A Paraíba nos 500 Anos do Brasil
ANAIS DO CICLO DE DEBATES DO IHGP
ABRIL - 2000 JOÃO PESSOA - PARAÍBA

 

ESTADO DA PARAÍBA José Targino Maranhão Governador Roberto de Sousa Paulino Vice-Governador Carlos Alberto Pinto Mangueira Secretário da Educação e Cultura Francisco de Sales Gaudêncio Secretário Adjunto da Educação Francisco Pereira da Silva Júnior Subsecretário de Cultura

Copyright © by Instituto Histórico e Geográfico Paraibano ANAIS - CICLO DE DEBATES A PARAÍBA NOS 500 ANOS DE BRASIL Capa: PONTES DA SILVA Digitação e Editoração Eletrônica: LUIZ HUGO GUIMARÃES Coordenação Gráfica: SANTINO GOMES FILHO Diagramação Final: NAUDIMILSON RICARTE Impressão e Acabamento: DEPARTAMENTO DE PRODUÇÃO GRÁFICA - SEC/DPG I 99p IHGP. Anais do Ciclo de Debates sobre a Paraíba na Participação dos 500 anos de Brasil. João Pessoa. Secretaria de Educação e Cultura do Estado. 433p I - IHGP – História II - Debate - Anais CDU 981.33 (093.2)

INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO PARAIBANO Fundado em 07 de setembro de 1905 Considerado de Utilidade Pública pela Lei Estadual nº 317, de 22.10.1909 Rua Barão do Abiaí, nº 64 - João Pessoa - Paraíba DIRETORIA (1998/2001) Presidente Luiz Hugo Guimarães Vice-Presidente Dorgival Terceiro Neto Secretário Geral Adauto Ramos 1º Secretária Waldice Mendonça Porto 2º Secretário Domingos de Azevedo Ribeiro Tesoureiro Nivalson Fernandes de Miranda Diretor de Atividades Culturais Deusdedit de Vasconcelos Leitão

Apresentação

Há bastante tempo o Instituto Histórico não tinha assumido a responsabilidade de promover um evento cultural da envergadura deste Ciclo de Debates. O primeiro ocorreu em maio de 1922, quando tivemos o ensejo de realizar, em nossa sede, o VII Congresso Brasileiro de Geografia, com a participação de representantes de 11 Estados. Nos anos de 1968 e 1969, com o apoio de outras instituições culturais, promovemos um Curso de Geografia, um Curso de História da Paraíba e um Curso de História Econômica, todos em menor dimensão que este. De lá pra cá, fizemos alguns seminários e simpósios de pequena duração. Neste ano, aproveitamos o ensejo da passagem dos 500 anos da descoberta do Brasil para reiniciar nossos grandes eventos culturais de participação coletiva. Foi assim que, em julho último, esta Presidência propôs e o plenário do Instituto aprovou a realização deste Ciclo de Debates, iniciado no dia 15 de setembro e encerrado a 12 de novembro de 1999. O objetivo foi revisar os episódios da participação da Paraíba nos 500 anos do Brasil, sendo incluído no temário algumas das principais ocorrências da história brasileira em que a Paraíba se evidenciou. O interesse demonstrado pelo Ciclo surpreendeu-nos pelo nível dos debates e dos participantes, dos quais oitenta por cento eram de níveis pré-universitário e superior. Do temário constou: o exame da participação da Paraíba nos períodos Colonial, Imperial e da Primeira República; a conquista da Paraíba; suas nações indígenas; os holandeses; as lutas nativistas; a escravatura; a Revolução de 1930; o movimento militar de 1964; a imprensa; a igreja; a inquisição; a maçonaria; a produção literária; a historiografia e os historiadores paraibanos. Esses foram alguns dos temas abordados pelos nossos consócios e professores de História da Universidade Federal da Paraíba. O êxito do certame não era de surpreender, pois novos subsídios foram acrescidos a nossa historiografia e muitos pontos ainda não bem examinados e interpretados foram apontados para posterior estudo e pesquisa. O esforço da Diretoria do Instituto, dos seus associados e servidores, dos expositores e debatedores poderá ser avaliado na leitura dos presentes ANAIS, que agora levamos ao público com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura do Es-

tado, dentro do programa do Governo do Estado de apoio à celebração da passagem do V Centenário do Descobrimento do Brasil, através do Comitê especial criado com essa finalidade. Registramos aqui um agradecimento especial aos expositores e debatedores oficiais convidados pela Comissão Organizadora para participarem do evento, que se houveram com bastante brilho. Como expositores apresentaram excelentes trabalhos, pela ordem dos temas apreciados, os seguintes participantes: professora Regina Célia Gonçalves, da UFPB; professora Rosa Maria Godoy Silveira, chefe do Departamento de História da UFPB; Luiz Hugo Guimarães, presidente do IHGP; historiadora Waldice Mendonça Porto, 1a secretária do IHGP; historiador Wilson Nóbrega Seixas, do IHGP; etnólogo José Elias Borges Barbosa, da UFPB e IHGP; historiador Aécio Vilar de Aquino, do IHGP; historiador José Octávio de Arruda Mello, do IHGP, Unipê e UEPB; historiadora Diana Soares de Galliza, da UFPB e IHGP; historiador Humberto Cavalcanti de Mello, da UFPB e IHGP; Martha Falcão, da UFPB e IHGP; Manuel Batista de Medeiros, da UNIPÊ, APL e IHGP; jornalista e historiadora Fátima Araújo, do IHGP; historiador Carlos André Macedo Cavalcanti, da UFPB e Diretor Cultural da FUNESC; jornalista e historiador Hélio Nóbrega Zenaide, do IHGP; escritor e historiador Joacil de Britto Pereira, do IHGP e presidente da APL; historiador Guilherme Gomes da Silveira d'Avila Lins, presidente do IPGH e membro do IHGP; historiador Olavo de Medeiros Filho, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Entre os debatedores oficiais, contamos com o concurso das seguintes pessoas: historiador Wellington Aguiar, do IHGP e Diretor do Arquivo Público do Estado; Marcus Odilon Ribeiro Coutinho, do IHGP; Joacil Pereira, do IHGP; Waldice Mendonça Porto, do IHGP; professora Inês Caminha Lopes Rodrigues, da UFPB e UEPB; Aécio Vilar de Aquino, do IHGP; historiador Dorgival Terceiro Neto, da APL e vice-presidente do IHGP; Luiz Hugo Guimarães, do IHGP; Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares, do IHGP; Zilma Ferreira Pinto, do IPGH; Edgard Bartolini Filho, grão mestre da Maçonaria; jornalista e escritor Luiz Gonzaga Rodrigues, da APL. João Pessoa, janeiro de 2000.

Luiz Hugo Guimarães
Presidente

SUMÁRIO

A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL ..................................................................12 1. Introdução ............................................................................................................12 2. Sobre as Comemorações dos 500 Anos do Brasil .........................................12 3. O Lugar do Colonial na Historiografia Brasileira ..........................................15 4. A História Colonial da Paraíba .........................................................................17 Considerações finais pela professora Regina Célia Gonçalves: .......................31 A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO ........................................................................34 Considerações finais pela professora Rosa Maria Godoy Silveira: .................52 A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA................................................................58 Considerações finais pelo expositor Luiz Hugo Guimarães: ...........................80 06-12-1989 a 31-12-1991: Venâncio Augusto de Magalhães Neiva ...............81 18-02-1892 a 1896: Álvaro Lopes Machado .......................................................81 22-10-1896 – 22-10-1900: Antônio Alfredo da Gama e Melo ........................81 22-10-1900 – 1904: José Peregrino de Araújo ....................................................82 22-10-1904 a 28-10-1905: Álvaro Lopes Machado (segundo governo) .........82 28-10-1905 a 28-11-1905: Francisco Seráfico da Nóbrega...............................82 28-11-1905 a 28-10-1908: Monsenhor Walfredo dos Santos Leal ..................82 28-10-1908 – 28-10-1912: João Lopes Machado ...............................................83 28-10-1912 a 24-07-1915: João Pereira de Castro Pinto...................................83 24-07-1915 a 24-07-1916: Antônio da Silva Pessoa ..........................................84 24-07-1916 a 22-10-1916: Solon Barbosa de Lucena ........................................84 22-10-1916 – 22-10-1920: Francisco Camilo de Holanda ................................84 28-10-1920 – 28-10-1924: Solon Barbosa de Lucena .......................................85 22-10-1924 – 22-10-1928: João Suassuna............................................................86 22-10-1928 - 26-07-1930: João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque ...............86 26-07-1930 a 04-10-1930: Álvaro Pereira de Carvalho .....................................87 04-10-1930 a 09-11-1930: José Américo de Almeida ........................................88 09-11-1930 – 26-04-1932: Anthenor de França Navarro .................................88 26.04.1932 - 12-1934: Gratuliano de Brito..........................................................89

A CONQUISTA DA PARAÍBA .....................................................................................90 Regime das Capitanias Hereditárias .....................................................................93 A Guerra dos 25 anos .............................................................................................95 Expedições Oficiais para a conquista da Paraíba ...............................................96 Conquista da Paraíba sob a égide da União Ibérica...........................................98 Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves, de Sua Majestade ...................98 Governo de Feliciano Coelho de Carvalho ........................................................99 A CONQUISTA DO SERTÃO PARAIBANO ........................................................ 108 A conquista do Sertão ......................................................................................... 109 Teodósio de Oliveira Ledo ................................................................................. 113 Os titulares das sesmarias ................................................................................... 126 Considerações finais pelo expositor Wilson Nóbrega Seixas: ...................... 133 AS NAÇÕES INDÍGENAS DA PARAÍBA ............................................................. 134 OS HOLANDESES NA PARAÍBA ............................................................................ 151 A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA ................................................................................ 167 A mão-de-obra escrava nos engenhos .............................................................. 167 O escravo negro no criatório ............................................................................. 170 O escravo negro nas propriedades algodoeira e cafeeira ............................... 172 AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA ................................................................. 182 A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA ................................................................... 207 O MOVIMENTO DE 64 E A PARAÍBA.................................................................. 237 Martha Falcão, para suas considerações finais: ............................................... 264 A IMPRENSA NA PARAÍBA ...................................................................................... 266 A IGREJA NA PARAÍBA ............................................................................................. 284 1. Introdução. ........................................................................................................ 285 2. Análise e não história. ..................................................................................... 286 3. A Igreja e o Padroado Luso-brasileiro. ........................................................ 286 I – A Igreja na Paraíba ......................................................................................... 295 II – Paraíba – Prelazia e Diocese ....................................................................... 296 III – O primeiro pastor – Vida e morte ........................................................... 297 IV – D. Moisés Coelho – Coadjutor e 2º arcebispo....................................... 299 V – 3º Arcebispo metropolitano – Breve pastoreio – Renúncia .................. 301 VI – 4º Arcebispo – D. José Maria Pires ......................................................... 302

........................................... 303 VIII – Conclusão............................................................................................................................. 304 Considerações finais do professor Manuel Batista de Medeiros: .......... Artes e Ciências ............................. Outros maçons paraibanos de projeção em nossa vida pública ... 307 A INQUISIÇÃO NA PARAÍBA .................... 339 1................................................ 345 5....................... 346 7........................................................................... 308 Carlos André Cavalcanti................................... 403 Um pouco da historiografia geral e especial da Paraíba a partir do século XVIII até o terceiro quartel do século XX ................................. ............... 406 PRESENÇA PARAIBANA NA CONQUISTA DO RIO GRANDE ......... 347 8........................... A proclamação da República............................................................................................. A maçonaria da Paraíba nos tempos atuais ................................ Marcelo Pinto Carvalheira .......... 347 9... 419 .. 349 A PRODUÇÃO LITERÁRIA NA PARAÍBA ............................................ 361 HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS .................................................................................... para suas considerações finais:................................................................................... 343 5..................... 339 2..................................................... 348 11 – O velho conflito Igreja Católica-Maçonaria............................................. A capitania de João de Barros da Costa dos potiguares ................................... 417 1............................................................................ 342 3.... A Maçonaria no Brasil . A maçonaria foi iniciada em Pernambuco e Paraíba através do paraibano Manoel de Arruda Câmara e lutando por um ideário político de Independência e República............................................................................. Separação do Grande Oriente do Brasil e fundação da Grande Loja do Estado da Paraíba ......................... 398 A Paraíba na historiografia geral do Brasil a partir do século XVI até a segunda metade do século XX .................. 335 A MAÇONARIA NA PARAÍBA ...... 343 4......................................................................................................................................... 338 Introdução .. As primeiras lojas maçônicas na Paraíba depois da Loja Maçônica Pelicano ..... 384 Historiografia da conquista e da colonização inicial da Paraíba ......................................................... Academia Paraibana Maçônica de Letras... A mais antiga loja maçônica paraibana em funcionamento ........VII – 5º Arcebispo – D.......... 345 6.................................. 388 Historiografia da Paraíba relativa ao período holandês no Nordeste do Brasil ............................................................... Depois do Areópago de Itambé .........................

......... 429 ENCERRAMENTO .................................. A pacificação dos potiguares............................................................................................................................... A Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação do Rio Grande ..............................2.................... A fortaleza dos Santos Reis da Barra do Rio Grande ..... 422 4............................................................................ O arraial da Barra do Rio Grande ....................................................... 424 5.................................. 432  ................. A Costa dos potiguares e a presença francesa... O Capitão-mor Manuel Mascarenhas Homem: de Olinda ao Rio Grande ...... 426 6.. 420 3.......... A reação dos potiguares à presença portuguesa no Rio Grande ..... 427 8........ 427 7...........................

Para expor esse tema de muita significação para nós. Iremos aqui. Cabedelo e Areia. dada sua importância na vida cultural da Paraíba. convido o professor Francisco Pereira Júnior. que é professora assistente do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba na área de Teoria e Metodologia de História. Subsecretário de Cultura do Estado. convido o professor Jáder Nunes de Oliveira. Com esta apresentação. convido o escritor e confrade Joacil de Britto Pereira. magnífico reitor da Universidade Federal da Paraíba. sendo co-autora da História dos Municípios de Ingá. convido o historiador Wellington Aguiar. é pesquisadora do Projeto História Local da Paraíba. não poderia deixar de organizar um ciclo de debates dessa natureza. O Instituto Histórico. 11    . convido a professora Regina Célia Gonçalves. passamos a palavra à nossa primeira palestrante deste Ciclo de Debates. que será a expositora do tema A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL a ser hoje debatido. Conde. pela USP. finalmente. é doutoranda em História Econômica. duas vezes por semana. cuja tese aborda o DOMÍNIO HOLANDÊS NA PARAÍBA COLONIAL. diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artística da Paraíba e representando o Governo do Estado. teremos a palestra da professora Regina Célia Gonçalves. pela UFPB. é mestra em Ciências Sociais. Pedras de Fogo. A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães: Nosso Instituto neste momento está dando início a um Ciclo de Debates onde trocaremos idéias sobre os principais episódios ocorridos na Paraíba desde o Descobrimento do Brasil. a professora Regina Célia Gonçalves. presidente da Academia Paraibana de Letras. a partir deste 15 de setembro de 1999 até o dia 12 de novembro. debater assuntos de interesse da Paraíba sobre sua participação na formação da nacionalidade. que será o debatedor do referido tema. ex-coordenadora do Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional da UFPB. Hoje vamos iniciar abordando o período colonial da Paraíba. Para compor a mesa dos trabalhos convido o professor Francisco Sales Gaudêncio.Abertura dos trabalhos do Ciclo de Debates promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Paraibano sobre a participação da Paraíba nos 500 anos da descoberta do Brasil.

à sua importância para a construção da nossa identidade. o adotado pela programação deste ciclo de debates: a verticalização/aprofundamento temático que. se estenderá. principalmente.1º Tema: A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL Expositora: Regina Célia Gonçalves Debatedor: Wellington Aguiar. sem dúvida alguma. bem como a exiguidade do tempo que nos foi destinado para esta apresentação. 2. A amplitude acima mencionada refere-se não apenas aos mais de trezentos anos de domínio colonial europeu no Brasil mas. no caso da história colonial paraibana. por pelo menos outras oito sessões: 1) A conquista da Paraíba. Um deles. Por este motivo. doutoranda em História pela USP) 1. consideramos que o melhor caminho para discutir história é. Há muitas possibilidades de discursos sobre o tema. optamos por fazê-lo a partir de um recorte específico. mestra pela UFPB. Expositora: Regina Célia Gonçalves (Professora da UFPB. e considerando que o público a quem nos dirigimos hoje. mas lançar novas propostas de pesquisas. 4) Os holandeses na Paraíba. nada mais pertinente do que iniciar pela discussão sobre a noção mesmo de "comemoração" que embasa a nossa fala e que. necessariamente. 7) A Inquisição na Paraíba e 8) A Igreja na Paraíba. nos próximos meses. 3) As nações indígenas na Paraíba. Por outro lado.A PARAÍBA NO PERÍODO COLONIAL -. Introdução Tendo em vista a amplitude do tema que nos cabe abordar neste ciclo de debates . Pretendemos aproveitar esta oportunidade para discutirmos as perspectivas para a pesquisa histórica e para produção historiográfica sobre a Paraíba neste período. 5) A Paraíba nas lutas nativistas. sem dúvida. Sobre as Comemorações dos 500 Anos do Brasil Em tempos de "comemoração" do V Centenário do Descobrimento do Brasil. trabalha com a ideia de um Brasil fun12    . conhece as linhas gerais (e muitos dos detalhes) da colonização portuguesa na Paraíba. não é a mesma presente em outras. 6) A Escravatura na Paraíba. 2) A conquista do sertão paraibano. achamos por bem não fazer uma apresentação global (e superficial) do período. talvez o mais disseminado.

A força dessa perspectiva. E o eixo principal desse "boom" tem sido a preocupação com a preservação de acervos e arquivos. demonstra uma extrema competência para aproveitar a memória histórica como estratégia de marketing. congressos e ciclos de debates). por exemplo. é uma atividade humana que comporta a lembrança mas também o esquecimento. Somos nós. re-escrever a história. a exemplo das comemorações dos centenários da Abolição da Escravidão (1888) ou da Proclamação da República (1889) é inquestionável. Revisita-se a história com novos olhares. com a multiplicação de lugares da memória (galerias. a de um país que parece nascer pronto nas areias douradas das praias do sul do que hoje é a Bahia. trazendo a verdade da cruz para as populações canibais e pagãs que aqui viviam (essa é a tônica. além desse discurso. partimos da definição apresentada pelo mais conhecido dos dicionários de língua portuguesa em circulação no Brasil. sorteios e shows artísticos. buscando. Pode-se falar de um verdadeiro "boom" memorial a imiscuir-se nas sociedades ocidentais contemporâneas. Tal como já afirmava o grande historiador francês Marc Bloch. Esquecer é imperativo para que possamos ter uma vida no presente. aliás. do que tratamos quando falamos em "comemoração"? Para iniciar tal discussão. Vivemos um momento em que a questão da memória emerge com extremo vigor. 450 Anos!". como fazem continuamente todas as gerações. BAHIA. Ou então.dado em abril de 1500 por portugueses corajosos (e. o de Aurélio Buarque de Hollanda: "Comemorar: Trazer à memória. o eram) que atravessaram o "mar sem fim" à bordo de precárias caravelas (a tecnologia de navegação mais avançada de que os europeus dispunham na época). ainda nos anos trinta. homens do presente. de fato. bibliotecas. 13    . cultural e ecológico da humanidade. lembrar". Certo. também observada em outras ocasiões históricas. com a conservação do patrimônio histórico. museus. Afinal. pois é preciso festejar! E haja festa! Mas. Não nos é possível viver só de lembranças. realizam-se torneios esportivos. de peça veiculada pela TV Globo em maio passado). e que é exibida a cada gol marcado. Um outro exemplo dessa utilização é o slogan da camiseta que os jogadores dos times de futebol da Bahia usam por baixo da oficial: "Salvador. Principalmente quando. entre outros) e com o resgate da história dos excluídos. Mas a memória é um trabalho. caso contrário estaríamos imersos no poço sem fundo do passado. associados a alguns eventos culturais (como seminários. há outros. o Brasil nasceu aqui! Conforme campanha publicitária do governo baiano que. que lembramos e que esquecemos. fazer recordar.

11). Exorta o rastreio. ao saber histórico coube. a dimensão comunitária e cívica. Para ele. principalmente porque se trata de um momento importante da memória nacional. fugindo ao excessivo celebracionismo. A comemoração laicizada. Somos herdeiros da tradição moderna de comemoração fundada com a Revolução Francesa e com a criação do calendário civil que se tornou seu marco emblemático. "Ao rigor da investigação científica é atribuída a responsabilidade pela distinção entre propaganda e memória. dos fatos/datas e personagens selecionados como significativos da história.2 Concordamos com ambos os autores. recolha. e acentua a dimensão científica das comemorações. edição. citando o historiador português Vitorino Magalhães Godinho. afirma: "A História nada tem a ver com as comemorações. de rápida divulgação e consumo. entendendo-o como confronto intercultural. CELEBRAR. E. essa é a nossa perspectiva. este mesmo autor. são extremamente propícias a essa revisita. sem ressuscitar os mortos". faz um exame acurado sobre as perspectivas que animam a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (Portugal) e a Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil (Brasil). em monumento comemorativo. ocasiões como essa. Trata-se de encarar mais este centenário como uma oportunidade de reflexão sobre o que somos nós. conservação. do patrimônio documental histórico e artístico dos portugueses ou                                                              Esta parte do texto está fundada na discussão apresentada pelo professor José Jobson de Arruda. os centenários somente podem ser úteis desde que ensejem estudar problemas. a identidade são os beneficiários diretos das comemorações cívicas. a partir de então. a Comissão Portuguesa opera uma relativização da ideia de "descobrimento". em seu trabalho recém-publicado.E. mas a ênfase deveria ser carreada para difundir o conhecimento do passado português. daí a preferência pelas versões completas de fontes e investigações. inventário. SP: EDUSC. ela é somente esforço de compreensão. dos 500 Anos do Brasil. por que o somos e para onde vamos. caso contrário. 1 14    . COMEMORAR. Ainda a propósito desta questão das comemorações. os produtos fáceis. evitando-se as ações superficiais. (embora fundamentada nos rituais das comemorações religiosas) adquiriu contornos de patrocinadora de uma certa identidade: a identidade nacional. tornada festa cívica. criticar certezas dogmáticas.cit. sustentada pela criação dos lugares da memória e pela transformação. quem somos nós. mumificam os vivos. o nacionalismo. Não se exclui. (p.1 Arruda. Por isso. 1999 2 ARRUDA. REFLETIR. O TRÁGICO 5º CENTENÁRIO DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL. evidentemente. meditar diretrizes. pois passará a contribuir decisivamente para a construção de uma nova identidade social. Bauru. um papel fundamental. Op. O estado nacional.

nos dois primeiros capítulos. no MEC e. (pp. O Lugar do Colonial na Historiografia Brasileira O início dos estudos relativos ao período colonial da história do Brasil remonta ao ano de 1838 quando foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. do Ministério da Cultura. coordenado por Esther Bertoletti. Op. aliás. principalmente.. 3. Arruda aponta. Perspectiva. (p.. A partir daí foram estabelecidas as primeiras tentativas de organização sis-                                                              3 4 ARRUDA. a mesma foi encarada como mais uma celebração." 4 Voltaremos a falar sobre a Paraíba e o Projeto Resgate mais adiante.18/19) Arruda. Neste quadro. microfilmar e publicar em CD-ROM 250 mil peças documentais brasileiras existentes no AHU. Já a Comissão brasileira (criada em 1993.cit.relativo aos portugueses". Ou seja. o PROJETO RESGATE DA DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA BARÃO DO RIO BRANCO. (conhecido como Projeto Resgate) é um exceção. tal qual a construção de réplicas das naus da esquadra de Cabral ou a realização de regata que observe a rota do navegador português e outros torneios esportivos. como o principal problema das "comemorações" patrocinadas pela Comissão brasileira. em que apresenta. assume a perspectiva de que esse é o marco inicial da nossa história.J. o quadro humano e ambiental que antecede a chegada dos europeus. 1500). na questão documental. O mesmo tem o objetivo de "organizar. cit. em 1907. encampada pelo Ministério das Relações Exteriores. fez publicar a sua obra CAPÍTULOS DE HISTÓRIA COLONIAL. depois de recusada por vários ministérios. justamente a falta de uma ênfase maior na abordagem científica e. Op. Ou seja. ultrapassada pelo menos desde que Capistrano de Abreu.37) 15    . começando a funcionar em 1996) define o objeto das comemorações como sendo "a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral às costas brasileiras". que correspondem a cerca de 80% dos documentos relativos à história do Brasil.3 Em lugar da visão luso-cêntrica e eurocêntrica emerge a qualificação de Portugal como parceiro e interlocutor privilegiado das nações que foram ex-colônias em relação à União Europeia. perde-se uma excelente oportunidade de refletir sobre a nossa história e as condições de produção do pensamento histórico no Brasil. No entanto. A comemoração dos centenários (1498. existentes no exterior. em Portugal. muito pelo contrário. J. Em nenhum momento se estabeleceu uma reflexão sobre ela. transforma-se em hino ao seu lugar no mundo da globalização.

Petrópolis: Vozes. 5 16    . então. eram o Descobrimento e a Independência. é que o interesse pelos estudos coloniais já não se prende exclusivamente ao estabelecimento dos marcos factuais importantes (ou assim considerados) do período e. Bauru.2%.temática da preservação da memória histórica no Brasil. Colônia/Império = 6. HISTORIOGRAFIA LUSO-BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA. ao vínculo entre o processo de colonização e do sistema colonial e a expansão marítima e comercial europeia.M. em relação à produção do IHGB. cerca de 60% dos títulos publicados referiam-se ao período colonial e os temas privilegiados. a ação do IHGB que buscava o estabelecimento das origens/fundamentos da história nacional. 1999. 140 referem-se a este período. sobre a produção acadêmica no Curso de PósGraduação da USP. 1976 (pp 47. A diferença. e J. pelo interesse dos historiadores (e da sociedade brasileira de então) em compreender não mais as origens do Brasil simplesmente.5 Tal produção expressava. A HISTÓRIA EM QUESTÃO. J. são os seguintes: Período Colonial = 43. José Roberto do Amaral Lapa chama a atenção para o fato de que. entre as teses de doutorado defendidas na Universidade de São Paulo. sem dúvida alguma. 48 e 49). de um lado. expresso. embora já se anuncie um deslocamento em direção aos estudos sobre Império. (p. sim.5%. O mesmo ocorre com os livros publicados. Indicador importante desta tendência é a produção das primeiras teses universitárias. mas as do Estado autoritário no país. a predileção pelo período colonial continuou.5% e Império/República = 2. Por outro lado. Período Republicano = 15.36). a preocupação com o período colonial ainda é bastante grande. Ou seja. Período Imperial = 32. Já para o período 1943-1973. Após a fundação das primeiras universidades brasileiras. ainda nos anos 30. O início da "abertura política" permitia aos estudiosos um debruçar-se sobre as questões do Brasil contemporâneo. SP: EDUSC.2% dos trabalhos defendidos. a concentração dos trabalhos por período histórico muda significativamente. oportunidade rara depois de quase duas décadas de repressão. a partir da segunda metade da década de 70. período 1943-1973.6%. que começam a ser defendidas já nos anos 40. as origens da nossa formação histórica continuavam a ser a motivação principal dos estudos dos historiadores. por exemplo.J. no entanto. ainda nos inícios dos anos 70. deslocando-se fortemente para a História do Brasil Republicano. naquele momento. Tengarrinha.6 No entanto. 6 Os dados levantados por Lapa HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA. as inúmeras dificuldades para pesquisa sobre o Brasil colônia não podiam e não podem                                                              Arruda. Esse deslocamento pode ser explicado. Das 279 teses defendidas a partir de então. pela existência da ditadura militar. Nos cem primeiros anos de sua existência.

A COLÔNIA NA BIBLIOGRAFIA RECENTE.. conhece as linhas gerais (e muitos dos detalhes) da colonização portuguesa na Paraíba. 7 17    . em sua maioria. Lacunas que estão a exigir uma produção científica na perspectiva da compreensão da sua importância para a construção da nossa identidade. (Esta dificuldade é expressa também no) . Entre estas pesquisas encontra-se o PROJETO QUESTÃO AGRÁRIA NA PARAÍBA. bem como a realização de análises sobre a história da educação na Paraíba. quase sempre. Lacunas essas. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP e CEDHAL. Eni de Mesquita. que se situam para além do arrolamento de fatos dispostos cronologicamente. a partir do estudo do sistema sesmarial. No caso da produção paraibana. que objetiva o levantamento sistemático de fontes.10). o índice deve ser ainda menor.séculos XVI e XVII ainda não analisados". como um de seus objetivos fundamentais.                                                              8 Cf.7 4. montante de publicações sobre a Colônia que. Trata-se. tem feito consulta sistemática em diversos arquivos (públicos e privados) coletando dados sobre o período colonial (inclusive). Por este motivo. referem-se ao final do período. Dado importante e preocupante porque revela que sequer a comunidade de historiadores tem acesso sistemático à produção de seus pares. Outro projeto importante é o de RESGATE DO PROCESSO HISTÓRICO E CULTURAL DOS MUNICÍPIOS PARAIBANOS (mais conhecido como PROJETO HISTÓRIA LOCAL) que objetiva a produção de materiais didáticos sobre os municípios da Paraíba e que. chegou-se a um dado extremamente importante: apenas 10% daquilo que é produzido nos cursos de pós-graduação acabam sendo publicados. da tarefa de trabalhar com "documentos basicamente manuscritos.ser negadas. (p. Um outro importante projeto em desenvolvimento é o FONTES PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA PARAÍBA. no caso da Paraíba. 1999. sobre diversas temáticas relativas ao colonial. e considerando que o público a quem nos dirigimos hoje. A História Colonial da Paraíba Apesar dos avanços da pesquisa histórica e da produção historiográfica no Brasil e na Paraíba persistem lacunas temáticas sobre o período colonial. executado por um grupo interinstitucional de pesquisadores da UEPB e da UFPB (lotados no NDIHR e no Centro de Educação). achamos por bem não tratar do assunto por ter sido um dos "lugares" em que os historiadores têm se debruçado. 8 Em recente levantamento realizado pela ANPUH Nacional sobre teses e dissertações em História produzidas no Brasil. coordenado pela Profª Irene Fernandes (colaboradora do NDIHR e docente da UEPB) que tem.. ficando as épocas mais recuadas . compreender a conformação da estrutura fundiária na Paraíba. com vigor. SAMARA. e que se encontram muitas vezes dispersos e com problemas de conservação. para tanto. sem dúvida alguma. de leitura difícil.

pela Profª Elza Régis de Oliveira. Pilar (1809). banheiros desativados. o PROGRAMA DE MEMÓRIA E DOCUMENTAÇÃO do NDIHR tem se dedicado à organização de vários acervos de importância para a nossa história. sobre O VELHO ARRAIAL DE PIRANHAS (Pombal). Os limites cronológicos da documentação sobre a Paraíba remetem ao período 1593/1827. especialmente os arquivos públicos. São João do Cariri (1816). o estado lamentável. o do próprio Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. A partir dos dados desses documentos a Profª Diana Galliza escreveu seu trabalho O DECLÍNIO DA ESCRAVIDÃO NA PB. que microfilmou cerca de 4. Talvez a expressão mais cabal dessa situação seja o desaparecimento dos documentos dos séculos XVI e XVII do Arquivo Público do Estado da Paraíba. Microfilmes que. A maior parte dos "arquivos" ou está despejada em locais absolutamente inadequados (como almoxarifados. Guarabira (1806). entre setembro de 1998 e março de 1999. as Câmaras Municipais.9 Recentemente. algumas ações têm sido realizadas. nos anos 1976/1977. salas de depósito de "coisas velhas") ou simplesmente desapareceu (documentação inutilizada pela ação do tempo. datado de 1962. Outro exemplo da vitalidade da documentação cartorial é o trabalho de Wilson Seixas. Esta ação é urgente e indispensável uma vez que é de conhecimento público a situação de absoluto descaso em que os arquivos paraibanos vivem. que desenvolveu pesquisa exploratória em cartórios de alguns municípios paraibanos. no entanto.Por outro lado. Piancó. outros órgãos públicos. Uma iniciativa pioneira foi o trabalho de equipe do NDIHR. entre eles. Desaparecimento que. 18    . encontravam-se depositados no Arquivo Público. já em 1908. João Pessoa. identificando documentação valiosíssima para o estudo do período colonial. Irineu Ferreira Pinto (o Patrono desta Casa) anunciava ao chamar a atenção para a deterioração. hoje. Pombal (1712). A partir de nossa experiência no PROJETO HISTÓRIA LOCAL foi possível constatar que as Prefeituras. assim como vários cartórios e mesmo paróquias não têm a preocupação com a preservação e conservação dos documentos. Trata-se de apro-                                                              9 Os municípios pesquisados e as datas-limite da documentação encontrada em cada um foram: Bananeiras (1790). obra de fundamental importância para a historiografia paraibana. entre 1967 e 1969. sob coordenação da Profª Diana Galliza. Mamanguape (1795). Um antecedente do levantamento da documentação paraibana no Arquivo Histórico Ultramarino de Portugal foi o trabalho realizado. Em meio a essa situação caótica. do fogo ou da mão humana). desses documentos que ainda. naquela época. fazem parte do acervo do NDIHR. um passo ainda mais importante nesta direção foi dado com a inclusão da Paraíba no Projeto Resgate. e paralelamente às atividades de pesquisa em desenvolvimento.000 documentos daquele arquivo. Este primeiro levantamento foi atualizado pela equipe paraibana que participou do Projeto Resgate (MINC). das goteiras.

que demonstram a eficiência da administração metropolitana no controle da colônia. leis. É bom lembrar que. Holanda. História militar: A documentação do Arquivo Histórico Ultramarino permite investigações importantes sobre as estratégias e táticas militares (a exemplo do que realizou Evaldo Cabral de Mello em OLINDA RESTAURADA.10 Entre as muitas áreas e temas da história da Paraíba ainda por investigar podemos arrolar as seguintes: Paleontologia/Arqueologia (pré-histórica e histórica): Apesar dos esforços isolados de alguns pesquisadores e de algumas iniciativas da Fundação Casa de José Américo sabemos que praticamente tudo está por se realizar em termos da investigação paleontológica e arqueológica da/na Paraíba. pela fome. Na plaqueta HISTORIOGRAFIA MUNICIPAL DA PARAÍBA recentemente publicada pelo Dr. há documentação importante sobre a Paraíba em outros acervos localizados em Portugal e em outros países europeus (Espanha. requerimentos. as pragas. ainda completamente desconhecido. doações e confirmações de sesmarias. sobre a guerra do açúcar). cartas patentes. a degradação das águas. em A UNIVERSIDADE DO RECIFE E A PESQUISA HISTÓRICA. Temas como a devastação das florestas. 10 19    . É preciso realizar esforços no sentido de buscar uma sistematização do que já há escrito para tentar compreender o movimento geral. entre outros. (ofícios. ainda pouco conhecida e pouco disponibilizada entre nós. pelos soldos atrasados. alvarás. 1959.000 sobre o Brasil. indica José Antonio Gonsalves de Mello em vários dos seus trabalhos e. Muitas monografias já realizadas sobre cidades paraibanas. História urbana: A formação e a evolução da rede urbana na Paraíba durante o período colonial precisa ser melhor compreendida. o problema da manutenção das tropas. provisões. Luis Hugo Guimarães. certamente. as cheias e as secas (de que a primeira notícia remonta ao final do XVII) estão a exigir estudos. mercês. cartas. A exis-                                                              Cf. marcada pela penúria. decretos. em especial. mapas e iconografia). Tais estudos são fundamentais para compreendermos o processo histórico local. França). a vida cotidiana desses militares. História do meio-ambiente: Capítulo absolutamente fundamental da história da Paraíba.000 documentos de um total estimado de 250. relaciona as obras existentes no acervo do IHGP (um dos mais importantes de que dispomos para estudar a Paraíba) sobre cinquenta e quatro dos atuais municípios paraibanos. presidente deste Instituto. a origem e a formação dos contingentes militares que atuaram na Capitania.ximadamente 15.

extremamente atual). da obra de Elza Régis.imaginário da colonização. ambos versando sobre o século XIX). dissertação de mestrado em História. Trata-se. com especial atenção para a história tributária (tema. questões do abastecimento. por ex. trata-se. ou de Ruston Lemos de Barros sobre as embarcações e frotas portuguesas no Nordeste até 1720). História Econômica: Vários temas sobre a história econômica paraibana ainda precisam ser desenvolvidos. A PARAÍBA NA CRISE DO SÉCULO XVIII: SUBORDINAÇÃO E AUTONOMIA. estudos da história da vida familiar. militar. dispomos. em busca de 20    .tência de tão poucos trabalhos indica a necessidade de aprofundarmos os estudos sobre história local. por exemplo: a) a produção para o mercado interno (alimentos. de debruçarmo-nos sobre tais acervos. tabaco. do prof. dos casamentos. tratando de questões como: fluxo dos portos. Sobre esse tema. sobre a Cia. judiciária e eclesiástica. história da educação e da assistência social (para combate a doenças e a fome). A documentação do Arquivo Histórico Ultramarino aponta para a dinâmica interna da colonização. nós.. b) história do comércio (nos moldes do trabalho de Irene Fernandes Rodrigues sobre a Primeira República na PB. (originalmente. encontra importantes elementos de análise na documentação do AHU. Há inúmeros documentos que tratam da administração fazendária. aliás. no período colonial. evolução dos preços. história das ideias . os diferentes interesses das frações de classe envolvidas. entre outros. historiadores. artesanato. de lutar pela localização das fontes documentais que municiem novas pesquisas e pela preservação e conservação daquelas fontes de que já dispomos e. história do cotidiano tanto das elites quanto dos homens livres e pobres e dos escravos. História Administrativa: Tema praticamente inexplorado pelos historiadores da Paraíba. das crianças. e da tese de doutorado em História Econômica/USP. história da saúde (a exemplo das teses de doutorado em História dos professores Ariosvaldo Diniz/DCS/UFPB sobre o cólera e da Profª Lenilde/Denfermagem/UFPB sobre a saúde pública na Paraíba. Francisco Tadeu da Silva UMA COLÔNIA E DUAS METRÓPOLES. estamos frente a um desafio de amplas proporções. etc). Ou seja. História Social: Esta documentação também permite inúmeros estudos demográficos. junto a UFPE). para o século XVIII. em especial no que diz respeito à evolução urbana. história da criminalidade e da violência. de Comércio PE/PB e a sua presença na Paraíba. em primeiro lugar.

O professor Wellington Aguiar.respostas a tantas questões relevantes suscitadas pela história da Paraíba. sem louvaminhas. de modo crítico. E ela destaca. onde exerceu a Presidência recentemente. além de sócio deste Instituto. UMA CIDADE DE QUATRO SÉCULOS e CAPÍTULOS DE HISTÓRIA DA PARAÍBA.A MEMÓRIA DO TEMPO. A professora Regina Célia Gonçalves colocou de forma nova. sem elogios. Como historiador tem várias obras publicadas. diante das numerosas fontes ainda pouco exploradas. dentre elas UM RADICAL REPUBLICANO CONTRA AS OLIGARQUIAS. ou qualquer outro evento. estes dois últimos em parceria com o professor José Octávio de Arruda Mello. com bastante ênfase. 21    . membro do Conselho Estadual de Cultura) Eu acho que se pode celebrar ou mesmo comemorar os 500 anos do Brasil. convoco o confrade Wellington Aguiar para iniciar os debates sobre este tema. sócio do IHGP. Debatedor: Wellington Aguiar (Historiador. ex-presidente da Academia Paraibana de Letras. sem confetes. Brevemente lançará A PARAÍBA NOS RECORTES DE JORNAIS. Seu registro sobre fases do nosso período colonial incentiva-nos a ocupar os vazios que estão por preencher no estudo e na análise de importantes ocorrências na Paraíba dos primeiros tempos. um esquema para tratarmos das comemorações dos 500 anos do Brasil. CIDADE DE JOÃO PESSOA . Com a palavra o historiador Wellington Aguiar. O Instituto Histórico se congratula com a participação da professora Regina Célia neste Ciclo de Debates que se inicia. do qual já foi vice-presidente. atualmente exerce o cargo de Diretor do Arquivo Público do Estado e é membro do Conselho Estadual de Cultura. é membro da Academia Paraibana de Letras. Dando sequencia aos nossos trabalhos. a necessidade de analisar em maior profundidade a história comercial da Província. A fala do presidente dos trabalhos: Iniciamos com chave de ouro nosso Ciclo de Debates sobre a participação da Paraíba nos 500 anos da descoberta do Brasil. Seu trabalho é um desafio aos historiadores paraibanos. Ex-professor da Universidade Federal da Paraíba. de forma diferente.

um episódio meio lendário. Inhinguaçu. pois nesse debate todo mundo vai poder falar e expor as suas ideias. Diz Horácio de Almeida. quando o rei D. ao lado de José Octávio. na rabeira do rio Tracunhaém. para encurtar a história. Sebastião mandou estender a conquista 22    . o seu pai. Eles foram embora e comunicaram a Inhinguaçu. arrasaram e mataram o que puderam. Diz Horácio de Almeida. Então o rei D. chefe potiguara da Baía da Traição. em sua HISTORIA DA PARAÍBA. Antônio Salema. Era um engenho fortificado. Havia o engenho de Diogo Dias. sem citar Irineu Pinto. que não existia na época. tinha um fortim. não há prova nenhuma que tenha ocorrido como assim se conta. a meu ver. O governador do Brasil naquela época. os índios ficaram soberbos e ameaçavam invadir até Igaraçu. um episódio que os cronistas antigos falaram. Quando o pessoal do engenho avançou surgiram os índios e dizimaram todos. Ele desmembrou a Capitania da Paraíba. E os índios planejaram um ataque com a orientação dos franceses e. uma visão apenas dentro do tema que foi proposto. eles ficaram por lá. como diz Horácio de Almeida.Nosso Instituto está celebrando os 500 anos de modo crítico. Os franceses negociavam com os índios e insuflaram os índios contra o engenho de Diogo Dias. porque Irineu Pinto é o bebedouro da nossa História. Ficou tergiversando com palavras vãs. Por que isso? Porque tinha havido o massacre de Tracunhaém. mas Diogo escondeu a cunhã. o paraibano que escreveu. estava de passagem por Olinda e deu uma provisão a esses índios para que eles não fossem obstaculados no seu caminho de retorno à taba. Mas. a começar por este debatedor. para o campo aberto. Mas eles deram a entender que havia poucos índios. enganando os irmãos da moça. aqui perto de Goiana. Diogo Dias escondeu uma cunhã. saindo os defensores do engenho para o campo aberto. para onde o mameluco tinha fugido com ela. que fora casada com um mameluco. onde hoje está a cidade de Goiana. Farei um retrospecto da Paraíba Colonial. cujo povo ficou com medo. Diante disso. uma formosa cunhã dos seus 15 ou 16 anos. tirando-a de Itamaracá. Os índios atraíram o pessoal do engenho pra o campo raso. era todo bem defendido. que esse acontecimento teria passado despercebido se não estivessem os franceses com Inhinguaçu. A fundação da Paraíba começou em 1574. mandou-a buscá-la em Olinda. Sebastião naturalmente antes de sua derrota e de sua volta de Alcácer Quibir. porque eles não tinham condições de tomar o engenho por que lá tinha paliçada. as duas melhores histórias da Paraíba. assim como o povo de Olinda. Chegou no engenho de Diogo Dias.

o sábio do Rio Grande do Norte. O de Epitácio apagaram. Finalmente a comissão de PHD concluiu que era uma moreia. Havia lido Câmara Cascudo. TERRA DOS TABAJARAS. mentira histórica. índio e carrascais. Foi em 42. Não tem nada de tabajaras. que tem lá no pátio do Museu. A data que tinha era de 1947. há dois anos. Muita gente boa chama terra dos tabajaras. debaixo do busto de Epitácio. Eudésia Vieira publicou um livro. Mudaram o cartão. foi a que terminou dando certo. que informou que havia designado 10 PHD para estudarem o assunto. filho do trovão. em Latim. em Monteiro. num caravelão. Outra coisa foi a data da morte de Epitácio Pessoa. Vi no Museu Nacional. Saíram de lá porque fizeram um massacre nos portugueses. moreia. Piragibe sempre colaborou com os portugueses. Dra. Homem do fogo. não é verdadeira. Não é porque é melhor do que ninguém. Houve cinco tentativas de conquista da Paraíba. A quinta. Uma terra que nasceu em 1800. A Paraíba não é a terra dos tabajaras. que diz assim: construído em 23    . Como a gente aprendeu. Os tabajaras moravam entre a Bahia e Pernambuco. Cajazeiras começou em 1800. iniciando com o desmembramento da Capitania. como é que Cajazeiras ensinou a Paraíba a ler? Um dia desses uma pessoa respeitável intelectualmente escreveu isso numa revista de Cajazeiras: "Cajazeiras ensinou a Paraíba a ler. Quando voltei lá. mas os portugueses quiseram atraiçoá-lo e eles vieram para cá. inclusive de professores da Universidade. que antes disso só tinha cobra. que fundou o Museu. Se fosse um museu daqui estava a maior gozação. e vieram para cá. aquela cobra escura. Os jesuítas davam aula aqui. ensinar: moreia. Como muita gente diz que Cajazeiras ensinou a Paraíba a ler. não é? E eu botei isso num fax. A História está cheia de mentiras. Passamos um fax para o Ministro da Cultura e o Ministro encaminhou o fax para a diretora do Museu. Outra coisa que se diz é sobre Caramuru. é porque foi fundada primeiro. Depois vi dois outros erros. Mentira. com apenas 20 homens. Caramuru no Museu Nacional. Não é possível. nos finais do século XVII e século XVIII. Quem ensinou a Paraíba a ler foi a capital. que foi a menor. vi que o nome moreia estava lá. um belo museu." Tudo por conta da comemoração do Padre Rolim. mas não botaram o ano. lá no Rio de Janeiro: homem do fogo. Os índios foram conversar com Martim Leitão para fazer as pazes. entrando pelo rio Paraíba. Já vi em vários livros. Está lá no frontispício do Forte de Cabedelo. nos limites do São Francisco. a partir desse ano. não é. Não é possível. prevalecendo a proposta já anteriormente feita durante as lutas entre tabajaras e potiguaras. um até amigo meu. Mas. E eu aproveito para dizer que essa história de terra dos tabajaras. Piragibe à frente. filho do trovão.para o Norte.

Esta data é o dia das pazes celebradas com os tabajaras. A Paraíba não tinha dinheiro para mandar nenhum representan24    . era o capítulo mais importante da História colonial do país. Houve a guerra holandesa. Outro erro é quanto à data da fundação da cidade. mandado pelo Ouvidor Geral do Brasil. com pesquisas. que foi André Vidal de Negreiros. Não sou mudancista. Henry Koster era um viajante. ficando os tabajaras com os portugueses.1580. triste. não permitiu nada. é do Brasil. que se considera 5 de agosto. não sabia fazer versos. na verdade filho de inglês (o pai dele estava em Portugal nesse tempo). como disse um tempo desse um ministro de Vossa Majestade. com z e circunflexo no e. disse que André Vidal era um homem de tanto valor que só tinha um defeito. Nessa luta o nosso povo foi de uma bravura impressionante. isto no Brasil de modo geral. Martim Leitão. A Paraíba deu um dos comandantes da guerra contra os holandeses. São Paulo. que levou dez anos para fazer. e tem lá: nascido em Areias. A nossa Areia daqui ninguém sabe o nome. andou visitando a Paraíba em 1810. nascido em Portugal. E outro: Aurélio de Figueiredo. Esse homem era tão importante que o padre Vieira. Muito se conhece do que ocorria no Brasil Colônia nos livros dos visitantes estrangeiros que estiveram por aqui. mas sem essa paz com os tabajaras não teria sido possível Martin Leitão vir com seus pedreiros e em 4 de novembro iniciar a construção da cidade. A guerra holandesa é o capítulo mais importante da História colonial do Brasil. que foi o verdadeiro patrono da conquista. Como a professora conferencista falou. Portugal não permitiu aqui o funcionamento de indústrias. antes. João Tavares. Está no livro VIAGENS AO NORDESTE DO BRASIL. há um livro da professora Elza Régis. quando se sabe que este forte foi construído depois. não é do Nordeste e da Paraíba. Se isso tivesse ocorrido em Minas Gerais. Nós temos no Arquivo Histórico um documento de José Bonifácio. horrorosa. ou Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul. A paz com os potiguaras somente foi feita 14 anos depois. dizendo que representou a Paraíba. Essas pazes dividiram os índios. tem um quadro dele no Museu. Não tem a fama toda porque é do Nordeste. Está no livro DATAS E NOTAS DA PARAÍBA. e os potiguaras contra. na pessoa de Piragibe e o escrivão da Câmara de Olinda. ele assinando Jozê. A Paraíba terminou anexada a Pernambuco na segunda metade do século XVIII. A noite colonial foi longa. E o que disse Koster sobre a nossa cidade? Disse o seguinte: que a pobreza da Paraíba era grande. antes da Independência. numa carta ao rei de Portugal. em 1585. traduzido pelo sábio Câmara Cascudo. portanto da fundação da Paraíba.

para agradar a família. era amigo do senhor Joaquim (companheiro de Koster nessa viagem) e nos fez muitos obséquios durante minha estada. Seus pais são de família respeitável em uma província ao Norte de Portugal. a cidade possui seis igrejas. por isso foi nomeado governador da Paraíba). um velho muito amável e bem humorado. (Esse Amaro Joaquim deu o golpe do baú. seu capelão. Os conventos das ordens franciscanas. apenas um. creio. As residências têm geralmente um andar. mas deviam ser reparadas. A igreja do convento fica no centro e tem duas alas. A paisagem vista dos fundos do palácio é uma linda visão peculiar ao Brasil. a sede do governo da Paraíba. o viajante inglês que visitou a nossa capital em 1810. A outra que se está fazendo é bem maior. A igreja do dito convento foi derrubada no início de 1930. Meu companheiro o conhecia desde Lisboa. as fontes públicas na Paraíba foram as únicas obras deste gênero que encontrei em toda a extensão da costa por mim visitada (é porque ele não foi ao Maranhão). bordados por uma filha de colinas. Com o quisessem fazer padre. publicado em 1991. chamou-se São Gonçalo e depois Nossa Senhora da 25    . hoje não tem mais nenhum). carmelitas e beneditinas são os únicos edifícios. Uma foi construída. quando se ampliou o palácio. puseram-no no Seminário. Fomos depois a outra ala do prédio a fim de pagar a visita do ouvidor. naquele tempo já tinha pouco frade. Vejamos o que Koster disse. servindo o térreo para loja. O vetusto convento dos frades jesuítas já era. A fiscalização das obras públicas era a melhor ocupação do governador Amaro Joaquim. Além destes. por Amaro Joaquim. o segundo. para encerrar: Henry Koster (isso é um artigo meu. O convento dos jesuítas é utilizado como o Palácio do Governador e o Ouvidor tem aí sua repartição e residência. O primeiro tem quatro ou cinco frades.te e pediu a José Bonifácio para representar a Paraíba. Vastos e verdes bosques. governador recente. um pequeno e jovial frade. no CORREIO DA PARAÍBA). Fomos visitar esse cavalheiro no dia seguinte à nossa chegada. melhoramento há pouco introduzido no Recife. Um dos oficiais do regimento a que pertencia notou sua educação e conhecendo sua história fê-lo cadete. irrigadas pelos vários canais que derivam do rio. escreveu: "a principal rua é pavimentada com grandes pedras (rua General Osório. (Como se vê. Casou-se com uma moça da nobreza. outras nas eminências meio ocultas pelas árvores soberbas. quase desabitados. dois e o terceiro. tem várias bicas e é muito bonita. de onde fugiu e se alistou simples soldado em Lisboa. uma portuguesa que estava no Rio de Janeiro. hoje). com suas casinhas brancas semeadas nas margens. Algumas delas possuem janelas com vidros. quando ele era aspirante. desde a segunda metade do século XVIII.

por essa atividade. o que eu tenho a falar são duas reivindicações. com trabalho encetado quando da gestão do professor Sales Gaudêncio ainda na presidência da FUNESC. da UFPB. como este. inclusive é um trabalho. mostrando alguns equívocos históricos que se perpetuam na nossa historiografia por falta dum exame mais acurado sobre os fatos acontecidos. Quando a professora Regina Célia mencionou o PROJETO RESGATE.Conceição. em particular a sociedade pessoense. E a primeira reivindicação vai para o Magnífico Reitor Jáder Nunes de Oliveira. Daremos continuidade à sessão. Na primeira. 1º participante: Rosa Maria Godoy Silveira (chefe do Departamento de História da UFPB): Desejo fazer três observações. quero cumprimentar o Instituto Histórico. antes das reivindicações. em nome do Departamento de História da UFPB. gostaria de dizer que esse projeto está sendo feito pela Universidade e teve o financiamento do Ministério da Cultura e do Governo do Estado da Paraíba. nosso ex-Vice-presidente. E aproveitando essa presença interinstitucional na Mesa. um Seminário extensivo. A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães: O Instituto se congratula com a atuação do confrade Wellington Aguiar. concedendo a palavra aos participantes do Ciclo.Henry Koster . com a presença de várias instituições presentes nesta Mesa. Mais uma vez os nossos cumprimentos. até dezembro. é ávida da sua história. e historiador renomado e com vários livros publicados sobre nossa história. que é co-irmã da que nós estamos realizando na Universidade." Henry Koster viu com simpatia a capital e bem o demonstra no seu famoso livro VIAGENS AO NORDESTE DO BRASIL. que realizemos isso lá e cá. um dos quais . eu acho que mostra muito que a sociedade paraibana. um registro. o que demonstra espaço para debate e reflexão crítica sobre a História. que lá como cá. é feito de parceria. Aliás. aqui presente. Faço um destaque especial por sua contribuição apreciando o ponto de vista de importantes visitantes estrangeiros à nossa província. traduzido por Câmara Cascudo.mereceu destaque. Sua participação valorosa trouxe à baila interessantes passagens da vida paraibana no período colonial. É exatamente sobre a volta dessa documentação que 26    .

é a reflexão de que a gente também tem que olhar o futuro. E eu gostaria de reiterar o esforço conjunto no sentido da gente poder fazer isso e também organizar na Paraíba um sistema estadual de arquivos. mas cuja distribuição deve ser. A reivindicação é a publicação do catálogo. que em boa hora o Instituto Histórico começa a nos oferecer. É um catálogo de 500 páginas. aproveitando também a presença das instituições. a Universidade tentou fazer esse trabalho. Naturalmente.está sendo microfilmada neste momento em Portugal. 2º participante: Paula Frassinete (Bióloga. Lamentavelmente. Já existe um convênio nesse sentido e. neste momento aqui. um segundo catálogo elaborado pela professora Irene Fernandes. Nós temos nesse momento a felicidade de ter uma pessoa lá que fez o curso de especialização em Arquivo. com certeza. A terceira observação. não nos desmemoriarmos. Estou encantada pela História. é para nós desenvolvermos um esforço no sentido da organização do Arquivo Público. em tempos anteriores. primordialmente para as instituições culturais. representante da Associação dos Amigos da Natureza): Estou mais ou menos encantada com o que vocês e o Departamento de História estão fazendo conosco. porque é um dos poucos Estados em que esse sistema não está organizado. mas encontramos barreiras em governos anteriores. e eu gostaria de colocar tanto para a Universidade quanto para o IPHAEP e para a Subsecretaria de Cultura. eu acho que a comemoração é isso. Eles vão ser mais um trabalho de importância histórica. No ano que vem nós vamos precisar que a Universidade acolha isso e publique esse catálogo. decorrente do processo da questão da formação da terra na Paraíba. uma parte já está aqui. estou fazendo o curso que a Universidade está promovendo e quando soube desse Ciclo de Debates. Eu acho que têm dois arquivos que precisam de um esforço conjunto. A par disso. e já está sendo catalogada. imediatamente me dispus 27    . os dois trabalhos não são de feitio comercial. o que nós podemos fazer no presente para o futuro. para a gente não perder nosso passado. Isso já é um ponto positivo em nosso favor. nós temos pronto. quer dizer. historiográfica e de importância institucional. Há também um arquivo que nós vamos começar a examinar em conjunto com o Departamento de Enfermagem da Universidade: é o Arquivo da Santa Casa de Misericórdia. Até a própria tiragem deles não é uma coisa extremamente ampla. que vai ser da mais alta importância sobre esses quinze mil documentos. Há três projetos de organização do Arquivo Público.

Esta é a verdadeira comemoração que nós devemos a estes 500 anos do Brasil. porque é disto que nós estamos precisando neste país. do Império. E hoje não é isto? Então a gente parece que está revendo as práticas do império. inclusive num dos cursos de História se dizia que na época do Império o cidadão bom. E a história nos traz esta reflexão. o que a ANPUH. Eu parabenizo o Instituto Histórico e gostaria que a professora Regina informasse se há uma luz no fim do túnel. mas da a comemoração da pesquisa e do resgate. para transformá-lo.a vir. para aquela época. do ribombar. então nós nos sentimos órfãos. Não se trata da comemoração do festejo. Realmente estou me sentindo em estado de graça por estarmos começando este Ciclo de Debates. parabenizar a professora Regina pela forma brilhante como enfocou um conceito. A educação no nosso país está cada vez mais sucatada exatamente para não se gestar uma sociedade crítica. importante para o Brasil. em primeiro lugar. que corre paralelo com o Curso de Extensão análogo que se processa também na Universidade Federal da Paraíba. parecem que se re-encarnaram em alguns dos que estão à frente do país hoje. Quando se fala que de toda a produção acadêmica apenas 10 porcento já foram publicados e está à nossa disposição. Com uma universidade que há tanto tempo está aí. que só fez enriquecer este primeiro encontro nosso. de comemoração. Quero parabenizar também professor Wellington Aguiar pelo felicíssimo vol d'oiseaux em que vai de Tracunhaém até 1817. a universidade estão fazendo no sentido de garantir recursos para que esta história venha para nós. os historiadores. da Colônia. para que o cidadão brasileiro possa rever sua história e assim construir um novo país. E as práticas deste momento são as mesmas. Minha vinda a este microfone se prende a alguns fatos que dizem respeito 28    . era o que tinha dinheiro. 3º participante: Guilherme d'Avila Lins (Sócio do IHGP e presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica): É com muita alegria que vejo o início deste Ciclo de Debates. com o mesmo objetivo. notadamente a nossa Universidade Federal da Paraíba. É muito importante a gente ver dentro do Instituto o questionamento da autofagia. os destruidores do país. Quero. com estudos muito interessantes que vêm sendo feitos em todas as áreas e não tem havido o devido interesse do Ministério da Educação. E eu acho que o papel dos historiadores é fundamental. do qual eu também comungo. quando a gente vê que parece que os detratores do país.

Este livro trouxe algumas das maiores lições que aprendi em fontes primárias da Paraíba. Tanto quanto eu saiba. não um desencanto. um outro detalhe. a Igreja 29    . no período holandês. Já o Barão do Rio Branco falava da importância da grande batalha naval de 1640. Gostaria de frisar. segundo Barleus e segundo Franz Post. entre 1946 e 1949. Este é o nosso primeiro documento. por exemplo. quiçá. onde temos inúmeros itens do nosso acervo histórico-arquelógico do período colonial da Paraíba. Agradeço. O lugar do Forte Velho. do qual existe uma tiragem em separata. em volume único. o que me foi de grande ajuda para pinçar tantas informações sobre a Paraíba. criando-se a Capitania da Paraíba. Também gostaria de trazer para aqui um outro fato que diz respeito ao nosso período colonial e que é da mais alta importância. dificílimo. para realizar uma pesquisa arqueológica submarina para resgatarmos tudo o que deve existir desta batalha aqui na frente de Tambaú. Este livro foi publicado de forma esparsa na Revista do Arquivo Público de Pernambuco. em quatro tomos distintos. Nós estamos de frente para a margem esquerda do rio Paraíba. portanto. eu sei quantas horas de sono perdi tentando recuperar um pouquinho da história administrativa. Eu acho que esse é um projeto de grande alcance. pinçando aqui e acolá retalhos de fatos e datas. Com relação à história administrativa.àquele resgate histórico de documentos que a Universidade em tão boa hora tem procurado fazer. sem dúvida. mas um sonho de verdade de fazer um grande projeto com empresas competentes. E ela se deu no segundo e terceiro dia na frente do Cabo Branco e na frente do Cabedelo. uma releitura da nossa história colonial. como se o tivéssemos visto. e que começou com a professora Elza Régis e que. vai permitir. e está fazendo. Ele não foi ainda encontrado. esse documento ainda não foi encontrado. como sendo a mais importante batalha que houve em águas brasileiras. porque graças a essa riqueza que ela acumulou tantos dados no LIVRO DO TOMBO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO. E fico pensando por que nós não vamos comemorar nossos 500 anos articulando um sonho grande. aos beneditinos terem sido uma ordem rica. nomes e situações e até certo ponto agradeço à ordem beneditina ser tão rica. por último. para pontuar um detalhe histórico. A gente fala do desmembramento da Capitania de Itamaracá. E a gente fala com uma intimidade deste documento. dos primeiros anos da Capitania da Paraíba. mas que a dificuldade seja um desafio. Não foi encontrado. Entre outras coisas a gente diz. a uma milha de distância do nosso litoral. só um detalhe.

que jamais é citado na historiografia paraibana. que é talvez a última que resta neste país. Quero cumprimentar o presidente do Instituto Histórico por esse Ciclo de Debates.da Guia. e dizer que o passo inicial foi dado com o PROJETO RESGATE. Mas existem outros locais importantíssimos como a Ilha da Restinga e o Forte do Gargaú. 4º participante: Célia Camará Ribeiro (do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói): Quero dizer. certamente. mas de passagem neste momento por João Pessoa. a Universidade pondo o seu material humano para trabalhar fora do país. porque ele foi assim um historiador profícuo. Com relação às outras reivindicações da professora Rosa Godoy. 5º participante: Francisco Sales Gaudêncio (representante do Governador do Estado e presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado): Inicialmente desejo cumprimentar Regina Célia Gonçalves e Wellington Aguiar e aproveitando as reivindicações da chefe do Departamento de História da UFPB. Enfim. colega Rosa Godoy. Ele foi feito pelos holandeses depois de 1634. morando no Rio de Janeiro. mas sem diminui-la. Ele só tem sido registrado no ato da rendição em que foi entregue aos luso-brasileiros. Como o holandês não fazia forte de madeira. quero parabenizar também o debatedor. por onde ficou lá por quase nove meses e os recursos do Governo do Estado e do Ministério da Cultura. também precisa ser examinada. filha de paraibanos. agora recuperada. Ministério da Cultura e o Governo do Estado. Esse foi o primeiro passo. para quem não me conhece. que me pediu para vir aqui em 30    . o professor Carlos Pereira. Esse apoio foi dividido entre a Universidade. A Paraíba se inclui. o debatedor desta tarde. e quando da minha estada à frente da Fundação Espaço Cultural. eu estou projetando a ideia de um sítio históricoarqueológico da Paraíba ao longo da foz do rio Paraíba. ela foi muito didática. na gestão do ano passado à frente do Arquivo Histórico do professor Wellington Aguiar. ruínas dele devem existir dentro dos canaviais perdidos. e jamais foi citado por historiadores da Paraíba. que nasci em João Pessoa. com mais dez Estados da Federação no projeto em nível nacional. Acho que estes são desafios que também temos de examinar. Secretário da Educação e Cultura. A Atalaia de Forte Velho. Quero parabenizar a ilustre conferencista.

Universidade. a partir da Paraíba. Academia Paraibana de Letras. possamos ter uma comissão que venha apresentar à comissão constituída junto ao Conselho Estadual de Cultura para um programa efetivo de publicações e que venha marcar a celebração dos 500 anos do Brasil.nome dele. que trata de assuntos da velha Paraíba através dos jornais. de 540 páginas. à história inicial do Brasil. presente também Francisco Pereira. É um levantamento. mas também através dessa comissão estará sendo publicado em Decreto brevemente.da nossa colega Regina quanto aos temas ligados à Colônia. É com satisfação que. no que diz respeito a determinados temas lembrados aqui pela colega Regina Gonçalves. E. não só do trabalho que se está fazendo através do Conselho do Patrimônio. por último. eu ouvi aqui as cobranças . ao Império. metodologicamente cuidada. voltamos essas ações para a interiorização. no que diz respeito a essas celebrações. certamente os assuntos ligados à política de preservação de patrimônio caberão ao IPHAEP. através dessas instituições. como a Universidade Estadual da Paraíba. dou em primeira mão essas notícias que estão sendo esboçadas pela Subsecretaria de Cultura e pela Secretaria de Educação. enfim. Através do Instituto. através da Secretaria e da Subsecretaria de Cultura. da própria Secretaria de Estado e de outros órgãos da Paraíba. Por isso quero antecipar o envolvimento do Conselho Estadual de Cultura e do próprio Governo do Estado. que possibilitou a recomendação daquele colegiado para sua publicação. E. Instituto Histórico. Departamento de História. é uma pesquisa rigorosa. a Universidade Federal a Paraíba para que. Considerações finais pela professora Regina Célia Gonçalves: 31    . este envolvimento institucional IPHAEP. que ouvi atentamente. do IPHAEP. entre outros assuntos da pauta desta comissão está exatamente o envolvimento de órgãos como o Instituto Histórico. em nome do Secretário Carlos Pereira. Wellington Aguiar. Portanto. certamente resultará que a Paraíba não fique à margem das celebrações dos 500 anos do Brasil.no bom sentido . da Universidade. e como representante dessa comissão no IPHAEP. cujo título é A VELHA PARAÍBA NAS PÁGINAS DE JORNAIS. informo que com Carlos Pereira tivemos uma reunião sobre a retomada da comissão de celebração de uma revisão crítica da História do Brasil nos seus 500 anos. Eu digo ao professor Wellington Aguiar que fui relator do seu trabalho no Conselho Estadual de Cultura. dentro de mais algum tempo. que vêm exatamente atender às reivindicações do historiador Guilherme d'Avila Lins. nosso subsecretário de Cultura. estará lançando o livro também quilométrico. de uma programação consistente.

de largo fôlego. e pensar grande no sentido da operacionalização e aí eu acho que o caminho. no século XVII. de outros Estados também. o que hoje nós podemos fazer é juntar um pedaço do salário para no fim do ano tentar a publicação. Temos que pensar grandes projetos. é a interdisciplinaridade e a interinstitucionalização. grandes projetos não só no seu conteúdo. Há muitas questões importantes a serem respondidas. É pensar mega-projetos reunindo diferentes organismos que trabalham com a pesquisa histórica. a de dar apoio logístico. mais do que isso. nós estamos também longe dos grandes centros e o mercado editorial é cada vez mais complicado. É preciso pensar grande nesse sentido. nós temos que pensar grande. esclareço o seguinte: Segundo me parece. Às vezes falta papel. Rosa Godoy sempre diz isso para o Departamento de História. e isso não foi realizado. se possível. às vezes falta dinheiro para fazer uma viagem ao Conde. porque a gente também não tem. de outros lugares. Esse tem sido o caminho em geral encontrado por nós que produzimos pesquisa histórica aqui no Nordeste. são coisas do dia-a-dia que os pesquisadores têm que lutar com uma grande dificuldade para dar conta dos seus trabalhos. dificuldades como. Temos que planejar a médio e longo prazo. no seu objetivo. pois apoio financeiro a gente não pode. o que isso nos vai revelar sobre a importância desse território. do ponto de vista estratégico no século XVI. Em tempos de globalização. teremos mais e melhores condições de superar as dificuldades que hoje são colocadas no dia-a-dia. Guilherme d'Avila Lins e Rosa Godoy. Se nós conseguirmos nos reunir para pensar projetos de longo prazo. 32    . conforme estava conversando com o professor Luiz Hugo Guimarães. pois muitas questões ainda estão por serem colocadas.Em atenção aos pontos de vista e pedidos de informação apresentados pelos participantes Paula Frassinete. a auto-publicação. É fundamental. arqueológica e ambiental na Paraíba e. ou a gente pensa institucionalmente ou a gente não vai a lugar nenhum. Então eu penso que essa é a única forma com que a gente tem para superar as dificuldades. sem dúvida alguma. falta cartucho para a impressora. do qual é Chefe. de avançar com as nossas pesquisas para o conhecimento desta terra. Com relação às publicações de 10 por cento dos trabalhos efetuados. Infelizmente. O trabalho individual sentado num tema específico e com recorte microscópico vai ter cada vez menos chance nesse mercado. Esse tema é muito bem lembrado pelo professor Guilherme sobre a arqueologia submarina. Um tema é Arqueologia.

33    . Muito obrigada.Senhor Presidente: Agradeço a esse seleto auditório pela atenção dada à minha palestra.

iniciaremos esta segunda sessão com a apreciação do tema A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO. ex-vice-presidente do Fórum Nacional de Pró-reitores de Graduação. e. que será o debatedor designado para tratar do tema. convido o consócio Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Temos a satisfação de apresentar aos presentes a professora Rosa Maria Godoy Silveira. membro do Conselho Estadual de Cultura. é mestra e doutora pela USP. Expositora: Rosa Maria Godoy Silveira (Mestra e Doutora em História. convido o vereador José Bernardino. chefe do Departamento de História da UFPB) Mais uma vez. da UFPB. ex-pró-reitora da graduação. cujos frutos têm sido bastante positivos durante a administração do professor Joacil Pereira e do professor Luiz Hugo Guimarães. atual chefe do Departamento de História da UFPB. uma breve síntese tentando en34    . agradeço minha participação nesse Ciclo de Debates. quando concluímos a organização do acervo do IHGP. Para compor a mesa. Tem vários livros publicados e inúmeros artigos em revistas especializadas. doutora Rosa Maria Godoy Silveira. que convido para participar da mesa dos trabalhos. da Câmara Municipal de Santa Rita. para fazer parte da mesa. que será enfocado pela professora da UFPB. convido o acadêmico Odilon Ribeiro Coutinho. Sobre o tema que me foi proposto – A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO – nós optamos para fazer um pequeno texto. presidente da Academia Paraibana de Letras. finalmente. em nome do Departamento de História da UFPB e em meu nome. que reafirma nossa parceria com o Instituto Histórico. convido também o acadêmico e consócio Joacil de Britto Pereira. Tenho a satisfação de passar a palavra à nossa ilustre palestrante de hoje.2º Tema A PARAÍBA DURANTE O IMPÉRIO Expositora: Rosa Maria Godoy Silveira Debatedor: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães: Dando continuidade ao nosso Ciclo de Debates iniciado com grande aproveitamento com a palestra da professora Regina Célia Gonçalves.

João VI a Portugal. sul do Ceará e. E a espoliação continuava. que se pagava a indenização portuguesa aos holandeses na sua expulsão dourada. sobre este recorte temporal. após a eclosão da Revolução do Porto. Pernambuco. Deste levantamento entre os cerca de 118 títulos levantados no Índice do IHGP. O espaço paraibano. O Império tem sido sempre o pior período em matéria de pesquisa histórica. A ascendência econômica historicamente construída. que foi um balanço que nós próprios fizemos num curso que está sendo ministrado na Universidade constatou-se que este período tem sido um dos menos pesquisados. é claro. o pior período da História do Brasil. pois foi dos recursos desta área geográfica. tendo sido subordinado politicamente. já havia sido profundamente espoliado de suas riquezas e de seus recursos financeiros. E é. dois temas avultam em número de artigos: a Revolução de 1817 (que está na fase da transição) e a Escravidão/Abolição. a construção da ordem e a crise agrária. tendo vivenciado a experiência do invasor holandês. entende-se o largo espectro entre a Revolução de 1817. no entanto. Mas.tender algumas questões fundamentais do período imperial na Paraíba. da Capitania do Sul sobre as suas vizinhas. todos esses três movimentos significam a luta contra um modelo político centralizador. que se sustentou a Corte do Rio de Janeiro e que se custeou até mesmo o regresso de D. Tais temas são: os movimentos liberais. embora o primeiro e os dois últimos movimentos se diferenciem pela própria mudança no conteúdo do Estado no Brasil. que se expressara político35    . senão o menos pesquisado da nossa história. Consideramos. Por movimentos liberais. em matéria de ensino de História. com a chegada da Família Real. no gênero biográfico predominam artigos sobre Pedro Américo. Em recente balanço sobre a produção historiográfica relativa à Paraíba imperial. com certeza. sem desconsiderar a importância da micro-História. tendo integrado o território mais rico da Colônia. decorrente do processo de nossa autonomia política. em comum. a Pernambuco. em 1848. Todo esse conjunto de processos em sua formação histórica explica a mentalidade libertária presente na Paraíba. do depois Nordeste Oriental. É vidente que não vou esgotá-las no limite do tempo que me foi dado e no limite deste texto. que a compreensão da História da Paraíba no Império passa por alguns grandes temas basilares. passando pela Confederação do Equador até a Revolução Praieira. questões estas que se abrem ao debate. em articulação com o Rio Grande do Norte. durante 44 anos. enquanto.

como a famosa delegação de poderes. no século XVIII. em Pernambuco. exarada pela Junta Governativa da Paraíba para que José Bonifácio a representasse junto ao Conselho de Procuradores das Províncias do Brasil. fosse da “metrópole interiorizada”. no Rio de Janeiro. face às ameaças recolonizadoras de Lisboa. mais do que a representação de José Bonifácio. declara reconhecer no Regente a única soberania à qual prestar obediência. com o movimento constitucionalista no Porto. pois um liberalismo dos proprietários de terra. escravista e católico. para usar a expressão da historiadora Maria Odila Silva Dias. E a conjuntura fazia pender a balança para a autonomia seja pelos acontecimentos próximos. Há acontecimentos. esquecidos pelo tempo. fazia com que esse libertarismo assumisse feições regionais. a merecer rememoração. Se era um liberalismo à brasileira. Também estão a merecer reflexões e estudos mais acurados fatos como a adesão da 36    . fosse da metrópole. A crise açucareira posta desde o século XVII fazia com que essa configuração regional. no processo paraibano. no projeto de 1817 já estão postos elementos diferenciadores: o modelo republicano e a crítica à centralização. na Corte e em Portugal. se era. Mas a memória da repressão de 17 era muito recente. até então constituídas. em junho de 1822. com a instalação também da Junta de Goiana e da Junta do Recife. Pedro. o documento emanado da reunião conjunta do Senado da Câmara da capital paraibana e da Junta Governativa. Paraibanos haviam sido imolados de forma brutal. no entanto. convocado pelo Regente D. Pedro. permeando os corpos militares e espraiando-se pelo interior. sejam os mais longínquos.administrativamente pela anexação. alternandose episódios favoráveis ora a um lado ora a outro. A instituição das Juntas governativas e a deposição das autoridades metropolitanas. em que a Paraíba. e comunicado em discurso de José Bonifácio a D. um processo pacífico na Paraíba. sem deixar de inserir-se no movimento mais amplo de contestação ao poder metropolitano. e o professor Aguiar se referiu a um deles. Famílias bem situadas na pirâmide social tinham sofrido sequestro dos seus bens. que ajudava a solapar uma monarquia absolutista já fissurada neste lado do Atlântico. como bem o caracterizou a historiadora Emília Viotti da Costa. buscasse um projeto político específico a suas necessidades e peculiaridades. custou confrontos entre autonomistas e colonialistas. por contraste ao liberalismo burguês e anticlerical europeu. O período entre 1817 e 1822 não constituiu. Ou seja: não era a fórmula política de transação com a Casa de Bragança que expressaria a substância do liberalismo emergente no “Nordeste” Oriental.

área sertaneja. Derrotaram os Confederados as forças políticas que. A derrota da Confederação do Equador talvez tenha sido o grande abortamento da virtualidade de um outro país nessa parte do Brasil. Na Paraíba. reveladora das dificuldades em formatar o novo Estado nacional brasileiro emergente de modo a conciliar a soberania do rei e a soberania do povo. no Ceará e do general Madeira. na Bahia. que perduraria longo tempo. as desconfianças diante de um quadro político ainda indefinido. Medo da recolonização. no entanto. A nossa Gironda escravocrata temeu a nossa Montanha cabocla. a frente ampla anti-metropolitana. pelos liberais per37    . e a participação de tropas paraibanas nas lutas contra as forças metropolitanas do general Fidié. adesão essa ao partido da autonomia. em nosso caso. particularmente constelada em Sousa. mas dá-lhe novos contornos. até a morte de D. republicano. recusou-se. inscritos em nossa autonomia transacionada. em 1834. A luta contra o autoritarismo. ou seja. Na Paraíba. para os quais a fragmentação territorial brasileira se lhes afigurava como perigosa e ameaçadora à manutenção da autonomia recém-acontecida. não iam a ponto de incorporarem em seu projeto. pré-22. além do medo da divisão do Brasil. consumada a autonomia. de um lado um Manuel Clemente Cavalcanti de Albuquerque. os radicais de Frei Caneca. mas o separatismo confederado é um novo ingrediente. mesmo tendo abdicado do trono brasileiro em 1831. tiveram medo da democracia no país. Pedro I. que. Mas complexas são as paixões políticas dos momentos históricos de rupturas. os escravos. se fragmentara diante do grande desafio de construir o Estado nacional. e. já indicado à Assembleia Constituinte de 1823. A Confederação do Equador reitera o espírito libertário regional. como em outras províncias. invadida territorialmente por todos os lados. na mesma cerimônia. que. embora o personagem oponente seja outro. luvas e bastão na cerimônia de sua coroação como imperador. Nem bem se separa o Brasil de Portugal e a conjuntura novamente efervescia. princípios de organização política conflitantes. como os “montanheses” franceses. composta de elementos díspares. Pedro I. o povo mais desvalido. ao beija-mão a D. retoma a chama de 1817. o modelo republicano subjaz em 1824. Melhor ou pior? Não sabemos. um Joaquim Manuel Carneiro da Cunha. de outro lado. Pedro para carregar sua espada. escolhido por D. atemorizando os artífices da monarquia unitarista. com o confronto entre o imperador e a Constituinte. a produzirem. representante eleito da Paraíba ao Conselho de Procuradores. pairavam nos corações e nas mentes. Pois.

liberalismo esse que a derrota parece não ter extirpado. o governo e o Conselho provincial não extravasam a legalidade e enviam tropas para auxiliar Francisco de Lima e Silva na repressão aos confederados pernambucanos. praticamente não foi analisado. São João do Cariri. para ampliar a presença do poder público. evidenciando que o Estado nacional brasileiro constituiu-se de uma cidadania restrita. A documentação existente sobre a Guarda Nacional é 38    . dirigida a Corte.9% eram eleitores.4% da população paraibana dele participavam. Com a criação da Guarda Nacional. Através do voto censitário e indireto. e o 2º Distrito. que significa a desconcentração do poder e não a sua descentralização e era exercida em forma de rodízio. Catolé do Rocha. com três representantes. Alhandra. A ordem monárquico-centralista. Apenas cinco deputados. Bananeiras. o Estado nacional vai implantando a máquina políticoadministrativa na província: A Presidência da Província.nambucanos. Mais grave do que isso. apesar da documentação existente no Arquivo Público do Estado. A construção da ordem: eis o segundo grande tema da Paraíba imperial. Independência (Guarabira). pois que Areia se re-edita na Praieira. aqueles que podiam votar e ser votados. o aparato judiciário e policial. Reprimido o inimigo fragmentário do momento. as parentelas. o mais desconhecido na historiografia paraibana relativa ao Império. incluindo a própria capital. Talvez. nesse momento. Os liberais da província fazem de Areia um reduto. Pombal. Em nível de Império. instituído pela Carta outorgada de 1824. vai-se instaurando. e menos ainda. Piancó e Sousa. Alagoa Nova. porém. que não terá poderes legislativos até o Ato Adicional de 1834. usualmente oriundos de elites agrárias estruturadas em grupos familiares. Patos. e era a expressão da época. uma representação modesta. ou seja. Areia. abarcando dois distritos eleitorais bastante amplos territorialmente: o da capital. embora ainda não debelado o perigo da fragmentação. era o conteúdo excludente do sistema eleitoral: apenas 6. incluindo Campina Grande. quando se converte em Assembleia Legislativa. contudo. o Conselho Provincial. eram. norte-rio-grandenses e cearenses. Novas vilas e cidades são criadas. Cidadãos ativos. Mamanguape. Na Paraíba. Pilar. Cabaceiras. esse processo. eram eleitos os representantes da província na Assembleia Geral do Império. somente 3. Representação estabelecida territorialmente diferenciada no Estado nacional e socialmente hierarquizada. Pedras de Fogo e Ingá. com dois deputados. que controlavam o poder local. o localismo se reforça. em 1831.

Pernambuco e Paraíba: nesta província. editando os primeiros jornais paraibanos. então. como tão bem caracterizou essa fase José Murilo de Carvalho. na região do Crato. a historiografia paraibana praticamente não fala de movimentos como os que aconteceram no Recife. começam a evidenciar-se medidas de maior burocratização do Estado. que iniciou proselitismo no interior. Joaquim Pinto Madeira. Se tais medidas podem ser interpretadas como tentativas de debelar a criminalidade. durante toda a década de trinta. os nacionalistas ou liberais moderados e os chamados radicais federalistas. cria-se o Liceu Paraibano. Catolé do Rocha. envolvendo tropas e mesmo povo. articulando-se com os “Colunas” do Trono e do Altar. entre os quais o de Borges da Fonseca. instituição que seria. Cabaceiras. Sabe-se que. a institucionalização do poder público. em Jardim. Mamanguape e Ingá. significa dizer. surgem tipografias. Por outro lado. como aquelas referentes a confrontos entre as correntes políticas da primeira metade do período regencial: os recolonizadores caramurus. por vezes referida nos Relatórios dos Presidentes de Província. Novembrada e Abrilada ou. que chegou a ir ao Tribunal do Júri por crime de o39    . na província? É uma interrogação à pesquisa. Instala-se o Tribunal do Júri. Criam-se corpos policiais. Bananeiras. outras notícias interessantes ainda não foram alvo de maior investigação. Patos. Sabe-se que existiu na capital paraibana uma Sociedade Federal da Parahyba do Norte. liderava um levante de intuito restaurador. do Recife. a Regência é um período em que se instalam várias cadeiras de instrução pública na capital e em outras vilas. visto que temos documentação também não compulsada a respeito da Paraíba e existente no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. ou nem fala também de movimentos como movimentos regenciais em províncias mais distantes. Independência. atingiu Sousa. Mas. daí em diante. neste início da Regência. em 1836. Mas. Esse movimento teve ressonância nos sertões do Rio Grande do Norte. depois. Multiplica-se o número de cadeias públicas. tais quais a Setembrizada. com o preenchimento sistemático dos cargos de juizes de fora. O que teria acontecido nesta parte do Brasil? A ausência de referências a tais movimentos é indício da sua não ocorrência? Parece ter sido. o que aconteceu com essas erupções políticas da época. São fatos a demonstrarem que a ordem não estava estabilizada. Piancó. Mas. a primeira formadora das elites dirigentes provinciais. no sul pernambucano com os cabanos.numerosa. se havia rusgas e pequenos motins. juizes de paz e juizes de direito. na década de 30.

devido à perda de títulos sesmariais ocorridos durante a luta contra os holandeses. talvez.pinião. de um lado. temos a manifestação de um paraibano. alguns dos quais descendentes dos liberais praieiros. dizendo-se representante da região e apontando as dificuldades de regularização do quadro fundiário. durante o processo de discussão do projeto de lei na Câmara dos Deputados. que é Maximiano Machado. se somado ao estudo das famílias políticas através do recurso à genealogia. apontam também a presença. ainda depois disso. Sobre a Lei de Terras e suas decorrências. Têm revelado que a província era território de fronteira fechada. sobre os registros de terras decorrentes da Lei de 1850 e de seu Regulamento de 1854. Foi o movimento em Areia algo sem maior relevância ou a vitória dos conservadores apagou a memória sobre esse acontecimento? Por que a cidade de Areia continuou a ser uma força de políticos expressivos. Por contraste. que seria o depoimento do lado conservador e vitorioso sobre o acontecimento. Sobre a Praieira na província falarei pouco. Duas questões apontam que a historiografia paraibana precisa debruçarse muito mais sobre todo o período imperial. Este nos parece ser um tema central para a compreensão da História nordestina. pesquisa que vimos realizando a algum tempo. com poucas terras devolutas. não era bem assim. A primeira questão concerne à Lei de Terras. como a família Santos Leal? O terceiro tema significativo da Paraíba imperial é a sua crise agrária. o que é uma tendência bastante inversa ao que está ocorrendo na região cafeeira nesse momento. de um número expressivo de mulheres proprietárias e o recebimento da terra por herança com uma leve tendência de mercantilização. além de outros embaraços para regularizar a questão fundiária. como em Pernambuco. Tivemos o nosso Urbano Sabino. o abolicionismo não tenha sido tão forte como em outras 40    . Embora o II Reinado pareça ter transcorrido sem maiores transtornos. ou devido ao fato de que muitos proprietários ou grandes posseiros não terem recebido títulos sesmariais. não parecem apontar os graves problemas invocados por Carneiro da Cunha. falta-nos o nosso Figueira de Melo. no hoje Sudeste. em certas localidades. com as famílias políticas se abrigando no bipartidarismo surgido do Regresso. Joaquim Manuel Carneiro da Cunha. à Revolução Praieira. em cujo âmbito se pode compreender a eclosão de movimentos sociais como o Ronco da Abelha e o Quebra Quilos bem como o processo de desagregação da ordem escravista e porque. a segunda. mas chega a ser espantoso o silêncio da historiografia.

no início dos anos 50. Pouco mais de duas décadas.províncias. cuja disponibilidade era grande. para a região cafeeira florescente nas províncias do Rio de Janeiro. em 1878. Braços escravos são vendidos. guardaria articulações com os remanescentes praieiros de Areia. Minas Gerais e São Paulo. na opinião de alguns historiadores como Hamilton Monteiro e Marc Hoffnagel. a Paraíba tinha uma população de 300. a consequente descapitalização dessas lavouras. Na própria seca de 1877. a perspectiva de um fim relativamente próximo da escravidão. provocaram a segunda sangria de braços que a Paraíba e a região. já é visível esse processo assim como nos discursos dos representantes políticos da província. basicamente na mesma área. das quais 50% eram elementos livres. embora a participação desta tenha sido modesta no Congresso Agrícola do Recife. junto com ele. As massas errantes de homens pobres livres começam a ser submetidas à disciplinarização para o trabalho nas grandes propriedades. herdada do período colonial. na década de 60). como apontam os quadros anexos ao trabalho da professora Elza Régis sobre a Paraíba do século XVIII. como apontou o trabalho de Diana Galliza. estava gestando relações de trabalho que constituiriam a “solução” das elites agrárias para o problema da mão-de-obra. muitas vezes burlando o fisco. 41    . quando o fim do tráfico negreiro colocou. de um modo geral. a população livre era relevante. acontecimentos que se inserem no processo mais abrangente de modernização no país. soavam como o seu próprio cativeiro. cuja exploração aumentara com a expansão algodoeira. decretados pelo Governo saquarema. Significa dizer que a situação crítica da agricultura de exportação. Paraíba e Pernambuco fazem eclodir o Ronco da Abelha. o recenseamento e a obrigatoriedade do registro civil. a dificuldade para uma modernização tecnológica. Camponeses do Agreste do Rio Grande do Norte. Os homens pobres livres. dado que a crise agrária não permitia a adoção do sistema imigrantista. Já no final do século XVIII. tais como a abolição do tráfico negreiro. Por volta de 1860. que. Para a população pobre livre.000 pessoas. quando a questão ficou mais explícita. este trabalhando sobre a Paraíba. seja do açúcar seja do algodão (salvo este produto em alguns momentos conjunturais breves. sofreram – lembremo-nos da primeira sangria para as Minas Gerais. mesmo quando os escravos persistem em número expressivo no sertão algodoeiro. A dificuldade de concorrência nos mercados internacionais. passam a ser encarados como uma saída para a elite agrária. somadas as motivações próprias dos revoltosos. solução mais barata. novo movimento.

conflitos políticos locais no âmbito da elite. os abusos dos governos e do que a massa chamava de “vampiros”. a professora Rosa Godoy pôde cobrir aquele período imperial mostrando suas principais fases. como o de Jesuíno Brilhante. como as demais províncias. atingindo até Alagoas. agregada ao aumento de impostos dos governos provinciais do Norte. ao longo do regime. apontando inúmeras ocorrências de vulto ainda pouco estudadas. que ocorreram aqui perto. um mês depois. eclodissem novas manifestações populares. os arrematantes de impostos. forte ainda neste momento. pela centralização política. contra o recrutamento. tais como o envolvimento da Igreja. Asfixiada.como reação à nova medida modernizadora adotada pelo gabinete Rio Branco. depois de já terem dizimado cerca de 30 mil pessoas na década de 50. a Setembrizada. Várias outras motivações se imbricam neste movimento. não impediria que. estudo e análise dos nossos historiadores. em que a participação de bando mulheres era significativa e precisa ser pesquisada. empobrecida pela crise agrária e desassistida pelo Governo. como disse Geraldo Joffily. irradiando-se por cerca de 30 a 40 localidades paraibanas. igualmente nas duas províncias vizinhas. desta vez. a Novembrada. a instituição do sistema métrico decimal. em Pernambuco. era uma explosão contra a carestia. A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães: Como era de se esperar. onde as epidemias grassavam. 42    . a crise agrária e a Lei de Terras. com os “coletes de couro” do capitão Longuinho. a importância da Guarda Nacional na Paraíba. e mais do que isso. Era revolta nas feiras do Agreste. Também desta época data a maior visibilidade dos bandos de cangaceiros. a brilhante exposição da professora Rosa Godoy nos oferece um quadro expressivo da Paraíba durante o Império. Era uma área em convulsão. A dura repressão ao movimento. ou seja. despejando levas de retirantes na capital. A “revolta dos matutos”. então em confronto com o Governo imperial na chamada Questão Religiosa. Era num quadro crítico que a Paraíba encerra o seu período imperial. Não obstante os limites do tempo regulamentar estabelecido no Ciclo para os expositores (vinte minutos). a ausência de estudo aprofundado sobre a Paraíba e os movimentos insurrecionais como a Abrilada. foram temas levantados pela expositora como itens importantes a desafiarem a curiosidade. na interpretação dos conservadores vencedores. coletores e atravessadores. O aprofundamento sobre a Revolução Praieira na Paraíba. que a seca só fez acirrar. cuja documentação é copiosa no nosso Arquivo Público. dívidas fiscais-financeiras e até mesmo antilusitanismo.

pesquisador. Rigorosamente deu certo. e a maioria deles vencidos pelo nosso povo.Essa contribuição da professora é bastante valiosa para o futuro da nossa historiografia. da qual a Paraíba é uma parte. Dando continuidade à sessão.. Uma verdadeira aula. porque todo o auditório esperava exatamente o que ocorreu. Historiador. Realmente o período imperial não completou um século. membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano) Todos estamos gratificados pela palestra da professora Rosa Godoy. jornalista atuante. historiador. período brilhantíssimo. Debatedor: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho (Escritor. A minha palavra é apenas para fazer-me intérprete de todos e colaborar e exaltar. autor de vários trabalhos de cunho histórico. como debatedor. preencher alguns espaços vazios sobre o que disse a expositora desse período da história pátria. as três Américas. que dizia que o Brasil é um país que deu certo. inclusive na América inglesa. Com a palavra o historiador Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. O Canadá está aí. Mas eu diria que foi um período muito brilhante. A América inglesa não conseguiu ter esta unidade. pelo que agradeço em nome dos organizadores deste evento. inclusive Jamaica. de missão. pela nossa civilização ibérica. Reconhecemos que houve exa43    . Marcus Odilon ocupará a tribuna para se desincumbir de com brilho. teremos a participação. eu não digo de crises. O primeiro dos desafios era a fragmentação. porque o atual Estados Unidos não eram a única colônia inglesa. eu digo de desafios. do nosso consócio Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. fragmentação que ocorreu em todas as Américas. sem nenhuma exceção. A nossa expositora afirma que o período do império foi um período curto e um período também menos pesquisado. além de algumas outras possessões inglesas no Caribe. o período imperial foi um período de muitos desafios. Esta unidade nem sempre fora conquistada como uma afirmação de cavalheirismo. nós todos reforçávamos a tese de Gilberto Freire. no melhor sentido da palavra. e talvez. tenho a certeza. polemista conhecido. Ora. Não foi surpresa. mas é totalmente integrada. Há poucos dias conversando com vários confrades. enquanto que o período colonial excedeu a três séculos e o período republicano já excede a um século. de fatos positivos. no máximo.

Antes de ler esse livro eu não sabia. era o prato. na época já tinha um teatro) porque parecia uma loja maçônica. qual o país que não teve isso? Essas nossas crises foram crises mundiais da espécie humana. que havia repressão e seria o Brasil um modelo a não se adotar. É rigorosamente em contrário. Então me parece que a revolução de Quebra Quilos foi uma revolução muito clerical. que era um avanço na época. Ele esteve na Paraíba. é preciso que se diga. esteve no Ceará e sugeriu ao imperador Pedro II a adoção do sistema metodológico decimal. também por parte do governo republicano. Porque aqui no Brasil. e essa biografia diz que a idéia de adotar o sistema decimal foi uma sugestão de Antônio Gonçalves Dias. cada região tinha um sistema: era a vara. Areia. que é um nome nacional conhecido de todos os presentes. um povo infelicitado por muitos períodos de ditadura. Afinal todos os sistemas políticos visam uma só coisa: melhorar a qualidade de vida daqueles por que eles se responsabilizam. Em qualquer continente a alma humana se comporta de igual maneira. Estou aqui com um trabalho. Antônio Gonçalves Dias esteve aqui na Paraíba. fanática. contra a maçonaria. até motivada pelo próprio clima onde ela habita. o pai dele morreu. afinal o homem é um só. e soube em conversa com o historiador Deusdedit Leitão. Então. no interior brasileiro mais ainda. Quando os revolucionários de Quebra Quilos estiveram em Areia danificaram o teatro (e veja. professora Rosa Godoy. ficava extremamente difícil uma fiscalização por parte do governo imperial. pois não havia esse dinheiro fácil.geros. Até há pouco tempo eu ouvia um ilustre conferencista dizer que o Brasil não tinha dado certo. O movimento de Quebra Quilos. com uma missão do Barão de Capanema. por exemplo. uma biografia escrita por um maranhense sobre o também maranhense Gonçalves Dias. como há em qualquer parte do mundo. que se apresentou na Paraíba. foi um movimento liberal e foi um movimento que reafirma a disposição contestatória do povo paraibano. Mas. era a cuia. evidentemente com algumas variações. esteve em todo o Nordeste. pesquisador de todas as horas. e para lá fora enviado pela família. que era um homem formado em Coimbra. conhecia a Europa. A nossa evolução também. Eu discuto isso e na minha opinião é exatamente o contrário. E foi quase com a contribuição dos amigos que ele foi levado a prosseguir seus estudos e fazer um curso superior. Quando Gonçalves Dias ia embarcar para Lisboa para fazer o curso em Coimbra. era a lata nos mais diferentes locais. por parte do governo da província e se não fosse por parte do governo imperial. que é desta Casa. com grande sacrifício. houve repressões nesse período. o que realmente pouca gente sabe. Ficava difícil. 44    .

pela Constituição. precisava ter uma renda mínima. mas reconheço o grande trabalho que foi feito pela maçonaria em prol da independência. Vital. que foi também um momento antimaçônico. Os padres. um baiano bispo de Belém. Uma coisa que a professora Rosa Godoy falou era que havia dois distritos eleitorais. Foi a cidade de Lages a ter a primeira prefeita. porque a legislação eleitoral era estadual. D. os sacristões eram pagos pelo governo imperial. paraibano e bispo de Olinda e Recife e D. situação que talvez fosse correta em face da nossa população. salvo engano. Acho que só nos temos de nos orgulhar da época do Império. Cinco deputados naquela época representavam muito mais do que 15 de hoje. no Rio Grande do Norte. que já havia no Império. Antônio Macedo. tinham sido reprimidos. embora a maçonaria tenha perdido muito a sua força. que veio com a República. por sua livre e espontânea vontade.Se houve reacionarismo. naquele período. diga-se de passagem. no Império os analfabetos já votavam. Era a chamada a lei da mandioca. o reacionarismo estava na parte dos que promoviam o movimento do Quebra Quilos. Agora. conforme está no trabalho da confreira Martha Falcão. dizendo que a Paraíba tinha apenas cinco deputados. É preciso que se diga. Infelizmente esses dois bispos se insubordinaram porque queriam excluir das lojas maçônicas padres que. coisa que recentemente foi restabelecido. Essa ideia do voto proporcional. Estavam num acordo que veio até a República. Então a Igreja tinha também que prestar alguma solidariedade e obediência ao Império. Isso é um avanço. Hoje os formadores de opinião pública são todos unânimes. os funcionários. Mas. Os analfabetos tinham direito a votar. isto é. e dois dos bispos. Ótimo. A expositora falou sobre a nossa atuação política. Boris Casoy se esgoela e chega até à radicalização de dizer. pertenciam a esse movimento. quando a população dobrou ou triplicou. Dona Iracema Feijó requereu um mandado de segurança para ter o direito de votar. quem tivesse uma 45    . que uma das coisas que se precisa na reforma política brasileira é exatamente nós evoluirmos para o voto distrital. porque a maçonaria era muito mal vista pelo clero católico. neste século. o da capital e o do sertão. Naquela época a população era pequena e as mulheres não votavam. é um verdadeiro horror. A República foi quem realmente separou a Igreja do Estado. se adotava o voto distrital. pois há pouco tempo tinha havido o grande conflito da questão religiosa. No Império.. a Igreja era aliada do Estado. da abolição da escravatura e depois em prol da proclamação da República. A mulher só veio votar em 1928. Dona Adalgisa. e em 1930 houve duas santa-ritenses. Eu não sou maçom.

que. Uma coisa que eu quero ressaltar é atuação do maior pintor da Paraíba. como sempre. o nosso Tiradentes. construiu a primeira escola de nível médio. a função da professora Rosa Godoy era fazer uma exposição generaliza46    . chegou a general e depois foi a Barão: Barão de Alagoas. como anexou a Paraíba a Pernambuco. Na realidade. E dizem que ele gargalhava. sobretudo quando a exposição do palestrante está agradando ao plenário. que foi Pedro Américo. Maria I. Ele pede desculpas por ter excedido seu tempo. Maria I. porque a primeira lembrança que se tem dela é que ela condenou a forca o herói maior. foi expulso do Palácio Imperial pela princesa herdeira do trono. Era uma família horrorosa. a sua repressão foi uma coisa horrorosa. não se pode nem colocar uma rua com um nome de Maria I. que. morreu no Brasil. Maria I. Houve o “colete de couro” e é preciso se lembrar que quem comandou as forças federais que vieram do Rio de Janeiro contra o Quebra Quilos foi o irmão de Deodoro da Fonseca. como o Seminário. poderia votar. pelo menos é a opinião de todos os paraibanos. ou coisa que o valha. É preciso lembrar que foi o Império que. de mandioca. historiador Marcus Odilon. Infelizmente a Historia do Brasil vê muito mal a Rainha D. na Paraíba. Assim ficamos como que proibidos de homenagear D. que despontou exatamente nesse período. Quanto ainda ao movimento de Quebra Quilos. Foi o que aconteceu com o confrade Marcus Odilon.renda equivalente a cinco alqueires. O Marquês de Pombal para a Paraíba foi um horror. mas a presidência às vezes tem que ser tolerante nesse particular. por sinal. D. se empolga com entusiasmo ao defender seus pontos de vista. não aprofundados pela expositora. Antes disso existia o Seminário dos Jesuítas. que foi o Liceu. agradecendo a atenção de todos. ria. porque não só proibiu uma escola superior. Coube a Marcus Odilon acrescentar à palestra da professora Rosa Godoy alguns episódios do nosso período imperial. Parece-me que como artista plástico ninguém superou Pedro Américo. José Severiano da Fonseca era coronel. E só depois que o Marquês de Pombal caiu. é que a Paraíba teve restituída sua autonomia. Penso que já excedi o tempo que me cabia neste debate. A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães: Tivemos a satisfação de ouvir as palavras do nosso debatedor. mas tinha sido suprimido pelo Marquês de Pombal.

Ele foi secretário do Instituto Arqueológico Pernambucano e fez parte da comissão que estudou arqueologicamente o jazigo e a ossada de João Fernandes Vieira. além de outros trabalhos. muito bem feita. ordenada. cujo trabalho já foi mencionado como o ponta-pé inicial de sua vocação histórica. abordando aspectos do nosso Império com alguns pontos de vista pessoal. Foi o que Marcus Odilon fez. cuja primeira edição só se conhece hoje quatro ou cinco exemplares. Além deste trabalho Maximiano Lopes Machado também tem A HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA e um outro sobre a Capitania de Itamaracá. Nem por isso. com o QUADRO DA REVOLTA PRAIEIRA NA PROVÍNCIA DA PARAHYBA. São trabalhos apaixonados de quem 47    . cabendo ao debatedor espicaçar.da. concederei a palavra aos participantes do Ciclo de Debates. começando pelo consócio Guilherme d’Avila Lins. professora Rosa Godoy e o debatedor. que constitui nada mais que um relato de um participante. primeiro inscrito para ocupar a tribuna. mas (quem sabe?) precisa hoje de uma nova leitura. portando de parte interessada. Dando continuidade à sessão. que Alfredo de Carvalho já fez. Gostaria apenas de lembrar um detalhe. eu sou sob muitos aspectos um detalhista. nosso confrade Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Aquele trabalho de ator da História precisa de uma leitura crítica. com muita propriedade. O trabalho de Ambrósio Hischoffer também precisava de uma leitura crítica. criar as condições para o debate com o público assistente. com relação a este período e mais particularmente ao trabalho de Maximiano Lopes Machado. deixou de expor e comentar alguns fatos ocorridos naquele período imperial. 1º participante: Guilherme d’Avila Lins (Sócio do IHGP e presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica): Gostaria de parabenizar a expositora. Como ressaltou a professora Rosa Godoy. alguns aspectos do tema estão consignados no programa do Ciclo de Debates para uma apreciação mais profunda. nosso debatedor. pelas abordagens muito lúcidas a propósito do tema hoje abordado. Com a palavra o historiador Guilherme d’Avila Lins. Esse trabalho precisaria de uma releitura com interpretação crítica porque ele representa uma descrição de um ator da História e como descrição de ator ele precisa de uma leitura crítica interpretativa e penso que seria uma contribuição importante para este detalhe. num trabalho excepcional.

e essa é uma marca que está na construção deste país. e. Na verdade isso faz parte de uma tradição violenta e autoritária que a gente tem. mas foram sufocados. E dentro disso. seria impossível para mim não intervir. A repressão não bateu à toa. a estrutura agrária e as proposições e projetos políticos que estiveram em jogo durante o século XIX. Era apenas isso que queria registrar. até hoje. sem dúvida. no caso da Paraíba. que a gente vive claramente. E aí a gente vai ter que levantar estas questões que a professora Rosa levantou e o debatedor também tocou. é claro. entre a ideia de nacionalidade e os movimentos sociais. a praieira foi um dos episódios mais importantes da história desta região e que precisa ser revisto. Nós vivemos um quadro estrutural que tem suas bases montadas no Império. E claro. realmente movimentos como o de 24 e 48 quiseram questionar um pouco isso. acho que está mais que na hora pensar o que foi 48. cuja ideia é do esclarecimento. mas é esse passado. são os cabras dos grandes proprietários que funcionam como justiça e polícia. o êxodo rural. os movimentos liberais de 17. que é essa articulação entre a política. como o Ronco da Abelha. o povo tem vergonha do povo que tem. 24. 49. 2º participante: Professor Eduardo (Professor do Departamento de História da UFPB): Como um apaixonado pelo Império. a influência da própria paixão e da própria cosmovisão do cenário histórico. sempre baseado no voto censitário. é essa memória que a gente precisa remontar e que. na prática. no Brasil. portanto. a questão agrária. são os jagunços. entrando também os movimentos sociais dos excluídos. que é a cidadania. é que tratar de Império significa tratar da construção do Estado Nacional Brasileiro. onde a elite sabe para onde vai. significa necessariamente a gente pôr a questão central da sociedade brasileira hoje. entre o Estado Nacional. Hoje estamos num país democrático. os movimentos sociais como o Ronco da Abelha e está aí.estava participando de um lado do movimento e tem. O que eu gostaria muito de salientar. e que ficou claro no debate aqui. como o Quebra Quilos. além de outros. existiram experiências que questionaram. É importante que a gente saliente que esse é um Império sobretudo elitista. 3º participante: Paula Frassinete (Conselheira do IPHAEP): 48    . do uso da polícia privada (aliás não há nem uma distinção muito clara entre o público e o privado). é bom lembrar que esse é o período do cangaço.

Estaríamos terminando este período. que é uma coisa que se faz hoje raramente neste país. foi cavalheiresca por que concordou com 49    . É a questão agrária. 5º participante: Odilon Ribeiro Coutinho (Membro do Conselho Estadual de Cultura e sócio da Academia Paraibana de Letras): Quero felicitar a professora Rosa Godoy pela excelente palestra com que nos brindou esta tarde. Tenho 56 anos e estudei História há bastante tempo. Ele põe realmente um fermento em tudo que diz e faz com que a coisa passe a apresentar um aspecto ardente. Sobre Marcus Odilon. O professor Marcus Odilon coloca que a República já tem seis séculos. D. pois todos nós que ouvimos uma vez Rosa Godoy passamos a admirá-la e a admiração cresce a cada nova palestra que ela faz. Realmente uma palestra de nível universitário. O que não é nenhuma novidade. eu sou suspeito para falar. de bom nível universitário. Presidente do Instituto Histórico e componentes da Mesa. mas neste país. e posso dizer isso com absoluta segurança. porque a gente sabe muito bem como foi o ensino de História. é a desassistência do governo com o povo e eu perguntaria à professora Rosa: nós estaríamos no fim da República também? Porque nós estamos com essa mesma crise. é uma figura vibrante. não apenas cavalheiresca. com outras universidades. dando os primeiros passos para o próximo regime que será o socialismo? 4º participante: Célia Camará Ribeiro (Sócia do IHG de Niterói): Mais uma vez muito obrigada pela oportunidade. já começando. a professora Rosa Godoy e o historiador Marcus Odilon. como outras figuras nacionais. Pedro II era um mecenas. e não poderia ser de outra forma em virtude do alto nível da palestra de Rosa. Eu tenho contacto com outras cidades. O debate. parabenizando o Sr. Ela está aí repetida e acho que 64 pode até ser comparada com a praieira.Sou bióloga e a minha análise da História do Brasil vai mais como militante do que como historiadora. a forma de comentar o trabalho de Rosa foi realmente uma forma. não apenas na Paraíba. Aqui na Paraíba nós temos muitos pontos importantes do Império. cidades consideradas mais importantes do que a Paraíba. que se interessava pela cultura e prestigiou não só Pedro Américo e Carlos Gomes. Parece-me que na minha época a gente não tinha esse tipo de professora Rosa Godoy. é o período que está se demorando mais e anteriormente Rosa já coloca as crises do fim do Império. que faz toda essa discussão crítica da História.

Na França. E como isso foi conjurado. Rosa e Marcus chamaram a atenção para a ameaça de fragmentação que pairou sobre o nosso país durante o Império. que fez com que a família real de Portugal viesse para o Brasil. Washington era um homem de bom senso. como isso foi exorcizado? Rosa teve a oportunidade de referir-se a isso várias vezes. segundo ele.a exposição de Rosa. Rapidamente eu queria chamar a atenção para o fato de que talvez nem todos nós aqui presentes saibamos o que realizou José Bonifácio. e dentre os cento e tantos metais conhecidos ele identificou oito). Na Itália. foi convidado para. foi discípulo de Volta. antes de terminar os seus estudos já se tinha tornado professor. apenas acrescentando alguns detalhes. com o status de ministro assumir a coordenação de todas as atividades de mineração da Suécia. Ele começou dizendo que era um apaixonado do Império e isso me animou a vir aqui fazer alguns comentários. são figuras realmente extraordinárias. para preencher pequenas lacunas que teriam ocorrido. da UFPB. Nessa ocasião ele assumiu o comando do Batalhão 50    . um Webster. assiste à diluição. que figura brilhante! Um Benjamin Franklin. E num tema como esse. Os intelectuais da revolução americana foram grandes figuras. Aos trinta anos foi comissionado pelo governo português para estudar onde quisesse com os professores que escolhesse. Mas o que me trouxe aqui a este microfone foi a forma pela qual o professor Eduardo. ele que era geólogo (é uma coisa que pouca gente sabe. um intuitivo que soube conduzir a nação com mão segura. de forma prática. que já tinha uma indústria de aço muito desenvolvida. Na Alemanha. Na Suécia. lembrando José Bonifácio. que logo depois foi guilhotinado. Vou tentar isso rapidamente. a gente que se dedica ao estudo da História. o primeiro cientista que aplicou. grandes figuras de estadistas. a gente não tem a ideia exata da significação do Império para a nossa vida e para a formação da nação brasileira. a eletricidade. essas lacunas seriam inevitáveis. à invasão de Portugal pelo General Junot. estava lá exatamente por ocasião da Revolução Francesa e foi discípulo de Lavoisier. Volta para Portugal. à ascensão de Napoleão. se identificou. Porque a gente não tem. E eu estou dizendo isso pensando exatamente nos pais fundadores da nação americana. um Madison. O Império costurou a nossa unidade. tão vasto. conviveu com filósofos e convenceu Humboldt a vir estudar a América do Sul. Um Jefferson. mas nenhum pelo menos teve oportunidade de revelar a genialidade política de José Bonifácio. ao esgarçamento da Revolução Francesa. José Bonifácio saiu do Brasil com vinte anos e foi estudar em Coimbra. José Bonifácio foi o gênio político de maior expressão que as Américas produziram.

se o Brasil tivesse realizado a sua independência dessa maneira. não era o homem rasteiro. ele teria evitado ou impedido a fragmentação. é a verdadeira história do Império. e sobretudo a sua falta de preconceito. aqueles generais a cavalo. através de um herói equestre. que foi D. perspicaz. para construir a nossa independência. Portugal ficou sem quadros para a sua administração e ele ocupou vários quadros da maior significação no plano administrativo de Portugal. José Bonifácio está sempre atento ao desenrolar dos acontecimentos e acompanha o desdobramento das lutas de emancipação da América Latina. A melhor história do Império é a biografia do conselheiro Nabuco Araújo. sempre com o pensamento voltado para o Brasil. Ele supriu o grande vazio deixado pela fuga da corte portuguesa. Ele então achou que nessa ocasião devia voltar ao Brasil. Mas ele concebeu isto porque ele era um homem do mundo. José Bonifácio vem e concebe essa coisa extraordinária. Mas essa biografia revela o homem admirável. A biografia de Oliveira Lima sobre D. Ele verificou que só havia uma maneira de impedir que o país se fragmentasse. o conselheiro Nabuco de Araújo. A América Espanhola estava fragmentada em não sei quantas republiquetas. da experiência da história de um tempo tumultuado. de muito bom senso. A biografia que Nabuco escreveu a propósito do pai. que acaba de ser re-editada. o estraçalhamento da América Latina. que achava que amar o Brasil era arranjar um sargentão que fizesse a nossa independência. Chega aqui com 56 anos. João VI criou o Reino de Portugal. A autoridade do rei não podia. quando D. Brasil e Algarves e aí nós atingimos o mesmo nível da Metrópole. José Bonifácio partiu do princípio. João VI foi um rei de grande sensatez. era a melhor biografia que se tinha escrito no Brasil. Era colocar à frente do país um homem. segundo Gilberto Freyre.Acadêmico e enfrentou as tropas francesas que invadiam Portugal. as cortes portuguesas começaram a reclamar e cobrar a volta de D. Ele então teve essa saída genial. mas deixou Pedro I aqui. dificilmente. D. Percebeu que se o país se tornasse independente através do que eu chamei um dia de heróis equestres. Voltou para Portugal. A Independência do Brasil não ocorreu em 22. Mas. Há uma coisa muito interessante que nunca passa pela nossa cabeça porque realmente o brasileiro aprende a história de modo errado. João VI. Hoje talvez ele pudesse mudar de opinião. A família real vem para cá com toda a corte. e acho que Rosa e Marcus Odilon concordarão comigo. cuja autoridade não pudesse ser contestada. sagaz. se fosse vivo. 51    . e aí se revela a genialidade do estadista. mas em 1908. Em 1816. João VI. com uma visão muito larga da história do seu tempo. espadagão desafiando o infinito. João VI. porque era uma autoridade legítima.

Sobre a questão da formação do nosso Estado Nacional. Miguel tinha usurpado de sua filha. Apesar do Regente do Império. mas deixou o filho no Brasil. Eu diria que a principal delas. sobre como ocorreu a organização do Poder. mas com aquilo que eles chamavam de plebe. Voltou. O Império é a moldura natural de José Bonifácio. eu começo agradecendo a escuta atenta do Dr. hoje. nos seus desatinos. Eu sempre gostei. E tão bem costurada ficou a unidade nacional pelo Império. onde várias dessas questões deveriam ser revisitadas. O resultado é que a tempestade serenou. voltou para Portugal para disputar com o irmão D. E graças a isso ele conseguiu manter a unidade nacional. Pedro II. com apenas cinco anos de idade. que a própria República. pergunta para que lado estamos indo. A grande questão é 52    . revolução aqui. A professora Paula. o povo segundo entendemos era a elite hoje. e eu acho que nós estamos passando por um momento bastante difícil no país. antes de tudo. É complexa a questão do Estado. Miguel o trono português. Marcus Odilon à minha fala. ao deixar o Brasil. E tanto isso é verdadeiro que. Odilon colocou aí muitíssimo bem que no Império estão colocadas as nossas grandes questões que estão abertas até hoje. que é um milagre. homem de pulso férreo. abdicando o trono brasileiro. revolução acolá. D. sobretudo no Segundo Reinado através dos conservadores saquaremas. eu acho que o Dr. E aí o que é que se faz? Põe-se no trono um menino que ainda não tinha completado 15 anos – Pedro II. preocupada com o nosso futuro. a balaiada. Acho que são questões que permanecem abertas na nossa história. Diogo Antônio Feijó. a relação com a plebe. Maria da Glória. a relação do Estado Federal com os Estados membros. não conseguiu destruir o tratado de construção de nossa unidade realizada pelo Império. não com o povo. inclusive no Império. convulsão que levaria o Brasil certamente à fragmentação se não tivessem sido conjuradas e exorcizadas a cabanada. principalmente no momento em que vivemos hoje. Considerações finais pela professora Rosa Maria Godoy Silveira: Acho que tudo foi muito bom. é a do Estado. a nossa independência através de um príncipe português representante da Metrópole. mirem que prodígio de concepção genial. porque estava no trono uma autoridade legítima. E o Brasil entrou numa terrível convulsão. Em primeiro lugar. que faço parte do time das paixões pela História do Império. como foi construída. mas confesso. que D.Ele então concebeu nossa independência e. nada foi possível fazer para dominar o tumulto que se alastrara pelo país inteiro. revolução farroupilha.

que desembarcaria exatamente por essa área. (a área estava convulsionada com o movimento cabano no sul de Pernambuco. porque foi uma obra difícil. houve a perspectiva ou experiência de outros projetos políticos. Sobre a questão da unidade nacional. exatamente em Aracati. vejo que ela é a mais contemporânea possível. Portentosa foi também a conquista portuguesa do Brasil e a manutenção desse território. O outro lado é que houve evidências (é uma história que acho que também é mal contada. uma política portentosa. mas conservemos o resto. eu acho que foi uma obra portentosa. Odilon. e com o Rio Grande do Sul. eu acho que seriam projetos fragmentadores. Tanto 17. Como sou apaixonada pela história do Império. em particular com o Norte. Esses projetos foram vencidos. E nós estamos assistindo aí uma tremenda crise dessa relação com os Estados membros. a história do retorno de D. que a gente é o Nordeste Oriental. quanto 24. para reconquistar o Brasil. Estamos sofrendo um processo de reforma do Estado. Nós precisamos estudar mais as tentativas concretas de recolonização. Nós temos que revisitá-la para ver essa costura. Acho que deve ser revisitado. Acho que o Primeiro Reinado é outro buraco na História do Brasil. colocada aqui pelo Dr. num debate da Câmara dos Deputados. Nesse sentido acho que tem evidência da unidade e esse território teve outros projetos alternativos. que a gente precisa estudar muito. Tanto a existência dessa sociedade dos colunas em Pernambuco. por outro lado. pois havia a possibilidade de um outro projeto. aliada com Pinto Madeira na região do Crato. Tem muito a ver uma coisa com a outra porque o Império nos elucida as grandes questões do país.que Modelo de Poder organizar. com as províncias do Norte. para usar os termos da moda. Acho que a Federação há muito se esgarçou. outros dizem que não. O que eu tentei evidenciar. mas uma das maiores nebulosidades para nós. O medo era tanto. por causa da fronteira. Não há dúvida. embora derrotados. E o Império fez isso. aqui era um foco de convulsão muito grande. como se dizia. Esse é um lado da história. é que nesta parte do Brasil. Disso não tenho dúvida. mas a gente precisa pensar num novo modelo de construção política para este país. de grande engenharia política. porque não está definido ainda o papel dos Esta53    . Mas. hoje território alagoano) um deputado disse que a gente perca o Norte. no final da década de 20. mal pesquisada ainda para nós) que é a história da recolonização. Marcus e Dr. quanto 48. mas no meio da Regência. Pedro I. também. Quando aquela famosa história que o povo diz que é fantasia.

e mostra que a articulação deles ultrapassa o raio de ação desse território. acho que não é por aí. ela precisa ser construída pela sociedade brasileira. Quer dizer. como movimento. ou um certo retorno sob nova metodologia. que viviam nas condições em que viviam.dos membros e dos municípios. não podemos esperar dele o grau de conscientização social dos camponeses. uma manifestação dessas camadas espoliadas. Eu não diria ser um movimento reacionário progressista. O Dr. Ela podia ter uma representação pequena. Acho que Quebra Quilos dá um belo trabalho sobre o ângulo da história dos costumes. A gente sabe que a concentração de recursos financeiros na mão do Estado Federal tem causado depauperamento para os Estados e municípios. Carneiro da Cunha foi um deles que se 54    . mas a Paraíba sempre foi muito enxerida (Não esqueçam que hoje sou cidadão paraibana. inclusive porque os comerciantes também roubavam no peso. enfim com as suas medidas usuais de origem portuguesa e o confronto com outro sistema de medição que causou muito atrito. Hoje há um novo ramo da historiografia. Então a questão dessa descentralização hoje precisa ser repensada. porque ele fez uma análise global do Quebra Quilos em todas as províncias onde aconteceu. com hipotecas. mas ela era altiva. O Quebra Quilos. Marcus Odilon lançou também a questão do Quebra Quilos. eu digo. A questão da Paraíba na Assembleia Geral. Há outras coisas que se somam. Mas foi uma manifestação dessas camadas que sofreram essas alterações nos seus costumes. onde a Paraíba está aí incluída. Marcus Odilon apontou. A Paraíba era mesmo uma pequena província. Houve uma complexidade de motivações. Nós não fizemos ainda uma reconstituição da participação dos parlamentares paraibanos lá no Império. a gente percebe a complexidade de motivações desse movimento. Somam-se as motivações de proprietários de terra endividados por causa da crise agrária. com seus motivos. Marcus Odilon. Há os camponeses. depois da análise que o professor Hermano Souto Maior fez com sua livre docência. sobre os pronunciamentos dos parlamentares. com litro. como apontou o Dr. apesar do sotaque). o envolvimento dos padres era muito grande nesse movimento. que é a história dos costumes. Quando eu citei a Lei de Terras. Alguns falam que Quebra Quilos foi um movimento social. o confronto entre costumes tradicionais de uma determinada sociedade com suas medidas das feiras. Essa era. que aproveitaram o embalo para queimar. foi. A gente tem que entender as motivações dos atores da época e aí tem muita gente envolvida. com a cuia. no fundo. com dívidas de empréstimos. Soma-se a questão da Igreja. como Dr.

Eu acho que a gente precisa um trabalho desse aqui. Isso vai revelar também uma coisa que é lacunar na História do Império na Paraíba. entre os liberais e os conservadores? Como é que aconteceu? Também é outro tema. depois confrontando realmente as perspectivas dos vários envolvidos. assim como hoje está sendo feito um trabalho. Eu também sou admiradora do José Bonifácio. Eu disse que faltou o Figueira de Melo.manifestou. da província do Pará. Célia e os acréscimos e queria falar do José Bonifácio. o que tem seis artigos entre os 118 que levantei sobre o Império no índice da Revista do Instituto Histórico. É o maior biografado desse conjunto. analisando a imprensa. primeiro porque eu sou muito fã do federalismo. em Recife. quem falou sobre a Lei de Terras e nós vamos divulgar brevemente esse trabalho. no tempo do Petrônio Portela. como Bernardo de Souza Franco. eu comecei falando no primeiro parágrafo que ele é. a exemplo do que foi feita pela professora Isabel Marçon. Sobre Pedro Américo. Os outros todos têm uma ou duas biografias. evidentemente a grande figura paraibana do Império. Quais eram as tendências. na Coleção Bernardo Pereira de Vasconcelos. Acho que a gente precisa recompor esse trabalho da Paraíba na Assembleia do Império. Falta um trabalho. Eu estou até fazendo um estudo mostrando deputado a deputado. para encerrar. Sobre a Praieira. na Assembleia Legislativa do Estado pela equipe do NDHIR. que era praieiro. quais eram as correntes. que ela devassou a praieira em Pernambuco. A versão que ele contou da praieira é uma e Urbano Sabino. mas esses debates precisam ser reconstituídos. Eu acho que a gente 55    . Porque pouco depois tem a conciliação. Quero agradecer as referências da Dra. Alguns deles falaram várias vezes. em primeira etapa. Lembrei que só teve um paraibano que se manifestou. muito contraditoriamente da minha parte. no gênero biográfico. Quando disse representação pequena. dos 21 do conjunto que falaram. em seu trabalho de mestrado. quais eram os grupos familiares. Já tem um trabalho do Celso Mariz. hoje na Unicamp. o professor Guilherme falou sobre a obra de Maximiano mencionando sua posição como ator e eu também acho que precisamos ver o outro lado. que é exatamente o embate na Assembleia Provincial. Como é que foi a conciliação aqui na Paraíba. não quis dizer inexpressiva. conta a outra. Mas esses dois trabalhos foram publicados pelo Senado e são livros valiosíssimos. que foi o chefe de polícia da praieira.

