A CONVERSÃO DOS REIS GERMÂNICOS E A ALIANÇA DA IGREJA AO IMPÉRIO FRANCO NA ALTA IDADE MÉDIA

Autor: Rafael Mincewicz da Silva Orientador: Geraldo Pieroni

INTRODUÇÃO
Aproximadamente a partir do ano de 276, o mundo europeu foi estremecido pelas grandes imigrações germânicas; diversas tribos e povos se alternaram em distintos ataques, as decadentes e desestruturadas muralhas romanas, que não resistindo vieram a ruir. Segundo a historiografia tradicional convencionou atribuir o ano 476, o marco histórico desses acontecimentos. Não nos prenderemos totalmente a data em si, 476 como queda do Império Romano do Ocidente, nem como o ano de 276, como data das imigrações germânicas. Entendemos essas periodizações apenas como símbolos de um grande processo que se prolongou durante séculos. A trajetória da decadência do Império Romano teve início no século I, quando inúmeras divergências por parte do corpo militar vieram a surgir como um dos elementos que propiciaram uma guerra civil que culminou na falta de um exército preparado para conter o avanço germânico. Por outro lado, as imigrações germânicas no mundo romano, surgiram neste mesmo século, como um fator externo que, aliado aos internos, atingiu seu ápice na total desintegração do Império Romano do Ocidente. Única instituição que resistiu a “queda” do Império no Ocidente, a Igreja, começou a resgatar o grande papel de guia espiritual em um mun-

do onde as diferenças religiosas eram entendidas primeiramente como elemento de separação entre os povos vindos do leste europeu e o contingente romano. Coube à Igreja, a grande missão de conquistar esses povos, buscando através da conversão ao cristianismo, uma unificação política, que aconteceria séculos depois, na figura de Carlos Magno. Analisar a estratégia de unificação política entre poder e Igreja no reino franco nos apresentou como questão inquietante, procuramos responder com base nas idéias de três teóricos: Mircea Eliade1, nos mostrou como o sagrado se manifesta nas mais diferentes sociedades, das mais remotas às mais contemporâneas. A partir do termo hierofania, que quer dizer manifestação do sagrado, ou algo sagrado que nos é mostrado. Quando o sagrado se manifesta, todo entendimento exercido sobre o elemento, era alterado; assim consiste em duas maneiras de ver o mundo: o sagrado e o profano. Outro autor, Alphonse Dupront2, estabelece que toda vida inserida em uma religião é uma forma de unificação. Demonstra também que, todo acontecimento ou fenômeno religioso, do ponto de vista humano é um processo de longa duração, principalmente no que se entende como visão de mundo e do cotidiano. Assim Dupront, traça a idéia de estudar o homem em todo o seu comportamento religioso.

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Jerôme Baschet3, remonta a civilização feudal, em seus mais diversos aspectos, analisando desde as imigrações “bárbaras”, no mundo europeu, até o resplandecer do ano mil, quando toda concepção de uma “longa Idade Média” é apresentada. Para analisarmos esse período, nos remetemos ás fontes primárias agrupadas nos livros de Fernanda Espinosa e Maria Guadalupe Pedre4

triunfo da Igreja e do Império, quando ressaltamos alguns resultados da aliança fecunda entre Estado franco e Igreja. Como anunciado esse trabalho busca uma análise da aliança Igreja/Império. Para isso faz um resgate das imigrações germânicas no Ocidente e, principalmente relatamos o papel de Igreja perante esses germânicos considerados opressores e intolerantes. Analisaremos o papel da Igreja na tumultuada cristianização em meio ao caos que seguiu as imigrações. Entendemos que toda ação cristianizadora lançada pelo poder eclesiástico tinha como objetivo a conversão dos assim chamados “bárbaros”.

ro Sanchez . Tais textos deram suporte em todo nosso estudo, que foi
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fundamentado principalmente na análise de livros de diversos autores que se debruçam sobre as questões ligadas ao mundo medieval, como: Jacques Le Goff6, Marc Bloch7, Georges Duby8, Hilário Franco Junior9, Pierre Riche10, Paul Johnson11, entre outros. A construção textual se dividiu em três capítulos, distribuídos de uma forma que possibilite uma melhor compreensão e análise. No primeiro, foi contextualizado o Ocidente medieval a partir das imigrações germânicas, dando ênfase para a relação dos germânicos com os romanos, as grandes imigrações e o politeísmo germânico em contradição ao mundo cristão. No segundo, foi tratada a questão da Igreja Católica no Ocidente, seu enraizamento, mediante ao trabalho de homens do clero como bispos e monges que muitas vezes se sacrificaram em nome da Igreja; em outro momento é tratada a luta desses monges contra o paganismo quando é exposta a atuação de Martinho de Tours. Nesse mesmo capítulo, é tratada a questão dogmática e a instituição dos Concílios Ecumênicos, lugares de discussão de toda moral dogmática cristã. No terceiro capítulo, estudamos o mundo Carolíngio, a partir da conversão de Clóvis, sua aliança com a Igreja, como conseqüência à conversão dos reis germânicos, finalizando com Carlos Magno e o

1. OS POVOS GERMÂNICOS NO OCIDENTE
1.1. Fora dos limites romanos: bárbaros?
“Vedes desabar sobre vós a cólera do Senhor. Só há cidades despovoadas, mosteiros em ruínas ou incendiados, campos reduzidos ao abandono. Por toda parte o poderoso oprime o fraco e os homens são semelhantes aos peixes do mar que indistintamente se devoram uns aos outros”. (São Jerônimo)

Um dos principais e mais conhecidos Impérios da história, com certeza foi o Império Romano, quando, por volta do século IV, diversos escritores celebraram seu esplendor. Roma permitiu diante de sua grandeza que homens vivessem em harmonia, diante de uma só cidade, uma só família e uma só religião. Diversos clérigos e escritores glorificavam Roma por ter preparado o mundo inteiro para propagar a nova fé. Porém, a partir do século III

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da Era Cristã, mais precisamente a partir do ano de 27612, o mundo europeu presenciou a primeira grande imigração germânica, posteriormente entendida como um dos principais fatores que contribuíram diretamente para a desintegração do Império Romano do Ocidente. Essas imigrações já vinham sendo contidas desde o século I, no entanto a partir do século III, sob pressão vinda principalmente de povos provenientes da Ásia, os germânicos
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“saxão de olhos azuis e cabelo cortado acima da testa, para alongar o rosto”, com um sicâmbrio de longa cabeleira deitada para trás [...]. (id. ibid., p.67).

Entendia-se que determinada terminologia era usada para mostrar que um padrão de civilização era melhor que outro, e como Roma era a “luz do mundo”, tudo o que se encontrava fora dela era sinônimo de um total atraso e incultura. Jerôme Baschet, em seu livro “A civilização Feudal” nos alerta para o referido termo:
Bárbaro: na sua origem, a palavra designa apenas os não gregos e, depois, os não romanos. Mas a conotação negativa adquirida por esse termo torna difícil empregá-lo hoje sem reproduzir um julgamento de valor que faz de Roma o padrão da civilização e de seus adversários os agentes da decadência, do atraso e da incultura. (BASCHET, 2006, p. 49).

forçaram de uma maneira

muito sólida, as fronteiras do Império, que além de contribuírem para a desintegração do mesmo, deram um teor de violência extremamente elevado a esse período chamado comumente de Alta Idade Média. Tais povos eram conhecidos como “bárbaros”, conceito que teve sua origem em torno do século X a.C, quando foi usado pelos gregos para indicar quem não tinha seus costumes, falava sua língua ou até quem não seguia sua religião. Esse conceito construído pelos gregos atravessou séculos até chegar em Roma. Para eles, os germânicos eram os “bárbaros”, incivilizados, diferentes, selvagens, tribais e profanos, pois não professavam a mesma fé dos romanos, desconhecendo totalmente o ensinamento bíblicos passados pela Igreja “O nome de bárbaros, que o Império aplicava a essas massas e que lhe fora ensinado pelos gregos, tinha uma ressonância de desprezo da civilização da Cidade e do Estado pela civilização da Tribo” (PETIOT, 1991, p. 63). A partir de então, o termo “bárbaro” passou a ter uma conotação preconceituosa, e principalmente, foi aplicado de uma forma muito ampla, como referência a dezenas de povos diferentes, dos mais diversos lugares, aonde suas peculiaridades eram notórias.
Nem sequer fisicamente estes povos se pareciam muito, embora fossem todos mais ou menos louros; não se podia confundir um

Tratados como incultos e selvagens, muitos desses “bárbaros”, tiveram um contato muito grande com a romanidade, pois era uma prática normal nos primeiros séculos do Império, chamar para o comando dos exércitos e principalmente para a corte imperial jovens estrangeiros germânicos, ficando assim garantidos tratados e pactos. Esses jovens tinham a oportunidade de conhecer o Império por dentro, era o caso de “bárbaros” conhecidos como Àtila14 e Alarico15, que falavam grego e latim, possibilitando um entendimento muito grande sobre a vida romana “civilizada”, suas artes, seus costumes e etc. Outro sentido atribuído para esse termo seria o de que os “bárbaros” quando em guerra costumavam geralmente, além de se apoderarem de todas as riquezas locais, incendiarem praticamente tudo o que viam, causando muito terror e revolta nos romanos que viam isso como uma barbárie.

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cultura. uma “barbarização” sistemática do mundo romano. com influência na língua. surgiram como uma ameaça real diante do decadente Império Romano do Ocidente que veio a ruir definitivamente. no qual o gado constituía um dos principais elementos de contato. os limes do Império eram um ponto de convergência entre romanos e “bárbaros”. a aproximação entre romanos e “bárbaros” se fez presente durante muito tempo. em troca de seus serviços. favorecendo assim a falta de um Estado romano sólido que combatesse o perigo externo. “A minha voz extingue-se. segundo a historiografia tradicional.“Bárbaros”. no momento em que ia começar a ditar. 1. Eram povos que não tinham um chefe ou líder em tempos de paz. Não conheciam um Estado.Universidade Tuiuti do Paraná 4 | História | 2008 . mas em tempo de guerra eram escolhidos chefes militares com poderes extraordinários que acabavam quando terminava a campanha militar. devido a inúmeros fatores internos e externos. pois preocupados com o conflito interno. e o que impediria um “bárbaro” de recorrer auxilio dos demais “bárbaros” fora do limes17? Determinados povos “bárbaros”. sob o título de federados. suas famílias eram agrupadas nos clãs e tribos. A partir de então. no ano de 476. o Império Romano surge como um “gigante” em fase terminal. pensei na catástrofe do Ocidente e tive de calar-me. tinham a figura paterna como cabeça do grupo familiar. Em linhas gerais. Teatro de violência recíproca: as “invasões”. e diversos “bárbaros” não tinham problema algum em conhecer o Império por dentro. principalmente pelo fato do Império ter tomado dimensões consideráveis. os “bárbaros”. nesse mesmo espaço de tempo a anarquia militar surgia como um fator de desagregação alarmante.2. dentre as principais causas internas cabe destacar: uma estrutura administrativa muito custosa. Diante disso o comando de guerra progressivamente foi passando para as mãos dos “bárbaros”. que acima de tudo. que mantinham um contato muito próximo com os romanos. (São Jerônimo) Tendo seu declínio acentuado a partir do século III. mas. sem Monografias . ou uma cidade. religião e sociedade onde um mínimo sentimento de traição pode aparecer. os soluços embargam-me as palavras. se mostravam como uma ameaça para o padrão de civilização que se encontrava mergulhado em um período de guerra civil e anarquia militar16. ou seja. está em chamas a ilustre cabeça do Império! Quis hoje dedicar-me ao estudo de Ezequiel. as fronteiras foram deixadas sem proteção do inimigo externo. Tal conhecimento se mostrou muito útil no momento em que alguns povos adentraram as muralhas romanas. Esses povos formaram um contingente conhecido dentro do próprio Império: em um determinado momento como soldados infiltrados no exército. sentindo que chegara a hora das lágrimas”. ou ainda no campo. que eram trabalhadores recompensados com uma partícula de terra. Foi tomada a Cidade que tinha tomado o mundo! Pereceu pela fome e pela espada. bem como praticamente tudo o que acontecera dentro das muralhas era de conhecimento germânico. decorrente disso era notória uma falta de comunicação muito grande entre os postos de comando localizados nos limites do Império. a partir do século III. Entende-se a partir de então que esses protagonistas “bárbaros” dentro do Império com cargos militares altamente reconhecidos representaram de uma forma ou de outra. mantinham com os romanos uma relação de troca e de comércio. do lado de fora do limes.

