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CAPÍTULO 1 CONCEITOS EMERGENTES: PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E MÍDIA.

Introdução.................................................................................................................................p.02 1. O Patrimônio Cultural........................................................................................................p.03 1.1.1 Definição e História.........................................................................................p.04 1.1.2 Âmbito nacional...............................................................................................p.11 1.1.3 Classificações..................................................................................................p.13 1.2 A Memória e o Patrimônio Cultural..............................................................................p.15 1.3 A Mídia na Preservação do Patrimônio Cultural.......................................................p.19 1.3.1 Definições: mídia e midiologia.......................................................................p.19 1.3.2 A preservação e transmissão dos bens culturais na Logosfera...............p.22 1.3.3 A preservação e transmissão dos bens culturais na Grafosfera..............p.26 1.3.4 A preservação e transmissão dos bens culturais na Videosfera..............p.30
1.3.4.1 Os meios de transmissão analógico e o digital.............p.31 . A formação de um ambiente tecnológico...............................p.33 . A emergência de novas espacialidades.................................p.36 . O espaço virtual...........................................................p.36 . A realidade híbrida ou mesclada.................................p.38 . Um segundo estágio da videosfera?...........................p.40

Considerações..........................................................................................................................p.41 Referências................................................................................................................................p.43

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INTRODUÇÃO
O termo "patrimônio", para Françoise Choay 1 [2001, p.11], está, na origem, ligado às estruturas familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo, hoje requalificado por diversos adjetivos (genético, natural, histórico, entre outros) que fazem dele um conceito "nômade", sendo com freqüência empregado cotidianamente para designar um conjunto de bens, materiais ou não, direitos, ações, posse e tudo o mais que pertença a uma pessoa, ou seja suscetível de apreciação econômica. Traduzido em inglês como heritage, e em espanhol como herencia, "patrimônio" traz no conjunto de seu significado uma relação estreita com a idéia de herança: "algo que é transmitido, segundo as leis, dos pais e das mães aos filhos" [LITTRÉ, E. apud Choay, 2001, p.11], ou, na visão do cientista social Radcliffe-Brown [1989], traduzido como "a transferência de status baseada na relação existente entre dois membros de um grupo social, entre aquele que transmite e o que recebe." Choay [2001] comenta que essa transmissão ou transferência de uma geração para a seguinte, seja de uma propriedade considerada como patrimônio do grupo e da família, ou do status relativo a tal propriedade, é de vital importância para a continuidade de um grupo social. Essa passagem é feita na forma de herança de bens e de práticas sociais. Nesse capítulo, discutiremos especificamente sobre uma categoria de patrimônio que possui uma estreita relação com a idéia de herança - o chamado patrimônio cultural -, cuja noção tem em sua origem a imagem do monumento, termo evoluído do latim monumentum, que por sua vez deriva de monere ("advertir", "lembrar"), isto é, aquilo que traz à lembrança alguma coisa. Conforme Choay [2001, p.31], o monumento, acrescido do adjetivo histórico, nasce em Roma, em 1420, configurando-se como obras arquitetônicas remanescentes de épocas passadas. Por essa razão, desde esse tempo, o monumento histórico converte-se em um tema importante e muito estudado dentro do campo disciplinar da arquitetura. Ao longo do tempo, diversos arquitetos ocupam-se em refletir sobre suas definições e conceitos, ajudando a estabelecer, a partir desses estudos, a noção atual de patrimônio cultural.
Françoise Choay é historiadora e pesquisadora das teorias e das formas urbanas e arquitetônicas. Sua obra de referência em nossa pesquisa é A alegoria do patrimônio, em que a autora discute as origens dos conceitos de monumento e de patrimônio histórico.
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Hoje, diante do advento das chamadas Tecnologias de Informação e Comunicação, que vêm oferecendo novas maneiras de se pensar a preservação patrimonial a partir da mídia digital, nos parece extremamente necessária mais uma vez a reflexão do arquiteto, que tradicionalmente tem investigado o tema do patrimônio por séculos. Além disso, acreditamos que esse profissional também é um dos mais habilitados na discussão sobre os desdobramentos das Tecnologias de Informação e Comunicação no mundo contemporâneo, como demonstram Anja Pratschke [2002] e Marcelo Tramontano [2000]. 2 Tendo em mente tais questões, refletiremos nesse capítulo sobre as formas de preservação do patrimônio cultural, olhando especificamente para o papel que "os meios de transmissão e transporte das mensagens e homens" possuem em sua em sua conservação, partindo do conceito de midiasfera do filósofo francês Régis Debray. 3 Assim, primeiramente, apresentaremos a definição atual de patrimônio cultural e sua história, aproximando-o da função de suporte da chamada memória social ou coletiva. Num segundo momento, refletiremos sobre as maneiras de preservar essa categoria de patrimônio, de modo a assegurar a transmissão da memória social de uma geração à outra, através de um percurso histórico pelos chamados "suportes e procedimentos de memorização de vestígios", que são, segundo Debray [1994], a escrita/oralidade, a imprensa e os meios audiovisuais. Então, nos aprofundaremos em questões relativas aos meios audiovisuais, em particular os baseados na mídia digital, que caracterizam a chamada videosfera, a atual midiasfera para Debray, discutindo novas maneiras de pensar a preservação do patrimônio cultural nesse ambiente.

1. O PATRIMÔNIO CULTURAL

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Os estudos dos arquitetos e pesquisadores Anja Pratschke e Marcelo Tramontano referem-se às novas atribuições profissionais do arquiteto frente ao ambiente tecnológico atual, caracterizado pelo uso generalizado da mídia digital e pela emergência de novas espacialidades, como a virtual e, mais recentemente, a mesclada ou híbrida, esta última constituída pela combinação de espaços concretos e virtuais. Em suas reflexões, os pesquisadores verificam que o arquiteto, dada sua tradicional atribuição como construtor do espaço concreto e sua formação multidisciplinar, seria o profissional mais capacitado também na construção do espaço virtual, como, por exemplo, na coordenação do processo de design de interfaces gráficas, por razões principalmente metodológicas, e não estéticas como se costuma afirmar.

Régis Debray está presente na política francesa desde as décadas de 1950/60, quando foi líder estudantil. Ainda nos anos 1960 foi guerrilheiro ligado a Che Guevara. Na década de 1980 foi assessor para assuntos estrangeiros do governo de François Mitterand e atuou em missões junto ao Terceiro Mundo. É o fundador da midiologia, disciplina relacionada às estruturas de transmissão de mensagens e dos homens, através da qual organizaremos nossa reflexão acerca da preservação do patrimônio cultural a partir de mídias.

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A formação da noção de patrimônio cultural é resultado de uma longa evolução, que inicia-se por uma afeição de civilizações antigas por obras do passado. A princípio, chamadas de antiguidades, e depois de monumentos, tais obras começaram a ser entendidas no sentido de patrimônio somente no momento em que se conceitua a história como uma disciplina. Esse sentido, mais tarde, desembocaria na visão de patrimônio histórico, e, nas últimas décadas do século XX, na noção mais abrangente de patrimônio cultural. Nesse item apresentaremos a evolução desses conceitos, partindo do apreço por vestígios dos tempos clássicos na antiga civilização de Pérgamo, chegando até as recentes convenções da UNESCO sobre a preservação de bens culturais.

1.1.1 Definição e História
Embora ainda não sistematizados dentro da noção de patrimônio cultural, o interesse por vestígios do passado é antiga, já estando presente na Antigüidade Clássica e na Idade Média. Choay [2001, p.31] observa que
"entre a morte de Alexandre e a cristianização do Império Romano, o território grego revela à elite culta de seus conquistadores um tesouro de edifícios públicos (templos, stoá, teatros, etc.)."

Como marco inicial desse interesse, a historiadora posiciona a procura fervorosa dos atálidas 4 por esculturas e objetos de arte decorativa produzidos na Grécia Antiga. Pouco tempo depois, os objetos que encantam esse povo, começam também a provocar interesse aos romanos, que os espoliam durante as conquistas de antigos territórios gregos. No entanto, Choay [2001, p.43] comenta que o valor desses bens em Pérgamo e Roma
"não se prende à sua relação com uma história à qual conferissem autenticidade ou permitissem datar, nem à sua antiguidade: dão a conhecer as realizações de uma civilização superior. São modelos, servem para suscitar uma arte de viver e um refinamento que só os gregos tinham."

Isso se deve ao fato da falta da perspectiva histórica, isto é, falta de entendimento do tempo histórico e da articulação entre os três momentos que o constituem: o passado,

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Os atálidas eram uma civilização localizada próxima ao mar Egeu. Eram súditos de Átalo I, rei de Pérgamo, o governante que comanda as primeiras escavações arqueológicas conhecidas da história, em 210 a.C.

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Choay também detecta essa deficiência da compreensão da temporalidade na relação entre o homem medieval e os monumentos clássicos remanescentes em sua época: "qualquer que sejam o saber das pessoas que deles dispõem e o valor que lhes é atribuído. já no o Renascimento. descobriu e instituiu a distância histórica" [GARIN. utilizáveis para fins diferentes e em lugares diversos" [CHOAY. ainda no século XIV. de renascimento dos valores clássicos. Francesco Petrarca. A primeira conceituação da história como disciplina só surge com os humanistas 5 do Renascimento. e o tempo presente. em especial a partir do poeta Francesco Petrarca 6 . e o tempo da salvação — aquele do juízo final. p.. com seu poema épico África. 6 5 . procura-se cada vez mais estabelecer uma concepção tripartide da história. Essa concepção é contraposta à concepção dualista dominante no período medieval. baseada na redescoberta da cultura clássica que leva os humanistas à distinção de três momentos: o período de florescimento. fragmentação em peças ou pedaços. que correspondia à Antigüidade Clássica. através da figura gloriosa do personagem Cipião o africano. [os objetos da Antigüidade na Idade Média] são assimilados diretamente e introduzidos no círculo de práticas cristãs. que correspondia ao período medieval.40].o presente e o futuro. Sua preservação é. com o surgimento do sentido de história. combinada ou não com reformas. é considerado o inventor do soneto. sem que se tenha criado à sua volta a distância simbólica e as interdições que na perspectiva histórica fatalmente implicaria (. que. p. a fase de decadência. uma reutilização. na Renascença cria-se a condição necessária para que se constitua a noção de monumento histórico e uma literatura sobre o conhecimento e o prazer propiciados pelas obras de Antigüidade. Ela se apresenta sob duas formas distintas: reutilização global. 1969. principalmente. de 1338. general durante a Segunda Guerra Púnica e estadista da República Romana. como 5 Segundo o estudioso Bernard Cottret. importante escritor. os humanistas eram sábios que se interessavam pelos textos da Antigüidade Clássica (em Latim e Grego) em detrimento da escolástica medieval. tipo de poema composto de 14 versos. pois. "A leitura purificadora do poeta.87]. poeta e humanista italiano.). quando a história universal dividia-se entre o tempo presente — a peregrinação terrena. Assim. Após Petrarca. Móveis e imóveis. 2001. devido ao seu Romanceiro. as criações da Antigüidade não desempenham. tenta reviver a grandeza de Roma e a excelência dos heróis da Antigüidade. que queria ler versos de Virgílio sem barbarismos nem glosas. famoso.. É tido como o "pai do humanismo". de fato. o papel de monumentos históricos.

