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1odos nós esLamos modlflcando as arLesţ a pollLlca e o comercloţ e aLe mesmo a manelra de

percebermos o mundoţ e a responsável por lsso não e a grande mldla LradlclonalŦ Cada vez há mals
conLeudo produzldo por usuárlos em blogsţ slLes de comparLllhamenLo de vldeo como ?ou1ube ou nas
redes soclals como MySpace e CrkuLŦ Þor causa desse aumenLo da produção crlaLlva e na presença
mldláLlcaţ aqueles que cosLumavam ser lelLores passlvos agora serlam os amadores que produzem o
conLeudoŦ Lles Lomaram as redeas da mldla globalţ Lrabalham de graça e superam os proflsslonals em
sua próprla especlflcldadeŦ
1alvez o novo fenômeno encarne uma mlsLura lnedlLa e complexa desLas duas verLenLes
aparenLemenLe conLradlLórlasŦ Þor um ladoţ a fesLe[ada ºexplosão de crlaLlvldade" vlnculaŴse a uma
exLraordlnárla ºdemocraLlzação" dos canals mldláLlcosŦ Lsses novos recursos abrem uma lnflnldade de
posslbllldades que eram lmpensávels aLe pouco Lempo e que agora são exLremamenLe promlssorasţ
LanLo para a lnvenção quanLo para os conLaLos e LrocasŦ várlas experlônclas em andamenLo [á
conflrmaram o valor dessa fenda aberLa para a experlmenLação esLeLlca e para a ampllação do posslvelŦ
Þor ouLro ladoţ poremţ a nova onda Lambem desaLou uma revlgorada eflcácla na lnsLrumenLallzação
dessas forças vlLalsţ que são avldamenLe caplLallzadas a servlço de um mercado capaz de Ludo devorar
para converLôŴlo em llxoŦ L por lsso que grandes amblções e exLrema modesLla aparecem de mãos dadas
nesLa lnsóllLa promoção de você e eo que se espalha pelos novos clrculLos lnLeraLlvosť glorlflcaŴse a
menor das pequenezasţ enquanLo se parece buscar a malor das grandezasŦ vonLade de poLôncla e de
lmpoLôncla ao mesmo Lempo?ť Megalomanla e despreLensão?
żpara llusLrar as evoluções do amblenLe dlglLalţ a auLora relaLa o correlo eleLrônlcoţ os dlárlos lnLlmosţ
webcams e youLubeţ second llfeŽ
Se as sub[eLlvldades são modos de ser e esLar no mundoţ longe de Loda essôncla flxa e esLável
que remeLe ao ºser humano" como uma enLldade aŴhlsLórlca de relevos meLaflslcosţ seus conLornos são
elásLlcos e mudam ao sabor das dlversas Lradlções culLuralsŦ ÞorLanLoţ a sub[eLlvldade não e algo
vagamenLe lmaLerlal que reslde ºdenLro" de vocêţ personalldade do anoţ ou de cada um de oósŦ Asslm
como Loda sub[eLlvldade e necessarlamenLe emboJleJţ encarnada em um corpoţ ela Lambem e sempre
embeJJeJţ embeblda em uma culLura lnLersub[eLlvaŦ CerLas caracLerlsLlcas blológlcas Lraçam e
dellmlLam o horlzonLe de posslbllldades na vlda de cada umţ mas mulLo e o que essas forças delxam em
aberLo e lndeLermlnadoŦ L e lnegável que nossa experlôncla Lambem se[a modulada pela lnLeração com
os ouLros e com o mundoŦ Þor lssoţ e fundamenLal a pregnâncla da culLura na conformação do que se eŦ
L quanLo ocorrem mudanças nessas posslbllldades de lnLeração e nessas pressões hlsLórlcasţ o campo
da experlôncla sub[eLlva Lambem se alLeraţ em um [ogo por demals complexoţ mulLlplo e aberLoŦ