pensar que essas grandes imigrações foram em um todo planejadas pela barbárie com o objetivo de apossar-se de uma civilização. mas famílias inteiras colocaram os pés em Roma. acima de tudo. crianças. recompensando-os com uma parcela de terra. rebanhos. tal evento colocou a mostra a fragilidade do Império.. Monografias .. Outro ponto muito importante é que Roma. petchenegues. para esses “bárbaros”. muitos “bárbaros” tinham esse conhecimento. porém a partir do século III. e porque não.mencionar uma aristocracia corrupta. por estarem dentro dos muros. O que de uma forma mais ampla. foi presa fácil para os germânicos que vieram com: soldados. ibid. aproveitando-se de seus talentos artesanais ou pondo sua força física a serviço da armada romana. essas imigrações legitimaram a fraqueza e a falta de um Estado romano sólido. tudo isso em um período de crise da escravidão. era a parte luz da Europa. aos germanos se sucedem primeiramente os eslavos. se elas estavam em mãos de um exército debilitado e praticamente morto? As imigrações já vinham sendo contidas desde o século I. cavalaria. sobretudo como uma infiltração lenta. conquistar tal símbolo da história. cansado e frágil devido à guerra civil enfrentada no século III. ou em seu território trabalhadores agrícolas germânicos.] a instalação dos povos germânicos deve ser imaginada. (id. É prudente pensar também que o Império estava fragilizado.. Porém. p. mas o que adiantava ter tais armas. Vários são os motivos dessas longas imigrações: procura por terras melhores para o plantio ou esmagamento sofrido por outros povos vindos do leste e.] as vagas se sucedem quase ininterruptamente.. kubanos. fortalecendo assim a acentuada crise enfrentada pelos romanos. 1991.]. tinham no exercício imigratório um elemento natural de vivencia. carruagens. Sobretudo. Nesses povos até o termo “germânicos” era desconhecido. Como já comentado nesse trabalho. 50). que muito tempo antes já colocara em seus exércitos guerreiros “bárbaros”. Conhecendo essa fragilidade. [. sob pressão vinda principalmente da Ásia.. etc. ao longo de toda Idade Média. com isso todos tinham a vontade de andar. como uma imigração [grifo nosso] progressiva e muitas vezes pacífica. Roma poderia ter o maior exército e as armas das mais variadas. caracteriza uma imigração. É importante ressaltar que tal prática imigratória perdurou praticamente durante toda Idade Média. durante o qual os recém chegados se instalaram individualmente. mulheres. p. o outrora poderoso Império. os húngaros e depois todos os povos turcos provenientes da Ásia Central: búlgaros. que devem ser entendidas como eventos inseridos em um processo de longa duração. é se colocar distante da realidade. com cargos de muita relevância. Entretanto destaca-se que muitas dessas “invasões” tiveram um caráter violento e destrutivo.. pois em nenhum momento houve um plano de união organizado entre “bárbaros”. e principalmente tinham uma paixão excessiva pela guerra que dominava todo cotidiano desses povos. [.Universidade Tuiuti do Paraná 5 | História | 2008 . o mundo romano presenciou de uma forma evidente. no entanto diversas delas se mostraram como eventos pacíficos e sem agressividade. contra a “civilização”. durando vários séculos. mongóis principalmente: os de Gengis-Cã por volta de 1250. 12). (HEERS. assim como a prática da vingança e da violência. a partir do ano de 276 um grande perigo externo: as primeiras vagas invasoras. pois não eram apenas soldados e um exército devidamente perfilado que entrara no Império. os germânicos forçavam de uma maneira muito forte as fronteiras do Império. [.

pois para os homens desse período a morte e o nascimento não vêm senão por violência e dor. p. mais marcante. onde dá-se a idéia que os germânicos invadiram o Império Romano em questão de muito pouco tempo.cit. e pela diversidade de povos que entravam pelos limes do decadente Império “Com certeza aqueles tempos foram. os romanos não tinham outra alternativa senão buscar nos outrora “bárbaros” esse refúgio necessário para sua sobrevivência. (HEERS. [. 44). pois do contrário seriam massacrados pelos mesmos. a crueldade e a violência. p. a Esse período das imigrações é acima de tudo caracterizado por um tempo de extrema confusão entendida a partir da falta de um Estado Romano sólido que combatesse os “invasores”. Sobretudo. uns sujeitando os outros”... op. “O termo invasões não é mais satisfatório do que o termo bárbaro. Nesse fragmento de fonte. que diante da crise e das constantes e temíveis imigrações germânicas. o Império praticamente chamou os “bárbaros” para dentro de si. conflitos militares. se as invasões bárbaras dessa época desempenharam um papel determinante para evolução do mundo ocidental e na deslocação do Império. onde o contato com romanos no limes do Império era constante. In: SÁNCHEZ. não nos remete verdadeiramente ao que aconteceu. percebe-se claramente a instabilidade do Império Romano. Esses acontecimentos são compreendidos em toda literatura do século V.] (LE GOFF. aqueles aos quais as narrativas dos cronistas deram maior relevo” (BASCHET. refugiam-se entre os inimigos” (SALVIANO. buscavam refúgio e socorro com os considerados inimigos “Os pobres são despojados. de confusão. como episódios de massacres. a matança. Nesse período até pessoas com uma boa criação e com uma educação superior. mas principalmente através da violência e da força é que se dá a imigração germânica no seio do mundo romano. No decurso de sua Monografias . assumiram um papel natural. acima de tudo. Confusão nascida em primeiro lugar da própria mistura de invasores. incluídas gentes de bom nascimento que tinham recebido uma educação superior. Houve vários episódios sangrentos. destruição. as viúvas gemem. que como um velho chama para si as doenças e conseqüentemente a morte. marcha as tribos e os povos haviam guerreado entre si. são elas apenas um episódio importante. onde enquanto germânicos promoviam matanças hostis. pois em um tempo de mudanças... p. atrocidades. os órfãos são esmagados. 27).A formação militar romana nesse período não passava de aparência. 2000. tinham como única opção de vida. incursões violentas e ocupações de cidades – certamente. o Império estava desestruturado. antes de tudo. Além da violência. 50). As imigrações “bárbaras” no Ocidente ocorreram através de duas formas distintas: com germanos assentados com uma economia predominantemente pastoril18. e a partir disso é muito fácil de entender. a tal ponto que muitos dentre eles. Diante das mais diversas pesquisas que norteiam esse período.Universidade Tuiuti do Paraná 6 | História | 2008 . pois tais “invasões” são produto de inúmeras tentativas durante séculos. destaca-se que o termo “invasões”. de uma longa série de avanços ou infiltrações contidas pelo limes em todas as fronteiras do Império. terror. a misericórdia dos germânicos. cit.11). p. pois entendiam como uma chance de sobrevivência e. 2005. Enfim. acredita-se que o termo “invasões” remete a algum acontecimento de curta duração. op. ao contrário do que realmente aconteceu. assim como o termo “bárbaro”. esse período também foi assolado por pestes e doenças. destacando-se que pobres são saqueados e crianças esmagadas.

da peste e dos animais selvagens [.fome acabava por destruir as pessoas. Eram os flagelos enfrentados nesse período: a espada. por entenderem que a queda de Roma representaria a queda de um Império inteiro. era então conquistada e pereceu antes de ser destruída. até a de animais selvagens que em determinado tempo alimentavam-se de carne humana. op cit. matavam os homens mais fortes e. pereceu com este Augústulo no ano de quinhentos e vinte e dois (476 d. 36). Um Império não poderia cair da noite para o dia. p. op. Roma representava a vitória sobre os demais. 1972. p. no século III. p. Otaviano Augusto. (id. quando Odroacro.73). que o primeiro dos augustus. e a cidade que outrora fora conquistadora. terras para a sobrevivência. 36). poder. alimentados com sua carne. não fez menos estragos. mães alimentavam-se da carne de seus filhos. cit. promovendo assim um período de extrema violência sangue e dor. (HIDÁCIO. viesse a cair. (JORDANES.. Como já comentado. a “queda” do Império Romano do Ocidente também foi acontecendo paulatinamente. ocorridos em um grande espaço de tempo. que Santo Agostinho19 nos coloca a notícia de Roma saqueada no ano de 410 “[. Monografias . p. In: SÁNCHEZ. In: SÁNCHEZ. Desde aí Roma e a Itália são governados pelos reis Godos. mas por decorrência de vários fatores. edificada pelas vitórias sobre todo o universo.Universidade Tuiuti do Paraná 7 | História | 2008 . uma nova perspectiva. fazendo estragos por todo o orbe as quatro pragas. como a crise interna enfrentada a partir do século III e.. inclusive as mães alimentaram-se com os corpos de seus filhos mortos ou cozinhados pelas próprias mãos. Enquanto os bárbaros cometiam atrocidades na Espanha e o flagelo da peste atacava com não menos intensidade [. e como tal sempre obteve a atenção dos guerreiros germânicos. E a peste. 3) O mundo europeu no inicio do século V se encontrava mergulhado em tamanha depressão. Em 24 de agosto de 410. 40). Os animais selvagens. as “invasões” foram eventos de longa duração.. rei dos Hérulos destronou Romulus Augústulus como aparece no texto abaixo: Assim. soa aos ouvidos romanos o primeiro toque de finados” (PETIOT. E assim. Roma representava a “cabeça” do Império. acarretando a desintegração do Império Romano do Ocidente. entregue ao saque. que tivesse sido simultaneamente a mãe das nações e o seu sepulcro” [. Como conseqüência.. bem como a vitória triunfal sobre a “luz do mundo europeu” e a submissão de seu povo. fazendo do ocidente um teatro de violência e sofrimento “Quem acreditaria que Roma.. tinha começado a dirigir no ano de 709 da fundação da cidade de Roma.].. E notório que. a fome ou a peste. In: ESPINOSA.]. ibid. acostumados aos cadáveres dos que morriam pela espada. da fome. Os bárbaros que tinham entrado nas Espanhas depredaram-nas com matança hostil. além de riquezas. a Cidade Eterna confessando-se mortal... o Império do Ocidente do povo romano.. com o início violento as grandes imigrações germânicas no mundo Ocidental. é chegada a notícia que Roma estava cercada. a fome.] Roma a inexpugnável.C) do reinado de seus antecessores imperadores. lançavam por toda parte para perdição do gênero humano. Iniciava-se assim um dos capítulos mais sangrentos da história. prolongando até ao extremo em que carne humana era consumida.. um poder colocado como absoluto que os germânicos buscavam. a do ferro. principalmente.. p. (HIERON�MI. a peste. op cit.]. por sua parte. Ou ainda: Uma fome cruel prolongou-se até o ponto de que a carne humana chegou a ser devorada pelo gênero humano pela necessidade da fome. no século V.

