticas a partir de uma dispersão inicial. Escola Cáritas Croquis de Mario Biselli Ainda no mesmo texto.. simplificando ou elaborando mais e mais o texto. que cada autor. mantendo. contudo a sua essência. indeterminada. organizandose progressivamente em esquemas que conectam partes antes separadas. procuram sempre mais elucidar. mas de conteúdo similar e complementar. como as de Rogério de Castro Oliveira. que o Partido Arquitetônico é a idéia inicial de um projeto. o texto de Rogério de Castro Oliveira faz uso de uma linguagem mais complexa. uma prefiguração do objeto. a concepção do partido arquitetônico pressupõe a proposição de configurações que descobrem. A coerência de tais construções deriva. Deste modo pode-se concluir. O partido é. de um progressivo fechamento interno do que de determinação externa. antes. que o projetista elege como ponto de partida e fio condutor: cabe à investigação epistemológica construir contextos de explicitação das razões que asseguram pertinência e validade a essas arquiteturas projetadas” (7).

o Brasil se tornou um dos raros países que conta com sucessores legítimos do movimento modernista. para além dos fatores conjunturais históricos.] A casa Baeta projetada por Vilanova Artigas em 1956. como se a ideia do modernismo simpatizasse com o clima tropical do Brasil e da cultura das pessoas que lá vivem. Oscar Niemeyer. e que. sendo esta a característica fundamental que acaba por se estabelecer como um invariante. adaptando-os em seguida à situação real. em cada situação específica baseada na prática de concursos e avaliações no âmbito universitário. é organizada em meios níveis” (9). [. resumidos por Futagawa desta maneira: "Durante os períodos antes e depois da Segunda Guerra Mundial. mas. e que vai além do movimento modernista original. Mais tarde. Quero propor a seguir algumas reflexões sobre estes temas acima citados em busca dos novos significados e usos destas terminologias. é possível identificar a preponderância deste conceito nas discussões entre arquitetos. Aeroporto de Florianópolis Croquis de Mario Biselli Este conceito de Partido Arquitetônico parece ser um dos traços mais característicos da herança corbusiana no Brasil: “Le Corbusier abordava o programa de arquitetura partindo de princípios de ordem geral. também isolou a área de arquitetura do movimento pós-moderno que envolvia todo o mundo naquela época. Os princípios do modernismo foram aplicados e adaptados às condições locais do contexto brasileiro. define-se pelas empenas das fachadas da frente e dos fundos e pelas aberturas das fachadas laterais. sendo uma prefiguração do projeto. Portanto. Também empiricamente. teoria tributária também dos princípios acadêmicos e modernos herdados pelos grandes mestres modernos brasileiros tanto cariocas quando paulistas. segundo o conceito de partido de Le Corbusier. bem como uma compreensão contemporânea a respeito destes mesmos processos. O regime militar instalado no Brasil em 1964 provocou vinte anos de estagnação cultural.. em face do seu carisma e de sua longevidade. veio à luz uma forma única e original de arquitetura. o partido. 6 . professores e membros das comissões julgadoras. seguindo o princípio do modernismo entre as novas gerações" (10).. uma estrutura de pensamento que. que só existe no Brasil. O projeto era definido pelo partido que se organizava do geral para o particular. Afonso Reidy. a arquitetura brasileira passou por desenvolvimento específico através das obras criativas dos arquitetos pioneiros como Lucio Costa. e esse pano de fundo influencia fortemente a produção dos jovens arquitetos atuais. continua válida como aspecto central da teoria de projeto e da projetação no Brasil. faz da projetação um processo que vai do todo em direção à parte. Vilanova Artigas e Lina Bo Bardi.funcional. ao mesmo tempo. pode-se supor.