São Paulo mesmo tinha pouca importância. Aí pensando no papel dele. Ele falou 75 minutos e coube-me fazer a edição dessa fita. que se acentuou quando a família real chegou. É impressionante a gente pensar que grupo ao qual se aliava José Bonifácio. Pois bem. O que mais me fascina 56    . em vídeo. aqueles comerciantes da cidade de Santos. São Paulo. vai controlar a política de São Paulo. de repente. Eu concordo com Tavares Bastos. Ali se criou até uma agricultura de subsistência e isso começou a vincular interesses entre essas províncias. contando os namoros na praia de Tambaú. Dr. Aliás. Eu fui escutar a fita do Dr. agora eu admiro esse modelo federalista porque eu vejo na construção de um federalismo uma possibilidade de um modelo democrático. era um grupo que. Ele precisa ir ver a edição. como soe acontecer. mostra o papel de José Bonifácio. com certeza. e já estou no oitavo. E em torno delas foi que José Bonifácio arquitetou essa unidade. Odilon Ribeiro deu um banho de erudição sobre José Bonifácio. Ele contou como eram as praias de Tambaú na década de 20. com lances até picantes. José Bonifácio foi o grande estadista da unidade do Império. Costurou através da região cafeeira. porque eu. Eu tenho uma grande questão. Foram editadas recentemente pela Companhia das Letras as obras dele. vale a pena ver na FUNJOPE. nós precisamos construir um modelo político que tenha um grau de descentralização e que tenha instâncias em escalas regionais. A gente estava fazendo um trabalho para o Centro de Referência Cultural da Prefeitura e entrevistamos várias pessoas sobre a cidade de João Pessoa e o Dr. Dr. municipais. quando muito. Mas. O Império construiu um modelo unitarista e nisso o grande artífice foi José Bonifácio. Linda a entrevista. cada uma com suas atribuições políticas. Eu não vou cortar certas belezas. Mas São Paulo contou José Bonifácio. Odilon.construiu uma sociedade democrática. como fizeram os Estados Unidos. não há dúvida do grande papel que ele jogou. eu vou contar um segredo. estaduais. Minas Gerais e Rio de Janeiro. O maior fascínio que eu mantenho por ele é porque ele costurou a unidade nacional entre três províncias bases. e não obedeci a ordem. que estava emergindo e costurou numa coisa que estava emergindo naquele momento e foi começando a ser construída mais fortemente a partir da transferência da capital para o Rio de Janeiro. Eu não fiz a entrevista. não foi isso que o Império fez. que ele não sabe. mas me coube a edição. Foi exatamente o mercado entre o sul de Minas Gerais e o Rio de Janeiro. e estou até escrevendo um livro sobre o Império. Odilon com seu banho de erudição. a ordem que a gente tinha era que as edições se reduziam a 15 minutos. o Sr. No entanto. Odilon foi uma delas. deixei nos 45 minutos.

é que ele foi autoritário. Marcus Odilon e demais participantes. cujas fitas vão ser arquivadas na nossa Seção da Imagem e do Som. pretende o Instituto editar os ANAIS desse Ciclo de Debates. Ele tem um projeto de fazer uma reforma agrária neste país e distribuir terras para os escravos. Tentei responder às perguntas e agradeço pelos comentários e questões colocadas pelo Dr. percebendo que a centralização era a forma do Brasil não se dividir. Renovo o convite para a próxima sessão. porque ele levou com mão de ferro esse projeto. porque é ele mesmo que apresenta o projeto para a libertação dos escravos. ele é mais fascinante. por isso que estamos filmando e gravando todas as sessões. confrade Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. dando-nos uma visão das principais ocorrências na Paraíba assim como no país. Trata-se de uma promoção especial. que é o artífice da Independência.em José Bonifácio. como nossa contribuição às celebrações do V Centenário da Descoberta do Brasil. Nós estamos realizando um evento de grande importância. 57    . contraditoriamente.. Cumpre-me agradecer a participação de tanta gente e especialmente da expositora. já em 1830. quando debatermos o tema A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA. mas foi bastante positivo para os presentes podermos ouvir esse debate esclarecedor sobre o período imperial. e provavelmente ser recolonizado. O Instituto está aproveitando esta oportunidade para oferecer aos interessados várias publicações do Instituto e de seus associados sobre assuntos históricos. Com esse acervo. professora Rosa Maria Godoy Silveira e do debatedor designado. De outro lado. A fala do presidente Luiz Hugo Guimarães: Extrapolamos o horário. É uma fisionomia do José Bonifácio que aparece em menor escala do que a fisionomia e a consagração dele na História do Brasil. se fragmentar. com preços módicos e acessíveis.

Trata-se do trabalho já esgotado intitulado A ILHA MALDITA E OUTROS REGISTROS. Só para não quebrar a praxe estabelecida.3º Tema: A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA Expositor: Luiz Hugo Guimarães Debatedor: Joacil de Britto Pereira A fala do Presidente: Estamos retornando para dar continuidade ao nosso Ciclo de Debates. o começo da industrialização e do trabalho livre. e o acadêmico Odilon Ribeiro Coutinho. presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. tenho outros trabalhos publicados. 58    . Expositor: Luiz Hugo Guimarães (Historiador. Sou o atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Ex-professor da UFPB. a ingerência da aristocracia. Muitas questões alimentaram as crises imperiais. É o bastante. Assim. dentre elas o problema da escravatura. farei uma auto-apresentação. tendo ingressado aqui em 1991. pesquisador. na qualidade de expositor. A Comissão Organizadora deste evento designou-me para apreciar o tema de hoje. ex-presidente deste Instituto e atual presidente da Academia Paraibana de Letras. o aparecimento de novas oligarquias. Dr. membro do Conselho Estadual de Cultura. Guilherme d’Avila Lins. atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano) O Império Brasileiro estava completando 67 anos quando foi atropelado por uma nova forma de governo. A situação agravou-se com as chamadas Questão Religiosa e Questão Militar. ora conservadores. ora liberais. podemos começar a exposição desta tarde. Nesse longo período imperial aconteceram lentas modificações políticas por conta das traumáticas sucessões e das alternâncias dos Gabinetes Ministeriais. hoje apreciando o tema A PARAÍBA E A PRIMEIRA REPÚBLICA e convido as seguintes pessoas para participarem da mesa dos trabalhos: acadêmico Joacil de Britto Pereira. por conta de um livro que lancei relatando alguns episódios do movimento de 1964 na Paraíba. jornalista. a urbanização.

oh! Recorda-me bem! Sampaio Ferraz.Militares e civis uniram-se e trocaram ideias sobre os movimentos reformadores de filósofos europeus. exclamando a frase que se tornou histórica: estou assistindo daqui as exéquias da monarquia. fez uma conferência neste Instituto. Está claro que a Proclamação da República foi um golpe. demonstrativo da frivolidade da monarquia. de modo geral.º 1. Com a divulgação das idéias republicanas foi possível conquistar o apoio de algumas camadas da classe média. O que houve foi a implantação dum governo provisório.58. onde revela que o velho Ferreira Vianna assistiu aos festejos de uma janela defronte do salão daquele baile. da existência de uma nova forma de                                                              11 Revista do IHGP. 13. 1980. em 24 de fevereiro de 1906. assinalam: “A República tinha de acontecer. 1998.) “Era único Império nas Américas. E prossegue Pereira Pacheco em seu discurso: Nessa memorável noite. Editora Universitária/UFPB. a queda do regime era inevitável. Deodoro à frente.” Que era preciso mudar o regime. ainda muito rarefeita. com o reforço da proclamação “pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. 59    . mesmo doente. que. Foi preciso cooptar os militares para que o assunto tivesse vez.” ( . Hélio Silva e Maria Cecília Ribas Carneiro. n. a elite intelectual da época bem o sabia. Teixeira de Souza. Faltava o motivo. reedição. p. volume 1. na manhã de 15 de novembro de 1889. A posição do Brasil na América Latina era uma exceção. 11 As lideranças civis e militares buscaram o Marechal Deodoro da Fonseca. A surpresa da proclamação alcançou a velha monarquia e os brasileiros. o qual surgiu com a formação do Gabinete Ouro Preto. A influência dos Estados Unidos despertou o espírito de federalização. Campos da Paz e outros trataram de preparar a proclamação da república para a madrugada seguinte. Quando se uniram definitivamente militares e republicanos. Porque a Monarquia era um regime artificial em nosso continente.. Editora 3. João Pessoa. também serviu para o desencadeamento do movimento. José Manoel Pereira Pacheco. principalmente do positivista Augusto Comte. Deodoro e outros. hostil ao Exército.. se viu forçado a assumir o risco de encerrar o regime. sem a participação popular. O famoso baile na Ilha Fiscal oferecido à oficialidade do couraçado chileno “Almirante Cochrane”. sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. na Introdução de sua História da República Brasileira. tudo antes tinha sido combinado entre os próceres republicanos de então Benjamin Constant.

Rui Barbosa. Entre os civis. 3ª edição. escreve: “As notícias sobre a proclamação da República chegam a Paraíba num clima de total indiferença. A República Velha. publicado no dia 16. João Pessoa. e a maioria dessas destacadas personalidades fazia parte do Partido Liberal. Editora Universitária/UFPB. A habilidade do governante conservador da época. Edgard Carone. 60    . Pernambuco e Rio Grande do Sul. Silvino Elvídio Carneiro da Cunha – o Barão do Abiaí –. Maciel Pinheiro. Em muitos Estados a preocupação maior visava as próximas pugnas eleitorais entre conservadores e liberais. A maior participação era dos políticos residentes no Rio de Janeiro e em São Paulo.” Horácio de Almeida confirma: A República chegou à Paraíba sem ter quem a recebesse. sem.207. 13 Sou de opinião que muitas figuras da nossa intelectualidade vivenciavam a necessidade da mudança do regime. algumas lideranças de Minas. Como o País foi surpreendido com a mudança do regime é evidente que muitos Estados não tomaram conhecimento dos planos e conspirações que resultaram no golpe de 89. pois não existe no Estado nenhum movimento republicano. Teve destaque no movimento a atuação dos militares Benjamin Constant. o oponente natural dos monarquistas. Silva Jardim.42. major Francisco Sólon Sampaio Ribeiro. vol. Os autores enaltecem a intensa participação de paraibanos no movimento                                                              12 13 Edgard Carone. Coelho Lisboa. Horácio de Almeida. em sua obra citada. resultando no exílio de Pedro II.º 1. mantinha acomodados os numerosos adeptos da ideia republicana. destacaram-se Quintino Bocaiúva. general José de Almeida Barreto (paraibano de Sousa).Governo do Brasil (o grifo é nosso). volume II. Francisco Glicério. no dia seguinte. Manoel Marques da Silva Acauã (estes cinco últimos eram paraibanos) e outros mais. considerado o ideólogo e principal articulador do movimento. Difel. que advogavam a aglutinação das nossas províncias em uma federação. porém. opinavam à longa distância. Aristides Lobo.” 12 Só mais tarde o Marechal Deodoro assinou o Manifesto e o Decreto n. Sobre a Paraíba a maioria dos autores registra o total desconhecimento do movimento. 1977. a República. História da Paraíba. 1978. que depôs a dinastia imperial e instalou o Governo Provisório. acreditarem num desenlace tão rápido. Isto não quer dizer que na Paraíba não houvesse republicanos ou conterrâneos que difundissem a idéia. 2. Floriano Peixoto. que embarcou para a Europa com a família. no navio “Alagoas”.

O que faltou. 14 Se não houvesse um movimento republicano na Paraíba o Conde d’Eu não teria vindo à província para defender a monarquia. onde tantos paraibanos se envolveram. Logo depois esteve entre nós Silva Jardim. em viagem de propaganda em favor do regime passou na Paraíba. Ob. fundaram A GAZETA DA PARAÍBA e GAZETA DO SERTÃO. no Recife. 177. Cardoso Vieira. João Pessoa. perante o Parlamento Nacional. 2ª edição. Eugênio Toscano de Brito e Irineu Joffily. a Federação das províncias. Celso Mariz conta que em 20 de junho de 1889. de 1824 (Confederação do Equador).175. que esta considerasse urgente. órgãos onde o movimento republicano encontrou guarida. em 1888. Jo-                                                              14 15 Celso Mariz. cit. como deputado. Jófili. UFPB/Editora Universitária. escreviam sobre o movimento no Sul. de 1848/49 (Revolução Praieira). José Rodrigues de Carvalho e o estudante Plácido Serrano difundiam a doutrina republicana. 61    .republicano fora do Estado: Maciel Pinheiro e Albino Meira. 1980. naturalmente. foi um maior contato com as lideranças do movimento no Sul. Albino Meira veio à Paraíba fazer conferência republicana no teatro Santa Cruz. que era um dos beneficiários diretos da sucessão do imperador. requereu. Na obra citada de Celso Mariz estão arrolados numerosos paraibanos participantes do movimento republicano: João Coelho Gonçalves Lisboa. Artur Achiles dos Santos. no Rio de Janeiro. Cordeiro Júnior. antecedendo um dos pontos do programa com que em julho de 89 subiria o Gabinete Ouro Preto. Aristides Lobo e Coelho Lisboa. a 26 de julho de 1889. desenvolveu intensa propaganda através do jornal que fundou sob o esclarecedor título O REPÚBLICO. p. no Recife. meetingava no sul. Dizer simplesmente que “não existe no Estado nenhum movimento republicano” não é bem verdadeiro. Celso Mariz. desfazendo toda a lengalenga do Conde d’Eu. quando a monarquia dava sinais de decadência. à Assembléia. em 1832. genro de Pedro II. Celso Mariz revela a atuação de Irineu Joffily: Naquele mesmo ano. por influência de Maciel Pinheiro. 15 Em Mamanguape. Nosso passado republicano vem do sonho de 1817 (precursor da Independência). Geminiano Franca. foi um dos grandes agitadores republicanos. para acompanhar o desenvolvimento da campanha. no jornal de Eugênio Toscano. Rodolfo Galvão e outros jornalistas. quando deputado representando a Paraíba (1878/80). Nosso ilustre jornalista Antônio Borges da Fonseca.. o Conde d’Eu. Apanhados Históricos da Paraíba.

centralizando os adeptos da classe. era ferido nas festas republicanas a Silva Jardim.ão Batista de Sá Andrade. assistiu. Dizia Deusdedit                                                              16 Revista n. O exército libertador compunha-se de pouco mais de 7 mil homens das 3 armas e era guiado pelo General Deodoro da Fonseca com todo o seu luzido estado maior. conforme me revelou o confrade Deusdedit Leitão. Eulálio de Aragão e Melo. chegado então às pressas de Petrópolis com toda a sua família. irmão de Benjamin Constant. Miguel Machado. Em discurso pronunciado nas comemorações daquela data pelo Instituto. como orador oficial do Instituto. p. Francisco Alves de Lima Filho. num discurso que está transcrito na nossa Revista oficial. o grande jornalista de então. 16 Está aí um paraibano que participou diretamente do movimento. alguns estudantes do Liceu. na sessão que se realizou no salão da Assembleia Legislativa Estadual. conta uma história com o padre Meira. a cavalo. Campos da Paz e aquele pelo Major Marciano de Magalhães. recorda aquela data emocionado: Concidadãos.º 1. em lugar de vos ocupar em vossa atenção agora. sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. apesar de amigo aqui dos conservadores. João dos Santos Coelho. sendo nós comandados pelo saudoso Dr. sócio do Instituto. o desenrolar do primeiro dia da Proclamação da República. Basta que vos diga: que o Batalhão Acadêmico do qual fazíamos parte então. 62    . relembrando datas e fatos da república. aos 17 anos passados. Isso quer dizer que não estávamos tão afastados do movimento republicano como a maioria dos autores insiste em dizer. é tarefa quase impossível. filiou-se ao grêmio do Rio de Janeiro e fez propaganda pelo norte até o Pará. E prossegue nosso consócio: Dar-vos uma ideia perfeita e nítida daquelas cenas de entusiasmo. neste mesmo momento e dia. desfilávamos pela Rua do Ouvidor em ordem de marcha para o antigo Largo do Paço. estudante na Bahia. a 15 de novembro de 1906. como participante. Quintino Bocaiúva. nosso grande pesquisador que escava as velhas histórias dos bastidores. Pereira Pacheco. Antônio Lira. José Manoel Pereira Pacheco. ali na descida do Ponto de Cem Réis em direção da Lagoa. Depois das conferências de Albino. se nos fosse possível volver hoje. vos diria: que justamente a uma hora da tarde daquela época. que em 1906 deu essa declaração. do IHGP. Aliás. um republicano. Contava-me ele que o padre Meira morava onde hoje é a rua padre Meira. tendo à sua esquerda. patriotismo e esperanças de republicanos. Manuel Lordão fundaram um clube. 100. Firmino Vidal. (grifo nosso) marchava na retaguarda das tropas e na frente do da Escola Militar da Praia Vermelha. decidiu-se pela causa nova. onde se achava o velho e decrépito Imperador Pedro II. se pudéssemos trazer para aqui as cenas que se desenrolaram aos nossos olhos naquele imortal 15 de novembro de 1889.

ele teria dito: e a Paraíba tem esses republicanos todos? Padre Meira se surpreendeu com tanta gente. que fazia parte da cúpula nacional como Ministro do Interior e da Justiça do Governo Provisório. O paraibano Aristides Lobo. Albino era um declarado republicano. então juiz de Direito de Catolé do Rocha. temendo sofrer um atentado. 17 Como se sabe. Mas. Na maioria delas os militares interessaram-se em ocupar o governo. Basta dizer que no Mato Grosso a notícia só chegou no dia 9 de dezembro de 1889. Outro paraibano que atuou diretamente no movimento foi o General José de Almeida Barreto. Ob. E cumpriu passando às ordens do fundador que vivava a República na praça. onde era professor da Faculdade de Direito. ao ouvir do presidente do Conselho que cumprisse o general o seu dever. “respondeu com singular expressão” disse o próprio Ouro Preto: “Seguramente. propagandista do movimento. se amedrontou com a notícia. 178.                                                              17 Celso Mariz. Saiu a nomeação de Venâncio Augusto de Magalhães Neiva. mas outras províncias souberam da ocorrência com atraso. que atuava no Recife. aos ouvidos do gabinete deposto. p. Na Paraíba a dificuldade se centrava na ausência do Partido Republicano. cit. reconhecendo-se apenas a existência de elementos republicanos infiltrados dispersamente nos partidos existentes. Como os militares estavam com mais força na cúpula. A Paraíba tomou conhecimento do fato no mesmo dia. o brigadeiro Almeida Barreto.. que.que logo quando se instalou a República na Paraíba houve uma passeata com muita gente e quando essa multidão passou em frente da residência do padre Meira. bastante odiado pela população. João e Tude Neiva. convictos de que tinham preferência porque o episódio fora tutelado pelo Exército e pela Marinha. dificultando a total implantação do novo regime. 63    . a Proclamação da República surpreendeu todas as províncias. um soldado paraibano foi elemento decisivo. Era presidente da província Francisco Luis da Gama Rosa. talvez se não mudara o regime naquele dia. hei de cumprir o meu dever”. Se a 15 de novembro esse general obedecesse com seus 1096 soldados à ordem do Ministério contra Deodoro. Explica-se: ele era irmão do general Tude Neiva. deu-se a intervenção dos conterrâneos generais Almeida Barreto. A designação dos novos dirigentes das províncias não foi pacífica. chegou a indicar o nome do nosso conterrâneo Albino Meira para a presidência do Estado. conforme registra Celso Mariz: Na hora da proclamação. apesar dele ser considerado conservador.

próximo do Paço Municipal (hoje praça Barão do Rio Branco). comandante do 27º Batalhão de Infantaria. O coronel Caldas quis resistir. Dr. Drs. aproveitando-se o coronel Caldas de um espetáculo que se realizava no teatro Santa Roza. era seu desejo assumir o governo da província. Ali sempre se reuniram os liberais de tendência republicana. Desesperado. posto que era o representante das forças armadas que lideraram o golpe. Aliás. foi para o quartel onde pretendia conquistar o apoio da tropa. quis fazer-se aclamar governador. No fundo. embora muitos conservadores pertencessem ao clube. Pedro Velho. Antônio Massa de uma das salas do quartel do 27º. capitão Manuel de Alcântara Couceiro. À noite. No próprio quartel foi aclamada outra junta. capitão de engenheiros João Claudino de Oliveira Cruz. constituída pelo próprio coronel Caldas. visando sua aclamação para governar Paraíba. essa antiga sede do Astréa durante oito anos foi a sede deste Instituto. pois tinha se comprometido com o presidente Gama Rosa de dar-lhe garantias e aguardar o pronunciamento da cúpula do movimento. seu imediato na junta. Eugênio Toscano foi o primeiro presidente do Clube Astréa. Benjamin Constant. o 2º tenente da Armada Artur José dos Reis Lisboa. Não foi feliz. ordenara que o coronel Caldas transferisse o comando do 27º para o major João Domingos Ramos e entregasse o poder ao capitão Oliveira Cruz. Segundo consta. localizado na rua Direita (hoje Duque de Caxias). pois em 30 de novembro o Ministro da Guerra. o coronel Caldas programou um comício em praça pública. conforme deliberação tomada com os seus comandados no quartel. Dessas reuniões surgiu a primeira junta. Manuel Carlos de Gouveia e Cordeiro Sênior e o comendador Tomás Mindelo. O coronel Caldas não participara das reuniões. tendo novamente falhado seu intento. que promoveu reuniões no Paço Municipal e na sede do Clube Astréa. O coronel Caldas não assimilou a indicação de Venâncio Neiva. tenente Artur Lisboa. Na tarde do dia 1 de dezembro. Não foi feliz no seu intento. a aclamação dessa nova junta foi feita pelo Dr.pediu garantias ao coronel Honorato Caldas. tentando resistir à designação do governo provisório. mas não contou com 64    . clube social fundado em 30 de maio de 1886. o Barão do Abiaí – o primeiro adesista -. Lima Filho e Eugênio Toscano. O comício foi dissolvido pelo chefe de polícia Dr. Conta o historiador Horácio de Almeida que os primeiros movimentos para a instalação da República na Paraíba foram de iniciativa de Eugênio Toscano de Brito. comandante do Batalhão do Exército. Foram aclamados o coronel Honorato Caldas.

Grande parte dos auxiliares de Venâncio Neiva era de origem conservadora.o apoio dos seus comandados. que. como senadores. O capitão João Claudino de Oliveira Cruz assumiu o governo de ordem do Ministro da Guerra. partia dos liberais. para Chefe de Polícia. Começou a aparecer aí Epitácio Pessoa. visando uma pacificação política. a nomeação dos seus dirigentes não lhes dava liberdade para escolher seus auxiliares. para os postos chaves da Paraíba. coronel João Neiva e Firmino Gomes da Silveira. festeja Silva Jardim. Sá Andrade apresenta-se com as feridas que lhe abriram quando. sendo preso pelo capitão Oliveira Cruz. já que grande parte dos conservadores tinha se aproximado do poder. Firmino da Silveira entra aí como antigo liberal. Tem sido assim em todas as mudanças de governo na Paraíba e no Brasil. Como em todas as províncias. No princípio. quando Venâncio Neiva chegou de Catolé do Rocha para assumir o cargo. fundador do jornal ESTADO e juiz íntegro e inteligente. para Secretário Geral. E Pedro Américo. que. o espírito novo. posto que os quadros republicanos e liberais eram pequenos. O jornal de oposição – JORNAL DA PARAÍBA – panfletava contra essa situação. ainda no domínio monárquico. em seguida. Epitácio é o secretário competente. Cartaxo dos antigos dissidentes liberais de Cajazeiras. o que era natural. João Batista de Sá Andrade. o qual depois foi substituído por Cunha Lima. 1º tenente João da Silva Retumba e Epitácio Pessoa. Pedro Américo de Figueiredo. Para o Congresso foram eleitos general José de Almeida Barreto. embarcou-o no primeiro navio com destino ao Rio de Janeiro. cumprindo instruções. Celso Mariz justifica essa composição: Barreto. de certo modo. foram designados pelo governo central os nomes de Epitácio Pessoa. quando os novos governantes aproveitam seus correligionários e procuram cooptar alguns adversários. e João Coelho Gonçalves Lisboa. Venâncio Neiva pôde manter certo equilíbrio político para evitar uma oposição ferrenha. João Neiva e Retumba eram candidatos impostos pela situação militarista do momento. políticos feitos do dia para a noite de 15 de novembro. permanecendo no poder até o dia 6 de dezembro. Seu intuito era harmonizar a família paraibana. corajoso e ilustrado em quem Venâncio parecia adivinhar a 65    . Assim. traz para o grupo esse prestígio de família e representação sertaneja. Para a Câmara dos Deputados foram eleitos Antônio Joaquim do Couto Cartaxo. por suas partes na grande jornada. que desde 23 de novembro telegrafara candidatando-se sob o compromisso de sustentar o governo da República é o gênio da arte que a política premia.

181-182. Passou a chefia do governo ao 1º vice-governador..18 A chapa oposicionista. ante a pressão dos quartéis e dos congressistas. 66    . A dissolução do Congresso não teve repercussão favorável e ele teve que renunciar o cargo. quando se licenciou perante o Supremo Tribunal de Justiça. que obteve 9. organizada sob a orientação do Barão do Abiaí. O candidato mais credenciado do governo era Epitácio Pessoa. Venâncio apoiara Deodoro discretamente. Aprígio Carlos Pessoa de Melo. estava assim constituída: Anísio Salatiel. posto que esteve na chefia do governo até 31 de dezembro de 1891. Deodoro da Fonseca dissolveu o Congresso em 3 de novembro de 91. no dia 1º de janeiro de 1892 viajou para o Rio de Janeiro. Diogo Velho Sobrinho e Felizardo Toscano Leite Ferreira.975 votos. A votação dessa chapa no interior não foi a esperada pelos candidatos. cit. a 23 de novembro. para senadores. Venâncio Neiva tomou posse no dia seguinte. que já era delegado do governo central. sendo indicado Venâncio Neiva.                                                              18 Celso Mariz. para viajar à Capital Federal a fim de tratar de assuntos administrativos. Ob.glória maior do nosso futuro republicano. embora o critério adotado na indicação de candidatos por Venâncio Neiva tenha se cingido em prestigiar nomes de destaque no serviço público e com méritos reconhecidos. e para 1º. mas seu governo constitucional teve pouca duração. onde a oposição estava muito atuante e o marechal não se entrosava bem com seus ministros. 2º 3º vice-governadores foram eleitos Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. logo após a promulgação da Constituição Federal de 24 de fevereiro de 1891. pp. Na votação para a Assembleia Constituinte Estadual. enquanto Apolônio Zenaide – o mais credenciado da oposição – obtivera apenas 2. Como se sabe. Paula Cavalcante Pessoa de Lacerda. Floriano Peixoto. Amaro Beltrão e Inojosa Varejão. uma vez que a maioria dos chefes eleitorais tinha aderido ao novo governo. No início da sessão da constituinte de 25 de junho foi feita a eleição para governador. A Assembleia era constituída de 30 deputados. a participação oposicionista também foi pequena. Irineu Joffily e conselheiro Tertuliano Henrique.730 votos. O golpe de Deodoro teve o apoio da maioria dos governadores. os quais votaram a Constituição Estadual que passou a vigorar a partir de 5 de agosto de 1891. Apolônio Zenaide Peregrino de Albuquerque. assumindo a chefia do governo seu vicepresidente. desembargador Manoel da Fonseca Xavier de Andrade e.

ao retornar da praia de Ponta de Mato. ao governador Venâncio                                                              Adauto Ramos conta esse episódio. Ali mesmo proclamaram a deposição do governador Venâncio Neiva. Joaquim Fernandes de Carvalho. 1991. comandante do 27º Batalhão de Infantaria. veraneando com a família.. e Júlio de Castilhos.28. os acontecimentos foram precipitados pela iniciativa de Antônio Ferreira Balthar. o qual se encontrava na praia de Ponta de Mato. onde foi cercado por um grupo armado comandado pelo capitão Alípio Balthar e seus parentes. do coronel Alípio Ferreira Balthar (do Engenho Munguengue. No domingo de 27 de dezembro de 1891. do Rio Grande do Sul. I. cerca de 150 pessoas comandadas por aqueles senhores-de-engenho. o qual apresentou ao governador um ofício da Junta. Saindo do quartel do 27º B. Tudo havia sido premeditado. Foi aclamada uma Junta Governativa constituída do coronel Cláudio do Amaral Savaget. no seu trabalho Centenário da Queda do Primeiro Governo Republicano da Paraíba. já demonstrando sua tendência ditatorial. 19 67    . Em seguida.Floriano. de Cruz do Espírito Santo) e do capitão Edmundo do Rêgo Barros (do Engenho Espírito Santo). em carta. chefiado pelo tenente Manoel Paulino dos Santos Leal. do Dr. Tranquilamente.19 No dia 28 o coronel Savaget dirigiu-se. em detalhes. Editora Universitária/UFPB. o governador Venâncio Neiva conferenciou com o comandante Savaget. Pela manhã. Não se intimidou com as ameaças. Venâncio se dirigiu ao Palácio. desembarcaram de trem na ponte Sanhauá e seguiram para a Intendência. refugou o ofício. pois ali mesmo fora lavrado em livro um termo explicativo. Venâncio recusou-se e afirmou que tinha sido eleito pelo povo e por isso pedia o apoio da força militar. depôs todos os governadores. sendo ameaçado de morte. ou que a mesma ficasse neutra. pedido que também foi negado. Na Paraíba.º 25. Venâncio Neiva retorna à praia de Ponta de Mato. segundo anunciou o jornal do governo ESTADO DA PARAÍBA. acompanhado por amigos. O Governador. Eugênio Toscano de Brito e do Dr. o coronel Savaget esteve em Palácio insistindo para que Venâncio resignasse o cargo. que lhe sugeriu a renúncia para evitar derramamento de sangue. aos gritos de que iam depor o governador Venâncio Neiva. in Revista do IHGP n. João Pessoa. No largo do Palácio o grupo engrossou-se com a chegada de outro grupo vindo do Conde. que não apoiara Deodoro na dissolução do Congresso. exceto o de Santa Catarina. à tarde. a recusa de Venâncio foi mais veemente. Lauro Sodré. com energia.

Neiva. passando o cargo ao seu substituto legal. Essa tese é defendida pela maioria dos historiadores que apreciaram o tema. publicista. que fora designado pelo Presidente Floriano Peixoto. No dia 1º de janeiro de 1892. passando Venâncio a receber telegramas de apoio de vários municípios e de outros Estados. sócio do IHGP e atual presidente da Academia Paraibana de Letras) 68    . Escritor. Figura intelectual bastante conhecida do plenário. para pontear a presença de vários paraibanos no movimento vitorioso. Esta Junta governou a Paraíba até o dia 18 de fevereiro daquele ano. historiador. finalmente. tendo eu a honra de tê-lo substituído. o 1º vice-governador Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. Joacil Pereira é o atual presidente da Academia Paraibana de Letras. Venâncio Neiva. deixou o cargo ao pedir licença por três meses. comunicando que o Presidente da Republica o mantinha à frente do Governo. o professor Joacil Pereira foi presidente deste Instituto por dois mandatos consecutivos. E para usar a palavra como debatedor convido o acadêmico Joacil de Britto Pereira. com o apoio do governo central. Debatedor: Joacil de Britto Pereira (Historiador. A fala do Presidente: Numa exposição bastante sucinta delineamos o quadro da Paraíba nos albores da instalação da primeira República na Paraíba. quando foi empossado o engenheiro militar paraibano Dr. desembargador Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. No dia 30 de dezembro. para tratar de interesses administrativos do Estado no Rio de Janeiro. sem dúvida. A novidade da exposição é apenas a discordância sobre a tese de que na Paraíba ninguém se apercebia do advento do novo regime. Álvaro Lopes Machado. no dia 31 de dezembro. ao Supremo Tribunal de Justiça. mas dela minha discordância vai. espicaçar o pronunciamento do nosso debatedor designado bem como dos participantes. a Junta liderada pelo coronel Savaget depôs o governador em exercício. registrando minuciosamente as ocorrências dos primeiros momentos da Paraíba republicana. sem vencimentos. Um breve retrospecto foi feito sobre a Proclamação da República.

que era um espírito vivo e tomava conhecimento como homem bem informado. foi esse: a influência de Benjamin Constant na Proclamação da República. não significa que houvesse aqui um movimento. que estava prestes a ruir. notadamente o jornalista. quando Luiz Hugo começou a falar com tanto descortino.São Paulo agitava-se e o movimento republicano se cingia apenas a dois Estados. centro intelectual do Nordeste. sem nenhum protesto. desde aquela época. Na minha retentiva espiritual. ter vindo à Paraíba já nos momentos em que o Império haveria de expirar. que ele. Por isso Eugênio Toscano ofereceu seu matutino para a propaganda da República. Eugênio Toscano de Brito. tudo bem fundamentado nos historiadores conterrâneos e nos historiadores nacionais. O Grêmio se reunia nos fundos da casa de Luiz Hugo Guimarães. Foi necessário que. que todo mundo já sabia. essa evocação sentimental. e fez muito bem porque no final de contas ele disse tudo o que tinha de dizer.O presidente no seu prudente arbítrio. que era professor no Recife da nossa tradicional Faculdade de Direito daquela cidade. para cumprimento do meu dever. tudo certo. me permitam uma nota emocional. se porventura triunfassem contra o Império. eu tenho que agir como um debatedor o faz. aquele estudante curioso para os assuntos da História. desde a Abolição. extrapolou. dentro do Exército. eu gostaria de dizer que os historiadores paraibanos não cometeram excesso algum. na Paraíba. Feita essa reminiscência. comigo e outros liceanos. às vésperas da proclamação da República. aos nossos trabalhos intelectivos no Grêmio Cultural Augusto dos Anjos. movimento republicano. No entanto. 69    . Antes. pois não tínhamos sequer um clube nem um jornal republicano. Havia. E ele hoje projetou a figura de Benjamin Constant como o homem que era apontado. Em assim agindo ele me poupa de maiores comentários. E eu recordo muito bem que um dos trabalhos elaborados por Luiz Hugo Guimarães. eu recuei no tempo aos nossos debates. o tempo que lhe era reservado. de que o eixo Rio . na Paraíba. fundamos. O fato de Albino Meira. como um verdadeiro ideólogo da República e também adepto da filosofia positivista de Augusto Comte. ele reservou uma página do seu jornal como se fosse uma premonição para ficar bem com republicanos. pugnadores das grandes ideias de República entre os nossos conterrâneos que moravam fora do Estado. porém. ao tempo. que eu sei que também emociona o caro Presidente. embora houvesse republicanos históricos convictos. como soe acontecer com todo intelectual. quando disseram que não havia propriamente um movimento republicano. Não havia. nas forças militares. situada à rua Irineu Joffily.

na Paraíba. e muito mais recuada em época na história. na Câmara Municipal. inclusive de Borges da Fonseca. Isso não significa que a Paraíba não tenha através dos tempos. organizada em reuniões havidas na redação do jornal de Eugênio Toscano de Brito e. dissera no seu livro sobre 1817. no seu livro A PARAÍBA NA PRIMEIRA REPÚBLICA. Como tem razão Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo. com as aspirações libertárias. terrivelmente ingrato. Horácio de Almeida quando diz que a República chegou à Paraíba sem ter quem a recebesse. Então. como já salientou o brilhante expositor. e regaram o solo sagrado da Paraíba com o seu sangue. a República chegou por um processo inteiramente errado. por uma quartelada comandada por Deodoro. É preciso considerar como uma ideia base. Outros receberam a notícia com indiferença. Era um homem muito 70    . um dos nossos escritores. o romancista Eudes Barros. Esse era o velho sonho. a maioria não acreditava. que aderiu. essa frase magnífica: Eles sonharam com a liberdade. não foi a Paraíba. também em 1824 e 1848. nos seus anseios. que foi ingrato.e nós não podemos contestar. à República. Então ela começou errada até eticamente. E depois não se aperfeiçoou no exercício do poder. mas a sua simpatia era toda para o Partido Conservador e amigo íntimo do governador Barão do Abiaí. Só encontrou quem sufragasse o seu nome essas duas dúzias de eleitores. com o sonho republicano marchou pari passu com as ideias de liberdade. de alguns intelectuais. e o Imperador foi seu benfeitor. Então tem razão. foi escolhido para presidente Venâncio Neiva. e de todos os que fizeram a revolução de 1817. apesar do desejo. pressurosamente. Basta dizer que Albino Meira candidatou-se pelo Partido Republicano e teve 24 votos para deputado federal. como o expositor já citou. uma ideia central.como o Presidente Luiz Hugo disse. depois. a ponto de ser incluído na primeira Junta Governativa. de quem era amigo. um romance de fundo histórico. pugnado pelos ideais republicanos. já à tardinha do dia 15 chegou à Paraíba esse telegrama e a maioria dos que tomaram conhecimento do fato espalhou entre os elementos mais importantes. Foi um golpe terrível. mas uma “atuação tímida”. certos pruridos de estudantes. uma vinculação muito estreita com a liberdade e com a Democracia. Vejam. Por isso mesmo. No Brasil. alheia aos anseios de República. que não prosperou. no último pleito da Monarquia. um homem que não era propriamente político. . que a República continha. continuou errada no processo de deposição dos presidentes das províncias e na escolha dos chefes de executivo da nascente República. com o Imperador. o Repúblico. quando afirma que o novo regime chegou à Paraíba por uma notícia telegráfica no final do dia. A tônica foi a incredulidade.

então. Então um filho das Alagoas cometeu um crime. o Vice-presidente. homem violento. temperamento perigoso e além de tudo alagoano. a fim de conseguir uma aclamação do povo. elementos da agremiação liberal. por algumas manifestações.hábil e muito inteligente e queria conseguir de um colégio de expressão do poder político. Aproveitou o ensejo de um espetáculo que se realizava no Teatro Santa Roza e para lá foi com alguns cadetes. o Marechal. Eu poderia até aqui contar uma história de um certo juiz da Paraíba. Depois ele. o comandante de tropa de linha e coronel Honorato Caldas. porém. a aclamação daquela Junta Governativa. E conseguiu com habilidade de juiz. era alagoano. foi erradíssima a sua instalação. que já morreu. que não respeitou a Constituição que jurara. “pintou e bordou”. grandes aspirações as da República. Então a República começou mal. Houve um militar ambicioso que “botou as unhas de fora”. no julgamento. Saiu. além de tudo. fechou o Congresso Nacional e sofreu também as consequências disso com outro golpe contra ele. Depois. porque a República surgiu para condenar o absolutismo dos reis. muito inteligente. Predominaram no seu esquema os elementos conservadores. Esse homem também não conseguiu investir-se no poder. como se diz na gíria. golpe sobre golpe. mas também aproveitou. eu digo agora: “Floriano. porque a Paraíba já começava a repelir. artífice e intelectual do crime foi Floriano Peixoto. vaiado. Nasceu o regime republicano de um golpe de Deodoro contra o Imperador.” No final de contas. mandou muita gente para a ilha das Cobras. Ideias nobres. condenou o réu a uma pena muito alta de reclusão. ressalve-se que procurou harmonizar a família paraibana. na Paraíba. esses processos rebarbativos. fez um governo praticamente nulo. Finalmente veio Venâncio Neiva e. anseios maravilhosos. O grande autor. Se foi errado o processo de proclamação da República. Homem terrível. mas. apupado. que achava que a vez era dos militares porque na esfera federal a implantação da República fora um golpe dos militares.” Pois bem. mas por trás disso tudo estava Floriano Peixoto. que era a Câmara Municipal. E justificava na sentença: “o acusado tem péssimos antecedentes. quando não podia fazê-lo se fosse um homem da legalidade. O processo foi instaurado na comarca de Guarabira e o juiz processante. como são pragmáticas as ideias políticas e 71    . Agora vejam os senhores. na composição da chapa que depois se fez para a Assembleia Legislativa. contra a monarquia. Tentou de tudo. mas tinha prevenção terrível com os alagoanos porque o pai dele foi assassinado por um alagoano. rasgou a Constituição e ficou à frente do Governo até o fim. diga-se de passagem. chefiado pela Marinha.

mas dois. mas ele não aceitou. Sobre o último Chefe de Polícia Provincial. Respondeu em carta ao Presidente que se tivesse de ser Ministro da Justiça num governo ilegal iria contrariar sua consciência. em que se muda de partido a todo instante. já Luiz Hugo Guimarães disse com proficiência. os partidos são agremiações que não têm. só voltou à política muito tempo depois para ser deputado federal. quando a República já estava mais do que consumada. que é um exemplo magnífico de democracia. Essa figura deve ser lembrada. Conheço a sua vida e a sua obra. E o outro grande paraibano. uma ideologia a apresentar. nesta hora em que estou finalizando a minha participação. Eu terei que ser breve porque tudo que deveria ser dito. a cadeira nº 17. na Academia Paraibana de Letras. na hora em que a lealdade cada vez mais vai rareando na vida pública nacional. Fez amizade com Floriano Peixoto quando Floriano esteve aqui na Paraíba e quis fazê-lo Ministro da Justiça. Não. como afirmei. Dr. comunicou a Eugênio Toscano de Brito: “A queda da monarquia. que eu me lembre. Queria fazer apenas esses reparos e enaltecer. como foram as implantadas na Paraíba após o advento do regime republicano. Então. disse Oswaldo Trigueiro que ele. Grande jornalista. foi Vice-presidente do Estado e presidiu a Paraíba duas vezes. como exemplo. Temos Repúblicas oligárquicas. Sá e Benevides. foram notáveis. Sou ocupante da cadeira de que ele é Patrono. representando o nosso Estado. Eugênio. uma figura íntegra. 72    . Foi um homem notável sob todos os títulos e um homem austero e leal. foi uma desgraça. de garantia dos direitos individuais. com os olhos rasos d'água. que houve alguns homens entre aqueles inúmeros adesistas. Não podemos dizer e concluir que todas as Repúblicas são democráticas. na prática. a cada dia que se passa. com raras exceções.como elas pragmaticamente se fortalecem ou se executam na prática. Foi senador eminentíssimo. preferia ficar no seu canto. a multidão de trânsfugas.” E não aderiu de forma alguma. E os homens públicos cada vez mais. Nós temos o exemplo da Monarquia Inglesa. nós temos Repúblicas e Repúblicas. cujo sesquicentenário nós vamos comemorar a partir do próximo dia 1º de outubro. vão se tornando servos das suas ambições personalíssimas. Não aderiu. Eu bendigo essas duas figuras e as aponto. pelo menos. inclusive por eleição. é Gama e Melo – Antônio Alfredo da Gama e Melo –. que deve ser recordado. Há Repúblicas oligárquicas. como não podemos dizer que todas as Monarquias são tirânicas. grande filósofo. absolutamente. neles lealdade e fidelidade aos seus princípios. sobretudo numa época como esta.

apenas. Começou logo divergindo. Realmente. com brilhantismo. E parece ter feito de propósito.A fala do presidente: Nosso debatedor oficial. Essa viagem do Conde d’Eu ele fez num navio de linha e foi parando em todas as províncias do Império. E Irineu Joffily 73    . Assim. Com a palavra o professor Humberto Mello. e eu passo a palavra ao primeiro participante do debate. nosso debatedor. Pois bem. quando o Conde d’Eu passou pela Paraíba. Era um navio comum. professor Joacil de Britto Pereira. Joacil Pereira. em termos de observação que. o Barão do Abiaí foi o primeiro a aderir ao novo regime. o expositor apresentou uma tese discutível sobre esse aspecto. que previamente se inscreveu. E como já foi bem salientado pelo expositor e debatedor. professor da UFPB): Dr. uma questão que nunca foi examinada dentro desse ângulo. talvez pela primeira vez. para levantar. sua função de provocar o debate. Nessa passagem do Conde d’Eu pela Paraíba registrou-se a famosa frase do Barão do Abiaí. 1º participante: Humberto Cavalcanti Mello (Historiador. sócio do IHGP e da APL. ele veio do Rio de Janeiro e parou no Espírito Santo. não foi porque aqui localizasse um importante núcleo republicano. que é o consócio e historiador Humberto Cavalcanti de Mello. em junho de 1889. o ilustre acadêmico Joacil Pereira. O que eu iria dizer. como bem demonstra o seu neto José Joffily na biografia ENTRE A MONARQUIA E A REPÚBLICA. Em cada uma das províncias ele veio procurando levantar os ânimos monarquistas. com muita lhaneza. Entre os poucos republicanos da Paraíba houve um que depois se desencantou com a República. Essa é a função do debatedor. Alagoas e por aí veio. cumpriu. parou na Bahia. um navio de linha. Joacil já disse melhor do que eu poderia ter feito. que citarei de memória: “Ainda que todo o Brasil se transforme em República a Paraíba permanecerá fiel à monarquia”. apontar os senões. vamos dar oportunidade a que os presentes se manifestem sobre o tema. Não era como atualmente em que os dirigentes requisitam o seu transporte próprio. Sergipe. atanazando o que o Conde d’Eu dizia. enfocou dois aspectos que eu tinha anotado para falar aqui sobre a densidade do movimento republicano na Paraíba. Quero lembrar. de uma referência do expositor sobre a chegada da República à Paraíba. E Silva Jardim compra passagem no mesmo navio para vir fazer comícios paralelos. nos seus comentários. botou lenha na fogueira. que foi Irineu Joffily.

dando-lhe a posse na Câmara Municipal. O tenente José Pessoa já estava envolvido com a conspiração republicana. Inês 74    . Lembrou o debatedor Joacil Pereira que Eugênio Toscano de Brito. positivista e participou do movimento de 15 de novembro. Essa Junta não conseguiu prosperar. em Pernambuco. período sobre o qual escreveram Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo. Uma coisa sem nenhuma forma de legitimidade. com dificuldade. com sua sensibilidade política. Epitácio Pessoa. em cinco minutos mudou de opinião. tentou conseguir uma legitimidade para a Junta que ele pretendeu instalar. A antiga revista O CRUZEIRO. ao tempo em que era a revista de maior circulação do país. Foi aí que surgiu o republicanismo de Epitácio. Deodoro tira o quepe e grita: “Viva o Imperador”. por um telegrama. antes de tudo. não tendo para onde ir. como disse o expositor Dr. que. E os cadetes e tenentes positivistas abafaram o grito com “Viva a República”. depois então Deodoro repetiu “Viva a República”. mas. quer dizer um republicano de vésperas. da véspera do 15 de novembro. brigou com o juiz e foi forçado a se exonerar. como bem salientou Luiz Hugo. Como disse José Américo. o que a República velha teve como seu grande marco político distintivo.nos últimos anos de sua vida se transformou num propagandista do regime monárquico. um homem de sorte (é verdade que a pessoa tem que ter seus méritos. foi para o Rio. Epitácio foi. Então eu me lembrei que foi a Câmara Municipal quem deu posse a Álvaro Machado. Ele estava na Bahia e Floriano passou um telegrama para ele dizendo que fosse assumir o governo da Paraíba. pois estava doente. À noite. que era cadete. A Assembleia estava dissolvida e Álvaro procurou dar legitimidade à sua posse. Epitácio era promotor público na Comarca do Cabo. vai com ele. porque Álvaro Machado foi designado. publicou uma série de artigos sobre a República e trouxe um depoimento do marechal Rondon. o então tenente José Pessoa. Chega no Rio entre o dia 5 e 10 de novembro de 1889 e se hospeda na casa do seu irmão. o irmão vai para uma reunião e Epitácio. Não tendo mais o que fazer em Pernambuco. Luiz Hugo. não tendo mais com quem brigar. começou a carreira como Secretário Geral do Estado. mas tem que ter sorte). Apolônio Nóbrega. onde ele afirma que quando Deodoro sai a cavalo. Ou seja. O expositor Luiz Hugo fixou-se no início da República. e Álvaro Machado veio consegui-la tomando posse na Câmara Municipal e daí partindo o seu domínio político no Estado pelo prazo de vinte anos.

de elementos conservadoras. Álvaro Machado percebendo essa dificuldade. resguardadas. as aparências. Depois tivemos o segundo ciclo que eram as revoltas populares tipo Quebra Quilos. correu aos antigos oposicionistas. foi o grande peso coronelista. Há até uma carta de Epitácio a um seu correligionário (eu não me recordo bem o nome do destinatário. Era a gangorra entre liberais e conservadores. E depois nós vamos ter uma série de revoltas dos coronéis. assim. Quando a República foi proclamada quem estava no poder era o partido liberal. principalmente na Paraíba. o Ronco da Abelha. na luta contra José Peregrino.Caminha entre outros que publicaram livros específicos. depois que veio a República. Pedro II tinha a visão de perceber que se um partido demorasse muito no poder não seria bom. Então. quando o partido passava um ou dois anos. Mas. a Serra do Apobá. em 1900. que Geraldo Joffily. inclusive Gama e Melo. pessoal ligado a Venâncio Neiva. ele mandava dissolver e fazia eleição. disse que eram movimentos pré-políticos. 17. porém. Cunha Lima lá em Areia procurou também levantar tropas para apoiar o candidato Antônio Massa. o revezamento dos partidos. pois o Visconde de Ouro Preto era liberal. O partido que se enquistava no poder de lá não queria mais sair. como diziam os desgostosos. Tivemos esse movimento da família Balthar para depor Venâncio Neiva. tivemos depois. mas sabemos também que os amigos de Venâncio procuraram resistir e mandaram tropas que chegaram atrasadas. havendo. Daí ter sido o governo constituído. já havia uma série de desgostosos dentro do seu partido. que tinha sido governador. e José Peregrino. citado pelo debatedor Joacil Pereira. A ponto de 12 anos depois de Álvaro Machado assumir o governo. em livro e debate ocorrido nesta Casa. que a essa altura já eram praticamente comandados por Epitácio. mas essa carta está nas obras dele e na obra de historiador Glauco Ari Soares). não havia mais como manter essa alternância. Nós tínhamos tido na Paraíba um ciclo de revoltas que inicialmente guardava um certo ideário. em 1912 tivemos a revolta de Santa Cruz e Franklin 75    . dizendo que ele procure aderir ao governo. e faz um acordo. O expositor Luiz Hugo registrou o primeiro movimento duma representatividade desse coronelismo. Quase todas elas ligadas a problemas estaduais. vindo de Pernambuco. 24 e 48. pois a única forma duma pessoa sair da oposição para o governo é através da adesão. porque estavam na oposição e viram no movimento republicano uma maneira de subir. No Império o coronelismo não pesava tanto por conta do chamado lápis fatídico do imperador. quando houve aquela dualidade de governantes. que foi a série de repetidas revoltas coronelistas.

Quer dizer. 3º participante: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho (Sócio do IHGP): Parece-me que não tenho nenhum reparo a fazer porque as pessoas que ocuparam o microfone o fizeram da melhor maneira possível. O general Almeida Barreto era comandante das tropas. conterrâneo do consócio Deusdedit Leitão. que era um carniceiro naquela fase de Canudos. Falando em republicano. e Almeida Barreto. e na hora o general teve um ato de alta pusilanimidade. A única coisa que eu sei de Floriano que se pode aproveitar foi quando perguntaram a ele se um navio estrangeiro viesse ao Brasil para invadir e ele disse que o receberia a bala. não posso esquecer meu pai que. com o maior brilhantismo. Era apenas isso que eu queria expor. que foi empastelado. sob aplausos.O soneto foi lido. Almeida Barreto era um homem de origem duvidosa. . Assis Cintra teve um livro muito bom sobre esse episódio. Quero apenas fazer uma ligeira lembrança sobre a atuação do general Almeida Barreto. onde foram feitas referência a Venâncio Neiva e Albino Meira. Tanto assim que não cumpriu com a função de que era incumbido. foi um dos revoltados com aquele ato. que teve começo com o alvorecer da República. era o chamado chefe de polícia do território neutro. esse predomínio coronelista com essas exibições periódicas de força foi um fenômeno tipicamente republicano. 2º participante: Célia Camará Ribeiro (Sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói): Mais uma vez estou aqui feliz em assistir essas aulas magníficas. que culminou em 30 com o movimento de José Pereira. de Monteiro e Teixeira. que queria porque queria ser senador do Império (e não foi). meu parente. chamado-o “o general que vendeu o Império”. ninguém sabe quem foi a mãe desse insigne e ilustre general do Exército. Sobre Floriano Peixoto acho que não devia nem ter nome de rua. naquela revolta do jornal O COMBATE. assim como de Moreira César.Dantas. vingou-se aderindo a uma República da qual ele não fazia parte naquelas conversações entre os positivistas.. ele tinha uma cicatriz 76    . E outra coisa. ninguém sabe. é um caso muito raro. tentando depor o governo de Álvaro Machado. Pediria permissão para ler um soneto sobre 7 de setembro. que era manter a ordem pública.

que os dois se proclamaram eleitos. Então somente vencia a chapa do governo. João Suassuna. No Rio Grande do Sul foi eleito várias vezes presidente do Estado o caudilho Borges de Medeiros. justiça eleitoral não havia. Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Houve eleição com oposição de João Tavares contra José Peregrino. muito honrado. foi o governador Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Melo. com Venâncio Neiva (que foi numa eleição indireta). Cada Estado tinha a sua legislação. em aparte concedido: A lei do tempo era uma lei iníqua. E para Borges de Medeiros deixar de ser presidente houve a revolução de 1923. Aconteceu isso com o presidente João Pessoa. onde passou uma boa temporada. Camilo de Holanda. era o caso do Rio Grande do Sul. Batista Luzardo e outros. a primeira eleição que elegeu três senadores e cinco deputados federais. porque o voto não era secreto. Posteriormente ele se desaveio com Floriano e. tanto que alguns Estados permitiam a reeleição do presidente. O primeiro governador eleito na Paraíba pela oposição. comandada por Assis Brasil. Se o partido obtivesse 51 por cento dos votos. Era o caso do Pará. e houve o acordo de Pedras Altas. O voto era descoberto. Álvaro Machado (também numa eleição sem definição) e como todos os outros presidentes. resultante da Guerra do Paraguai. Rosa e Silva. foi preso e teve o justo castigo. democrática. Mas o principal era a falta de legitimidade. quer dizer. Pois é. Existia a chamada chapa cerrada. nas margens do Rio Amazonas. que tivesse uma rotulação de avanço social ou ideológica. os partidos eram estaduais. Um presente de grego que a República deu às nossas instituições políticas e cívicas. E a posse foi reconhecida pelo Vice-presidente da República em exercício. salvo engano. porque o voto não era secreto. democrata sincero. Nosso presidente falou na primeira eleição da República na Paraíba. Quero apenas registrar que essa eleição não foi uma eleição digna. Foi remetido para uma cadeia. possivelmente correndo. E a maioria dos presidentes não tinha nem opositores. numa posição muito pouco digna e muito pouco honrosa para um soldado brasileiro. A fraude campeava. Ninguém era eleito deputado e o eleitor votava cinco vezes.nos quadris. mesmo sendo senador. em voto secreto. continuando: Agradeço a intervenção do confrade Joacil Pereira. essa foi a primeira eleição. uma eleição que foi tão difícil saber-se quem ganhava. por sinal um homem muito digno. fazia a chapa toda. que disse que se mantivesse na posse quem estivesse ocupando o Palácio do 77    . Joacil de Brito Pereira.

mesmo porque o seu sucessor era um estrangeiro. mulher nessa primeira República foi tratada como cidadã de segunda ou terceira categoria. mas seria bastante magnânimo daqueles que a queriam que esperassem a morte do imperador. quando foi entregar a notícia da deposição. porque estava terminantemente proibido rememorar a nossa história. A República não trouxe Justiça Eleitoral. no dia seguinte. foi a extinção do nome Imperial Colégio D. Pedro II para Ginásio Nacional e a extinção da cátedra de História do Brasil.Governo. como pessoa. Seria muito mais digno e nasceria essa democracia de forma muito mais justa. começando pelo presidente Luiz Hugo Guimarães que. se batia continência. Mas podia-se esperar a morte do imperador. não sabia se se perfilava. Se nós tivéssemos esperado mais um pouco . de uma forma muito detalhada. O imperador estava precocemente provecto. concatenada. O major Sólon Ribeiro. Ouso dizer que da mesma forma que os israelitas estão esperando o Messias. Era apenas o velho útil. E então o Colégio Pedro II 78    . bem cuidada traçou o cenário do alvorecer da velha República. se chamava Vossa Majestade ou se chamava Vossa Excelência. Acho que realmente faltou ética no movimento. se juntava as botinas. sogro de Euclides da Cunha. ao professor Joacil de Britto Pereira. nem cidadã era.esta República teria surgido de uma forma muito mais respeitável. Sem dúvida que a monarquia estava no final. como diz o Dr. Conta-se que Benjamin Constant chamava o marechal Deodoro de o “velho”. E queria-se que a família imperial partisse de madrugada para que ninguém visse. que de forma magnífica sintetizou alguns aspectos com os quais eu comungo plenamente sobre o significado ético daquele movimento de quartel que representou a Proclamação da República. respeitável e plena. 4º participante: Guilherme d’Avila Lins (Sócio do IHGP e do IPGH): Em primeiro lugar quero parabenizar todos que aqui falaram. que com febre de 40 graus proclamou a República. mas não decrépito e ele era uma figura profundamente respeitada. numa alusão à sua utilidade pela representatividade que ele tinha no meio militar. Eram as colocações que eu tinha a fazer nesta tarde de tanto brilho para nossa querida instituição. E um dos primeiros atos da República. conta-se. Odilon Coutinho. pai de Ana de Assis. Não havia absolutamente Justiça Eleitoral. é bom que se registre aqui. Eu ainda estou esperando. eu estou ainda esperando uma República estável. salvo engano. não trouxe o voto feminino.

de geometria analítica. Porque a República foi um arranjo de militares. Faltou aquela ética adotada pelo senador Gama e Melo. será que a gente estaria vivendo um tempo de República diferente? Joacil de Britto Pereira. talvez fosse outra a situação deste país. em particular. para a educação. e eu quero registrar que cresci ouvindo a história de que o Clube Astréa representou um dos focos das ideias republicanas na Paraíba. grande sociólogo americano. embora esposando boas ideias. Agora eu pergunto: essa República que começou de forma errada e a gente está vendo hoje alguns resquícios. sentindo o peso da consequência desse erro. em geral. Debater sobre a História do Brasil nunca é demais. nós teríamos tido um resultado diferente. que fala sobre esse tema o SE na História. então. Foi. mas uma quartelada na verdade. que disse que a República começou de forma errada. como disse um grande republicano. belas ideias. com os líderes autênticos do movimento republicano. talvez (é o se na história). que o povo assistiu bestificado a Proclamação da República. o povo brasileiro não tivesse sido afastado. da luta do povo. eu me atrevo a informar que o meu pensamento é que se a República tivesse sido feita com apoio popular. a partir de um movimento do povo. não é tão fácil responder. No entan79    . do anseio do povo. por exemplo. sobretudo por uma questão que o professor Guilherme acabou de assegurar que houve uma falta de ética. No entanto. os anseios republicanos. Há um livro de Sidney Rooth. Se tivesse procurado um apoio popular. no que diz respeito à cultura humanística. mas aqui foi citado o Clube Astréa pelo expositor Luiz Hugo Guimarães. o Sr. da revolução. Quero direcionar minha colocação ao que falou o professor Joacil Pereira. acha que há perspectivas de melhoras? Ou a gente está caminhando para o caos? E outra pergunta: Se a República tivesse começado de forma diferente. 5º participante: Silvana Alves de Souza (Estudante. um período que eu considero de obscurantismo para a instrução pública. de tudo que o positivismo acreditava como o seu altar. em resposta à pergunta formulada: A indagação que me foi direcionada. se não tivesse sido assim. através de uma pregação mais segura.se encheu de cátedras das ciências matemáticas: de trigonometria. participante inscrita): Primeiro gostaria de parabenizar o Instituto pela excelente iniciativa em promover esse Ciclo de Debates. um golpe tramado às pressas e às carreiras. Não tenho nenhum dado oficial.

de uma república de corrupção. desde o tempo de Joaquim Nabuco. Durante essa primeira República nós poderíamos ter debatido mais. E de lá para cá temos sido um povo sofrido. que foi bastante apreciada pela segurança dos seus conceitos e pelo levantamento de alguns questionamentos sobre minha exposição. Humberto Cavalcanti de Mello. se o tempo do expositor pudesse ser mais elástico. nas academias. De qualquer forma. Célia Camará Ribeiro e Silvana Alves de Souza ilustraram o debate. apreciada e melhor interpretada. sobre a participação das figuras que influíram na sua proclamação e na sua evolução. infiltrou-se no poder oligarquia após oligarquia e aí está hoje o espetáculo mais triste de uma república de piratas.to. com a permissão do plenário. Cada participante não tem que ser. sucintamente. a passagem dos governos paraibanos desde 80    . em lutas. conflitantes. Agradeço também aos participantes pelos pronunciamentos que fizeram. Considerações finais pelo expositor Luiz Hugo Guimarães: Agradeço a contribuição do ilustre debatedor oficial. gostaria de nessas considerações finais destacar. Castro Alves. Guilherme d’Avila Lins. desde essa época. e por isso mesmo esclarecedores das dúvidas dos participantes. enriquecendo o tema hoje apreciado Os assuntos debatidos neste Ciclo são. não raro. falando sobre alguns governos paraibanos. necessariamente. a mocidade sempre romântica e revolucionária não participou do movimento republicano. que as aceito. Todo o esforço. cooptado por um ou por outro para alinhar-se ao seu ponto de vista. o que é mais grave. daí por diante a República foi se corrompendo cada vez mais. O importante do debate é que cada um apresente sua idéia para que ela possa ser examinada. todo o sangue derramado pelos heróis nacionais em revoluções. permitindo uma melhor apreciação sobre as dificuldades para implantação da República. nas Faculdades de Direito do Recife e de São Paulo. um povo escanteado. todo o anseio da mocidade nas escolas. companheiro Joacil de Britto Pereira. É importante para nós o levantamento dessas questões sobre a participação da Paraíba nesses 500 anos da descoberta do Brasil. O comentário dos participantes Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Rui Barbosa. embora sem me convencer de todo com sua argumentação.

Sua oposição ao Governo Federal aumentou suas dificuldades. Em consequência da renúncia de Deodoro da Fonseca. Em 14 de abril de 1892 passou o governo ao seu Vice-presidente Walfredo Leal. Não há grandes fatos a mencionar durante esse período de adaptação da República na Paraíba. fundou o Partido Republicano da Paraíba. retornando ao governo em 27 de junho do mesmo na. José Octávio (HISTÓRIA DA PARAIBA – LUTAS E RESISTÊNCIA). Assumiu o governo uma junta governativa. por ter sido eleito Senador. que estavam bastante atrasados. recuperou as finanças do Estado. reformou o ensino “em bases mais adiantadas”. enfrentando a seca de 1898 e a inundação de 1899. Venâncio Neiva foi confirmado no cargo de Presidente da Paraíba pela Assembleia estadual constituinte.91. Venâncio Neiva foi deposto. assumindo o poder uma junta governativa.                                                              Muitos dados do resumo da ação administrativa dos Presidentes e Governadores do Estado foram coligidos nos trabalhos dos seguintes historiadores paraibanos: Carmen Coelho de Miranda Freire (HISTÓRIA DA PARAÍBA – DO IMPÉRIO À REPÚLICA). passou o governo ao seu Vice-presidente Monsenhor Walfredo Leal. restaurando o crédito e atualizou os vencimentos dos funcionários. restabeleceu a figura do Prefeito Municipal. Manoel da Fonseca Xavier de Andrade. tendo sido eleito quando a 2ª Assembleia Constituinte se reuniu para votar a Constituição do Estado.1992. cujo governo foi de pouca expressão administrativa.12. com os seguintes breves comentários: 20 06-12-1989 a 31-12-1991: Venâncio Augusto de Magalhães Neiva Designado pelo presidente Deodoro da Fonseca. Em 17 de maio de 1896.01.a sua instalação na Paraíba. Teresinha de Jesus Ramalho Pordeus (HISTÓRIA DA PARAÍBA NA SALA DE AULA). 18-02-1892 a 1896: Álvaro Lopes Machado Foi designado pelo presidente Floriano Peixoto. para ambos os sexos. Álvaro Machado criou a Imprensa Oficial (a atual A UNIÃO). O governo central ordenou a volta de Venâncio Neiva. equiparando o Liceu Paraibano ao Ginásio Nacional. tendo o mesmo pedido uma licença em 31. 22-10-1896 – 22-10-1900: Antônio Alfredo da Gama e Melo Teve grandes dificuldades em seu governo. 20 81    . Celso Mariz (APANHADOS HISTÓRICOS DA PARAÍBA). para o período 91/94. o qual foi deposto em 01. em 27 de novembro de 1991. assumindo o cargo o 1º Vice-Presidente. a qual permaneceu em exercício até 18 de fevereiro de 1892.

Deixou de ser Ministro de Floriano Peixoto porque não poderia ficar em paz com sua consciência. Incentivou e fundou o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. com apenas dois alunos inscritos. assumiu o mandato de Álvaro até seu final. 22-10-1900 – 1904: José Peregrino de Araújo Após sua eleição. pertencente a um grupo de jovens políticos. Apesar das turbulências políticas. 28-11-1905 a 28-10-1908: Monsenhor Walfredo dos Santos Leal Como Vice-presidente recém-eleito. uma vez que levou a “pequena açudagem ao interior e incentivou a companhia de ferro-carris” na capital. assumindo provisoriamente o Vice-presidente Francisco Seráfico da Nóbrega. A 28-10-1905. baixando a dívida pública do Estado em 50%. reagindo com a ação truculenta do seu Chefe de Polícia. Na sua administração o Liceu chegou a ter 50 alunos. falecendo no mandato em 10. que logo passou o governo ao Monsenhor Walfredo Leal. 28-10-1905 a 28-11-1905: Francisco Seráfico da Nóbrega Como 2º Vice-presidente assumiu a Presidência Francisco Seráfico da Nóbrega. que empastelou os jornais O COMÉRCIO. No seu governo houve a implantação da fábrica de cimento em Tiriri e uma de tecidos em Santa Rita. O Governo do desembargador Peregrino teve grande oposição política. Sob seu governo foi criado o alistamento eleitoral. foi eleito Senador. Culto e honesto. à frente Antônio Massa. também se considerava vencedora. dirigido por Artur Aquiles e O COMBATE. Sua atuação é meritória. Restaurou o ensino e evitou que o Liceu Paraibano fosse fechado.1908. houve por alguns momentos dualidade de governo. declarou-o empossado. Tentou unificar o partido. enquanto Monsenhor Walfredo Leal era eleito 1º Vice-presidente. para ser eleito senador. O Vice-presidente da República.04. 22-10-1904 a 28-10-1905: Álvaro Lopes Machado (segundo governo) Diante da crise política que grassou no seu partido. Álvaro renunciou ao cargo. Álvaro Machado se viu obrigado a candidatar-se a um novo mandato de Presidente. uma vez que a chapa oposicionista. melhorou a situação financeira. que terminou o quatriênio. que se encontrava no exercício da Presidência. tendo revogado as incom82    . Antônio Semeão dos Santos Leal. conforme declarou em carta àquele mandatário. Rosa e Silva.

reconstruiu a Escola Normal. instituindo concurso para professores. de Monteiro e Teixeira. facilitando a resistência do governo Nesse clima. que hoje tem o seu nome. que combatia a “política dos governadores” estabelecida por Campos Sales. Augusto Santa Cruz e Franklin Dantas. graças ao seu prestígio intelectual. Enviou representante ao 1º Congresso de História Nacional (João de Lyra Tavares e Ascendino Cunha). luz e bondes elétricos na capital. Seu governo também foi agitado politicamente. Para a sua sucessão foi proposto como candidato de oposição o coronel do Exército José Joaquim do Rego Barros. armaram uma grande coluna municiada para invadir os sertões paraibanos. combateu o banditismo. João Machado foi eleito com apoio do presidente Walfredo Leal. fundou dois cursos profissionalizantes: Comércio e Agricultura. melhorou o ensino. não permitiu que o jornal do governo fizesse política. fundou uma escola na Cadeia Pública. Seu governo é considerado pelos historiadores como o mais operoso da primeira República. fundou a primeira Biblioteca da Paraíba. médico sanitarista. retirou as eleições do interior das igrejas. ainda com o apoio de Epitácio Pessoa. abriu a grande avenida em direção ao leste. Com a interferência de Epitácio Pessoa foi decretada a intervenção federal. assegurou água. Criou uma carteira de Crédito Agrícola para empréstimos sob penhor agrícola. instalando a Diretoria Geral de Higiene. depredando e assaltando várias cidades sertanejas. promulgou o Código de Processo Criminal do Estado. 28-10-1908 – 28-10-1912: João Lopes Machado Irmão de Álvaro Machado. Pedro da Cunha Pedrosa. de autoria de Dr. fundou a Escola Agro-Pecuária de Puchi. que tinha o apoio do governador Dantas Barreto. Deu total apoio à cultura. 83    . não contando com o apoio do Presidente Hermes da Fonseca. 28-10-1912 a 24-07-1915: João Pereira de Castro Pinto Iniciou o seu governo cercado de simpatia. Dentre os inúmeros oposicionistas. de Pernambuco. reorganizou o Departamento de Saúde Pública. ordenou a construção de açudes e poços artesianos.patibilidades para cargos eletivos e sancionado a Lei que concede habeas corpus. João Machado fez seu sucessor João Pereira de Castro Pinto. facilitando a publicação das obras de escritores paraibanos através da Imprensa Oficial. que era Ministro do Supremo Tribunal.

dispensando funcionários sem utilidade urgente. Novamente. Epitácio indicou o deputado federal Dr. foi considerado o continuador de Antônio Pessoa.379:404$550 e um saldo em caixa de apenas Rs 6. Álvaro de Carvalho. pulverizadores. Doente. Cortou gratificações graciosas e acumulações indevidas. Celso Mariz. saldou as dívidas existentes. arados. iniciou uma série de reformas administrativas. Alcides Bezerra. Antônio Pessoa era irmão de Epitácio. 1. Dr. 22-10-1916 – 22-10-1920: Francisco Camilo de Holanda Camilo de Holanda era general-médico. Com o apoio dos convencionais do Partido. indo fixar residência no Rio de Janeiro. assumiu o Governo. Antônio Pessoa agrupara em torno de si uma mocidade nascente na vida política do Estado. se84    . em face do estado de saúde de Antônio Pessoa. Encontrou o Estado com uma dívida de Rs. portanto. pagou o funcionalismo. Homem de larga visão. sulcadores. Seria. em substituição a Castro Pinto. Solon de Lucena. Francisco Camilo de Holanda. passou o governo ao presidente da Assembleia Legislativa. como Presidente da Assembleia Legislativa. Em pouco tempo. E Solon de Lucena. coube a Epitácio Pessoa decidir a parada. que liderava esse grupo constituído de João Suassuna. Promoveu um Congresso de Algodão (com a Paraíba obtendo o 1º lugar) e codificação das leis municipais de autoria do deputado Ascendino da Cunha. o candidato natural à sucessão.828$222 e o funcionalismo com um atraso de cinco meses.Durante a sucessão ao assumir a posição de magistrado foi massacrado pelas duas oligarquias: epitacistas e walfredistas. Anexou a Carteira de Crédito Agrícola existente ao Tesouro do Estado e adquiriu “máquinas. Demócrito de Almeida. 24-07-1915 a 24-07-1916: Antônio da Silva Pessoa Como 1º Vice-Presidente assumiu o governo. amortizou 50% dos compromissos do Estado e reduziu despesas. grupo esse conhecido pela denominação de JOVENS TURCOS. bastante abatido. Era o candidato de Antônio Pessoa. Magoou-se e renunciou. que renunciara o mandato. equilibrou as finanças. 24-07-1916 a 22-10-1916: Solon Barbosa de Lucena O deputado estadual Solon Barbosa de Lucena.

que destinou grandes quantias de dinheiro. Tendo recebido o governo com recursos razoáveis deixados por Camilo de Holanda. as famílias que se locupletaram dos desvios das verbas vultosas enviadas pelo Presidente da República. Remodelou a cidade abrindo avenidas. São conhecidas. foi a construção do porto da capital. quando seria substituído pelo Vice-presidente Antônio Massa. Ainda hoje se vê no rio Sanhauá as estacas fincadas naquela época. Quando suas cinzas foram trasladadas do Rio de Janeiro para o Panteon do Tribunal de Justiça os comentaristas do Ponto de Cem Réis imaginaram que “as cinzas tremiam dentro da arca que as conduziram”. Demócrito de Almeida. Foi um reformador eficiente. Secretário Geral. Preocupou-se em melhorar o abastecimento dágua e implantar eficiente rede de esgotos na capital. o presidente Epitácio Pessoa e o senador Venâncio Neiva indicaram Solon Barbosa de Lucena. Alcides Bezerra. Inspetor do Tesouro. Dizem também que Epitácio Pessoa ficou tão chocado com a roubalheira que assegurou que jamais voltaria à Paraíba. 28-10-1920 – 28-10-1924: Solon Barbosa de Lucena Com a posse de Solon de Lucena ascendeu ao cenário político seus companheiros do chamado grupo JOVENS TURCOS: Álvaro Pereira de Carvalho. Em reunião no Palácio do Catete. Camilo de Holanda não aceitou a barganha. entre outros. Não teve condições de indicar seu sucessor. Era assim. este convidou Camilo de Holanda para substitui-lo na sua vaga no Senado. só que o retrato era de um porto que estava sendo construído na Europa. não tendo concluído esse projeto apesar dos vultosos gastos despendidos. construindo praças e edifícios públicos. que também o decepcionou. Chefe de Polícia. aos agricultores menos abastados”. Solon também pôde fazer uma boa administração. com o apoio total do presidente Epitácio Pessoa. hoje. João Suassuna. n aquele tempo. Eleito Epitácio Pessoa para a Presidência da República. Também teve atuação idêntica no interior do Estado. deixando de apresentar candidato. Consta do anedotário político que os encarregados da construção do porto chegaram a enviar a Epitácio o retrato do porto em construção. Diretor Geral da Instrução. criou o Serviço contra a lagarta rosada. pois batera de frente com os Pessoa de Umbuzeiro e rompera com os filhos de Antônio Pessoa. 85    . mediante sua renúncia ao Governo do Estado.. sem lucro e a pagamentos cômodos. Uma de suas metas importantes. continuando no governo. Construiu grupos escolares.ringas para vendas.

Os destaques de sua administração foram: a conclusão do Hospital Juliano Moreira. Celso Mariz e outros. de Psiquiatria. a continuidade das obras de saneamento e esgoto do governo Solon de Lucena. desagradando correligionários e opositores. construiu as Praças da Independência e Vidal de Negreiros. que era seu oficial de gabinete e foi um dos fundadores da revista ERA NOVA. Américo Falcão. que atravessou a Paraíba e. cultura que estava tomando conta do Estado. organizou o Serviço de Classificação do Algodão. que já havia sido fundado. Iniciou seu governo dando atestado de austeridade e autoridade. arborizou a cidade de tal forma que passou a ser denominada “Cidade Jardim”. criou o Hospital do Pronto Socorro e a Policlínica Infantil. Cônego Pedro Anísio. sofreu grande revés com a praga que dizimou os cafeeiros. Alcides Bezerra. 22-10-1928 . Houve um acontecimento trágico que enodoou o governo de Solon de Lucena. Walfredo abriu avenidas. o combate à Coluna Prestes. Encontrou o Estado com as finanças em caos. Foram prestigiados os valores culturais como José Américo de Almeida.. abalando a economia do Estado apesar da alta do algodão. Para sanear as finanças restabeleceu a escrita do Tesouro e criou um sistema tributário independente dos outros Estados. principalmente de Pernambuco. que foi o crime praticado por um guarda-civil na pessoa do estudante do Liceu Paraibano Sadi Castor Correia Lima. Carlos Dias Fernandes. para operar com o comercio. criou o Banco Hipotecário. os Parques Solon de Lucena e Arruda Câmara. João Pessoa surgiu como Presidente do Estado com o apoio de Epitácio Pessoa. o combate ao cangaceirismo. deram brilho à sua administração. em Piancó.26-07-1930: João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque Fora dos partidos políticos da terra. Coriolano de Medeiros. mas não funcionado. 22-10-1924 – 22-10-1928: João Suassuna Eleito sem competidor. o planejamento do abastecimento d'água de Campina Grande. Demitiu muitos funcionários. Deu expansão ao movimento cultural. As obras do seu prefeito. liderado por seu filho Severino de Lucena. o Padre Aristides foi morto. Deu vida ao Banco do Estado da Paraíba.O café. João Suassuna assume o governo enfrentando uma peste de varíola e de febre amarela. fundou campos de demonstração de algodão nos muni86    . com dívidas e seu funcionalismo atrasado em seis meses. Walfredo Guedes Pereira. Álvaro de Carvalho.

no Café Glória. João Pessoa foi assassinado no dia 26 de julho de 1930. pelo advogado João Duarte Dantas. no Recife. alargou a antiga Estrada do Carro. Ingá. tendo perdido a eleição. 87    . Gurinhém e Batalha. reconstruiu o Quartel de Polícia. com o nome NEGO. No seu governo houve a mudança do nome da capital de Paraíba para João Pessoa e a criação da Bandeira rubro-negra. Participou da chapa oposicionista na campanha para a Presidência da República. Foi um governo profícuo. em substituição a João Pessoa. Álvaro de Carvalho assumiu o governo.cípios de Campina Grande. iniciou a reforma da Praça Pedro Américo. instalou o Centro Educativo de Pindobal para a recuperação de menores delinquentes. depredações e perseguições políticas aos adversários de João Pessoa – os perrepistas. Discordou da indicação do candidato do presidente Washington Luiz à sua sucessão (Júlio Prestes) e formou com o Rio Grande do Sul e Minas Gerais na oposição ao governo central. Houve incêndios. Enfrentou graves problemas políticos com a atitude do deputado José Pereira pondo seu município – Princesa – em pé de guerra. com o apoio de vários “coronéis” das adjacências. apesar do pouco tempo em que esteve na Presidência do Estado (um ano e nove meses). construiu as estradas de Pilar. 26-07-1930 a 04-10-1930: Álvaro Pereira de Carvalho Como Vice-presidente do Estado. Umbuzeiro. atual Rua Barão do Triunfo. Sua ação política desgostou muitos correligionários por ocasião da indicação dos nomes para a eleição da bancada federal. iniciou a construção do Paraíba Hotel e do Pavilhão do Chá e as obras do Porto de Cabedelo. aumentando a onda oposicionista. pelo advogado João Dantas. que fora assassinado no Recife. Itabaiana e Surrão e as pontes de Mulungu. formando a chapa Getúlio Vargas para Presidente e João Pessoa para Vice-Presidente. Picuí e Monteiro. construiu o Palácio das Secretarias e a Praça Antenor Navarro. abriu a avenida Epitácio Pessoa e a estrada de Gramame. Durante o seu breve período de governo enfrentou grande turbulência política. remodelou o Liceu Paraibano e iniciou a reforma do Palácio do Governo. retirou os bondes elétricos que passavam em frente do Palácio do Governo e colocou eletrificação subterrânea na Rua Duque de Caxias. A morte de João Pessoa colocou o povo paraibano em ambiente de grande comoção e exaltação. Na capital melhorou o Jardim Público e a Praça Venâncio Neiva.

nesse momento. discurso no IHGP. foi empossado pelo então capitão Juarez Távora. com a autorização do capitão Juarez Távora.. deu aumento aos serventuários da Justiça. foi nomeado interventor do Estado Anthenor de França Navarro. em 31. Assim. Paraíba Palace Hotel. incluindo no seu programa o ensino de ginástica e música.) “unificou o ensino público primário do Estado. 88    . passou a ser a sede do Governo Revolucionário do Norte. preocupado. que só foi inaugurado em 1935.Com a eclosão da Revolução.08. prestigiando a magistratura do Estado. Não obstante. sendo inevitável a saída de Álvaro de Carvalho 04-10-1930 a 09-11-1930: José Américo de Almeida José Américo assumiu o governo em razão da vitória da Revolução de 1930. houve um movimento armado contra o seu Governo. ANTHENOR NAVARRO: CENTENÁRIO DE SEU NASCIMENTO. em pacificar o Estado. o Quartel da Polícia e o Hospital de Isolamento. Anthenor iniciou efetivamente as obras do Porto de Cabedelo em 17. que funcionava na Fazenda São Raphael. concedeu subvenções anuais a alguns colégios particulares.31. chefe militar do Norte do Brasil. Sua grande ação foi no setor educacional quando (. a 3 de outubro. Ele assumiu o governo como interventor. 09-11-1930 – 26-04-1932: Anthenor de França Navarro Antenor. instituiu fardamento para os estudantes do Liceu. que era engenheiro-geógrafo. Com a saída de José Américo para o Ministério da Viação e Obras Públicas. ampliou o grupo Thomaz Mindelo. A Paraíba. inicialmente.99. havendo uma deposição branca do Vice-presidente Álvaro de Carvalho. Palácio das Secretarias. 21 Reformou a Escola Normal.11. Passou a administração dos cemitérios para os municípios. o panorama político modificou-se totalmente. reconheceu oficialmente os diplomas de datilografia e taquigrafia conferidos pelos estabelecimentos particulares. Seu intento foi concluir as obras iniciadas por João Pessoa: Palácio do Governo. indicado por Juarez Távora. que ele                                                              21 Glauce Maria Navarro Burity. extinguiu as escolas municipais e passou para o Estado o ônus e a responsabilidade do ensino. quando fincou a primeira estaca da cortina externa do cais do porto.. 220 escolas espalharam-se em toda a Paraíba”. Fundou a Estação de Sericultura do Estado.

reorganizou a Polícia Militar. Getúlio Vargas é empossado pelo Congresso como Presidente Constitucional do país.” 22 26. mergulhando na baía.12-1934: Gratuliano de Brito Gratuliano assumiu o Governo em caráter provisório como interventor para substituir Anthenor Navarro. na Bahia. a Saúde Pública e a Escola de Agronomia do Nordeste. Criou mais escolas. No acidente o Interventor sofreu rutura do coração e do fígado. 89    . Recebeu do Ministro José Américo apoio no combate à seca e. as obras de saneamento da capital e a Fonte de Brejo das Freiras.º 3 – o qual. enviou soldados da Polícia Militar e voluntários. conseguindo colocar o Tesouro em dia. Foi um governo de grandes realizações. Enfrentou com austeridade e rigidez as dificuldades financeiras por que passou o Estado nessa fase. falecendo.. em grande parte. pelo que peço desculpas aos presentes. e em junho foi efetivado nas funções. Faleceu tragicamente em 26 de abril de 1932 quando (. para debelar o movimento de São Paulo.1932 .                                                              22 Adauto Ramos. Dela fez parte o então 2º Tenente Ernesto Geisel.combateu criando a Guarda Cívica e punindo militares da força policial. Sua equipe de governo era constituída. capotou.04. que era Secretário da Fazenda.. fiz um breve resumo dos Governos paraibanos da primeira República. Agricultura e Obras Públicas. Continuou as obras do Porto de Cabedelo. ao amerissar na Baía de Todos os Santos. Com a tolerância do plenário. Seu governo foi atingido pela famosa seca de 32 e pela Revolução de São Paulo. de jovens e solteiros.) “vinha do Rio de Janeiro com o Ministro José Américo de Almeida no avião da marinha – o “Savoia Marchetti n. estendendo-me até os interventores. ANTHENOR NAVARRO (Centenário de Nascimento). Em 20 de julho de 1934.

tem vários trabalhos publicados. Passo a palavra à nossa expositora. que será a expositora do tema. na condição de membro efetivo e ora primeira secretária. que convido a tomar assento: Waldice Mendonça Porto. Comporei a mesa com as seguintes pessoas. os passos sorrateiros dos nossos maiores e daqueles que antes dos nossos aqui demora90    . Guilherme d’Avila Lins. Joacil de Britto Pereira. quando será abordado o tema A CONQUISTA DA PARAÍBA. que tão bem tem administrado este Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. 1ª secretária do IHGP) Inicialmente gostaria que desse Ciclo de Debates saísse alguma coisa de positivo. uma filha deste pedaço de chão glorioso. foi expositora no Curso de Historia da Paraíba (atualização Didática. debatedor do tema. História e Geografia) e no Curso de História Afro-Brasileira. inclusive sobre História Colonial da Paraíba em nível de pós-graduação. Faço-a cheia de zelo. onde ainda repercutem nos meus ouvidos e através das fibras da minha sensibilidade o fragor das batalhas aqui travadas. é bacharel em Direito pela UFPB. Waldice Porto. Waldice Mendonça Porto. Por isso estou trazendo a seguinte proposta para o Instituto Histórico: “Senhor Presidente: Ao início deste Ciclo de Debates em torno das comemorações dos 500 anos de Brasil. venho apresentar-lhe esta minha proposta. é formada em Contabilidade pela Escola de Comércio “Epitácio Pessoa”. Expositora: Waldice Mendonça Porto (Historiadora. é sócia do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica.4º Tema: A CONQUISTA DA PARAÍBA Expositora: Waldice Mendonça Porto Debatedor: Guilherme d’Avila Lins A fala do Presidente: Hoje é a quarta sessão do programa do nosso Ciclo de Debates. presidente da Academia Paraibana de Letras. fez vários cursos de extensão universitária. é diplomada pela ADESG. na gestão de Vossa Senhoria. mui honrada de ser quem eu sou. É atual primeira Secretária do Instituto. infelizmente ignorado pelas gerações presentes. nossa palestrante.

contando já com mais de quatro séculos de história sem que. tenha sido preenchida esta inominável lacuna. nós os herdeiros à sua revelia. Mas posso afirmar que sempre houve um trabalho da diplomacia portuguesa. assumam o compromisso de re-escrever a nossa História o mais verdadeiramente identificada com os fatos comprovados com prova documental. “uma dádiva de sua diplomacia” (de Portugal). citado por Costa Porto. Rosilda Cartaxo. que esta Casa de Irineu Pinto. fiel aos fatos e acontecimentos. quando uma documentação abundante se encontra à espera de ser manuseada. Senhor Presidente: Que seja uma moderna e aplicada História da Paraíba. por força das armas. deste chão abençoado. vivendo em liberdade na terra dos seus ancestrais. Eles. Os inigualáveis valorosos potiguara. tomando como fonte fidedigna os nossos autores. que exercia uma política de sigilo. senão por meio de intrigas. pelo Tratado de Madri. O Brasil é considerado por João Ribeiro. repositório do mais rico documentário sobre a História da Paraíba. Estamos às vésperas do segundo milênio. erigindo em princípio jurídico a ma91    . os esbulhados. através do seu Departamento de História e do NDIHR. Foi o que restou daquele gentio guerreiro. que a constituíram. garantindo-lhe o domínio do nosso atual território. dando início à sua exposição: Um ponto na história que sempre me impressionou foi dizer-se que Portugal não se incomodou com a sua colônia durante os trinta anos depois de conquistada. em 1750. Este é o teor da proposta. O homem sem História é um homem sem memória e um homem sem memória é conquistável facilmente. escoimando-a dos erros que se vêm cometendo. e comunico que a mesma será objeto de apreciação pela Diretoria do Instituto. primeiro. mais conhecida como a Casa da Memória Paraibana e a Universidade da Paraíba. segundo.” Presidente – Recebo a proposta apresentada pela expositora. representados pelos seus remanescentes desaculturados e espoliados que ali se encontram na Baía da Traição. Waldice Mendonça Porto. Esse tratado legaliza a situação de fato. assegurando a pequena faixa litorânea da conquista cabralina. acessível também às redes estadual e municipal da educação. o século XXI. até o momento. que ninguém podia conquistar nem domar. nas palavras da minha amiga e muito irmã.vam em nossas aldeias.

“uma dádiva de sua diplomacia” (Costa Porto – Estudo sobre o Sistema Sesmarial). com a obrigação de descobrir ou percorrer 300 quilômetros de costa. seguindo-lhe os passos. expedições guarda-costas para expelir os contrabandistas de diversas nacionalidades e de piratas reunidos pelos seus respectivos soberanos de carta de corso. e assim sucessivamente. el-rei oferecia. não é verdade. lugar de Couto e homizio dos degredados. individualmente como a consórcios. havia expedições de reconhecimento de suas costas. à “descoberta”. Em 1516. E. Apesar de afirmarem os historiadores de forma generalizada não haver Portugal cuidado do seu “gigantesco latifúndio”. através de alvarás vantagens majestáticas. posto abastecedor de seus navios em direitura da Índia. principalmente os franceses. depois também as conhecidas feitorias-fortins. a Ilha de São João. havia arrendamentos de terra. criminosos comuns ou de lesamajestade. finalmente. tornado este. adotada pela sua diplomacia eficiente. seu monopólio exclusivo. a expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa “nomeado capitão da esquadra e elevado a conselheiro da Coroa. quase todas. eram extensos: além de 92    . hoje Fernando de Noronha.terialização ou materialidade do “uti possidetis”. entre estes. em 1502. se vamos aos fatos. Mas. não deixando “vazar” as “descobertas”. já agora declarado. as chamadas capitanias avulsas a quem quisesse povoar o Brasil e as capitanias a termo. à revelia das demais nações. construção de feitorias para armazenamento do pau-brasil. Em 30 anos de Brasil podemos constatar que desde 1501. tanto a particulares. o Venturoso. A sua política de sigilo. dando de tudo conta a el-Rei. em represália ao ato cometido pelo Papa Alexandre VI. a quem se dispusesse fundar engenho de açúcar no Brasil. com contrato firmado e renovável de três em três anos. logo em seguida. para Portugal. Para interessar aos seus súditos a aceitação das Capitanias. foi oferecida a Fernão de Noronha. vamos constatar ter estado el-Rei mui atento à sua “dádiva”. pode ter dado essa impressão. até então nunca conferidos. o caso de Fernão de Loronha ou Noronha. a que estavam obrigados súditos da Coroa. perdurando até 1515. por três anos. usando da linguagem fundiária. cartografando o Brasil em nome de Portugal. fora os frutos colhidos e a licença concedida para o corte do pau-brasil em nome da Coroa portuguesa. terminados os quais era substituído por um outro. para isso fornecendo-lhe todo o material necessário e instrumentos agrícolas. Seus poderes. donde poder João Ribeiro dizer que o Brasil foi.

acossado que seria pelas investidas belicosas constantes dos poti93    . de dividir o Brasil em Capitanias Hereditárias. representando seriíssima ameaça à sua colônia brasileira. para outros. que tomou as providências necessárias. em Madagascar. Reitor da Universidade de Santa Bárbara. João III. Martim Afonso e seu irmão Pero Lopes de Sousa. mas tão somente o poder político. aceitando a sugestão do amigo D. Para solucionar o caso. no entanto. aí fundando a vila Marial. morto em naufrágio (1539). em Paris. escrevendo-lhe porém comunicando o fato e que. a seu critério. É bem verdade que Pero Lopes de Sousa pôs à frente da sua capitania um loco-tenente João Gonçalves.” As investidas dos povos fora da partilha do mundo. defronte do continente.capitão da armada. Tinha o direito de justiça. O que vai nos interessar de perto mesmo é a de Pero Lopes de Sousa. inclusive. perde o seu donatário. a capitania de Itamaracá. Seria um senhorio dentro do Senhorio da Coroa. tendo em vista a impossibilidade de ali se manter. ocupando a ilha da Conceição. com plena jurisdição sobre as pessoas que o acompanhassem. Assim não despenderia dinheiro e contaria com o empenho dos mesmos na defesa e preservação da terra. Regime das Capitanias Hereditárias D. esperar a volta de Martim Afonso de Sousa. de 80 léguas. para 86 léguas. Logo foi aumentada a sua doação. para uns. como os franceses. veiolhe ao encontro a sugestão de D. Diogo de Gouveia. ingleses. o reino português encontrava-se parco de recursos e de elemento humano. dentre os 15 lotes em que fora a sua colônia americana dividida. pelo Tratado de Tordesilhas. Eles não teriam a propriedade da terra. Após cinco anos de fundada. O pau-brasil não permitia a fixação do homem à terra. Sua missão: colocar marcos indicativos de posse. aplicar a pena de morte. antes de por em prática este Regime. vizinha à de Pernambuco. respectivamente um de 100 léguas e outro. “de imperium’. Diogo de Gouveia. que em carta aconselhou o rei de Portugal a dividir a terra entre os seus súditos mais abastados. reservava para ele. em porções separadas. infestaram os mares do Atlântico. concedida em 1º de setembro e o respectivo foral em 6 de outubro de 1534. capitão de toda a terra que descobrisse. na ilha de São Lourenço. holandeses. distribuídos por 12 donatários. decidiu. além das que encontrasse. podendo. de Pero Lopes de Sousa. em janeiro (1535). instalando no Brasil a administração portuguesa. doar as terras como melhor lhe aprouvesse e nomear tabeliães e oficiais de justiça.

voltou à Coroa. uma ameaça à segurança da sua vizinha. A ilha de Itamaracá “podia então considerar-se a atalaia da civilização brasileira avançando para o Norte. mas ao mesmo tempo. não só a atalaia. que é muito privilegiada. numa das mais memoráveis epopeias vivenciadas pelos nossos maiores. que vai dar motivo ao desencadeamento de uma série de acontecimentos que redundarão. pelo Ouvidor de Itamaracá. pois este estado caótico dificultava a aproximação de quem ali pretendesse povoar a terra e dinamizar a agricultura da cana-de-açúcar. As cartas de Duarte Coelho a el-Rei são um testemunho irrefutável daquela situação. atraído pela fertilidade e pelos seus ares. Duarte Coelho querer que fossem aceitas e cumpridas as suas cartas precatórias. nesta parte do Nordeste brasileiro. Itamaracá era porém. Com a morte de Pero Lopes de Sousa e não havendo cumprido a cláusula exigida pela Lei das Sesmarias. portando. portanto. 94    .guara e francesas aliados. o mar. até mesmo Itamaracá. Pois. o posto avançado da civilização. publicação do historiador pernambucano José Gonsalves de Mello e Cleonir Xavier de Albuquerque. contra os importunos que atrevidamente se vangloriavam de levarem a melhor e lhe fazerem ver se encontrarem em capitania de Couto e homizio. vendo-se impossibilitado de fazer alguma coisa. dão conta dessa situação. o seu abrigo em caso de algum desastre. As CARTAS DE DUARTE COELHO A EL-REY. XVI. vizinha à de Duarte Coelho. É uma indicação que faço para os que se interessarem aprofundar-se no assunto. e os empreendedores que se estabeleciam pelos rios do continente vizinho. punham antes nela as esperanças de refúgio do que em Igaraçu. ou seja. o seu donatário se via impotente diante dos assaltos rotineiros e do vandalismo provocados pelo gentio potiguara e seus aliados franceses. não adiantando. Abandonada. viviam em contínua intranquilidade. entre 1540 e 1550. para a defesa contra um inimigo comum. da mesma forma que mais tarde (e ainda agora). tornou-se devoluta. se considerou como posição de muita valia. Olinda e Igaraçu e. Nelas ele demonstra a sua aflitiva preocupação com a segurança da sua capitania. pela bondade do seu porto. É a localização de Itamaracá. a parte do continente. Itamaracá passou a ser um território perigoso. e a excelência e abundância das suas águas e provisões. para a sua colonização. na segunda metade do séc.” (Varnhagen).

compra a D. do teatro fronteiro à ilha de Itamaracá!” E continua Horácio: “Ou a metrópole conquistava a Paraíba ou desistia de continuar para o norte a obra de colonização que empacara em Itamaracá. dando nascimento à Capitania Real do Paraíba do Norte. huguenotes. “governador e capitão general para o Brasil. desmembrou uma faixa de terra da Capitania de Itamaracá. D. Horácio de Almeida. este tornando a ilha da Madeira. concordando que fossem as mesmas encampadas pela Coroa. mas. apesar da instabilidade reinante e indo de encontro aos conselhos dos amigos. criando. pelo Tratado de Tordesilhas. os quais havia pressentido”. ou melhor dizendo. Diogo Dias. declara: (. Veio o gentio e deu cabo de tudo. corrida. ou . e orgulhoso de sua obra ameaçava o resto da Câmara”. pois punha em risco o que coubera à Sua Majestade. recomendando-lhe a expulsão dos franceses do rio Paraíba. um cristão-novo. o velho Portugal cai em poder da Espanha. com duração de sessenta anos.mais realmente. num espaço de seis anos... esperando monção a fim de evitar as calmarias da costa de Guiné. El-Rei atendeu o pedido de socorro. encarregando D. aventurando-se a “estabelecer engenho no Tracunhaém. Em 1574. saídos de Rochella. Este triste acontecimento entrou para a nossa História como a “Tragédia” ou “Morticínio de Tracunhaém”. Providências foram tomadas em Conselho. de muitas posses. cujos limites se circunscreviam da Baía da Traição ao Rio Popoca. A tragédia ali ocorrida tomou foros de internacionalidade. como já começava a acontecer. Luis de Vasconcelos. O período compreendido entre 1574 a 1599 pode ser divido em dois: o 1º 95    . citando Varnhagen. ali deixou-se ficar com a esquadra de sete naus e uma caravela. Sebastião.” A capitania da Paraíba surgiu como “compensação do insucesso da Capitania de Itamaracá e da necessidade de apoio ao povoamento já instalado na Capitania de Pernambuco. A Guerra dos 25 anos Entre 1574 (1580) 1585 – Nesse ínterim. de escapar dos famosos piratas Jacques de Soria e João Capdeville. Tem início o chamado período UNIÃO IBÉRICA.) a Paraíba era a passagem onde se ia decidir se a civilização tinha de caminhar avante para o norte ou retirar-se.Corria o ano de 1570 e os assaltos dos índios aos habitantes das capitanias de Itamaracá e Olinda continuavam sem trégua. tomando a si a conquista. por conta do processo sucessório. Jerônima de Albuquerque Sousa 10 mil braças de terra próximas a Goiana.

sem ser incomodado pelos potiguares. Sebastião. na condição de ser seu Governador por dez anos. Na foz do rio Paraíba. de imediato. com a sua gente. Frutuoso Barbosa. ordenando a lavratura oficial do feito. na América Central. uma expedição para a conquista da Paraíba. D. D. indo arribar na Ilha de Castela (Cuba). foram-lhe concedidas mercês nesse sentido. Este reuniu forças em Olinda. Expedições Oficiais para a conquista da Paraíba Foram cinco as expedições oficiais para a conquista da Paraíba: 1ª tentativa: 1574 – Ao Governador Geral do Brasil. 3ª tentativa: 1582 – Em 1579. com o estabelecimento da União Ibérica. Parte da expedição voltou ao porto de origem com o próprio Governador Geral e a outra parte conseguiu ancorar em Pernambuco. que estava infestado de índios. Fernão da Silva. conseguindo que os seus direitos sejam sal96    . a uma retirada rápida e desordenada para Itamaracá. Vale lembrar que. rendendo um ordenado de duzentos mil réis por ano. de providenciar. Volta Frutuoso a Portugal. foi cometida a incumbência. sem qualquer possibilidade de defesa da expedição. partindo da Bahia com uma frota numerosa e bem equipada. regressando à Bahia após alguns dias de espera. o governador delegou tal encargo ao Ouvidor Geral D. Posteriormente. conquistar e colonizar a Paraíba. facilitando. Luis de Brito resolve cumprir pessoalmente as determinações emanadas da Coroa Portuguesa. o caminho para a Paraíba. tomou posse da terra em nome do rei de Portugal. Sebastião de Portugal. elevado em decorrência da morte de D.o da consolidação definitiva daquela conquista. propõe ao então rei Cardeal D. abrangendo. com homens a pé e a cavalo. Luis de Brito. percorrendo. onde se encontra hoje o município de Cabedelo. em Alcácer-Kibir. 2ª tentativa: 1575 – Com o malogro da primeira expedição. o 2º . Henrique. por ordem régia de D. Porém. Um ataque de surpresa dos índios obrigou-o. devido a problemas administrativos da Bahia. confirmadas por Felipe II da Espanha e I de Portugal. as más condições de navegação provocaram desvios de rota e de veleiros. a ampliação do nosso território pátrio. Frutuoso Barbosa chega ao Brasil em 1581. comerciante português. no decorrer da saga gloriosa dos conquistadores. porém um temporal destroça-lhe a expedição. No entanto. África. a Linha de Tordesilhas desapareceu. de 1574 a 1585 – as tentativas da conquista e a sua consumação.o da conquista do espaço físico para a implantação do núcleo populacional. aportando no Recife.

porém sem a posse do referido título. João Tavares. As pazes foram celebradas ali no Sanhauá.vaguardados pelo novo soberano. ao Brasil em 1582. Martim Leitão então ofereceu pazes aos tabajara. Diogo Flores de Valdiz. mas não foi possível em vista da assiduidade dos ataques pelos potiguara. com a vinda do Ouvidor Geral do Brasil. Felipe e São Tiago (hoje Forte Velho). muitas vidas humanas.A partir de 1584. Martim Leitão. Retorna. Em Pernambuco conta com a ajuda provincial do Capitão-mor de Olinda. com uma parte da expedição por mar sob seu comando e outra por terra. sobe o rio Paraíba. Frutuoso perdeu esposa e filho. 4ª tentativa: 1584: . declinou-a. no dia 5 de agosto de 1585 e só no si 31 de outubro de 1585 foi escolhido o local da nova povoação. A conquista se intensifica quando a esquadra vai a socorro do forte S. Mas. porém este desgastado e desiludido por tudo o que aqui sofrera desde 1581 até aquele momento. no momento em que o cacique já se dispunha voltar para sua aldeia no São Francisco. Frutuoso pensou em construir um forte no local. Nos primeiros dias de fevereiro de 1585 chegam o cacique tabajara Braço de Peixe e o seu irmão Assento de Pássaro com parte de sua gente. como capitão de mar e terra. cognominado por Coriolano de Medeiros de “O César das Conquistas Paraibanas”. além de recursos financeiros próprios. É de ressaltar que nessas duas tentativas. Frutuoso chegou primeiro. sofrendo séria derrota. de volta à foz do rio Paraíba. em reforço aos potiguara. onde hoje se encontra a Basílica de Nossa Senhora das Neves. atacando naus francesas surtas próximas à Ilha da Camboa. 5ª tentativa: 1585 – As pazes foram então firmadas entre o cacique tabajara e o Juiz de Órfãos e Escrivão da Câmara de Olinda. vindos das margens do rio São Francisco. Frutuoso desloca-se para a Paraíba. Tal honra caberia a Frutuoso Barbosa por direito. de Sua Majestade – a 3ª cidade do Brasil. vendo-se obrigado a retornar a Pernambuco. é que a conquista da Paraíba começa a se delinear. é atacado por franco-indígenas. e a vinda da esquadra de D. até a chegada da parte da expedição que veio por terra. pois. que sob esta invocação passou a ser denominada Cidade de Nossa das Neves. 97    . Este cacique haveria de decidir os rumos da conquista. Surge a oportunidade quando os dois chefes indígenas dos tabajara e potiguara se desentendem. sob protestos insistentes do Ouvidor Geral Martim Leitão.

de imediato. Martim Leitão neste mister chegou a empreender algumas surtidas sobre aldeias potiguara com o objetivo de afastá-los das proximidades da cidade em construção. o forte de Santa Catarina. Volta Martim Leitão para Olinda nos primeiros dias de 1587. quando. Incrementou a agricultura da cana-de-açúcar. No ano anterior. a mudança do nome da cidade para Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves. dez mil réis. além de instituir o Morgado do 98    . então das ameaças e assaltos imprevisíveis dos naturais da terra. de 1585 a 1588. também foi o responsável pela Igreja da Misericórdia com o complexo constituído pelo Hospital e o Cemitério. constituídas pelo pessoal de governo. de Sua Majestade 1588 a 1591 – Frutuoso Barbosa é quem fica à frente do Governo da Paraíba. este Ouvidor Geral do Brasil conseguiu se desdobrar entre a nascente urbe e respectiva administração. Duarte da Silveira. organizando expedições de guerra contra o gentio. tendo neste mister provocado a vinda de Duarte Gomes da Silveira de Pernambuco. em Cabedelo. o forte de Inhobim. de Sua Majestade. de Sua Majestade. na várzea do Paraíba. com toda a sua família. no mês de setembro entrega o cargo a Frutuoso Barbosa.Conquista da Paraíba sob a égide da União Ibérica Governo de João Tavares: 1585 a 1588 – Após as pazes firmadas foram tomadas as primeiras providências para a criação do núcleo populacional. Entre estas. fundara ele o engenho real – o São Sebastião. Este. Mamanguape e Baía da Traição. tratou da construção do forte da cidade. como sempre fora a sua pretensão. Foram três os assaltos belicosos feitos por Martim Leitão e sua gente na Serra da Copaoba. Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves. se assobradada. precavendo-se. Frutuoso conseguiu realizar algumas obras significativas. soldados e índios flecheiros. João Tavares é quem fica à frente do Governo da Cidade de Nossa Senhora das Neves. tendo à frente o dinâmico e incansável Ouvidor Geral Martim Leitão. agora com o concurso dos tabajara. Apesar de bastante tumultuado. além de mercenários. De 1586 a 1587. em 20 de janeiro. os “homens de qualidade” da terra. pondo em expectativa constante e em polvorosa a população recém-chegada. aqui se radicando. vinte mil réis. oferecendo prêmios: para a construção de casas térreas. incentivou a construção de residências.

assim. o fato mais importante do Governo de Feliciano Coelho de Carvalho foi a Celebração das Pazes com os Potiguara. Primeiro chegaram os jesuítas e os franciscanos para a catequese do gentio e educação dos filhos dos colonos. Em 1597 deu-se a expulsão definitiva dos franceses do nosso solo paraibano. quase exterminados pelas guerras. levando consigo navios. sem prisões durante os 15 dias de graça. além da estratégia de guerra e do seu incentivo permanente. A consolidação da conquista por Feliciano Coelho de Carvalho é uma das páginas mais emocionantes da nossa História. febre amarela. As Ordens Religiosas. neste mesmo ano de 1597. No seu governo houve a 1ª Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil – 15 dias de graça na cidade de Paraíba – “Era a Visitação uma inspeção periódica que por determinação do Conselho Geral do Santo Ofício realizava um delegado seu para inquirir sobre o estado das consciências em relação à pureza da fé e dos costumes” (.Salvador do Mundo.) Oferecia misericórdia aos confidentes e. gripe. pertinentes à questão de jurisdição. a tal ponto de se atreverem a vir até à nascente cidade. em virtude mesmo de tais guerras. Durante todo esse período de quase três anos de governo.. as baixas constantes. firmada na pessoa de Ibiratinin (Pau Seco) com a autorização do seu irmão. Todavia. ao mesmo tempo. tuberculose. Depois chegaram os beneditinos e os carmelitas da Reforma. Entre o governador Frutuoso Barbosa e as referidas Ordens aconteceram as primeiras rixas.. por ter sido consertada com o nosso colonizador. desassistindo. em 11 de junho de 1599. sob ameaças incitava os denunciantes. munições. varíola. Ainda contribuiu a Paraíba – com a expedição de Pero Coelho de Sousa – 99    . atenderam à solicitação para aqui se estabelecerem. etc. o famoso Zorababé. pelas guerras bacteriológicas – sarampo. é bom que se diga. Também houve a ajuda da Paraíba na conquista do Rio Grande do Norte. Governo de Feliciano Coelho de Carvalho O período de Feliciano Coelho de Carvalho se estendeu de 1592 a 1600. iniciados no dia 8 de janeiro de 1595. e perda do aliado francês. armas. cometendo as suas estripulias.. disseminadas essas epidemias pelos conquistadores. os naturais da terra não lhe deram trégua. Aqui foram feitas 16 denunciações. os potiguara. “Um levantamento geral do momento dos espíritos”. tendo em vista a situação em que ficaram os potiguara.

dentro do espaço de tempo que lhe foi destinado. Universitária/UFPB (2 vols. Recife (Pe) História da Província da Paraíba – Maximiano Lopes Machado. Obras consultadas: História da Conquista da Paraíba (Sumário das Armadas) – Col. As pazes definitivas para a consolidação da conquista da Paraíba foram firmadas no Forte da Cidade de Nossa Senhora das Neves. até que Martin Afonso de Sousa logrou. Triênio do 4º Centenário da Paraíba. UFPB Coletânea de jornais – Comemorativa da fundação da cidade de João Pessoa e do seu IV Centenário. Rio de Janeiro. Relembrou todas as cinco tentativas de conquista da província. Campina Grande. bem ali no Varadouro.) Grandes Personagens da nossa História (em fascículos) – Abril Cultural A Conquista da Paraíba – J. Brasília Estudo do Sistema Sesmarial – Idem. Brasiliana. Ed. de Almeida Prado. Paulinas – Vozes Cartas de Duarte Coelho a El-Rei – José Gonsalves de Mello (neto).Martins Afonso – Lisboa Formação Territorial do Brasil – Costa Porto. aquela das primeiras tentativas.para a conquista do Ceará – 1603-1607. com a pacificação com os índios. vol 5 História da Paraíba – Horácio de Almeida. FURNE/UFPB – Campus II. Curso de Direito Agrário – Col Petrônio Portela. 321 Raízes da Formação Administrativa do Brasil – Marcos Carneiro de Mendonça (Coletânea de Leis) História da Civilização Portuguesa (Curso) – A . Comemorativo do Sesquicentenário da Independência do Brasil (em fascículos) – Bloch Editores (4 vols. A professora Waldice Porto considerou nossa conquista como tendo se realizado em duas fases: a primeira. contando todas as peripécias e fracassos das várias tentativas.) Brasil/Açúcar – Coleção Canavieira. 72 História do Brasil – 1 vol. vol. numa das quais Frutuoso Barbosa perdeu a esposa e um filho nas lutas contra os índio da tribo tabajara. 83 História Geral do Brasil – Francisco Adolfo de Varnhagen (Visconde de Porto Seguro). sobre a conquista da Paraíba. e a segunda só al100    . implantar a cidade. nº 8. UFPE História Geral da Igreja na América Latina – Ed. F. A fala do Presidente: Nossa expositora fez um relato sucinto.

Parabenizo a consocia Waldice Porto pela análise. e tem vários trabalhos sobre a História da Paraíba. defendido. Hoje eu não tenho dúvida que o autor do SUMÁRIO DAS ARMADAS é o padre Jerônimo Machado. com um currículo bastante apreciado. Com a palavra o consócio Guilherme d’Avila Lins. tanto para Portugal como para o Brasil. foi calcada na interpretação de uma frase do texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS. É também um historiador dedicado. pesquisador. mesmo porque sou de convicção que muitos pontos dessa conquista precisam ser revistos. Congratulo-me com a expositora pelo poder de síntese demonstrado em sua palestra. mais particularmente dois.cançada quando foram feitas as pazes com a tribo potiguara. embora ela não cubra toda a história da conquista. habitantes da parte direita do rio Paraíba ao território do Rio Grande do Norte. mas os eventos. dos fatos que determinaram a conquista da Paraíba. segundo a qual o autor daquela crônica seria o padre Simão Travaços. por motivo justificado. diante dessa dúvida. Alguns deles ainda estão inéditos. a qual foi mal entendida pelo padre Serafim Leite. cuja autoria transitou ao longo do tempo em torno de três nomes. professor Guilherme d’Avila Lins. A conclusão a que ele chegou então. inicialmente. A obra de base dessa fase é o opúsculo SUMÁRIO DAS ARMADAS. pelo padre Serafim Leite. ele é o atual presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. e depois o padre Simão Travaços. professor da Universidade Federal da Paraíba na área de Gastoenterologia. e passarei agora a palavra ao debatedor designado. Nosso debatedor é médico. entre os quais o padre Jerônimo Machado. as situações factuais e marcantes do período decisivo da conquista estão ali. a qual não pôde comparecer hoje a esta sessão. que a obra principal sobre a conquista da Paraíba é o SUMÁRIO DAS ARMADAS. desde os primórdios. porém. 101    . Sócio do nosso Instituto. um dos mais importantes historiadores da língua portuguesa deste século. É uma tarefa bastante árdua debater esse tema. Debatedor: GUILHERME GOMES DA SILVEIRA D’AVILA LINS (Sócio do IHGP e presidente do IPGH) Agradeço ao Presidente por ter me convidado para substituir a professora Rosilda Cartaxo. Não resta dúvida. que era a debatedora designada.

publicou 102    . porque daí dependeria a conquista do Norte: Rio Grande. A data da redação do SUMÁRIO DAS ARMADAS é outra incógnita muito importante porque ela cobre um período. Embora uma eficiente equipe de professores da Universidade Federal da Paraíba tenha vasculhado. e não casario ou casaria. como quer Horácio de Almeida. Fala-se que foi D. acerca de quando Portugal teria que decidir se parava. é na Torre do Tombo. quem produziu um documento nesse sentido. Foi ele quem levantou pela primeira vez uma certa questão. Não havia razão para haver casaria ou casario na altura do Varadouro das naus. Aquele documento. porque ele nunca viu o texto manuscrito do SUMÁRIO DAS ARMADAS. Ninguém tem dúvida que houve essa criação e certamente deve ter sido nesta mesma data (1574). Na parte referente à crítica externa. Desde 1574 fora criado um clima de beligerância. É da Canária. Está hoje esclarecida esta data de redação diante de elementos de crítica interna e externa. baseei-me em frei Vicente do Salvador. Quem viu esse texto manuscrito foi José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha. ao meu ver.Está fora do alcance cronológico da redação do SUMÁRIO DAS ARMADAS o Forte de Cabedelo. Gostaria de prestar uma homenagem ao meu antecessor na cadeira que ora ocupo no Instituto. que me levou a considerar a data da redação do SUMÁRIO DAS ARMADAS como sendo 1594. Sebastião. está ainda por se descobrir. embora equivocadamente. o professor Octacílio Nóbrega de Queiroz. e esta crítica fui eu que pude desenvolvê-la. como escreveu mal Maximiano Lopes Machado. no Sanhauá. que trouxe uma cópia de Portugal para o Brasil e na revista ÍRIS. forçando a criação da Capitania da Paraíba. o qual até agora não foi descoberto. dependendo do autor pesquisado. Uma das frases mais lapidares que Varnhagen disse a respeito da Paraíba é exatamente aquela que já foi lembrada aqui. mas não é o autor do erro. como consequência do massacre de Tracunhaém – nossa Guerra de Tróia. Tróia tupiniquim que ocorreu no início de 1574. de 1848. recentemente. A chance maior de se encontrar este documento. com base em leitura paleográfica. O que está escrito é Canária. não acredito que tenha encontrado por lá este documento. Maranhão e toda a marcha para o Norte. que vai desde 1585 ou 87 até 1603. argumentando que não existe o chamado Porto da Casaria. recuava ou avançava. Ceará. A conquista da Paraíba teria que ser feita. É só ler o texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS. o Arquivo Ultramarino. Noutras palavras. entretanto. o Forte de Cabedelo não existia na época em que o autor escreveu o SUMÁRIO DAS ARMADAS.

só saiu de Portugal em 1581. que Frutuoso Barbosa trouxe. O ano de 79 é do alvará que promete o cargo de capitão da capitania a Frutuoso Barbosa. particularmente Felipe de Espanha. Também não foi no ano de 79. Afirmo que o aprestamento desses navios não foi por sua conta. era um fato de somenos valor no cenário da política do Reino de Portugal. quatro navios para a conquista da Paraíba. O grande problema a respeito de Frutuoso Barbosa é que ele se dispôs a fazer a conquista. Estou trazendo para este Ciclo não realmente uma reconstituição do cenário da conquista em si.este texto e leu erradamente casario em vez de canária. conforme deixa muito claro Joaquim Veríssimo Serrão. Este é um erro comum que se vê nos livros de história. e que Frutuoso Barbosa tinha ainda um encargo adicional além de conquistar a Paraíba. Basta lembrar que vinha com ele o vigário dessa conquista com uma côngrua de 400 cruzados. como diz o autor do SUMÁRIO DAS ARMADAS. pois era o momento em que estava se finando o cardeal rei naquela briga tremenda sem lança e sem bala. caso ele a conquistasse. Ele diz textualmente: creio no ano de 79. os quais precisam ser submetidos à critica histórica para se reconstituir a verdade histórica. como está muito claro no texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS. mas trazendo fatos pertinentes ao momento da conquista e que são objetos de investigação. sem o que não se pode interpretar o fenômeno histórico. a conquista da Paraíba por mais importante que fosse. numa análise perfeita ele diz que a frota saiu de Portugal na primavera de 1581. E o nome de Porto da Canária se justifica porque era por lá que existiam umas canafístulas. para a sucessão do trono. O cardeal rei tinha um ódio tremendo a Antônio Prior do Crato. com frequência. Diz-se. Ele também vinha com o encargo de. ficou falido. porque quem não morreu. que distribuía prodigamente. pelo menos no início. por sua conta. Foi por isso que Frutuoso Barbosa ficou muito tempo esperando que sua frota de quatro navios fosse aprestada. As despesas iniciais foram por conta de el-Rei. Frutuoso Barbosa apesar de estar com o alvará desde 1579. as suas compras de adesão aos fidalgos que restavam de Portugal. de maneira persuasória. Diante disto. Há outra questão a mencionar. frota essa que se compunha de um galeão e três caravelas (uma das quais afundou na travessia). não aceitando a Duquesa de Bragança e os candidatos externos. à larga mano. mas em nenhum momento o autor diz que foi às próprias custas dele. 103    . Aquele era um momento muito crítico para a História do Brasil e de Portugal. pois os que escaparam na tragédia de Alcácer-Kibir.

comunicar ao Governo Geral do Brasil que deveriam o Governador Geral, todos os senhorios e todos os capitães da Coroa prestar juramento ao novo rei de Portugal, Felipe de Espanha. Houve uma discussão muito grande naquela época, sobre se a estratégia seria mandar uma pessoa de maior qualidade, se um nobre, para dizer isto ao Governador Geral ou mandar uma pessoa de menor qualidade. Estima-se que a qualidade de Frutuoso Barbosa seria sua abastança em dinheiro. Frutuoso Barbosa nunca chegou a fazer isso por que arribou na barra do Recife e não quis entrar no porto, ficando do lado de fora. Veio um vendaval e o levou às Índias de Castela, ou seja à Cuba, onde, com um mastro quebrado aportou, e só não ficou preso porque as Índias de Castela pertenciam à Espanha, assim como Portugal. Consertado o navio, ele voltou a Portugal e no ano seguinte, 1982, veio pela segunda vez, e, pela primeira vez, entrou em solo paraibano para a sua conquista. Aí teve uma grande decepção, com a perda de um filho, salvando-se com a ajuda do reforço do contingente que veio por terra. Outra questão importante é sobre o Forte do Varadouro, que é o marco inicial e definitivo da nossa conquista. Diz-se que aquele forte é obra de um engenheiro chamado Cristóvão Lins. Não é verdade. Quem fez o traçado do Forte foi o mestre das obras del-Rei Manoel Fernandes. A expressão mestre das obras del-Rei corresponde a um cargo que somente o Rei fazia a nomeação, geralmente dada a uma pessoa nobre especialista em construção civil e militar; não se identificava, pois, com o que hoje chamamos mestre-de-obras ou pedreiro. Este homem vinha na expedição especialmente para a construção do Forte do Varadouro, no entanto foi registrado apenas como pedreiro. Quem chamou Cristóvão Lins de engenheiro foi Cândido Mendes de Almeida, dando-lhe uma conotação brasileira de dono de engenho. Cristóvão Lins foi senhor de sete engenhos, do Cabo de Santo Agostinho até Porto Calvo, por isso que era denominado engenheiro, e não porque fosse construtor de coisa nenhuma. Em nenhum documento histórico está escrito que foi Cristóvão Lins que fez o traçado do Forte do Varadouro ou do Forte de Cabedelo. O que é mais grave é que a única vez que a palavra planta do forte é citada no SUMÁRIO DAS ARMADAS o nome de Cristóvão Lins não está citado. Entretanto, a esse respeito existe uma figura citada o tempo todo, que é chamado por uma série de autores como pedreiro ou um mestre-de-obras: Manoel Fernandes. E este homem vinha, como já disse, na expedição exclusivamente para a construção do Forte do Varadouro, e, no entanto, é somente o “pedreiro”.
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Esse assunto eu esclareço devidamente numa das notas do meu livro ainda inédito GRAVETOS DE HISTÓRIA. Há um vazio colonial importante no ano de 1586. O ano de 1586 foi terrível para a colonização da Paraíba porque houve a chegada de Francisco Morales que vinha com carta de el-Rei no sentido de ele ocupar a praça forte que haveria de se construir no lugar da que havia sido queimada, ou seja Forte Velho (São Felipe e São Tiago). Quando ele chegou aqui com essas cartas, chegou tarde porque o Forte do Varadouro já estava construído. Aliás a ordem para a construção desse Forte deveria ser em Cabedelo, se as cartas tivessem chegado a tempo a cidade começaria lá. Morales, que era muito ganancioso, achando que seria o capitão do forte ser construído, e como já havia um construído, resolveu ficar nele. E ficou, expulsando João Tavares, que era capitão interino no Forte do Varadouro, nessa ocasião. Examinemos essa situação: nenhum oficial espanhol, por conta própria e risco, iria destituir, sob sua inteira responsabilidade, um capitão-mor e governador de uma capitania provido pelo Rei. João Tavares estava ali posto por Martim Leitão, em nome do Rei, mas não pelo Rei. Isso também aconteceu no Forte de Cabedelo, em 1597, quando morreu o capitão do forte, cujo nome durante muito tempo ficou desconhecido. Eu consegui levantar esse nome: chama-se Antônio Gonçalves Manaya. Descobri esse nome através de uma pista genealógica. Antônio Gonçalves Manaya era um preador de índios, um aventureiro, plantava mandioca em Ipojuca. Ele veio para a Paraíba na época em que Feliciano estava fazendo guerra aos potiguaras, a chamada Guerra Justa, e aqui ele ganhou um dinheirinho, caindo nas graças de Feliciano Coelho de Carvalho, sendo indicado como capitão do Forte de Cabedelo, que só foi fundado em 1589, e não em 1585 como dizem por aí. 1585 foi o Forte do Varadouro. Antônio Gonçalves Manaya morreu em 1597 num ataque da frota francesa com treze navios. Ele tinha para defender o Forte de Cabedelo 20 homens e cinco canhões, conseguiu repelir o ataque mas morreu. Como prova de reconhecimento, o governo português concedeu o cargo de capitão de jure e herdade (cargo hereditário) à filha dele, D. Maria Manaya, que recebeu o título Como ela não podia ser capitão, seu marido João de Matos Cardoso assumiu o cargo, ficando como administrador do Forte de Cabedelo É o único caso que conheço na História do Brasil de alguém passar tanto tempo (37 anos) no cargo de capitão de um forte. Não passou mais tempo porque os holandeses entraram na Paraíba em 1634.
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Salientarei agora alguns aspectos de ganho da terra no processo da conquista. A margem esquerda do rio Paraíba era a grande meta de Frutuoso Barbosa. Frutuoso tem sido tachado por alguns como um mal administrador. Não creio que ela tenha sido mal administrador. Ele previu a necessidade de expugnar a margem esquerda do rio Paraíba, que vivia infestada de potiguaras, para poder explorar aquele lado com canaviais e com engenhos. Até então havia pouquíssimos engenhos à margem direita do rio Paraíba. Os dois primeiros foram Engenho Tibiri e Santo André. Entre os seus primeiros estão Tibiri de Cima e Engenho das Barreiras. Mas o primeiro engenho que surgiu na margem esquerda só foi possível por causa da visão de Frutuoso Barbosa em limpar a área da margem esquerda. Para isso ele teve que construir um forte, em 1589. Era um forte de madeira, pequeno, no estilo português da época, chamado Forte de Santa Margarida, que ficou mais conhecido como Forte de Inhobi. Quem fala sobre esse forte, sobre o ponto de vista documental, é Frei Manoel da Ilha, que cita o texto de uma provisão passada por Frutuoso Barbosa aos frades franciscanos, dirigindo-se ao superior dos franciscanos da época, frei Antônio do Campo Maior, que foi quem ajudou na construção daquele forte. Terminado este forte, Frutuoso foi para a Ponta do Cabedelo, fazer o Forte do Cabedelo, que era o seu grande sonho. Ele desativou previamente a Ilha da Restinga, que estava sendo ocupada e colonizada por Manoel de Azevedo, que por conta disto perdeu a vida. Para finalizar, quero dizer que nunca houve uma tentativa de colonização da Paraíba em 1578/1579 na Ilha da Restinga, primeiro porque seria uma falta de visão tremenda alguém tentar fazer uma colonização numa ilha que tem uma grande parte de mangue, diminuta e sem água; em segundo lugar, em 1578/79 nunca houve uma fortificação sequer ali. O que aconteceu foi, quase dois séculos mais tarde, em 1700 e tantos, frei Jaboatão leu um documento fidedigno dos franciscanos do tempo do capitão João Tavares falando da Ilha da Restinga. Isso não significa obrigatoriamente a construção do tal forte. Quem colonizou a Ilha da Restinga foi Manoel de Azevedo, que foi o primeiro ouvidor da capitania da Paraíba (e só se sabe disso através das denunciações do Santo Ofício). Nesta ocasião ele já era falecido, tendo morrido na Ilha da Restinga (por causa daquele desartilhamento) nas mãos dos potiguaras. A Ilha da Restinga teve a princípio o nome de Ilha da Camboa, nome devido por Manoel de Azevedo ter construído uma camboa ali, onde pescava para abastecer a pequena Felipéia de Nossa Senhora das Neves. Quem povoou a Ilha da Restinga foi Manoel de Azevedo e isto está muito claro na petição que sua
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viúva fez em 1596 a Feliciano Coelho de Carvalho, pedindo a Ilha da Restinga para oferecer como dote de uma ou duas filhas, invocando os serviços prestados por seu marido à Coroa de Portugal, tendo ele povoado a Ilha da Restinga. Ora, se foi ele que a povoou, como é que houve uma povoação prévia? Aí fica claro um erro de interpretação de frei Jaboatão. Há vários aspectos desses tempos que precisam ser revistos, mas meu tempo está esgotado. Era isto o que eu tinha a dizer. A fala do Presidente: Na sessão de hoje tivemos focalizado um o tema A CONQUISTA DA PARAÍBA, onde a expositora Waldice Porto e o debatedor Guilherme d’Avila Lins nos trouxeram algumas novidades esquecidas sobre a conquista e a fundação da nossa cidade. O historiador Guilherme d’Avila Lins demorou-se em considerações críticas sobre alguns equívocos dos nossos historiadores a respeito de datas e fatos da sofrida e demorada conquista da nossa província. Ele alinhou cinco ou seis enganos históricos, muitos dos quais continuam se perpetuando através da nossa historiografia, por falta de empenho dos estudiosos em aprofundarem suas pesquisas em fontes primárias. Reclamou ele não só a falta de interesse em aprofundar as pesquisas, como a dar uma melhor interpretação aos fatos ocorridos durante nossa conquista. Assim, considero bastante valiosa a contribuição dos participantes desta sessão, a qual dou por encerrada, agradecendo a presença de todos.