enquanto manifestações culturais e enquanto símbolos da nação. de Alberti. discorre sobre as regras da beleza arquitetônica. arquiteto britânico que promove campanhas de restauração entre 1788 e 1791 em um conjunto de catedrais inglesas. grandes equipamentos e outros) tem lugar. que desenha e mede grandes monumentos antigos das províncias meridionais francesas. na França. um dos fundadores da Academia de Arquitetura (Academie d'Architecture) da França em 1671. a partir do momento em que o Estado assume sua proteção.." Entre tais intelectuais. Todavia.52]. Pelo valor que lhes é atribuído. principalmente no caso francês.) Contra as forças sociais de destruição que os ameaçam. Na época. Françoise Choay observa que as ações de preservação e restauro desses monumentos ainda não se dão de forma sistematizada. a polêmica das restaurações conservadora e intervencionista. sem nenhum projeto de conservação [CHOAY. como Pierre Mignard.o tratado de arquitetura De re aedificatoria. destacam-se a atuação de arquitetos e antiquários. visando a sua transmissão para futuras gerações. Ela provoca dificuldades técnicas muito diferentes. necessariamente in situ. por meio de determinados agentes. psicológicos complexos. pela primeira vez. Apenas em 1837.. essa é "uma prática característica de Estados modernos. como única proteção – aleatória. A sistematização das ações de conservação dos monumentos históricos só se dá com a constituição dos patrimônios históricos e artísticos nacionais. A instauração da comissão está 6 .Wyatt. os edifícios antigos têm. apoiada em preceitos jurídicos e técnicos. p. tomando como base de referência a arte clássica. p. se não derrisória – a paixão do saber e o amor pela arte" [CHOAY. e o debate sobre a natureza e a legitimidade da intervenção. No entanto. e com base em instrumentos jurídicos específicos. envolve mecanismos edílicos. recrutados entre intelectuais. que. 2001. "a conservação dos edifícios (monumentos. 2001. Está na dependência do domínio público e político. com a criação da Comissão dos Monumentos Históricos. com o único objetivo de colher informações. esses bens passam a ser merecedores de proteção. o trabalho desses profissionais tem um enfoque puramente documental. que. é que surge realmente uma política concreta do Estado para a preservação e conservação do patrimônio histórico e artístico nacional. quando coloca-se. e J. p. Segundo a pesquisadora Maria Fonseca [1997. sociais.11]. delimitam um conjunto de bens no espaço público. econômicos.91]. que geram conflitos e dificuldades (.

que ameaçava expurgar de solo francês os remanescentes da arte medieval. que se transformam em antigüidades nacionais. no intuito de destruir e apagar os símbolos das antigas classes dominantes. cujos procedimentos mais metódicos. que Choay chama de "secundária ou reacional". acompanhada das palavras-chave herança. que visa proteger os bens espoliados do clero. É aí que nasce a idéia de tombamento histórico e a noção de patrimônio propriamente dita. nobreza e clero. p.98-105] detecta duas medidas de proteção do patrimônio nacional durante a Revolução Francesa. "primária ou preventiva". Choay [2001. que transcende as barreiras do tempo e do gosto. em que se promove uma grande destruição do patrimônio nacional francês.). a pesquisadora Beatriz Kühl comenta: "No que concerne aos monumentos históricos. é aquela relativa a uma política de conservação. devem ser mantidos. mais finos." Ou ainda. em 1837.. a reação ao 'vandalismo' revolucionário. pronunciado em 1791. resultou 7 . foram elaborados para enfrentar o vandalismo que causou estragos a partir de 1792. que cada um de vós se comporte como se fosse de fato responsável por esses tesouros que a nação vos confia. O discurso sobre monumentos públicos do deputado revolucionário Armand-Guy Kersaint. em sua Instruction sur la manière d'inventorier: "É nas casas vergonhosamente abandonadas por vossos inimigos que havereis de encontrar uma parte dessa herança.." A segunda medida de proteção do patrimônio francês durante a Revolução. mesmo anteriormente. Sobre esse segundo momento. sendo comum sua utilização como fonte de materiais de construção. tão cruelmente ultrajada por ele (. efetivos e bem argumentados. agora à disposição da nação.).. quando igrejas são incendiadas. em realidade. sucessão e conservação. embelezados à custa de todos.. Os edifícios medievais foram as principais vítimas. engrandecidos. o período que se seguiu à Revolução foi desastroso pelas devastações e saques praticados contra obras de arte. que desemboca então na criação da Comissão dos Monumentos Históricos. tirai proveito dela em benefício da razão. É nesse período que nasce o termo "vandalismo". o desprezo por eles e as intervenções mutiladoras haviam sido uma constante. A primeira é uma medida imediata. mas. tomada dentro dos atos jurídicos da Assembléia Constituinte revolucionária. para descrever o conjunto dessas ações. ao Conselho de Paris [grifos nossos] inserese perfeitamente nesse contexto: "os monumentos importantes são o patrimônio de todos (. Porém. em 1789. estátuas derrubadas e castelos saqueados. cunhado pelo abade Grégoire.intimamente ligada aos desdobramentos da Revolução Francesa.

em incipientes providências oficiais tomadas por um Estado visando à tutela de monumentos históricos. na Inglaterra. Como reação aos conceitos de restauro de Viollet-le-Duc. escreve: "restaurar um edifício não é conservá-lo. pelo contrário. repercutindo em muitas outras regiões da Europa. propondo. Para ele. com a introdução de inúmeras alterações em relação ao original. O arquiteto francês. como ocorre em seu projeto de recuperação do Castelo de Pierrefonds. na obra Dicionário da Arquitetura Francesa. É melhor manter uma ruína do que restaurá-la" escreve. baseados nos princípios estabelecidos pelo arquiteto italiano Camillo Boito [LUSO et al. de 1849. p. 2006]. que servem de base às teorias atuais. surge uma nova geração de arquitetos preocupados com o conceito de restauro e em defesa da conservação e reparação. Ruskin chama os acréscimos de novas eras dos edifícios históricos de "mentiras arquitetônicas". na França.) a restauração é a destruição do edifício. O arquiteto Viollet-le-Duc. respeitar todas as partes do monumento. é como tentar ressucitar os mortos. repará-lo ou refazê-lo. Já Ruskin. "Boito opõe-se às integrações de modo a acabar a obra inacabada.. "A arquitetura seria tanto mais nobre quanto mais evitasse todos estes procedimentos falsos (. ao longo do século XIX. Boito e os seus seguidores defendem intervenções de nível intermédio. a produção industrial é considerada uma falsidade. O artista defende que o trabalho dos antigos construtores é um valor a respeitar. Segundo a estudiosa Eduarda Luso. e o poeta. e às idéias passivas de Ruskin. Essa visão resulta em restauros com a intenção em devolver o estado completo. de modo a preservar os valores históricos e artísticos do monumento.. Esse século também assiste ao estabelecimento de duas linhas de reflexão sobre práticas relacionadas aos bens a serem considerados parte de um patrimônio nacional. Os acréscimos de épocas 8 . são os dois grandes protagonistas nas discussões sobre o sentido do restauro de monumentos históricos no século XIX. artista e crítico social e de arte John Ruskin. No final do século XIX e início do século XX. nomeadamente se não fossem manufaturadas. Os desdobramentos da política de preservação do patrimônio nacional francês teve. ideal e absoluto a um edifício.110]. é restabelecê-lo num estado de plenitude que não poderá ter existido em nenhum momento". levando à criação de legislação sobre o assunto" [KÜHL. 2007. Em sua obra As Sete Lâmpadas da Arquitetura. relevância que vai além das fronteiras do país. numa época em que se vive um período de grande desenvolvimento industrial e a fabricação manual é substituída pelas máquinas. manifesta idéias opostas. de 1854-71. no entanto.

item 66]. de 1933. 1933. que é incorporada ao longo de todo século passado pelas nações signatárias dos documentos produzidos durante convenções internacionais sobre o tema. outras vezes locais" [IPHAN. relativas à proibição de atos hostilidades a bens culturais em tempos de guerra. e a Carta de 9 . sendo apresentados no III Congresso de Arquitetos e Engenheiros Civis em Roma. Aos bens referentes a esses grupos se acrescentam os produtos da era industrial e os remanescentes do mundo rural. redigida no IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM)." Assim. tendo em vista solucionar os problemas complexos de salvaguarda do patrimônio. 2006. no ano de 1883. p. a Carta de Atenas. 1997.. cuja seção dedicada à proteção do patrimônio histórico observa que os valores arquitetônicos (edifícios isolados ou conjuntos urbanos) devem ser "salvaguardados se constituírem expressão de uma cultura anterior" [Carta de Atenas. A partir do século XX. Alguns exemplos dessas convenções e documentos patrimoniais são As Convenções de Haia de 1899 e 1907 e a Convenção de Genebra de 1949. os camponeses.. mas que passaram a ser objeto principal de interesse da história das mentalidades: os operários. proliferam outras visões sobre a preservação dos em diversos países. "documentos.) Boito defende a manutenção do edifício ao longo do tempo de modo a evitar-se o restauro. as minorias étnicas. Através de tais Cartas. criando e circunscrevendo conceitos às vezes globais. Riegl [1984 apud FONSECA. p. p. Conforme estudos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). ocorre uma revisão e ampliação da classificação de patrimônio histórico e artístico. Essa nova perspectiva de interpretação do restauro é posteriormente resumida em princípios de atuação.72] observa que "começam a ser introduzidas nos patrimônios a produção dos 'esquecidos' pela história factual.posteriores testemunham a história do monumento (.07]. etc. esta deverá ser bem diferenciada da obra antiga. afirmando-se contra os restauros estilísticos que falsificavam os monumentos" [LUSO et al. que representam tentativas que vão além do estabelecimento de normas e procedimentos. os imigrantes. com acréscimos e renovações à semelhança de Ruskin. surgem então as chamadas Cartas patrimoniais. Quando é necessário a intervenção. então percebe-se a necessidade de se estabelecer regras aceites internacionalmente. muitos dos quais firmados internacionalmente. mas sem deixá-lo cair em ruínas passivamente. 2000. 38].

quer do ponto de vista Histórico quer do da Arte ou Ciência. em âmbito internacional. elementos de estruturas de caráter arqueológico. No entanto. 7 Segundo a carta das Nações Unidas. durante a Conferência de Londres. a UNESCO é uma organização internacional de caráter governamental. na década de 1970. As principais decisões são tomadas na Conferência-geral. vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). entre as quais a da Conferencia Geral de Genebra. de 1964. 7 Por meio da UNESCO. à industria cultural. que reuni os princípios de uma ampla compreensão dos problemas da conservação e da restauração dos monumentos e do ambiente que os envolve. Foi nesse momento que procurou-se mais uma vez uma ampliação de visão." Segundo essa convenção. Fonseca [1997] observa que o grande marco na proteção e preservação de bens de valor histórico. p. se deu logo após a II Guerra Mundial. que se reúnem a cada dois anos. grutas e grupos de elementos com valor universal excepcional do ponto de vista da história. 1999. na qual se criou a categoria de 'patrimônio cultural da humanidade' para classificar os monumentos históricos de excepcional valor universal. definitivamente. redigida durante o II Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos de Monumentos Históricos. com a criação da Organização das Nações Unidas para a Educação. "a discussão sobre patrimônio deslocou-se do objetivo de materializar as memórias nacionais e da noção de monumento histórico isolado para a de integração do patrimônio ao planejamento urbano e territorial e. da arte ou da ciência. adicionando-se ao termo patrimônio o adjetivo "cultural".Veneza. em 1972. de escultura ou de pintura monumentais. especializada em promover uma política de cooperação cultural e educacional. a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1945. que desde então serve para designar todo um conjunto de bens culturais. 29]." [RODRIGUES. Para Choay [1992 apud RODRIGUES. constituída pelos representantes dos Estados-membros da Organização. art. p. o patrimônio cultural abrange: "Os monumentos. "artísticos" ou "arquitetônicos". sejam eles "históricos". em especial as convenções e recomendações da UNESCO. – Obras arquitetônicas. inscrições.29] hoje "o patrimônio assume a representação da cultura ocidental a partir da mundialização dos valores e referências internacionais concernentes a seu trato. 55 e 57. 1999. 10 .

p. a proteção do patrimônio cultural está intimamente ligada ao enfoque da política cultural de cada país. a partir dessa nova abrangência. unidade ou integração na paisagem têm valor universal excepcional do ponto de vista da história. Ressaltamos nessa definição três aspectos que nos acompanharão em todo nosso trabalho: a relação com a idéia de herança que passa de geração à geração. etnológico ou antropológico" [UNESCO.2 Âmbito nacional Em âmbito nacional. nosso ponto de referência.1. Já nos Estados Unidos. a função de formador de identidade de um povo. como já mencionado.44]. nossa pedra de toque. 1985. foi o Estado que assumiu a responsabilidade na preservação. que refletiremos em maior profundidade a seguir. "onde associações se originaram nas cidades coloniais da Costa Leste. E. nossa identidade. em virtude da sua arquitetura. Nosso patrimônio é fonte insubstituível de vida e inspiração. estético. da arte ou da ciência. Na Inglaterra. 11 . a preservação surgiu no século XIX impulsionada por uma visão romântica e patriótica. sendo de fundamental importância para a memória. mais universal. sua ação se fez através da prática do tombamento a partir da Primeira legislação protecionista de 1900. com um valor universal excepcional do ponto de vista histórico. cujo grande agente protecionista também foi Estado. que sempre recorre a sua história. como observa o pesquisador Sérgio Miceli [1985]. 1972]. a criatividade dos povos e a riqueza das culturas" [grifos nossos]. Os locais de interesse – Obras do homem.Os conjuntos – Grupos de construções isoladas ou reunidos que. a noção de patrimônio cultural surge principalmente após 1945. segundo a UNESCO. incluindo os locais de interesse arqueológico. Em países africanos e asiáticos. Na França. e as zonas. e a ligação com questão da memória. ou obras conjugadas do homem e da natureza. remontando as origens do movimento preservacionista do século XIX. vivemos no presente e transmitimos às futuras gerações. como "o legado que recebemos do passado. hoje o patrimônio cultural é definido. 1. tendo como objetivo preservar alguns edifícios ligados a grandes figuras da Revolução Americana" [MICELI. quando "os nacionalismo que emergem nas ex-colônias.

