You are on page 1of 5

Sobre a Veste Nupcial

John Wesley

"E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial?". (Mateus 22:12)

1. Nos versos precedentes do texto nós lemos: "Depois dessas coisas, Jesus falou-
lhes novamente por parábolas, e disse: Um certo rei fez uma ceia para seu filho. E quando
o rei entrou para ver os convidados, ele viu alguém que não estava em veste nupcial. E ele
lhe disse: Amigo, como tu vens para cá e não tem uma veste nupcial? E ele ficou sem fala.
Então, disse o rei aos servos: Amarre-o, pés e mãos, e o jogue dentro da distante
escuridão, lá haverá choro e ranger de dentes".

2. Sobre esta parábola um de nossos mais célebres expositores comenta da seguinte


maneira: -- "O objetivo desta parábola é mostrar aquela graciosa provisão feita por Deus
aos homens na pregação, e através da pregação do Evangelho. Para convidá-los a isto,
Deus envia seus servos, Profetas e Apóstolos" – E nestas palavras: "Por que tu entraste não
tem veste nupcial?", ele prossegue assim: "A punição de que não deveria desencorajar-nos,
ou nos fazer voltar atrás nas ordenanças santas". Certamente, não deveria, mas nada deste
tipo pode ser inferido desta parábola, que não tem referência para as ordenanças, não mais
do que o batismo e casamento. E, provavelmente, nos nunca deveremos imaginar isto, mas
que a palavra ceia ocorrida nela.

3. No entanto, a maioria dos que comentam tem caído no mesmo erro que o Sr.
Burkitt. E assim têm milhares de seus leitores. Ainda assim, um erro certamente isto é; e tal
erro, como a não ter qualquer sombra de fundamento no texto. É verdade, de fato, que
ninguém deveria se aproximar da mesa do Senhor, sem uma preparação habitual, pelo
menos, se não verdadeira; ou seja, um firme propósito de manter todos os mandamentos de
Deus, e um desejo sincero de receber todas as suas promessas. Mas esta obrigação não pode
ser inferida deste texto, embora possa, de muitas outras passagens das Escrituras. Mas não
existe necessidade de textos múltiplos; um é tão bom quanto mil. Não há necessidade de
induzir homem algum de uma consciência terna, a comungar em todas as oportunidades,
mais do que aquele simples mandamento de nosso Senhor: "Faça isto, em lembrança de
mim".

4. Mas, qualquer preparação que seja necessária com o objetivo de sermos feitos
parceiros merecedores da Ceia do Senhor, não tem relação, afinal, com a "veste nupcial",
mencionada nesta parábola. Ela não pode: Porque aquela comemoração de sua morte não
foi, então, ordenada. Ela se refere totalmente aos procedimentos de nosso Senhor, quando
ele vem nas nuvens do céu para julgar o vivo e o morto; e para as qualificações que serão,
então, necessárias para herdar "o reino preparado para eles, desde a fundação do mundo".

5. Muitos homens excelentes, que estão totalmente informados disto – que estão
convencidos de que as vestes núpcias aqui mencionadas não devem ser entendidas como
alguma qualificação para a Ceia do Senhor, mas da qualificação para a glória, -- interprete
isto, como a retidão de Cristo; "que", dizem eles, "é a única qualificação para o céu; esta
sendo a única retidão, na qual qualquer homem pode permanecer no dia do Senhor.
Porque quem", eles falam, "irá, então, atrever-se a aparecer, diante do grande Deus, salvo
na retidão de seu bem amado Filho? Nós não devemos, então, pelo menos, se não antes,
estarmos na necessidade de termos uma melhor retidão do que a nossa própria? E que
outra pode esta ser do que a retidão de Deus, nosso Salvador?". O devoto e engenhoso Sr.
Hervey, falecido, transvasa largamente sobre isto, especificamente no seu elaborado:
"Diálogos entre Theron e Aspásio".

6. Um outro escritor distinto, agora, eu confio com Deus, fala fortemente para o
mesmo efeito no prefácio de seu comentário sobre a Epístola de Paulo aos Romanos: "Nós
certamente", diz ele, "precisamos de uma retidão melhor do que a nossa própria, onde
ficarmos, na corte de Deus, no dia do julgamento". Eu não entendo a expressão. Ela é
bíblica? Nós lemos na Bíblia, quer no Velho Testamento ou no Novo? Eu duvido. Esta não
é uma frase bíblica, é inadequada, e tem nenhum significado determinado. Se você quer
dizer, através daquela questão bizarra, inelegante: "Em cuja retidão você deverá estar no
ultimo dia?" -- através do que, ou através do mérito de quem você espera entrar na glória de
Deus? Eu respondo, sem a menor hesitação: pela causa de Cristo, o Justo. É através dos
méritos Dele somente que todos os crentes serão salvos; ou seja, justificados – salvos da
culpa – santificados – salvos da natureza, do pecado; e glorificado – recebido no céu.

