SOBRE A ONIPRESENÇA DE DEUS

John Wesley “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? diz o Senhor. Porventura não encho eu o céu e a terra? diz o Senhor”. (Jeremias 23:24) 1. Quão fortemente e belamente essas palavras expressam a Onipresença de Deus! E pode existir em todo o alcance da natureza um assunto mais sublime? Pode existir algo mais merecedor de consideração de toda criatura racional? Existe alguma coisa mais necessária a ser considerada, e a ser entendida, até onde nossas pobres faculdades permitirão? Quantos excelentes propósitos ela pode responder! Que profunda instrução ela pode transmitir a todos os filhos dos homens! E mais diretamente aos filhos de Deus. 2. Como é, então, que tão pouco tem sido escrito sobre tão sublime e proveitoso tema? É verdade que alguns de nossos mais eminentes escritores têm ocasionalmente tocado nele, e possuem diversas reflexões convincentes e bonitas que foram naturalmente sugeridas por ele. Mas qual deles publicou um tratado regular, ou mesmo um sermão, sobre o assunto? Talvez, muitos estivessem conscientes de suas inabilidades para fazer justiça à tão vasto assunto. É possível, possam existir algumas tais mentiras ocultas nos volumosos escritos do século passado. Mas, se elas estão ocultas, até mesmo, em suas próprias regiões, se elas já estão enterradas no esquecimento, dá no mesmo, qualquer que seja o uso delas, como se elas nunca tivessem sido escritas. 3. O que parece faltar ainda, para o uso geral, é um discurso claro sobre a onipresença ou ubiqüidade de Deus. I. II. III. Em Primeiro Lugar, de alguma maneira explicar e provar aquela gloriosa verdade: “Deus esta neste, e em toda a parte”. E, então, aplicando-a as consciências de todos os homens racionais. Algumas inferências práticas. I 1. Assim sendo, eu me esforçarei, pela assistência de seu Espírito, primeiro explicar um pouco a onipresença de Deus; mostrar como devemos entender esta gloriosa verdade: “Deus está nesta, e em toda parte”. O salmista, você pode lembrar, fala enfaticamente e belamente sobre ela, no centésimo trigésimo nono Salmos; observando na mais exata ordem: Primeiro, “Deus está neste lugar”; e, então, “Deus está em todo lugar”. Ele observa, Primeiro, “Tu estáa ao redor de minha cama, e em volta do meu andar, e espias todos os meus caminhos” (Salmos 139:3). “Tu tens me moldado, por todos os lados, e colocado sua mão sobre mim”. (Salmos 139:5). Embora a maneira disto, ele não poderia explicar; como foi, ele não poderia dizer. “Tal conhecimento”, diz ele, “é tão maravilhoso para mim: Eu não posso atingi-lo”. (Salmos 139:6). Ele, a seguir, observa, da maneira mais vibrante, e efetiva, que Deus está em todo lugar. “Para onde, eu irei do teu Espírito, para onde fugirei da tua presença? Seu eu subir aos céus, tu estás lá; se eu descer ao

inferno, tu lá estás também” (Salmos 139:7-8). Se eu ascendesse, falando à maneira de homens, para a parte mais alta do universo, ou descesse para o ponto mais inferior, tu igualmente estás presente em ambos, em um e em outro. “Seu eu tomasse as asas da manhã, e permanecesse nas partes mais extremas do mar; até mesmo lá, tua mão me conduziria”, -- teu poder e tua presença estariam perante mim, -- “e tua mão direita me seguraria”, vendo que tu estás igualmente, no comprimento e largura, e na altura e profundidade do universo. Na verdade, tua presença e conhecimento não apenas alcançam os limites mais extremos da criação; mas ... Tua visão onipresente, Mesmo até os reinos intransitáveis se estende Da noite não criada. Em uma palavra, não existe um ponto do espaço, quer dentro ou fora dos limites da criação, onde Deus não está. 2. Na verdade, este assunto é também amplo para ser compreendido pelos limites estreitos do entendimento humano. Nós podemos apenas dizer: O grande Deus, o eterno, o Espírito Altíssimo, é ilimitado em sua presença, quanto em sua duração e poder. Em condescendência, na verdade, a nosso fraco entendimento, diz-se que ele habita no céu; mas, estritamente falando, o céu dos céus não pode contê-lo; mas ele está em todas as partes do seu domínio. O Deus universal habita no espaço universal; de maneira que podemos dizer: Salve, Pai! Cuja criação chama A incontáveis mundos atende! Jeová, compreendendo tudo, A quem ninguém pode compreender! 