O próprio termo ‘preservar’ tem na língua portuguesa o significado do registrado por Aurélio Buarque de Hollanda de 'manter livre da corrupção e do mal' " [MICELI. derivado do comando das multinacionais sobre nossa economia. um argumento bastante difundido é o de que a ‘identidade cultural da nação’ se encontra ameaçada. Hoje o IPHAN é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura. (.) Diante deste presente ‘contaminado’ ou ‘poluído’. “as primeiras idéias de proteção ao patrimônio histórico-arquitetônico surgiram no Brasil na década de 1910. responsável por preservar a diversidade das contribuições dos diferentes elementos que compõem a sociedade brasileira e seus ecossistemas. 39].. passa a se a chamar Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). entre eles o escritor modernista Mário de Andrade. 1997. Segundo o próprio Instituto. nos continentes africano e asiático. divulgar e fiscalizar os bens culturais brasileiros." Conforme essa visão. p. os esforços da elite política estiveram voltados para forjar um Estado-Nação capaz de sintonizar o país com exigências da expansão internacional do capitalismo. A política dos governadores iniciada em 1904 possibilitou uma estabilização relativa do regime republicano e. em 1937. p. estruturado por intelectuais e artistas. é criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). “No Brasil. algumas propostas de proteção aos bens culturais. Miceli [1985] aponta que no caso do Brasil e da América Latina.sobretudo francesas. sua responsabilidade implica em preservar. a partir de então. o passado seria o autêntico porque constitui o produto de um sincretismo cultural definitivamente incorporado ao quadro social.. enquanto o moderno seria o empréstimo. bem como assegurar a permanência e usufruto desses bens para a atual e as futuras gerações.73]. Conforme Sevcenko [1983. começam também a se apropriar da noção européia de patrimônio" [FONSECA. p. surgem no Brasil. 12 . 1985]. o modismo alienígena. nas primeiras décadas do século XX. sendo que entre 1917 e 1935. em 1970. 1985. que. a idéia de que a preservação é fundamental para que uma identidade nacional seja formada ganha força [MICELI. assim como em vários outros países da América Latina. a preocupação com o patrimônio nasce como maneira de preservar a identidade nacional. Então.47].

" Nesse sentido. estão presentes em um tratado internacional. ou tangível de todo o mundo. arquivísticos. 2007]. conhecimentos e técnicas e também os instrumentos. expressões. para o IPHAN. a educação e a formação de cidadãos. acervos museológicos. videográficos. basicamente. aprovada pela UNESCO em 1972. os grupos e. Conforme a convenção do patrimônio imaterial. o patrimônio cultural não se restringe apenas a imóveis oficiais isolados. Os dispositivos que tratam da identificação.1. paisagístico e etnográfico. que assim complementa a Convenção do patrimônio mundial. Ele é transmitido de geração em 13 . objetos. representações. proteção e preservação do patrimônio imaterial.1. igrejas ou palácios. Atualmente. Essa categoria de patrimônio é composta. denominado Convenção sobre a proteção do patrimônio mundial cultural e natural. p. mobiliário. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos. os indivíduos que se reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. aprovada pela UNESCO em 2003. e móveis como coleções arqueológicas. tendo como objetivo reforçar uma identidade coletiva. a proteção e a preservação do patrimônio material. essa nova categoria consiste em: "práticas. passando por imagens. de 1972. de modo a contemplar toda a herança cultural da humanidade.3 Classificações Fonseca [1997. e estão presentes na Convenção para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. belas artes. segundo as instituições que as promovem. documentais. histórico. fotográficos e cinematográficos" [IPHAN. "por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico. mas na sua concepção contemporânea se estende a imóveis particulares. são de formulação mais recente. segundo o IPHAN. sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais. em alguns casos. o patrimônio cultural é composto pelos chamados patrimônios material e imaterial. no nível simbólico. se propõem a atuar. Já os dispositivos que tratam da identificação. utensílios e outros bens móveis. ou intangível. e das artes aplicadas. considerado especialmente valioso para a humanidade. artefatos e lugares que lhes são associados e as comunidades.11] comenta que "as políticas de preservação. trechos urbanos e até ambientes naturais de importância paisagística. bibliográficos.

propomos o diagrama a seguir. os quais freqüentemente nos reportaremos no decorrer de nosso trabalho. p.03]. contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana" [UNESCO. 2003. gerando um sentimento de identidade e continuidade. de sua interação com a natureza e de sua história. A partir dessas definições. através do qual pode-se ter uma visão geral de todas as categorias de bens que fazem parte do patrimônio cultural. CLASSIFICAÇÃO ATUAL DO PATRIMÔNIO CULTURAL 14 .geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente.

observa que os bens culturais são de "fundamental importância para a memória dos povos e a riqueza das culturas". a terceira forma seria através dos objetos culturais. Analisando essas três formas. 2006. Em termos simbólicos. Domingues [1999] observa que a primeira. 1999]. Sobre essa terceira maneira de subsistência da memória. visto que estes alcançam uma certa transcendência social que era impossível em função da limitada capacidade de armazenamento da comunicação e da memória orais. 1999] diz que "livros e objetos similares são. seria o corpo humano. é a aproximação que se faz de questões relativas à preservação e transmissão da memória. o entendimento da relação entre essas duas esferas nos parece fundamental para a compreensão de qual seria a importância do patrimônio para a humanidade. Dessa forma. máquinas. p. peças artísticas. 1977 apud DOMINGUES. o estudioso Edward Shils aponta "três formas por intermédio das quais a memória subsiste" [SHILS. No campo da sociologia. por exemplo. que "constituem a materialização mais comum da chamada memória instrumental" [DOMINGUES. Se olharmos para os estudos sobre a memória. entre outros. desde o surgimento da linguagem.63]. o antropólogo social Jack Goody [GOODY. 1999]. estão. seria por meio dos instrumentos nos quais. apoiando-se nos estudos dos sociólogos franceses Marcel Mauss [1950] e Pierre Bourdieu [1980]. A UNESCO. elementos cruciais para o depósito de conhecimento. A segunda forma.1. valores e instrumentos cognitivos são depositados" [DOMINGUES. os que constituem o patrimônio cultural. verificaremos como é vasta e variada a literatura a seu respeito. configura-se como o centro das memórias individual e coletiva. ao lado do cérebro ⎯ o núcleo central de produção e acumulação da experiência humana ⎯. Englobando tais objetos. como aponta o documento a respeito da preservação do Conselho Interamericano de Desenvolvimento Integral (CIDI) [CIDI. que. discorrendo sobre o tema. como ferramentas. os conhecimentos científico e técnico da espécie humana têm sido armazenados. 1981.02]. desde o paleolítico. "nos quais normas e regras. obras arquitetônicas e museus são também especialmente importantes. p.2 A MEMÓRIA E O PATRIMÔNIO CULTURAL Algo freqüentemente observável quando se fala em patrimônio cultural." 15 . nessa análise. E por fim. com discussões que abrangem diversos campos do saber.

os quais constituem o patrimônio. 70]. a memória social se constrói ao longo de muitas gerações de indivíduos mergulhados em relações determinadas por estruturas sociais. "Halbwachs afirmou que as memórias são construídas por grupos sociais. vai se formando a partir de contribuições de diversas gerações. a partir do momento presente. por exemplo. A construção da memória social implica na referência ao que não foi presenciado. que é a memória coletiva de cada sociedade. sendo que sua obra mais célebre é o estudo do conceito de memória coletiva. que ele criou. 8 Maurice Halbwachs.Relacionando-se com preservação da memória através de objetos culturais. O legado dessa memória é transmitido ao longo do tempo. o antropólogo vê a memória não como a lembrança de um passado cristalizado. Daí. e também como será lembrado. Além disso. Morreu em 1945. podemos direcionar a reflexão para os estudos realizados sobre a "estrutura social da memória" de Maurice Halbwachs 8 . A memória social é transgeracional e os suportes da memória contribuem para o transporte da memória social de uma geração a outra. e esta última à esfera maior da tradição.18]. podem funcionar como tais suportes. a memória coletiva ou social. Halbwachs amarra a memória da pessoa à memória do grupo. 'Lembram' muito o que não viveram diretamente.03]. físico. em um campo de concentração nazista. A relação entre a memória e patrimônio reside justamente nesse ponto: os objetos culturais. Os indivíduos se identificam com os acontecimentos públicos de importância para o grupo. que é uma reconstrução do passado. escreveu uma tese sobre o nível de vida dos operários. sociólogo." Assim. às vezes se torna parte da vida de uma pessoa. mas são os grupos sociais que determinam o que é 'memorável'. o pesquisador Leonardo Mesentier [2003. filósofo e antropólogo francês da escola durkheimiana. p. Conforme Mesentier [2003. mas de um reconstruído.03] diz que "diferentemente da memória individual. Dentro dessa reflexão. Um artigo de noticiário. p. p. 1983. 16 . por meio de suportes de memória. São os indivíduos que lembram. pode-se descrever a memória como uma reconstrução do passado. Segundo o historiador Peter Burke [2000. no sentido literal. segundo a psicóloga e estudiosa do autor Ecléa Bosi [BOSI. p." Em seus estudos. Trata-se de uma memória que representa processos e estruturas sociais que já se transformam.

1986. mas os "lugares simbólicos como as comemorações. está permanente evolução. ou seja. à nossa disposição. por meio também da idéia de suporte. Citando o também historiador Pierre Nora [NORA apud LE GOFF. mas refazer.297] sobre as características da memória e história: "Memória. aos olhos de hoje. agora. a história. também funcionam como suporte ou externalizações da memória coletiva. no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual" [BOSI. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não é mais. com imagens e idéias de hoje. repensar. as peregrinações.17]. 1983. como um estímulo externo que ajuda a reativar e reavivar certos traços da memória coletiva em uma formação sócio-territorial. A interpretação. suscetível a longas latências e a súbitas revitalizações. história: longe de serem sinônimos. Se assim é. Entre os materiais à nossa disposição. e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A memória não é um sonho. p. Bosi [1983]. servindo de apoio ou marco para sua construção. que formam nosso patrimônio cultural. A memória é um fenômeno sempre atual. também é a visão do historiador francês Jacques Le Goff [1986]."o patrimônio cultural edificado pode ser pensado enquanto suporte da memória social. Le Goff comenta que não somente os bens materiais. reconstruir. estão os vestígios históricos. vulnerável a todas as utilizações e manipulações. inconsciente de suas deformações sucessivas. uma representação do passado (. os bens imateriais.473]..)" 17 . um fio vivido no presente eterno. que constituem-se de bens culturais materiais e imateriais. é trabalho. os edifícios e áreas urbanas de valor patrimonial podem ser tomados como um ponto de apoio da construção da memória social. isto é. por isso. p. aberta à dialética da lembrança e da amnésia. as experiências do passado. é interessante a reflexão de Nora [NORA apud PINTO. deve-se duvidar da sobrivivência do passado 'tal como foi'. tomamos consciência de que tudo os opõe. p.. A memória é vida e. tendo em mente a reflexão de Halbwachs sobre a memória diz que: "Na maior parte das vezes. também é uma maneira de se repensar e reconstruir o passado. A respeito dessa reconstrução. lembrar não é reviver." O patrimônio cultural como suporte da memória social. desses vestígios. 1998. os aniversários". A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão.