7. Pode ser proveitoso passarmos algumas palavras mais sobre este importante
ponto. É possível delinear uma expressão mais ininteligível do que esta – "Sob que retidão,
nós deveremos permanecer diante de Deus no último dia?". Por que você não fala
claramente, e diz: "Através de quem você busca ser salvo?". Qualquer camponês poderia,
então, responder rapidamente: "Através de Jesus Cristo". Mas todas essas frases obscuras,
ambíguas, tendem apenas a complicar a causa, e abrir um caminho para os ouvintes
descuidados a escorregar para o Antinomianismo.

8. Existe alguma expressão similar a isto na "veste nupcial", para ser encontrada nas
Santas Escrituras? Em Apocalipse, nós encontramos menção feita do "linho, branco e
limpo, que é a retidão dos santos". E isto, também, muitos veementemente argumentam,
meios da retidão de Cristo. Mas como, então, podemos reconciliar isto, com aquela
passagem no sétimo capítulo: "Eles têm lavado suas vestes e as tornado brancas no sangue
do Cordeiro?". Eles dirão: "A retidão de Cristo foi lavada e feita branca no sangue de
Cristo?". Fora com esse tal jargão Antinominiano! E o claro significado não é este: -- Foi
do sangue redentor que a própria retidão dos santos derivou seu valor e aceitabilidade com
Deus?

9. No décimo-nono capítulo de Apocalipse, no nono verso, existe uma expressão


que vem para bem perto disto: -- "A Ceia de casamento do Cordeiro". [Apocalipse 19].
Existe uma semelhança entre esta e a ceia de casamento mencionada na parábola. Ainda
assim, elas não são completamente a mesma coisa: existe uma diferença clara entre elas. A
ceia mencionada na parábola pertence à Igreja Militante; que é mencionada em Apocalipse
como a Igreja Triunfante: Uma, para o reino de Deus na terra; a outra, para o reino de Deus
no céu. Assim sendo, na primeira, podem ser encontrados aqueles que não têm "vestes
núpcias". Mas haverá ninguém assim para ser encontrado na última: Não; não "em grande
quantidade que nenhum homem possa numerar, de toda afinidade e língua, e pessoas, e
nação". Eles serão "reis e sacerdotes junto a Deus, e deverão reinar com Ele para sempre e
sempre".

10. Esta expressão, "a retidão dos santos" indica o que é a "veste nupcial", na
parábola? É a "santidade, sem o que nenhum homem verá ao Senhor". A retidão de Cristo é,
sem dúvida, necessária, para qualquer alma que entre na glória: Mas assim é a santidade
pessoal também, para cada filho do homem. Mas é altamente indispensável ser observado
que elas são necessárias em diferentes aspectos. A primeira é necessária, para nos autorizar
para o céu; a última para nos qualificar para ele. Sem a retidão de Cristo, nós não podemos
ter pretensão à glória; sem a santidade, não teremos aptidão para isto. Através da primeira,
nós nos tornamos membros de Cristo, filhos de Deus, e herdeiros do reino do céu. Pelo
último, "somos feitos adequados para sermos parceiros na herança dos santos na luz".

11. Do momento em que o Filho de Deus entregou esta verdade valiosa para os
filhos dos homens – de que todos que não tiverem a "veste nupcial" seriam "lançados na
escuridão, onde estão o choro e o ranger de dentes", -- o inimigo das almas tem trabalhado
para obscurecê-la. Para que eles ainda possam buscar a morte no erro de suas vidas; e
muitos caminhos ele tem tentado, para dissimular a santidade, sem o que nós não
poderemos ser salvos. Quantas coisas têm sido impingidas, até mesmo, junto ao mundo
cristão, no lugar disto! Alguns desses são totalmente contrários a ela, e destruidores dela.
Alguns, de maneira alguma, estiverem ligados a ela, ou se relacionaram com ela; mas com
ninharias inúteis e insignificantes. Outros seriam considerados como fazendo parte dela,
mas, de modo algum, do todo. Pode ser útil enumerar algumas delas, a fim de que não
sejamos ignorantes aos conselhos de satanás.