3. Se nos atrevermos a tentar uma ilustração disto, um pouco mais adiante, o que é o espaço ocupado por um grão de areia, comparado àquele, ocupado pelos céus estrelados? É como uma cifra; é nada; ele desaparece na comparação. O que é ele, então, para toda a expansão do espaço, ao qual o todo da criação é infinitamente menos do que um grão de areia? E, ainda assim, este espaço, para o qual o todo da criação não mantém proporção, afinal, é infinitamente menor, em comparação ao grande Deus, do que um grão de areia; sim, uma milionésima parte dele, comparado à totalidade daquele espaço. II 1. Este parece ser o significado claro daquelas solenes palavras que Deus fala de si mesmo: “Eu não preencho céus e terra?”. E estas provam suficientemente sua onipresença; a qual pode ainda ser provada desta consideração: Deus age, em todos os lugares, e, portanto, está em todos os lugares; porque se trata de uma impossibilidade total que algum ser criado, ou não criado, possa desenvolver-se, onde a sua presença não está. Deus age no céu, na terra, e debaixo da terra, através de todo o alcance da sua criação; sustentando todas as coisas, sem o que, tudo, mergulharia, em um só instante, em seu primitivo nada; governando tudo, todo o momento, dirigindo tudo, e, ainda assim, sem

destruir a liberdade de suas criaturas racionais. Os próprios ateus reconhecem que o grande Deus governa as partes conspícuas e maiores do universo; que ele regula os movimentos dos corpos celestes, do sol, lua, e estrelas; que ele é Totam Mens agitans molem, et magno se corpore miscens: A alma do todo, Que preenche, penetra e impulsiona o todo. Porém, eles não tinham o entendimento de que Deus dá atenção à menor das coisas, assim como à maior; o entendimento do fato dele presidir sobre tudo que Ele criou, e governar átomos, assim como mundos. Isto nós não poderíamos saber, a menos que agradasse a Deus revelar isto de si mesmo. Não tivesse Ele mesmo nos informado assim, nós não teríamos nos atrevido a pensar que “nenhum pardal cai ao chão, sem a vontade de nosso Pai que está no céu”, e muito menos afirmar que, “até mesmo os fios de cabelos de nossa cabeça são todos numerados!”. 2. Esta confortável verdade de que “Deus preenche céus e terra”, nós aprendemos também do Salmo acima citado: “Se eu subir ao céu, tu estás lá; se eu descer ao inferno, tu também estás. Se eu tomar as asas da manhã, e permanecer nas partes mais extremas do mar; até mesmo lá, tua mão me guiará”. O significado claro é: se eu me deslocar para alguma distância que seja, tu estás lá; tu ainda me cercas, e colocas tua mão sobre mim. Permite-me voar para alguma distância concebível ou inconcebível; acima, abaixo, ou de qualquer lado: não faz diferença; tu ainda estás igualmente lá: Em ti, eu ainda “vivo, e me movo e tenho minha existência”. 3. E onde nenhuma criatura está, ainda assim, Deus está lá. A presença ou ausência de alguma ou de todas as criaturas não faz diferença com respeito a ele. Ele está igualmente em tudo, ou na ausência tudo. Muitas têm sido as disputas em meio aos filósofos, se existe tal coisa como espaço vazio no universo; e hoje geralmente se supõe que todo o espaço esteja cheio. Talvez, não possa ser provado que todo o espaço esteja preenchido com matéria. Mas o próprio ateu testemunhará conosco: Jovis omnia plena: “Todas as coisas estão cheia de Deus”. Sim, e o espaço existe além dos limites da criação (porque a criação deve ter limites, uma vez que nada é ilimitado, nada pode ser, a não ser o grande Criador), até mesmo este espaço não pode excluir aquele que preenche o céu e terra. 4. Exatamente equivalente a isto é a expressão do Apóstolo em (Efesios 1:23, não, como alguns estranhamente têm suposto, concernente à Igreja, mas concernente ao Chefe dela): “A plenitude Dele que preenche tudo em todos”; ta panta en pasin, literalmente traduzida: “todas as coisas em todas as coisas”, -- a mais forte expressão da universalidade que pode possivelmente ser concebida. Ela necessariamente inclui a última e a maior das coisas que existe. De maneira que se alguma expressão pudesse ser mais forte, ela seria mais forte do que, até mesmo, esta: -- o “preencher céus e terra”.

