Academia das Ciências de Lisboa BIBLIOTECA DE ALTOS ESTUDOS

HISTÓRIA DAS MATEMÁTICAS EM PORTUGAL

por Francisco Gomes Teixeira
Lisboa 1934
Lições proferidas de 12 a 19 de Abril de 1932

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INTRODUÇÃO

Indicações bibliográficas As Matemáticas na Antiguidade e na Idade Média A entrada das Matemáticas na Península hispânica Programa dêste livro

1 2 10 16

PARTE PRIMEIRA

Origem da cultura das Matemáticas em Portugal
Primeiros vestígios Início da cultura das Matemáticas em Portugal por influência da Náutica Os cosmógrafos de D. João II Os continuadores de Zacuto e José Vizinho Nota final

17 18 22 26 29

PARTE SEGUNDA

Historial da cultura das Matemáticas em Portugal no século XVI

Estado de Portugal no século XVI Álvaro Tomaz e Gaspar Nicolas, aritméticos Pedro Nunes como cosmógrafo Pedro Nunes na Física A Cosmologia na obra de Pedro Nunes

31 31 33 46 48

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Pedro Nunes na Geometria Pedro Nunes na Álgebra Considerações gerais sobre os trabalhos de Pedro Nunes Vida de Pedro Nunes Astrónomos e cosmógrafos contemporâneos de Pedro Nunes 53 57 62 63 65 PARTE TERCEIRA A cultura das Matemáticas em Portugal nos séculos XVII e XVIII Período de decadência e suas causas Cultura da Matemática no período de decadência (1600-1772) O ressurgimento da cultura das Matemáticas em Portugal A sorte da Ciência e da Filosofia em Portugal depois da morte de D. José I Monteiro da Rocha Anastácio da Cunha 67 72 76 79 82 85 PARTE QUARTA A cultura das Matemáticas em Portugal na primeira metade do século XIX Estado político do país no referido período Analistas e geómetras Astrónomos Daniel Augusto da Silva Final 90 92 97 98 100 ii .

temos hoje dois trabalhos importantes: L’Astronomie nautique en Portugal à l'occasion des grandes découvertes. de espaço a espaço. organizada por Malheiro Dias para celebrar o quinto centenário da descoberta deste país. Além disso. por não dispor o autor dos documentos que actualmente se conhecem sobre o assunto. sob o ponto de vista bibliográfico. que é objecto do livro. E não é isto estranhável. porque são substituídas nele lendas. tradições e hipóteses por factos demonstrados. livro publicado em l912 por Joaquim Bensaúde. Para se apreciar o estado dos estudos daquela história no momento em que este livro aparece. por isso à história daquelas ciências juntaremos a história da Astronomia. São estes os assuntos de que vamos ocupar-nos nesta Introdução. Para o estudo desta última questão. na sua Memória. As Matemáticas puras estão estreitamente ligadas à Cosmologia. por Francisco de Borja Garção Stockler. e um artigo sobre o modo de navegar dos nautas lusos nos séculos XV e XVI. segue e continua magistralmente aquele autor nas suas indagações. Indicações bibliográficas O mais antigo escrito consagrado à história da cultura das ciências exactas pelos portugueses é o Ensaio Histórico sobre a origem e progressos das Matemáticas em Portugal. livro que contém a história das referidas ciências desde a fundação do Reino até ao século XVIII. e. que dirige o pensamento científico. e. a parte que se refere às aplicações das Matemáticas à náutica é incompleta e algumas vezes inexacta. algumas noções da história da Física e da Filosofia. para a história da cultura das Matemáticas em Portugal. porque é muito grande o número das obras e assuntos que o autor do livro teve de estudar para o compor. descreveremos em seguida a traços largos a evolução deste pensamento desde a antiguidade até ao desabrochar das referidas ciências em Portugal. 1 . mas estas apreciações parecem resultar de leituras superficiais e não podem ser aceites sem o exame cuidadoso das obras a que se referem. em Paris. para colocar o assunto especial. apresentadas na Exposição ÍberoAmericana de Sevilha. é muito resumido e é pouco profundo na apreciação de algumas das obras consideradas. Os títulos das obras são geralmente acompanhados neste catálogo de curtas notícias sobre os seus assuntos e algumas vezes ligeiras apreciações. É um subsídio valioso. O livro de Bensaúde é fundamental no estudo da história da Astronomia aplicada à Náutica lusa. e a Filosofia.O objecto deste livro é a história da cultura das Matemáticas em Portugal desde a fundação do Reino até meados do século XIX e das relações desta cultura com a evolução política do país. como o seu título indica. O Dr. publicado em 1819. mas. Luciano Pereira da Silva na obra monumental intitulada Colonização do Brasil pelos portugueses. opúsculos que fazem parte de uma colecção de monografias sobre diversas manifestações da actividade portuguesa. vamos mencionar e analisar sucintamente os trabalhos publicados a este respeito anteriormente. É um trabalho interessante e bem escrito. Pereira da Silva. e o seu assunto principal é seguido de notas eruditas que o valorizam. que elas iluminam. Mencionarei também aqui os excelentes opúsculos sobre a história das Matemáticas puras e da Astronomia em Portugal publicado recentemente pelos Doutores Pedro José da Cunha e Francisco Miranda da Costa Lobo. publicado pelo Dr. ciência que em Portugal representou um grande papel na náutica. o catálogo das obras de autores portugueses publicado pelo engenheiro Rodolfo Guimarães sob o título: Les Mathématiques en Portugal. no quadro da história geral do pensamento matemático.

a Para o estudo desenvolvido da história das Matemáticas entre os Gregos. lacuna que procurarei preencher. apresentando novas demonstrações suas das proposições inventadas por Nunes. Monteiro da Rocha. publicada pelo Dr. são larga e profundamente analisados os trabalhos astronómicos de Pedro Nunes. As Matemáticas na Antiguidade e na Idade-Média A história das Matemáticas em Portugal está estreitamente ligada à história das Matemáticas na Espanha e ambas estão intimamente ligadas à história destas ciências entre os Gregos. Farei neste livro esta reunião. Em suma. estranhar que faça numerosas transcrições da obra mencionada. Pena é que o grande astrónomo francês se desvie em algumas ocasiões do seu papel de historiador. tinham aberto a filosofia das religiões. de que é autor o sr. 1 2 . ampliadas com novas doutrinas e melhoradas por novos estudos das matérias contidas no primitivo livro. Quando o novo estudo que fiz dos assuntos considerados nela. mas não altero com nova redacção o que não é necessário alterar. não é felizmente necessário em Portugal recorrer-se a livros estrangeiros. na Histoire de l'Astronomie de Delambre. Francisco de Castro Freire na ocasião da celebração do primeiro centenário da criação desta Faculdade. publicado em 1925 pela Academia das Ciências de Lisboa. que mais tarde se chamou Teodiceia. porque temos para isso em língua portuguesa um Manual excelente. sem todavia fazer a análise destes trabalhos. Em particular. pois. intitulado História das Matemáticas na Antiguidade. às letras e às artes as suas formas mais belas. convém que consagre algumas palavras à descrição. refundidas de modo a formarem um todo harmónico. e. e. mas que citarei quando o julgar oportuno. Não se deve. Anastácio da Cunha e Daniel da Silva. melhoro-as quanto posso e ajunto outras. Ao terminar a civilização dos Helenos. Indianos e Árabes. que não mencionarei agora. este livro é como uma nova edição das passagens relativas à história das Matemáticas em Portugal dispersas pelo anterior. São estes sábios ilustres as principais figuras da matemática portuguesa e a simples reunião dos quatro elogios quase equivale a uma história completa das Matemáticas em Portugal. Nas revistas científicas portuguesas encontram-se ainda muitos artigos sobre pontos especiais da mesma história. tinham-se analisado a si próprios e fundado a Lógica e a Psicologia. não me levou a modificar o meu pensamento. tinham analisado os costumes e fundado a Moral. Também há numerosas referências à Matemática lusa em livros e artigos de sábios estrangeiros. Fernando de Vasconcelos. Antes pois de entrar nos assuntos especiais deste livro. professor no Instituto Superior de Agronomia. a traços largos. em vez de nos apresentar as demonstrações do matemático português em linguagem analítica moderna. além da descrição da vida da Faculdade durante o primeiro século da sua existência. biografias resumidas dos professores que se tornaram notáveis pela publicação de trabalhos de mérito. onde fiz os elogios históricos de Pedro Nunes. os seus filósofos e sábios tinham analisado o mundo físico e fundado as ciências. Dou às doutrinas a disposição sistemática que o novo modo de as considerar determina. Contém este livro. Indianos e Árabes. Eu próprio me ocupei da história das Matemáticas em Portugal num livro intitulado Panegíricos e Conferências.Convém ainda assinalar a Memória histórica da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra. prefira mostrar-nos o seu próprio engenho. ajuntando porém os resultados de estudos do assunto feitos depois da publicação daqueles elogios e entrando mais fundamente na análise dos métodos que aqueles matemáticos empregaram e das demonstrações com que estabeleceram os teoremas que descobriram. povo admirável que soube dar às ciências. alterar o modo de os expor seria fazer trabalho inútil. tinham analisado a linguagem e constituído a Gramática. do estado das referidas ciências na ocasião da sua introdução na Península hispânica e do modo como esta introdução se fez 1.

