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CONHECIMENTOS EM SAÚDE E DIFICULDADES VIVÊNCIADAS NO CUIDAR: PERSPECTIVA DOS FAMILIARES DE DOENTES RENAIS CRÔNICOS Mayckel da Silva Barreto*, Maria

Aparecida Augusto**, Deise Cris Sezeremeta***, Graciele Basílio****, Sonia Silva Marcon***** INTRODUÇÃO: A doença renal crônica (DRC) é considerada uma condição sem alternativas de bom prognóstico e de evolução progressiva, impondo ao indivíduo uma série de mudanças em sua vida, incluindo o uso contínuo de medicações, modificações na dieta e o enfrentamento da dependência de outras pessoas e de aparelhos para adaptações à nova realidade(1). Por esta razão, o enfermeiro, deve compartilhar o cuidado, envolvendo os familiares no processo saúde-doença do paciente crônico, ensinando-lhes os cuidados básicos necessários para se conviver no domicílio com a doença(2). A verificação dos conhecimentos que a família possui sobre as necessidades de saúde de seu ente com DRC, possibilita a reformulação das ações educativas, voltadas para os interesses da família, levando a equipe de enfermagem a desenvolver estratégias de intervenção ao acompanhamento dos indivíduos doentes e seus cuidadores familiares. Deste modo o objetivo do presente estudo foi investigar o conhecimento em saúde dos familiares de pacientes com DRC em tratamento dialítico, e as dificuldades vivenciadas no processo de cuidar. METODOLOGIA: Pesquisa descritiva de natureza qualitativa realizada no Instituto do Rim de Campo Mourão, município de médio porte, localizado na região noroeste do Paraná e sede da 13ª Regional de Saúde (RS), a qual congrega 25 municípios. O Instituto atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), oriundos de todos os municípios da 13ª RS, totalizando 120 indivíduos, porém apenas 20 residiam no município sede e todos foram relacionados para serem incluídos no estudo, no entanto nove não foram localizados e dois familiares se recusaram a participar. Os dados foram coletados no período de abril a maio de 2011, por meio de entrevistas, realizadas no domicílio dos pacientes, seguindo um roteiro semi-estruturado, as falas foram gravadas, e posteriormente, transcritas. Os dados foram categorizados e agrupados conforme suas semelhanças, por meio da análise de conteúdo do tipo temática(3). O estudo foi desenvolvido em consonância com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional da Saúde (CNS) e o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá (Parecer nº 131/2011). Todos os participantes assinaram o termo de Consentimento Livre e Esclarecido em duas vias e estão identificados com as letras C.F. de Cuidador Familiar seguidos de um número arábico com o intuito de preservar o anonimato dos mesmos (C.F.1, C.F.2...). RESULTADOS E DISCUSSÃO: Foram entrevistadas nove cuidadores familiares, todos do sexo feminino, sendo que o grau de parentesco com o sujeito cuidado era: quatro esposas, duas filhas, uma irmã, uma sobrinha e uma ex-esposa. A idade destas variou de 15 a 65 anos, com média de 47,7 anos. Sete não possuíam vínculo empregatício e as outras duas trabalhavam apenas meio expediente. Outros estudos também demonstram que a maioria das cuidadoras, de um modo geral, é do sexo feminino, predominando esposas e filhas, com idade mais avançada e sem atividades fora do lar, pela
*Enfermeiro. Aluno regular do Programa de Mestrado em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Rua. Pioneiro Nereu Mazzer, 586, Jardim Tóquio, Maringá – Paraná – Brazil. CEP: 87025-810. E-mail: mayckelbar@gmail.com **Enfermeira. Aluna não-regular do Programa de Mestrado em Enfermagem da UEM. E-mail: mariaaugustosilva@hotmail.com ***Enfermeira. Aluna não-regular do Programa de Mestrado em Enfermagem da UEM. E-mail: deisecris12@hotmail.com ****Enfermeira. Aluna não-regular do Programa de Mestrado em Enfermagem da UEM. E-mail: gracielebasilio@hotmail.com *****Enfermeira. Doutora em filosofia da enfermagem. Professora da graduação e pós-graduação do Departamento de Enfermagem da UEM. E-mail: soniasilva.marcon@gmail.com