5. Na verdade, esta mesma expressão: “Eu não preencho céus e terra?” (a questão sendo igual a mais forte afirmação), implica a mais clara declaração de que Deus está presente, em todos os lugares, e preenche todos os espaços; porque é bem sabido que a frase hebraica, “céus e terras”, inclui todo o universo, toda a extensão do espaço, criado ou não criado, e tudo que nele há. 6. Mais do que isto, nós não podemos acreditar na onipotência de Deus, a menos que acreditemos em sua onipresença; porque, uma vez que, como foi observado antes, nada pode agir onde não existe, -- se houver algum espaço, onde Deus não esteja presente, ele não seria capaz de fazer alguma coisa lá. Conseqüentemente, negar a onipresença de Deus implica, igualmente, o negar de sua onipotência. Estabelecer limites para um é, indubitavelmente, estabelecer limites para o outro também. 7. De fato, onde quer que suponhamos que ele não esteja, lá supomos que todos os seus atributos sejam em vão. Ele não pode exercitar lá, quer sua justiça ou misericórdia; quer seu poder ou sabedoria. Em um espaço extramundano (por assim dizer), onde supomos que Deus não esteja presente, nós devemos, é claro, supor que ele não tenha duração; mas como se supõe que isto esteja além dos limites da criação, então, está além dos limites do poder do Criador. Tal é o absurdo blasfemo que está implícito nesta suposição. 8. Mas tudo que é, ou pode ser dito da onipresença de Deus, o mundo faz uma grande objeção. Eles não podem vê-lo. E isto está realmente na raiz de toda as outras objeções dele. Isto nosso abençoado Senhor observou há muito tempo: “De quem o mundo não pode receber, porque eles não o vêem”. Mas não é fácil responder. “Você pode ver o vento?”. Não pode. Mas você pode, no entanto, negar sua existência, ou sua presença? Você diz: “Não, porque eu não posso conceber isto pelos meus outros sentidos”. Mas, através de qual dos seus sentidos, você percebe sua alma? Certamente, você não nega a existência ou a presença dela! E ainda assim, ela não é o objeto de sua visão, ou de algum de seus outros sentidos. É suficiente, então, considerar que Deus é um Espírito, como é nossa alma também. Conseqüentemente, “nenhum homem o viu, ou poderá ver”, com os olhos da carne e sangue. III 1. Mas, admitindo que Deus está aqui, assim como em toda parte, que ele está “em volta de nossa cama, e em nossos passos”; que ele “nos cerca por trás e pela frente, e coloca sua mão sobre nós”; que conclusão, nós poderemos traçar disto? Que uso, nós poderemos fazer desta terrível consideração? Não é adequado e correto nos humilharmos diante dos olhos de sua Majestade? Nós não deveríamos trabalhar continuamente para reconhecermos sua presença “com reverência e temor divino?”. E não, na verdade, com o temor dos demônios, que acreditam e tremem, mas com o temor de anjos, como alguma coisa similar àquele que é sentido pelos habitantes do céu, quando... Escuridão, com excessiva luz, suas bordas mostram Ainda assim, ofuscam os céus, para que o mais brilhante Serafim Não se aproxime, mas com ambas as asas velem os olhos deles.