Visto que esta é uma reconstrução ou manifestação continuamente atualizada do passado. como já mencionamos. ilustram bem a questão da reconstrução do passado através da interpretação do patrimônio cultural. baseada no conhecimento histórico e em 18 . partidos políticos. O arquiteto e pesquisador Carlos Lemos [2006] diz que o programa de um edifício sempre varia com o decorrer do tempo. tais como entidades privadas. embora o interesse por vestígios históricos se remeta aos tempos clássicos. a partir do século XX. de minorias e de marginalizados. Para Kühl [2007.111]. se deslocando para outros setores da sociedade. na esfera do Estado.Os bens imóveis. o estudioso comenta que esse documento preconiza a preservação de todas as manifestações lícitas no edifício ao longo do tempo. Com a sistematização da preservação. de modo que as pessoas consigam ler tais intervenções na história. "a partir da segunda metade do século XVIII. serem conjugadas nos conceitos relativos ao restauro. pode ocorrer por meio dos chamados objetos culturais. que funciona como a própria externalização. segundo Miceli [1985]. legislações regulamentadoras sobre o tema e organismos documentais e de proteção do patrimônio cultural. converte-se também em uma das maneiras de reconstrução ou atualização do passado. noções relativas à intervenção em obras do passado. que haviam surgido desde o Renascimento. etc. Tal proteção. associações de bairros. p. depois. tais como. marco ou ponto de apoio da memória social. a disciplina do restauro firma-se. a importância da preservação do patrimônio cultural reside na própria preservação da memória social. o legado de um povo. podemos dizer então que a transmissão da memória social de uma geração à outra. assumindo paulatinamente uma conotação cultural. quando o Estado assume sua proteção. sai da órbita exclusiva do Estado. formada através de contribuições de diversas gerações ao longo do tempo. Nesse campo. empresas. que se constituem como suportes de memória. ligada diretamente à constituição da identidade nacional e cultural desse povo. A restauração passou a se afastar das ações ditadas por motivos práticos. No universo desses objetos ou suportes está o patrimônio cultural. imprensa. por exemplo. ao longo do tempo são criados artifícios que a viabilizassem. escolas. Observando a Carta de Atenas. Assim. movimentos sindicais. sua sistematização só ocorre na Era Moderna. Além disso. Diante do conjunto das reflexões apresentadas. a interpretação do patrimônio cultural por cada uma dessas gerações. começaram a se afirmar para.

que se aproxima muito da ligada a idéia de suporte da memória coletiva. as mídias. Dessa forma. São Paulo: Ed.3. p.3 A MÍDIA NA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL Dentre esses artifícios empregados para a preservação dos bens culturais.1 Definições: mídia e midiologia A palavra "mídia" evoluiu da palavra inglesa media. C. Ática. sobre a disciplina midiologia. que a preservação dos bens culturais pode se dar. G. verifica-se o papel fundamental que os "meios de transmissão e transporte das mensagens e dos homens". têm desempenhado nessa tarefa. se processa. de acordo com Briggs e Burk [2004. 2000. definidos pelo filósofo Régis Debray como midiasfera. e conseqüentemente da memória social. entre outras coisas. Dicionário de Comunicação. p. e. sendo a experiência francesa relevante nessas transformações. entidades privadas ou pelo surgimento de uma disciplina específica." No entanto. Em perspectiva histórica. A partir na década de 1920. 1998. O emprego do autor nesse ponto se justificava por sua visão de preservação do patrimônio cultural a partir do ponto de vista dos meios de comunicação. afim de compreendermos melhor como esse modo de preservação do patrimônio cultural. que passou a ser empregada para designar os meios que sustentam ou mantêm a comunicação.. termo de origem latina que significa "meio" 9 . que englobam. se fazem necessárias algumas definições. como vimos.73]. 1.análises formais. com maior rigor e método nos procedimentos. especificamente. as pessoas começaram a falar em "mídia". Para compreendermos como esse fato se processa em diferentes épocas e tipos de mídias. não somente por meio de leis. BARBOSA. discutiremos a seguir alguns conceitos sobre a mídia. podese dizer que as mídias estão entre os mais importantes. fundada por Debray em 1979. na medida em que observa-se que "as memórias são influenciadas pela organização social de transmissão e os diferentes meios de comunicação empregados" [BURKE. 19 . Nos anos 9 RABAÇA. que é o plural de medium.13]. até mesmo quando a própria noção de patrimônio cultural ainda não existe. 1.

29]. 335]. tela). No entanto. hipóteses.1964. LEVY. Esse conjunto. precede e supera a esfera dos meios de comunicação de massa contemporâneos.são extensões de nosso corpo físico" [MCLUHAN. que afetam "todo o complexo psíquico e social" [MCLUHAN. ideologia.línguas. principalmente em sua discussão sobre os impactos que os impressos tiveram na sociedade ocidental partir de Gutenberg. de um sentido ou de uma função (. que define como "a disciplina que trata das funções sociais superiores [religião. 1994. 3) um suporte material de inscrição e estocagem (argila.18].). Como a pele. 4) um dispositivo de gravação conectado a determinada rede de difusão (gabinete de manuscritos. leis. mídia designa qualquer suporte de difusão maciça da informação (imprensa. mostrando de que forma os meios de comunicação de massa afetaram o homem moderno. pode ser entendida em quatro sentidos: 1) um procedimento geral de simbolização (palavra. tipografia. 1995. para o autor. cálculo digital). "mídio" não significa mídia nem médium.15]. política. escrita. "o conjunto dinâmico dos procedimentos e corpos intermédios que se interpõem entre a produção de signos e uma produção de acontecimentos" [DEBRAY. o estudioso alerta para o fato de que na midiologia. Nesse raciocínio. p. Sua forma singular. rádio. o médium. uma mesa de 10 Marshall McLuhan é autor de Os meios de comunicação como extensões do homem. pergaminho. televisão. 1964. vestuário. p. publicidade.. p. etc. dizem que mídia também "engloba todo o vasto sistema social e cultural construído ao redor dos canais de transmissão ou interfaces como a televisão" [BIOCCA. p. "todos os artefatos humanos .. arte. 197].21]. sociologia. segundo o autor. impressos e eletrônicos. "toda extensão é uma amplificação de um orgão. É uma referência para nosso trabalho. foto. em 1979. Já para Régis Debray [1994. inglês ou tcheco). na obra O poder intelectual na França. p. em que procura realizar uma análise das tecnologias do passado e do presente como extensões do corpo e da inteligência humana. banda magnética. a mão ou o pé. televisão.)" [MCLUHAN. Discutindo mídia. pesquisadores sobre comunicação. 2) um código social de comunicação (a língua natural na qual a mensagem verbal é pronunciada: latim. cuidando de trazer uma extensa e ampla visão de como as tecnologias podem influenciar a transmissão de idéias. Frank Biocca e Mark R. cinema. p. Debray cunha o termo midiologia. ferramentas. 20 . ou seja. Levy. p. teoria da comunicação e história. idéias. informática). computadores . papel.23]." Segundo o autor.1960. 2005. 1994. imagem análoga. entendidos como meios de difusão maciça. e política] em suas relações com estruturas técnicas de transmissão" [DEBRAY. o teórico Marshall McLuhan 10 lança o conceito de que as mídias são "extensões do homem. mas mediações.

Idéias poderosas precisam de intermediários. instituições. entre outros. 1995. uma sala de biblioteca.são também parte e parcela de sistemas materiais de distribuição pelos quais eles são transmitidos: se um livro como Das Kapital teve uma influência. surge então o conceito de midiasfera. um cabaré. Assim.ideologias como nós costumamos chamá-los . certas palavras e imagens. 01]. Debray detecta o que ele chama de ato de transmissão." Briggs e Burke [2004. Sem um ou outro desses "canais". um parlamento mesmo não sendo feitos para difundir informações. "o conjunto de tecnologias e ambientes que traduzem a entrada em saída" [DEBRAY. 41]. por exemplo. um púlpito de igreja. uma máquina de escrever. "a concordância telecomunicações transporte não é uma mera coincidência. palavras. cartas e até mesmo photons. segundo o filósofo. 1994. o espaço-entre.33] dizem que essa concordância teria origem na "uma tradição entre o fluxo de informações seguir o fluxo do comércio. as redes de distribuição. a midiologia ocupa-se com o intervalo. um tinteiro. Resumidamente. estabelecendo uma interessante articulação entre uma história das revoluções das transmissões com a das revoluções do transporte.o que eu chamo de midiasfera . e por onde sai legislação. então foi porque as tecnologias de impressão. Sobre o motivo que o levou à fundação dessa nova disciplina. A partir da midiologia. serem transformados em atos.para sua operação" [DEBRAY. e livrarias trabalharam juntas para criar um fértil milieux . baseada nos estudos desses atos de transmissão. entram no campo da midiologia enquanto espaços e alternativas de difusão. p. esta ou aquela "ideologia" não chegaria a ter existência social de que podemos dar testemunho. foram retrabalhadas por São Paulo em um corpo de crenças conhecido como Cristianismo. um circuito integrado. Debray [1994] a define como "o meio de transmissão e transporte das mensagens e dos homens". 21 . 01]. Dentro dessa caixa. p. Para o filósofo [DEBRAY. ou a caixa-preta. vetores de sensibilidades e matrizes de sociabilidades. um café-bar. p. 1995. Então eu comecei a perceber que esses sistemas de crença . mesmo não sendo "mídia". As parábolas de Jesus de Nazaré.refeição. Os escritos de Karl Marx foram transformados em um programa político de amplo alcance por Lênin. o autor comenta: "Meu ponto de partida foi um senso de espanto intelectual causado pelo fato de certos signos. onde entram sons. p. um sistema de educação.

