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GRANDE PRÉMIO DE ROMANCE E NOVELA

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES

Palavras proferidas por Francisco José Viegas

Gostaria de agradecer este prémio ao júri que mo concedeu, à Associação
Portuguesa de Escritores, que o organiza anualmente, e, naturalmente, às
entidades que colaboraram com a APE e o tornam possível.

Já referi antes que nunca pensei recebê-lo e que foi uma surpresa a sua
atribuição. Estas palavras podem confundir-se com pura imodéstia disfarçada
de desprendimento, mas quem me conhece sabe que são verdadeiras e que a
surpresa também o foi. Por isso, a alegria em estar aqui é maior e até mais
profunda. As minhas palavras nesta circunstância apenas podem ser de
gratidão e de um certo enlevo – e de vaidade, naturalmente, porque somos
humanos e devemos viver, ainda que com intensidades diferentes, cada
distinção e cada desaire. Distinções e desaires compõem a vida de todos – se
bem que, no caso de quem escreve, o desaire deva ser entendido como um
livro que não resultou e uma distinção deva ser vista como o reconhecimento
pelo trabalho realizado.

Estas designações são sempre subjectivas. Cada um sabe e conhece os
caminhos do seu trabalho. Cada um conhece as penumbras e as ilusões que o
guiam. Cada um, cada autor, conhece o seu próprio caminho melhor do que
ninguém e, por mais que tentemos escrever ou falar sobre o método, as
alegrias e as dificuldades do nosso trabalho, há sempre aspectos que não
conseguimos traduzir ou descrever. Podemos falar deles, claro, e falar deles
com absoluta sinceridade – mas, com alguma probabilidade, não acreditariam
inteiramente.

Eu escrevo histórias. De alguma maneira, imagino histórias que me comovem
e que gostaria que comovessem os meus leitores. Se há alguma definição, em
teoria da literatura, para o género de romance que eu gosto de escrever,
acredito que seria essa. E que a frase decisiva seria essa também: “Eu escrevo
histórias.” Acho que escrevo histórias porque gosto de ler as histórias dos
livros dos autores que aprendi a amar desde a infância e a adolescência.
Algumas delas duram mais na memória e, também aí, os factores que levam
uma história a permanecer na nossa memória, são também subjectivos.
Podemos tentar explicá-los, mas há sempre qualquer coisa que sobrevive
numa leitura – e que não conseguimos descrever. Por isso, uma das palavras
de que mais gosto é “poeira”. A poeira das estradas no meio da floresta. A
poeira dos caminhos. A poeira do deserto. A poeira do céu, aquela nuvem que
atravessa a geografia de todos os lugares onde estivemos. A poeira, enfim.

Eu escrevo histórias, portanto, e gosto da palavra “poeira”. Tal como gosto da
palavra “perturbação”. Da palavra “paisagem”, da palavra “lugar”.

Talvez por isso, por eu gostar de escrever histórias que algum dia me
comoveram, não posso falar em nome dos outros nem acho que o trabalho
do escritor, seja ele contador de histórias, ou não, seja realizado em nome de
outra coisa senão da alegria de escrever e, por interpostas pessoas, da alegria
de ler.

Escrevo histórias porque não acredito num mundo sem história, sem
memória e sem perturbação. A história e a memória mostram-nos que
vivemos com os outros e que são os outros que justificam todas as narrativas;
sem os outros não teríamos ninguém para contar histórias, não teríamos
ninguém para ouvir as nossas histórias, ou seja, não teríamos com quem viver.
A perturbação, por seu lado, ensina-nos que a pequena verdade de cada um, a
pequena verdade dos outros, pode pôr em causa a nossa verdade absoluta,
aquela em que acreditamos.