12. Da primeira espécie das coisas prescritas como santidade cristã, embora que
plenamente contrária a ela, é a idolatria. Como isto tem, em várias formas, sido ensinada, e
o é até este dia, como essencial à santidade! Quão diligentemente isto circula em uma
grande parte da igreja cristã! Alguns de seus ídolos são a prata e o ouro, ou a madeira e a
pedra, "esculpida pela arte e astúcia do homem", alguns, homens de paixões iguais a si
mesmos, especialmente os Apóstolos de nosso Senhor e a Virgem Maria. A esses, eles
acrescentaram inúmeros santos de sua própria criação, com uma não pequena companhia de
anjos.

13. Uma outra coisa tão diretamente contrária a todo o teor da religião verdadeira é
aquilo diligentemente ensinado em muitas partes da Igreja cristã; eu quero dizer, o espírito
de perseguição; perseguindo seus irmãos, até mesmo até a morte; de modo que a terra tem
sido freqüentemente coberta com o sangue, através daqueles que são chamados cristãos,
com o objetivo de "tornar seu chamado e eleição certos". É verdade que muitos, até
mesmo na Igreja de Roma, que foram ensinados nesta horrível doutrina, agora parecem
estar envergonhados dela. Mas têm os líderes daquela comunidade, tão abertamente e
explicitamente renunciaram àquela doutrina capital dos diabos, quanto eles a admitiram no
Concílio de Constance, e a praticaram por muitas era? Até que eles tenham feito isto, eles
serão responsabilizados com o sangue de Jerome de Prague, basicamente assassinado, e de
muitos milhares ambos à vista de Deus e homem.
14. Que não seja dito: "Isto não diz respeito a nós Protestantes: Nós pensamos e
deixamos pensar. Nós abominamos o espírito de perseguição; e mantemos, como verdade
indiscutível, que toda criatura racional tem o direito de adorar a Deus, quando ele é
persuadido em sua própria mente". Mas nós somos verdadeiros com nossos próprios
princípios? Por enquanto, que nós não usemos fogo e feixes de varas. Que não persigamos
o sangue daqueles que não concordam com nossas opiniões. Abençoado seja Deus, as leis
de nossa região não permitem isto; mas tal coisa como a perseguição doméstica não é
encontrada na Inglaterra? O dizer, o fazer alguma coisa indelicada a outro por seguir sua
própria consciência é uma espécie de perseguição. Agora, nós estamos todos limpos disto?
Não existe um marido que, neste sentido, persegue sua esposa? Que usa de indelicadeza,
em palavras ou ação, por adorar a Deus, segundo sua [da esposa] própria consciência? Os
pais não perseguem assim seus filhos? Nenhum amo ou senhora, aos seus criados? Se eles
fazem isto, e pensam que fazem serviço a Deus nisto, eles não devem atirar a primeira
pedra nos Católicos Romanos.

15. Quando as coisas de uma natureza diferente são representadas como necessárias
à salvação é uma tolice do mesmo tipo, embora não da mesma magnitude. De fato, não é
um pecado pequeno representar ninharias como necessárias para a salvação, tal como sair
em peregrinação, ou alguma coisa que não expressivamente ordenada, nas Santas
Escrituras. Em meio a esses nós podemos indubitavelmente classificar a ortodoxia, ou
opiniões corretas. Nós sabemos, de fato, que opiniões errôneas na religião naturalmente
conduzem à temperamentos errados; ou práticas erradas; e que, conseqüentemente, é nosso
dever sagrado orar para que possamos ter um julgamento correto em todas as coisas. Mas
ainda um homem pode julgar tão corretamente quanto o diabo, e ainda assim, ser tão mau
quanto ele.