"a logosfera caracteriza-se pela atividade manuscrita e oral. fosse também referenciado como o deus da fortuna e do comércio. Debray traça uma interessante relação entre esses suportes e procedimentos de memorização de vestígios das midiasferas e a preservação do patrimônio cultural. o telefone e o automóvel. regional. através das considerações do estudioso francês. sobre os suportes e procedimentos de memorização de vestígios. grafosfera e videosfera. além de ser considerado o mensageiro dos deuses e protetor das estradas e dos viajantes. e a videosfera pela gravação analógica e digital dos signos sonoros e visuais" [DEBRAY. Seguindo esse raciocínio. Hermes. 1994. definindo. Entendemos assim que não é por acaso que. a televisão e o lançador espacial.3. Partindo desse raciocínio. na mitologia grega. como "o estoque de vestígios acessíveis em determinado enquadramento (local. e os dispositivos audiovisuais. Respectivamente.219].2 A preservação e transmissão dos bens culturais na Logosfera "Un varlet avoit. Assim.pois os mercadores operando por mar ou por terra traziam novidades juntamente com a mercadoria". o rádio e o avião. que dialoga bem com a visão do patrimônio cultural como suporte e ponto de apóio da memória social. em perspectiva histórica. nos parece bastante interessante esse enfoque.253] vê uma coincidência cronológica e solidariedade entre velocidades de transmissão e transporte entre o telégrafo elétrico e a estrada de ferro. a grafosfera pela reprodução mecânica do escrito. segundo o autor. objeto mínimo de arquivamento. 1991. a imprensa. este último. entendendo. p. o estudioso francês estabelece uma distinção entre três diferentes midiasferas. 243]. 1994. Dada nossas reflexões anteriores. fin gallant Comme seroit ce bom prophete 22 . que incluem também as mídias. p.40]. como definimos. "vestígio" como a memória social. Historicamente. 1. Debray [1991. p. nessa ótica. como qualquer estoque de gravação. refletiremos. chamadas por ele de logosfera. na logosfera. nacional. a escrita e a oralidade. humano)" [DEBRAY. configuram-se como "suportes e procedimentos de memorização de vestígios" [DEBRAY. grafosfera e videosfera e sua relação com a preservação do patrimônio cultural. entendendo "vestígio". De acordo com seus estudos.

que podemos dizer que "o que hoje chamamos de literatura medieval teve sua produção voltada principalmente para um público ouvinte. na preservação da memória social. o papel da oralidade medieval representada pela voz poética. Tamanha é a importância dessa tradição oral.que je voy si bien escoutant. "Era uma vez um jovem. Paul Zumthor é um professor suíço. assim como eram. tapeçarias. p. é na oralidade. BURKE. A logosfera é um ambiente em que o "escrito é difundido através das contingências e canais da oralidade" [DEBRAY. as estátuas dos pórticos. embora seja um momento em que a noção de preservação do patrimônio cultural ainda não esteja formada.40]. 1994. galante e cortês como este bom profeta que vejo escutar tão atentamente". 1993. Além de ser um poderoso meio de disseminar a informação na época. 12 11 23 .18]. Paul Zumthor 12 comentando sobre a convivência entre os dois tipos de transmissão de mensagens. caracterizando-se pela convivência dos meios de transmissão de mensagens manuscritas e orais. de Eilhart.. quando se recompõe com base na escritura num meio onde esta tende a esgotar os valores da voz no uso e no imaginário" [ZUMTHOR. a Idade Média.20]. 22]." 11 Trecho do poema medieval oral Tristan. estudioso da literatura medieval e de literaturas orais. Sua obra de referência em nosso trabalho é A letra e a voz: a 'literatura' medieval. p. e não para um público leitor" [BRIGGS. segundo o historiador Emile Male [MÂLE apud BRIGGS. embora a escrita já se faça presente. 2004. isto é. BURKE. entre outros assuntos. quando a influência do escrito permanece externa. parcial e atrasada. p. iluminuras e rituais teatrais. as figuras em vitrais e imagens simbólicas esculpidas na arquitetura das catedrais.226. da mesma forma como a Grécia Antiga. 1993. O poder da oralidade encontrase principalmente nos sermões dos clérigos e na voz poética.. a preservação da memória social do período medieval. os historiadores Asa Briggs e Peter Burke [2004] observam que dado o baixo índice de letramento e a concentração dos manuscritos nas mãos da Igreja. e a segunda. 2004. p. observa que na era medieval pode-se verificar o uso de duas categorias de oralidade: a "mista. No entanto. mas precisamente na poesia. p. Tradução: Paul Zumthor. que podemos detectar o suporte de memorização de vestígios da logosfera. é um momento de uma cultura essencialmente oral. A Idade Média é um período que insere-se nessa midiasfera. em que o autor discute.

no seu corpo e na sua voz se materializam marcas da memória e emblemas da tradição. Sua memória é a memória coletiva. Memória coletiva e coletivizada. repete. irlandeses. p. Ele. preservada em sua 24 . estabelece vínculos desta com o ambiente. Assim como também faz o poeta.3]. Segundo Smolka [2000. das várias coletividades por onde passou (. Versejar é lembrar. ritmos. que é a tradição. na sua recriação da memória coletiva. palavras e idéias" [ORNELLAS. sua encarnação. improvisada como um poema celta. Ela é capturada pelos ouvidos e pelos olhos. que podemos classificar como bens patrimoniais imateriais. o espaço no qual o lúdico da transmissão se instala. Cantar é lembrar. o poeta é suporte e mestre da verdade. não há memória individual. as Palavras Cantadas. A aproximação entre poesia e memória.139] afirma que "a voz poética é memória". deusa. Sua figura é a própria encarnação da memória coletiva. "Mnemosyne. é. destacavam as histórias sobre mitos. no corpo a corpo que tensiona o espaço 'entre'. entrelaçando seu imaginário pessoal com o imaginário da comunidade. e novamente no século XII. A citação acima é interessante para destacarmos as características desse poeta medieval. A lenda do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. ao compilar 600 anos de narrativas dos contadores de histórias ingleses. É na performance que a transmissão da memória ocorre. Na performance. e esta se configurava como um fio que se enreda como uma malha de referências. gera nove Musas. A tradição oral se somatiza no poeta ao ponto de a sua figura privada carecer de identidade em prol de sua figura pública. tem sua origem na mitologia grega. galeses e franceses. o aedo cria.) O poeta oral viaja recolhendo saberes oralizados em canções. Resgata o acontecido do esquecimento.. sendo somente transcrita para manuscritos no século IX por um sacerdote galês. por outro sacerdote chamado Geoffrey de Monmouth. por exemplo.. 1987.. presentifica o passado..23] sobre a tradição oral. Memória divinizada. p.Zumthor [1993. o sujeito se dissolve na ritualização com o poeta e com o contador. 2003. não há individualidade. E as Musas colocaram então na mão do poeta o bastão de seu ofício e insuflaram nele sua inspiração. sensitivamente. Inspirado pela Musa. "O poeta da oralidade é a personificação da memória de uma comunidade. no início da era medieval. costumes e contos de cavalaria." Conforme a categorização realizada pelo estudioso Jan Vansina [UNESCO.01] [grifos nossos]. entre os temas dos poetas medievais. poemas e contos e os repassa adiante. navegante de sons. p. p. Assim. compõe palavras em ritmos. recita.

o espaço. 1993.41]. Viajando por diversos vilarejos. fazendo uma comparação com sociedades que utilizam a escrita de forma mais generalizada. a recepção. dado o artifício empregado na comunicação da informação . que. fixa em um século" [ZUMTHOR. sustentando e nutrindo o imaginário. Uma obra vocal tende ao mesmo fim por motivos contrários: reduz a duração à iteração indefinida de um momento único. Zumthor [1993] observa que era possível o prolongamento da duração de validade das lembranças pessoais. p. oferecida à vista. triunfa sobre a dispersão espaciotemporal por extensão. na Idade Média. p. 1994. é forçosamente submetido à condição seguinte: cada uma das cinco operações que constituem sua história (a produção.67]. Assim. diz que todo texto poético. divulgando e confirmando os mitos" [ZUMTHOR. Mas. memórias longas se constituem por armazenamentos de lembranças individuais.140]. tal mobilidade não implica em transmissões de memórias de abrangência espaço-temporais extensas. de tal modo que cobre essa dupla duração e se dilata com ela. a comunicação. por prolongamento. se for o caso. p. Aí. embora a noção de patrimônio cultural ainda não tivesse sido sistematizada.140]. "Uma mensagem escrita. a comunicação e a recepção coincidem no tempo. 1993. é a voz poética. 1993. visto que a transmissão ocorre na performance.memória e externalizada no ato da performance. era de somente de duas a três gerações. à unicidade figurada de um só lugar afetivo" [ZUMTHOR. com sua voz dirigida a um público ouvinte. Zumthor. a conservação e a repetição. alcançamos o limite que B. isto é. ele colhe e difunde memórias que vão povoar as lembranças de gerações.a performance -. Guénée. concluímos que na logosfera. A transmissão dessa memória se dá de forma local. no momento em que. que "pronuncia uma palavra necessária à manutenção do laço social. fundamentando-se em testemunhos medievais. e a velocidade do transporte dessa 25 . o poeta a transmite para um grupo de pessoas. ou mesmo a pé" [DEBRAY. no caso das poesias medievais. Devido a esta mobilidade do poeta. a maneira pela qual se dá a preservação da memória social. isto é. na medida em que visa a ser transmitido a um público. a continuidade é assegurada ao preço de multiplicidade de afastamentos parciais. No entanto. "deslocando-se a cavalo. "Para além desse grupo social estreito. p. se não ultrapassasse o seio da comunidade familiar. o suporte de memorização de vestígios.

O arcediago considerou algum tempo em silêncio o gigantesco edifício. Posteriormente. Euclides. No período anterior. preservando assim importantes obras da Antigüidade Clássica.memória.3 A preservação e transmissão dos bens culturais na Grafosfera ". trabalhando sobre manuscritos greco-árabes. que alinhou a velocidade de circulação das mensagens à velocidade das pessoas" [DEBRAY. designou com o dedo a imensa igreja de Notre-Dame que.26]. de Victor Hugo Segundo Briggs e Burke [2004.isto matará aquilo. "A penetração gradual da escrita na vida cotidiana do fim da Idade Média teve conseqüências importantes. e passeando um triste olhar do livro à igreja: . passou a ser empregada por papas e reis para uma variedade de propósitos práticos. 1. .O que são então os vossos livros? . é ainda bastante lenta.monofissistas e nestorianos . 1994. mantidas por bispos com o propósito de garantir a continuidade da formação dos clérigos. p. onde são amplamente acolhidas.Aqui tendes um .41]. com o chamado renascimento comercial. 20]. Costumes tradicionais foram mudados por leis 13 Monges tradutores também tiveram uma importante participação nessa preservação. durante o século XII. que não mais se confinava apenas aos mosteiros. recortando sob um céu estrelado a silhueta negra das suas duas torres.3. abrindo a janela. das suas ilhargas de pedra e da sua cúpula monstruosa.Infelizmente ."o cavalo de sela. depois estendendo com um suspiro a mão direita para o livro impresso que estava aberto na mesa e a mão esquerda para Notre-Dame. os manuscritos trazem a cultura grecoárabe para o Ocidente cristão. se assemelhava a uma enorme esfinge com duas cabeças. onde puderam ser então traduzidos para o latim. assentada no meio da cidade. Segundo Le Goff [1985. onde os monges dedicavam-se a copiar antigos manuscritos. 13 Entre os séculos XII e XIII. juntamente com as especiarias e as sedas importadas do Oriente. p. como em leis e outros documentos." Trecho de O Corcunda de Notre-Dame. sendo por eles doadas às bibliotecas e escolas mulçumanas. E.disse o arcediago.e os judeus perseguidos em Bizâncio. tais manuscritos são obras de Aristóteles. foi somente no século XI que o uso da escrita supera o da oralidade. a escrita ficava confinada às escolas episcopais. Ptolomeu. durante a Alta Idade Média.disse ele . e aos mosteiros. p. Hipócrates e Galeno que seguem no Oriente os cristãos heréticos . que pouco e pouco. 26 . os estudiosos falam da disseminação de uma cultura escrita na Europa.

diversos estudiosos falam de uma verdadeira revolução no cotidiano da sociedade ocidental. p. 2004. p." Nesse momento. e não um alfabeto de 20 ou 30 letras. em O Corcunda de Notre-Dame. que lança o conceito "cultura das publicações".) A 14 A impressão já é praticada desde o século VIII na China e Japão. que comunica às pessoas. 1950. resume bem o impacto que os impressos têm na Europa no início da Era Moderna. com a impressão da Bíblia por Johann Gutenberg. abrindo a possibilidade aos leitores que ocupavam uma posição mais baixa na hierarquia social e cultural estudar os textos religiosos por conta própria. Para o arcediago. a grafosfera. para Debray [1994. descrição essa que parte de seu conceito de que todos os meios de comunicação são "extensões do homem". BURKE. não apenas por simbolizar a impressão gráfica. seria a partir de 1456. entre eles o teórico de mídias Marshall McLuhan. através de vários artifícios. que inventa a prensa gráfica no Ocidente por volta de 1450 14 . que multiplicou vertiginosamente o número de livros em circulação na Europa. principalmente. Todavia. Para McLuhan. apud BRIGGS.20].. proferida pelo personagem de Victor Hugo. houve o surgimento da falsificação. sugerindo ligações entre a nova invenção e as mudanças culturais do período. conforme observam os historiadores Asa Briggs e Peter Burke [2002]. como imagens e simbologias esculpidas em sua arquitetura. BURKE.escritas. "Como qualquer outra extensão do homem. portanto. O procedimento era apropriado para culturas que empregavam milhares de ideogramas. No entanto o método usado era chamado de "impressão de bloco": usava-se um bloco de madeira entalhada para imprimir uma única página de um texto específico. p. o monopólio do conhecimento pelo clero medieval" [INNS. o arcediago D. Cláudio Frollo. 2004. 27 .. que inicia-se uma nova midiasfera.22]. a mídia impressa é a "extensão tipográfica do homem". iniciou-se um controle administrativo por escriturários e surgiram os hereges. A fala lamentosa "isto matará aquilo". como observa o historiador Emile Male [MÂLE apud BRIGGS. mas também por retirar da arquitetura da catedral o caráter de uma "arte didática". quando há a transmissão. livresca dos saberes e dos mitos. o livro mataria a igreja. tudo o que elas precisam saber sobre o seu mundo. que justificavam suas opiniões não ortodoxas baseando-se nos textos bíblicos. a tipografia provocou conseqüências psíquicas e sociais que logo alteraram os limites e padrões de cultura (.218] "período aberto pela técnica da tipografia. ameaçando.