a Diana. e como tal. marcado pela “decadência” da civilização romana e pelo estabelecimento de diversos costumes “bárbaros”. na Germânia. Em 391. Votan ou Odin só recebiam no paraíso celestial os guerreiros mortos em batalha. como glorioso despojo do assassinato. Os “bárbaros” tinham uma religião voltada para as crenças tribais. Lua. Dentre as principais diferenças entre romanos e “bárbaros”. por exemplo. Esse politeísmo “bárbaro” era muito controverso ao mundo romano que estava com os pés “fincados” no Cristianismo. onde são celebradas refeições rituais. op. arrancam-lhe a pele e colocam-na sobre os seus cavalos de guerra como jaez. (HEERS. dentes de ursos. pois. outros. foram perseguidos – O Cristianismo passava de perseguido para perseguidor. deuses da guerra. o culpado era punido com o próprio mal que ele havia causado. enquanto que aqueles que envelheceram e deixaram o mundo por uma morte fortuita atacam com terríveis censuras de degenerados e cobardes.3.Enfim.. como conseqüência disso. Nesse espaço ainda em construção. muito menos em quaisquer tipo de amuletos como os “bárbaros” acreditavam e carregavam consigo principalmente em tempos de batalha. Enquanto o Cristianismo oficialmente pregava a igualdade de todos perante um só Deus e principalmente o perdão diante dos inimigos.. In: ESPINOSA. a Igreja assumiu papel fundamental funcionando como amálgama que unia duas formas distintas de viver podendo ser chamada de herdeira natural do Império Romano do Ocidente. dos lagos e das florestas.Universidade Tuiuti do Paraná 8 | História | 2008 . 31). Nesse caso. [. É considerado feliz aquele que sacrificou a sua vida na batalha. Entende-se então que toda visão de mundo dos germânicos era moldada através da crença em deuses da natureza. p. e não existe nada de que mais se orgulhem do que matar um homem.. Alimentam fogos purificadores sobre os túmulos. Votan. medalhões de resina ou de âmbar. essas imigrações causaram inúmeras transformações no mundo europeu. 1. onde cada um tinha uma determinada “função”. um mundo confuso em que duas formas distintas de viver foram colocadas frente a frente.. cujos símbolos (rodas estilizadas.] Os homens carregam inúmeros amuletos.] assim eles encontram prazer no perigo e na guerra. aonde a queda das instituições e dos direitos imperiais romanos geraram uma violência. e a Terra. presas de javalis. Frea. onde os costumes eram tribais. O politeísmo germânico em um mundo cristão.[. Levam oferendas aos deuses das fontes. como o Sol.cit.. e em sua cultura. 6). como deuses do vinho. a vingança era vista como uma mantenedora da ordem. a vingança era muito praticada como uma maneira de controle social.. os “bárbaros” acreditavam que morrer lutando era uma questão de honra. cortam-lhe a cabeça. cit. Monografias . qualquer que ele seja. [. muitas vezes sem controle. Acreditavam que deuses encarnavam em elementos da natureza. outros adoram o Sol e o fogo. p. op. bem como o amor pela guerra eram de muito valor e honra para tais povos. ou deuses provenientes da Mitologia Nórdica como: Odin. a partir de então. não acreditava em valores da natureza. monstros contorcidos) enfeitam as pedras a os objetos familiares. com deuses da natureza. é notório no campo da religião. Essa vingança tinha um valor legal muito elevado para os povos germânicos. entre outros. com isso todas as crenças fora dos dogmas pregados pela Igreja Católica.].. erguem ainda templos ás divindades do antigo panteão romano.. o trabalho no exército. etc. (MARCELLINUS. Teodósio colocou o cristianismo como religião legal dentro do Império.

E esta. Fez imagens das florestas e das águas. pois o Evangelho começa a penetrar nas leis e principalmente na política do período. até sua Monografias .. Nessa época. única instituição sobrevivente da desintegração do Império Romano do Ocidente. visto que alguns. traduzindo a Bíblia para o gótico. 03). 33).cit. (TACÍTO. dos pássaros. 28). [. op cit. e a qualidade de tirar vidas. não se pode condenar tais povos pelo diferente. as principais qualidades do homem eram: o poder de destruição. p. por sua vez..] Mas este povo mostrou-se sempre entregue a cultos fanáticos sem ter qualquer conhecimento do verdadeiro Deus. agressividade. sua divindade principal era Mercúrio. que de uma forma geral não se mostrou muito agressivo perante os romanos. devia fazer a mesma coisa. Alguns dos suevos também fazem sacrifícios a Ísis” [. conversão ao Cristianismo católico tida como uma “jogada” política conseguida através do rei Clóvis22 no século V. consistia na maior gloria masculina descrita nas palavras de um cronista do século VII e referida por Jacques Le Goff: Tal paixão pela destruição é expressa por Fedegário. fosse num membro de sua parentela. duas representações de cotidiano extremamente conflitantes. dos animais selvagens e dos outros elementos aos quais tinha por hábito prestar um culto divino e oferecer sacrifícios. frisam-se então os francos20 com sua infiltração nos territórios do Império.]. Toda a educação para agressividade culminava nessas intermináveis vinganças privadas que às vezes se prolongavam até o século VI. a linhagem da vitima tinha o imperioso dever religioso de vingar essa morte. 482). era inconscientemente.. se não eram pagãos eram convertidos ao arianismo considerado como uma crença herética a partir do Concílio de Nicéia23 em 325 d. Os francos foram praticamente o único dos povos que não se converteram ao arianismo21. Cada povo “bárbaro” necessitava de uma forma diferente de ação da Igreja.]. p.. cronista do século 7. fosse no culpado. As diferenças religiosas em um primeiro momento assumiram um papel de grande distinção entre romanos e “bárbaros”. Eram duas formas distintas de ver o mundo. A Igreja.” (LE GOFF. Aplacam a Hércules e a Marte com animais rituais. sua conduta. certos povos também faziam sacrifícios para seus deuses. 1989. pois sua moral.C. se os germânicos pecavam. pois não é capaz de construir um edifício superior aos que foram construídos por teus predecessores e não há mais bela façanha que possa engrandecer teu nome. começava a trabalhar na conversão dos povos “bárbaros” de diversas formas. p. que cultivadas desde o inicio da juventude.Cometido um assassinato. (TOURS. Diversos povos “bárbaros” convertidos ao arianismo criaram um novo sistema de escrita. 1946. Como pagãos.. na maioria das vezes pacífica sem um teor de violência tão elevado quanto os outros povos germânicos. Porém em um segundo momento. através da exortação da mãe de um rei bárbaro ao filho: “ Se queres realizar um grande feito e ganhar nome destrua tudo o que os outros construíram e massacre todo o povo que venceres. o Cristianismo era o principal elemento que ajudava na manutenção da ordem nesse período. porém se mantiveram pagãos.[. como uma forma de agradecimento pelas graças recebidas e vitórias alcançadas em campanhas militares. (ROUCHE.. que diversas vezes recebia sacrifícios humanos “Sua divindade mais venerada é Mercúrio. Para aplacar-lhes as iras em certos dias do ano julgam lícito imolar-lhe vítimas humanas. sua cultura era outra.. p. In: SANCHEZ. cabe destacar um dos principais povos “bárbaros” do Ocidente. Entende-se Com tantos episódios de violência. op.Universidade Tuiuti do Paraná 9 | História | 2008 .

Tal assunto será tratado no decorrer desse trabalho. A Igreja. favorecendo assim a uma grande aceitação da doutrina ariana. como o significado da divindade do imperador propiciando assim uma aproximação maior com o contingente “bárbaro” que adentrara ao decadente Império.Universidade Tuiuti do Paraná 10 | História | 2008 . a aproximação entre autoridades religiosas cristãs e os monarcas germânicos foram a melhor estratégia de cristianização desses povos. favorecendo a um melhor entendimento que ajudou a entrada de mais fiéis ao movimento religioso. as divergências entre romanos e “bárbaros”. no campo religioso foi imenso. Por outro. bem como a construção de monastérios em lugares mais isolados. pois a partir desses elementos os germânicos se mostravam mais atraídos. negava alguns aspectos da romanidade.1 Enraizamento da igreja medieval Com a desintegração do Império Romano do Ocidente e a formação de diversos Estados germânicos. e principalmente em uma moral heróica. quando será analisada: a conversão dos reis germânicos e as estratégias de conversão usada pela Igreja no período da Alta Idade Média.que a partir disso os cultos seriam celebrados em suas línguas. tirando toda a idéia de teologia dogmática. IGREJA: UMA TRAJETÓRIA DE FÉ E PODER 2. gerando um esforço de Evangelização imediato por parte da Igreja Católica visando o futuro da instituição no mundo medieval. Toda idéia dogmática pregada pela Igreja foi traduzida para uma moral militar. como parte presente da doutrina católica. Foi dessa forma que o arianismo se apresentou como grande afronta ao catolicismo nos tempos medievais. aceitava diversos aspectos da cultura romana como sua língua e seu aspecto universalista como citado acima. a Igreja é incumbida de uma das tarefas mais longas da história: a conversão desses povos germânicos que se apresentavam com um papel social muito importante na romanidade. Em linhas gerais. então. baseando-se nas idéias de Cristo para “pregar o Evangelho a toda criatura” e principal- Monografias . Com certeza. de força. 2. a Igreja era tida como herdeira real do Império e estava intimamente ligada com o Estado Romano em seu caráter universalista principalmente a partir da legalização do culto cristão nos territórios do Império em 391. com sua função principal: evangelizar. em uma primeira ocasião. de energia. visava a consolidação de uma recente vitória do cristianismo como religião legal e em um segundo momento pregava a aproximação com as autoridades germânicas com o intuito de alavancar maiores formas de atuação nos reinos recém formados. A partir de então. Por um lado. que como único elemento sobrevivente. Nota-se. Outro fator muito importante foi a “tradução” da doutrina bíblica em esquemas simplórios. praticamente incompreensível aos olhos “bárbaros” que entendiam o mundo e o cosmo de uma maneira mais aberta do que todos os dogmas confusos pregados pela Igreja. Mostrava-se assim como um elemento eclesiástico de amálgama dessas duas formas distintas de ver o mundo.

surgia assim como um líder urbano com diversas funções diferentes. a Igreja começava tal investida que acabou por triunfar séculos mais tarde na conquista dos povos “bárbaros”. p.]... que seja o primeiro organizador. evangelizando e principalmente apresentavam-se como líderes políticos locais. como tal quem perde com isso é a sociedade onde o bispo atua em diversos aspectos sociais além do religioso. escolas e prisões – recai praticamente sobre as suas costas. bispo mártir do século IV: Ecclesia in episcopo (toda Igreja esta representada na figura do bispo). op cit. proprietárias de terras e do alto funcionalismo público. 2001.] (BASCHET. encarnação da lei e da ordem. dirigia a economia de mercado.Universidade Tuiuti do Paraná 11 | História | 2008 . também que supra a carência de administradores civis. divulgando as boas novas de Cristo. que fiscalize o governador. bem como da paz e da ordem como nos refere Baschet: “O bispo é. presidia a justiça. então. Mas este papel propriamente religioso não é senão o coroamento de um prodigioso conjunto de diversas funções. (JOHNSON. tais como o abastecimento ou a limpeza das ruas! Toda a obra social levada a cabo pela Igreja – hospitais. dirigia e orientava a economia de mercado. a principal autoridade urbana. a Igreja sempre se apoiou no trabalho e no empenho de homens como os bispos. a Igreja colocava sua influência sobre as cidades e estendendo-se assim uma certa continuidade urbana em reinos germânicos onde os ideais de uma vida tribal eram apresentados timidamente. Com isso. Desde as suas mais remotas origens. que nos primeiros anos após a queda do Império Romano assumiu a missão de reconstituir o rebanho separado pelos pecados “bárbaros”. pois a partir desse considerável reconhecimento é que os valores e os dogmas pre- Foi por meio desses homens do clero que diversos aspectos da organização administrativa romana e boa parte de seus costumes fo- Monografias . e até que intervenha em questões realmente surpreendentes. op. ram aceitos na sociedade que se formava com presença germânica.. Negociavam com monarcas germânicos tratados de paz e muitas das vezes eram tidos como conselheiros de grande sabedoria.. Famílias romanas aristocráticas. concentrando em si poderes religiosos e políticos: ele é juiz e conciliador. a partir de então é que surge uma frase muito conhecida de São Cipriano. Sua organização eclesiástica sempre necessitava de homens com muito desejo em expandir a obra e a Igreja de Cristo. escolas e prisões. O cristianismo tinha a necessidade de se fortalecer e levar consigo seu ideário de civilização aos povos que chegavam. pai e protetor de sua cidade” [. 155). cabe destacar o papel dos bispos que nos primeiros séculos da Idade Média eram entendidos como verdadeiras colunas de sustentação da fé cristã. Alguns desses bispos pertenciam às altas camadas aristocráticas romano/germânicas eram homens com um determinado reconhecimento na sociedade medieval. cit. negociava com outras cidades e governantes. membros proeminentes da antiga classe dominante romana. ligados com a conservação do passado. Exige-se dele. p. como: a manutenção de hospitais. Ele organizava as defesas. Com isso. não há Igreja e. 272).mente com a idéia de única representante de Cristo no mundo medieval. p. vinham se infiltrando nos escalões superiores da Igreja desde o século IV [. Sua posição social era um dos elementos que facilitava a entrada no quadro eclesiástico que necessitava de homens com uma certa notoriedade na região.. O respeito e admiração conquistada pelos bispos no decorrer dos séculos IV e V impressionam pelo seu alto valor simbólico. (PETIOT. Ou seja. 63). Quem eram esses bispos? É claro.. se não há bispo. pois realizava diversos trabalhos que lhe eram incumbidos. Ele organizava a defesa.