16. Alguma coisa mais desculpável são aqueles que imaginam que a santidade
consiste nas coisas que são apenas uma parte dela; (ou seja, quando elas estão ligadas com
o restante; do contrário, elas não são parte dela, afinal) supondo-se que não causem dano. E
quão excessivamente comum é isto! Considerando que fosse um homem tão inofensivo
quanto um poste, ele estaria tão longe da santidade, quanto o céu da terra. Supondo-se que
um homem, portanto, seja exatamente honesto, para pagar a cada um o que lhe é devido;
não ludibriar homem algum; fazer mal a nenhum homem, ser justo em todos os seus
procedimentos. Supondo-se que uma mulher seja uniformemente modesta e virtuosa, em
todas as suas palavras e ações; supondo-se que um e outro seja firme praticamente da
moralidade, ou seja, da justiça, misericórdia, e verdade; ainda tudo isto, embora seja tão
bom, por quanto tempo exista, não passa de parte da santidade cristã. Ainda assim, suponha
uma pessoa deste caráter amigável faça tanto bem, onde quer que ele vá; alimente o
faminto, vista o nu, socorra o estranho, o doente, o prisioneiro; sim, e salve muitas almas da
morte: é possível que ele possa ainda ele não alcançar aquela santidade, sem a qual ele não
poderá ver ao Senhor.

17. O que, então, é aquela santidade que é a verdade "veste nupcial"; a única
qualificação para a glória? "Em Cristo Jesus", (ou sejam, de acordo com a instrução cristã,
qualquer que seja o caso do mundo pagão) "nem a circuncisão valerá alguma coisa, nem a
incircuncisão; mas a nova criação – o renovar da alma 'na imagem de Deus, em que ela
foi criada". Em "Cristo Jesus nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão,
mas a fé que é operada pelo amor". [Gálatas 5:6]. Através do poder de Deus, primeiro, ela
opera o amor a Deus e a toda humanidade; e, através deste amor, todo temperamento santo
e divino, -- em especial, humildade, mansidão, gentileza, temperança, e longanimidade.
"Nem é a circuncisão", -- o cumprimento de toda moralidade pagã, -- mas "o manter os
mandamentos de Deus; especificamente esses: -- 'Deverás amar ao Senhor teu Deus com
todo teu coração, e a teu próximo como a ti mesmo". Em uma palavra, santidade é ter "a
mente que havia em Cristo", e "caminhar como Cristo caminhou".

18. Tal tem sido meu julgamento, por esses sessenta anos, sem qualquer alteração
material. Apenas por volta de cinco anos atrás, eu tive uma visão mais clara do que antes,
da justificação pela fé: e nisto, desde àquela hora, eu nunca alterei a largura de um fio de
cabelo. Não obstante, um homem engenhoso tem publicamente me acusado de milhares de
alterações. Eu oro a Deus, não colocar isto sob a responsabilidade dele! Eu estou agora nas
bordas da sepultura; mas, pela graça de Deus, eu ainda testemunho a mesma confissão. De
fato, alguns têm suposto que, quando eu comecei a declarar: "Pela graça, vocês são salvos,
através da fé", eu retraí o que eu tinha antes mantido: "Sem a santidade, nenhum homem
verá ao Senhor". Mas é um engano completo: Essas escrituras bem consistem uma com a
outra; o significado da primeira sendo plenamente isto: - Pela fé, somos salvos do pecado, e
feitos santos. A imaginação de que a fé sobrepõe a santidade é a essência do
Antinomianismo.

19. A soma de tudo é esta: O Deus do amor está desejoso de salvar todas as almas
que Ele criou. Isto ele tem proclamado a eles nas Suas palavras, junto com os termos da
salvação, revelado pelo Filho de seu amor, que deu sua própria vida para que eles que
crêem Nele tenham a vida eterna. E para estes, Ele tem preparado um reino, desde a
fundação do mundo. Mas Ele não os forçará a aceitar isto; Ele os deixa nas mãos de seu
próprio conselho. Ele diz: "Observem, eu coloco diante de vocês, a vida e a morte; a
bênção e a maldição: Escolham vida, para que vocês possam viver". Escolham santidade,
pela minha graça; que é o caminho, o único caminho para a vida eterna. Ele gritou alto,
"Sejam santos, e sem felizes; felizes neste mundo, e felizes no mundo vindouro". "Santidade
transforma-se na casa dele para sempre!". Esta é a veste nupcial de todos que são
chamados para "o casamento do Cordeiro". Assim vestidos, eles não serão encontrados nus:
"Eles têm lavado suas vestes, e as branqueado no sangue do Cordeiro". Mas quanto a
todos aqueles que aparecem no último dia, sem a veste nupcial, o Juiz irá dizer: "Lance-os
na mais distante escuridão; lá haverá choro e ranger de dentes".

MADELEY, 12 de Março de 1790 [exatamente um ano antes de sua morte]

[Editado por James H. Walker II, estudante na Northwest Nazarene College (Nampa, ID),
com correções por George Lyons para a Wesley Center for Applied Theology.]