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5º Tema:

A CONQUISTA DO SERTÃO PARAIBANO
Expositor: Wilson Nóbrega Seixas

A fala do Presidente: Estamos retornando para reiniciar nosso Ciclo de Debates, e hoje apreciaremos o tema A CONQUISTA DO SERTÃO PARAIBANO. Para compor a mesa convido o consócio historiador Wilson Nóbrega Seixas, nosso expositor de hoje; historiador Guilherme d’Avila Lins, presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica; acadêmico Joacil de Britto Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras. A pessoa indicada para tratar do tema é, sem dúvida, nosso consócio Wilson Seixas. Apesar dele ser formado em Odontologia, dedicou-se à pesquisa histórica. É membro do Instituto de Genealogia e Heráldica, recebeu um título de Menção Honrosa pelos relevantes serviços prestados à cultura paraibana e nós do Instituto Histórico o consideramos o nosso mais importante pesquisador. Entre seus trabalhos importantes vale citar O VELHO ARRAIAL DE PIRANHAS, VIAGEM ATRAVÉS DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA, OS PORDEUS DE SÃO JOÃO DO RIO DO PEIXE, SANTA CASA DE MISERICÓRDIA, tudo isso elaborado em cima de fontes primaríssimas. Temos certeza que sua exposição de hoje nos trará novidades e a elucidação de alguns pontos controvertidos da história da conquista do sertão paraibano. Com a palavra o confrade Wilson Seixas. Expositor: WILSON NÓBREGA SEIXAS (Historiador, sócio do IHGP do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica, com importantes trabalhos publicados) Aos 21 de julho de 1962, na oportunidade em que se comemorava a passagem do centenário da fundação da cidade de Pombal, não podíamos absolutamente deixar, na condição de filho nascido e criado naquele tradicional burgo sertanejo, de levar a minha modesta e espontânea contribuição ao transcurso de tão importante e significativo evento histórico. E o fizemos, sem qualquer vaidade ou veleidade pessoal, com o lançamento do livro O VELHO ARRAIAL DE PIRANHAS (POMBAL), no qual procuramos focalizar os principais acontecimentos da história da108 

 

quele legendário município e, aliás, o primeiro núcleo populacional que se formou nos Sertões da Paraíba. Para escrever aquele livro, tivemos naturalmente que nos louvar nos autores que anteriormente trataram do assunto. Além disto, recorremos igualmente a outras fontes primárias, inclusive aos livros de notas e do judicial, ainda existentes no Cartório “Coronel João Queiroga”, da velha e tradicional comarca pombalense, nos quais colhemos os elementos necessários à elaboração do trabalho em apreço. Principiante, ainda, àquela época, nos estudos e pesquisas históricas, não podíamos apresentar um trabalho melhor e mais aprofundado sobre as origens da comuna sertaneja, pelo menos no que tange ao problema da conquista e colonização do interior da Paraíba, tema sobre o qual fomos convidados a expor neste Ciclo de Debates, que, em tão boa hora, promove a Diretoria do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil.

A conquista do Sertão
A história dos primitivos sertanistas baianos que devassaram e ocuparam os ínvios sertões da Paraíba não está ainda convenientemente estudada. Talvez pela escassez de fontes informativas, ou mesmo pela falta de um serviço de catalogação através do qual pudéssemos estudar, discutir e decidir a respeito de alguns pontos duvidosos ou desconhecidos para o estudo da historiografia regional, não possui ainda hoje – forçoso é confessar – um trabalho completo no tocante às entradas que, em sua expansão colonizadora, alargaram e fixaram as fronteiras de nosso Estado, desde a Capital até o extremo oeste da Capitania da Paraíba. Já dizia o eminente historiador cearense Capistrano de Abreu que “este fato não foi ainda levado na devida consideração em nossa História e, entretanto, é um dos mais interessantes de toda ela”. As entradas da Paraíba, não obstante os trabalhos de Maximiano Lopes Machado, Irineu Jóffily, Coriolano de Medeiros, João de Lyra Tavares, Celso Mariz, Irineu Ferreira Pinto, Horácio de Almeida, Elpídio de Almeida e tantos outros, precisam ter a sua História. Uma História com os requisitos indispensáveis de autenticidade, vazada nos moldes de uma segura orientação, com documentos próprios, que, embora realmente escassos durante o período que medeia entre o final da guerra holandesa (1654) e a Guerra dos Mascates (1710), não são todavia tão difíceis de encontrar quanto parece ao investigador interessado na descoberta de novas documentações, com vistas ao preenchimento de tais lacunas no conhecimento da nossa História colonial.
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Ocupado o vale do Paraíba, estreito e não muito extenso, era natural que a cultura da cana-de-açúcar se desenvolvesse através de pequenos rios, às margens dos quais se levantaram diversos engenhos. Ali, com efeito, se estabeleceram alguns colonos, ricos e abastados, antes e depois das guerras holandesas. A agricultura, aliás, começou pelo litoral, ninguém duvida, pela simples razão de que foi nele que principiaram a conquista e o povoamento da Capitania da Paraíba. Segundo Elias Herckmans, em sua DESCRIÇÃO GERAL DA CAPITANIA DA PARAÍBA, a ocupação do território paraibano, na época do domínio holandês, iniciou-se no litoral e chegou apenas a Cupaoba, região então considerada a mais afastada da zona litorânea. Ainda de acordo com o autor, “os limites da Capitania, para o ocidente, estendia-se pelo sertão adentro, até onde os moradores a quisessem povoar”. Referindo-se ao assunto, Maximiano Lopes Machado, em sua HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA, assim escreveu:
A conquista holandesa satisfez-se com o que os portugueses tinham antes explorado, não se animando a dar um passo mais para o Interior. Ficou onde havíamos parado por força das circunstâncias.

Com a restauração do domínio português, na segunda metade do século XVII, é que, na verdade, começou a penetração para o interior paraibano. E a figura de sertanista que se impõe como o primeiro a pisar o semi-árido paraibano foi Antônio de Oliveira Ledo, o qual, procedente da Bahia, atravessou o São Francisco e, seguindo o curso do Moxotó, um dos principais afluentes desse rio da unidade nacional, entrou na Paraíba através do rio Sucuru e prosseguiu pelo rio Paraíba até atingir a região do Boqueirão. Ali fundou uma aldeia que recebeu este nome e se estabeleceu, dando os primeiros passos para o povoamento da região do Cariri Velho. Governava a Capitania da Paraíba Alexandre de Sousa Azevedo, que tomou posse em 1678. Ao inteirar-se das atividades colonizadoras do intrépido sertanista baiano, Azevedo convidou Antônio de Oliveira Ledo para fazer uma entrada no sertão, em missão de reconhecimento. Afirma Elpídio de Almeida em sua HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE que
não se deixou Antônio de Oliveira Ledo estagnar-se na aldeia que acabara de fundar.
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Espírito aventuroso, saiu marginando o Paraíba, passou-se para o Taperoá, desceu a Borborema, estacionou no lugar onde se expande a cidade de Patos.

Na verdade, foi essa a primeira entrada empreendida na Paraíba por inspiração governamental. Fê-la o sertanista Antônio de Oliveira Ledo e, por isso, foi agraciado com o posto de capitão de infantaria da Ordenança do sertão da Paraíba. A carta-patente foi assinada pelo então governador geral do Brasil, Roque da Costa Barreto, a 6 de fevereiro de 1682. Informa ainda Elpídio de Almeida:
Não há certeza quanto ao ano em que faleceu Antônio de Oliveira Ledo. É de supor-se tenha sido em 1688, pois, nesse ano, foi criado novo posto, de mais alta categoria, o de capitão-mor das fronteiras das Piranhas, Cariris e Piancós dos sertões da Capitania da Paraíba, e nele provido Constantino de Oliveira Ledo. Assinou a patente o governador geral do Brasil, Matias da Cunha. No ano da nomeação, já haviam os tapuias se revoltado contra os invasores de seus domínios, irrompendo a sublevação na Capitania do Rio Grande do Norte. Passou ela à História como Guerra dos Bárbaros ou Confederação dos Cariris.

Continua ainda Elpídio de Almeida:
Cerca de dez anos permaneceu Antônio de Oliveira Ledo no posto de capitão das fronteiras de Piranhas e Piancó (sic). Em 1692, aparece investido no dito posto o seu sobrinho Constantino de Oliveira Ledo.

No entanto, certidão datada de 20 de janeiro de 1710 e assinada pelo próprio capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo, irmão de Constantino, documento este existente no Arquivo Histórico e Ultramarino de Lisboa, e de cuja cópia dispomos, mostra taxativamente o seguinte:
Certifico que, levantando-se o gentio em fevereiro de 87 (1687), em todos estes sertões da Paraíba, e nos do Rio Grande do Norte e Ceará, matando muita gente, e destruindo muitas fazendas de gados vacuns e cavalares, e mais criações, queimando muitas casas, ficando senhor de todas as fazendas, e para atalhar e castigar a Capitania que então a governava, Antônio da Silva Barbosa, ao capitão-mor André Pereira de Moura, com um troço de soldados a este sertão, incorporando-se com meu irmão Constantino de Oliveira Ledo, que então ocupava o posto de capitão-mor destes sertões, incorporados que foram, marcharam com trezentos homens ao rio das Piranhas, onde, olhando o estrago que nas fazendas tinha feito o gentio, se puseram a seguir uma grande trilha, e no fim de quatro dias lhe deram alcance entre umas grandes serras, e fechadas caatingas, e pendenciando com ele largo tempo lhe mataram sessenta e tantos homens, com muitos feridos e algumas presas, e dos nossos também houve bastantes feridos por cuja causa se resolveram os cabos a voltar para o povoado, onde na volta, ao cabo de alguns dias de jornada, nos assaltou o gentio com muito
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que. encontramos o registro de uma carta do capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. “que o achou metido numa cerca. matando muitos deles”. este importantíssimo documento coevo põe por terra. faça todo o referido na verdade e o juro aos Santos Evangelhos e. de cujos feitos e personalidade trataremos mais adiante. Teodósio relatava a sua viagem ao sertão da Paraíba e a vitória (e o bom sucesso) obtida na campanha contra os índios tapuias. sacerdote do hábito de São Pedro. pelos relevantes serviços que prestaram à Historiografia paraibana. nos permitiu proceder à leitura paleográfica de uma infinidade de documentos e cópias xerográficas extraídas dos manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino. a que tivemos acesso graças à gentileza e prestimosidade do ilustre professor José Pedro Nicodemos. Manuel Soares de Albergaria. e que não se conformavam em ver suas terras invadidas e 112    . nem de interesse algum que da Real Fazenda tivesse. nos arquivos do Departamento de História da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. Teodósio de Oliveira Ledo. Nesses documentos. e aos valentes com os sacramentos necessários. Teodósio de Oliveira Ledo. Passou a exercê-lo um irmão de Constantino. por me ser pedida a presente. atacado por uma infinidade de tapuias. Como se vê. e pendenciando com ele largo tempo nos matou onze homens e feriu muitos. o que tudo fez de seu bom zelo sem ser obrigado de pessoa alguma. escrita de próprio punho. as afirmativas daqueles dois ilustres historiadores paraibanos. acompanhou esta tropa o licenciado Francisco Ferreira. não foi o posto de capitão-mor das fronteiras das Piranhas. 20 de janeiro de 710 anos. e com o selo de minhas armas. de que uso.grande poder. Cariris e Piancó modificado ou abolido. de uma vez por todas. esforçando a uns com valor e animando a outros com a boa doutrina. então chefe do Departamento de História daquela conceituada escola do Ensino Superior da Paraíba. Nessa carta. A pesquisa que realizamos anos atrás. Numa das pelejas ia perdendo a vida. Salvou-o do perigo o mestre de campo Domingos Jorge Velho. continuam a merecer todo o nosso respeito e consideração. que ainda remanesciam no hinterland paraibano. Sertão dos Cariris. em Lisboa. passei por mim assinada. no entanto. havendo nos seus também bastante estrago em toda esta jornada que será de cento e tantas léguas. Constantino de Oliveira Ledo faleceu em começos de 1694. e datada de 06 de agosto de 1698. assistindo aos enfermos. Com sua morte. que Sua Real Majestade fosse servido fazer-lhe. Sabemos que Constantino de Oliveira Ledo teve destacada e decisiva atuação na luta contra os índios tapuias de todos os sertões da Paraíba. com que o julgo digno de toda honra e mercê. e dirigida ao governador da Capitania da Paraíba. atalhando a muitas discórdias.

em qualquer emergência. assinada pelo governador geral do Brasil. estabelecer os seus currais de gado. seu irmão. foi Teodósio de Oliveira Ledo o pioneiro do entradismo paraibano e. que servisse de segurança e tranqüilidade aos moradores. Manuel Soares de Albergaria. transcreveu-a Irineu Ferreira Pinto em seu livro DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA. procedente da Bahia ou das margens do São Francisco. nas NOTAS SOBRE A PARAÍBA. além da experiência que 113    . Carta. De quantos autores temos lido sobre o episódio da conquista e desbravamento do território sertanejo paraibano. Uma análise interpretativa nos permite esclarecer algumas dúvidas que ainda hoje pairam a respeito das nossas entradas a que seguiu a permanência do intrépido sertanista. que não era nem mais nem menos do que a que escrevera Teodósio de Oliveira Ledo.ocupadas por elementos estranhos aos seus costumes e padrões de vida. dom João de Lencastre. visando ao aumento dos dízimos à Fazenda Real. e na de Constantino de Oliveira Ledo.)”. a quem o mesmo governador incumbiu inclusive de fundar no sertão das Piranhas um arraial. que também procurava. o primeiro a estabelecer um elo de comunicação territorial. sem fazer qualquer comentário a respeito. na qual o governador da Capitania da Paraíba. a quem viria substituir em 1694. Coube o comando dessa entrada ao capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. ligando a nossa capital ao extremo oeste do nosso Estado. para fazer face às despesas decorrentes com os gastos aplicados nos mais diversos pontos do território da Capitania da Paraíba. fizerão nelles o gentio Tapuya (. seu pai. Teodósio. não chegou sozinho aos sertões da Paraíba. apenas em Irineu Jóffily. Aquela carta a que se refere Irineu Jóffily.. o descobridor de nossas terras. nas longínquas paragens.. a fim de promover o povoamento dos sertões daquele distrito. informou a Sua Majestade ter mandado ao sertão uma entrada. no posto de capitão-mor das Piranhas. conforme carta-patente de 3 de novembro daquele ano. aliás. Veio nas últimas décadas do século XVII na companhia de Custódio de Oliveira Ledo. Teodósio de Oliveira Ledo Ao nosso ver.. “(. também. Cariris e Piancós.. parecendo que o referido autor já tivesse conhecimento dessa carta a que acrescentou outro documento.) despovoados das invasoens e de estrago que os annos passados. encontramos o registro de uma carta enviada ao rei de Portugal e datada de 14 de maio de 1699. que o fazia em consideração a seus merecimentos e qualidades militares. que escapou naturalmente na cópia de que se serviu o consagrado historiador campinense. sem dúvida alguma.

que o servisse de ponto de apoio nos moradores em qualquer emergência”. ao mesmo tempo. “E sendo preciso garanti-los e fomentar a indústria pastoril já tão desenvolvida. lembrando-lhe a necessidade da fundação de um arraial em Piranhas. Depois de visitar o governador Manuel Nunes Leitão. naquele mesmo ano de 1694. Saindo da Bahia. Além disto. a fim de apresentar e registrar esses documentos. o governador da Capitania lhe forneceu 114    . de que o hei por metido de posse e com ele haverá as honras. sendo que. principalmente na região do Piancó. apareceu-lhe Teodósio de Oliveira Ledo (no princípio de dezembro daquele mesmo ano de 1697) e o informava sobre a situação precária do sertão da Paraíba. após receber sua carta-patente. Cariris e Piancós. irmão do mesmo Constantino de Oliveira Ledo (. voltou à cidade da Paraíba a fim de entregar a esse mesmo governador as cartas de dom João de Lencastre. Teodósio de Oliveira Ledo dirigiu-se à cidade da Paraíba a fim de se apresentar ao governador da Capitania e. privilégios e jurisdição que tinha o dito Constantino de Oliveira.tinha na guerra e nos sertões. governador geral do Brasil. quando apenas inaugurava seu governo. registrar na Câmara a patente de capitão-mor das Piranhas. seu irmão. e convém ao serviço de Sua Majestade a conservação dos moradores de todo aquele Sertão e seus distritos provê-lo em pessoas de grande valor. Pelo que ordeno ao capitão-mor da Capitania da Paraíba o tenha assim entendido e lhe faça dar o juramento na Câmara da cidade. Teodósio foi aos sertões e regressou à Capital várias vezes. Podemos acrescentar que o governador Manuel Soares de Albergaria. em sua HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA. prática militar e experiência da guerra dos bárbaros e sertões.. e costumam ter todos os capitães-mores fronteiros aos bárbaros. pedindo-lhe então providências contra a devastação que faziam os índios tapuias nas propriedades e gados dos moradores. consistindo em 40 índios cariris. Cariris e Piancós.) hei por bem de o eleger e nomear capitão-mor do dito sertão e distritos das Piranhas. concorreram todas essas qualidades e suposições na de Teodósio de Oliveira Ledo. Cariris e Piancós. franquesas. em 1695. em 1697. graças. requeria em nome deles que os auxiliasse com alguma gente de guerra e munições. atendendo ao pedido de Teodósio.. Manuel Soares de Albergaria. De acordo com Maximiano Lopes Machado. deu-lhe razoavelmente tudo aquilo de que necessitava para o empreendimento. A carta-patente pela qual fora nomeado para o dito posto estava expressa nos seguintes termos: Porquanto pelo falecimento de Constantino de Oliveira (Ledo) ficou vago o posto de capitão-mor das fronteiras das Piranhas. 16 índios mansos retirados das aldeias e 10 soldados.

e ela acabada se acharem. me pus em marcha e cheguei pelas oito horas da noite ao dito rancho e dali. vizinhando mais a eles. da Capital até chegar ao arraial de Pau Ferrado. ao arraial. encarregado da conversão do gentio. estando alojados. me vieram novas dos descobridores (os sapadores). Teodósio aceitou fazer as pazes com esses indígenas bravios. Dali a seis dias. por serem incapazes. Isto. Marchei com todo cuidado e o outro dia pelas oito horas da tarde. isto é. a três léguas do arraial. e se me feriram seis homens. S. Assim. tinha chegado a um rancho donde se havia levantado o inimigo aquela manhã. através de línguas. como vimos. ele chegou ao arraial de Pau Ferrado nos primeiros de abril daquele mesmo ano. de noite e de dia. Feito isto. o quanto de alcançar a vitória. chegaram esses índios. e ao romper do dia dei sobre eles com toda disposição possível. através de entrevista por nós concedida ao ilustre pesquisador. 115    . com todo o seu mulherio. estando alojado no rio chamado Apodi. Ao cabo de 18 dias. de onde se havia retirado. Conforme divulgou o jornal O NORTE. jornalista e editor Evandro Nóbrega. os quais desejavam fazer as pazes. deixei ficar as munições com dez homens de sua guarda. pedindo-lhe também socorro contra outros inimigos. S. em o dia de Santa Justa e Rufina. me vieram novas dos descobridores. aqueles que iam adiante para fazer o reconhecimento do terreno) em como o inimigo tinha voltado do rumo em que ia a outro mais vizinho a mim. em companhia de todo o seu gentio e mais os índios com os quais acabava de concertar a paz.4 arrobas de pólvora e balas. que queriam ser leais e amigos del-rei. da parte do inimigo. o incansável sertanista Teodósio seguiu com seu gentio e alimárias. vencem V. e só digo que. chegou ele a uma planta do inimigo. a pé e a cavalo. em sua edição de 1º de outubro de 1997. tendo-me ele o encontro com valor. porém quis Deus que desse V. não perigou nenhum. o entradista Teodósio de Oliveira Ledo e seus comandados partiram da Capital rumo ao interior “nos primeiros dias de janeiro do ano de 1698”. com a obrigação de que deixassem conduzir suas mulheres para o arraial. havia decorrido cerca de 90 dias. da nossa parte. Feitas as pazes com os Curemas. e muita quantidade de feridos e. duas batalhas. durando a peleja até as 9 horas do dia. daí a 23 dias. na mesma hora. lhes foi concedido pelo guerreiro branco. esta de presente referida e as pazes que aqui se confirmaram. veio-lhe um aviso de seus índios. Portanto. Após três dias de sua chegada. pondo-me em seu seguimento. encontravam-se 30 ou 40 tapuias bravos. armas e tudo o mais. e das presas mandei matar muitas. indo com ele também um religioso de Santo Antônio. os quais lhe disseram. Enfrentando muitas dificuldades. mandando descobrir coisa de légua e meia. E. em uma quinta-feira. alcançara essa aldeia de índios Coremas. contra os indígenas inimigos. no sentido de que. depois de muitas horas de viagem. debaixo de armas. 40 alqueires de farinha e carnes para a viagem. Teodósio marchou para novos combates. 32 mortos e 72 presas. para novas investidas.

por considerá-los “inválidos”. entreguei os quintos de El-Rei meu Senhor e ele fará a entrega a V. mais que aos brancos. e. na qual contava o bom sucesso que ele tivera na guerra contra os tapuias que vinham hostilizando os moradores dos sertões das Piranhas e que em nenhuma parte se davam seguros de seus ataques e perseguições. nossos inimigos”. me vieram seguindo os inimigos e andando o meu gentio à caça. demorou cerca de nove horas. Não se limitara o governador Albergaria apenas ao envio de sua carta a el-rei. após deixar a capital. me ordenar. deu parecer. Humilde soldado de V. sendo o despacho do rei no dia 11 de setembro do mesmo ano. Piancó). Teodósio de Oliveira. a quem Deus guarde. em 3 de setembro de 1699. vindo-me retirando. os fora do troféu me mataram quatro homens que quis me por em seu seguimento. em que lhe feri alguns homens. A vitória. declarou que está Sua Majestade “muito grato ao bom sucesso que teve na campanha contra os índios. na época. não tripudiando a matar muitos deles a sangue frio”. acalmada as coisas.pelos inimizar com as mais nações. Esses e outros sucessos foram relatados por Teodósio ao governador Albergaria. como disse. isto é. não foi possível por vir falto de mantimentos e somente lhe dei uma avançada. mandou executar alguns dos 72 prisioneiros indígenas. estranhando entretanto o modo pelo qual o capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo tratou “os infelizes tapuias que tomou na guerra. E disto tudo o Conselho Ultramarino de Lisboa. O Conselho Ultramarino. S. órgão político e administrativo da Coroa portuguesa. tão renhido era o combate. muitos dias e léguas depois de Teodósio ter alcançado o interior. Ao ajudante Manoel da Câmara. seus descobridores toparam-se com a indiada raivosa e Teodósio deu sobre eles com todo vigor. pode-se dizer o seguinte. Mas. E a 27 de julho cheguei a este arraial (Pinhancó. sob a presidência do Conde Alvor. Portanto. ao depois de toda a batalha. endereçado ao rei. pela necessidade em que vinha apanhando. O despacho do Conselho inclusive censurou acerbamente o procedimento de Teodósio por haver mandado executar os indígenas. com três dias de viagem. através de carta datada de 6 de agosto de 1698. Acrescentava ainda o Conselho Ultramarino que o mau exemplo que se dava na guerra podia comprometer o problema da paz para o qual estava empenhado el116    . Ainda sobre tudo isto. E aqui fico nesta campanha para o que V. S. porque os julgara incapazes do serviço de Sua Majestade. e hoje não lhe fica lugar buscarem por amigos. Juntou a esta a carta que recebera do capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. somente tomou conhecimento através da carta que enviou ao rei de Portugal o governador Albergaria. Pinhancó (Piancó) de agosto 6 de 698 anos. em data de 14 de maio de 1699. S. O Conselho Ultramarino.

no sentido de desenvolver a indústria pastoril e a lavoura. O topônimo Piancó. extremas e compreensão: Esta povoação se divide. atribuindo ao coronel Manuel de Araújo Carvalho a fundação do atual município do Piancó. extraído do acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. não foi o município que tem hoje este nome o teatro das façanhas do capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. até o vale do Jucurutu. Era muito vasto o território da antiga povoação do Piancó. pouco mais ou menos cinqüenta léguas. mas o antigo arraial cujo nome era Piancó. de sorte que o procedimento do capitão-mor Teodósio era digno de uma exemplar castigo. que depois se chamou povoação de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Piancó e. Piancó era toda a área que logo depois seria polarizada pela povoação que tinha o mesmo nome e que mais tarde viria a ser a vila e. com o sertão do Cariri. pela parte do nascente. em Pernambuco. da parte do poente. a fim de que os sertões se tornassem a povoar de moradores. Não se justifica a afirmativa do ilustre historiador Coriolano de Medeiros. outrossim. No tempo da ocupação e povoamento do semiárido paraibano. que tem seu nascimento na mesma serra da Borborema. por detrás da qual. Com relação ao novo arraial a ser fundado. O Piancó foi. pois se entende que se escolheria o que tivesse por mais conveniente”. que outro deveria ser o tratamento dispensado aos tapuias. ainda depois. É também o nome oficial da terra. vila e cidade de Pombal. ficando-lhe no meio. no Ceará. com pouca diferença. através da Carta Régia de 16 de dezembro de 1699. era o Conselho de parecer que se deveria aprovar a iniciativa. como se vê do documento que abaixo transcrevemos. cujos limites se estendiam desde o sertão do Cariri Velho. A jurisdição desta povoação abrangia todo o sertão das Piranhas. e tem de distância. desde o sertão do Pajeú. como se vê. da parte do poente. bem como do coronel Araújo. e em distância de meia légua. até a vila do Icó e o sertão do Jaguaribe. na verdade. no Rio Grande do Norte. “o que nesta parte assentou. corre o rio chamado Piancó. Outra coisa que devemos ressaltar nesse documento histórico assinado por Teodósio de Oliveira Ledo é que se pode comprovar definitivamente aquilo de que já se desconfiava há muito: o Piancó histórico não corresponde nem de longe ao município ou cidade de Piancó atual. abaixo da povoação. não se refere apenas ao nome do rio. a primeira localidade batizada oficialmente com a categoria de povoação. com o sertão do Jaguaribe e vila do Icó. se une com o rio 117    . a dita Povoação de que se trata. cidade de Pombal. o qual traz a divisão e limites da antiga povoação do Piancó. de uma a outra extrema. na Paraíba. bem como seus distritos. cuja divisão lhe faz a serra chamada Borborema. Entendia o Conselho. finalmente. e.rei.

denominadas Olho 118    . Espinharas. que só conservam poços em alguns lugares. informava que os sertões desta Capitania “achavão-se muito povoados de gente. Tem o segundo. João da Maia da Gama. sessenta e oitenta légoas desta praça (. O coronel Araújo era casado com a paraibana Ana da Fonseca Gondim. Para o Julgado do Piancó foi nomeado juiz. o qual também nasce na serra da Borborema. e da mesma Povoação. o coronel Manuel de Araújo Carvalho. um dos quais. nessa mesma ribeira. e. capela e capelão. à terra conquistada afluía grande porção de gente desocupada e desordeira. correm vários riachos. Manuel de Araújo de Carvalho Gondim. para correr. Pahó e Careris. distrito do Rio Grande. Crescia consideravelmente a povoação do Piancó. o de 1719. pelo verão. à beira do rio Piranhas. porque.. e faz barra no mar. fazendas de gado. em carta dirigida a Sua Majestade. distão esses logares cincoenta. O então governador da Paraíba. cidade do Natal. pelo governador da Paraíba já citado. onde possuía duas propriedades. com povoação. a saber: rio do Peixe. E. vindos de todos os quadrantes. chamada Jucurutu. Seridó e Riacho dos Porcos. donde lhe chama Açu.. com jurisdição civil e criminal em todo o território da povoação. abundantes de água pelo inverno. secam tanto. Piranhas. formou-se em cânones pela Universidade de Coimbra. Nenhum desses riachos tem nascimento porque só se fertilizam. Na compreensão deste distrito. em 1710. da qual a esta Povoação distam vinte e cinco léguas. com a capitania de Pernambuco. foi nomeado deão da catedral de Olinda. cuja Capitania se divide do distrito dessa povoação em uma fazenda de gados. e entre muitos sítios se acha o das Piranhas. extrema o distrito desta mesma Povoação.)”. que lhe administra os sacramentos. foi residir no rio do Peixe. vão todos desaguar no rio acima dito. Pedia o governador então a el-rei que fossem criados dois Julgados nos sertões da Paraíba. e corre buscando quase o nascente. e em outros apenas águas de cacimbas. buscando o sul. quando o juiz ordinário não era mais o coronel Araújo. adquirindo terras para a criação de gado. O Cartório do 1º Ofício da Comarca de Pombal não possui o primeiro Livro de Notas do Julgado de Piancó (1711). e nenhum destes é navegável. Certo é que.Piranhas. Novos colonos apareceram. em distância de trinta léguas. sendo por isto necessária a instituição de um Julgado. como sucede em tais ocasiões. capitania da cidade da Paraíba. depois de concluída sua administração à frente do Julgado de Piancó. quando regressou ao Brasil. até o sertão do Pajeú. pelo rio Piancó acima. Deste casal nasceram dois filhos. com águas de chuvas. e correndo. Sabugi. João da Maia da Gama (que tomou posse em 1708). que são os principais. avultando o número de crimes e a corrupção de costumes. empossado no cargo em 1711. Não se sabe quanto tempo demorou o coronel Araújo nos sertões da Paraíba.

partindo do litoral e percorrendo a região que vai desde a foz do Paraíba aos contrafortes de Santa Cantarina e Bongá (no extremo oeste do nosso território). descendo o rio Salgado até chegar ao Icó. os campos dos jenipapos. subiu o seu afluente Pajeú. imprimindo outro roteiro. Como já tivemos oportunidade de comentar. Outra via de penetração da Casa da Torre teve como princípio a estrada de comunicação ligando a Bahia à região do Piauí. Foi ela a primeira também a ocupar as terras do Piancó. Enquanto muitos recompunham. enquanto determinava a política de desbravamento e penetração do progresso “ao coração da terra”. além da Casa da Torre.d’Água e Brejo. pegas e icós pequenos já estavam devassados pela famosa Casa da Torre. podemos afirmar. mas estava economicamente acabado. na Paraíba. sentia-se “um povo e um povo de heróis”. coremas. noutro trabalho. como antigos senhores de engenhos que eram. por onde. Partindo dos sertões do Piauí. que. a partir de 1674. daí se comunicando com as Piranhas de Cima e Rio do Peixe. antes de uma entrada genuinamente paraibana. margeando o rio São Francisco. Piranhas de Cima e Rio do Peixe. que se comunicavam com aqueles dois Estados. quando o coronel Francisco Dias d’Ávila. atravessou a chapada do Araripe. empresa que contou. daí se comunicando com a bacia do Piranhas. surgido dos escombros das guerras holandesas. em 1654. na pitoresca comparação de frei Vicente de Salvador. as suas fábricas de açúcar e começaram a levantar os canaviais na várzea do 119    . tomou a Casa da Torre rumo oposto às suas primeiras expedições e. transpondo o rio São Francisco. Por ali é que se abria entrada para a descida do gado dos sertões piauienses para a Bahia. importante parte do território paraibano começou a receber as primeiras sementes de gado com que se fundaram as primeiras fazendas e currais. e foi justamente aquela em que o coronel d’Ávila. Foi ela sem dúvida quem primeiro abriu caminho nos descampados e acidentes da terra ignorada e misteriosa. durante anos. seguiu a direção norte até chegar ao distrito de Jacobina. com a ajuda do sertanista Domingos Afonso Sertão. deixando de arranhar as praias feito caranguejo. adquiridas por arrendamento à Casa da Torre da Bahia. O novo homem paraibano. Foi a fazenda de gado que realmente fixou o homem no sertão da Paraíba. panatis. aliás uma das passagens mais frequentadas por antigos sertanistas. missionários e índios de Juazeiro e Pontal. afastando o colonizador da beira do mar. sem medo de contestação. Foi certamente uma das rotas de penetração da Casa da Torre.

levando o gado para o sertão. desde o espírito à construção. ainda em abono da verdade. A Casa da Torre. porém mais afoitos. com o objetivo de aumentar cada vez mais seus domínios territoriais. em terras brasileiras. outros. de que possuía extensíssimas fazendas. quando. escrevendo sua preciosa obra RÉLATION SUCCINTE. seus calabouços. estabelecendo aí a criação. carece de fundamento a afirmativa do grande mestre de CAMINHOS ANTIGOS E POVOAMENTO DO BRASIL. outros. que se julgavam. durante um encontro que com este mantivera no rio São Francisco. “único em tipo inteiramente feudal. os legítimos e possuidores das ricas terras do sertão paraibano. Havia no lado baiano do rio São Francisco a opulenta Casa da Torre. Se realmente alguns dos representantes da Casa da Torre preferiam viver perto de seus engenhos e no aconchego e comodismo do Recôncavo. embora que tivessem daí por diante de sustentar lutas terríveis com os índios tapuias. como símbolo de um passado que ainda pesa”. cremos que melhor informado andou o autor de BANDEIRANTES E SERTANISTAS BAIANOS. “para adquirir as imensas propriedades. quando assegurava que a Casa da Torre. e tinha como principal objetivo a criação de gado. E Tereza Patrone acrescenta que foi a pecuária que deu ao homem colonial a noção do valor econômico das áreas que não apresentavam riquezas minerais e que não se prestavam para outras atividades comerciais. missionário capuchinho e evangelizador dos índios cariris. referindo-se ao coronel Francisco Dias d’Ávila. Todavia. optaram pelo trabalho da conquista. até hoje deixa ainda ver as suas ruínas. e eram de fato. seu imenso Castelo. disse que não foi este. “foi a criação de gado que nos deu a segunda dimensão da terra brasileira”.Paraíba. como querem alguns historiadores. fundada por Garcia d’Ávila. “um inerte. os mais destemidos e afoitos. varando os sertões desconhecidos e misteriosos. tomemos o depoimento do padre Martim de Nantes. afirmou que o sertanista baiano Francisco Dias d’Ávila. lhe declarou que se achava ausente da 120    . optaram pela pecuária. que vivia na capital. Sobre o assunto. e que se tornou com o tempo o maior feudo do Nordeste. no dizer de Pedro Calmon. gastara apenas papel e tinta em requerimento de sesmarias”. o segundo deste nome. os mais modestos. Segundo Nelson Werneck Sodré. Capistrano de Abreu diz bem que as terras dos Dias d’Ávila cobriam mais de 70 léguas entre São Francisco e Parnaíba. E. a auferir as rendas dos bens deixados pelo avô”. que. Borges de Barros. Pedimos vênia para discordar do eminente historiador brasileiro. suas ameias destroçadas.

é que assume a responsabilidade dos negócios da Casa da Torre. sua esposa. rio Salitre e Jacobina. Piauí. se espalhavam até Jeremoabo. um dos primeiros colonos a pisar o solo da ribeira do Rio do Peixe. no original francês: J’ai éte absent de ma Maison de la Torre près de quatre ans. que lhe pertenciam “os distritos do Piancó. Ceará. quando as suas terras. A escritura de arrendamento que fizera. também conhecida como Casa de Tatuapara. No tempo da conquista dos sertões paraibanos. como se vê. não obstante o barão de Studart lhe ter deformado um pouco a personalidade. preconceituosamente: Era realmente pequeno de alma e de corpo. dona Leonor Pereira Marinho. O interesse nele excedia ao físico. com gadaria. em 1702. somente Teodósio de Oliveira Ledo. em 1702. Era um homem riquíssimo para a época em que viveu. arrendou. Enquanto pôde. Ou. Com sua morte. que era de acanhadas proporções. Rio do Peixe. prova o marco de sua expansão povoadora no sertão da Paraíba. Inhanbupe. Rio Grande do Norte e Paraíba. sustentou os ilimitados domínios territoriais pertencentes à instituição. o capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. Um mundo que já começava penetrando os sertões de Pernambuco. cerca de 16 delas. ao governador geral do Brasil. Piranhas de Cima e Rio do Peixe. propriedades espalhadas pelo rio do Peixe. No Livro de Notas do Cartório de Pombal. Era sesmeira no Piancó. Dele dizia Studart. Juazeiro. vivant sur le fleuve avec beaucoup d’incommodit. encontramos diversas escrituras públicas. de 16 propriedades situadas no rio do Peixe e pertencentes à Casa da Torre. certa vez. de uma vez. relativas aos domínios territoriais da Casa da Torre. seguindo até as nascentes do rio Real. Morais Navarro. detivera em suas mãos quase um terço das terras do sertão da Paraíba. Itapicuru. como ele mesmo declara 121    . graças ao regime latifundiário que instituíra no Nordeste brasileiro. A Casa da Torre. dom Rodrigo da Costa. Ainda a propósito do arrendamento de propriedades pertencentes à Casa da Torre.Casa da Torre há mais de quatro anos. O coronel Francisco Dias d’Ávila morrera em 1695. Piranhas. Açu e Jaguaribe e seus sertões varejados e descobertos à custa da Casa da Torre”. a declarar ao cabo de guerra dos paulistas. Foi ela quem obrigou. era o coronel Francisco Dias d’Ávila a maior figura representativa da Casa da Torre.

os quais foram com o dito capitão-mor e 40 cariris e 16 índios. junto com os cariris. Era ele o mais intrépido sertanista. dentre os descendentes do velho Garcia d’Ávila. na missiva. sem contradição alguma. que estão aldeados junto aos cariris. e depois desta tornarão meus herdeiros a restituir à dita senhora ou a seus herdeiros. a propósito. Majde. segundo o que até o presente tem mostrado. aonde chamam campina grande. o trecho da carta do governador Albergaria sobre este ponto: Trouxe consigo. E reduzirem-se à nossa Santa Fé Católica. arrendava mais 12 propriedades. vertente do rio das Piranhas. fundador da Casa de Tatuapara. para neles criar meus gados e demais colonos. Foi justamente nessa vinda à capital da Paraíba que Teodósio lhe trouxe informes sobre o famoso troço ou ajuntamento que tapuias chamados de “ariús”. O governador.naquele documento transcrito no mesmo Cartório: Digo eu. uma nação de Tapuias chamados Arius. sob o chefe Cavalcanti. quem aumentou os imensos domínios da Casa da Torre. conforme o documento: digo eu. diz-se também que teria sido Teodósio o fundador de Campina Grande. aldeados. com todos seus logradouros e pertences. capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. à época daqueles arrendamentos. dos quais é principal um Tapuia de muito boa traça e muito fiel. Senhor. que arrendei à senhora Leonor Pereira Marinho. por assim ser verdade e me ser pedido passei esta por mim feita e assinada. este arrendamento me concede a dita senhora. enquanto Deus me fizer mercê da vida. Quatro anos depois. sitos no rio do Peixe. já estava viúva do coronel Francisco Dias d’Ávila. que tirei das aldeias e dez soldados desta praça. refere-se ao pedido de Teodósio de marchar novamente rumo ao interior. chamado Cavalcanti. capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. ainda. numa “campina grande” que deu nome à atual cidade e município. A carta do governador Albergaria a el-rei. de junho 26 de 1702. Veja-se. e querem viver como vassalos de V. 122    . o segundo deste nome e o quarto senhor e morgado da Casa da Torre. com as sesmarias no estremo oeste da Paraíba. Leonor Pereira Marinho. doze sítios de terra. para criar um arraial mais seguro. dos quais sítios pagarei por cada um deles todos os anos um frango. que ocupo dezesseis propriedades da senhora Leonor Pereira Marinho. no entanto. trouxe informes mais precisos sobre o assunto. no riacho do Peixe. Foi ele. Por outro lado.

Governador: A minha vontade era aquela de dar a V. como também pelo longo desta Campanha. rompendo a Campanha com muita moléstia pelos mais convenientes de dar no inimigo sem ser sentido e acabo de 18 dias cheguei a uma planta do inimigo. em uma quinta-feira. Em primeiro lugar para dessa cidade com o adjutório de V. Teodó123    . o que fiz logo com a maior parte da gente ficando o arraial guarnecido com dezesseis homens. Humilde soldado de V. o quanto de alcançar a vitória durante a peleja até às 9 horas do dia. e ela acabada se acharam da parte do inimigo trinta e dois mortos e setenta e duas presas e muita quantidades de feridos e da nossa parte não perigou nenhum e só me feriram seis homens. Esta de presente referida e as pazes que aqui se confirmaram pelos inimizar com as mais nações. e daí a 23 dias chegaram com todo o seu mulherio ao dito arraial e daí a mais breve que pude dando tempo lugar me pus em marcha para a guerra com todo nosso índio também os das pazes. Pinhancó (Piancó) de agosto 6 de 698 anos. daí há seis dias me vieram novas dos descobridores em como o inimigo tinha voltado do rumo em que ia a outro mais vizinho a mim. Marchei com todo cuidado e outro dia pelas cinco horas da tarde estando alojado em o rio chamado Apodi me vieram novas dos descobridores. e outro dia pelas dez horas do dia chegaram os brabos. S. do sucedido mais breve. tinham chegado a um rancho donde se havia levantado o inimigo naquela manhã. porém com o favor de Deus cheguei contudo a salvo e em paz a este arraial de pau ferrado. aceitaram o partido e com este pressuposto se foram. passando muitas necessidades e misérias de fomes. e só digo que em o dia de Santa Justa e Rufina. nos primeiros de abril e dali há 9 dias de minha chegada me veio um aviso do meu gentio. com toda a disposição possível tendo-me ele o encontro com valor porém quis Deus que dessa a V. a quem Deus guarde. a qual passo a ler: Sr. me ordenar. que me vinham a buscar de paz e que em toda caso os socorresse pelo receio que tinham de que lhe sucedesse algum dano. S. o que de presente faço de todo sucedido. o que não tenho feito pelo tempo mo não permitir. S. e lhas concedi com ditames de procederem contra os nossos inimigos e com obrigação de conduzirem o seu mulherio para o arraial de baixo das armas. Com um cabo e com todo o cuidado me pus em viagem. Ao ajudante Manoel da Câmara. não foi possível por vir falto de mantimentos e somente lhe dei uma avançada. S. pelas oito horas da noite e cheguei aonde estava o meu gentio. E aqui fico nesta campanha para o que V. entreguei os quintos de El Rei meu Senhor e ele fará a entrega a V. e hoje não lhe fica lugar a buscarem por amigos mais que aos brancos. estavam alojados vizinhando-me mais a ele deixei ficar as munições com dez homens de sua guarda e ao romper do dia dei sobre ele. duas batalhas. Quis me por em seu segmento. que eram de uma aldeia chamada corema a pedir-me pazes dizendo que queriam ser leais a El Rei meu senhor. S. S. e ao depois de toda a batalha vindo-me retirando com três dias de viagem me vieram seguindo os inimigos e andando o meu gentio a caça pela necessidade em que vinha apanhado-os fora do troféu me mataram quatro homens. S. venceu V. em que lhe feri alguns homens e a 27 de julho cheguei a este arraial. vindo rompendo esta Campanha com muita moléstia por causa das grandes investidas. que distante do arraial três léguas estavam em como com eles se haviam encontrado trinta ou quarenta tapuias brabos. de onde se havia retirado pondo-me em seu segmento.A carta de Teodósio a Albergaria analisada demonstra que Teodósio tinha certos conhecimentos. e das presas mandei matar muitas por serem incapazes. Na mesma hora me pus em marcha e cheguei pelas 8 horas da noite ao dito rancho e daí mandando descobrir coisa de légua e meia.

onde fez demorado acampamento. e chegou a Piranhas”. Ainda a propósito desse episódio da conquista dos sertões da Paraíba e reforçando conceito emitido pelo historiador Capistrano de Abreu. com a visão que teve do fato histórico. quando certamente Teodósio não havia ainda chegado à Paraíba. e seguiu pela vale deste. encontrou as hostes cariris (provavelmente os sucurus). ao poente. que a descrição de Irineu Joffily “não está de acordo com a realidade histórica”. O obscuro período das entradas alguns historiadores tentaram esclarecer à base de conjecturas. em 1688. até o boqueirão da serra do Carnoíó. no segundo volume de sua HISTÓRIA DA PARAÍBA. em sua HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE. comandante de uma delas. outro autor. onde fora apresentar-se ao governador e registrar na Câmara a patente de capitão de Infantaria da Ordenança. fundamento da atual povoação de igual nome. O mesmo fez Constantino de Oliveira Ledo. redigiu o autor de NOTAS SOBRE A PARAÍBA uma curiosa narrativa.sio de Oliveira Com o apoio nesta carta e noutros documentos. trecho este censurado por Elpídio de Almeida: “Com o auxílio do governo. comenta Elpídio de Almeida que “esse itinerário foi mais ou menos o que percorreu Antônio de Oliveira Ledo. poderão ser restabelecidos para perenidade da verdade histórica. depois de nomeado capitão-mor das Piranhas. Alguns acontecimentos. mais recentemente. para elucidação de uma das quadras mais dramáticas. eis o trecho completo de Irineu Joffily. formaram-se duas fortes bandeiras e partiram à conquista do sertão. em suas NOTAS SOBRE A PARAÍBA. que documentos posteriores anularam. Cariris e Piancós”. E foi seguido várias vezes antes que este sertanista o tivesse palmilhado em 1694. abordando o itinerário de Teodósio em busca do sertão paraibano. ao retornar da Capital. acabou por considerar esse período um desafio ao investigador do futuro. Irineu Jóffily. o capitão-mor achou-se na junção do rio Paraíba com o Taperoá. teria seguido sua viagem acompanhando o rio Paraíba. Antônio de Oliveira voltou a perlustrálo em 1682. se ela já não estivesse fundada. A propósito. a conquista do sertão. ao norte. chegando à missão do Pilar. até que entre o riachão Timbaúba e o de Santa Clara. com igual fim. como faremos notar adiante. O capitão-mor Teodósio de Oliveira Ledo. desceu a Borborema. De fato. Sobre isto. Diz Elpídio de Almeida. cheia de aventuras e lutas heróicas. entretanto. 124    . Horácio de Almeida. escasseiam informes. diz textualmente: Entra-se agora na fase mais interessante da história. A bandeira avançou sempre. Continuando a sua descoberta. embargando-lhe a passagem.

Diz Maximiano Lopes Machado. tal experiência demonstrou. contra os poderosos titulares das grandes sesmarias. no princípio entre sesmeiros e índios e. foi em parte decidido o prélio. Parece que foi João da Maia da Gama a primeira autoridade governamental de nossa região a se insurgir. embora considerado excelente para a época de nossa conquista e colonização. que o governador João da Maia da Gama tudo fez para desmascarar o feudalismo da Casa da Torre. “que aqui vieram. e estabeleceram cultura. ao que se sabe. como eram chamadas no interior do Nordeste.O autor da mesma HISTÓRIA DA PARAÍBA assegura ainda que o levantamento para a História do Sertão da Paraíba somente seria possível “através dos requerimentos e concessões de sesmarias”. que. a tirania com que os representantes de tal instituição empresarial. ficaram e povoaram a terra. em favor dos colonos. Índia. No entanto. confesso e tomo Deus como testemunha (. Esse sistema.. e tiveram o sentimento de a eleger para domicílio e trouxeram o seu rebanho”. com o correr do tempo. Esta representação não teve uma solução imediata. dizia o então governador: Confesso. até que. Ele. pedindo inclusive que a atenuasse. em matéria mais digna da real atenção de Vossa Majestade. me parece que não achei alguma aonde os vassalos de Vossa Majestade experimentassem de outro vassalo mais violências. chegou até a denunciar a el-rei. Na representação que encaminhara ao soberano português. mais tarde. e continuou a desafiar a inteligência. A sesmaria era uma graça especial pela qual o soberano de Portugal concedia terras “devolutas e desapropriadas” às pessoas que as queriam adquirir e explorar para as suas atividades agrícolas e pastoris. Brasil. em Portugal. não deu bons resultados. como já expresso por um autor. viram.. na sua HISTÓRIA DA PROVÍNCIA DA PARAÍBA. atra125    . tendo eu corrido todos os domínios de Vossa Majestade. que eram realmente os que trabalhavam e cultivavam as nossas terras. entre aqueles e os colonos. o governador. decorridos 36 anos daquela representação. constituíram-se em verdadeiros germes de discórdias e conflitos. a argúcia e o patriotismo dos governantes daquela época colonial. a conquista e povoamento do interior paraibano processou-se através do sistema de sesmarias. Realmente. a Vossa Majestade. secular e administrativa afligiam os colonos que trabalhavam e cultivavam as terras. Senhor. e poder falar nesta matéria.). que as sesmarias ou datas de terras.

por sua vez. por qualquer título que fosse. Uma história. aliás. como igualmente acontecia com outras Capitanias do Brasil. muitas das quais não pertenciam ao grupo Oliveira Ledo. Tais sesmeiros obtiveram datas de terras nos sertões paraibanos e concedidos pelo Governo Geral do Brasil. Por isso mesmo é que ficaram esses à margem das sesmarias divulgadas por João de Lira Tavares e Irineu Jóffily. que sintetize a sua realidade 126    . e que sabia requerer as cartas de sesmarias. e igualmente todos aqueles que possuíam terras daqueles dois senhorios. Toda vez que a conquista avançava em busca do interior choviam as cartas de sesmarias.vés da Carta Régia de 20 de outubro de 1753. nem tampouco ao da Casa da Torre. e cuja concessão não demoraria muito a chegar. na realidade. autores. Os titulares das sesmarias Titular de sesmaria. Era comum ver os mesmos nomes. a fim de que pudessem ampliá-las. nos obriga a dizer o seguinte: enquanto não contamos com todo o acervo documental espalhado por vários pontos do nosso país e do estrangeiro não é possível qualquer tentativa para se escrever a História da Paraíba. eram quase sempre atribuídas a grupos ligados entre si por laços familiares e que se reuniam para requerer concessões de terras. Não vamos mais alongar a nossa conversa. com sede na Bahia. não conheciam a própria geografia do País. respectivamente. muitas vezes em porções excessivas. porém. com a obtenção do deferimento e da confirmação. o homem influente e com prestígio bastante junto ao Governo. segundo Barbosa Lima Sobrinho. quase sempre de pessoas poderosas. Os governos. As sesmarias doadas ou concedidas na Capitania da Paraíba. opinavam e decidiam em face de alegações dos pleiteantes. que revogava as grandes sesmarias concedidas na Paraíba à Casa da Torre e aos Oliveira Ledo. até onde chegasse a tolerância dos posseiros e do governo”. afirma que “não era aquele que estava disposto a trabalhar e cultivar um pedaço de terra. por mais distantes que ficassem umas das outras. dos livros APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA TERRITORIAL DA PARAÍBA e SINOPSIS DAS SESMARIAS DA PARAÍBA. Raras vezes se inscreviam nesse páreo os que estavam decididos e interessados a habitar as terras conquistadas. em seu livro O DEVASSAMENTO DO PIAUÍ. e ordenava que eles tirassem novas sesmarias. mas o homem da cidade. como titulares de sesmarias em todas as zonas desbravadas. que muitas vezes tinham interesse em reivindicar limites imprecisos para as sesmarias. Antes.

promovendo este Ciclo de Debates. Tratamos de ler toda aquela documentação extraída do Arquivo Histórico Ultramarino. Não podemos mais nos alongar nestas considerações.profunda. tivemos hoje o esclarecimento definitivo de como se processou a conquista do nosso interior. data vênia. aguardando a mão libertadora. principalmente se levarmos em consideração o progresso técnico. frequentador de velhos cartórios. de sete grossos volumes. em catálogo. ele chega a contestar os mais destacados historiadores locais e nacionais. do ilustre autor de HISTÓRIA DA PARAÍBA. e escorado no seu passado de atento pesquisador. de Ho127    . Discorda do ponto de vista de historiadores do quilate de Capistrano de Abreu. Tudo quanto já se disse a respeito. segundo estamos informados. Muitos fatos importantes de nossa história estão ainda nos arquivos. Discordamos. Luiz Hugo Guimarães. científico e cultural dos nossos dias. onde estivemos pesquisando alguns anos atrás. Não procede o argumento do ilustre historiador Horácio de Almeida quando afirmou que não era preciso ir a Portugal para obter informações acerca da História da Paraíba. Baseado em documentos. em fontes de primeira qualidade. na pessoa do seu ilustre presidente. em Lisboa. porque fomos nós um dos primeiros a divulgar o acervo documental existente no arquivo da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. além de oferecer perspectivas para novas interpretações da história paraibana. objetiva e institucional. hoje. pela feliz e oportuna iniciativa que teve. Wilson Seixas nos traz a verdade sobre a interiorização paraibana. pois. onde há muita luz escondida. em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil. pelo ilustre professor pernambucano José Antônio Gonsalves de Melo. foi inventariado por Eduardo de Castro e Almeida e divulgado. já não o é. A fala do Presidente: Conforme previ ao anunciar a palestra do confrade Wilson Seixas. cuja divulgação permitiram o conhecimento de determinados fatos e cousas do nosso passado. que foram cedidos. Se antes era tarefa difícil a realização de qualquer pesquisa tanto no nosso país como no estrangeiro. Ali encontramos uma infinidade de documentos e cópias xerográficas. Com a responsabilidade com que tem tratado todos os temas dos seus trabalhos. Podemos falar com autoridade. o ensejo para apresentarmos os nossos votos de aplauso e congratulações à Diretoria do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. entretanto. Aproveitamos.

Fala de Garcia d’Avila. e que tem uma enorme importância nessa conquista do nosso sertão. e quero dizer de público que foi em Wilson Nóbrega Seixas que eu me inspirei para tentar fazer um estudo autodidata de paleografia. rara e completa história da conquista do sertão. aquele antigo feitor da Alfândega do Governador Tomé de Souza. com nh e de trechos de frases inusitadas. por motivo justificado. o consócio Guilherme d’Avila Lins. Wilson Seixas passeia com uma intimidade em cima da história que causa a gente uma sensação de estar vendo um belíssimo filme com imagens muito nítidas. até o Maranhão. que veio a construir um império e através dos séculos estendeu terras desde Tatuapara. a posição do desbravador Teodósio de Oliveira Ledo na conquista do sertão paraibano de par com os representantes da Casa da Torre. Vi aqui uma belíssima lição do linguajar do século XVI nas transcrições documentais que ele fez. Essa é a grande vantagem metodológica que ele tem. bem como as dúvidas existentes sobre o Arraial do Piancó. em que Wilson fala do sistema sesmarial e remete implicitamente à necessidade do conhecimento da história administrativa deste país. Wilson Nóbrega Seixas é uma pessoa por quem tenho o mais profundo respeito e amizade. Fala no clã dos Oliveira Le128    . confreira Terezinha de Jesus Ramalho Pordeus. a 14 léguas de Salvador. falando da ffé. Uma lição de linguagem do final do século XVII e do início do século XVIII. Foi realmente maravilhoso. já que ele é um dos grandes paleografistas deste Estado. Estamos de parabéns por esta valiosa colaboração à nossa historiografia. com dois f. E esclarece. de Piancó. porque fundamentou o que disse em fontes primárias. com segurança. fiquei transportado para essa época ao ouvir aquelas transcrições seguras.rácio de Almeida. pois escreve a partir das fontes que ele lê. podido comparecer a esta sessão. Corrige os enganos cometidos por eles. não discorda por discordar. citando documentos incontestáveis. Coriolano de Medeiros e Elpídio de Almeida. Mas. tão pouco ressaltado e tão necessário para se fazer história. agora está definitivamente esclarecido. Não tendo a debatedora designada. Acho que este capítulo da nossa História. concedo a palavra ao primeiro participante inscrito. partindo de quem tem plena autoridade para fazê-lo. 1º participante: Guilherme d’Avila Lins (Sócio do IHGP e presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica): O que ouvi aqui hoje foi uma belíssima.

essa demonstração brilhante. o sertão todinho era Piancó. na época. A freguesia de Pombal. É preciso esclarecer que antes toda aquela região pertencia à Paraíba. É sobre o problema dessa conquista do sertão no que diz respeito ao problema do Seridó do Rio Grande do Norte. Se a Vila do Príncipe. em 1732. hoje Caicó. não deixa escapar nem Martim de Nantes com sua RÉLATION SUCCINTE que. principalmente a região do Piancó. ele estava se referindo ao Piancó que se estendia até o Rio Grande do Norte. nem escapa frei Vicente do Salvador. porque temos historiadores paraibanos que afirmam uma coisa e historiadores norte-riograndenses que afirmam o contrário. que ia até o Apodi. onde tinha uma fazenda lá denominada “Pitas”. Depois veio o problema religioso. autor de AMÉRICA PORTUGUESA. da qual poucas pessoas já viram o texto. restaria apenas a raríssima edição primeira. partiu do Piancó. De modo que ele estava certo. Eu estou embevecido. Humberto Cavalcanti de Mello (sócio do IHGP e membro da Academia Paraibana de Letras): Não foi surpresa. tanto que nossos historiadores. Barão de Studart. absolutamente. meu caro Wilson. Gostaria de fazer uma pergunta a Wilson sobre um aspecto um tanto controvertido. mas Domingos Jorge esteve lá no Piancó. se não fora uma tradução que foi feita pela Brasiliana em pequeno formato. Wilson Nóbrega Seixas: Esta questão a que Você se refere tem mais um sentido religioso. ia até o Rio Grande do Norte. se realmente pertenceu ao território paraibano e foi integrada por essas conquistas de Oliveira Ledo. para quem conhece as qualidades de pesquisador de Wilson Seixas. falam em Domingos Jorge Velho. mas aí é uma questão das freguesias. Quando fiz pesquisa no Cartório de Pombal localizei parentes de Rocha Pita morando em Catolé do Rocha e Brejo do Cruz. Quando ele fez aquele livro. com esta bela aula que ouvi aqui. Mas ele estava absolutamente certo. Horácio de Almeida. como Elpídio de Almeida. Enfim. achando que ele não esteve no Piancó. Quando ele disse que partiu de lá com mil e tantos homens para Palmares. Até que ponto ele esteve integrado na Paraíba. por exemplo. porque. porque todos os historiadores achavam que Piancó era a atual cidade. embora muita gente condene Rocha Pita. Coriolano. que pertencia à família de Rocha Pita. como foi que ele saiu. Contesta Capistrano. com caranguejos que roçavam a beira da praia. porque o Piancó abrangia toda aquela região. pertencia exatamente àquela área civil.do. Tudo aquilo pertencia ao curato do Piancó. porque quando ele disse que Domingos Jorge partiu do Piancó. o Piancó compreendia todo o Rio Grande do Norte. cuja sede era 129    .

Era muito diferente essa sociedade do interior da sociedade litorânea. filha de Teodósio de Oli130    . Ficou uma sociedade mais próxima. que era Pombal. ficando aquela parte todinha para o Rio Grande do Norte. foi muito peculiar. Nós sabemos que nessa fase teve Adriana. Notei que o expositor em seu trabalho até se assemelha a Capistrano de Abreu em seu livro CAMINHOS ANTIGOS E POVOAMENTOS. os Garcia d’Avila. pois em sua exposição demonstra conhecer todos os caminhos. em que o vaqueiro – aquela figura típica e humana dos sertões. Então foi feita a divisão. lá no Pajeú e também no vale do Rio do Peixe. profundo conhecedor do assunto. Sabemos que foi muito importante a conquista do interior paraibano. na Bahia. voltando. Acho que a sociedade verdadeira brasileira foi a sociedade do interior. não tão estanque como a sociedade aristocrática do açúcar. cujo proprietário queria ser devoto da igreja de Santana e não de Bom Sucesso. D. tinha permissão para comprar pedaços de terras dentro daquele latifúndio e se tornar um próximo fazendeiro e um próximo dono de currais. com suas parcas economias. que era Nossa Senhora dos Remédios. depois. Gostaria que fosse ressaltado nessas palestras o papel das mulheres na história da Paraíba. aristocrática do açúcar. Quando o ouvidor geral da Paraíba visitou o sertão todo passou em Pombal e depois foi para o Rio Grande do Norte e esteve em Açu. Havia aqueles grandes latifundiários e o vaqueiro. que tinha as capelas de Sousa. de Piancó. permitindo o vaqueiro ascender socialmente. A gente nele vê uma ascensão social dentro daquela sociedade. em que aqueles subalternos do fazendeiro tinham mais acesso aos fazendeiros. a capela de Patos e a capela de Santana. que era Rio Grande do Norte. enquanto a cultura do interior foi mais liberal. da Casa da Torre. como salientou muito bem o palestrante. Wilson Seixas. e os Manoel de Araújo Carvalho. Tudo pertencia a Pombal. Havia uma fazenda perto de Santa Luzia e Caicó. tirando a sorte do gado. Adelino falando sobre aquela região diz que foi questão religiosa. para a Paraíba. bastante elitista e europeizante. quando na verdade pertencia à Paraíba. Quanto aos primeiros desbravadores. que era Santo Antônio. foram registrados Teodósio de Oliveira Ledo.Pombal. criou a vila de Açu e instalou a vila de Caicó. os percursos do sertão. Pombal era a principal freguesia. foi a sociedade do sertão. na Paraíba. 2ª participante: Maria do Socorro Xavier: Parabenizo os debatedores anteriores. muito importante. foi a sociedade do gado.

principalmente ao seu prestígio político. subiu a ladeira da Serra de Teixeira e fixou um povoamento na Serra de Teixeira. 3º participante: Joacil de Britto Pereira (sócio do IHGP e presidente da Academia Paraibana de Letras): Sobre o assunto daquela parte do território paraibano que foi tomada pelo Rio Grande do Norte. muito carismática. Jardim de Seridó. Jardim de Piranhas. Isso é contado em prosa e verso no 131    . irmão de Teodósio. até ali Santa Luzia. grande latinista e fundou a primeira escola de Latim no Rio Grande do Norte. homem de muita cultura. Ana de Oliveira. Consta também uma Verônica.veira Ledo. eu gostaria de acrescentar algo além do aspecto religioso. filha de Teodósio. Parabenizo mais uma vez o Ciclo de Debates. cujo matriarcado exerceu em Barra de Santa Rosa. uma mulher muito caridosa. graças à sua obstinação pela ideia de ampliar o território do Rio Grande do Norte e. Outra também. bondosa. da questão religiosa. o senador Brito Guerra. reduzindo o seu território. tendo desbravado as primeiras matas. pois consta que existe até uma fazenda chamada “Ana de Oliveira”. Essa parte religiosa foi comandada pela Paraíba. O senador Guerra era padre. gostaria de saber se ainda existe esta fazenda e se a mesma pertence a algum membro dessa família. que está cada dia cada vez melhor com seus profundos conhecedores da História da Paraíba. Caicó. Certo que o nome de Teixeira não tem nada a ver com isso. tudo aquilo era da Paraíba. Tem também a Mãe Aninha. mas sou paraibano por adoção e de coração. como se diz no baião. em Caicó. Gostaria de saber do expositor se a cidade de Barra de Santa Rosa tem a ver com o matriarcado de Adriana. A bancada da Paraíba não tinha muito prestígio. Não foi só a questão religiosa que levou a essa disputa. embora representada por 17 membros. mas a vitória do Rio Grande do Norte sobre a Paraíba. por sinal meu parente pela ancestralidade. Mas ele conseguiu aquilo graças à sua amizade com o Imperador. E eu digo isso com desgosto. que foi uma mulher muito brava. foi um abraço que o Rio Grande do Norte deu na cintura do nosso Estado. que nada fizeram. um grande latinista. se deveu ao prestígio político de um homem que era íntimo do Imperador. Adauto. corajosa. apesar de ser riograndense do norte de nascimento. filha de Custódio de Oliveira Ledo. A tomada desse território da Paraíba. Pois bem. que se originou de uma pousada cujo proprietário se chamava Teixeira. até São José de Sabugi. que vem até o tempo de D. de Cajazeiras. nosso arcebispo. que fez muito pela população carente de Cajazeiras. que quase tora pelo meio. Acari.

de altivez. desenterrou ossos de fósseis ali existentes. Esse homem foi um exemplo de dignidade. E eu pergunto. Quero. que sempre foi monarquista e não podia aceitar aquele cargo tão honroso porque iria ficar mal com sua consciência. que foi desde vereador a deputado geral. dizendo que nós hoje estamos abrindo as comemorações do sesquicentenário deste vulto notável da Paraíba. 5º participante: Aécio Villar de Aquino (Sócio do IHGP): Esse problema da fazenda ou lagoa Ana de Oliveira. e ele recusou o convite dizendo. em carta. uma lagoa antiga que foi soterrada e foi escavada na década de 50. e depois foi senador duas vezes. render esse minuto de homenagem ao senador Gama e Melo. de cultura. Morreu no exercício do seu segundo mandato de senador. mas. mostra bem que a Casa de Santa Rosa era onde hoje é o atual município de Boa Vista. teria um gesto semelhante. sob a supervisão do nosso saudoso confrade professor Clerot. não era uma fazenda. Floriano Peixoto o convidou para ser Ministro da Justiça. que se chamou senador Gama e Melo. Há realmente homens que possam ter gesto semelhante. mas são raros. passo a informar sobre dois aspectos levantados. não tem nada que ver com a Casa de Santa Rosa. Ainda hoje é conhecida como a Lagoa Ana de Oliveira. exercendo interinamente a titularidade e foi eleito Presidente do Estado. Logo após o governo de Deodoro da Fonseca. que realmente pertencia a essa família. que levanta toda a genealogia. ao que parece ainda ho132    . e no nosso Estado particularmente. pois era um filósofo. qual dos homens públicos que neste país. Era apenas esse adendo que queria fazer. O livro de Antônio Pereira de Almeida. 4º participante: Humberto Cavalcanti de Mello (Sócio do IHGP e membro da Academia Paraibana de Letras): A professora Socorro Xavier formulou algumas perguntas e antes mesmo que o expositor a responda. Era a homenagem que queria prestar ao senador Gama e Melo. Era um tradicional monarquista paraibano. então. A lagoa estava aterrada milenarmente e Clerot. com muito cuidado. Primeiro: a cidade de Barra de Santa Rosa. com a aquiescência de todos que aqui estão. um topônimo. era uma lagoa no município de Juazeirinho. foi 25 vezes Vice-presidente do Estado.Rio Grande do Norte. quero lembrar que hoje é a data do sesquicentenário do nascimento de um dos maiores paraibanos de todos os tempos. Segundo: Ana de Oliveira. com a permissão do Sr. um dos homens mais cultos da Paraíba. Presidente. hoje.

Antônio de Oliveira Ledo. No fim do seu livro. sendo o nome do lugar. descrevendo até umas ruínas que havia lá. não existem mais. que a gente vê justamente parecida com aquelas de Ouro Preto. mesmo no meio da rua. entre eles Manoel da Cunha Loureiro. foi embora para Olinda. e era dona de uma fazenda chamada Santa Rosa. já doente. 133    . morava em Brejo do Cruz. Ana de Oliveira Leite era casada com Antônio Porto Carreiro. de cujo casamento nasceram Antônio. não havendo mais nenhum vestígio delas. Antônio Carreiro era sergipano. Consta que a casa pertence a um dos descendentes dos Oliveira Ledo.je existem fósseis a serem desenterrados. que a história pouco registra porque eram doentes. por conta disso. porém. tendo todos ido para o Cariri. Do segundo casamento de Teodósio houve três filhos: Teodósio e dois menores. o filho dele. É o que posso informar para atender a várias perguntas dos participantes. Por falar em vestígios antigos. tem uma casa mais ou menos do século XVIII. morou muito tempo em Rio do Peixe. onde morreu. Tudo parece que foi de uma fazenda de Oliveira Ledo. onde tinha uma fazenda “Timbaúba”. que ainda está em estado muito bom. em Olivedo. que conseguiu como sesmaria. Esse filho substituiu Teodósio lá no Cariri. Ana de Oliveira era dona de Juazeirinho. começo do século XVIII. Foi ele quem substituiu Teodósio de Oliveira Ledo como capitão-mor. Considerações finais pelo expositor Wilson Nóbrega Seixas: Teodósio de Oliveira Ledo casou-se duas vezes. embora deteriorada. Desse casal nasceram vários filhos. Essas ruínas. Francisco nasceu no Cariri. sendo até habitada. Adriana casou-se com Agostinho Pereira. Primeiro casou-se com Isabel Paz. Francisco e Adriana. Irineu Joffily fala nessa fazenda Ana de Oliveira. Francisco da Cunha e outros. Depois.

É nosso etnólogo. É. para começar sua exposição. É bacharel em letras anglo-germânicas. OS CARIRIS E A ORIGEM DO HOMEM AMERICANO. para aqueles que ainda não o conhecem. O tema programado é AS NAÇÕES INDÍGENAS DA PARAÍBA. ele é mestre em Letras e doutor em Linguística. Com a palavra o confrade José Elias Borges Barbosa. Professor da UFPB. Nós dirigentes vamos. hoje não vamos compor a tradicional mesa dirigente dos trabalhos. à moda indígena. Citemos os principais: OS ARIÚS E A FUNDAÇÃO DE CAMPINA GRANDE. porém. O professor José Elias é sócio do Instituto Histórico. Expositor: José Elias Borges Barbosa (Sócio do IHGP e professor da UFPB): É um prazer estar novamente no Instituto para apresentar a síntese de um trabalho sobre os indígenas paraibanos. como se estivéssemos numa aldeia dos nossos antepassados. Antes. o professor José Elias Borges Barbosa. INFLUÊNCIA DA LÍNGUA CARIRI NO PORTUGUÊS DO BRASIL. para trocarmos ideias sobre os nativos da Paraíba. em roda. cumpre-me fazer sua apresentação. Na realidade. o meu interesse pelos indíge134    . falando fluentemente inglês. francês. PADZU: OS CARIRIS NA FELIPÉIA DE NOSSA SENHORA AS NEVES. O AFAMADO ÍNDIO PIRAGIBE: SUBSÍDIOS PARA UMA BIOGRAFIA.6º Tema: AS NAÇÕES INDÍGENAS DA PARAÍBA Expositor: José Elias Borges Barbosa Debatedora: Waldice Mendonça Porto A fala do Presidente: Nesta sessão de hoje vamos debater um tema que sempre exerce muita curiosidade e fascínio. E como o assunto é índio. O QUE RESTOU DA MITOLOGIA CARIRI. portanto. O BODOCONGÓ – HISTÓRIA DE PALAVRA. INDÍGENAS DA PARAÍBA I – CLASSIFICAÇÃO PRELIMINAR. nos sentar fora do estrado e nos colocarmos em cadeiras. alemão e até um pouco de russo. São inúmeros os trabalhos que tem publicado na matéria que hoje vamos abordar. ROTEIRO DRAMÁTICO DOS CARIRIS. a pessoa indicada para tratar do tema. Apenas quero convidar nosso palestrante.

Na Paraíba havia. que eram conhecidos pelo nome do principal. conforme o nome anotado pelos holandeses. da região de Sergipe. apesar de sua seriedade. no mínimo. ao sul do Paraíba. os tarairiús. que era tido como cariri. principalmente os cariris da Paraíba. Passei 30 anos juntando material sobre os indígenas e particularmente sobre os cariris. com mais detalhes. três grupos indígenas diferentes. e eram divididos em potiguaras. Irineu Joffily tomou todos esses índios citados por Elias Herckmans e os colocou como sendo cariris. Já tive ocasião de fazer várias palestras sobre o assunto. Maximiano era complicado. do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Janduí era tarairiú. Depois dos trabalhos de Irineu Joffily passei para os trabalhos dos holandeses e terminei chegando em Elias Herckmans. juntamente com Maximiano Lopes Machado. Os tupis. fora os tupis do litoral. Então fui procurar alguma coisa a respeito de Bodocongó. Quanto mais procurava. Mas havia um terceiro grupo. Todos do interior. Alguns diziam que era uma palavra cariri. que é o pai da História da Paraíba. mostrando esse engano. Somente com a chegada dos holandeses é que vamos conhecer. porque não parecia uma palavra tupi. não encontrava nada. É um erro gravíssimo que vem sendo cometido. Foi lá onde despertei meus estudos pelos indígenas. Esse grupo era muito pequeno. citando muito documento. eram cariris. Foi aí que comecei a ver alguma coisa. Resolvi fazer uma pesquisa profunda. que habitavam o litoral. O nome era estranho. ao norte do Paraíba e os tabajaras. Fui encontrar alguma coisa em Irineu Joffily. naquele tempo. quando era rapazinho e ia a Biblioteca do Estado. Lá é exatamente onde ele diz que a Paraíba é ocupada pelos índios tais e tais. publicado pela Brasiliana. que era excelente naquele tempo. onde passei a ser um visitante diário. Era o grupo dos tarairiús.nas começou em João Pessoa. Irineu era mais sintético. Em 1948 fui para Campina Grande e lá fiquei preocupado com o nome Bodocongó. Janduí era o cacique que. e como eles ficaram ao lado dos holandeses e participaram da guerra contra os portugueses foram praticamente execrados. 135    . chamado Janduí. Comecei a estudar O Tupy. comandava 22 grandes tribos no interior do Ceará. Os tabajaras vieram do São Francisco. para ele. considerados selvagens e foram desprezados. Pouquíssima coisa encontrava nos historiadores. Os tarairiús falavam uma língua diferente do tupi e do cariri. é considerado como dos primeiros historiadores da Paraíba. E isso vem sendo repetido desde o século passado até os dias de hoje.

em tarairiú água é caeté e nos dialetos jês é incoul. e ficaram ao lado dos portugueses. Isto está documentado naquela briga entre os franciscanos e os jesuítas. como já disse. Existem lá cerca de 3. centro principal dos cariris e já tinham sido catequizados no São Francisco. na serra de Ararobá. Foi uma guerra de cem anos até quase dizimar praticamente quase toda a população tarairiú. os carnoiós da região próxima a Campina Grande. Existe apenas um remanescente tarairiú. eu consegui coletar algumas palavras e fazer uma comparação de termos. uma guerra de cem anos. Vejamos as fronteiras desses índios. os bultrins de Pilar. estavam os tupis: ao norte do rio Paraíba os potiguaras. o Tratado de Paz feito entre o Brasil e a Holanda não citava o perdão aos índios tarairiús. quando foram feitas as pazes. se bem que houvesse um pequeno grupo que estava junto com os tabajaras. que tinham sido combatidos por ele.Os índios cariris chegaram aqui oriundos do São Francisco. mostrando o parentesco da língua tarairiú com o grupo jê. A dos tamoios não chega nem perto. que tinham sido aliados dos holandeses. os fagundes. Eram cariris os bultrins de Alagoa Nova. Está lá a palavra padzu. tendo sido exterminados desde a morte do padre Fernando Sardinha. havendo um remanejamento muito grande. donde vieram. Quando os portugueses começaram a entrar para o sertão começaram a lutar contra os tarairiús. As migrações eram constantes. Mesmo depois da guerra dos holandeses. A parte do interior era toda ocupada pelos tarairiús. os portugueses foram entrando e até certo ponto foram invadindo as terras ocupadas pelos tarairiús. O governador André Fernandes Vieira não tolerava esses índios. Para a conquista do sertão. Na parte do litoral. mas esse grupo se dispersou. já tinham sido exterminados. Os caetés. próximo a Pesqueira. A parte sul ao longo do rio Paraíba era ocupada por poucas tribos cariris. mas 136    . que está em Pernambuco. dando perdão a Janduí. Por exemplo. que é o nome de pai que os índios chamavam com os padres que o catequizavam.000 índios. Já perderam a língua e ainda têm algumas palavras. que era o cacique tarairiú. os quais foram trazidos da região pelo cacique tabajara Piragibe. E Janduí exigiu e os governos português e holandês tiveram que aceitar. Essas fronteiras são muito variáveis. Foi a maior guerra indígena do Brasil. Tanto que aprisionou alguns deles aqui e mandou para Portugal e Portugal devolveu porque já tinha feito as pazes. e ao sul do rio Paraíba os tabajaras. perto de Campina Grande. Esses bultrins chegaram até Pilar. que foram os primeiros. com o nome de sucurus. A guerra contra os tarairiús começou nos anos 1630 e se estendeu até 1730. Os caetés deviam ter chegado na parte de Itamaracá.

havia os cariris do oeste da Paraíba porque eles tinham vindo da região do São Francisco. nos dialetos jês é cran e no cariri é tsanbu. já traduzido para o português. palavra tupi. os janduís. etnográficos e físicos. uma palavra totalmente diferente. E assim por diante. que estudou esse assunto e publicou um trabalho. que quer dizer “escudo redondo” ou rodela. Os cariris de Sergipe ficaram em João 137    . e alguns outros grupos menores. como também pelos traços linguísticos. Sobre esses índios já foram coletadas algumas palavras da língua deles por alguns membros da Fundação do Índio. Isso não somente já tinha sido feito pelos traços culturais. Eram tarairiús os ariús de Campina Grande. Todas essas palavras fazem com que a gente aproxime os tarairiús dos jês. os panatis. De modo que aquela parte do sertão de Pernambuco é conhecida por sertão de rodela. outras palavras já haviam sido coletadas por Nimiendaju e eu pude coletar um vocabulário de mais ou menos 200 palavras para comparar com os outros topônimos tarairiús das sesmarias. os pegas. da Cachoeira de Paulo Afonso mais abaixo e a cidade de Petrolina. chamada Aracapá. quando Janduí morreu e continuou a guerra contra os portugueses). Isto tudo está relatado no livro que vocês conhecem de Martim de Nantes. nossos cariris eram aparentados dos jês. os sucurus. Apesar disso. o primeiro bispo de Pernambuco foi catequizar esses índios logo depois da saída dos holandeses e trouxe esses índios para Pernambuco. os ariús dos paiacús. os canindés (Canindé foi o rei que substituiu Janduí. principalmente através dos trabalhos de Pompeu Sobrinho. em Limoeiro. Cabeça é crecar em tarairiú. que é um caso interessante (eles escaparam de ser dizimados porque Sacramento. os sucurus. os canindés.no cariri é tzu. do Ceará. Vejamos as tribos tarairiús: os janduís (Janduí era o cacique principal). Quanto aos cariris. onde estão até hoje. O centro e o núcleo dos cariris é a Bahia e principalmente aquela parte de Pernambuco que é exatamente a região de Cabrobó. e depois conseguiu com João Fernandes Vieira e outros as terras da serra de Ararobá. A minha tese de doutorado é sobre a língua cariri. A vinda dos cariris é muito recente. Então não há dúvida. São os remanescentes dos sucurus da Paraíba e do Rio Grande do Norte). Mas isso só foi aceito recentemente. para verificar mais alguma coisa sobre a língua. Os índios cariris tinham a sua capital ali. de modo que eu posso perceber perfeitamente quando a palavra é tarairiú ou é cariri. os paraibanos insistiam em dizer: tupi no litoral e cariri no interior. Eu já conhecia a língua tupi.

O grande Martius. exatamente a região dos curemas e icós. Nesse mapa que agora exibo a vocês tem a região do oeste com a fronteira do Ceará. Os cariris da Paraíba vieram da ilha de Fagundes. que foi publicado em 1706) e noco Sergipe. querendo saber porque os chamavam de índios fagundes. Os cariris foram privilegiados porque Martim de Nantes esteve na Bahia. acho porque eram da mesma língua. O Glossário é um dicionário onde tem essas línguas todas em latim. Ele publicou um livro Glossarium Linguarum Brasiliense. Martius era um grande cientista. que é a região dos cariris novos do Ceará. Isso chegou na França. do qual descendem nossos cariris. um missionário italiano. mas pouco a pouco consegui verificar isso. É que Fagundes era um dos elementos da Casa da Torre. Na Bahia. São dois dialetos. outro grande dialeto dos cariris foi estudado exatamente por Mamiami. Essa parte daqui foi colonizada pelo pessoal dos cariris novos da Casa da Torre. Os icós eu não sabia que eram cariris. ele descobriu mais dois dialetos: o sabuja e o pedra branca. ainda tenho dúvida. E ele perguntou como os índios podem ter um nome português. estudando todas as línguas indígenas. como pataputé. Eles vieram pelo rio Pajeú. Elpídio de Almeida quando estava escrevendo a História de Campina Grande me perguntou sobre os índios Fagundes. que tinha uma ilha no São Francisco. e no século passado foi publicado por Lucien Adam um estudo comparativo dos dialetos da família cariri. em Fagundes. Mas. Essa ilha foi denominada de Fagundes e esses índios vieram dessa ilha. Os índios fagundes estavam onde hoje é a cidade de Fagundes. que já vinham do São Francisco. os icós foram transferidos para a região de Missão Velha. lá teve contato com esses zubucuá cariri. pegaram as nascentes do Paraíba e chegaram até aqui em João Pessoa. português e na língua indígena. Então há topônimos na região de Sousa e de Cajazeiras. Martim de Nantes escreveu um catecismo (eu tenho a cópia desse catecismo. cruzaram a serra do Jabitacá. Quanto aos curemas. fez um dos maiores trabalhos sobre o Brasil. mas consegui também esse livro. Ficaram mais na região de Campina Grande. embora os curemas tenham sido transferidos para Pilar no período colonial. que era uma palavra cariri e existe uma ilha e uma ci138    . em Juazeiro e em Crato. com 88 dialetos indígenas que coletou no sertão durante mais de 10 anos (e passou 30 anos até fazer a Botânica Brasiliense). penetrando todo o interior do Brasil. Tive muito trabalho. que chegou lá fez uma gramática e outro catecismo do outro dialeto.Pessoa e depois os cariris do São Francisco foram para a região do interior. quando esteve aqui no século passado.

dade Pataputé. que é a cidade de Alhan139    . lá na Bahia. Os quadros mais antigos sobre João Pessoa são esses três. Os índios daqui eram os tarairiús e os potiguaras. tirada os seus nós. Aqui estão dois quadros de Eckhoutt. da Paraíba. com 800 pranchas. O que é propulsor de dardo? É uma lança bem grande com uma taboca de bambu rachada. Um espécime desse tacape da Paraíba pode ser encontrado no Museu de Munique. Esse material está lá ainda. Os índios cariris não são daqui. Na realidade é a dança dos tarairiús. que existem no Museu do Louvre. Entre eles Max Grave e Eckhout são os mais famosos. foi possível tirar essa dúvida. Eu consegui uma reprodução de uma. índios. Os de Franz Post. Zacarias Vagner também foi outro estudioso. Eu consegui agora uma cópia desse trabalho. e durante muito tempo ninguém sabia que tapuia era esse. Zacarias Vagner e Eckhout. há cerca de 20 anos. Depois que foi publicado um trabalho sobre Eckhout. que foi bombardeado. alcançando a flecha arremessada 200 metros. Eckhout era um detalhista excelente para pintar coisas naturais. pintores e muita gente para estudar a natureza das coisas do Brasil. onde ele desenhou os animais da Paraíba e Pernambuco. E há outras duas reproduções. Na época do domínio holandês. de João Pessoa. em Paris. inclusive plantas. conhecidos internacionalmente. Esse material estava no Museu de Berlim. As aldeias principais dos tupis eram a de Urutagui. Quando eles iam lutar colocavam a taboca para facilitar o arremesso. Os tarairiús e cariris só usavam arco e flecha. Os tarairiús usavam o próprio propulsor de dardo. porque pouco antes da Alemanha ser invadida. Mas Nassau trouxe dois pintores importantes. o príncipe de Nassau trouxe cientistas. três telas. Mais recentemente foi publicado o maior trabalho de Eckhout. A dificuldade em conseguir essa material se deveu à Segunda Grande Guerra. Nos trabalhos de Franz Post sobre João Pessoa (já tive ocasião de apresentar esses trabalhos) existem três quadros. Ele era mais ligado à história natural. enquanto Franz Post era mais paisagista. Também usavam uma espécie de tacape. constituindo-se num tratado importantíssimo. um foi Albert Eckhout e o outro foi Franz Post. tornando possível sua publicação com todos os animais desta região que os holandeses anotaram. Eckhoutt mostra em seu quadro a dança dos tapuias. na Polônia. Mas ele foi encontrado na Polônia. os alemães levaram todas as caixas de material para um convento de Cracóvia. Os tabajaras também vieram de fora. O tacape existente em Munique é cravejado com pedras. No quadro nota-se claramente de um lado os tarairiús e os tupis e os cariris.

e os próprios índios de sua tribo passaram a se denominar de cavalcantis. Patos e Curimataú. Pindauna e Gramame. rio Paraíba e Piancó: chocós e paratiós. Continuando a localização dos índios: os icós. na região de Monteiro. que é Mamanguape. em Bananeiras. que foram trazidos por Teodósio. cariri de Pilar.dra. em Monteiro e Teixeira. Daí essa tribo passou a se chamar bultrins. que só queria dar nomes portugueses. O cacique dos ariús chamava-se Cavalcanti porque já era batizado. os canindés. localização principal: Sertão. Seridó (seridó é palavra cariri). ao longo do rio do Peixe. os sucurus. Tribos tarairiús: os janduís. bodopitás ou fagundes. cujo nome foi mudado por Miguel Pina Castelo Branco. Tibiri e Santa Rita. bultrins. Localização principal das tribos cariris no interior. os genipapis. posteriormente. os panatis. a aldeia da Preguiça e Montemor. Sousa e Conceição. em Campina Grande (era uma facção dos ariús). Os cariris eram agricultores e se tornaram amigos de Teodósio de Oliveira. no rio do Peixe. Santa Luzia. nas fronteiras do Rio Grande do Norte e Ceará. Eram as principais aldeias que haviam por aqui. rio Piranhas e Espinharas. enquanto os cariris ficaram na região de Esperança. já eram índios catequizados e batizados e foram localizados Campina Grande pelo próprio Teodósio – foi o começo de Campina Grande. na região do Curimataú. Na realidade. na 140    . na fronteira com Pernambuco. Bultrins. localizados no Seridó. os cavalcantis. que era muito interessado pelos índios e tinha aderido aos portugueses na guerra dos holandeses. Finalizando o assunto das primitivas localizações. Piranhas. temos os genipapis. perto de Campina Grande. carnoiós ou curinoóis. Os cavalcantis ficaram no centro de Campina Grande. na região do Apodi e Ribeira do Patu. que é a Bahia da Traição. rios do Curimataú e Trairi. os cariris quando foram a Recife foram apresentados por Martim de Nantes a um francês chamado Jean Boltrin. Sabugi. mais concentrados na fronteira com o Rio Grande do Norte e o Ceará. os ariús. a de Acejutiberó. Curimataú e parte da região dos Cariris Velhos. e alguns próximos de Bananeiras. em Cabaceiras e Boqueirão. juiz de fora de Olinda. Sabugi e Seridó (quase tudo na mesma região. a aldeia de Jacoca. que é o Conde. em rio Piranhas. com pequenas separações). nas fronteiras do Rio Grande do Norte com o Ceará. em Alagoa Nova. Os ariús. por que esse nome? Parece até nome francês. Cuité. possivelmente os curemas. em Pombal. os paiacus. em 1662. pois faziam sua farinha de guerra para lutar contra os tarairiús. Piragibe e João Pessoa. nas fronteiras com o Rio Grande do Norte e Ceará.

quis ficar com a terra deles. junto com os cariris. para São José de Mipibu. foram transportados os icós. Alguns comandantes holandeses levaram alguns tarairiús para combater os portugueses nas colônias da África. Os holandeses quando estacionaram na Bahia da Traição. que cuidava dos índios. para o Pilar. conseguido com a venda do gado que lhe pertencia. foram transferidos os bodopitás de Fagundes. Os índios tinham o livro de registro do gado. foram transferidos os paiacús do Apodi. para o sertão foram transportados os cariris do Pilar e tupis de Mamanguape. foram transportados os pegas. mas terminou sendo esses índios transferidos. para Bananeiras foram transferidos os canindés. começou a mudar essas localizações. Houve uma briga lá e o filho de Teodósio. Estamos fazendo uma rápida síntese sobre os índios da Paraíba. em 1625. levaram alguns tupis para a Holanda. Continuemos com as transferências indígenas: para o Crato. foi transportado outro grupo de curemas do Piancó. no Chile (alguns tarairiús chegaram a combater os espanhóis e os índios mapuchos e araucanos). posteriormente denominados cavalcantis. vizinha de São José de Mipibu. João Fernandes Vieira. Foi instalada a Câmara com o dinheiro dos índios. Para Alhandra.fronteira do Rio Grande do Norte e Ceará e os vidais. para Pilar. Essa serra de João do Vale tem uma história muito interessante. com processo e tudo. na fronteira do Rio Grande do Norte com o Ceará. na época do Marquês de Pombal. para Limoeiro e Simples. E chegaram aqui vestidos com roupas dos araucanos. Houve um grande conflito. foram transportados os ariús. foram transportados os sucurus do Rio Grande do Norte. Miguel Pina Castelo Branco. Os índios da Paraíba ajudaram os holandeses exatamente em Valdíria. do rio do Peixe. onde estavam os bultrins. Herckmans levou os tarairiús para Valdíria. no Chile. quando foi governador da Paraíba enviou alguns tarairiús para Portugal. de Pombal e da serra de João do Vale. entre eles Pedro Poty e Gaspar Paraocaba. fazendo muitas transferências. para o litoral do Rio Grande do Norte. onde já estavam os sucurus. então mandou os índios para o Rio Grande do Norte. 141    . só que eles foram derrotados lá e depois voltaram. Isso aconteceu em Angola. foram transferidos os curemas de Piancó. O gado foi arrematado. para Campina Grande. mas o gado foi vendido e foi com o dinheiro dos índios que foi construída a parte principal de São José de Mipibu e da cidade Nísia Floresta (antiga Papari).

a carta da fundação de Campina Grande. mas as duas últimas grandes migrações vieram por via transpacífica. os cariris são mais aproximados dos tupis. eram protopolinésios. que era a farinha de trigo. que era o elemento principal. Era a farinha de guerra. Eu tenho um vocabulário do cariri atual falado por esses índios. Infelizmente o tempo para esta exposição não dá para um trabalho mais particularizado sobre cada nação indígena. Pelas gravuras que agora exibo veem-se os traços físicos dos cariris. Vejamos agora o nosso índio desenhado por Eckhoult. apenas pelo movimento das ondas. No começo repudiavam essa farinha. Eu até colaborei numa tese de mestrado que foi publicada sobre o assunto. lá na Bahia. às vezes com desprezo. Através dessas gravuras podemos verificar as diferenças entre as tribos indígenas da Paraíba. tinham conseguido extrair o ácido da mandioca e conseguiram fazer a farinha. Trouxe. oferecendo uma excelente contribuição sobre a posição dos tarairiús na formação de Campina Grande. diferentes dos tarairiús e dos tupis. para mostrar aos senhores. o que ficará para outra ocasião. Vemos na gravura o uso do arco e da flecha e junto do índio a mandioca. eram excelentes navegadores. No texto da carta a gente vê que Irineu Joffily cometeu um erro grande ao colocar os tarairiús como sendo cariris. Esta carta está publicada em artigo do nosso confrade Wilson Seixas. para vocês. Exibo agora. Um polinésio é capaz de saber. O francês conseguiu coletar um vocabulário de cerca de 300 palavras. Esta carta é um documento muito importante porque ela mostra uma realidade. Também um estudioso francês conseguiu coletar um vocabulário. mas depois viram que para fazer guerra precisavam do beiju branco. Os índios da região da Polinésia conheciam navegação. Os tarairiús eram de estatura alta. 142    . A América do Norte e do Sul fazem uma barreira de Norte a Sul. que era a farinha de guerra. Todos historiadores paraibanos até 20 anos atrás seguiram essas pegadas. se há uma ilha a 40 quilômetros. em Ribeira do Pombal. os cariris e tupis eram de estatura baixa. As três grandes migrações vieram pelo Estreito de Behring. como os portugueses chamavam. Os índios do Brasil. principalmente os tupis.Aqui no Nordeste nós temos os únicos remanescentes cariris que existem no Brasil. algumas fotografias publicadas na tese. porque eles já tinham a farinha do reino. porque eles eram descendentes dos protopolinésios. Onde é que eles estão situados? Estão na aldeia de Mirandela. evidentemente com influência de outras línguas.

depois houve outro tratado. Quando foi que começou na verdade? Porque no momento em que houve a penetração para oeste já estava havendo aquela confusão toda com os índios. Praticamente essa guerra começou antes dos holandeses e se prolongou bastante. um dos grandes etnólogos alemães. Waldice Mendonça Porto: Eu tinha muito interesse nesse aspecto por eu estou fazendo um trabalho sobre a ocupação do território paraibano. Essa parte referente à Paraíba foi reproduzida no Atlas Geográfico da Paraíba. Debatedora: Waldice Mendonça Porto (Sócia do IHGP e do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica): Eventualmente. depois foi feito mais outro tratado. O nome dele era Kurt e outro nome alemão. mas como estamos fazendo um debate muito informal. publicado pelo Governo do Estado. mas depois ela continuou. justamente no período em que estava ocorrendo a guerra dos bárbaros. mas os índios lhe deram o sobrenome de Ninhengaju. que é uma palavra guarani. fui indicada como debatedora desse tema. que passou a vida todinha aqui no Brasil e aqui morreu. Foi uma guerra de cem anos. Gostaria de mostrar dois mapas importantes. não é meu campo. que oferece excelente posição dos índios da Paraíba em suas localidades. razão por que deixo de comentá-la. em 1730. Ele fez esse mapa procurando atender a distribuição geográfica das tribos e ao mesmo tempo os movimentos de migração desses índios. as línguas indígenas. porém. eu gostaria que o expositor desse uma informação sobre a guerra dos bárbaros. que é um dos grandes antropólogos do mundo. Wilson Nóbrega Seixas: 143    . em 1697. Este. E foi a maior guerra indígena do Brasil. José Elias Borges Barbosa: Segundo Serafim Leite começa a guerra com os tarairiús em 1608.A carta do governador Albergaria já foi comentada pelo confrade Wilson Seixas quando de sua exposição sobre a conquista do sertão paraibano. Ele estudou todas essas tribos. (O expositor mostra o mapa e faz comentários para o plenário) Ponho-me agora à disposição dos participantes para qualquer informe. Tem também o mapa de Loukout. em 1694. A guerra dos bárbaros só atinge sua parte nevrálgica mais importante a partir de 1687 até o primeiro tratado. um deles é de Kurt de Ninhengaju.

Um grande estudioso. essa mancha mongólica que os índios tinham. Os cariris eram o que? José Elias Borges Barbosa: Pompeu Sobrinho. Antônio da Silva Barbosa. Ela diz : “Certifico que levantando-se o gentio em primeiro de fevereiro de 87 em todos esses sertões da Paraíba e nos do Rio Grande do Norte e Ceará. porque era da cor do jenipapo. ficando senhor de muitas fazendas e para castigar maior parte de seu furor e estrago. você falou que os tarairiús eram jês. mais conhecidas por jenipapo. resultando nos cabeças chatas do sertão. de São Paulo. Linguisticamente. Também surgiram as chamadas manchas mongólicas no corpo dos descendentes. e acha que. examinou essa matéria com muito mais detalhes. que a então governava. ao capitão mor André Moreira de Moura com o meu irmão Constantino de Oliveira Ledo”. Os índios tinham que resistir. Primeiro. Arion Darinha Rodrigues. e os potiguaras eram tupis. Ele verificou que os cariris eram mais aparentados dos tupis. Anteriormente havia outros movimentos dos índios. mas os que escaparam ficaram na raça. acham que os cariris são mais aparentados dos tupis. mandou o governador desta capitania. José Elias Borges Barbosa: É preciso notar que não havia uma luta coordenada com todas as tribos marchando contra os portugueses. datada de 20 de janeiro de 1710. Aí ele declara a data e o ano: primeiro de fevereiro de 1687. Era a invasão portuguesa para a conquista dessa região. comparando algumas palavras do grupo cariri. Batista Caetano e outros estudiosos do século passado. de Teodósio de Oliveira Ledo. que agora está na Universidade de Brasília. Podemos lembrar os cruzamentos. comparando a gramática. grande antropólogo em quem me baseio nos meus estudos. matando muita gente e destruindo muitas fazendas de gado vacum e cavalares e mais criações e muitas casas. mas os portugueses não tinham. mas no cruzamento com o branco surgiram os cabeças chatas. As pessoas que eram descendentes de índio com branco tinham jenipapo. publicou um dos primeiros trabalhos sobre a língua cariri. Nessa fase nevrálgica o que acontecia era que cada dia as sesmarias iam tomando as terras dos índios. e resistiram bravamente até o último homem. Humberto Cavalcanti de Mello: Tenho algumas perguntas a fazer. Os índios tinham cabeça redonda. 144    . que os índios usavam para se pintar.Para satisfazer à curiosidade da nossa colega Waldice Porto. Escaparam poucos. Jenipapo. eu tenho aqui uma certidão extraída do Arquivo Ultramarino de Lisboa. Ele então sai contando a história todinha.

elas são semelhantes com algumas do grupo macro jê. Penso que isso pode ser do contato passageiro entre algumas tribos vizinhas dos cariris. Acho que a base da gramática e do vocabulário cariri é mais ligado ao grupo brasílico do tupi, do aruaque, o caraíba, tucanos, que são da última leva dos que vieram pelo oceano Pacífico. Humberto Cavalcanti de Mello: Há vários nomes que soam como tupis. Por exemplo, canindé parece um nome tupi. Os tarairiús que foram para São José de Mipibu e Nísia Floresta (antiga Papari) são nomes tupis? José Elias: Canindé é nome tupi. Humberto Mello: Por que esses nomes tupis em uma tribo tarairiú? José Elias: Os tupis eram quem mandavam e sua língua era uma língua de comunicação geral.. Era o inglês daquele tempo. As diversas tribos tapuias usavam o tupi. O nome Canindé apareceu quando? Os documentos holandeses dizem que surgiu o rei Canindé, que falava tupi, mas era rei tarairiú. E a maior parte dos nomes de pessoas dos tarairiús era nomes do tupi. Humberto Mello: Antes que os tabajaras chegassem, quem ocupava essa região ao sul do rio Paraíba? Eram os caetés? José Elias: Eram os caetés, que eram do grupo tupi, também. Humberto Mello: Existem registros, inscrições rupestres de índios muito antigos, inclusive com uma certa diferenciação. Não sei se houve alguma datação dessas inscrições na Paraíba. No Rio Grande do Norte houve e era entre 4.000 a 6.000 anos de antiguidade. Sobre cerâmica, disse-me Balduíno Lélis que a cerâmica encontrada na região da serra do Teixeira até Princesa era uma cerâmica de nível de elaboração superior, melhor do que a encontrada em outras regiões e, segundo ele, essa cerâmica lembrava um pouco a dos aruaques. Se havia esse povo muito antigo com esse conhecimento superior, como é que esse povo desapareceu, como é que foi substituído por um povo de cultura inferior? José Elias Borges Barbosa:
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Essa cultura mais avançada de elementos de barro trabalhado, tipo marajoara, era das últimas correntes que vieram por via transpacífica (a última que veio deu os Aztecas, Incas e Maias). Mas eles chegaram no máximo a uns 3.000 anos aqui na Paraíba. O mais provável é 1.500 anos. Humberto Mello: O pessoal que fez essas cerâmicas não é o mesmo que fez as inscrições rupestres? José Elias: Possivelmente, não. Há vários tipos de inscrições rupestres. Há inscrições mais simples e há inscrições mais complicadas. Mas o homem deve estar aqui na América latina há cerca de 30.000 anos, conforme os estudos mais recentes feitos na cidade de São Raimundo Nonato, no Piauí. Os desenhos de lá e de cá são muito semelhantes. Os desenhos da Pedra do Ingá não podem ter menos de 3.000 anos. Deve ser uns 5.000 anos, pois é um documento mais antigo, que ainda não estão no registro do domínio histórico. Humberto Mello: Com esses elementos sem escrita, realmente ficava difícil chegar a uma conclusão, e a tradução oral é falha. Guilherme d’Avila Lins: Em primeiro lugar, cumprimento o professor José Elias pela exposição que aqui fez. Farei algumas observações. Uma delas diz respeito ao fato de se os caetés eram fronteiros dos potiguara no início da nossa conquista. No começo da nossa conquista os caetés já haviam sido dizimados ou escorraçados pelo filho de Duarte Coelho de Albuquerque, indo esses indígenas do Porto do Calvo, os que sobreviveram. De modo que, no alvorecer da nossa conquista, todo o território da Paraíba e de Itamaracá estava nas mãos dos potiguara. Tanto é que quando houve a nossa guerra de Troia índia o cacique Iniguaçu trilhava por Itamaracá e chegou a Tracunhaém e ali quem dominava era a facção potiguara. Em janeiro de 1585 chegam aqui os tabajaras. É hora de desfazer um equívoco, que já está sedimentado na nossa historiografia, equívoco que foi criado, salvo engano, pelo nosso grande historiador Horácio de Almeida, que, como ser humano, também pode se equivocar. Horácio fala de um grande êxodo que aconteceu desde as margens do rio São Francisco, quando os tabajara tiveram que vir pelo interior para chegarem aqui, depois de muitos anos, em janeiro de 1585. Esse êxodo existiu, sem dúvida. O fato a que ele se refere, ele colheu em Frei Vicente do Salvador, que não fala de data. Frei Vicente
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Salvador dificilmente fala de data, e quando fala é preciso ter cuidado, porque ele fala muito de informação oral, como os cronistas daquela época. Por exemplo, ele vai de boa fé em cima do autor do Sumário das Armadas e diz que Frutuoso Barbosa chegou aqui a primeira vez em 1579, quando em 1579 ele conseguiu o alvará de el-Rei, mas só saiu de Portugal em 81. E a segunda vez, foi em 1582. Mas, segundo Horácio de Almeida, com base nas informações sem data de Frei Vicente do Salvador, a campanha de preação de índio foi levada a cabo por Gaspar Dias de Ataíde e por Francisco de Caldas, este que fora ouvidor da capitania de Pernambuco (como está em Frei Vicente). Realmente ele fora, porque não podia ser mais, pois como detentor de um cargo público da Coroa ele não podia prear índio, mesmo que fosse em guerra justa. O grande equívoco de Horácio é que ele diz que foi em 1573 e aqui chegaram em 1585, doze anos depois. Existe um documento transcrito em português da época, textual, em 1578, que dá Francisco de Caldas vivo em Olinda, ocupando o cargo de provedor da capitania de Pernambuco. Isto em 1578. Portanto, esta campanha de preação de índio tem que ser, no mínimo, contada a partir desta data. Supondo que tivesse sido ainda do ano de 1578 esta grande preação de índio nas margens do rio São Francisco, a grande odisseia teria durado apenas de 1578 até 1585, e não de 1573 a 1585. Esta é uma retificação que precisa ser feita. Vale lembrar que uma filha de Francisco de Caldas denunciou no Santo Ofício, em Itamaracá, dizendo-se filha de Francisco de Caldas, que era dos da governança da terra, já falecido. Isso em 1594. Embora a gente tenha alguns estudos do tupi na geografia da Paraíba – um tupi restrito geograficamente – porque eles só dominaram uma pequena faixa do nosso território (a faixa litorânea), podemos verificar que o predomínio da toponímia tupi é exatamente nessa faixa litorânea. Saindo dessa faixa, já se perde o contato com o tupi, ou vai-se perdendo gradativamente o contato com as palavras de origem tupi. É tempo de se fazer um estudo da toponímia do tupi na geografia da Paraíba. José Elias: É o que eu estou fazendo. Não somente do tupi, mas de todas as línguas indígenas. Guilherme d’Avila Lins: Muito bem. Chegou até nós muito pouca coisa da cultura dos tarairiús, dos cariris, da cultura dos “tapuias”. Elias Herckmans, se não me engano, foi o primeiro que deu uma noção superficial, mas real desses índios. Os jesuítas deixaram muita
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coisa sobre a cultura do tupi. Existe alguma coisa na cultura dos tarairiú que os aproxime da dos tupi como, por exemplo, a saudação lacrimosa, a “couvade” ou “choco”, a ceva do prisioneiro de guerra para poder ser ritualisticamente devorado? Existem coisas desse tipo? Há notícias sobre esses costumes? José Elias: Sobre esses costumes com relação aos tupis e cariris, existe. Porque os cariris também tinham o couvade, que é um costume mais tupi. No couvade o marido ficava de choco enquanto a mulher dava a luz. Era o marido quem recebia as visitas, deitado numa rede. Couvade é um nome francês Waldice Porto: O que Dra. Vilma dizia era que significava a certidão da criança e a prova de paternidade. Guilherme d’Avila Lins: Coisas curiosos do costume tupi. O índio quando saia com a índia carregando a carga, ele tinha que estar livre para guerrear se fosse o caso. Ele saía à frente, quando saía da taba, porque ela podia correr de volta enquanto ele enfrentava o perigo. Quando eles voltavam era o contrário, o índio vinha atrás por ela poderia correr para a taba e ele cobriria a retaguarda. Existe coisas desse tipo? José Elias: Há uma coisa comum entre os grupos jês. Por exemplo, aquela corrida do tronco, que era cortado e passava de um índio para outro, como nossa corrida de revezamento. Isso é testemunhado em Uris Barbman, quando descreve a visita que fez a Janduí. Eles tinham um costume que era típico deles e de algumas poucas tribos do Brasil, que era o endocanibalismo. Que é o endocanibalismo? Quando morria um parente, na guerra ou por doença, os cariris assavam e comiam. Guilherme d’Avila Lins: Os tupis faziam isso com a criança defeituosa. José Elias: Dentro dos rituais, eles trituravam os ossos e cabelos e comiam tudo com mel de abelha. Mel de abelha era uma coisa típica deles, o que vai diferenciar os tarairiús dos tupis e dos cariris. Eles eram especialistas em mel de abelha. Eles eram ictiófagos. Os holandeses descrevem a pesca na Lagoa de Piató. Esse conjunto de costumes os aproxima de uma cultura mais antiga. Os tarairiús eram mais primitivos que os tupis, cuja organização era mais valiosa. Eles tinham o sistema de lendas. O ritual que os cariris tinham é o ritual do fumo, do tabaco. O fumo para eles
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era um deus, porque quando fumavam ficavam inebriados, era como se tivessem contato com os deuses. Os cariris faziam a festa do fumo. Jeová Mesquita: A minha pergunta é a seguinte: Por que é que o mapa da Paraíba, no meio do Estado, tem essa cintura? José Elias: Até o século passado o formato do mapa da Paraíba seguia a demarcação da capitania e pouca gente conhecia a topografia. Irineu Joffily aborda esse assunto, vinculando ao problema da influência dos rios e a zona do Seridó. Depois houve outras discrepâncias. O Rio Grande do Norte e a Paraíba eram uma coisa só. O Rio Grande do Norte se aproveitou e colocou a parte do Seridó como sendo dele. Esse estrangulamento se deve à influencia dos rios. Ainda não temos um trabalho bem detalhado sobre as fronteiras da Paraíba. Marcus Odilon Ribeiro Coutinho: Estou encantado com sua exposição. Eu gostaria de saber a tradução dos topônimos gargaú, tibiri, acajutibiró e gurinhém. José Elias: Quanto aos primeiros, são inegavelmente tupis. Há muitas tentativas de decodificar. Houve uma época no Brasil que tudo era considerado de origem tupi. Era uma tupimania. O livro básico para esclarecimentos dessa natureza é o livro de Teodósio Sampaio. Bodocongó tem várias interpretações, bodopitá, também. Sobre Borborema, tenho a impressão que é uma palavra cariri. Tibiri é palavra de origem tupi. Gurinhém, tenho dúvida se é uma palavra de origem cariri ou tarairiú. Há muitas diversificações. Mas, há três grandes línguas: o tupi da Amazônia, o tupi da costa e o guarani, e mais ou menos uns 300 dialetos, além das variações que existem de tempo em tempo e de região para região. O tupi do Maranhão é bem diferente do de cá. São três grandes grupos, divididos cada um de 40 a 50 dialetos. Uma coisa é preciso salientar. Os índios não tinham essa idéia de Brasil, como nós temos hoje. Nem tinham idéia desse tamanho todo. Eles viviam em tribos pequenas, agrupadas. Algumas tribos tupis estavam subindo. Eles vinham descendo da região da Amazônia, descendo para o Paraguai, Argentina, pegaram a costa e foram subindo por aqui, quando chegaram os portugueses. As tribos não eram uma organização nacional, tipo estatal, como se verifica hoje. Eram tribos isoladas, brigando umas com as outras. Da mesma raça, mas brigando umas com as outras pelo domínio das terras.
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Respondendo à pergunta de Marcus Odilon, eu afirmo que não existia índio Bruxaxá. Na parte referente a índio constante do trabalho de Horácio de Almeida, nada é confiável. Ele era muito teimoso e sobre isso cheguei a discutir com ele. A parte indígena está totalmente errada., o que é lamentável, porque se trata de um livro muito bom. Bruxaxá não era índio. Bru-há-há, em francês, significa confusão. Pedro Bruhaha está na fundação de Areia e é possível que isso tenha gerado essa denominação. Agradeço a atenção de todos, na certeza de que minha exposição aclarou a posição dos indígenas da Paraíba nesses 500 anos da descoberta do Brasil.

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7º Tema:

OS HOLANDESES NA PARAÍBA
Expositor: Aécio Villar de Aquino Debatedor: Luiz de Barros Guimarães

A fala do Presidente: Hoje vamos debater o tema OS HOLANDESES NA PARAÍBA. Por motivos superiores tivemos que remanejar a palestra que estava programada para esta tarde. Mas vamos em frente. Para compor a mesa, convido o confrade Aécio Villar de Aquino, que será o expositor; o acadêmico Joacil de Brito Pereira, presidente da Academia Paraibana de Letras; Guilherme d’Ávila Lins, presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. O professor Aécio Villar de Aquino, nosso expositor, é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFPB; possui diploma de Estudos Superiores em Economia Política e Direito Internacional Público e de Espanhol, pela Universidade de Madrid; concluiu o Curso de Reforma Agrária na OEA e Agricultural Marketing (Departamento de Estado dos EUA) e tem outros cursos de extensão no Brasil e no exterior. Ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e ex-professor de Antropologia da UFPB. Publicou vários trabalhos sobre nossa história, valendo citar NORDESTE SÉCULO XIX; NORDESTE AGRÁRIO DO LITORAL NUMA VISÃO HISTÓRICA; FELIPÉIA, FREDERICA, PARAÍBA – OS CEM PRIMEIROS ANOS DE VIDA SOCIAL DE UMA CIDADE; e outros mais. Passo a palavra ao consócio Aécio Villar de Aquino. Expositor: Aécio Villar de Aquino (Ex-sócio do IHGP e ex-professor da UFPB; historiador, ensaísta, sociólogo, falecido recentemente): A minha palestra sobre o tema OS HOLANDESES NA PARAÍBA foi antecipada para substituir outro tema, em virtude da impossibilidade do expositor designado comparecer a este Ciclo de Debates. Somente ontem fui solicitado para fazer essa substituição, razão por que peço relevar o improviso desta palestra, uma vez que não houve tempo para preparar um trabalho mais bem ordenado.
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Abordarei essa fase dos holandeses na Paraíba examinando seu aspecto histórico e antropológico. Há várias coisas que nos chamam a atenção quanto às invasões holandesas na Paraíba. Sabemos que a Paraíba foi a última cidade a ser conquistada pelos holandeses, três anos após a conquista do Recife. Foram três tentativas frustradas dos holandeses para conquistar a Paraíba. Vale, portanto, registrar o heroísmo dos paraibanos, do pessoal da cidade, o que seria lógico, na defesa da sua terra. Tem até um ditado que diz que a defesa da casa é tão importante que, para sair-se dela, até quando morto são precisas quatro pessoas para carregá-lo. Além desse heroísmo houve uma série de circunstâncias que influíram nas vitórias sucessivas dos paraibanos e na frustração dos holandeses durante essas invasões. A posição da Paraíba, à época, era de uma verdadeira fortaleza, era um lugar quase inexpugnável, de acesso muito difícil. Essa defesa foi reforçada desde os ataques dos índios. A melhor entrada para a cidade era a embocadura do rio Sanhauá. Naquela embocadura havia dois fortes e a ilha da Restinga, que era utilizada com uma bateria, impediam o acesso dos navios. Do lado sul da cidade havia uma série de alagados por conta dos rios Mumbaba e Gramame. Também em torno do rio Sanhauá havia, como ainda hoje, uma série de mangues. O acesso ao rio só era possível no porto do Jacaré. A própria lagoa do centro da cidade também servia de empecilho. Havia também um sistema sonoro no forte de Cabedelo. Em caso de perigo, era usado um canhão especial que disparava, sendo ouvido na cidade. Por outro lado, na cidade também havia outro canhão que disparava para ser ouvido nas cercanias de Santa Rita. Com esse sistema era fácil convocar as chamadas milícias locais para lutar contra qualquer invasor, sob o comando dos “coronéis”, que eram os senhores dos engenhos. A propósito, o povoador era obrigado a ter uma arma em casa, assim como os suíços. Desde o tempo de D. Sebastião que havia esse procedimento. Quem não tivesse uma arma em casa era penalizado, pois a qualquer momento poderiam ser chamados para a defesa da cidade. Essas condições retardaram a posse da cidade pelos holandeses. Quando a cidade foi libertada o forte de Cabedelo ficou nas mãos dos holandeses quase dez anos, pois eles recebiam abastecimento pelo mar. Uma coisa interessante nos holandeses é que eles não assimilaram o sistema de guerrilhas adotado pelos indígenas na defesa da cidade, o que contribuiu muito para os seus insucessos. Como se sabe, os europeus combatiam em campo aberto.
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Também durante o período de chuvas a pólvora molhada falhava. que único traço da cultura holandesa no Nordeste era o brote. funcionando com brasileiros e holandeses . aquele pãozinho redondo. tantas de carne. com a presença de pintores como Franz Post e Eckoutt. com o médico Dr.O uso da flecha muitas vezes era superior ao uso do arcabuz. o pintor Eckout tinha direito a isso e isso. A ideia de palácio é coisa de conto de fadas. Ainda hoje se discute se seria melhor a presença do holandês ou do português na nossa colonização. Enquanto a arma era recarregada um índio desfechava seis flechas. do Brum e do Buraco. Diz Câmara Cascudo. É verdade que foi grande a contribuição holandesa sob o ponto de vista artístico. todo documentado. Há um aspecto da presença dos holandeses no Nordeste. os próprios comensais do príncipe tinham sua ração reduzida. Na Paraíba não ficou nada. como eram chamados. Os holandeses dominaram o Nordeste durante 24 anos e não há o mínimo vestígio da cultura holandesa. que era o pão holandês. Piso tinha direito a um copo de vinho. Até as construções dos holandeses foram destruídas com sua saída. Ninguém comia o que tinha vontade no palácio do príncipe. registrando o estado em que se encontrava naquele tempo as colônias da Indonésia e da Guiana Ho153    . cujo nome era derivado de brute. vagabundos e delinquentes de uma Europa que estava em dificuldades. Piso.os escabinos. Eram desocupados. em forma de romance. Nesse documento encontrado no arquivo de Haia. É preciso registrar que existia a Companhia das Índias Ocidentais. que não tem explicação. O Dr. Folheando esse livro. verifica-se que havia um racionamento de comida no palácio de Nassau. apesar do grande relacionamento que houve no tempo de Nassau. depois de uma pesquisa exaustiva. Na época chegou a existir a câmara de vereadores. Havia uma relação das quantidades a serem usadas. financiada pela Holanda. que recrutou a escória do que existia na Europa naquele tempo. Assim. que demorava a ser recarregado. que é um livro interessante. em Recife parece ter ficado apenas as fortalezas de Cinco Pontas. do ponto de vista científico. Há muitos autores que examinaram o assunto. onde se tem de tudo e do melhor. Eu me lembro que Rocha Pombo se pronunciou contra os holandeses. tantas gramas de pão. Um aspecto curioso está no livro de José Antônio Gonsalves de Mello – NO TEMPO DOS FLAMENGOS -. Deixaram poucos traços. vi um documento que ele transcreve sobre o palácio de Nassau. Só o príncipe tinha liberdade de escolha.

com tendência para o racismo. lembro outro aspecto interessante sobre as colônias de povoamento. em razão de lutas religiosas ou políticas. a colonização de exploração. numa propriedade familiar. uma vez que todas. todas as colônias de exploração são países subdesenvolvidos. Na colonização de povoamento são povos que vêm de outro país para ocupar outras terras porque não têm mais espaço naquele país. A propriedade tinha características de latifúndio e a produção era para o consumo externo. A fala do Presidente: O expositor acaba de registrar alguns aspectos da ocupação holandesa da 154    . Ao mesmo tempo. Não considero importantes essas hipóteses. o Suriname. os filhos. resultante das lutas religiosas da Inglaterra. Aliás. A colonização no Brasil e na maior parte da América Latina foi de exploração. Os Estados Unidos é um exemplo de colônia de povoamento. Assim. dizendo que havia uma tendência do português para a miscigenização. A produção é para eles próprios. adotou. Da mesma maneira ocorreu com a Austrália. mantendo afastamento dos nativos. os aderentes. que foi iniciado pelos holandeses e ingleses com o chamado capitalismo mercantilista. No início da colonização do Brasil o povoamento se deu sem a presença da família. se um seria melhor do que outro para colonizar. Para finalizar. são hoje países desenvolvidos. Na colonização desse tipo o povoador vai com toda a família: a mulher. cultivando um pequeno pedaço de terra e não tem interesse no trabalho escravo. que levaram os ingleses a emigrarem para a América do Norte e fundarem outro país. para onde foi gente inglesa da pior espécie. e não para a metrópole nem para qualquer outro país. Na África do Sul os nativos foram até eliminados. deixando em Portugal e Holanda os familiares. O produto bruto do Nordeste brasileiro era cinco vezes maior do que o da Inglaterra. Gilberto Freyre era muito favorável à colonização portuguesa. O que foi ruim foi propriamente foi o sistema colonialista adotado. Era o que tinha a expor. Fundamenta-se. sem nenhuma exceção. Na colônia de exploração acontece tudo em contrário. o Nordeste na época do domínio holandês era a região mais rica do mundo.landesa. pois os navios aqui aportados traziam principalmente homens. não há como discutir esse assunto. como Portugal. Existem dois tipos de colonização: a colonização de povoamento e a colonização de exploração. como acentua Celso Furtado. pois não sou contra nem a favor. no Brasil. A Holanda. Hoje é o capitalismo. pois.

do debate sobre os 500 anos da descoberta do Brasil. e possui vários cursos de extensão de História. como eu gosto de dizer. Aqueles sobrados altos. embora a mais conhecida seja a Ponte da Boa Vista. Conheço a notícia de que a aversão à cultura trazida por eles era uma cultura de hereges. Não existe só uma linha reta. estreitos. que eu prefiro dizer assim porque os Países Baixos eram constituídos de 17 províncias. Tive o cuidado de anotar as observações que Aécio fez durante sua palestra. que antigamente chamava-se rua dos Judeus e pejorativamente era chamada rua de bode. convidamos o companheiro Luiz de Barros Guimarães. A respeito da cultura que nós não absorvemos dos neerlandeses. como disse o professor Aquino. Gostei bastante. Outro ponto importante foi o número de pontes que os holandeses construíram. quando. foi escorbuto. Só encontrei duas palavras de origem holandesa que se incorporaram ao vocabulário brasileiro. Outras pontes foram 155    . Uma. Para debater o tema. destacando a colonização pelo povoamento. A História é constituída de diversas versões.Paraíba. membro do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. Vamos ouvi-lo. é uma característica da influência da arquitetura dos Países Baixos. Não foram poucas pontes. Essa é uma das versões que conheço. iniciou no jornal O NORTE uma seção domingueira sobre os 500 do Brasil. historiador. Havia um propósito religioso para evitar contato com esse povo. foi brote. cultura de satanás. que é uma palavra de origem holandesa. Os holandeses. de escadas. que nós vemos no bairro do Recife na rua Madre de Deus. É de justiça destacar agora sua condição de precursor na Paraíba. Debatedor: Luiz de Barros Guimarães (Historiador e membro do Instituto Paraibano e de Genealogia e Heráldica): Acabei de ouvir a explanação do historiador Aécio Villar de Aquino. provavelmente. há várias interpretações. examinando o tipo de colonização da época com as consequências do regime adotado. Foram 96 artigos sob sua coordenação e assina vários artigos. mas o bairro do Recife atesta que houve grande influência na arquitetura da vida pernambucana. e não holandeses. não deixaram em todas as suas ocupações a influência da arquitetura. Até o momento só encontrei essas duas. a outra. em outubro de 1997. Por esta razão é que estou aqui como debatedor. porque ali tinha um palácio donde se avistava um grande panorama.