com as suas hipóteses. substituído por outros mais perfeitos. são. nos seus variados escritos. a Grécia criou com a epopeia. constituindo a Escolástica. . mas nunca deixaram de admirar2. constituíram teorias hipotéticas. Platão e Aristóteles. que os sábios modernos tiveram algumas vezes de rejeitar. nas obras helénicas de filosofia. a Geometria. tinham posto a sonhadora Metafísica. o primeiro inventou o princípio da alavanca e o princípio do paralelogramo das forças. o Cosmos. e são ainda.coroar poeticamente o seu edifício filosófico. Como dissemos em outro lugar. seguindo na ciência dos astros um caminho aberto por Pitágoras. a tragédia e a ode. Alexandria. 3 . associaram nas suas cogitações. passados numerosos séculos. como presente opulento. em tudo o que em filosofia e ciência nos legou a velha Grécia. há vida. 59. como nas suas estátuas. de ciência. assombrou os homens com a eloquência de Demóstenes e abriu a história com Heródoto e Xenofonte. estas falam. a Mecânica e a Astronomia. Sistema que foi depois aperfeiçoado por Eudoxo e Aristóteles e na Idade-Média por Alpetrágio e que por fim caíu. a Álgebra. estátuas e esculturas. em Platão o mais poeta dos filósofos e o mais sábio em Aristóteles. os príncipes da filosofia antiga. e nestas cogitações aplicaram a Matemática a iluminar o estudo do pensamento e o estudo da natureza. 2 Panegíricos e Conferências. pela finura da arte e pelos primores de imaginação a Ilíada de tais ciências. No que respeita às Matemáticas. são nomes da geografia da Terra. pela essência. Samos. se pronunciam com a emoção que produz o que é sagrado. e os trabalhos que sobre estas ciências nos deixou. Ésquilo e Píndaro. levados pela ambição de tudo explicar. na Mecânica. De facto. Por isso. berço dourado da filosofia. quando os não tinham. esboçou o mais antigo Sistema astronómico que nos legaram os sábios gregos.. deslumbrou o mundo com os seus maravilhosos templos. Platão encantou-o com a sublimidade dos seus pensamentos. que tomou duas formas diversas. e teve a visão do princípio das velocidades virtuais. Siracusa. com as suas aspirações a penetrar nos mistérios das causas primeiras do Universo. que aplicaram admiravelmente à constituição de ciência. Enciclopedista inigualável. uma entre os filósofos que se encostaram mais a Aristóteles.. as formas mais sublimes da poesia. quando tinham os elementos necessários para o fazer. legou-nos ele a Aritmética. espiritualista subtil. Mileto. que ainda hoje. a base em que assentou o que depois se escreveu sobre elas. há beleza que deslumbra. Aristóteles assombrou o mundo com a vastidão e altura dos seus conhecimentos e engenho das suas indagações. o pensamento e a arte aparecem admiravelmente unidos. Em conclusão. Atenas.. outra entre os que seguiram principalmente Platão. cuja fundação constitui a mais sólida glória do povo helénico. com os seus idealismos. deu à humanidade. sob formas diversas. são grandiosas e belas como os templos famosos por ele levantados aos Deuses do paganismo». de literatura e de arte. a Alma humana e Deus. o segundo. superiormente representadas por Homero.«o povo helénico deu arte à ciência e pensamento à arte. Notemos ainda que as doutrinas filosóficas de Platão e Aristóteles aparecem misturadas a assuntos de Teologia cristã nos estudos das escolas medievais. aqueles palpitam de génio. Berço sagrado das letras. focos da ciência antiga. berço das artes. pág. engenho que encanta e grandeza que assombra. Tarento. Em especial. Legaram-nos estes sábios e estes filósofos métodos rigorosos para o estudo do mundo interior e do mundo físico. as obras científicas e filosóficas que nos deixou.

1824. Herão. etc. Simplício. e por isso fizeram-se novas edições da tradução de Brunelli em 1790. para assim abrangerem nas suas teorias as grandezas comensuráveis. em latim. das doutrinas de Hiparco e Ptolomeu às de Copérnico e Kepler. Arquimedes. com efeito. na Idade-Média foi traduzida em latim e árabe e. São muito raros os livros que têm sido tão espalhados em edições. considerando em vez de números. Diofante e Papo. e portanto os números racionais e as grandezas incomensuráveis. os teoremas necessários para a construção das raizes das equações do segundo grau definidas geomètricamente. Huygens. Enumeremos pois aqui as obras dos matemáticos e físicos helénicos que mais influência tiveram sobre a ciência dos povos que vieram depois. É bem sabido que os antigos matemáticos gregos. que conhecemos por meio de documentos antigos e de particularidades arquitectónicas dos monumentos que construiram. que depois. a origem da Álgebra. É bom notar. após a descoberta da imprensa. do undécimo e do duodécimo. Apolónio e Diofante às de Viète. Encanta o espírito recordar o que há de grande e belo nos teoremas. que a citou numerosas vezes nas suas obras. a mãe que a criara. reunião sistemática das proposições sobre esta ciência que no seu tempo se conheciam e de outras que ele próprio inventou. traduções e comentários como os Elementos de Geometria de Euclides. O livro de que nos estamos ocupando. foi outrora muito usado nas escolas portuguesas. A primeira destas edições foi a de Campano. das doutrinas de Aristóteles. Para esta tradução serviu-se da versão latina de Frederico Comandino e fê-la seguir de algumas notas com que Roberto Sinson tinha ilustrado esta versão. em voos soberbos. Abriu-a Tales de Mileto. Em Portugal. axiomas e postulados. continuando a sua obra. 1792. publicada em 1482. e lhe serviram de fundamento. com a resolução das equações do segundo grau. que a fundação da ciência dos números tinha sido preparada principalmente por sacerdotes do Egipto e da Caldeia com factos e regras aritméticas e com medidas geométricas e astronómicas. pêso e medida. Descartes. sob forma geométrica. Recordemos em primeiro lugar os Elementos de Geometria de Euclides. criando a ciência dos números. Herão e Ptolomeu. escrevendo à porta da sua Escola: aqui não entra quem não for geómetra. modelo lógico para todas as ciências físicas pelo rigor das demonstrações e pela maneira como são postas as bases da Geometria em conceitos fundamentais. continuaram na Pitágoras e Platão. mas não tendo a noção correspondente de número irracional. o período áureo da ciência moderna. apresentados sob o nome de definições. Arquimedes e Herão às de Galileu. que proclamou a sua importância. a Geometria. fizeram-se dela numerosas edições em todas as línguas europeias.Com as palavras célebres: Deus fez o Mundo por conta. se subiu das doutrinas dos gigantes da ciência antiga às dos gigantes da ciência moderna. 1852. 1855 e 1862. tomando forma algarítmica e crescendo mais e mais. 1835. publicou Angelo Brunelli em 1768 uma tradução na nossa língua dos seis primeiros livros. das doutrinas de Euclides. fizeram-na brilhar com esplendor Euclides. Apolónio. 4 . obra admirada pelos matemáticos e filósofos de todos os países e de todos os tempos pela pureza do estilo geométrico e pela concisão luminosa da forma. desenvolveu-a Eudoxo de Cnido. 1839. tendo a noção de grandeza incomensurável. Esta Matemática empírica foi a alvorada da Matemática teórica que depois nasceu. antes de prosseguir. Foram estes os primeiros vagidos da Álgebra. aplicaram-na com engenho Hiparco. hipóteses e teorias da ciência dos Helenos e é isto mesmo necessário a quem quiser apreciar como. Leibniz e Newton ligando assim o período áureo da ciência do passado ao famoso século XVII. levou nas suas asas às alturas. pôs Salomão um problema imenso que os Gregos começaram a estudar sistematicamente. As últimas páginas do livro segundo dos Elementos do grande lógico de Alexandria contêm. Pascal e Fermat. Na antiga Grécia foi esta obra comentada por Proclo.. edição usada pelo nosso Pedro Nunes. Nesta mesma obra aparece. constituiram a Matemática sob forma geométrica. segmentos de recta.

sob o nome de Cálculo dos infinitamente pequenos. que abriu a Geodesia. No estudo deste livro. que inspirou mais tarde os inventores do método dos indivisíveis e foi o primeiro lampejo de um sol que depois. Notamse neste último livro uma relação entre os seis segmentos de três círculos máximos determinados por um quarto círculo máximo que os corte. generalização do problema da duplicação do cubo3. e Menelau. o fundador da Geometria infinitesimal. com as suas propriedades mais importantes e mais belas. Foram os principais continuadores da obre geométrica e mecânica de Euclides e Arquimedes. no domínio da Geometria elementar. esquecida ou quase esquecida depois durante longos tempos. o criador da Estática dos corpos sólidos. livro numericamente escrito e que a Matemática ensina a ler. que escreveu sobre o mesmo assunto e com o mesmo título um tratado mais profundo e original do que o daquele geómetra. o segundo algumas vezes. que percorreu nas suas Colecções Matemáticas quase todos os assuntos de Geometria e de Mecânica tratados pelos geómetras que o precederam. determinando a grandeza da Terra por meio da medida do arco do meridiano compreendido entre Alexandria e Siena. sob novas formas. é necessário seguir a história da ciência até ao século XVII.Constituiram também os Gregos uma Geometria das figuras formadas na superfície da esfera por círculos máximos. As mesmas curvas tinham sido já consideradas por Menecmo. primeiramente. que ficou célebre sob a designação de Teorema de Menelau. aplicável às razões comensuráveis e por aproximações às razões incomensuráveis. o maior geómetra da antiguidade. fundada no famoso princípio que ficou a glorificar o seu nome. Convém ainda lembrar aqui que. obra notável pela elegância do seu estilo geométrico e pelo modo desenvolvido como são nele estudadas estas curvas. e uma doutrina dos triângulos esféricos análoga à de Euclides sobre os triângulos planos. Assim nasceu em berço dourado uma doutrina que. com Descartes e Pascal. Cultivaram ainda os matemáticos gregos. mencionarei agora o Tratado das secções do cone de Apolónio de Perga. a que deram o nome de Logística. uma arte de cálculo numérico. este grande matemático relacionou a área e o volume da esfera com a área do seu círculo máximo e deu um método para calcular esta última área com a aproximação que se quiser. e ainda outros novos. que. para depois encontrar alguém que o iguale. mais tarde. e. que abrira a sua teoria e as aplicara à resolução do problema célebre das duas médias proporcionais. o primeiro numerosas vezes. fundada no princípio da alavanca. renasceu no século XVII. E foi o último grande geómetra das Escolas helénicas Papo. 3 Veja-se no tomo VII das minhas Obras sobre Matemática a história destes problemas. que compôs sobre ela um tratado intitulado Esféricas. 5 . na sua Dióptrica e nas suas Métricas. para os usos ordinários da vida. deixando em todos vestígios do seu génio. Continuando na enumeração das obras mais importantes dos matemáticos gregos. Teodósio e Menelau aparecem citados nas obras de Pedro Nunes. Herão de Alexandria. se ocupou com sucesso da solução de vários problemas de Geometria e de Mecânica prática por meio de instrumentos engenhosos da sua invenção. Foram os principais organizadores daquela Geometria: Teodósio. quando Kepler descobriu o seu papel no estudo do Cosmos. Pitágoras e Platão abriram e Aristóteles continuou o estudo do imenso livro intitulado: Natureza. que ficou clássico. ninguém na antiguidade subiu tão alto como Arquimedes e. análoga à Geometria das figuras formadas no plano por linhas rectas. Recordemos também aqui Arquimedes. iluminou brilhantemente o firmamento das ciências exactas. em que deslumbrou o mundo o génio sublime de Newton. o criador da Estática dos fluídos. e conquistou depois foros de esplêndida nobreza. Eratóstenes. alexandrino.