żfala sobre os usuárlos que produzem conLeudos e são remunerados aLraves de publlcldadeť Claro
vldeoŴMakerţ Clţ lacebookţ blogsţ MeLaCafeţ ?ouLubeŽ
Lsses poucos exemplos llusLram o complexo funclonamenLo do mercado culLural
conLemporâneoŦ São mulLo asLuclosos os dlsposlLlvos de poder que enLram em [ogoţ ávldos por capLurar
Lodo e qualquer vesLlglo de ºcrlaLlvldade bemŴsucedlda"ţ a flm de LransformáŴlo velozmenLe em
mercadorlaŦ ºfazôŴla Lrabalhar a servlço da acumulação de malsŴvalla"ţ dlrla Suely 8olnlkŦ no enLanLoţ
essa LáLlca cosLuma ser ardenLemenLe sollclLada pelos próprlos [ovens que geram essas crlaçõesţ Lalvez
sem compreenderem exaLamenLe ºa que são levados a servlr"ţ como lnLulra ueleuze há mals de qulnze
anosţ anLes mesmo da popularlzação da [á quase envelheclda Web 1Ŧ0Ŧ
ConLudoţ não e apenas por Lodos esses moLlvos que se Lorna evldenLe a lnscrlçãoţ nesse novo
reglme de poderţ da parafernálla que compõe a Web 2Ŧ0 e que converLeu vocêţ eo e Lodos oós nas
personalldades do momenLoŦ Algo que cerLamenLe Lerla sldo lmpensável no quadro hlsLórlco descrlLo
por Ioucau|tţ no qual a ºcelebrldade" era reservada para uns poucos mulLo bem escolhldosŦ As carLas e
os dlárlos lnLlmos Lradlclonals denoLam sua flllação dlreLa com essa ouLra formação hlsLórlcaţ a
ºsocledade dlsclpllnar" do seculo xlx e lnlclo do xxţ que culLlvava rlgldas separações enLre o âmblLo
publlco e a esfera prlvada da exlsLônclaţ reverenclando LanLo a lelLura quanLo a escrlLa sllenclosa em
reclusãoŦ Apenas nesse solo modernoţ cu[a vlLalldade Lalvez esLe[a se esgoLando ho[e em dlaţ poderla
Ler germlnado aquele Llpo de sub[eLlvldade que alguns auLores denomlnam omo psycboloqlcosţ omo
ptlvotos ou personalldades lottoJltlqlJosŦ
!á nesLe seculo xxl que esLá alnda começandoţ as ºpersonalldades" são convocadas a se
mosttotemŦ A prlvaLlzação dos espaços publlcos e a ouLra face de uma crescenLe publlclzação do
prlvadoţ um solavanco capaz de fazer Lremer aquela dlferenclação ouLrora fundamenLalŦ Lm melo aos
verLlglnosos processos de globallzação dos mercados em uma socledade alLamenLe mldlaLlzadaţ
fasclnada pela lnclLação à vlslbllldade e pelo lmperlo das celebrldadesţ percebeŴse um deslocamenLo
daquela sub[eLlvldade ºlnLerlorlzada" em dlreção a novas formas de auLoconsLruçãoŦ no esforço de
compreender esLes fenômenosţ alguns ensalsLas aludem à soclabllldade llpolJo ou à culLura somótlco do
nosso Lempoţ onde aparece um Llpo de eo mals epldermlco e flexlvelţ que se exlbe na superflcle da pele
e das LelasŦ 8eferemŴse Lambem às personalldades oltetJltlqlJos e não mals lottoJltlqlJosţ consLruções
de sl orlenLadas para o olhar alhelo ou ºexLerlorlzadas"ţ não mals lnLrospecLlvas ou lnLlmlsLasŦ Lţ
lncluslveţ são anallsadas as dlversas blolJeotlJoJesţ desdobramenLos de um Llpo de sub[eLlvldade que se
flnca nos Lraços blológlcos ou no aspecLo flslco de cada lndlvlduoŦ Þor Ludo lssoţ cerLos usos dos blogsţ
foLologsţ webcoms e ouLras ferramenLas como o CrkuL e o ?ou1ube serlam esLraLeglas que os su[elLos