Proponho aqui pensar sob o pressuposto de que o modo como cada arquiteto projeta é menos relevante do que o resultado final do seu trabalho. a ideia central de um projeto pode nascer no início do processo ou durante o processo . ou uma prefiguração do objeto. É a ideia que o projeto é capaz de veicular ou expressar. mediada por uma linguagem. como se estivessem todas as possibilidades já dadas e catalogadas. portanto. que é sempre particular. Convenhamos. que o projetista elege como ponto de partida e fio condutor. não abrange a totalidade dos modos de projetar. professores em avaliação etc. portanto. o partido arquitetônico é compreendido como a ideia que subjaz ao projeto. o raciocínio. a parte precede o todo (projetos de James Stirling. deve-se observar o fato de que esta afirmação pode pressupor uma biblioteca de partidos adotáveis. tem um interesse menor neste momento.tal como 7 . A afirmação de que o partido é a ideia preliminar do edifício a ser construído. 1967). A sua metodologia. não importando quando esta ideia surgiu. quando o projeto já se apresenta concluído. e University of St. Andrews Student Residence. analogamente. É da avaliação destas ideias que se ocupam as comissões julgadoras em concursos. Quando se usa a expressão “adoção do partido”. tais como para o Andrew Melville Hall. como também não o é o movimento do todo em direção à parte. que adotar um filho é muito diferente de conceber um filho. sobre o que é partido arquitetônico. portanto não é universal. aquela identificada como ideia principal ou central. Um claro exemplo disto são os projetos que envolvem tecnologias de pré fabricação de componentes para aplicação em série. o cenário contemporâneo de grande diversidade arquitetônica.Ginásio Barueri Croquis de Mario Biselli Em primeiro lugar. 1968. Igreja Tamboré Croquis de Mario Biselli De fato. invertendo. o conteúdo intelectual de um edifício ou projeto enquanto manifestação. Considerando.

Por que então a função deve determinar a forma? A forma deve ser determinada pelo ‘lugar’. se justapõe. Aldo Rossi propõe: a forma fica. interagem em ato. programa. Robert Venturi propõe o abrigo decorado. topografia – disciplinas ou conceitos sobre os quais explorar ou deconstruir a forma. "Venturi prefere os abrigos decorados. “A primeira grande crítica de Rossi foi ao que denominou de funcionalismo ingênuo do movimento moderno. Igreja Tamboré Croquis de Mario Biselli 8 . O pato é. nos quatro projetos. deixava de entendê-la pelo que tinha mais significativo: o conhecimento da arquitetura pelo mundo de suas formas. embora os arquitetos modernos tenham se dedicado durante muito tempo a projetar 'patos'. tal como assim se define: “Os conceitos. um signo icônico. em termos semióticos. Mas a concomitância entre inteligibilidade e percepção. cujas reflexões oportunamente se aplicarão na prática. não obstante a diferença de abordagem. como é o caso dos arquitetos teóricos.descrito nos textos anteriormente citados – ou pode mesmo anteceder ao processo. transitam. revisando as tradicionais concepções da coerência e lógica. É possível observar também que em seus projetos há sempre uma ideia central. funcional e construtiva. rastros e dobras são frequentemente concomitantes. Ela nunca ia além de seu tempo. Analisemos alguns exemplos de definições enunciadas por arquitetos que questionaram a teoria do projeto. O abrigo decorado depende de outros significados – a escrita ou a decoração – que são signos simbólicos" (11). Peter Eisenman sobrepõe à realidade do projeto – função. enquanto a forma permanecia” (12). Na exposição foram pensados como detonadores de pensamento. este movimento duplo parece ser recorrente e indissociável na reflexão e produção da arte” (13). que ao priorizar a explicação da cidade apenas pela função. porque o significante (forma) tem certos aspectos em comum com o significado (conteúdo). do modernismo. a função muda. porque ele afirma que a sua comunicação é mais eficaz. lugar. Malhas. A função era de uma circunstância que fazia uso da forma como um ato social. um caixa funcional inexpressiva acrescida de uma fachada bidimensional ornamentada e comunicativa segundo a natureza do edifício. como balizas para a percepção e inteligibilidade da obra de Peter Eisenman. escalas.