conforme fora estabelecido por São Cesário e se observa por toda parte. Além dos monastérios. Multiplicam-se também as abadias de monjas. p. acima de tudo era entendida como uma força intelectual. Com o cristianismo exercendo um forte papel nas cidades principalmente com o trabalho religioso e político desempenhado pelos bispos. cit. tinham esses representantes do clero regular uma maneira de vida com oração e trabalho em mosteiros que. Outro fator de determinante importância para o enraizamento da Igreja no período medieval. pois em uma primeira experiência como líderes de Estado. 66). além do que se deve ao papel dos monges copistas a preservação de inúmeras obras do período medieval. além de se firmar como poder religioso e político. quando era evidenciada a atuação cristianizadora dos monges nas regiões mais afastadas da cidade onde o cristianismo ainda era quase desconhecido ou não tinha um conhecimento muito grande da população. na qual existia um só Deus e uma só Igreja. Esses monastérios permitiram ao poder eclesiástico chegar a lugares mais remotos da Europa. acreditavam que colocando recursos na construção de monastérios seria a melhor maneira de alcançar um lugar no mundo celestial e a salvação da alma. cabe destacar também o papel de Monografias . Efetivamente. Estritamente enclausuradas. p. Nesse empreendimento destaca-se também o papel das mulheres como monjas que se dedicavam principalmente a oração e ao trabalho de tecelagem. geralmente fundados em lugares isolados. permite ao cristianismo fincar o pé nos campos: ao lado de uma rede urbana dos bispos. esses “bárbaros” desconheciam sua estrutura de organização e o que restava das leis romanas eram de certa forma incompreensível aos olhos de chefes que conheciam apenas o campo de batalha e uma vida em clãs ou tribos.Universidade Tuiuti do Paraná 12 | História | 2008 .. pois ia contra os dogmas pregados pela Igreja.. Foi nesse contexto de expansão da fé cristã que surgem os monastérios. O aumento significativo dos monastérios pode ser considerado um dos maiores eventos propiciados pela Igreja na Idade Média. 282). Esses bispos eram chamados pelos próprios chefes “bárbaros” para colaborar na organização dos Estados recém formados pós “queda” do Império Romano. A Igreja. op. cabe destacar o papel das paróquias rurais que colaboraram muito para o crescimento do cristianismo em lugares de massa da sociedade “bárbara”. bispos e monges. op cit. pois tanto reis. a população tendia a aproximar-se de crenças mais antigas e pagãs condenadas pelo cristianismo oficial como heresia25. com certeza foi o desempenhado pelos monges24 que eram membros do clero e procuravam viver uma vida do cristianismo mais puro do que dos bispos que tinham um contato muito grande com a população em geral. no campo e nas regiões mais distantes. pois dentro de seus monastérios existiam bibliotecas memoráveis. floresceram em grande quantidade no mundo europeu. Assim a Igreja e o poderio dos bispos foram colocados como superiores. as religiosas dedicavam-se sobretudo á oração e a trabalhos de tecelagem e bordados. durante toda a Alta Idade Média. Juntamente com o surgimento dos monastérios. Por isso. existe agora uma plantação rural de fundações monásticas” (BASCHET. como bispos e nobres. as mulheres não ficaram atrás dos homens desta santa emulação.gados pela Igreja seriam respeitados pela sociedade. ainda que em menos numero. o que garantiria seu crescimento no seio do Ocidente medieval. pois onde estava um monastério ali se encontrava as idéias cristãs “O conjunto desses estabelecimentos.(PETIOT.

evangelização dos missionários que. 141). p. pode ser considerado os grandes evangelizadores da Gália. Destaca-se seu grande poder de oratória. id. exorcismo. 2001. derrubavam eles próprios os seus templos” (SEVERO. 142). Os relatos acerca dessa propagação sugerem uma vontade clara por parte dos monges de ganhar mais uma alma para a Igreja de Cristo. diálogos com anjos e demônios.. as pessoas tendiam a crer nos deuses de seus ancestrais. a grande arma para evangelização era a pregação da palavra da Igreja. p. Em tal período é notória a presença de uma Igreja que fazia frente ao paganismo como perseguidora. 2001. ou seja em um momento em que o cristianismo buscava uma afirmação dentro da massa popular. Martinho destruía os ídolos dos camponeses pagãos. é prudente pensar que algumas dessas missões de destruição de templos pagãos podem ter sido apoiadas por homens do exército romano que lutavam em favor da Igreja buscando uma maior difusão da fé cristã. Nesses locais onde a missão evangelizadora ainda não tinha chegado. Destaca-se então o papel de um monge que lutou fervorosamente contra o paganismo: Martinho de Tours26. Todos esses elementos juntos formam um grande instrumento de cristianização e divulgação da boa nova da Igreja de Cristo em regiões onde sobreviviam vários costumes tribais. Na maioria das vezes destruía templos pagãos ou então se apossava de outros para a prática do próprio culto cristão. 2. Por isso. Curas numerosas. sua santa pregação mitigava o ânimo dos pagãos que. toda e qualquer crença fora da pregada pela Igreja era condenada.2 EXPANSÃO DA FÉ E LUTA CONTRA O PAGANISMO Decorrente do grande crescimento institucional proporcionado por diversos fatores já comentados nesse trabalho. de certa forma. mesmo antes da “queda” do Império Romano do Ocidente. iluminados pela luz da verdade..Universidade Tuiuti do Paraná 13 | História | 2008 . FREITAS. ibid. cortava suas árvores sagradas. Feitos prodigiosos continuavam sendo atribuídos a ele. a Igreja penetra nas camadas mais distantes da sociedade. nas regiões mais distantes se entregavam à obra da Igreja de Cristo. com o intuito de levar salvação para essas pessoas. Foram esses os principais elementos de colaboração para o enraizamento da Igreja no Ocidente pós “queda” do Império Romano. previsão do futuro. exorcismos. que juntamente com Gregório de Tours27. apud. Martinho de Tours é um exemplo muito claro dessa luta contra o paganismo. pois onde os pagãos fossem mais violentos. sendo numerosas as conversões nessas ocasiões (FREITAS. que diversas vezes induzidas pela pregação desses homens de fé destruíam os templos de adoração de seus próprios deuses “Mas em geral. Esses elementos colocaram sua voz e realizaram o grande papel da Igreja na época: a conversão do Ocidente ao cristianismo. Digno de nota é o fato de uma boa parte desses prodígios aparecer associada a momentos de luta contra o paganismo. Monografias . quando os camponeses procuravam com hostilidade dissuadi-lo de destruir seus santuários. feitos que lhe renderam grande repercussão nas regiões em que atuava. saindo das cidades e chegando a lugares mais remotos como as partes rurais. derrubava seus templos e os substituía por Igrejas e monastérios. apoiadas pelo Império. Não podemos deixar de pensar que essas ações de evangelização de Martinho nas regiões mais afastadas fossem.. era conhecido pelos seus prodí- gios de curas maravilhosas. forças da natureza ou até mesmo estavam convertidos à doutrina ariana. pois com a oficialização do culto cristão no Ocidente europeu. destruição de diversas arvores sagradas.

como já comentado. Essa doutrina entrava muito facilmente no espírito germânico. percebe-se uma atuação essencial de Martinho de Tours no processo de conversão das pessoas que. mas a essência a partir dessa mudança era outra. tinham o propósito de modificar do homem a visão sagrada que o mesmo tinha. e o colocaria no seio da Igreja Católica. o arianismo foi vitima de inúmeras perseguições por parte dos católicos.] (ELIADE.desde as mais primitivas ás mais elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias28. a luta incessante da Igreja contra os pagãos. buscavam pregar as boas novas da fé em linguagem gótica. Visto que para os “bárbaros” com um passado politeísta. que se apresentava como uma grande ameaça aos dogmas pregados pela Igreja Católica. Condenada com heresia a partir do Concilio de Nicéia.. Era o caso dos templos pagãos citados anteriormente. de uma forma mais ampla. aqueles deuses pagãos eram demônios que deveriam ser destruídos. em amuletos pagãos. foram introjetadas idéias cristãs. acostumados com uma crença menos elaborada e tribal. crentes na pregação desses homens da Igreja. Além de se apresentarem como contestadores da fé crista. o que faria com que a doutrina nicena prevalecesse fortalecendo ainda mais o poder da Igreja nesse período. Um aspecto determinante na luta contra o paganismo foi à busca por pontos de contato que tivessem um significado essencial para os Monografias . totalmente contrária. visão condenada pela Igreja que pregava todos eram a mesma pessoa. pagãos. Para os monges cristãos. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo. a encarnação de Deus em Jesus Cristo [. O Sagrado e o Profano. a doutrina católica muito dogmática era praticamente incompreensível aos olhos germânicos. os lugares eram os mesmos. assim se apresentou a luta contra o paganismo no Ocidente cristão nos primeiros séculos da Idade Média. como três divindades diferentes. nos aponta claramente essa manifestação do sagrado para as diferentes sociedades: Poder-se-ia dizer que a história das religiões . propiciando uma aproximação maior com tais povos. Mircea Eliade que. eram alterados símbolos de ritos locais ou pagãos. deixavam gradativamente suas crenças a partiam para uma nova visão de mundo totalmente fundamentada nos princípios da Igreja Católica. em seu lugar eram colocados a cruz – símbolo do cristão. pois.A partir desse momento. em seu livro. muitas dessas perseguições com extrema violência e sangue. era mais aceitável a figura de Deus (Pai) e Cristo (Filho) e Espírito Santo. Por isso. pelas manifestações das realidades sagradas. colocaria toda a natureza sob domínio e conhecimento do homem. prevalecia a visão cristã de substituir essa imagem do sagrado estabelecido em diversos elementos da natureza. Outro elemento de luta da Igreja nesse período era a doutrina ariana. Essa visão de sagrado é estudada pelo historiador das religiões. uma pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema. 2001. quando muitas vezes esses templos eram transformados em templos cristãos. Para tal obra de evangelização os missionários enviados pela Igreja Católica às regiões com grandes concentrações de arianos. a manifestação do sagrado num objeto qualquer. Em determinada etapa contra os pagãos com uma religião ligada a elementos da Nesse sentido. Esses homens encarregados de lutar contra o paganismo. Além disso. portadores de espíritos malignos que aos olhos dos homens do clero deviam ser exorcizados para se manter a paz e a união de todos. A partir disso. esses deuses eram. Em linhas gerais.Universidade Tuiuti do Paraná 14 | História | 2008 . 17).. p. que é para um cristão.

. Mesmo com o enfraquecimento e “queda” do Império Romano do Ocidente. como conseqüência disso. o culto não cristão para a ilegalidade. p. o resto.. 28).Universidade Tuiuti do Paraná 15 | História | 2008 . seja a cristã ou qualquer outra que achar mais conveniente. (por justo castigo) pela nossa iniciativa.natureza e em outro momento a luta contra o arianismo que acabou por decretar a vitória do credo niceno colocando assim um poder supremo nas mãos da Igreja Católica. inclusive o cristianismo. Decorrente do crescimento da Igreja. o corpo eclesiástico se viu num grande e delicado problema: a natureza de Deus? Diante disso existiam duas correntes com interpretações divergentes sobre a relação entre Deus (Pai). no ano de 391. op cit. enquanto a doutrina nicena colocava o Filho como substância provida do Pai. o Imperador Teodósio colocou o cristianismo como religião oficial do Império. a organização e principalmente a hierarquização da Igreja na Europa medieval. a partir do Édito de Tessalônica30 e. A Igreja tendo estabelecido o cristianismo como religião legal no Ocidente. quem não seguisse Monografias .3 A igreja consolidada: concílios e dogmas Antes do enraizamento da Igreja. A partir disso foram instituídos os Concílios Ecumênicos. Como determinadas questões envolviam diretamente a manutenção da Igreja no Ocidente foi organizado o Concilio de Nicéia em 325. a Igreja seria considerado herege. Assim temos tomado esta saudável e retíssima determinação de que a ninguém seja negada a faculdade de seguir livremente a religião que tenha escolhido para o seu espírito. O arianismo pregava que o Filho não era a mesma substância do Pai. o cristianismo continuou com sua influência passando de religião “caçada” a religião “caçadora” quando séculos mais tarde. e. Cristo (Filho) e Espírito Santo. que pretendia abrir discussão sobre a natureza divina e as relações en- Entretanto. Porém. ibid. depois. passaram a ser chamados de Cristãos Católicos.] conceder tanto aos cristãos quanto a todos os demais a faculdade de seguirem livremente a religião que cada um desejar. seu poder de perseguição era ilustrado pelas fogueiras da Inquisição. todos que seguiam a fé cristã. em que diversas discussões sobre a moral eclesiástica eram colocados. é que o culto cristão e os demais cultos religiosos pagãos passaram a ser tolerados sob ordem Imperador romano Constantino como é relatado abaixo: [. a fim de que a suprema divindade a cuja religião prestamos esta livre homenagem possa nos conceder o seu favor e benevolência (LACTANCIO.. se viu diante de inúmeras dúvidas relativas aos dogmas cristãos ao corpo eclesiástico. A partir de então. de maneira que toda a classe de divindade que habita a morada celeste seja propícia a nós e a todos os que estão sob a nossa autoridade. id. é colocada como tolerada pelo Imperador Constantino. também. Porém.. 2. assumirão a infâmia dos dogmas heréticos. como conseqüência. 29). que providenciaremos de acordo com o juízo divino (TEODOSIANO. insensatos entre outros. In: SANCHEZ. deslocando assim. Apenas. Diante disso. p. a partir do ano de 313 com o Édito de Milão29. os lugares de suas reuniões não receberão o nome de igrejas e serão castigados em primeiro lugar pela divina vingança. torna-se a religião oficial no Ocidente medieval. Ordenamos que todas aquelas pessoas que seguem esta norma tomem o nome de cristãos católicos. percebe-se que toda e qualquer crença. aos quais consideramos dementes e insensatos. cerca de 78 anos depois o cristianismo é tido como religião legal dentro do Império. o culto Cristão foi severamente perseguido no Ocidente. In: SANCHEZ.