A respeito da pendência se seria melhor a colonização dos portugueses ou dos holandeses. A versão que tomei conhecimento foi a de que a Companhia das Índias Ocidentais. uma só visava lucros imediatos. Nassau foi o único a abrir escolas para os escravos. inclusive na alimentação bem como no soldo que ele recebia. ou tantas covas de mandioca. A respeito da monocultura. querendo prejudicar Nassau e sua administração. Isso ocorreu durante toda a colonização dos Países Baixos. quero dizer que é preciso analisar com muito cuidado. que dava maior rendimento do que estava sendo feito pelos estrangeiros. A colonização dos Países Baixos não pode se comparar com a colonização da Companhia das Índias Ocidentais. Não podem ser comparadas a colonização portuguesa. inclusive dos portugueses no Brasil. a outra queria uma exploração mais ampla. Essa é a minha versão. mais importante. porque são coisas completamente diferentes. Outro ponto que gostaria de comentar é a respeito da comida controlada do palácio de Nassau. a de Cinco Pontas (que liga os bairros de Recife que atravessam os rios). Esse progresso se deve unicamente a Maurício de Nassau. foi um progresso formidável. conforme o número de escravos ou empregados existentes. Nassau proibiu a derrubada de cajueiros e. que se tivesse o cuidado de só derrubar pau-brasil com mais de quatro anos de idade. coisa talvez inédita na colonização portuguesa. em alvará. Isso não quer dizer que esse progresso foi devido à colonização dos Países Baixos ou da Companhia das Índias Ocidentais. como a de Afogados. mercantilistas. da Coroa portuguesa ou da Companhia das Índias Ocidentais. O tema em debate nesta tarde é um dos menos pesquisados. que Nassau conseguiu fazer somente em sete anos – de 1637 a 1644 -. a colonização da Companhia das Índias Ocidentais e a administração de Nassau. cortou verbas. porque são coisas diferentes. Tem alvará de Nassau obrigando a plantar tantos pés de mandioca. que derrubavam árvores com dois ou três anos. entretanto julgo 156    . Ele recomendou. a colonização dos Países Baixos. Nassau teve o máximo de cuidado. É preciso estudar tudo isso para se ver a diferença da colonização sábia de Nassau e a dos demais colonizadores. Outro ponto de vista para o qual chamo a atenção é que muita gente fica impressionada com o progresso do Recife. alertou para a derrubada de pau-brasil.construídas. que pode não ser a verdadeira. querendo frear os gastos. Essa é uma justificativa dada por vários historiadores sobre porque havia grande economia no governo de Nassau.

de modo a distinguir dos Estados da Holanda. Daí a opção. o Estado. Jamais. A semente da independência do Brasil talvez esteja na restauração pernambucana. o que era um erro. Isto é. Por isso que se refere sempre e unicamente à Holanda. ou seja 25% porcento. procurou diferenciar o termo Holanda. ou melhor dizendo. a nação será e sempre foi designada por Países Baixos e seu governo por Estados Gerais. mas muito importante para a nossa história. Já era então costumeiro designar-se a República das Províncias Unidas dos Países Baixos por Holanda. Os fatos transcorridos somente nas duas décadas de 1624 a 1654 se situam num período muito curto. Os Países Baixos. salvo no tocante à expressão consagrada Brasil Holandês. Ficou mais conhecido como período holandês porque a Holanda possuía quarenta porcento da população em todos os Países Baixos e contribuía com 58% do orçamento. O ocorre é que a divergência entre a Holanda e seus parceiros eram frequentes. Retrocederei um pouco para falar sobre a Companhia das Índias Ocidentais para melhor se compreender o domínio dela na Paraíba. Os da terra começaram a entender que se tiveram forças para expulsar uma potência como os Países Baixos. depois da derrota das tropas invasoras. se comprometiam a fornecer militares e naus. quando em seu livro NEGÓCIOS DO BRASIL. Começou aí uma série de revoluções. a designação era feita pela mais importante das seis províncias que formava a confederação. Com a expulsão dos holandeses. O capital de sete milhões de florins para a formação da Companhia das Índias Ocidentais originou-se da participação de investidores privados e estatal. pelo vocábulo Holanda e holandeses na acepção das províncias da Holanda e seus habitantes. O que vinha em segundo lugar era a Frigia com apenas um quinto. Baseiome no historiador Evaldo Cabral de Mello. poderiam um dia caminhar para a sua independência.ser um dos temas mais importantes para a nossa história. Faço questão de usar a expressão neerlandesa em vez de holandesa. Escreve ele que é necessário fazer alguns esclarecimentos tecnológicos. além de sua participação monetária. Dessa 157    . Os brasileiros começaram a entender que iriam conseguir sua independência. neste livro de Evaldo Cabral de Melo. mas eram sete províncias. começou a rivalidade entre brasileiros e portugueses. a maior potência naval da época. os demais pouco representavam. À Companhia caberia a manutenção e o pagamento dos soldos desses militares. isto é. cuja descrição deixo de apresentar para não tomar o tempo dos presentes. o relacionamento entre brasileiros e portugueses foi o mesmo. dos Países Baixos. inclusive em matéria de política exterior.

os armadores neerlandeses transportavam grandes percentuais de cargas para a Europa. passando a ser colônia da Espanha. representado por 18 conselheiros regionais e um representante dos Estados Gerais. entretanto. cuja atribuição principal era assessorar o governo do Brasil holandês. Motivos religio158    . peles e animais exóticos. a interferência dos Países Baixos na paz definitiva com Portugal. alternativamente. obrigado a apresentar. quando Portugal foi incorporado à Espanha. Os investidores neerlandeses eram proprietários de engenhos. Além da indústria açucareira. E tivemos que pagar quatro milhões de cruzados de indenização. ganhamos a guerra e ainda pagamos aos invasores. sendo talvez a principal causa para a criação da Companhia das Índias Ocidentais. foram realizados no transporte marítimo. que se reuniam em Amsterdâ e Midelburg.maneira. couro. com a União Ibérica. em instalações de refinarias de açúcar em Amsterdã. relatórios ao Conselho dos XIX. Por volta de 1621. Retrocedo às razões econômicas que contribuíram para a criação da Companhia das Índias Ocidentais. Os Países Baixos mantinham um fluxo comercial relativamente significativo com Portugal. Portugal estava decadente. um negócio de estado. Distribuíam açúcar refinado para todo o Norte da Europa. Tenho impressão que foi Celso Furtado quem disse que o açúcar era mais holandês do que português. (Era uma espécie um SNI). os negócios privados da Companhia passaram a constituir. mas a paz foi resolvida em Haia e em Londres. transportadores marítimos. sendo os mais importantes zelandeses e os holandeses. e não com o Brasil. periodicamente. o Brasil passou a ser uma sub-colônia. algodão. e por essa razão alguém escreveu que o açúcar é mais holandês do que português. sobretudo. sobretudo. Altos investimentos. denominado Conselho dos XIX. e não em Pernambuco. inclusive financiamentos. composto de três membros. A administração da Companhia das Índias Ocidentais era formada por cinco conselheiros regionais. mais adiante. isto é. com sede em Recife. A batalha foi ganha aqui. Instalaram refinarias de açúcar em Amsterdã. O capitalismo português já não funcionava. em Haia. Por essa razão é que veremos. os Países Baixos comercializavam com paubrasil. Pouca coisa restava aos portugueses. refinadores e distribuidores. Havia também um Conselho composto de 19 diretores. financiadores da cultura da cana-de-açúcar. No Brasil holandês existia o Alto e Secreto Conselho (Hoog end Sevet Raden). proporcionais ao número de acionistas. Felipe II fechou os portos lisboenses aos navios dos Países Baixos. entre 1580 a 1640.

Porque nova invasão viria não só para o Nordeste. o Nordeste. na Campina da Taborda. além de favores comerciais. foram quinta-coluna com os holandeses. devido aos boatos de ajuda militar portuguesa a Angola. e foi lavrado em latim. Os empréstimos feitos aos luso-brasileiros não tiveram retorno.sos também contribuíram para a formação da Companhia. Pernambuco. Ratos e restos de passarinhos eram comidos pelos soldados. e. de me referir às batalhas militares. filha de D. Com saída de Nassau as ações caíram para quase um terço do seu valor. combatendo os holandeses unicamente por questão de interesse econômico. Os luso-brasileiros. Não havia mais condições de manter a resistência militar no Nordeste. propositadamente. Talvez seja um caso inédito na nossa história. tomando por base os percentuais do valor das ações na Bolsa de Valores. O Brasil. A Companhia das Índias Ocidentais estava economicamente derrotada. que estabeleciam uma indenização de quatro milhões de cruzados em ouro e restituição da artilharia que aqui se encontrasse aqui. pois o definitivo ficaria dependendo da homologação dos governos dos Países Baixos e não de Portugal. Catarina de Bragança. logo 68% e 52%. que no início colaboraram. Era uma operação de família para família. A fome era grande. Os soldados já não recebiam seus soldos. em 6 de agosto de 1651.. notadamente sobre o açúcar. Ganhamos a batalha e tivemos que indenizar os invasores. Com a derrota militar neerlandesa foi assinado um tratado de paz condicional e provisório em 26 de janeiro de 1654. em 19 prestações. em vista da incapacidade de saldarem seus débitos. Em abril de 1644 as ações da Companhia caíram para 70%. A corrupção predominou nas tropas invasoras Sem capital. A derrota militar neerlandesa deve-se a vários fatores. mas perdemos a diplomata. viraram a casaca. No livro OLINDA RESTAURADA – GUERRA DO AÇÚCAR NO NORDESTE. com 16 artigos. João IV. Por esta razão. 1630-1654. Coube ao Brasil a cota de pagamento de um milhão e novecentos mil cruzados em ouro. dada em casamento ao rei da Inglaterra. Comportaram-se como se comportam os ruralistas de hoje. afirmo que nós ganhamos a batalha militar. durante 16 anos. A derrocada econômica refletiu diretamente na chamada insurreição pernambucana de 1645. O tratado de paz definitivo foi assinado em Haia. ou melhor. a Companhia não possuía condições de sustentar suas possessões e manter altos investimentos na construção e manutenção dos engenhos. como Portugal seria invadido imediatamente pelos ho159    . o historiador Evaldo Cabral de Mello apresenta a situação da Companhia. ficava obrigado a pagar vinte mil cruzados de contribuição para o dote da infanta D. Deixo.

foi um paraibano: André Vidal de Negreiros. A fala do Presidente: Com muito brilho. Aqui no Nordeste é que é o berço da nacionalidade. gostaria de salientar que aqui no Nordeste. e de modo especial na nossa Paraíba. Referiu-se ao comportamento dos holandeses durante seu domínio na Paraíba. apenas por uma questão de ter sido a área descoberta. mas a maior figura da reação contra os holandeses. surgiram as guerras holandesas. graças a ele. das três raças que se irmanaram. Sei que os apontamentos do nosso expositor Aécio Aquino e as provocações do ilustre debatedor Luiz Guimarães vão estimular os participantes na continuação do nosso debate. passo a palavra ao consócio Joacil de Britto Pereira. nós conseguimos vencer uma nação poderosíssima. contra os invasores. Mas o que ali estava era o predomínio militar dos Países Baixos. O assunto é palpitante. a Felipe Camarão. a área primeira tocada. Um homem extraordinário pela sua bravura. o historiador Luiz de Barros Guimarães se desincumbiu de sua missão como debatedor perspicaz.landeses. Os índios já a praticavam. a Henrique Dias. E nós conseguimos. onde aportaram os portugueses. que tinha uma organização militar mais progressista e moderna: a Holanda. para que nós realcemos a bravura do paraibano. Eu gostaria de suprir as omissões desses aspectos que não foram ventilados. A gente lê todo dia e ouve na televisão que a Bahia é o berço do Brasil. destacou a atuação de Maurício de Nassau e profligou veementemente o leonino tratado de paz firmado com os holandeses. Pouco importa dizer que vinha sob o disfarce da Companhia das Ilhas Ocidentais. mas ele deu um sentido cada vez mais aperfeiçoado a esse tipo de batalhas. Mas. dentre os quais o mais importante era a Holanda. mesmo depois de derrotados. dos nordestinos. 160    . 1º participante: Joacil de Britto Pereira (Sócio do Instituto e presidente da Academia Paraibana de Letras): Expositor e debatedor focalizaram aspectos interessantes sobre o tema. tornando-se um perito nas guerras de guerrilha. juntando as três raças que entraram na formação do Brasil. pela sua estratégia. Fala-se muito na guerra de restauração pernambucana. Assim. heroica e gloriosa. primeiro debatedor inscrito.

no nosso Brasil. E o brasileiro. Esse é um aspecto que eu queria suprir.Mas. como se já não tivéssemos pago com sangue. Isso está escrito pelos historiadores. como estrategista e também como homem de espírito humanitário. O expositor e debatedor fizeram enfoques interessantíssimos. o grande berço da nacionalidade são esses Estados de Pernambuco. que nasceu com o espírito de uma nação nova. se usou a palavra Pátria. A guerra holandesa nos deu o sentimento de Pátria. os negros e André Vidal de Negreiros. Foi uma carta dirigida a André Vidal de Negreiros. Fez. quando se falar sobre a guerra dos holandeses. Ratificando o que já disse o debatedor Luiz de Barros Guimarães. como nação. mas nós devíamos sempre realçar a bravura do nosso povo. que foi um homem tão notável como estadista. deixando antes de morrer. dali surgiu com os seus anseios libertários. os índios. Pela primeira vez na História do Brasil se falou. E concordo com sua observação: neerlandês e não holandês. que registrou o sentimento de Pátria e a palavra Pátria no seu conceito mais alto. e nós resistimos. seus engenhos com os seus próprios escravos e moradores. O sentimento de brasilidade. eu digo que os luso-brasileiros pagaram com sangue a vitória e a expugnação do solo pátrio pelo invasor neerlandês. historiador Luiz de Barros Guimarães e pelo professor Joacil de Britto Pereira. um testamento que é uma preciosidade de humanismo. celebrar uma paz bem anterior. Morreu. pelo debatedor. que governou terras daqui e de além-mar. mostrando. que reuniu essas três grandes figuras: André Vidal de Negreiros. Como guerreiro. O grande sentido dessa situação histórica foi o Brasil despertar para o seu valor próprio. Nós os brasileiros. a ousadia de termos expulsado os holandeses. Henrique Dias e Felipe Camarão. Dr. Paraíba e Rio Grande do Norte. a primeira manifestação de uma reforma agrária no nosso Nordeste. nasce no período holandês. sem dúvida. 2º participante: Guilherme d’Avila Lins: (Membro do Instituto e presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica) Mais uma vez parabenizo a iniciativa deste Instituto pela realização destes debates e particularmente pelas considerações que foram feitas pelo expositor. Sobre a Paraíba heroica. os primeiros laivos de nacionalidade deste país. portanto. Aécio de Aquino. foi de uma bravura excepcional. Foi numa hora em que Portugal queria se ajustar com os invasores. E é por isso que ele é tão importante para a História do Brasil 161    . Distribuiu suas terras. A junção dessas três raças é que fizeram a Pátria brasileira. E tivemos de pagar de novo.

uma única palavra que se incorporou ao nosso vocabulário. que era um capital parado. por ele ser o diretor da Capitania da Paraíba. considerado por muitos como dono do engenho Santo André. apesar de muita coisa já estar escrita. fosse nas Alagoas. para o Nordeste. entretanto há cerca de 400 palavras portuguesas que se incorporaram ao vocabulário holandês. pois ele morreu em 1636. e confiscados ficaram até 1637. pensando no tradicional dote. Aliás este inquérito sobre sodomia foi movido pelos próprios neerlandeses. como aconteceu com Luciano Brandão. Sobre os vestígios dos holandeses na nossa cultura há uma linha interessante de argumentação. Essa história está muito curta. por exemplo. particularmente. não era dono. que escaparam quando os holandeses aqui se instalaram. Vários holandeses adquiriram esses engenhos. no primeiro período. em Itamaracá. Ele só citou a Paraíba en passant. O professor Aécio Aquino lembrou a palavra brote. Ele apenas usufruía indevidamente o engenho. cuja filha casou-se com um holandês. Estava aqui para extrair. a reboque de fatos de interesse de Pernambuco. como. fato raríssimamente citado. Contra Yppo Eissens consta a existência de um processo acusando-o de sodomia. Tem que haver mais coisa sobre este episódio. Estão faltando pesquisas nesse sentido. 162    . mudaram-lhes os nomes mas não tocaram neles. Apenas aproveitaram a mão-de-obra existente nos engenhos. Há muita linha de pesquisa a ser desenvolvida sobre o período holandês. fosse na Bahia. fosse em Pernambuco. particularmente. originária de bloudes. O holandês estava aqui não para morar nem para colonizar. Mas há muita coisa ainda obscura. senhor de engenho abastado. Às vezes o antigo feitor era o mesmo. particularmente as atas diárias do governo holandês. tanto é que ele não levantou um só engenho. O próprio Yppo Eissens. José Antônio Gonsalves de Mello vasculhou de forma maravilhosa a documentação holandesa. com a aquiescência do governo holandês em Pernambuco. fosse na Paraíba. porque dez anos dentro de um forte dá para as pessoas morrerem de tédio. quando Nassau ainda não tinha chegado. aqueles dez anos em que os holandeses ficaram acuados no forte do Cabedelo recebendo suprimentos por mar. quando somente a partir daí Nassau ordenou a venda desses engenhos. Os engenhos da Paraíba.e. Esses engenhos foram confiscados. Mas toda a documentação das chamadas “Nótulas Diárias” está para ser vasculhada no Instituto Arqueológico Pernambucano. no que diz respeito especialmente a Pernambuco. Este é o mesmo Yppo Eissens que queria casar com uma sobrinha-neta de Duarte Gomes da Silveira. continuaram existindo apesar do abandono dos seus proprietários.

é a DESCRIÇÃO DA CIDADE E BARRA DA PARAHÍBA por Antônio Gonçalves Páscoa. que a estabeleceu dois ou três meses antes da de Olinda. Para citar uma documentação portuguesa. documento este que foi descoberto por Varnhagen. A esta altura já existia o reforço do forte da cidade e existia um reduto na ladeira de São Francisco. onde o autor mostra nas entrelinhas como nós. no segundo ciclo. graças à visão e clarividência administrativa de Elias Herckmans. Apesar de tudo isso. Esta obra é importante porque ele foi testemunha presencial em 1631 da tentativa dos holandeses conquistarem a Paraíba. Francisco de Brito Freire. do lado luso-brasileiro temos Duarte de Albuquerque Coelho. Ele relatou tudo o que aconteceu e terminou colocando uma relação dos feridos e dos mortos naquela tentativa. 163    . um fato interessante é que a primeira Câmara de Escabinos que existiu no Brasil. Frei Rafael de Jesus (este precisa ser lido com muito cuidado. É um trabalho de equipe e de longa duração. Ele também dá informações importantes sobre a navegabilidade do rio Paraíba naquela ocasião. Manoel Calado Salvador. Brevemente eu apresentarei uma re-edição crítica desta obra que jamais foi consultada na historiografia brasileira. Do lado holandês existe muita coisa ainda para ser vista. Outro trabalho de extrema importância. pois ele consegue transcrever entre aspas discursos de até quatro páginas sem nunca ter vindo ao Brasil). A participação dos luso-brasileiros era pequena e teoricamente os obrigariam a entender o holandês. Diogo Lopes Santiago. está faltando quem vasculhe a documentação holandesa concernente à Paraíba. sobre a qual estou fazendo um estudo para uma re-edição crítica. foi a da Paraíba. entre outros. poucos holandeses falavam português. Por sua vez. Barleus. e que interessa primacialmente à Paraíba. analisada e criticada. que nunca foi vasculhada. isso em 1630. eu citaria um opúsculo de Frei Paulo do Rosário.Sobre a atuação dos holandeses. para mostrar o clima que antecedeu a entrada dos holandeses na Paraíba. na Paraíba. A Revista do Instituto Histórico tem duas publicações deste mesmo relatório. editada em 1632. obra raríssima da qual só se conhecem quatro exemplares. estávamos nos preparando para o ataque que ainda iria acontecer fatalmente. inclusive a documentação administrativa que está por ser vasculhada.. embora tenha sido citada na bibliografia brasileira. Se procurarmos as fontes principais do período temos do lado holandês exemplos como Joannes de Laet.

Só que. os quais tenho assistido até agora. Volto ao tema sobre se seria melhor a colonização holandesa ou portuguesa. Joacil de Britto Pereira e outros nomes significativos da nossa cultura. feita pelos portugueses e espanhóis. Ainda lembrei pelo paralelo feito pelo escritor Vianna Moog no seu livro BANDEIRANTES E PIONEIROS. onde ele mostra a colonização dos Estados Unidos feita pelos ingleses e a das Américas. com a maior racionalidade possível. lucrar. Eles foram com o intuito de se fixar. se fixar. mas um centro ativo de debates com a presença de historiadores como Luiz Hugo Guimarães. como o da professora Regina Célia Gonçalves. influenciando para que as colônias inglesas na América fossem mais prósperas do que a colonização portuguesa. como foram os holandeses. Eles trouxeram consigo também uma ideologia religiosa. um pouco frouxo. sobre a República na Paraíba. oferecendo grandes subsídios para a cultura da história paraibana. explorar. protestante. não importa muito se o Brasil fosse colonizado por holandeses com essa índole capitalista.3º participante: Maria do Socorro Xavier: Parabenizo essa iniciativa deste Ciclo de Debates. brilhantemente mencionados pelo professor Joacil Pereira. laica e lucrativa. Todos queriam lucros. não apenas um arquivo de livros. Parabenizo também o nível dos debates. na questão das fontes de pesquisa histórica. embora tenhamos tido a Inquisição. Estava impaciente porque eles não tinham tocado nos grandes heróis da luta contra os holandeses. A ideologia religiosa dos portugueses foi o catolicismo. Luiz Hugo Guimarães e Joacil de Britto Pereira. de lucro. fazendo com que o Instituto Histórico seja. trabalhar. Também os portugueses exploraram o Bra164    . Há uma análise muito boa feita pelo sociólogo Max Weber abordando a ideologia influenciando a colonização portuguesa e espanhola nas Américas e a colonização inglesa. A racionalidade esteve mais presente nas colonizações dos povos anglo-saxões. Já os portugueses eram mais flexíveis. teutões. à época protestante e com o espírito do capitalismo. como o de Dr. um catolicismo um pouco fluido. povoar. Quero parabenizar o expositor e debatedor de hoje pelos aspectos interessantes que foram colocados sobre o período holandês na Paraíba. Todos foram maravilhosos. se os holandeses tivessem procedido a colonização da Paraíba talvez ela tivesse se assemelhado àquela colonização procedida pelos ingleses nas colônias americanas. como a palestra da professora Rosa Godoy Silveira sobre o Império. O que quis provar é que o protestantismo trouxe a época do trabalho de racionalidade. Sabemos que ambos europeus estavam sob a influência do mercantilismo. uma racionalidade bem típica dos povos anglo-saxões. A meu ver.

que depois passou a ser Nova York. é um assunto que dá margem às mais diferentes avaliações. que é uma cidade que tem uma influência portuguesa enorme. no primeiro acordo firmado. Na verdade. Isso não é nada de mais. Nosso presidente poderá se corresponder com essa sinagoga ou com a embaixada da Holanda aqui no Brasil e examinar se podemos obter mais algumas informações. etc. Parece-me que os holandeses. Foi a família Wanderley. com a mineração. Esse assunto. esses vocábulos portugueses que estão incorporados ao holandês sejam uma consequência dessa emigração de Portugal. 4º participante: Célia Camará Ribeiro (Sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói): Sou de opinião que nossa querida Frederica teria sido melhor em cultura com os holandeses. porém as obras. Uma observação importante a fazer é que havia muita liberdade religiosa no tempo de Nassau.sil. E aqui eles deixaram várias obras. Muitos deles deixaram o Nordeste e foram para os Estados Unidos. mas estava fechada. Fala-se que na luta dos pernambucanos pela liberdade. Os judeus tinham que aceitar a religião católica ou emigrarem. e acho até bom. levando ouro para Portugal. Se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses poderíamos ter uma colonização mais racional. porque não só palavras edificam uma cidade. Eles foram embora e levaram o capital. tiveram somente três meses para deixarem o Brasil. Portugal ficou pobre quando botou os judeus para fora de Portugal. Depois soube por pessoas que estiveram lá que há nomes portugueses. porém. com a Inquisição. onde fundaram a Nova Amsterdã. Agora eu pergunto: será um mito ou verdade porque os holandeses não se miscigenavam com índios nem africanos e a questão do gado holandês? 5º participante: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho (Sócio do IHGP): Todos os participantes falaram com brilhantismo. pau-brasil. É preciso lembrar que uma família holandesa ficou aqui no Brasil. nome que em holandês se escrevia Wan der ley. sinagoga israelita-portuguesa. como asseveraram os debatedores. mais organizada. Os que ficaram foram depois colhidos pela Inquisição. os judeus expulsos de Portugal foram se refugiar em Amsterdã. não era holandês: era alemão. O problema da Companhia das Índias Ocidentais é que o capital era judeu. Em Amsterdã tem uma sinagoga. não era a liberdade que 165    . aliás. Quando estive lá fui vê-la. com três nomes e com o tempo houve a junção. que. Possivelmente.

quando D.. Salvo engano. os nossos heróis não eram tão a favor das liberdades porque eles não davam liberdade religiosa. a sinagoga era aberta.eles propunham. os cultos protestantes eram abertos e as igrejas católicas continuaram abertas também. Na verdade. No tempo de Nassau. Havia muito mais liberdade no Brasil holandês. João VI estava no Brasil. os protestantes só vieram a ter liberdade de culto por pressão e influência da embaixada inglesa. reconheceu-se aos judeus o direito de praticarem sua religião. 166    .

8º Tema:

A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA
Expositora: Diana Soares de Galliza Debatedora: Waldice Mendonça Porto

A fala do Presidente: O tema a ser debatido nesta sessão é A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA, e está a cargo nossa confreira Diana Soares de Galliza, que é formada em História pela Universidade Federal da Paraíba, onde lecionou por durante vários anos. É mestra e doutora em História pela UFPE e doutora em Filosofia, Letras e Ciências Humanas pela USP. Nas universidades da Paraíba, Pernambuco e Tocantins, a professora Galliza já ministrou aulas em Cursos de Graduação, Pós-graduação, Especialização e Mestrado e Doutorado, de cujas bancas tem sempre participado. Domina os idiomas francês, inglês e espanhol. É uma grande pesquisadora. Seus trabalhos, sempre exaltados pela crítica, são numerosos, destacando-se HISTÓRIA REPUBLICANA NA PARAÍBA, 1965; O DECLÍNIO DA ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA (1850-1888), 1979; PARAÍBA – 1890-1930 (modernização ou independência?), 1988; e outros trabalhos. Dentro do tema ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA, a professora Diana Galliza falará sobre A PARTICIPAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA ESCRAVA EM VÁRIAS ATIVIDADES ECONÔMICAS. Passo a palavra à nossa expositora, professora Diana Soares de Galliza. Expositora: Diana de Soares Galliza (Mestra em História pela Universidade Federal de Pernambuco, Doutora em História pela Universidade de São Paulo, Professora aposentada de História da Universidade Federal da Paraíba, Membro do Colegiado do Programa de Pós-Graduação de História da Universidade Federal de Pernambuco, Professora de História do UNIPÊ, sócia do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e pesquisadora da Escravidão na Paraíba)

A mão-de-obra escrava nos engenhos
A escravidão é um tema palpitante e abrangente pela multiplicidade de aspectos que apresenta. Embora nossas pesquisas se tenham concentrado no declínio
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da escravidão na Paraíba, vamos enfocar, hoje, a participação da mão-de-obra escrava nos vários ciclos da economia paraibana. A colonização da Paraíba, nos seus primórdios, constituiu uma expansão da agroindústria do açúcar de Pernambuco. João Tavares, Martim Leitão, Ambrósio Fernandes Brandão, Duarte Gomes da Silveira, o incentivador e financiador da colonização da Paraíba, fundaram engenhos na Capitania e recorreram a mão-de-obra escrava. A escravidão tornou-se o sustentáculo da economia açucareira, principalmente, na época colonial. Primeiramente, tentou-se escravizar o índio, mas não deu certo. O nativo não era incapacitado ao trabalho, como argumentaram os historiadores, que abraçaram a tese da indolência do indígena. Fracassou a tentativa de escravizá-lo, porque o colonizador não quis despender seu tempo preparando o índio para o trabalho metódico, organizado, que a cultura da cana exigia, como o fizeram os jesuítas. No afã de obter lucro imediato, o português procurou, de forma brusca, ceifar sua liberdade, tirá-lo do nomadismo em que vivia e fixá-lo à terra, como escravo. O nativo revoltou-se. A solução encontrada foi a utilização da mão-de-obra africana, encontrada , cujo tráfico iria proporcionar elevados ganhos a Portugal. O escravo nego foi imprescindível à expansão da atividade açucareira. Gilberto Freyre e padre Antônio Vieira enfatizaram que a cultura da cana de açúcar só se tornou possível devido à utilização da mão-de-obra africana. Na medida em que os engenhos proliferavam na Paraíba, o tráfico negreiro aumentava. Entre os proprietários de engenho e detentores de escravos citamos as ordens religiosas, aqui estabelecidas: os jesuítas, os franciscanos, os carmelitas, os beneditinos. Podemos acompanhar a formação do patrimônio rural dos beneditinos e de sua escravaria através de Irineu Ferreira Pinto, em DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA. Aliás, esses religiosos têm chamado a atenção dos historiadores, que estudam a escravidão no Brasil, pela sua capacidade de manter ou de aumentar o número de crioulos em suas propriedades. Robert Slenes e Stuart Schwartz pesquisaram a constituição da família escrava e desmitificaram arraigadas concepções tradicionais, que haviam negado ao escravo o gozo de uma organização familiar. Schwartz concentrou suas pesquisas na escravaria dos beneditinos e constatou a preocupação e a habilidade que esses frades tinham de incentivar o casamento entre seus cativos. Por que eles agiam dessa maneira? Porque o casamento conferia estabilidade à família, mantinha o equilíbrio sexual e acabava com a mancebia, tão comum no
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seio do elemento servil. Além de elevar o nível moral dos cativos, havia razões para tal procedimento. Enquanto os escravos se casavam e constituíam família, tornavam-se mais dóceis, mais vinculados ao engenho ou à propriedade, onde trabalhavam. Assim, as tentativas de fuga eram muito remotas. Comprovamos, na Paraíba, a existência da família escrava e a proliferação de crioulos nos domínios beneditinos. Antes da invasão holandesa, havia 20 engenhos de açúcar na Paraíba, sendo 18 em atividade e dois de fogo morto. Mas a luta com os batavos desestruturou a economia açucareira. Os engenhos foram saqueados, as culturas de cana de açúcar, queimadas e os escravos, aproveitando-se da confusão, fugiram. Alguns registros mencionam que somente os velhos e crianças permaneceram nas unidades açucareiras. Os engenhos ficaram despovoados de negros e os cativos infestavam as ruas. A formação de quilombos remonta àquela época, sendo Palmares o mais importante. Não dispomos de dados sobre a formação de quilombos na Paraíba, durante a ocupação holandesa. Não sabemos quantos redutos de escravos fugitivos surgiram, nem onde se localizavam. Temos notícias de que, após a expulsão dos batavos, havia três quilombos na Paraíba. Craúnas e Cumbe provocavam desordens e, segundo Irineu Pinto e Irineu Joffily, os negros, que os integravam, invadiam e queimavam as casas, aliciavam escravos para seu valhacouto. Ainda, durante a dominação holandesa, ocorreram enchentes e epidemias, como a varíola que, conforme Irineu Pinto, dizimou 1000 escravos na Paraíba. O historiador mencionado informou que, posteriormente os beneditinos perderam metade de sua escravaria vítima de epidemias. A crise afetou esses religiosos de tal forma que, durante dez meses, seus cativos se alimentavam exclusivamente de ervas. Os holandeses que, a princípio, fizeram sérias restrições a escravidão, mudaram de opinião em relação à instituição. Perceberam a importância da força de trabalho negra nos engenhos, adquiriram escravos e se envolveram com o tráfico negreiro. Amealharam somas vultosas com o comércio de escravos a ponto dele se tornar uma das maiores fontes de renda para a Companhia das Índias Ocidentais. E como eles procederam com os escravos? Fica a questão em aberto. Se por um lado permitiram que os senhores castigassem seus cativos com açoites, chicotes e que eles fossem colocados no tronco, por outro lado proibiram que os proprietários os mutilassem. Somente a Justiça podia decretar a ferradura
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dos negros, a mutilação de seus membros e puni-los com a pena de morte. No entanto, os holandeses não se miscigenavam com os negros. Estabeleceram uma separação quase que profilática entre o senhor e o escravo, diferentemente dos portugueses que se misturaram com o homem de cor. Gilberto Freyre em CASA GRANDE & SENZALA sustenta que uma das razões do sucesso da colonização portuguesa nos trópicos foi a miscibilidade que a caracterizou. Desde a dominação batava a Paraíba ficou imersa numa grande crise. Expulsos os invasores, houve tentativas de soerguimento da economia paraibana. Por exemplo, João Fernandes Vieira, um dos governadores da Capitania, teria emprestado dinheiro de seu bolso para restaurar os engenhos. Matias de Albuquerque, seu sucessor, também não poupou esforços no sentido de restaurar a economia açucareira, assentada na mão-de-obra escrava. Muitos cativos foram importados da África e, no século XIX o número de cativos existentes na Paraíba era significante. Os dados estatísticos apresentados por Irineu Pinto revelam que 15% da população paraibana eram de escravos negros. Todavia sua participação não foi, apenas, na atividade açucareira; colaborou, também na pecuária. O escravo negro no criatório Depois da entrada de Teodósio de Oliveira Ledo começou o povoamento do sertão paraibano fundamentado na atividade criatória. Os sertanistas requereram datas de terra e implantaram currais nas suas propriedades. Inicialmente, recrutaram a mão-de-obra nativa, que se adequou muito bem ao nomadismo do pastoreio. Mas o escravo negro não foi omisso no criatório. Nas nossas pesquisas nos cartórios de Pombal, onde há farta documentação, constatamos que, nos primórdios do século XVIII, quando a pecuária iniciava a sua expansão pelo sertão, já era expressiva a participação do escravo negro na economia sertaneja. Contudo, os historiadores que enfocaram a economia do criatório desprezaram o desempenho do cativo negro ou lhe atribuíram pouca importância. Capistrano de Abreu, que percorreu os sertões do Ceará e da Paraíba e foi testemunha ocupar da escravidão negra na área sertaneja, afirmou no seu livro CAPÍTULOS DE HISTÓRIA COLONIAL que a presença do escravo negro no sertão representava magnificência e fausto. Conferia, pois, status ao fazendeiro. Irineu Joffily, cognominado o historiador do sertão pelos estudos que realizou sobre a zona criatória, presenciou a escravidão. Mas não reconheceu sua importância para a economia da região. Ponderou que para a atividade criatória a raça americana, ou seja o nativo, se prestou melhor do que o africano. Entretanto, tendo
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em mãos os dados estatísticos populacionais da Paraíba, do século passado, ficou surpreso com a quantidade de escravos existentes em municípios sertanejos, particularmente, em Piancó e São João do Cariri. À semelhança do historiador cearense afirmou que a presença significativa dos cativos constituía uma ostentação do fazendeiro. José Américo de Almeida também se admirava com a numerosa escravaria de Piancó e São João do Rio do Cariri. Em relação ao primeiro asseverou que “é o município sertanejo onde o melanismo é mais acentuado”. Quanto ao segundo tentou explicar o elevado número de escravos pela transferência temporária dos negros dos engenhos do brejo para as fazendas criatórias do sertão. Acrescentou que muitos senhores de engenho residentes em Alagoa Novos tinham propriedades em São João do Cariri. Eles deslocavam os cativos das unidades açucareiras para suas fazendas no sertão a fim de trabalharem durante o verão. Clóvis Moura, ao fazer estudos étnico-cultural do nordestino, constatou indício do negro. Todavia não o reconheceu engajado no trabalho produtivo, mas como um elemento perturbador da ordem econômica, como quilombola. Nossas pesquisas em documentação cartorial, mapas da população escrava, recenseamento de 1872 e outros documentos comprovam estatisticamente que a presença do escravo negro na área sertaneja não foi insignificante, nem apenas conferia status ao fazendeiro. Ele esteve engajado na economia do criatório, desempenhando várias atividades relacionadas a ela. Tivemos em mãos um documento muito esclarecedor – o Mapa da população escrava de Piancó do ano de 1876, com um total de 1 079 escravos, dos quais 912 tinham profissão definida. A maior parte dos cativos era de cavouqueiros ou agricultores. Portanto, realizavam trabalhos que possibilitavam a agricultura de subsistência e serviam de sustentáculo à atividade criatória. Construíram cercas de pedras, cujos remanescentes estão dispersos pelo sertão, cavaram poços e serviram de suporte à agricultura e à pecuária. No manuscrito mencionado encontramos escravos como: vaqueiro, sapateiro, alfaiate, ferreiro, cozinheiro, fiandeiro e executando serviços que visavam a auto-sustentação das fazendas. Dado o isolamento em que o sertão vivia, as propriedades tinham que se auto-abastecer. A proposição de Irineo Joffily, que o indígena ou mameluco estava mais apto às funções de vaqueiro, tem consistência. Todavia, o escravo negro não foi totalmente omisso nessa atividade. No mapa da população escrava de Piancó, constam 20 vaqueiros. A nosso ver o reduzido número de cativos negros no trato e
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condução de rebanhos se deveu mais a razões econômicas do que étnicas. O escravo representava um investimento, que se tornou mais elevado após 1850. Entregarlhe uma boiada para cuidar constituía um risca de perdê-lo. As chances de fuga eram bem maiores do que nos engenhos, onde os cativos eram constantemente vigiados. O fazendeiro entregava o rebanho a escravos nos quais depositava total confiança. Para prendê-los à fazenda e evitar sua evasão concedia-lhes alguns benefícios. Por exemplo, há evidências de que tenha estendido ao vaqueiro o sistema de quarta, tão peculiar à pecuária, no período colonial e no século passado. Esse sistema consistia em o vaqueiro receber um novilho em cada quatro que nascesse, após cinco anos de trabalho na fazenda. Nas nossas pesquisas nos acervos cartoriais de municípios criatórios, como Pombal, Piancó, São João do Cariri, encontramos alforrias compradas pelo escravo com cabeças de gado. Não concordamos com o argumento de José Américo de Almeida ao explicar o elevado número de escravos de São João do Cariri: a transferência provisória da mão-de-obra dos engenhos do Brejo para as fazendas sertanejas. Os documentos cartoriais confirmam que donos de unidades açucareiras no Brejo, bem como na zona da Mata tinham fazendas no Sertão, no século passado. Porém constatamos que os escravos residiam nos municípios criatórios. O fato de São João do Cariri ter recebido a segunda maior quota do Fundo de Emancipação corrobora que os escravos moravam naquele município. Além do mais, a lei de 28 de setembro de 1871, que obrigou os proprietários de escravos a registrá-los, estabeleceu que o registro teria que ser feito onde os cativos residiam. A tese de Clovis Moura não se aplica à Paraíba, já que os livros e documentos oficiais só mencionaram três quilombos que provocaram desordens: Craúnas, Cumbe e o do Espírito Santo. Deve ter havido outros quilombos na Paraíba, todavia eles não causaram desassossego aos moradores das vizinhanças. Por exemplo, o jornalista Ivaldo Falcone, quando esteve em Alagoa Grande, sugeriu que a comunidade de Caiana, lá existente, seria remanescente de um quilombo. Talvez, devido ao relevo, ao seu isolamento e porque os quilombolas viveram pacificamente, as tropas policiais não foram solicitadas para desbaratá-los. O escravo negro nas propriedades algodoeira e cafeeira O algodão também contou com a colaboração do escravo negro. Fundamentada em inventários podemos dizer que a presença do cativo negro foi significativa nas propriedades algodoeiras. Irineo Joffily asseverou que os escravos nas fa172 

 

zendas de algodão chegaram a rivalizar, em número, com os engenhos de açúcar. Mas, a partir de 1850, quando cessou o tráfico negreiro, os inventários evidenciam o declínio dessa mão-de-obra nas fazendas algodoeiras do Agreste. Percebemos que nos inventários, onde houve registro de uma maior quantidade de escravos, o inventariado, além do cultivo do algodão, dedicou-se a outras atividades econômicas, como a criatória ou a açucareira. Nas fazendas cafeeiras da Paraíba o cativo foi prescindível, porque quando começou a expansão do café em Bananeiras, nas últimas décadas do século XIX a escravidão estava em pleno declínio. Documentos do século passado atestam que quando os cafeicultores detinham escravos, eles, também, possuíam engenhos ou fazendas criatórias. Concluindo, podemos afirmar que houve a participação do escravo negro nas diversas atividades econômicas na Paraíba, até antes da segunda metade do século XIX. Embora a escravaria estivesse concentrada nos engenhos, o negro foi peça importante na economia do criatório. Foi, igualmente, significativo o número de cativos nas propriedades algodoeiras até a cessação do tráfico africano. A partir de 1850 teve início o declínio da escravidão na Paraíba. A fala do Presidente: Tivemos pela excelente exposição da historiadora Diana Galliza uma visão global sobre a influência do escravo no desenvolvimento econômico da Paraíba, desde o período colonial até a primeira metade do século XIX. A professora Diana, com muita propriedade, nos deu o quadro da situação do escravo na Paraíba e, corajosamente, porque baseada na sua pesquisa pessoal, fez contestações sérias e importantes. Ela contestou Capistrano de Abreu, Irineu Joffily, José Américo de Almeida. Na verdade, estamos alcançando os objetivos deste Ciclo. Precisamos mudar os chavões consagrados estabelecidos por nossos historiadores, que hoje se chocam com as fontes primárias a que eles não puderam consultar. Muitos apontamentos de alguns dos nossos consagrados historiadores merecem re-exame, por conta de suas interpretações apressadas. As advertências que têm sido feitas pelos expositores e debatedores deste Ciclo, quanto a essas falhas de interpretação, servirão para uma revisita à nossa historiografia para uma retificação imediata, a fim de evitarmos sua repetição rotineira, como vem acontecendo há anos. A contribuição da professora Diana Galizza é da maior significação para o êxito do nosso processo de debate que o Instituto Histórico está promovendo.
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Será debatedora oficial nossa confreira Waldice Mendonça Porto, 1ª Secretária do Instituto. Waldice é também expert em escravatura, sendo de ressaltar seu importante trabalho bastante citado pelos estudiosos da matéria, que é A PARAÍBA EM PRETO E BRANCO. Com a palavra a confreira Waldice Porto. Debatedora: WALDICE MENDONÇA PORTO (1ª Secretária do IHGP e sócia do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica) É uma alegria muito grande poder estar aqui como debatedora, principalmente ao lado de Diana Galliza. Meu trabalho sobre a escravatura não diz respeito à economia; enfoca a miscigenação. Baseei-me no comportamento do mestiço, principalmente porque os escravos não puderam praticar a sua cultura, em face mesmo da sua escravização. Esse magistral trabalho de Diana me traz saudade das minhas pesquisas sobre escravidão, pois agora estou me dedicando mais à estrutura fundiária da Paraíba. Durante certo tempo me dediquei a examinar a questão do fundo de emancipação dos escravos. Foi a partir da lei do ventre livre que se iniciou a manumissão dos escravos e me interessei pelos critérios adotados. Esse tema dá um livro ou mais. O negro deu uma colaboração espetacular na música, na religião (que é o sincretismo religioso), no mito, na culinária, na pecuária, na agricultura, na rebeldia contra o sofrimento imposto pela escravidão. Aqueles que estavam bem na companhia dos seus senhores – e havia alguns maravilhosos – permaneceram na companhia deles, mesmo após a proclamação da abolição. E eram muito queridos pelos de casa. Nas senzalas a situação era lamentável, pela disseminação das moléstias, pelo tratamento das sinhazinhas, etc. A vida dos negros nas senzalas era aviltante, onde não constituíam família, não tinham privacidade. O tratamento que lhes era dado era infame. O que é lamentável é que todo nosso esforço de estudo e pesquisa nessa área fique sem publicação, fique engavetado. Em consequência, pouco conhecimento se tem da história paraibana, que é uma das mais belas. Por isso sou tão apaixonada pela História da Paraíba; ela cheia de filigranas imensas. A história oficial é muita falha. Por isso temos que fazer como Diana Galizza, que trabalha em cima de documentos, pesquisando fontes primárias. Eu traba174 

 

confessou aqui a professora Regina Célia Gonçalves. em sua palestra de abertura destes trabalhos. Temos o dever de passar uma história que seja verídica. Não sabe nada sobre a História da Paraíba e acha que não deve nem levar em consideração. Quando sabemos que nossa História é uma das mais belas. Num dos primeiros debates apresentei uma proposta ao presidente do Instituto no sentido de nos ligarmos com a Universidade para fazermos uma História da Paraíba que seja acessível e que seja moderna. que fiquem engavetados. Já disse no 175    . Passo agora a palavra aos participantes que se inscreveram previamente. que é de estarrecer. em primeiro lugar a professora Paula Frassinete Duarte. resultando no engavetamento de importantes trabalhos de pesquisa. mas fico triste porque o pessoal do 1º e 2º grau não sabe de coisa nenhuma. A gente assiste a uma aula dessas de Galizza com prazer. As teses de mestrado e doutorado. se apagam por falta de divulgação. Essa coleção que saiu com o patrocínio do Governo do Estado foi vendida semanalmente contém tantos erros elementares. Àqueles que aqui fazem pesquisa sempre cobro para trazerem seus trabalhos após sua conclusão.lhei muito sobre documentos. encarreguei-a para anotar esses equívocos a fim de que possamos esclarecer para evitar sua propagação para frente. ou equívocos. Cerca de 10% apenas é que são dados a lume. 1º participante: Paula Frassinete Duarte (Bióloga) Quero fazer minhas as palavras da debatedora Waldice Porto. que se viu naqueles folhetins. Fico muito grata por ter participado como debatedora por esse trabalho excelente que foi apresentado por Diana Galizza. que ficam mofando nas prateleiras dos arquivos. mais autêntico. mas permanecemos eternamente ignorantes porque não temos acesso a esses documentos. sobre inventários e por isso o trabalho fica mais sério. O Instituto não tem recursos para divulgar os trabalhos que são feitos aqui. naqueles fascículos. Outro aspecto importante o problema da divulgação. A fala do Presidente: Foi bom que nossa debatedora falasse nesses enganos. sobre as cartas de alforria. como também a Universidade não tem. O que lamento é que todo esse esforço nosso não chegue às escolas. Nosso Instituto se preocupa muito com a divulgação do acervo histórico paraibano. pelo menos para que possamos expor ao interesse dos usuários deste Instituto. Aliás.

uma espécie de concubinato branco que. As pessoas vão à Justiça e a Justiça dá ganho de causa para a demolição. por conta da falta de dinheiro para o registro em cartório. mas esses frutos desses coitos. no Conselho. eroticamente muito quentes? Teria sido por isto? Em segundo lugar. esses filhos teriam algum privilégio? Os pais deles dariam algum privilégio? Por que os historiadores negaram essa parceria. tanto homens como mulheres. acontecia. gostaria de um aprofundamento sobre a ação dos beneditinos que teriam estimulado o casamento entre negros. não entendi muito bem. com certeza. seriam reconhecidos de alguma forma. É o mesmo caso daqui.curso que está ocorrendo na Universidade Federal da Paraíba sobre a enorme importância desse tipo de debate e. há pouca presença e grande dificuldade na divulgação. observando a sequência. Que perturbações aconteceram com a saída dos negros? Diana Soares de Galliza: Muitas questões foram levantadas. Faço parte do Conselho do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado e nossa luta lá. não se dá o devido valor à participação que o negro teve na formação da sociedade brasileira? Teria sido por isso que Irineu Joffily teria diminuído tanto a participação nos negros no criatório (que você viu que não era por aí)? Também perguntaria qual a diferença entre cavouqueiro e agricultor. porque você disse que cavouqueiro estava com a enxada cavando. Acho que a história que a gente aprende não é a verdadeira história. Vamos tentar respondê-las. os holandeses não. E isso tem sido uma das desculpas para nós perdermos verdadeiras pérolas da arquitetura do nosso país. efetiva dos negros no criatório? Terá sido porque. gostaria que aprofundasse mais sobre as perturbações econômicas que os quilombos fizeram naquela sociedade. Seria para poupar as mulheres brancas. e o agricultor fazia o que? Por último. 176    . Sobre as importantes informações apresentadas pela expositora Diana Galliza. desse amor. porque os negros sempre foram tidos e havidos. essa presença engajada. como muito fogosos. Não existe dinheiro para isto. como ainda hoje. é para que haja maior apoio do Governo do Estado no sentido de que o IPHAEP possa imediatamente tombar e registrar o patrimônio histórico do nosso Estado em cartórios. queria saber se a miscibilidade era consentida no sentido de que os portugueses tiveram a miscibilidade. infelizmente. do nosso Estado.

nas suas propriedades. na Paraíba. A política de estímulo ao casamento moralizava a vida no seio do elemento servil. nas cartas de alforrias por eles passadas. uma vez que suprimia a mancebia entre eles. a escravidão teria sido amena. as possibilidades de fuga seriam muito remotas. através do incentivo dado ao casamento pelos beneditinos. Gilberto Freyre defendeu o caráter brando da escravidão no Brasil. começamos a pesquisar. O casamento daria mais estabilidade à família e prenderia o escravo à propriedade. Declararam conceder a liberdade porque “ele é meu filho” ou porque “ele tem meu sangue”. 2. por exemplo.1. porque ele não enfocou o trabalho no eito. houve miscigenação entre o senhor de engenho e a mulher escrava. que eles não somente os matinha. e vários senhores assumiram a paternidade dos filhos negros. objeto de estudo de Gilberto Freyre. recentemente. O livro do sociólogo pernambucano influenciou historiadores americanos e alguns deles. Concepções tradicionais defendiam a inexistência de elos familiares entre os cativos. Concluiu. sustentaram que. surpreendeu-se com a grande quantidade de crioulos nas propriedades desses religiosos. do UNIPÊ. razões econômicas existiam no bojo desse procedimento. através do arrolamento que fizemos nos Livros de Notas. mas na vida do escravo na casa grande. No âmbito da casa grande. estúpida e desumana. Em princípio podemos assegurar-lhe que a família escrava nos domínios beneditinos tem sido estudada recentemente. Por outro lado. no Brasil. então. mas também a população cativa proliferava. Na Paraíba. Este último historiador. seguindo o pensamento freyriano. Estamos orientando a monografia de uma aluna. assim. ela teria sido rude. Foram os brasilianistas norte-americanos Robert Slenes e Stuart Schwartz que questionaram a ausência da família escrava e. a fim de colher maiores informações nesse sentido. 177    . onde trabalhavam. comprovaram que nas grandes e médias propriedades os cativos constituíram famílias. enquanto que nos países de origem anglosaxônica – como os Estados Unidos – de formação protestante. à medida que intensificou suas pesquisas. baseados em documentação cartorial. cujo título é OS BENEDITINOS E A ESCRAVIDÃO NA PARAÍBA. Sugerimos que ela localizasse os relatórios semestrais da Ordem. Quanto ao incentivo de casamento entre escravos conferido pelos beneditinos. Os elos sentimentais se tornariam mais sólidos e. constatamos que alguns senhores deram a conhecer sua condição de pai. nas áreas de colonização ibérica.

aliciavam os 178    . Algo parecido deve ter acontecido a Capistrano de Abreu e Irineo Joffily. particularmente. para comer. Sua observação superficial levou-os a concluir que o expressivo número de negros em todas as propriedades criatórias constituía ostentação. Ao nosso ver os primeiros cavavam a terra para realizar obras de sustentação à atividade criatória. bem como incendiava-nas. Clovis Moura. A última pergunta feita pelo ilustre participante. todavia esses redutos de escravos fugitivos não causaram embaraços à sociedade. No mapa da população escrava de Piancó encontramos um acentuado número de escravos cavouqueiros e de escravos agricultores. A tese de Clovis Moura não se aplica à Paraíba. os cativos assaltavam comboios. Portanto. o de Cumbe e o do Espírito Santo. não se engajou no trabalho produtivo do criatório. segundo ele. 4. ele lá chegou como quilombola. os escravos atacavam. viram muitos escravos sem exercer atividades específicas. movidos pela fome. Visitaram alguns engenhos e suas impressões de viagem foram generalizadas às demais unidades produtivas. Pernambuco e Bahia. eles perturbaram a ordem estabelecida. conferia status ao fazendeiro. nem à economia. Mas. Em conformidade com documentos notariais. buscando alimentos. Somente nos anos de seca. A professora falou que só ofereceram perigo apenas nas épocas em que eles estavam em dificuldade. exceto o de Craúnas. Outra questão que gostaria de saber é por que os holandeses evitaram ter contato com as nativas. enquanto que o segundo trabalhava a terra. detectou a presença do negro na formação étnica e cultural do sertanejo. como comprovamos nas nossas pesquisas. No século passado. a professora Diana respondeu a pergunta que eu iria fazer se esses três quilombos ofereciam perigo para a ordem estabelecida. eventualmente. Eles não acompanharam a labuta do escravo no dia-a-dia. o escravo negro. viajantes estrangeiros percorreram o Nordeste. Alguns quilombos se formaram na Paraíba. 2º participante: Silvana de Souza (participante): De certo modo. os quilombolas de Craúnas e de Cumbe não somente invadiam as propriedades. Diana Galliza: Segundo Irineo Joffily e Irineu Pinto. diz respeito a diferença entre “cavouqueiro” e agricultor. como perturbador da ordem. plantando-a. que transportavam farinha e feijão. 5. estudioso de rebeliões de escravos. na seca de 1877.3. que passaram por algumas fazendas e.

para substituir a mão escrava. pois. mas com muito menos frequência do que o negro brasil e a negra brasila. Eu gostaria de ouvir sua opinião a esse respeito. com as confissões a gente verifica que houve uma grande predominância da citação do elemento índio sobre o elemento negro até aquela época de 1595. anglicana ou calvinista não estavam predispostos a se cruzarem com os nativos ou os negros. Existe o negro citado. 179    . 3º participante: Guilherme d’Avila Lins: (Sócio do IHGP e do IPGH) Quero parabenizar a professora Diana Galliza por sua exposição e gostaria de lhe fazer uma pergunta. a miscibilidade foi uma das características da colonização portuguesa. Os anglo-saxões e os batavos de formação protestante. Talvez fatores cultural e religioso fossem responsáveis pela não miscigenação dos holandeses. A partir do século XVII há uma transformação gradativa e a população escrava negra começa a sobrepujar a população índia. Enquanto que os colonizadores católicos eram menos preconceituosos e se misturavam com os nativos e com os africanos. Era. a Paraíba estava sem força para tentar um resgate da hegemonia da produção econômica do açúcar.escravos que encontravam e levavam-nos para seu reduto. num processo gradativo. No período colonial o braço escravo índio foi substituído pelo braço escravo negro. na primeira visitação. Irineu Pinto narra que a destruição de Cumbe se deveu à iniciativa particular. João Tavares de Castro reuniu seus negros. quando a gente analisa as denunciações do Santo Ofício. O início da preponderância do escravo negro. mesmo porque houve a determinação de que o índio não devia ser feito escravo. Esses dois quilombos foram constituídos por negros remanescentes de Palmares. O fenômeno da imigração italiana não ocorreu na Paraíba. se dá a partir do início do século XVII. sem força para fazer vir colonos estrangeiros para substituir a mão de obra escrava? Como a expositora vê o processo que aconteceu em São Paulo e o que aconteceu na Paraíba? Quero fazer uma observação de minha parte. Dominava-os um sentimento de revolta e de vingança. Como a confreira vê essa diferença? Será que nós estávamos num processo mais deteriorado por causa da economia açucareira no Nordeste? Particularmente. Como e quando isso aconteceu? Na minha observação. como ocorreu em São Paulo. na Paraíba. contratou alguns soldados e conseguiu exterminar o quilombo de Cumbe. contra as tropas policiais que foram destroçá-los e exterminá-los. Ademais. escravos fugitivos e revoltados que lutaram.

Diferentemente do Sudeste. no Recife. Em contato com um amigo de Moçambique. como o fizeram os jesuítas. com o açúcar em decadência. que tem um livro sobre escravidão. O português colonizador não quis desperdiçar seu tempo. Também o clima quente do Nordeste não era convidativo ao italiano. a população nativa predominava. Os índios não aceitaram ser escravizados e os jesuítas se posicionaram a seu favor. proporcionava elevados ganhos aos traficantes negreiros. Gostaria de saber qual a impressão dos africanos sobre o problema do tráfico escravo para o Brasil? Diana Galliza: Não apenas o quilombo foi uma forma de resistência. que estava necessitando de braços para a lavoura cafeeira. cuja economia estava em franca expansão. por que a gente sempre discutia. particularmente São Paulo. houve um questionamento sobre como os negros lá na África viram essa escravidão ocorrida no Brasil. foi porque sua economia estava em crise. com o professor Antônio Montenegro. 2. semelhante ao clima temperado europeu. onde focaliza com persistência a questão da resistência. não oferecia um mercado de trabalho que motivasse uma migração subsidiada pelo governo imperial. Com a expansão da empresa agrícola açucareira. Uma das razões. como o de São Paulo. tanto que os 180    . bem como o suicídio. É questão que até então não tinha sido despertada. tão comum entre os escravos. inclusive a Paraíba. Eles não aceitavam a escravidão. Na ânsia pelo lucro imediato.Diana Galliza: 1. que está nos visitando. preparando a mão-de-obra indígena para o trabalho agrícola. gradativamente. O Nordeste. o senhor de engenho recorreu à importação do africano que. não atraindo esses europeus. com a intensificação da importação de escravos africanos e com o genocídio praticado pelo colonizador aos nativos a população negra superou a indígena. 4º participante: Maria do Socorro Xavier (Escritora): Quero registrar alguma coisa sobre os quilombos. Quando começou a colonização da Paraíba nas últimas décadas do século XVI. Houve vários tipos de resistência negra. pela qual não ocorreu a migração italiana para a Paraíba. além de constituir força de trabalho nas unidades açucareiras. Além disso o Império subsidiou a vinda do colono italiano para São Paulo. Os quilombos eram formados desde o início quando os escravos chegaram aqui simplesmente por questão de resistência e não como muita gente pensa que era porque estavam fugindo de alguma coisa.

Manuela Carneiro da Cunha. ele poderá escrever um livro e dar uma grande contribuição ao estudo da escravidão no Brasil. isto é uma pesquisa que deverá ser desenvolvida por ele. ESTRANGEIROS. OS ESCRAVOS LIBERTOS E SUA VOLTA À ÁFRICA. Concluído o trabalho. reação do cativo. Sei que escravos. fora. 181    . no livro de sua autoria NEGROS. retornaram à África e alguns deles se tornaram prósperos empresários. também. hábitos e religião. oriundo de Moçambique. Se houve coerção. Os negros conseguiram preservar sua cultura. após obterem sua alforria. consensual. aborda essa questão.estudos recentes sobre a escravidão contestam que ela tivesse sido só coercitiva. interessado em saber como a África vê o problema da escravidão no Brasil. houve. no continente africano. Em relação a seu amigo africano. igualmente. O senhor teve que ceder e chegou-se a um consenso.

Não tenho a pretensão de dar uma aula. que será a debatedora. professor de História na UNIPÊ e UEPB. onde se laureou como Mestre e é Doutor em História pela USP. É formado em Direito. atualmente ele leciona essa disciplina na UNIPÊ e na Universidade Estadual da Paraíba. Mestre e Doutor pela USP) Darei uma feição um pouco diferente no sentido de torná-la mais coloquial. como Aécio Aquino. Vamos trocar algumas ideias em torno do tema e para início de conversa quero chamar a atenção para essas publicações (exibe as publicações) que propõem uma visão nova do tema aqui programado. é membro da Academia Paraibana de Letras e do Conselho Estadual de Cultura. Exprofessor de História da Universidade Federal da Paraíba.. Desnecessário fazer a apresentação do confrade José Octávio. a que ele mais se orgulha é ser o coordenador do chamado Grupo José Honório. pela UFPB e tem curso de especialização em Técnicas de Pesquisa História pela Universidade de Pernambuco. que é figura bastante conhecida de todos. vamos ouvir o professor José Octávio. com o professor Aécio Villar de Aquino. todas da melhor qualificação. Ele sempre diz que dessas posições mencionadas.9º Tema: AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA Expositor: José Octávio de Arruda Mello Debatedora: Inês Caminha Lopes Rodrigues A fala do Presidente: Inicio a sessão compondo a mesa com o confrade José Octávio de Arruda Mello. Todavia. O tema a ser debatido hoje é AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA. que exporá sobre o tema AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA. mais amiga. Expositor: José Octávio de Arruda Mello (Sócio do IHGP e da Academia Paraibana de Letras. que é o nosso Capistrano de Abreu. que será o expositor desta sessão. mais fraternal. Luiz Guimarães e tantas figuras que vejo aqui. de fazer exposição tradicional para pessoas como Wilson Seixas. que são AS LUTAS NATIVISTAS NA 182    . é bom recordar que ele é nosso sócio. Feita esta apresentação. com a professora Inês Caminha Lopes Rodrigues.

onde mostrei que Recife significou o eixo da luta no Nordeste. Esses assuntos também foram abordados nos fascículos publicados pela A UNIÃO. Eu procurei tratar desse tema neste trabalho VIOLÊNCIA E REPRESSÃO NO NORDESTE. O liberalismo vai ser exatamente o instrumento ideológico. por ocasião do domínio holandês. evidentemente.PARAÍBA. depois nos ingleses. No paper que distribuí com os senhores aparece o título LIBERALISMO E SÉCULO XIX NA PARAÍBA. Aí quem realmente tematiza muito bem o assunto é Barbosa Lima Sobrinho num trabalho que foi recolhido das livrarias. as lutas que visam expressar os interesses nacionais para a preservação daquelas riquezas que estavam sendo arrecadadas por grupos estrangeiros. o instrumental. é uma luta de classes. tanto faz AS LUTAS NATIVISTAS NA PARAÍBA como LIBERALISMO E SÉCULO XIX NA PARAÍBA. que se fixaram inicialmente nos portugueses. quando surgiram os motins chamados “mata. porque já ultrapassamos o nominalismo. que está na coleção CADERNOS DO POVO. Depois temos aquele movimento dos Emboabas. No caso dos portugueses essas contradições afloraram dentro da Colônia. em Minas Gerais. mas de trabalhos muito bons. Assim. também chamados). DESDE QUANDO SOMOS NACIONALISTAS. e Recife é uma das expressões mais vivas disso. mas no período colonial as lutas são sempre contra os portugueses. na interpretação de Caio Prado Jr. o ferramental que move essas lutas nativistas no século XIX. Também na Coletânea do IV Centenário. no livro dele. o assunto 183    . uma coleção muito inflamada.. mas eu tenho. que foi uma característica da escolástica medieval na fase da sua decadência. Isso teve um sentido anti-flamengo. depois nos americanos. por que? Porque elas são impregnadas de um espírito nacionalista. Lutas nativistas. que é a mesma coisa. À proporção em que a riqueza vai se adensando os interesses em torno dessa riqueza vão se concentrando e vão surgindo. mata marinheiro” (marinheiros eram os comerciantes portugueses. e os interesses nacionais. quando a gente tem aquela Guerra dos Mascates (que. chama a atenção para o fato de que o nacionalismo resulta de uma contradição entre os interesses estrangeiros. Essas lutas fornecem o pano de fundo para o liberalismo no Nordeste. pés-de-chumbo. que abrange 102 trabalhos publicados no jornal O NORTE. é uma luta entre a burguesia nativista rural de Olinda e a burguesia de interesses externos de origem holandesa e vinculados ao comércio português). Daí Lutas Nativistas. Não importa a denominação. Barbosa Lima. duas correntes: a dos interesses alienígenas e a dos interesses nativistas.

que proclamou a República por ocasião da Confederação do Equador. que foi o Frei Caneca da Praia. Por conta disso. que é um pensador que ficou. as leituras. que aparece como mártir do canibalismo oficial. por conta disso foi aposto seu retrato na nossa galeria. visão a que pretendo fugir aqui. Precisamos dar ao ensino um caráter democrático. E é que me ocorre aqui a respeito dessa questão do século XIX. com Nunes Machado. Areia procura monopolizar esse movimento. que é a chamada Revolução Pernambucana. sim de 1824 e 1848. e no caso a sociedade. inclusive 1801. por conta disso. onde o Instituto Histórico colocou uma placa no centenário de 1817. A grande figura da Confederação do Equador é Frei Caneca. onde a gente vê no quadro de Parreiras quando ele se rende ao pai e na igreja de N. mas. um caráter aberto. Os movimentos nativistas são muito focalizados através da trindade 1817. sobre as rebeliões nativistas ou dessas lutas liberais do século XIX. um barbudo que tem aqui. Nunes Machado foi o grande líder da Praieira. de 1824. que é a Confederação do Equador e 1848/49. É o chamado areísmo. quer dizer. Ao mostrar estes trabalhos eu estou seguindo uma linha do nosso grupo. esse conceito apoteótico dos movimentos de 1817. 1824 e 1848. que é um ideólogo. O caráter aberto é esse. S. que começou em 48 em Recife. até porque esses movimentos não se resumem a essas três etapas. Uma coisa interessante é que as pessoas mais conservadoras de Areia exaltam 1848 e até dizem terem participado de 1817. também. A respeito desses movimentos há uma visão tradicional que procura exaltar o heroísmo de Peregrino de Carvalho. Frei Caneca estava com ele. as fontes. de fornecer as indicações. 1824. através de seus ancestrais. Não participaram de 1817. herói da Confederação do Equador. de Lourdes. que leva o povo para rua e recebe um tiro na testa e cai ali mesmo. Eu não subscrevo.é tratado. que pretende substituir os conceitos pelas indicações. outros aqui quiseram exaltar Felix Antônio. componham a sua própria formulação. que ninguém sabe quem é. não subscrevo esse conceito heroico. um caudilho de Areia. Há muitos outros. Eu não tenho aqui a intenção de dizer isso é aquilo. Acho tal uma visão autoritária da história. final de novembro. não é um sargento-mor que veio de Areia e ficou combatendo e guerreando. esse conceito tradicionalista. a chamada Conspiração 184    . Ele não é a grande figura da Confederação do Equador. os instrumentos para que os educandos. Essa é a visão tradicional das lutas nativistas. como de resto a maioria que faz o Instituto Histórico. É um sargento-mor.

Esse entendimento ninguém pode estar repetindo. que é uma figura avançada em termos de educação. dentro do devenir da história. Até hoje não se ofereceu uma resposta adequada a essa colocação. aqui na fronteira. de ufanismo. faz-se mister a gente substituir esse conceito por um entendimento do processo histórico. era quando muito um representante do despotismo esclarecido. que Arruda Câmara. depois que não havia loja com essa denominação. mas um pesquisador sério. falou-se nessa questão do Areópago e. Para isso. Essa conspiração é de 1801. O fato é que José Gonsalves fulminou essa tese tradicional de que os movimentos 1801. Ai se toca numa questão importante que é objeto de franco revisionismo. Aquela corrente entre o velho absolutismo e o liberalismo. Se esses movimentos se verificam no século XIX.interfere um participante). eu gosto muito de Maximiano. anticolonialista. naturalista. não era partidário do liberalismo. 1817. a partir de sua ação no Areópago. quando lembrei a pesquisa de José Gonsalves. antiabsolutista. Maximiano gostava muito disso. que voltou para cá e espalhou essas ideias pelo Nordeste. se eles começam pela Conspiração dos Suassunas (aí não é uma revolução. um ótimo historiador. José Antônio foi verificar e primeiro verificou que Arruda Câmara nunca morou em Itambé. botânico. Para a gente substituir essa visão heroica. ficou todo mundo calado. Isso teve um impacto tão grande que eu estive num seminário em Pernambuco. naturalista. formado em Paris. é uma conspiração porque é um movimento abortado no nascedouro). 1824 e 1848 eram produtos da ação do ideólogo do liberalismo que foi o padre Arruda Câmara.dos Suassunas. Porque José Antônio mostrou que não tem fundamentação. Esse entendimento está sobrestado. nessa área (incluindo o Areópago de Itambé? . foi inventada por um historiador paraibano que é participante do movimento de 1848. que é um homem muito conservador. combativo. Foi Maximiano Machado que inventou isso. depois verificou o principal. o que a gente precisa é realmente inserir esses movimentos dentro do processo histórico para extrair o seu significado. o que é necessário? Partir do século XVIII. de exaltação pessoal. com a presença do alto comando da historiografia brasileira. Ele analisou a 185    . para alcançar a sua inserção dentro da sequência. entre Goiana e Itambé. que. fulminou na introdução que fez à obra de ARRUDA CÂMARA – OBRAS REUNIDAS (1982) essa história do Areópago. radical. José Antônio Gonsalves de Mello. aliás. mas desse tipo que se deixa levar pela empolgação e então inventou essa história do Areópago e todo mundo ficou repetindo isso.

A miscigenização. que é exatamente o tema de um dos fascículos que apresentei no início da exposição.obra de Arruda Câmara e não encontrou elementos liberais lá. não encontrou liberalismo algum em Arruda Câmara. da integração interiorana paraibana. isso não foi doação portuguesa. ela vem de trás. A Holanda não vive dizendo que é produto da Espanha. a gente precisa realmente retroagir até a segunda metade do século XVIII. Monteiro em 1805. que teve esse aspecto positivo. Como é o século do sertanismo brasileiro. O Brasil não é o litoral. Os Estados Unidos não vivem trombeteando que são um produto da Inglaterra. o substrato desse liberalismo. que não é exclusivamente do século XVIII. Para entender-se essas lutas nativistas. Essa é a tese de Capistrano de Abreu. Este século. em 1803. como vão dizer agora durante o V Centenário. uma forte afirmação do monopólio português. Ele passa por aqui e fala com o Bispo de Olinda. Inclusive os municípios mais distantes da Paraíba vão ser ocupados no finalzinho do século XVIII. que é o século da expansão territorial. Capistrano mostrou nos livros dele. também comportou elemento negativo com o profundo declínio da nossa economia e marca a presença da Companhia de Comércio de Pernambuco e da Paraíba. como todo mecanismo de exploração co186    . da expansão territorial da Paraíba. Porque em primeiro lugar é o século em que se cristaliza a penetração. a integração territorial. O Brasil não é uma criação de Portugal. Arruda Câmara que era uma figura avançada apenas no plano da educação. a integração territorial. já passando do século XVIII para o século XIX. sobretudo a cultura estrangeira. Mas o que foi que aconteceu no século XVIII? Além da integração territorial. O Brasil não é uma nação portuguesa. isso foi um produto dos brasileiros. Isso foi formulado por gente como Domingos Jorge Velho. que nem a nossa língua falava. do seu povo. Ela se cristaliza no século XVIII. a unidade da língua. Só o Brasil que vive com esse colonialismo de exaltar Portugal. ela vem de depois das invasões holandesas entre 1860/70. que expede uma carta para o rei dizendo que esteve aqui um selvagem que nem a nossa língua fala e se encontra apartado de todos os princípios da civilização. O Brasil é um produto do sertanismo. Princesa. bobagem que sempre se repete por aqui. A Paraíba não é o litoral. que organizou uma companhia para melhor explorar a Capitania. Pelo litoral a gente importa os elementos estrangeiros. Essa companhia é uma bomba de sucção. O nativismo vai constituir uma formulação contra isso. Eu acho o século XVIII o século mais importante da Paraíba. O Brasil é um produto da sua gente.

o iluminismo. O fato é que a Paraíba entrou numa situação desastrosa. com o livro que foi publicado durante o IV Centenário da Paraíba. Acho que uma coisa é ligada à outra. deixando de ser uma capitania autônoma e se vinculou a Pernambuco. Essa companhia teve tanto prestígio que o beco onde estava localizada. juntamente com outros três relatórios. Aqui. depois as nossas costas. a professora Elza Régis. Aqui. que se tornou patrono de uma das cadeiras do Instituto por sugestão minha. no século XIX. data vênia. contra a exploração. Nesse relatório ele começa por descrever a situação geográfica da Paraíba. que está no livro de Irineu Pinto DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA. Primeiro as revoluções inglesas (1648 e 1688). Essa companhia é estudada por um historiador de São Paulo. é o liberalismo. onde morava o historiador Archimedes Cavalcanti. ficou conhecido como Beco da Companhia. mas. o ambiente não era bom porque todo mundo queria botar os elementos da família. eu. Vendia caro e comprava barato. pela razão.lonial. atacando virulentamente as Companhias de Comercio. o mundo e 187    . Sua atuação acarretou a perda da autonomia da Paraíba. Ele não se limitou a responder sim ou não. No conjunto formam o chamado liberalismo. E há um documento que reflete isso. rios. De 1753 a 1799 a Paraíba declinou tanto no plano econômico que se refletiu no plano político. que fica entre o Astréa e a Bica. outro quis votar seis. saiu-se muito bem. Fernando Delgado tem uma ruazinha com o nome dele. O rei de Portugal perguntou a Fernando Delgado se a Paraíba tinha condições de retomar sua autonomia. e é um dos sete principais documentos da História da Paraíba. dizendo que são as pestes que avaramente drenam a riqueza das capitanias. Teve um que botou quatro. Tinha havido muitas pressões para acabar com essa dependência interna. O liberalismo estava em evidência a partir das grandes revoluções. É uma linguagem assim. o pensamento destinado a iluminar. Elza Régis acha que essa questão não teve nada a ver com a Companhia de Comércio. as matas e depois entra na parte econômica. onde hoje funciona a ADESG. É o Relatório do governador da Paraíba Fernando Delgado Freire de Castilho. depois vem a revolução norte-americana (1776) e a francesa (1789). quando foram escolher os patronos das cadeiras. Ele escreve um Relatório magistral de 9 a 10 páginas. não penso assim. O instrumento de luta contra essa decadência. Aécio e outros. José Ribeiro Júnior. A gente resistiu. na rua Duque de Caxias. contra essa submissão.

O nosso liberalismo aqui é um liberalismo formal. era o geral. A nação dos ricos. a nação dos poderosos. Gerou-se uma democracia nas lutas holandesas. conservadoras. é uma nação excludente. é produto da fusão do negro. inepto e fujão. João VI era um rei covarde. imagine com relação à Paraíba. É preciso distinguir uma coisa no liberalismo anglo-flanco-americano e outra no brasileiro. portanto. é uma nação de alguns. grande historiador da Revolução Francesa. a França tinha uma coisa que os Estados Unidos e a Inglaterra não tinham. Ora. que era uma cidade com ares de metrópole. Jaurès. do índio com o branco. mas apenas no plano político. não é um liberalismo que pretenda mudanças no plano econômico. dizendo que a Revolução Francesa é uma revolução amplamente burguesa e. E tinha quer ser. no início do século. que era Paris. a nação dos cidadãos e a massa inteiramente destituída de maiores possibilidades. democrática. imagine-se com relação à América Latina. O liberalismo norte-americano é um liberalismo mais bem comportado. Não se tra188    . portanto. na luta contra os holandeses. empurrando o movimento para frente e transmitindo esse élan. naquela EVOLUÇÃO POLÍTICA DO BRASIL. É evidente que o liberalismo era o ferramental. Alberto Torres já tinha visto isso. devido à participação das massas. Isso vai se cristalizar no século XIX. essas diferenças. Essa distinção Caio Prado Jr. imagine com relação ao Brasil. Que liberalismo era o que nós tínhamos? Primeiramente o liberalismo dos senhores de engenho. Estou até fazendo um trabalho para apresentar em Recife sobre D.desfazer as trevas do absolutismo. da guarda nacional. O inglês vai se completar em 1830 com aquelas revoluções chartristas. os índios eram índios aculturados. O francês é mais social. se na matriz do liberalismo havia essas divergências. fez muito bem. o que aliás permanece até hoje. viu isso muito bem. é um liberalismo mais jurídico. Aparece uma história aqui dizendo que o Exército brasileiro é um produto de três raças. Um liberalismo excludente. Os brancos iam entregar armas aos negros para se voltarem contra eles? Iam entregar armas aos quilombos? Iam entregar armas aos índios? Se a nação brasileira surge em Guararapes. é uma nação em que não há igualdade. João VI e eu vou para lá dizer que D. Não é possível! Os negros ali eram negros forros. É como outro mito que aparece. Aliás. movido pelas massas parisienses. Uma coisa é o liberalismo francês. mas ele vai ganhando particularidades. uma cidade profundamente revolucionária. enquanto as outras são restritamente burguesas e.

Ali ele mostra que os deputados perceberam que pertenciam à mesma nação. foi ali que se viram falando a mesma língua. que ficam inteiramente marginalizados no processo político. alguma renda. as ideias estão fora do lugar. padre Carapinima. assistiu à agonia do pai. aliás a Igreja não.. Não é a 189    . mas eles se perguntam logo se os índios são cidadãos brasileiros.ta de mudar a estrutura econômica. século XVIII. como diria Ecléa Bosi. na Bahia. daí 1817 ser conhecido como a revolução dos padres. que foi sacrificado em 1817 e o filho Abreu e Lima. É um liberalismo que cristaliza o poder da burguesia exportadora e dos grandes proprietários em detrimento dos índios. Esse liberalismo permanece convivendo com a escravidão. como Cairu. Esse liberalismo é impulsionado pelo baixo clero. se os negros são cidadãos brasileiros. o baixo clero. Vão se separar em 1874. que foi o responsável pela abertura dos portos. Aqui a Maçonaria se compõe com os grandes proprietários. por ocasião da Questão Religiosa. Joaquim Nabuco tem um discurso forte contra isso. Realmente. e se compõe com a Igreja. Isso vai se refletir na Constituinte de 1823. dos jacobinos. apesar de reacionário e escravocrata. porque houve uma grande participação dos padres. dos negros e dos pobres. porque lá o trono está unido ao altar. Esse liberalismo que aparece aqui é um liberalismo postiço. frei Martinho. Depois consagrando isso vai surgir o voto censitário. Esse é o nosso liberalismo. muito menos a situação social. que começa a se verificar no século XVII. Esse termo é de Oliveira Lima. entre suas camadas mais elevadas identificadas com o colonialismo e as camadas mais ligadas ao povo. evidentemente distanciado do liberalismo francês. à mesma pátria. Também a Maçonaria impulsionou esse liberalismo. Padre Ibiapina. formal. que trata os desiguais. Na Igreja há uma distinção muito clara. A ideia deles é uma ideia excludente. que é A ASSEMBLEIA CONSTITUINTE DE 1823. mas por aqueles outros do Ceará. Há um livro muito bom de José Honório Rodrigues sobre o assunto. onde as pessoas para votar tinham de demonstrar a propriedade de alguns alqueires de mandioca. Quem move esse liberalismo é a Maçonaria e a Igreja. representando a corrente mais avançada da burguesia. o general das massas. histórico e social. Há uma distinção entre a Maçonaria europeia. são missionários mais ligados ao povo. Aparece o Seminário de Olinda com a participação destacada do Bispo Azeredo Coutinho. o chamado voto da mandioca. não somente pelos mais destacados que conhecemos. e a nossa Maçonaria. A Maçonaria francesa é virulentamente anticlerical. padre Mororó. A Maçonaria é uma força de transformação na Europa. o padre Roma.

a mais impregnada desse ardor nativista porque o açúcar era a nossa principal riqueza (o algodão estava ainda aparecendo) e estava sendo explorada pelas companhias de comercio. É quando surge a Conspiração dos Suassunas. aqui ganha uma feição nacional. que era uma forma de descentralização. pela qual vai se bater Frei Caneca. Mais recentemente. que foi publicada pelo Arquivo Nacional na época de José Honório Rodrigues. O liberalismo aqui é a doutrina da emancipação. E por que essa preocupação? 190    . feita dentro dessas bases. no plano da Paraíba. Os constituintes de 1823 discutiram isso. romper com a supremacia de Pernambuco. que é o maior estadista brasileiro de todos os tempos que foi José Bonifácio. Aí começam a pipocar os movimentos liberais impregnados dessa dupla ideia: no plano nacional. Itambé. Mas havia duas outras. uma transformação social. Mas. Uma é a que vai prevalecer sob o comando do grande chefe das forças nacionais. Eles conheciam muito os autores franceses. que nos Estados Unidos significava uma afirmação jurídica e que na Inglaterra possuía um dimensionamento institucional. Pedras de Fogo. uma forma federativa ou confederada. quem apareceu com um bom trabalho foi Maria do Socorro Ferraz – LIBERAIS E LIBERAIS. é a doutrina da independência. um movimento que apareceu nessa zona canavieira. os índios e os que não adquiriam um determinado nível de renda. É a série DOCUMENTOS BRASILEIROS. colocando fora da cidadania os negros. Há uma série de documentos que são fundamentais para a compreensão desse movimento. uma independência controlada pela categoria exportadora. assim como os padres do movimento de 1817. que na Europa significava a ascensão da burguesia. em que as antigas capitanias não ficavam tão amarradas ao centro. São os senhores de engenho que assumem esse movimento. O liberalismo. Havia a fórmula federalista. coloca que em termos da independência havia três linhas. no trabalho dela. três fórmulas. José Bonifácio articula a forma de independência com monarquia através da agregação das províncias por meio do Conselho de Procuradores. Os irmãos Suassuna são senhores de engenho nessa zona de Goiana.mesma coisa que o liberalismo europeu. Socorro Ferraz. os autores norte-americanos. de romper com a tutela colonial. Porque a questão que se põe em foco é a da independência. deslocando essa questão do plano econômico para o social. mais particularmente do Recife.

Esse assunto eu coloco num dos fascículos publicados pela A UNIÃO. Em segundo lugar. sob o título TENSÃO SOCIAL E MOTINS NA REGÊNCIA. Aí se começa uma incrementação ideológica da República. Quando a República se coloca no lugar da Monarquia. 24 e 48 porque são movimentos das camadas mais elevadas. Isso porque a situação da Paraíba 191    . saquear o país. por ocasião do centenário de 1817. O que avançou um pouquinho foi 1817. Aliás.Quando D. que é de vincular o Brasil aos portugueses através da união das coroas. Um colega já me disse que ele não toca na questão da escravidão.. o que explica aquela placa colocada na Igreja de Lourdes. quando a República fica no lugar da Monarquia. não são movimentos sociais. Itabaiana é realmente a cidade que representa o elemento de ligação entre Pernambuco e a Paraíba. Eu gosto muito do trabalho de Socorro Ferraz. fiquei fiel ao nosso princípio de substituir os conceitos pelas indicações. que repercutem aqui na Paraíba e Itabaiana. fórmula que adotou Pedro I (Pedro I tem pouco a ver com a nossa Independência). 1824 e 1848. Por isso estou indicando as fontes. Setembrizada. Como se sabe houve muitos movimentos populares que ocorreram em Recife. porque esses movimentos todos tiveram tendências republicanas. como 1824 e 1848. tirava dinheiro das províncias para mandar para a Corte a fim de manter a corriola dele. Para encerrar. As províncias estavam com muito receio de que uma independência centralizada repetisse isso e assim apelavam para o federalismo. E a historiografia fica somente em 1817. cuja maior expressão era o Frei Caneca. sempre revelei interesse em saber o pensamento de Frei Caneca sobre a escravidão. eles foram muito glorificados no início da República porque se voltam contra a Casa de Bragança. João VI chegou aqui (não teve nada de preparar a independência) o fez com uma corriola para roubar o país. Os movimentos são intensos. Ela mostra que os movimentos têm em vista a flutuação dessas formulações. Assim. o que levou José Honório Rodrigues a considerar ser uma historiografia dos poderosos para os poderosos. aqui. Esse período aí. não só ocorre em 1817. havendo num período entre 1832 a 1838 os que ficam conhecidos como Abrilada. eu pergunto: por que esses movimentos são tão glorificados pela historiografia oficial? Em primeiro lugar. que só sai do Brasil em 1889. os lugares onde passamos encontrar uma visão nova. Havia uma terceira fórmula. Novembrada e ocorrem vários motins de escravos. porque são movimentos conservadores. começa-se a valorizar esses movimentos. de 1801 até 1848. tanto 1817.

era satélite. Assustou-se por que? A Paraíba era caudatária de Pernambuco. Esse era um liberal. da situação educacional. Era isso que José Bonifácio queria fazer com plenos poderes. que é a portuguesa. Em 1824. sobranceiro. cujo mentor foi Antônio Carlos. dizendo que nela residiam as sementes do autoritarismo. Pedro I afasta os Andradas. Não era para fazer como Pedro I. portanto. a de 1817. Pernambuco assustou-se com isso. Transformações da situação agrária. a federativa e a terceira. No seu trabalho ela procura mostrar essas três categorias: a forma da Independência que prevalece. a segunda forma. Era um liberal mais consequente. mas entendo que ela não compreendeu o pensamento do grande Andrada. que era Manoel Carneiro da Cunha (que José Honório ressalta. Há uma carta no livro de Irineu Pinto DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA. que foi aqui representante da Paraíba no Governo Provisório. já falei sobre Felix Antônio. deficiente. Os três irmãos eram grandes. Tinha até um paraibano. A grande figura a ser estudada é Frei Caneca. o coronel Nóbrega. então os revolucionários que formam o Governo – com a participação de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada – elaboram a primeira constituição brasileira. da situação social. era de meios. celebra-se a primeira constituinte e o movimento avança um pouco porque pretende se voltar contra as taxas e impostos que incidiam sobre comércio interprovincial. da potencialização das riquezas. que aliás percorreu a Paraíba. Ela reclama muito da primeira. inclusive ele é contra aqueles empréstimos da Independência. Ele queria se dotar de poderes para realizar transformações. Não é verdade porque o centralismo de José Bonifácio não era de fins. Havia Montezuma. vai usar os plenos poderes para esmagar as províncias. Isso Socorro não percebeu. como aquele pessoal que o cercava. sem José Bonifácio. como aconteceu em Pernambuco e depois no Ceará. onde os pernambucanos pedem aos paraibanos frearem um pouco o impulso do movimento de 1817. a participação de Antônio Carlos aqui no Governo da Paraíba (não sei se chegou a vir até aqui). a Independência com a Monarquia. Acho o trabalho de Socorro Ferraz excelente. 1817 tem. Martim Francisco era muito versátil em questões de finanças. Ele parece que tinha mais brilho que José Bonifácio. aquele caudilho areense que proclamou uma decantada república em Areia. que foi todo preso na dissolução da assembleia constituinte. Antônio Carlos era uma grande figura. e até botaram um retrato dele aqui no Instituto.era muito ruim. em 1826. Esse era o grupo de José Bonifácio. Pedro I. 192    . Aqueles empréstimos são contraídos depois que D. na bravura e no radicalismo). mas era muito soberbo.

a princípio com Pedro I. Frei Caneca era um pensador. Felix Antônio conseguiu fugir. que confiavam muito nele e o admiravam. Maximiano. subiram aquela serra e se fortificaram lá em cima. Vejam o exemplo de Brizola e do pessoal de 64. que foi a corrente mais avançada da Revolução Francesa. Portugal não o matou por causa da interferência dos ingleses. vieram para cá. um liberal avançado. O que ambiciona ele? Todo o poder. Socorro Ferraz diz no seu livro que Frei Caneca possuía um projeto para a independência do Brasil. a Praieira torna-se muito importante para nós por causa de Maximiano Machado. mas não tinha a dimensão ideológica de Frei Caneca. é liberal mesmo. O que está sendo?. em 1823. Esse livrinho começa assim: “Que é o Terceiro Estado? Tudo. bravo. Felix Antônio era um homem corajoso. que se tornou na Paraíba uma figura de destaque. voltou. Nada. José Honório diz assim: Frei Caneca ou a luz gloriosa do martírio. Aécio Aquino está lembrando que quando ele voltou já estava bastante idoso. como sabem. depois com o regresso de 1840. sempre centralizando para abafar os impulsos autonomistas das províncias. A censura não permitiu que fosse publicado o artigo em 1972. Elas foram para Alagoa Grande. Como vocês sabem. recebeu instruções para fechar a cidade aos praieiros. Ele era Delegado Municipal e Juiz de Areia quando as tropas praieiras. consta que ali se contentou com umas bolachas e um pouco de vinho. Frei Caneca esteve preso no extremo Oeste da Paraíba. Quem quiser pense que a repressão é besta. Quando José Bonifácio volta vem muito pacificado. Fecharam a constituinte e expulsaram os Andradas. O exílio parece que amortece muito esse impulso radical das pessoas. O liberalismo radical está nas fron193    . O pensamento de Frei Caneca era muito identificado com o do abade francês Sièyes. enquanto a outra coluna foi para Alagoas. derrotadas na Soledade.” É a frase inicial desse fascículo forte. É o ideólogo de 1824. que tem um trabalho QUE É O TERCEIRO ESTADO. Liberal radical é liberal de esquerda.depois. José Honório tem um capítulo bonito sobre ele num livro chamado HISTÓRIA CORPO DO TEMPO. Mas ele era um liberal radical. a Constituição de 1824 foi outorgada. Enfim. porque José Honório estaria usando Frei Caneca contra o autoritarismo da época. Era o General Médici. e eu relembro que Portugal quis matá-lo. que era o projeto que o centralismo esmaga. tinha méritos. depois com Feijó. Em 1824. esteve em Campina Grande. era um homem ascético. como Delegado e Juiz. Que é liberal radical? Radical é quem vai à raiz.

ao dizer para todos que esta não é minha área de estudo. que é o QUADRO DA REVOLTA PRAIEIRA NA PROVÍNCIA DA PARAHYBA. Então vou direto a algumas questões 194    . que já lecionou na Universidade Federal da Paraíba. menino.teiras do socialismo. que é professora de História. exprime-se um dos mais altos momentos das lutas nativistas da Paraíba que aqui procurei sumariar. que o nosso presidente Luiz Hugo acaba de biografar. presenciou esse episódio. Pois bem. E fugiram tomando diversos destinos. Ele fez o contrário do que instruíram. é doutora em História pela USP. Com o Dr. Maximiano escreveu um grande livro. Maximiano Machado era um liberal radical. teremos a professora Inês Caminha Lopes Rodrigues. donde já se aposentou. como é de seu feito. Maximiano Machado estava entre eles e Ireneu Joffily. Machado. como sempre. mas um convite do professor e colega José Octávio eu não poderia rejeitar. abriu a cidade aos praieiros e fortificou-a contra o Exército imperial. escreveu esse livro. anticlerical. contra as forças da ordem. Abreu e Lima era um. maçônico. Debatedora: Inês Caminha Lopes Rodrigues (Professora de História na UNIPÊ e UEPB. Refugiando-se em várias localidades. mostrando sua forte vinculação com um liberalismo que era nacional. No seu estilo próprio. Os praieiros foram desbaratados na cidade de Areia. ex-professora de História da UFPB) Congratulo-me com os componentes da Mesa e demais participantes. Detalhista. Era o chamado socialismo utópico. A fala do Presidente: A excelente exposição do confrade José Octávio oferece uma valiosa contribuição a este Ciclo de Debates promovido pelo Instituto Histórico. José Octávio fixou a importância das nossas lutas nativistas. leciona na Universidade de Pernambuco na área de Pós-graduação. Maximiano era antiabsolutista. Para complementar sua exposição. mas continua na ativa ensinando História na UNIPÊ e na Universidade de Pernambuco. tinha idéias muito consequentes. avançado. que foi re-editado nas celebrações do IV Centenário da Paraíba por Francisco Pontes da Silva. É doutora em História pela USP. Passo a palavra à professora Inês Caminha. quando eu era presidente da Comissão. registrou alguns fatos pouco enunciados pelos historiadores e fez algumas contestações.

Quando estudamos o liberalismo na Europa. Aécio. Porque quando nós estamos estudando a introdução ao liberalismo. Mas.para deixar espaço para os participantes. uma figura a que Pernambuco não prestou a homenagem que merecia. cujas idéias chega195    . Uma corrente mais conservadora de senhores de engenho. Foi Diretor da Fundação Joaquim Nabuco. eu vejo o movimento de 1848. Ele tem um livro O SENTIDO SOCIAL DA REVOLUÇÃO PRAIEIRA. ele vai tendo diferenciações. Segundo Amaro Quintas. foi formador de toda essa geração de novos historiadores da Paraíba e Pernambuco – Manoel Correia. O professor José Octávio já definiu com bastante lucidez. nesse seu fascículo é o movimento de 1848. exatamente porque em todos os projetos dos revolucionários existia o desejo da aplicabilidade do liberalismo. Eu gostaria de saber do professor José Octávio onde nós poderíamos nos apoiar nesse livro. é o ano do Manifesto do Partido Comunista. quando faz uma inferência que alguns historiadores já caracterizaram nesse movimento. Mas ele acha que dentro da Praia havia. esse grupo já estava nas fronteiras do socialismo utópico. Inclusive ele faz diferenças de formulações abstratas. onde sustenta a tese em que dentro da Praia havia duas correntes. essa preocupação com o socialismo utópico. que o tomo como base. Uma homenagem de avaliar a obra. Morreu e foi enterrado em campa rasa. o liberalismo no Brasil tem outra característica. a diferenciação do liberalismo. que estavam identificados com aquele espírito tradicional do liberalismo. sempre apoiados na professora Emília Vioti – EMANCIPAÇÃO DA HISTÓRIA POLÍTICA DO BRASIL – ela faz uma inferência e distingue bastante o liberalismo voltado para a proteção ao trabalhador. ele tem um significado. um grupo avançado. o hino dos praieiros. Uma das coisas que me chamou a atenção. José Octávio: Quero me referir a Amaro Quintas. todo mundo aluno dele. na prática. Era um grande historiador. Nesse fascículo. Eu me apoiei no fascículo nº 6 da Coleção de História da Paraíba – Independência e Revoluções Liberais. Ele diz que esse grupo era mais avançado porque queria transformações principalmente pela nacionalização do comércio de retalhos. morreu e não prestaram uma homenagem digna a ele. com bastante critério. que era um liberalismo formal do modelo exportador. porque Recife era a praça onde o comércio português anquilosava e dominava muito o comércio local. que ele chama o grupo dos 5000 e transcreve o hino desse grupo. E 1848. Armando. na Europa. sobretudo em Recife. de re-editar os trabalhos dele.

que forçosamente repercutiam aqui. D. Como é que pode haver movimento socialista num movimento dominado por senhores de engenho? Humberto Mello. quando houve aquele Seminário Paraibano de Cultura Brasileira. Um movimento que tinha Gambetta e tinha um caráter popular. mas essa sim foi revolução. Primeiro. Pedro não quis mais prestar a atenção à peça e dizem que a peça terminou e ele ficou lendo os jornais. enfatizamos muito a Constituição de 1823 e a de 1824. Agora. É um movimento que vai terminar nas mãos de Napoleão Pequeno. 196    . radical. o pai dele era.ram aqui com atraso. em Pernambuco havia aquele caso de Vautier. que depois a Comuna de Paris vai aprofundar. aparteando: A propósito dessa afirmação de Amaro Quintas eu queria lembrar que em 1978. José Gláucio é um camarada que se mete a falar sobre tudo. mas não é historiador. e Amaro foi um dos expositores. Seria interessante que o professor José Octávio trouxesse não só para a mesa como para a plateia mais algumas informações a respeito da Constituição de 1817. Era um engenheiro francês que estava introduzindo aquelas ideias aqui. em 1871. De certo modo a Casa de Bragança havia se fundido com os Bourbons. apesar de vitoriosa. coisa que José Gláucio não é. José Gláucio diz assim: Eu não sei onde Amaro foi tirar essa ideia de socialismo utópico na praia. José Octávio: O livro de Amaro Quintas foi prefaciado por Paulo Francis. que na época estava na esquerda. Amaro negou o caráter revolucionário de 30. portanto. Inês Caminha: A outra questão que levanto diz respeito ao movimento de 1817. mas isso não é pacífico. que Gilberto Freyre estudou muito bem. professores de História. Pois bem. temos. então ele estava preocupado com os acontecimentos. Aliás. Nós. José Gláucio não se conformava com isso.. enquanto a praieira foi derrotada. Então Amaro Quintas sustenta que havia um grupo na praia que queria transformações sociais. Parece que ele é sócio daqui. Essas coisas repercutiam aqui. Parece que ele tinha uma rivalidade com Amaro. Pedro II estava no teatro quando chegaram os jornais dando notícias dos acontecimentos de 1848. poucos dados dessa primeira. há um autor que diz que D. o tema João Pessoa e a Revolução de 30. José Gláucio processava um marxismo muito esquemático. Amaro como professor é historiador. inclusive porque ele registra que é a primeira.

de panfletos. Ele suavizou-se mais.que seria a partir da Revolução de 1817. Carlos Guilherme é historiador. É um livro só. já citada aqui. Nunca vi essa Constituição. mas mecanicista. Gostaria que você declinasse como se constituía. Agora virou 12 ou 15 volumes. mais ou menos em 1983. os boletins. em 1817. Que a primeira Constituição foi aqui. Nós estamos. perguntaria em que sentido seria. Aí ele entra um pouco nessa linha de José de Gláucio. que é uma outra realidade. Se estaríamos voltados para a preocupação da revolução industrial. A última questão. publicados pelo Congresso. em plena efervescência do processo da revolução industrial na Europa. Eu tenho esse trabalho. Acho que nos reportaríamos para a questão anterior porque quando fala no caráter de classe. E lá tem a Constituição de 1817. que é sobre Joaquim Manoel Carneiro da Cunha. esse radicalismo de Joaquim Manoel Carneiro da Cunha. nessa fase. que impedia a liberdade de imprensa. mas eu sei onde ela está. não diria sectário. Outra questão da Revolução de 1817 é quando o expositor faz diferença nas duas obras do professor Carlos Guilherme Mota NORDESTE – 1817 e IDÉIA DA REVOLUÇÃO NO BRASIL. Então esses movimentos se valeram muito de folhetins. Não tínhamos jornais aqui. Então ele usa a documentação do período. que outorgou a Carta de 1824. procurando ressaltar Pedro I. É preciso lembrar que estávamos ainda sob o governo de Portugal. Alguém escreveu uma carta e falava na primeira constituição brasileira de 1824.. de achar que o movimento é um movimento de classe exatamente porque era impulsionado por senhores de engenho. quando no fascículo nº 6 da Coleção da Paraíba. sobretudo os folhetos. que ainda não tive tempo de ler. José Octávio: Essa questão da Constituição de 1817 foi levantada numa série de artigos por José Honório na FOLHA DE SÃO PAULO. você enfatizou a questão levantada pelo professor José Honório Rodrigues de que ele foi uma figura de relevo na bravura e no radicalismo. Paulo Bonavides está publicando uma série de trabalhos que condensa uns textos fundamentais para a História do Brasil. diferente da nossa. na prática. Esses 197    . Carlos Guilherme Mota quando esteve no Nordeste para pesquisar sobre 1817 e quando escreveu aquele trabalho. com cerca de 800 páginas. em que se faz inferência a respeito do caráter de classe dessa chamada Revolução Pernambucana de 1817. Então José Honório fez um artigo mostrando que não. Mas sempre notei seu pensamento bastante ortodoxo. Carlos Guilherme avança consideravelmente sobre José de Gláucio. era muito marxista.

quando ele faz uma avaliação da Paraíba naquele momento. o documento que foi re-editado por Marcus Odilon e Wellington Aguiar DESCRIÇÃO DA CAPITANIA DA PARAÍBA. ainda agropecuária. Com relação a Joaquim Manoel Carneiro da Cunha é bom lembrar que a corrente de José Bonifácio estava tocando na questão da terra. Certa vez me perguntaram quais eram os documentos mais importantes da História da Paraíba. Eles estão na raiz da transição da Paraíba ainda patriarcal. de Elias Herckmans. Carlos Guilherme Mota retoma isso com relação a Pernambuco. Esses projetos todos têm o apoio de Carneiro da Cunha. mas o de Herckmans é melhor escrito e mais amplo. Alguns desses panfletos foram escritos em francês. a questão da disponibilidade dos bens portugueses. O século XX. um grupo quase todo economistas do melhor nível. do século XVI. Eu botei o de Fernando Delgado no meio. José Honório acha que nisso aí é que reside a diferença de José Bonifácio com o grupo português. Kátia Matoso estuda a forma de comunicação de todos esses movimentos. No século XIX. No século XVII. foi contemplado com uma capitania por influência de José Américo. Ronald de Queiroz. O documento de Suassuna é muito bem escrito. Depois. Retumba participava do grupo de Irineu Joffily e Albino Meira. quando assumiu aqui juntou um grupo. São relatórios perfeitos pela maneira como estabelecem diferentes orientações e visão dum mesmo fenômeno. que tem um trabalho inteiramente sobre isso: PRESENÇA FRANCESA NA REVOLUÇÃO. acho que o grande documento é o documento do engenheiro Retumba. que é um documento do final do século. pelo menos pré-urbana. que foi Secretário. para a Paraíba urbana. O de Van der Dunsches é mais profundo porque é mais econômico. por Kátia Queiroz Matoso. José Costa e fez um docu198    . é Fernando Delgado. Porque os portugueses estavam voltando e levando os capitais. 1799. onde tem um relatório que fala na rede ferroviária que liga João Pessoa a Pilar. Inácio. conhecia pouco a Paraíba. Para o século XVIII. O primeiro.panfletos são estudados. Burity. como Marcelo Lopes. José Bonifácio queria que esses capitais se tornassem indisponíveis. influenciada por Domitila. na Bahia. tem três documentos: O último relatório de João Suassuna e o primeiro de João Pessoa. E comenta: essa ferrovia liga o nada a coisa nenhuma. foi o SUMÁRIO DAS ARMADAS. na questão da escravidão e na questão que mais inquietou Pedro e a camarilha dele. que foi retomado por Irene Rodrigues Fernandes. Cada um significando um século. re-editado por iniciativa de Francisco Pontes nas comemorações do IV Centenário. para mim. de 1792.

estudado melhor. Coloquei os nomes por áreas. 1º participante: Humberto Mello: (Membro do IHGP e da APL) Havia uma professora que estava fazendo um Mestrado de História na Universidade de Pernambuco. Thomaz Santa Rosa. que abrange todos os aspectos da história e repassar o debate ao público. procurando levantar uma tese sobre a posição paraibana em 1817. como representante da Política. Não botei João Pessoa. Sua pesquisa estava em andamento. é um documento para o Governo Burity. Humberto Mello: Em Irineu Pinto nós vemos mensagens dos pernambucanos reclamando que a Paraíba estava avançando muito e que em 1817 a Paraíba estava muito à frente de Pernambuco. Houve uma enquête de O NORTE nesse sentido. Coloquei Manoel Carneiro da Cunha. onde cita muitos documentos brasileiros.mento de primeira ordem. mas fiquei em dúvida entre ele e Diogo Velho. O primeiro é perfeito. coloquei Anthenor Navarro e Petrônio Castro Pinto fez um artigo dizendo que era minha nova mania. chamado POLÍTICAS. O primeiro tem a parte geral e o segundo é a parte de demonstração de quadros. em termos de conquista. Inês Caminha: Quero agradecer esta oportunidade de ouvir José Octávio. cujo coordenador parece que foi Queiroz. Não é um documento do Governo Burity. Burity que ia assumir. Agora tem um título muito anódino. E eu comecei por Manoel Carneiro da Cunha. Esse é um ponto que seria desejável que fosse aprofundado. espécie de História da Paraíba do Departamento de História da UFPB. quando ela morreu. Botei José Siqueira. São dois fascículos. José Octávio: Foi Lourdinha Vasconcelos. Lembrei-me disso porque me pediram para colocar os cinco maiores paraibanos de todos os tempos. Ela levantou muito material e eu pergunto: onde está esse material? É preciso procurar. que chegou a publicar um artigo naquela revista verde. Pelo que se vê na obra de Maximiano QUADRO DA REVOLTA PRAIEIRA NA PROVÍNCIA DA PARAÍBA e no prefácio que ele fez na História da Re199    . que também teve uma visão econômica extraordinária da Paraíba e do Nordeste do século passado e era um homem avançado para o seu tempo.

2º participante: João Batista Barbosa: É uma indagação que quero fazer a José Octávio. entrando duro na oligarquia chamada “gabiru”. José Octávio: Esse período foi muito agitado. a chamada revolta de Santa Cruz. lá. que você falou aí. Estavam pegando em armas os liberais radicais. São três episódios da História da Paraíba que eu não sei como estão situados no seu contexto. retirou os cargos das mãos dos conservadores. em Monteiro e a terceira. Humberto Melo: Não me parece que o movimento Pastorinha. tem-se a impressão que a adesão da Paraíba à Praieira foi uma questão que inicialmente brotou de um desacordo com o governo local. os reacionários caramurus. É mais uma curiosidade histórica. que muito pouca gente conhece. Segundo. reprimiu grilagem de terras. todas elas pegando em armas. chamados “jurubas”. Quando ele é destituído os praieiros então se inquietam. também. como presidente liberal. foi só um movimento militar cingido dentro do quartel. que termina em 1849. os mais comportados. como a daqui foi a que Humberto Melo falou. Estava todo mundo pegando em armas naquele momento. é a revolta de Jesuíno Brilhante. se enquadre nesses movimentos sociais. botando a polícia nos engenhos. essa no sé200    . Não sei se está ligada à repressão ao cangaceirismo na Paraíba. mas que está ligada à História da Paraíba. que é a mais nova. era senador e não tinha maiores vinculações com a oligarquia.volução de 1817. Pastorinha estava vinculado ao grupo mais conservador. Primeiro é sobre a Campanha de Princesa. De 1770/1780 a 1849 é raro o ano que não se verifica um movimento armado no Brasil. Chichorro era baiano. do padre Muniz Tavares. que aliás teve como vítima uma negra que vendia quitutes. que derrubam Pedro I e estavam pegando em armas. se está ligada às lutas políticas paroquiais. José Octávio: A causa direta do que aconteceu em Pernambuco e que Maximiano levanta é a destituição de Chichorro da Gama. A causa imediata foi essa. com Frei Caneca. com o presidente da província. entre um tenente e um comandante. que não tem muito a ver com a tese debatida. que quase todo mundo conhece. Havia três correntes. tendo Maximiano adotado suas ideias para encaixar-se dentro do ideário da Praieira.

mas que foi um acontecimento histórico. era um domínio completo. No tempo do Império havia o que chamavam o lápis fatídico do Imperador. do Quebra-Quilos. Tinha havido na Paraíba o grupo político de Venâncio Neiva e Epitácio Pessoa. não me parece que tenha sido exatamente uma revolta. houve aqueles movimentos populares do Ronco da Abelha. ele foi Presidente do Estado em dois. para usar a expressão da professora Inês Caminha. ficando a gangorra do poder. Imputaram algumas acusações. o expositor dissesse alguma coisa. aconteceu o seguinte. e um outro irmão Afonso. na mesma época. Pedro II tinha a visão de quão perniciosa seria a perpetuação de uma facção no poder. que fazia essa alternância. Apeava o liberal. Não sei se poderíamos considerar isso como um movimento de revolta. que é especialista em Princesa. etc. Nesses 20 anos. Quando chega na República. Com vinte e poucos anos da República aquilo já estava enfarando. e Jesuíno comandou uma invasão à cadeia de Pombal e libertou um irmão dele e uma porção de gente que estava presa por essa farsa.culo passado. um dos irmãos – João Machado – foi Presidente no terceiro. Vice-presidente. no mesmo pé do que. se fosse possível. mais antigo. Humberto Mello: O caso de Jesuíno. passa 20 anos dominando a política da Paraíba. que ele estudou. Quer dizer. quando foi ministro. subia o conservador. a tese de doutorado dela é sobre as oligarquias na República Velha e a tese de mestrado é um livro publicado sobre Princesa. No tempo da Monarquia D. Gostaria que. Então Pedro II promovia periodicamente uma mudança. em 1912. e vice-versa. Temos aqui a doutora Inês Caminha. Mas isso desapareceu. E Humberto Mello falaria sobre o movimento de Santa Cruz. em cinco quatriênios governamentais. que não foram comprovadas. Agora. que passou somente dois anos no poder. Então ela falaria sobre Princesa. Havia uma implicação que havia uns presos que tinham sido detidos mais por se opor à situação dominante do que por acusação de crimes. Apesar de Epitácio Pessoa ter tido um fôlego extra. E poderia começar pelo caso de Jesuíno. isso desapareceu. 201    . José Octávio: Eu sugiro que sejam distribuídas essas respostas com os participantes da Mesa. Álvaro Machado assume o governo em 1892. da Serra do Lagomar.

Campina Grande. caem os Malta em Alagoas e entra Clodoaldo da Fonseca. compadre e amicíssimo de Deodoro. em Monteiro. foi criado o Partido Democrata da Paraíba. Aí cai a situação de Rosa e Silva em Pernambuco e entra Dantas Barreto. mas eu li o trecho importante que citarei de memória. que era muito amigo de Hermes da Fonseca. etc. Essa carta de Epitácio a um correligionário cujo nome não me recordo. Está no livro de Glauco Soares. eram patrocinadas por Hermes da Fonseca. na Bahia. Nesse último livro de Dorgival Terceiro Neto aparece uma matéria sobre isso. Havia mesmo ligações quase familiares. E assim por diante. Quando Álvaro Machado se viu apertado com o exemplo dos Estados vizinhos repercutindo aqui. Catolé do Rocha. Em 1904 houve um começo de semi-pacificação. Nessa época. Isso foi desgastando a campanha. cuja esposa é Malta. que foi o Coronel José Joaquim do Rêgo Barros. e chegou a ganhar um apelido de “coronel caga-raiva”. que é aderir. e negocia entregando vários municípios aos correligionários de Epitácio: Umbuzeiro. que estava como membro do Supremo Tribunal. Álvaro Machado recorre a Epitácio. de Santa Cruz. Taperoá. inicia-se o chamado movimento das salvações. Ele não era muito simpático. Antônio Lemos. Assis Vidal (pai de Adhemar Vidal) que cooptou os opositores que tinham sido ligados originariamente ao grupo de Álvaro Machado e foram defenestrados para a entrada dos epitacistas. As salvações.. Foi o caso dos Dantas. no começo da segunda década deste século. que era sobrinho de Deodoro (tudo militar). etc. a oligarquia dos Albuquerque Maranhão. tinha sido integrante da primeira assembleia constituinte paraibana e teve seu nome lançado. Então Epitácio 202    . caem os Vianna. do Ceará. Mas. mas preservando a dignidade. Lima Filho. Na carta que Epitácio faz àquele correligionário ele diz que naquela situação só há uma maneira de atingir o poder. Rêgo Barros tinha sido político. explosivo. os Malta vieram ressurgir com Fernando Color. em Teixeira. no Rio Grande do Norte. como os partidos eram estaduais. onde Epitácio era sobrinho do Barão de Lucena. tinha pavio curto. no Pará. Os Acioli. falou com Epitácio Pessoa. comandado por Afonso Campos. Há uma carta de Epitácio a um correligionário quando Álvaro Machado começa a enfrentar cisões dentro do Partido e recorre aos adversários. principalmente no Norte e no Nordeste. etc.não consegui o domínio do Estado. Então tentaram lançar aqui uma candidatura militar de oposição. essa carta está nas obras dele. etc. de Pedro Velho. Rêgo Barros ia fardado aos comícios e levava a tropa fardada também.

de Pedro Nunes. um jornalista campinense. em extensão territorial. passa em Soledade. para Misericórdia. a deposição de Venâncio Neiva. João Batista Barbosa: Quero apartear o ilustre debatedor. Recentemente foi lançado o livro O GUERREIRO TOGADO. quando Epitácio Pessoa está no Ministério. foi uma revolução que terminou com uma buchada de confraternização. Quem estava lá era José Peregrino. segundo José Octávio. onde se tornou juiz. Conta-se até que João Dantas. O vice de João Tavares.consegue junto a Hermes da Fonseca que o coronel Rêgo Barros seja transferido para o Rio de Janeiro. que foi um movimento de coronéis. que era o pai do deputado José Gayoso. A questão da cadeia foi apenas o que deu motivo à explosão. foi o maior de todos. conflagrou aquela zona toda. sobre esse movimento de Monteiro. O movimento que começou em Monteiro vai ao Cariri. Esse nome de Guerreiro Togado vem porque depois Santa Cruz foi para Pernambuco. Ocupou Patos. que era estudante ainda. Jesuíno Brilhante era um rico fazendeiro. Há uma disputa aqui na Paraíba entre José Peregrino. Taperoá. Antônio Massa. furtou o chapéu de Pedro Firmino. Tem até um caso curioso. Mas foram só incursões. Teixeira. possuía muitos cabras. oligarca de Pernambuco. empossou-se no Teatro Santa Rosa e José Peregrino assumiu no Palácio do Governo. e foi preso o parente dele e ele foi lá. Quem decidiu foi Rosa e Silva. articulou-se uma resistência favorável a Venâncio. que era o Vice. Esse movimento de 1912. também com cabras que vieram lá do brejo. para dizer que a chamada Campanha de Jesuíno Brilhante não foi tão efêmera como falou. O de Princesa ficou praticamente circunscrito a Princesa. vem a república da Serra da Estrela. que. que estava no exercício da Presidência da República e reconheceu como titular o que estivesse no Palácio do Governo. líder do movimento. Maior mesmo que o de 1930. A República coincide com os movimentos de autoritarismo local. São do Cariri. Foi necessário que o Governo enviasse três expedições ao sertão para abafar o movimento. surgem duas chapas. os cangaceiros de então. A Paraíba estava com dois governos. Os dois grupos consideraram eleitos seus candidatos. Em 1900. onde ele faz uma biografia de Augusto Santa Cruz. Então houve todos esses precedentes de movimentos de chefes políticos. e João Tavares. Isso são fuxicadas de política publicadas por Cristino Pimentel. candidato de Álvaro Machado. com incursões para Conceição. destruiu a cadeia e soltou o parente e daí revoltou203    . Patos. volta.

do quero e mando” dos coronéis. Realmente. Outras características importantes desse período são a submissão. por exemplo. Porque o estado oligárquico tem alguns fundamentos que são considerados básicos. e morreu na campanha. a reciprocidade. Ele transitava do Rio Grande do Norte para cá. a política profissional. Há vários livros sobre Jesuíno. não uma revolução. mas era extremamente popular. não sei se a primeira ou a última. Todos nós sabemos que a Justiça Eleitoral advém e é uma conquista do processo revolucionário de 1930. todas essas questões envolvem os fundamentos do estado oligárquico. eu entendo o movimento de Princesa como um movimento armado. depois voltou e foi morto no Rio Grande do Norte. veio para Pombal. a luta começou na Paraíba e terminou no Rio Grande do Norte. De 1930 a 1945 é a chamada de Ditadura Varguista. chamamos República Velha. com pessoas que fazem da política uma profissão. o nepotismo. no sentido de que vai quebrar toda aquela estrutura do estado oligárquico. E o mais importante deles é o controle do processo eleitoral pelos coronéis. Porque nós estamos estudando a história da República e ela tem didaticamente uma divisão em várias fases. Quando estamos estudando a Primeira República para contextualizar Princesa. Eu conto esta história porque o primeiro marido de minha primeira sogra era o capitão da Polícia e foi comandante de uma dessas expedições. a lealdade. de 1945 a 1964 ela é caracterizada como a República Liberal e de 1964 em diante é o período autoritário. É tanto que com o Estado Novo. 204    . a malversação do dinheiro público. com a formação do Estado Nacional. nós vamos ter o fortalecimento dos municípios. Humberto Mello: Jesuíno era natural do Rio Grande. como diz o aparteante. e depois temos o processo de abertura. eu entendo o movimento de Princesa como o fim do estado oligárquico. até 1985. que nos períodos de seca tomava recursos alimentícios que estavam trancados nos armazéns e distribuía com o povo. Entre outros fundamentos do estado oligárquico nós temos. Inclusive Jesuíno foi considerado um dos primeiros chefes de cangaço. Primeira República. República dos Coronéis e República Oligarca.se contra uma volante que foi prendê-lo. na Era Varguista. Há uma expressão muito famosa na história que é a “do posso. De 1889 a 1930. Inês Caminha: Em relação a Princesa. era como um Robin Hood. Uma outra característica que também é trabalhada nesse período é a predominância da esfera estadual em relação à esfera municipal e à esfera federal.

Os que existiam foram transferidos para longe ou postos em avulsão. que não vamos abordar agora nessa discussão. o que é que nós temos? Temos que definir os tipos dos coronéis. De certa forma. Nós sabemos. ao realizar eleições razoavelmente limpas para a época. Humberto Mello. João Pessoa irá subverter essas solidariedades. porque ele preenche todas essas esferas. temos o médio coronel. Como muitos eram epitacistas. de um lado. assumindo a presidência do Estado. porque ele na ativa. que é aquele que exerce liderança só no município. teria que fazer continência. se por acaso se encontrasse com Epitácio. o presidente abria espaço para novas lideranças – as mais das vezes urbanas – e confiscava a moeda de troca dos coronéis. Inclusive Camilo de Holanda diz: eu quero ser ouvido e cheirado em tudo. que ultrapassa a esfera municipal e a esfera estadual e temos o grande coronel. que é importante para a gente entender o processo revolucionário de 30. que a força dos coronéis ela está no voto. Por outro lado. que é chamada de solidariedade horizontal e solidariedade vertical. E todos nós sabemos qual foi o fim de Camilo de Holanda. a Revolta de Princesa pode ser considerada o canto de 205    . A reação destes não tem nada de extraordinário. Camilo de Holanda é forçado a deixar a política e é quando começa a fazer oposição. Extraordinário é que a luta de Princesa fundiu-se com outras questões da época e desembocou na Revolução de 30. Se nós acompanharmos toda a correspondência vamos ver que Epitácio dá quase como um ultimato. em aparte: A filha de Camilo de Holanda escreveu um livro onde conta que quando Camilo rompeu com Epitácio pediu para passar para a reserva. Ele passou para a oposição. Nós temos o pequeno coronel. existe a solidariedade. Há um envolvimento depois da morte de Antônio Pessoa. Voltando à questão dos fundamentos. Inês Caminha: Ainda vendo essa questão do movimento de Princesa. Precedendo a esta.Há uma carta de Epitácio Pessoa cobrando de Camilo de Holanda até a louça que ele compra para o Palácio. recusa-se a nomear os parentes dos coronéis para as funções públicas. estadual e nacional. Pessoa estava minando as próprias bases de sustentação. Então podemos caracterizar Epitácio Pessoa como um grande coronel. Ele. ele era Generalmédico. por exemplo. que é aquele que abrange as três esferas: municipal.

termino aqui minhas considerações finais. 206    . Mas experimentou um golpe muito grande. que quebrou muitos de seus vínculos.sereia do coronelismo. Este ainda não acabou. com a Revolução de 30. Em face do adiantado da hora.