conLemporâneos colocam em ação para responder a essas novas demandas socloculLuralsţ ballzando
ouLras formas de ser e esLar no mundoŦ
Þor Lodos esses moLlvosţ caberla formular uma deflnlção mals preclsa daqueles personagens
que foram premlados com LanLo glamour como as personalldades do momenLoť vocêţ eo e Lodos oósŦ Se
perslsLlrem as condlções aLuals (e por que não haverlam de perslsLlr?)ţ dols Lerços da população mundlal
nunca Lerão acesso à lnLerneLŦ L malsť uma boa parLe dessa genLe ºcomum" sequer Lerá ouvldo falar dos
blogs ou do reluzenLe ?ouLubeţ do Second Llfe ou do CrkuLŦ Lsses bllhões de pessoasţ que no enLanLo
hablLam esLe mesmo planeLaţ são os ºexcluldos" dos paralsos exLraLerrlLorlals do clberespaçoţ
condenados à clnza lmobllldade local em plena era mulLlcolorlda do markeLlng globalŦ L o que Lalvez se[a
alnda mals penoso nesLa socledade do espeLáculoţ onde só é o que se vêť nesse mesmo gesLoţ Lal
conLlngenLe Lambem e condenado à lnvlslbllldade LoLalŦ
volLando àqueles eo e você que esLão se converLendo nas personalldades do momenLoţ reLorna
a pergunLa lnlclalť como alguem se Lorna o que e? nesLe casoţ pelo menosţ a lnLerneL parece Ler a[udado
basLanLeŦ Ao longo da ulLlma decadaţ a rede mundlal de compuLadores Lem dado à luz um amplo leque
de práLlcas que poderlamos denomlnar ºconfesslonals"Ŧ Mllhões de usuárlos de Lodo o planeLa Ŷ genLe
ºcomum"ţ preclsamenLe como eo ou você Ŷ Lôm se aproprlado das dlversas ferramenLas dlsponlvels onŴ
llneţ que não cessam de surglr e se expandlrţ e as uLlllzam para expor publlcamenLe a sua lnLlmldadeŦ
CerouŴseţ asslmţ um verdadelro fesLlval de ºvldas prlvadas"ţ que se oferecem despudoradamenLe aos
olhares do mundo lnLelroŦ As conflssões dlárlas de vocêţ eo e Lodos oós esLão alţ em palavras e lmagensţ
à dlsposlção de quem qulser blsbllhoLáŴlasŤ basLa apenas um cllque do mouseŦ Lţ de faLoţ LanLo você
como eo e Lodos oós cosLumamos dar esse cllqueŦ
A rede mundlal de compuLadores se Lornou um grande laboraLórloţ um Lerreno proplclo para
experlmenLar e crlar novas sub[eLlvldadesť em seus meandros nascem formas lnovadoras de ser e esLar
no mundoţ que por vezes parecem saudavelmenLe excônLrlcas e megalomanlacasţ mas ouLras vezes (ou
ao mesmo Lempo) se aLolam na pequenez mals rasa que se pode lmaglnarŦ Como quer que se[aţ não há
duvldas de que esses reluzenLes espaços da Web 2Ŧ0 são lnLeressanLesţ nem que se[a porque se
apresenLam como cenárlos bem adequados para monLar um espeLáculo cada vez mals esLrldenLeť o
show do Ŧ




ap|tu|o 6 Ŷ Lu f e o cu|to à persona||dade
no ensalo de WalLer 8en[amln dedlcado à morLe do narradorţ essa flgura agonlzanLe e
dellneada com os Lraços do arLesãoť aquele queţ ao conLar esLórlas reallza uma aLlvldade comparável à
do LecelãoŦ narrar serla uma forma arLesanal de comunlcação em várlos senLldosţ vlsLo que o conLador
de hlsLórlas não uLlllza apenas sua voz para Lecer os relaLosŤ ele Lambem Lrabalha com as mãosŦ Aquelas
mãos queţ após o advenLo da foLograflaţ Lambem foram llberadas das responsabllldades plcLórlcasţ em