como acontece às línguas ordinárias. A linguagem fixa. atribuído aos Indianos. e por isso não caíu. que a personificou poèticamente em uma mulher formosa. a Álgebra caminhava pela mão de sua mãe. que desde a expedição de Alexandre Magno estava aberta à ciência helénica. a quem propõe em verso problemas desta ciência. Na Grécia. mas dirigia-a um como instinto vidente. Bramagupta e. Olhavam com desdem para aquela arte. Na Índia. jóias de lógica e arte que ficaram clássicas e continuarão a sê-lo pelos 6 . que solícita e rígida. a uma Álgebra inteiramente numérica. com respeito religioso para esta ciência. mas esta Álgebra não ficou ainda independente da Geometria. abriu Diofante a Álgebra algorítmica. mas separava as parcelas por um intervalo. a língua da Álgebra evolucionou. Com a sua obra. era um presente precioso feito pelos Deuses aos homens para estudo do Cosmos. do primeiro e do segundo grau. a Geometria. Representaram os principais papéis na cultura da Álgebra entre os Indianos: Aryabhatta. com receio de que caísse. A formação desta língua foi iniciada por Diofante. menos rigorosa do que a Álgebra geométrica dos Gregos. se fixou definitivamente a equivalência entre operações numéricas e geométricas e se teve uma noção clara de número irracional. que ela resolve por meio de regras enunciadas também em verso Há nas obras destes dois últimos matemáticos ideias finas. A ciência aberta por Diofante. a interpretação das soluções negativas das equações. mas aqueles eram severos na lógica e por isso não desprendiam a quantidade discreta da quantidade contínua. a não deixava correr. Bhaskara. que na sua Aritmética resolveu engenhosamente problemas difíceis que o levaram a equações determinadas e indeterminadas. mesmo em maior grau do que os matemáticos Indianos. a (Geometria era a verdadeira ciência. até tomar a forma que hoje admiramos. empregando demonstrações independentes de considerações geométricas e dos números especiais que considera. ali se desenvolveu. pela fixação de regras para as transformações das equações e pelo emprego do sistema de numeração mencionado. e auxilia-o tanto mais quanto mais simples ela é. Não empregava sinal algum para designar a soma. tinham-no também os matemáticos gregos. com coeficientes racionais e procurou as soluções racionais destes problemas. Lilavati. por exemplo. Foi um forte motivo para o seu progresso a mudança do sistema de numeração. o que equivale a um sinal. Assim. que representou por letras ou sinais a incógnita dos problemas e suas potências. verdadeira conversa da alma consigo mesmo. por fim. A autonomia da Álgebra só se realizou completamente quando nos tempos modernos. motivo da sua força. a subtracção e a relação de igualdade de expressões numéricas. Mais tarde a Logística começou a tomar forma científica com Diofante. dando origem. a Álgebra algorítmica tem uma língua própria. a filha desprendeu-se da mãe e fugiu-lhe. Acabamos de inventariar as principais riquezas do espólio opulento dos helenos nos domínios das Matemáticas puras. Ora. para as estender às grandezas incomensuráveis era necessária ainda a demonstração pela Geometria dos resultados obtidos. passando à Índia. Este instinto vidente. no livro do último é dada. Depois de Diofante. foi um grande progresso para aquela língua. mas mais simples e de aplicação mais fácil. auxilia e dirige o pensamento. de uma simplicidade expressiva surpreendente. porque as doutrinas do grande matemático eram só estabelecidas para as grandezas comensuráveis e. talvez pela primeira vez. Tais sistemas representam um papel primordial na língua das Matemáticas e a substituïção do inexpressivo sistema helénico pelo engenhoso sistema de posição. o génio.A Logística era para eles uma arte terrena e humilde para as contas domésticas e do comércio e para uso do agrimensor e do arquitecto.

Encontram-se no Almagesto algumas passagens importantes relativas às Trigonometrias plana e esférica. que Delambre procurou distinguir. a respeito do mesmo livro. para se conformar com as doutrinas da Física de Aristóteles. Planificando depois este cone. seguindo ainda Hiparco. como fundamentos essenciais do grandioso edifício matemático levantado pelo génio de arquitectos célebres de todos os tempos. legaram-nos os Gregos. que. que obteve por meio do teorema de Menelau. a corda em vez do seno e deu as propriedades das cordas correspondentes ao teorema de adição do seno e seus corolários e as regras para construir tábuas das cordas correspondentes a ângulos dados. A este respeito. 7 . empregou Ptolomeu os dois sistemas de representações chamados triangular e rectangular. Ptolomeu. mas mais tarde substituiu-o pelo Sistema dos Orbes exposto no Almagesto. o que nele pertence a Ptolomeu do que este herdara de Hiparco. Veremos adiante que o Almagesto foi profundamente estudado em Espanha por Afonso o Sábio e seus astrónomos e em Portugal por Pedro Nunes. faz-se primeiramente corresponder a uma zona da Terra a superfície de um tronco de cone tangente à esfera terrestre ao longo do paralelo que a divide ao meio e cuja generatriz seja igual ao comprimento do arco do meridiano compreendido entre os paralelos que a limitam. e que Hiparco o tinha aplicado. temos a carta triangular. pág. na maior parte das vezes inexperientes. além de observações preciosas dos astros. que as avaliavam por simples estimativa. na sua Histoire de l'Astronomie. que grandes serviços prestou aos geógrafos e navegadores medievais. No sistema triangular. Sobre Trigonometria esférica. satisfazia de tal modo às observações e permetia prever com tanta aproximação os fenómenos celestes. para representar o movimento dos astros. que foram depois aproveitadas. Convém notar que Apolónio de Perga tinha inventado o Sistema dos Epiciclos. até que o génio de Kepler descobriu as suas famosas leis dos movimentos planetários.séculos. Ptolomeu primeiramente adoptou-o e completou-o. informações obtidas de viajantes. quando nas suas obras teve de resolver triângulos esféricos oblíquos. foi ela o código dos astrónomos durante cerca de quatorze séculos. que os levava a engrandecêlas ou a encurtá-las. A substituïção do seno à corda e a introdução das tangentes dos ângulos foi obra dos Árabes. defeitos resultantes das dificuldades que teve o autor em conseguir informações exactas das distâncias daqueles lugares. hipóteses engenhosas no Sistema astronómico dos Orbes homocêntricos de Platão e de Eudoxo de Cnido4 e no sistema dos Orbes excêntricos de Ptolomeu. Devemos também recordar aqui que o mesmo Ptolomeu escreveu um precioso tratado de Geografia. que antes dele fora apenas esboçada. traduzida em árabe sob o título de Almagesto e mais tarde em latim. quase sempre sujeita a influência do seu estado de alma. Como dissemos em outro lugar. em que os paralelos da Terra 4 Ver Panegíricos e Conferências. o fundador das ditas Trigonometrias. e. reduziu a resolução à de dois triângulos rectângulos. em especial do grande Hiparco. 235. apesar dos seus numerosos defeitos na colocação dos lugares da Terra. para a determinação dos ângulos. principal fundador da Astronomia científica. o Sistema geométrico exposto na obra mencionada para representar os movimentos planetários. Nos seus mapas. deu o mesmo astrónomo duas das regras hoje clássicas para a resolução dos triângulos rectângulos. obra onde o grande astrónomo de Alexandria reuniu os resultados das suas indagações sobre os movimentos dos astros e os que herdara dos astrónomos que o precederam. que o comentaram e em alguns pontos o continuaram. tomou nelas. importa nos em especial mencionar aqui a famosa Sintaxe matemática. Nos domínios das aplicações da Matemática pura à Astronomia. Ajuntaremos ainda.