URNE e UNIPÊ. Numa breve apresentação do expositor. citando entre eles A TRAJETÓRIA POLÍTICA DE EPITÁCIO PESSOA. É um dos nossos historiadores mais atualizados e atentos à realidade atual.10º Tema: A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA Expositor: Humberto Cavalcanti de Mello Debatedor: Dorgival Terceiro Neto A fala do Presidente: Estamos reiniciando nosso Ciclo de Debates e hoje vamos apreciar o tema A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA. Além dessas obras. com vários trabalhos sobre o tema) Para tratar desse tema A REVOLUÇÃO DE 30 E A PARAÍBA. o qual convido para participar da Mesa. escreveu INSTITUIÇÕES DA PARAÍBA COLONIAL. devo começar citando uma intervenção aqui. que também convido para tomar assento na mesa dos trabalhos. Expositor: Humberto Cavalcanti de Mello (Sócio do Instituto e da Academia Paraibana de Letras. Seus trabalhos justificam o convite que a Comissão Executiva do Instituto fez para atuar neste Ciclo. e A PARAÍBA E A REVOLUÇÃO DE 30. será debatedor oficial o confrade Dorgival Terceiro Neto. posso lembrar que Humberto Cavalcante de Mello é ex-presidente deste Instituto e membro da Academia Paraibana de Letras. A ADMINISTRAÇÃO DE JOÃO PESSOA. Ninguém melhor do que os nossos associados Humberto e Dorgival do nosso Instituto. presidente da Academia Paraibana de Letras. professor da UFPB. convidados que já estão a postos. convido também o acadêmico Joacil de Britto Pereira. JOÃO PESSOA – PERFIL DE UM HOMEM. Ex-professor de Direito da Universidade Federal da Paraíba. para apreciarem o tema de hoje. 207    . exerceu também a magistratura como Juiz de Direito. Passo a palavra ao confrade Humberto Mello. há uma semana. da professora Inês Caminha. cujo título inspirou o tema que vamos debater. da UNIPÊ e da Universidade Regional do Nordeste. que será examinado pelo historiador Humberto Cavalcanti de Mello.

que se iniciou com o golpe militar encabeçado por Deodoro da Fonseca. em 1870. Minas Gerais não aceitou. eleito em 1918. Minas. durando. apresentou um predomínio muito grande das oligarquias. República das oligarquias. E depois veio uma série de paulistas. Cafécom-leite porque São Paulo era o maior produtor de café e Minas Gerais se destacava na criação do gado leiteiro. em termos nacionais. pela Constituição da época devia fazer a eleição para Presidente. uma cidade mineira onde houve o encontro da cúpula governamental brasileira. quando. que era Rui Barbosa. que seria Bernardino de Campos. não chegou a assumir. No final de contas. no sentido de ser o mais populoso e ter a maior representação política. Veio a chamada “campanha civilista”. que deu um golpe constitucional em 1891. República dos Coronéis. Entra o presidente mineiro Venceslau Braz. houve uma reação dos outros Estados. Quando se preparava um quarto presidente paulista. que deixou a fama de ter feito o melhor dos governos da República Velha. e contra a qual São Paulo se levantou.A Revolução de 30 significou o final da Primeira República no Brasil. Essa chamada República Velha. Depois a política do café-com-leite voltou. Rodrigues Alves. sobrinho de Deodoro da Fonseca. Ocorre que Rodrigues Alves. Campos Sales. e depois veio o presidente paulista novamente. portanto. pois veio a falecer. onde se iniciou o esquema que ficou conhecido como “política do café-com-leite”. em 1914. principalmente Minas Gerais. como Vice-presidente. O Partido Republicano tinha sido fundado em São Paulo. o expresidente Rodrigues Alves. era o mais importante Estado brasileiro. e Hermes desempenhou o seu período governamental. em 1889. e por isso São Paulo se achava no direito de comandar o Brasil. Começou a República com dois militares na direção do país: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Ainda no Governo de Rodrigues Alves foi firmado o pacto de Ouro Fino. também chamada República Velha. pouco mais de 40 anos. que era o Ministro da Guerra. Na sucessão de Afonso Pena começou a surgir uma série de disputas e terminou se impondo a candidatura de Hermes da Fonseca. Ainda hoje se discute se a eleição foi limpa ou não. Um. Então tivemos Prudente de Morais. porque tudo indica que foi fraudada. e vai até 1930. quando houve a Convenção de Itu. apossou-se do poder até o fim do mandato do seu antecessor. apoiando o nome civil mais ilustre de então. que esteve à frente do golpe de 1889 e o outro. a esse tempo. Essa política se inicia com o Presidente mineiro Afonso Pena. Hermes da Fonseca venceu. quase setenta 208    . Aconteceu com Rodrigues Alves o mesmo que viria acontecer. que não chegou a concluir o mandato.

muito chegado a dar golpes e com isso criou um atrito forte. Só. Nessa sucessão significava que a sucessão coubesse a um mineiro. uma epidemia chamada “gripe espanhola”. Antes da eleição de Epitácio Pessoa surgiram especulações sobre a indicação de mineiros ou paulistas. muito esperto. Afonso Arinos de Melo Franco. a qual foi realizada e foi eleito o paraibano Epitácio Pessoa. com Tancredo Neves. Eleito. Mas Antônio Carlos tinha a fama de ser um político extremamente matreiro. O próprio Washington Luís não queria. e o mineiro mais indicado era o presidente do Estado de Minas Gerais. que escreveu uma biografia muito boa sobre Rodrigues Alves. para aprovar o orçamento. Há indícios de que Washington Luís tinha um nome em vista. Epitácio Pessoa. Deveria haver a eleição para o cargo de Presidente. pertencente à família mais ilustre da política brasileira. A fraude eleitoral campeava. não assumiu e morreu pouco depois do dia em que deveria tomar posse. A Constituição do Rio Grande do Sul permitia a re-eleição. fatigado. começando a surgir uma certa resistência ao seu nome. que nem seria mineiro nem paulista. O Rio Grande do Sul ocupava uma situação interessante. ao final da primeira guerra mundial. que era mineiro. O regime já estava se mostrando cansativo. se reunia apenas dois meses por ano. adoeceu. descendente direto de Martim Francisco. E o presidente podia ser re-eleito. que era irmão de José Bonifácio – Patriarca da Independência. Rodrigues Alves foi vítima de uma pandemia. era um Estado todo diferente. que estava chefiando a delegação brasileira à Conferência de Paz de Versalhes. O presidente do Estado tinha poderes absolutos.anos depois. Epitácio surgiu como um tertius. como o regime se enfraquecia foram necessários presidentes fortes. embora para ser re-eleito tivesse que ter 75 por cento dos votos. Naquele tempo os Estados tinham um peso muito mais forte do que hoje. aquele domínio de trinta anos seguidos e então Afonso Arinos disse que. pela constituição do Estado. Assumiu o Vice-presidente Delfim Moreira. Era um gaúcho. depois o mineiro Artur Bernardes e depois o paulista Washington Luís. basta dizer que a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. E foram três. uma epidemia que cobriu o mundo todo. Antônio Borges de Medeiros era re-eleito continuadamente. na sua primeira fase. E 209    . Antônio Carlos. conclui essa biografia dizendo que a morte de Rodrigues Alves significou a morte da República.

ou do partido tal. Getúlio Vargas. A eleição seria realizada a 1º de março de 1930. Dos vinte Estados de então. Washington Luís era um homem inteligente. Mas as eleições de Borges de Medeiros foram cansando tanto que. Iniciou-se então um movimento muito sério. Há indícios de que Washington Luís via com bons olhos a candidatura de Getúlio Vargas para evitar a de Antônio Carlos. terminou havendo uma guerra civil interna com a intervenção do Governo Federal. No ano de 1922. que estabeleceu que aquela seria a última re-eleição. diagnósticos críticos sérios sobre a situação 210    . tinha várias obras importantes publicadas. Essa era. havendo a modificação da Constituição Estadual. Na apuração. dezenove adotaram o voto semi-secreto. estive em Porto Alegre. Antônio Carlos se articulou e lança Getúlio Vargas como candidato. de forma que a campanha foi deflagrada muito cedo. declarado. muito autoritário. um paulista sucedendo ao outro. A década de 1920 foi uma década muito conturbada. O voto secreto nenhum Estado adotou.a legislação federal determinava que cada Estado escolhesse a maneira de votar. Houve um ciclo de estudos muito interessante que deu lugar a um livro intitulado À MARGEM DA HISTÓRIA DA REPÚBLICA. Recaiu sua escolha no nome de Júlio Prestes. Mas no Rio Grande do Sul o voto era aberto. o voto chamado semi-secreto e o voto aberto. que foi o centenário da Independência. Ministro da Fazenda de Washington Luís. a situação política do Brasil. culto. Em 1980. mas era de uma obstinação política tremenda. E no período seguinte foi escolhido para governar o Rio Grande do Sul o ex-deputado federal. mais ou menos. segundo o relato de jornalistas da época. com estudos muito aprofundados. houve uma série de eventos. Havia uma cédula onde o eleitor escrevia o nome do candidato e assinava em baixo. as urnas eram misturadas e assim não se identificava de quem era o voto. declarado. que tinha a fama de ser homem sem grande QI. em julho de 1929. a oposição cresceu. Então havia três opções: o voto secreto. Era duro. Então fez a pior de todas as indicações: indicou o governador de São Paulo. Era chamado semi-secreto porque o eleitor quando chegava na cabine dizia ao dirigente da mesa: quero votar em Fulano. em 1923. Terminou Getúlio Vargas não saindo como candidato de Washington Luís. Recebia a cédula e punha na urna. quando houve uma comemoração da Revolução de 30 e vi um exemplar de uma dessas cédulas.

o então tenente Eduardo Gomes. em 1929. havia um clima especial. Ela era formada pelas colunas de Prestes e Miguel Costa. indicado simplesmente porque era irmão de dois oficiais que tinham participado do golpe militar de 15 de novembro: João e Tude Neiva. comandados por um capitão. como já foi frisado em debates anteriores. houve conflito armado. De modo que. que depois tomou o nome de governador. exatamente dois anos depois. que também veio a ser um dos nomes fortes da História do Brasil. logo depois tivemos a fundação do Partido Comunista do Brasil. o general Isidoro Dias Lopes revoltou-se em São Paulo. E a Paraíba como é que estava? Algumas palestras realizadas neste Ciclo de Debate já nos dão conta. para ser Secretário Geral. Em julho de 1924. Para completar o governo de Venâncio. mas ficou conhecida como Coluna Prestes. Passou por grande de parte do país. travou um combate aqui na Paraíba. chamada Coluna Prestes. Mas uma coluna de revoltosos comandada por Miguel Costa. terceiro todo esse movimento militar. Foi nomeado presidente do Estado. passou pela Bahia. um argentino naturalizado brasileiro. ocupou toda a capital paulista. Primeiro o cansaço da política oligárquica. Eram oficiais jovens que não estavam aceitando mais aquela situação. Tivemos a República proclamada aqui. voltou. foi ao Maranhão. da qual um dos participantes veio a ter uma demorada influência na política brasileira. subiu. Tudo isso veio descambar em 1930. até que o Exército reocupou São Paulo. que também tinha um contra-parentesco com Venâncio (a mãe de Epitácio era irmã da esposa de um dos ir211    .do Brasil. E o governo paraibano veio montado. Mas no ano de 22 houve alguns fatos importantes. Houve a revolta do Forte de Copacabana. violento. e. que não teve quem a recebesse. veio Epitácio Pessoa. fugiu e essa coluna mista de elementos da Polícia Militar de São Paulo e do Exército dirigiu-se ao Sul do país. a revolta de uma parte da oligarquia contra a quebra das regras estabelecidas do café-com-leite. em Piancó. Luiz Carlos Prestes. Logo no começo do ano houve uma revolução literária e artística com a Semana de Arte Moderna. Essa junção transformou-se numa coluna que percorreu todo o Brasil. um cidadão que era juiz de direito de Catolé do Rocha: Venâncio Neiva. segundo. como governador do Estado. que era o comandante da Polícia Militar de São Paulo. em julho desse mesmo ano houve a primeira das revoltas do chamado movimento tenentista. Lá no Sul houve um encontro com revoltosos que tinham se revoltado no Rio Grande do Sul. terminou se internando na Bolívia. Nós vivíamos também um ciclo oligárquico. desceu pelo Nordeste.

Essa administração de João Pessoa ganhou um renome nacional. Vez por outra nós tínhamos movimentos armados de chefes políticos. Epitácio tentou contemplar várias alas do partido e foi fortalecido quando chegou à Presidência da República. que se levantavam com jagunços. um outro irmão – Afonso – foi Vice-presidente do Estado em outro quatriênio. com cabras armados. terminando seu domínio. Epitácio Pessoa não tinha filhos. Instalou um domínio político de vinte anos. Chamava-se Álvaro Machado. O partido de Epitácio era muito grande. um dos possíveis herdeiros políticos de Epitácio. E para dar um cunho de legalidade ele tomou posse perante a Câmara Municipal da capital do Estado. o qual em pouco tempo rompeu. de proprietários rurais.mãos de Venâncio Neiva) e o outro foi Coelho Lisboa. quando se comemorou aqui o centenário de nascimento de João Pessoa. Em 1928. Era um domínio familiar completo.. Nesses vinte anos. cinco quatriênios. Aí já estava se concretizando um fenômeno tipicamente republicano na Paraíba. mas tinha três sobrinhos que eram considerados possíveis herdeiros dele. o qual recebe um telegrama do Presidente da República dizendo que viesse assumir o governo da Paraíba. que era um propagandista republicano. cujo episódio já foi objeto de debate neste Ciclo. em 1915 há o rompimento e se instala o domínio de Epitácio Pessoa. houve uma derrubada quase geral nos governos estaduais O que aconteceu na Paraíba? Vem um oficial do Exército que estava servindo na Bahia. de fato. 212    . o que se levantou mostrou que certas inovações administrativas de João Pessoa tinham prenunciado aquilo que se instalou depois de 30. um irmão – João Machado – exerceu outro quatriênio. João Pessoa fez uma administração em que realmente modificou uma porção de coisas. foram feitos debates a respeito e em 1980. que durou três anos. Em 1912 morre Álvaro Machado. Quando Deodoro saiu da Presidência. Epitácio Pessoa resolveu indicar um sobrinho para a sucessão paraibana – João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. forçado a renunciar. Álvaro foi presidente do Estado duas vezes. eu participei de alguns debates e. Em 1912 houve um desses. e como em todo partido grande que está no poder todo mundo quer participar e começam as cisões. Houve uma tentativa de conciliação. quando se comemorou os 50 anos da Revolução de 30. Em 1978.

procurou-se um Vicepresidente para equilibrar a disputa. o partido recebeu o apoio de um dissidente do grupo de Epitácio. Em 1928 se funda um outro partido. As eleições. é escolhido João Pessoa como candidato. Os partidos mais importantes eram o PRP – Partido Republicano Paulista. que era o desembargador Heráclito Cavalcanti. àquela época os partidos eram estaduais. Em Campina Grande. Wergniaud Wanderley. os oposicionistas procuraram uma pessoa do Norte. veio uma comitiva paulista. apesar de viciadas. Com Minas no Centro e Getúlio no Sul. Não havia suplentes. do médico José Maciel. alguns deles se projetaram bastante na política paraibana. Estácio sofreu pressão. Naquele tempo nós tínhamos dois partidos políticos. dirigido pelos adversários de Epitácio. que tinha uma nova mensagem. comandado por Epitácio Pessoa e o Partido Republicano Conservador.Quando foi lançado o nome de Getúlio Vargas. Antônio Pereira Diniz e outros. Luiz de Oliveira e outros mais. Como se sabe. João Pessoa assumiu o governo no dia 28 de outubro. da Bahia para cima tudo era o Norte. PRM – Partido Republicano Mineiro. Na Paraíba tínhamos o Partido Republicano. pois naquele tempo as pressões governamentais eram muito fortes. que recusa o convite. Assim. tinha que re213    . tendo à frente um cidadão que não exercia cargo político. e o PRR – Partido Republicano Riograndense. chamado Partido Democrático. O primeiro nome em que se fixaram os oposicionistas foi o governador de Pernambuco. Estácio Coimbra. Naquele tempo não havia Nordeste. Essa turma nova queria uma oposição mais efetiva e aqui na capital contava com o apoio de João da Matta Correia Lima. Então a Associação Comercial pressiona Estácio Coimbra. como Argemiro de Figueiredo. No dia 31 de dezembro houve eleições municipais. quando um deputado assumia uma Secretaria. Quando esse Partido Democrático se fundou aqui na Paraíba. que era o dia de posse tradicional dos governantes paraibanos. o ex-deputado e ex-senador Octacílio de Albuquerque e de uma turma nova que era da oposição e que achava que a oposição comandada pelo desembargador Heráclito Cavalcanti estava cansada. Eram os partidos mais fortes nos Estados. Quando levantaram o nome de Estácio Coimbra o gerente do Banco do Brasil do Recife chamou o presidente da Associação Comercial e disse que se o Estado de Pernambuco ficasse contra o Governo Federal o Banco do Brasil ia executar todos os devedores que tinha lá. mas que era um grande chefe político. Elas eram constantes. eram rotineiras. que vinha de São Paulo com uma tentativa de renovação.

que se aliou a João Pessoa. Nessas eleições municipais esse Partido Democrático fez dois vereadores na capital. leva. É preciso lembrar que na Paraíba não havia eleição para prefeito. tivemos gente que era da oposição tradicional do desembargador Heráclito Cavalcanti e um bocado de gente que tinha saído do partido de Epitácio e estava com raiva de João Pessoa. E o pessoal da oposição já estava se preparando para apoiar Getúlio Vargas. João Pessoa reconheceu a vitória da oposição. as Câmaras fraudarem as eleições. Flávio Ribeiro. Em termos políticos aqui na Paraíba. De repente João Pessoa sai Vice de Getúlio. comandada pelo ex-governador Walfredo Leal. a oposição fez dois vereadores. com exceção do Partido Democrático. o que se esperava era que João Pessoa. os prefeitos eram todos nomeados. Eram nove vereadores. Pelo menos em dois municípios. Naquela época não havia Justiça Eleitoral. tio do nosso confrade Marcus Odilon. Em consequência. De forma que havia sempre uma vaga para preencher. Na oposição. no Estado também havia os suplentes. gente que era da oposição ficou com ele. havia toda sorte de manipulação. pai do ex-governador Antônio Mariz. Aconteceu em Sousa com o grupo chefiado pelo advogado José Mariz. destacando-se Anthenor Navarro. uma parte do partido de oposição. Ao lado de João Pessoa ficou a maioria dos antigos correligionários de Epitácio. uma parte mais recente e um pessoal que era um tanto desligado de política e ficou empolgado pelo movimento de renovação. e em Piancó. como gratidão. As eleições eram presididas pelo Juiz Federal da capital e em cada município havia três suplentes de Juiz Federal. Mas. ainda tinha que passar pela Comissão de Reconhecimento da Câmara de Deputados ou do Senado. muitas vezes. Entre as medidas de caráter político que João Pessoa tomou resolveu reconhecer os resultados das eleições: quem ganhar a eleição. como todo governo dos Estados. tivemos uma mistura. Quando se começou a falar na campanha sucessória presidencial. o domínio de uma família que tinha sido escorraçada por Epitácio Pessoa – a família Leite. inclusive Dr. Acontecia. Só havia eleição para os Conselhos Municipais. Essa Comissão de Reconhe214    . ficasse com o Presidente da República. Quando o cidadão era eleito deputado federal ou senador. Aí a turma da oposição passa a apoiar Júlio Prestes. que hoje são as Câmaras de Vereadores.nunciar.

com mandato para nove anos. Em 1930 houve as eleições para Presidente da República. mesmo eleitos pela oposição ao Governo Federal. o jovem estudante Nelson Carneiro. a família Távora. cujo mandato era de três anos e a eleição para um terço do Senado. Mello Viana. Nos demais Estados havia gente que apoiava Getúlio. no Rio de Janeiro. Havia uma dissidência no Rio Grande do Sul. Mas todo mundo da oposição foi “degolado”. ao fazer a defesa de alguns senadores. Com esses acordos a idia de um movimento armado desaparece. em Pernambuco. a bancada do Rio Grande do Sul e dois terços da bancada de Minas Gerais. para Getúlio-João Pessoa. Era o costume. Havia um senador. Em Minas Gerais fizeram uma composição: reconheceram dois terços dos candidatos que tinha apoiado Getúlio e um terço do outro lado. Em 30 houve essa coincidência. a situação estadual era forte. A chapa presidencial teve cerca de 30 mil votos. Esta coincidiu com a eleição para Deputado Federal. comandada inclusive pelo Vice-presidente da Republica. Mantém válidas as eleições para Presidente da República e anula as de deputados e senador. nós tínhamos mais ou menos 40 mil eleitores. Até que surge um fato que teve origem pessoal. Carlos de Lima Cavalcanti. assassinado por um desafeto político e depois pessoal. cujo mandato era de quatro anos. em Santa Catarina. em números redondos. na Bahia. Há um trabalho do advogado Mário Bulhões Pedreiras de Carvalho que mostra isso. havia eleições para deputados federais e um senador. mas que teve uma consequência política tremenda. Agamenon Magalhães. Pouco mais do que isso. Nereu Ramos. o que aconteceu? Dizem que houve um acordo secreto entre Washington Luís e o comando da política gaúcha – Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. que foi João Dantas. de três em três anos. a não ser. Por exemplo. e com isso a chapa da oposição ganha. O que fez a Junta Eleitoral? Anulou as eleições para deputados e senador em vários municípios. Só para citar algumas figuras que depois brilharam no cenário político brasileiro. Maurício de Lacerda. que era de oposição. a chapa de oposição Júlio Prestes-Vital Soares teve 10 mil votos aproximadamente. Assim. 215    . Na gíria política esse costume era chamado de “degola”. que foi a morte de João Pessoa. Aqui na Paraíba. como já frisei. Quando chegam os resultados de todo o Brasil ao Congresso.cimento muitas vezes desprezava o resultado e proclamava eleito o vencido. Em Minas Gerais também não havia união. Paim Filho. no Ceará. Todos os deputados do Rio Grande do Sul foram reconhecidos.

Um pouco antes havia ocorrido um fato curioso. Inicialmente tivemos Valdevino Lobo.A morte de João Pessoa causou um impacto violento em todo o Brasil e foi muito bem explorada politicamente. Ele tentou expandir. Na Paraíba nós tivemos alguns desses no curso da República. Então o comandante do movimento foi um coronel alagoano que servia no Rio Grande do Sul e que depois se tornou um nome forte: Pedro Aurélio de Góes Monteiro. que mandava no sertão quase todo. Ele sustentou uma luta armada em Princesa. que. Então. ocupada pelo o comando da Região Militar. companhias e batalhões do Exército de outros Estados vizinhos foram trazidos para Campina Grande. mas não conseguiu êxito e a Polícia também não conseguia entrar. que dominavam somente nos municípios e coronéis que tinham um domínio regional. havia uma presença militar muito grande na Paraíba. a ideia do movimento armado. até chegar ao Rio de Janeiro. que havia coronéis pequenos. O comandante do 22º Batalha de Caçadores. e convidou Prestes para vir comandar o movimento armado aqui. Siqueira Campos. Prestes se recusou porque a esta altura já estava convertido ao marxismo e achou que aquele movimento não levaria a nenhuma renovação. sendo a capital. também era tido como coronel. apesar de ser médico. um dos tenentes mais destacados. comandada por José Pereira. que vai tocando todos os Estados. O corpo de João Pessoa embalsamado foi transferido do Recife para aqui e daqui saiu num navio. que chegou a um impasse. de Pinheiro Chagas. Santa Luzia. mandou colunas armadas. retornou. que já estava adormecida. Por essa razão e por outras. não era um coronel propriamente dito. num dos debates deste ciclo de estudos. Era o mais importante dos coronéis de 1930. aquelas rebeliões coronelescas estouraram por conta de movimentos políticos. José Pereira Lima era um coronel. que fora extinta em 1915. praticamente. onde estava exilado o comandante da Coluna Prestes. Mas José Pereira era um coronel de alto destaque. surgiu Felizardo Leite. sediado em Cruz das Armas. título dado a grandes proprietários. foi a Buenos Aires. Sousa. de Catolé do Rocha. Havia os coronéis do tempo da Guarda Nacional. esse domínio no sertão passou para José Pereira. como a rebelião de Princesa. em Piancó. Inês Caminha falou. Em cada um se levantava a oposição. Quando Felizardo Leite rompeu politicamente. era o coronel Estevão d’Avila 216    . Patos. onde foi recebido com discursos inflamados de Maurício de Lacerda. Como falei anteriormente. etc. Depois que Valdevino Lobo morreu. em 1915.

era também irmão do prefeito da capital. Vieram telegramas urgentes para o comando do 22º Batalhão de Caçadores (22 B. mas tinha uma influência muito grande. transferiram o coronel Estevão d’Avila Lins para o Rio de Janeiro. Houve troca de telegramas cifrados e a revolução foi marcada para 3 de outubro. Borja Peregrino. e Diretor do Pronto Socorro. não deixou que chegassem ao comando. fardas fornecidas por esses tenentes aos civis Anthenor Navarro. Juarez tinha sido um dos dirigentes da Coluna Prestes. comandante da Região Militar. Agildo Barata. Artur Sobreira. Trouxe quatro tenentes que ele supunha serem da mais absoluta confiança.Lins. nosso confrade e tio do consócio Guilherme d’Avila Lins. Há depoimentos informando que foram vinte e tantos que invadiram o quartel. que se encontrava em João Pessoa. Quando se soube dessas ligações. onde já se tinha iniciado o movimento revolucionário. Esses quatro tenentes tiveram projeção na vida política: o próprio Juarez Távora. e o general Lavanere e outros ficaram feridos. sócio do Instituto. Uns quinze invasores correram. Tomado o quartel. mas houve uma reação. Basileu Gomes. O outro era Paulo Cordeiro. Havia uma companhia que sempre ficava de prontidão. que foi presidente do Instituto e do médico Antônio d’Avila Lins. Os telegramas eram dirigidos ao general Lavanere Wanderley. O coronel Cardoso avisou que traria com ele gente de sua confiança. Porque havia outros oficiais que o general havia trazido e quando eles perceberam o movimento atiraram para cima. dirigiram-se para o Recife. mas houve um grupo menor que Agildo Barata dá o nome de todos os que ficaram e lutaram. Quando se pensava que a situação militar daqui era tranquila estavam aqueles tenentes organizando o movimento. O movimento começou à tarde do dia 3 em Belo Horizonte e Porto Alegre. Juracy Magalhães e Jurandir Mamede. mas todos quatro estavam comprometidos com o movimento. C. José d’Avila Lins. Ao final.) para que se tomassem todos os cuidados. houve a invasão do quartel por civis fardados de oficial do Exército. Odon Bezerra. estava preso no Rio de Janeiro na Fortaleza de Santa Cruz. na beira do mangue. Foi organizado um esquema em que a companhia de prontidão ficou sob o comando de Juracy Magalhães e o oficial-de-dia era Agildo Barata. Agildo Barata interceptou todos os telegramas. Eram os chamados tenentes de Juarez Távora. Teve gente que desceu pela ladeira da Graça e foi bater perto do rio. Quando deu meia noite. E foi trazido para cá o coronel Maurício Cardoso. terminaram morrendo os tenentes Reis e Sílvio Lobo. No Recife ainda houve luta durante algum tempo. Mas nos outros Estados do Nordeste aconteceram as cha217    .

Quer dizer. Atribui-se a Washington Luis uma frase: “A questão social é caso de polícia”. alguns líderes militares. até que fosse deposto Washington Luís. até que Getúlio Vargas assumiu o Governo Provisório no dia 4 de novembro. Porque o operário de férias não tinha o que fazer. tomar cachaça. O comandante da unidade militar do Rio Grande do Norte. quando o governador abandonou o Governo. na qual dizia que as férias para os operários eram extremamente prejudiciais. onde estava previsto um encontro na cidade de Itararé. telegrafando que estava chegando. Eu vi algum tempo uma proclamação da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Assim terminou a chamada República Velha. dirigindo-se para São Paulo. que era uma companhia. em lugar de ir para o trabalho direitinho ele ia passar dez ou quinze dias em casa sem ter o que fazer. que fica na fronteira de Santa Catarina com São Paulo. o problema do trabalhador era meter o pau. No Pará. O governador do Rio Grande do Norte era um homem inteligente. Ele se recusou. estava toda em Campina Grande e era comandada pelo tenente Aluízio Moura. Sebastião Leme. jogar. Isso foi a Revolução de 30. tendo o tenente Aluízio Moura voltado às pressas para Natal. aconselhando sua renúncia. comandada pessoalmente por Getúlio Vargas. porque. convencido Washington Luís a renunciar. e estabeleceu o voto secreto obrigatório em todo o Brasil. ia fazer o que não prestava. Previa-se que seria a maior batalha da América do Sul. Isso aconteceu no Ceará. esse foi o movimento militar. E o que essa revolução fez? Primeiro. seguiu uma coluna de trem. Em suma. afinal. Só houve alguma resistência no Maranhão e. principalmente. tendo o cardeal D. após alguma luta. Tentaram fazer uma manobra para ficar. nem salário mínimo. antes disso. a Revolução procurou moralizar as eleições. o que não aconteceu. em 24 de outubro. Depois se diz que a maior batalha da América do Sul não houve. 218    . Do Rio Grande do Sul. ia beber. houve um impasse. no Piauí. no Pará. o governador Eurico Vale só se entregou no fim. Quando Getúlio Vargas chegou ao Rio de Janeiro os militares não estavam querendo entregar o Governo. mas era muito violento e garantiu segurar o movimento. escritor.madas deposições por telegrama. culto. entre eles os generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e o almirante Noronha estiveram com Washington Luís para dizer que a situação estava insustentável (faltavam 20 dias para Washington Luís deixar o Governo). implantando a Justiça Eleitoral. De modo que era mais salutar para a moralidade do operário não ter férias.

A previdência. também não era necessária. Aí. Nenhum dos partidos estaduais sobreviveu. Isso tudo foi implantado pelo movimento de 30. tendo uma projeção grande. no Rio de Janeiro. Foram criados o Ministério da Educação.jornada mínima de trabalho. dos atores políticos que atuaram até antes de 1928. João Neves da Fontoura. Houve várias modificações administrativas. os Partidos Republicanos sobreviveram. O jornal A UNIÃO tem um documentário precioso sobre essa fase da Paraíba. O Partido Republicano da Paraíba – partido de Epitácio – simplesmente se acabou. Maurício Cardoso. prefeitos municipais. inicialmente. Quando das eleições para deputado constituinte. nos exemplares de A UNIÃO da nossa Biblioteca. ou que exerceram cargos políticos de nomeação como secretários de Estado. Ele nem sabia do movimento. Lindolfo Collor. mas o Governo do Norte. Batista Luzardo e outros mais. em 1933. Álvaro Pereira de Carvalho. a reviravolta foi enorme. Não foi dissolvido. que não participava em nada no movimento revolucionário. Os senhores. se desejarem pesquisar. exercendo cargos eletivos como senadores. e verifiquei que não chegam a 20 os nomes daqueles que tiveram militância política depois de 30. e só. Em termos de política paraibana. Vieram a cavalo e cometeram a bravata de amarrarem seus cavalos no obelisco que havia no começo da avenida Rio Branco. deputados federais e estaduais. não lograva êxito. não apenas o Governo do Estado. Eram Oswaldo Aranha. Aqui na Paraíba e no Rio Grande do Norte. mas os seus secretários conspiravam ocultamente. O Ministério Vargas era dominado por gaúchos. Assim. o qual teve uma votação irrisória. Quem dominou o Brasil? Os gaúchos. a Paraíba governou o Norte. 219    . oficialmente. O Partido Republicano Conservador emitiu uma ou duas notas. com a saída de Álvaro Pereira. quem assumiu a presidência do Estado foi seu Vice-presidente. mas desapareceu. indo José Américo para o Ministério. Nos outros Estados. o advogado Severino Alves Ayres. Quando João Pessoa foi assassinado. cuja tentativa do deputado Eloy Chaves. vão encontrar inúmeros atos de José Américo nomeando gente para cargos federais. o Ministério do Trabalho e várias outras coisas. 30 marcou não só os rompimentos em termos políticos como houve uma renovação administrativa muito grande. não se encontrando qualquer manifestação dele. Mas a Paraíba conseguiu projeção. Fiz um levantamento dos personagens. o Partido Democrático apresentou apenas um candidato. etc. quem assume o Governo é José Américo de Almeida.

que já tinha morrido. Às vezes. em 1979. que já tinha morrido. José Américo conta no depoimento que deu à Fundação Getúlio Vargas. que estava em poder da neta dele. houve uma grande modificação. Eu fui trabalhar nesse setor e. que nesse tempo estava brigado com o irmão João (que depois foi Presidente da República). do general Euclides Figueiredo. onde se gravavam depoimentos de pessoas que tiveram atuação. A situação não tomou conhecimento. quando essas pessoas não estavam vivas. que era eleito pela Assembleia. para implantar um setor de História Oral aqui. Em 1978. que foram recebidos pela encarregada do setor. Em 1934 houve eleição para senador. a Fundação Getúlio Vargas fez um convênio com a Universidade Federal da Paraíba. que tem uma produção interessante. foi grande. que foi receber Epitácio Pessoa no porto do Recife. de Lindolfo Collor. quem prestou depoimento foi o filho mais velho. uma mulher inteligente e culta. Passei lá mais de um mês. Celina Vargas do Amaral Peixoto. O CPDOC foi criado a partir do arquivo de Getúlio Vargas. Por exemplo. Fizeram muitas perguntas e constatei que lá já existiam 27 entrevistas com paraibanos. Foi criado um Núcleo de História Oral. fiz um estágio na Fundação Getúlio Vargas. que está transformado em livro. e quando estava lá chegaram uns estudantes. No começo da década de 70 a Fundação Getúlio Vargas criou o Centro de Pesquisas e Documentação da História do Brasil – o CPDOC. ele deu um depoimento de tal forma que não fala no nome de João. 220    . Ela verificou que para começar a história de 30 para cá tinha que começar desde 1922. Guilherme. nem foi tomado conhecimento. por articulação feita pelo nosso consócio Oswaldo Trigueiro do Valle. Nós colheríamos entrevistas dos paraibanos daqui e as mandava para o CPDOC e o CPDOC nos mandava os depoimentos que os paraibanos tivessem dado lá. Eu li o depoimento de Guilherme Figueiredo. Temos de reconhecer que a presença paraibana. que era Aspásia Camargo. Então uma estudante perguntou: por que essa preferência pela Paraíba? Aspásia disse: você não pode desconhecer a participação que a Paraíba teve em 30. colhia-se depoimentos de filhos. Como se vê. nesse tempo dirigida por Linaldo Cavalcanti. quando este estava voltando da Europa. apesar de se concretizar em José Américo.De Epitácio Pessoa. e a oposição levantou dois nomes de vulto: Epitácio Pessoa e Castro Pinto. foram colhidos depoimentos das filhas dele. Então o CPDOC cobriu de 22 para cá. apontado como uma grande figura. e foi recriminado pelos tenentes de 30. De modo que a Paraíba teve esse papel relevante.

A Revolução de 30. Historiador nato. trazendo-nos um quadro completo da Revolução de 30 na Paraíba. em vez de embarcar no Recife veio se despedir da Paraíba e embarcou no navio em Cabedelo. mas isso tudo é somente a Revolução Pernambucana. Daqui partiram as decisões para cobrir o Norte e Nordeste. Nosso saudoso confrade Octacílio de Queiroz já havia dito: “tire-se 1930 e a Paraíba fica sem nada”. As colunas saíram daqui para combater os centros de resistência. Em 1930. Vice-Governador e Governador do Estado. professor qualificado da Universidade Federal da Paraíba. mas oficialmente fica atrás. que teve esse significado marcante na História do Brasil. Em conversa. a Paraíba em termos ideológicos esteve muito mais avançada. Em seguida vamos ouvir nosso consócio Dorgival Terceiro Neto. a partir de 1644. Em 1817 – José Octávio falou nisso na última sessão do Ciclo de Debates – naquela revolta nativista em que a Paraíba teve um papel destacado. em carta que fiz ao jornalista Gonzaga Rodrigues. Procurador do Estado prefeito da capital. A fala do Presidente: Pelos aplausos concedidos ao final da exposição do historiador Humberto Mello. Dorgival além de pertencer ao nosso Instituto é membro da Academia Paraibana de Letras.Certa vez. o cargo que ele dá mais importância é ter sido Redator do jornal A UNIÃO. onde também exerceu importantes funções administrativas. eram os paraibanos. conferen221    . Sempre dedicado às letras e à história. não. atual Vice-presidente deste Instituto. teve um significado muito maior em termos da Paraíba. o domínio holandês ficou circunscrito ao Forte de Cabedelo. A Paraíba era uma Capitania destacada. A capital Frederica estava ocupada pelos rebeldes. que era maior na Bahia. podemos aquilatar o valor de sua palestra. tanto que quando Maurício de Nassau teve que voltar para Holanda. em sua carreira funcional exerceu os cargos de Secretário do Tribunal de Justiça. O livro de Irineu Pinto transcreve cartas trazidas do movimento de Pernambuco reclamando que o pessoal da Paraíba estava querendo muita coisa em termos de progresso. num movimento cujo principal comandante foi André Vidal de Negreiros. A Paraíba tem destaque na história nacional. desde os primeiros passos daquele movimento que derrubou a República Velha. registrei que em 1654 os holandeses foram expulsos do Brasil. Mas isso é conhecido como a Restauração Pernambucana. A carreira ascensional de Dorgival Terceiro Neto mostra seu valor: Jornalista primoroso. Em 30 a Paraíba teve comando. Nos últimos dez anos.

é uma indagação.cista de primeira água. Basta dizer que Bernardes tirou todo o seu período governamental. ex-professor da UFPB. Luís Carlos Prestes à frente depois que Mi222    . do primeiro ao último dia. extremamente autoritário. chegou à Paraíba com cerca de 3 mil caminhantes provavelmente. ex-prefeito de João Pessoa e ex-governador do Estado) O expositor Humberto de Mello praticamente esgotou a matéria. tem uma memória fantástica. Que é que essa gente fazia. principalmente da juventude. a quem passo a palavra. membro da Academia Paraibana de Letras. Debatedor: Dorgival Terceiro Neto (Atual Vice-presidente do Instituto.” Mas ele falou no início na Coluna Prestes e há sempre uma indagação. É como ele diz. por exemplo. ainda indiferente à situação do país. tem vários trabalhos publicados. em estado de sítio. Ele se vale do privilégio que tem de muita cultura e memória muito boa. Aqui na capital do Estado. que era um homem de temperamento complicado. Então essa Coluna procurava fazer um levantamento pelo Brasil e havia uns tenentes que procuravam ecoar. HISTÓRIA DE SEMPRE e PARAÍBA DE ONTEM. narrador de estilo agradável. Os dirigentes da Coluna Prestes. citando Octacílio de Queiroz: “a Paraíba é 30 e o resto é o resto. EVOCAÇÕES DE HOJE. dois tenentes – Aristóteles de Souza Dantas e Lourival Seroa da Mota – atuaram quando a Coluna Prestes desceu do Ceará. e talvez essa indagação seja de todo o auditório: saber quais os objetivos da Coluna Prestes. A mim mesmo tenho perguntado muitas vezes: Qual era o objetivo da Coluna Prestes? Que diabo a Coluna Prestes queria. Praticamente esgotou a matéria sobre 1930. passou pelo Rio Grande do Norte e entrou na Paraíba. Humberto. O objetivo era sacudir o povo. no seu entender? Não é nem debate. jornalista. entre eles GENTE DE ONTEM. Humberto Mello: Quando a Coluna Prestes se iniciou quem estava no Governo era Arthur Bernardes. além de ser um estudioso e pesquisador sério e só relata aquilo que ninguém tem condições de fazer contradita. Ele é muito proficiente. nessa vilegiatura que andou pelo país todo e terminou nas encostas da Bolívia? Estou aqui mais como indagador. Era uma multidão. passaram em Piancó e fizeram aquele destroço. Dizem que tinha ainda muita gente em Curema enquanto vinha gente chegando em Piancó. Está aí o perfil do nosso debatedor.

Dorgival Terceiro Neto: Na realidade eles percorreram o meio rural. Joacil Pereira. Juarez e Prestes chegaram a trocar cartas em 30 e romperam. um dos homens mais caluniados do Brasil. João Alberto. exerceu funções no executivo e no legislativo e foi interventor de São Paulo. chamando-o meu comandante. aproveitando-se de um momento propício para poder conquistar a Presidência da República. João Alberto foi vereador no então Distrito Federal e se a Câmara não pagasse o enterro. João Alberto era um dos homens de confiança de Getúlio.guel Costa deixou. eles nunca tiveram um Presidente da República e queriam ter de qualquer jeito. Em 1930 existiu muito personalismo. Não sei se o expositor também participa desse entendimento. Cordeiro de Farias foi quase tudo no Brasil. No caso do Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul montou um artifício. Felinto Muller. impermeável a uma mensagem nova. diga-se de passagem. foi expulso da Coluna. Deu Getúlio. era que iria restaurar a pureza dos ideais da Constituição de 1891. O que a Coluna queria? O objetivo era dar uma sacudidela na consciência nacional e isso foi obtido a médio prazo. sem ser. de vontade própria ou de ambição mesmo do próprio Getúlio. Cordeiro de Farias. emulação política. E a propaganda política da Aliança Liberal. Isso também digo a essa juventude que faz essas indagações. só não foi Presidente. em aparte: Foi tido como ladrão. que era o sonho dele. que você destacou. Juarez Távora. E chegou a isso com uma dosagem grande de personalismo. e. Juarez foi candidato a Presidente da República. No meu entender da Revolução de 30. na História do Brasil. com tanta vontade de poder quanto ele. Só que era uma população analfabeta. Aqueles líderes da Coluna Prestes tornaram-se figuras destacadas do país. e naquela época o grosso da população era rural. cada uma tomou um rumo ideológico diferente. que foi a coligação que se formou para apoiar Getúlio e João Pessoa. Humberto Mello: Morreu na miséria. que foi o maior anticonstitucionalista que conheci. segundo depoimentos. Cordeiro de Farias até o fim sempre manteve o maior respeito a Prestes. a família não tinha dinheiro para pagar. Getúlio era um homem que nunca houve. Humberto Mello: Não há a menor dúvida. Quando Getúlio assumiu o Governo baixou um Decreto em que suspende a Constituição de 223    . acho que havia muito personalismo.

ele teria dito que seria o primeiro a descumpri-la. convoca a Constituinte. Borges de Medeiros. A Constituinte vota a Constituição de 34 e contam que. Foi a primeira que ele rasgou. O junho foi a época da “degola” dos eleitos. em 1931. tudo isso explorado por esses gringos. Há dois episódios. sem dúvida alguma. apelando para os ideais da Aliança Liberal. que era interventor da Paraíba. quando foram comunicar-lhe. A Paraíba apoiou inicialmente. Mas Getúlio. Não há a menor dúvida que Getúlio se aproveitou da situação para dominar. E Anthenor Navarro deu uma resposta malcriada. em 1932. Dorgival Terceiro Neto: Outro aspecto que é objeto de indagações refere-se às influências externas sobre o movimento de 30. Esse Decreto de Getúlio é interessantíssimo porque tem muita coisa que vem a ser reproduzida.1891 e depois não tomou mais conhecimento dela. dizendo que a Aliança Liberal estava defunta desde junho de 1930. forçado. Há dispositivos que são reproduzidos quase literalmente. E todos apoiaram. formalmente. pois em 1937 ele deu o golpe de Estado. em que eles apontavam todas as dificuldades eco224    . como chefe do governo provisório. que então estava rompido com Getúlio. Naquela época existia até uns relatórios famosos sobre nossas dívidas imensas em libras esterlinas. diz ele: vamos observar a Constituição. chamado Chico Ciência. que queria contar nesse. inclusive Anthenor Navarro. Aí vem a Constituição elaborada por um cidadão que. menos um: o Instituto dos Advogados da Paraíba. 34 anos depois. da borracha. que promulgou a Constituição. Efetivamente essa Constituição durou três anos. depois vamos elaborar outra. não se falava em eleição. e o depois não vinha. nesse particular. Essa Constituição. telegrafou para vários líderes. Disse que estava muito satisfeito do jeito que estava. com Anthenor Navarro. não se falava em constituinte. no Ato Institucional nº 1. Então teve um relatório famoso antes de detonar a Revolução de 30. Getúlio. Em termos de personalismo ele foi insuperável. quando Getúlio tinha convocado as eleições para a Constituinte: o Instituto dos Advogados do Brasil dirigiu a todos os Institutos dos Advogados dos Estados pedindo apoio para o movimento de reconstitucionalização do país. é um espetáculo. ela é muito bem feita. foi um dos maiores juristas do Brasil – Francisco Campos. Outro episódio do apoio da Paraíba a essa atitude ditatorial. também não a cumpriu. Ele teve apoios para isso. Um deles é o seguinte: quando se verificou que Getúlio estava tomando conta do poder. era a época do apogeu do café.

Apesar da Inglaterra sair vitoriosa da guerra de 18. COLÔNIA DE BANQUEIROS. quando me interessava por essa parte de economia. pelos grandes bancos. Esse receio existia. Humberto Mello: Na década de 30. Que a vocação do Brasil era a agricultura e a exportação de matéria prima. cacau. O Brasil tomava dinheiro emprestado com spread e juros altos. Começam surgir as indústrias substitutivas das importações. Não sei se o expositor tem alguma coisa a acrescentar sobre isso. um historiador de extrema direita.nômicas que o país estava atravessando. como hoje se encontram no país. de perto pelos grupos estrangeiros. exportava minérios. tecidos. O Brasil depois que descobriu minérios. em que mostra a série de empréstimos do Brasil. inclusive de um economista importante da Inglaterra. Gustavo Barroso. como foi a de 64. Creio que isso foi também levado em consideração na época da preparação da revolução. Esses relatórios existiram. etc. Isso não é novidade. que era exercida por eles. Os historiadores levam em conta somente os fatos históricos. mas talvez sorrateira pelos grupos econômicos que já atuavam aqui. li um deles. A Revolução de 30 foi. tomava outro empréstimo para pagar os juros anteriores. publicou um livro chamado BRASIL. sapato. que tinham capitais mutuados circulando no país e que tinham interesse na recuperação desses capitais. Muita gente diz que isso não foi objeto apenas dos brasileiros. pelos grupos econômicos. Eles emprestaram muito dinheiro aqui e queriam salvar esse dinheiro de qualquer forma. que mandava no mundo econômico até a primeira guerra mundial. acompanhada. no passado. saiu enfraquecida. que policiavam tudo isso. também tinham uns relatórios que chegaram a ser divulgados. O Brasil era um país eminentemente agrícola. e havia muita gente que achava que o Brasil não devia proceder a nenhuma industrialização. Indústria incipiente que tinha de substituir o importado. começando 225    . mas eu acho que essa parte econômica deve ser sempre objeto de avaliação. linha. de repente começam a faltar as coisas no Brasil. café. Importava agulha. e da parte dos americanos também existia. na verdade. Cheguei até a ler alguns deles. Os americanos. Não se de forma muito ostensiva. Acho que esse lado econômico tem sempre que ser levado em consideração quando se tratam dos pressupostos para a detonação de 30. Quando vem a guerra de 1914-18. Eu me lembro que. Como não podia pagar. que não vinha mais. Havia o domínio da Inglaterra. até a manteiga era importada. em que dizia tudo o que estava acontecendo no Brasil e providências que deveriam ser tomadas para evitar que eles perdessem o controle nacional. O Brasil importava tudo.

pois reagiu a essa subordinação ao exterior. Acho-o um sujeito terrível. instituto não sei de quê. mas teve os institutos econômicos: Instituto do Café. Dorgival Terceiro Neto: O que se diz é que ele para se perpetuar politicamente criou todo esse esquema de empreguismo para prestigiar líderes políticos e gente do interior do país. calculado.então o domínio norte-americano. dos Comerciários. Dorgival Terceiro Neto: Ninguém pode deixar de reconhecer que depois da Revolução de 30 o país experimentou algum progresso A industrialização já surgiu praticamente naquele período. que não existia. que era o nosso principal produto de exportação. que acabou com a economia americana. Institutos dos Bancários. E começamos a sair da área da libra esterlina para a do dólar. Humberto Mello: Esses foram Institutos previdenciários. quando a carne. caiu de preço. Em 1929 houve o famoso crack da Bolsa de Nova York. Não tenho grande admiração por Getúlio. tudo que fazia era visando seu sucesso pessoal. visando diminuir a oferta. Getúlio fez umas coisas benéficas: criação da legislação trabalhista. o que enfraqueceu a candidatura de Júlio Prestes e o próprio presidente Washington Luiz foi o enfraquecimento econômico do café. que estava na mesma situação do Brasil. Instituto da Borracha. Instituto do Sal. como se perpetuou durante 15 anos. Não foi mera coincidência a derrubada do governo argentino em 1930. Instituto do Açúcar e do Álcool. Podemos atribuir a ele algum avanço no campo econômico. e embora ainda não houvesse esse nome de globalização. e é claro que tudo isso influiu na queda da República Velha Há estudos nesse sentido. mas criou Instituto só para dar emprego ao povo. mostrando que o que enfraqueceu São Paulo. para se perpetuar no poder. etc. Em consequência caiu o preço do café no mercado internacional. E caiu a tal ponto que o governo brasileiro chegou a queimar sacas de café que estavam no porto para exportar. Houve o problema econômico interno e externo. seu produto principal de exportação. mas foi um grande empreguista. a economia americana arrastou a economia mundial. Essas coisas todas têm que ser analisadas como resultado da Revolução 226    . Mas o capitalismo norte-americano também não estava em boa situação. Uma coisa que grassou largamente foi o empreguismo. Instituto de toda qualidade. dos Ferroviários. que terminou num cabide de emprego terrível. para tentar segurar o preço. frio.

Humberto Mello: As reformas administrativas de Getúlio começaram com a criação de dois ministérios. Getúlio criou a classe média no Brasil. Muita coisa no campo social aconteceu. Acontece que quando Getúlio saiu para comandar o movimento militar não passou o governo para João Neves. de favores. à meia voz. Oswaldo Aranha fica na oposição. Conforme Luiz Hugo disse aqui ao meu lado. Getúlio realmente fascinava essa gente. que depois foram separados. de empregos. e também muita coisa negativa. na morte de Getúlio. Oswaldo havia sido embaixador do Brasil nos Estados Unidos. João Neves foi logo ficando meio despeitado e em 1932 está João Neves envolvido com o movimento paulista e escreveu um livro “Acuso”. 227    . João Neves da Fontoura era Vicepresidente de Getúlio Vargas no Rio Grande do Sul. inclusive chamou José Américo. os quais ainda hoje participamos deles. E aí contam a exclamação de Getúlio: Oh. E isso tinha objetivo político. em 1953 chama Oswaldo Aranha para Ministro. Mas.de 30. Veja o maquiavelismo de Getúlio. Em 1939. que tinha posição formada em favor dos aliados da II Guerra e era contra as ditaduras inimigas (Alemanha e Itália) e que evidentemente repercutia contra a ditadura doméstica. Mas tinha essa distribuição de benesses. nunca mais aparecestes? Estou aqui à tua disposição. A classe média foi criada às custas do poder público. volta para ser Ministro das Relações Exteriores e preside a Sociedade dos Amigos da América. não havia autarquias no Brasil. quando Getúlio é eleito. A figura jurídica da autarquia foi criada por ele. Foi exilado para Portugal. Oswaldo Aranha chorando. Por intermediação de amigos. Mas. com a fotografia dos dois com a seguinte legenda: A Revolução de 30 volta com cabelos brancos. As positivas e as negativas. Muita gente ficou rica. João Neves foi convidado a ir ao Palácio do Catete. metendo o pau em Getúlio. João! Onde é que tu andavas. Getúlio exercia um certo fascínio. Getúlio estimula Oswaldo Aranha a ser o presidente da Sociedade dos Amigos da América e quando Oswaldo Aranha é eleito ele manda fechar a sociedade. Recordo-me de uma publicação na revista O CRUZEIRO. Lembro-me também de outra fotografia. Aí se tornou possível sua volta. Passou para Oswaldo Aranha. João Neves começou a fazer umas sondagens para voltar ao Brasil. Depois criou as autarquias. Muitos vícios. Lembremos o que aconteceu com Oswaldo Aranha. Ficou sendo getulista até o fim da vida. logo quando ele assumiu: o Ministério do Trabalho e o Ministério da Educação e Saúde.

devido ao adiantado da hora. Não para ser perguntado. Era um bravo parlamentar. pelo telefone. no segundo governo republicano. dava um mote e eles glosavam. Ele fez uma exposição isenta. começou assim: Me desculpe seu ministro. como o violeiro Pinto do Monteiro. A propósito disso. Uma vez fizeram uma festa na casa do ministro João Alberto e levaram os dois cantadores. Não tenho nada a recriminar. um orador extraordinário e rompeu primeiramente com o governo a que servia e continuou lutando contra Álvaro 228    . Joacil Pereira lembrou que o ministro João Alberto morreu muito pobre e tinha a pecha de ladrão. Mas. Quero de início me congratular com o expositor de hoje. tinha passado em Monteiro na Coluna Prestes. Eu vim aqui para perguntar. sem as paixões exacerbadas que alimentam o espírito de muitos outros. os membros da Coluna tomavam os animais nas cidades por onde passavam. como convém ao verdadeiro historiador. e não traziam mais. também. Ele e Louro do Pageú tinham uns programas na Rádio Tamoio em que o ouvinte. João Alberto.Dorgival Terceiro Neto: Vou encerrar. Me perdõe se eu estou errado. que morava no Rio de Janeiro. Como se sabe. Quando João Alberto passou em Monteiro carregou uns burros de carga do cunhado de Pinto. Mas anotei uns pontos porque é natural que haja certas omissões. Com isso criaram fama. que era pernambucano. Quando havia aquelas festas grandes eles eram convidados como grande atração. mas começou a reagir contra Venâncio e continuou a sua reação depois. que veio para ser Chefe de Polícia do primeiro governo republicano. Me diga o que é que fez Dos burros do meu cunhado Joacil de Britto Pereira: Serei breve. eles “requisitavam” os animais. Quando Pinto começou a cantoria. O tempo é curto e o expositor tem as suas limitações temporais e daí não pode abordar tudo. conheço sua fama. Não tomavam propriamente. Pinto. eu conheço muito você. Quando ele chegou na casa do ministro. João Alberto disse: Ah. Só tenho que louvar a maneira como ele se conduziu. aqui na Paraíba tinha umas figuras inteligentíssimas. A oligarquia alvarista encontrou duas reações: a primeira foi a de Coelho Lisboa. que o horário está avançado.

esses vícios da Velha República – e fez muita coisa nesse sentido – também não escapou da proteção indecorosa à sua família. José Pereira já estava meio estremecido porque quando João Pessoa.Machado. nós vemos que a Paraíba. continuando: Então houve esse protecionismo. a resposta de José Pereira foi veemente: esses cangaceiros a quem Vossa Excelência se refere ajudaram a eleger seu tio Epitácio Pessoa a Presidente da República. ele botou Camilo de Holanda. mas Epitácio impôs a retirada do nome da predileção do Presidente. não para hibernar. Por exemplo. Quando João Pessoa visitou Princesa ainda se discutia sobre a possibilidade de botar João Suassuna na chapa. Manteve o seu parente na chapa. em Palácio. que também era de Areia). que veio para redimir esses costumes políticos. e não tinha nenhum Pessoa desocupado. Dorgival Terceiro Neto. o candidato de João Suassuna ao governo do Estado não seria João Pessoa. É de se ver que também houve esse vício de oligarquia no governo de João Pessoa e antes. viveu sob uma oligarquia. desde a Proclamação da República até o governo de João Pessoa. ele também rompeu com Epitácio porque achava que Epitácio estava dentro da mesma linha oligárquica e ele achava que a República havia sido feita para regenerar os costumes políticos e instaurar uma verdadeira democracia no Brasil. ele saía para se eleger Senador e depois voltar. E João Pessoa. que era Júlio Lira. Por ocasião das eleições esperava-se que João Pessoa renovasse a chapa para deputados federais. ele saía. porque ele preferia sempre estar nos altos conselhos da República. Esses são assuntos que estão dentro do tema da Revolução de 30 e da República. Além do mais. mas não renovou totalmente. anunciou algumas providências ao líder José Pereira e falou nos cangaceiros que ele protegia. ele fazia isso de sair da Presidência do Estado. em aparte: 229    . na liderança de Epitácio. Então. A família Pessoa também foi oligárquica. que era o médico da família. Joacil Pereira. quando chegou a vez para disputar a Presidência do Estado. Cumpre-me dizer ainda que Álvaro Machado estava deixando de ser Presidente do Estado colocava sempre Walfredo Leal ou uma pessoa de sua total confiança (Walfredo era também seu parente. Era realmente um idealista. Depois. Dorgival Terceiro Neto. em aparte: Para mostrar que Epitácio foi mais longe. O nome de Júlio Lira foi retirado para entrar o de João Pessoa. Ele preferia o Senado.

seu primo. Se ele queria mandar matar. mas deixava os outros furtarem. também. quando estava no Rio de Janeiro e um grande político do Pará. Pois bem. Álvaro colocou o desembargador José Peregrino e Afonso Machado como Vice. foi assassinado. sua desmedida ambição de poder. sério e idealista. contou um fato autêntico. assassinou João Pessoa e João Pessoa se tornou. grávida. por Felinto Muller. Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Mello. Era uma panelinha familiar. por uma exploração terrível. a esposa de Luis Carlos Prestes. Não posso deixar de referir isso sobre esse ditador cruel. lamentavelmente. Quem fez a Revolução foi o maior homem que o Rio Grande do Sul deu à Revolução. entregou um feto que estava no ventre dessa mulher ao nazismo e ela deu a luz a Anita Leocádia Prestes num campo de concentração. Determinadas famílias da Paraíba sempre viveram assim. para ter gente dele sempre de cima. O governo de João Pessoa teve altos e baixos. ex-governador do Estado. Ele foi endeusado porque infelizmente. João Dantas. que dizia: por que meu primo fez isso? Por causa de ofensas pessoais a ele e à família? Porque vão endeusar esse homem. levado pelos impulsos das suas emoções e dos seus sentimentos feridos. que já tinha fracassado. frio e iníquo. como agora outra quis se implantar. foi se queixar a Getúlio 230    . mas é um fato histórico. parando em todo porto. como os Cunha Lima. massacrado por Magalhães Barata. Getúlio já não queria mais a Revolução. Ele quase que jogou à força Getúlio à frente do movimento. Esse foi um grande idealista no país. Nunca deixou os seus amigos no caminho. podemos divergir das ideias que ele desposou. Não tenho nada contra eles. Getúlio entregou a esposa desse homem. oligárquica. de repente. Ele era governador.Em uma das vezes em que não havia um Machado desocupado. nunca furtou. Joacil Pereira. um ídolo. Quanto a Getúlio foi dito. homem cerebrino e frio. que levou o cadáver de João Pessoa daqui até o Rio. que se chamou Oswaldo Aranha. por que não me mandou. cerebrino. acomodado. estava. o que ele fez. Pessoalmente honesto. era um palanque político da Revolução. Esse navio em que viajei muito depois. O seu espírito ditatorial. retomando a palavra: Essas oligarquias não davam chance a ninguém. Havia um parente de João Dantas. inclusive. que não sou um homem de projeção? Mas. que mandou entregar. o navio “Rodrigues Alves”. mas não podemos deixar de reconhecer que Luis Carlos Prestes foi um homem culto.

toda vez em que se falar puxando a brasa para a sardinha de Pernambuco. como deve ser a de qualquer historiador que se prese de não abusar das suas paixões exacerbadas. Mas acho que devemos. Todos dois fugiram. E no final. estava fazendo uma conferência sobre esse assunto e o aparteei com veemência: Guerra pernambucana. que tinha apenas a ambição desmedida de poder. uma exposição isenta. Mas é preciso corrigir um ponto. Esse era o Getúlio Vargas. que Pernambuco procura puxar para o seu bornal. houve realmente luta séria. deixar passar sem essas observações. a exposição de mais meia hora. dizer que a revolução de 1817 foi nordestina. como faço. Na Paraíba. dividiram-na em dois campos de luta. o Rio Grande do Norte. São esses os adendos que gostaria de fazer. disse: O do Maranhão é muito pior (que era Vitorino Freire). que descende de família paraibana de Areia. até o Ceará. Dividiram a família paraibana. meu amigo. fugido do Rio Grande do Norte. pacientemente. parabenizando. Nós temos que dar o seu ao seu dono. uma figura de punhos de renda. se locupletando. e aí Estácio disse: deixe de besteira. Eu entendi. muito bem. mais uma vez. por que? Restauração pernambucana. no qual já estava Juvenal Lamartine. Guilherme d’Avila Lins: 231    . Ele fez. a conquistador e quando viu aquela freira tão bonita aproximou-se com galanteios. nesta hora. Os paraibanos realmente se portaram muito bem. o que quis dizer nosso debatedor. abandonando os seus amigos e fugiu num rebocador. o Instituto e o expositor Humberto Mello e seu debatedor. Já é tempo da Paraíba refletir melhor sobre esses ódios que separaram a Paraíba. mas acovardou-se. Juvenal. um vestido de padre (que era Juvenal) e o outro vestido de freira. há algumas coisas engraçadas na Revolução de 30. em 1817. Pernambuco tinha como Presidente Estácio Coimbra.do que esse homem fazia lá. Só enaltecem Pernambuco. Juvenal era metido a cavalo do cão. como disse de início. abandonando o campo da luta. A Paraíba é a Revolução irredenta e libertária de 1817. que deu maior número de mártires do que Pernambuco Eu estava na Câmara dos Deputados quando o escritor Vamireh Chacon. pelo brilho desta reunião. por que? Participaram desse movimento. a Paraíba. o espírito caudilhesco. eu sou Estácio. o valor que cada um tem. por exemplo. de família tradicional. A Paraíba não é só a Revolução de 30. mas não com paixão e com ódio. fumando um charuto e soltando fumaça no ar. Getúlio ouviu. Nós não podemos. Na verdade. Que estaria dilapidando os cofres públicos. rico. A Paraíba é a expulsão do holandês invasor.

Este encontro se deu no dia no dia 3 de março de 1930. que era o prefeito da capital. é hora de sentarem as coisas. Dorgival Terceiro Neto. quando assaltou Sousa. em aparte: José Pereira Lima foi quem enxotou Lampião. foram esquecidos. e não podia se expor. de que é hora de se acabar com as paixões. dando uma significativa contribuição a este Ciclo de Debates. em Tambaú. O artigo diz respeito à atuação de José Pereira Lima no combate aos cangaceiros que assolavam o sertão na época. e estavam também Anthenor Navarro. não de forma oficial. Acho que se foram citados esses registros. deverá ser adicionada a este debate. Foi o primeiro dia da reunião entre civis e militares para a Revolução de 30. na casa de Juracy Magalhães. E quem os recebeu. porque. foi meu tio José d’Avila Lins. quando se deu o primeiro contato civil dos conspiradores de Pernambuco. foi meu tio José d’Avila Lins. mas até meio escondido. Anthenor Navarro. meu tio José. sob o título genérico de APONTAMENTOS PARA A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO DE 30. protagonizada de forma magistral por Humberto Mello. que é a participação dos elementos que aqui conspiraram e atuaram. 232    . A questão mais factual da revolução de 30. Jurandir Mamede e Agildo Barata. para começar a Revolução de 1930. Pegando o gancho das palavras de Joacil. Hoje assistimos aqui uma belíssima lição de História. passado o tempo. Dorgival Terceiro Neto e Joacil Pereira. Assinala que o primeiro civil no Estado da Paraíba que entrou em contato com os elementos fora do Estado da Paraíba. escreveu na A UNIÃO a partir de maio de 1931. de 1925. Não vejo esse registro em todas as vezes que se fala na Revolução de 30. onde se encontravam presentes os três tenentes Juracy. Guilherme d’Avila Lins. que recebeu os irmãos Lima Cavalcanti no belvedere de Trincheiras.Hoje é uma tarde muito feliz. retomando a palavra: Quis registrar o fato. O mesmo José Pereira Lima que foi chamado de cangaceiro depois. que abordaram importantes aspectos da Revolução de 30. Ele conta sua experiência como participante e conspirador. bem a propósito tenho aqui um artigo que achei a alguns dias na Revista ERA NOVA. Assim é que vou citar alguns artigos que o então interventor e conspirador da Revolução de 30. durante o Governo de João Suassuna com o retrato de José Pereira Lima. recebendo-os oficialmente. José Américo e mais um ou dois dos conspiradores civis. no governo seguinte. No dia 6 de março houve o primeiro encontro entre os civis da terra e os elementos militares.

Seis governantes. etc. O domínio de Epitácio era tão grande que havia até um ditado: Na Paraíba quem não é Pessoa é coisa. vamos ter a família que deu maior número de governantes à Paraíba. influía na nomeação do juiz. que João Pessoa refletia. mas terminou sendo João Machado. mas foi barrado pelo prestígio dos irmãos militares. e Ivan Bichara. oposições. mas isso não está bem confirmado. passou 20 anos mandando. nomeava o promotor. Walfredo Leal. era uma figura oficial. Há a informação de que Walfredo Leal seria parente dele. a Adhemar Vidal sobre leituras. o 233    . Coelho Lisboa. Saindo a oligarquia Machado. que existe aqui no Instituto Histórico. não seria candidato a governador. E ele levou para o túmulo essa grande mágoa de não sair governador da Paraíba. ninguém me soube dizer nada. se for. Luiz Hugo. em resposta a Joacil Pereira: Como falei. retomando a palavra: Certa vez perguntei a alguns auxiliares próximos de João Pessoa. antes de Venâncio Neiva. gente que tinha convivido com ele. em 1908. muitos recortes de jornais que mostram as ideias que o influenciaram. Humberto Mello. intervindo: Coelho Lisboa pleiteou ser candidato anteriormente. chefe político. livros. e saiu somente quando morreu. embora Coelho Lisboa só tenha começado a combater a oligarquia de Álvaro Machado depois que se certificou que ele. Álvaro Machado veio para cá como delegado de Floriano Peixoto e montou muito bem sua máquina. que morava em Tambaú. ideias. também sobrinho de Walfredo. Daí começa a haver hostilidade àquele sistema coronelista. para não despertar suspeita. Coelho Lisboa combateu essa oligarquia. coisas que ele reproduziu na sua administração. Este é um depoimento de Anthenor Navarro. iam no carro do prefeito.. O jornal publicava: Fulano de tal. casado com uma sobrinha de Walfredo. Coelho Lisboa. Acho que João Pessoa sentia que aquele esquema não dava mais para continuar. perguntei a José Américo. a Osias Gomes. queria ser o governador. O coronel mandava e representava porque não havia a figura do chefe político. sobrinho de Walfredo. Humberto Melo. Porque nós tivemos os dois irmãos Machado – Álvaro e João. Houve. portanto. José Américo. é claro. Mas encontramos no arquivo sobre João Pessoa. entra a oligarquia Pessoa. com muita competência. Esse chefe político era quem nomeava.A partir daí as reuniões se davam em Tambaú e. Gratuliano Brito. equivalente hoje ao presidente do Diretório de partido.

Em termos de promotor posso lembrar o seguinte: a família Dantas tinha uma propriedade. Ele me disse que tinha ido embora – e disse a João Dantas – que não tinha temperamento para ficar. em aparte: Houve um processo contra Manoel Dantas Correia de Góes. um latifúndio no município de Mamanguape e havia uma briga entre os Lundgren como também havia umas reclamações dos índios da Bahia da Traição contra os Dantas. João Pessoa começou a desmantelar esse domínio. Isso 234    . geralmente influenciava a designação do padre. conhecido na intimidade por Zola. só voltando para aqui no governo de Flávio Ribeiro. o professor. por um hábeas corpus perante o Tribunal – naquele tempo se chamava Tribunal de Apelação – esse processo. Então João Pessoa tira o promotor de Mamanguape e João Dantas escreve uma carta a familiares elogiando muito João Pessoa porque tinha tirado o promotor. A invasão da residência-escritório de João Dantas foi no dia 20 de julho de 30 e Manoel Dantas tinha saído da Paraíba em 1929. que era amigo íntimo e colega de João Dantas. Seria fácil ir à Faculdade e conseguir uma segunda via ou uma declaração. reclamações que tinham sido enviadas a João Suassuna e que tinham sido engavetadas. foi quando houve aquelas medidas de João Pessoa contra a família. Ele disse que não foi possível. ele anulou. Diz Adhemar Vidal que a partir daí que surgiu o ressentimento. Mas ele não conseguiu ser nomeado como engenheiro. podia ser restaurado. teleguiadamente. através de Hermano Almeida. A história é meio complicada. elementos do fisco. foi constituído advogado. Essa foi a causa principal do primeiro estremecimento. todo o funcionalismo. mas que na fuga dele tinha perdido o diploma. retomando a palavra: Ele voltou no governo de José Américo e conseguiu. processo por crime de homicídio que ele tinha praticado em legítima defesa. Manoel Dantas Correia de Góes. Joacil Pereira. E ele teve de fugir. então restauraram o processo. o delegado. Depois que João da Matta já tinha morrido. João da Matta Correia Lima. substituindo promotores. Ele me disse que era engenheiro. E quando foi desengavetada a reclamação dos índios João Dantas não gostou. e ficou como auxiliar. O processo tinha sido anulado. Foi restaurado para condenar. Ao invés de levá-lo ao Júri e absolver ou conseguir antes a impronúncia. Humberto Mello. Inclusive já tinha havido também a invasão da república de João Dantas. porque tinha botado um elemento que não era vinculado ao poderio dos Lundgren. num acidente de automóvel. ser nomeado para o Departamento de Estradas de Rodagem.coletor. É uma história mal contada.

Que José Pereira era inimigo de Lampião. o que agravou mais o rompimento foi o seguinte: o presidente da Junta Eleitoral. uma situação inexplicável. Eu ouvi várias vezes ele contar isso no Clube Cabo Branco. foi. disse um participante). de fato. não há dúvida. Havia uma situação interessante. Não diz porque. que seria o juiz federal Gouveia da Nóbrega. o nome de Assis Chateaubriand no lugar de Carlos Pessoa na chapa. e afirma que José Pereira e Lampião eram amigos e depois se tornaram inimigos. Joacil Pereira. Finalmente. A gestão de Suassuna. Diz que João já se achava rompido com um ramo da família. No meu entender. pois havia várias versões sobre a origem da inimizade.consta de um depoimento no Núcleo Documental de Informação Histórico Regional – NDIHR. e não queria um rompimento com outro ramo que era o de Antônio Pessoa. Chegava alguém. que era os Pessoas de Queiroz. para homenagear a terra natal de João Pessoa. Quer dizer. o problema do cangaço é um problema meio complicado. o Estado era privatizado. especificamente sobre Lampião. José Américo tenta uma explicação. Havia o que chamavam a terceirização do fisco. de sorte que ele até ganhou o apelido de Eugênio Monturo. Pegava-se os impostos estaduais do município x e se fazia um leilão daquele imposto. que eram despreparados e João Dantas deu uma assessoria jurídica e a Junta preparou toda aquela “degola”. arrematava aqueles impostos (isso era das Ordenações do Reino. se licenciou e os suplentes também. solicitando aparte: Quem fez todo o processo foi Eugênio Carneiro Monteiro. Havia gente que pagava as folhas do Estado. Quanto à manutenção de Carlos Pessoa na chapa. O fato é que José Pereira tinha um comando muito grande. Há um autor norte-americano que escreveu um livro sobre o cangaço. da Universidade Federal da Paraíba. Que ele sempre tenha sido inimigo é algo um tanto questionável. Humberto Mello. voltando: Também ouvi essa versão. Joacil Pereira. Era uma terceirização das funções estaduais. no período de 1924-28 coincidiu em que foi o maior predomínio de todos os coronéis em todo o Nordeste. explicando: 235    . e como Inês Caminha falou aqui num debate anterior. Dizem inclusive que José Pereira sugeriu. o Estado era privatizado. Carneiro Monteiro estava no Rio Grande do Sul e foi chamado para assumir a presidência da Junta.

Renovo meus agradecimentos aos presentes. quase esgotando o manancial de episódios oficiais e de bastidores daquela fase que projetou. Obrigado. a Paraíba na história nacional. A contribuição do expositor Humberto Mello. 236    . interpretações acertadas. em Direito o que não é proibido. sem dúvida. é permitido. apesar do adiantado da hora. Esta foi a forma que o nosso Instituto encontrou para renovar a preocupação pelos nossos desafios históricos. numa demonstração de interesse pela história paraibana.Mas isso era permitido por lei federal e vem desde as Ordenações. com uma vasta riqueza de novidades sobre o tema. Cada vez mais estamos trazendo para um público novo a posição do Instituto. do debatedor Dorgival Terceiro Neto. que não se afastaram da sessão. Humberto Mello. O que se podia falar sobre a Revolução de 30 e seu derredor foi feito. os quais constantemente estão trazendo para vocês novos caminhos. continuando: Não havia uma permissão expressa e como se sabe. Foram depoimentos pessoais. dos participantes Joacil de Britto Pereira e Guilherme d’Avila Lins encheu o debate de informes pouco conhecidos. A fala do Presidente: Chegamos ao final deste debate. O Instituto Histórico se reflete pelo conhecimento e pela qualificação dos seus associados. pronunciamentos esclarecedores.

o acadêmico Joacil Pereira. É uma das mais recentes aquisições do nosso Instituto. convido a professora Martha Falcão. confreira Waldice Mendonça Porto. 1ª Secretária do Instituto. presidente da Academia Paraibana de Letras. Expositora: Martha Maria Falcão Carvalho de Moraes e Santana (Sócia do Instituto. professora de História da UFPB. Para falar no golpe de 64. expositora do tema de hoje. Surge aí a doutrina de sustentação ideológica chamada Guerra Fria. Logicamente nós não podemos nos referir ao golpe sem pensarmos em termos de processo. Ela é professora de História na Universidade Federal da Paraíba. porque o golpe foi muitas vezes tramado. para compor a mesa. Passo a palavra à professora Martha Falcão. posto que ela ingressou neste silogeu em março último. fazer uma retrospectiva ao panorama que se descortina no pósguerra. Um dos seus trabalhos bastante consultados é NORDESTE. e finalmente consumado.11º Tema: O MOVIMENTO DE 64 E A PARAÍBA Expositora: Martha Falcão Debatedor: Luiz Hugo Guimarães A fala do Presidente: Abrindo os trabalhos. capitalista e a União Soviética. Em 1945 o mundo sofre uma bipolarização e vive a divisão entre o Ocidente democrata. é Mestra em História do Brasil e Doutora em História Social. AÇÚCAR E PODER. que se expande formando o bloco do Este comunista. O tema de hoje é O MOVIMENTO DE 64 E A PARAÍBA. adiado. Mestra e Doutora em História. teríamos que remontar. conspirado. O tema que nos coube é justamente o Movimento de 64 e a Paraíba. 237    . além de graduada em Direito. e a escolha da professora Martha Falcão se deve aos vários trabalhos de sua autoria sobre o assunto. graduada em Direito) É para mim uma grande alegria ter meu nome incluído como uma das expositoras desses 500 anos de Paraíba em debate. Gostaria de ter a liberdade de tratar o tema como o Golpe militar de 64 e a Paraíba.

dentro desse contexto. mas nestes tempos de igreja romanizada o seminário foi para o brejo. sobretudo quando a União Soviética começa a fazer propostas de articulações sobre bases nucleares em Cuba. em 1959. o escancaramento da economia brasileira às multinacionais. fazendo um trabalho muito bonito em Serra Talhada. É quando vemos toda uma preocupação do governo Kennedy no sentido de criar mecanismos de injunções na América Latina para impedir o avanço do movimento socialista. onde nós temos como exemplo a CLT e uma série de benesses. Com o crescimento da industrialização. que procura uma aproximação maior com a classe trabalhadora. Temos a Guerra Fria. em 1945. O movimento de 64 só pode ser compreendido como um colapso desse movimento que surge no pós-guerra. Vamos ver isso em termos de produção de mercado. mas também em termos de América Latina. num antagonismo. Ele procurou fundar ali um seminário dentro dos moldes da Teologia da Libertação. aqui no Brasil. com a desarticulação do movimento dos trabalhadores e. que é um expoente do Go238    . logicamente surge a necessidade das elites políticas procurarem legitimação e sustentação através daquilo que já vem desde o Estado Novo. aqui na América Latina. Essa sustentação ideológica é aquilo que nós chamamos de populismo. Pernambuco. mas no sentido de desarticulá-la. do proletariado e das lutas sociais. que vai ter como sustentação a ideologia da segurança nacional tão bem estudada por Roger Comblant. não no sentido de dar sustentação e mobilização a essa classe. não somente em termos de Brasil. temos também o atrelamento dos sindicatos. vamos ter também a crise do petróleo. tivemos. que hoje está sofrendo penalidade do Vaticano. numa luta de disputas nucleares e. pois desejaria trazer para aqui a Guerra Fria como a bipolarização do mundo. sobretudo. no governo de Juscelino Kubitschek. Na esteira desse avanço vamos ter a abertura. temos a afirmação de uma liderança. porque o tempo é muito pouco.E é nesse panorama de pós-guerra que os países da América Latina sofrem uma verdadeira renascença em termos de industrialização. a vitória da Revolução cubana. que vai contribuir muito para acirrar esse antagonismo. Para podermos pensar sobre o que é Guerra Fria não posso me deter. Estamos assistindo nesse final de milênio a desarticulação do movimento da Teologia da Libertação e o crescimento da Igreja romanizada. em termos de industrialização e crescimento de estradas. É dentro desse contexto que a gente pode compreender o processo que culminou com o golpe de 64. Dentro desse golpe de 64 vamos ver o avanço do populismo.

como Ministro do Trabalho deu um aumento de cem porcento aos trabalhadores. depois ele volta e procura dentro do seu próprio partido. como partidos majoritários. da professora Monique Citadino. Isso ainda não foi estudado na historiografia. resultante de uma dissertação de Mestrado. o PSD. Nesse trabalho ela remonta à fundação dos partidos políticos.verno Populista. mostra o racha da dissidência de Pedro Gondim quando do lançamento da sua candidatura a vice-governador na chapa conciliatória ao lado de Flávio Ribeiro. sem permitir que lideranças mais avançadas como Joffily. Vê-se muito Rui Carneiro com uma política do paternalismo. João Goulart tinha sido Ministro do Trabalho na época de Vargas. Procurou sempre ser uma bandeira de luta do centro-esquerda. E justamente ele é eleito numa chapa que tem o apoio da União Democrática Nacional – UDN. Temos que compreender a que João Goulart está ideologicamente vinculado. Existe uma série de trabalhos excelentes que gostaríamos apenas de citá-los. que é uma síntese desse período. É por essa concepção que. Temos um trabalho que foi publicado em 98. e o tempo não dá. pudessem ganhar seu próprio espaço no partido. com a redemocratização do país em 1945. mas que vale por um Doutorado. Aqui na Paraíba há um momento áureo com a eleição de Pedro Gondim. como é o caso do próprio Sindicato dos Bancários. muito embora ele tivesse todo o apoio da classe trabalhadora. mostra o acidente vascular e as doenças que motivaram o afastamento de Flávio Ribeiro. que também é um dos expoentes do populismo. mostra também o pequeno período que Pedro Gondim governou como vice até se desincompatibilizar e durante esse período ele utilizou a máquina estatal para mostrar a sua política populista e criar suas bases de sustentação. do Partido Democrático Cristão – PDC. ser candidato ao Governo do Estado e não encontra sustentação porque se mitifica muito Rui Carneiro para não permitir que outras lideranças não o sobrepujassem. ela mostra a hegemonia da UDN e do PSD aqui. a ferro e a fogo. a política do coração. Não vamos nos deter no varguismo porque iríamos retroceder muito. É um dos melhores trabalhos. mas nunca se estudou Rui Carneiro como aquele que deteve o comando. e como o próprio Pedro Gondim. Com a renúncia de Jânio Quadros temos a posse de João Goulart.. para apoiar Jânio Quadros. Dentro da esteira populista vemos também a eleição de Jânio Quadros. do PSD. do qual Luiz Hugo Guimarães foi um dos presidentes mais atuantes e poderá dar um depoimento 239    . dentro do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. os compromissos do grupo da Várzea. da qual tenho a honra de ser colega de Departamento na UFPB. na hora de escolhê-lo como governador.

Então nos anos 60 nós vamos ter no bojo da fundação da SUDENE. “Eu estou com Pedro porque não estou com medo”. Vamos ver a frente nacionalista liderada por Joffily mantendo-se fiel ao PSD. organizado 240    . Dizem muitos historiadores. segundo os que estudam esse período com mais afinco. por conta do contexto nacional. nós vamos ter essa efervescência política do populismo aqui na Paraíba. no caso Janduhy Carneiro. Pedro Gondim vai buscar o apoio do Partido Socialista Brasileiro – PSB e logo depois se muda de malas e bagagem para o Partido Democrata Cristão – PDC. não havia um proletariado organizado em termos de mobilização. Ele se candidata com todo o apoio da UDN. com o slogan do HOMEM É PEDRO. de Cabedelo a Cajazeiras. um Estado que não tinha ainda uma base financeira que lhe desse sustentação. que a morte de Getúlio Vargas adiou por dez anos o golpe de 64 e isso o professor José Octávio repete num livro que escreveu e que é imprescindível para se entender esse momento em termos de Paraíba. que tinha como candidato a Presidente da República o general Lott. mas ele não foi escolhido. No momento áureo desse populismo. Vamos ver isso na posse de Juscelino Kubitschek. A Paraíba era um Estado de base exportadora. que tinha um passado de luta pela legalidade. quando alguns grupos conservadores das Forças Armadas procuram derrubar o próprio Juscelino Kubitschek. apoiando Janduhy. Dentro dessa eleição nós vamos ver forças de várias naturezas. da fundação dos Distritos Industriais. impedindo a sua posse. emerge a figura populista de Pedro Gondim na campanha que empolgou toda a Paraíba. a própria expansão do capitalismo e dentro dessa expansão do capitalismo motivada pelo processo de industrialização criada pela SUDENE. É uma série de artigos que ele publicou no livro O JOGO DA VERDADE. O grupo da Várzea lhe dá toda sustentação e ele é eleito. no sentido de apoiar o próprio irmão do chefe político Rui Carneiro. porque já havia uma aliança das forças mais conservadoras do PSD. Havia uma bipolarização entre a liderança do personalismo e a liderança do partido político. inclusive Thomas Skidmore. Lott era o próprio símbolo nacionalista. intitulado A DIMENSÃO GLOBAL. uma coletânea de vários autores.depois. que conhecem mais as bases desse movimento. que registra os 30 anos do golpe de 64 aqui na Paraíba. Muitas e muitas vezes ele se insurgiu contra as tropas e fez valer o princípio da constitucionalidade. em virtude das próprias forças econômicas que estavam muito voltadas para a exportação e não para a industrialização. tinha penetração na classe estudantil. de relações ainda muito coronelísticas.

É tanto que não fiz uma retrospectiva da Era Vargas. mostrando como o nome de Pedro Gondim ganhava uma penetração imensa no seio dos trabalhadores e no seio das classes conservadoras. Temos um excelente livro. porque o tempo é muito pouco. Ele disse que preferia sair do Partido por rebeldia a ser conivente. defendido. Para a gente entender a bipolaridade em termos ideológicos do Governo Pedro Gondim basta saber que. Tem cultura. Nonato Guedes e outros. do qual participei com um trabalho sobre as Ligas Camponesas em Santa Rita. ele também tinha o apoio do grupo da Várzea. muito embora seja uma professora de historiografia. Pedro Gondim era uma espécie de símbolo latino. apesar dele ser um líder queridíssimo das classes trabalhadoras. Não vamos fazer uma análise historiográfica. Mas o professor Cezar Benevides é muito contundente e procura fazer o retrato de Pedro Gondim como que ele fosse uma figura 241    . Também tinha muita capacidade de oratória. tem formação jurídica. Logicamente dentro desse contexto marcado pelo populismo. que também é dissertação de Mestrado. o porte físico ajuda muito. marcado pelo apoio dos segmentos mais conservadores.por José Octávio. Ele foi lançado em primeira mão por um dos líderes do Partido Socialista Brasileiro. por covardia. O trabalho dele HONRA E VERDADE. o deputado Raimundo Asfora. um homem que tinha uma penetração apaixonante junto aos estudantes. às donas de casa. com todas as condições para empolgar o povo. Talvez a Paraíba seja um dos Estados que tenha uma bibliografia mais ampla sobre esse período. ele procurou manter uma postura legalista. Dentro desse contexto. Temos também outros trabalhos que analisam muito bem esse período. se não me engano. Uma coisa muito importante para o político é o porte físico. nós temos uma ampla bibliografia. Nesse livro ele procura mostrar a marcha da luta camponesa no Governo de Pedro Gondim. Para político e cantor. fazendo frases de efeito. aos segmentos mais pobres e mais carentes da sociedade. No caso. Isso quem diz é a professora Monique. o Governo Pedro Gondim vai se caracterizar por um homem de grande personalidade política no sentido de ter um porte físico bonito. é um trabalho que merece ser analisado como uma fonte também para a história.americano de homem que empolgava. no Paraná. Vamos analisar os fatos e nos deter nas articulações. Nesse livro da professora Monique existem muitos pronunciamentos da época. do paraibano Cezar Benevides. era como se fosse uma bandeira de unanimidade. pela qual sou apaixonada.

A campanha dele caracterizou-se como a campanha do candidato pobre contra o candidato rico. É dentro desse contexto que Pedro Gondim consegue ter uma eleição fabulosa. Com o resultado da votação contra o parlamentarismo no plebiscito realizado. em termos de saúde. que é o Laureano. quando a gente sabe que o outro também não era um candidato rico. o governo João Goulart para poder tomar posse. o historiador não pode. Isso porque Cuba estava promovendo uma política nuclear em aliança com a União Soviética. quando a gente sabe que ele era sobretudo um político. Por mais conservador que ele fosse. que era Ministro da Justiça. O sonho de qualquer político é a sua legitimação. Elas financiavam esse IPES para que ele conseguisse barrar a marcha do socialismo em termos de Brasil. que era uma conta movimentada escandalosamente pelos Estados Unidos. mas não tinha o carisma e a beleza física. João Goulart julga que teve a sua candidatura como Presidente da República legitimada. teve de fazer um acordo para aceitar o parlamentarismo. Os grupos conservadores fundam o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. na OEA. apenas um era parlamentarista. parlamentarismo que pouco tempo depois é derrubado. João Goulart deu a seguinte resposta. é o famoso IPES. do Fundo do Trigo. a Texaco. e ele se considerou legitimado quando o povo disse NÃO ao parlamentarismo. a Coca-Cola e tantas outras. lutas que têm de ser entendidas dentro de um contexto maior. Ele então começa a sofrer uma série de pressões. por questão ideológica. os outros eram presidencialistas. conforme consta do melhor livro es242    . Janduhy Carneiro era um homem de atuação no parlamento. Seu adversário era um deputado federal de grande atuação – Janduhy Carneiro – um excelente deputado federal. de multinacionais como a Shell. que muitas coisas que existem na Paraíba. dos grupos mais conservadores. Mas o seu governo é marcado pelas lutas sociais. como vice do renunciante Jânio Quadros. e também a oratória do outro candidato. obscurecer que ele trouxe para a Paraíba um dos hospitais mais bem equipados de combate ao câncer. no sentido de negociar o apoio do Brasil no intervencionismo de Cuba.indecisa. a ponto do Governo Kennedy mandar para o Brasil o seu irmão Robert. João Goulart recebeu muita pressão do Governo Kennedy. Naquele momento. Dentro de dez pessoas que votaram. Esse IPES tinha verbas da CIA. foram conseguidas por ele.

precisava dos empréstimos. repudiando e tentando impedir que o direito de autodeterminação do povo cubano seja cumprido”. o direito de soberanamente se autodeterminarem. O embaixador Lincoln Gordon pediu que o Brasil cortasse qualquer comércio de petróleo com a União Soviética e que deixasse de comprar os helicópteros à Polônia. pelo mundo todo. servindo de porta-voz. As relações entre o Brasil e os Estados Unidos começam a se deteriorar na me243    . É o caso da figura de Pinochet. Diz também o seguinte: “Sempre nos manifestamos contra a intervenção militar em Cuba. A partir daí começa o acirramento e o financiamento maciço dos Estados Unidos através da CIA.” Essa foi a resposta de João Goulart quando foi procurado para ratificar com os países latino-americanos o desejo dos Estados Unidos para que os países se voltassem contra Cuba e que pedissem a intervenção em Cuba. inclusive ele se oferece (isto está bem documentado por Moniz Bandeira) para servir de intermediário entre Cuba e os Estados Unidos no sentido de pôr fim àquele impasse. pelos crimes de tortura e matança que cometeu. A partir das imposições dos Estados Unidos a situação começa a se deteriorar. de Moniz Bandeira: “O Brasil fiel à sua tradição pacifista e ao espírito cristão do seu povo admite como legítimo o direito de defender-se de possíveis ataques e agressões feitos à Cuba. João Goulart disse que precisava desesperadamente do apoio do FMI. porque sempre reconhecemos a todos os países. A imprensa conservadora diz que João Goulart estava servindo de joguete na mão dos países socialistas. sejam quais forem os seus regimes ou sistemas de governo. naquele tempo chamados Países da Cortina de Ferro. A resposta do Brasil foi uma resposta soberana. procurando primeiro impedir a posse de Allende. sendo subserviente.crito sobre João Goulart. mas não ia com isso ferir a soberania do povo brasileiro. resposta de autodeterminação. do mesmo modo que a CIA financiou o golpe do Chile. depois culminando com o assassinato de Allende. O Governo João Goulart. porque Cuba estava fazendo política nuclear aliada à China e à União Soviética. procura manter uma posição de equilíbrio. Kennedy queria também que o Brasil cortasse relações com os países soviéticos. que naquela época fazia parte do bloco soviético. depois da morte de Allende as forças reacionárias tomaram o poder e hoje nós estamos vendo a figura maior sendo procurada para ser julgada. impasse esse que a imprensa dizia que geraria a Terceira Guerra Mundial. Como se sabe. até a metade do seu pequeno período. Nós não poderíamos estudar a Paraíba fora desse contexto.

financia jornais. do meio para o fim. Porque Washington financia toda uma política de ideologia no sentido de se criar o IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática. o governo tomando atitudes de agressão. em nível interno. Vamos ver os conflitos agrários. um controle das remessas de lucros. procurava fazer uma política de aproximação com os países do Ocidente. em nível de Forças Armadas. pressionado. Esse livro mostra a vida de Elizabete Teixeira.dida em que a luta social cresce no Brasil. uma política que ia de encontro àquela política do segundo governo Vargas. vamos a reação à vinda aqui de Carlos Lacerda. Esse Instituto promove palestras. porque as remessas de lucros estavam sendo escandalosamente denunciadas pela esquerda brasileira como uma política contra o Brasil. que depois se politiza e se torna uma líder. uma militante política. demitindo vários estudantes que eram jornalistas do jornal oficial A UNIÃO. para quem está esquecido. E vamos ver também os latifundiários se or244    . surge um livro importante – EU MARCHAREI A TUA LUTA. igual a Pedro Gondim. que a CIA e o Birô dos Estados Unidos fizeram questão de desmantelar. e com os países do Leste europeu. vamos ver a própria morte de João Pedro Teixeira. mas muito mais com sede em Washington. vamos ver o filme CABRA MARCADO PARA MORRER. A saída de João Goulart foi partir para o chamado Plano Trienal. a partir de 63. a esquerda execrando Pedro Gondim. Voltando à Paraíba. de Eduardo Coutinho. O Plano Trienal. O Brasil vive nessa época um processo de inflação. vamos ver também o choque entre as forças policiais e os latifundiários. da Cortina de Ferro. João Goulart se vê. na medida em que a UNE e a Central dos Trabalhadores começam a exigir as Reformas de Base. mas praticando. só que João Goulart tem um compromisso muito maior com as esquerdas. vamos ver eclodir a questão agrária. vamos ver vários choques de lutas armadas aqui na Paraíba. uma política de escancaramento ao capital internacional. que mostra os momentos de acirramento social. capitalistas. Ele procura. que se encontra à venda no Departamento de História da UFPB e uma das autoras é a professora Rosa Godoy (desculpem os comerciais). faz toda uma propaganda ideológica contra o comunismo e também ao lado do IBAD nós temos o IPES. que procurou desatrelar os interesses das classes mais favorecidas. toda uma vida de lutas e perseguições. em 62. culminando com o próprio suicídio de Vargas. e vamos ver o distanciamento de Pedro Gondim. vamos ver o quebraquebra dos estudantes pela meia passagem de transporte. E o golpe começa a ser tramado. se aproximar cada vez mais. Vamos ver a morte de funcionários da Usina. como o caso de Mari. Não aqui.

Era uma situação difícil para ele. Vimos a situação do Governador quando ele diz que os camponeses deverão se limitar a fazer as suas associações dentro dos limites do Código Civil. que conta a história das Ligas Camponesas e das lutas sociais nesse período. vamos ter a movimentação de estu245    . que era a organização dos latifundiários destinada a se defender. Uma das pessoas que primeiro escreveu sobre essas lutas foi justamente o professor José Octávio. também atacava os camponeses. inclusive o professor Joacil de Britto Pereira. Quem quiser estudar profundamente a economia do Nordeste e a crise da reeleição de 58. totalmente acossado. Joacil Pereira era deputado estadual e fez parte daquele grupo de deputados que pediram licença para permitir a convocação do suplente Agnaldo Veloso Borges a fim de que ele pudesse gozar da famosa imunidade parlamentar. Aqui na Paraíba essa imunidade. Vamos ver também o pessoal da direita se organizando. procura desesperadamente. em vez de se reduzir à atuação parlamentar. só que com a cassação do Partido Comunista.ganizando. É dentro desse contexto que vamos ver que o Nordeste se transforma num barril de pólvora. A Liga Camponesa de Sapé inscreveu sete mil camponeses. Essa LILA. mas continua como um anseio do trabalhador do campo. pode estudar isso em Amélia Coin. no seu livro CRISE REGIONAL E PLANEJAMENTO. tomar o partido do mais forte. Com o acirramento da questão agrária. se esticou para abranger os crimes contra a pessoa. do qual ele era pesquisador. Pedro Gondim. quando as Ligas Camponesas trouxeram para a América Latina a famosa Aliança para o Progresso. manter um equilíbrio entre o grupo da Várzea que lhe tinha apoiado e o movimento popular de estudantes. segundo dizem. na época. Nós vamos ver que a questão das Ligas Camponeses despertou tanto atenção nacional e internacional a ponto de Josué de Castro dizer que o Brasil foi descoberto em 1500 por Pedro Álvares Cabral e redescoberto a partir das Ligas Camponesas do Engenho Galiléia. numa plaqueta que ainda hoje é muito consultada. com sua formação jurídica e conservadora. Como sabem. Era a maior Liga Camponesa do Nordeste. o Partido Comunista começa a se voltar para o campo a partir da redemocratização do país. no primeiro momento. Esse trabalho foi depois aprofundado e transformado num excelente artigo para um dos cadernos do NDIHR. esse movimento arrefece dentro do partido. Essa situação vai se acirrar a ponto de. A professora Monique entrevistou muitos historiadores.

da qual os Estados pequenos não foram consultados. Mas o Governo precisa se definir. Então ele é pressionado pelos grupos conservadores a tomar partido pelas forças vitoriosas. Aliás. Pela análise dos documentos. então. o coronel Ednardo d’Avila Melo. houve uma reunião para se tomar uma posição e as más línguas dizem que o governador ainda estava indeciso para qual lado iria. E vamos ter a atuação de pessoas como o major Cordeiro. documento que é publicado no jornal A UNIÃO. Porque naquele momento todo processo de conspiração dentro do seio das Forças Armadas. inclusive pelo segmento conservador da Igreja (havia uma força progressista na Igreja). Na véspera do golpe de 64 o Governo faz uma reunião com todo seu Secretariado. sendo. Na época havia até tanques de guerra para garantir a vitória dos golpistas. Não havia recuo. sugerindo que ele tem de tomar uma posição. vamos ver muitas pessoas totalmente comprometidas com o anticomunismo fazendo parte do órgão repressor do Governo. 246    . através de suas associações. chega-se à conclusão que o governador Pedro Gondim não teve participação naquilo que estava sendo tramado em nível nacional. O caminho era dos mais fortes. A eleição de 62 serviu também para acirrar esse momento. do 15 RI. O país está em ebulição. financiado e acabado. que lideraram a Marcha com Deus. No dia 13 de março João Goulart faz o famoso comício da Central do Brasil e faz a sua profissão de fé ao lado das Reformas de Base. É quando chega o genro de Pedro Gondim. Há mudanças no jornal oficial e aqueles jornalistas que eram mais progressistas são demitidos. Há uma metamorfose total. No dia do golpe. com o apoio da CIA. vamos ver a atuação do coronel da Polícia Militar Luiz de Barros. Antes disso o governo sabe que tem que tomar o mesmo caminho das Reformas de Base de João Goulart. à noite. publicado um documento de apoio ao golpe de 64. são substituídos por pessoas que têm uma linha ideológica totalmente conservadora. Com isso ele lavra sua própria sentença de deposição do Governo. dentro da classe média e dentro dos Estados mais importantes do Brasil. já está totalmente pronto. Trama-se uma conspiração. Nas eleições de 62 as Ligas Camponesas estão no auge. o deputado Vital do Rêgo. o Governo muda todos os segmentos ligados às esquerdas. e um desses Estados é a Paraíba. O golpe de 64 pegou de surpresa. a partir de agosto 1963.dantes. é até um pleonasmo dizer isso. dos sindicatos e das facções voltando-se contra o governo que anteriormente apoiaram. como uma figura que comanda a repressão com todo aparato governamental.

Goulart não teve o apoio do povo na hora em que precisou. e sobretudo o líder maior. Langstein e Agassis de Almeida. que foi Francisco de Assis Lemos. E como aquele trabalho que já mencionei – O JOGO DA VERDADE. que escreveu CO247    . Langstein de Almeida foi candidato. que queremos um Brasil progressista e democrático no terceiro milênio. o único que foi eleito deputado. É o filme JANGO. que desejamos uma sociedade cidadã. Os jornais conservadores diziam que a campanha de Elizabete Teixeira estava sendo amplamente financiada por Cuba.Apesar de toda uma luta social por reformas e apoio ao povo. como o assassinato de Margarida Alves. Esse documentário é muito fiel à história porque não ouve só um lado. A verdade é que o Presidente da República se viu sozinho Um dos documentários mais importantes que poderá ser analisado é o que foi financiado pelos filhos de João Goulart. que acreditavam no golpe. a gente acredita. Até mesmo a atuação de Leonel Brizola. Elizabete Teixeira foi candidata. um a um vão abandonando o barco. como Otávio Ianni. mas procuramos denunciar que todos os assassinatos de camponeses que ocorreram aqui na Paraíba infelizmente. feito em vídeo. E os seus ministros. Antônio Teixeira foi candidato. A morte de João Pedro Teixeira é um marco de luta. As eleições de 62 vão ter um acirramento muito grande nas lutas sociais daqui por que lança como candidata a própria Elizabete Teixeira. que eram de fortes conotações de esquerda. seu cunhado. por dinheiro vindo de Cuba e da União Soviética. Ou se definiam pelo golpe. Esse livro tem o depoimento das pessoas que participaram do golpe. tudo isso numa legenda que apoiava as Ligas Camponesas. é um trabalho pioneiro. que na época de sua posse liderou o famoso movimento pela Legalidade. Com o golpe de 64. esses assassinatos ainda permanecem impunes. ou ficavam em cima do muro. Mobiliza centenas e centenas de trabalhadores em protesto contra o assassinato de João Pedro Teixeira. na época atribuído ao grupo da Várzea e que ficou impune também. ficaram como suplentes. lutemos contra esse estado de coisas e exerçamos com todas as forças do nosso ser a nossa cidadania. Não trabalhamos com esse período. para vergonha nossa. Apesar do nosso trabalho ter sido um trabalho sobre as oligarquias açucareiras na Paraíba. É preciso que nós. não foi suficiente no Rio Grande do Sul.

quer seja de memórias. discutir e pedir a Deus. consultando fontes sobre o período. com o golpe de 64. Vai ser um Estado tecnicamente burocrático e autoritário com a instalação do golpe. Tenho uma cunhada que é fundadora e é dirigente. pela Constituição de 67. de que esse período triste da nossa história jamais possa se repetir. de perseguição e de que não gosto de me lembrar desse período da repressão. Temos a alegria de dizer que a Paraíba talvez seja um dos Estados do Brasil que tem uma maior produção historiográfica sobre esse período. tendo como base de adestramento os Estados Unidos. O NDIHR está à disposição dos interessados em fazer pesquisas documentais ou na hemeroteca. é substituída. um escritor. Apesar de não ser da minha especialidade esse período. como também a REPRESSÃO DOS QUARTÉIS. muito embora tenha como historiadora e cidadã a obrigação de conhecer. É um historiador. quer seja também de produção acadêmica. A partir do momento que houve o golpe de 64 todos os direitos e garantias da nossa Constituição foram totalmente ultrajados e derrubados. 248    . o Estado se torna autoritário e policial. por uma questão pessoal e também em respeito aos presentes. a jornalista Denise Santana Fom. Essas coisas precisam ser denunciadas para que nunca mais aconteçam na nossa vida nem na nossa nação. Tivemos o caso de Vladimir Herzog massacrado por esse sistema.LAPSO DO POPULISMO NO BRASIL. não será agora tão liberal. da questão agrária. que também sofreu na própria pele. tem um excelente livro RECORDAÇÕES DA ILHA MALDITA E OUTROS REGISTROS. feita pela professora Cândida Rodrigues. O Estado. como cristã que sou. A Constituição de 46. que é tida como uma Constituição liberal. que é outro depoimento. Passamos a viver um período de insegurança. de Jório Machado. tendo como base a ideologia de Segurança Nacional. que nós vamos partir para uma nova fase do Estado. à medida que os aparelhos de tortura vão se organizando. acredita também como disse Francisco Wefford. quando fazia parte do quadro de pesquisadores do NDIHR. as próprias memórias do historiador Joacil de Britto Pereira. em termos de produção científica. que é outro depoimento altamente documentado. Hoje ele é o patrono do maior concurso da América Latina de Direitos Humanos. Como professores temos esse compromisso. Gostaríamos de dizer que o NDIHR tem todo o mapeamento da luta camponesa. Ao longo do processo. que antes era um Estado liberal e aberto para as multinacionais. sofrendo emenda em 69. pedi a uma pessoa que é autoridade maior para falar sobre ele.

cada um é que vai definir se foi golpe ou não foi). ex-funcionário do Banco do Brasil. e atualmente sou o presidente deste Instituto. baseados sempre em que a hierarquia era importante.Quero dizer que sempre peço a Deus que meus filhos. 249    . Quem garantiu a posse de Juscelino e Goulart foi o Exército. Muito obrigada. ex-professor da Universidade Federal da Paraíba. como o país inteiro. E com a interferência do general Lott e do general Denys foi possível dar-se posse a JK e Jango. jornalista com fé-de-ofício por ter trabalhado no jornal A UNIÃO – nossa mais importante Universidade de Comunicação –. para evitar a posse de Juscelino Kubitschek porque o Vice-presidente era João Goulart. de como foi possível chegarmos a uma fase. meus netos não vivam o que a nossa geração dos anos 60 viveu. ex-professor da UFPB. Na realidade. como debatedor designado para tratar deste tema. historiador. os anos duros da ditadura. mas como faz uma coisa com a outra. Nós da Paraíba sofremos. o golpe foi evitado nessa fase. Que Deus abençoe nosso país para que qualquer que seja a crise que atravesse. cabe-me apresentar minhas considerações. era seu herdeiro político e ligado às classes populares. onde a liberdade e a cidadania eram coisas que não se tinha conhecimento na prática. de acontecer uma transformação violenta. Sou bacharel em Direito. foram os militares. O golpe também foi ensaiado em 1955. uma figura ligada às tradições de Getúlio Vargas. a sua soberania. que é os Estados Unidos. no Brasil. atual presidente do Instituto Histórico) Para os que não me conhecem. Assim. essas dificuldades. como a expositora realçou. como Jango queria. Com muita propriedade a professora Martha Falcão fez esse levantamento. A fala do Presidente: Tivemos agora a oportunidade de ouvir um relato completo dos antecedentes do movimento militar de 64 (anteriormente eu também chamava muito de golpe. esse golpe que esteve em marcha durante muito tempo. Debatedor: Luiz Hugo Guimarães (Escritor. foi interrompido quando Vargas deu um tiro no coração. ex-militante sindical. e que jamais caia em subserviência ao xerife maior. farei uma breve auto-apresentação. ele preserve. Agora.

o combativo Leonel Brizola. João Goulart passara pelos Estados Unidos. O golpe não aconteceu porque foi lançada a Campanha da Legalidade pelo governador do Rio Grande do Sul. que dirigiu um radiograma aos comandantes do I. pois antes de voltar para o Brasil. o comendador Renato Ribeiro e oficialidade. dentro da solução constitucional. Vicente Scherer. também não queria dar posse a João Goulart. As Forças Armadas se dividiram. ao lado do general Augusto Fragoso. Como se sabe. O general Denys. segundo consta. Ministro da Guerra. João Goulart estava 250    . Tenho a foto desse flagrante. tentaram evitar a posse do presidente eleito. o mesmo time que queria modificar a posição do Brasil no plano internacional. juntamente com o coronel Macário. general Machado Lopes. mas a maioria esmagadora da oficialidade ficou favorável à posse do Vice-presidente João Goulart. que será publicada nas minhas memórias. Ele era compadre do general Lott.Mas. II e IV Exércitos. do Rio Grande do Sul também se manifestou favorável. Enquanto isso os congressistas encontraram a solução parlamentarista para dar posse a João Goulart. informou a uma comissão de parlamentares do PTB. que era cunhado de João Goulart. No dia da renúncia do presidente Jânio Quadros eu participei das homenagens que o Exército prestou ao Duque de Caxias. Essa consulta feita em todas as unidades militares deve ter sofreado o ponto de vista do general Denys. E eu estava lá no palanque. no dia 30 de agosto. O general Fragoso foi chamado ao Rio de Janeiro com urgência. partido de João Goulart. que era o sucessor legal do presidente renunciante. Brizola colocou o Rio Grande do Sul em pé de guerra e contou com o apoio e pronunciamento do comandante do III Exército. O arcebispo D. que o Exército vetava sua posse. com comandante Franco. O general Henrique Lott lançou um manifesto à nação favorável à posse do Vice-presidente. na sucessão de Jânio Quadros. Oficiais das Forças Armadas. É uma tradição militar essa homenagem no dia 25 de agosto. O coronel Albuquerque era contra. representando o governador Pedro Gondim. patrono do Exército. Seu pronunciamento convocou a nação. É necessário dizer que para tal houve o apoio dos Estados Unidos. A campanha teve o apoio popular da nação. insuflados pelos mesmos civis conservadores e reacionários. capitão dos Portos. comandante do Grupamento. Nesse meio termo foi feita uma consulta entre os oficiais sobre a posição a tomar quanto à posse de João Goulart. viajou para o Rio e assumiu o comando do Grupamento o coronel Albuquerque Lima. A divisão entre os líderes militares forçou a uma tomada de posição junto aos oficiais.

achava pouco e criava uma série de problemas para o Governo. Os militares subalternos. as reivindicações populares espocaram e passaram a incomodar aqueles que se opuseram à posse de João Goulart. Todo mundo lá é sócio da ITT. as praças de pré. donas de casa. sem o guante do parlamentarismo. e adiantou que seu Ministro da Fazenda seria Walter Moreira Sales e o Ministro do Exterior San Tiago Dantas. Os emissários políticos fizeram uma ponte aérea entre o Brasil e a França. porque não podia casar.na China em missão oficial do país. A movimentação popular cresceu com as constantes reuniões de estudantes. Quando João Goulart retomou as funções de Presidente. Com a liberdade existente. Com a encampação daquelas empresas multinacionais por Brizola. De lá João Goulart voou para os Estados Unidos. Isso. Lá João Goulart confirmou que iria assumir o Governo. com a incorporação da AMFORP. onde ficou aguardando o desenrolar dos acontecimentos. 251    . Houve uma época em que os sargentos não podiam casar. Leonel Brizola. A luta de João Goulart para derrubar a emenda parlamentarista é conhecida por todos. aliás. É um regime capitalista em que o taxista. figuras bastante conhecidas dos norte-americanos. da ITT. Jango saiu da China para Paris. Tancredo Neves e outros iam e viam levando e trazendo mensagens. São empresas americanas de que participam os americanos comuns. designado pelo próprio presidente Jânio Quadros. Com a desapropriação daquelas empresas é evidente que os acionistas teriam prejuízo. ficou comprovado com a farta documentação posteriormente liberada pelo Departamento de Estado daquele país. o operário têm ações daquela telefônica. trabalhadores. Pergunta-se: teria sido premeditada essa representação? Pois bem. o movimento popular se acelerou. Podemos rememorar a posição tomada por Brizola. Renato Archer. não cabendo aqui me estender sobre sua tramitação. no Rio Grande do Sul. a dona de casa. cunhado do Presidente. com suas ações em queda na Bolsa. O investimento popular americano é feito nas grandes empresas que têm seus papeis negociados na Bolsa de Valores. A professora Martha Falcão esclareceu bem as dificuldades que o Governo encontrou em face da movimentação popular. criou uma situação difícil para o governo brasileiro. Véspera de eleições nos Estados Unidos. passaram a reivindicar maior participação e mais direitos. Eu tive um irmão que passou muito tempo “amigado” com a mulher dele. Esse pronunciamento de João Goulart facilitou a concordância dos Estados Unidos. o pessoal foi em cima de Kennedy.

Quem seria o seu substituto? Criou-se um problema. A partir daí Gordon tomou gosto em participar do movimento anti-Jango.Quando morreu o Papa. chegou a ser deseducado. que estavam em dificuldades. E o embaixador Gordon ficou tão desorientado que. Muitos parlamentares tinham que se desincompatibilizar para serem candidatos. além da cócega que fazia o jornal A TRIBUNA. advogado internacional. Tenho informações de pessoas que estiveram presentes nesse encontro. e João Goulart também foi. João Goulart indicou San Tiago Dantas. O Primeiro Ministro era Tancredo Neves. Jango recusou-se a autorizar esse câmbio privilegiado. Disseram que João Goulart. Muitas coisas dos bastidores dão um quadro dos interesses contrariados. de Carlos Lacerda. quando saiu do gabinete do presidente. tinha alguns interesses que dependiam do Governo. privilegiado. errou a porta de saída. Perdeu por cento e tantos votos porque antes havia feito um pronunciamento que afetou os partidos políticos. uma das figuras mais expressivas da intelectualidade brasileira. que serviam para afastar os grupos do governo. 252    . Começaram as especulações. quando esteve no Brasil. Houve muitos problemas sérios que aceleraram o golpe. Ouvi alguns auxiliares diretos de João Goulart comentarem que estava em tempo do Presidente convidar Roberto Marinho para um jantar. de Samuel Wainer. benquisto nos Estados Unidos. revelando que João Goulart foi veemente na proposta de Lincoln Gordon. porque o jornal da época era a ULTIMA HORA. Kennedy foi ao sepultamento em Roma. para umas remessas que TIME/LIFE ia mandar para reforçar seus jornais. irmão de John Kennedy. O grupo da GLOBO. diante da insistência. levantada pela professora Martha Falcão. culto. sobretudo os partidos conservadores. Ainda durante o parlamentarismo chegou o momento das eleições para o Congresso. O que Roberto Marinho queria (segundo se dizia) era que Jango autorizasse um câmbio especial. ficou difícil. Quando chegou na fase da intervenção de Cuba. Vez por outra os editoriais do jornal de Roberto Marinho desancavam o Governo. Ele tinha que deixar o cargo. como tinha sido perante Robert Kennedy. San Tiago Dantas foi derrotado na votação do Congresso. Lá discutiram o problema e João Goulart comprometeu-se em criar uma comissão especial de auditores independentes para levantar o acervo das companhias e o que fosse apurado o governo brasileiro encamparia a indenização. porque o embaixador Lincoln Gordon foi pressionar o Presidente Goulart. Pois bem. Depois desses jantares esporádicos os editoriais eram mais amenos.

portanto. mandou Leocádio Antunes. nitidamente política. Abelardo Jurema esteve lá. que tentara um princípio de reforma agrária no Rio Grande do Sul. que funcionava no Palácio do Catete. A greve já estava em andamento. exatamente localizado nas salas onde. a greve já estava mais ou menos encaminhada. Mas endurecia o la253    . Enviou inúmeros emissários para dialogar com as lideranças sindicais. esclarecendo que essas posições precipitadas fortalecem a campanha dos adversários do Governo. porque a partir daí passou a ser uma força respeitável. Um homem esclarecido. mandou o próprio San Tiago Dantas. João Goulart fez o possível junto a esse pessoal para evitar essa greve de 5 de julho. esteve instalado o corpo de segurança de Getúlio. Como vocês sabem. Mas. A greve era política. Começou a pressão no movimento sindical para indicar um Primeiro Ministro nacionalista. procurando um nome dentro daqueles parâmetros.. no dia 5 de julho. num avião da Panair. Em plena greve Jango mandou chamar a liderança sindical. fazia parte do Gabinete Sindical de Jango. senão não teremos mais condições de diálogo. Jango conversou com os líderes lamentando com veemência o procedimento do movimento sindical contra a indicação feita para Primeiro Ministro. A cúpula sindical fez uma greve geral. que tinha sido Secretário do governador Brizola. acabem com essa greve. que era o chefe da Assessoria Sindical de Jango. Foi quando ele disse: Voltem para o Rio. que fora Ministro do Trabalho. independente. um nome que o movimento sindical poderia acolher. Solicitou a imediata suspensão da greve ao retornarem os líderes ao Rio de Janeiro. Começou com Gilberto Crockat de Sá. O que feito imediatamente. e eles pressionavam para adquirir posições de poder político. especialmente preparado pelo comandante Melo Bastos. E Jango foi claro. Luiz da Costa Araújo. Mas o movimento sindical não concordou. João Goulart escolheu o nome do professor Brochado da Rocha. o general Osvino Alves também ponderou. não tinham a noção de quando recuar. a cúpula do movimento sindical sofria uma influência muito grande de alguns líderes comunistas que dirigiam umas duas ou três confederações de trabalhadores. etc. dirigido por Gregório Fortunato. nacionalista.Então o movimento sindical tomou parte. antes. Enquanto se estava decidindo a greve. Na realidade a posição assumida deu grande força política ao movimento sindical. Nessa época eu estava no Rio de Janeiro. Ela foi concertada na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores – CNTI. sendo então decretada. Levei a Brasília esse pessoal todo. Era.

Fica a favor ou contra? Pedro disse: diga ao governador Arraes que a resposta é esta. Pedro Gondim não tinha participação do movimento. talvez fosse até o coronel Pitaluga. Aliás. meu amigo.do adverso. quando o movimento chegou à Paraíba a posição de Pedro Gondim a favor ou contra. Isso é discutível. Ele não pediu nem conveniência. Então. tem gente aqui que pode esclarecer melhor essa questão. frisou a expositora Martha Falcão. com quem sempre mantive boa amizade. não teria a menor influência. Ai ele disse: o Governador Arraes quer saber qual a posição da Paraíba neste momento. etc.. Eu disse que estava meio confuso. Então ele disse que emendasse como deveria ser. era o antes pelo contrário. proposto por mim. etc.CRM – e foi um dos mentores do golpe aqui. e a gente não sabia bem o que queria dizer.. Acho que minha presença naquela reunião da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria e ter assinado o manifesto pela greve geral foram responsáveis por minha cassação política. porque ele era distanciado daquele esquema. em entrevista posterior ao jornal A UNIÃO relata o fato e invoca o 254    . um a favor outro contra. Eu guardo o nome: Fernando Mendonça. que é do Instituto Histórico do Mato Grosso. consta até que Pedro Gondim tinha preparado dois pronunciamentos. fui incluído no listão dos 100 primeiros cassados. O que é que você acha? O telegrama começava “A Paraíba mais uma vez se encontra com Minas Gerais. que era o homem de ligação do movimento aqui e um dos mentores militares do golpe na Paraíba. Ele pediu que desse uma redação ao meu jeito. Neste momento. em aparte concedido pelo debatedor: Eu estava no gabinete de Pedro Gondim. São registros que faço aqui de episódios de que participei. podendo até a Paraíba ter um interventor. Pitaluga esteve aqui na Paraíba comandando a Circunscrição de Recrutamento Militar . Hoje até me dou bem com Pitaluga. mas no fim. e mostrou o texto do telegrama. pois como os senhores sabem.. e seu irmão é nosso sócio correspondente. Manoel Batista de Medeiros. que projetava o golpe. O próprio Pedro Gondim. Se ele dissesse não ao golpe. Quando o golpe chegou à Paraíba. Um Estado pequeno. entra no Gabinete um cidadão que estava vindo da ante-sala e o cidadão se anunciou como secretário do governador Arraes. e aí ele me mostrou um telegrama e disse: Batista é este o telegrama que estou passando sobre a revolução. Assim. Vivia preocupado em manter o equilíbrio local entre camponeses e latifundiários. seria liquidado. do Ato Institucional nº 1.

Essas dificuldades de Pedro Gondim. E a Paraíba sofreu muito com esse golpe. Daí porque aquele estardalhaço. Da Paraíba foram incluídos quatro paraibanos: Abelardo de Araújo Jurema. e o porta-voz do Presidente que estava sempre na TV contundindo o governador Carlos Lacerda. 255    . que solicito dos presentes agregarem novos nomes que são do seu conhecimento. envolvendo os militares ligados a João Goulart. A lista dos estudantes que foram proibidos de estudar é enorme. Era natural. Era só isso que tinha a dizer. Nem era bem para proibir de estudar. que era Ministro da Justiça de João Goulart. por suas lideranças.meu modesto testemunho. essas foram liquidadas. As entidades que podiam. só por curiosidade. que se registra como fonte histórica. Lideranças políticas e sindicais foram atingidas. os senadores e deputados federais de tendência petebista ou socialista. Sabemos que os primeiros paraibanos cassados foram quatro naquela lista dos 100 mais. Minha impressão é que os golpistas não estavam muitos seguros. naturalmente com receio duma contra-revolução. Em todas instalações de ditaduras os primeiros visados são os trabalhadores. distribuímos com os presentes uma listagem de algumas pessoas que foram punidas pelo movimento de 64. Cassaram e prenderam logo os principais líderes nacionais e estaduais. Muitos tiveram que sofrer pressão para tomar uma posição.200 sofreram intervenção. O pessoal da Universidade Federal da Paraíba foi coletado naquele livro de Monique Cittadino A UFPB E O GOLPE DE 64. É uma lista incompleta. O primeiro Ato Institucional foi para eliminar a liderança mais qualificada. Antes do início da sessão. tanto que logo no início a repressão foi violenta. reagir ao golpe. Agradeço ao nosso consócio Manuel Batista de Medeiros por sua contribuição esclarecedora. Estamos tendo aqui depoimentos expressivos de episódios da nossa história. os estudantes e as universidades. era evitar que eles se reunissem para fazerem onda. São testemunhos ao vivo de uma fase que já está distante. todas as universidades sofreram intervenção. 7. como governador. Luiz Hugo Guimarães: Vejam os senhores a importância de Ciclo de Debates. não foram somente dele. as lideranças sindicais das confederações e federações nacionais. Outros governantes passaram pelas mesmas dificuldades. Houve logo a intervenção nos sindicatos. porque nos primeiros dias havia dúvida sobre o resultado do movimento. Todos os diretórios estudantis. De pouco mais de 8 mil sindicatos. ou dubiedades.

O reitor Mário Moacyr Porto foi afastado e substituído por um capitão-médico do Exército. por ser mais recente. Quem não era intelectual era um líder em sua classe. que era professor da Universidade. Na nossa Universidade foi um massacre. Da maioria dos programas constava Marx. porque distribuiu com os estudantes o Manifesto Comunista. que teve uma grande atuação no Congresso por ocasião da posse de João Goulart como Vice-presidente substituto de Jânio Quadros. para prestar contas de seus atos ao comandante Ednardo d’Avila Melo. Dessa vez os grupos mais retrógrados das lideranças civis apoiaram o golpe. onde eu lecionava. como acentuou a expositora Mar256    . pelos mesmos motivos anteriores. Pois bem. I.deputado José Joffily. que não era nada. pela Assembleia Legislativa. Quero lembrar que no Brasil foram punidos diretamente pelos atos institucionais 4. Um professor tirou uma cópia xerográfica do Manifesto e pediu para ele distribuísse com o pessoal. Quem alcançou essas punições? A maioria da intelectualidade. etc. Para os militares. também. Foram punições decorrentes de atos institucionais propriamente ditos. que decerto haverei de publicar. Era um material didático para ser debatido. e tornou-se interventor. Isso eu vi. Quem é professor da área de Ciências Econômicas tem que estudar os fatos sociais e econômicos. que constarão das minhas MEMÓRIAS. e eu. para ganharmos tempo com o tema que. Essa listagem que distribui com os presentes foi. etc. Foi muita gente punida. Mas o fato é que o golpe veio. deu trabalho para explicar isso e ele foi arrolado num inquérito. membro atual do Tribunal de Contas. a ponto de diariamente seus chefes terem de comparecer ao quartel do 15º R. com os demais segmentos da sociedade batendo palmas. para evitar sua leitura neste debate. é de grande interesse. também ministro de João Goulart. Na Faculdade de Ciências Econômicas. sem levar em conta as demissões da Universidade. de 1848? Houve até uma denúncia contra Marcus Ubiratan Guedes Pereira. Da sociedade que foi psicologicamente trabalhada pelo IPES/IBAD. e levar a lista do pessoal considerado subversivo.841 pessoas. Celso Furtado. foi arrasador. de repartições. Mas deixemos de lado esses detalhes. Todas as repartições federais sofreram intervenção. que foi o autor do Plano Trienal. Aí se seguem as perseguições pelo Estado. Como estudar economia sem estudar Marx e o seu CAPITAL? Como deixar de se referir ao Manifesto Comunista. quando estive lá antes de ser preso.

tha Falcão. O processo para se chegar até aquele ato presidencial foi longo. numa homenagem que recebeu em Duque de Caxias. Quem 257    . educacional. Não foi sem razão que se comemorou. Houve uma intervenção generalizada no campo econômico. operários. sugerindo até a necessidade de iniciarmos um curso de preparação para os punidos pelos atos do arbítrio. a passagem dos 20 anos da promulgação da Lei de Anistia. no Rio de Janeiro. O próprio presidente Figueiredo devia saber as consequências do seu gesto. como acentua a historiadora Monique Cittadino em seu trabalho A UFPB E O GOLPE DE 64. Lembro-me que em agosto de 1977. através de sua Mensagem de 27 de junho de 1979 ao Congresso Nacional. Lembro-me também que naquela época fiz uma crônica comentando o fato. intelectuais. A quase totalidade dos sindicatos sofreu intervenção. fora anistiado por ter participado da revolução constitucionalista de São Paulo. Esse processo durou 15 anos. com violenta perseguição às suas lideranças. a classe política sofreu forte golpe com a cassação dos principais líderes populares. que foram destruídas assim como as camadas populares foram excluídas do centro político nacional. Instalou-se um clima de delação e um processo punitivo permanente. asfixiando as liberdades. em 1932. O resultado foi o longo tempo de uma ditadura militar. sabendo que seu advento seria o início da derrocada do arbítrio. membros da oposição. o general Euclides. donas de casa. social e sindical. A iniciativa do Presidente João Baptista Figueiredo. não só pelo clamor nacional. disse que não se cogitava naquele momento da anistia. A partir daí. e com o apoio deliberado dos Estados Unidos a partir da ação clara do embaixador Lincoln Gordon e do coronel Walther Verner. todas as forças vivas da nação se empenharam na luta. foi lida no dia seguinte. mas por ter ele sofrido na pele os efeitos do arbítrio duma ditadura. O Comitê Feminista pró-Anistia teve papel saliente no início da campanha. que tomou o número 59. levando a sociedade a um desassossego nunca visto. comandada inicialmente pela esposa do general Jesus Zerbini. o senador Petrônio Portela. todos os diretórios estudantis foram esmagados. Estudantes. a nação inteira empenhou-se na conquista da Anistia. Era o combate às bases do Estado Populista.. recentemente. E alegava que os punidos do movimento de 64 não estavam preparados para recebê-la. Mas não foi fácil. inspirado que foi. tendo sua família sofrido as agruras do exílio. Seu pai.

os punidos de 30 e 32. que estávamos à margem da cidadania. porque o pessoal do Banco do Brasil boatou que estava chegando um funcionário que fora cassado. havia porto. por sua conta e risco. Os punidos de 1824 foram anistiados por um decreto no ano seguinte. estavam todos lá fora. e o Ministro da Justiça vinha com essa de preparar os beneficiários da anistia! Nunca se demorou tanto. os integralistas de 37 retornaram rapidamente ao convívio da sociedade. os comunistas de 35. ele me confiou sua preocupação porque Almino. Conversando com o pai de Almino Afonso.841 pessoas foram atingidas pelos atos institucionais! Fora do Brasil estavam figuras de valor sem poder oferecer sua inteligência à solução dos problemas nacionais. capital de Rondônia. Até no Império. mas os outros eram socialistas. quer dizer Sindicato de Ferroviários. professores universitários. transferindo-me para a agência de Porto Velho. à espreita de uma abertura para retornar ao país. Lá era uma cidade subversiva por natureza. os poucos médicos eram todos socialistas. E havia os que mofavam nas masmorras da ditadura. tornando-se muitos deles generais de grande atuação pública. saíra clandestinamente. que morava em Porto Velho. Estudantes sem poderem estudar. em 1825. 4. Congressistas. Na República. lideranças populares. talvez por conta da pobreza com que eles lidavam. com o grande democrata Juscelino Kubitschek. Internamente. foi mais rápido ainda para os participantes de Aragarças e Jacareacanga. Os tenentes de 22 e 24. Cidade fronteiriça e cheia de miséria. Não foi possível instaurar inquérito no Departamento dos Correios e Telégrafos de Rondônia porque não havia em quem confiar para organizar as Comissões de Inquéritos. Um fato inusitado na história brasileira. as leis de anistia eram promulgadas em breve espaço de tempo. para juntar-se a Jan258    . sem poderem exercer sua atividade útil consentânea com suas aptidões. que estava exilado na Iugoslávia. jornalistas. eram os exilados dentro da própria Pátria. em 1965.sabe. os que ficaram segregados. quer dizer Sindicato de Portuários. Lembro-me que o Banco do Brasil me deu uma punição interessante. o Mobral poderia patrocinar esse curso para nós. também o esquecimento era breve. Que poderia acontecer? Havia estrada de ferro. Estavam me esperando. Passaram-se 13 anos das punições. dizia eu. Foram 15 anos de muita gente fora da lei dos vencedores. para o Uruguai. retornaram ao Exército. e os desaparecidos. somente dois eram comunistas. A insegurança era muito grande.