2. Em Segundo Lugar. Se vocês acreditam, que Deus está ao redor da suas camas, e em seus passos e inspeciona todos os seus caminhos, então, cuidem de não fazer a menor coisa, não falar a menor palavra, não favorecer o menor pensamento que vocês tenham razão para pensar que ofenderia a ele. Suponham que um mensageiro de Deus, um anjo, esteja agora do seu lado direito, e fixando os olhos dele em vocês, vocês não cuidariam de abster-se de toda palavra e ação que vocês soubessem ofenderiam a ele? Sim, suponham que um de seus mortais colaboradores; suponham apenas que um homem santo permaneceu ao lado de vocês, vocês não seriam extremamente cautelosos em como se conduzirem a eles, ambos em palavra e ação? Quanto mais cuidadosos vocês deveriam ser, quando vocês soubessem que não apenas um homem santo, não somente o anjo de Deus, mas o próprio Deus, o Espírito Santo, “que habita a eternidade”, está inspecionando os corações de vocês, suas línguas, suas mãos, todo o momento; e que ele mesmo certamente trará vocês a julgamento, por tudo que vocês pensam, falam e agem, sob o sol! 3. Especificamente: Se não existe uma palavra em nossa língua; nem uma sílaba que vocês falem; mas ele “a conhece completamente”; quão cuidadosos vocês seriam ao “colocarem um vigia em suas bocas e ao manterem a porta dos seus lábios fechada!”. Quão prudente conviria a vocês, em todo o seu modo de vida; estando avisados por seu Juiz, que “pelas suas palavras, vocês podem ser condenados!”. Quão prudentes, a fim de que “alguma comunicação corrupta”, alguma comunicação não generosa; sim, ou discurso sem proveito, possam “derivar-se da boca de vocês”, em vez “daquilo que é bom para o uso da edificação, e adequado para ministrar graça aos ouvintes!”. 4. Sim, se Deus vê nossos corações, assim como nossas mãos, e em todos os lugares; se ele entende nossos pensamentos, muito antes que eles se revistam de palavras, quão sinceramente deveremos urgir aquela petição: “Sonda-me, ó Senhor, e me prova; testa minhas afeições e meu coração: observa bem, se existe alguma maldade em mim, e me conduze no caminho eterno!”. Sim, quão necessário é operar junto a ele, o “manter nossos corações com toda diligência”, até que ele “subjugue as imaginações”, as conjecturas diabólicas, “e tudo que exalta a si mesmo contra o conhecimento de Deus, e traga cativo todo pensamento para a obediência a Cristo!”. 5. Por outro lado, se vocês já estão inscritos, sob os cuidados do grande Capitão de sua salvação, e, uma vez que vocês estão continuamente, sob os olhos de seu Capitão, quão zelosos e ativos vocês deverão ser, para “lutarem a boa luta da fé, e se agarrarem firmes à vida eterna”; “suportarem as provações, como bons soldados de Cristo”; usarem de toda a diligência, “lutarem a boa guerra”, e fazerem o que quer que seja aceitável aos olhos dele! Quão cuidadosos, vocês deverão ser para terem todos os seus caminhos aprovados aos olhos dele, que tudo vêem; para que ele possa dizer aos seus corações, o que ele proclamará em voz alta, na grande assembléia de homens e anjos: “Bravo, bons e fiéis servos!” 6. Com o objetivo de alcançarem estas gloriosas finalidades, não poupem esforços para conservarem sempre um sentido profundo, contínuo, vivido, e alegre da graciosa presença de Deus. Nunca se esqueçam de sua palavra abrangente para o grande pai do fiel: “Eu sou o Altíssimo” (melhor, o Todo-suficiente) “Deus; caminhem perante mim, e sejam perfeitos!”. Alegremente, esperem que Ele, diante de quem você permanece, os guiará

sempre, através dos olhos dele, os apoiará, através de sua mão guardiã, os livrará de todo o mal, e “quando vocês tiverem suportado, por um tempo, ele os fará perfeitos, os firmará, fortalecerá e os assentará”; e, então, “os preservará imaculados, até a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Portsmouth, 12 de Agosto, 1788 [Editado por George Lyons para a Wesley Center for Applied Theology.] izilda bella