ou como um meio de rápida recuperação do conhecimento. A partir de então." [MCLUHAN. Zumthor [1993. a tipografia acabou com o paroquialismo e com o tribalismo. p. vê na mídia impressa. a mnemônica. como explicitam Fentress e Wickham [1992. 1992. WICKHAM. Ela corre naturalmente.. 109] começa progressivamente a desaparecer. parece que jamais alguém se gaba de sua memória. Os demais são extensões do seu corpo.141] comenta que "antes do século XV. p. o livro é uma extensão da memória e da imaginação. um outro tipo de extensão: "Dos diversos instrumentos do homem. Pela época em que se inventa a imprensa. sem dúvida o livro. personificada na figura do livro." Tal modelo seria "ele próprio uma expressão de uma predisposição geral da cultura moderna. or as propositions in some logical or scientific notation. de Jorge Luís Borges As palavras de Borges ilustram bem o que ocorre quando o meio de transmissão de mensagens dominante desloca-se da oralidade para a mídia impressa.196]. tanto psíquica quanto socialmente. p.. tornando-se o arquiteto de todas as mecanizações subseqüentes (.03]. tanto no espaço quanto no tempo.impressão por meio de tipos móveis foi a primeira mecanização de um artesanato complexo. "itself an expression of a general predisposition of modern. escritor. tudo muda. Isso significa que o suporte da memória coletiva também se desloca da memória dos poetas medievais para os livros. de maneira mais poética. o mais assombroso é. p.) cujo objetivo era o de aperfeiçoar a memória a tal ponto que até longos discursos pudessem ser decorados de cor" [PRATSCHKE. ou como proposições em alguma notação lógica ou científica" 16 [FENTRESS. ao contrário do que ocorre na performance do poeta 15 Jorge Luís Borges. a " arte e técnica de desenvolver e fortalecer a memória de memorização (." Com os livros. 2002. poeta e ensaísta argentino.. letrada.. Os impressos significam também transmissões de memórias de abrangência espaço-temporais mais extensas. 1964.. literate culture to define knowledge in terms of statements expressed in language. é mundialmente conhecido por seus contos em que a memória é um tema sempre presente. Jorge Luís Borges 15 .) Encarada simplesmente como um armazenamento da informação. p. para definir o conhecimento em termos de enunciados expressos em linguagem.." 16 28 ." Trecho de O Livro. 02] "prevalece entre os historiadores um modelo textual de memória. Mas o livro é outra coisa.

Boyle tornou possível que cientistas que não estivessem fisicamente presentes no momento do experimento se sentissem seguros em dar-lhe seu aval. a língua oficial da Igreja. na grafosfera já possui uma velocidade maior "devido à diminuição do peso dos veículos – charrete. permitindo a não conhecedores de latim. estimando-se o número de 500 cópias por edição. que produziram cerca de 27 mil edições até aquele ano. ler e interpretar o texto religioso sem a interferência dos clérigos. 26]. como apontam Briggs e Burke [2004. No entanto. haviam sido instaladas máquinas de impressão em mais de 250 lugares no continente. teólogo e professor Martinho Lutero. diligência. multiplicando muito o número de livros em circulação. em que essa transmissão ocorre de maneira local. como verificamos anteriormente. Dessa forma. que. Com essa obra. 29 . impressa em 1669.43]. A Bíblia. p. A divulgação dos preceitos da Reforma Religiosa do século XVI é um ótimo exemplo da maior abrangência espacial dos impressos. 26]. p. em uma Europa com 100 milhões de habitantes" [BRIGG. ilustra bem o caso.41]. 2004.196 dado o maior volume de livros em circulação. "por volta de 1500. dando a este a idéia de nação. carroça. Sobre uma nova abrangência temporal da mídia impressa. Vale ressaltar que a separação do homem de sua palavra no tempo. em 1522. até aí vista como uma língua inferior. A importância da impressão da Bíblia de Lutero vai muito além da religiosa. a prática da impressão gráfica se espalhou pela Europa rapidamente. 1994. etc. traduzida para o alemão pelo padre. desenvolvido pelo filósofo inglês Robert Boyle. como observa a arquiteta e pesquisadora Anja Pratschke [2002.medieval. se torna possível pela primeira vez com o surgimento da escrita. BURKE. p. foi impressa e assim facilmente distribuída pela região da Saxônia. coche. Esse deslocamento. a publicação do estabelecimento de diversos parâmetros e critérios para a produção de textos que relatassem experimentos científicos. reunindo o povo ao seu redor. ao contrário do que ocorre na midiasfera anterior. Com a diáspora dos impressores germânicos. Ela é um pilar da sistematização do que viria a ser a língua alemã moderna. – e a melhoria das estradas" [DEBRAY. muitos séculos antes. legitimando-o. p. 1964. p. significa que estavam circulando cerca de 13 milhões de livros naquela data. como observa McLuhan "a explosão tipográfica estendeu as mentes e as vozes dos homens para reconstituir o diálogo humano numa escala mundial que atravessou os séculos" [MCLUHAN.

55]. p. devido a melhoria dos meios de transporte. o único utensílio de sobrevida dos desaparecidos. 55]. o Renascimento" [LUSO. O videocassete que pode colocar parte do momento presente em reserva por meio de suas cassetes de tempo indefinido. que torna a palavra capaz de atravessar o espaço e o tempo. como no caso da Bíblia de Lutero. divulgando estudos sobre os bens culturais. o suporte de memorização de vestígios. portanto. a maneira pela qual se dá a preservação da memória social. Além disso. para o livro. 1.. num primeiro momento sobre a Antigüidade. E o laser óptico que promete mirabolantes acumulações" [DEBRAY. a circulação da informação acelera-se. p.270]. a fotografia que estoca os rostos perdidos. e realizar assim uma espécie de história natural das produções humanas. diz que "a primeira atividade dos antiquários é tornar visível o passado silencioso ou nãodito. foi.4 A preservação e transmissão dos bens culturais na Videosfera "A escrita. p. 2004. Nesse momento surge a atividade dos antiquários. Assim. às vezes até seqüências cronológicas. época em que nasce a noção de patrimônio cultural e o Estado assume sua proteção. Choay [1992 apud FONSECA. Este torna possível a transmissão de bens culturais de maneira nacional. 1991. de humanização do homem (." A atividade dos antiquários se desenvolve por toda a Europa. na grafosfera. concluímos que.33]. e extensa no tempo. em que o emprego da mídia impressa é fundamental para sua divulgação. isto é.3. produzindo uma farta iconografia e inúmeras coleções. 30 .. 1997. com a separação do homem de sua palavra. A gravação magnética que conserva os fluxos de informação. e posteriormente sobre o estilo gótico. e. A imagem é posta a serviço de um método comparativo que lhes permite estabelecer séries tipológicas. que a externalizam na performance. Mas eles não se limitam a uma soma.O advento dos impressos também "coincide com a primeira etapa da história ocidental em que se tem consciência do passado. como comenta Fonseca [1997. durante um longo período.) depois veio a cera do fonograma que arquiva os sons. transferiu-se da memória dos poetas medievais. p.

270]. formado.A videosfera. em obras como A sociedade em rede. dos quais muitos desapareceram pouco tempo depois [UNESCO. preservando a memória coletiva. os filmes de documentário ilustram bem o modo com que um meio de transmissão na videosfera pode servir como esse suporte. registrou-se de maneira "viva" a língua e os costumes desse povo. visto que é o ambiente em que "possuímos os melhores instrumentos da 'ressurreição' e da 'viagem do tempo' à nossa disposição. O autor posiciona o início da videosfera em meados do século XIX. deslocam-se do livro para os aparatos audiovisuais. isto é.4.220]. 31 . representados pelos aparatos audiovisuais" [DEBRAY. que inaugura a era da comunicação instantânea e ubíqua. a partir da invenção do telégrafo elétrico. a TV. reflete sobre o que ele chama de "Revolução Informacional do século XX". seus bens culturais. para o estudioso francês surge quando os limites do livro são ultrapassados pelos suportes audiovisuais. modelos e narrações. em que a transmissão analógica e digital de dados. em especial. e.1 Os meios de transmissão analógico e o digital 17 Manuel Castells é um sociólogo espanhol. No cinema. Através do filme. segundo sua definição.3. dirigido por Robert Flaherty. e. por exemplo. Essa. segundo Régis Debray. Seus estudos ajudam-nos a compreender o atual ambiente tecnológico. telecomunicação e computadores. retrata a vida do povo esquimó da Baia de Hudson. da convergência entre mídia. o computador. se dá principalmente através da tela" [DEBRAY. o Esquimó" (Nanook of the North). narrando a luta pela sobrevivência de uma família pertencente a essa sociedade. que englobam tanto aparatos de tecnologia análoga quanto digital. o rádio. de 1922. são o telefone. O primeiro filme desse gênero. a videosfera é um período ímpar nesse aspecto. sobre a formação e os desdobramentos em seu interior daquilo que Manuel Castells 17 chama de um "novo paradigma tecnológico" baseado nas tecnologias digitais de informação e comunicação. trata-se de um "período aberto pela técnica do audiovisual. 1975]. quando os suportes e procedimentos de memorização dos vestígios. que é a atual midiasfera.1994. mais recentemente. Para compreendermos melhor como se dá essa preservação do patrimônio cultural na videosfera. na América do Norte. No que diz respeito à preservação de bens culturais. p. refletiremos a seguir sobre suas características. p. que. segundo ele. isto é. peculiar a essa nova midiasfera. "Nanook. 1. 1991. Exemplos de outros meios de transmissão nesse ambiente.

podemos dizer que os meios analógicos são aqueles que reproduzem tecnicamente os sentidos humanos. segundo a definição do etnólogo Jack Goody [GOODY apud DEBRAY. No entanto. p. segundo Fernandes [2000. porque fazem uma analogia da realidade. Nicolas Negroponte 18 [2000.03]. acabou por converte-se como base de um novo paradigma tecnológico. caracterizam-se pela "a ausência de uma representação abstrata (simbólica) para os dados que dificulta a conservação. provocando 18 Nicolas Negroponte é cientista da computação norte-americano. além de responder aos problemas na conservação e transmissão analógica de dados. Considerando-se ainda que distorções são inevitáveis durante qualquer transmissão de dados. como observa Castells [2001]. são. até mesmo na chamada mnemosfera. surge o meio de transmissão digital. Tais meios. o vídeo.Como dissemos. por extensão. p. em meados do século XX. Toda informação captada por nossos sentidos é lida diretamente por nosso cérebro. papel. hoje na Internet. madeira. é importante ressaltar as diferenças. os meios analógicos de transmissão de mensagens não são. livros e os aparatos audiovisuais são alguns de seus exemplos. assim como o cinema e.20] observa que o mundo. ambiente baseado unicamente em transmissões orais. transformação e manipulação destes dados. assim como o rádio e a TV. sem a necessidade de passar por qualquer decodificação complexa. p. Dessa forma. onde não há a presença da escrita. o meio analógico restringe os dados quanto à sua transcendência temporal. entre os meios analógicos e digitais que a compõe. fundador do Laboratório de Mídia (Media Lab) do Massachusetts Institute of Technology (MIT). por exemplo. por isso são chamados analógicos. de maneira alguma.40]. A fotografia. O cinema. em toda sua plenitude. Pedras. em sua origem. pergaminho. acrescentando novas possibilidades às atividades humanas. Sua obra de referência em nosso trabalho é A Vida digital. que nos ajuda a compreender algumas potencialidade dos meios digitais frente aos meios analógicos 32 . existentes no interior da atual midiasfera." Em termos menos técnicos. Certamente. a característica de instantaneidade e ubiqüidade da mensagem que o telégrafo inaugura. é um lugar bastante analógico. como o percebemos. papiro. Debray vê o telégrafo elétrico como o marco inicial da videosfera. reproduz o olhar humano. está presente. que. uma exclusividade da videosfera. em que o autor faz um paralelo entre o mundo concreto e o mundo digital. eles podem ser encontrados em todas as midiasferas. meios de transmissão analógicos. 1994. pois o dado se desgasta com a transmissão e sua representação física se evanesce com passar do tempo. no entanto.