provelLo de um olho cada vez mals soberanoŦ Po[e as mãos alnda dlglLam nos Lecladosţ mas e bem
provável que logo mals esse gesLo se[a dlspensadoţ para lngressar em um Lerreno cada vez mals dlsLanLe
daquele hablLado pelos narradores orlenLals que Lambem eram [ulgados por seu requlnLe callgráflcoŦ
Þols o Lecladoţ essa lnLerface alnda pouco amlgável para os parâmeLros aLualsţ remeLe à preŴ
hlsLórla analóglca das máqulnas de escrever eţ porLanLoţ parece condenada faLalmenLe à exLlnçãoŦ ue
faLoţ LanLo nos compuLadores como nos demals dlsposlLlvos que ho[e uLlllzamos Lão asslduamenLe para
nos comunlcar e expressarţ [á se percebe um movlmenLo em dlreção ao abandono dessa especle de
fóssll da escrlLa mecânlcaŦ Lssa Lendôncla se apóla no aperfelçoamenLo das lnLerfaces de vozţ por
exemploţ cu[as prlmelras versões esLão dlsponlvels no mercado há algum Lempoť esses dlsposlLlvos
uLlllzam uma ferramenLa de sofLware capaz de reconhecer os sons da voz do usuárloţ dlglLallzando a fala
para Lransformar os fonemas em leLras escrlLasŦ LvlLaŴseţ desse modoţ a necessldade de dlglLar o LexLo
leLra por leLra presslonando as Leclas com os dedosŦ 1udo aconLeceţ enLãoţ na Lelaţ e o relaLo devem
lnLelramenLe audlovlsualŦ
!á ºna verdadelra narraçãoţ a mão lnLervem declslvamenLe"ţ dlz 8en[amlnţ ºcom seus gesLos
aprendldos na experlôncla do Lrabalhoţ que susLenLam de cem manelras o fluxo do que e dlLo"Ŧ Þor Ludo
lssoţ o narrador ben[amlnlano não e um arLlsLaţ mas algo basLanLe dlferenLeť ele e um arLesãoŦ A
oposlção enLre ambas as flguras poderla se resumlr da segulnLe formaŦ C artesão e aquele que €oz
alguma colsaţ apllcando sua desLreza e seu domlnlo de uma Lecnlca para exercer um oflcloţ e como
resulLado desse Lrabalho ele produz algo Ŷ no casoţ os relaLos narradosŦ !á o art|sta não se deflne
necessarlamenLe como aquele que faz alguma colsaţ mas como aquele que é alguemŦ Pá uma cerLa
essenclalldade no set arLlsLa que val alem da práLlca de um oflclo e que pode lncluslve chegar a
dlspensar a enfadonha Larefa de produzlr uma obraŦ L posslvel lr alnda mals longeť de acordo com esLa
deflnlção essenclallsLaţ se o su[elLo possul essa preclosa essônclaţ algo asslm como uma ºpersonalldade
arLlsLlca"ţ enLão os prlnclpals lngredlenLes que o deflnem como Lal [á esLão presenLesŦ Mesmo que a
obra alnda não exlsLaţ ela permanece de algum modo em laLôncla e Ludo lndlca que será de faLo
produzldaţ pols a sua reallzação nada mals serla do que uma mera consequôncla quase naLural desse set
arLlsLa que hablLa uma Lal sub[eLlvldadeŦ L por lsso que o auLor e um arLlsLať alguem que éţ sem preclsar
Lalvez nem mesmo fazer nada para conLlnuar a ser ele próprlo asslm deflnldoŦ
L agoraţ como LransmuLam Lodas esLas flguras no conLexLo conLemporâneo? Aqueles que
recorrem às dlversas ferramenLas de auLoconsLrução e de auLoŴexposlção dlsponlvels na lnLerneL se
parecem mals dlreLamenLe com a flgura do auLorŴarLlsLa do que com aquela sllhueLa arcalca do
narradorŴarLesãoŦ não obsLanLeţ de que Llpo de auLor ou arLlsLa se LraLa?
