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4. Conflitos sociais e mecanismos de resolução. Sistemas não-judiciais de composição de litígios.

Considerações iniciais: Temos que a sociologia é a ciência da sociedade, observando e analisando as regras que regem as relações sociais, ou seja, estuda a interação entre pessoas e grupos. “A imposição de uma ordem social não se realiza sem que surjam conflitos relativos às regras sociais. Muitas vezes estes conflitos levam a uma alteração da organização da sociedade, ou seja, a uma mudança social. (...) Assim sendo, a sociologia jurídica depara-se, na sua leitura do direito, com fenômenos do conflito, da integração e da mudança social que se exprimem também por meio do sistema jurídico. ” (Sabadell, p. 81). 1. Teorias Funcionalistas e Teorias do Conflito social. Nas teorias macrossociológicas, existem duas principais correntes, quais sejam: as teorias funcionalistas e a teria dos conflitos sociais. Explicamos: a) Teorias funcionalistas: “Os funcionalistas consideram a sociedade como uma grande máquina. Esta distribui papéis e recursos (dinheiro, poder, prestigio, educação) aos seus membros, que são identificados como as ‘peças da máquina’. A finalidade da sociedade é a sua reprodução por meios do funcionamento perfeito dos seus vários componentes.” (Sabadell, p. 81 e 82). A critica que se funda a essa teoria, é que trata-se de uma teria estática, que não consegue interpretar os processos sociais fundamentais de mudança, pois, explica as eventuais mudanças radicais como disfunções ou inadequações que se opõe ao sistema social. b) Teoria dos Conflitos sociais: “As teorias do conflito social (marxista e liberais) opõe-se às teorias funcionalistas. Em geral, as teorias do conflito entendem que na sociedade agem grupos com interesses estruturalmente opostos, que se encontram em situações de desigualdade e em luta perpétua pelo poder.” (Sabadell, p. 82). Veja que essa teoria é mais solida que a teoria funcionalista, pois leva em consideração a possibilidade de uma subversão da ordem elevando ao poder um novo dominador e com isso alterando toda a ordem previamente estatuída. 2. Anomia e Regras sociais:

em especial no terceiro caso. situação na qual a sociedade não desempenha o seu papel moderador.a) conceito de anomia: Etimologicamente. Exemplo seria um infrator das normas penais. Sabadell. 89) 1 Para trazer clareza devemos nos volver a hermenêutica jurídica para encontrar respostas. em contraposição a qualquer lei que é considerada como universal e oprime a liberdade individual” (Sabadell. não consegue orientar e limitar a atividade do individuo. ou seja. Existe uma classificação de Miranda Rosa. 3º Vinculação das pessoas em um dado contexto social normatizado: Falta norma que vincule as pessoas a cumpri . p. Não vê a anomia como algo positivo. A-nomia significa literalmente ausência de lei (a=ausência. p. 2000. desperta um grande interesse nos sociólogos e nos juristas. 322. 86) b. define anomia como ausência de lei fixa e a considera como um elemento positivo que liberta os indivíduos. demonstrando pouca vinculação às regras da estrutura social a qual pertence.2) A anomia em Durkheim: Emile Durkheim inverte a problemática de Guyau. Com isso. temos a definição de Durkheim sobre anomia que “significa ‘estado de desregramento’. PP. mas sim como algo que desordena a sociedade. 2º Ausência de regra clara de comportamento1: Há um conflito de normas que acaba estabelecendo exigências contraditórias. que anomia atualmente pode ser utilizada em 3 sentidos: 1º Ilegalidade: quando uma pessoa vive em situação de transgressão das normas. nesse caso é preciso uma explicação sociológica para explicar a não aderência de um determinado grupo a uma determinada norma jurídica.1) A anomia em Guyau: “O conceito da anomia é introduzido para indicar a existência de uma moral desvinculada de regras sociais. . O Estudo da anomia. O resultado é que a vida se desregra e o individuo sofre porque perde suas referencias. apud. falta de regulamentação. vivendo num ‘vazio’” (Durkheim. Por esse motivo. tornando difícil a adequação do comportamento do individuo a norma. colocando-á em crise e conseqüentemente deixando o individuo desorientado podendo leva-lo inclusive a destruição. nomos=lei). Exemplo: Religião X Serviço militar obrigatório.lá. 328. b) Sociólogos que estudaram a anomia: b. 315.