e Estádio Nacional "Ninho do Pássaro". ora enfocando radicalmente o design (como em Massimiliano Fuksas. 46) ou a tecnologia construtiva (Renzo Piano. etc. na Alemanha. Via de regra configurações funcionais rígidas por tradição ou quando o próprio cliente é a autoridade no que tange às funções. cabe indagar. O campo das ideias em arquitetura implica em um vasto campo de estudo da teoria e da história.Mais recentemente Herzog e de Meuron adotam modelos de exploração e geração de forma. Vamos apenas considerar. portanto. que este fato se relaciona com um fenômeno humano de grande interesse das ciências humanas. 2003. semiologia e semiótica: o fenômeno da linguagem. por um lado. ver AV proyectos 026 2008. teatros e em alguns casos. Em segundo lugar. a possibilidade de inventar distintas linguagens – verbais e não verbais – e transitar e fazer 9 . Estádio Allianz Arena. p. em Roma). 2005. e Walt Disney Concert Hall. a caixa preta? Igreja Tamboré Croquis de Mario Biselli Vamos admitir que os arquitetos fazem projetos e isto é um fato. na China). fato comum quando em projetos para estádios. ora migrando da forma para a matéria (Herzog & de Meuron. Estadio de Bari. em algum momento um determinado conjunto de informações se torna uma ideia para um edifício. o arquiteto encontrará espaço para introduzir uma ideia. destaca-se os projetos de Frank Owen Gehry (Guggenheim Bilbao. de maneira mais simples. como no projeto para o Pavilhão Jinhua Structure II – Vertical Basilea (ver AV Proyectos 007 2005. 1990. a despeito dos limites. e da filosofia. A ideia central (ou Partido) pode ser identificada mesmo em situações onde a configuração funcional é um dado. Aeroporto de Barajas. sobrepujando tudo o mais. o momento crítico imponderável. A capacidade humana de inventar linguagens. muito comum no ramo das indústrias. na Itália. e Richard Rogers. Espanha). caracterizado como um processo contínuo com auxílio do computador e sem final determinado. no sentido de uma autonomia da forma. E numa postura contemporânea mais radical. 2006. 40). 2008. o que é a “caixa preta”? O que ainda pode ser dito sobre a adoção/ invenção/ formulação do Partido Arquitetônico. aeroportos. uma condicionante ou determinante. 2003) e Zaha Hadid (tais como Contemporary Arts Center. no projeto do Aeroporto Internacional Shenzhen na China. 1997. em Cincinatti e MAXXI Museo. p. 2010. Em todos esses casos. ginásios esportivos. mas este não é o espaço para desenvolver esse tipo de exercício intelectual e acadêmico. passando no século XX pelo estruturalismo. compreendida como manifestação e processo intrínsecos às diversas mediações sígnicas.

Os sistemas de regras arquitetônicas não exibem nenhuma das 10 . transposição da linguagem verbal para a linguagem não verbal. a arquitetura é uma atividade desta mesma natureza de mediação e manifestação da ideia (14). a operação que faz o arquiteto é de texto e ícone para ícone. mas as tentativas empreendidas no sentido de estudar a arquitetura . diferenças que implicam.expressa na linguagem verbal. outros sistemas semióticos. para a arquitetura. Compreendida em maior ou menor grau como linguagem.tanto como história como prática projetual .apenas exacerbaram as diferenças estruturais entre estas linguagens. portanto. A aplicação mecânica de um modelo especificamente desenvolvido para a linguagem em outros sistemas semióticos. sempre pressupondo interpretação de um conteúdo numa linguagem seguido de uma expressão em outra. ou de maneira mais precisa. O partido arquitetônico. que seja viável compará-la com os sistemas explícitos e implícitos de regras da arquitetura. compreendido como articulação semântica – pensamento e ideia . e. Assim procedem os artistas. dada a ausência de vínculos com as regras e convenções a que está sujeita a linguagem fala/texto: “O que se deve evitar nessa análise é a aplicação mecânica do modelo da linguagem à arquitetura. Guaecá Croquis de Mario Biselli As transposições entre linguagens podem inicialmente sugerir a ideia de tradução. como a arquitetura. Casa LPVM. um ator em cena (texto para texto mais imagem). ao passo que a língua não é propriedade de ninguém. Mesmo que seja possível conceber a linguagem como um sistema complexo de regras subjacentes. um desenhista produzindo um retrato falado (ícone para texto e de novo para ícone). um artista pintando um retrato (ícone para ícone). as regras arquitetônicas são definidas por uma determinada facção de uma determinada classe social.. apenas permite reconhecer o que é semelhante à linguagem no nível da ideologia. se dá no momento em que o texto. nem em geral nem em particular. pois o programa é texto e o lugar é ícone. e tantas outras atividades do homem. mas não define as diferenças de estrutura interna entre a linguagem e. num grau superior de liberdade no nível da expressão.transposições entre estas (transtextualidade) são os mecanismos do intelecto típicos da arte e da arquitetura. um escritor descreve um personagem (ícone para texto). como fizeram diversos estudos semióticos. um poeta descreve uma paisagem (transposição do ícone para o texto).a partir das estruturas da língua de forma automática – como tradução literal . neste contexto. se transforma em ícone.