Lmbora a desaparlção do auLor e a sua hlbrldlzação com o lelLor Ŷ ou com o especLador Ŷ
flgurem enLre os Lóplcos preferldos dos anallsLas dos novos gôneros da Web 2Ŧ0 e das dlversas
manlfesLações das arLes conLemporâneasţ e forLe a LenLação de sugerlrţ aqulţ que ho[e essa
problemáLlca esLarla fora de Loda quesLãoŦ C assunLo vem sendo calorosamenLe dlscuLldo pelo menos
desde as decadas de 1960 e 1970ţ masţ apesar de manLer Loda sua aLualldade em algumas das áreas
mals poLenLes da nossa culLuraţ Lambem e dlflcll lgnorar que nesses campos Lão lmpregnados pela lóglca
mldláLlca e mercadológlca esse debaLe ho[e se revesLe em um Lom anacrônlcoŦ C próprlo 8oland
8arLhesţ um de seus arauLos mals enLuslasLasţ fornece uma chave capaz de expllcar Lamanha vlrada
hlsLórlcať o reLorno LrlunfanLe daquele ºLlrano"ţ poucos anos depols de sua morLe Lão coplosamenLe
anuncladaŦ Lm 1968ţ o crlLlco francôs conclula asslm seu famoso ensalo lnLlLuladoţ preclsamenLeţ A
motte Jo oototť ºÞara devolver à escrlLa o seu devlrţ e preclso lnverLer seu mlLoť o nasclmenLo do lelLor
Lem de pagarŴse com a morLe do AuLor"Ŧ Mas as colsas Lôm mudado basLanLe nos ulLlmos anosť
Lranscorrldas quaLro decadas da promulgação desse dlgno assasslnaLo Ŷ em slgnlflcaLlva colncldôncla
com a publlcação de A socleJoJe Jo espetócoloţ de seu conLerrâneo Cuy uebord Ŵţ agora e esse
magnlflco lelLor quem parece agonlzarŦ L em uma conLraparLlda não lsenLa de lronlaţ o mlLo do auLor
ressusclLa com Lodos seus lmpeLosŦ
1alvez o argumenLo esLaLlsLlco se[a convlncenLeť calculaŴse que nos LsLados unldos se perderam
vlnLe mllhões de lelLores em poLôncla nos ulLlmos dez anosŦ L preclso conslderar que lsso ocorreu em
um dos palses com malores lndlces de lelLura do mundoŦ A ouLra face desse processo e que a
quanLldade de escrlLores aumenLou quase um Lerço no mesmo perlodoţ passando de onze para caLorze
mllhõesŦ Algo semelhanLe parece esLar ocorrendo em uma nação Lão dlferenLe como o 8rasllţ que
osLenLa lndlces elevados de analfabeLlsmo (20Ʒ em 1991Ť 14Ʒ uma decada depols) e na qual Lrôs
quarLos do resLo da população correspondem à caLegorla de analfabeLos funclonalsŦ L mulLo pequenaţ
porLanLoţ a parcela dos brasllelros que consLlLuem o publlco lelLor de llvrosţ um conLlngenLe que alnda
asslm abrange enLre vlnLe e LrlnLa mllhões de pessoasŦ LnquanLo o LoLal de llvros vendldos no LerrlLórlo
naclonal se manLeve praLlcamenLe ldônLlco na ulLlma decada Ŷ denoLando cerLa esLabllldade na
quanLldade de lelLores ou de consumldores de llvroţ apesar do aumenLo da população e da dlmlnulção
do analfabeLlsmo Ŷ dobrouŴse o numero de LlLulos lançados por anoŦ 1udo lsso sugere um lncremenLo
equlvalenLe da dlversldade de auLoresŦ Lm uma colncldôncla que não serla prudenLe aLrlbulr ao mero
acasoţ allásţ o 8rasll e o pals do mundo que possul mals usuárlos de foLologs e da rede de
relaclonamenLos CrkuLţ superando amplamenLe Lodos os demalsŦ
Lssas novldades evldenclam algo que afeLa a crlação arLlsLlca conLemporânea em Lodos seus
flancosť ºa produção da arLe glra em Lorno da exposlção da arLeţ que por sua vez glra em Lorno da
produção de exposlções"ţ aponLa ÞeLer SloLerdl[kŦ A enorme engrenagem que ho[e comanda a lndusLrla
culLural eţ aclma de Ludoţ uma ºmáqulna de mosLrarţ que [á faz longo Lempo e mals poderosa que