285]. weblogs e wikis para construir e disseminar os saberes globais. computadores. como a estática do telefone. p.23]. Manuel Castells [1999] vê no digital a base de um novo ambiente tecnológico. vídeo e dados tem-se a chamada multimídia" [NEGROPONTE. Segundo sua visão. p. mas interpretados de forma simbólica.03]. que não podem ser lidos diretamente. aquela caracterizada pela interatividade. A formação de um ambiente tecnológico Diferentemente de Régis Debray. um dos fundadores da empresa de microprocessadores Intel. 33 . essa tecnologia elimina as fronteiras entre as mídias. Começam a mesclar-se e podem ser utilizados e reutilizados em seu conjunto ou separadamente. em um artigo pioneiro sobre o significado da microeletrônica publicado na revista Scientific American em 1977. Nos meios digitais. Negroponte [2000] aponta que uma grande vantagem do digital sobre o analógico é a compressão de dados e a possibilidade da emissão de um sinal contendo informação adicional para a correção de erros. caracterizado pela convergência entre mídia.alterações em nossa compreensão sobre a tecnologia. transcendem o espaço e o tempo" [FERNANDES. que reúne na mesma midiasfera os meios de transmissão analógico e digital. Estes dados armazenados fisicamente. p. O uso dessa tecnologia "permitem que dados. visão que. a educação e o trabalho. possam ser transformados (manipulados) e armazenados sobre um suporte físico mutável. pois "os bits misturam-se sem qualquer esforço. os computadores interligados em redes mundiais podem favorecer o surgimento de uma "Inteligência Coletiva". e telecomunicações. o chiado do rádio ou o chuvisco da televisão. a arte. fóruns. comunidades virtuais. a informação é convertida em códigos binários. baseados no acesso à informação democratizada e sua constante atualização. segundo Briggs e Burke [2001. 2000. Da mistura de áudio. 2000. Além disso. segundo Pierre Lévy 19 [2001]. além de serem transmitidos e captados (como também ocorre nos meios analógicos). nasce com Robert Noyce. resultante do que ele chama de "Revolução da Tecnologia da Informação do século XX". 19 Pierre Lévy é um filósofo francês que reflete sobre a virtualização. necessitando de uma codificação para seu entendimento. as Tecnologias de Informação e Comunicação e a sociedade contemporânea.

O cientista da computação e historiador Paul Ceruzzi [2003] comenta que duas décadas antes.que. Assim. "Centenas de milhares de componentes podiam ser colocados em um microprocessador. injetou um estímulo à tecnologia digital.58]. que logo seria uma de suas principais usuárias . quando se deram as principais descobertas tecnológicas em eletrônica. ao contrário dos chips. para serem então usados em diversas outras aplicações. que possuem agora a mesma potência dos gigantescos ENIAC e Colossus. os computadores deixam de ser visto simplesmente como máquinas de calcular. o futuro é imaginado com gigantescos supercomputadores. Ceruzzi [2003] diz que o surgimento do microprocessador significa que a capacidade de processamento e velocidade dos computadores podiam agora elevar-se progressivamente. Um bom exemplo disso é a idéia do Hal 9000. p. incorpora toda a arquitetura básica de um computador programável. Todavia. 2004. em 1958. 2001]. Jack Kilby. em toda mídia. BURKE. os primeiros computadores digitais eletrônicos do mundo. "Um 20 Antes acreditava-se que o poder informacional de um computador era proporcional às suas dimensões. muito especializados apenas em cálculos numéricos.impressos.o microchip . que instala uma "revolução dentro da revolução" [CASTELLS. 286]. dependentes de milhares de válvulas e nem sempre confiáveis. o cerne dessa "revolução informacional" localiza-se "durante a II Guerra Mundial e no período seguinte. Além disso. aplicação que. 20 Abria-se. 34 . o mítico computador de 2001:Uma Odisséia no Espaço. nos Estados Unidos. 217]. nos laboratórios da Intel.Para Castells. como observa Ceruzzi [2003. p. havia mostrado o que os circuitos integrados podiam fazer. filmes. contendo 2250 transistores miniaturizados. não implicando obrigatoriamente em máquinas cada vez maiores. gravações. um caminho em direção à miniaturização." [BRIGGS. e quando sua versatilidade tornou-se reconhecida. Na época em que o filme é realizado [1968]. 1999. rádio. Nesse ano.o chip de silício com um sexto por um oitavo de polegada. o grande divisor tecnológico desses desenvolvimentos se deu nos anos 1970. suficientemente grandes a ponto de ser possível se transitar em seu interior. desenvolve o circuito integrado . engenheiro da Texas Instruments. televisão e todas as formas de telecomunicações agora sendo pensadas. dessa forma. como o primeiro computador programável e o transistor" [CASTELLS. cada vez mais como parte de um complexo. p. os engenheiros Ted Hoff e Federico Faggin desenvolvem o microprocessador de silício . Mas o passo decisivo da microeletrônica ocorre em 1971. em detrimento da analógica. para o autor. que são utilizados como decifradores de códigos na II Guerra Mundial. naquele momento.

interligando principalmente universidades. 2003. mas em instituições universitárias. que já possui monitor e entradas para disquetes. o Microsoft BASIC. considerado o primeiro computador pessoal. 20 "A microprogrammable computer on a chip!" [Electronic News. iniciando a era de difusão da informática nos lares no início dos anos 1980. há um total de 15 nós no país. a idéia que guia a concepção da ARPANET. Na esteira dessa evolução. diz um anúncio de jornal nos fins de 1971 [CERUZZI. p. o Microsoft Windows. 2004. uma rede de computadores estabelecida pela ARPA (Advanced Research Projects Agency). em 1969. como o sistema operacional CP/M. de modo que as unidades de mensagens encontrariam suas rotas ao longo de uma rede. Em 1971. 220]. na realidade. 2004. 228]. também na década de 1970. o governo norte-americano cria em setembro de 1969 a ARPANET.microprogramável computador em um chip!" 21 . em 1975 surge o Altair. 15. independente de centros de comando e controle. p. como observa Castells [2001]. para Castells [2001] estimulado originalmente por uma fusão entre estratégia militar e cooperação científica.11. No entanto. 26]. como as Universidades da Califórnia e Utah. agência que nasce "em 1958 para mobilizar recursos provenientes fundamentalmente do mundo universitário. concentrando-se nas regiões de Los Angeles e Boston. Aliados ao surgimento dos microcomputadores. 35 . principalmente nos países desenvolvidos. também se desenvolveram softwares adaptados as suas operações. que lançaria o embrião do que viria a se constituir a rede mundial de computadores . um grande desenvolvimento das telecomunicações. À evolução dos computadores acrescentou-se. mais uma vez os Estados Unidos desempenham o papel de liderança em seu desenvolvimento tecnológico. Baseando-se "sempre na implausível suposição de que a instabilidade do planeta era de tal ordem que uma guerra mundial podia explodir a qualquer momento" [HOBSBAWN. o DOS (Disk Operation System) e. como o IMSAI 8080 em 1977. mais tarde. sendo remontadas com sentido coerente em qualquer ponto dela. e depois dele diversos outros microcomputadores. Como no caso dos computadores. p.a Internet – em 1994. com o fim de alcançar a superioridade tecnológica militar frente à URSS. em 1957" [CASTELLS. é o estabelecimento de um sistema de comunicação flexível e invulnerável a ataques nucleares. os primeiros nós da rede concentram-se não nas instituições militares e de defesa dos EUA. No contexto da Guerra Fria. que acabava de lançar seu primeiro Sputnik.1971].

o protocolo sobre o qual hoje opera a Internet. que no livro Neuromancer. o ciberespaço "é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. que prevê o "casamento perfeito" entre a computação e as telecomunicações. de 1984. A partir dessa fusão. são criadas outras redes pela ARPA. como a PRNET e a SATNET. como vimos.Com o transcorrer da década. o fim de seu aspecto militar. como dados. segundo o autor. começa-se a falar da emergência de uma nova modalidade de espaço. 270]. tem-se enfim todas as condições tecnológicas necessárias para o surgimento de um sistema de comunicação global . e progressos na compactação de todos tipos de mensagem. essa convergência é vislumbrada pela primeira vez em 1970 por Alan Stone. pesquisador do Massachussets Institute of Technology (MIT). que torna-se a espinha dorsal das redes. O passo seguinte consiste na ligação da PRNET e da SATNET com a ARPANET. que iniciaria seu processo de difusão mundial em meados da década de 1990. como o TCP (Transmission Control Protocol) em 1973. forma-se o novo ambiente tecnológico descrito por Manuel Castells. criando a palavra híbrida "compunicações" para designar essa união. onde pela primeira vez pensa-se uma modalidade de espaço virtual habitável e em três dimensões. em que estaríamos cada vez mais inseridos. emprestando o termo do escritor de ficção científica William Gibson. p. que possibilitou a abertura de sua tecnologia ao domínio público. o relaciona com idéias visionárias de um futuro próximo. computadores e telecomunicações. Para Lévy. A emergência de novas espacialidades O espaço virtual Da convergência entre mídia. Com a incorporação de outras redes surgidas na década de 1980 à rebatizada ARPA-INTERNET. que Pierre Lévy define como "ciberespaço". e o TCP/IP (Inter-net-work Protocol) em 1978. O termo especifica não apenas a infra-estrutura material da 36 .a rede das redes. grandes progressos oriundos da década de 1970. Para Briggs e Burke [2004. que é possível a com o desenvolvimento de protocolos de comunicação estandardizados.a Internet . sons e imagens.