Luiz Hugo Guimarães. O gerente do hotel era Amauri Silva. com seus velhos companheiros. Almino tinha sido ministro de João Goulart. e quando terminava o expediente ele saia comigo. Brizola e outros. depois de uns 20 dias. mas tenho que sair antes de terminar e peço mil desculpas pela interrupção. como a TFP. que como deputado estadual em Pernambuco foi líder de Arraes. Gilberto Azevedo. Faço esses registros porque pouca gente sabe das dificuldades dos bastidores. pois ouvi Leonardo Boff dizendo isso em Cuba. que foi Ministro do Trabalho de Jango e o subgerente foi um colega do Banco do Brasil. Esse livro encontrei no Sebo Cultural. E foi muito bom para ele. Mas.go. Ele dizia que o socialista é um cristão sem querer e o cristão é um socialista sem saber. o menino chegou. o que é a mesma coisa. Os caminhos que ele percorreu para chegar lá. Almino Afonso por conta própria resolveu sair da Iugoslávia clandestina para ir para o Uruguai. retomando a palavra: Para encerrar minha participação. Uma coisa que Silvio Frank Allen me sugeriu a ler foi o livro OS DEMÔNIOS DESCEM DO NORTE. Brizola e outros líderes políticos que ali estavam exilados. Pois bem. diariamente ele se angustiava e confiava em mim para desabafar. o velho chegava lá no Banco. eu não sei. todo dia. interrompendo: Estou achando tudo maravilhoso. porque ele trata do pentecostalismo que veio a mando do Pentágono exatamente para ir solapando. Grande parte deles foi liquidada ao tentar atravessar nossa fronteira. que estava desajustado totalmente num país industrial. Pedi a palavra apenas para sugerir a leitura desse livro. 259    . Primeiro sobre a TFP. Jango manteve um hotel que acolhia os refugiados que por lá chegavam. Porque aqueles que estavam querendo voltar para o Brasil eram muito visados. pedindo desculpas e dizendo “sou cristã e socialista”. onde só técnico tem vez.. vamos dar continuidade aos debates. Afinal. como estava relatando. que usa a imagem de Nossa Senhora de Fátima também para fazer toda essa contestação ao socialismo que começa a se implantar. Acho que dei meu recado. e com minhas desculpas por ter tomado algum tempo. Jango. No Uruguai. ele chega animado e diz: Olhe. Paula Frassinete. Martha tratou da religião. mas queria chamar a atenção de duas coisas. era bem melhor. até receber a notícia de sua chegada são e salvo ao Uruguai. Queria parabenizar Martha Falcão. Só faltava chorar.

como suplentes. jornalista) Eu queria incluir na lista de perseguidos do golpe o nome de dois paraibanos que foram Nego Fubá e Pedro Fazendeiro (palmas). de Campina Grande. Antônio Fernandes de Andrade. que foi distribuída com os participantes do Ciclo de Debates: Os primeiros cassados: Pelo Ato Institucional n. Transcrevemos. a listagem que foi distribuída previamente com os participantes do Ciclo de Debates: Lista (incompleta) dos paraibanos alcançados pelo movimento de 64. relator do Projeto de Reforma Agrária) Luiz Hugo Guimarães (líder sindical. Sílvio Pelico Porto.04. de João Pessoa. Orlando Almeida e Ronaldo Cunha Lima. numa cela próxima da minha. Pelos AI subseqüentes: Deputados Federais: Pedro Moreno Gondim. Antônio Peba. foram cassados todos os vereadores do PTB. Compositor: Geraldo Wandré. Magistrados: Desembargadores Emílio de Farias e João Santa Cruz. a seguir. Francisco Souto Neto. 260    .1º participante: João Batista Barbosa: (Escritor. Antônio Mariz. Figueiredo Agra e Langstein de Almeida. Romeu Gonçalves de Abrantes. de Alhandra. Mário Silveira. Vital do Rego e Osmar de Aquino. de João Pessoa. Vereadores: Antônio Augusto Arrouxelas Macedo. ex-deputado e ex-prefeito de Campina Grande. de Sousa. Deputados Estaduais: José Targino Maranhão. posteriormente: Pela Assembléia Legislativa do Estado: Deputados Agassis de Almeida. Robson Duarte Espínola. Francisco de Assis Lemos. Luiz Hugo Guimarães: Esses nomes estão registrados na lista que distribuí. Domingos Mendonça Neto. de Santa Rita. de Rio Tinto. Elias Pereira. de Campina Grande. Em Rio Tinto. Antônio Teixeira. Severino Cabral. e José Gomes da Silva e Leonardo Moreira Leal.64: Abelardo de Araújo Jurema (ex-Ministro de João Goulart) Celso Furtado (ex-Ministro de Planejamento de João Goulart) José Bezerra Joffily (ex-deputado federal. Juizes Hermílio Ximenes e Humberto Cavalcanti de Mello. da Assessoria Sindical de João Goulart) Cassados. Nego Fubá esteve preso no quartel do 15.º 1. de 10. Prefeitos: Newton Rique.

José Soares dos Santos. José Kehrle. presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação. Ex-alunos. Severino Ramos. Antônio Dantas. Paulo Ribeiro da Silva (BB) Jason Gonçalves de Lima (BB). Luiz Bernardo da Silva. Langstein de Almeida. como Coordenador da FAFI. Djair Aquino Lima. Cal e Gesso. Carlos Guerra. Dirceu da Cunha Machado (BB). Hércules Gomes Pimentel. Ronald de Queiroz. presidente do Sindicato de Cimento. Derly Pereira (BNB). Sindicato Rural de Sapé. secretário do Sindicato Rural de Camarazal. Elizabete Teixeira.Punidos por atos arbitrários: Professores demitidos. Pedro Moreno Gondim. José Jackson de Carvalho. Emilson Ribeiro. Simão Almeida (Engenharia). Francisco Ramalho (BB). últimos presos a serem soltos com a anistia) Sindicalistas: João Ribeiro Filho. Maria Thereza Ribeiro Prost. líder camponês. sem renovação de contratos ou com vencimentos sustados: Luiz Hugo Guimarães. Hienal de Carvalho Ferreira. Marcelo Renato Arruda. Manoel Severino Ricardo. Antônio Nazário. Nakay Hiershi. Dermerval Trigueiro do Valle. de João Pessoa. Jório Machado. era revisor de A UNIÃO (preso em Itamacará. presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. João da Cruz Fragoso (BNB). Jornalistas: João Manuel de Carvalho. Célio Di Pace. Laurindo Albuquerque. Carlos Eduardo Pessoa Cunha. Padres: Os mais visados foram os Padres Juarez Benício e Everaldo Peixoto. Gerard Camilo Prost. Hélio Correia Lima. Adelmo Neves Machado. Zenóbio Toscano de Oliveira (Engenharia). Boanerges Timóteo (BB). Raimundo Adolfo e outros (Vide o trabalho de Monique Cittadino A UFPB E O GOLPES DE 64). Rivaldo Cipriano da Costa. Enoque Gomes Cavalcanti. Lúcio Villar Rabello (BB). Francisco de Assis Lemos. Heronides Dias de Barros. Nizi Marinheiro. Erson Neiva Monteiro. Adalberto Barreto. Vanildo Brito. Bancários: Antônio Aragão Filho (BNB). presidente do Sindicato Rural de Camarazal. Idalvo Veloso Toscano de Brito (BNB). presidente do Sindicato de Tecelagem de Santa Rita. Carnot de Cavalcanti Villar (BB). com José Calistrato. Otávio Fernandes Barbosa. Jander Cunha Neves (Economia). proibidos de estudarem: José Fernandes Neto (Face). Vários foram destituídos de seus cargos. Sebastião Borges Sobrinho (BB). Beatriz Maria Soares Pordeus. Antônio Geraldo de Figueiredo. como o Reitor Mário Moacyr Porto e Paulo Pires. presidente da Federação dos Trabalhadores na Indústria da Paraíba. Jader Carlos Coelho da França (Direito). Lindalvo Virgínio Franco. Manoel Martins Paiva. Joost Van Dame. Romero Cunha Lima (BNB). Lenildo Correia da Silva (Econo261    .

Eduardo Ferreira de Lima (economia). Luiz Carlos Soares (Engenharia). Nobel Vita (Direito). Francisco de Paulo Barreto Filho (Direito). Maria Teixeira (Ciências Sociais). Risalva Bandeira Machado (Economia). Eimar Fernandes (Filosofia). Alzenir Rodrigues dos Santos (Face). Maria da Penha Ribeiro (Ciências sociais). Tibério Graco de Sá Pereira (Engenharia). Aderbal Villar de Carvalho (Face). Maria Egilda Pereira Saraiva (Economia) Maria Gilda de Oliveira Pinto (Economia). Genuíno José Raimundo (Economia). Djamil de Holanda Barbosa (Politécnica). Inácio de Loiola Monteiro Souza. José Iremar Alves Bronzeado 262    . Jorge de Aguiar Leite (Economia). Hélcio Lima de Oliveira (Engenharia). Vicente Antônio da Silva (Engenharia).mia). Maria do Socorro Morais (Serviço Social). Maria do Socorro Pessoa (Filosofia). Leda Rejane Pereira do Amaral (Face). Raimundo das Neves Brito (Economia). José Arimatéia Bezerra de Lima (Filosofia). Antônio Gomes da Silva (Economia). Paulo José de Souto (Engenharia). José Cazuza de Lima (Direito). Maristela Villar (Medicina). Norberto Lima Sagratzi (Engenharia). Luiz Sérgio Gomes de Matos Filgueiras (Politécnica). Arnaldo José Delgado (Engenharia). Maria do Socorro Ramos (Economia). Jaerson Lucas Bezerra (Face). José Leão Carneiro da Cunha (Economia). Wilma Batista de Almeida (Fafi). Pe. José Tadeu Carneiro da Cunha (Engenharia). José Ferreira da Silva (Face). Rubens de Pinto Lyra (Direito). Oriana Andrade Matos (Filosofia). Getúlio Bezerra de Castro (Medicina). Maria Auxiliadora Rosas (Face). Maria de Lourdes Meira (Filosofia). Antônio Sérgio Tavares de Melo (Filosofia). João Roberto de Souza Borges (Medicina). Maria Lívia Alves Coelho (Medicina). Tercino Marcelino Filho (Economia). Emilton Amaral (Direito). Williams Capim de Miranda (Politécnica). Wladimir Martins de Souza (Direito). Kenneth Talis Borjas Jaguaribe (Enfermagem). Sebastião Borges Sobrinho (Economia). Augusto Aécio Mendes (Engenharia). José Urânio das Neves (Economia). Jurandir Cardoso de Albuquerque (Face). Dinalva Navarro (Ciências sociais). Darlan Nóbrega de Farias (Politécnica). Hélio do Nascimento Melo (Economia). Maria Nazaré Coelho (Filosofia). Edite Maria de Oliveira (Face). Iêdo Martins Marcondes da Silveira (Politécnica). Brígida Nóbrega (Filosofia). Maria Neiva Gadê Negócio (Direito). Maria de Fátima Mendes da Rocha (Fafi). Cláudio Américo Figueiredo Porto (Economia). João Batista Filho (Economia). Terezinha do Vale (Ciências Sociais). Everaldo Nóbrega de Queiroz (Engenharia). Francisco Trigueiro (Farmácia e Bioquímica). Germana Correia Lima (Direito). Eraldo Fernandes dos Santos (Medicina). Saulo de Tarso Sá Pereira (Medicina). Heloízio Jerônimo Leite (Face). Everaldo Ferreira Soares (Medicina). Carlos Antônio de Aranha Macedo (Economia).

e Manoel Patrício. Heloízio Gerônimo Leite (estudante). tendo também desaparecido ao ser posto em liberdade). conhecido por Pedro Fazendeiro (desaparecido ao ser posto em liberdade). Manoel Ferreira Gomes. Aderbal Villar Sobrinho (Economia). comerciário. estes de Mamanguape. Celso Matos Rolim. prefeito de Santa Rita (pai da expositora). vereador. tipógrafo. depois na Suécia. Antônio Soares de Lima Filho. Guilherme Rabay. João Manuel de Deus. estudante. estudante. escritor campinense. Delegado do Tribunal de Contas no Estado. responderam IPMs. Miguel Penedo da Silva. estiveram asiladas. durante dois meses. Abdias Sá. deputado estadual. exilou-se no Chile. Antônio Augusto de Arrouxelas Macedo. Yolando Alves de Souza (chofer de Assis Lemos). ainda hoje não foi anistiado. estiveram: João Santa Cruz. em xadrez comum. José Ferreira da Silva (Economia). Pedro Inácio de Araújo. Manoel Barreto Dias. Langstein de Almeida. jornalista. advogado.. (ficou numa cela ao lado. Outras pessoas que responderam IPM: Eduardo Ferreira Lima (Batata). inspetor do Trabalho. professor universitário. Luiz Alberto de Andrade de Sá Benevides. economista da SUDENE. jornalista. Adalberto Cavalcante de Souza. Pedro Dantas das Chagas. Agamenon Martins de Souza. Jório Machado. Francisco Lopes. Laurindo Melo. Pessoas que foram presas. na Ilha de Fernando de Noronha: Jório Machado. de Itabaiana. Laurindo Albuquerque.(Economia). advogado e suplente de vereador. professor universitário. José Alves de Lins. onde veio a falecer em 1993. sobrinho de Humberto Lucena (militante do PCBR no Rio). Inocêncio Nóbrega Filho (Economia). Bento da Gama. militante do PCBR e ex-presidente da UPES. João Alfredo Dias. I. Delegado do Tribunal de Contas da União. Laurindo Marques de Albuquerque Melo. ou sofreram os horrores do golpe: Estiveram com este Expositor. estiveram. comerciante. Genival Veloso França (Medicina). Josué Silveira. desembargador. estudante. Também estiveram presos em Fernando de Noronha os ex-deputados Assis Lemos. prefeito de Rio Tinto. Antônio Fernandes de Andrade (Bolinha).I. Antônio Soares de Lima Filho. Antônio Aurélio Teixeira de Carvalho. Paulo Alves Conserva. Elpídio Navarro. Nizi Marinheiro. isolado. que participou do movimento dos marinheiros no Rio. Artur Nunes de Oliveira. Agassis de Almeida e Figueiredo Agra. Em xadrez especial. Bento da Gama. João Batista Barbosa (contador). teatrólogo. empresário. Antônio Viana de Oliveira. Procurador da Superintendência de Reforma Agrária na Paraíba – SUPRA. no 15º R. Juntos. Maria Amélia de Araújo. Israel Elídio de Carvalho Pinto. conhecido por Nego Fubá. com este Expositor. no 15º R. 263    .

Leda Rejane do Amaral. de Mamanguape. um pouco da recuperação do seu prestígio. Juarez Macedo. Durval Domingos da Cruz. quando para a posse de Jango. Nizi Marinheiro. José Ferreira da Silva. Maria das Dores Paiva de Oliveira. comerciante. uma das colunas mais lidas. Chico do “Baita”. A proclamação do Governo Pedro Gondim aos paraibanos deu a S. Antônio Fábio Mariz Maia. tem um fundo de ironia e mostra que ele acertou porque ficou do lado dos vencedores. Manoel Ferreira Gomes. Esse documento se encontra no CORREIO DA PARAÍBA. Otávio de Sá Leitão Filho e Laurindo Albuquerque Melo. E atirou certo. engenheiro. Pedro Gondim disse que tinha que estar ao lado da legalidade. identifica-se com o povo paraibano. sem titubear. Maria Limeira. Flávio Tavares. como a Paraíba esteve em 30. dos Correios. Marcus Ubiratan Guedes Pereira. Vicente Rocco. economista da SUDENE. Francisco Assis Lemos. Martha Falcão. Isa Guerra. agricultor. Além de recuperar a confiança dos setores representativos do latifúndio no Estado”. O Chefe do Executivo falou na hora exata. da CEPLAR. e está aqui citado pela professora Monique. comerciante. Antônio Flaviano da Rocha. Estanislau Fragoso. ficou com o lado que venceu. João Batista de Melo. No dia seguinte a coluna política do nosso saudoso José Madruga. Esse livro teve uma grande procura pelos alunos de História da Paraíba porque é uma das melhores fontes para se estudar de 45 a 64.médico chefe do SAMDU. Antônio Augusto de Almeida. É um trabalho bastante 264    . Manoel Barreto Diniz. médico do SAMDU em Sapé. Pedro Targino Moreira. Lígia Mercês Macedo e Iveline Lucena Costa. comerciante. Clemente Rosas. diz o seguinte: “Melhorou. A nota é bastante crítica. José Batista Gondim. Antônio Barbosa da Silva. Os alunos Heraldo Cavalcanti de Melo. comerciante. Responderam inquérito na Faculdade de Ciências Econômicas: Os professores Cláudio Santa Cruz Costa. para suas considerações finais: Gostaria de dizer que o depoimento do professor Manuel Batista de Medeiros foi um depoimento muito importante porque por se tratar de uma pessoa que participou do momento. líder camponês. quando o governador Pedro Gondim teve que tomar uma posição. José Iremar Alves Bronzeado. sapateiro em Guarabira. Albano Nunes Nicodemi e Edvaldo de Góis. como de outra vez. Ronald de Queiroz. Francisco Barbosa Diniz. estudante. Luiz Hugo Guimarães. da Marinha. Antônio Domingos. metalúrgico. de 3 de abril de 64. Fragoso). 1º Tenente da Reserva. sargento da Aeronáutica (irmão do bispo D. estudante e artista plástico. Moisés Lopes da Costa. Excia.

Agradeço o espaço que me foi dado na participação desse evento. inclusive Luiz Hugo Guimarães também foi entrevistado. Hélio Zenaide. 265    . feito com depoimentos de pessoas que. Deusdedit Leitão. sobretudo nas fontes colhidas nos jornais da época.documentado. como o professor Manuel Batista. onde tive oportunidade de aprender muito sobretudo com as considerações de alguém que. participaram. O livro se baseia na história oral e fontes documentais. além de historiador e teve o privilégio de ter sido testemunha da época. como é o nosso presidente Luiz Hugo Guimarães.

1986. é portadora de curso de francês premier e deuxiéme degré. Passo a palavra à jornalista Fátima Araújo. aquele companheiro comunicou-nos sua impossibilidade em comparecer. e HUMBERTO LUCENA – O VERBO E A LIDERANÇA. 1983. pela Fundação Pe. PARAÍBA. pesquisadora. Historiadora. A expositora. nossa confreira. e atualmente mantém uma coluna semanal no CORREIO DA PARAÍBA. jornalista Fátima Araújo. pela Aliança Francesa. possui curso de especialização em Comunicação Educacional (URNE. Participou de vários Seminários. fez ainda os cursos sobre Problemas do Desenvolvimento Brasileiro. deveria estar conosco o jornalista Antônio Costa. PARAHYBA 400 ANOS. SANTA ROZA – UM TEATRO CENTENÁRIO. que há treze anos pertence ao quadro de sócios efetivos deste Instituto. tem vários livros publicados. que é A IMPRENSA NA PARAÍBA. IMPRENSA E VIDA. Redator-chefe de A UNIÃO. é graduada em Letras e Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba. curso de Psicologia da Personalidade. 1985. Campina Grande). Este é o perfil da nossa expositora de hoje. 1999. Ibiapina e o curso de Noções de Biblioteconomia. (ensaio que foi premiado no IV Centenário da Paraíba). inclusive sobre Literatura Brasileira. em São Paulo e Caruaru. é sócia do nosso Instituto. ANTÔNIO MARIZ – A TRAJETÓRIA DE UM IDEALISTA. Fátima é jornalista militante. 1989. HISTÓRIA DA API. 1985. pela UFPB. da União Brasileira de Escritores. e presidente da Associação Paraibana de Imprensa. para falar sobre o tema de hoje. 266    . tendo atuado na imprensa paraibana em todos os jornais. tem vários cursos de extensão universitária. o que lamentamos. Expositora: Fátima Araújo (Sócia do IHGP. Por motivo de saúde. cumprindo-me destacar os seguintes: HISTÓRIA E IDEOLOGIA DA IMPRENSA NA PARAÍBA.12º Tema: A IMPRENSA NA PARAÍBA Expositora: Fátima Araújo A fala do Presidente: Convido para participar da mesa a jornalista Fátima Araújo. 1996.

Se este interesse pró-comunidade é desviado no limiar de sua intenção e os profissionais de imprensa veem-se às voltas com a preservação dos interesses das empresas jornalísticas. Quando falo aqui em imprensa. Alcançando as condições essenciais para o seu amplo desenvolvimento através da evolução dos processos tipográficos. o fato é que. causas que reduzem o acesso aos jornais. uma visão panorâmica. a imprensa brasileira hoje está capacitada para formar e informar a comunidade. que é um tema importante. sofre restrições e condicionamentos. Aproveito o ensejo para mostrar a vocês o fac-símile do primeiro jornal do Brasil e o primeiro da Paraíba. E não se vá pensar que o mundo desenvolvido das grandes potências esteja livre das amarras e dos condicionamentos. durante as duas ditaduras: a de Getúlio Vargas e a ditadura militarista de 64. mesmo assim nosso povo ainda se interessa pelos jornais. não estão nem um pouco interessadas em informar a opinião pública. elas querem apenas dinheiro. quer para driblar as amarras da censura. As empresas jornalísticas têm outra ideologia. não só no Brasil. infelizmente. mas noutros países da América do Sul. da Associação Paraibana de Imprensa. Em alguns períodos estanques da nossa história foi a censura aplicada com a maior severidade. intimidando os jornalistas. falando mais em nível de conscientização e ideologia. como qualquer outro tipo de liberdade. não obstante o analfabetismo ainda alto. como da especialização dos profissionais em termos mais recentes. como vocês sabem. querem apenas agradar os anunciantes. da Academia Feminina de Cultura e da Academia de Letras Municipais do Brasil. alguns jornalistas passam por cima de tudo e forjam algum processo nesse sentido.seção da Paraíba. que existe na imprensa. as falhas do ensino e a falta de condições financeiras do nosso povo. pois o livro que escrevi sobre o assunto – PARAÍBA. a ideologia dominante. a imprensa visa alcançar o fim ideal da promoção do bem comum. como no Chile. os filtros. na Argentina e no Uruguai. Escamoteamento à parte. Mesmo assim. IMPRENSA E VIDA . em princípio. Devo dizer que não vou discorrer sobre a História da Imprensa porque é uma história imensa. Darei uma visão geral. A liberdade de imprensa. seção da Paraíba). Escamoteamento à parte. quer para garantir os interesses das empresas jornalísticas. em prejuízo da comunidade. isto é realmente lamentável. Isto aconteceu várias vezes. 267    . me refiro aos jornalistas e não empresas. formadores da opinião pública.tem 407 páginas. Esses foram os períodos piores da imprensa.

onde mais de 95% da população é alfabetizada. as limitações econômicas têm sido tão fortes quanto as políticas. porque dela depende. detentores de problemas sociais em bem menor escala. Mas. no sistema vigente. nesse sentido. não podemos fazer nada. nossa imprensa é muito amordaçada e muito limitada em termos econômicos. não temos os recursos que eles têm. E quando essa imprensa deixa se escravizar de mais pelos interesses dos anunciantes os leitores a desprezam. cada qual querendo tomar para si o jogo da imprensa. que jogue limpo com a opinião pública. com o povo deixando escapar o grito de liberdade que há muito está preso em sua garganta. rechaça-se esses condicionamentos políticos. Na verdade. devido ao poder econômico. onde a imprensa desenvolveu-se na medida em que também se desenvolveu o capitalismo. quase sempre acoplada ao aparelho político-jurídico do Estado. os jornais registram as mutações semânticas. Há uma rivalidade entre leitores e anunciantes. o registro torpe ou verdadeiro da história e da nossa língua. de maneira geral. Por que? Porque além de não sermos conscientizados ainda. de nuances ideológicas pouco animadoras. A observação é válida para a imprensa de todo o Brasil. não podemos comparar o caso dos Estados Unidos. como noutras partes do mundo. Por isto lamenta-se a detectação. jamais. Isto porque estão pouco comprometidas com a verdade e com as mutações que o decurso da história exige. Ou. É comum as pessoas condenarem os jornalistas. exigem. Principalmente se esse povo é amainado no processo de democratização. com o Brasil. infelizmente. Capta-se. as ocorrências. a não ser que mude o curso da história política deste país. Imprimindo as aspirações coletivas. conscientizadas. econômicos e ideológicos a que se submete a imprensa. dizendo: 268    . O que infelizmente não acontece no Brasil. mais especificamente.Basta que tomemos o exemplo dos Estados Unidos. Em nível de Paraíba. a dominante. Só um parêntese. nessa mesma imprensa. mas também politizadas. daí que se exige uma imprensa livre. geralmente as massas não só alfabetizadas. acima de tudo. por sua vez. uma maior eficiência do sistema de informação. condena-se. numa maneira de forjar a sua responsabilidade político-social. No caso de países desenvolvidos. políticos e ideológicos. circunstância que não vai mudar tão cedo. No Brasil. nós somos bem mais condicionados. talvez. No Brasil. a ideologia da imprensa continua sendo. E o percentual esclarecido da população não está alienado. conscienciosa. O bom senso nos diz que o nível de desenvolvimento de uma nação influi enormemente na conscientização do povo.

muitos foram até assassinados. invadiu todos os lares através da imprensa falada e escrita. Aliás já está numa terceira edição. Jornalistas que levaram surras. levaram tiros. É mais fácil se interessarem por beleza. digo até os dias atuais. Claro que a gente não vai poder usá-la toda vida. tivemos muitos jornais que foram empastelados. No passado. A partir de 1826. porque nós dependemos. politicamente. o que o deputado fez. Posso mostrar a vocês um fac-símile do primeiro jornal da Paraíba. através da televisão. Nossa ideologia. aniversários. o consumismo tomou conta de tudo. que num dia só saíram dez fotos do governador Maranhão. Já criei uma sala de 269    . que poderiam caber na sua segunda edição. Mas. editado em 29 de agosto de 1826 e o primeiro jornal do Brasil. Ouvi comentarem. e assim por diante. Então as pessoas estão mais consumistas e fica difícil sair desse esquema. cujos fac-símiles constam de meu livro citado. outro dia. É porque nossos jornais dependem economicamente. dez fotos de Vilma Maranhão. Como técnicos nós escrevemos. E o que foi que aconteceu? Sofreram. e assim por diante. fazemos a imagem do governo.esse jornal não é nem oficial. no passado. hoje. foram presos. festinhas. às vezes trabalhando em assessorias do governo. Eu conto isso no meu livro. Claro. eram mais idealistas. Fiz pesquisas posteriores. só que as pessoas no nosso Estado não se interessam. é oficialesco. redigimos as matérias e as lançamos. Como o médico consulta seu paciente e passa o remédio tal. Naquela época as pessoas eram mais idealistas. nem dentro da bolsa. ideologicamente. através da indústria cultural. Não somos nós. mostramos para a opinião pública o que governador tal fez. como técnicos nós fazemos. como vocês sabem. Como técnicos. mas pesquisei até cinco anos passados. mas já faz alguns anos que eu terminei meu trabalho. quase sempre fundados com garra e idealismo. quando se fundou o primeiro jornal do nosso Estado – GAZETA DO GOVERNO DA PARAÍBA DO NORTE – registrou-se na Paraíba uma história bonita de periódicos ecléticos e ideológicos. Nós não temos dinheiro para fazer uma empresa jornalística e muitos que se lançaram nessa empreitada acabaram sucumbindo. incendiados. do que fazer trabalho da re-edição de um livro. construiu aqui e ali. desse sistema tecnológico. não. A gente tem essa ideologia. Infelizmente os estudantes de comunicação precisam de mais do livro e vivem lá em casa me aperreando. de 10 de setembro de 1808. os jornalistas. que é a GAZETA DO RIO DE JANEIRO. Verificando todo esse passado até os dias atuais. a gente leva para onde vai. Não deixa em casa.

Gostam daquele confete jogado o tempo todo em cima deles. seja ele político ou econômico. O que se vê hoje são editoriais bem neutros. Antigamente a gente verificava no jornal do século passado A IMPRENSA. que destruíram com requintes de perversidade e da mais pura maldade. que da imprensa apaixonadamente opinativa do princípio nós involuímos para um tipo de imprensa mais reservada e acanhada de manifestação. Não obedecem ao critério da proximidade. verificando esse passado no estudo diacrônico e apurado que fiz. Mas eu também não vou chorar lá nos pés deles. o que se fez e o que se há de fazer nesta terra.pesquisas só para os estudantes de comunicação. Ninguém se interessa em re-editar o livro. sem o sentido primeiro proposto pela verdadeira comunicação. E a gente a270    . eles se referem a um tema bem universal. Sai uma pecinha corajosa dentro dos próprios jornais menos corajosos. como aconteceu no passado. Como estava dizendo. Eles façam se quiserem. bem apaixonada. pensando que é bom para eles. ideológica. Como vocês sabem. É peça opinativa de grande valor. O que acho mais triste é que os governantes procuram castrar a imprensa. é a opinião do jornal. não deviam ir tão longe. mas é do editor do jornal. deviam ter mais um pouco de coragem. Quando eles não podem questionar algo que está mau no Estado. escapando de questionar ou criticar os governantes próximos. Vez por outra sai um jornalzinho corajoso. com certa tristeza. pelos poderes constituídos. Dentro desta seara controvertida enquadram-se os editoriais dos nossos periódicos. Nas opiniões que expressam. Não vou me humilhar. para não serem atingidos. Muitas vezes eles questionavam os atos políticos. Muitas vezes até ajudavam os governantes. Elas vêm sempre sem assinatura. Estou falando de todas as instituições. Mas. O interessante é deixar que a imprensa fosse como já foi. venham a mim se quiserem re-editar o livro. estou apenas realçando os editoriais dos jornais. Até certo ponto é compreensível a alegação do trauma causado pelo empastelamento das nossas folhas. É uma maneira de fugir da proximidade. As pessoas sofreram muito e hoje não estão a fim de apanharem tanto. colocando parte de minha casa à disposição deles. questionando os atos públicos. vez por outra a gente vê um jornalista ou outro corajoso. quase sempre desfigurados. editoriais belíssimos. Os governantes precisam de críticas para melhorar. órgão da Diocese. inclusive a Universidade. senti. se puderem. Sinto muito. que é uma peça importantíssima do jornal. Aliás. estas peças opinativas deixam transparecer a ideologia dominante de acoplamento ao poder. ajudo como posso os estudantes. até para a seriedade da empresa.

como acabei de mostrar. É compreensível. Era um jornal católico doutrinário. É bom sempre a gente questionar. São os três principais em circulação. Manoel Paiva. falta de conscientização. olhar com coragem. nós temos três jornais vivos. um confete só. que é do dia 5 de agosto de 1953. Era um jornal corajoso e trazia editoriais belíssimos. um negócio chato até de ler. aqui e acolá saía de circulação. E se olhar. tem jornal que não dá coragem nem de abrir. no momento. Nós somos comunicadores para isso. quatro anos depois de A UNIÃO. que não se venha justificar o nosso esquecimento como comunicadores da grande responsabilidade político-social que abraçamos. entrava em e271    . a evoluir. sim. Um jornal que seria interessante citar para vocês é o jornal da Diocese – A IMPRENSA. Em 1897 surge esse jornal. o segundo mais antigo. baixar o seu índice e melhorar a nossa conscientização. mas que não se venha justificar nossa mudez. que foi fundada em 3 de fevereiro de 1893. que possui importância na imprensa paraibana e merece um estudo mais apurado. que é do dia 7 de maio de 1908. Não queremos isso para o nosso Estado. com prejuízos morais e materiais para seus dirigentes. Este jornal teve grande aceitação por parte da opinião pública. a crescer. Um oficial e dois privados. Na capital. mas de todo o país. O NORTE. e para a época foi considerado um jornal maravilhoso. é por conta dos condicionamentos políticos. 1º Bispo e 1º Arcebispo do nosso Estado. e o CORREIO DA PARAÍBA.plaude isso aí. É uma alienação total. São eles: A UNIÃO. A perseguição aos jornalistas nos momentos ditatoriais ainda hoje repercute no mundo pensante não só da Paraíba. Foi um órgão de projeção. ou o temor ao questionamento. Foi fundado em 27 de maio de 1897 por D. Se eles não têm pedaços oficialescos. Queremos é sair desse analfabetismo. Não devemos nem olhar para esse passado. Além da grande aceitação. que é o mais antigo. noticioso. que marcou época. leva o outro a pensar. mas não justifica baixar a cabeça e deixar de questionar. mas que uma vez ou outra apresentam nuances que deixam a questionar. peças opinativas e também reportagens interpretativas bastante recheadas. O primeiro redator-chefe foi o padre José Tomaz. ele teve um papel relevante para a nossa sociedade. Foi despertando a ira de alguns políticos. tudo isto. ideológicos e econômicos. que trabalhava em conjunto com outro religioso. Mesmo a suspensão pacífica dessas folhas. A gente fica logo enojado. porque se a gente não questionar vai ficar um doce só. repercutiu muito nos meios intelectuais. Que é comunicador? Comunicador é aquele que faz pensar. Adauto Aurélio de Miranda Henriques.

A maioria dos jornais foi efêmera. com entusiasmo. O quadro por ela apresentado na Paraíba. sobre o qual tem um estudo completo. conforme confessou. de Getúlio Vargas. quando trabalhei no jornal A UNIÃO. Fátima Araújo profliga esse comportamento do comunicador profissional. é um quadro nacional. A ilustre expositora lembra. As causas principais eram falta de recursos e o baixo índice de analfabetismo. No passado tivemos problemas sérios. por falta de recursos. A censura não dá chances à conscientização que a palestrante questiona aqui com certa veemência. tudo por conta de pressões. Na minha vida profissional na imprensa. conheci a força do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo. mas a grande maioria dos jornais teve vida efêmera. entre 1941 e 1944. que é a censura. Martha Falcão. Era o famoso DIP. Luiz Hugo Guimarães. Estão lá somente as coleções arquivadas. A Paraíba nunca ficou isenta dessa mancha. que em pinceladas rápidas referiu-se à importância da Imprensa. Ele foi criado dois anos antes do criado por Getúlio. retomando a palavra: Essa eu não sabia e agradeço a informação da confreira. Censura que se exerce das formas mais aviltantes. por falta de apoio. 272    . por ela citados. Não vou me deter sobre todos esses jornais porque seria enfadonho. como já falei aqui. Até que na década de 60 ele fechou para sempre. Mas. em aparte: Esse DEIP já existia no governo de Argemiro de Figueiredo. uma das coisas mais perversas que ocorrem na vida jornalística. Houve jornal de sair apenas um número. também. É realmente uma das piores coisas que podem acontecer com a imprensa. até durante o Império. no arquivo da Diocese. que sei expert sobre o Governo de Argemiro de Figueiredo. O atrelamento do profissional ao condicionamento promovido pelas empresas jornalísticas e a subserviência das próprias empresas submetidas às pressões do poder econômico e do Estado foram abordadas corajosamente pela expositora. A fala do Presidente: Ouvimos a exposição da confreira Fátima Araújo. examinando seu conteúdo ideológico. Esse tipo de censura é o mais violento. Não somos os únicos a sofrer aquelas pressões.clipse. como é o caso dos empastelamentos dos periódicos. Alguns duravam mais. Aqui na Paraíba era DEIP – Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda.

O jornal de Heitor Falcão era composto e impresso em a A UNIÃO. onde anteriormente esteve instalado o Tribunal Regional Eleitoral. Num sábado. aos aliados da grande guerra. Na sua coluna ele vinha soltando umas letrinhas que não agradara ao governador. se constrangia bastante com aquela situação. na primeira fase daquele jornal de sociedade. Ascendino Leite. O Diretor Geral do DIP era o capitão Amílcar Dutra. pois na redação havia alguns germanófilos. médico renomado. nos constrangia. Cheguei a ouvir uns comentários falando para eu prestar mais atenção à coluna de Tejo. Era diretor de A UNIÃO o jornalista Ascendino Leite e Secretário Geral o jornalista Octacílio Nóbrega de Queiroz. estava acabando de fechar o jornal quando fui chamado à Diretoria de A UNIÃO. foi dispensado do jornal. Era uma censura velada. E a Paraíba foi o único Estado que teve. O que passava sem censura eram as notícias favoráveis ao Governo. reclamavam das irreverências aos seus maridos. que assumira o Governo da Paraíba em 1940. O interessante é que as mulheres da sociedade. João Medeiros se tratar de um homem de bem. sob censura. O interventor era Ruy Carneiro. Ele foi simplesmente substituído. que era o editorialista de O NORTE.Mas o fato é que só me deparei com esse DEIP naquela oportunidade em que era funcionário de A UNIÃO. Mesmo assim havia uma fiscalização para não escapar nada de mais. apesar de se dar bem com João Medeiros. um civil na direção daquele órgão. A redação. naquela ocasião. na ala esquerda do lado da rua da Palmeira. Apesar de Dr. desde o governo de Ivan Bichara e passou para o governo de Tarcísio Burity. mas eram as primeiras a lerem a coluna de Zé Cavalcanti. Fui lá e encontrei Natanael Alves. grande jornalista. entre 41 e 44. o que foi lamentável. e certa vez redigiu um editorial que não agradou a direção do jornal. que hoje têm o apelido de socialite. Lembro-me do acontecido com o jornalista Natanael Alves. que era o Superintendente. Já existiam pressões sobre os “causos” que José Cavalcanti contava em sua festejada coluna PAPO FURADO. sempre houve atritos entre o órgão oficial e aquele Departamento. O DEIP funcionava no prédio do atual Palácio da Justiça. João Gonçalves Toscano de Medeiros. Tínhamos um colunista de Campina Grande – Wiliam Tejo – que escrevia sobre política. 273    . intelectual. Nos outros Estados ele era chefiado por um militar. Toda a matéria elaborada tinha que ir para lá a fim de passar pela censura. O que Ruy conseguiu com seu prestígio junto a Getúlio Vargas foi colocar em sua direção um civil. Isso me fez lembrar que em certa época dos anos 70 fui o editor do JORNAL DE AGÁ. portanto. o Dr.

Mas notei que seu semblante era lívido. se não o jornal não vai mais poder sair aqui na A UNIÃO. Mas. – Quem mandou fazer essa censura foi Burity? Interessante é que há poucos dias Burity dera uma entrevista elogiando a liberdade de imprensa. eu era um cidadão cassado pelo golpe de 64. E disse-lhe: estou impressionado com você e Gonzaga Rodrigues. Hélio me chamou e disse que tinha incluído meu nome no rol dos jornalistas que participariam do evento. É natural. Não fiz cara feia. com quem sempre mantive excelente camaradagem. a se indefinir. mas que não cabe neste debate relatar. Como é que vocês vêm me pedir para fazer censura no jornal? Você não se lembra que saiu de O NORTE por isso? E vinham as evasivas: você compreende. o jornalista começa a se marginalizar. Preparamos um caderninho especial. sua vocação vai para o brejo. como nós o chamávamos. restrições. É a AUTOCENSURA. política de interesses econômicos e até partidários. Isto é a CENSURA Há muitos casos de que fui testemunha ocular. Quando foi na véspera da chegada de Geisel. No Hotel Tambaú estive com a equipe do Jornal do Brasil. Era Secretário de Comunicação nosso confrade Hélio Zenaide. com n + k recomendações. que era o Diretor Técnico. da sua formação. isso não vem ao caso.e Gonzaga Rodrigues. Também foi o último número editado na A UNIÃO. a se duvidar. Conseguimos fotos do arco da velha do general Geisel. Devo dizer isso. Indignei-me. Natan disse: já vimos o artigo de Tejo que vai sair amanhã e sugiro que você tire o artigo para não criar problemas. Natan. mas não censurei o jornal do qual era o editor. era o esperado. no tempo em que ele era tenente e foi Secretário das Finanças no Governo de Anthenor Navarro. E há uma coisa pior que a CENSURA. 274    . Lembro-me também dum episódio ocorrido por ocasião da visita do presidente Geisel à Paraíba. isto é um jornal oficial. etc. Foi claro. Também fui incisivo. Trabalhando sobre a pressão do empresário que controla a política do grupo empresarial do dono do jornal. Hélio Zenaide chamou-me para dizer: seu nome foi vetado para a visita de Geisel. Hélio até mantinha no JORNAL DE AGÁ uma seção intitulada RONDA DOS ARQUIVOS. O jornalismo é uma das profissões mais difíceis de se exercer sem contrariar os princípios do profissional. ou não? O profissional mutila seu pensamento. uma excelente coluna onde ele liberava seus arquivos implacáveis e bem cuidados. como ainda hoje. Esses exemplos já são o bastante. que veio fazer a cobertura da visita. Não me contive. Fornecilhe até alguns subsídios e inclusive uma foto que iria sair no jornal e que também saiu no Jornal do Brasil.

para tecer algumas considerações objetivas. O que eu queria saber é se na Paraíba. eu me lembro que no ESTADO DE SÃO PAULO havia um movimento de resistência que na primeira página. Certa vez fui fazer um curso de tiro ao alvo no stand da Polícia Militar. a censura era tão grande que o CORREIO DA PARAÍBA e O NORTE apareciam com espaços vazios.Estou registrando esse fato só para complementar a força da censura. Mas. 1º participante: Guilherme d’Avila Lins: Referindo-me à fase de censura da última ditadura. Meu companheiro de curso foi o jornalista Paulo Brandão. o Instituto os tem em sua biblioteca à disposição dos interessados. tapar o buraco com qualquer matéria. não dando tempo para a colocação de uma matéria no espaço. Marcus Odilon. eram publicados receitas de bolo. Na última aula. 2º Participante: Jeová Mesquita: Minha mulher tem muita raiva quando vou fazer um curso. Fátima Araújo: Às vezes a censura era feita em cima da hora. de mais. atiramos. tire esse pedacinho. Um censor lia a matéria e o outro ia dizendo: tire isso. A “fala do Presidente” hoje foi além do habitual. tentando complementar a oportuna exposição de Fátima Araújo sobre o valor da conscientização na imprensa. agora. na campanha municipal. ou um poema de Camões. Tratava-se de matéria eleitoral. naquela época. Fátima Araújo: Houve. Mas eu adoro fazer curso. que assim ficara vazio. tire toda. a de 1964.. Muitas vezes o jornal estava quase todo pronto e durante a madrugada os censores invadiam o jornal e obrigavam a tirar imediatamente a tirar uma notícia. se vocês quiserem conhecer a evolução da nossa imprensa não há outra saída senão ler os trabalhos de Fátima Araújo. aproveitei a ausência do debatedor oficial. até. Paulo Brandão era um empresário e um dos donos do jornal CORREIO DA 275    . quando a notícia não podia ser dada. Ele gostava de andar com o revólver na meia. a palavra aos participantes. aparteando: Em 1985. Como vocês sabem. Aliás. diante do alvo. com respostas necessárias. houve esse nível de resistência possível. Luiz Hugo sabe disso. Se bem que sejam livros esgotados. Era a resistência possível. que se cinge sempre a um pequeno comentário sobre os debates. Vamos ceder.

picuinhas. 276    . Já estavam à espreita de Paulo Brandão. depois passa para o Estado. Dizem que foi uma consequência do que o jornal CORREIO DA PARAÍBA vinha publicando contra o Governo do Estado. houve também problema pessoal. um dia. Então eu queria perguntar à ilustre palestrante se ela tem alguma informação do motivo porque esse diretor de imprensa foi metralhado assim. Houve também uma história que alguém deu um tapa no rosto de alguém. ali na estrada do Recife. Só a polícia pode esclarecer isso. O Partido Republicano. então penso que não vão ser esclarecidas jamais. Dizem que Álvaro Machado recebeu essa gorda quantia que você está falando. Deve haver quem saiba e acho que houve até testemunha. ele ia saindo da sua empresa. Até hoje ninguém sabe porque essa violência contra esse moço. mas nunca ficou registrado.PARAÍBA. doutora Fátima. apenas o Governo abraçou o ideal do jornal. Como foi feita essa transação? Porque não foi bem explicado. Não foi só motivo de imprensa. 3º participante: Marcus Odilon: A UNIÃO começou como órgão do Partido Republicano. segundo ouvi no nosso jornal. que era sócio dele. houve coisa pessoal. Há alguma explicação para isto? Fátima Araújo: Não. O primo dele é hoje um próspero empresário. Fátima Araújo: Eu creio que essa dúvida jamais será esclarecida. É um problema de polícia e até hoje fizeram mil investigações e como as pessoas envolvidas eram e continuam sendo muito poderosas. ficou assim como segredo de confessionário. é um assunto questionável. Conforme o participante registra. antipatias. Acho muito difícil. mesmo porque serão outras vidas que serão perdidas. uma coisa tão absurda. intrigas. Porque aquele jornalista frequentava a casa de alguns que estariam possivelmente envolvidos. que à época pertencia a Álvaro Machado. não foi somente de imprensa. jamais. quando foi metralhado dentro do carro. ou nunca. Mas. mas não vai ter coragem de falar. Uma semana depois de terminado o curso. não que o crime seja perfeito. recebeu um gordo dinheiro de indenização ou se foi porque o jornal estava falido e o Governo do Estado socorreu. ficou com o jornal.

e é invadido pela polícia da capital. É o caso do conteúdo do jornal A UNIÃO. eles julgam que se o Brasil se constitucionalizar as oligarquias vão voltar ao poder. Nesse momento existe um jornal aqui de ex-epitacistas que vão fundar o Partido Republicano Libertador. inclusive Pirpirituba. Até a entrada do Brasil na guerra. não a combater a reconstitucionalização do país. É um jornal que fala no perigo vermelho toda hora. também foi perseguido. Estuda-se a República Velha. Manoel Moraes. Nós tínhamos vários municípios onde foram fundados núcleos da AIB. dono da fábrica. Não é somente em relação à Imprensa. e um dos melhores trabalhos é o da expositora de hoje. Virgínio Veloso Borges. as antigas oligarquias derrubadas lideradas por São Paulo. porque agora o governo provisório está apoiando. Esse jornal prega a reconstitucionalização do país. que foi Chefe de Polícia também andou perseguindo jornais. é pouco estudado entre 30 a 40 e aí vamos encontrar um censura muito forte na interventoria de Anthenor Navarro. Ele surge em Campina Grande e depois vem ter sede em João Pessoa. Campina Grande. dirigido por Aderbal Piragibe. Esse período das interventorias é muito pouco trabalhado. Então lutam com todas as suas forças. No primeiro momento. Manoel Veloso Borges foi escolhido como orador. A partir do momento que Getúlio Vargas firmou um acordo com os derrotados da Revolução Constitucionalista de 32. juntamente com Joaquim Pessoa. Existiam colunas de propaganda totalmente declarada pelo integralismo no jornal A IMPRENSA. que foi um grande professor de Direito do Trabalho. liderados pelo grande Boto de Menezes. cujo chefe era um dos nossos consócios daqui. Durante a interventoria de Anthenor Navarro.4º participante: Martha Falcão: Nossa história tem muitas lacunas e precisa ser trabalhada nesse assunto. inclusive o Presidente de Honra foi o Dr. vamos ver que o próprio Tancredo de Carvalho funda um jornal muito forte – BRASIL NOVO. Mesmo o trabalho sobre a imprensa. mas passa a apoiá-la. é um jornal totalmente anticomunista. quando os tenentes estão no poder. que também rompe com Anthenor Navarro. estuda-se a República Oligárquica e se dá um pulo para depois do Estado Novo. Um desses aspectos lacunosos é o período da imprensa durante as interventorias. Houve um comício muito 277    . Existe um confronto entre a questão da reconstitucionalização do país e da não reconstitucionalização. A UNIÃO passa. como a A IMPRENSA. que era Clóvis Lima. que era um órgão de propaganda clara pró-integralismo. O núcleo de Santa Rita chegou a juntar 150 pessoas associadas. Santa Rita. Dr. vamos ver que a situação muda. essa perseguição foi muito forte. O jornal A LIBERDADE. mesmo nos cursos. A UNIÃO.

E a imprensa publica trabalhos enaltecendo o bloco que está no poder. De 1935 a 40 vamos ter o governo de Argemiro de Figueiredo e dentro desse período vamos ter a intentona comunista. Os jornalistas vivem sempre forjando. mas o livro dela. são ameaçados. porque era o confronto entre os aliancistas e os perrepistas. de Tancredo de Carvalho. é perene. são torturadas. Estão sendo podados. 5º participante: Maria do Socorro Xavier: Quero parabenizar a exposição de Fátima. vão tentando. Um protesto organizado. o jornal muda de posição. em nível específico sobre o papel da Imprensa no Estado Novo. Os jornalistas são chamados a atenção. as pessoas são presas. não só sua palestra. E aqui na Paraíba há uma espécie de farsa para se fazer um movimento no sentido de que aqui também havia muitas células participativas do movimento. Luiz Hugo deu mil exemplos aqui. acabando com os donos das usinas. de Bôttto de Menezes.grande na praça de Santa Rita. algo formalizado. mas por trás estão protestando. Fátima Araújo: Não. são demitidos. que também tem muita coisa sobre a Imprensa. Há um inquérito. o livro SANTA CRUZ E O JORNAL DO POVO está aí. Depois a história mostra que era mais uma farsa. que resgata muito bem a Imprensa na Paraíba. É uma das lacunas existente na História da Paraíba. Era só essa a contribuição que queria dar. Mas isso precisa ser muito trabalhado. Há até um trabalho biográfico dele em que ele mostra toda a trajetória e o trabalho MINHA TERRA. no caso era Praxedes Pitanga. Nós aqui que fazemos as pesquisas vamos mostrando isso. mostrando a maneira de questionar. que vai se ombrear ao lado da União Soviética. órgão do governo. A UNIÃO. Uma vez ou outra eles são podados. Gostaria de perguntar a Fátima Araújo se na Imprensa paraibana não houve um movimento no seio do próprio jornalismo para que essa liberdade de imprensa se concretizasse ou pelo menos um protesto contra a castração da liberdade de expressão plena nos periódicos paraibanos. não houve. tentando falar mais. O protesto de todos os jornalistas. segue a linha de Getúlio Vargas. À medida que o Brasil entra na guerra. Há muita coisa rica tanto em A UNIÃO como no jornal A IMPRENSA e jornais como BRASIL NOVO. desde o princípio. Tudo isso é uma maneira de protestar. Neste momento a imprensa publica os relatórios do delegado de polícia da capital. tentando escrever mais. porque se 278    .

Luiz Hugo. Existe ideologia. quando Adalberto Barreto era presidente. tem sua importância. um liberal. nosso consócio. Dispensou-os. não uma independência total. ele defendia com unhas e dentes a situação do companheiro. Herbert Moses. Foi justamente quando Samuel Duarte. mas não tinha como. Mas quando acontecia um caso com um jornalista. e sou testemunha de quanto ele defendia o jornalista. isso não houve. Uma greve. membro do Conselho Estadual de Cultura: Como Cristo. eu vim para confundir. Ele tinha certa independência. foi de um grupo ideológico. Até porque 279    . Na Paraíba. e chegou a pertencer à Esquerda Democrática. a API andou convocando reuniões. mas levava seus protestos aos governantes. e brigava como ele tinha acesso às autoridades. Era intransigente na defesa do jornalista. quem dominou durante muito tempo a Associação Paraibana de Imprensa – API. no Brasil. Há posições interessantes dele. Existe no dia-a-dia nas empresas jornalísticas.não questionar será pior. que era Secretário do Interior. existirá sempre. quando ele foi presidente. pois a metade já estava presa e o resto estava no meio do mundo. não podem nem falar. Estão atrelados ao poder. As posições de José Leal eram de centro-direita. mesmo que ele fosse comunista. não entre as empresas jornalísticas. que é a Associação Brasileira de Imprensa. não tão velado. sim entre os jornalistas. O protesto existe. José Leal deixou a direção de A UNIÃO quando um erro de revisão envolveu o nome da mulher de Ruy Carneiro e recebeu ordem para demitir todos os revisores do turno. Movimento. Protesto organizado não há. Durante quatro anos fui secretário da API. 6º participante: Odilon Ribeiro Coutinho. Vão perder o emprego. nem espernear. tomando a palavra: A Associação competente. não foi propriamente a posição da Associação. que foi um dos presidentes que demorou mais tempo no comando da ABI. Muitas vezes um protesto aberto. Vim para agitar um pouco. era sempre ligado ou amigo dos governantes. mas havia momentos em que ele resistia e dava pronunciamentos fortes. como de Barbosa Lima Sobrinho. Em 1964. também presidente da Associação Brasileira de Imprensa. mas pediu demissão do cargo de Diretor. foi o jornalista José Leal. falava diretamente com os governantes. fazendo chamamentos. Mas. assim como uma passeata. nem pensar. nomeou Ascendino Leite para diretor de A UNIÃO.

E aqui está uma especialista que não me deixa mentir. mas por ser velho. anúncios de comportamentos políticos. que tem realizado um trabalho notável. Eurípedes Tavares. nos velhos jornais centenários. apoiou grande parte das suas conclusões sociológicas nos anúncios de jornais. subordinado. Dizem que o diabo é temível. Não tive a sorte de chegar aqui a tempo de ouvir a palestra de Fátima Araújo. Perdi a oportunidade e me frustro por isso de deixar de ouvir Fátima Araújo. Tive um compromisso a que não pude faltar. no o intuito de contribuir um pouco para se ver o papel desenvolvido pela imprensa neste século. Logo depois da 280    . acumulou muita vivência. Não apenas o historiador. Eurípedes era pai do sócio deste Instituto. que é o mais antigo jornal da América Latina e de outros jornais do Império. o antropólogo vão buscar na Imprensa elementos que atendem à sua pesquisa e permitem chegar a conclusões nas suas respectivas áreas da maior expressão e da maior significação. tudo isso foi um material muito importante usado por Gilberto Freyre. prestou-se uma homenagem ao Dr. Dr. A imprensa geralmente tem uma significação muito grande para o historiador. Gilberto Freyre. a partir do último terço da segunda metade. A imprensa na Paraíba surgiu nos fins do século passado e teve uma grande atuação no começo deste século. muita experiência. anúncios de partidos que adotavam certas decisões e que refletiam nos jornais as decisões tomadas. sem independência e sem personalidade. um debate e até paixão. que é um trabalho modelar. a poucos metros da casa onde nasci. José Antônio Gonçalves escreveu um trabalho sobre o Diário de Pernambuco e a história pernambucana.eu acho que esses Seminários só valem na medida em que provocam agitação. tenho a impressão que o papel da imprensa foi um papel dócil. E é isso que quero trazer aqui. por exemplo. que foi mais de 30 anos Secretário do Tribunal de Justiça e eu sou seu conterrâneo estrito. aprendeu muita coisa. porque ele nasceu no Engenho Central. mas o sociólogo. Na segunda metade do século. nesta reunião. Anúncios de escravos fugidos. Do ponto de vista histórico.. Mas gostaria de dar um pequeno depoimento a respeito da história da Imprensa na Paraíba. Porque já viu muita coisa. No fim do século passado tivemos uma imprensa aguerrida. já que estamos comemorando no programa deste Instituto Histórico os 500 anos do Brasil. inclusive tem se arrimado em pesquisas feitas na imprensa. não por ser diabo. Monsenhor Eurivaldo Tavares. no Diário de Pernambuco.

Mas o jornal – a nau capitânia. No tempo. o depoimento de A UNIÃO é um depoimento suspeito porque foi um jornal sempre atrelado aos interesses do poder. é um jornal de significação histórica relativa porque apenas reflete o ponto de vista de um dos lados. isso tudo está completamente abafado. foi A UNIÃO. Eu duvido muito da formação universitária dos jornalistas e acho que é uma forma de corporativismo. Temos A UNIÃO. Hoje. por exemplo. desde os fins do século passado. que foi A REPÚBLICA. Hoje o homem que tem a vocação se não passar pela Universidade não tem acesso às redações. A UNIÃO foi uma grande formadora de jornalistas. No Rio Grande do Norte houve um grande jornal em que Luís da Câmara Cascudo colaborou intensamente.República. No começo do século nós tivemos jornais de oposição que tinham um admirável espírito de independência. ele expressaria a verdade histórica da época. um jornal a serviço da propaganda do governo e que está sempre a serviço de interesses grupais. A UNIÃO ficava sempre a serviço dos governos. Mas a A UNIÃO é um jornal sectário. inclusive na formação da mentalidade jornalística da Paraíba. Ainda hoje eu imagino que a verdadeira Faculdade de Jornalismo na Paraíba é A UNIÃO. No seu tempo A UNIÃO teve um papel importantíssimo. Mesmo que não tivesse sido imparcial. que a meu ver não consegue a eficiência que tinha antigamente. Foi realmente o órgão universitário de que nós dispúnhamos para a formação do pessoal dedicado ao jornalismo. como até hoje. muito mais objetivo e muito mais verdade do que o de hoje. depois foi fechada pelo próprio governo do Rio Grande do Norte. de um Carlos Dias Fernandes. como costumo chamar – que orientou a mídia na Paraíba. A REPÚBLICA durou até poucos anos atrás. A imprensa de oposição é que permite fazer o equilíbrio entre as opiniões governamentais. Do ponto de vista histórico. É uma coisa que desfalca o jornalismo brasileiro de talentos vigorosos. mas uma coisa muito incipiente. que a manteve durante décadas. se porventura acolhesse algumas opiniões ou movimentos de oposição. A UNIÃO é o único jornal oficial que ainda sobrevive. na formação de pessoal. Por isso mesmo. Uma coisa interessante é que os governos estaduais tinham os seus jornais logo depois da República. Não foi um jornal imparcial. Nas primeiras décadas do século havia um jornalismo de oposição que per281    . Nas primeiras décadas deste século havia uma aguerrida imprensa de oposição. que tinha coragem e bravura cívica admiráveis. E era um tempo muito mais romântico.

com que coragem paraibana ele se portou. não vou contestar. que pagou caro com o empastelamento do seu jornal diante da intolerância do poder. Isso tudo desapareceu. Também a Artur Aquiles. A UNIÃO sempre expressa o ponto de vista do Governo com um sectarismo exemplar. mas gostaria de prestar aqui uma homenagem muito significativa por si mesma. se portam como empresas. os jornalistas. Era uma navegação que se fazia através de escolhos. De modo que hoje é muito difícil você chegar a algum resultado histórico válido se você se submete à leitura dos jornais. que era como um braço de mar bravio na oposição que desencadeava contra o poder constituído de então e 282    . estão a serviço de quem pagar mais. da ilustre confreira Fátima Araújo. que dirigia O COMÉRCIO. Depois houve uma degradação. a expressão de antigamente e os jornais existentes. pelo mesmo motivo já apresentado na justificação de Odilon Ribeiro Coutinho. A Gama e Melo. A UNIÃO não tem mais a significação. arrostando. Hoje acho que a imprensa está totalmente degradada. Não vou debater propriamente. todos os riscos. e com que bravura cívica. aos jornalistas corajosos de antanho. com que patriotismo. que creio tenha sido brilhante. das represálias violentas e até do empastelamento do jornal. porque os jornais. o que retira de A UNIÃO e retira dos jornais atuais qualquer sentido de autenticidade histórica que permita ao historiador fazer a sua navegação com segurança. inclusive da prisão. já naquele tempo se subordinavam aos interesses imediatistas e faziam o jogo empresarial de quem pagasse mais. não por minhas palavras. Se pegarmos os jornais de dez anos atrás não vamos chegar a um resultado histórico válido. De modo que se fizermos um balanço da imprensa neste século o balanço terá de ser negativo. A imprensa está degradada. 7º participante: Joacil de Britto Pereira: Também não tive a satisfação de ouvir a exposição.mitia estabelecer o equilíbrio entre as opiniões da situação e as da oposição. que fundou A REPÚBLICA para combater a oligarquia de Álvaro Machado. diretor de O COMBATE. todos eles. Ainda a Antônio Bôtto de Menezes. E aí o historiador poderia navegar. Como adendo. o único político que se elegeu só pela capital. informo que representei o Instituto Histórico na homenagem prestada ao pai do nosso caro confrade Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares. Não temos mais aqueles românticos jornais do começo do século que se atiravam contra o chamado poder constituído com uma valentia admirável e desinteressada. E vivemos hoje melancolicamente um tempo de degradação.

arrostando contra o poder e contra seus próprios parentes. pedindo a atenção e o apoio de todos os presentes. O Instituto Histórico está cada vez mais agradecido pela presença de vocês. Ela contou aqui. Está encerrada a sessão. Esses homens devem merecer a nossa homenagem no dia em que. da mulher que sabe dizer as coisas bem devagarzinho. E para coroar a palestra da nossa confreira Fátima Araújo. levando as multidões ovacionando para aplaudi-lo sempre. se fala sobre a Imprensa na Paraíba.fazia a maré cheia e a maré vazante. não tenham dúvida. Esta é a homenagem quero prestar neste momento. Foi ele que aqui fundou a Esquerda Democrática e o Partido Socialista Brasileiro. e parente bem próximo de José Leal. uma contribuição à historiografia paraibana. esses problemas do jornalismo. Nós faremos. os ANAIS destes debates e daremos. Fátima Araújo disse com a serenidade da jornalista. Foram grandes intérpretes das aspirações e das inspirações populares de uma Paraíba brava e rebelde. na história deste Instituto um dos seus pontos marcantes. tudo isso que vocês disseram com tanta eloquência e com vibração. justamente aguardando Joacil Pereira e Odilon Ribeiro Coutinho. (muitas palmas) A fala do Presidente: Vou confessar a vocês que estava protelando o encerramento do debate. Agradeço a presença de todos. 283    . do jornalista e das empresas jornalísticas. embora sobranceira. por sua coragem e pelo seu destemor. quem vêm trazer seu contributo a este nosso debate que fará. sem dúvida. Ainda a José Leal. com isso. quando José Américo era o nosso emblema maior de grande líder nacional. mas sempre permanente. que também teve uma atitude de coragem. neste Instituto. em linhas gerais.

O tema de hoje é A IGREJA NA PARAÍBA. o acadêmico Joacil de Britto Pereira. é bacharel em Línguas Latinas. Direito Canônico no Seminário Maior da nossa Arquidiocese. Português. presidente da Academia Paraibana de Letras. membro da Academia Paraibana de Letras. Passo a palavra ao professor Manuel Batista de Medeiros. foi professor de Latim no Liceu Paraibano e de Literatura Portuguesa na Universidade Federal da Paraíba e é professor de Direito Civil na UNIPÊ. Expositor: Manuel Batista de Medeiros (Sócio do Instituto. Pertenceu ao Seminário Diocesano da Paraíba. que é uma pessoa bastante qualificada para este mister. também foi professor de Latim. que será o debatedor. Seu currículo é imenso. jornalista). Diante dessa apresentação. fundador e primeiro reitor da UNIPÊ. em Ciências Jurídicas e Sociais. em Filosofia. uma que pertence ao clero atuante e outra que pertenceu. da qual foi presidente por dois mandatos. é jornalista. foi membro do Conselho Universitário da UFPB.13º Tema: A IGREJA NA PARAÍBA Expositor: Manuel Batista de Medeiros Debatedor: Eurivaldo Caldas Tavares A fala do Presidente: Formarei a mesa dos trabalhos convidando o professor Manuel Batista de Medeiros. onde foi ordenado padre em 1950. História Eclesiástica Primitiva. convido nosso consócio Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares. tem mestrado em Educação. Mestre em Educação e Filosofia. ex-presidente da Academia Paraibana de Letras. fundador e professor da UNIPÊ. escritor. foi diretor do jornal católico A IMPRENSA. O Instituto tem a felicidade de possuir no seu quadro duas figuras destacadas. mas continua vinculado. Nosso expositor é bacharel em muitas coisas. 284    . ex-sacerdote. nosso associado e expositor de hoje. que são altamente qualificadas para nos trazer informes sobre a importância da Igreja na Paraíba. o que quer dizer a importância da Igreja na História do Brasil. Será expositor do tema nosso companheiro Manuel Batista de Medeiros. bacharel em Línguas Latinas e Direito. sinto que o plenário está ansioso para ouvi-lo.

Comissão para efetuar as comemorações do próximo reveillon. debruçando-se sobre si mesma. Presidente. Parabéns. enquanto da parte do Estado e da Prefeitura da capital o que se ouvem são discussões sobre quem realizará o pior reveillon do ano 2000. Bula dirigida aos cristãos das Índias Ocidentais. Tem aqui. Sr. e que é irrito. endereçada aos índios da América. agradeço as palavras do nosso Presidente e se eu fosse a metade do que ele disse. fazer oportuna análise sobre o que foi. com nossa autoridade apostólica. Sr. são dotados de liberdade e não devem ser privados dela nem do domínio de suas coisas e ainda mais que podem usar. e eu chamo também da invasão.1. Papa Paulo III. de a pátria. embora se encontrem fora da fé de Cristo. nulo e de nenhum valor tudo quando se fizer. Este é um precioso momento de reflexão antropológica. que os referidos índios e todos os demais povos que daqui por diante venham ao conhecimento dos cristãos. da posse. do Papa Paulo III. Entretanto. Antes de fazer a minha falação. esta é magnífica oportunidade. eu estaria muito satisfeito. Em Portugal já faz dez anos que se estudam os eventos históricos do 500º aniversário do descobrimento. se propôs ainda celebrar o meio milênio da História do Brasil. nenhum órgão oficial. em qualquer tempo. gostaria de ler um trecho da bula Sublimes Deus. que muitos confundem com o início do terceiro milênio. se souberem me digam para não fazer acusação indevida. o que é e sobre o que pretende ser. eu ignoro se ele sabe. que eu saiba. da terra brasílica. política. Bula Sublimes Deus. Presidente. também chamada de Santa Cruz. de outra forma. Introdução. Inicialmente. histórica. (palmas) 285    . cultural e religiosa sobre nossas raízes e o nosso caminhar nestes 500 anos de História do Brasil. já se criou. Quando vejo que só esta Casa realiza aquilo que outros deviam cumprir. Louvo a feliz iniciativa da nossa Casa em promover comemorações da passagem da Paraíba nos 500 anos de Brasil. eu parabenizo nosso Presidente pela iniciativa de realizar essas comemorações. também. com muita austeridade. uma frase do jesuíta padre Manoel da Nóbrega: “Essa terra é a nossa empresa”. Diz o Papa: “Pelas presentes letras decretamos e declaramos. enquanto que se o Conselho Estadual de Cultura sabe que o Brasil está a poucos meses de fazer seus 500 anos. possuir e gozar livremente esta liberdade e não devem ser reduzidos à escravidão. 1537”.

só para citar os mais aproximados de nós? Tudo que vou afirmar sobre a história da eclesiologia católica brasileira deve ser aplicado ao ângulo da História da Igreja na Paraíba. fujo. O rei português D. 3. meus senhores. etc. ao reducionismo ideológico. frases de Bispos.. à sua própria conceituação ideológica. tentar repetir aqui datas. de caso pensado. Como. mas Taine acha que o maior século da História foi o 1500. aqui. uma livre análise antropológica. de outra parte. com Maximiano Machado. A Paraíba. já fizeram e podem fazer. nomes e fatos. o século V antes de Cristo. que em lugar de meros exercícios repetitivos de datas. sem a qual não se escreve a História do Brasil e nem da política e nem da cultura e nem da arte. filosófica ou mesmo religiosa. é um pedaço deste Brasil. levantei ali a tese de que o historiador não pode e não deve reduzir o fenômeno social ou os fatos históricos sobre que trabalha. É o que agora não faço. Creio que a nossa pequena Paraíba é muito rica culturalmente falando e que tal riqueza precisa ser explorada sobre todos os ângulos. Poderia me comparar com Wilson Seixas. Paraíba é Paraíba e é muito mais do que 1930. do que a Igreja fez desde aquele século que Taine chamou de o maior século da História. com Francisco Severiano e outros. 286    . Eu pensava até que era o século de Péricles. com Francisco Lima. A Igreja e o Padroado Luso-brasileiro. fatos. espécie de ensaio que enfocou a Filosofia da História. Monsenhor Eurivaldo.2. desde o ponto de vista científico. necessariamente. nomes. no que diz respeito aos 400 anos de história religiosa da Paraíba. oração que leva o título HISTÓRIA DESNUDA. neste momento. ficar coactado ao dogmatismo de sua religião. João III escreveu ao Governador Geral do Brasil: a principal causa que me levou a povoar o Brasil foi que a gente do Brasil se convertesse à nossa Santa Fé Católica. evito. (palmas) Entendo ser muito mais lucrativo. que outros. por mais singela que seja. Monsenhor Francisco Severiano. Até acho ingenuidade se afirmar que a História da Paraíba se reduz ao evento policialesco de 1930. Por outras palavras. Assim. Análise e não história. quero afirmar claramente que quem tratar de um fato histórico de natureza sociológica católica não deve. etc. No meu discurso de posse na cadeira que aqui tem como patrono um grande historiador eclesiástico da Paraíba e do Rio Grande do Norte. de Abades. se tente. com muito mais competência do que eu.

há duas cartas. termina: “Vossa Alteza fará mercê se mandar buscar Osório. o imortal poeta de OS LUSÍADAS. e tal e tal. dobrou o Cabo. Mas. faz pequena referência ao Brasil lá na frente do cântico X e noutro lugar parece que fala em Terra de Santa Cruz.. inclusive um que ia ser vigário em Calicut e mais uns seis ou oito seculares. depois de descrever a primeira missa cantada (e nesta missa não estava só o frei Henrique. padres de São Pedro). Aliás. Camões. nus. E no final. nem o Bispo de Lisboa. depois de descrever a primeira missa cantada sob o pálio da Ordem de Cristo e à sombra da cruz sobre a qual estavam as armas do rei. el-rei é tão bom que se plantando qualquer coisa dá” (com três dias não dava para saber que plantando dava). veja o “arrumadinho” do serviço público. como se não houvesse descoberta nenhuma. que começa desde aquele tempo. Então a carta oficial ao rei vem com isso. Demora e fica explicando. Esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. Estamos vendo que o enfoque da missão era político. Na carta de Caminha. o escrivão oficial da armada afirma sobre a terra brasileira e seus índios: “contudo o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. com as mesmas palavras. porque ele descreve os índios. daquele pessoal que foi para a África. Mas Camões começa aquelas duas primeiras estrofes. Camões começa imitando Virgílio. dizendo que a meta dos feitos portugueses tinha por objetivo dilatar o império. conforme Marcus Odilon. etc. Uma carta dos médicos. Quando Camões escreveu a grande obra o Brasil já estava descoberto e ele não ia cantar a epopeia da América e sim os feitos de Gama. Tomé”. Essa carta. 287    .. havia uns oito padres e frades. E tanto é verdade que a carta de Caminha diz: “Olhe. Desde ali que o serviço público começa a fazer os “arrumadinhos”. que vou repetir aqui. Veja que importância Portugal deu ao Brasil. os médicos gostam muito de história e fazem uma referência curiosa dizendo que a ilha do Brasil está lá. Na carta de Caminha (essa carta de Caminha é muito curiosa. percebe-se o pouco caso que se dava à descoberta recente. que é muito curiosa.” (Será que salvaram?). aumentar a fé salvando as almas. Deus sabe como e quantas almas foram salvas. merece um estudo nosso. não é o Papa.É o rei quem está dizendo. meu genro. Vieram tomar posse daquilo que já sabiam que existia. mas quando é para descrever as índias ele faz uma descrição que nem a Revista PLAYBOY. Dilatar o império religioso. que está na Ilha de S. Há duas coisas que quero chamar a atenção sobre a safadezinha do português.

e sobretudo as fronteiras da fé. O Cristianismo era um apoio político para alargar o império. aqui chegara e na primeira hora. através das grandes Ordens Religiosas (os jesuítas. cujo nome acho que devia ser dado a essa cidade e não outro. Aquilo mesmo que Virgílio já tinha dito. ao mesmo tempo. que era tão grande. O que chamo a atenção é que o poeta situa a grande empresa como dilatar as fronteiras do império. para fazer a intermediação diplomática. Percebe-se dos textos citados que a conquista da terra da gente brasileira obedeceu a um desígnio político da corte lusa. 288    . franciscano e beneditinos). e não sei se imitando também um pouquinho Homero. Basta lembrar que os primeiros carmelitas e beneditinos que vieram para o Brasil se destinavam à Paraíba. vale a pena fazer a pesquisa. Mas. como a Igreja. dilatar as fronteiras do grande império sobretudo na África. A história registra. Piragibe. Está dito que Piragibe teria sido batizado antes de se apresentar a Olinda. os carmelitas. que almejava. na Ásia e na Oceania. mesmo na epopeia da conquista da Paraíba.Ele diz: As armas e barões (barões é varão) assinalados. o guerreiro e o estadista. o que interessa aqui é comentar o texto da estrofe: As armas e os barões assinalados Que da praia ocidental lusitana Por mares nunca navegados Passaram ainda além da Probana E em perigos de guerras esforçados Mais do que prometia a força humana Entre gente remota edificaram Novos reinos que tanto sublimaram E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A fé e o império e as terras viciosas De África e Ásia andaram devastando E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte se libertando Cantando espalharei por toda parte Se tanto me ajudarem engenho e arte. já era batizado por um jesuíta. Há mesmo quem afirme que Piragibe salvou a conquista da nossa terra (e a gente sabe que Portugal e Espanha lutaram quase dez anos e não passaram de Goiana. Se é verdade. Conclusão: a Fé e o Império andam casados. ou quando passavam voltavam correndo) só botaram o pé aqui depois que Piragibe. Com a catequese do aldeamento ajudou a dilatar o império na Paraíba.

Pois bem. Mas. mas Pedro era pescador. por que ela se sentiu livre. com a denominação de dízimo. que se esquecera da severa advertência de Cristo de que não se deve confundir o Reino de Deus com o Reino de César. A igreja católica no Brasil. propagação. escravizou-se. e outro imperial. na Paraíba. Isso foi bom ou mau? O Edito de Milão. Foi um grande erro. que certamente foi uma herança maldita que caiu sobre a cátedra de Pedro. simultâneos. com o poder temporal. Pedro”. andava em cima de uma sede gestatória. E aí a Igreja se mistura com o poder secular. Com o tempo se conquista o mundo. que durou até o Vaticano II. Sem deixar de dizer que era rei. quando houve a separação da Igreja do Estado. O reino não é deste mundo. não esquecer que esse interesse da coroa portuguesa em propagar a fé nas plagas brasileiras tinha um suporte logístico no chamado Instituto do Padroado. decerto era uma peixeira) e Cristo pede para Pedro guardá-la. uma de ordem política e outra de ordem filosófica. com os reis de Portugal e depois do Brasil. quando perguntou: – “Você é rei?” Cristo respondeu: “Sim. só que meu reino não é deste mundo”. tinha dois governos. mas ele confirma que era rei diante de Pilatos. porque a Igreja mundanizou-se. mas se transformou no reino de César. laicizou-se. dos Templários e não sei se a Maçonaria não passa por aí. Até pouco tempo a gente via o Papa com três coroas de rei na cabeça. Lá no drama da paixão Pedro puxa uma peixeira (no Evangelho fala em espada.É bom. Um canônico. paganizou-se. Pilatos fez duas perguntas a Cristo. Pelo nome de Grão Mestre é dado ao rei. porém. Quem comandava a Igreja era o rei de Portugal. dá a vitória da Igreja sobre o paganismo. Essa Ordem Militar de Cristo é um resquício das Ordens da Idade Média. Lá vai para Bizâncio. Jesus recomenda a Pedro que não confunda o Reino de Deus com o Reino do Mundo. vem a diáspora. em 313. dizendo: “meu Reino não é deste mundo. no seu comando. Por que essa referência? Por que enquanto rei era Grão Mestre? Porque enquanto rei Grão Mestre ele era uma espécie de Ministro das Finanças de tudo que se arrecadava em nome da Igreja. Cons289    . defesa das pias obras. Aí era a Igreja de Cristo. o mundo grego e lá vai para Roma. Isso durou até a República. Paulo conquista a Ásia. Havia esses dois governos. para a proteção. que também era o Grão Mestre da Ordem Militar de Cristo. – Que é a verdade? Cristo não deu resposta. Foi um Deus nos acuda. portanto. mas foi um grande benefício para a Igreja. era o rei do Brasil (Reino Unido) e era o Imperador do Brasil. com o Papa e os Bispos à frente.

Constantino tinha tanto poder diante da Igreja é era chamado o 13º apóstolo.tantino se diz o primeiro imperador cristão. em Milão. Isso em nível de Igreja Universal e de Império. na Terra Santa. com Carlos Magno. Vital e Macedo Costa? Porque eles tinham poder. porque que o batismo apaga todos os pecados e ele queria pecar a vida toda para se batizar no fim. que oficialmente entra em vigor em 1270. Santa Helena. Por isso a gente vê a expulsão de jesuítas. O Bispo es290    . dando liberdade aos cristãos. Eu tenho dinheiro e dou uma importância para que se erija uma capelinha e se nomeie um cura e eu fico mantendo. A mãe era uma santa. o Grande. mas reza a história paralela que só se batizou velho. além de dar proteção à Igreja. Deu o primeiro dinheiro e aí começou a se fazer. Mas em que consiste o padroado? Padroado é como se fosse um instituto jurídico das fundações. Logo depois o Sacro Império. nomeava os Patriarcas. Bispos. a quem a Igreja deve lhe muito. porque este. Havia essa maneira de se doar algo para que o benefício fosse criado. No outro dia saiu o Papa. O padroado. Então Constantino se fez cristão e permitiu que os cristãos professassem a sua fé. Um permitiu o cristianismo. Há até um caso curioso numa eleição de Papa. Entre os séculos XIV e XV a Igreja concedeu aos reis o direito de exercer o padroado nas terras descobertas e a descobrir. Por que eles prendem os bispos da Paraíba. No início a intenção do padroado era piedosa. O primeiro colégio jesuíta aqui na Paraíba foi dado por uma família. D. toma conta da cristandade e o Papa sagra o Imperador e o Imperador renomeia o Papa. etc. Constantino decreta um Edito. Para mim o maior benfeitor do cristianismo não foi Constantino. porque havia os Bispos de dentro da Igreja. isso alguém fez. chamado também o Bispo de fora. um casal. num convento perto de Roma. da palavra latina patronatus. proibiu o paganismo. O Imperador zangou-se e mandou destelhar o convento. Mas ele era quem convocava e presidia os Concílios. Pelo Papa espanhol Alexandre VI foi dado o tal direito aos reis espanhóis sobre a América. Passaram-se três anos sem sair o Papa. foi Teodósio. o outro proibiu o paganismo. O Imperador mandou os cardeais elegerem o Papa. consiste na outorga a certas pessoas do direito de apresentar e nomear plebes ou bispos para cargos eclesiásticos. Esses monarcas tinham o poder de proibir a criação de igrejas e conventos. Por que eles faziam isso? Porque eles tinham o poder de fazer. concorrendo materialmente para a manutenção desses benefícios.

D. Dois chefes de poderes desmancharam igrejas para fazerem palácios. A educação. O padroado foi a grande fonte de malefícios para o Brasil e a Paraíba. Graves problemas surgiram entre a Igreja e o Império. Sei que melhor fazer isso do que não ter feito nada. a cidade tinha 10 mil almas. por todas as nossas nobres Ordens Religiosas. a meu ver. que concedeu este título ao chefe do governo imperial. Porque tivemos cinco grandes conventos e até geograficamente a gente vê. Mas o aculturamento que se fez para se cristianizar estas massas. desapareceu com a República através do decreto de 7 de janeiro de 1890. É curioso como uma cidade tão pequena. sendo os mais sérios aqueles citados na Regência de Feijó. O padroado tinha sido conferido ao Imperador do Brasil em 27 pela Bula Preclara Portugalia. Não só os jesuítas. Capistrano disse que não se pode escrever a História do Brasil sem se escrever a História dos Jesuítas. mas civilmente estava errado. Nós podemos criticar a metodologia da catequese aqui na Paraíba. que queria criar uma Igreja Nacional e sobretudo na chamada Questão Religiosa. Adauto e outro. Na Paraíba há uma coisa curiosa. e no Brasil. os carmelitas criaram uma obra de arte como aquela. mas não se vê nada feito com respeito aos negros. os escravos). depois da recuperação? Vale a pena como passeio e visita cultural. em 30. Vocês já foram à igreja da Nossa Senhora da Guia. o que teria sido das populações? Era o rei? O rei nada fez. É admirável como dentro daquela mata. A catequese dos índios foi feita. Não sabemos o que teria sido do Brasil sem as Ordens Religiosas dos jesuítas. onde só havia maloca de índio.tava desobedecendo a uma lei civil que existia e à qual ele estava submetido. Diante desses fatos que permeiam a catequese dos índios e nada se fez pelos escravos (é curioso como os jesuítas brigaram e fizeram muito bem pelos índios. Todos localizados um perto do outro. porque havia culturas que deviam ser respeitadas. Quando entrei no Seminá291    . com cinco conventos. deformaram muita coisa. embora se tenha estendido do Brasil Colonial ao Brasil Império. aldeamento. Aí a gente pergunta: sem as Ordens Religiosas na Paraíba teríamos o acervo cultural que temos? Sem a assistência médica das Santas Casas. Cabia aos reis do Brasil conservar e propagar a fé. depois da qual desapareceu o trono e sobrou o altar. Dogmaticamente ele estava correto. quem fez foram os jesuítas nos colégios. Essa cristianização tinha que respeitar as características da cultura.

que segundo um Bispo. estavam a serviço da autêntica cristandade. Quero concluir fazendo algumas indagações. o Reino de Portugal e depois o Império do Brasil teriam cuidado da educação. reitores. Qual o lado positivo do Quebra-Quilos? Foi uma revolução política ou religiosa? Como se comportou a Igreja na Inquisição da Paraíba? Por que a Igreja não cuidou dos negros como cuidou dos índios. a Igreja ou o Reino? Quem teve razão na questão religiosa? O Bispo paraibano ou o Império? (o Império era o padroado). vi uma escadaria que subia do claustro para o primeiro andar feita com taboas do forro da igreja. Houve quem construísse de uma maneira que a gente lamenta. deviam ser sempre escravos dos brancos? O que se deveu aos jesuítas e ao Marquês de Pombal na formação do homo paraibenses? Deve-se alguma coisa ao Marquês de Pombal ou se deve às Ordens Religiosas? A igreja católica do século XX tem um saldo positivo ou negativo em favor do povo de Deus? É só. senadores. ou o Evangelho serviu mais à corte do que à conquista das almas? Os frades trabalhavam pela conquista das almas. mas se fez alguma coisa. ou não ter havido padroado? Quem ajudou mais a Paraíba? Foi o índio catequizado nos aldeamentos ou os negros. da saúde e da organização social dos índios. Francisco. e hoje cuida dos sem terra? Para a cultura e as artes da Paraíba teria sido melhor a ausência da Igreja? A respeito conheço a opinião de Roger Bastide: O mais puro barroco do Brasil se chama a Igreja de S. presidentes. Quem saiu ganhando na República com a separação da Igreja do poder civil? Qual a contribuição da Igreja na formação dos homens de Estado da Paraíba? Quantas personalidades passaram por uma formação religiosa específica? Governadores. cuja resposta deixo a critério de cada um. ou porque eles eram remunerados pelo dízimo do padroado? A cultura dos índios e dos negros foi preservada pelo projeto da pedagogia da conquista? Sem a presença da Igreja. dos escravos e dos proletários dos campos e das cidades? Quem saiu ganhando nas lutas da conquista do interior paraibano. E as outras estão caindo aí sem nenhuma proteção. O que seria melhor? Haver padroado. Quanto se perdeu? Não foi só uma igreja ou duas.rio para estudar. 292    . quando as fazendas eram fundadas com frades? Quem saiu ganhando nessas lutas. A verdadeira semente do Reino de Deus foi plantada no Reino de Portugal. etc.

por onde se reformou como Major-Capelão. Publicou várias obras de valor histórico sobre a Igreja e perfis biográficos sobre as figuras mais importantes da nossa Igreja. Monsenhor Anísio. A importância da catequese dos nossos tabajara e potiguara foi ressaltada nos seus limites. donde se afastou. tais como D. por outro trouxe alguns malefícios para sua própria organização. razão por que o convidamos para participar deste Ciclo de Debates. Foi também capelão interino do I Grupamento de Engenharia e Construção e da Polícia Militar da Paraíba. Pertence à Academia Paraibana de Letras e no Instituto ocupa a cadeira nº 26. a análise crítica isenta sobre a Igreja. Ficamos esclarecidos sobre o papel do padroado. deu-nos uma visão da ação da Igreja no mundo. vamos ter uma noção da parte propriamente ligada à Paraíba. O expositor criou as condições para podermos conhecer a Igreja. Penitenciária Modelo. por um lado. é com satisfação que passo a palavra ao Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares. Monsenhor Eurivaldo exerceu o magistério nas nossas universidades e em vários colégios. além das novidades que trouxe a público. e não só na Paraíba e no Brasil. A exposição do professor Manuel Batista de Medeiros teve. com o que nos facilitou entendê-la na sua atuação nestas plagas. conforme confessa o expositor. a exposição do professor Manuel Batista de Medeiros trouxe-nos muita luz sobre a participação da Igreja na Paraíba. também. Assim. Agora. cujo patrono é Diógenes Caldas. para entender a Igreja na sua atuação secular. Na sua atividade religiosa foi capelão de várias instituições tais como o Colégio Diocesano Pio XI. João de Deus. Monsenhor Tibúrcio. mostrando aspectos de sua evolução até os nossos dias. Externato Santa Dorotéia. 293    . permitiu a expansão da Igreja. Monsenhor Eurivaldo. mas. faz parte da velha guarda da Igreja. São 50 anos de sacerdócio. Hospital Napoleão Laureano. onde diariamente celebra a Santa Missa. Mathias Freire e outros.A fala do Presidente: Como prevíamos. através da palavra do nosso consócio Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares. Hospital Regional de Sapé. Moisés Coelho. passando por várias paróquias do interior do Estado e terminando na Igreja da Misericórdia. de Campina Grande. na minha classificação particular. um instituto que se. mas continua firme em uma capela que a Arquidiocese autorizou funcionar em sua própria residência.

lugares e fazem muitos detalhes e deixam a sequência de acontecimentos sem o estudo crítico. Lerei para os senhores o trabalho que preparei para este ciclo. divulgadas através nossos “Boletins Informativos”. expositor do tema. justificadamente chamado “Casa da Memória da Paraíba”. Isto é um pretexto para pedir perdão pelo modesto trabalho. o relicário vivo de suas mais puras e genuínas tradições. há algum tempo. Fiz um trabalho pequeno. 294    .Debatedor: Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares (Sócio do Instituto e da Academia Paraibana de Letras. a História do Brasil. confere datas. referindo-nos ao nosso Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. a ela ligados. tornou-se. de algum tempo para cá. porque os companheiros sabem que minha saúde. Presidente. tivemos oportunidade de. para apontar seus nomes à veneração e ao reconhecimento da posteridade”. da tribuna desta Casa. dando início à minha participação. filhos. quando notar que o trabalho estiver muito pesadão solte uma das suas para ver se o plenário aguenta. mas se expande em múltiplas realizações. cada vez mais se desdobra em variadas atividades culturais. que enfadonhamente citam datas. ou de outra. assim nos expressar: “Fiel a si próprio como intérprete do existir e do viver da terra e do povo tabajarinos. Manuel Batista de Medeiros. Em pronunciamento. Não se restringe. Ele próprio disse que ia seguir uma linha diferente da que comumente fazem os historiadores. Nosso sodalício. com certo esforço. Então. exprofessor da UFPB) O Dr. apenas às regulamentares sessões ordinárias de cada mês. depois de pacientes e criteriosas pesquisas. com a sua verve sempre atual e que. na verdade. tal como ele fez. ou não da Paraíba estejam de uma forma. quando a sessão está cansativa e ele diz uma das boas e a turma acorda. ou nos Relatórios da Presidência. mas a história mundial. já deu a lição verdadeira abordando o assunto que está sendo hoje estudado neste Ciclo de Debates dedicado aos 500 anos do Brasil. remove a poeira dos arquivos. a vida e os feitos de quantos. mas é um homem que interpreta não só a História da Igreja. No cumprimento de tão nobres e elevadas tarefas. que não está à altura da aula de sapiência do professor Batista. O professor Batista demonstrou que não é apenas um historiador no sentido de colecionar datas históricas. O que nós temos de bom aqui é o nosso Presidente. major-capelão reformado da Polícia Militar. me tem dificultado escrever e pesquisar. de vez em quando faz a gente desopilar. revive acontecimentos e neles situa.

Assim sendo. A primeira Constituição Republicana preconizava completa separação entre a Igreja e o Estado por estar impregnada dos princípios positivistas e contistas. cabendo-me adicionar algumas modestas achegas. Daí. convidados que são para reuniões extraordinárias. os quais mais se intensificaram depois da guerra do Paraguai (1870). ou estudiosos aficionados de temas específicos. Dessa forma. Digno de nota foi a nova política de reconciliação diplomática adotada pela Internunciatura Apostólica inspirada pelo Papa Leão XIII. a vedação de novas ordens Religiosas e seus conventos. cresceu e vigorou no seio das perseguições. a República impõe a liberdade dos cultos. Manuel Batista de Medeiros. bastante concorridas e aplaudidas. I – A Igreja na Paraíba Este é o tema que tão brilhantemente expôs nosso eminente consócio professor Dr. este movimentado Ciclo de Estudos. por exemplo. dizemos nós. Mas o Estado?” O futuro. onde se encontrava preso. destemidamente comentou: “A igreja nasceu. nosso conterrâneo D. o progresso dos ideais republicanos. porém de nosso Episcopado. Confirmação do que afirmamos. a da Bahia e a do Rio de Janeiro. a laicização do ensino. a secularização dos cemitérios. sentindo-se o revigoramento da vida cristã em todo o País. foi abolida a Lei Pombalina. e sobre as condições de tratamento. nada há de recear. o qual decidiu reestruturar a Hierarquia Católica em nosso País. é. ou assembleias gerais. a confirmação da Lei Pombalina que expulsava os Jesuítas. Em carta aos seus diocesanos. através da Célebre Pastoral Coletiva (1890) soou como solene protesto contra o governo. escrita da Fortaleza de São João. e que gira em torno da temática geral – A PARAÍBA NOS 500 ANOS DE BRASIL. como tarefa que devo irrecusavelmente cumprir. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. e. a 15 de novembro de 1889. negação dos direitos políticos aos religiosos. cujo programa abrange 18 sessões de debates e que se estende de 15 de setembro a 12 de novembro do corrente ano. que o Império. como consequência melhorou a liberdade religiosa. por isso.Não resta tempo para se deterem passivos nossos associados. A reação. o casamento civil. respondeu com profundas transformações operadas com a abolição da escravatura. que se tornou conhecido por sua participação na célebre “Questão Religiosa”. até a Proclamação do Marechal Deodoro. o Brasil foi dividido em duas Províncias Eclesiásticas. de tal sorte que o territó295    . a República nascente não era menos hostil à Igreja.

quando da ocorrência do IV Centenário da Fundação de nosso Estado (1985). junto a São Pedro. até o Ceará. Seu primeiro Prelado. inclusive. de Leão XIII diz textualmente: “Para formar a outra Diocese da Paraíba separamos igualmente para sempre e lhe designamos o território do mesmo nome e do Estado do Rio Grande do Norte. Desta Diocese da Paraíba os limites orientais e setentrionais serão fixados pelo Oceano Atlântico até a barra do Rio Mossoró. os das Capitanias de Pernambuco.. na Paraíba abrangia. a Prelazia não era uma Diocese. Tal Prelazia. de 27 de abril de 1892. estudo por nós publicado. décimo quinto do nosso Pontificado. a Bula Ad universos orbis Eclesias. aumentou o número de padres. ordenados pelo Bispo da Bahia. criou o prelado diversos Curatos e Paróquias. como foi dito. a Diocese de Olinda pela cadeia “Imburanas” à foz do Rio Goiana serão os seus confins. da Encarnação do Senhor. que constituem presentemente parte da Diocese de Pernambuco: na cidade da Paraíba fundamos a sede da Igreja chamada da Santíssima Virgem das Neves a Catedral do Bispado e elevamos por isso dita Igreja à dignidade de Catedral. abrangendo por terra e mar o Rio São Francisco aonde se limitava com a da Bahia. no ano de 1892. sediada.. a 27 de abril. mas tinha poderes quase iguais aos Bispos. II – Paraíba – Prelazia e Diocese ITINERÁRIO DA PARAÍBA CATÓLICA. Dentro desse quadro. sendo que cada Província constaria de uma sede Metropolitana e sete Bispados sufragâneos. cuja atuação foi considerada regular. juntamente com o Amazonas. O campo era fértil. Itamaracá e Rio Grande do Norte. registra que o crescimento da Religião na Paraíba. pois. finalmente. de preferência a Pernambuco ser escolhida sede de uma Prelazia. valeu-lhe. apenas não era sagrado Bispo. criada em 1614. o que propiciou ao Papa a criação da Diocese de Olinda. chegou a vez da Paraíba que ficou incluída na Província Setentrional. Como viram. nomeado por alvará régio foi o Padre Antônio Teixeira Cabral.rio que antes abrangia 12 Bispados. as Capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte. além de seu próprio território. enquanto que Vitória e Cuiabá. Finalmente. apesar das grandes distâncias para percorrer toda a extensão da Prelazia. na Província Meridional. Para o Sul. O Prelado era um quase Bispo. Dado em Roma. Para o Ocidente os limites serão a cadeia dos Montes Apodi e Pageú. dos quais será separado da Diocese de Fortaleza. em Pernambuco. 296    . alguns vindos de Portugal e outros. ficou com 16.

elevou a Paraíba à condição de Província Eclesiástica. o Seminário São Sulpício. recolheu-se ao leito nos últimos instantes cercado por D. constituindo o primeiro elo de uma cadeia de 41 escritos pastorais que somente terminaria no último. D. Acometido de infecção pulmonar. ao tempo em que criou a Diocese de Cajazeiras. aos 6 de fevereiro de 1914. As pessoas que não tinham muitas letras e não conheciam o Latim. 55 de Sacerdote. os paraibanos esperavam ansiosos seu 1º Pastor. Cônego Francisco Lima registra: o Bispo eleito era natural de Areia. renunciou o honroso encargo. Alquebrado pelo peso da idade. Adauto ainda hoje está inscrito no Palácio do Carmo e no prédio onde até pouco funcionou A IMPRENSA. Sentindo-se chamado ao Sacerdócio e ajudado financeiramente por pessoas amigas e de posses. aos 15 de agosto de 1935. A carta saudando seus Diocesanos é da mesma data. Adauto entregou sua bela alma a Deus. Em vista disso. Cônego da sede de Olinda e professor catedrático do Seminário Diocesano local. D. onde cursou em Paris. D. Tendo recebido os sacramento das mãos do seu sucessor e discípulo. Cardeal Lúcio Maria Parochi. com direito à sucessão. o qual. Os presentes repetiam em coro o versículo do hino sacro que constituía a legenda de seu brasão episcopal Iter para tutum – prepara caminho seguro. Adauto não renunciou e permaneceu no Governo Diocesano até a hora de Deus. ao meio dia da Festa de Nossa Senhora de Assunção. Moisés Coelho. virtuoso sacerdote do clero baiano. Em 29 de junho de 1932 o Papa Pio XI concedeu-lhe como Arcebispo Coadjutor. onde se ordenou Padre aos 18 de setembro de 1870 e onde também foi sagrado Bispo. e 21 de Arcebispo. o Colégio Pio Americano e a Universidade Gregoriana em Roma. Contava já então quase 80 anos de idade. o Santo Padre Leão XIII elegeu o não menos idôneo Cônego Adauto Aurélio de Miranda Henriques. 41 de Bispo. por motivo de saúde.III – O primeiro pastor – Vida e morte Criada que fora a Diocese. José Basílio Pereira. viajou a Europa. o Papa Pio X pela Bula “Magis Catholicae Religionis”. A escolha recaiu na pessoa do Revmo. em 7 de janeiro de 1894 pela imposição das mãos do Eminentíssimo Sr. Moisés e diversos Padres que foram sempre seu amparo e sua coroa de glória. Adauto a seu 1º Arcebispo Metropolitano. elevou igualmente D. sobretu297    . Monsenhor Dr. o ilustrado historiador conterrâneo. Seu biógrafo. até então Bispo de Cajazeiras. Este lema de D. Iter para tutum – prepara caminho seguro.

Está muito pesado”. São lembranças que guardo. da Paraíba e do Rio Grande do Norte para a educação da mocidade. Fiz esse parêntese para abrandar a leitura do texto. e traduziam “entrada para todos”. Adauto enterrado sob uma lápide de mármore com os dísticos em Latim: “Aqui repousa aos pés da Virgem das Neves D. não tinha nada. Aí chegavam os visitantes para tomar a bênção: “a bênção. nem tinha campainha para chamar. seu bispo”. foram apenas dois anos de convivência com D. Velado na Igreja do Carmo. Adauto foi sepultado foi exatamente aos pés do altar de Nossa Senhora. – Ah! Está abençoado. o esquife foi conduzido em procissão por avultado número de fiéis que assistiram consternados o sepultamento de seu Pai Espiritual. até o último ano em que morreu. Continuemos. Mesmo naquele estado. Adauto não tinha porteiro. nosso Bispo além de abrir colégios na Capital e no interior. Adauto Aurélio de Miranda Henriques. Adauto. não tinha segurança. Era a vida dele. Discorrer sobre D. Sou de opinião que não deviam ter tirado. Adauto sentado numa rede e ao lado uma sacola cheia de medalhinhas de santos e um depósito com diversas moedas. que encerra a história de nossa centenária Igreja Diocesana. e dizia: “tira isso da minha cabeça que não aguento mais. Entrei no Seminário em 1933 e ele morreu em 1935. estabeleceu um Instituto Superior para a formação 298    . O primeiro local onde D. o corpo de D. aos pés da Santíssima Virgem das Neves. Lá estava D. Amante das letras e das ciências. eles encontravam D. a quem D. porque fui testemunha ocular. D. A porta aberta. Posteriormente. ele estava presente em todas as solenidades e presidiu a Semana Santa. ia caindo na sepultura aberta para o Bispo e foi agarrado a tempo de evitar o acidente. 1º Bispo e Arcebispo 1º da Arquidiocese da Paraíba”. – A bênção. Aí todo mundo entrava no Palácio. O interventor da Paraíba que está presente estava bem próximo ao local do enterro. tiraram. seu bispo. Adauto. Dava uma medalhinha e uma moeda. perguntava o que queria. que era nosso Reitor e cerimoniário. Adauto dava muita atenção e acolhida em sua casa. Ele já meio surdo. inexplicavelmente. distraidamente. 1º Bispo e 1º Arcebispo da Paraíba e o que representa sua obra evangelizadora que vai de 4 de março de 1894 a 15 de agosto de 1935 é tarefa que abrange quase metade de um século. nos últimos dias em que o conheci. Adauto. Eu me recordo de um incidente que ia tendo certa gravidade se não fosse a presteza de quem o acudiu na hora.do os pobres e ignorantes. lá abriram a sepultura para ele. viam inscrito na fachada do palácio Iter para tutum e liam Iter para tutúm. Apenas se cansava muito e quando a Mitra estava incomodando sua cabeça ele chamava Monsenhor José Tibúrcio.

as reações. genuína Escola do Saber e da Virtude. Segundo afirma o Cônego Francisco Lima em sua obra SUBSÍDIOS BIOGRÁFICOS (Vol. como 1º Bispo de Cajazeiras em 16 de novembro de 1914. IV – D. foram criadas mais duas Dioceses na área: Caicó/Rio Grande do Norte. D. empossado em 29 de junho de 1932. Esteve presente ao Congresso Eucarístico. Moisés Coelho – Coadjutor e 2º arcebispo D. que houvesse testemunhado as lutas. que estivesse familiarizado com todos os seus elementos positivos e negativos. III): “Era de mister um Coadjutor que aliasse ao espírito de fé. Mesmo apegado pessoalmente às velhas paredes do Seminário de São Francisco. Moisés percorreu toda a Arquidiocese em visitas pastorais. Eis a gênese da escolha de D. o zelo da caridade. seu cuidado pela criação e funcionamento do Jornal Católico que. Concedeu-lhe o Senhor que ele próprio viesse a colher através dos anos. Tudo a atestar e justificar os títulos de glória do nosso Seminário Arquidiocesano. Moisés Coelho. em Salvador. palestras e conferências. os sazonados frutos do zelo apostólico de mais de duas centenas de Padres e de meia dúzia de Bispos que ele ordenara. por anos. espalhados pela Paraíba. em que se formara e em que exercera por tempos sua função de orienta299    . Adauto. para tornar-se seu Coadjutor com direito à sucessão. Sua visão do futuro e sua preocupação por novos padres levaram-no a instalar pessoalmente em todas as Paróquias da Arquidiocese a Obra das Vocações Sacerdotais. em 1933. Adauto. realizado em Buenos Aires em 1934. Dominus illuminatio mea era o dístico de seu lema episcopal – O Senhor é a minha luz. apontado por ele para o Episcopado. na Bahia. praticamente. Guiado por essa luz divina. foi o mesmo virtuoso Prelado indicado ao Papa. em 1939 e Campina Grande (em nosso Estado). com sede na Cidade Episcopal. Padre ordenado por D. Moisés Sizenando Coelho. isto muito acima das raias comuns. Páscoas coletivas e administração do Sacramento do Crisma. Não é de omitir-se. Rio Grande do Norte e o Brasil afora. Moisés continuou o longo e fecundo apostolado de seu antecessor. para Arcebispo Coadjutor de D. como ao Congresso Eucarístico Internacional. para 2º Arcebispo da Paraíba”. em 1949 e a elevação de Natal à dignidade de Arcebispado (1952). Exigia-se do Coadjutor que conhecesse o terreno. Dedicou-se à pregação de Retiros Espirituais. que o fez Cônego do Cabido e Diretor Espiritual do Seminário.do Clero. circulou – A IMPRENSA. os empreendimentos que ponteavam a história daquela conquista. as iniciativas. D. Durante seu período como metropolita.

o momento em que o pastor solícito. tomando posse no dia 29 de junho do mesmo ano. foi Diretor Espiritual do Seminário. além da dedicação de seu Clero. Pena. com direito à sucessão. Adauto criara. com excelentes frutos de fé e devoção dos fiéis. foi edificar para os padres idosos e os que na capital não possuíam casa própria. por igual. Vice-Diretor Diocesano do Apostolado da Oração. até às lágrimas. bem como receberam novos incentivos as Congregações Marianas e Cruzadas Eucarísticas Infantis. promoveu. Ordenou-se a 1º de novembro de 1901. que D. Seu interesse pela defesa da fé e a difusão da boa imprensa levou-o a promover intensa campanha por um melhor reaparelhamento do nosso diário católico A IMPRENSA. a 8 de abril de 1877. contou D. uma Semana Eucarística. que também foi Bispo Auxiliar. sua última realização. como Capelão das Irmãs Dorotéias. Cônego do Cabido. Moisés Sizenando Coelho nasceu em Cajazeiras. quando tivessem de vir a negócios à cidade. Vice-Diretor do Colégio Santo Antônio. e que se tornara sublime aspiração de seu futuro Bispo Auxiliar. a que foi dada outra destinação. em Natal. desaparecesse. antes de morrer. Já antes. pouco tempo depois de seu desaparecimento. Serviu no Rio Grande do Norte. D. Círculos Operários multiplicavam-se na capital. Era o legado que deixava em testamento e que teve a ventura de ver funcionando. Manoel Pereira da Costa. João Maria Cavalcanti de Albuquerque. na impossibilidade de um Congresso Nacional. Um sonho que D. Odilon Coutinho e D. especialmente o Paroquial. não hesitou em empenhar-se pela edificação de novas e modernas instalações do Seminário no Bairro do Miramar. o qual morreu em odor de santidade e cuja memória ainda permanecerá na consciência do povo cristão natalense. foi nomeado Arcebispo Coadjutor. velho e alquebrado. muita pena mesmo. Em 22 de fevereiro de 1932. Coadjutor da Matriz. ao lado do vigário Pe. Na Capital paraibana. A 15 de agosto de 1935. Moisés sempre acalentou. Diretor da Liga Eucarística Sacerdotal e Redator do jornal A IMPRENSA. Em 16 de novembro de 1911 foi eleito pelo Papa Bento XV 1º Bispo de Cajazeiras. com a morte 300    . ou mesmo local digno onde se hospedassem.dor de consciência dos futuros padres. D. Foi de veras comovedor. na capital. em 1936. à imagem de uma Casa Grande que abrigasse a família sacerdotal. em uma cadeira de rodas. alienando-se o prédio. prova dos cuidados paternais que votava por seus auxiliares. que. Moisés com a lealdade e eficiente ajuda de seus vigários gerais. sua obra. pessoalmente. Manoel Pereira. foi organizar a Casa do Padre. Organizou a Ação Católica Oficial com a instalação de sua Junta Arquidiocesana. ser conduzido para benzer. Para sua administração. Mons.

Belo Horizonte. Demorou-se por pouco tempo na Bahia. antiga capital de Sergipe. Exerceu o magistério no Colégio Estadual e no Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Secretário do Bispado e ainda agraciado com a dignidade pontifícia de Monsenhor. merecendo ser incluído entre os maiores oradores sacros de nossa Pátria. como 3º Arcebispo Metropolitano da Paraíba foi D. foi sagrado Bispo de Garanhuns em Pernambuco aos 30 de outubro de 1938. de Bispo. motivado provavelmente pelos rigores do clima abrasador da região. enquanto. Persistindo os males que lhe afetavam a saúde. V – 3º Arcebispo metropolitano – Breve pastoreio – Renúncia O sucessor de D. Mário passou por profundo golpe. Adauto tornou-se o 2º Arcebispo Metropolitano da Paraíba. 44. com direito à sucessão. Mário de Miranda Vilas-Boas. Foi então transferido para a Bahia como Arcebispo Coadjutor do Eminentíssimo Sr. na realização do VI Congresso Eucarístico Nacional. 27 de Arcebispo Coadjutor e 24 de Metropolita. contando 82 anos de idade. Porto Alegre. Foi Cônego do Cabido. D. transferido para a Arquidiocese da Paraíba. 58. de Padre. Dotado de voz atraente a serviço de um verbo inflamado. Escolhido para o Episcopado. José Thomaz Gomes da Silva. Mário empolgou nos Congressos Eucarísticos Nacionais do Recife. Curitiba e na Consagração do Brasil à Nossa Senhora e em outras ocasiões religiosas e civis de relevante importância.de D. Moisés. sua 1ª Carta Pastoral saudando os diocesanos foi considerada documento básico para o movimento litúrgico e o apostolado leigo no Brasil. A 5 de janeiro de 1945 foi elevado a Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará. no entanto. A 18 de abril de 1969 expirou placidamente ao Senhor. no ano de 1953. Sentindo-se chamado à vida sacerdotal. na cidade do Rio Grande. sendo também sócio fundador da Academia Sergipana de Letras. Cardeal de Salvador e Primaz do Brasil. D. Estado do Rio Grande do Sul. Fez seus primeiros estudos em São Cristóvão. Seu lema episcopal foi Sentir cum Ecclesia – Sentir com a Igreja. sendo. Concluídos os estudos eclesiásticos foi ordenado Padre. na capital paraense. São Paulo. a pedido. quando desenvolveu fecundo apostolado que o projetou mais no cenário brasileiro. começou a sentir abalo em sua saúde. Nasceu a 4 de agosto de 1903. empossando-se a 27 de setembro de 1959. Imortalizou-se. matriculou-se no Seminário da mesma cidade. que foi o passamento de sua venerada 301    . não lhe foi possível exercer os planos e metas que traçou. em maio de 1957. Após 12 anos de intenso trabalho apostólico no Norte do Brasil. a 5 de dezembro de 1925 pelo Bispo D.

o Arquivo Eclesiástico. José deu testemunho de vida. D. seguiu-se longa vacância. em 18 de maio de 1965. Ali permaneceu durante oito anos. Nomeado pelo Papa Paulo VI. onde foi residir em casa. fez-se responsável pelas profundas modificações que a Igreja tem sofrido em sua atuação no mundo contemporâneo. de volta a Aracaju. o 4º Arcebispo Metropolitano. com a força irresistível de franqueza e coragem de lutar. Exerceu o magistério como Diretor do Colégio em Governador Valadares. aos 15 de março de 1919. encontros. incluindo o Museu Sacro. VI – 4º Arcebispo – D. encaminhou à Santa Sé novo pedido de renúncia.e. em nível de documentos de ordem doutrinária. Instalou. D. do índio. visitas pastorais e inter-eclesiais. e celebrou o 302    . as Comunidades Eclesiais de Base. através de Assembleias diocesanas. Pedro Anísio Bezerra Dantas. aos 65 anos de idade. do Concílio Ecumênico Vaticano II. 43 de Padre. Minas Gerais. Mons. Foi um trabalho insano. pela paz social. Mário. liderando movimentos que visavam conduzir nossa Igreja do remanso das elites para a conturbada periferia dos pobres e excluídos. tornou-se Bispo de Araçuaí. 30 de Bispo e 23 de Arcebispo. onde se ordenou Padre em 20 de dezembro de 1941. comissão pastoral da terra. Estudou no Seminário de Diamantina. Foi Pároco em Açucena e Curvelo. no dia 2 de dezembro de 1965 tomou posse em 27 de março de 1966. então. escolhendo o lema Scientiam Salutis – Ciência da Salvação. Pela justiça. até a sua elevação ao Arcebispado da Paraíba. Escolhido para o Episcopado. Criou o Centro Cultural São Francisco. reabriu o Seminário Arquidiocesano. Estimulou. Sua caminhada em nosso meio se notabilizou pela ação pastoral que. para ele. José Maria Pires Após a renúncia de D. Abatido e triste. em 22 de setembro de 1957. com ajuda vinda do exterior. e do movimento de promoção da mulher e da proteção ao menor abandonado. pastorais especializadas: do negro. que lhe foi generosamente ofertada por um grupo de fiéis amigos e admiradores. como Padre Conciliar que foi. ou de atitudes práticas no âmbito pastoral. veio a falecer a 23 de fevereiro de 1968. Ritinha. que foi aceito em 18 de maio de 1965. do Governo Arquidiocesano da Paraíba. Foram 30 anos de convivência em que o Arcebispo D. em que o mesmo Governo foi exercido pelo Vigário Capitular eleito. José Maria Pires. idolatrada genitora. Lá. nascido em Córregos. Retirou-se. campanhas de fraternidade. pela não violência. pela posse da terra. ou como ele próprio dissera e escrevera: “Do centro para a margem”. em terreno doado pelas Religiosas de Santa Catarina a nova Casa dos Padres.

sendo sagrado em João Pessoa. teve seu Bispo Auxiliar. criou e instalou mais sete 303    . Durante o período. como Auxiliar do Sr. Diretor Espiritual do Seminário Arquidiocesano do Recife. onde concluiu o 1º e 2º graus. foi Vigário Episcopal para o setor de leigos. o qual. VII – 5º Arcebispo – D. O novo pastor tem procurado dar execução ao Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil. Ainda como Padre. em preparação ao grande Jubileu do Ano 2000. tornou-o Arcebispo emérito da Paraíba e Administrador Apostólico Arquidiocesano até a posse de seu substituto. levando em conta o constante crescimento populacional das regiões suburbanas da sede episcopal. que aceito. o seu pedido de renúncia do ônus episcopal. de modo mais intenso entre os humildes e os sem vez e sem voz. rumo ao 3º Milênio. proposta pela Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros. tornando-se o 5º Arcebispo Metropolitano da Paraíba. em Roma. em Roma. ficou fazendo parte da Província Eclesiástica da Paraíba. tornou-se o 1º Bispo de Guarabira. Em 1975. aos 28 de fevereiro de 1953. por motivo de haver atingido a idade de 75 anos. cidade paraibana que se tornando Diocese. Filosofia e Teologia cursou na Pontifícia Universidade Gregoriana. em 29 de novembro de 1995. Marcelo Pinto Carvalheira Nasceu em Recife a 1º de maio de 1928. A 29 de novembro de 1995 foi elevado a Arcebispo. teve sempre marcante atuação na C. De volta a capital pernambucana.Centenário da Diocese – 1984-1994. na pessoa do Sr. Assim. e na Conferência Geral do Episcopado Latino-americano. foi Professor de Teologia no Seminário de Olinda e mais tarde. Arcebispo da Paraíba. D. o Papa. Olinda e Camaragibe. aos 27 de fevereiro. Ordenou-se Sacerdote na Cidade Eterna. participando pelo Episcopado Brasileiro no Sínodo Universal dos Leigos. com dístico: “Cem anos de coragem e fé”. Cursou o Seminário de Olinda. B. B. Em 1981 foi transferido para a recém-criada Diocese de Guarabira. Sua posse canônica foi efetuada no dia 14 de janeiro de 1996. mais tarde. Já no ano de 1975 foi eleito Bispo. na Várzea e ainda Reitor do Seminário Regional do Nordeste. tornou-se verdadeiro missionário. difundindo o Evangelho entre todas as camadas da sociedade. atuando sempre dentro do seu lema escolhido Evangelizare – Evangelizar. como Bispo Diocesano. N. – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. apresentou ao Santo Padre. Marcelo Pinto Carvalheira. Cumprindo disposições emanadas da Santa Sé Apostólica. dentro das reais circunstâncias do nosso meio.

viajar a Brasília. no Rangel. no Jardim 13 de Maio. São Paulo e até Roma. por ocasião das comemorações do IV Centenário da criação da Paraíba. foi instalado o Convento para as Irmãs do Carmelo. no centro da cidade. enviou correspondência ao Vaticano pedindo tal privilégio que é ser. adquiriu uma casa. No interior. para servir como Residência Episcopal. no Conjunto Castelo Branco. e até junto ao próprio Papa no sentido de que fosse benignamente aceita sua súplica de elevar nossa Catedral à dignidade de Basílica Menor. Em decorrência ainda desses novos encargos tornou-se responsável pelo acompanhamento à vida religiosa do Brasil. a de Nossa Senhora de Guadalupe. Marcelo. Arcebispo D. datado de 5 de novembro de 1997. no Brisamar. Na praça São Francisco.Paróquias: No Jardim Planalto. o qual distingue duas fases na Igreja da Paraíba: 304    . Igualmente não é de ocultar-se que essa honrosa conquista dos católicos paraibanos. Além disso. a da Virgem do Auxílio dos Cristãos. depois de restaurada. a de São Pedro e São Paulo. A Arquidiocese. o que sendo para ele uma honra. a antiga igreja do secular Mosteiro de São Bento foi reaberta ao culto público. bem próxima à Igreja Catedral. o mesmo acontecendo com o Convento e a Igreja da Guia. É de referir-se aqui. Nossa Senhora Mãe de Deus. o nosso mais antigo santuário mariano da Paraíba a igreja Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves. principalmente se deve ao nosso Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. gostaria de apresentar interessantes e judiciosas considerações sobre o tema deixado escrito. aprovada na oportunidade. José Maria Pires. em 1985. foi ainda criada na cidade de Itapororoca a Paróquia de São João Batista. nosso Arcebispo foi recentemente em Assembleia Geral eleito Vice-presidente desse Órgão representativo da Igreja no Brasil. o que. através de proposta nossa. ao ensejo da ocorrência do centenário da instalação da nossa Diocese (1894-1994) pelo nosso Arcebispo Emérito D. o empenho pessoal do Sr. a da Virgem dos Pobres. na Penha. hoje. a deslocar-se frequentes vezes. no Bessa. a de São Francisco das Chagas. felizmente se tornou realidade com a assinatura pelo Papa João Paulo II. VIII – Conclusão À guisa de conclusão deste nosso estudo sobre A IGREJA NA PARAÍBA. inclusive. junto à Congregação Romana do Culto Divino no Vaticano. do Breve Pontifício. com ajuda financeira do Movimento Internacional “Adveniat”. na praia de Lucena. a de São Rafael. na Capital. que. Além de altas missões delegadas pela CNBB. lhe acarreta muitos encargos que o obrigam. a de Nossa Senhora Aparecida.

porque no meu tempo a gente tinha o Bispo como pai. Mário Vilas-Boas. a quem nós queremos muito bem. A fala do Presidente: Nosso debatedor mostrou-nos a direção da Igreja na Paraíba. e D. em 1614. desde quando a Paraíba se transformou na Diocese que abrangia Pernambuco. os Bispos com os quais eu servi. D.. Deus lê dentro coração e dentro do meu coração está. em que ainda se destaca a imagem da IgrejaPoder e partindo para um outro modelo. que me ordenou padre. em cujo período entrei no Seminário. não. acrescentaríamos. Marcelo Carvalheira. Por outro lado. passamos a palavra aos que desejarem oferecer algumas considerações. E assim agradeço e peço mil perdões pela maçada aos presentes. Adauto. D. uma nova fase de Igreja? Estaríamos saindo da contestação. 2ª fase: Igreja – Progressismo e conservadorismo. José colocada para nossa reflexão. com os piparotes que me deu e que eu retribui à altura. o da Igreja-formadora de consciência. Marcelo. que apenas lamento a sua fraqueza física por não ter podido seguir o seu programa. a minha Igreja da Paraíba. compreendendo os períodos de D. que deu uma coloração sociológica e política sobre a participação da Igreja na Paraíba. Moisés. de modo particular. foi meu padrasto e até disse a ele. José. D. José Maria: Estaríamos iniciando. defensiva dos direitos. O que vale é minha intenção de prestar minha colaboração a este Ciclo. 1º Participante: Marcus Odilon Ribeiro Coutinho: 305    . Indaga D. que engloba os últimos pastores D. Mário. agora. Paraíba e Rio Grande do Norte. Adauto e D. nesses 500 anos de Brasil. segundo D. O registro da atuação dos nossos Bispos e Arcebispos ficará nos nossos anais. temos que acentuar o trabalho apresentado pelo professor Manuel Batista de Medeiros. sem dúvida. Apesar do adiantado da hora. e que hoje é meu amigo (em certo tempo não foi. José Maria. mas ele foi um padrasto). D. Quer dizer. D. Itamaracá. inspiradora de esperança e promotora da paz? É a pergunta de D.1ª fase: Igreja – Poder Religioso ao lado do Estado – Poder civil. que é aquele coração imenso. D. Um trabalho dessa natureza é necessário para nossa história eclesiástica. Moisés. a predominância era do poder civil sobre a Igreja. José Maria Pires e.

principalmente para a elaboração da nossa história colonial. mas. social. Quando o professor Manuel Batista falou sobre Capistrano de Abreu refleti o seguinte: a um historiador que tenha um razoável embasamento informativo ele sequer precisa ser católico para perceber a importância da Igreja católica na formação cultural. que pode ter sido de grande renovação e modernização para Portugal. Desde a campanha da fundação até 1593 e. aqui na Paraíba. Porque. ficando totalmente perdidos vinte anos mais tarde. mas efêmera. de todas as ordens religiosas. a Ordem da Companhia de Jesus teve um uma influência importante. Mas ele disse que não se poderia escrever a História do Brasil sem primeiro escrever-se a história dos jesuítas. Quando os holandeses tomaram conta Paraíba escolheram para sediar o governo o Convento de São Francisco. A Ordem dos Carmelitas também foi importante. Completamente ateu. Devemos ressaltar o trabalho da nossa confreira Glauce Burity. na Paraíba. Mas. já no século XVII. resolveram enterrá-los. trabalho esse de grande importância para a nossa historiografia. Na Paraíba. já se formavam mestres nos colégios da Bahia e Rio de Janeiro. se ordenou algum índio padre? Manuel Batista: Foi ordenado um índio.Gostaria de saber se a Igreja. até serem expulsos os jesuítas do Brasil. mas foi um desastre educacional para o Brasil. até que viesse o Seminário de Olinda e se renovasse todo o processo educacional brasileira. lamentavelmente. Guilherme d’Avila Lins: Quero parabenizar o professor Manuel Batista de Medeiros e o Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares por suas exposições tão oportunas. E uma prova evidente deste fato é que o próprio Capistrano era ateu. porque em dois segmentos. com toda a pompa semelhante à da universidade de Lisboa. e que sofreu como um condenado quando a filha Honorina resolveu ser freira. E que patrimônio artístico nós temos senão o Convento de São 306    . o qual muito pouco tem sido consultado. até o momento. melhor dizendo. posteriormente. educacional da nossa sociedade. no zelo que tiveram em esconder seus livros e fontes com a chegada dos holandeses. minha melhor ferramenta de fontes primárias para a História da Paraíba é o livro do tombo do Mosteiro de São Bento. Ainda não foi escrita a história da Ordem de São Bento. artística. posso dar meu testemunho pessoal de que as coisas vão melhorar.. que foi tão preocupada com os índios do Brasil. Serafim Leite conta uma designação. que em sua tese de mestrado falou sobre os Franciscanos. por exemplo. pois. Isso em consequência da política pombalina. mameluco. Por isso entramos num obscurantismo durante um bom período.

Então não é preciso ser católico para escrever sobre eclesiologia católica. Acho que sem a história das Ordens Religiosas na Paraíba. Enquanto o Peru. É a Igreja da Guia. No século passado o Vaticano abriu seus arquivos. Eles não tiveram Pombal. 307    . Considerações finais do professor Manuel Batista de Medeiros: Sobre as colocações aqui feitas. E aí a Universidade podia dar uma comenda ao rei. ou seja. a Igreja de São Bento. mas agora precisa entrar num processo de utilização cultural. que na realidade foi criada neste século.Francisco. um patrimônio sensacional. E aí. se houver sinceridade na cultura. escreveu a história dos Papas em 70 volumes. escrever sobre esses monumentos. Pastor. Quanto a historiadores sem fé. Para se ter uma amostra. a Igreja do Carmo. Passou por um processo de recuperação. já no século XVII. ou temos uma história muito pálida. um historiador alemão. o Brasil para agraciar o rei da Bélgica teve que fazer um faz de conta que criava a Universidade do Brasil. posso dizer que ninguém pode calcular o prejuízo da obra de Pombal em cima da cultura. não temos história. tinha universidade. prescindese da fé. protestante.

que é graduado em História pela Universidade Federal de Pernambuco. O tema de hoje será sobre a INQUISIÇÃO NA PARAÍBA. da Universidade Federal de Pernambuco. e atualmente está como Diretor de Arte e Cultura da Fundação Espaço Cultural. Há dois anos contamos com o concurso de Carlos André quando fizemos um Seminário de quatro dias sobre a Inquisição. Diretor de Arte e Cultura da Fundação Espaço Cultural) Sempre que venho a esta Casa tenho a enorme alegria de encontrá-la na guarda e na plena atenção aos nossos valores históricos e no culto à memória paraibana e nacional. Sempre afirmo que o Instituto Histórico e Geográfico Paraiba308    . como debatedora. cujo êxito já está assegurado. cujo expositor é o professor Carlos André Macedo Cavalcanti. segundo os comentários nos círculos culturais da nossa terra. e é com satisfação que apresento o professor Carlos André Macedo Cavalcanti. convidamo-lo novamente para. é Mestre e Doutorando em História. que contou também com o concurso do professor Severino Silva. que convido para vir participar da mesa dos trabalhos. cujo título foi O IMAGINÁRIO DA INQUISIÇÃO. Por considerarmos o professor Carlos André um dos credenciados estudiosos dessa área. Foi um evento de grande profundidade. teremos nossa confreira Zilma Ferreira Pinto. é professor de História Moderna na Universidade Federal da Paraíba.14º Tema: A INQUISIÇÃO NA PARAÍBA Expositor: Carlos André Macêdo Cavalcanti Debatedora: Zilma Ferreira Pinto A fala do Presidente: Reiniciamos nosso Ciclo de Debates. Com a palavra o professor Carlos André. que também convido para a mesa. Expositor: Carlos André Macêdo Cavalcanti (Professor de História Moderna na UFPB. Mestre e doutorando em História pela UFPE. Tornou-se tradicional fazer a apresentação do expositor. oferecer aos participantes deste Ciclo seus conhecimentos e experiência. agora.

já houve a crença de que a Inquisição não existiu em nossa História. vai apresentar um trabalho dela sobre a origem dos cristãos novos e sua importância na História da Paraíba. quero saudar a publicação da Revista nº 31 do Instituto Histórico. no acervo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Sabemos a dificuldade para a programação dum congresso como aquele. Sabe-se hoje que algumas centenas de brasileiros foram processados pelo Santo Ofício. A memória atual do ficcional caso de Branca Dias. que durou trinta dias entre Lisboa e São Paulo. da pesquisa histórica no Estado da Paraíba. na Paraíba. Reafirmo. A descoberta dos documentos inquisitoriais referentes ao Brasil. nela publicado. Estive muito tempo na expectativa de receber uma carta da historiadora Anita Novinsky convidando para o II Congresso sobre a Inquisição. afirmou “estar livre nossa história” da ação do Tribunal do Santo Ofício. Durante muito tempo o tema Inquisição esteve esquecido na historiografia brasileira. Antes de entrar na exposição em si. reafirmo minha proposta anterior de tornar realidade.. não só vocacionado. que as pontes. mudou esta convicção anterior. por meu intermédio. menciono o trabalho sobre a Inquisição na Paraíba. É indispensável que esse debate se aprofunde e se amplie. em Lisboa. se for interesse do Instituto a realização de convênio entre o Departamento de História e o Instituto. devem se consolidar e avançar no sentido de termos um trabalho de maior vulto em conjunto. trabalhos que mostram a meticulosidade e a busca da memória na pesquisa documental e. com a participação de pesquisadores 309    . A Revista permanece presente no debate historiográfico com trabalhos essenciais. célebre historiador pernambucano. como gabaritado para ser a instituição essencial do trabalho. Farei minha exposição com a temática conceitual e a debatedora oficial. sem dúvida nenhuma. professora Zilma Ferreira Pinto. Assim.no é. os vínculos entre estes dois grupamentos humanos que analisam a história devem se aprofundar. Hoje nós teremos duas apresentações sobre o tema. importantes. em especial. que marcou nossa cultura com um certo tipo de prática autoritária. do professor Luiz Mott. É importante que surjam foros no sentido de pesquisar e debater a Inquisição. entre nós brasileiros. demonstra a força deste passado. Oliveira Lima. Quase tido como não existente. Na verdade. mais uma vez. Ainda há pouco pensava no Congresso sobre Inquisição que houve em Lisboa e São Paulo como algo que deveria ter continuidade. que nos parece ser da vocação de ambas as instituições. São 12 anos sem haver a continuidade daquele congresso.

ele inicia dizendo: “a palavra tortura. aqui na Paraíba. Nós dizíamos. Existe uma imensa dificuldade de fazer uma análise crítica do documento. e principalmente a intolerância religiosa. Já 310    . fora do processo. Já em 1992. Francisco Bittencourt. E os custos foram enormes. como se referiu um historiador norte-americano chamado Eduard Peters. Talvez por essa dificuldade não tenha se realizado o II Congresso. tanto para quem pronuncia como para quem ouve. E existe. raras são as vítimas da Inquisição sobre as quais nós temos informações sólidas quanto à sua posição religiosa. nós começamos a nos questionar a respeito do uso das fontes documentais. Raros são os inquisitoriados. quanto à sua possível heresia. que dentro do estudo da Inquisição existe um problema de fontes. a pesquisa sobre tortura acaba ocorrendo dentro daquilo que chamamos “entropia semântica”. que se realizou no Espaço Cultural. e ainda não são o terceiro. Eu chamei isso de ditadura do processo. essa entropia semântica. uma unicidade de fontes. No livro dele sobre a tortura. da Universidade Nova de Lisboa. Então ficamos restritos ao documento que a Inquisição nos legou. por si própria. Há um momento em que eles não são mais nem um e nem outro. em função disso. atualmente. sem querer ser precursor desse processo. Vamos tentar desenvolver nossa análise dentro de uma tendência da historiográfica contemporânea. por exemplo. cujo porta-voz mais importante. realiza. que é o processo. Da mesma maneira ocorre com a Inquisição. E. no encontro chamado América 92. A palavra Inquisição. um imenso caldo de emoções”. No caso. já é suficiente para fazer lembrar uma série de atrocidades. segundo Peters. que foi um período de uma produção historiográfica longa sobre a Inquisição. nós estivemos numa mesa de debate em que a professora Anita Novinsky era a debatedora principal. que durou tão longamente na história do Cristianismo. uma vez pronunciada. Entropia é uma palavra da Química: ocorre quando dois elementos químicos se fundem.do mundo todo. Hoje estamos assistindo exatamente a ascensão deste questionamento. é o Dr. inclusive da Rússia. Sempre que a gente fala sobre o tema Inquisição. lembro sua semântica. De uns tempos para cá. e nós já colocávamos ali algumas ideias sobre isso que está se tornando o nosso trabalho mais recente. A professora Anita Novinsky respondeu dizendo que só havia realmente uma fonte para estudar o Tribunal do Santo Ofício. principalmente. a tortura geraria. após a década de 80.