mas ainda sobre o pensamento. Estas ideias foram seguidas pelos filósofos peripatéticos e depois pelos filósofos escolásticos até que. O número dos crentes nos vaticínios da Astrologia era outrora tão grande e a fé neles tão viva. Escreveu ainda Ptolomeu. a fim de apreciarem pelos astros o prognóstico das doenças e a ocasião de aplicarem os remédios. a fim de terem fregueses e tirarem proveito material da sua profissão. temos a carta rectangular. que muitas vezes se tem confundido com o astrónomo. entre nós. por não se conhecer então outro melhor. em que os paralelos e os meridianos da Terra são representados por dois sistemas de rectas paralelas. dando aos astrónomos os meios pecuniários de que careciam para viver e trabalhar em assuntos sérios de ciência. Mencionamos aqui este livro. No sistema rectangular. Ptolomeu notou os seus defeitos. produziam os diversos fenómenos que nela se observam. um código de juízos para uso dos astrólogos. primeiramente. Este grande filósofo considerava os astros como potências inteligentes e incorruptíveis. que poucos cultores poderia ter naqueles tempos sem o seu uso na clínica astrológica. estudando-as convenientemente. que ainda hoje se notam. apesar de carecer de bases científicas. com o despontar da filosofia moderna. ao lado de obras consagradas às hervas e às drogas. Nas lições consagradas à história das Matemáticas em Portugal. Resumindo o que a respeito da história da Astrologia dissemos nos nossos Panegíricos e Conferências (pág. recordemos que o astrólogo. chamada Astrologia. eram obrigados a estudá-la. nas suas livrarias. recordemos. o tratado consagrado por Aristóteles àquela ciência. Deste modo a Medicina concorreu para que se estudasse a Astronomia. e mesmo sobre o futuro das nações. onde foram fàcilmente aceites. vontade e sorte dos homens. Dizia a este respeito Kepler: a Astronomia tem uma filha muito louca. Pedro Nunes estudou profundamente o tratado de Geografia de Ptolomeu. caíram com as doutrinas físicas do grande Stagirista. atribuía aos astros não só influências físicas sobre a Terra. encontraremos exemplos notáveis de médicos a representar papel importante com seus trabalhos astronómicos nas navegações lusitanas. mistura 8 . Este sistema de cartas geográficas tinha já sido empregado por Marino de Tiro. sob o título de Sintaxe astrológica. anotou algumas passagens e traduziu do latim para português a Primeira parte. Planificando depois este cilindro. aproveitou-o muitas vezes. por se conformarem com as doutrinas da Física de Aristóteles. Entrando agora no domínio da Física. Uma consequência da crença nas influências dos astros sobre os seres terrestres e na possibilidade de as prever. 252). corresponder a uma zona da Terra a superfície de um cilindro recto que passe pelo paralelo que a divide ao meio e cuja generatriz seja igual ao comprimento do arco do meridiano compreendido entre os paralelos que a limitam.são representados por círculos com o vértice no ponto correspondente ao vértice do cone e os meridianos por linhas rectas que passam por aquele ponto. que é pobre. onde tudo é corruptível. porque esta é rica e sustenta a mãe. era a necessidade para os médicos de conhecer a prática da Astrologia. e portanto sobre o corpo humano. pelo grande papel que representou na cultura científica e filosófica medieval. Por isso estudavam a Astronomia e. tirados dos aspectos do céu. havia outras consagradas às práticas astrológicas. As ideias e práticas astrológicas nasceram na Caldeia e de lá passaram ao Egito e à Grécia. que mesmo os médicos que não acreditavam nestes vaticínios. actuando sobre a Terra. 58 e pág. mas a mãe não engeita a filha. Também devo notar aqui que. que. sendo as rectas do primeiro sistema perpendiculares às do segundo. mas empregou-o. faz-se. porque a Astrologia influiu consideràvelmente no progresso da Astronomia. Mas destas ideias ficaram sempre vestígios.

que era dos sistemas filosóficos helenos o que mais se aproximava da filosofia dos padres cristãos. pág. relaciona-os numericamente e procura constituir teorias que os abranjam e os liguem. não ficaram esquecidas na vala comum do Cemitério da história. submete-os a experiências convenientemente preparadas para ver como se passam. e por isso uma grande parte das doutrinas expostas no seu livro caíram. Concorreu muito para a decadência daquela Escola a luta travada entre os Cristãos e os Pagãos da cidade. É que. como aquele. onde as obras científicas dos Gregos reapareceram com brilho. procurava hipóteses para os explicar. 9 . como vamos ver. as teorias vão sendo constantemente substituídas por outras que melhor satisfazem às observações e experiências. na Física. das doutrinas de Cristo. É na experimentação e no emprego do cálculo matemático que está a força dos métodos modernos para o estudo da natureza e é no modo de preparar a experimentação e de constituir as teorias matemáticas dos fenómenos estudados que se revelam o engenho e a habilidade do físico. com o auxílio da Matemática. que ficaram. em que estava encarnado o maior espírito de mulher de que fala a história antiga5. 197. o físico moderno. os adoradores de Jesus odiaram-na. adoptando a filosofia de Platão. A Escola de Atenas. mas as observações de um só homem não poderiam bastar para se constituirem teorias seguras sobre fenómenos tão complexos e misteriosos. que ensinava filosofia na Escola.. e de paradoxos engenhosos. mas sim admiradas no Panteão das grandes produções da imaginação humana. etc. feitas com perfeição sempre crescente. estava naqueles tempos já apagada. 5 Pode ver-se a biografia desta mulher célebre nos nossos Panegíricos e Conferências. os fenómenos. mede-os. relacionava-os qualitativamente. aurora de uma ciência que se está a formar há mais de dois mil anos e que. a alturas que deslumbram. A maior parte dos matemáticos até agora mencionados pertenceram à famosa Escola de Alexandria ou a ela estiveram ligados. das quais acabamos de mencionar as duas principais. depois que o Cristianismo aí se firmou. O físico peripatético observava os fenómenos naturais. Uma consequência desta luta foi a morte trágica de Hipatia. que desapareceram. Extintas assim as Escolas de Alexandria e Atenas. ficou como último refúgio da ciência helénica a Escola de Bizâncio. mas em breve surgiram entre os Árabes novos centros de estudo. mulher formosa. Esta Escola brilhou com esplendor durante o governo dos Lagides. Apesar disso. Apagara-a no século VI o imperador Justiniano. os dois mais luminosos faróis da filosofia e da ciência antiga. o Almagesto de Ptolomeu e a Física de Aristóteles. eloquente e sábia. que brilhara explêndidamente com Platão e Aristóteles e adquirira um certo prestígio quando a de Alexandria decaía. começou a declinar quando Alexandria passou ao domínio dos Romanos e terminou quando esta cidade caíu no poder dos exércitos árabes do Califa Omar. A Escola ficou prêsa à antiga religião helénica e procurou aproximar-se nas doutrinas filosóficas que ensinava. substituindo a observação e a experiência a hipóteses metafísicas. mas as grandes obras em que foram expostas. combateram-na e concorreram para o seu enfraquecimento. ligando geralmente as últimas e as anteriores algumas das suas ideias. luta que se tornou algumas vezes belicosa. subiu depois. proibindo nela o ensino da filosofia pagã. além de observar.genial de conceitos finos e subtis. As doutrinas físicas e astronómicas dos Helenos caíram diante das novas observações da natureza. Aristóteles mostrou neste livro ser um observador maravilhoso dos fenómenos naturais.

Só no fim da Idade Média começou. Esta obra. no Império oriental. começaram elas a despontar de novo nesta parte da Europa. comentaram e continuaram. conquistador do povo grego. que. tudo o que é necessário para fazer sacerdotes regularmente cultos e das quais saíram alguns homens notáveis pela inteligência e sabedoria. substituíu a sanguinária civilização pagã da velha Roma. Ordinàriamente o mestre lia ou explicava e o aluno ouvia e tomava apontamentos. mas não aparece nome algum de sábio que tenha feito avançar as Matemáticas de um modo notável. expunham-se principalmente as doutrinas físicas de Aristóteles e o ensino delas era misturado ao ensino das doutrinas dos outros ramos da filosofia. estabelecendo novos estados e constituindo uma nova civilização de amor. criaram-se escolas junto de algumas catedrais e fundaram-se universidades. foi grande na literatura. trazidas pelos Árabes que invadiram as Espanhas. Na história da sua cultura científica. os vencidos e os vencedores. sem ser necessário frequentar escolas. porque é muito própria para se ver quanto a ciência latina era inferior à ciência introduzida mais tarde pelos Árabes nas cidades da Bética. Com a queda do Império romano ocidental pelas invasões dos Bárbaros. A entrada das Matemáticas na Península hispânica As ciências entraram na Península hispânica por duas vias: primeiro. quando os Romanos e os Bárbaros. espalhada pela Europa. Entre os homens ilustres que as receberam pela primeira via. foi grande na arte política. Às mais célebres destas escolas concorriam numerosos estudantes de diversos países para ouvir os filósofos afamados. Bispo de Sevilha. O ensino era oral. Não viam nestas ciências o que elas têm de belo sob o ponto de vista filosófico. por acção e influência da igreja católica. foi um guia dos estudiosos até à introdução nas Espanhas da ciência mais alta bebida pelos Árabes nas fontes helénicas. viam sòmente o que têm de pràticamente útil as suas medidas e cálculos. que juntaram a obrigação do estudo aos outros deveres impostos pela regra da sua Ordem. sob forma rudimentar. pelo norte. Foram primeiramente cultivadas pelos monges beneditinos. sem fazer progredir sensivelmente os assuntos considerados nelas. Recordei aqui esta enciclopédia. ainda que muito frouxamente. 10 . Nas escolas em que se ensinavam as ciências. entre os quais estão compreendidos muitos que se referem aos rudimentos das ciências matemáticas. todas as ciências desapareceram completamente da parte invadida da Europa. e os Árabes. mas continuaram a luzir. vasta reunião de variadíssimos assuntos. sob forma levantada. mas foi mediocre nas ciências exactas. além da Teologia. inspirada na literatura helénica foi grande na arte da guerra. O povo romano. onde se estudava. varão notável pela imensa erudição manifestada na sua enciclopédia sobre a Origem das coisas. limitaram-se a ensinar as doutrinas mais simples da Matemática grega. o ensino pelo livro a espalhar as doutrinas dos grandes mestres. raça nova e forte. depois senhores do império gótico das Espanhas. aparecem nomes de naturalistas ilustrados. que as conservou como relíquias preciosas. por influência do Cristianismo. os quais as estudaram. se fundiram. Depois. com Boécio à frente. depois pelo sul. que então começava a dominar e a quem a cultura científica era vivamente recomendada pelos livros do seu Profeta. pela influência directa dos Papas. Os seus cultores das Matemáticas.Foram principais herdeiros das obras de ciência e filosofia dos Helenos a mencionada Escola de Bizâncio. principalmente as que eram aplicáveis à vida individual e colectiva ordinária. trazidas do Oriente principalmente por sacerdotes cristãos. com a invenção da imprensa. distinguiu-se no século VI Santo Isidoro. Mais tarde.