[. Além disso. Ninguém pode mudar isso unilateralmente. O homem de início pensou sobre as coisas.] Mas porque a relação entre significante e significado era arbitrária. principalmente depois de Descartes. compreendido como base da linguagem. pode e faz modificações no sistema. 1637). porque nega as diferenças entre a arquitetura e a língua e ignora o lugar da linguagem natural na arquitetura. os franceses o chamassem de boeuf e os alemães de Ochs. não tem uma organização simples nem determinam a manifestação do sistema. que é inventado a partir de um sistema de convenções” (15). o fato mais importante talvez seja que essa aplicação automática nega a presença de “algo” que define uma importante diferença entre a arquitetura e a linguagem – o aspecto criativo da arquitetura. Com os arquitetos não haveria de ser diferente. as regras arquitetônicas estão em constante fluxo e mudam radicalmente.. e esta é uma diferença fundamental entre a arquitetura e a linguagem” (16). há um contrato social entre todas as pessoas que falam inglês de que elas devem usar a palavra bull toda a vez que quiserem se referir a esse animal específico. com poucas exceções. ou contrato social. Se alguém usar outra palavra. ele terá quebrado o contrato social. o indivíduo pode usar. Mas o projeto de arquitetura. embora circundado de problemas técnicos e profundamente vinculado ao uso. donc je suis” – Discours de la Méthode. não existe um contrato social para o significado da arquitetura. devia ser respeitada por todos. constitui um elemento limitador para a expressão em arquitetura: “Não havia nenhuma razão especial para que os ingleses designassem um animal de Bull. ou inventar uma nova palavra para esse fim. seu método (que em projetos anteriores funcionara tão bem!). O arquiteto. é 11 . mas não modificar o sistema da linguagem (langue). depois começou a pensar sobre o próprio pensamento. Na língua. Em meio a dificuldades de solução para um projeto o arquiteto frequentemente se interroga sobre seu pensamento. Teatro de Natal Croquis de Mario Biselli E mesmo o referido sistema de convenções. Note-se de passagem que. Ademais. A aplicação mecânica do modelo da língua/fala à arquitetura ocidental fortalece a ideologia arquitetônica. ao contrário.. ninguém o compreenderá.propriedades da langue – não são finitos. que levou tudo para dentro do intelecto (“je pense.

Cláudio Silveira. Reyner. ibidem. à antecipação de tendências. No original em inglês: 12 . composição. Edufba. n. Torres Empresariais na Rua Afonso Brás Croquis de Mario Biselli NOTAS 1 BANHAM. 2 LEMOS. proposição: o projeto como campo de investigação epistemológica. 3 Alfonso Corona Martinez. Yukio. 5 NEVES. Vitruvius. 9.br/revistas/read/arquitextos/08. Projeto. 6 Idem. 10 FUTAGAWA. n. 08. n. Ritter dos Reis. 40-41. Prefacio.com.090. 2003. Descartes e a caixa preta no ensino-aprendizagem da arquitetura. Rogério Castro de. 1998. In: CANEZ. 9 ACAYABA.. Teoria e projeto na primeira era da máquina. 40. 2007 <www. Laert Pedreira. Op. 73. Carlos. Cairo Albuquerque (org). Modernism Architecture of Brazil. 8 Idem. GA Houses. p.090/194>. 35. SILVA. p. à revisão de paradigmas. São Paulo. Permanece. 2010. Perspectiva. aberto à infinita inovação.vitruvius. Brutalismo caboclo e as residências paulistas. Ana Paula. a novas visitas e itinerários interpretativos pelas tradições do passado. Construção. Adoção do partido na arquitetura. SILVA. 35. p. 16. formatações. partido e programa – uma revisão de conceitos em mutação. Brasiliense. e. p. ibidem. nov. 106. 1979. p. 7 OLIVEIRA. cit. no pólo oposto. ao espírito dos tempos. O que é arquitetura. 15. Composição. portanto. São Paulo. Porto Alegre. 1985. Tóquio. Salvador. metodologias ou fórmulas. p. São Paulo. Ana Paula. São Paulo. In: CANEZ. Marlene Milan. 4 AMARAL. e como desde sempre. Cairo Albuquerque (org). 8. p. Arquitextos.por natureza um processo criativo avesso a enquadramentos. p.