qualquer obra lndlvldual a ser exposLa"Ŧ Lsse glganLesco mecanlsmo de fabrlcação de exposlções e
fesLlvalsţ com seu combusLlvel mercanLll e suas Lurblnas mldláLlcasţ LornouŴse auLônomoť agora
funclona por sl só e preclsa de allmenLação consLanLeţ embora pouco lmporLa quals são os nuLrlenLes
que lhe são mlnlsLrados a cada LemporadaŦ C que lnLeressa e Lornar vlslvel Ŷ eţ sobreLudoţ LornarŴse
vlslvelŦ ºPo[e em dla os poderes crladores de obra se lnvesLem a sl mesmos nos aparaLos que regem a
vlslbllldade"ţ conLlnua o fllósofo alemãoţ ºa exposlção de sl mesmas por parLe das felrasţ museus e
galerlas Lem usurpado o lugar da uLoŴrevelação das obrasŤ Lem forçado nas obras o háblLo da
auLopromoção"Ŧ
CuLro caso dlgno de aLenção ocorreu na edlção de 2003 da 8lenal lnLernaclonal do Llvro no 8lo
de !anelroţ quando fol reglsLrado um lnsóllLo recorLe de publlcoŦ Þoremţ uma pesqulsa efeLuada no local
descobrlu que mulLas das cenLenas de mllhares de vlslLanLes Lampouco eram lelLoresŤ algunsţ lncluslveţ
[amals Llnham lldo um llvro sequerŦ C aparenLe paradoxo se expllcaţ em parLeţ ao consLaLar quem fol um
dos auLores mals assedlados do evenLoţ com LumulLos de fãs que pedlam auLógrafosţ vendas de llvros
aLe esgoLar a ampla Llragem e sollclLações de enLrevlsLas por parLe da mldlaŦ 1raLaŴse de !ean Wlllysţ que
acabara de vencer a qulnLa monLagem do teollty sbow 8lq 8totbetŦ
Aqueles que foram à 8lenal para adqulrlr os relaLos auLoblográflcos de !ean Wlllys querlamţ
aparenLemenLeţ ver de perLo o personagem que aLe enLão só Llnham vlsLo na Lellnha do LelevlsorŦ uma
celebrldade da 1v queţ sublLamenLeţ Lambem se converLera em auLor e narrador llLerárloţ mas seu
papel como personagem conLlnuava sendo o mals lmporLanLe de LodosŦ C publlco não querla apenas vôŴ
lo na realldadeţ mas Lambem comprar seu llvroŤ de preferônclaţ com uma dedlcaLórla asslnada pelo
auLor na prlmelra páglnaŦ L levaŴlo para suas casasţ embora não fosse necessarlamenLe com a lnLenção
de lôŴloŦ Mesmo sendo um pouco carlcaLural Ŷ ou Lalvez preclsamenLe por lsso Ŵţ esse eplsódlo pode
servlr para llumlnar algumas aresLas desse lnchaço Lão aLual da flgura do auLorţ pols há várlos paradoxos
dlgnos de serem explorados nesLe fenômenoŦ um deles e que a ameaça de morLe agora não palra
apenas sobre o lelLorţ mas Lambem sobre uma velha companhelra de ambosť a obraŦ C caso de !ean
Wlllys e basLanLe emblemáLlcoţ porque sua obra e ele próprloť a obra desse auLor conslsLe em sua
próprla Lransformação em personagemŦ uma obra efômeraţ presumlvelmenLe condenada à fugacldade
das modas de Lemporadaţ mas e lsso o que esLava à venda na 8lenal e e lsso o que o publlco comprouŤ
não exaLamenLe Ŷ ou não apenas Ŷ um llvro à moda anLlgaŦ
uesse modoţ LanLo a flgura do arLlsLa como um ser especlalţ com uma forLe marca lndlvldual
que o dlsLlngue Ŷ um eo Lrlunfal Ŵţ quanLo os ob[eLos por ele crladosţ ou sequer aqueles que ele Loca
com suas mãos ou que alguma vez Lenham passado perLo de sua auraţ Lodos se Lornam sublLamenLe
auráLlcos graças a uma operação meLonlmlca de Lransferôncla de valoresŦ As vezesţ lncluslveţ parecem
alnda mals saLurados de aura do que a evenLual obra de arLe por ele crladaŦ 1udo lsso deve ser fruLoţ
Lambemţ da dllaLação do concelLo de arLe ocorrlda ao longo do seculo xxţ que não delxa de espelhar a