nem os diáconos. pois Cristo era de natureza única indivisível e inseparável “[. especificando funções para cada membro do clero. In: ESPINOSA id. Havia uma necessidade de consolidar aquela organização e hierarquia. ele mesmo. p. 1972. 59). insistindo mais sistematicamente na di- Cabe destacar que. ibid. não abrindo caminho para heresias que pudessem surgir. 2003. tornando-o como heresia. como desde o principio os profetas anunciaram a seu respeito e como Jesus Cristo. o Senhor Jesus Cristo. salva a especificidade das naturezas e concorrendo numa só pessoa e hipóstase. Deus Verbo. O poder polí- Monografias .. nos ensinou. todos nós em uníssono ensinamos que o Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo são um só e o mesmo” [. Se alguém depois deste decreto do sagrado e grande sínodo tentar tal coisa ou continuar a fazer o mesmo. p. Mesmo com a condenação tanto de monofisitas como de nestorianos. deixando pra trás quaisquer divergências e contestações. p. sancionando a teoria das duas naturezas de Cristo. por outro lado. Toda moral dogmática da Igreja estava buscando consolidar-se. 19 Concílios foram realizados. In: ESPINOSA.tre os elementos formadores da Santíssima Trindade. e o papel dos bispos como lugares de atuação dentre outros e principalmente exortava o corpo eclesiástico para as medidas que seriam tomadas caso tanto bispos como qualquer outro membro do clero viesse a trocar de lugar de atuação. Unigênito. Cânone 15 – Devido ao grande distúrbio e discórdia que ocorre. pois a partir disso sua aceitação e organização na sociedade medieval estaria avançando de uma forma muito ampla.. desta maneira.. mas um só e o mesmo Filho e Unigênito. ibid. em duas naturezas inconfundíveis. Filho. não separada ou dividida em duas pessoas. tendo como resultado a vitória do credo niceno e a negação do arianismo. Tal questão foi discutida no Concilio de Calcedônia em 451. contrária e combatida pela Igreja Católica. reforçando a decisão tomada no primeiro Concílio. nem bispos. encontravam-se os nestorianos com a idéia de que Cristo portava duas naturezas: a divina e a humana. o Concílio de Calcedônia teve uma nova edição no ano de 553. p. 119). Foi o concílio da Calcedônia (451) que assumiu a posição cristológica mais firme. decreta-se que o costume subsistente em certos lugares contrário ao Cânone seja por completo revogado. nota-se claramente a defesa e a luta da Igreja para uma melhor compreensão da doutrina Cristã. indivisíveis.] Seguindo os santos Padres. e como o credo dos Padres transmitiu (id. nem presbíteros. o seu procedimento deverá ser por completo anulado e restituído á Igreja para a qual foi ordenado bispo ou presbítero (A�ER. O origenismo é formalmente condenado nesse concílio (ELIADE. 128). surgem duas interpretações diferentes: os monofisitas defensores da idéia que Cristo era apenas divino e não substância humana e. Senhor.. vindade de Cristo.Universidade Tuiuti do Paraná 16 | História | 2008 . desde os tempos medievais até o século XVI.] (MANSI. Nesse mesmo período. Esses Concílios surgiram também com a função de organizar e hierarquizar a Igreja. o que obrigará Justiniano I a convocar o segundo concílio de Constantinopla (553) para reforçar a decisão da Calcedônia. bem como distinguir lugares de ação desses membros da Igreja no Ocidente. onde as duas correntes foram condenadas. Tanto no Concílio de Nicéia quanto nos dois realizados em (451 e 553). 59)... Todos eles tiveram um papel importante na definição e estruturação dos dogmas eclesiásticos. Nesse mesmo Concílio. Mas o debate não termina. imutáveis. a decisão sobre a divindade de Cristo é colocada: Um só e o mesmo Cristo. inseparáveis. deverão passar de uma cidade para outra.

Os francos. criador do céu e da terra. a Igreja sentiu a necessidade de se estruturar. eram praticamente o único povo germânico que não se convertera ao arianismo. ou ainda quando surge como grande unificadora desses povos. Diante dessas mudanças. IMPÉRIO CAROLÍNGIO 3. Monografias . e acima de tudo.. seres mitológicos gigantes ou ainda se colocavam perante divindades provenientes da mitologia nórdica. portanto. a conversão do rei dos francos.1. que o povo franco tendia a uma atuação maior e mais vibrante por parte dos missionários e monges da Igreja Católica. pois mostrar todo ensinamento ortodoxo de Cristo em lugares onde o entendimento sobre o mesmo era divergente. como nas regiões onde o arianismo predominante levaria muito mais tempo. é necessário entender o motivo aparentemente real da realização de seu batismo.. tinham e adoravam deuses da natureza como árvores sagradas. marca o início de uma união entre os povos “bárbaros” no Ocidente. suplicando-lhe que fizesse penetrar no coração do rei a palavra da salvação. Foi o caso de Martinho e Gregório de Tours dentre outros. onde eram tomadas decisões visando a manutenção e a continuidade e a supremacia da Igreja nesse período. bispo de Reims. como a “queda” do Império Romano do Ocidente. Mesmo se apresentando como pagão Clóvis é um conhecedor natural do cristianismo. Tudo isso foi possível através dos Concílios Ecumênicos realizados. A conversão de Clóvis Antes de analisar a conversão do rei dos francos Clóvis. Seu batismo foi realizado por São Remígio. pela Igreja ou muitas vezes pelo poder imperial como no caso de Justiniano. colocar a palavra de Cristo em lugares onde essa idéia ainda não tinha chegado era mais eficaz. É essencial uma premissa: é mais vantajosa a atuação de bispos e missionários em regiões onde o politeísmo era predominante. nem de ninguém [. florestas com poderes mágicos. sua esposa Clotilde32 trabalhava diariamente sua conversão que ocorreu cerca de 6 anos após o seu casamento. antes se mantivera com cultos e ritos pagãos. hierarquização e estruturação da Igreja. além de possíveis batalhas sangrentas em nome da fé. Durante esse longo processo de enraizamento. Ano que a historiografia não consegue detalhar com exatidão. ou início do século VI. o Ocidente passou por diversas mudanças.] 3. levou-o pouco a pouco e secretamente a acreditar no verdadeiro Deus. sempre que entendidos como necessários. O sacerdote. Clóvis. provavelmente final do século V. onde em determinados momentos assumiu um papel de diferença entre os povos do Ocidente. formar melhor seu quadro eclesiástico e fundamentar melhor sua doutrina. a instituição de diversos Estados “bárbaros” que foram se formando progressivamente.tico e a grande atuação da Igreja na sociedade eram mantidos através da realização desses Concílios. organização. pois além do contato com os bispos locais. quando no mesmo dia 3 mil homens do seu exército desceram à pia batismal para receberem o sacramento: Então a rainha chamou em segredo São Remígio. como é relatado por Gregório de Tours o episodio muito conhecido do vaso de Soissons31. bispo de Reims. O contato de Clóvis com o cristianismo vem de pelo menos 15 anos antes do seu batismo. nesse período. que não lhe podiam ser de qualquer ajuda. visto que. Entende-se. nos revela uma grande atuação missionária na região da Gália. A Igreja assistiu a todos esses eventos. Uma vez considerada essa premissa. tendo-se posto em contato com Clóvis. e a renunciar aos ídolos.Universidade Tuiuti do Paraná 17 | História | 2008 .

tendo. Com sua descida à pia batismal. A partir do sacramento batismal. Clóvis. A O batismo do rei não significou automaticamente uma total aceitação da doutrina cristã no Império franco. 44). sempre participa e define o resultado. até ser aceita pela maioria do contingente franco. o homem sentia a necessidade de encontrar o sagrado como forma de comprovação da sua fé.] (TOURS. Deus. a partir disso. Clóvis prometeu se deixar batizar na doutrina do Deus de sua esposa se alcançasse a vitória que parecia impossível. com apoio da Igreja. rei dos francos (481-511). é muito certo que a batalha contra os alamanos (496-497) contada por Gregório de Tours33 foi um grande ponto de apoio para a aceitação. Clóvis. A partir de então. fome e pestes. Com a vitória em mãos só restava ao rei cumprir sua promessa feita em campanha militar. Percebe-se. por parte de Clóvis. Com certeza esse fato serviu de símbolo para os diversos outros povos “bárbaros” que ainda não tinham se convertido ao cristianismo ou ainda eram pagãos. o batismo ficou registrado cada vez com mais força perante os olhos do rei franco. ção do sagrado em favor da sua vitória para assim ilustrar melhor sua entrada no mundo crstão “Nas batalhas medievais. impeliu os soberanos dos outros povos invasores a seguir seu exemplo – o último a fazê-lo foi o rei dos lombardos. A conversão de Clóvis relacionada à vitória na guerra funcionou como uma eficiente propaganda político e religiosa. mesmo com 3 mil soldados sendo batizados. p. Mais de três mil homens do seu exército foram igualmente batizados [. ou algum representante seu (anjo. 2006. p. com isso. Em uma sociedade como a medieval. pois confessado um Deus todo-poderoso na trindade. que o fato de maior relevância para conduzir Clóvis à pia batismal. Ele não resolve a pendência sem a batalha. a Igreja alcançou uma vitória sem tamanho. além de encaminhar o destino do Ocidente cristão. como explica Jacques Le Goff: Convertendo-se ao cristianismo ortodoxo. o fato é que a vitória ocorreu e. 140). além da influência de homens do clero e de sua esposa. pois usavam o fato do reino dos francos ter êxito em batalhas e como isso só era possível pela adoção do cristianismo pelo seu rei. do cristianismo. em uma situação de total desespero ao ver seu exército praticamente definhando perante o inimigo. então. para dar a chance aos homens de melhor expressarem seu envolvimento com Ele” (FRANCO JUNIOR.. Diante da batalha. do Filho e do Espírito Santo e ungido do santo Crisma com o sinal-da-cruz. foi o episódio da batalha contra os alamanos. Clóvis deu a impressão de esperar um momento de manifesta- Monografias .Universidade Tuiuti do Paraná 18 | História | 2008 . Com isso o trabalho dos bispos em regiões onde o arianismo predominava era facilitado. pois. Outros casos também vem à tona quando pensamos no verdadeiro motivo do batismo de Clóvis. as massas se colocavam muitas vezes contra seus próprios reis pedindo sua conversão.. pode-se assim dizer que iniciou um processo de unificação política das tribos “bárbaras” que alcançou seu esplendor com a coroação de Carlos Magno no ano de 800.. op cit. iniciou uma série de grandes guerras de conquistas nas regiões vizinhas aumentando consideravelmente o território do império franco.O rei. Clóvis. foi batizado em nome do Pai. santo). onde o medo era representado em diversas partes do cotidiano: guerras. In: SANCHEZ. essa total aceitação da crença cristã era uma questão que levaria mais tempo.