p. cit. Masp. mestre em Arquitetura e Urbanismos pela mesmo instituição. ver: TSCHUMI. Bernard. Oscar Niemeyer. cit. cit. Introdução: notas para uma teoria da disjunção arquitetônica (1988). but at the same time that also caused their architecture field to be isoladed from the postmodernism movement that had involved all over the world at that time. ABASCAL. p. because he contends. Catálogo de exposição. 11. 15 AGREST. In: NESBIT. in semiotic terms. São Paulo.). Bernard. 45. The principle of the modernism was fostered and adapted to the unique. TSCHUMI.. Reflexões para a constituição do campo de saber arquitetônico.127/3688>. SOBRE O AUTOR: Mario Biselli é arquiteto formado pela FAU Mackenzie. 188-191. cit. Rizzoli. Op.). 3. 183-188. 12 SPADONI. Kate (org. p. dez. Eunice Helena S.. Consequently Brazil has become one of the rarest countries that remain with the legitimate successors of the modernism movement. TSCHUMI.. Bernard. 1993. Arquitetura e limites I (1980). GANDELSONAS.). In: Gridings. Vilanova Artigas. Geoffrey. Tracings and Foldings in the work of Peter Eisenman. n. memória e razão. Bernard. and modern architects have for too long only designed ‘ducks’. Arquitetura e limites III (1981).127. In NESBIT. Scalings. Mario.).“Throughout the periods before and after the World War II. Rossi: figura. São Paulo. 13 . Kate (org. Uma nova agenda para a arquitetura. Peter. 14 Abordagens acerca do mesmo fenômeno. Thames & Hudson. because the signifier (form) has certain aspects in common with the signified (content). local conditions and contexts of Brazil. 172-177. Op. Um guia pessoal descomplicado da teoria dos signos na arquitetura. an iconic sign. São Paulo. Lina Bo Bardi. p. p. and this background strongly affected to produce today´s young architects following the modernism priciple among new generations”. Kate (org. Brazilian architecture went through some unique development conducted by the creative works of those pioneering architects such as Lucio Costa. Arquitextos. cit. n. In: NESBIT. 137-138.com.. ABASCAL BILBAO. p. In: NESBIT. Vitruvius. Carlos . Bernard. Arquitetura e limites II (1981). In NESBIT. Cosac Naify. 1977. Op. In: Informe arqlab (boletim informativo do Laboratório de Arquitetura do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Belas Artes). É sócio do escritório Biselli & Katchborian arquitetura e professor do Departamento de Projeto da FAU Mackenzie. In: NESBIT. Semiótica e arquitetura: consumo ideológico ou trabalho teórico. 13 SUMNER. Prefácio. 153. Later on. Nova York. Arquitetura e limites III (1981). The Language of Post-modern Architecture. TSCHUMI. Kate (org. São Paulo. p. The decorated shed depends on learned meanings – writing or decoration – which are symbolic signs. 177-182. Diagram Diaries. Alfonso Reidy. Francisco.vitruvius. EISENMAN. Op. as if the idea of the modernism sympathized with Brazil´s tropical climate and the culture of the people who reside there.. cit. Kate (org.)..). 1. TSCHUMI. 1999.”. p. Anne Marie. Charles. 16 BROADBENT. fev. p. The duck is. which goes beyond the original modernism movement. Op.. a unique and original form of the architecture only found in Brazil has brought to light. 1998. Arquitetura e ciência. Londres. 2010 <www. Kate (org. Kate (org. they communicate effectively. 183-188. 11 JENCKS. 2006. Diana. In: NESBIT.). The military regime founded in 1964 brought a 20 years of cultural stagnancy to Brazil. Op.br/revistas/read/arquitextos/11. No original em inglês: “Venturi would prefer more decorated sheds.