Ele cita dois personagens históricos que pedem uma análise mais aprofundada. Caro presidente Luiz Hugo: o excelente artigo do professor Luiz Mott pode receber duas pequenas observações para complementar o trabalho dele. Isso permite uma análise aproximada.naquele mesmo ano o professor Ronaldo Vainfas. este personagem ao mesmo tempo recebe em casa alguém que está sendo perseguido pelo Tribunal e. por quê? Mártir. da Revista do Instituto Histórico. que é um padre jesuíta expulso de Pernambuco em 1760. professor fluminense. está nomeado para a igreja de São Pedro Mártir. Vale então uma pesquisa mais aprofundada a respeito dele. na leva de expulsão dos jesuítas por Pombal. publicou um artigo num desses livros-compêndios que Anita organizou. Na página 83. sugerindo uma continuidade. Para a igreja de São Pedro Mártir. Retornando à nossa exposição. colocavam-se pessoas que tinham muita aproximação com o Tribunal e que fossem bastante afinadas com os princípios da Inquisição. Para essas colocações eu me ponho à disposição do Instituto no sentido de encaminhá-las ao professor. estamos vendo os estudos sobre o Tribunal do Santo Ofício mudarem amplamente de significado. segundo o próprio Bittencourt. ou ele mesmo também nos Apontamentos do Clero Pernambucano. no século XIII. O maior desafio diante desta mudança é retornar o olhar sobre as fontes. O Tribunal da Inquisição tem os seus sinô311    . que hospedou o padre Gregório Martins Ferreira em 1654. porque era inquisidor. Nos Apontamentos Biográficos do Clero Pernambucano consta Manuel Dias Carvalho em 1654 já como primeiro vigário da igreja de São Pedro Mártir. na televisão. há pouco citado. ele fala de Manuel Dias Carvalho. no entanto. em que ele questionava as fontes e o significado da análise básica sobre o Tribunal como uma monstruosidade. Então. E ela sempre aparece referida como um escárnio ou monstruosidade. na mídia. Ele foi assassinado pelos hereges que perseguia. quero registrar que a Inquisição sempre aparece nos jornais. de Olinda. Antes farei duas observações sobre o artigo do professor Luiz Mott. no limiar do novo milênio que se iniciará em 2001. e que poderia ser a mesma pessoa. cristão novo que aparece nas listagens de Mott nas páginas 86 e 87 e que tem um homônimo. Um outro é Francisco Pereira. Hoje. São Pedro Mártir. Procurei trazer para vocês um exemplo de uma dessas fontes. nas revistas. em princípio. que é uma tentativa de conhecermos essa ambiguidade e essa duplicidade sobre o Tribunal do Santo Ofício. citada no meio de alguma notícia ou ela mesma como a notícia mais importante.

no medo que se tinha do mouro invasor. dia 24 de outubro de 99. As duas fases nós buscamos dividir segundo conceitos. Muitas vezes estuda-se o Tribunal em torno do seu sentido. fazendo uma observação. anteriores à cultura da cristianização. Uma fase vai da sua fundação ou das atividades inquisitoriais que se formam na Península Ibérica no final do século XV – a sua fundação oficial é na década de 30 do século XVI – até 1640 e uma segunda fase vai de 1640 até a sua extinção em 1821. onde inúmeras vidas foram tiradas. não só na Colônia brasileira. Tempos longínquos de proibição em que a mulher deveria casar virgem. em toda a Europa. Nós dividimos o tempo inquisitorial em duas fases. Seria engraçado se não fosse tão sério. que era um medo muito viável nas expressões mágicas da cultura naquele momento. que ocorre no século XVI e primeira metade do século XVII. Durante toda a primeira fase. intitulada “Bruxas expressam a magia e a força interior femininas”. principal. servir ao homem sempre com a disposição que lhe fosse possível”. então se acreditava também no medo do cristão novo. mais longínquas. A primeira nós conceituamos como a fase da Pedagogia do Medo e a segunda nós conceituamos como a fase da Pedagogia do Desprezo. Vamos buscar a recolocação desse Tribunal através das suas origens mais distantes. ele pode a qualquer momento judaizar alguém). que era um medo real. e não é exclusivo de nenhuma das nações. mas é também inexorável. Essa afirmativa mostra uma expectativa que se tem sobre o estudo do Tribunal do Santo Ofício. acreditava-se no medo de bruxa. E aí nós buscamos fazer uma divisão do tempo.nimos que foram referidos recentemente numa matéria publicada no CORREIO DA PARAÍBA. As pessoas não lembram da velha Inquisição. como uma instituição que representa um anátema histórico e uma negação do seu próprio tempo. é um período – repito – que se desenvolve a ideia de que a qualquer momento poderia haver uma degeneração da civilização. uma figura imponderável (o cristão novo é imponderável porque nunca se sabe o que ele será. muitas vezes sem se provar a culpa da vítima. que serve para reformular essa visão um tanto maniqueista. que carrega o Tribunal do Santo Ofício é aquilo que Jean Dulumo chamou de “medo obsidional”. a característica central. acreditava-se no medo das magias originais. ele não é só indefinido. acreditava-se no medo do cristão novo. por exemplo. a imagem que se tem é daquela senhora voando em uma vassoura. Nesse período de medo obsidional. Acreditava-se. a repórter diz: “Ao pensar em uma bruxa. 312    . É um período. porque o mouro muitas vezes tentou chegar ao centro da Europa. Lá para as tantas.

Ele vai de 1640. o caso de Branca Dias. na Paraíba. Essa é a fase de reconstrução e de reformulação da intolerância do Tribunal. Textos de Isaías e do Deuteronômio abasteciam os inquisidores. O momento é muito propício para debatê-la. pois a “nossa” Branca vai para nas telas de cinema em breve. até 1821. O Tribunal do Santo Ofício da Santa Inquisição processou aproximadamente 52. Uma das bases de sustentação deste ato de intolerância está em trechos do próprio Livro Santo. Por três séculos os judeus não tiveram sossego em Portugal. algo em torno de 41. Uma delas já tem a existência histórica comprovada: viveu em Pernambuco e foi processada pela Inquisição como judaizante no século XVI. Essa intolerância chegou ao Brasil. o efetivador de toda uma cultura de expectativas de que a modificação e a transformação do mundo ocorreriam com a regeneração da ortodoxia católica. de uma civilização que se sente posta contra a parede e quase esmagada. E é nessa fase que teria ocorrido. como um objeto básico de memória e como uma exposição essencial daquilo que a sociedade imagina como tendo sido o Tribunal do Santo Ofício. Momento da Pedagogia do Medo. na realização de um novo regimento. Destes. Aqui. O estudo desse período passa pela análise da personagem Branca Dias. É memória no sentido aristotélico. interpretados pelos inquisidores como sendo uma ordem divina de perseguição aos infiéis judeus. Esse é o primeiro momento. após o período de reforma do Tribunal do Santo Ofício. se ela não existiu historicamente e realmente ela não tem comprovação de existência ou qualquer documentação.000 infelizes. Há uma outra que teria vivido em Apipucos (hoje município do Recife). nos interessa. No novo ciclo de crescimento do cinema brasileiro aparece o projeto do cineasta Davi Kulock e da roteirista Sílvia Lonh para um filme 313    . no século XVIII. nesse período o Tribunal do Santo Ofício foi o realizador. no entanto. O que ocorre nessa fase nos interessa mais de perto porque é nela que se dá a transformação das expectativas que a sociedade tinha sobre o Tribunal. mas sem documentação comprobatória de sua existência. ou pelo menos ocorre na tradição oral paraibana. fez vítimas e criou um ambiente de medo e denúncias. tão decantado. Há três Brancas. Paraíba. O segundo momento nós chamamos de Pedagogia do Desprezo e nele vamos procurar esmiuçar mais o tema.000 devem ter sido judeus e cristãos-novos. Se Branca Dias não é comprovada historicamente. A Branca que nos interessa teria vivido em Gramame.de sentimento de cerco.

brasileiros. também judeu. A biografia dela é repleta de fatos contundentes. A história é marcada pelos mitos que formam o imaginário da nossa gente. buscamos este paradigma heroico em nós mesmos. Branca teria sido a realização de uma das características do imaginário colonial brasileiro muito bem definidas pelo antropólogo francês Gilbert Durand. obrigando os “filhos de Israel” a se tornarem cristãos na marra. Ou. Até o Papa chegou a questionar tal obrigatoriedade. Abreu. tendo ou não existido. A história de Branca é paradigmática. Mesmo assim. O filme deverá ser rodado no próximo ano. leva em si um pouco da nossa alma.ficcional sobre Branca Dias. Nesse mitologema haveria uma constante expectativa de retorno ou de realização daquilo que se sabe impossível. sob a narrativa heroica está o mitologema mais caro da alma luso-brasileira: a “saudade do impossível”. Branca não se entrega às pressões do padre. mas acabou se deixando levar pelas pressões do Império Português. Branca. Sabe que só lhe restará “lembrança do que TERIA SIDO a vida sem a Inquisição”. Teria sido vítima da paixão anormal de um padre que desejava a judia a qualquer preço. Sua própria existência é posta em dúvida. Ele diz que o nosso imaginário é composto de vários mitologemas e dois desses mitologemas vão nos interessar especificamente para o estudo da Inquisição. uma judia vitimada pela Inquisição. o judeu – que pensava se livrar da perseguição após ter se convertido – passava a ser tido como cristão-novo ou criptojudeu. Naquela época – século XVIII – os judeus viviam sob o terror da conversão forçada decretada desde o século XV. Sabe que poderá perder tudo para o confisco inquisitorial. Com a conversão.. Num deles ele coloca que a nossa cultura é caracterizada pela saudade do impossível. Esta saudade conduz Branca ao embate suicida contra os inquisidores. nos nossos políticos. Em nome do amor que tinha pelo noivo. o rei que 314    . nos nossos artistas e até nos jogadores que representam o “país do futebol” na Copa do Mundo. Tendo ou não ocorrido. Branca Dias é a “personagem” histórica – ainda que ficcional – mais controvertida da Paraíba. e morre queimada por causa de seu destemor. Branca Dias diz muito do “espírito de uma época e de um povo”. para usar o termo científico forjado por Arnold Toynbee (um dos maiores historiadores deste século). ou seja. cristão nas aparências públicas. isso é realmente a nossa cara. Nós.. Ele vai no exemplo de S. Ela sabe que não poderá ter uma vida normal ao lado do seu amado. Branca resistiu a todas as pressões. Branca foi. segundo o “Livro de Branca”. mas ainda judeu nos hábitos e no coração. Sebastião – sebastianismo – (não vou me alongar sobre ele. de J.

arrogante. no momento foi valor ativamente bom ou tido como correto. Porque como disse no começo da exposição. mas também herdeira da Inquisição. que é difícil de admitir e difícil de contextualizar. Por que? Porque aconteceria como uma imposição de um grupo diante do resto da sociedade. intolerante. Depois dos formulários prontos concluímos que. algumas alunos de história. foi parte daquilo que nós somos hoje. Aqui.desapareceu e que deveria retornar) e tenta conhecer a alma brasileira e alma lusitana afirmando essa saudade do impossível como uma formulação essencial do Tribunal do Santo Ofício. a visão durandiana de análise do imaginário permite que a gente comece a compreender aquilo que talvez nos seja difícil compreender. a ideia de Inquisição surge sempre para o debate e sempre que estou diante de um plenário. a não ser pela suposição de que ele. Não se tem saudade daquilo que é impossível se não houver a realização da impossibilidade. o Tribunal não tinha uma explicação histórica essencial. Que conceito anterior nós carregamos e sempre que foi possível captar. já que ele teria forjado na nossa cultura um dos seus pontos civilizadores essenciais. O Tribunal é a realização do oposto essencial da noção de saudade do impossível. nós fazemos o que Max Weber esclarece muito bem: não é possível analisar um objeto histórico. como engendrou. o realizador desta impossibilidade naquele período (século XVII/XVIII). falando sobre Inquisição. no Tribunal do Santo Ofício. engendrando o terror. Eu distribui um pequeno formulário perguntando às pessoas o que elas acreditavam o que fosse a Inquisição. no momento que ocorreu foi valor ativamente aceitável. dentre outras tantas variáveis. Aí é preciso fazer outras separações ou distinções: como membro dessa cultura herdeira do Tribunal. As pessoas chegaram a escrever. Isso é que é duro no Tribunal da Inquisição e na análise da Inquisição. sendo o que foi. Que este Tribunal. não tinha uma explicação histórica factual. nós fizemos por escrito. mesmo para aquelas pessoas. ao trazê-lo de volta àquilo que é factível. foi parte dos valores que geraram a nossa sociedade. O Tribunal do Santo Ofício comporia então uma forma essencial de conhecimento da própria maneira de ser do brasileiro e do português e dos povos iberoamericanos. naquele curso já mencionado. não tinha uma explicação histórica cabível. Ao contextualizá-lo historicamente. foi parte da nossa civilização. eu imagino que expectativa o plenário tem sobre o tema. Trata-se outro movimento difícil de 315    . Nossa sociedade teria. Então. e enquanto membros da fé cristã. E aí a gente entra por outra discussão.

estamos criando algo que não existiu. Deixamos de lado a análise de casos pontuais e buscamos a análise do documento histórico como base da mentalidade inquisitorial. o próprio professor Mott. que é de mim e da minha família. por exemplo. neste livro. depois de ler o trabalho). ESPANHA E ITÁLIA – fez toda a sua pesquisa com um grupo de 45 pesquisadores espalhados nos três países durante um período que soma dez anos de trabalho e. ao fazê-lo. o que seria uma análise do imaginário do Tribunal. poderemos fazer algo que torne. no valor dado ao que nós chamamos “estatística do 316    . na reação da plateia. e ao mesmo tempo analisá-la no seu momento mais difícil. como faz. o processo de José. porque. É necessário que nós façamos. autor desta obra essencial para o estudo do Tribunal do Santo Ofício. facilmente. desde o início foi difícil de manter-me na fé. É muito fácil quando nós vamos falar do Tribunal do Santo Ofício. como católico. para vocês. uma exposição mais interessante. na história do Tribunal na Paraíba? Quantos foram para a fogueira? (Um aluno da minha disciplina de Inquisição dizia que estava sentindo falta do churrasco. realizou a análise do Tribunal sem analisar um único caso. nós não radicalizamos tanto. Encontramos. Será? Nos números. que ainda está um pouco desconhecida no Brasil. Francisco Bittencourt. depois faz alguns conceitos e em seguida faz estudos de casos.realizar para poder chegar à análise do Tribunal. da “saudade do impossível”. Essa é uma ideia essencial. ir à análise dos números. 50. Eu mesmo. no seu momento de imposição. se a gente levar em conta as informações da documentação que chega nesse Projeto Resgate. Nós não chegamos a esse ponto. a análise se limita a apanhar o livro falando de uma visão geral do Tribunal do Santo Ofício. Conhecê-lo objetivamente e de nada adiantaria. dele mesmo. o processo de Maria. Os processos deixam de ser o processo de João. Graças a essa análise durandiana. nas estatísticas. aumentá-lo na sua monstruosidade apenas para denegri-lo. mas que procuremos a objetividade. mas vamos tentar passar para vocês o que seria uma análise simbólica do Tribunal. não que procuremos a neutralidade em relação ao objeto estudado. ele mesmo. mas o processo organizado e estruturado por determinado inquisidor ou por determinada mesa inquisitória. no seu momento de arrogância. aquela decepção com os números. Quem afinal foi queimado? Quantos foram para a fogueira? Um? Talvez dois. como coloca Petters. Essa é outra distinção essencial de se fazer. não para aqueles que foram inquisitoriados. De modo geral. que acaba de chegar por importação – HISTÓRIA DA INQUISIÇÃO – PORTUGAL. Quantos foram inquisitoriados? 40.

Por exemplo. que nem uma carta de apresentação do Papa abria o arquivo. eles foram. só que a fila é muito grande e as exigências também. Nem tudo que encontramos poderemos utilizar aqui hoje. eram feitas na visita que autoridades de outra instituição faziam. um tribunal do regime absoluto e da monarquia absoluta. os historiadores se fixaram em casos. que eu vou reproduzir para vocês. Mas eles têm razão. Buscando. Essas citações bíblicas eram feitas pelos inquisidores. e ainda exigem uma série de apetrechos técnicos e intelectuais de quem vai visitar. a algumas citações bíblicas. 317    . Eram feitas nos processos? Não.sofrimento”. o seu prestígio enquanto inquisidor. por exemplo. o domínio absoluto do latim e do latim arcaico na pesquisa do documento. pouco estudadas. é para maio ou junho de 2001. a política que rodeava esse jogo de prestígio e a efetivação dos mitos de pureza presentes no imaginário da cristandade muito antes da formação do próprio Tribunal. e fica tomando o lugar de quem sabe. O que ocorreu. é que no momento em que se abriram os arquivos inquisitoriais no século passado e neste século. Ainda um dia desse vi na ISTO É ou na VEJA alguém dizendo que os arquivos não tinham sido abertos. Qual a expectativa dos historiadores que estão indo ao arquivo do Vaticano. Por exemplo. Se você chegar hoje no Vaticano e buscar uma pesquisa no arquivo a resposta que eles dão. ela não concordou. A fila está para o ano 2001. ou seja. nós devemos admitir. informando que era contra o regulamento da feitura de teses. e agora na abertura dos arquivos do Vaticano. eram feitas na documentação relatorial da Inquisição. Melhor que antes. E que eram utilizadas pelos inquisidores. realmente. O Tribunal era essencialmente um tribunal moderno. Eram feitas nas correspondências dos inquisidores. daqui e dacolá. Mas na verdade. isso também nunca foi levado em conta. porque consultando a co-orientadora da minha tese sobre as citações que gostaria de fazer. Nós buscamos evitar esse reducionismo e partimos para a compreensão da sua simbologia e do seu significado. E além disso. eles aconselham (eu fui aconselhado) a ter uma carta de apresentação de alguém da Igreja. nós chegamos. A essência da mentalidade de um inquisidor era a soma entre a hierarquização da fé e a utilização hierárquica da fé. Houve uma evolução muito grande. alguém do Vice-reinado presente em Goa anotou a justificativa teológica apresentada por um inquisidor. Mas concordou com as citações da Bíblia. o Tribunal resume-se a um punhado de gente. senão vai alguém para lá que não sabe. pelo menos me deram por Internet. essa muito menos estudada.

18 e 20 – 21) Essa observação. com mais determinação do que o próprio Tribunal. São trechos interpretados pelos inquisidores como facilitadores e justificadores da ação inquisitorial. E os teus ouvidos ouvirão a sua palavra. Citarei. (depois) fará com que nunca se afaste de ti o teu doutor. porém. então ele pode ser perseguido pelo Tribunal da Inquisição e a sua ortodoxia pode ser testada pela Inquisição. e não declineis nem para a direita nem para a esquerda. mas se encontra a referência. e ele exaltará a sua glória. como se encontrou na anterior. com uma edição já existente no Brasil. principalmente no século XVII que a Inquisição não deveria ficar restrita apenas aos que já se converteram. a ação do Tribunal. andai por ele. Porque vocês sabem que o Tribunal apenas agia sobre quem se convertia. o outro trecho refere-se assim a um outro assunto semelhante. seria a justificativa da perseguição aos cristãos-novos. te quiser persuadir. Não estou dizendo que eles são.. alguns trechos bíblicos como origem do mitologema dessa hierarquização da fé. nessa nova tradução que os exegetas realizam da Bíblia. ou o amigo a quem amas como à tua alma. ou tua mulher que repousa sobre o teu seio. o Tribunal tinha como princípio agir sobre cristãos. e os teus olhos estarão vendo sempre o teu mestre. por decreto.. perseguição aos judeus e ele chega até a dizer. Em teoria. quando clamar atrás de ti (dizendo): Este é o caminho. não teria. em teoria. ditosos todos os que esperam nele.. e na referência modernizada. que não tem obrigação de respeitar as normas da cristandade ou do catolicismo. O desejo de interpretar é de cada um. Vejamos um desses trechos: “(. Aquele que é judeu. desde 1992/93. Esse inquisidor vai além e chega a dizer que o Tribunal fez pouco ao restringir-se a isso.. foram interpretados assim. porque o Senhor é um Deus de equidade. feita por um inquisidor em sua correspondência. 30. com mais ênfase. filho de tua mãe ou teu filho ou tua filha. Uma vez que ele se converteu. à força. Bittencourt teria anunciado que vai com sua equipe para lá e deverá fazer a análise desses documentos. Numa outra dessas correspondências não se encontra o trecho.” (Isaías.) o Senhor espera o momento em que terá misericórdia de vós (filhos de Israel). cujos códices nós vamos ter para revelar e que são documentos de ação do Tribunal fora dos processos. em poucos dias. apesar dos erros. dizendo-te 318    . a seguir. Vejamos o trecho: “Se o teu irmão.agora? Mais uma vez o estudo de casos. (.) E (antes desse tempo feliz) o Senhor vos dará o pão da angústia e a água da tribulação. perdoando-vos.

23. o adivinho. Grifos nossos. ele. e igual número de carneiros. Vejamos uma outra citação da Bíblia. e que. E. Quando Tomás refere-se à mística..” (Deuteronômio.” (Números. não a mística cristã. mas logo o matarás. não cedas ao que te diz. 6-9 e 12-27. Balaão. Mas o fato é que maior do que a busca de embasamento bíblico para a intolerância religiosa foi a busca do embasamento em São Tomás de Aquino.). sobre o que ela podia significar. Balac fez o que Balaão lhe dissera. fala de constrição em torno do Espírito Santo. a ver se é do agrado de Deus que tu de lá amaldiçoes o povo de Israel. que é a busca de fundamentação em São Tomás de Aquino. e queimá-los-ás juntamente com a cidade. depois de o ter levado ao cimo do monte Fogor. disse-lhe: Levanta-me aqui sete alares. disse-lhe: Vem. possivelmente. e pôs um novilho e um carneiro sobre cada altar. e perverteram os habitantes da sua cidade.. e prepara outros tantos novilhos. nem o ouças...). Juntarás também mais re-edificada. até aos gados. para que o Senhor aplaque a ira do seu furor. 2730) Quando vi essa citação pela primeira vez fiquei bastante pensativo em torno dela. e levar-te-ei a outro lugar. tinham que ter autorização dos superiores e teriam que ter uma autorização permanente para que elas fossem escritas e. Talvez só na cabeça deles mesmos. e disseram: Vamos e sirvamos aos deuses estranhos. e se compadeça de ti (. e destruí-la-ás com tudo que há nela. elas fossem censuradas.. e não se te pegará às mãos nada deste anátema. que trabalham no mesmo império.. que é uma citação que vale uma interpretação: “E Balac. se achares ser certo o que se disse.)”. (. 13. e não seja Essa busca de fundamentação dentro da Bíblia só não foi maior do que uma outra busca. nem teus olhos lhe perdoem (.) no meio das suas praças todos os móveis que nela se acharem. e depois todo o povo lhe ponha a mão. e. O que é que eles buscam aqui? Eles pensam que os judeus. averiguada a verdade do fato. seja a tua mão a primeira sobre ele. No meio de um processo similar surge a justificativa e a contextualização dessa citação na cabeça dos inquisidores. “Se ouvires alguns que dizem: Alguns filhos de Belial saírem do meio de ti. quando defende. Essas cartas entre inquisidores de tribunais paralelos. que olha para o deserto. imediatamente farás passar à espada os habitantes daquela cidade.. informa-te com solicitude e diligência. de maneira que consumas tudo em honra do Senhor teu Deus. rei dos Moabitas. Há outras fontes que demonstram esta influência até nos seminários da época. que vós não conheceis.. e que seja um túmulo perpétuo. no sentido em que ela se origina dos místicos.). e sirvamos a deuses estranhos (.em segredo: Vamos. 319    . da ligação do fiel cristão com as regras específicas da cristandade. efetivamente se cometeu tal abominação. da qual nós poderíamos falar mais detidamente se tivéssemos mais tempo.

fazemos escapar do seu meio. Os processos subsequentes que a gente analisa são processos com os quais a gente faz um paralelo e para os quais a gente está começando agora um projeto de pesquisa na universidade. eu sou o próprio Zé Pilintra. contra a religiosidade de origem africana. dos feiticeiros. principalmente. da sua época e entregamos ele de volta ao seu passado. com os negros da praça Sinimbu. no Brasil da década de 90 do século passado. Ele admite. É o que acontece.que o povo de Israel. do seu tempo. ou pela anuência de Deus. que são da República Brasileira. Ela fez o famoso feitiço que impede a realização do ato sexual. Porque a ideia de monstruosidade é a ideia que ocorre de uma forma absolutamente sem precedentes. pode. E está presente onde? Então fomos atrás de processos que já estão conosco. das primeiras décadas deste século e até muito recentemente. tentando conceituálo. de imediato. por exemplo. a religiosidade afrobrasileira. chamado o “legado da inquisição”. Então. Uma vez que o Tribunal buscava. Esse projeto tenta comprovar o que estou afirmando. O homem fica incapacitado sexualmente. juizes. Então o inquisidor interpretaria que contra um judeu podia. O monstro não se explica. incontida. Não foi o monstro que deixou o legado e o legado está presente. Quando você diz “monstro”. realizou-se o retorno. contra índios. na década de 40. É o que aconteceu com um indivíduo que se dizia Zé Pilintra. dos mágicos. publicizada por ela mesma e não correspondida. cascavilha até encontrar algo que justificasse que contra um judeu. É o mito interior. num processo ocorreria que uma feiticeira havia sido acusada de realizar o seu feitiço contra um judeu. Mas. Explica-se a intolerância. cujo processo está nos chegando. que ele não era aquele monstro que a gente imaginava. Esse é o significado da citação. em Maceió. Ele diz. passou alguns anos pre320    . e que era um processo muito comum nos processos inquisitoriais e esse impedimento acusatório sobre ela teria sido fruto de uma paixão dela por ele. só poderia ser vencido pela intervenção dos adivinhos. Ela fez o que fez porque Deus permitiu. o monstro. Em 1928 foram mortos na rua. não. porque a gente começa a tentar conceituar cientificamente. a base teológica e simbólica da sua ação. Explica-se o autoritarismo. porque era coisa de negro. promotores. Foi preso. constantemente e com firmeza permanente. dos inquisidores do século XVII. falam frases que. a similitude é grande. Perguntar-se-á: qual dos dois é o inquisidor? Contra negros. realizou-se a busca no fundo do baú dos mesmos princípios inquisitoriais. em que delegados. com a permissão de Deus. quando são retiradas do seu contexto e comparadas com outras frases. devemos concluir. diz o delegado. sem contexto histórico.

sendo exercidas “à revelia da lei”. Seu legado está até hoje nos valores da sociedade brasileira. Note-se que ainda não existiam feiticeiras no imaginário ocidental. O pacto. As práticas religiosas que foram tidas como feitiçaria podem ter origem no “culto da lua”. em geral. Isto não ocorreu na Idade Média. Esta é uma história que vem de longe. Desde o século XIII. passa pela sedução da feiticeira pelo “belzebu”. destruiu e espalho terror nos terreiros de umbanda e candomblé. Manuais de demonologia foram impressos aos milhares (um fenômeno impressionante para uma época em que a imprensa acabara de ser inventada!) Aqueles que discordaram desta onda de histeria foram ridicularizados e até processados. a fusão destes mundos ocorreu durante a colonização. realmente.so. A diferença entre a bruxa e a feiticeira está no fato de que a primeira utiliza-se de ervas e raízes para realizar as encomendas boas e más que se lhe fazem. Na realidade. que tenha deixado as práticas mágicas à vontade.. estava legalizando uma prática abusiva de intolerância e autoritarismo. a grande “caça às bruxas” não ocorreu na Idade Média.. Talvez nossa memória seja curta. E. Aconteceu no Brasil até os anos sessenta. Começou após a Reforma Protestante. o século XVIII assistiu a uma mudança de menta321    . No Brasil. tendo feito um pacto com o príncipe das trevas em pessoa. as religiosidades africana e indígena foram tidas pelo colonizador como semelhantes à feitiçaria. Estas nuances de legado que permanecem. com ápice entre 1920 e 1950. no Rio de Janeiro. Quando a onda arrefeceu. Por exemplo: a recente queda do artigo que condenava a quiromancia no Código Penal Brasileiro é parte de uma longa história de perseguição e sofrimento. Pensemos nos milhares de vezes em que a polícia invadiu. as autoridades passaram a considerar bruxaria como coisa do diabo. Quando o legislador colocou aquele artigo – e outro mais – no Código Penal. em plena Era Moderna. Mas. Já a feiticeira – entidade surgida no século XV graças à imaginação de parte do clero católico – é uma sócia do demônio. fazem com que a gente tenha muito cuidado ao admitir essa ideia de monstruosidade. Ao contrário do que possa parecer. Entre 1580 e 1700 (grosso modo) milhares de homens e mulheres morreram nas mãos de inquisidores católicos e protestantes. aquela não foi uma lei inócua. a Inquisição deixou marcas. “religião” anterior ao cristianismo e que predominava entre os bárbaros do antigo Império Romano do Ocidente.

porém. hoje. É esta a ideia predominante no Ocidente. “Toda História é remorso”. É daí que vem o famigerado artigo do Código Penal banido em 1998. que é um santo desconhecido entre nós. as práticas mágicas deixaram de inspirar medo e passaram a inspirar desprezo. já tão aproximados pelo sincretismo. segundo a tradição. aqueles ex-escravos empobrecidos andaram ferindo os ouvidos da gente branca e esnobe das classes abastadas com atabaques. Há muitos Pedros. A ele estou dedicando um estudo porque ele é. morto com uma pancada na cabeça. Seus sabenitos foram pendurados dentro da catedral de Saragoza juntamente com as armas que teriam feito o crime e durante muito tempo as pessoas iam ver. em Saragoza. orar. a Intendência de Polícia copiou boa parte dos princípios inquisitoriais em voga nos anos 80 do século XVIII. Após a República. que foram dilacerados. pelo povo. para a infelicidade do lado mais fraco desta triste história.lidade: lentamente. formaram-se filas em torno da catedral e os judeus acusados de matá-lo foram processados e queimados. diria um nobre. disse Carlos Drumond de Andrade. Então ele foi tornado rapidamente. numa noite do não tão distante 1928. Foi por esta via que a lei chegou ao Brasil. sugiro que parem na dita praça para observar e. difamados e queimados pela polícia de Maceió. Bittencourt fala em São Pedro D’Abués. Resultado: a velha lei foi trazida de volta. um objeto de louvação. Seu crime: reunir-se para cultuar “deuses africanos” num terreiro onde hoje existe a Praça Sinimbu. já no século XX. como São Pedro Mártir. Ele não está no Dicionário dos Santos do Vaticano. na tentativa de entender o Tribunal na sua contextualização. Aqui. além de fazer uma análise voltada para esses mártires. Esta é uma história que deve ser relembrada. esquecido. E ainda sugiro que seja uma oração de integração e união entre brasis diferentes e. “Coisa de ignorante”. na Espanha. curiosamente. relembramos umbandistas mortos. ao mesmo tempo. Ele foi assassinado em Saragoza. Mas. Quando o Papa pediu para retirar os sabenitos. quem sabe. a que me referi anteriormente sobre o trabalho de Luiz Mott. porque as famílias dos cristãos-novos solicitaram ao 322    . Antes. dentro da catedral. O Brasil independente herdou a legislação portuguesa de costumes. ditos mandingueiros (coisas de índios?) e crendices desagradáveis para um país que se queria igual à França. A Inquisição foi extinta em Portugal em 1821. D’Abués foi um mártir inquisidor. Quando vocês forem àquela bonita cidade. por judeus.

do período de aproximação com o poder temporal: “com este sinal vencerás. até justificando sua implantação por parte da Igreja. leigos na matéria. mesmo de longe. Foi uma excelente colocação para nós. que é muito representativo do Tribunal. Fez o exame. em latim. para o imperador Felipe III. luz da luz. em face das circunstâncias do momento histórico do seu aparecimento. permitindo-nos vi323    . Com isto encerro minhas considerações sobre o tema. vocês poderão ver. de cercear e até queimar é algo que machuca e gera a infelicidade daqueles que se veem obrigados a essa tarefa difícil. liam-se várias frases que representam esta aproximação do Tribunal com o seu tempo. porque era algo que denegria a imagem dos que tinham morrido. assim como as pombas e os simples. No seu estilo de professor qualificado fez uma interpretação sociológica e psicológica. Oh. possivelmente em madeira. que passou sob ele. ou seja. Consta que o rei parou para ler e comentou. Oh. a análise profunda de uma instituição que teve sua época. em torno desses mártires. A idéia de que a realização da intolerância religiosa é algo que machuca a cabeça do rei. Bittencourt. afinal. E é este imaginário inquisitorial que nos faz compreender o Tribunal no seu contexto histórico e na sua ação. Não havendo condições de exibi-lo com projeção. mas considerada moralmente louvável pelas pessoas que viveram naquela época. e permitiriam aquela contextualização que evita a concepção da monstruosidade. Havia a seguinte citação constantínica. o imperador respondeu que não podia. como uma instituição não apenas aceitável. que a tua própria cabeça machuca”. porque se fizesse isso haveria uma revolta popular no local. foi essencial na construção do imaginário inquisitorial. tenta localizar uma série de iconografias. de justificada presença em determinado momento. É uma das representações fortes que serviriam para compreender o significado do Santo Ofício para as autoridades seculares. permitindo-nos uma nova conceituação sobre a existência do Tribunal do Santo Ofício. Nesse arco.Papa a retirada dos sabenitos. Para encerrar nossa argumentação falarei de um desses símbolos. de que a decisão de perseguir. tanto no Brasil quanto em todo o império português. verdadeira coroa (a do rei). vieste. que Bittencourt busca conhecer e entender. A fala do Presidente: O professor Carlos André nos deu uma visão elevada do que foi a Inquisição. não se diz o que. no começo do século XVII e chamado Arco dos Inquisidores. admirado através dos anos. este arco construído em Lisboa.

com vários trabalhos publicados nessa área. Numa dimensão lírica. onde se vê a Capela do Engenho Santo André. O homem nas suas aspirações. no qual ele conceitua a História como o calendário da miséria universal. com as suas necessidades.venciarmos a Inquisição de ontem. Ao repassar algumas passagens da História. Assim falou o poeta. examinada à luz de novos conceitos. sem essa união. Estaria de pleno acordo com ele se não tivesse uma perspectiva lírica da História. no município atual de Santa Rita. as famílias da Paraíba na Inquisição. portanto. veio-me à mente a passagem de um poema de Hildeberto Barbosa. que uma manifestação do amor. que é a família. Quero dizer que nessa dimensão lírica é onde se impulsiona. Passo a palavra à professora Zilma Ferreira Pinto. foram cerca de 16 denúncias e os casos mais interessantes foram de bigamia e sodomia. e onde foram travadas renhidas batalhas contra os holandeses. Além de ser uma destacada genealogista. então não teríamos humanidade e muito menos História. sócia do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. O Engenho Santo André é hoje a usina de açúcar Santana. não haveria o sujeito histórico. alguns dos quais teatralizados. que é o homem e a mulher. Hoje existem apenas ruínas. É assim que eu vejo a História. e pesquisadora permanente. com especialização em Didática. é onde se realiza a História. não teve muita repercussão porque a população era muito pequena. embora tivessem alguns casos judaizantes. a família que nasce dessa atração entre os dois opostos. dedica-se ao folclore. Agora passaremos a palavra à nossa debatedora professora Zilma Ferreira Pinto. Debatedora: Zilma Ferreira Pinto (Professora de História. Passemos ao século XVIII. Vejamos. de autoria de Sérgio Maia. em 1595. pesquisadora. que ouvi atentamente. Sem essa fração. na qual se desdobra o trágico e o épico. Posso mostrar-lhe um impresso. onde se manifesta o sujeito histórico. Pertence ao Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. não haveria o suceder das gerações. que é também o seu objeto. E nestas carências e necessidades nós vamos encontrar aquilo que o objeto principal dessa minha exposição. Paraíba. Ela é formada em História pela Universidade Federal da Paraíba. e dedicada ao folclore) Parabenizo o professor Carlos André por sua excelente exposição. Nesse Engenho Santo 324    . A chegada aqui do Santo Ofício. onde poderemos focalizar as famílias de judeus da Paraíba. suas carências.

foi sua primeira mulher e Maria. o deslocamento de famílias. morador no Engenho Velho. na Paraíba. abrangendo um casal e toda uma família vítima da Inquisição. Vemos também. o casal foi residir em Catolé do Rocha. que nem a Inquisição. em sua visão grandiosa. ele falecido em 5 de agosto de 1831. Residia na serra do Martins. casada com João Francisco Fernandes Pimenta. São os pais dele Joana Nunes da Fonseca. também na várzea do rio Paraíba. autor destes apontamentos a que agora me refiro. Damiana casou com Manoel Alves Ferreira Maia. também condenada pela Inquisição de Lisboa em 17 de junho de 1731 e em 20 de julho de 1756 a cárcere e hábitos perpétuos sem remissão. leu aqui numa reunião do Instituto de Genealogia e Heráldica. dentro da História da Paraíba. fugindo da Inquisição portuguesa. de saudosa memória. é descendente de Cosma e Damiana por parte de pai e parte de mãe. ela falecida em 2 de março de 1827. que é a continuidade da 325    .André viveu Clara Henriques da Fonseca. Três filhas do casal casaram com dois filhos de Antônio Ferreira Maia. essa potencialidade. também casou com o cunhado. nem nenhum regime totalitário é capaz de matar. Rio Grande do Norte. condenada pela Inquisição de Lisboa. para o sertão. município de Santa Rita. condenado em 6 de julho de 1732. O casal já era falecido em 1777. Américo Sérgio Maia. A vida continua devido a esse impulso lírico. do qual foi presidente e fundador. a História continua. do Rio Grande do Norte e do Ceará para o interior. o viúvo Manoel Alves Ferreira Maia. casada com João Soares Filgueira. o emocionante disso tudo. que foi levada para Lisboa e tiveram destinos trágicos. Cosma casou com Francisco Alves Maia. Abandonando o refúgio da serra do Martins. E como diz Sérgio Maia. Antônio da Fonseca Rego casou com Maria de Valença. São pais dele Florência Nunes da Fonseca. a força que vem da própria vida. Aí vocês veem um depoimento muito bonito. em 17 de junho de 1731. Mas. que se perpetua através dos tempos em todas as partes do globo terrestre. nem o nazismo. a terceira filha dos descendentes judeus. Quando falo nessa dimensão lírica é para realçar essa capacidade. Por aqui vocês veem a dimensão lírica da História. de núcleos familiares daqui da Paraíba. natural do Engenho do Meio. no início do século XIX. Foram dois processos. O que se deu juntamente no século XVIII no momento em que se intensificava o povoamento do sertão. que Sérgio Maia. Grande parte da família Maia do Catolé do Rocha tem como herança o sangue dos hebreus. Era mãe de Antônio da Fonseca Rego.

Pereira. nem da história do Brasil. O processo vai para Roma. Eu pergunto. e ali toda essa comunidade se reunia. Clara Henriques foi uma grande figura e foi presa quando já era viúva. teria sido uma lavagem cerebral? Simão quando foi solto ficou abrigado na mesma casa onde a mãe estava e denunciou que ela estava preparando o jejum da expiação. porque esses cristãos-novos daqui da várzea da Paraíba eles constituíam uma grande família: os Fonseca. naqueles interrogatórios da Inquisição a pressão era muito grande. e por conta disso ela denunciou o marido. Pois bem. É esta a prisão de Clara pela segunda vez. quero continuar falando sobre essa família ilustre da Paraíba. uma matriarca. porque eles realmente judaizavam. caberia a mim fazer alguns registros de famílias atingidas pela Inquisição. Assim. que por sinal se multiplicam essa Joana do Rego.História do povo hebreu. e quando ele chegou lá denunciou o filho Simão. da história da Província. na primeira foi levada para Portugal em 1931. que já não andava boa do juízo. Ela era uma senhora de 71 anos. um espião a serviço da Inquisição. Deve ter morrido. professor Carlos André. Antônio da Fonseca Rego foi acusado de judaísmo e feitiçaria. não era só a história da Capitania. que solicito se levantarem para receberam nossas homenagens. os jejuns de expiação e todo o ritual do calendário judaico. Nunes. por sinal na casa de um irmão do teatrólogo Antônio José da Silva. Maria de Valença. chega o pessoal da Inquisição e prende todo mundo. Clara Henriques é uma figura que emociona quando a gente passa a vista no rol dos culpados registrados no livro de Anita Levinsky. De Ambrósio Vieira. Neste auditório estão presentes vários descendentes dessa família numerosa. os Henriques. Chaves. demora 326    . parente de todo mundo. na Paraíba. casado com Guiomar Nunes. de geração em geração e Diogo Nunes Tomaz. Mas todos entrelaçados e descendentes de dois casais que remontam à época dos holandeses. ali num sítio histórico. casado com Joana do Rego. para iniciar o jejum. que deveria ter uns 15 anos. foi para Portugal e não voltou. que foi processada duas vezes. Conforme ficou acertado com o expositor. como vocês viram. Clara Henrique morava no Engenho de Santo André. que também tem outra sequência de Guiomar Nunes. Justamente quando estavam reunidos na casa de um cunhado. Se eles foram processados. porque ela emerge como a própria figura da máter dolorosa. Nas suas reuniões celebravam seus sabás. Como se sabe. mas da história universal. Simão depois se tornou um olheiro. não foram inocentes. Quando foi posta em liberdade não pôde voltar e foi acolhida numa casa de cristão-novos. Antônio da Fonseca Rego era filho de Clara Henriques.

tendo morrido na miséria. tendo morrido no cárcere. Mas acontece que no volume II. Como não soubessem o que fazer com ela. sendo afinal libertada. Era uma família de artesãos. embora não tenha documentação. Ora. Simão foi mandado para o Rio de Janeiro e durante a viagem endoideceu. João Inácio era casado com Catarina Liberato de Alencar. cristão-novo. Com esse relato vocês podem ter uma ideia do que significou a Inquisição na Paraíba. talvez por remorso. Estou apenas passando aquilo que colhi na família. Acredito que haja uma relação desses três com essa descendência de João Inácio Como se vê. natural do Engenho das Tabocas e morador no Taipu. Tem também o processo de Luiz de Valença.. que é escritor e professor de Geografia em Mossoró. foi para o Ceará e lá se casou com uma moça da família Alencar. 12 de maio de 1732. mendigando nas ruas de Évora. filhos de Francisco Cardoso. lavrador de cana. Deles descende o professor Inácio Tavares de Araújo e José Romero Araújo Cardoso. retornando do Rio para Lisboa. a história continua através da família. esse Simão Dias aqui da margem do Gramame é dado. Outra família que também se tem notícia é a de João Inácio Cardoso Darão. Testemunha: Antônio Nunes Chaves. Depois volta e se refugia em Mari do Seixas. saindo de lá para Pombal. e ficava dizendo que era judeu. filho de Antônio de Figueiroa. E nada mais consta. da NOBILIARQUIA PERNAMBUCA327    . Viúvo. Vamos ter notícia de Luiz de Valença porque ele compareceu no mesmo auto de fé do padre Malagrida. na memória da família (não tem documento) João Inácio e Francisco se diziam que eram filhos de Simão Dias Cardoso de Araújo. um Inácio Cardoso e um Pedro Cardoso. nas margens do Gramame. morador no Engenho Velho. da Branca Dias da Paraíba. que é instituição legítima. Mas esse Francisco Cardoso era o senhor do engenho. que passaram a arte da ourivesaria para os filhos. primeira da sociedade. como pai da própria Branca Dias. Esse conseguiu fugir aqui das perseguições. No rol dos culpados de Anita Novinsky. Segundo o professor Inácio. O interessante dessa família é que eles conservaram na memória familiar a sua ascendência judaica e conservam viva na memória a história de Branca Dias.sete anos para voltar para Lisboa. em Barbalha. vamos encontrar um Manoel Homem. Era uma família pequena. No rol de culpados de Anita Novinsky nós vamos encontrar um João Almeida. sem uma solução em face da sua doença mental. mandaram-na para Évora. senhor de engenho. do Engenho Tibiri.

Vitória Barbalha Bezerra. Na mesma fonte encontra-se que Antônio de Figueroa teria nascido em 1634 e Jorge Homem Pinto falecido em 1651. Manoel Homem de Figueiroa. foi filho de Antônio de Figueiroa. herdeira do Taipu. e nós também. que ele era primo da morgada. porque no trágico está o lírico e o épico. mas era pernambucana. Eu trouxe esse quadro genealógico como também um quadro dos troncos dessas famílias. através de depoimento. Como ela não mostrou arrependimento. porque ela morava aqui. Outra família: Diogo Nunes Tomaz. Esse é o Brasil dos 500 anos. Foi casado com D. porque não houve inventário. Ele era da vila de Serinhaém. quem fez um trabalho interessante foi Aderaldo Pontes. mas o consócio Guilherme d’Avila Lins. onde se encontra todo o impulso da 328    . logo após o debate. esse é o segundo nome. Tive uma dúvida. já devia ser um homem idoso. que é da família de Duarte da Silveira. Continuando pensando no trágico da história. Da descendência dela. Ela morava no Engenho Santo André. Lá no rol dos culpados ele é dado sem ofício. vamos encontrar o seguinte: e o sobredito. e morador na Paraíba. o Brasil das nossas raízes. Esses quadros vão constar dum trabalho que estou elaborando sobre cristãosnovos. Poderíamos fazer uma relação entre esse número Homem constante do rol dos culpados com esse Manoel Homem citado por Borges da Fonseca (fica em aberto o assunto. que foi preso em 1729 e vemos. a história dos povoadores desses nossos municípios. trouxe-o apenas para ilustrar). mostrou-me um documento constante dum boletim do Gabinete de Estudinhos de Geografia e História da Paraíba que comprovam a filiação dela e a sua origem na árvore do morgado. porque não se pode fazer uma comemoração. Era pai de Diogo Nunes Tomaz. os quais poderei distribuir cópia com os interessados.NA. Ana de Carvalho. neta por via materna de Duarte Gomes da Silveira. porque eles é que realmente fizeram a história. Dessa descendência se encaminha (faltam alguns zeros) para José Lins do Rego. escrever-se sobre a nossa história sem a história das nossas famílias. que o era de Jorge Homem Pinto e de sua mulher D. foi queimada viva. Manoel Homem foi casado com Margarida de Albuquerque. tanto que lá é tida como heroína. mas nessa dimensão maravilhosa. que ainda vive em crescida idade. casado com Catarina Ferreira Barreto. Ele é um ramo do morgado.

do mameluco. Por isso que. Porque marca uma história. mas também nos dá muita responsabilidade. tanta beleza. intra-familiares e infrafamiliares. nossas cunhãs e depois com as sinhazinhas. português que já era um mestiço. nas minhas limitações. de Ali Babá e os 40 Ladrões. do degredado. como querem alguns. as tendências religiosas.vida. o Brasil do zambo. sim. do capitão-mor. Amo muito a minha cultura ibérica e toda essa mestiçagem que faz do Brasil o Brasil do mulato. lá em Tacima. o sangue celta e tudo isso nos foi transmitido. tudo isso trazido pelo português. na minha modéstia. e mais a mestiçagem com o nosso índio e com o africano. uma história de trancoso. que faz com que a história continue e continuemos sonhando. Hoje nós somos senhores de uma cultura fabulosa. que é fabulosa. Nesses 500 anos nós devemos celebrar a chegada das caravelas? Devemos. que assumamos nossas origens. Do aventureiro. estamos aqui. que tenham estado aqui muitas civilizações. de todos estes que vieram trazendo a sua língua. Quando a gente analisa as denunciações e confissões da primeira visitação do Santo Ofício. que eu ouvi em minha terra. como esta que está sendo encenada hoje. o Brasil do galego lá do cariri (onde há muita gente galega). Todos nós aqui temos pingos dos cristãos-novos. as suas cantigas. Uma história maliciosa que outra coisa não é senão a versão sertaneja ou da caatinga. sangue judeu. a sua saudade. Os costumes. Porque da união deles com as nossas caboclas. mesmo que tenha havido seis mil anos de história para trás. mas carregamos uma civilização de seis milênios. onde se transmite nossa história. do cristão-novo. são uma das coisas 329    . que já trazia o sangue mouro. faço tudo para publicar uma história popular. 1º participante: Guilherme d’Avila Lins: Esse tema da Inquisição. do marujo. nós temos nossa herança gótica. mas aquilo foi muito marcante. as desavenças. vivendo e lutando por este Brasil. a gente tem um retalho da história social da terra naquele período. duma herança cultural que temos a responsabilidade e o dever de preservar. é um universo em que a gente se transporta sob qualquer ângulo que se queira abordar. e é desse período que nós descendemos. suas histórias. sob a responsabilidade de Heitor Furtado de Mendoça. com tanta naturalidade. seus sonhos e o seu amor. é um tema apaixonante. Nós temos tanta coisa bonita da herança índia como da herança portuguesa. as brigas familiares. pois começou um novo período. porque esta mestiçagem que nós carregamos nos engrandece. contando essa história. esse Brasil maravilhoso. assim como fez o professor Sérgio Maia.

Henrique Correia Nunes. Era um alto funcionário da Fazenda Real. Ele realmente não tinha noção do que era a Inquisição. aquele que a Inquisição queria alcançar. Tenho um livro sobre os instrumentos de tortura usados na Inquisição. Teve uma passagem da nossa história. saber a tessitura familiar para alcançar aqueles que quisessem alcançar. E só quem não sabia o que era a Inquisição poderia responder dessa forma. que foi senhor do segundo engenho da Capitania da Paraíba. Não é sem razão que ela possuía três seções inquisitoriais. Tinha pouca gente. A seção da profissão de fé. a segunda seção era de genealogia. que tinha como base. porque o marido e a mulher eram bígamos. João Nunes não pôde se desfazer porque a essa altura já tinha sido alcançado na Bahia sob um artigo para ir até lá ser testemunhas. O professor Carlos André falou aqui do terror. É o cômico da história. Fazia-se um boneco que levava o nome do infeliz para poder ser queimado. Sem dúvida. mas na realidade ele caiu numa armadilha. É preciso ter uma cabeça muito patológica para inventar aqueles instrumentos. é muito apaixonante para mim o tema da Inquisição sobre os mais variados aspectos. e voltou para dizer que tinha se esquecido. é como se estivesse assistindo a um filme daquele tempo.mais lindas que tenho como fonte direta. o indivíduo ia ser relaxado em estátua. por ventura. Portanto. um caso interessantíssimo de bigamia. independente do que ia acontecer na terceira. escrivão da Fazenda 330    . e a terceira era para avaliar o crime cometido contra a Santa Madre Igreja. Deve ter mandado uma carta semelhante para o Diogo Nunes. diz para João Nunes que se desfaça de tudo e saia do Brasil. o Engenho Santo André. O Tribunal do Santo Ofício da primeira visitação chegou à Paraíba e foi quase inócua. E era uma figura importante. a Inquisição criava um terror também para aqueles que a esperavam ou não a queriam que chegasse. Era uma coisa realmente fora do comum. Seis meses antes de a Inquisição chegar no Recife. em que o protagonista era um filho de João Ramalho. que vivia em Portugal. em que a pessoa mostrava suas convicções religiosas. A esse respeito tem um aspecto que tem passado despercebido aqui na Paraíba. Ele disse: Eu matarei a Inquisição a flechas. que disse qualquer coisa semelhante a uma heresia e um padre jesuíta disse: cuidado com a Inquisição. Havia confissões do que existiu e do que não existiu. tinha um caso de bigamia. Quando não se conseguia alcançar. o irmão mais importante da família dos Nunes. Ele fez duas confissões porque a mulher já tinha feito e ele não sabia. A Inquisição causava um terror muito grande.

O abade. em dois anos. em retângulo. Foram poucas as pessoas envolvidas. era o presidente do Tribunal. Afinal de contas aquelas terras foram dadas a alguém que representava o maior terror da época. ou por delegação do Santo Ofício. mas a segunda sala. agora. que era meu professor de Teologia e Latim. Na Paraíba isso não aconteceu. pelo período. porque ela não foi tão boazinha em Pernambuco. de obrigação. abade do Mosteiro de São Bento de Olinda. Como ex-aluno. Mas quando os holandeses chegaram aqui em 1634. Eles têm a documentação. que veio com Heitor Furtado de Mendonça. Fazia parte do Tribunal do Santo Ofício. Foi aí que começou meu interesse. E deu. portanto muitos anos mais tarde. como de feitiçaria do tipo “rito da santidade”. mas fica na segunda sala. Só tinha a demarcação do terreno. Será porque houve o prêmio de consolação do terreno? É possível. Quero fazer duas indagações. ou por iniciativa própria exerceu também 331    . como também em Pernambuco. pelo menos não entravam quando fui aluno do Colégio em Olinda. Carlos André. Não vejo na Paraíba nenhum caso que se viu na Bahia. para valer a doação. em aparte: Esses documentos não estão acessíveis. E ele. Fiquei imaginando porque a Inquisição na primeira visitação da Paraíba foi tão boazinha. Antônio da Costa de Almeida. No mesmo dia em que aqui chegou. O regimento mandava que o convento fosse fundado. 2º participante: João Batista Barbosa: Primeiro quero me congratular o professor Carlos André pela brilhante exposição. eu pedi e disseram que são documentos que. se não me engano. na mesma época.Pública. o frei Damião da Fonseca. o lugar do convento de São Bento estava ainda em desenhado. nesta visitação. o presidente do Tribunal do Santo Ofício pede data de terra para fundar o convento. segundo descreve Elias Herckmans em sua descrição da Capitania. se recusava a falar e comentar e pediu que não falassem mais no assunto. não estão à disposição do público no Mosteiro de São Bento de Olinda. se a Inquisição durante todo o período de sua existência foi exercida única e exclusivamente pela igreja ou se o poder oficial. a quem o governo da Paraíba estava pedindo para mandar frades para fundar conventos. Quem é que não ia dar? Era de interesse e. A primeira sala é livre para o aluno. em 1639. Primeiro. Dizem que hoje está mais liberal. não. mas há um fato curiosíssimo. que era a Inquisição.

excluindo a interveniência de advogado. O professor classificou a Inquisição em dois períodos. Agora é um representante do clero. A tarefa da Inquisição era a de inquirir acerca da integridade da fé dos fiéis e se constituiu em Tribunal Eclesiástico destinado à vigilância da fé e ao combate à heresia. particularmente aqui eu falo pelos que estão mais ou menos no meu nível. Os que foram felizardos em ouvir a exposição do mestre Carlos André. Mas. tem realmente vontade de dizer umas palavrinhas numa linguagem do meu nível. Dominicanos e Franciscanos o encargo de punir os hereges. já estão bem por dentro. Um até 1642. porquanto o estudo profundo do mestre Carlos André e aula de genealogia da minha confreira Zilma Pinto. Eu queria saber o que foi exatamente o que determinou essa diferença. Algumas pessoas. não é um representante do Tribunal da Inquisição. Muitos diziam: por que essa história de Inquisição? Então me lembrei que tinha umas notinhas que tinha escritas. não sabiam coisa nenhuma a respeito da Inquisição. Foi o Papa Gregório IX que. essa divisão. confiando às Ordens Religiosas Mendicantes. já no final da carreira. a que se dava o 332    . depois de ter ouvido tão grandes mestres darem lições a todos nós. queria apenas a permissão dos nossos companheiros. em especial. que eu.esse poder em alguma parte do mundo? A segunda indagação. durante o tempo de Seminário e depois dos seus prolongados 55 anos de sacerdócio. ter a ousadia num auditório tão seleto pedir a palavra para dizer mais alguma coisa. pelo uso da tortura. pela negação de defesa. como do Seminário que realizou aqui em conjunto com o Instituto Histórico. essas eu tenho certeza porque confessaram a mim próprio. em 1231. padre velho. e outro até o seu fim. mas é um estudioso que. O processo caracterizava-se pelo rigoroso sigilo da informação. que não tenham medo. estabeleceu o Tribunal. quando o réu não confessava espontaneamente a culpa. 3º participante: Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares: Eu considero uma verdadeira audácia minha. e por último. o que fazia com que o acusado desconhecesse seus acusadores. do Instituto de Genealogia e Heráldica também esteve à altura. se não estou equivocado. pedindo permissão para ler essas noções. A sentença era proclamada solenemente perante o povo. Quando num país suspeitava-se de heresia para lá se dirigia o Inquisidor com seus auxiliares para iniciar o processo.

o assassínio. a Inquisição precisa ser entendida. mas pelos juizes civis. Com efeito o Código Penal vigente na Idade Média era por demais rigoroso. outras mais pesadas. Esta última não era pronunciada. ou por ódio à heresia. mostrou-se 333    . Ele escreve à página 273: “Durante o século XVI. por interesses baixos de cobiça. o adultério. felizmente muitas notícias históricas de real valor. tudo sem maiores consequências. prisão temporária. citando-se o exemplo do celebrado dominicano Thomás de Torquemada. conforme notícias que temos. pelo Papa Paulo III. Houve certamente acusações fundamentadas e dignas de serem examinadas. Sobre sua atuação no Brasil é interessante conhecer o depoimento do autor do livro A IGREJA NO BRASIL. Após a leitura da mesma. fatos reais de índole religiosa. o réu ao braço secular. como flagelação. de Arlindo Rupert. colocando-se a mesma no contexto da época. ou ainda a mais grave. Os excessos cometidos pelos inquisidores. contribuição para obras pias. de perseguição religiosa-política. Ainda não foi examinado todo o acervo da documentação inquisitorial que traz. I volume. Este foi criado em 1536. sendo o inocente posto em liberdade e o culpado era obrigado a abjurar. Mas houve outras que nasciam mais da ingenuidade ou de antipatias pessoais. os tribunais civis puniam com excessivo rigor certos vícios e crimes. Aos contumazes eram aplicadas penas como penitências. atentavam contra a justiça e a caridade cristã. o que tornam indefensáveis os seus erros. a bestialidade. muitas vezes. É de notar-se que. como a sodomia. O Brasil nunca sediou propriamente um Tribunal de Inquisição. sendo comum a aplicação de torturas e a própria morte como castigo para impedir a repetição de crimes. as bruxarias. ou político social com faltas aparentes ou supostas. Por outro lado. nem aplicada pelo Tribunal da Inquisição. Foi então que se deixou converter em instrumento. a Igreja entregava então. mesmo quando pressionados por multidões apaixonadas. era logo executada. a bigamia. Foi sobretudo na Espanha que a Inquisição assumiu mais rigor e foi mais severa. O Clero do Brasil no século XVI. a Inquisição agiu discretamente. na época.nome de auto de fé. interesses particulares ou tendências perniciosas no campo religioso e social. a pena de morte. não podem ser negados. Aliás as próprias características do processo que eram a negação da liberdade. Misturavam-se às vezes. no combate aos judeus e mouros. nem muito menos. são conhecidos três processos e uma visita do Santo Ofício. era sim sujeito à jurisdição do Tribunal de Lisboa. merecer defesa. excetuados alguns jesuítas e talvez algum bispo. ou perpétua.

que das ditas partes se acharem. por muitas causas que não é o caso abordar. Só em casos de pertinácia agia com penas que variavam segundo a gravidade do delito e a renúncia ao perdão. Deduz-se daqui que o Santo Ofício não era o que muitas vezes pintam os adversários da Igreja!. havia já bom número de índios e escravos africanos convertidos. especialmente. o Pe. Aliás. moderação e respeito que se usa de todo o rigor do direito com os já convertidos”. não temos a lamentar a pena capital entre os nascidos na terra. felizmente. não é lícito nem honesto ver na atuação da Inquisição ou Santo Ofício somente a face negativa. Cardeal D. Henrique. E conclui Arlindo Rupert. com faculdade de inquisidor apostólico para que “possa conhecer das coisas que nas ditas partes do Brasil sucederem tocantes à Santa Inquisição.pouco prestativo às exigências inquisitoriais.” Tratava-se. detestá-lo e prometer emenda. a 12 de fevereiro de 1579 passa comissão ao Bispo D. em suas dioceses. quase sempre moderado por ocasião de algum processo ou denunciação. Luiz da Grã. Antônio Barreiros. como esclarece o texto citado. enquanto lá estiver.” Houve também vantagens para a fé e os bons costumes. O livro DENUNCIAÇÕES E CONFISSÕES EM PERNAMBUCO – 1593-1595 de autoria do inquisidor Heitor Furtado de Mendonça. aconselhando ao bispo e jesuítas que “usem nisso prudência cristã. de seu livro: “Não obstante as falhas que se podem apontar contra todo e qualquer sistema repressivo. evitando-se tolerâncias em demasia com desvantagens para a pureza da fé ou com tropeços dos mandamentos divinos. durante o século XVI. quando psicologicamente bem orientada pode ter seus reflexos positivos. No Brasil. mesmo quando encaminhados ao Tribunal de Lisboa. inquisidores da fé. mas também a persuasão para corrigir desvios na fé ou nos costumes.. constitui importante documentário 334    . Mas como no Brasil. toda ação coercitiva. Ademais para muita gente que se deixa levar mais pelo temor que pelo amor. o Santo Ofício. re-editado pelo historiador José Antônio Gonçalves de Mello. além dos cristãos-velhos. o Inquisidor-mor do Reino. os Bispos eram. à página 284.. que era antes do mais um Tribunal Eclesiástico que tinha em mente mover o culpado a reconhecer seu pecado. sendo as pessoas culpadas dos novamente convertidos somente e as determine com quais padres da Companhia de Jesus. visto que a Inquisição não empregava somente a repressão.” Segundo o mesmo autor: “Pelo direito vigente. apenas de índios e negros convertidos à fé católica.

feito ou cometido contra nossa Santa Fé Católica e que tem a Santa Madre Igreja. Inclui confissões e denunciações relativas a Pernambuco. Carlos André Cavalcanti. E ela deu uma excelente contribuição ao nosso debate. ainda. do Governador da Província. a segura participação do Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares. inicialmente. as do Inquisidor Heitor Furtado de Mendonça. usos e costumes da população brasileira naquela época. E no édito da graça concede o dito senhor 15 dias de graça e perdão. As denunciações eram feitas por qualquer pessoa que fosse ao Tribunal ou a 335    . como ainda a Igreja da Misericórdia. nem se lhes seqüestrem nem confisquem seus bens. trazendo para esse debate o apoio da Genealogia. Tudo se iniciava por uma das três vias: (1) denunciações. O processo inquisitorial era bastante diferente do processo da justiça comum dos nossos dias. como curiosidade histórica. que é uma ciência auxiliar da História. sejam recebidos com muita benignidade e não lhe dê pena corporal nem penitência pública. como melhor e mais largamente se contém e declara nos ditos éditos”. João Batista Barbosa. para suas considerações finais: Quero agradecer. pela colaboração que nos deu. Itamaracá e Paraíba. dentro do ritual da instalação da Visitação Inquisitorial na Paraíba. para que. os que nele vierem de toda a dita Capitania da Paraíba perante ele confessar suas culpas e fazer delas inteira e verdadeira confissão. Antes de responder às questões levantadas pelo Dr. Registre-se. especialmente. a existência na época. que. de onde saiu solene procissão até a Igreja Matriz. O original que trata do primeiro auto da Santa Inquisição que se celebrou na Capitania da Paraíba aos 8 dias de janeiro de 1595. 1595. e do 1º Vigário da Paróquia de Nossa Senhora das Neves. traçou um perfil da Inquisição dentro da sua época. refere textualmente: “No édito da fé dá o senhor visitador 15 dias de termo para de toda a dita Capitania da Paraíba virem perante ele denunciar o que por qualquer modo souberem que qualquer pessoa tenha dito. bem como da vida sócio-econômica da Capitania de Pernambuco. Feliciano Coelho de Carvalho. (2) confissões ou (3) determinação da Mesa.contendo o teor inteiro de diversos autos de fé e revela um verdadeiro retrato dos hábitos. sucintamente. à professora Zilma Ferreira Pinto. não só da Matriz das Neves. Tais documentos autênticos contêm entre outras assinaturas. o Padre João Vaz Salém. Agradeço também à contribuição do historiador Guilherme d’Avila Lins e. (Obra citada. páginas 123 a 125). gostarei de oferecer alguns subsídios à nossa exposição sobre como funcionava o processo da Inquisição.

algum representante dele para denunciar crime cometido por outra pessoa. já os novos cristãos passaram a ter a alcunha que não haviam escolhido. Caso dramático foi o do cristão-novo Antônio José da Silva. na verdade. Alguns tinham noção da acusação de forma muito vaga. Conseguiu fugir da cadeia e chegar a Londres. Chamava-se cristão-novo todo aquele que fosse acusado de praticar o judaísmo às escondidas. João Barbosa. Os crimes principais eram criptojudaísmo. sem denunciar os colegas e sem admitir culpa no fato de pertencer a uma entidade livre. Hipólito foi preso no penúltimo decênio de funcionamento da Inquisição. Hipólito esteve preso por anos em um cubículo frio e estreito. Melhor sorte teve o maçom e jornalista Hipólito José da Costa. tinha que comparecer diante da Mesa Inquisitorial para ouvir o inquisidor pedir uma confissão. Mas a maioria não tinha noção do que se lhe esperava. Os maçons do Brasil orgulham-se deste colega antepassado. posso esclarecer que na 336    . tive a honra de proferir palestra na Grande Loja Maçônica de João Pessoa. O Judeu. Quando o sujeito era preso por causa de uma denúncia. a expressão tem origem nos fins do século XV. pois alguma maledicência de vizinhos ou amigos já lhe era conhecida. Na noite em que foi queimado encenava-se em outro ponto da cidade um de suas peças. Retornando às perguntas do Dr. Dificilmente poderia o réu acertar com o conteúdo da denúncia. O preso nada sabia sobre o motivo da prisão. Enfrentou destemidamente os interrogatórios. pois estava em vigor o princípio do “segredo da culpa”. Sobre ele. Em um desses versos O Judeu falava “da culpa de não ter culpa”. Seus versos de poeta brioso não tinham força para livrá-lo do cárcere. Eram os primeiros anos do século passado. clara referência irônica à Santa Inquisição. Muitos resistiram em “confessar”. onde se radicou e fundou o jornal Correio Brasiliense. Mas. o processo virava uma bola de neve. acabava por somar às culpas denunciadas por outrem. quando o governo português impôs a conversão ao catolicismo de todos os judeus que viviam no Reino. Após a conversão criou-se a estranha distinção: era tido por cristão-velho aquele cuja família não tivesse sangue judeu. As luzes do século XVIII ainda não haviam aflorado. No caso de O Judeu. Assim. quando o desespero pela insólita situação levava a “confessar” mentiras. aquelas que ele mesmo estava comunicando de viva voz. houve imenso esforço para confessar aquilo que os homens de fé desejavam ouvir. Assim. conduta moral tida como pecaminosas e feitiçaria. Antônio José era teatrólogo.

Quanto à classificação das duas fases da Inquisição moderna. o ato inquisitorial era totalmente do Estado. por exemplo. João Batista Barrosa e. em que o expositor. A contribuição dos participantes Guilherme d’Avila Lins. analisamos a Inquisição contextualizada em sua época. enfim. pelos importantes subsídios aqui trazidos à nossa historiografia. devemos admitir. professor Carlos André. e debatedora oficial. Não havia tribunal eclesial. mas especificamente do Tribunal. Veja bem: Não foi uma ação da Igreja como um todo. repassamos o mito paraibano de Branca Dias. principalmente. Até meados do século XVII prevaleceu o medo de bruxa. que. no final do século XVIII e início do XIX.França. o que levou os homens da fé a terem desprezo por elas. pelos participantes deste exitoso conclave. do Monsenhor Eurivaldo Caldas Tavares. essencialmente. revimos a ação e o sofrimento dos cristãos-novos paraibanos. em geral. em particular. em nome do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. ressalto que a mentalidade dos inquisidores diante do feitiço determinou a periodização que eu criei e utilizo. completou o objetivo do nosso Ciclo de Debates. convivemos com os medos dos povos católicos dos séculos passados. Após este momento foi se formando a ideia de que as feiticeiras eram apenas pessoas ignorantes. 337    . criada pela Igreja para defender a fé. Mas. Agradeço. professora Zilma Ferreira Pinto. do Tribunal do Santo Ofício. a Intendência de Polícia tomava atitudes tipicamente inquisitoriais. A fala do Presidente: Tivemos hoje uma movimentada sessão. no caso ibérico. a ação persecutória foi. Ficamos esclarecidos sobre o conceito moderno daquela instituição. nos colocaram a par do que foi a Inquisição do Santo Ofício no mundo. Em Portugal. e na Paraíba. a bem da verdade.

portanto. e é um grande jornalista. naqueles cursos que davam garantia de sobrevivência durante a ditadura de 64. frequentou a ADESG. Grão Mestre da Grande Loja do Estado da Paraíba. com Edgard Bartolini Filho. Hélio Nóbrega Zenaide foi indicado unanimemente pela Comissão Organizadora do certame para ser o responsável por esse tema. Possui vários cursos. Passo a palavra do confrade Hélio Nóbrega Zenaide. Expositor: Hélio Nóbrega Zenaide (Sócio do Instituto Histórico. pelos trabalhos que tem editado. Sendo um maçom da velha guarda. onde ele mantinha uma seção sob o título de RONDA DOS ARQUIVOS. Tem um sobre Desenvolvimento do Brasil. foi convidado para fazer a palestra de hoje. que será o expositor. pesquisador. Joacil de Britto Pereira. Primeiro. tem curso sobre Desenvolvimento. foi Secretário de Comunicação e de Educação do Estado. que cursou no Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB – e nem sei como não foi preso em 64. Componho a mesa com nosso sócio Hélio Zenaide. Chamo a atenção dos presentes sobre a organização do programa deste Ciclo de Debates. Hélio é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife. inclusive do JORNAL DE AGÁ. tendo participado do quadro redacional de todos os jornais da capital. Há. presidente da Academia Paraibana de Letras. do qual fui o editor. Hoje é um historiador consagrado. um elo de ligação entre essas grandes instituições que comportam episódios transcendentais na nossa História.15º Tema: A MAÇONARIA NA PARAÍBA Expositor: Hélio Nóbrega Zenaide Debatedor: Edgar Bartolini Filho A fala do Presidente: Vamos dar continuidade ao nosso já importante Ciclo de Debates sobre a participação da Paraíba nos 500 anos de Brasil com a programação de hoje abordando A MAÇONARIA NA PARAÍBA. depois sobre A INQUISIÇÃO NA PARAÍBA e agora sobre A MAÇONARIA NA PARAÍBA. 338    . falamos sobre A IGREJA NA PARAÍBA. feito na SUDENE.

na Bahia. 1979. no comércio. tem contribuído para os grandes ideais políticos da Humanidade. na vida econômica. a sua bandeira é uma bandeira de esperança de melhores dias para a Grande Família Humana Universal. cultural e material do homem. pensamento filosófico. 1. historicamente. buscando cultivar. 1786 – Academia Ultramontana. Verdade e Trabalho. Ele diz textualmente (pg. na vida religiosa. intelectual. o movimento pela independência teve início no seio das sociedades secretas. Por tudo isso. Não é uma instituição política. cor. assinala Nicola Aslan que a Maçonaria veio para as Américas com a luta contra o colonialismo e os ideais de independência e república. na vida educacional. nas profissões liberais. no Poder Judiciário. no Rio. no Poder Executivo. sob a égide de Deus – o Grande Arquiteto do Universo – a prática da fraternidade humana universal. social. no Rio. 1759 – Academia dos Renascidos. Igualdade e Fraternidade e por lema Justiça. no Poder Legislativo. A Maçonaria no Brasil Em sua HISTÓRIA GERAL DA MAÇONARIA. nos serviços. aqui se infiltrando através das chamadas sociedades secretas. Seu objetivo é praticar esses valores na ordem social. 35): “No Brasil. Editora Aurora. 339    . que tanto tinham de literárias como de políticas. A história da Maçonaria na Paraíba deve ser uma expressão de luta pela implantação desses valores no nosso processo evolutivo. mas. sem distinção de raça. na indústria. Prega o amor da pátria e a paz entre todos os povos. 1772 – A Científica. É sua obrigação fazer-se presente com esses valores em todos os campos da atividade humana em nosso Estado.jornalista): Introdução A Maçonaria é uma instituição que procura contribuir para o aperfeiçoamento moral. na vida intelectual. Ela tem por divisa Liberdade. no Rio. e das quais algumas podem ser aqui citadas: 1752 – Associação Literária dos Seletos. nacionalidade. ideal político ou religião. na agricultura.

a que maior importância e celebridade alcançou foi. discípulo de Arruda Câmara. partidário exaltado das ideias francesas. Faziam parte desta loja desde 1798 entre outros. XIX. o padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. Gustavo Barroso.1796 – Areópago de Itambé. pg. a Universidade Secreta. Rocha Pombo. sem dúvida. esta última. escreve: “Um dos Arruda Câmara. perdida entre os sertões de Pernambuco e Paraíba. médico. florescia em Itambé o Areópago do dr. HISTÓRIA. Luís Francisco e José Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque. Arcebispo de São Paulo. de onde o paraibano Manoel de Arruda Câmara trouxe os ideais maçônicos de Liberdade. por volta de 1778. Chegou-se mesmo a suspeitar que essa sentinela do nativismo brasileiro. o irmão de Arruda Câmara. 340 ). Em seu livro O CLERO E A INDEPENDÊNCIA. José Pereira Tinoco. onde se discutiam as ideias mais avançadas do liberalismo. 171-172. de Vicente Ferreira dos Guimarães. sociedade secreta.” (Conf. decididamente protegidos por Napoleão Bonaparte. 1917. Antonio de Albu340    . Mas. I. a Oficina de Iguaraçu. Foi seu fundador Manuel de Arruda Câmara. onde. vol. Na REVISTA DO INSTITUTO ARQUEOLÓGICO PERNAMBUCANO. Manoel de Arruda Câmara. a Academia do Paraíso.”( vol. pg. DO BRASIL. inteiramente dedicado ao ensino das ciências herméticas. que doutrinava para a democracia e a revolução maçônica. o capitão André Dias Figueiredo. pgs. formado em Montpellier. Manoel de Arruda Câmara. contava com o apoio de homens poderosos. em sua HISTÓRIA SECRETA DO BRASIL.” Naquela época. o famoso beneditino Antônio José Pernety formara o Rito da Academia dos Verdadeiros Maçons. 205 ). Vários autores ligam o Areópago à Maçonaria. que era médico. na França. da Revolução Francesa. E Montpellier foi um importante centro maçônico. num trabalho sobre As Sociedades Secretas de Pernambuco. Do Areópago provêm a Academia dos Suassuna. Dr. o botânico. celebrizara-se. Dom Duarte Leopoldo. dentro e fora do país. fundada em 1289. escreve a respeito: “Quase na mesma época. como ele. os três irmãos Francisco. centro de estudos. em Pernambuco. nada menos de cinco Lojas Maçônicas estavam localizadas em Montpellier. fundara o Areópago. intencionalmente posto nos limites de Pernambuco e Paraíba. principalmente. de todas essas sociedades secretas. cuja universidade. no século XX. lê-se a transcrição da seguinte nota de Oliveira Lima: “A primeira loja maçônica fundada em Pernambuco foi o Areópago de Itambé. VII. os padres Antônio e Félix Velho Cardoso. afirmandose mesmo que ele estava organizado nos moldes das Lojas Maçônicas. O seu fundador. Igualdade e Fraternidade. formara-se em Montpellier. sementeira de onde brotaram os grandes movimentos revolucionários do Brasil. pelo ensino da medicina.

Meu tetravô morava no Engenho Oratório. de Itabaiana. onde nasceu meu avô. Eu chamo a atenção para esses detalhes porque alguns historiadores chegam até a negar a existência do Areópago de Itambé. Até gente de Itabaiana e de Pilar ia para as reuniões do Areópago de Itambé. foi morar em Patos.” – LIMA.querque Montenegro. na fronteira de Pernambuco e Paraíba. Muniz. e. Ele e Arruda Câmara se hospedavam realmente naquele engenho. Capitão Antero Peregrino de Paula Cavalcante Montenegro. Vários paraibanos maçons frequentavam o Areópago de Itambé. Esse Antonio de Albuquerque Montenegro. meu bisavô Capitão Antero Francisco de Paula Cavalcante Montenegro. teve 12 filhos. era filho do meu tetravô Francisco Dias de Melo Montenegro. e o padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro deve ter escolhido o Engenho Oratório para instalar o Areópago de Itambé porque ali contaria com a hospitalidade de Francisco Dias de Melo Montenegro. Estas informações estão em Irineu Ferreira Pinto. que foi preso e condenado à morte. Quando foi esmagada a Revolução de 1817. podemos considerá-lo também paraibano. assim. e o padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro suicidou-se no Engenho Paulista. com a denúncia de conspiração levantada contra os irmãos Cavalcante. um deles. o Areópago foi dissolvido. que era primo do padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. Meu bisavô. Manoel de Oliveira. TAVARES. ele chega a dizer que 341    . nota nº XXIII. por exemplo. Francisco Dias de Melo Montenegro. In. citado por Oliveira Lima. História da Revolução de Pernambuco. Uma dessas pessoas era o padre Antônio Pereira de Albuquerque. do Pilar. Outra. os filhos de Francisco Dias de Melo Montenegro. Dois filhos dele eram membros ativos do Areópago de Itambé: Antonio de Albuquerque Montenegro e André. no seu livro DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAIBA. com medo da perseguição e de prisão. era o padre Antonio Félix Velho Cardoso. para não ser preso e trucidado pelas tropas legais. senador Apolônio Zenaide Peregrino de Albuquerque. Em 1801. pai do meu avô paterno. fugiram do Engenho Oratório. 1º volume. O nosso confrade José Octávio de Arruda Mello. embora nascido depois da Revolução. como registra Irineu Ferreira Pinto. ali comprando a fazenda Cacimba dos Bois. braço direito de Manoel de Arruda Câmara na fundação do Areópago de Itambé. Ele era da família de Francisco Dias de Melo Montenegro e do padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. inclina-se também por essa opinião na sua HISTÓRIA DA PARAÍBA.

Com efeito. filósofo e estudioso de ciências. notadamente através das sociedades secretas. o Areópago de Itambé e várias academias e Lojas Maçônicas foram ponto de reunião para discussão desse ideário político. em Pernambuco e na Paraíba. que desejavam ver substituído por uma forma republicana de governo. é importante esta confirmação de uma historiadora pernambucana. em Pernambuco e Paraíba. criado para julgar os presos pronunciados na devassa aberta em 1817. que integrou o Governo Provisório da Revolução. aspirava a liberdade por amor e não por ambição. Eles lutavam pela independência. Discípulo de Arruda Câmara. No Brasil. leitor dos antigos e novos filósofos. as idéias liberais vinham sendo propagadas desde os fins do século XVIII. não longe do Recife. A influência da Maçonaria na propaganda revolucionária foi reconhecida e destacada pelo desembargador do Tribunal de Alçada. Mas isso não é um argumento que me impressione. onde se iniciou nas “novas ideias”. contra o sistema colonial e contra o regime monárquico. Em Pernambuco. A Maçonaria foi iniciada. Professor de desenho e segundo Tollenare homem instruído e sem fortuna.o Areópago não deve ter existido porque Manoel Arruda Câmara nunca morou em Itambé. a Revolução de 1817. Sobre o Padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. André Vidal de Negreiros nunca morou no Morro dos Guararapes. coincidiu com um período de expansão do liberalismo no mundo ocidental. A maçonaria foi iniciada em Pernambuco e Paraíba através do paraibano Manoel de Arruda Câmara e lutando por um ideário político de Independência e República. como acontecera nos Estados Unidos. deu novo impulso à conspiração. citando Tollenare: “Padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. Nasceu em Tracunhaém. com o padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro. 2. através do paraibano Manoel de Arruda Câmara e lutando por um ideário político de independência e república. cresceram e se expandiram através das Lojas Maçônicas E o maçom Domingos José Martins. frequentava o Areópago de Itambé.” 342    . João Osório de Castro Falcão escreveu a Tomás Antonio Vila Nova Portugal. mas se tornou herói do Morro dos Guararapes. assim. depois da morte de Manoel de Arruda Câmara. dizendo que as ideias revolucionárias propagadas desde 1801.

Pedro I em seus quadros. no Rio de Janeiro. A Lei do Ventre Livre. em 17 de junho de 1822. porque outras Lojas Maçônicas só vieram a surgir 69 anos depois da fundação do Areópago de Itambé. capital do Império. por algum tempo. ao calor do movimento da nossa Independência. certamente. a expansão do movimento maçônico na Paraíba. entretanto. foi fundada em 1865. Embora o papel da Maçonaria na Independência tivesse sido decisivo e ela saísse fortalecida do acontecimento. Em 1873 existiu uma terceira Loja Maçônica – a SEGREDO E LEALDADE – na cidade de Campina Grande. era em grande parte encabeçado pela Maçonaria. Ela foi instalada nesta capital. movimento que. e do ingresso de D. Depois do Areópago de Itambé Há notícia de que em 1822 foi fundada na capital paraibana uma Loja Maçônica. As primeiras lojas maçônicas na Paraíba depois da Loja Maçônica Pelicano Temos notícia de que a primeira Loja Maçônica efetivamente instalada na Paraíba depois da Independência. Grão Mestre da Maçonaria. Nem mesmo a fundação do GRANDE ORIENTE DO BRASIL. por exemplo. maiores informações acerca da LOJA MAÇÔNICA PELICANO. Essas Lojas Maçônicas surgem numa época em que. organizada. na Paraíba. 4. quando a Paraíba era governada pelo presidente Sinval Odorico de Moura e. no mesmo ano. foi capaz de imprimir maior impulso à Maçonaria na província. a LOJA MAÇÔNICA PELICANO. com o nome de LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO BRASÍLICA. voltavam as ideias republicanas e se esboçava o movimento da abolição da escravatura.3. que se deu em 1796. no Rio de Janeiro. 343    . foi fundada ainda a LOJA MAÇÔNICA UNIÃO E BENEFICÊNCIA. às vésperas da Independência. somente 43 anos depois do Grito do Ipiranga os paraibanos se animariam a organizar as primeiras Lojas Maçônicas no seu território. foi de autoria do Visconde do Rio Branco. Tudo indica que a cruel perseguição movida contra os revolucionários de 1817 esfriou. Não temos. na cidade de Mamanguape. que teria sido a primeira instalada propriamente na Paraíba.

a LOJA MAÇÔNICA VIGILÂNCIA E SEGREDO. Em 1875 surgiu uma nova Loja Maçônica em Campina Grande. ano em que o vice-presidente Antônio Alfredo da Gama e Melo. o povo de Campina Grande. Por sinal. que era um abolicionista sincero. pesquisador da história maçônica paraibana. cognominado o tigre da abolição. uma explosão de fanatismo exacerbado. Foi o Ministério Liberal presidido pelo maçom José Antônio Saraiva que conseguiu a aprovação da Lei dos Sexagenários. de tal forma. e. que os maçons esperavam. Vital. Em virtude da chamada Questão Religiosa e da prisão de D. Para reforçar ainda mais o combate. o vigário de Campina Grande. Isso. Rui Barbosa era maçom. três anos antes da lei que libertou os nascituros. Grande defensor da abolição da escravatura. Eles instigaram. em campanha pela abolição. assumiu o governo da província. O tigre da abolição foi entusiasticamente aplaudido pelos abolicionistas paraibanos em 1883. naquele tempo. criada em 1873. J. missionário de grande força no seio do povo nordestino. 344    . Era maçom também o poeta dos escravos. o maçom e grande tribuno abolicionista José do Patrocínio. a Loja América. que pertencia à mesma Loja Maçônica de Rui Barbosa. marcou o primeiro grande conflito da Igreja Católica com a Maçonaria na Paraíba. escreveu uma página relatando o desfecho dessa luta. logo em seguida. de uma hora para outra. como era maçom José do Patrocínio. uma outra. padre Calixto da Nóbrega declarou guerra à Maçonaria na Serra da Borborema. Castro Alves.Foi do maçom Joaquim Nabuco a iniciativa da criação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. sendo aqui festivamente recepcionado pela Maçonaria e pelos adeptos em geral da causa de libertação dos escravos. contra a Maçonaria.. A LOJA MAÇÔNICA SEGREDO E LEALDADE. E foi do maçom Rui Barbosa a iniciativa do decreto que obrigou todos os maçons brasileiros que porventura tivessem escravos a libertá-los imediatamente. a LOJA MAÇÔNICA RENASCENÇA. em Campina Grande. E isso não demorou. Leite Sobrinho. bispo de Olinda. veio à Paraíba. chamou em seu auxílio o padre Ibiapina.

em vez de ser levado por elas. Os fantasmas estropiados como que iam dançando. 5. a LOJA MAÇÔNICA CONSTÂNCIA E LEALDADE. A projeção desses dois propagandistas da República deveu-se. Não tinham pressa em chegar. olhando para trás. porém. Ela foi fundada no dia 16 de outubro de 1898 e no ano passado comemorou o seu primeiro Centenário de existência ininterrupta. como quem quer voltar. invadiu e destruiu a LOJA MAÇÔNICA RENASCENÇA! Isto no centro da cidade de Campina Grande. Todas essas Lojas Maçônicas.Era um desafio: mais duas Lojas Maçônicas em Campina Grande? Chegou outro missionário à cidade. ao realizar uma Santa Missão. num passo arrastado de quem leva as pernas. Vale observar que o marechal Deodoro da Fonseca. Andavam devagar. quando foi fundada a LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. a LOJA MAÇÔNICA LEALDADE E PERSEVERANÇA. instigou. à sua atuação no plano nacional.” 345    . e do maçom senador Coelho Lisboa. ali no Varadouro. com o aspecto terroso e o fedor das coisas podres. proclamador da República. era a Paraíba governada pelo presidente Antônio Alfredo da Gama e Melo. Era um ano terrível de seca. Em 12 de fevereiro de 1877 – ano da mais terrível seca que o Nordeste conheceu até então – foi fundada. 5. Foi o caso do maçom Aristides Lobo. era Grão Mestre da Maçonaria. nesta capital. que José Américo de Almeida assim descreveu em A Bagaceira: “Era o êxodo da seca de 1898. como era também maçom Floriano Peixoto. Uma ressurreição de cemitérios antigos – esqueletos redivivos. A mais antiga loja maçônica paraibana em funcionamento Em 1898. o Frei Herculano e. No plano estadual. que é a mais antiga Loja Maçônica da Paraíba em funcionamento. arrastou o povo às ruas. A proclamação da República Alguns maçons paraibanos se projetaram no movimento da Proclamação da República. porém. e em 1882. de tão trôpegos e trêmulos. porque não sabiam aonde iam. cerraram suas portas e os seus arquivos se perderam no tempo. que o sucedeu na presidência da República. grande propagandista dos ideais republicanos. não há notícia de atuação expressiva da Maçonaria em favor da Proclamação da República.

E a REGENERAÇÃO CAMPINENSE. Mas. Viam-se pelas ruas velhos flagelados que não tinham mais força para voltar para o sertão e retomar a luta do campo. fundada em 19 de agosto de 1924. Joaquim Manoel Carneiro da Cunha. na capital. Rebentou novo ciclo de seca em 1912 e o Venerável Mestre da LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. fundando uma outra potência. Em 1903.A capital paraibana encheu-se de retirantes e flagelados. e decidiram separar-se daquela Potência Maçônica. o Asilo de Mendicidade que depois tomou o seu nome. Em 1927. 6. Os maçons se reuniram. fundada em 10 de janeiro de 1918. que hoje conta com quase 40 Lojas Maçônicas espalhadas pelo território paraibano. PADRE AZEVEDO. juntaram-se as Lojas Maçônicas BRANCA DIAS. Seu atual dirigente é o Sereníssimo Grão Mestre Edgard Bartolini. Em 1900 surgiu a Loja Maçônica CARIDADE E SEGREDO. em Catolé do Rocha. fundada em 24 de julho de 1927. em 24 de agosto de 1927. decidiu fundar e fundou um Asilo para Velhos. Em 1911. mesmo quando a seca terminou. a GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DA PARAÍBA. a PADRE AZEVEDO. Temos hoje na Paraíba três Potências Maçônicas: o GRANDE ORIENTE ESTADUAL DA PARAÍBA. a GRANDE LOJA DO ESTADO DA PARAÍBA e o GRANDE ORIENTE DA PARAÍBA. em Itabaiana. às quais estão jurisdicionadas as dezenas e dezenas de Lojas Maçônicas dos municípios paraibanos. A LOJA MAÇÔNICA BRANCA DIAS veio em 1918. foi criada a LOJA MAÇÔNICA SETE DE SETEMBRO. a LOJA MAÇÔNICA UNIÃO CATOLEENSE. instituição que ainda hoje resiste ao tempo e é um patrimônio da Paraíba. fundaram a LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE e realizaram uma campanha angariando recursos – roupas usadas e gêneros alimentícios – para assistirem as vítimas do flagelo. Muitos desses retirantes ficaram na capital. 346    . Separação do Grande Oriente do Brasil e fundação da Grande Loja do Estado da Paraíba Até então as Lojas Maçônicas da Paraíba eram vinculadas ao GRANDE ORIENTE DO BRASIL. agora com o nome da Lar da Providência. e a REGENERAÇÃO CAMPINENSE. fundado no Rio de Janeiro em 17 de junho de 1822. Asilo de Mendicidade Carneiro da Cunha. em 1923. convidado para ser o nosso debatedor de hoje.

partido a que pertencia. Neste ponto. CIÊNCIAS E ARTES DO NORDESTE DO BRASIL bem como de delegações de Maçons de Sergipe. Batalhou. jurisdicionada à GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DA PARAÍBA. a Maçonaria da Paraíba contou com uma voz de expressão no Congresso Nacional. em verdade. naturalmente. que teve à sua frente o PMDB. sem desfalecimento.7. Inúmeros Manifestos têm sido dirigidos ao Presidente da República pela Maçonaria da Paraíba neste sentido. em função da conjuntura em que vivemos. última eleição indireta que. Alagoas. Academia Paraibana Maçônica de Letras. da Campanha das Diretas-Já. a Maçonaria. pelo processo de abertura política e participou. contra os atos discricionários da Revolução de 1964. membro da LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. Esse ilustre Maçom paraibano colocou-se. A solenidade foi prestigiada pela presença de delegações da ACADEMIA PARANAENSE MAÇÔNICA DE LETRAS. eleito pelo Colégio Eleitoral. teria de procurar contribuir para a volta do País ao estado de direito. A Maçonaria da Paraíba vem condenando igualmente o abuso do poder econômico no processo político-eleitoral. certamente. a do nosso irmão maçom senador Humberto Lucena. desde a primeira hora. Artes e Ciências No dia 2 de maio de 1998 foi instalada a ACADEMIA PARAIBANA MAÇÔNICA DE LETRAS. a Maçonaria da Paraíba insiste para que o Presidente da República exerça a plenitude da sua autoridade e da sua força para dar um basta a essa vergonha nacional. na linha de frente. marcaria o fim do regime militar. ARTES E CIÊNCIAS. 8. Outra grande preocupação da Maçonaria da Paraíba na atualidade é com relação à generalizada corrupção na política e na administração do País. por347    . A maçonaria da Paraíba nos tempos atuais Com esse passado de preocupação com o aperfeiçoamento do processo político-social brasileiro. Isso tudo. sob a direção do Mestre Maçom João Ribeiro Damasceno e como secretário o orador que vos fala. Pernambuco e Rio Grande do Norte. em 15 de janeiro de 1985. do mesmo modo que foi também um soldado da linha de frente na eleição do presidente Tancredo Neves. Nesses documentos. ARTES E CIÊNCIAS e da ACADEMIA MAÇÔNICA DE LETRAS. ao lado de Ulysses Guimarães. depois da Revolução de 1964.

que também pertencia à LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. Formado pela famosa Escola de Medicina da Bahia. Esses dois últimos também pertencentes ao Instituto Histórico. e 348    . no Pará. em 7 de setembro de 1905. Ele e o dr. no Rio de Janeiro. Outros maçons paraibanos de projeção em nossa vida pública Daremos apenas alguns exemplos. Foi um dos fundadores da Casa da Paraíba. comprou a Fábrica de Tecidos Deodoro. Deputado Federal e Senador pela Paraíba. da qual foi Venerável Mestre de 1923 a 1924. como educador e como historiador. VIRGÍNIO VELOSO BORGES. sem dúvida. em Santa Rita. ainda hoje baluarte da imprensa da Paraíba.quanto o seu escopo maior é o aprimoramento de todas as potencialidades da Família Humana Universal. É um dos grandes Beneméritos da Maçonaria da Paraíba. Em sociedade com seu irmão. no Acre. e é. da qual foi Venerável Mestre. a voo de pássaro: O maçom JOÃO RODRIGUES CORIOLANO DE MEDEIROS foi um dos fundadores deste Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Pertencia ele à LOJA MAÇÔNICA PADRE AZEVEDO. da qual foi Venerável Mestre e grande benfeitor. do jornal O NORTE. Seu irmão VIRGÍNIO VELOSO BORGES também foi Senador pela Paraíba. tendo sido também Sereníssimo Grão Mestre da GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DA PARAÍBA de 1922 a 1928. VIRGÍNIO VELOSO BORGES construíram uma ala do Hospital Santa Isabel. Ainda com aquele seu irmão. no Amazonas. em 7 de maio de 1908. uma legenda de glória da Paraíba. OSCAR SOARES era membro da LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. O maçom CLÁUDIO OSCAR SOARES foi o fundador. sendo o seu primeiro presidente. ainda hoje. foi um dos mais brilhantes advogados da Paraíba e do Estado do Pará. na Bahia. depois de exercer a medicina em vários Estados. Outro notável paraibano foi o maçom MANOEL VELOSO BORGES. voltou para sua terra natal e fundou aqui a SOCIEDADE DE MEDICINA E CIRURGIA DA PARAÍBA. do Rio de Janeiro e chegou a dirigir o Sindicato das Indústrias de Tecelagem do Estado do Rio. que pertencia à LOJA MAÇÔNICA BRANCA DIAS. 9. da qual foi Venerável Mestre em 1935. em 3 de maio de 1924. O maçom GUILHERME GOMES DA SILVEIRA. Foi Deputado Estadual. foi um dos fundadores da Fábrica de Tecidos Tibirí.

um dos seus convidados de honra. neste fim de milênio. O Padre Valério Alberton vem defendendo em todo o Brasil o restabelecimento das boas relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria. lá estava o nosso Irmão maçom JOSÉ LUIZ CLEROT. incluiu. foi maçom o Senador Humberto Lucena. Neste sentido. O I CONGRESSO MAÇÔNICO DO ESTADO DA PARAÍBA. Presidente do Tribunal Regional Eleitoral. Outro grande maçom paraibano. Procuradores. indicado pela Confederação Nacional das Indústrias. A Maçonaria da Paraíba sempre figurou nas duas Casas do Congresso Nacional. JOSÉ AUGUSTO ROMERO. como Presidente da FEDERAÇÃO ESPÍRITA PARAIBANA. Desembargadores. O Arcebispo da Paraíba não foi. membro da Academia Paraibana de Letras e Venerável Mestre da LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. e dirigente do Movimento Espírita no Estado. os entrechoques entre a Igreja Católica e a Maçonaria. José Maria Pires. e ainda agora. Professores de Direito. foi também convidado para o Congresso. pai do grande paraibano e brasileiro CELSO FURTADO. no temário de suas preocupações. Dirigente da Augusta Ordem no Estado. foi maçom o Senador José Gaudêncio de Queiroz. D. mas autorizou a ida do Padre Valério Alberton. Advogados e Presidentes da Ordem dos Advogados. ao mesmo tempo. seria extensa a relação para citá-los um a um. membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. da LOJA MAÇÔNICA REGENERAÇÃO DO NORTE. como um dos mais atuantes deputados federais do nosso Estado. 11 – O velho conflito Igreja Católica-Maçonaria Chegam ao fim. foi. como Grão Mestre da GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DA PARAÍBA. Promotores.membro do Conselho do Comércio e Indústria do Brasil no Exterior. Desembargador. realizado nesta capital em 1993. Foi maçom o Senador Coelho Lisboa. já tendo publicado 349    . foi Procurador Geral do Estado. A Maçonaria da Paraíba tem oferecido numerosos valores à Magistratura Paraibana. Juizes. O nosso Irmão maçom MAURÍCIO FURTADO. o restabelecimento das boas relações com a Igreja Católica. foi o Padre Valério Alberton. até bem poucos dias. nosso Arcebispo.

1817 ET 1818. 1982. NOTES DONINICALES PRISES PENDANT UN VOYAGE EN PORTUGAL ET AU BRÉSIL EN 1816. J. José – ITINERÁRIO DA HISTÓRIA. O levantamento feito pelo nosso consócio Hélio Zenaide nos traz muita luz. Ed. Universitária. sem razão porque meu pai era maçom. NÓBREGA. Nicola. UFPB. GRANDE LOJA DA PARAÍBA – RESENHA HISTÓRICA. Bibliografia consultada: ASLAN. Tenório d’ – A MAÇONARIA E A LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS. A UNIÃO EDITORA. Fátima – PARAÍBA: IMPRENSA E VIDA. 1986. mostrando a influência da instituição e dos seus membros na História da Paraíba. A UNIÃO EDITORA.F. pertencente à Loja Branca Dias. A. Lavoisier – MANOEL VELOSO BORGES. 1956. 1938. OCTÁVIO. Estou certo de que a metade dos presentes não tinha a menor ideia da influência do movimento maçônico na Paraíba. Muito obrigado. Leite – PRIMÓRDIOS DA MAÇONARIA PARAIBANA. Ed. A fala do Presidente: Tivemos uma visão global da Maçonaria na Paraíba e no Brasil. ARAÚJO. Grafset. 1977. José – HISTÓRIA DA PARAÍBA. Eu mesmo era um deles. 1970. 1988. Trajano Pires – A FAMÍLIA NÓBREGA. Revista BRANCA DIAS MAGAZINE. TOLLENARE. Instituto Genealógico Brasileiro. 1965. Editora Aurora. Neste resumo dou uma ideia do que tem sido a Ordem Maçônica no Estado da Paraíba. janeiro de 1989. PINTO. Universitária. Irineu Ferreira – DATAS E NOTAS PARA A HISTÓRIA DA PARAÍBA. HISTÓRIA GERAL DA MAÇONARIA. 1917. 1997. L. Deusdedit – HISTÓRIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DA PARAÍBA. ALBUQUERQUE. LEAL. SOBRINHO. XIX. 1979.. UFPB. FEITOSA. Editora Aurora. LEITÃO. Gráfica Comercial Ltda.livros na defesa de suas ideias. REVISTA DO INSTITUTO ARQUEOLÓGICO PERNAMBUCANO. A importância da instituição pode-se medir até pela participação de figuras 350    .

o é. alguns juristas renomados. sim. onde houve coquetel com a presença de autoridades. onde ocupou vários cargos de relevo. Aliás. Nem conhecem nem se preocupam em conhecer a nossa história. intelectual e social. Bartolini é formado em Ciências Jurídicas e Sociais. Como debatedor. inclusive alguns de Pedro Américo. Com relação ao meu papel de debatedor vou declinar. Seção da Paraíba. Acham que nós somos muito mais novos. e conversa vai. a palavra ao nosso debatedor. conversa vem. A grande maioria dos nossos colegas advogados. mas em denegrir. a seguir. Passaremos. pouco ou quase nada sabiam sobre a nossa história. tirando as diferenças regionais. professor Edgard Bartolini Filho. principalmente para o país e numa região que não é muita afeita à memória do seu povo e das suas instituições. porque a palestra do 351    . Essa série de debates é bastante importante. É atuante dirigente da Ordem dos Advogados do Brasil. E ele não imaginava que nossa Felipéia de Nossa Senhora das Neves já nascera cidade.ilustres da nossa vida política. com grande atuação na nossa Universidade Federal. É lugar comum se dizer neste país que o Brasil é um país sem memória. Quando a gente leva algumas pessoas para conhecerem a cidade elas ficam admiradas quando descobrem que Felipéia de Nossa Senhora das Neves foi fundada em 1585. Secretário da Ordem dos Advogados do Brasil/Paraíba e Grão Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba) Quero inicialmente parabenizar a iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano promovendo este Ciclo de Debates alusivo aos 500 anos do descobrimento da nossa pátria. falou-se sobre João Pessoa. e começamos a discutir sobre alguns quadros ali expostos. como se depreende da breve listagem apresentada pelo expositor. teremos o Grão Mestre Edgard Bartolini Filho. até certo ponto. Recentemente estive no Rio de Janeiro participando da Conferência Nacional dos Advogados e tivemos uma solenidade no Museu Histórico. eles se preocupam. Um deles ficou até admirado quando eu disse que João Pessoa já nasceu cidade. e. que por sinal é neto do primeiro Grão Mestre da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba e ele próprio é seu atual Grão Mestre. Debatedor: Edgard Bartolini Filho: (Professor universitário.

por conta da guerra das Duas Rosas a filosofia inglesa. mas essa diferença é fácil de explicar. Porque se às vezes um rapaz gostava de uma moça da sociedade altamente fechada e se o pai da moça. em francês. no início do século XVII. Antes da Revolução Francesa temos. mas do pensamento filosófico e científico que ficou dela. apareceu na nobreza europeia uma divisão que até hoje ainda existe.nosso Irmão Hélio Zenaide. que dividiu a Inglaterra da França. e hoje o principal historiador da Maçonaria paraibana. como a máfia. Depois desse movimento renascentista vieram os movimentos da Reforma. jornalista. Muita gente estranha porque existe uma diferença. onde o homem pôde agir com mais liberdade seus ideais religiosos e seus ideais científico-tecnológicos. descobrisse que ele era maçom. Para chegar aí precisou de um grupo de pessoas de influência para que esses movimentos pudessem alcançar o êxito que todos nós conhecemos. Terminada esta fase. os primeiros movimentos responsáveis pela independência dos Estados Unidos. historiador. as artes tiveram mais liberdade. intolerância religiosa. num passado mais recente e na modernidade. Daí também sermos conhecidos por “pedreiros livres”. que é o que significa a palavra maçon. Perseguições religiosas. também como consequência da Revolução Francesa. é irretocável. Depois disso tivemos aquele movimento belíssimo chamado de Renascimento. não diretamente da Ordem dos Templários em si. dos construtores das catedrais. idioma corrente à época.. Caberá aqui apenas uma ou outra complementação ou um enfoque um pouco mais longe sobre o que seja esta instituição maçônica num passado mais longe. Não pense que está adormecido. Nós somos herdeiros daquilo que chamamos a Ordem dos Templários. de pensamentos. É justamente a guerra das Duas Rosas. o que fazia da Maçonaria uma sociedade não secreta como para aqueles que a desconheciam como uma instituição que fosse ligada ao banditismo. cosa nostra. A Maçonaria era tão secreta há pouco tempo atrás que o maçom entrava na Ordem e muitas vezes a sua família não sabia que ele a vida inteira pertenceu e trabalhou pela Maçonaria. era um Deus nos acuda. centraliza352    . Pois bem. e que inegavelmente mudou a história da humanidade. justamente evitando essas perseguições. Essa condição era para ele quase que uma defesa. na Maçonaria. perseguições políticas e até perseguições familiares. A partir da Reforma o mundo não foi mais o mesmo. a esses grandes movimentos de criminalidade. Felizmente a Maçonaria não é mais uma instituição secreta naquele aspecto que muitos pensam que ela ainda o é. e por aí vai. onde as ciências.

João VI para o Brasil facilitou a propagação da maçonaria em nosso país. uma loja maçônica que ficava no interior de Pernambuco. Esse país conseguiu incutir na cabeça de brasileiros esse ideário. era uma filosofia mais presa. mas naquela condição que existia anteriormente. a 80 quilômetros do Recife. que já estava em plena efervescência. no ano de 1718. Hoje nós temos esse ranço sobre nossa própria história. que foi promulgada nos Estados Unidos. a Loja Comércio e Artes. A sociedade colonialista da época estava tão ávida por liberdade que se apegou a esse ideário. que foi oficialmente a primeira loja maçônica brasileira. também. Pode-se ver que na realidade ninguém sabia onde funcionavam essas lojas. no Rio de Janeiro. naquele tempo. foi aí que começou de forma mais latente a efervescência da Maçonaria na nossa região. resultando na sua grande revolução. sabia-se a sua existência. Depois da Revolução de 1817. A partir daí tivemos. quanto mais naquele tempo. onde Frei Caneca pregou a Confederação do Equador. uma divisão na ordem maçônica. Daí muitos não reconhecerem o Areópago de Itambé como loja maçônica. igualdade e fraternidade. E por que não se reconhece? Quem é que iria imaginar. que ninguém sabia que ela existia. padre qual era maçom. Lógico. porque ele trouxe em sua comitiva mações portugueses que tinham esse idealismo de verdade. todos eles eram maçons. Oficialmente. Aí surge a pergunta: e a questão religiosa? É outra história. não sua localização. Surgiram então as lojas mencionadas pelo expositor Hélio Zenaide. enquanto que a sociedade americana foi se libertando e criando uma nova maneira de pensar. a Maçonaria brasileira começou aí. e foi punido por isso. que aqui e acolá ele fala padre tal era maçom. porque eles eram maçons. no sítio Oratório. influindo na França. por mais paradoxal que seja. A vinda de D. aliando-se ao pensamento da Maçonaria que surgiu nos Estados Unidos. 353    . Não teve um que deixasse de ser maçom. direta ou indiretamente. as quais tiveram vida efêmera pela perseguição decorrente da questão religiosa (1971. Por outro lado. que nunca. no governo.da na nobreza. vocês percebem pela exposição do nosso palestrante. é preciso repetir. Assim foi criada. se não me engano). E vai aqui um registro: todos os padres que tiveram influência na história do Brasil. quase 70 anos antes da Revolução Francesa. Nossa primeira Constituição era conhecida como Constituição de Anderson.

Gustavo Fernandes de Lima. As demais continuaram no Grande Oriente. de forma que. Regeneração Campinense. Os graus superiores. Não obstante. vinculada a essa nova ordem. Carlos Werts. o voto não era aberto e só quem votava eram certas classes sociais. a Regeneração Campinense. Quem presidiu a sessão foi o maçom Augusto Simões. Siqueira Costa. como disse Hélio Zenaide. onde a mulher ainda não votava. Daí. meu avô. Na mesma noite foi eleita a primeira diretoria. É como se fosse um curso de graduação. esse novo ideário republicano. hoje. João Rodrigues Coriolano de Medeiros. três lojas se reuniram na noite memorável de 24 de agosto de 1927 e resolveram fundar a Grande Loja. Ele era o maçom mais graduado na Paraíba e era o único maçom grau 33. nº 3. 1. José Calixto da Nóbrega. Pedro Baptista Guedes e Roberto Volgrand Kelly. Sidrônio Mororó. Virgílio de Barros Correia. Helmenegildo Di Lascio.Voltando à questão da separação da maçonaria francesa da maçonaria inglesa. João Cândido Duarte. 40 pertencem à Grande Loja. pela Loja Regeneração Campinense. que era maçom. As Grandes Lojas cuidam apenas do grau. José Pinto. em 1927. João Soares. não satisfeitas com a orientação francesa (que eram monarquistas e não republicanas) preferiram dar ênfase a esta segunda e apoiar a política do Brasil. José Teixeira Bastos. e são os mais importantes. Generino Maciel. José Francisco de Moura e Silva. que são os graus básicos da Maçonaria. alguns mações vinculados a essas lojas. além de serem optativos dependem do irmão e do Supremo Conselho existente no 354    . houve uma ruptura mundial entre aquelas maçonarias. mas a intolerância religiosa continuou. que começam pelos graus filosóficos. Acho necessário dar uma explicação mais ritualística. Dentro desse ideário. Antônio Farias Pimentel. mas com o passar dos anos foram se chegando. Quando se é do Grande Oriente do Brasil nossa ritualística leva do grau 1 ao 33 e na ritualística das Grandes Lojas há uma separação. nº 2 e a Loja Padre Azevedo. Severino Alves e Severino Cruz. É verdade que era uma democracia meio capenga. Branca Dias. grau 2 e grau 3. Com o advento da República a Maçonaria pôde mostrar seu rosto. José Pereira da Silva. compareceram Aristides de Azevedo Cunha. pela Loja Padre Azevedo. Aí aconteceu um fato inusitado. Naquela data participaram da reunião de fundação pela Loja Branca Dias Alfredo Augusto Ferreira da Silva. que era uma política de consolidação da República. E essas lojas. José Jorinho Itamar. João Pinheiro de Carvalho. Martiniano Lins. naquela época. Padre Azevedo. o que ela fazia. a Branca Dias nº 1. Maurício de Medeiros Furtado. compareceram Antiquilino Dantas. essa nova política.

de 88 a 1994 – Romildo Lins de Toledo. 1928 – Manoel Veloso Borges.12. A Maçonaria como um órgão universal tem um relaciona355    . que faleceu após quatro meses de grão-mestrado. de 64 a 1970 – Pedro Aragão. de 81 a 1988 – Arlindo Bonifácio. A pergunta é a seguinte: por que não tem mulher na maçonaria? Não tem por culpa nossa. De 1927 para cá a Grande Loja teve os seguintes Grãos Mestres: 1927 – Augusto Simões. que é quem dá a aprovação. na realidade. novamente. a Grande Loja da Paraíba é a Grande Loja mãe da loja do Ceará (que veio logo depois. de 45 a 1948 – Abelardo de Oliveira Lobo. São Paulo. de 1998 até 31. De modo. elas não foram fundadas em todos os Estados. Quando foram fundadas essas Grandes Lojas em 1927. de 95 a 97 – Edilaudo Nunes de Carvalho. e a mulher hoje desfruta um espaço que ocupa brilhantemente. não nos seus templos. de 63 a 1964 – Olegário Lins e Silva. em 64. Bahia. José Lopes da Silva. de Pernambuco (1943) e Rio Grande do Norte (1974). Com a renúncia de Augusto Simões. Minas Gerais e Rio Grande do Sul. e não podemos ser porque respeitamos as leis do país e a elas estamos sujeitos. porque sabemos que o mundo já mudou.Rio de Janeiro. ele não quis ficar com as duas coisas e imediatamente propôs que fosse eleito como primeiro Grão Mestre o irmão Manoel Veloso Borges. apenas cinco Estados se predispuseram a fazer as suas Grandes Lojas. motivo pelo qual toda vez que havia um interregno entre um Grão Mestre e outro. de 61 a 1963. ele sempre aparecia como Grão Mestre. de 48 a 1954 – João Tavares de Mello Cavalcanti. foi-lhe dado o título Grão Mestre ad vitam. o qual foi eleito por aclamação e para Grão Mestre Adjunto. 2 e 3. As Grandes Lojas administram apenas os graus 1. em 1928). E o mapa do Brasil foi dividido de acordo com a fundação dessas Grandes Lojas. foi interino. o irmão João Arlindo Correia. sou eu que estou exercendo o grãomestrado. Mas como ele já exercia a representatividade do filosofismo. Abel Montenegro Rocha. de 70 a 79 – Francisco Edward Aguiar.2000. Hoje não somos mais uma sociedade secreta. ou um atraso de eleição. Foram Paraíba. Há uma pergunta que existe sempre entre os que não são mações. A sociedade hoje tem uma visão clara do que a Maçonaria faz. pois ainda é uma tradição. 1998 – Romildo Lins de Toledo. de 37 a 1944 – Otávio Celso Novais. de 28 a 1937 – João Arlindo Correia. Foi eleito como Grão Mestre o irmão Augusto Simões. de 79 a 81 – Francisco Mariano. de 54 a 1961 – João Arlindo Correia.

que são dadas por entidades superiores. mas era professora do Colégio Nossa Senhora das Neves e auxiliar do professor Gazzi de Sá no Seminário Diocesano da Paraíba. que recebeu uma comitiva das freiras do Colégio Nossa Senhora das Neves que lhe foi fazer um apelo. Conhecia pela vivência. Não podia casar-se na igreja. quem era e quem não era maçom. Gostarei de dar um depoimento pessoal sobre essa matéria. Vejam só o paradoxo. Moisés Coelho. mas podia ensinar dentro de colégios católicos. Foi esse o grande desafio que Augusto Simões e esses irmãos que mencionei tiveram. Meu avô morreu em 1944 e no final do ano minha mãe foi casar-se e teve seu casamento negado pelo Bispo D. Imagine naquela época uma loja maçônica funcionando ma mesma rua da Catedral Metropolitana e do Convento de São Bento.mento exterior semelhante ao nosso relacionamento diplomático. A nossa confederação tem sua carta constitutiva dada pela Confederação Interamericana. hoje são mais abertos. de maneira aberta. Os ensinamentos maçônicos que tenho hoje devo à minha mãe Luzia Simões Bertoline. O público vendo quem entrava e quem saía. E minha mãe foi a herdeira do pensamento de Augusto Simões. Se esses dogmas não forem modificados. Foi a primeira loja que trabalhou de porta aberta ao público. Inclusive ela foi perseguida pela Igreja pelo fato de ter sido filha do Grão Mestre. Ela só se casou na igreja em 1953. seu pai. Com esse retrospecto penso ter complementado a brilhante exposição do irmão Hélio Zenaide. Se colocarmos a mulher na Maçonaria. minha mãe. quando o Bispo era D. não pelos livros. uma das mais tradicionais que existem. porque eu defendo a participação da mulher na Maçonaria. Ela foi proibida de casar na igreja. Porque a Loja Branca Dias teve a audácia de quando construiu aquele templo da avenida General Osório. Tinha quatro filhos mações e depois da morte de Augusto os filhos homens se separaram da Maçonaria. sem uma aprovação mundial. E eu com cinco anos assisti ao casamento de minha mãe. Adauto. o fez de maneira aberta e não mais escondida. estaremos sujeitos a perder o nosso reconhecimento. 356    . que por sua vez tem sua carta constitutiva dada pela Grande Loja da França. Ela continuou me passando todos os ensinamentos que ela conhecia. nós não podemos modificá-los e ficarmos isolados e considerados uma potência espúria. como devo também a parte dos ensinamentos musicais. nunca. que eram altamente fechados. Para sermos criados temos cartas constitutivas.

com os vultos que a sustentaram e sustentam.A fala do Presidente: O Grão Mestre Edgard Bartoline Filho. foram registrados. pergunto: seria possível. não obstante a excelência da palestra do consócio Hélio Zenaide. 1º participante: Guilherme d’Avila Lins: Tenho que elogiar a beleza de trabalhos apresentados pelo expositor e debatedor desse tema. O Vaticano está abrindo também seus documentos. registros. Seu pronunciamento dá uma visão global da história da Maçonaria no mundo e no Brasil. imagino que o arquivo histórico da Maçonaria é um arquivo fabuloso. O SNI abriu. Sem sua participação neste Ciclo de Debates esse tema ficaria menos enriquecido. e deste país. Agora passaremos ao debate com a participação do plenário. As transformações. de afinidade ou de distanciamento. e que é de fundamental importância para qualquer historiador? 357    . do ponto de vista histórico. Outra pergunta quem faz é o meu eu pesquisador de história. imagino que atas. de diferenças ou de aproximação entre a Maçonaria e a antiga e mística Ordem Rosa Cruz? Ouço dizer que existe uma relação apenas de certo nível. na parte esotérica. mas farei a seguinte indagação: Qual a é verdadeira relação que existe. sua implantação no Brasil. abrir este acervo que imagino deva existir na Maçonaria. político e histórico do mundo inteiro. sua filosofia e forma de funcionamento ficaram à mostra para nosso conhecimento. e eu passo a palavra ao primeiro debatedor inscrito. Então. complementou com brilhantismo a palestra do nosso consócio Hélio Zenaide. detalhando aspectos pouco conhecidos de nós não mações. a influência que. como pesquisador. Em 1932 o papa negro – o padre geral da Companhia de Jesus – abriu para os seus os arquivos secretos da Companhia de Jesus. Nesse sentido. documentos devem ter sido feitos. Imagino. que o confrade Guilherme d’Avila Lins. gradativamente. Todos nós sabemos a importância. teve a Maçonaria no processo social. ao longo do tempo. mas tudo isso é de ouvi dizer. Sua origem. O Mosteiro de São Bento de Olinda também está abrindo. que todo essa cadinho de discussão como lidar com o processo social de cada momento histórico. nosso debatedor designado. Detalhes da Maçonaria paraibana. suas mudanças foram aqui dissecadas.