p. aconteceu progressivamente a conversão dos reis germânicos. o batismo não deveria acontecer secretamente. Monografias . alertando para uma adesão ao cristianismo vencedor. p. as conquistas de Clóvis eram seguidas de violência extremada. qualquer tipo de violência com as populações conquistadas.Universidade Tuiuti do Paraná 19 | História | 2008 . ou seja. a Igreja tendia a se organizar da forma mais vantajosa: buscando a conversão primeiramente do rei para. exigir do rei que era batizado. mas abria as portas para uma atuação fervorosa por parte dos bispos e missionários em determinado local. com extrema violência.2. sobretudo clérigos. era perante a Igreja representante direta de Deus na terra e principalmente era usado como exemplo. suevos e. que esse sacramento fosse assistido por diversas pessoas do reino. op cit. 3. haviam de ter uma enorme influencia sobre os destinos das populações germânicas” (PETIOT. id. juntamente com a conversão dos reis germânicos. matando por sua própria mão os francos que se entregarem a pilhagem e mandando libertar homens e mulheres. encarregado pelo batismo.. como desejava o rei do burgúndios Gundebaldo no final do século V. A CONVERSÃO DOS REIS GERMÂNICOS Decorrente ao batismo de Clóvis e principalmente da maneira como a imagem desse batismo era gloriosamente anunciado aos demais povos. esta conversão sincera. tanto quanto pôde. seguida de milhares de outras nas grandes famílias burgúndias. primeiramente para a população do reino. 202). sob comando de Clóvis. Esse modelo de batismo público tinha como principal ponto de referência o fato de ser incontestável. inúmeras conversões em massa foram acontecendo em diversos lugares: foi o caso dos reinos vizinhos burgúndios.escolha de Clóvis conferiu aos francos o direito de primogenitura na Cristandade ocidental (LE GOFF. Como forma de trabalho missionário. Com sua conversão. trabalhar mais fervorosamente no restante do reino. p. Irrevogável. Clóvis ilustrou o resultado da conversão dos povos “bárbaros” do cristianismo ortodoxo. Um traço característico dessas conversões era o fato do bispo local. arianos e pagãos. Mostrada. Essa foi a justificativa usada por diversos bispos e missionário ortodoxos em regiões arianas. Diante disso. Porém chegado o fim da batalha e com a conquista em mãos. ilustram uma vontade muito grande em organizar a fusão de raças. germânico-romana sob o comando eclesiástico. que será tratado a seguir. todas suas crenças pagãs ou arianas seriam substituídas gradativamente pela ortodoxia Católica “Em todo o caso. e ao mesmo tempo a ação profunda da Igreja.. que os visigodos tinham reduzido a escravidão (PETIOT. 572). ibid. pois a partir disso. Clóvis buscava em um primeiro plano a conversão desses povos conquistados e não pura e simplesmente colocando essa região ao seu domínio. 209). proibindo. proibindo num primeiro momento. quaisquer violências contra as populações nativas. 2006. As conquistas territoriais. evitando assim muitos atritos com as populações locais. O rei Clóvis buscava essa unidade através de suas conquistas nas diversas regiões de combate que passava. pois sabemos que a conversão de No entanto. libertando homens e mulheres que os visigodos tinham colocado na escravidão: É fora de dúvida que Clóvis ambicionou essa fusão. Cabe destacar que o evento batismal mudaria todo um destino de um povo. pois. no reino dos visigodos. em um segundo momento. pois era assistido por muitos.

O ano de 450 foi marcado pela conversão dos suevos. surgiu um homem forte do clero. A partir desses diversos problemas internos e externos. mais pelo poder da razão do que pelo seu mando. abençoou na pia batismal o já doente rei Teodomiro. as seitas arianas vieram para o dogma cristão (BICLARENSIS.um rei era um grande passo para a conversão de um povo. Monografias . em um segundo momento. imediatamente restituiu os Suevos a fé católica. primeiramente representados pelo seu rei Riquiário (448-456). bispo do Mosteiro Dumiense. p. no ano de 561. como descreve Isidoro de Sevilha: Este [Teodomiro]. volta a defender a heresia combatida nos demais reinos católicos. ibid. 586. Contudo. Leovigildo descontente com a atuação do já preso Hermenegildo. In: ESPINOSA id. Nessa época. Como descrito por Isidoro de Sevilha acima. fazendo com que se convertessem á fé católica. a conversão manifestou-se através de uma grande guerra religiosa. Entretanto. com ajuda de Martinho. Pela graça de Deus. nos reinos suevos e burgúndios. na morte de Leovigildo. seu sucessor não era católico e devido a uma aproximação com um pregador ariano. Período em que até um entendimento com os francos através de casamentos era permitido. com ajuda de Deus. a aproximação com a fé católica era tida como necessária.Universidade Tuiuti do Paraná 20 | História | 2008 . um ano mais tarde. Foi nesse período que surgiu o herói conhecido com Santo Hermenegildo que. era mostrada para os demais povos. como descrito abaixo: No décimo mês do primeiro ano do seu reinado. dentre os suevos. homem ilustre pela fé e pela ciência por cuja diligência a paz da Igreja foi ampliada e instituídas muitas coisas das disciplinas eclesiásticas nas regiões da Galécia (ISIDORO. 28). Martinho de Braga. o rei Teodomiro colocou o reino suevo novamente sob o cristianismo católico. no reino visigodo. Recaredo. entendida com uma certa facilidade. manda decapitá-lo. destruído o erro da impiedade ariana. trazendo incontáveis adeptos da seita ariana para o catolicismo. que se aproxima muito de bispos arianos. No reino visigodo. nota-se primeiramente uma conversão ao catolicismo sob reinado de Requiario. sucedendo-lhe seu filho Recaredo que deu início à história do catolicismo na Espanha. In: ESPINOSA id. acarretando em uma enorme fúria por parte de todos do reino visigodo. levando todo o povo dos Godos e dos Suevos á unidade e paz da Igreja cristã. destacando-se como uma vitória alcançada pelo agora povo de Deus. p. resultando. Recaredo tira do exílio os muitos bispos católicos portadores de inúmeras lembranças sangrentas sobre o reinado anterior e converte-se ao catolicismo. Contudo não sustentada em um segundo período pelo seu sucessor. tornou-se católico e reuniu-se com os sacerdotes da seita ariana num sapiente colóquio. contando com grande prestígio popular. Em pouco tempo. Porém essa conversão era fruto de muito trabalho a ser realizado nessa região pelos homens do clero. sob forte influência de Martinho de Braga. o descontentamento com o rei era intenso motivado pela atuação cristianizadora realizada por Hermenegildo nas camadas populares. pois o fanatismo visigodo se mostrava excessivo da mesma forma como a violência dos vândalos na África. ibid.. No ano de 585. a conversão não veio como. 30). que provavelmente no ano de 561. A perseguição religiosa no reino se colocava no mesmo tempo em que os ataques externos principalmente dos francos católicos causaram enormes danos a monarquia visigótica.. organizou um verdadeiro rebanho de católicos insatisfeitos com as inúmeras perseguições religiosas sangrentas propiciadas pelo poder real contra o cristianismo. No entanto.

a partir disso entende-se que cada local em particular teve sua maneira de condução da fé cristã. Pedro. exactamente como se dizia Monografias . Como dito anteriormente. Pedro as chaves da cidade de Ravena e da várias cidades do Exarcado. por ser de vanguarda. Praticamente tudo o que envolvia esse trabalho exigia uma longa e dolorosa espera. ocorreram progressivamente. o poder eclesiástico reconheceria o título de rei em um documento datado do ano de 756: [. que atendendo ao pedido do Papa entra em guerra contra os lombardos que ameaçavam ocupar Roma. Para cada reino houve uma estratégia de conversão e atuação eclesiástica. sua pregação exigia também um procedimento lento. a Santa Igreja Romana e todos os futuros pontífices da Sé Apostólica as possuíssem perpetuamente. a palavra da Igreja era recebida com maior atenção. fator de unificação que seria apresentado com maior relevo por Carlos Magno. conseguindo assim enorme importância militar. a maneira de atuação cristianizadora usada pelo poder eclesiástico era diferente. Em determinados lugares. porém em outros lugares mediante guerras e lutas. por mais que convertidos. Em alguns casos com extrema violência. enquanto em outros com uma aceitação mais pacífica. Com o final do conflito e a vitória de Pepino. ocorreram progressivamente até o alvorecer do ano mil. Cabe destacar que em determinadas partes. colocada muitas vezes como uma tática política de Clóvis. pois demoravam a chegar a um determinado local. Esse seria seguido por Carlos Martel quando barrou a entrada dos muçulmanos em Poitiers. a aceitação da palavra de Cristo ocorreu de uma forma mais pacífica. os bispos tendiam a utilizar uma conversão mais individual. Em lugares mais violentos. ALIANÇA IGREJA/IMPÉRIO Clóvis quando recebeu a água sagrada do batismo.Universidade Tuiuti do Paraná 21 | História | 2008 . decorrente da conversão de Clóvis. Então depositou no túmulo de S. a conversão de Clóvis atingiu um maior respaldo e um maior enraizamento do catolicismo.3. deu o exemplo inicial da relação em que o Império deveria ter com a Igreja.. quando a diversidade política germânica passaria para uma unidade dos povos germânicos. favorecendo assim uma atuação militar em diversas regiões com apoio e com a força de Deus. Pepino. a região da Itália central foi colocada sob poder da Igreja. em cada reino “bárbaro”. que tiveram seu início a partir do século V. No caso do reino franco.. para em um longo e distante futuro colher os frutos dessa empreitada missionária. a conversão dos reis germânicos. esses acontecimentos devem ser entendidos como uma batalha muito árdua empreendido pelos homens do clero. o catolicismo não se mostrou tão enraizado no espírito popular.] Pepino mandou redigir um documento de doação para que S. Essas conversões. durante séculos. O fato é que essa conversão propiciou aliança e uma aproximação muito grande com o poder eclesiástico. Toda essa consideração caiu sobre seu filho. em troca. enquanto em outros. não se pode negar que são episódios que formaram o início da unidade cristã. o catolicismo criou raízes mais profundas. favorecendo assim conversões em massa. Esses bispos usavam mais de seu forte poder de oratória em meio a centros urbanos com um grande aglomerado de pessoas. Cabe ressaltar que. Entretanto.Foram dessas duas formas que se apresentaram as conversões dos reis germânicos no Ocidente medieval. enquanto em lugares com um nível de aceitação maior. o Breve. Mais do que nunca. Essa aliança atingiu seu esplendor máximo no Império Carolíngio e com seu expoente maior: Carlos Magno. 3.

. Entende-se então que Carlos Magno promoveu uma verdadeira cruzada de terror em nome do cristianismo tendo como objetivo a conversão de diversos povos à palavra da cruz. Os clérigos tinham uma participação constante nos interesses discutidos na corte. Carlos Magno conseguiu reunificar grande parte do Ocidente. deveriam possuir perpetuamente as cidades (MIGNE. entrou em guerra contra os eslavos e contra os ávaros. Em todas essas violentas incursões repletas de sangue e destruição. pois se não se convertessem. In: ESPINOSA id. quando se colocou em pé. forçadas conversões em massa. e talvez mesmo nenhum basileu. É ele. em um momento de oração. quando o soberano foi à São Pedro participar da missa de Natal e. em outras palavras. Diante disso. seu filho Carlos Magno herdou o trono pretendendo continuar o trabalho realizado pelo pai. formam-se os Estados Pontifícios. tinha o poder de nomear e punir os bispos interferia junto com o corpo eclesiástico nas questões doutrinais. Começava a ressurgir uma aliança fundamental entre monarquia franca e a Igreja. as massas populares ainda levavam algum tempo para entenderem os dogmas cristãos. foi o caso da guerra saxônica34. a quem prestam o seguinte juramento: “Ser-vo-ei fiel e obediente. A partir dessa doação de Pepino. praticamente. se colocando. pelo qual os apóstolos de Deus e o seu vigário. 141). aproximando-se muito mais do poder papal e de uma condição muito reconhecida pela Igreja.no documento de doação acima citado emitido pelo rei. é coroado Imperador do Ocidente. op cit. nesse período. enquanto que o monarca era uma figura de respeito nos sínodos. 420). Um símbolo que nos vem aos olhos ilustrando essa aproximação entre poder papal e o poder real é a coroação de Carlos Magno em 800. o catolicismo entre esses povos. colocando-o na condição de obrigatório. p. Com a morte de Pepino. p. Os bispos são. o que estreitou ainda mais os poderes da monarquia e do papado. esses missionários iniciavam um processo de cristianização. A hierarquia da Igreja era toda supervisionada pelo poder do monarca. sabemos que mesmo com o batismo do rei. método que nos remete a uma visão contraria a idéia de amor e remissão de pecados que foi pregado por Cristo. com uma liberdade que nenhum merovíngio.Universidade Tuiuti do Paraná 22 | História | 2008 . como homem vassalo do seu senhor” (PETIOT. Submeteu totalmente a seu poder os lombardos e os saxões. depois da longa destruição protagonizada pelo exército. pelo papa Leão III. funcionários colocados sob a Mainburg do príncipe. Carlos Magno buscava introduzir mesmo à força. Carlos Magno submeteu os saxões ao catolicismo. o santíssimo papa. Nesse momento. literalmente. onde o poder destruidor do Império tinha deixado feridas.. jamais chegou a ter. pois nos lugares onde Carlos Magno colocava o poder da espada em nome de Cristo. promovendo diversas vezes. quem nomeia os bispos e os abades das grandes abadias. sob pena de excomunhão por parte da Igreja. como argumenta Petiot: Toda a hierarquia da Igreja é vigiada pelo soberano. muitas vezes como um grande rei que levava o catolicismo às regiões mais necessitadas. seriam condenados. ibid. entrando em muitas batalhas por aproximadamente 32 anos. Porém devemos entender que era o único método eficaz na Idade Média. Se de fato essa coroação foi Monografias . os bispos e missionários entravam em ação para promover a propagação do cristianismo. e todos os pontífices que lhe sucedessem. os bispos atuavam constantemente em questões sociais. Esses verdadeiros massacres em nome do cristianismo apontaram claramente para uma redução no trabalho dos missionários e pregadores do catolicismo. à morte. a regulamentação do dízimo. Pepino promoveu.