No meu caso, os outros, além dos meus leitores, os outros são os meus
personagens. Comecei este breve discurso agradecendo o prémio. Terei de
agradecer também aos meus personagens, aos personagens dos meus livros.
Sem eles eu não teria conseguido escrever nem contar histórias, nem ter
vivido os momentos dessa estranha e no entanto intensa felicidade que é a de
ver que, subitamente, esses personagens já não dependem de mim mas da vida
inteira, da vida que vem nos livros. Conheço o inspector Jaime Ramos, o
detective de “Longe de Manaus”, há algum tempo. Há cerca de quinze anos
que ele vive comigo e que eu conto as suas aventuras. De alguma maneira,
como vêem, nem as histórias me pertencem, mas sim aos meus personagens.
É verdade que o detective Jaime Ramos só existe porque eu o inventei, ou o
criei, ou o escrevi. Mas isso acontece porque ele vive, melhor do que eu, esse
mundo de perturbação e de poeira onde situo as minhas histórias. Ele é um
homem vulgar e céptico. Talvez um pessimista, até. Tem hábitos vulgares. A
sua excepcionalidade, o que para mim se revelou excepcional no seu carácter,
foi a sua capacidade de permanecer vulgar, céptico, dedicado, tranquilo, apesar
da vida inteira, a sua e a dos outros. Agradeço-lhe ter aceite este papel de
personagem dos meus livros. Agradeço aos outros personagens que os
habitam: ao inspector açoriano Filipe Castanheira, por exemplo, que não entra
neste livro, mas que começou a minha série de histórias policiais. A Daniela e
a Helena, de “Longe de Manaus”, por quem me apaixonei. Ao brasileiro de
Manaus, Osmar Santos, que me proporcionou muitos momentos de riso. Ao
detective Isaltino, a quem admiro a sua modéstia tremenda, de homem
humilde. Agradeço à namorada de Jaime Ramos, Rosa, que não me importaria
de ter conhecido antes de escrever os seus diálogos. E estou grato,
evidentemente, aos lugares que aparecem no livro – o Porto, Trás-os-Montes,
o Douro, a Guiné, Cabo Verde, Angola e, naturalmente, o Brasil. Se não
existissem esses lugares, não teria podido escrever. Graças a ele viajei bastante.

Mas sobre muitas outras coisas, estou grato à língua que usam os nossos
escritores – os nossos, os escritores de língua portuguesa. Este livro tem duas
ortografias, a portuguesa e a brasileira, mas serve-se de uma única língua,
divertida, dramática, pueril, fantástica, sitiada, brincalhona, empertigada,
humilde, e dividida por vários continentes onde já não depende de nós,
portugueses, mas de todos os que a falam independentemente de nós – e essa
é a sua melhor promessa, a nossa melhor herança. É por ela que falam os
nossos mestres, de Luís de Camões e Fernão Mendes Pinto a Machado de
Assis, Camilo de Castelo Branco, Eça de Queiroz, Cesário Verde ou Fernando
Pessoa. Eu acho que devemos venerar os mestres e as suas lições, as que
atravessam o tempo e sobrevivem às inclinações do mundo, as que vêm de
Fernão Lopes a Rubem Fonseca, de Sá de Miranda a Vergílio Ferreira. Eles
são os mestres da nossa língua e a garantia de que ela existe para lá e para além
dos dicionários do presente. Se algum dia a escola tiver dúvidas sobre a nossa
língua, eles estão aí. Sem eles não poderíamos falar da nossa língua.

Há também um nome que gostaria de referir aqui, o de Miguel Real, autor de
“Em Nome da Terra”, um livro notável que foi finalista, comigo, nesta
escolha do júri do Prémio APE. Miguel Real é um autor muito raro e de
altíssima qualidade, e o seu livro é uma fantástica narrativa sobre uma parte da
História de Portugal. Foi das primeiras pessoas a felicitar-me porque ambos
sabemos que eu seria das primeiras, senão a primeira pessoa a felicitá-lo, como
já aconteceu de outras vezes.

Não quero terminar a lista de agradecimentos sem mencionar uma pessoa a
quem estou ligado por laços muito mais fortes do que a simples relação,
digamos, literária. Falo do meu editor Manuel Alberto Valente. Em vários
momentos em que o meu pessimismo ultrapassava o do próprio detective
Jaime Ramos, o meu editor ensinou-me que vale a pena insistir, persistir, não
dormir às vezes, e sobretudo não ceder ao que não devemos ceder. A sua
companhia, ao longo destes últimos quinze anos, foi também preciosa e não
podia esquecê-lo agora.

Um prémio agradece-se. Ele honra-nos e provavelmente traz-nos alguma
responsabilidade acrescida. Agradeço-o portanto e sinto-me honrado. A
minha única responsabilidade, no entanto, é apenas para com o meu próximo
livro, para com a minha próxima história.

Francisco José Viegas

24 de Junho de 2006

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