5. que foi traduzida em francês por Woepcke e publicada no tomo XII das Atti dell'Academia dei Nuovi Lincei (Roma. Pelo que respeita às Matemáticas. O resultado gráfico obtido pelo astrónomo árabe tem a forma de oval alongada.°—Alpetrágio. que escreveu no século XV uma obra notável sobre Aritmética e Álgebra.A ciência vinda das bandas de Bizâncio era seca. que atribuiam aos equinócios um deslocamento em sentido constante. depois de entrarem na nossa Península. a ciência trazida pelos Árabes às Espanhas era filosófica e desinteressada. Seja-me permitido recordar aqui os seguintes: 1. Os seus principais cultores na Espanha muçulmana foram enumerados. se conhecesse a obra de Apolónio sobre as secções do cone. que no século XI. utilitária. convenientemente escolhidas. Dá um carácter notável à obra do célebre Matemático de Sevilha o papel que nela representa a Álgebra algorítmica. 4. de Toledo. Sistema que denota muito saber astronómico e notável engenho geométrico e que teve grande sucesso entre os Escolásticos medievais. 3. que ligou o cálculo com o abaco ao cálculo com algarismos. e mais tarde por sábios cristãos e judeus em Toledo e Salamanca. Comentou o Almagesto dando demonstrações novas de alguns teoremas desta obra e continuou a doutrina de Ptolomeu sobre a resolução dos triângulos esféricos rectângulos. o que deu mais celebridade a este grande astrónomo. procurou a curva descrita por Mercúrio à roda do Sol. muito engenhosa. Mas.°—Recordemos também Azarquiel ou Al-Zarkali. era glória do espírito humano. que substitui a antiga doutrina de Hiparco e Ptolomeu. como bem disse Rico y Sinobas no seu comentário aos Libros del saber de Afonso X.°—Outro matemático notável da Espanha muçulmana foi Geber (Gabir ihn Aflak). pelo sábio matemático espanhol sr. etc. em que há continuïdade no sentido do movimento daqueles pontos. dando a relação entre os dois ângulos oblíquos e um lado oposto a um deles. então ainda não divulgada na Europa. era música da razão. os maiores filósofos árabes medievais. Alpetrágio é memorado com louvores em todos os escritos que apareceram desde o seu tempo sobre os sistemas cosmológicos dos antigos sábios helénicos. que deu para representar os movimentos do Sol. pondo assim um problema que foi mais tarde resolvido por Kepler sobre o planeta Marte. seria necessário comparar a linha gráfica obtida por Azarquiel com curvas hipotéticas. Ora. 1839). publicada no tratado De arte atque ratione navigandi. que se aproximassem dela na forma. Sevilha. da Lua e dos Planetas então conhecidos um Sistema de Orbes homocêntricos com a Terra diferente do que imaginara Eudoxo de Cnido. Sanches Peres em uma excelente memória premiada e publicada pela Academia das Ciências de Madrid. terrena. posta ao serviço de assuntos geométricos. caso que aquele geómetra não considerara . e o nosso Pedro Nunes menciona e examina resultados de observações feitas pelo ilustre astrónomo árabe em uma notícia histórica e crítica sobre o tríplo movimento da oitava esfera do Sistema de Ptolomeu. e que dá ao seu autor o direito a figurar como um precursor de Bradley na teoria da nutação do eixo da Terra. 2. natural de Sevilha. Para obter a definição geométrica desta oval. que lhes atribuía um movimento de avanço e retrocesso. e Alkalradi. 11 . que combateram vigorosamente a Astronomia ptolomaica. foi a sua doutrina sobre o movimento de trepidação dos equinócios. Granada. por outra doutrina. cultivadas com sucesso primeiramente por sábios islamitas em Córdova. e a doutrina do astrónomo árabe Tabit. por não se harmonizar com os postulados da Física peripatética.°—Mencionarei enfim Avempace e Averroes. Azarquiel teria provàvelmente experimentado a elipse.°—Recordemos os aritméticos Bem-Albani. foram as suas doutrinas. com indicação dos assuntos de que se ocuparam.

Dos matemáticos árabes pertencentes ao império oriental. para os apresentar sob forma geométrica indiscutível. Mais tarde. o qual se tornou notável por trabalhos de Óptica. cercando-se de sábios muçulmanos vindos de diversas terras. que mais tarde. Então a Escola de ciências desta última cidade tornou-se rival da Escola célebre que Abul-Abbas tinha fundado em Bagdad quando. em Trigonometria esférica. Mencionarei também Alhazen. relativo aos crepúsculos. Este modo de ver é expressivamente apresentado por Pedro Nunes na passagem seguinte da sua Álgebra: Oh! que bom fora se os autores que escreveram nas ciências matemáticas nos deixassem escritas as suas invenções pelos mesmos discursos que fizeram até que as encontraram. um dos matemáticos a quem se atribui o teorema dos quatro senos da Trigonometria esférica (o outro é Abul-Wafa) e a quem se deve o emprego do triângulo polar na resolução dos triângulos esféricos.Recordei aqui estes nomes de sábios islamitas. quando Abdurrahamam III. a Matemática árabe é caracterizada pela ligação das duas qualidades. um dos quais. foi o ponto de partida dos estudos do nosso Pedro Nunes sobre estes fenómenos. o que caracteriza a Matemática indiana é a audácia na Álgebra. outro. regras que coincidem com as que correspondem ao chamado teorema fundamental da trigonometria esférica. Pelo que respeita às Matemáticas. no caso de serem dados dois lados e o ângulo compreendido entre eles e se pedir o terceiro lado. É crível que os matemáticos gregos já tivessem feito aplicações daquela natureza nas suas indagações. e cujas observações. o ocidental. seguindo de progresso em progresso. E não como Aristóteles diz dos artífices que mostram na máquina que fizeram o que está de fora e escondem o artifício. tratado que teve muita influência na divulgação das doutrinas algébricas dos Gregos e Indianos. havia de fazer da ciência da extensão um ramo formoso da Análise matemática . transferira a sua capital de Damasco para aquela cidade. 12 . de que adiante falaremos. uma bela edição em árabe e latim das obras deste astrónomo. com a capital em Bagdad. porque a eles foram beber doutrinas os nossos matemáticos. os nossos astrónomos e os nossos filósofos. sem terem a franqueza de o dizer. fez da capital do seu império um centro famoso de cultura intelectual. sob o título de Opus astronomicum. e no caso de serem dados os três lados e se pedirem os três ângulos. O que caracteriza a Matemática helénica é a sua pureza geométrica. a Escola de Córdova atingiu um alto grau de esplendor. mas foi também esboçada a aplicação da Álgebra à Geometria. há poucos anos. apresentando depois os resultados obtidos com vestes novas. nem penseis que aquelas tantas proposições de Euclides e Arquimedes foram todas achadas pela mesma via pela qual as trouxeram até nós. Foi o principal continuador de Ptolomeu em Astronomia e. deu regras para resolver os triângulos gerais. e Alkwarismi. o oriental. nesta cidade foi não só estudada com sucesso a Astronomia. com a capital em Córdova. que viveu na passagem do século X para o século Xl. Este facto deve ser notado. para parecerem admiráveis. As Matemáticas começaram a luzir na Espanha muçulmana depois da divisão do enorme império árabe fundado por Maomé e seus sucessores em dois: um. que escreveu um tratado de Álgebra em que são consideradas as equações do primeiro e do segundo grau e numerosos problemas. É a invenção muito diferente da tradição em qualquer arte. tendo vencido e expulso a dinastia dos Omíadas do primitivo império árabe. E mencionarei finalmente Nassir-Eddin. tábuas e doutrinas astronómicas e trigonométricas influíram na ciência hispânica e depois na portuguesa. mencionarei aqui primeiramente Albaténio que viveu na passagem do século IX para o século X e trabalhou em Bagdad. O Observatório Astronómico de Milão publicou.