In: ESPINOSA id. promoveu conversões em massa. sem comentar que esses livros eram todos repletos de textos conhecidos do cristianismo. o papa passa a desempenhar um papel muito grande em negócios do Ocidente. ibid. o Papa Leão colocou-lhe uma coroa na cabeça e todo o povo dos Romanos o aclamou: Vida e Vitória para Carlos Augusto. defendeu o Império franco do Islã. Por outro lado. garantiu a partir de uma troca de apoios e ocupações o crescimento e uma atuação maior no Ocidente tanto de uma quanto de outra. fazendo que toda par- Monografias . coroado por Deus grande e pacífico Imperador dos Romanos! E depois deste louvor foi adorado pelo apostólico à maneira dos antigos príncipes e. 145). formulando a imagem de um soberano Cristão. entende-se a partir de então que a coroação de Carlos Magno. apoiando toda e qualquer ação do poder real. conquistou territórios. que nada mais era do que uma escrita uniforme muito nítida. um unificador dos reinos germânicos que a história se encarregou de chamar: Carlo Magno.um “golpe” político ou não. Carlos Magno. aparecendo a minúscula carolíngia. e surgiu como um dos principais ícones da Idade Média européia. quando o rei se ergueu depois de orar na missa [rezada] em frente do túmulo do bem-aventurado Pedro apóstolo. pois o bispo de Roma deixava de se colocar sob uma orientação e supervisão tão distante quanto Bizâncio e se colocava perante o poder real do Ocidente. o que realmente importa é que não existia homem mais qualificado para receber tal honra.4 Carlos Magno: o triunfo da Igreja e do Império Como Imperador do Ocidente. em transmití-la em todos os lugares em que passaram. procurou administrar o Império promovendo diversas mudanças em vários aspectos do Império. p. pois em anos de guerra. Como nos é relatado em seu ato de aclamação: Naquele dia santíssimo da Natividade do Senhor. Essa escrita foi muito usada pelos monges de Tours que se responsabilizaram em aperfeiçoá-la e. que Carlos Magno conseguiu colocar fim a multiplicidade dos reinos “bárbaros” e surgiu como um soberano unificador do Ocidente. o Império tem a tarefa de defender os interesses cristãos. Nesse período surge um nome de real valor no mundo medieval europeu. monges e bispos. autoridade fiscal e principalmente a partir de então. posta de parte a denominação de patrício. 3. tinham a longa tarefa de traduzir esses livros para a nova língua e passar para as pessoas do reino. que culminou séculos mais tarde no cisma entre as Igrejas Católica e Igreja ortodoxa. promoveu um certo distanciamento entre Oriente e Ocidente. principalmente. Percebe-se a partir disso. essa aliança entre Igreja/Império. ticipação do rei em qualquer evento fosse encarada como a de um enviado de Cristo. garantindo terras. que essa nova escrita tinha um grande fundamento: a propagação de livros ilegíveis à massa popular. pois difundiu e protagonizou uma enorme campanha militar em nome de Cristo. um nome que foi colocado como um guardião da Igreja e do clero. A Igreja tinha a tarefa de afirmar a essência cristâ do Império. enquanto que do Império recebe uma grande confirmação territorial e material.Universidade Tuiuti do Paraná 23 | História | 2008 . Nesse momento a dinastia carolíngia foi firmada e consagrada pelo poder papal.. O evento da coroação de Carlos Magno se mostra como uma convicção de liberdade em relação a Bizâncio. A escrita foi transformada. foi chamado imperador e augusto (LAURISSENSES. Foi a partir dessa coroação. esses intelectuais. Foi a partir dessa aliança fecunda entre Igreja e Império que o mundo Carolíngio repousou.

colocando à mostra. a Igreja consolida sua organização e se coloca como poder dominante na sociedade medieval. Entretanto. em um segundo momento. que lapidaram o latim. pois ele mesmo não tinha o objetivo de formar e manter um clero ignorante. o sacramento. retórica e dialética. o quatrivium. foi unificada toda celebração católica por meio do sacramento. e atravessando séculos até chegar em Carlos Magno. foram combatidas e reprimidas com enorme violência. astronomia e geometria. que colocou fim à diversidade dos reinos “bárbaros”. o que em um primeiro momento surge como um “muro” de separação entre clérigos e laicos mas. música. a transformação do latim em linguagem culta apenas diferenciou o clero do laico. todas as sobreviventes crenças pagãs englobando uso de amuletos. surge como elemento unificador do Ocidente. aritmética. unificando ainda mais o poder eclesiástico. Em todos esses aspectos comentados como liturgia. enquanto que na língua. pois estava toda misturada com dialetos locais dos “bárbaros”. na liturgia. todos os grandes mosteiros e catedrais tinham. Carlos Magno. com isso a unificação da celebração dos ritos cristãos é conquistada. Todos esses aspectos de uma forma ou de outra demonstram o poder eclesiástico na sociedade. adoração de árvores sagradas. foram transcritos principalmente em um primeiro momento as escrituras sagradas e. Nesse período a pluralidade litúrgica se mostra com grande relevância dentro do Império. na escrita. enquanto em um segundo plano as escolas ensinavam. Através de sua aliança com o Império franco.Esses livros também mostravam o passado pagão de diversos reinos exortando-os para se afastarem dele e principalmente fazia uma comparação do Ocidente antes e depois de Carlos Magno. Nesse período. tonando-a uma língua culta. escolas que em um primeiro plano ensinavam: o trivium. mostrando aspectos do cristianismo. por outro lado marca uma unidade muito grande entre os membros da Igreja Ocidental. Pode-se dizer que a consolidação definitiva do cristianismo acorreu nessa época. os esforços foram grandes em aperfeiçoá-la. língua. Carlos Magno realizou toda uma reforma na educação. textos sagrados Na arquitetura. a reforma na liturgia é que aparece com maior relevo em todas realizadas pelo Império Carolíngio. escrita. em seu redor. e formulou uma maneira arquitetônica toda influenciada pela Igreja. pois cada mosteiro ou construção arquitetônica que evidenciasse o poder papal e imperial era uma base de apoio muito grande em que o Império poderia se firmar. inúmeros mosteiros e catedrais foram construídos e colocadas sob administração imperial. gramática. Monografias . Carlos Magno procurou modificar toda forma merovíngia de se construir. promovendo assim um Império sob comando de um poderoso chefe “bárbaro”. destacaram-se nesse campos os monges anglo-saxões. unificação obtida principalmente através da aliança construída com o Império franco. foram construídas enormes catedrais nos mais variados lugares. assegurou o brilho do cristianismo. Referente à arquitetura. No que diz respeito a língua latina. diversas maneiras diferentes de realizar e celebrar as comemorações e ritos cristãos apareciam constantemente nas regiões do reino.Universidade Tuiuti do Paraná 24 | História | 2008 . os interesses dos dois poderes dentro do Ocidente cristão. nota-se claramente a influência da Igreja. Como herdeira natural do Império Romano do Ocidente. livro fundamental de celebração da missa é feito. Diante de seu reinado. feitiçarias. De uma forma progressiva o ensino foi ficando sob orientação da Igreja. A partir dessa aliança entre Igreja e Estado. arquitetura. primeiramente na figura de Clóvis. entende-se então como uma forma mais lenta de difundí-lo também.

tribos “bárbaras” começam a surgir por dentre as árvores. a mentalidade dos povos recém formados. Inquietantes questionamentos nos vieram à tona. idade de maioridade para os francos. no caso do reino dos francos. Um exemplo de maior registro é a aliança de Clóvis. sem passar pela conversão dos reis germânicos tão almejada pelos dignitários da Igreja Católica. se viu diante de uma questão muito delicada que decidiria sua existência no Ocidente: como expandir a fé cristã para os reinos recém formados ou ainda de que forma transmitir os ensinamento cristãos para povos inóspitos e violentos? Estas foram questões que procuramos aprofundar no decorrer desse nosso trabalho. recebeu diversas cartas do clero. Em um primeiro momento. na figura de Carlos Magno. o cristianismo. A aliança de Clóvis foi o ponto de partida que permitiu a unificação do Ocidente. plantou a semente que. Os soldados romanos já debilitados pela guerra civil que aflige Roma há séculos. E em seguida surge como uma verdadeira ferramenta a qual propiciou a amálgama entre romanos e germânicos.CONSIDERAÇÕES FINAIS Em uma turva noite de inverno do ano de 406. atingiria seu maior relevo.Universidade Tuiuti do Paraná 25 | História | 2008 . A figura do soberano seria de fundamental importância para a propagação do cristianismo. inúmeros furiosos guerreiros vestidos com peles de animais almejavam apenas um objetivo: conquistar o já debilitado Império Romano. Considerando a conversão desses reis como alicerce e ponto inicial para a conversão em massa dos povos germânicos é que o cristianismo foi penetrando e progressivamente transformando. rei dos francos. séculos mais tarde. como elemento de diferenciação entre romanos e “bárbaros”. cabe destacar que. a imagem de Clóvis foi muito usada como a ilustração de um rei vencedor. Para entendermos esta unidade político-religiosa aprofundamos o desempenho da Igreja na construção dos novos Estados que surgiam no território europeu. era uma batalha lenta e dolorosa a ser realizado nas mais diversas regiões. com a Igreja no final do século V. Decorrente a “queda” do Império Romano do Ocidente e da construção dos diversos reinos “bárbaros”. Porém não bastava a conversão do rei para que o povo se convertesse. que anos mais tarde viria a ruir. Nessa época a Igreja dava seus primeiros passos na sua estruturação. Monografias . porém. No entanto uma a resposta emerge com maior relevo: todas essas discussões não te- riam respostas concisas. lutam ardorosamente com todas as forças que restam e tentam defender a débil muralha romana. Quem necessitava mais dessa aliança? Igreja ou Império? É notório que as duas partes levavam vantagens. símbolo de civilização e alta cultura. os legionários romanos foram urgentemente chamados para os postos de comando. por sua vez. esse mesmo Império daria testemunho aos outros de que uma unificação com a Igreja sempre seria fecunda para ambas as duas partes. o que aconteceria a partir da aliança com o Império. e essa vitória só veio a partir dessa aliança. A partir do batismo do soberano é que os monges e homens do clero tinham mais liberdade para trabalhar com a população. Estes e outros questionamentos suscitaram o interesse da Igreja no Ocidente medieval em dois níveis. a aliança foi procurada pela parte eclesiástica. pois Clóvis ainda com 15 anos. indicando que seu reinado só seria próspero se o mesmo tivesse influência direta com o cristianismo. Clóvis descendo à pia batismal.