2003. a segunda seria por meio de telas de projeção.55-56]. onde o usuário vê sua imagem movendo-se em um mundo virtual. 2003. 12]. no entanto com "a ênfase desse diálogo sempre nas pessoas" [FAULKNER. através das chamadas "cavernas" (caves). Partindo da classificação realizada pelo pesquisador Louis Brill no Simpósio Realidade Virtual 93'. em que a interface é vista 37 . através de veículos (que representam por exemplo aviões). utilizando óculos 3D.1996. 2002. operado por um usuário. No meio computacional. que simula movimentos em um mundo virtual. 2002. p. cujo estudo. 17]. 1998. que caracteriza-se. mas também o universo oceânico de informações que ela abriga. Muitas são as definições sobre a interface gráfica. Pratschke diz o surgimento do ambiente virtual "atende ao antigo desejo humano de transcendência do corpo físico. onde o usuário. Dentro dessa área. faz parte de uma área conhecida como Interação Usuário-Computador ou Human Computer Interaction (HCI). Nesse sentido.47]. 2002. a interface é pensada. podem ser enumeradas quatro "entradas" para esse ambiente. com seus sentidos transportados através da telecomunicação" [PRATSCHKE. 2002]. de controle das experiências sensoriais. 37]. entre outros aspectos. que são salas dotadas de grandes telas nas quais projeta-se uma cena virtual. p. visando permitir de maneira fácil e satisfatória o diálogo entre homem e máquina. essa nova espacialidade passa a ser chamada de espaço ou ambiente virtual [PRATSCHKE. como uma espacialidade em que a comunicação se dá de forma não-presencial. apud PRATSCHKE. p.77]. p. a terceira. segundo a pesquisadora Sandy Stone [STONE.comunicação digital. tem a sensação de total imersão no ambiente [BRILL apud PRATSCHKE. Ressaltamos que em qualquer uma dessas entradas. de estar presente à distância. que provê uma janela ou portal para um mundo virtual tridimensional e interativo. p. assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo" [LÉVY. a fronteira entre o ambiente concreto e o virtual é a interface gráfica. no entanto quase todas elas chamam atenção para suas características que permitem "interação entre o universo da informação digital e o mundo ordinário" [LÉVY. em tempo real e independente das coordenadas espaciais. e por último. que pesquisa as relações de interação entre usuários humanos e sistemas computacionais. A primeira seria através da tela do computador pessoal. no campo disciplinar das ciências da computação. p.

estão cada vez mais movendose em direção a chamada computação ubíqua. tornando-se assim invisível às pessoas. na medida em que cada vez mais as fronteiras entre as espacialidades concreta e virtual vêm desaparecendo. como observa Anja Pratschke [PRATSCHKE et al. 2000. observam. que prevê que a evolução técnica dos microprocessadores permite dobrar a velocidade e potência de cálculo dos computadores a cada dezoito meses. como a fala. "em um sentido relativamente técnico como a combinação de espaços concretos e virtuais" [STRAUSS apud PRATSCHKE. p. p. 1992. o surgimento do que eles chamam de realidades híbridas ou mescladas (mixed reality). 1]. cofundador e presidente da Intel. Frauenhofer Institut.132]. a partir dessa tendência descrita duas décadas antes por Weiser. mas teremos em mente as propriedades de interação. do Media Arts Research Studies – MARS. p. abrindo um caminho para um sentimento de continuidade e união entre ambas. as antigas fronteiras. verifica-se que o conceito de ciberespaço já dá indícios de ter sido corroído pelo tempo. os pesquisadores alemães Monika Fleischmann e Wolfgang Strauss. um grupo francês que tem discutido 38 . escrita e gestos. indo habitar o ambiente e os objetos cotidianos ao nosso redor. diálogo e comunicação desse tipo de ambiente e a natureza mediadora da interface entre duas realidades (a concreta e a virtual). pesquisador do Xerox Palo Alto Research Center (PARC) ainda no final da década de 1980. Atualmente. do Electronic Shadow.como uma "região de contato entre duas entidades e um espaço de diálogo entre as diversas entidades na forma de um compromisso mútuo" [LAUREL. os conceitos relacionados ao atual ambiente tecnológico baseado nas Tecnologias de Informação e Comunicação sofrem mutações muito rápidas. aquela vislumbrada por Marc Weiser. além de tornar-se mais sensível às formas humanas mais naturais de comunicação. 13]. formulada em 1964 pelo químico Gordon Moore. As interfaces gráficas. A realidade híbrida ou mesclada Assim como a lei Moore. que consiste na idéia de que com o desenvolvimento tecnológico a computação deixaria as estações de trabalho e os computadores pessoais. 2002. a arquiteta Naziha Mestaoui e o cineasta Yacine Aït Kaci. Em nosso trabalho não proporemos mais uma definição. Sobre essa evolução. No início dos anos 2000.

p. porque entendia implicar uma idéia do real teoricamente insustentável. "Ele tem aversão ao termo 'simulação'. viveu no Brasil e logo depois na França.precessão dos simulacros" [BAUDRILLARD. Não é mais o virtual em uma tela. nem lhe sobrevive. sociólogo francês.muitos aspectos do campo disciplinar da arquitetura. Ele representa uma extensão diferente do mundo físico e sobretudo a maneira como o representamos hoje é totalmente imersiva. de um ser referencial de uma substância. 2005]. reforçando suas ligações com a arte. KACI. A fala de Mestaoui e Kaci reforça a tendência de que estamos cada vez mais nos caminhando para uma "realidade ampliada". E prossegue.1981]. Em toda a história o homem pôde supor o acesso ao real tão-somente através de simulações. 2006]. Essa visão de mundo virtual ficou para trás. estuda os impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas. o que chamamos de 'realidade' é desde sempre um simulacro" [BERNARDO. afirmando que "a simulação já não é a simulação de um território. 23 Jean Baudrillard. resultante da combinação de elementos concretos e virtuais. É agora o mapa que precede o território . Baudrillard refere-se ao simulacro como o processo através do qual uma representação ou imagem toma crescentemente o lugar do objeto real que ela deve supostamente representar: "simular é fingir ter o que não se tem" [BAUDRILLARD. a literatura. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real. 22 Vilém Flusser. as ciências e a informática. comentam que "o mundo virtual não existe à parte. 39 .1981. O espaço virtual e o espaço físico constituem um mesmo espaço e a percepção que temos dele se situa entre os dois. países onde realizou estudos sobre a teoria da comunicação e da produção artística. mas a percepção corporal continua sendo nossa medida para enxergar nosso ambiente. Já Flusser. Ela foi necessária para que o público leigo aceitasse responsabilidades em relação ao mundo eletrônico. O território já não precede o mapa.8]. não reconhece diferença significativa entre imagem e realidade. No contexto dessas discussões. é bastante interessante se fazer um paralelo com a crítica feita pelo filósofo tcheco Vilém Flusser 22 [2002] ao simulacro descrito pelo sociólogo francês Jean Baudrillard 23 [1981]. como no filme Matrix. constituindo esse espaço" [MESTAOUI. e sua percepção se faz com o corpo. filósofo de origem tcheca. mas em um espaço.

a noção da emergência de uma nova espacialidade é jovem e a Internet ainda está a caminho de se estabelecer como a rede mundial de computadores. viriam a ter em diversos setores da vida cotidiana. após o advento das Tecnologias de Informação e Comunicação. surgiriam as noções de espacialidade virtual e. p. que teve na memória dos poetas medievais e no livro seus suportes. em San Diego.Assim como o simulacro compõe também a realidade para Flusser. os meios de transmissão analógicos apenas iniciam sua convergência em meios de transmissão digitais. têm levado a perda da noção da realidade. Segundo Cazeloto [2006. ainda não se vislumbra. nitidamente. como comenta Marshall McLuhan na sua teoria sobre a Aldeia Global. e. na atual midiasfera. vem se desenvolvendo maneiras de se pensar a preservação do patrimônio cultural. Esse termo é definido por Paul Virilio 24 na obra A Velocidade da Libertação. como refletimos anteriormente. que. mas também os corpos. hoje. 11]. Nesse ambiente.07]. mais recentemente. que ocorre num primeiro momento de maneira global. no início dos anos 1990. p. os desdobramentos que as Tecnologias de Informação e Comunicação. Um segundo estágio na Videosfera? Quando Régis Debray define a videosfera. que parece ser um novo estágio da videosfera. 40 . ensina teoria de mídia arte na Universidade da Califórnia. onde elementos físicos e digitais podem coexistir e interagir. 25 Lev Manovich. é um grande crítico dos desdobramentos da Tecnologias de Informação e Comunicação na sociedade contemporânea. o funcionamento econômico. Nesse momento. professor e pesquisador de Artes Visuais. filósofo e urbanista francês. Estados Unidos. quando descreve o efeito do rádio nos anos 1920. e por Lev Manovich Language of New Media. os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência". baseadas na mídia digital. seria um maior movimento de substituição e conversão da mídia analógica em digital. quebrando distâncias e territorialidades e ainda proporcionando uma quantidade absurda de informações. segundo. 24 25 em The Paul Virilio. segundo Lévy [1996. analogamente hoje pode-se dizer que ambientes virtuais e concretos também estão caminhando cada vez mais para compor uma única realidade. O que ocorre logo depois. a partir disso. de modo a assegurarmos a transmissão da memória social de uma geração à outra. Essa transmissão. está convertendo-se em glocal. uma intensa virtualização "que não afeta apenas a informação e a comunicação. ao trazer entre as pessoas um contato mais rápido e mais íntimo do que em mídias anteriores. de espacialidade mesclada ou híbrida.

na tradição oral. Régis Debray. Sobre essa glocalidade. por meio de ondas de rádio. como gravuras e músicas em formato digital para download. vimos que hoje esta se faz muito importante. definidos por meio da reflexão de diversos autores. como Françoise Choay. no momento em que. Esse projeto. mesmo estando fisicamente em Pipa. com o advento das Tecnologias de Informação e Comunicação. vivemos no presente e temos o dever de transmitir 41 . é interessante o exemplo do projeto de inclusão digital e social Projeto Rede Pipa Sabe. convertido em experiência subordinativa da realidade). O capítulo 1 procurou contribuir nessa discussão. Através de ações de inclusão digital. uma característica curiosa do atual estágio da videosfera. Paul Zumthor. Marshall McLuhan. Assim. idealizado pela Cidade do Conhecimento da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Nele contextualizamos questões relativas ao patrimônio cultural e a memória. na era da mídia impressa e. em especial. gerando renda para a comunidade. sua produção cultural local."a partir de um meio de comunicação operando em tempo real (prioritariamente o tempo real do ciberespaço) cria-se um ambiente glocalizado. Rio Grande do Norte. surgem novas maneiras de se pensar a preservação patrimonial. mas também o seu meio cultural) e global (o espaço mediático da tela e da rede. iniciado em 2003. conecta a localidade carente de Pipa. os moradores conseguem comercializar suas obras mundialmente. na era da mídia digital. à Internet. um indivíduo pode estar em uma localidade. a população do vilarejo capacita-se ao manejo do microcomputador e Internet. CONSIDERAÇÕES No presente capítulo. o patrimônio cultural hoje é visto como uma herança que recebemos do passado. completamente ligado às suas tradições. e disponibiliza via web. após o surgimento da noção de patrimônio histórico no Renascimento. através das Tecnologias da Informação e Comunicação. assim como a preservação desse patrimônio em perspectiva histórica. mas ao mesmo tempo em contato. à qualquer parte do planeta. Manuel Castells e Pierre Lévy." Dessa forma. o início da sistematização de políticas para sua proteção por meio dos Estados modernos e evoluções em seu conceito no século XX. no qual o sujeito se vê imerso em um contexto simultaneamente local (o espaço físico do acesso. Vimos que. partindo da visão de que a discussão sobre o patrimônio cultural é uma tarefa tradicional do arquiteto. Maurice Halbwachs.

a voz poética na logosfera.às gerações do futuro. organismos documentais de proteção e disciplinas específicas. ao mesmo tempo que serve de suporte ao seu transporte. subdividindo-a em três momentos: logosfera. o livro na grafosfera e os aparatos audiovisuais analógicos e digitais na videosfera. e videosfera. como atestam as pesquisas de estudiosos sobre as mídias. personificando essa memória. Funcionando dentro desses ambientes como "suportes e procedimentos de memorização de vestígios" segundo o autor. Entendemos que o patrimônio cultural possibilita a transmissão da memória coletiva ou social de geração uma à outra. grafosfera. após o advento das Tecnologias de Informação e Comunicação. em que a comunicação se daria de forma não-presencial. surgem novas maneiras de preservação dos bens culturais caracterizadas pela emergência de novas espacialidades. entendendo estes como a memória coletiva ou social. em que a transmissão se dá de maneira global/glocal. em que a transmissão se dá maneira nacional. 42 . como a de restauro. verificamos que a história da preservação dos bens culturais também pode ser contada a partir dos "meios de transmissão e transporte das mensagens e dos homens". podem ser encarados como maneiras de preservar o patrimônio cultural "a partir do estoque de vestígios". em tempo real e independente das coordenadas espaciais. em que a transmissão das mensagens se dá de maneira local. Aprofundando-nos em questões relativas à videosfera. que Debray define como midiasfera. Além das legislações regulamentadoras. verificamos que. Sua importância está em na relação com a identidade e memória de um povo.

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