no mesmo século XVI. que encobriam os meios de os achar. de áreas de superfícies planas e curvas e de determinações de centros de gravidade. como vimos. As escolas andaluzas de ciência atingiram o auge do seu esplendor. as teorias algébricas do célebre matemático italiano e fez conhecer as de Tartáglia sobre a equação do terceiro grau. depois. nas quais os geómetras helenos recorriam ao chamado método de exaustão. como opulentos despojos. todas estas riquezas se vinham reunindo no interposto de Toledo desde o ano em que a soberba capital da velha Gotia. quando o império árabe ocidental subiu ao auge do seu poderio e grandeza. depois de lutas violentas e tenazes. já Toledo era um centro notável de cultura. raça activa e inteligente. no século XI. os matemáticos Indianos. e crê-se que nela compôs as famosas tábuas astronómicas conhecidas pela designação de Tábuas de Toledo. que expôs.Estas palavras aplicam-se em especial às questões em que intervêm quantidades indefinidamente decrescentes. A notícia dos trabalhos destes matemáticos insignes foi espalhada na nossa Península. e não se podem explicar os triunfos que obteve na resolução de questões relativas à medida de volumes de sólidos. e enfim por Pedro Nunes. arrastaram os agarenos até às suas terras de África. Em tudo isto representaram um grande papel os Judeus. E foi assim que procederam. aqui se fixou e aqui estabeleceu os seus lares. Depois declinaram. e está confirmado por uma carta dirigida pelo grande geómetra de Siracusa a Eratóstenes encontrada em 1907 por Heiberg. Nesta cidade viveu. para descobrir os teoremas. aos vencedores a herança científica que tinham recebido dos Helenos. voltando a ser capital de um estado cristão. A obra — Liber Abaci — do célebre matemático. sem admitir que empregava métodos aritméticos. entrou também pela Itália. para os firmar. para satisfazer às exigências de rigor dos matemáticos do seu tempo. ávida de possuir uma pátria. e teve o seu observatório Azarquiel. o célebre astrónomo árabe há pouco mencionado. 13 . empregavam longas demonstrações por absurdo. onde no século XIII a Álgebra heleno-indiana foi introduzida por Leonardo Fibonacci. que ensinou doutrinas do mesmo Frei Lucas. que entrara nas Espanhas após a invasão dos Mouros. Arquimedes é assombroso em questões difíceis desta natureza. que se ocupou de alguns problemas estudados por Frei Lucas. É interessante notar que esta influência da ciência italiana sobre a ciência lusa se estendeu nos mesmos tempos às literaturas dos dois países. de um modo amplo. e que. ampliadas e divulgadas por Frei Lucas de Burgo. com os aumentos preciosos que eles próprios lhe tinham feito. por fim desapareceram. Agora. para inventar os seus teoremas. O pensamento mencionado de Pedro Nunes tem sido repetido por autores modernos. um centro prestigioso de divulgação da ciência heleno-árabe e. no século XV. em Constantinopla. convém notar que a ciência dos árabes não entrou na Europa só pela Espanha. depois por Marco Aurel. Quando os cristãos. primeiramente. principalmente pelo aritmético português Gaspar Nícolau. e tiveram um progresso notável com Tartáglia. Deixaram porém. ficou esquecida por muito tempo. e que depois os apresentava vestidos de roupagens geométricas. os clarões que emitiam afrouxaram. que a estudara entre os Árabes em viagens pelo Mediterrâneo. se tornara. o mais alto centro medieval de investigação astronómica. De facto. alemão domiciliado em Espanha. Quando ainda estava sob o domínio muçulmano. não levaram estes consigo a ciência que tinham introduzido nas Espanhas. mas as suas doutrinas foram mais tarde. e depois. que resolveu no século XVI a equação geral do terceiro grau. de Pisa. antes de prosseguir. como veremos. tornaram-se luz crepúscular. Os seus faróis de alta cultura tinham-se apagado e os seus sábios tinham desaparecido.

Foi esta a forma mais perfeita que a doutrina do movimento da linha dos equinócios tomou antes de Bradley e isto explica o sucesso das Tábuas do rei Afonso Para dar a esta doutrina uma forma compatível com a Física peripatética. sim. e pelos seus colaboradores na organização e calculo das chamadas Tábuas Afonsinas e na redacção dos Libros del saber de Astronomia com que aquele monarca enriqueceu esta ciência. traduções que espalhadas por cópias e mais tarde pela imprensa. e à roda do qual gira o eixo da Eclíptica. a produzir os dois movimentos dos equinócios. Não nos deteremos mais tempo a falar dos trabalhos da Escola astronómica de Toledo. a oitava Esfera ptolomaica. judeus e maometanos. foi depois a Astronomia cultivada com brilho por Afonso X. e. aparece na obra dos astrónomos de Toledo dotada de três movimentos: o movimento diurno à roda do eixo do Mundo. ainda na mesma cidade. a produzir a trepidação. Raimundo. Para realizar o seu grande plano de reorganização completa das tábuas e doutrinas astronómicas. São todos homens inteligentes e cultos. Encontra-se em particular neste volume da obra do sr. As Tábuas Afonsinas e os Libros del saber de Astronomia constituem o monumento mais importante que sobre esta ciência nos legou a Idade-Média. a produzir a precessão dos equinócios. Assim. Vera uma lista de referências instrutivas de astrónomos ilustres às Tábuas afonsinas. são dados preceitos aos artistas para construir e aperfeiçoar estes instrumentos e aos astrónomos para bem os empregar e são considerados numerosos problemas postos nos tempos anteriores desde a mais alta antiguidade e apresentados outros novos. A esta lista podemos juntar as de Pedro Nunes. são minuciosamente descritos e estudados os instrumentos astronómicos. Os matemáticos não precisavam de tais esferas e. depois de passar ao domínio de Castela. É belo imaginar o filho de Fernando-o-Santo. e o movimento muito lento à roda de uma outra recta que passa também pelo centro da Terra. a Esfera das Estrelas.Na mesma cidade. Foram eles desenvolvidamente analisados por Rico y Sinobas no seu notável comentário a estes trabalhos e o distinto historiador espanhol D. e foram uma das bases principais dos progressos que ela teve nos séculos seguintes. e mandou construir por artistas escolhidos os instrumentos até esses tempos usados para a observação do céu. concorreram notàvelmente para o progresso das doutrinas a que são consagradas. cristãos. que no seu culto vêm sob três aspectos diversos. a estudar e a admirar com eles nas maravilhas da obra da criação a grandeza suprema de um Deus. com a sua tolerância de filósofo. fazendo assim do seu Paço uma verdadeira Academia de ciências astronómicas e uma Oficina-escola ao serviço das mesmas ciências. fez traduzir alguns tratados árabes importantes que convinha estudar. E. Nestas obras são melhoradas as Tábuas para o conhecimento dos lugares dos astros na esfera celeste. com a cabeça coroada do duplo diadema de filósofo e de rei. do movimento triplo da Oitava Esfera. Deu uma importância especial às Tábuas mencionadas a circunstância de na sua edição latina ser considerado o movimento da linha dos equinócios como resultante do movimento de precessão segundo Ptolomeu e do movimento de trepidação segundo Azarquiel. que no seu tratado De arte atque rationale navigandi e nas suas Annotationes à teoria dos Planetas 14 . não falam delas: falam. o movimento à roda do eixo da Eclíptica. o Sábio. tiveram as ciências e a filosofia um protector no Arcebispo D. chamou Afonso X à sua corte os astrónomos mais afamados do seu tempo. que mandou traduzir por João de Luna e Gerardo de Cremona algumas obras mais importantes dos Gregos e dos Árabes. que está a publicar. no meio deles. introduziram mais tarde os Escolásticos duas novas esferas sem astros. cercado de seguidores de três religiões diferentes. o monarca castelhano. Francisco Vera consagrou-lhe um longo e interessante capítulo do segundo volume da História da Matemática em Espanha. é o génio que os dirige e a vontade que os manda. geralmente. Não é necessário.

mas não foi para eles que o rei Afonso as mandou compor. por não estarem ainda traduzidas em latim. espalharam aquelas riquezas e as que tinham recebido dos Árabes por toda a nossa Península. a Escola dos Purbachios. A Escola astronómica de Toledo deu grande honra à Espanha e foi precursora da Escola brilhante que se formou mais tarde na Alemanha. como correspondendo a obra divina. As Tábuas afonsinas aparecem sempre nos trabalhos dos astrónomos posteriores à sua composição. Sistema que ele e os seus colaboradores foram obrigados a complicar mais. o complexo Sistema matemático inventado por Ptolomeu para explicar os movimentos dos astros. É certo que houve quem pretendesse apoucar a obra de Afonso X. que era naqueles tempos o primeiro centro de estudos da Espanha cristã. até à reforma astronómica de Kepler. As Tábuas afonsinas foram muito empregadas pelos astrólogos para os seus vaticínios. Diz uma tradição ou lenda que Afonso X se queixava de Deus por ter complicado muito a Máquina do Mundo.de Purbachio. onde continua a brilhar como recordação de um grande passado. indispensáveis a quem quisesse continuar a obra dos astrónomos gregos e árabes. para a aplicarem à Medicina. se ocupou de algumas passagens das referidas Tábuas. até à Provença. Manuel I. além dos Pirenéus. que chamava para si os sábios e repelia os astrólogos e escolásticos do seu tempo. dos Judeus da Espanha no progresso da Astronomia. antes de terminar este assunto. as Tábuas de Ptolomeu e de Albaténio. levaram-nas como presente aos países onde foram procurar um asilo. Convém agora que. como em outro lugar veremos. existia no seu tempo na Biblioteca de Alcalá de Henares um manuscrito onde se encontravam. sob o ponto de vista geral. quando mais tarde foram expulsos da Espanha por Isabel-a-Católica e de Portugal por D. o complete. banindo da ciência o Sistema ptolomaico. os astrónomos judeus da Península Hispânica anteriores ao século XVI pouco mais fizeram do que aperfeiçoar as tábuas e as regras para a determinação das posições dos astros e para o cômputo do tempo. associando no cálculo das Tábuas astronómicas o movimento de precessão segundo Ptolomeu ao movimento de trepidação segundo Azarquiel. Segundo diz o nosso Pedro Nunes no capítulo IV do tratado De arte atque rationale navigandi. Mais tarde Kepler deu-lhe razão. com a sua vida errante. Esta afirmação é falsa. Programa deste livro Ao terminar esta Introdução. demos. dizendo que ele não conhecia os trabalhos de Albaténio. 15 . consagrando algumas palavras ao papel. uma nova pátria de empréstimo. Isto significa que ao seu espírito de filósofo repugnava aceitar. para fixarem as datas das festas. Por isso. levaram-nas. via alto de mais para se ocupar com superstições e quimeras astrológicas ou com hipóteses arbitrárias e aspirava ao conhecimento dos segredos do Universo. que passou para a história. Mas. como veremos. O espírito deste monarca. e. entregues das riquezas que legou a Escola de Toledo. dos Tycho-Brahe e dos Kepler. um resumo das doutrinas que vão ser expostas nas páginas seguintes. ao lado das Tábuas afonsinas. dos Regiomontanos. e com o fim utilitário. Na passagem dos Helenos para os Árabes perdera a cultura científica no seu espírito filosófico e mais perdeu na passagem dos Árabes para os Judeus. para que se pudessem comparar. como um complemento da doutrina do Almagesto de Ptolomeu sobre o movimento dos astros. Estes cultivaram a princípio a Astronomia quase sòmente com o fim religioso. e outro lhe fez com a fundação de uma cadeira de Astronomia na Universidade de Salamanca. Com a composição das suas Tábuas e dos Libros del saber de Astronomia prestou Afonso X um grande serviço à nossa Península. como programa do livro. sem procurarem penetrar nos mistérios da mecânica dos céus. que em Portugal se sentiu mais tarde.