lnuslLada expansão da sub[eLlvldade do arLlsLa como uma lnsLâncla crladora de valorŦ Asslmţ Ludo aqullo
que Llver algum conLaLo com a vlda do arLlsLa e ou pode serţ de alguma manelraţ Lransformado em arLeŦ
ºC rel Mldas esLá por Loda parLe"ţ llusLra ÞeLer SloLerdl[kŦ
Cabe conclulrţ porLanLoţ que essa hlperLrofla da flgura do auLor esLlllzada na mldlaţ que empurra
a obra para um segundo plano e chega aLe a [usLlflcar sua ausôncla Ŷ colocando sua personalldade e sua
vlda prlvada no mals óbvlo prlmelro plano Ŷ provavelmenLe esLe[a lndlcando uma nova modulação da
funçãoŴauLorŦ uma mudança que se evldencla em Lodos os aconLeclmenLos e dados aqul menclonadosţ
nos quals os melos de comunlcação e o mercado desempenham um papel prlmordlalŦ Mas essa Lorção
Lambem se expressaţ de manelra parLlcularmenLe lnLensaţ nas novas práLlcas auLoblográflcas da
lnLerneLţ bem como nos fenômenos de espeLacularlzação da personalldade e exlblção da lnLlmldade que
lnvadlram Lodos os melos de comunlcaçãoŦ
A referôncla à vlda prlvada do auLor pode ser mals um aspecLo da alusão ao realţ como parLe da
exLensa llsLa de recursos de verosslmllhança que emprega argumenLos do Llpo ºlsLo realmenLe
aconLeceu"ţ ºe Ludo verdade"ţ ºbaseado em faLos reals"ţ ºuma hlsLórla verldlca"Ŧ Lmbora amplamenLe
uLlllzados nos dlversos gôneros de flcção ao longo da hlsLórlaţ Lals arLlmanhas reLórlcas e esLlllsLlcas
foram mudando com o Lranscorrer dos LemposŦ Cs romances de cavalarlaţ por exemploţ raramenLe
dlspensavam uma noLa lnLroduLórla que remeLla a orlgem do LexLo a um manuscrlLo enconLrado por
acasoŤ asslmţ aLrlbulaŴse veracldade ao relaLo apelando para a auLorldade quase sacra de um LexLo
anLerlorŦ !á na epoca de ouro do romance modernoţ no apogeu do esLllo naLurallsLa e dos códlgos
reallsLas nas narraLlvas de flcçãoţ os recursos de verosslmllhança não remeLlam ao peso auLoral de
LexLos precendenLesţ mas à vlda realŦ Lm cerLos casosţ lncluslveţ à próprla vlda (prlvada) do auLorŦ
Ao se converLer em uma celebrldade que vende ob[eLos de grlfeţ o arLlsLa Locado com a varlnha
máglca da mldla e do mercado se dlsLancla deflnlLlvamenLe do arLesãoŦ !á não preclsa fazer mals nada
com suas mãosŦ 8asLa apenas que dele emane uma boa dose de excenLrlcldade palaLávelţ e que obLenha
a porção necessárla de vlslbllldade para lmpor e vender cerLa lmagem Ŷ ouţ plor alndaţ um ºconcelLo"Ŧ
Sob essas novas regras do [ogoţ será a fulguranLe personalldade do arLlsLa que empresLará seu senLldo à
obraţ e não o conLrárloŦ
Þols o que e arLe ho[e em dlaţ de acordo com essa avarenLa deflnlção excluslvamenLe
mercadológlca e mldláLlca? nada mals dlsLanLe daquela experlôncla Lransformadora ou desnorLeanLe
que procura lnvenLar os novos modos de experlmenLar o mundo e a vldaţ ou mesmo de uma experlôncla
qualquer que busque acender um lampe[o ou uma vlbraçãoŦ Lm lugar de aposLar ao desconhecldoţ em
vez de apagar a marca auLoral com um esLllhaço de senLldo (ou de semŴsenLldo) e demollr a aura
sempre reclclada dos novos museus e galerlasţ abrlndo as porLas para um dlálogo crlLlco com as dores e
dellclas da vlda conLemporâneaŤ ao lnves de Ludo lssoţ essa deflnlção e pobremenLe LauLológlcaŦ ArLe e
aqullo que fazem essas excônLrlcas celebrldadesţ os arLlsLas mals bem coLados do momenLo Ŷ mesmo