Mas na Loja Regeneração do Norte temos todas as atas com todos os pronunciamentos. Existe o grau 18. Está aberta a quem quiser compulsá-la.Hélio Nóbrega Zenaide. de 1927. etc. é uma ordem totalmente mística. posso dizer que são duas coisas totalmente diferentes. mas o que li sobre ela é que ela tem base na estrutura do Egito antigo. Com relação à vinculação da Ordem Rosa Cruz com a Ordem Maçônica. nos últimos meses do ano passado tive a oportunidade de compulsar todas as atas da minha Loja. Não existe essa história de que mulher não sabe guardar segredo. Temos o Livro de Ouro da fundação da Loja. complementando: Está aqui a ata da fundação da Grande Loja. Mas Rosacruzes.. Edgard Bartoline. Não respondo pelo Grande Oriente do Brasil. padre Feijó. Com relação aos demais. Todos esses irmãos que foram citados por Hélio Zenaide e outros que não foram citados. todos eles pertenceram ao Grande Oriente do Brasil. E se não estiver. tem que estar porque fatos de 50. infelizmente não posso adiantar nada porque esse grande acervo histórico está de posse do Grande Oriente do Brasil. que se chama grau dos Cavaleiros Rosacruzes. não sei dizer que orientação a Maçonaria poderá tomar. Temos de convir que os direitos autorais terminam com 50 anos. como Tamandaré. há mais de cem anos. é mista. A Ordem Rosa Cruz é uma ordem própria. Recentemente sua Grã Mestra era uma mulher. Minha dificuldade foi identificar as palavras por causa da caligrafia da época. é muito bem dirigida. Li da primeira à última ata. Acho que o Grão Mestre Edgard Bartoline poderá acrescentar alguma coisa. por que? Não porque tem vinculação com a Ordem Rosa Cruz. respondendo: Quanto aos arquivos. Gonçalves Ledo. pois a mulher sabe guardar mais segredo do que o homem. Temos o discurso do nosso fundador Coriolano de Medeiros na Maçonaria. que tem seu Grão Mestre próprio. José Patrocínio. o que constitui um exemplo para a Maçonaria. nessa época histórica. que foi Jesus Cristo. que tem mais de cem anos. para dizer se essa documentação está aberta aos historiadores não mações. de 100 anos. à qual não pertenço. Para os mações tenho certeza que está. Não sei se esses livros vão ter acesso à pesquisa de modo geral. que na realidade foi a primeira instituição maçônica como potência que abrigou os nossos mações do nosso país. têm que ser levados em consideração. Mas. José Bonifácio de Andrade e Silva. Rosacruzes porque tem vinculação com as Cruzadas e este grau tem como seu patrono nosso Mestre maior. Daí também nossa crítica aos evangélicos e católicos que não 358    . com a assinatura de todos os membros presentes à fundação da Loja. do rito escocês antigo.

que cobraram dos expositores esclarecimentos seguros. São esses grandes filósofos e pensadores da humanidade que fazem com que a gente reverencie porque colocaram. Joacil Pereira. E para abrilhantar o debate houve alguns impertinentes. meus cumprimentos para a mesa que dirige os trabalhos. muito antes da Maçonaria. como filósofo. ao presidente da mesa. que foi complementado pela valiosa contribuição do debatedor Edgard Bertoline Filho. também a ele é dedicado. quando ele se referia a uma documentação enorme para o ingresso na Maçonaria. com Zeus. Igualdade e Fraternidade. Muitas vezes se vê que é um bom pai de família. totalmente leigo no que diz respeito à Maçonaria. O grau 18 é dedicado a Jesus Cristo. a minha pergunta é sobre os critérios para o ingresso dos leigos na Maçonaria. cumpridor dos seus deveres e ingressa na Ordem. A fala do Presidente: Sentimo-nos satisfeitos com os debates sobre nosso tema de hoje. Joacil Pereira indagou logo porque não há mulher na Maçonaria. Edgard Bartoline: Os princípios básicos: Ser um homem de bem e crer num ser superior. o que me chamou a atenção no momento foram as palavras do Dr. que é o grau 32.conhecem que temos graus dedicados a Jesus Cristo. ao expositor. Isso pode acontecer. Pois não temos condições de fazer um levantamento sobre a vida pregressa de uma pessoa em todas as circunstâncias. mas depois tomamos conhecimento que ele tem um caso com uma segunda família que ninguém sabia. o pensamento que nós temos hoje. com Brama e outros pensadores. e por mais pesquisas que façamos estamos sujeitos a passar por algumas decepções. somos falhos. Como leigo. que foi o deus central dos gregos. bom filho. Jesus Cristo se referiu à Maçonaria em duas ocasiões especiais. ao debatedor. Tivemos uma exposição excelente feita pelo nosso companheiro Hélio Zenaide. São coisas com que a gente se ressente. Mas. Então. que é o pensamento voltado para a Liberdade. mas também tive experiências muito tristes. Apenas 359    . somos humanos. com Hermes Termogisto. um grau superior. onde o colocamos juntamente com seu pensamento filosófico Sidarta Gautama. 2º participante: Manoel Silveira: Em primeiro lugar. Tenho tido gratas experiências.

essas instituições têm um esquema hierárquico. nas instituições desse tipo. superior. Diretoras e algumas exercendo importantes funções nas Comissões Internacionais. continuando sua fala: Foi a mesma situação do Rotary International. Nosso expositor. que são instituições similares. como explicou o Grão Mestre Bartoline. Foram precisos mais de 80 anos para se admitir o ingresso da mulher. A Ordem Maçônica é rígida. são muito vagarosas. mas cedo ou tarde essa mudança se efetuará. não reclamou. Aparte dum participante: No Lions só depois de 1887. portanto. as Lojas que são dependentes não podem inovar. companheiro Hélio Zenaide.perguntou. distribuirá com os presentes uma cópia sintética de sua exposição. O Rotary abriga líderes das mais diversas atividades. Na realidade. Eu tenho essa experiência no Rotary International. O Presidente. E hoje nós já temos governadoras de Distrito. mas a mulher não entrava. 360    . É. O Rotary International foi fundado em 1905 admitindo somente homens. do qual sou participante desde 1948. As mudanças. Se a cúpula não concorda com as mudanças. uma questão de tempo.

não obstante sua intensa atividade na vida pública e na vida forense. por sua forte atuação nos meios culturais. onde se formou em 1950. embora a generosidade do Presidente tem permitido o elastério desse prazo. então as minhas palavras iniciais são de elogio à sua ação de excelso administrador. portanto. na chamada “Turma do Meio Século”. seguindo nossa praxe. merece. deputado estadual e deputado federal. Porém. Com a palavra o professor Joacil Pereira. é professor de Direito na Universidade Federal da Paraíba. sócio do Instituto Histórico) Não será demais enaltecer a iniciativa feliz e ousada do presidente do Instituto em promover este Seminário. que está a cargo do confrade Joacil de Britto Pereira e teremos como debatedor o jornalista Gonzaga Rodrigues. Na verdade. professor universitário. Expositor: Joacil de Britto Pereira (Advogado. Sócio deste Instituto.16º Tema: A PRODUÇÃO LITERÁRIA NA PARAÍBA Expositor: Joacil de Britto Pereira Debatedor: Luiz Gonzaga Rodrigues A fala do Presidente: O tema para debate hoje programado é A PRODUÇÃO LITERÁRIA NA PARAIBA. sobre a criação da nossa literatura 361    . pela segunda vez é o atual presidente da Academia Paraibana de Letras. que não poderia jamais se comportar nas lindes de uma exposição com prazo marcado. escritor. o tema que me foi proposto para exposição é um tema realmente muito vasto. de dinâmico empreendedor dirigente do nosso IHGP. Nosso expositor. falar sobre a literatura paraibana. muito fortes os motivos por que o convidamos para falar sobre a literatura paraibana. uma apresentação. da qual foi orador oficial e foi agraciado com uma viagem a Europa. foi Secretário de Estado várias vezes. São. do qual foi presidente por dois mandatos. Ele é bacharel em Direito pela Faculdade do Recife. presidente da Academia Paraibana de Letras. apesar de ser bastante conhecido do plenário. escritor de escol.

os vates despontando na literatura paraibana. era 362    . inclusive um certo autor. Então bastaria o EU E OUTRAS POESIAS de Augusto dos Anjos para eternizar o valor literário e intelectual da Paraíba. é sempre Europa gloriosa. Pedro Américo. Pois esse continente onde reside a cultura universal endeusou e proclamou o valor mais alto desse paraibano nascido em Areia. / A mulher deslumbrante e caprichosa. nasceu nesta capital. que foi Pedro Américo. muito vasta. A Paraíba tem uma literatura rica em todos os gêneros. tange os sinos de Ferrara / No glorioso afã. um homem que escreveu neste país em todos os gêneros. ao tempo em que a província se chamava Paraíba do Norte. um homem de uma sabedoria imensa. embora ele tenha sido apontado como primeiro poeta porque foi o primeiro a publicar poesia. dizendo: Europa. só para apontar. inclusive no setor literário. 50 anos antes de Monteiro da Franca. porque. Isto eu considero um contra-senso e uma ofensa às nossas tradições de inteligência e de cultura. / Poetisa. para começar bem). de forma alguma. que Castro Alves definiu em sua bela inspiração. esgotando todos os autores. poderíamos enfocar pelo menos os principais: José Vieira. Antônio Carneiro de Albuquerque Cunde. foi um sábio. No romance. José Lins do Rego (os três grandes Josés. escreveu e publicou dois poemas em Latim.na província desde os seus começos é tarefa muito ampla. Francisco Xavier Monteiro da Franca. sem citar. Uma terra que deu poetas maravilhosos. Naquele tempo era usual. Bastaria esse. das artes plásticas em geral. entre os quais despontou o segundo gênio da Paraíba: Augusto dos Anjos (palmas). portanto procurarei ser o mais sucinto possível. cujo nome parece um gemido de angústia. data vênia. diz que a Paraíba não tem literatura. radical nas suas posições. que inclusive escreveu romance e foi um dos primeiros gênios a despontar neste país no campo da pintura. para registrar. / Artista. basta um livro para eternizar uma civilização. que passarei depois a mencionar. A despeito de algumas figuras negativistas. mas 50 anos antes nós já tínhamos vários poetas. menos em teatro. José Américo de Almeida. nos seus entendimentos. Então. aplaudir. às vezes usando uma linguagem até telegráfica. Ascendino Leite. / Rainha e cortesã. corta o mármore de Carrara. Nosso primeiro poeta despontou na figura de Monteiro da Franca. Toda província neste país luta para ter uma autonomia em todos os setores. É um excesso de radicalismo que não podemos. é inaceitável. reconhecido na Europa. dizer-se que a Paraíba não tem literatura. Já àquele tempo nós tínhamos os bardos. como disse Eça de Queiroz.

E quem já leu pelo menos um ou dois dos poemas desses livros saborosos há de concordar comigo quando digo que era um poeta maravilhoso e mavioso. Antônio Elias Pessoa. seus versos eram publicados nas melhores revistas do Rio de Janeiro. de tal forma que era ensinado em todas as escolas. 363    . inteligência rara.modismo cultuar-se o Latim. PRAIAS. não apenas superiores. criador de neologismos. sua praia. os versos que jamais esqueci. Mas ele se perdeu na boemia e tinha uma noiva chamada Aurina Silveira. sócio deste Instituto e da Academia Paraibana de Letras. Era um homem notável. não queria mais saber de casamento. E a poesia do paraibano é tão fértil. e na sua criatividade formou neologismos com nomes próprios e de outros que não eram nomes próprios. paraibano ilustre. parece que está na nossa alma. lírico. Uma vez ele me contou chorando. que era poeta e jornalista. em 1869. Esses nomes foram criados por ele. porque adorava sua terra Lucena. hoje cidade de Lucena. A ROSA DE ALEÇON e SOLUÇOS DE REALEJOS. Ele então fez. mas até nas escolas de segundo grau. Mas ficou como um anjo de candura. entre outros livros. e foi esse poema que o consagrou. diretor da Biblioteca Pública. que. romântico. AURAS PARAIBANAS. com o título de FELICIDADE: Felicidade. que figura entre os primeiros e melhores versejadores. ele foi diretor do jornal A UNIÃO. e me mostrou. Era irmão de Benjamim Pessoa. Desesperado. Antônio Cruz Cordeiro. Antônio Elias Pessoa foi um poeta que fez versos religiosos no velho estilo romântico e foi até o gênero parnasiano. indo buscá-lo em toda parte. Tivemos também Albino Meira. VISÕES DE OUTRORA. Foi uma viúva antecipada. arrependido por que tinha feito uma grosseria com Aurina. nos deixou a LIRA MELANCÓLICA. adorava as nossas praias. nascido na então vila. tivemos Américo Falcão. que o conheci. Julguem entanto sonho falaz. publicou um poema sobre o episódio da esquadra brasileira nas águas do Paraguai. ficou impotente. publicou. Só não te encontram os poetas tristes Que te procura onde não estais. porque foi noiva até quando ele morreu. Ele perdeu as condições para se casar. publicado em 1901. Marluce. NÁUFRAGOS. foi poeta. tu bem que existes. Aurina soube qual era o motivo. além de grande jurista e lutador republicano. é tão espontânea. era um poema épico sobre a Batalha de Humaitá. como Lucemar.

E eu todo cheio de ingenuidade. Hoje. – Está aqui o que o protegido do senhor fez comigo. mas tive conhecimento entre vários amigos. Na sua juventude. e Ruy deixou o poeta morrer em paz. achou graça e disse que ia tirar Benjamim da repartição dele. no outono. (palmas) Aí chegou o Pordeus. e começou a cortar os pontos de Benjamim. Ruy Carneiro riu. de um lindo alvor. Antônio Nominando Diniz Sênior. – Quero deixar o poeta em paz. o pai do atual presidente da Assembleia Legislativa. publicou um livro de poesias intitulado ARCO-ÍRIS. Benjamim fez então o seguinte versinho. e Ruy gostava muito dele. quase adolescente. Vou dizer uma coisa que poucos sabem. tão espontânea. Quando ele vivia nesse auge da bebedeira. foi meu companheiro de boemia. felicidade. no Livro de Ponto: Quem tem alma de ateu E possui tão mau coração Ao invés de se chamar Pordeus Devia se chamar pelo cão. Não tive a ventura de conhecer esse livro. foi direto ao interventor. Em pleno ocaso da mocidade Em vão te busco. felicidade. um Pordeus. Branco de lírios. foi companheiro de farra de Ruy Carneiro. Essa Paraíba tão fértil. Sem conhecer-te. chefe da repartição. assumiu a chefia da Recebedoria de Rendas. desiludido. que dizia que era um livro muito interessante. da qual se pode dizer. como já se dissera outrora dos sicilianos. que se quer dizer que não tem literatura. Nunca assinou um ponto. entre os quais João Bernardo. de cantatas de violão. Nos doces tempos de minha aurora. sonho perdido. que ele era rigoroso demais. possuído de uma ira sagrada. porque o nosso Nominando é uma fi364    . é um povo de imaginação aguda e de precoce inteligência. mandei-te embora. Beijos trazendo na boca em flor. e quando viu aquilo. cheirando a rosa. tão viva. (palmas) Benjamim trabalhava na Secretaria das Finanças. onde ele trabalhava. É essa Paraíba assim. Vinhas ridente. Era um funcionário zeloso. Ruy Carneiro o isentou de ponto. Não sei porque ele não continuou. tão meiga e airosa.Já me buscastes. Porém. Felicidade. Toda de branco. quando estudante no Recife.

Aliás. Era casado com uma moça da família Teixeira (ele já morreu) e tinha compromisso (porque os Teixeira eram muitos ligados aos Ribeiro Coutinho. que publicou. Dra. historiadora e também poetisa. que era o pseudônimo de Ulisses Lins de Albuquerque. O título é meio esquisito. e. Amélio entrou no recinto quase à força. E Ascendino Leite está aí. Na hora da eleição da Mesa o PSD cobrava fidelidade partidária. em 1930. A poesia é tão fértil entre os paraibanos que José Américo de Almeida escreveu versos aos 90 anos de idade. porque é muito engraçado. estou terminando um ensaio biográfico sobre Ascendino. meio extravagante. pedindo para ele cumprir o compromisso. um livro só. Tinha até um que é meio proibitivo. que era amigo íntimo do Imperador Pedro II. homem muito inteligente. Eudésia. Essa pergunta chifrim: Esse cerne contorcido É o de José Jardim? Houve também outro episódio que nos distraiu muito. embora tivesse sido sufragado pelo PSD.” e saiu por aí. Amélio Leite elegeuse deputado estadual. que eram da UDN) de acompanhar os Ribeiro Coutinho depois de eleito. faz versos e livros de poesia que são elogiados pela crítica nacional e estrangeira. inclusive o comendador Renato Ribeiro. que construiu o grande açude Poços.. Como meu companheiro na Assembleia ele fez vários versos de improviso. mas hoje a televisão divulga coisa muito pior. E os Teixeira com os Ribeiro estavam todos lá. Eudésia Vieira. escreveu um livro de poesias com o nome O CERNE CONTORCIDO. que foi uma grande paraibana. O PSD puxava dum lado e a UDN puxava do outro. parente do pai de Humberto Mello. Eu ainda cito entre os poetas Bilac Sobrinho. grande orador. em Teixeira. O Cônego Bernardo. vou dizer. Era sócio correspondente do 365    . Nominando fez esse verso: Me responda. Dra. mas um livro muito aplaudido no tempo: DE JOELHOS. Quando o livro chegou à Assembleia.. Vou encontrar Ascendino sendo louvado em terras de Portugal e em terras da França.gura notável. foi um poeta parnasiano dos melhores que tivemos. com 84 anos. Então Nominando Diniz fez uma paródia interessantíssima com o samba AMÉLIA: “Amélio não tinha a menor qualidade. Ele é também um representante do talento paraibano para esmagar a afirmativa negativista de que a Paraíba não tem literatura.

irmão. Irene Dias Galvão fez sensação com sua poética erótica. CÂNTICO DA TERRA JOVEM. temos que mencionar Hildeberto Barbosa Filho. nascido em Aroeira. numa época em que a discriminação ainda era mais odiosa do que hoje. No tempo em que nasceu. orador extraordinário. que João Lélis chamou de “o gênio pardo da raça”. é também crítico literário dos melhores que temos. que depois saiu com o título mais expressivo de ELES SONHARAM COM A LIBERDADE. inclusive trazendo para a Paraíba o hai-kai. um gênero de poesia de origem japonesa. Mas foi um poeta notável. escrevendo em diversos gêneros da literatura. com os muçulmanos. constantemente puxando fogo.. JESUS BRASILEIRO. ninguém improvisava melhor do que Eliseu César. talvez insuperável. a terra de Gonzaga Rodrigues e também foi membro do Instituto e da Academia de Letras. membro da Academia Paraibana de Letras. filho de Alagoa Nova. autor do romance DEZESSETE. talento verbal dos maiores que a Paraíba já teve. político combativo. Era um homem de cor. cronista de mão cheia. Ensaísta.Instituto. Mais recentemente. Foi jornalista. foi beletrista. Félix Araújo. improvisava com entusiasmo e tinha uma gesticulação que comovia a todos. Escreveu sobre Sadi e Ágaba. José Rodrigues de Carvalho. Ele venceu. primeiro no Pará. Eudes Barros. E Eduardo Martins. de quem fui amigo pessoal. entre outras coisas. e eu reputo o seu melhor poema BODAS DE PRATA. que foi também folclorista. Seu livro mais notável foi ALGAS. Ela escreveu. membro deste Instituto.. Eliseu César. onde hoje ainda continua. . de Alagoinha. e depois aqui. Era inflamado. que não é só poeta. sobretudo no mundo asiático. cujo nome completo era Eudes Barros de Luna Freire. como lembra aqui o Presidente. quebrando os grilhões que deixavam a mulher um tanto escravizada ou marginalizada. 366    . E Leonel Coelho? O poeta que vivia bêbado. autor de O CANCIONEIRO DO NORTE. Alagoinha era vila do município de Guarabira. fosse ouvindo-o nos salões ou nos comícios populares. EU MULHER. mas hoje os dois municípios brigam para ser a terra mãe de Rodrigues de Carvalho. Era também um orador maravilhoso. Belos sonetos ele fez oferecido a Nossa Senhora das Neves. já que estamos falando de poetas? Foi também historiador. E nisso ele foi mestre. que fez época na Paraíba. Porque a mulher tem sido injustiçada neste mundo de meu Deus desde as priscas eras. nos deixou no gênero poético FRUTAS E PAÚIS.

Quando chegou no cemitério. Barriga de almofadão. Tinha um poema que a gente declamava nos esquetes de teatro. Livramento invade”. ele se intitulava “padre. – Eu vim lhe oferecer o grande livro POEMA ÉPICO DE 30. Era esse o Leonel Coelho. se você for oferecer. A firma era Silveira Brasil & Cia. no Nordeste. à beira do túmulo. que também foi outro grande poeta. Silveira então disse: “manda chamar o homem que eu quero comprar”. bandido. uma memória fora de série. Miguel Jansen Filho. que era um repentista extraordinário. cujo nome agora não recordo. por que se você declamasse uma poesia junto dele ele dizia: “essa é minha”. atrevido”. PARALELEPÍPEDOS e escreveu o POEMA ÉPICO DE 30. Ele chamou um carro de praça e acompanhou o enterro. Leonel sentado numa banca. no gênero de poesias matutas. que dizia assim: Ó gênio. disseram. uma cortesã. Era Silveira Dantas. parai. Leonel correu. ele chegou e disse: – Parai. que foi um dos maiores. romancista. aquelas coisas das lutas de 30. como Carlos Dias Fernandes. disseram: “ali tem um senhor que. perguntou: – de quem é esse enterro? – É de fulana de tal. só comparável à de Euríclides Formiga. Mathias Freire. ele disse: “Silveira.e quando morreu uma pessoa de projeção no meretrício paraibano. – Está? e o que é que diz? O caixeiro leu: “em fevereiro. Silveira disse: “Cachorro. Eu sabia uma versalhada dele. seu nome está aqui no livro”. Era uma marafona. o menor de todos. o bandido Silveira Dantas. E declamava a poesia toda. Ele não sabia que Silveira era da família Dantas. poeta. ele compra bem uns 10”. poeta. Saiu vendendo o livro pelo Estado e quando chegou em Campina Grande. coveiros apressados. grande improvisador. Mardokeo Nacre. que ruiu a viga mestra do meretrício paraibano. mas a memória já está me falhando. e partiu para cima de Leonel. de Mamanguape. Ele escreveu MISÉRIAS. Entrou dizendo: “quem é aqui o chefe da firma Silveira Dantas?” Silveira disse: “sou eu”. Euriclides era um homem perigoso. arcanjo e passarinho”. que tinha ouvido naquela hora e 367    . caíram dois livros no chão e o caixeiro de “seu” Dantas pegou o livro e ficou folheando e quando chegou lá num trecho. era grande poeta. em homenagem ao imortal Presidente João Pessoa. Ele então foi para lá. Foi jornalista. Puxe o gato pelo rabo Pra fazer judiação. Suas poesias foram muito elogiadas por Carlos Dias Fernandes. quando o enterro ia passando.

nascido em Guarabira. É forma concreta de uma noção abstrata. cujo nome eu invoco com saudades. Francisco Pereira da Nóbrega. professora de português. Jomar Moraes Souto. Simbolizar é objetivar as ideias da vida. hoje é senador. Eujalose Dias de Araújo. Inácio sensibilizou o seu senhor (ele era escravo). Osório de Medeiros Paes. ambos da Academia Paraibana 368    . com tanto que ele continuasse a cantar. Era cearense. Dona Olivina Carneiro da Cunha também deve figurar entre os poetas. que lhe deu alforria. que foi o primeiro paraibano a ter ingresso na Academia Brasileira de Letras. o poeta da “Pequena Cruz do seu Rosário”. Pereira da Silva.depois a declamava de trás para diante. improvisando versos notáveis. entre os quais eu destaco Pinto do Monteiro. Também grande orador. Era uma memória que talvez tivesse paralelo com a de Jansen Filho. temos Políbio Alves. Cantava manejando um pandeiro Entre os mais modernos. porque eu o li emprestado por ele. As imagens e forma real aos sonhos. onde fez sua vida pública. Não sei se Luiz Hugo se lembra. como este que aqui está – o Gonzaga. biografia do pai. Romano do Teixeira e Inácio da Catingueira. Raimundo Asfora. cronista de escol. de Taperoá. Esse homem de tanto valor foi também grande jurista. autor de CRISTAIS E BRONZES e DANÇA DE IDÉIAS. melhor do que poeta. de definições e de conceitos. Grande educadora. Sérgio de Castro Pinto. E improvisador. Membro deste Instituto e da Academia Paraibana de Letras. E se nós tivermos realmente sensibilidade poética. quando ele disse: Símbolo é carne do pensamento. Crispim. radicado em Campina Grande. também. é também poeta e bom orador. Raul Campello Machado. e radicado em Campina Grande. Perylo de Oliveira. Lúcio Lins. Esse livro DANÇA DE IDÉIAS me liga muito a Luiz Hugo Guimarães. filho de Araruna. é tão lindo esse livro porque ele é só de poemas em prosa. com VÕOS DE PÁSSAROS e CAMINHOS CHEIOS DE SOL. como eu recordo ainda. Ronaldo Cunha Lima. Mas Crispim é também poeta laureado com prêmios. Gonzaga. escreveu também além dos livros de poesia O BARÃO DE ABIAHY. não podemos deixar de nos referir os nossos cantadores. eles estão entre os maiores cronistas da Paraíba. Antônio Arcela e o nosso Luiz Augusto Crispim.

autor de várias obras notáveis como CARNEIROS CINZENTOS. filho de Esperança. crítico laureado. também romancista. num lugar Puxinanã” e ele diz que Queria ser um caçote. dizendo que a nossa terra é que era Brasil: “Um Brasil brasileiro / sem mistura de estrangeiro / um Brasil nacioná. Sua poesia tem um conteúdo filosófico. no Rio de Janeiro. Escreveu um romance TEMPO DE VINGANÇA. Ângela Bezerra de Castro. Silvino Olavo. escrevia no JORNAL DO COMÉRCIO e DIÁRIO DE PERNAMBUCO e depois nos jornais da terra. BOLSOS VAZIOS. cujo nome de registro é Severino da Silva Andrade? Poesia gostosa. até da Academia Brasileira de Letras. em Pernambuco. Elizabeth Marinheiro. Crítico também foi Juarez da Gama Batista. Nós é que somos o Brasil. Alcides Bezerra. é também crítica e ensaísta. nós temos Álvaro de Carvalho. E por que não falar de Zé da Luz. também é crítica e ensaísta.de Letras. tendo por fundo histórico a Revolução de 1930. Morreu louco.” E é mesmo. não podemos esquecer de Virgínius da Gama e Melo. RANGER DE DENTES. o poeta do absurdo e da saudade. Alyrio de Meira Wanderley. Quem não conhece aquela que começa assim: “Era uma vez três irmãs. começo por dizer que todos os membros deste Instituto Histó369    . Na crítica. nascido em Bananeiras. natural de Monteiro. que fez crítica por muito tempo. Na História. com os óio desse tamanho pra ver aquele magote de moça tomando banho. Aqui nasceu o sentimento de Pátria. também é outro poeta notável. autor premiado em vários trabalhos. E Zé Limeira. nascido em Patos. foi advogado. que surgiu assim no espaço intelectual da Paraíba como um meteoro brilhante e logo desapareceu. o sentimento de nacionalidade. e poetas excelentes. que era também jornalista. para a gente rir. saborosa. Fez também uma poesia muito boa sobre o nosso matuto da Paraíba. que já entrou na relação dos poetas. Esta é que a terra brasílica por excelência. Vanildo Brito. mas ainda houve tempo de escrever CISNE e SOMBRAS. Hildeberto Barbosa. membro da Academia Paraibana de Letras. filho de Mamanguape. também é crítico de escol. com muitos prêmios aqui. Falando dos críticos. que recentemente assumiu uma cadeira na Academia Paraibana de Letras.

No meio dos insetos daninhos. Nós lhe demos o nome de diploma e de uma medalha. O seu nome. muito bem posto este nome pelos que fizeram o Instituto de antanho. Escreveu um livro que ficou célebre: BREJO DE AREIA. Foi historiador de méritos. o negrinho José Maria dos Santos.rico. Carmem Coelho de Miranda Freire. pesquisando alfarrábios. Escreveu a História de São Paulo e esse homem colaborava no jornal LE FIGARO. onde foi Redatorchefe. que também fez uma História de Campina Grande.Irineu Ferreira Pinto –. João Lyra Filho. nasceu em Patos. documentos antigos. que ele antes denominara de Terra do Bruxaxá. ele perdeu a saúde. o fundador da nossa Academia. Luiz da Silva Pinto. diplomata. Foi jornalista e historiador. E deu nome a esta Casa – Casa de Irineu Pinto. filho daquela terra. considero o maior historiador moderno do nosso Estado. É um paraibano que devia ter uma estátua aqui na Paraíba. Porque aqui só se entra se tiver pelo menos uma obra sobre assuntos históricos. que escreveu muito sobre a história do seu município. ou do Brasil. Poliglota. como o Cônego Florentino Barbosa. Deusdedit Leitão. escreveu romances e ensaios. em todos os tempos. notável também na vida pública. que se imolou por amar a pesquisa. Tão importante foi o seu papel na fundação da Academia Paraibana de Letras que aquela casa hoje se chama Casa de Coriolano de Medeiros. e os atuais. Se tivéssemos tempo iríamos enumerar outros. Epaminondas Câmara. portanto. Archimedes Cavalcanti. uma COROGRAFIA DA PARAÍBA. Coriolano de Medeiros. Elpídio de Almeida. que tem um recente trabalho de pesquisa feito pelo nosso Presidente. mas temos também que mencionar na História aquele que Luiz Hugo apontou. era outro apaixonado por Campina Grande. sem medo de errar. campinense. grande historiador. deve ser lembrado com todo respeito. um dos mais recentes e que a todo instante nos causa a agradável surpresa de ser um velho historiador. que 370    . E não podemos deixar de nos referir ao maior de todos os historiadores da Paraíba. os do passado e do presente. nascido em Campina Grande. Antônio Freire. uma obra com matéria da historiografia da Paraíba. Irineu Ceciliano Pereira Joffily. devem ser incluídos na relação dos historiadores. Temos o outro Irineu . Aqui mesmo está um. Maximiano Lopes Machado. Foi também um dos fundadores do Instituto Histórico. E escreveu em dois volumes uma História da Paraíba. Horácio de Almeida. Atuou também no jornalismo e dirigiu o jornal O ESTADO DA PARAÍBA. Sebastião Bastos. Humberto Carneiro da Cunha Nóbrega. peças teatrais. que foi o primeiro historiador. Cristino Pimentel. o nosso Guilherme da Silveira d’Avila Lins.

Aderbal Piragibe (esse era um panfletário extraordinário). Escreveu no JORNAL DO RECIFE e no LIBERAL da Paraíba. Mathias Freire. de quem é fervoroso admirador. Era difícil colaborar naquele jornal. Ele escreveu também ADALBERTO RIBEIRO. PODER. fundando a Revista ERA NOVA. Eu citaria Severino Lucena. que é historiador e ensaísta e político. Vai lançar dentro de poucos dias um trabalho sobre Manuel Tavares Cavalcanti. mas como um animador cultural. sempre lutando pela liberdade. José Rodrigues de Carvalho e assim por diante. Carlos Dias Fernandes. Eudes Barros e alguns outros estreantes na arte de escrever. Quem não pode admirar um homem da têmpera de Antônio Borges da Fonseca? Político militante. Começou a escrever no jornal CRENÇA. Marcus Odilon Ribeiro Coutinho. Terminou sendo candidato de oposição e perdeu a eleição. não como um jornalista profissional. Fundou jornais aqui e em Pernambuco. ALEGRIA DOS HOMENS. Perylo de Oliveira. que pode ser lembrado como grande jornalista. fundou um jornal chamado A REPÚBLICA e foi combater Álvaro Machado. 371    . e a convite. porque Álvaro criou aqui no Estado uma oligarquia antipaticíssima.ainda hoje ocupa uma cadeira neste Instituto. Da velha escola colaboraram também Américo Falcão. de Sílvio Romero. escreveu A MANSÃO DA BELA VISTA. Gama e Melo. revolucionário impenitente e grande jornalista. escreveu A HISTÓRIA DA PARAÍBA para o 1º e 2º graus. O SENADOR DA CONSTITUINTE. na Paraíba. mas fora candidato mais por uma questão moral. O LIVRO PROIBIDO DO PADRE MALAGRIDA. Anthenor Navarro. Era um homem de uma pureza moral extraordinária. e tão bem escrevia que o DIÁRIO DE PERNAMBUCO o convocou para colaborar. que era um jornal muito fechado. mas também como grande advogado. Vultos como José Américo de Almeida. Órris Fernandes Barbosa. Sinésio Guimarães. mas ele começou ainda como estudante. Adhemar Victor de Menezes Vidal. O pai era Presidente do Estado e ele oficial de Gabinete e o Presidente deu todo o apoio ao filho nesse movimento cultural. Escreveu GATILHO E SANGUE NA ASSEMBLÉIA. e dos jesuítas em geral. Ele rompeu. tanto assim que divergiu do nosso presidente republicano Álvaro Machado. Esse magazine atraiu os melhores talentos da terra. Uma das áreas em que a Paraíba tem sido muito fértil e pode se ombrear com as maiores províncias do nosso país e na área do jornalismo. Era cognominado o republico. PEQUENO DICIONÁRIO DE VULTOS DA PARAÍBA.

e estava numa polêmica jornalística com Aderbal Piragibe. Não sobreviverás à tua infâmia”. morreu como sacerdote dos mais puros. Celso Mariz. chegou a ser desembargador. Osias Nacre Gomes. pela imprensa. é sempre ostra. Quando éramos estudantes. A ostra. é sempre pó. padre Carlos Coelho. banido. Rocha Barreto. sendo um dos seus fundadores. Aderbal era um panfletário de sete fôlegos. e ele pulou o muro. corajoso nas lutas políticas. Bôtto arranjou um namoro. ainda que esteja submersa nos fundos dos oceanos. Terminava o artigo assim. escritor. João Santa Cruz de Oliveira. 372    . no Ponto de Cem Réis. que terminou sendo Bispo de Nazaré da Mata. magistrado. Bôtto errou todos os tiros. que ficava onde foi a Farmácia Régis. homem do batente. Bôtto também fez um artigo violento no seu jornal O COMBATE e foi matar Aderbal no antigo Café Moderno. escreveu em O MOMENTO. José Leal Ramos. esse era apaixonado pelo jornal. homem puro. figura notável. A polêmica estava acesa. levado para o interior. na GAZETA DO POVO e projetou-se como historiador e suas crônicas eram tão belas que teve acesso à Academia Paraibana de Letras. comentou-se isso na cidade. Atirou em Aderbal. Tornou-se público e notório. Cônego Odilon Pedrosa. tão idealista e tão bom de coração. esse homem foi castigado pelo Arcebispo. Margarida. que se escondeu por trás dumas latas de doce empilhadas. que também foi presidente da Associação Paraibana de Imprensa. a poeira por mais que se levante do solo. ai Margarida. outro grande jornalista. que termina assim: “Bôtto. Há muitos outros jornalistas: Alcides Bezerra Cavalcanti. tangida pelos ventos. porque Bôtto pulou o muro da casa da mulher com quem estava em romance e não teve tempo de vestir a roupa toda porque o marido atirava no fundo do muro. com seu cachimbo. homem muito inteligente. Eu vi Antônio Boto seminu pela avenida. Adalberto Barreto. que viveu na Paraíba e foi diretor de A IMPRENSA. que começou como emendador no jornal. Como Aderbal Piragibe fez menção ao fato. tornou-se jornalista famoso. um romance. Então Aderbal faz um artigo em cima de Bôtto.Vou contar uma história engraçada de Aderbal Piragibe contra o grande jornalista que foi dirigente de O COMBATE. Bôtto de Menezes. Arcebispo de Olinda e Recife. Os estudantes cantavam uma modinha horrível: Ai. e deveria ter a maior projeção pelo seu valor intelectual. No final de contas. E lá para as tantas fez um artigo mencionando o fato.

. Porque acho que um dos episódios mais terríveis da vida pública brasileira foi o sacrifício daquela mulher. Ariano Suassuna é o maior autor de peças deste Estado e do país. Para esse grupo escreveu a sua primeira peça UMA MULHER VESTIDA DE SOL. retomando a palavra: Realmente. estou sabendo que ele já está elaborando outra. Sucesso no país e no estrangeiro. que é baseada num fato histórico verídico. um teatrólogo dos maiores que temos e também folclorista de primeira plana. que recebeu o nome de Anita Leocádia Prestes. Joacil Pereira. Poeta eminente e romancista caloroso. também foi jornalista e editou o ALMANAQUE DA PARAÍBA. nome altamente significativo. brincando: se todo comunista fosse bom como você eu também seria comunista. João Lélis de Luna Freire. romancista. ensaísta. Ariano Suassuna. teatrólogo e romancista. chegou a ser diretor de A UNIÃO. Péricles Leal. ocorrido em Areia. de autoria de Joacil. No teatro. Fez quase tudo em teatro. autor do AUTO DA COMPADECIDA. No teatro. outro grande teatrólogo. temos Santa Rosa. estou escrevendo uma peça sobre Olga Benário Prestes. pintor. interrompendo: Solicito do expositor que inclua na sua lista o teatrólogo Joacil de Britto Pereira. que escreveu a peça PARAIBA-BE-A-BA. traduzido em vários idiomas. produtor visual. jornalista. também com fundo histórico. integrou o grupo de Ermilo Borba e com ele fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Diante do sucesso. Seu nome completo era Tomaz Santa Rosa Júnior. que repetiu na província. Nelson Lustosa Cabral. Projetou-se muito como cenarista e feitor de montagens.que eu sempre dizia a ele. que carregava no ventre uma filha. em tamanho menor. Altimar Pimentel. era crítico de arte. Recentemente foi apresentada no Teatro Santa Roza e no Festival de Areia a peça A MALDIÇÃO DE CARLOTA. Escreveu também obras teatrais. É autor do romance de fama universal. podemos nos referir a grandes figuras de va373    . PEDRA DO REINO. o que Euclides da Cunha fez em Canudos. o magnífico Santa Rosa. É um dos poucos gênios nascido na Paraíba. pertence à Academia Brasileira de Letras. como ROTEIRO DE ARTE EM TEATRO e REALIDADE E MÁGICA. cenografista. ele foi repórter político em Princesa. É da mesma categoria de Pedro Américo. nasceu aqui em João Pessoa. Temos também Paulo Pontes. Continuando minha exposição. Uma peça de fundo histórico e se Deus me ajudar e me der um pouco de engenho e arte eu a realizarei. ilustrador. Luiz Hugo Guimarães.

A IGREJA – REINO DE DEUS NA TERRA. de fama internacional. sem deixar de lado alguns aspectos da vida de cada um. Padre Lima. José Rafael de Menezes. Esse tratado de pedagogia foi tirado em quatro edições e adotado em vários estabelecimentos de ensino do país. que foi presidente da nossa Academia e colaborou em jornais. por sinal. Desde o Império. é um celeiro maravilhoso de intelectuais. É possível que na pressa. que publicou entre outros o COMPÊNDIO DE PEDAGOGIA E PEDOLOGIA EXPERIMENTAL e SOCIOLOGIA EVOLUCIONISTA E SOCIOLOGIA CRISTÃ. Ele fez uma retrospectiva das grandes figuras paraibanas que despontaram na poesia. que era piauiense. enfim. o confrade Joacil Pereira acaba de mostrar que a Paraíba. algumas passagens pitorescas em que eles se envolveram. relatando. cronista e político. tem mais de 100 livros escritos e é um grande educador. Adauto. Albino Meira. Machado Bittencourt. Linduarte Noronha. Abelardo Jurema. Celso Furtado entra na categoria dos grandes economistas. SEXTA-FEIRA 13 é um deles.. Alfredo Pessoa de Lima. A fala do Presidente: Com sua eloquência costumeira. que chegou a ser líder do Governo federal. Não podemos esquecer o grande pedagogo. Alex Santos. no cinema. Com sua memória prodigiosa. sendo aplaudido várias vezes quando usava sua postura de declamador para re374    . mas radicou-se aqui na Paraíba. Adolfo Cirne. abarcou todas as áreas da atividade literária. grande sociólogo. filósofo e sociólogo Monsenhor Pedro Anísio. Continuo defendendo a tese de que nesses 500 anos a Paraíba tem um elenco maravilhoso de vultos a apresentar. até. reproduziu vários trechos das obras registradas. No cinema tivemos Ipojuca Pontes. Osias Nacre Gomes. ESTUDOS FILOSÓFICOS. fez o registro dos principais autores e de suas obras. Oscar de Castro.lor. Mário Moacyr Porto. mas quero realçá-lo como jornalista e ensaísta. que é autor de um ensaio sobre Epitácio e de uma biografia sobre D. tenha deixado de mencionar algumas figuras de destaque na nossa vida intelectual. escreveu ensaios biográficos e livros de memória. no romance. pode se orgulhar de sua intelectualidade. em todos os gêneros da literatura. são juristas eminentes que não devem ser esquecidos aqui. já que meu tempo está esgotado. A Igreja. na história. na sociologia. nesses quinhentos anos. no teatro. no jornalismo.

para complementar a brilhante exposição do confrade Joacil Pereira. Seus livros UM SÍTIO QUE ANDA COMIGO. membro da Academia Paraibana de Letras) Quero discordar do Presidente. mas um torcedor da campanha de José Américo. Extrapolou do seu tempo. Debatedor: Luiz Gonzaga Rodrigues (Escritor. simples. não por falsa modéstia. Nós podemos discordar de certas ideias. dos 375    . Com a palavra o jornalista Luiz Gonzaga Rodrigues.. não era eleitor ainda. um debate muito importante. revelam o cronista coloquial. mas acho que para contribuir de forma mais aquecida. sempre atento e pronto para aplaudi-lo. Gonzaga Rodrigues. Deveria estar aqui Hildeberto Barbosa. de revisor de jornal. Quando chego aqui. penando aqui e acolá. depois veio para a capital. foi para Campina Grande. retratando coisas dos lugares e coisas da vida. em 1951. Dr. de peripécia em peripécia.citar algumas poesias dos nossos consagrados vates. Joacil já era uma celebridade e eu entrava. que é um ensaísta. Sua grande universidade foi o jornal. Acho que o professor Luiz Hugo deveria ter convidado uma pessoa com uma distância um pouco maior de geração e de mirante. e quero explicar porque é importante. com outros equipamentos. mas a nossa vivência. que é um homem com outra visão. De sorte que aqui neste debate. Há uma distância muito pequena entre as nossas experiências. É outra figura que dispensa a tradicional apresentação. Se lhe fosse permitido mais tempo. conseguiu seu lugar ao sol. Nascido em Alagoa Nova. diferente de mim e de Joacil. É este artista da palavra escrita que vamos ter na tribuna. João Batista de Brito. sem os reclamos da Presidência nem a repulsa do plenário. e. jornalista. tenho certeza que embeveceria mais ainda este auditório. Mas há uma distância muito pequena e os nossos pontos de vista são iguais. de certas colocações. Em 45 Joacil Pereira já era um militante político e literário e eu era um torcedor. É um autodidata que alisou os bancos dos jornais da capital para se tornar o mago da imprensa paraibana. NOTAS DO MEU LUGAR e FELIPÉIA E OUTRAS SAUDADES. nessa época. tornou-se um dos maiores luminares desta especialidade literária. outro instrumental. a nossa experiência é a mesma. Mas agora é chegada a vez do nosso debatedor oficial entrar em ação. Excursionando pela crônica. que é o jornalista Luiz Gonzaga Rodrigues.

de abordagem literária. 90 têm preguiça de ler. Por que o livro é penoso? Porque ler implica. digamos assim. sendo o mais revolucionário dos homens. depois pela televisão. por exemplo. Celso. essa iniciativa do Instituto Histórico. Claro que Joacil pulou nomes. tinha que pular nomes. Em função disso. principalmente na nossa cultura. sem ser coisa nenhuma. a falência senão da literatura. todos concordamos. 1000 anos tendo como instrumento. porque não é brincadeira fazer em uma hora e meia uma abordagem sobre o principal assunto da Paraíba. mas essa pode coisa não passar. Hoje a gente está vendo que essa coisa sensual. é só um economista? Não. daqui a 20 anos. depois num esforço de assimilação. ele dizia. de um simples espetáculo de emoções retardadas. é uma mão de obra. e nós também somos obrigados a ver como alvissareira. essa coisa tende a desaparecer. Em 100 pessoas. a Paraíba não tem turismo. do homem do estudo. A Internet. que hoje está numa das editorias do jornalismo da Paraíba. que é o livro. São três pessoas com mais coisas para acrescentar ao debate. do homem lógico. quero realçar porque é importante essa abordagem. como dizia o velho João Santa Cruz de Oliveira. Mas. Fora disso a Paraíba não vende outra mercadoria no contexto nacional. porque sem ser filósofo. que é um estudioso. que é Walter Galvão. que é mais do que 376    . “Eu sou um homem de emoções retardadas”. quero primeiro me render ao esforço de Joacil. primeiro pela maquininha de calcular. O livro está sendo ameaçado por uma coisa mais virtual. mais arguto. E antes de entrar no assunto. depois noutros esforços. sem deixar escapar alguma figura de relevo da área literária. O livro é penoso. Digo até onde vai. essa coisa preênsil. mais intocável e que a gente não sabe até onde vai. um moço que também vem se revelando. e agora pela Internet. que retoma aquela tradição de Mário Pedrosa. acho que o assunto é da maior importância.melhores que nós temos.que é um autodidata. que reduz o raciocínio. Então essa coisa toda está sendo substituída pela televisão.. mas pelo menos dos instrumentos convencionais. Cada um mais sensível. Importante porque nós estamos vivendo uma época em que se pretende decretar a morte. É muito importante. essa coisa que dá uma certa estesia em pegar. Celso Furtado. não tem outra repercussão a não ser a repercussão literária e a repercussão política. que muita gente tem como uma coisa alvissareira. A Paraíba não tem economia. agregou alguns do ponto de vista literário. dos espaços convencionais do livro. não gostam de ler. primeiro num esforço físico. eu vejo o seguinte: é que a leitura é um trabalho penoso. que passamos 500. já que estou aqui.

de história da literatura. que é a FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL. próprio e que alcança o seu objetivo da sua expressão. em que pese a passagem. Adauto.. um estudioso que tem um temperamento muito especial. queria lembrar algumas figuras que de passagem foram esquecidas. Quero lembrar o Cônego Lima. o melhor levantamento em termos de literatura da Paraíba.um economista. Que é do começo da literatura brasileira. expressão máxima. O clássico dele. É evidente que com o espaço de tempo limitado para a exposição que Joacil fez. tem que haver alguma omissão. pela exiguidade do tempo. há muitos nomes que estão nos meus apontamentos e eu omiti alguns em face do tempo exíguo e eu até registrei que o Cônego Lima fez um ensaio sobre Epitácio Pessoa e uma biografia de D. é um texto que merece ser visto como um trabalho de literatura. O texto dele. Data vênia. que é. um livro que a gente pode dizer literariamente perfeito. A primeira manifestação de Celso foi no gênero do conto. ele é um pensador usando como instrumento. Ele consegue a sua expressão. e você vai me agradecer pela homenagem que nós mesmos vamos render. Não quero nomear pessoas. Na primeira abordagem que ele faz começa considerando o texto de Ambrósio Fernandes Brandão em DIÁLOGOS DA GRANDEZA DO BRASIL... pessoas que trabalharam o texto. crônica histórica. se disser que é um texto de lógica. um texto de pensador. os marcos. se aprofundar sobre cada figura registrada. nós não podemos esquecer o trabalho de um escritor. O Cônego Lima dá um recado da imagem da Paraíba durante todo o tempo de D.. que é o texto. Adauto. de esforço literário. um belo instrumento de expressão. até esquisito. que é o de Gemy Cândido: HISTÓRIA CRÍTICA DA LITERATURA PARAIBANA. as intervenções de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. que é um testemunho da Paraíba. meu caro expositor. Gonzaga Rodrigues. Apenas. 377    . que não pôde. Adauto. no meu entender. Nessas considerações não há nenhuma crítica à abordagem do professor Joacil. de D. porque os vultos mais importantes. na verdade é um texto conciso. é um livro bem escrito. escorreito. se a gente disser que não é literário. o estrelato da literatura. Já que nós estamos falando aqui de literatura. continuando com a palavra: . e por conta disso a cultura da Paraíba deixou de lado o seu trabalho. Quero ressaltar o seguinte. Joacil Pereira. em aparte: Eu supri a omissão. foram realçados. que é a crônica. e com a oralidade com que se desempenhou.

Celso. chocar os que estavam nascendo e os que estavam se indo. Celso Mariz. Então dá para perceber. que tem um retrato muito bem feito de 378    . vou buscar onde? No Cônego Lima. louco. o primeiro cidadão que leu Marx em francês. Chocar os Meira de Menezes. Este cidadão trouxe para cá um louco total. Depois vêm os anos 20. Em torno de Carlos Dias Fernandes. de um estilo fluente e moderníssimo em 1918. um grande orador. tenham sido através da aglutinação. e criou em torno dele Órris Soares. enfim. desta Paraíba cultural. e nisso eu invoco a lembrança dos senhores historiadores. e em torno dele agregou Coriolano de Medeiros. Augusto dos Anjos. e foi um dos homens que melhor escreveu em jornal. dá para a gente perguntar o que seria da Paraíba literária. dos anos 20. um grande humanista. que terminou desembargador lá para as bandas do Rio de Janeiro. que tinha uma poesia esquisita. combateu no melhor combate. que muita gente olhava assim e ele acolheu. botando no frontispício do seu jornal a poesia de Augusto dos Anjos. chamado Carlos Dias Fernandes. tudo ficou em torno dele. a gente divisa nesse perpassar de valores estrelas maiores que talvez não sendo maiores através de uma obra. como também foi enterrado miseravelmente. Houve essa figura que aglutinou. um grande culturalista. Deu o espetáculo dele. que era o cidadão chamado Leonardo Smith. uma publicação que vem daquela época. Então a gente vê. Vem um novo aglutinador. está lá. que foi o primeiro comunista desta cidade. louco. foi erigido como o maior homem do seu tempo. começando na passagem do século e fechou em 1908. sob a batuta dum cidadão chamado João Ferreira de Castro Pinto. ele combateu e foi para a luta. Era um exibicionista de fancaria. Mudou noções culturais. e durante esses oito anos ele mudou a Paraíba por inteiro. Criou A NOVELA. levado pelo filho do próprio Artur. gostava de dar espetáculo.Estive fazendo uma pesquisa sobre o grande Artur Aquiles e quando eu vou falar sobre Artur Aquiles. e nesse tempo não era tão perseguido porque era uma coisa rara. 1920. Criou um jornal que durou oito anos. desta Paraíba jornalística. um tal de Augusto Belmont. Augusto. Este Artur Aquiles tinha em torno dele Coriolano. que era também do time. da articulação. Há também uma figura que não aparece em nenhuma história da literatura. José Américo de Almeida. Aquela tragédia de Teixeira. criada por Ademar Vidal. se não tivesse existido a figura de um cidadão chamado Artur Aquiles dos Santos. Esse homem veio para cá para chocar a província. desta Paraíba política. que no começo do século aglutinou ideias. no seu tempo. mudou noções políticas. que era Santos Neto.

mas não acontece. É o sinal dos tempos. da interferência das obras contra as secas. ele dizia que nada ocorria de graça.Gilberto Amado. a não ser se o prestígio do empossado ou do presidente seja bom. para o teatro de Órris Soares. Vem Órris Soares. É a partir dessa fase que salta a Paraíba para a BAGACEIRA. em que aparece aquela figura de tamanco. A imprensa também é uma coisa. que circula quinzenalmente. com um quilo de carne dum lado. muito mais pobre. as pessoas não falam. Nós temos o CORREIO DAS ARTES. Essa geração mereceu um artigo de Barbosa Lima Sobrinho. A cultura é o corolário. O ano que veio das grandes obras de Solon de Lucena. do apogeu econômico do começo do algodão. que sempre vem em função de algum motivo. os anos 20. Há umas coisas que não entendo. vem José Américo. ocorreu no tempo de Carlos Dias Fernandes e Castro Pinto. o mais que sai é uma linhazinha. Era mais pobre. se há uma posse na Academia ou no Instituto. que foi discutido. mas a gente não vê uma referência. Barbosa Lima Sobrinho falou sobre os anos de ouro da Paraíba. que está fazendo um bom trabalho. Toda essa coisa que soma com o corolário cultural. todo esse saldo vem em função de duas correntes. por que não renasce. que é a Coleção Documentos Paraibanos. umas verduras do outro. não sei se vocês se lembram de MINHA FORMAÇÃO NO RECIFE. rasgando as duas margens do romance brasileiro. ele circula. A Paraíba não devia ser muito diferente da que vivemos hoje. Ele era um poeta. o povo menos civilizado. vem muita gente. passando pela rua do Diário de Pernambuco. O que está faltando? Nós temos pelo Estado uma coleção muito importante. a coisa vem de cima para baixo O que queria mostrar é que todo esse lucro nosso. falando sobre o Renascimento italiano. Agora. um chapéu grande na cabeça e Gilberto Amado: quem é? Esse é o Carlos Dias Fernandes. Era o registro que queria fazer. 379    . Então por que não volta. por que não há esse renascimento? Parece que os valores são outros. Ocorreu no tempo de Artur Aquiles. que foi um teatro nacional. O velho Taine dizia. impressionista na poesia e na pessoa. de alguma euforia. que foi levado para o Rio de Janeiro. Como um aerólito caído do céu. de ordem econômica sempre e que termina com seus dividendos. No tempo em que atuava na imprensa eu achava que o leitor é quem era importante.

mas essa figura foi realçada por Gonzaga Rodrigues. Não sei porque Mário não ingressou no Instituto. Andrade Muricy. em aparte: Quando tratei daquelas figuras de articuladores esqueci de lembrar a figura de José Semeão Leal. porque quem estava lá era Anísio Teixeira. em função disso. lá com alguém da revisão para os botecos da rua 13 de maio. criaram o Instituto Nacional do Livro. continuando com a palavra: O companheiro Humberto Mello lembrou o nome de Mário Pedrosa. Joacil lembrou o nome do poeta Leonel Coelho. que foi linotipista de A UNIÃO. e ingressaram no mesmo dia. como vimos. vamos iniciar os debates com os participantes 380    . quando os jornais eram feitos a chumbo e fogo. Antes de sair para tomar uma. de uns três meses. Gonzaga está dizendo que é porque ele era ateu. O presidente. Aliás estes dois últimos pertenceram ao Instituto Histórico. à parte. Ele levou essa lição da Paraíba para o Rio de Janeiro. sendo um tema bastante vasto. mas no Rio de Janeiro. em torno dele. Convivi com Leonel no jornal e numa mesa de bar. não pudesse ser abarcado in totum pelos ilustres conferencistas. porque ele tem um compromisso agora no Teatro Santa Roza. uns óculos escuros para não se denunciar. que eram intimamente ligados. que foi o grande divulgador que nós tivemos das obras brasileiras. antes do término da sessão. Foi importante podermos reviver aqui figuras destacadas da nossa cultura. E. que não era um texto. baixinho. Eu era um menino de recado.A fala do Presidente: O consócio Joacil Pereira pediu para sair. sempre passava pela revisão e convidava um de nós. Gonzaga Rodrigues. onde fará uma palestra sobre Rui Barbosa. O expositor e o debatedor trouxeram a posição da Paraíba na literatura provinciana. mas foi um grande articulador. foi um grande agitador cultural. onde ele muitas vezes garatujava seus versos naquele papel linha d'água que levava da redação. Aqui. Era de se esperar que o tema. Eu mesmo revivi grandes passagens por que tive a chance de conviver com algumas das figuras mencionadas. valeu a pena incluirmos nesse Ciclo de Debates que o Instituto está promovendo o tema ora discutido – a literatura paraibana. Magro. todos em torno daqueles Caderninhos de Cultura. Tive uma experiência lá. cujo centenário de nascimento é hoje. que ele editava. Apesar do avançado da hora. não aqui. Mas. Mário Pedrosa fazia parte do triunvirato que incluía Adhemar Vidal e Anthenor Navarro.

nascido em 1553 e foi aqui que ele escreveu OS DIÁLOGOS DA GRANDEZA DO BRASIL. porque o livro é o pão dos intelectuais. como disse Gonzaga Rodrigues. Como poeta. ele faz um libelo ao que acontecia na época. Então ele é medalha de ouro em dois campos.do plenário. queria complementar sobre o nome citado de Rodrigues de Carvalho. como transita nos livros de historiografia. ele está elaborando uma epopeia sobre o negro Mussambê. O segundo. que era a destruição da floresta e mostra como um nordestino que vai para aquelas plagas e chora diante da destruição da natureza. que é o nosso grande repentista. Ele era português. a gente não pode esquecer do grande Oliveira de Panelas. Este é o meu registro. No Ceará ele foi fundador de uma instituição maravilhosa. 381    . e entre eles a gente não pode esquecer o grande Vital Farias. Realmente. É uma obra que transita com muita tranquilidade tanto nos livros de crítica literária – José Veríssimo começa com ele. teve seu nome pinçado numa célebre antologia com a inclusão de um soneto seu entre os 100 mais belos sonetos da língua portuguesa: OS SEIOS. até que se prove que não foi ele que escreveu aquela obra. é impossível num espaço de duas horas se preencher a contribuição literária de um Estado que. passando a palavra do consócio Guilherme d’Avila Lins: 1º Participante: Guilherme d’Avila Lins: Cada tarde desses debates é uma lição a mais. uma das coisas que sabe exportar é literatura. O aditamento que pretendia fazer perdeu a oportunidade quando Gonzaga referiu-se a Ambrósio Fernandes Brandão. que é aí que de fato começa nossa participação literária. que com a sua SAGA DA AMAZÔNIA. 2º participante: Paula Frassinete Duarte: Gostaria de citar gente da atualidade. como pontificou em Pernambuco e no Ceará. Era esse o primeiro registro. que o dia da resistência negra. até na inspiração do seu próprio nome – A PADARIA ESPIRITUAL. com uma poesia fenomenal. José Honório Rodrigues o considera um dos 12 livros mais importantes do nosso período colonial. que pontificou não somente na Paraíba. de uma verve maravilhosa e no que tange ao hai-kai. E homenageando o dia 20 de novembro. temos Saulo Mendonça. No repente.

ao invés de em Olavo Bilac. Fui lá a convite do pernambucano-paraibano Joaquim Inojosa. que é quantitativamente menos importante dos três. posso adiantar que os teóricos a dividem em três: o chamado romance de bancada escrita e o improviso. que se subdivide em dois: improviso simplesmente declamado e o improviso cantado na viola. Aí ele me mostrou a coleção completa do CORREIO DAS ARTES desde 1949 até aquela data e sustentava que era um dos mais importantes suplementos do Brasil. e eu tenho muitos parentes no ramo. ORDEM E PROGRESSO não teve o sucesso dos outros. No improviso do violeiro. no folheto. que é ORDEM E PROGRESSO. também foi um paraibano o maior de todos. Rocha Barreto se apresentou humildemente como funcionário público dos Correios. E Gilberto se admira como é que um funcionário público escrevia tão bem. Gilberto Freyre fez ORDEM E PROGRESSO como uma seqüência da CASA GRANDE & SENZALA e SOBRADOS E MOCAMBOS. 382    . cartas. colhendo informações sobre os primeiros tempos da República no Brasil e cita Rocha Barreto.3º Participante: Humberto Mello: Farei apenas três pequenos registros. No romance. que era de Cajazeiras. É um fato que pouca gente sabe. conforme falaram Batista e Frassinete sobre a literatura popular em verso. Mas. na glosa. Em 1980 estive na casa de Plínio Doyle. O outro registro é a respeito de uma figura que Joacil citou. E no improviso declamado. inclusive há uma crônica de Carlos Drumond de Andrade que disse que se em 1914 fosse vivo e votasse. Em ORDEM E PROGRESSO ele fez uma série de entrevistas. É pouco lido esse livro. não falou que era jornalista. onde havia aquelas reuniões dos sábados a que Raul Bopp deu o nome de sabadoyle. Plínio Doyle tinha um apartamento somente para a biblioteca e reuniões. se não me engano. Nesses três aspectos da literatura popular em verso a Paraíba teve os maiores nomes. o bibliófilo. que foi Luiz Dantas Quesado. Finalmente. parece-me que ninguém superou Pinto do Monteiro. na quadra. expôs tão bem o seu tema. Gonzaga Rodrigues falou no CORREIO DAS ARTES e a pouca repercussão que ele tem e gostarei de dar um depoimento. porque é uma obra que não é muito lida e causa muito ciúme ao autor. ninguém superou Leandro Gomes de Barros. de Gilberto Freyre. sem o acompanhamento da viola. teria consagrado Leandro Gomes de Barros como o príncipe dos poetas brasileiros. que é Rocha Barreto. e ele se queixava que o povo não reconhecia o mérito.

o dia 5 de novembro. que é o Dia da Ciência e da Cultura. E este pedaço de céu que te ilumina A larga. Volta aos humildes mas felizes tetos. 383    . Seja teu mundo este tranqüilo monte. Não podíamos esquecer esta data. ser uma espécie de apelo para que o palestrante Dr. que foi tão importante para nós. recua. Antes de tudo. ainda é tempo branco no horizonte. Cumpras nestes vales tua sina. que nasceu a 5 de novembro de 1849. nesse soneto que vou recitar.São os registros que faço. cujo título é a PRODUÇÃO LITERÁRIA DA PARAÍBA. nós não podemos jamais esquecer o dia de hoje. Que as estrelas terão mais calmos os brilhos Para velar o túmulo dos teus filhos E a terra sorrirá para teus netos. de Ronald de Carvalho. Vou recitar. Aí fora. a vida em ondas tumultua. A UM FILHO PRÓDIGO: Volta. tendo falecido em Petrópolis no dia 1º de março de 1923. retornem para esta palestra. Joacil Pereira e o debatedor Gonzaga Rodrigues. Seja teu mundo esta encurvada ponte Que sobre o rio trêmula se inclina. (palmas) A sessão foi encerrada. Ouve teu rude coração. franca e pensativa fronte. Tua aldeia sorri sobre a colina. que se originou da data do grande Rui Barbosa. 4º Participante: Manoel Silveira da Costa: Sou membro da Academia Paraibana de Poesia e como tal gostaria de. gostaria de dizer que nesta data e nesta palestra.

que é um dos mais novos sócios do Instituto e também um dos mais novos historiadores. José Fernandes de Lima foi enterrado pela manhã.17º Tema HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS Expositor: Guilherme d’Avila Lins Debatedor: Luiz Hugo Guimarães A fala do Presidente: Vamos dar reinício aos nossos debates. Ele inventou de ser médico. Assim. o historiador José Fernandes de Lima. convido também o acadêmico Joacil de Britto Pereira. Antes de passar a palavra ao palestrante. estamos realizando esta sessão em pleno luto. cujo expositor é o nosso consócio Guilherme d’Avila Lins. e em nome da instituição falou o nosso companheiro Joacil de Britto Pereira na ocasião do sepultamento do inditoso colega. a Comissão Executiva do Ciclo colocou meu nome para colaborar com o nosso ilustre expositor e. cujo patrono é o Cônego Florentino Barbosa. o Instituto esteve presente pelo seu presidente e alguns associados. tem vários trabalhos publicados e é amante da pesquisa. Outro dia já fiz a apresentação do nosso consócio Guilherme d’Avila Lins. um registro especial. Guilherme é um estudioso. para ganhar a vida. a quem convido para participar da mesa. do nosso Instituto. e vamos abordar o tema HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS. Foi deputado estadual 384    . como debatedor. convido também nosso consócio Deusdedit Leitão. me considero convidado. mas viu que esse negócio de Medicina deu pouco e ele arranjou um gancho de historiador. quero fazer. como já estou na mesa. com nossa bandeira hasteada à meia-verga. presidente da Academia Paraibana de Letras. Ele ocupava a cadeira nº 22. que já está dando saudades. Ontem faleceu um consócio nosso. Hoje é a penúltima sessão deste Ciclo. José Fernandes de Lima pertencia a uma tradicional família de Mamanguape e teve uma atuação muito grande em nosso Estado. Dr. dispensando as palmas habituais. ex-presidente deste Instituto e grande historiador. O corpo de Dr. com pesar.

que produz conhecimento. por razões óbvias. Terei que dar um enfoque muito maior para o primeiro século. quando Pedro Gondim teve de se afastar do Governo para se candidatar a re-eleição. É de sua autoria o livro A LEALDADE E HEROISMO DO ÍNDIO POTIGUARA PEDRO POTY. consócio Guilherme d’Avila Lins. Vou me concentrar num resgate dos itens e das considerações historiográficas que precisam ser resgatadas. do comendador José Campello. médico. Quero dizer que me senti muito lisonjeado com o convite me foi para participar como expositor desta sessão de hoje e quero dizer o quanto ele me envolveu porque percebi que faltava apenas um ponta-pé inicial para que sentisse a necessidade de. Portanto. literatura de um modo geral. austera. presidente do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica. Não pretendo esgotar totalmente o assunto. Guilherme d’Avila Lins: (Membro do IHGP. um minuto de silêncio. letras históricas. honesta. transformar esta palestra numa plaqueta. merece ter uma obra específica e independente sobre historiografia. Para prestar nossa homenagem àquele consócio falecido. Bem que nosso Estado. seria uma veleidade e nem seria possível no espaço de tempo que me é reservado. Secretário de Estado. um grande parte da nossa historiografia será aqui omitida. Este é um compromisso que assumo neste momento. com base numa documentação que ele localizou em Mamanguape. Era uma figura íntegra. de pé. em seguida. passo a palavra ao expositor deste tema. façamos. Deixou vários trabalhos parlamentares e vários trabalhos publicados em nossa Revista. presidente da Assembleia Legislativa e. O DIÁRIO DO PARAGUAI. solicito dos presentes que. foi prefeito de Mamanguape várias vezes. em sinal de pesar. porque este tema é extremamente palpitante. Dando início aos nossos trabalhos. e um dos grandes valores da história política da Paraíba. ele governou o Estado durante 11 meses. por sua conta. professor universitário e historiador com vários trabalhos publicados) Antes de dar início à leitura do trabalho que trouxe por escrito. comprometendo-me a escrever um livro sobre Historiografia e Historiadores da Paraíba. tendo em vista as lacunas que existem na matéria em nosso meio. gostarei de fazer algumas considerações preliminares. embora eu 385    ..durante 40 anos. Ele editou.

as premissas conceituais por mim convencionalmente adotadas. como o ilustrado paulista J(oão). tendo-se ainda em vista que a cada nova centúria. em cujo recorte cronológico se avantajam mais de quatro séculos de produção historiográfica até se chegar aos dias atuais. computarei aqui muitos outros autores nascidos fora da Paraíba e que escreveram sobre a História desta terra. excluirei autores paraibanos de nascimento que se dedicaram à História de outras plagas. permite uma abordagem mais conveniente da questão). 1964). por extenso. Em primeiro lugar. por outro lado. [ou ainda. por razões metodológicas. pelo menos nesta oportunidade que. não me limitarei aqui apenas a autores nascidos no Estado da Paraíba e que se dedicaram à História. ao longo desta exposição achei por bem entender a expressão HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS (que sob rigor semântico limitaria sobremaneira. a HISTORIOGRAFIA PARAIBANA e os HISTORIADORES PARAIBANOS. seja apenas a avant-première de um trabalho mais elaborado que pretendo publicar sobre o mesmo assunto.. terei que lidar com um redimensionamento crescente de autores e títulos. Yan] de Almeida Prado. autor de uma discutível obra encomendada pelo jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello. desde já. de forma inadequada. não será possível. mais particularmente. autor do importante ROTEIRO DO PIAUÍ [1. a partir do Século XVI. no desenvolvimento desta tarefa não pretendo sequer atingir os dias atuais e até serei cada vez mais lacunar à medida que for avançando no tempo. nem tampouco necessário procurar debulhar. Noutras palavras. 2. Parece-me de bom alvitre.. por um lado. Em segundo lugar. Dessa maneira. porque o tempo é exíguo. tais como Carlos Eugênio Porto. 1955. ou seja a HISTORIOGRAFIA E HISTORIADORES PARAIBANOS. assim posta. como sendo a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA E HISTORIADORES DA PARAÍBA(a qual. sob o título de a CONQUISTA DA PARAÍBA (SÉCULOS XVI A XVIII) (São Paulo. quero dizer que. ed. talvez em progressão geométrica. bem como autor de outro livro bem 386    . principalmente. à sua História. Rio de Janeiro. F(ernando). Rio de Janeiro. independente das circunscrições conceituais doravante adotadas e considerando-se. ed. estabelecer aqui. que não lerei. 1974] (e aqui faço a discriminação de todas as edições existentes.chegue até o século XX. o tema em tela). para o desenvolvimento deste tema simples apenas na aparência. quiçá logarítmica. Aliás. prometendo registrar no trabalho posterior que prometi elaborar) mas.. o limite de espaço e tempo que tenho à disposição. Eram essas as palavras iniciais que queria dizer. espero.

usar o bom sendo para incluí-las nessa exposição. Nesta específica exposição. documento histórico. no caso um estudo historiográfico da Paraíba. já que “todo documento historiográfico é histórico. aproveitando para tanto. nem sempre é simples de fazer tal distinção. todavia sem usar de rigor absoluto. entre outros. inclusive. no caso. e é documento historiográfico. 4 t. parafraseando o mesmo José Honório Rodrigues. aqui.mais apreciado. com uma construção elaborada do passado e do seu presente”. como também assinalou o mesmo historiógrafo acima citado. funcionará como um roteiro sistemático e abrangente da obra que se pretende elaborar. seguindo a forma preconizada por José Honório Rodrigues. a crônica anônima abreviadamente conhecida como o SUMÁRIO DAS ARMADAS “é. Tampouco cuidarei de bibliografias. Assim. contentar-me-ei com apenas traçar um pálido esboço para um estudo historiográfico da Paraíba com as características até agora delineadas. Em quarto lugar. Este último. do Prof. mediante critério. sob o título de PERNAMBUCO E AS CAPITANIAS DO NORTE DO BRASIL (1530-1630): HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA [São Paulo. Em sexto lugar. Em terceiro lugar. até certo ponto plausíveis. cabendo. Em quinto lugar. segundo a abalizada opinião. fonte principal de determinado período porque seu autor o escreveu (em boa parte). na prática. entendendo-se aqui a historiografia como a história da história. de documentos manuscritos. do valor historiográfico. por excelência. José Pedro Nicodemos – modelo este que. entretanto. por razões pouco adequadas e decerto vulneráveis porém. por exemplo. roteiros sistemáticos (ou modelos de periodização) preexistentes de aceitável validade. é o que se aplica neste nosso tema. é de particular importância que tal estudo se insira em um modelo coerente de periodização – uma das coisas mais difíceis em História. exceto em condições excepcionais. usarei também aqui como critério de inclusão dos diversos autores e suas respectivas obras. nem tampouco de catálogos impressos de documentos manuscritos. com relação à Paraíba. particularmente os administrativos. 1939-1942. enquanto os fatos se sucediam. considerando ainda que este trabalho se apresenta 387    . mas nem todo documento histórico é historiográfico”. evidentemente. a “distinção entre documento histórico e historiográfico”. Ademais também não fará aqui a menor diferença se as obras em questão versam com exclusividade ou com predominância ou apenas minoritariamente sobre a Paraíba. não cuidarei nesta exposição. pode-se dizer que.]. considero que para se planejar um estudo historiográfico.

o assinalamento da naturalidade desses autores. como sétima e derradeira premissa metodológica. também não será supérfluo. na prática.. Rio de Janeiro. 3. 1848. num trabalho desta natureza. ed. sabendo que a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA não é privilégio exclusivo dos HISTORIADORES PARAIBANOS. ESCRIPTO E FEITO POR MANDADO DO MUITO REVERENDO PADRE EM CHRISTO O PADRE CHRISTOVÃO DE GOUVÊA. para não falar de outras tantas incorreções e imprecisões que se costumam ler em determinados ensaios historiográficos já tão repetitivamente divulgados. apesar de suas carências metodológicas. da autoria de um certo jesuíta anônimo. versando sob as várias tentativas de conquistas da Paraíba e abrangendo as ocorrências a elas pertinentes entre 1574 e 1587. desenvolverei a partir de agora um esboço historiográfico da Paraíba dando ênfase. E GUERRAS QUE SE DERÃO NA CONQUISTA DO RIO PARAHIBA. dos autores nativos deste atual Estado da República. Rio de Janeiro. ao primeiro século da nossa História e tentando.. ed. certamente. entretanto. testemunha presencial de boa parte dos fatos por ele relatados. resolvi não incluir no final deste trabalho as necessárias referências bibliográficas que. ed. porém. anterior Província do Império e antiga Capitania da Colônia. propositadamente. cujo título completo é SUMÁRIO DAS ARMADAS QUE SE FIZERÃO. ou seja. sempre que oportuno. ainda sem qualquer verificação da fidelidade textual aos seus respectivos códices de origem: 1. Parahyba do 388    . a utilização do idioma português em prosa como meio de comunicação e. bem como outros eventuais dados interessantes das suas respectivas identidades. por outro lado. na medida do possível. Historiografia da conquista e da colonização inicial da Paraíba Levando-se em conta. VISITADOR DA COMPANHIA DE JESUS DE TODA A PROVINCIA DO BRASIL. indicarei muito sucintamente as edições das obras aqui registradas. Isto posto. ao longo deste texto. levando-se em conta o universo da Paraíba como matéria exclusiva de abordagem temática. preencher algumas das várias lacunas gritantes. doravante simplesmente denominado de SUMÁRIO DAS ARMADAS [hoje já com seis edições. 2.na prática apenas como uma nota prévia de um estudo historiográfico mais abrangente que esta incumbência a mim confiada neste Ciclo de Debates estimulou a desenvolver e a publicar em futuro próximo.. para espanto geral. não dispensarei na sua versão definitiva. por um lado. a historiografia desta terra se inicia. Finalmente. 1873. com uma crônica sem data declarada.

Acerca do SUMÁRIO DAS ARMADAS escrevi ultimamente uma alentada crítica de atribuição em três volumes. 1923.. Já no caso do SUMÁRIO DAS ARMADAS. como também foi possível tornar sem efeito a argumentação básica que levou o ilustre historiador lusitano. por dar [até aqui] uma breve relação de cousas que. data esta até hoje profusamente controvertida e sem qualquer abordagem metodológica. 1983. Manuel. Rio de Janeiro. o Venturoso. aquela comparação entre esta crônica anônima e a carta de Caminha é razoavelmente aceitável. 1974. em que as fontes do relato foram exclusivamente os fatos observados pelo missivista à medida que iam acontecendo. não somente a data em que estava sendo redigido o SUMÁRIO DAS ARMADAS (1594). 389    . todavia. ed. ed. ed. a concluir de forma aparentemente inquestionável que o autor daquela crônica primeva da Paraíba seria obrigatoriamente o padre Simão Travaços. REVISÃO DA CRÍTICA DE ATRIBUIÇÃO DA MAIS ANTIGA CRÔNICA DA PARAÍBA E OUTRAS ACHEGAS HISTÓRICAS CONTEMPORÂNEAS. João Pessoa. Campina Grande (PB). veio finalmente à luz. entre os indícios de várias outras obras que teriam sido consultadas por aquele jesuíta anônimo tive a oportunidade de também averiguar. escrita em espanhol e hoje já duas vezes impressa. nos livros que falam do Brasil. Porto. ainda inédita e em vias de publicação. sob o título de GRAVETOS DE HISTÓRIA. D. Mesmo sabendo que. uma vez que esta carta descreve certos episódios históricos in statu ascendi. d’onde me[ad]verti. 1909. também de autor desconhecido. como também chegou a admitir que leu livros para redigir a sua crônica ao afirmar: “Mas. além de muitas “outras achegas históricas contemporâneas”. ed. através de pesquisa pessoal.Norte. Esta crônica tem sido ultimamente cognominada de a “Certidão de Batismo da Paraíba” à semelhança do que ocorrera antes com a famosa carta de Pero Vaz Caminha ao Rei de Portugal. não achei escriptas”.J. Neste trabalho. através de elementos de crítica interna e externa. 1996]. o SUMÁRIO DAS ARMADAS.. tornando [eu agora] ao ponto. 6. Rio de Janeiro. 4. somente até certo ponto. embora a mesma característica possa ser observada ao longo da esmagadora maioria do seu texto. Desta maneira. 5. padre Dr. houve entretanto algumas ocasiões em que seu autor não somente recorreu a fontes orais e escritas. 1936). a rigor.. a consulta feita por ele a uma outra crônica jesuítica mais antiga. por sua vez denominada a “Certidão de Nascimento do Brasil”. S. não é cronologicamente a reação mais antiga sobre a Paraíba. cuja redação terminou em outubro de 1576. Serafim Soares Leite. chamada HISTÓRIA DE LA FVNDACION DEI COLLEGIO DE LA CAPITANIA DE PERNAMBUCO (1..

J. ora DA CONQUISTA DA PARAHIBA (1877). de maneira incorreta. foi cunhado quase um século e meio antes de “1983”. cuja íntegra é totalmente desconhecida do público leitor do Brasil em que pese. e não o padre Jerônimo Machado. o fato de esta obra já possuir seis edições entre 1848 e 1996. já que este autor sorocabano. como ultimamente tem sido diversas vezes propalado. Este título geral espúrio. para surpresa de alguns. da mesma forma que. S. por José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha. estar querendo dificultar o leitor interessado a identificação do SUMÁRIO DAS ARMADAS. cuja grafia original e escorreita é HISTÓRIA DA CONQUISTA DO [RIO] PARAHYBA. no ano de 1848. em nosso meio. título este que foi inicialmente utilizado de forma associada e antecedendo o nome verdadeiro desta crônica anônima. embora extremamente superficiais. teimava em chamá-la. 1587 [sic] (1877). ora GUERRAS DO RIO PARAHIBA (1877). (nascido em Ferreiros. responsável que foi pela sua primeira edição no Rio de Janeiro. ao longo do tempo. ambos anteriores à redação do SUMÁRIO DAS ARMADAS.S. ambos do ano de 1584. pois registram 390    . J. já foram esquecidos outros seis diferentes títulos sugeridos no século passado para esta mesma crônica anônima (estes últimos de caráter substitutivo e não associativo. então bispado de Braga. na realidade. com os quais o grande historiador Francisco Adolpho Varnhagen parecia. portanto. ou seja. será esquecer aquele título geral espúrio que só serve para confundir a cabeça dos menos avisados. Estes escritos. (canarinho de Tenerife). no Brasil). em Portugal). não tem a menor importância para a identificação do SUMÁRIO DAS ARMADAS e. ora JORNADA E CONQUISTA DA PARAHIBA (1874). sem qualquer referência prévia ao seu verdadeiro nome. ora de RELAÇÃO DA TOMADA DA PARAÍBA (1851). Melhor. ora CONQUISTA DA PARAHIBA. (natural da Capitania de São Vicente. S. Considerando-se ainda como referência básica a utilização do idioma português em prosa como meio de comunicação. dois importantes escritos do padre Joseph de Anchieta. felizmente.J. o que foi mais grave). ora DA CONQUISTA DO RIO PARAHIBA (1854). É preciso ainda salientar aqui que o SUMÁRIO DAS ARMADAS jamais foi “Rebatisado [?]” em “1983” com o nome de “HISTÓRIA DA CONQUISTA DA PARAÍBA”. os únicos possíveis candidatos à sua autoria. não é possível deixar de assinalar aqui. Registre-se ainda aqui que devo em breve preparar uma edição crítica e definitiva do SUMÁRIO DAS ARMAAS incluindo as transcrições diplomáticas dos dois apógrafos seiscentistas desta crônica. como já ficou dito. embora sem exclusividade temática para o universo da Paraíba.

ed. foi redigida em espanhol e em versos. Bento a Pernambuco... ed. Veio também em sua companhia um de S. ed. Francisco que também prègou algum tempo em Pernambuco e tornou-se para o reino”. Mas como não se povoou a Paraíba. 3. ou três vezes os aniou com o mesmo triunfo. com cerco tão apertado oprimiram o forte dos Cristãos [forte de São Felipe e São Tiago]. São Paulo. três frades do Carmo e dois ou três do S. quando confrontados ao SUMÁRIO DAS ARMADAS servem também para mostrar o estreito intercâmbio de notícias que existia já naquele tempo entre os diversos Colégios e Residências da Companhia de Jesus. 6. 1933. não fizeram mais que prègar e confessar sem fazer mosteiro. 4. é ainda daquele mesmo ano de 1584 a mais antiga obra referente com exclusividade à Paraíba.. diga-se que o jesuíta anônimo. NO ANO DE 1584 [1. a qual.]. S. 3. rogavam a Deus onipotente a vitória dos Portugueses. Continuando o ataque ao reino por parte da armada. segundo a qual aqueles milicianos do efêmero forte de São Felipe e São Tiago tiveram que comer carne de cavalo para não morrer de fome... 1964. Rio de Janeiro. ed. 1897. confirmou mais tarde aquela notícia do padre Joseph de Anchieta. 1886. 1900. da autoria de Juan Peraza. soldado espanhol do General Diogo Flores de Valdez. desta vez alcançaram a vitória”. todos os dias. No primeiro texto o padre Joseph de Anchieta. 2. Este primeiro excerto pertence à EMFORMAÇÃO DO BRAZIL E DE SUAS CAPITANIAS.. que vinha povoar o rio da Paraíba. ed. São Paulo. escreveu apenas o seguinte: “No ano de 1581 viera em companhia de Frutuoso Barbosa. 5. Rio de Janeiro. 1988].. ed.J. S... 1988. comandante das tropas reais. escreveu: “Por todo o tempo que dursou a guerra da Paraíba [até este ano de 1584] feita por Diogo Flores [de Valdez]. em particular. 2.J. nem por isso são negligenciáveis. 1844. a divina bondade não só lhes concedeu a princípio a desejava vitória. Quanto ao último excerto. entretanto.fragmentos históricos brevíssimos do processo da conquista da Paraíba. Rio de Janeiro.. Com toda a segurança. em preces e ladainhas. autor do SUMÁRIO DAS ARMADAS. Este segundo excerto pertence à BREVE NARRAÇÃO DAS COISAS RELATIVAS AOS COLEGIOS E RESIDENCIAS DA COMPANHIA NESTA PROVINCIA BRASILICA.J. 1886. como também mais duas. Por essas preces. 1933. Estes dois excertos. Com o favor de Deus. 4. ed. que quasi mortos de fome se viram obrigados a se alimentar de carne de cavalo. [1... Trata-se de um interessantíssima crônica sobre uma das tentativas de conquista da Paraíba.. cujo título é RELACION CIERTA Y VERDADE391    . ed. Rio de Janeiro. ed. Rio de Janeiro. Belo Horizonte/São Paulo. ed. Já no segundo texto o padre Joseph de Anchieta. S. Belo Horizonte/São Paulo. os nossos pades.

O mestre João Capistrano Honório de Abreu conheceu esta crônica e chegou a sumariar seu conteúdo reproduzindo alguns poucos versos seus sem. publicada em Sevilha em 1584. Embora essa crônica em versos de Juan Peraza seja muito raramente registrada por igualmente raros autores. Muitos e muitos anos mais tarde. a qual teve como protagonista um dos padres da Companhia de Jesus. (natural de Almodovar.. relatou um determinado feito heróico não registrado nesta última crônica anônima. autor do SUMÁRIO DAS ARMADAS. bem como sua própria existência continuam muito pouco conhecidos e jamais vi uma citação por parte dos chamados especialistas em estudos historiográficos da Paraíba. 2. 1880]. Y DE COMO SE LO GANÓ Y QUEMÓ LAS NAVES Y CASAS QUE TENIAM. todavia. CUENTA COMO CORRIENDO LA COSTA DEL BRASIL HALLÓ UN PUERTO QUE LOS FANCEZES TENIAM TOMADO Y ALLI ESTABAN ELLOS FUERTES. 19301942. 3 t. explicitar-lhe o longo título. tanto o Senador Cândido Mendes de 392    . DE QUE LHE POR CAPITAN GENERA EM LA JORNADA DE MAGALLÁNES Y GUARDA DE LAS INDIAS. embora não conhecendo o texto do SUMÁRIO DAS ARMADAS e baseando-se em informações outras também de origem jesuítica. NAS PARTES DA INDIA ORIENTAL.J.RA QUE TRATA DE LA VICTORIA Y TOMA DE LA PARAYVA. ed. NOS ANNOS DE SEISCENTOS 7 DOUS 7 SEISCENTOS 7 TRES. Aparentemente.. 1584.. sob as ordens do Ouvidor Geral Martim Leitão. Coimbra. também não conheceu esta crônica em rimas de Juan Peraza.. Sem entrar no mérito da respectiva apreciação crítica também não se pode deixar de assinalar aqui uma obra jesuítica da autoria do padre Fernão Guerreiro. S. A referida obra do padre Fernão Guerreiro. que.J. seu título ou seu texto integral. que acompanharam uma das expedições de conquista da Paraíba. ed. que consegui afinal coligir. é a RELAÇAM ANNAL [sic] DAS COUSAS QUE FEZERAM OS PADRES DA COMPANHIA DE JESUS. Lisboa. COMO LO CUENTA LA OBRA MAS LARGO [1. QUE EL ILUSTRE DIOGO FLORES DE VALDEZ TOMÓ COM LA ARMADA DE SUA MAGESTAD REAL. ANGOLA. 7 CHRISTANDADE D’AQUELLAS PARTES. o jesuíta anônimo. CABO VERDE. 7 DO PROCESSO DE CONVERSAM. Madrid. 2. S. NATURAL DE ALMODOUVAR DE PORTUGAL [1. ed. PELO PADRE FERNAM GUERREIRO DA MESMA COMPANHIA. Portugal). ed.. Sevilla.]. 1605. TIRADA DAS CARTAS DOS MESMOS PADRES QUE DE LÁ VIERAM. 7 NO BRASIL. aí não identificado. GUINE.

. Nesta obra muitas informações de capital importância para a Paraíba podem ser colhidas. ETC. por sua vez. Existe ainda uma outra crônica jesuítica anônima que. valiosa informação relativa aos primeiros anos da colonização da Capitania da Paraíba (acerca da população branca e escrava. neste último caso. conhecido como o Manuscrito de Madrid (redigido em 1590). Registre-se. além do número de engenhos até então aí levantados). informação esta que permaneceu inédita por quase quatro séculos. O Manuscrito de Madrid tem o seguinte título: DE ALGUÃS COUSAS MAIS NOTAVEIS DO BRASIL E DE ALGUNS COSTUMES 393    . frei Manuel da Ilha. editada em inglês por Richard Hakluyt. escreveu no ano de 1621. bem como a em que também construiu a primeira versão arquitetônica do forte do Cabedelo ambos no ano de 1589 e. [nascido em Portugal].F. ainda. Outra obra extremamente importante para este período e que passou mais de trezentos e cinquenta anos inédita e sem tradução para o português é a de um autor franciscano.... a NARRATIVA DA CUSTÓDIA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL: 1584/1621 (DIVI ANTONII BRASILIAE CUSTODIAE ENARRATIO SEU RELATIO NUMERIQUE DOMORUM ET DOCTRINARUM QUAE IN ELLA SUNT NECNON ALIARUM RERUM NARRATIONIS DIGNARUM. S. 1975]. Trata-se do manuscrito quinhentista da Biblioteca da Real Academia de la Historia. ed. atrás assinalados. para diferenciá-lo de outro códice análogo pertencente à Biblioteca da Universidade de Coimbra. como ilustração adicional. inclusive uma obra didática local bastante difundida que indica o ano de “1586” para o levantamento do forte do Cabedelo. [1. que na NARRATIVA DA CUSTÓDIA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL: 1584/1621 existe uma importante informação sobre um ataque de corsários franceses à Capitania da Paraíba em 1597.M. O. ficam assim totalmente retificadas tantas opiniões equivocadas e até hoje perpetuadas repetitivamente para as novas gerações. fizeram referência ao tal feito heróico (e fantástico). mesmo sem ter vindo ao Brasil porém baseado em documentação da sua Ordem. Petrópolis (RJ). porém. em latim. J. entre as quais o esclarecimento das circunstâncias e da data em que Frutuoso Barbosa construiu o forte do Inobi. traz uma pequena. que. Serafim Soares Leite. a qual fica em parte complementada por outra obra que citarei logo adiante. sob a invocação de Santa Margarida.. de Madrid. a respeito do qual este último autor jesuíta se mostrou menos crédulo que o seu antecessor leigo Tive também a oportunidade de tecer alguns comentários críticos sobre aquele episódio heroico nos GRAVETOS DE HISTÓRIA.).Almeida quanto o padre Dr.

VOIAGES. esta carta. nascido em Ponte de Lima. o futuro herói e não menos aguerrido Capitão João de Mattos Cardoso e não “Francisco Cardoso de Matos”. o qual pagou com a própria vida o fato de ter conseguido tão valente façanha.. tem a particularidade de ter sido publicada em inglês em 1600 e o documento (carta) nela contido. Portugal. S. também não revela o nome do falecido Capitão do forte do Cabedelo. cujo nome sai agora em primeira mão. mas não conheceu a Capitania da Paraíba. a seu turno. TO THE REMOTE. leia-se “Coelho”] de Carvalsho [sic. ed. 1597. já então em segunda edição. Aquela carta que.. ou seja. AT ANY TIME 394    . esta crônica é atribuída atualmente ao padre Francisco Soares. Esta carta relata com detalhes um relevante episódio dos primórdios da colonização da Paraíba. Serafim Soares Leite. A monumental obra de Richard Hakluyt onde este documento foi inserido. de caminho para o Reino. AND FARTHEST DISTANT QUARTERS OF THE EARTH. receu em inglês o título de “A speciall letter written from Feliciano Cieza [sic. como tem sido infelizmente chamado de forma estropiada ao longo de sucessivas reimpressões de uma conhecida obra didática sobre a Paraíba. que o destinava ao Rei Felipe II da Espanha [I de Portugal]. tem o seguinte título: THE PRINCIPAL NAVIGATION. Maria Manaya). sem sombra de dúvida. levando-a à Inglaterra. e que morou no Brasil. TRAFFIQVES AND DISCOUERIES OF THE ENGLIS NATION. consegui demonstrar a identificação.DOS INDIOS [1. que nos interessa mais de perto. leia-se “Carvalho”] the Governor of Parajua [“Paraíba”] in the most Northerne part of Brasil. A obra que se segue e que já foi superficialmente antecipada há pouco. veio a ser interceptada por corsários ingleses que. answering his desire touching the conquest of Rio Grande [do Norte]. to Philip the second King of Spaine. Graças a pesquisas do padre Dr. S. [20.. with the relation of the besieging of the Castle of Cabodelo [“Cabedelo”] by the frenchmen.J. August]. cujo posto veio a ser em seguida preenchido pelo seu genro (casado com D. Rio de Janeiro. Nos GRAVETOS DE HISTÓRIA . aconteceu de ser vertida e publicada em inglês por Richard Hakluyt numa obra extremamente famosa e rara.. Governador da Capitania da Paraíba. deste incógnito herói da Paraíba. foi produzido originalmente em português no dia 20 de agosto de 1597 por Feliciano Coelho de Carvalho. 1966]. MADE BY SEA OR OUER-LAND.J. ou seja Capitão Antonio Gonçalves Manaya. um poderoso ataque de uma armada francesa que em 1597 foi repelida pela reação desassombrada do até aqui anônimo e então Capitão do forte do Cabedelo. entretanto. and of the discoverie of a rich silver mine diverse other important matters”..

muito se abeberou o historiador Francisco Adolpho Varnhagen no ano de 1839.. tanto quanto eu saiba.. correspondência esta coligida na Torre do Tombo... a segunda dentre elas ter precisado figurar sob a condição de autoria proposta. 6. Esta segunda obra. ed. Neste acervo muitas notícias bastante valiosas e de particular interesse para a Paraíba no período em tela podem ser aí encontradas. devem ser atribuídas sem receio ao mesmo autor. Edinburgh. London. obra esta que por motivos. o Sargento-mor da Costa do Brasil Diogo de Campos Moreno. 1878]. 15981600. 1977]. Londres. Capitania de Pernambuco. 5.. cujo texto. YEERES [2. Não posso também deixar de assinalar aqui a CORRESPONDENCIA DE DIOGO BOTELHO (GOVERNADOR DO ESTADO DO BRAZIL) (16021608) publicada no início deste século que se finda [1. ainda não foi traduzida para o português [1. embora de muito elevada probabilidade. ed. De capital interesse para o período que estou aqui enfeixando é preciso assinalar duas obras que hoje em dia. no mínimo curiosos. particularmente do governo de Feliciano Coelho de Carvalho. no ano de 1613”. 1885. ed. No manancial desta obra. apesar de até então. 3. por se mostrar completamente supérfluo àquela altura. Sua primeira publicação integral foi feita há não muitos decênios em terra es395    . London. sofreu várias alterações entre 1625 e 1627. quando ainda manuscrita. no máximo. Também não posso omitir o registro da RELAÇÃO DE AMBRÓSIO DE SIQUEIRA (1605) DA RECEITA E DESPESA DO ESTADO DO BRASIL [1. 1812. já reduzidos desde 1599. 3 v.. 1904. 1928]. redigida “em 1612 ou. 1910] que governou esta Colônia fixando residência na vila de Olinda. depois das sólidas argumentações do mestre José Antônio Gonsalves de Mello (Neto) em 1984. já que a margem esquerda do rio Paraíba não sofria mais a ameaça dos potiguara. ed. e publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. ed. ed.Glasgow. documento publicado há pouco mais de duas décadas e que possui informações preciosas para a Capitania da Paraíba. em cópia paleográfica.. onde o autor oferece valiosas informações coevas sobre a nossa terra.WITHIN THE COMPASSE OF THESE 1500. Existe ainda uma edição da mesma carta do Governador Feliciano Coelho de Carvalho vertida para o idioma francês e publicada por Paul Louis Jacques Gaffarel em HISTOIRE DU BRÉSIL FRANÇAIS AU SEIXIÈME SIÈCLE. é a mais conhecida delas e tem um capítulo referente à Capitania da Paraíba. ed.. Paris. segundo Helio Vianna. ainda manuscrito. ed. 4.. entre as quais a da extinção do forte do Inobi em 1603.

2. Estou falando da RELAÇÃO DAS PRAÇAS FORTES. ed. 1984]. ed. POVOAÇÕES E COUSAS DE IMPORTÂNCIA QUE SUA MAGESTADE TEM NA COSTA DO BRASIL. tendo que se esperar mais meia década para que a primeira publicação integral (e crítica) brasileira fosse dada a lume por Helio Vianna. que lhe adicionou uma excelente introdução crítica [1..tranha (Estados Unidos) pelo benemérito Engel Suiter. da mais alta importância tanto na Literatura Brasileira quanto nas Letras Históricas do Brasil e que foi considerada por José Honório Rodrigues como um dos doze maiores livros escritos sobre o Brasil no Período Colonial. data em que esta obra foi redigida. A propósito. DE SEUS FRUITOS E RENDIMENTOS.. ed. à margem do rio Tibiri e era. FEIA PELO SARGENTO-MOR DESTA COSTA [do Brasil] DIOGO DE CAMPOS MORENO NO ANO DE 1609. e que estava sendo redigido em 1618 na Capitania da Paraíba. na realidade. ed. ao que tudo indica. com texto independente e raramente aproveitado nesta versão mais moderna. Temos agora a comentar uma obra sem autoria declarada. FAZENDO PRINCÍPIO DOS BAIXOS OU PONTA DE SÃO ROQUE PARA O SUL DO ESTADO [do Brasil] E DEFENSÃO DELAS. 1955. seguramente. o cristão-novo português Ambrósio Fernandes Brandão chegou a possuir três engenhos. Estou falando do LIVRO QUE DÁ RAZÃO DO ESTADO DO BRASIL – 1612 [1.. Neste texto mais antigo também se veem valiosíssimas informações sobre a Capitania da Paraíba. 1968]. com o intuito de elucidar uma velha questão acerca dos primeiros engenhos de açúcar desta antiga Capitania. João Pessoa. ed. além de um 396    .. porém. Já a primeira das duas obras de Diogo de Campos Moreno a que me reportei acima. a menos conhecida e menos divulgada não somente na HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA como também na HISTORIOGRAFIA DO BRASIL. a meu ver a mais importante para o nosso caso e. como se pensava. onde o seu mais do que provável autor. onde fica esclarecido que a segunda fábrica de açúcar desta terra não se quedava.. já que. publicada há apenas três lustros pelo Prof. era o engenho de Santo André. nem o enciclopédico historiógrafo José Honório Rodrigues teve notícia dela. 1999]. 1949. 3. cujo capítulo tem a enorme vantagem de arrolar os engenhos da Paraíba no ano de 1609. parece ser uma redação primitiva do LIVRO QUE DÁ RAZÃO DO ESTADO DO BRASIL – 1612. publiquei há alguns meses o livro PÁGINAS DE HISTÓRIA DA PARAÍBA – REVISÃO CRÍTICA SOBRE A IDENTIFICAÇÃO E LOCALIZAÇÃO DOS DOIS PRIMEIROS ENGENHOS DE AÇÚCAR DA PARAÍBA [1. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto).

. diferentemente do que tem sido erroneamente divulgado reiteradas vezes nesta terra.. não custa repetir. ed. Rio de Janeiro. em ed. 1999 (8. Rio de Janeiro. Além disto ele revela uma cultura muito acima da média do seu tempo. ed. corresponde ao ano em que estava sendo redigida esta obra que. 1886-1887 (em periódico).. a edição de 1966 dos DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL também não é a segunda edição. Ed. 1943 (2. ed. como tem sido erroneamente divulgado em mais de uma obra paraibana. João Pessoa. Em paralelo. 1968 (6. só começou a ver a letra de forma.. segundo o apógrafo de Leyden. ed. independente e a 1. Cumpre ainda dizer. ed. Recife. que um ano antes havia publicado a primeira edição do SUMÁRIO DAS ARMADAS. 4. aliás. 1956 (3. independente em livro). 2. que se encarregou de publicá-la mais tarde. 7. ed. ed. Esta data de 1618. que no ano de 1618 jamais existiu uma edição dos DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL.. 1977 (7. 1966 (5. ed. 6. ed. ed. ed. 3. independente em livro). relação esta que foi descoberta na Biblioteca Nacional de Madrid por Francisco Adolpho Varnhagen. Recife. independente em livro e a 2. a respeito da cabeça da Capitania da Paraíba. mas sim a nona edição geral desta obra ou a sétima edição contendo os seis diálogos que a compõem ou a quinta edição desta obra de forma independente (livro) ou a segunda edição integral desta obra. 1962 (4. 5. E 397    . ed. publiquei há alguns anos uma plaqueta intitulada: LEVANTAMENTO DAS PUBLICAÇÕES DOS DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL COM ALGUMAS NOTAS SOBRE O SEU MAIS DO QUE PROVÁVEL AUTOR [1. ed.10. mais completo que o apógrafo da Biblioteca Nacional de Lisboa. 9. ed.. José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha. ed. independente em livro). 8. ainda de maneira incompleta.. ed. ed. Rio de janeiro. 1994]. Trata-se da DESCRIÇÃO DA CIDADE. no ano de 1849. mais uma vez. ed. São Paulo/Brasília. Estamos falando dos DIÁLOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL [cujas edições contendo os seus seis diálogos ou partes são: 1. Recife. independente em livro).outro na Capitania de Pernambuco. integral segundo o apógrafo de Leyden). independente em livro).. integral segundo o apógrafo de Leyden). 1900 (em periódico). 1930 (ou 1. O autor desta obra mostra-se um apologista da Capitania da Paraíba sobre o qual versa extensamente. que serviu para outras edições. Salvador. Recife. no mesmo periódico (ÍRIS) e pelo mesmo editor.. Existe ainda uma excelente relação escrita em 1630 por um piloto português residente na Cidade Felipéia de Nossa Senhora das Neves (atual Cidade de João Pessoa). Acerca desta matéria. independente em livro). ed. Rio de Janeiro.

Ademais. Começa. ed. 2.. na sua HISTÓRIA OU ANNAES DOS FEITOS DA COMPANHIA PRIVILEGIADA DAS INDIAS OCCIDENTAIS DESDE O SEU COMEÇO ATÉ AO FIM DO ANNO DE 1636 POR JOANNES DE LAET. considero de boa norma. (por sinal. 1911]. ed. a rigor. sempre que possível. 1871. irmão biológico do padre Fernão Guerreiro. Historiografia da Paraíba relativa ao período holandês no Nordeste do Brasil Ao longo deste recorte temporal eu não poderia me contentar. acima citado). evidentemente. Esta arribada fez com que a Paraíba.. De tudo isto ocorrido em 1625 na Paraíba o padre Bartolomeu Guerreiro.BARRA DA PARAHIBA DE ANTÕNIO GONÇALVES PASCHOA. ed. ed. Já do lado neerlandês este episódio (e tantos outros acontecidos até o ano de 1636). a exemplo do que já tenho visto noutros estudos historiográficos da Paraíba. em 1625. viesse a ser a primeira Capitania a sofrer as consequências das invasões holandesas no Brasil. PILOTO NATURAL DE PENICHE. Viena d’Áustria.. deu bom testemunho na sua JORNADA DOS VASSALOS DA COROA PORTUGUESA [1. qual seja uma bastante conhecida relação de Elias Herckmans. tratando-se deste específico período. ed. S. mesmo porque não concordo com o fato de iniciar esta fase da historiografia colonial da Paraíba com o citado escrito do “Poeta Aventureiro”. retornou até a altura da Baía da Traição na Capitania da Paraíba. Rio de Janeiro.J. tendo promovido não poucos estragos nesta terra mas também com perdas sofridas. do lado português. o período holandês na Paraíba não começa com o guante que eles impuseram a esta Capitania durante vinte anos a partir do apagar das luzes de 1634. por Joannes de Laet.. fazer confrontar. aí permanecendo até 01 de agosto de 1625 . com a menção isolada à apenas uma obra que representaria todo este período. Begrepen in Derthien Boecken. à luz de documentos oficiais. S. Por outro lado. QUE HÁ VINTE ANNOS QUE RESIDE NA DITA CIDADE [1. tendo chegado ali tarde demais. Zedert haer Begin tot het eynde van’t jaer fefthien-hondert fes-em-dertich.. DIRETOR DA MÊSMA COMPANHIA (Historie Ofte Iaerlijck Verhael van de Varrichtinghen der Georctroyeerde Weftindifche Compagnie. 3.. quando a esquadra holandesa de socorro à Bahia. depois da Bahia. 1966]. Rio de Janeiro. na verdade. antes mesmo da Capitania de Pernambuco em 1630. obras de autores do partido neerlandês a obras de autores do partido ibero-brasileiro. 1625. Ende met verfcheyden koperen Platen verciet:Befch-reven door IO398    . onde fundeou a 21 de junho de 1625 para fazer aguada e tratar dos doentes que trazia a bordo. comandada pelo General Boudewijn Hendrickzoon. nove anos antes disto. 2.J. 1860. Parahyba do Norte. Lisboa. foi detalhadamente relatado.

3. Rio de Janeiro. 1644. entre as poucas fontes ou obras básicas que registram este episódio. na HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA e na HISTORIOGRAFIA DO BRASIL.. 3. ed. A este depoimento precioso do lado holandês se contrapõe um outro. Desde muito cedo os “flamengos” tiveram razoável conhecimento sobre a Paraíba através de inúmeros relatórios. que em português recebeu o título de DIÁRIO DE UM SOLDADO DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCCIDENTAIS (1629-1632). [1. 4. chamado José Israel da Costa. 1978]. figura um importantíssimo livro escrito por testemunha presencial do feito.S. POSSO ME RECORDAR. porém do lado português. Estrasburgo. ESCRITA EM 20 DE MAIO DE 1630 [1. ed. ed. sob o título AÇÚCARES QUE FIZERAM OS ENGENHOS DE PERNAMBUCO. ed. ed.. 1677. 1. 4... ALDEIAS E COMÉRCIO DA MESMA CIDADE. 1897. 3. literalmente. o alemão Ambrósius Rischshoffer (natural de Estrasburgo). ILHA DE ITAMARACÁ E PARAÍBA [ ed. São Paulo. 1968. Leyden. Recife. incluindo o texto acima referido de Joannes de Laet. Por sua vez. Haia. Descrição de Viagem ao Brasil e às Índias Ocidentais). BEM COMO DE ITAMARACÁ.. 1977. 1901. ed. SOBRE A SITUAÇÃO. ed. (natural da Cidade do 399    . mas que em alemão chamou-se Brassiliannifchund Weft Indianifch Reiffe Refchrelbung (ou.1977. Recife. no ano de 1623 (aparentemente mais tarde). LUGARES. cujo autor é frei Paulo do Rosário. ainda muito precocemente surgiu uma MEMÓRIA APRESENTADA AOS SENHORES DO CONSELHO DESTA CIDADE DE PERNAMBUCO. Ao que parece.ANNES DE LAET Bewint-hebber der felber Compagnie) [1... 1916-1625. PARAÍBA E RIO GRANDE [do Norte] SEGUNDO O QUE EU. a qual foi anexada a posteriori a um memorial apresentado aos Estados Gerais dos Países Baixos. 1981]. o mais antigo deles é de um judeu-português estabelecido em Amsterdã. 1949. ed.. 1931-1937. Recife. também de testemunha presencial. raríssimo. 2 t. Recife. São Paulo.. ed. No início de dezembro de 1631 uma poderosa armada neerlandesa. ed. 2. 2. Recife. que se sucederam ao longo do tempo. na prática. Recife. sofreu um grande revés ao atacar a Capitania da Paraíba com o objetivo de conquistá-la.. Haia. 4 v]. que organizou uma relação de engenhos das Capitanias de Pernambuco.. O. 1981]. oriunda da Capitania de Pernambuco... Itamaracá e Paraíba (indicados apenas pelos nomes dos seus respectivos donos). ed..B. ed. que estava por eles invadida desde 1630. ed. até agora inaproveitado.. Recife. 2. 1930. 5. Do lado holandês. ADRIAEN VERDONCK.

pelo menos em parte. Recife. Há quem veja esta obra de Francisco de Brito Freyre. Lisboa. 1844. Kaspar van Baerle. empeçando desde el de M. 1632]. QUE FAÕ VINTE NÁOS DE GUERRA.1998]. PRETENDERÃO OCCUPAR EFTA PRAÇA DE FUA MAGETTADE. ed. 1855. 3. ed..por discvrso de nveve años.ed. ed.XXX) [1. integral.. Lisboa. e cuja obra valiosíssima estou republicando em edição crítica. a qual.. TRAZENDO NELLAS PERA O EFFEITO DOUS MIL HOMENS DE GUERRA EFCOLHIDOS A FORA A GENTE DO MAR [1. ed.. 1979].. Lisboa. cujo título no vernáculo é MEMÓRIAS DIÁRIAS DA GUERRA DO BRASIL: 1630-1638 (Memorias Diárias de la Gverra del Brasil. 2. ed. Recife. embora panegírica e elabora400    . 1679. Ainda do lado português também pode funcionar como uma referência básica para a mesma matéria (e muitas outras relacionadas à Paraíba) a NOVA LUSITANIA HISTORIA DA GUERRA BRASILICA do alentejano Francisco de Brito Freyre [1. 2. 1675. ed.... ed. para o holandês e para o português). A fase nassovista do período holandês (1637-1644) e que diz igualmente respeito à Capitania da Paraíba.DC. publicada originalmente em espanhol. tem entre os principais atores do seu partido. Seu título é RELAÇAM BREVE. ed. Rio de Janeiro. QUE OUUE O CAPITÃO MÔR DA CAPITANIA DA PARAIBA ANTONIO DE ALBUQUERQUE.Porto). no vernáculo. João Pessoa. Outra obra básica do partido português é a HISTORIA DA GUERRA DE PERNANBUCO [1. mestre de Gramática em Pernambuco No texto ainda inédito desta obra muito se abeberou (com pouco proveito) o vimaranense frei Raphael de Jesus.S. Recife.. 3. E VERDADEIRA DA MEMORAVEL VICTORIA.. recentemente. pouco mais ou menos representa um contraponto daquela outra de Joannes de Laet.. 1944. ed.B. uma importante obra. Paris. para redigir o pouco apreciado CASTRIOTO LUSITANO [1. mais conhecido pelo nome latinizado de Caspar Baleus ou. 7 VINTE 7 FETE LANÇCHAS. O. dizendo também respeito à Paraíba. Também do lado português. 1654. ed. ed. Gaspar Barléu que escreveu em latim (depois traduzido para o alemão. uma obra da autoria de Duarte de Albuquerque Coelho. 2. 1984] do portuense Diogo Lopes de Santiago. 4. Madrid. 1982]. DOS REBELDES DE OLANDA. serve como fonte básica para este e muitos outros fatos relativos ao período holandês entre 1630 e 1638. Recife. A respeito da importância desta obra na historiografia do período holandês no Brasil publiquei. uma plaqueta com o título O FRACASSO HOLANDÊS NA CAPITANIA DA PARAÍBA EM 1631[1.. 1977]. Recife. influenciada pelo texto da obra anterior.

2. 2. 1660. ed. tem por autor Johan Jacob Nieuhof.. ed. e o relatório de Elias Herckmans que também foi Diretor da Capitania da Paraíba. 6. Outra obra do período holandês de interesse para a Paraíba. 1981]... cujo título em português é RELATÓRIO SOBRE A CAPITANIA DA PARAÍBA EM 1635. die zich. Behelzende Al het geen op dezenve is voorgevallen. cujo título em português é DESCRIÇÃO GERAL DA CAPITANIA DA PARAIBA (Generale Beschrjvinge van de Capitania Paraíba) [1... ed. Fub Avriaco Ductoris. Rervm per octennivm in Brasília et alibi nuper geftarum. in d’oologen en opflant der Portugefer tegen d’ozen. ais draghten. Recife. 1975. Clèves. 9. Belo Horizonte/São Paulo. London. 1925. 1985.. ed.. 1682.. Clèves. dieren.. 1744. zich federt het jaer 1640 tot 1649. Amsterdam. 7. ed. ed. 2. Haia. London. Zoo van lantfchappen. ed.. ed. 4. ed. 1910.. ed. ed. ed. ed.. Servaes Carpentier. London. 5. 4. 1879. ed. Nunc Vefallae Gubernatoris & Equitatus Foederatorum Belfii Ordd.. Parahyba do Norte. TENENTE-GENERAL DE CAVALARIA DAS PROVÍNCIAS-UNIDAS SOB O PRÍNCIPE DE ORANGE (Casparis Balaei. 17861787. 6. 1923.da sob encomenda do próprio João Maurício. Nassoviae.. 1951. embora precise ser lida com bastante cuidado em certas passagens. Historia) [1. 1644. 8. 1942. PELO SR.. 1886. geduurende zijn negenjarigh verblijf in Brafil.. 5.fteden.. ed. 3. 1940]. João Pessoa. Utrecht. ed. 1959-1964. a qual em português recebeu o nome simplificado de MEMORÁVEL VIAGEM MARÍTIMA E TERRESTRE AO BRASIL (Johan Neuhofs Gedenkweerdige Brasiiaense Zee.. 3.. Mavritii. ed. Comitis. Amsterdam. 1732. Beneffens Een bondige befchrijving van gantfch Nererlants Brasil. Leyden. 10. ed. ed. &c. 8. Campina Grande (PB). Sub Praefectura Illftriffimi Comitis I. SERVAES CARPENTIER. 1981. ed.. ed. 1647..... 1989] Existem outros dois documentos holandeses onde parte não negligenciável 401    . 5. Amsterdam. London.) [1. 5. DR. 1982. Haia. 1767. Berlim. 4..em Lant-Reize. 1937. Entre os documentos holandeses exclusivamente referentes à Paraíba temos o do Dr. 1703-1704. London. cujo título para nós ficou sendo HISTÓRIA DOS FEITOS RECENTEMENTE PRATICADOS DURANTE OITO ANOS NO BRASIL E NOUTRAS PARTES SOB O GOVERNO DE WESEL. ed. 1982. zeden on godsdienft des inwooders: En in zonderheit Een wijtloopig verhael der merkwaardigfte voovallen en gefchiedeniflen.. João Pessoa. João Pessoa.. 3. Rio de Janeiro. São Paulo. ed. 1659. ed. 3. Campina Grande. Recife. CONSELHEIRO POLÍTICO E DIRETOR DA MESMA CAPITANIA (Raport van de Capitania Paraíba – 1635) [1. Conde Nassau-Siegen. 2.. ed. ed. 7. ed. João Pessoa. ed. ed. 11. 4. 9.. Rio de Janeiro. 1989]. 1773.gewaffen. 1808-1814.. ed. datado de 1639.

tendo sido terminado a 10 de dezembro de 1639 e cujo título em português é RELATÓRIO SOBRE O ESTADO DAS CAPITANIAS CONQUISADAS NO BRASIL. EM 4 DE ABRIL DE 1640 [1. ENTRE LES HOLLANDOIS E LES PORTVGAIS.. RECUPERAÇÃO DAS CAPITANIAS DE ITAMARACÁ. 2. ed. Recife. 3.. este último tenha sido o principal responsável pela sua redação. PAR PIERRE MOREAV. 3. ed. por Matias van Ceulen e por Adriaen Jacobszoon van der Dussen..).deles se refere à Paraíba. Sobre a capitulação holandesa e também dizendo respeito à Paraíba a anônima RELAÇAM DIARIA DO SÍTIO. SITUADAS NA PARTE SETENTRIONAL DO BRASIL [1. em várias edições vem sendo publicada juntamente com uma relação de Roulox Baro sobre os índios tapuias (RÉLATION DV VOYAGE DE ROVIOX BARO.. Alto e Secreto Conselheiro no Brasil holandês. 2. a qual. 1651. DE PERNAMBUCO. Haia. ao que tudo indica. ed. ITAMARACÁ. 2.. em francês.. Conde de Nassau-Siegen. AO CONSELHO DOS XIX NA CÂMARA DE AMSTERDAM. Seu título em português é BREVE DISCURSO SOBRE O ESTADO DAS QUATRO CAPITANIAS CONQUISTADAS. PARAÍBA E RIO GRANDE (do Norte). Recife. Paris. Amsterdam.. O outro relatório. E TOMADA DA FORTE PRAÇA DO RECIFE. embora. da autoria de Pierre Moreau (HISTOIRE DES DERNIERS TROUVBLES DV BRESIL. 1979]. A propósito dos últimos tempos do domínio holandês no Brasil e também interessando à Paraíba deve-se citar aqui uma obra originalmente impressa na Cidade de Paris. ed. Um deles é da autoria de Adriaen Jacobszoon van der Dussen. ed. 1887. 1947. Em português existem edições tanto com os dois primeiros escritos quanto com todos os três e no Brasil seu último título ficou sendo HISTÓRIA DAS ÚLTIMAS LUTAS NO BRASIL ENTRE HOLANDES E PORTUGUESES E RELAÇÃO DA VIAGEM AO PAÍS DOS TAPUIAS[1. traduzida do holandês para o francês pelo próprio Pierre Moreau. 1981]. 3... ed. 1981].. 1652. 402    . NATIF DE LA VILLE DE PARREY EM CHAROLLOIS). 4. ed. a que se segue um escrito adicinal da autoria de Claude Barthélemy Morisot sobre a relação precedente de Roulox Baro (REMARQUES DV SIEVR [Claude Barthélemy] MORISOT SVR LE GOYAGE DE ROVLOX BARO AU PAYS DE TAPUIES). ed. Recife. Utrecht. Belo Horizonte/São Paulo. datado de 14 de janeiro de 1638 mas certamente iniciado no ano anterior. 1923. Rio de Janeiro. ed. 1879.. PARAÍBA. 1923. APRESENTADO PELO SENHOR ADRIAEN VAN DER DUSSEN. ed.. vem assinado por João Maurício. Rio de Janeiro.

ed. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto) [1. Uma delas é da autoria do Prof. 3. 5. 1871.. 1874.... ed. (1ª tiragem). cujo prefácio é do Prof. 2. 1979. cujo título é TEMPO DOS FLAMENGOS: INFLUÊNCIA DA OCUPAÇÃO HOLANDESA NA VIDA E NA CULTURA DO NORTE DO BRASIL [1. Recife/Brasília.RIO GRANDE [do Norte].. (2ª tiragem).. Recife.. geralmente atribuído ao Dr Antônio Barbosa Bacelar. 2. 1987]. 1986]. natural de Portugal. dada ao público em letra de forma. 1654. o eminente médico e historiador Manuel Augusto Pirajá da Silva. 4. São Paulo. analisarlhe o texto e fixá-lo definitivamente através do estudo de muitos dos seus códices existentes em vários países.. 1943. A outra tem como autor Frans Leonard Schalkwijk e seu título é IGREJA E ESTADO NO BRASIL HOLANDÊS: 1630-1654.. ed. 1889. também neste particular. 2.. Recife.. 1979]. ed. ed. ed. 2. CIARÁ & ILHA DE FERNAÕ DE NORONHA. Rio de Janeiro. ed. A mais antiga delas para a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA é a obra enciclopédica de Gabriel Soares de Souza. (3ª tiragem). Já no Século XX temos inúmeras obras de valor porém me limitarei apenas a duas que também dizem respeito à Paraíba e são de fundamental importância para o domínio holandês no Brasil. Recife. 1978. ed. a quem a HISTORIOGRAFIA DO BRASIL muito deve. 1979.. Vienna d’Áustria. Lisboa. cujo título é HISTORIA DAS LUTAS COM OS HOLLANDEZES NO BRASIL DESDE 1624 A 1654 [1. ed. 1945. Recife. 1955]. ed.. as quais poderiam também ser rotuladas como tratados de história e crônicas gerais sobre o Brasil. da autoria do historiador sorocabano Francisco Adolpho Varnhargen. por ter ele conseguido editar este livro após esclarecer-lhe a autoria. sob a forma mais completa possível. não concordou nem com aquele título nem com a 403    . 3. que também editou esta obra. A Paraíba na historiografia geral do Brasil a partir do século XVI até a segunda metade do século XX Já é hora de volver minha atenção para algumas outras obras deste específico recorte cronológico em questão. 7 GOUVERNADOR DE PERNAMBUCO [1. 3. ed. ou seja. o ano de 1587 (aliás. Há ainda uma obra do Século XIX de particular interesse para o período holandês na Paraíba. atribuindo-lhe uma data de redação. ed. Salvador. Lisboa.. São Paulo. bem como atribuindo-lhe uma data de redação. atribuindo-lhe não somente um título geral. ed. 2. ed. POR FRANSIFCO BARRETO MEFTRE DE CAMPO GENERAL DO EFTADO DO BRAFIL. pelo ilustre historiador sorocabano Francisco Adolpho de Varnhagen. 1947. Rio de Janeiro. José Antonio Gonsalves de Mello (Neto).

entretanto. 1879.. 1958. frei Vicente do Salvador. ed. anteriores ou posteriores ao Barão e Visconde de Porto Seguro. 1971. São Paulo.. O. ed. Desta mesma obra.aposição daquela data agregada ao título geral). São Paulo. Rio de Janeiro. melhor dizendo. ver404    . 1974. o recuperado por Francisco Adolpho de Varnhagen. Belo Horizonte/São Paulo. 1886. São Paulo. Rio de Janeiro. Frei Vicente do Salvador. Rio de Janeiro. ed. 1965.F. SENHOR DE ENGENHO DA BAHIA.M. e professado a Ordem Franciscana no dia 30 de janeiro de 1600. São Paulo. (natural da Bahia). onde se doutorou in utroque jure. 1918. encontrava-se no Reino desde 1584). Rio de Janeiro. Madrid. Nesta obra ciclópica de Gabriel Soares de Souza é preciso. deu algumas informações incorretas sobre o que lá tinha acontecido recentemente nas lutas de conquista da Paraíba. particularmente o seu “CAPÍTULO XII”. São Paulo/Brasília. surgiram várias edições com o título de NOTÍCIA DO BRASIL [São Paulo. razão pela qual ele jamais “foi testemunha ocular da conquista da Paraíba”. 1954.M.. Rio de Janeiro. 1975. 6. ed. N’ELLA RESIDENTE DEZESSETE ANNOS. notícias estas certamente colhidas de segunda mão a partir de algum navegante vindo do Brasil e que teria então chegado a Madrid. Eis que é chegada a hora de falar sobre o “Heródoto brasileiro” e sua imprescindível obra histórica concluída em 1627. Antes de vestir o hábito de São Francisco.. 1974].. 1889. principalmente. com o texto manuscrito do SUMÁRIO DAS ARMADAS à vista (além de outra fonte. 4. 1951. 2.. onde o autor (proveniente da Bahia. Rio de Janeiro. ed. em 1599. é que frei Vicente do Salvador. retornando à Bahia em 1587. ETC. onde tomou as ordens sacerdotais (clero secular).F.F. eventualmente consultada). ler com bastante cuidado a parte que toca à Paraíba. também com seu texto integral ou. 7. São Paulo. São Paulo. 1931.. e sua HISTÓRIA DO BRASIL [cujas edições contendo os seus cinco livros ou partes são: 1. Foi com sua experiência pessoal e. São Paulo. 1948. 5. OBRA DE GABRIEL SOARES DE SOUZA. [Rio de Janeiro. 1987].M. Sem contar as publicações muito incompletas desta obra. 3. como se lê de forma abstrusa em diversas tiragens determinada obra didática sobre a Paraíba. Somente em torno de 1603 ou pouco mais tarde é que o “Heródoto brasileiro” esteve missionando índios nesta terra. 1938. ed. Rio de Janeiro. O. as edições segundo a proposição de Francisco Adolpho de Varnhagen têm o título de TRATADO DESCRIPTIVO DO BRAZIL EM 1587. SEU VEREADOR DA CAMARA. 1851. 1973. 1982].. ed. ou seja. havia estudado na Universidade de Coimbra. O.. hoje desconhecida.

Frei Vicente do Salvador. José Pedro Nicodemos. um excelente trabalho do eminente Prof.F. no seu “Livro Quarto” este autor trata da Paraíba desde o “Capítulo Terceiro” até o “Capítulo Décimo Sexto”. O NOVO ORBE SERAFICO BRASILICO. De qualquer forma. lhe agradecem penhoradamente. DESAGRAVOS DO BRASIL E GLORIAS DE PERNAMBUCO.sou sobre a Paraíba. Basta que se leia o “Capítulo Vigésimo Quarto” do seu “Livro Terceiro”.. caro Prof. tais como a HISTÓRIA DA AMERICA PORTUGUESA.F. José Pedro Nicodemos intitulado A CONTRIBUIÇÃO HISTORIOGRÁFICA DE FREI VICENTE DO SALVADOR [1. Ainda dizendo respeito à HISTÓRIA DO BRASIL do “Heródoto brasileiro” fazse necessário assinalar aqui. por Antônio de Santa Maria Jaboatão.M.. também contemplando a Capitania da Paraíba. e o Quadragésimo Terceiro”. João Pessoa.M. foi preciso se esperar aproximadamente o transcurso de um século para que surgisse uma nova obra histórica geral do Brasil e.F. Aliás. movido pela constatação do que existe de melhor na moderna historiografia paraibana. cujo valor historiográfico. o “Capítulo Trigésimo Nono”. a CRÔNICA DA CUSTÓDIA DO BRASIL. Ademais. por D. uma outra obra. portanto. o “Capítulo Trigésimo Sétimo”. ed. 1971]. . além do “Capítulo Vigésimo Segundo”.M. o primeiro nativo deste País a escrever uma História do Brasil.. muito menos exaltado do que bem merece. ao menos em parte. só se rende para os extraordinários “Prolegômenos” com que o mestre Capistrano de Abreu enriqueceu a nossa primeira História do Brasil escrita por um nativo da terra. Aqui eu me limitarei simplesmente a registrar as obras mais significativas através de suas edições completas. O. em que certamente também versou sobre a Capitania da Paraíba. hoje infelizmente perdida. Frei Manuel da Ilha.. conheceu e aproveitou esta obra para redigir a sua CRÔNICA DA CUSTÓDIA DE SANTO ANTÔNIO DO BRASIL: 1584/1621. a HISTORIOGRAFIA DA PARAIBA e a HISTORIOGRAFIA DO BRASIL. O. na redação da HISTÓRIA DO BRASIL do franciscano baiano”. Desta maneira. NOBILI405    . por Sebastião da Rocha Pitta. como afirmei nos GRAVETOS DE HISTÓRIA. Depois de frei Vicente do Salvador. do “Capítulo Vigésimo Quinto” ao “Capítulo Trigésimo Terceiro” (Estão infelizmente perdidos os textos do “Capítulo Vigésimo Sexto” ao “Capítulo Vigésimo Nono” e a parte inicial do “Capítulo Trigésimo”. O. o “Capítulo Quadragésimo Primeiro”.. em 1618. “Na verdade não há um só capítulo do SUMÁRIO DAS ARMADAS cujo texto não tenha sido aproveitado. havia escrito antes. Diga-se ainda que a Paraíba foi extremamente bem aquinhoada pelo “Heródoto brasileiro” na sua HISTÓRIA DO BRASIL.. Domingos do Loreto Couto.

. pertencente ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. algumas das principais obras básicas e específicas da e para a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA a partir do Século XVIII até o terceiro quartel do Século XX. HISTORIA DO BRAZIL (ILUSTRADA). do padre Manuel Ayres de Casal. fls. importante documento de valor histórico. HISTORIA DO BRASIL. do Visconde de Porto Seguro. Um pouco da historiografia geral e especial da Paraíba a partir do século XVIII até o terceiro quartel do século XX Arrolarei aqui. portanto. de Rocha Pombo. todavia. Começarei com a INFORMAÇÃO DADA A SUA MAGESTADE PELO GOVERNADOR DA PARAHYBA DO NORTE FERNANDO DELGADO FREIRE DE CASTRILHO A 9 DE JANEIRO DE 1799 ACÉRCA DE VARIOS OBJECTOS RELATIVOS À MESMA CAPITANIA. a HISTORIOGRAFIA DA PARAÍBA não pode mais continuar com esta presunção de duzentos anos de idade. por Pedro Calmon. de João Capistrano Honório de Abreu. HISTORIA DO BRASIL. CHRONICA GERAL DO BRAZIL. p. ao menos a título de citação. constante do volume 1º do “Catalogo da Collecção de Memórias e outros documentos contidos em 19 volumes conservados na Secção Histórica do Archivo Nacional”. 205-213 das suas DATAS E NOTAS PARA A HISTORIA DA PARAHYBA com o se