começou nos tempos que se seguiram às campanhas da liberdade.A história das Matemáticas em Portugal pode ser dividida em cinco períodos6. fazendo de Lisboa a raínha gloriosa dos mares. O primeiro o período de formação. e depois deles alguns dos seus discípulos e continuadores. transformou a velha Astronomia em um ramo maravilhoso da Mecânica racional. em que começou o período actual. descobriram novos métodos para penetrar nos mistérios dos números e com eles abriram nas Matemáticas novos caminhos. No quarto período entrou no nosso país a ciência dos sábios estrangeiros do século XVII e dos seus continuadores do século XVIII. começou o quarto período. Na lista dos matemáticos ilustres que tivemos neste período. nos meados do século XIX. e foi ainda no mesmo período que Newton. que será o último geómetra considerado na nossa rápida viagem pela história das Matemáticas em Portugal. Foram estes sábios que. o príncipe dos matemáticos da Península Ibérica. que coincide com os tempos áureos do povo luso. que Newton e Leibniz inventaram o cálculo dos infinitamente pequenos. Abriu este período Daniel da Silva. o período moderno. entre os quais se eleva gloriosa a grande figura de Pedro Nunes. nem um ténue lampejo parece ter atravessado nesses tempos as fronteiras de Portugal. O quinto período. e vai continuando no nosso tempo. Abel. deram aos nossos pilotos as luzes necessárias para conduzir as naus por mares misteriosos. não podendo resolver com os métodos herdados dos grandes geómetras dos séculos anteriores os novos problemas que se lhes apresentaram. o período de brilho.. Jacobi e de outros gigantes da ciência. com a reorganização dos estudos na Universidade de Coimbra pelo Marquês de Pombal e com a fundação da Academia das Ciências de Lisboa. que estenderemos até meados do século XIX. que Descartes e Fermat inventaram a Geometria analítica. Poinsot. que o abriram. Chasles. Cauchy. que vai até aos fins do século XVI. Ocuparam-se desta preparação sábios de Portugal e da Espanha. que. O terceiro período da história das Matemáticas em Portugal coincide com o período de maior brilho da ciência europeia. que vai até meados do século XVIII. Mas de tão intensos clarões. até às praias desconhecidas do Brasil e até às águas longínquas do Pacífico. 158. entre perigos e dificuldades sem conta. que Kepler e Galileu fizeram as suas famosas descobertas físico-matemáticas. brilham principalmente Monteiro da Rocha e Anastácio da Cunha. Começa então o segundo período. toda a nossa cultura matemática girou à roda de uma idea fundamental: preparar os elementos científicos necessários para as grandes navegações no mar alto. aplicando a Astronomia à Náutica. 6 Ver Panegíricos e Conferências. A estes períodos seguiu-se outro. principia no reinado de D. estenderam teorias antigas e construíram teorias novas. o de pobreza. Neste período entraram em Portugal as doutrinas de Poncelet. 16 . Gauss.João I e vai até à morte de D. João II. com a mais sublime das descobertas que até hoje pôde fazer o espírito humano. pág. Foi neste período que Viète fundou a Álgebra moderna. No primeiro período. Então.

judeu português. e provavelmente as operações numéricas necessárias para os usos ordinários da vida. Dinis em Lisboa a primeira Universidade portuguesa. com as doutrinas da Aritmética e Geometria que no seu estudo outrora se aplicavam. usava-se a numeração romana. depois os Cónegos regrantes de Santo Agostinho fundaram outra no seu Mosteiro de Santa Cruz.Origem da cultura das Matemáticas em Portugal Primeiros vestígios A cultura das Matemáticas começou em Portugal mais tarde do que na Espanha e. de Geometria e de Mecânica. em uma obra sobre a arte de navegar. com efeito. documento algum que se refira à cultura de tais ciências no nosso país antes do século XV. fundou D. Em Portugal. parece não ter sido empregada em Portugal antes do mencionado século. Dos serviços da instrução não tiveram que ocupar-se. faziam-se pelos meios herdados dos Romanos pelos povos latinos. Pelo que respeita à Astronomia. a posse de algumas noções. antes da fundação da monarquia portuguesa. Durante a dinastia afonsina. mas em 1535 estava ainda tão pouco divulgado na Península. não houve em Portugal cultura científica propriamente dita. de que aquelas escolas tinham sido precursoras e em cuja fundação intervieram prelados e monges. isto é. entendeu dever consagrar algumas páginas ao ensino da numeração indiana. no período que vai do século XII ao século XV. que Francisco Faleiro. Paterno. os únicos vestígios. 17 . em alguns mosteiros e em universidades do estado que ele próprio dirigia. Nas terras da Espanha cristã vizinhas da Espanha muçulmana apareceu este sistema de numeração certamente mais cedo. Nos fins dele foi. Para contar. são os monumentos em pedra. impresso em Leiria em 1496. o ramo daquelas ciências que primeiro foi regularmente cultivado. talvez empíricas. que revelam nos arquitectos que os projectaram e levantaram. é natural que pelo menos alguns rudimentos desta ciência tenham atravessado nos referidos tempos a fronteira que separa Portugal da Espanha. foi a Astronomia. a coroar tudo isto. então organizados. fundada por D. como neste país. Ensinava-se nestes institutos. que parecem indicar alguns conhecimentos matemáticos. então construídos. e depois à organização deste reino e sua defesa das ambições dos Estados vizinhos. usada no Almanach perpetuum do judeu espanhol Abraão Zacuto. a ciência dos árabes levou tempo a infiltrar-se naqueles países. uma escola episcopal. Os monarcas desta dinastia dedicaram toda a sua atenção e actividade. Já dissemos que desde séculos estavam tais serviços em todos os países cristãos a cargo do clero. A numeração indiana. introduzida pelos Árabes na Península Ibérica. e depois nos Regulamentos para as navegações. por motivo do ódio da Cristandade aos seguidores de Maomé. anteriores ao século XV. impressa neste ano em Sevilha. de que em breve falaremos. que se espalharam por toda a Península. quando muito. conquistado palmo a palmo aos mouros desde o Minho ao Algarve. e por fim. em especial. trazidos por astrólogos judeus. a modesta ciência dos latinos do oriente. primeiramente à formação do seu reino. e ainda à defesa da autoridade real contra prelados e nobres ávidos de poderio e riquezas. que a dava em escolas anexas a algumas catedrais. Em Coimbra houvera. Não conhecemos.