São Paulo: Unesp. enquanto nos arianos. No que diz respeito aos pagãos. 2001. lombardos. In: SÁNCHEZ. J. Fernanda. In: MIGNE. HIDÁCIO. In: M. Maria Guadalupe Pedrero. Patrologiae cursus completus. seguiram o mesmo processo? Diversas respostas podem ser buscadas. Historia de regibus gothorum vandalorum et suevorum. cada reino. Vitória: UFES. In: ESPINOSA.H. Commentariorum in Ezechielem prophetam. História da Idade Média. HIERON�MI. necessitasse de uma forma diferente de atuação eclesiástica. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. Fernanda.Universidade Tuiuti do Paraná 26 | História | 2008 . São Paulo: Unesp. É evidente que outras inquietações ainda ficaram pendentes neste nosso trabalho: será que os demais reinos não atingiram a importância do reino dos francos apenas por não estabelecerem uma relação tão profunda entre Igreja/Império? Ou ainda. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. In: SÁNCHEZ. Abbatis. Antologia de textos históricos medievais. p. a partir dos questionamentos levantados. Romana et Getica. In: ESPINOSA. In: ESPINOSA. In: ESPINOSA. todavia nossa proposta inicial foi de tentar responder questionamentos vinculados somente ao povo franco. por terem um contato com o cristianismo no Império romano. Tuñón de. História da Idade Média. além desta incisiva atuação da Igreja diretamente no Império franco. visto que determinados povos se apresentavam na condição de pagãos ou arianos. Fernanda. Fernanda. In: LARA. Maria Guadalupe Pedrero. Auctores Antiquissimi. LACTANCIO. Santo. burgúndios. era muito difícil de ser quebrada. Antologia de textos históricos medievais. 2000. como foi a relação Igreja/ Estado nos demais reinos? Os suevos. Crônica. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. 36-37. que a aliança entre Igreja/Império era a mais vantajosa forma de promover a propagação da fé nesse período. Fernanda. J. Monumenta Germaniae histórica-scriptores. Constatamos. FONTES A�ER. LAURISSENSES. ISIDORO. 1972. In: MIGNE. passada principalmente pelos seus ancestrais. 2000. São Paulo: Unesp. Eusebii.G. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. 2000. Antologia de textos históricos medievais. 1972. 12. 1972. Monumenta Germaniae histórica – auctorum antiquissimorum. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. In: SÁNCHEZ. Antologia de textos históricos medievais. Patrologiae cursus completus. Maria Guadalupe Pedrero. FREITAS. repudiaram a nova maneira dessa expressão religiosa.C. Edmar Checon de. J. por exemplo. 3. 1972. Fernanda. 1972. n. Sobre la muerte de los perseguidores. Antologia de textos históricos medievais. Revista de história da UFES. BICLARENSIS. jan/jun. ESPINOSA. sua visão de natureza sagrada. 1972. A source-book for ancient church history. p. A. Cristianização e violência: Martinho de Tours e a destruição de santuários pagãos na Gália no século IV. Antologia de textos históricos medievais.É notório que cada região. História da Idade Média. Monografias . JORDANES. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora. p. Dimensões. In: ESPINOSA.P.P. 39-40.

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não formavam um grupo coerente. 1992). Alarico foi uma personalidade mais complexa do que o saqueador selvático da lenda histórica. Dentre os principais cabe destacar: francos. 83-105). (LO�N. Mircea. Antes de desaparecer. burgúndios.Universidade Tuiuti do Paraná 28 | História | 2008 . Átila fez uma última tentativa contra Roma. Jacques. pois 12 13 se encontram divididos em tribos e clãs. 11 (JOHNSON. Jacques. 1997. 2001). 15 Rei dos Visigodos 395-410. saxões. derrotado em 461 pelo patrício Aécio nos Campos Catalúnicos ou Campo Mauríaco. (BASCHET. (FRANCO JUNIOR. que a diplomacia do Papa Leão Magno conseguiu salvar. 2006). 02-23) (LE GOFF. (RICHÉ. (BLOCH. 53). (ESPINOSA. 1987). (SÁNCHEZ. Lembrado pelo saque de Roma em 410. estendendo-se ao Danúbio. bávaros. 1978. 12).notas de rodapé 1 (ELIADE. Marc. (CARVALHO. 14 Chefe Huno. 2007. Jerôme. p. p. Maria Guadalupe Pedrero. 1972). Estes povos “bárbaros” ocuparam a Europa do Norte próxima ao Reno. Paul. 1980) 2 3 4 5 6 7 8 9 10 . suevos. 1995. 2006). Hilário. (LE GOFF. (DUB�. p. Pierre. (LE GOFF. 288). visigodos e ostrogodos. 2000). 2005). p. p. 2001. vândalos. Georges. Fernanda. alamanos. Monografias .

vale destacar também que seu poder foi enormemente favorecido a partir de sua conversão ao cristianismo católico. Um dos grandes Pais da Igreja latina. 186). foi convertido ao Cristianismo por Santo Ambrósio e batizado no ano seguinte. p. 97). Voltando ao norte da África. 25 Literalmente “escolha”. p.. 23 Presidido diretamente pelo legado do papa Silvestre. Monografias . (id.( id. Agostinho foi criado como cris- 18 19 tão. p.. e assistiso por quase 300 bispos. e os ripuários ao redor de Colônia.] (id.103). Em 385.26). mas não batizado. Hósio de Córdova. os francos instalaram-se em dois grupos principais. Com essa grande dissidência o limes ficou ainda mais fraco “chamando” os “bárbaros” para a aproximação. op.16 Desde o século III com a morte do Imperador Alexandre Severo.. todas as legiões romanas sentiram-se a vontade para proclamar seus respecti- vos generais ao cargo de Imperador. finalmente. ibid.Universidade Tuiuti do Paraná 29 | História | 2008 . Aumentou seu poder principalmente pela força das batalhas. Uma fórmula ariana de fé foi proposta e rejeitada. Na época das migrações tribais do século IV e V. p. (ANDERSON. interpretações e práticas religiosas contrárias áquelas oficialmente adotadas pela Igreja Católica (FRANCO JUNIOR. Tendo nascido em Tagaste de pai pagão e mãe cristã. que ficaram a noroeste da fronteira do Reno. 20 Um dos principais povos germânicos do Ocidente. ibid. ibid. Em face da dificuldade teológica de combinar a divindade de Cristo com a unidade de Deus na Trindade.. (id.. bispo de Hipona em 395. (id. ibid. incluindo grande parte das Bélgica moderna. era um modo de vida adotado por ascetas solitários [. Ario propôs a noção segundo o qual o Filho não era co-eterno com o Pai. p. visto que todas os povos bárbaros da época eram adeptos do arianismo. p. p. ibid. aonde em apenas 50 anos. Os debates foram acrimoniosos e demorados. quer dizer. em sua mais antiga forma. 17 Limites do Império Romano. foi ordenado padre e. Bispo de Hipona. cit.. 21 Crença herética que surgiu na Igreja primitiva em virtude dos ensinamentos do sacerdote alexandrino Ario (256-336). 1980. É conhecido como fundador da monarquia francesa histórica. 24 A palavra “monge” deriva do grego monos. (LO�N. 272). 2006. Perry. 158). 260). 8). aproximadamente 43 generais foram proclamados.. que significa “solitário”. o monasticismo cristão.. os sálios. 22 Rei dos francos 480-511. p. mas o credo opcional de Eusébio de Cesaréia foi apresentado e recebeu aprovação geral.

condenando os que desobedecessem a esse mandato. 194). um dos soldados. 31 “O inimigo tinha roubado de uma igreja um vaso de uma grandeza e uma beleza maravilhosas. surgiram novas leis encaminhadas á eliminação do paganismo. e nós mesmos estamos submetidos ao teu poder. os mais sensatos responderam: glorioso rei. 2001. Sobre esse nome não se deve entender. 2000. Martinho era filho de pais pagãos. aproximou-se do soldado que atingira o vaso e disse-lhe: ninguém tem armas tão maltratadas como as tuas. tendo servido no exército romano até sua conver- são ao Cristianismo (LO�N. A estas palavras. 32 Clotilde era sobrinha do rei dos burgúndios. 285). cit. O princípio que foi acordado concedia a plena liberdade religiosa a todos os súditos. eu farei o que o padre pede. Sua cultura. Após o casamento Clóvis alia-se com esse povo.Tinha origem senatorial galo-romana. Ao passar revista. p. 285). cit. leviano. 30 Teodósio proclamou o cristianismo católico como religião oficial do Império. e cada um dos soldados devia mostrar as suas armas bem lustradas. tanto público como privado (id. promulgada em Tessalô- nica. p. como no sorteio lhe tivesse cabido o vaso.Universidade Tuiuti do Paraná 30 | História | 2008 . O bispo daquela igreja mandou mensageiros ao rei. que me concedais como quinhão aquele vaso que está ali (e apontava para o vaso de que falamos). A famosa constituição Cunctos Populus. um édito concreto. porém. ibid. quando esse vaso entrar no meu quinhão.. incluídos expressamente os cristãos (SÁNCHEZ. dizendo: foi o que fizeste ao vaso de Soissons” (PETIOT. entregou-o ao emissário. O rei sofreu um ultraje com paciente doçura e. O rei respondeu ás palavras do enviado: segue-me até Soissons. E. ordenava que todos os povos prestassem adesão á fé cristã. meus bravos guerreiros. porque é de lá que será partilhada toda a presa. brandiu o seu machado de dois gumes e bateu no vaso exclamando em altos brados: tu não terás senão o que realmente te couber em sorte. tudo o que vemos aqui é teu. Quando acabaram de assim falar. 27 Bispo de Tours (538-595). dado em Milão. ao menos lhe restituísse aquele. invejoso e arrebatado. p. cravou-lho no crânio. 17). atiro-o ao chão. 253). nem a lança nem a espada nem o machado estão em condições. p. agarrando no machado. erguendo o seu com ambas as mãos. e então o rei. Passado um ano. pelos imperadores Constantino e Licínio.. reuniu toda a sua tropa em parada militar no Campo de Marte. suas relações e a importância da sua Sé episcopal preparam-no para ser o primeiro historiador da França (SÁNCHEZ. se não pudesse recuperar os outros vasos sagrados. Pai do monasticismo na Gália. Nos anos seguintes. 1991. 28 Hierofania é entendida como manifestação do sagrado. 294). pedindo-lhe que. com todas as demais alfaias do ministério sa- grado.26 Bispo de Tours (316-397). O soldado abaixou-se para apanhá-lo. Todos ficaram estupefatos. ocultando a ferida no coração. op. Chegado a Soissons. p. proibindo o culto pagão. ou ainda. algo sagrado que se revela em um determinado local (ELIADE. Monografias .. o rei mandou amontoar o carregamento dos despojos no meio dos seus soldados e disse: peço-vos. mas a regulamentação da política religiosa do Império como 29 resultado das reuniões celebradas na cidade. p. op.

contou a rainha que lhe fora dado alcançar a vitória por ter invocado o nome de Cristo” (id... que Clotilde afir- ma ser o Filho de Deus da vida. submeteram-se a Clóvis dizendo: concedei-nos a vida. Monografias . Gregório acrescenta: “ Nesse mesmo momento os alamanos voltaram as costas e debandaram. 197).. E. a primeira vez no monte Suntel em 782. ibid. acreditarei em ti e far-me-ei batizar em teu nome. ibid. Witikind. 412). Assim terminou a guerra.] (id.. p. saqueada. desde que esperem em ti. em Verden. E então – com Witikind á frente – aceitou o batismo. e a segunda no vau do Weser em 793. depois de algumas conversações com o exército.Universidade Tuiuti do Paraná 31 | História | 2008 .. levantando os olhos para o céu e dirigindo-lhe esta prece: “ Jesus Cristo. Invoquei os meus deuses e nenhum socorro recebi. Conhecemos os empolgantes episódios dessa cam- panhas no interior das mais espessas florestas. tu que desejas vir em auxílio daqueles que desanimam e dar-lhes a vitória.] sustentada durante trinta e um anos sucessivos com igual energia de parte a parte. porque nós somos teus.33 Gregório de Tours representa-o (Clóvis) chorando. e se eu experimentar esse poder de que as pessoas que usam o teu nome afirmam ter tantas provas. p. a Saxônia acabou finalmente por ceder. os terríveis episódios do duplo “desastre de Varrão” sofrido pelos exércitos francos. eu invoco devotamente o teu glorioso socorro. e a sangrenta resposta de Carlos.. Esmagada. Se te dignares conceder-me a vitória sobre os meus inimigos.. vendo que o seu rei havia sido morto. 34 [. Tendo regressado com a paz feita. Um terço de século de assassínios impusera a esse tronco germânico pagão o duplo enxerto da civilização ocidental e do cristianismo [.. de quatro mil e quinhentos prisioneiros saxões decapitados a machadadas.”. a revolta sempre renovada sob comando do Vercingetórix saxão. etc. a chacina. a destruição do santuário pagão de Irminsul.

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