c. 95) c) Atualidade da anomia c. pois as pessoas aderem a outra norma que não a reconhecida pelo estado. Para Merton a anomia consiste no insucesso em atingir metas culturais devido à insuficiência dos meios institucionalizados. Surge então o desvio. e não uma ausência de normas.Intensificar a repressão para combater a tendência anômica.2 – Ineficácia anômica: consiste no descumprimento da norma que o individuo considera inadequada ou injusta. Ante a ineficácia anômica o Estado pode adotar 4 posturas: .” (Sabadell. a anomia leva ao descumprimento das normas jurídicas.Fazer propaganda moral para convencer as pessoas. pode não ser. causando a inficácia ao preceito legal.3) A anomia em Merton.Manter a norma formalmente em vigor. Entende que a anomia é uma disfunção dentro do sistema social. . apesar de reconhecer a contribuição do sistema para a produção do comportamento anômico.1) Anomia e ineficácia do direito: Muitas vezes. mas tolerar a violação – ex: jogo do bicho.Realizar uma mudança legislativa revogando ou modificando normas para harmonizar o direito com os valores da sociedade. No caso seria a manifestação de um comportamento no qual as “regras do jogo social” são abandonadas ou contornadas.” (Sabadell. Mas nem toda ineficácia do preceito legal é anômico. mas o individuo a aceita. p. c. . o comportamento desviante. “O autor parte da idéia da existência de um equilíbrio social e considera o desvio como manifestação patológica. Ex: Estado X Estado Paralelo. . 91). p.1. ou seja.1 – Ineficácia não anômica: O descumprimento da norma existe. O problema dos funcionalistas é esse: Tentam colocar a anomia dentro do sistema. “O individuo não respeita as regras de comportamento que indicam os meios de ação socialmente aceitos.1.2) Anomia e Poder: Esse caso denota um conflito de normas. Exemplo combate as drogas.b. . Ex: combate ao crime organizado. c.

passivo e ativo. (Fator positivo). Existem duas visões sobre a sociologia e as mudanças sociais. assumindo um papel dinâmico.O Direito é progressista. Visão Ativa Visão Passiva .O Direito é conservador. p. Ex: Descanso semanal de domingo para os católicos.As mudanças sociais são também comportamento das pessoas na causas das reformas legislativas que sociedade. é produto de um contexto sociocultural. entende que o direito não influencia nas mudanças sociais.” (Sabadell.3) Anomia e pluralismo cultural. Isto não impede que o mesmo possa influir sobre a situação social. sociais . resta saber se é o direito que influencia essas mudanças ou se é a sociedade que influencia a mudança do direito? b) Relações entre direito e sociedade: É o direito que influencia ou determina as mudanças (idealistas) ou se é a sociedade que influencia ou determina a mudança do direito (realista)? R: é possível sustentar uma terceira posição que nos permite conciliar as duas supracitadas. sendo uma . c) Atividade e passividade do direito como transformador social. O pluralismo pode oferecer normas que conflite com o direito reconhecido pelo Estado gerando uma anomia. – Tese do Construtivismo impuseram nas últimas décadas. (Fator negativo) . “O direito é. outra visão (Passiva). 3 – O Direito como Propulsor e obstáculo da mudança social.c. Uma visão (Ativa) entende que o direito ajuda no processo de transformação da sociedade. configurado por interesses e necessidades sociais. jurídico.O direito pode influenciar o . Esta interpretação permite classificar o direito com um duplo papel na sociedade. mudanças sociais importantes. sendo uma variável independente das mudanças variável dependente das mudanças sociais. 102). (Hunt) .Direito atua como freio para as sociais. em geral. ou seja. a) Conceito de mudança social: Não resta dúvida que as mudanças sociais relacionam-se com as mudanças do direito. mas não é possível se várias religiões co-existirem.Direito propulsor de transformações .