seţ em rlgorţ essas personalldades nada €ozemţ pols basLa apenas que eles salbam set arLlsLasŦ lsso
slgnlflcaţ em grande parLeţ saber esLampar sua asslnaLura no local cerLoţ como ocorre com as grlfes de
luxo ou com os auLógrafos das esLrelasŦ Lţ claroţ Lambem e necessárlo saber mosLrar essa marca e ser
capaz de vendeŴla Ŷ de preferôncla caraţ mulLo caraŦ
Mas o faLo e que essa proflsslonallzação de cunho empresarlal não esLá ocorrendo apenas nas
arLes plásLlcasţ com esse sublLo enalLeclmenLo das flguras do curador e do coleclonadorŦ Þrocessos
semelhanLes se dão em ouLros campos das arLes conLemporâneasŤ na llLeraLura com os edlLoresţ na
muslca com os produLoresţ no clnema com os flnancladores e dlsLrlbuldores eLcŦŦ AgenLes cu[a Larefa
ho[e resulLa lmpresclndlvelţ ao menos para Lodos aqueles arLlsLas que asplram à consagração do
mercadoţ porque em Lodos os casos e cruclal a eflcácla desses lnLermedlárlos na conqulsLa do campo
vlsualť opotecet nos melos de comunlcaçãoŦ uma vez consumada essa allança Ŷ ou esse negóclo Ŵţ al slmţ
ho[e qualquer um pode ser arLlsLaŦ
Com a desculpa de enrlquecer os senLldos da obra e aprofundar sua compreensãoţ supõeŴse que
esses mecanlsmos exLraŴllLerárlos Ŷ que glamurlzam a flgura de um auLor com revelações e con[ecLuras
sobre sua vlda prlvada Ŷ podem conLrlbulr para aumenLar as vendas dos llvros por eles escrlLosŦ Lţ quem
sabeţ Lalvez aLe poderlam desperLar a curlosldade que evenLualmenLe levarla a ler Lals obrasŦ
LnLreLanLoţ parece claro que não e lsso o que realmenLe lnLeressaţ nessas esLraLeglas orquesLradas
pelos melos e pelo mercadoŦ A obraţ novamenLeţ relegaŴse para um segundo planoŦ Þorque o
lmporLanLe e a personalldadeť o que desperLa a malor curlosldade e a vlda prlvada do arLlsLaţ os
pormenores de sua lnLlmldade e seu pecullar modo de serŦ L lsso o que esLá à vendaţ e e lsso o que o
publlco cosLuma comprarŦ
Apesar de Loda a reLórlca das vldas comuns e mulLo embora elas Lenham sldo pessoas como
qualquer umţ de acordo com as esLraLeglas sub[acenLes à dlfusão dos fllmesţ e mulLo lmporLanLe que
essas arLlsLas Lenham exlsLldo no mundoŦ L fundamenLal que elas Lenham proLagonlzado vldas realsŦ Lţ
curlosamenLeţ Lambem e prlmordlal que Lenham sofrldo e que (não) Lenham resolvldo esses lmpasses
aLraves da escrlLa de suas obrasţ exLerlorlzando asslm seus confllLos lnLerlores e crlando genulnas obras
de arLeŦ Þols se não Llvessem felLo lssoţ ho[e não serlam conslderadas arLlsLas exLraordlnárlasţ e não
serlam resgaLadas para serem espeLacularlzadas em seus papels de pessoas suposLamenLe comunsŦ
Asslmţ lmpregnadas pela lóglca do espeLáculo mldláLlcoţ as envelhecldas flguras do auLor e do
arLlsLa LransmuLaram em sua versão mals aLualť converLemŴse em celebrldadesŦ Cu se[ať um Llpo
parLlcular de mercadorlaţ revesLldo com cerLo vernlz de personalldade arLlsLlcalţ mas que dlspensa Loda
relação necessárla com uma obraŦ L por lsso que os escrlLores flcclonallzados no clnema consLlLuem
bons exemplos desses fenômenos Lão conLemporâneosť agora podem coleLar admlradores ou
deLraLores Ŷ não necessarlamenLe lelLores Ŷ como personagens que proLagonlzam dramas prlvadosţ
embora publlclLados com Lodos os alardes nas Lelas globalsŦ ÞaralelamenLeţ LurvaŴse sua condlção de
auLores com lnfluôncla publlca no senLldo modernoŦ