nossa! Teve duas vezes que ele foi parar no Pronto Socorro por que nós não conseguimos praticamente estancar o sangue. Outra dificuldade relatada pelas entrevistadas foi o sentimento de impotência em relação ao estado de saúde e ao futuro incerto de seu familiar. Conhecimento sobre os cuidados em saúde oferecidos ao familiar com DRC: A maioria das cuidadoras mostrou possuir algum conhecimento em relação aos cuidados que devem ser ofertados ao seu familiar com DRC. mas este fato não está diretamente ligado à aceitação da nova condição em suas vidas(5). durante o tratamento hemodialítico. 8). É bem difícil. biológicas e emocionais de cuidar. sete eram homens.F. o paciente necessita implementar outros cuidados. do paciente e de seus familiares. Notadamente se observa o estresse e a sobrecarga sob essa cuidadora. entre eles. todavia a impotência diante da situação faz com que os familiares apóiem a realização do tratamento. Os enfermeiros devem executar. Não pode ficar forçando o braço. que faz com que o doente se torne cada dia mais dependente de seu cuidador. É complicado. troca periódica de curativos e realização de exercícios de compressão manual para promover a maturação do acesso venoso. De um modo geral. tem dia que eu não estou agüentando. Por meio da análise das falas. (C. Ah! Cuidado pra não pegar sujeira no curativo (C. a fim de preparar e treinar os familiares para que estejam aptos a lidar com as diversas situações que um doente renal crônico vivenciará no curso de sua doença.F. dependente de uma máquina para sobreviver e sujeito a um tratamento agressivo e doloroso. Percebeu-se que a falta de conhecimento é um fator gerador de medo e angústia para os familiares. eu morro de medo. evitar punções venosas e verificação da pressão arterial no braço que possui a fístula. o que certamente favorece um maior vínculo da família e do doente com o serviço de saúde e seus profissionais. levando em muitos casos. como por exemplo. construíram-se duas categorias: Conhecimento sobre os cuidados em saúde oferecidos ao familiar com DRC e dificuldades vivenciadas no processo de cuidar. a elevação do membro nos primeiros dias. Dificuldades vivenciadas no processo de cuidar: Muitas dificuldades foram apontadas pelas entrevistadas em relação ao cuidado prestado aos familiares. evidenciada pela dificuldade em cuidar do doente em determinadas situações. Outra dificuldade experenciada foi a sobrecarga das cuidadoras. Constata-se que a oferta de informação se configura como uma necessidade para os familiares.demanda de cuidados prestados ao familiar enfermo(4). Quando ele vem da hemodiálise e eu vou fazer o curativo. (C. O sofrimento em conviver com um de seus familiares ameaçado. Por mais que o serviço de saúde seja diferenciado e especializado no atendimento a estes pacientes. não se verifica uma assistência pautada na busca pela promoção da saúde e prevenção de agravos.F. as dificuldades financeiras. além de evitar dormir sobre o braço do acesso e qualquer compressão(5). a observação de sinais e sintomas de infecção. Às vezes ele é sem paciência.F. Dos nove pacientes. revelando predomínio do sexo masculino entre os doentes renais crônicos em tratamento intradialítico. 2). É neste contexto complexo que os profissionais de saúde devem intervir propondo estratégias que .1).F. mas tenho que cuidar dele. a própria cronicidade da doença. 9). entre eles.. Ele não tem muita paciência (C. A manutenção da fístula arteriovenosa exige cuidados fundamentais por parte dos profissionais de saúde.F. 8). faz com que a família não aceite facilmente a DRC e o regime terapêutico. a idade avançada. a falta de uma atividade ocupacional. 4). a impaciência e a teimosia dos doentes. a gente vê o sofrimento dele e não pode fazer nada. a uma piora no quadro clínico de seus familiares.. tais como a vigilância do funcionamento do acesso. (C. seu papel de educadores em saúde.. a realização e manutenção da higiene. por que se você não tiver uma habilidade para tampar aquilo ali rápido. com responsabilidade. é possível observar que os conhecimentos básicos acerca dos cuidados com a fístula foram transmitidos aos familiares pelo serviço de saúde. que em determinados momentos não tem mais condições físicas. Os cuidados que são adotados no período pré e pós-confecção cirúrgica da fístula são vários. ele foi com os braços todo molhado (C. Vários são os fatores estressores que podem estar relacionados a esta impaciência dos doentes..

Preparing for hemodialysis: patient stressors and responses. melhora do quadro clínico e diminuição de internações hospitalares. Dyniewicz AM. 15(6): 2815-24. Elsen I. REFERÊNCIAS: 1. Rev Eletrônica Enferm [serial on the Internet] 2004 [Acesso em 09 Mar. deve-se transmitir o maior número de informações com qualidade e treinar os familiares para a execução de procedimentos. sendo estes fragmentados e deficitários. Rev. Insuficiência Renal.ufg. Spittal J. Cienc Cuid Saúde 2009. Zanela E. Lisboa (PT): Edições 70. Disponível em: http://www. Kobus LSG.html 2. 6.br/revista/revista6_2/narrativa. O cuidado profissional às famílias que vivenciam a doença crônica em seu cotidiano. Lemos NFD. Fraguas HL. 8(suplem. Barcellos WBE. Palavras-chave: Relações Familiares. situação indesejada. 6(2):199-212. Ciênc. Narrativa de uma paciente com insuficiência renal crônica: a história oral como estratégia de pesquisa.minimizem os fatores que dificultam o processo de cuidar. Bardin L. Fatores potencialmente associados à negligência doméstica entre idosos atendidos em programa de assistência domiciliar. White S. 5. Prospero ENS. 2011]. Queiroz ZPV. de onde se espera uma assistência voltada para a promoção da saúde e a prevenção de agravos. Área temática: Experiência e vivência da família em situações de saúde e doença. visando à promoção da saúde. desenvolvendo suas habilidades técnicas. Educação em Saúde. Rene 2010. pois para o cuidado integral. Análise de conteúdo. 32(3): 295-302. O paciente em hemodiálise: autocuidado com a fístula arteriovenosa. Apresentação: Oral .fen. Nephrol Nurs Journal 2005. CONCLUSÃO: As entrevistadas apresentavam poucos conhecimentos em relação aos cuidados que devem ser dispensados aos seus familiares. A situação se torna ainda mais preocupante. Locking-Cusolito H. Saúde Colet 2010. Wilson B. Maniva SJCF. o que não pode ser constatado no estudo. 4. Souza AIJ. Ramos LR. 11(1):152-160. 3.):11-22. Freitas CHA. 2004. pois os participantes do estudo provêm de um serviço especializado.