115). na versão mais radical. Nos anos 1960 e 1970 desenvolveu-se um movimento que tentou promover mudanças sociais através do direito. a intensidade da mudança depende de dois fatores gerais: a) da natureza do sistema jurídico. na teoria e na prática jurídica no âmbito das teorias sobre o ‘direito alternativo’. mais fácil sua mudança. p. 2 – esferas de manifestação e 3 ritmo da mudança. Além disso. concebendo o direito como fator de profunda mudança social. quanto mais aberto for um sistema jurídico. Segundo a professora Ana Lucia Sabadel a . em outras palavras. Explicamos: a) – Intensidade da mudança e direito alternativo: A regra habitual que temos é que: o direito pode operar mudanças parciais.” (Sabadell. erguendo-se os juízes como justiceiros acima dos valores jurídicos de sua função. que lhes permitam fazer justiça social. na medida que decidem a favor da parte mais fraca. chegaram a se referir inclusive a um abuso “alternativo do direito”. o direito é contra legem – acredita-se que se pode atuar. Nem é preciso dizer que este movimento gerou uma enorme ira nos juristas conservadores que criticaram duramente os partidários da corrente alternativa do direito. explicita ou implicitamente. DIREITO ALTERNATIVO: “A mudança social por meio do direto foi discutida nas ultimas décadas. pode provocar uma mudança rápida a partir de reformas jurídicas. em nome da justiça social. mais difícil será uma alteração. Os europeus entendem que o jurista deve valer-se do caráter genérico e ambiguo das normas. temos três questões principais: 1 – Intensidade. a intensidade da mudança não é alta. vetando direitos sociais. ou seja. Quando estudamos as mudanças sociais decorrentes do direito. Consistia na interpretação e aplicação do direito com uma finalidade ‘emancipadora’. se o poder não fixa. mesmo quando isto impõe uma interpretação do direito tecnicamente duvidosa” (Sabadell. repete-se a lógica. ao passo que quanto mais rígido o sistema. Os latino americanos dizem que o verdadeiro direito alternativo seria um novo sistema jurídico. no caso contrário. mas de maneira inversa. Pode também ser o direito alternativo uma concepção reacionária do direito. Na Itália este movimento denominou-se ‘uso alternativo do direito’. Ou seja. favorecendo as classes e os grupos sociais mais fracos. e b) da situação política do momento. 116). se o poder político é forte e concentrado. reprimindo os desviantes e impondo interesses dos poderosos. mas dificilmente conseguirá mudanças radicais. empregando métodos de interpretação inovadores. p. No Rio Grande do Sul faz o “uso alternativo do direito.4 – Atuação do Direito como fator de mudança social.

A manifestação interna pode se dar por uma iniciativa dentro do pais. c) Ritmo da mudança Se das mudanças decorrem benefícios para as classes dominantes. Atualmente é muito difícil perceber essa mudança. “Em outras palavras.interpretação de considerar arma de brinquedo como emprego de arma de fogo é uma interpretação equivocada e reacionária. e a aculturação jurídica que representa o processo de recepção de um direito alienígena que provoca alterações globais no direito do país receptor. a mudança pode ser rápida e bem sucedida. Explicamos: A manifestação externa pode se dar de duas maneiras: Empréstimo jurídico. Daqui brota uma pergunta: Vale a pena correr o risco de termos um direito alternativo radical que pode ser tanto social como reacionário? b) Esferas de manifestações da mudança: Existem duas esferas de manifestação de mudança do direito moderno. que consiste na assimilação voluntária de determinadas normas provenientes do direito de outras nações. isto porque a tendência global ganha força. a externa e a interna. a mudança social por meio do direito é um problema plenamente e exclusivamente político .