D. quase isolado do Mundo. Assim. como veremos. conheceuse mais tarde e então entraram elas aqui por via de Toledo e Salamanca. era muito perito na fabricação de bússolas e no traçado de cartas de marear. o Direito canônico e a Medicina. prólogo. enquanto a Espanha tinha na Universidade de Salamanca uma cadeira de Astronomia. para ir. escrito pelos Lusos. um povo que aclamou com entusiasmo e defendeu com heroísmo o Mestre de Aviz. Dinis. Henrique. segundo o célebre cronista João de Barros. subiu depois a uma grandeza que foi o assombro do mundo. uma armada. longe da corte. convertendo-se ao Cristianismo. para a auxiliar. as Leis. a indicação do lugar onde se estava. 5. 18 . longe da costa. era necessário pedir aos astros. não dotou a Universidade portuguesa com cadeira alguma destinada ao ensino daquelas ciências. durante a dinastia afonsina formou-se e organizou-se Portugal. pelos nossos navegadores. Era de facto cedo para criar um tal ensino. ao poema da descoberta da América por Colombo. dirigia a preparação das expedições que de lá partiam por ordem sua a explorar os segredos dos mares7. associada à ciência. e depois as descobertas das ilhas do Ocidente africano. eram ensinadas as Humanidades. Dinis organizou. dirigido por chefes enérgicos e animados por altos ideais. que viveu naquela ilha até 1394 e depois.Na nossa primeira Universidade. havia de ser a base da sua glória nos mares. que fundara Afonso X. Ora. enfim. O que a este respeito maior número de probabilidades reúne. O mesmo rei D. auxiliado pelo catalão Jácome de Maiorca. Em conclusão. Henrique. fundou a célebre estação naval de Sagres. para orientar as naus no mar-alto. é o judeu Jafuda Cresques. com o auxílio de um genovês muito perito na arte de navegar. o grande filho do Mestre de Aviz. foi ela em Portugal a mãe de todo o ensino superior. Não se pôde ainda saber com segurança qual deles veio a Portugal auxiliar D. a fim de preparar esses marinheiros e pilotos que. das terras de Santa Cruz. legou à seguinte um povo viril e patriota. aparecem como primeiros troféus as descobertas da Madeira e dos Açores. Naquele Promontório sagrado. pág. preparou-se a sua ciência. cujo carácter se vinha formando desde os tempos de Afonso Henriques. penetraram audazmente para sul e poente no Oceano misterioso a descobrir terras para o seu Rei e a conquistar almas para o seu Deus. Assim foram os portugueses levados à prática da arte náutica. prólogo ao poema da descoberta. e. com períodos de brilho e outros de decadência. havia em Maiorca cartógrafos afamados. animados por uma fé viva em Deus e na Pátria. Mais tarde foram-lhe agregadas cadeiras de diversas ciências. e começou quando D. um povo que. Henrique a necessidade de se internarem no mar. Início da cultura das Matemáticas em Portugal por influência da Náutica A história da cultura das Matemáticas em Portugal está estreitamente ligada. que. trocou o nome primitivo pelo de Jaime (sinónimo de Jácome) e ausentou-se da ilha. reconheceram os pilotos de D. à história da Náutica. ora em Coimbra. de tempos a tempos. Fernando e torpezas de Leonor Teles. nasceu a sua Universidade nasceu a sua marinha. que mais tarde. por meio da ciência astronómica. apelidado o Judeu das Bússolas. no seu princípio. procurar ventos favoráveis às suas derrotas. Logo no começo das suas explorações das praias ocidentais de África. sugestionadora de heroísmos. Ainda se não conhecera no país suficientemente a utilidade dele. Existia naqueles tempos na Catalunha e nas Baleares uma navegação comercial considerável e. Pelo que respeita às Matemáticas. E por isso que na história das navegações portuguesas. um povo que se amotinou contra as fraquezas de D. A primeira dinastia terminou por um monarca pusilânime. seu neto. que deixou de si memória deplorável. apesar disso. o Navegador. para a defesa dos portos do reino das incursões dos piratas da Mauritânia. estudava as obras astronómicas e geográficas de Cláudio Ptolomeu e. ora em Lisboa. mas. para completar o 7 Panegíricos e Conferências. pela primeira vez.

papel da Estação de Sagres. Para isso. como veremos. que o levara a Ceuta e a Tânger. havia diferenças essenciais entre a Escola muçulmana de Córdova e Sevilha. D. Com efeito. da sua coragem e da posição geográfica que ocupava. Henrique começou a ocupar-se da náutica. como já dissemos. esta cultura era ainda mais reduzida. o velho mundo recebeu com pasmo a notícia de que uma armada lusa abordara às praias de Calecute. Dinis. para destruir a fonte do seu poder. Henrique fundou uma. onde os aspirantes a pilotos aprendiam o que a respeito destas ciências precisavam conhecer. Foram estas paixões que o levaram primeiramente a Marrocos. destinada a defender aquela navegação e os portos do país dos ataques dos piratas da Mauritânia. Na alma do Infante português ardiam duas paixões que a dominavam: o amor a Cristo e a Portugal. mas o Infante tinha têmpera de herói e confiava no heroísmo da gente lusa. No modo de cultivar as Matemáticas. como anteriormente dissemos. da Álgebra e da Geometria. o do infante lusitano era utilitário. quando o faziam. Henrique de criar uma escola onde se ensinasse a Astronomia com as doutrinas de Aritmética e Geometria de que aquela ciência depende. fixavam a posição do navio pelo rumo (isto é pelo ângulo constante 8 Veja-se a este respeito o importante opúsculo de Joaquim Bensaúde. D. e dispunha também. quando D. D. Ora nenhum povo estava em condições mais favoráveis para realizar este feito heróico do que o luso. uma Universidade. circundando a África. para aí preparar as navegações que haviam de levar os portugueses a combatê-la na Ásia. e depois a Sagres. Henrique não podia deixar de acolher com agrado tal plano. para dirigir as naus. a Escola cristã de Toledo e a Escola nascente portuguesa. por motivo da viveza da sua fé religiosa. Devemos notar aqui que. na segunda. se avivara com a derrota sofrida nesta última cidade e porque certamente tinha sempre na mente. Existia naqueles tempos em Portugal. Dinis. e de cair desastradamente em Tânger. Fernando. possuía já Portugal uma considerável navegação costeira e uma importante marinha de guerra. que não pudera resgatar sem sacrificar a glória da tomada de Ceuta. o santo prisioneiro de Fez. na terceira. havia uma certa cultura da Aritmética. que começara a ser organizada. para aí combater a raça odiada. Não conseguiu levar aquelas naus a esses mares. Henrique. toda a cultura matemática girava à roda da sua aplicação à Astronomia. depois de se cobrir de glória com seu Pai e seu irmão D. como ciências autónomas. Só no século XVI começou em Portugal. o estudo das Matemáticas sob o ponto de vista puramente teórico. pois que girava à roda do que na Astronomia era aplicável à Náutica. quis ir bater os muçulmanos nas longínquas paragens da Índia e ordenou que as suas naus navegassem para o sul. os muçulmanos ameaçavam a Europa por oriente e sul e. Henrique na fundação da Escola portuguesa de ciência astronómica é bem diferente do que animara Afonso X na fundação da Escola de Toledo. era preciso ir aniquilar na Índia o seu comércio com a Europa. com os problemas que lhes propuseram e com os novos aspectos que lhes apresentaram dos fenómenos da natureza. à procura de passagem para os mares do Oriente8. que estava instalada em Lisboa e fora fundada por D. de marinheiros experientes e valorosos. o ódio ao Islão. os nautas afastavam-se pouco da costa e. intitulado Origines des plans des Indes (Paris 1929) 19 . Nos tempos anteriores à fundação da Estação de Sagres. no tempo de D. porque o ódio ao Islão. Faltou-lhe tempo. Duarte em Ceuta. que criaram aquele espírito. a lembrança pungente dos sofrimentos de seu irmão D. mas não havia ainda nela cadeira alguma destinada ao ensino das Matemáticas. precisava D. a atormentá-lo. Na primeira Escola. era necessário ir ali por mar. O ideal do rei castelhano era puramente filosófico. O espírito científico nasceu entre os Lusos mais tarde e subiu alto. que os ameaçava a ambos. ainda no século em que viveu. O ideal que inspirou D. Mas. Era uma empresa audaz. mas foram as navegações. que lhes dava as rendas de que precisavam para manter os seus temíveis exércitos.

Em cada um destes dois meios de regular o movimento do navio. onde os lugares eram representados por pontos. Nas cartas de Marino. por duas coordenadas. a bússola e a carta náutica se podem dirigir com segurança os navios no mar). que o Infante certamente conhecia. Portugal. todos os seus esforços e todos os seus haveres. e que este célebre navegador se serviu. usadas por Ptolomeu. Não sabemos em que época o segundo modo de navegar substituiu o antigo. sendo as rectas de um dos sistemas perpendiculares às do outro. precisaram. relativamente a uma recta que corresponde ao Equador (ou a um Paralelo fundamental). Este modo de determinar as latitudes era conhecido desde a antiguidade. modificando-se porém aquelas cartas do modo que vamos ver. Henrique morreu em 1460. para se orientar. com o seu coração. no qual cada lugar 20 . no mar da Guiné. marcando nele um ponto correspondente a um lugar especial da esfera. com a sua energia inteligente e pertinaz e com a sua fé sugestionadora. e estavam assinalados nos Libros del saber de Afonso-o-Sábio. para determinar as latitudes. em que os meridianos e os paralelos da esfera são representados por dois sistemas de rectas paralelas equidistantes. Morreu solteiro e pobre. Henrique desde a ocasião em que. referidas à mesma escala. reconhecido. Alcançara a glória de ser o génio criador e o primeiro organizador das navegações maravilhosas dos Lusos e. Suprimindo neste gráfico de latitudes e longitudes as rectas que representam os meridianos (ou considerando-as apenas como indicadoras do rumo norte-sul). os pilotos colhiam estes elementos. Nas viagens novas. Para uso das navegações por distâncias e rumos. assim como o instrumento com que Diogo Gomes observou a estrela mencionada. começando a internar-se no Oceano. adoptara o Paralelo de Rodes. os rumos pelas direcções dos segmentos da recta que ligam aqueles lugares e as distâncias pelos comprimentos destes segmentos. o que sabemos é que já tinha sido indicado por Afonso-o-Sábio no seu Libro de las Partidas (onde diz que com o astrolábio.formado pela direcção do seu movimento com os meridianos que ia cortando) e pelas distâncias percorridas. que os que vinham depois aproveitavam. altura que mediu por meio de um quadrante graduado. tinham-se primitivamente construído cartas náuticas. venerou e glorificou sempre a sua memória e o seu nome figura aureolado nas páginas da Epopeia dos Lusíadas. de recorrer aos astros. referidos a uma escala arbitràriamente escolhida. cada lugar da esfera é representado no plano. que foi empregado por Diogo Gomes em 1642. uma das quais corresponde ao comprimento do arco do meridiano do lugar considerado compreendido entre este lugar e o Equador (ou entre o lugar e o Paralelo fundamental) e a outra ao comprimento do arco do Equador (ou do arco do Paralelo fundamental) compreendido entre o Meridiano do lugar e o Meridiano principal. É natural que tenha sido empregado pelos pilotos de D. Tinha gasto tudo na preparação das expedições e tinha ainda gasto nelas as rendas da Ordem de Cristo. e tirando por este ponto as rectas correspondentes às direcções dos raios da Rosa dos Ventos no lugar da esfera que representa. Tinha dado a Portugal. do método que as deduz da altura meridiana da Estrela polar. Marino não adoptara para base da sua carta o Equador. porque existia um exemplar desta obra na biblioteca da corte. fizera dos seus marinheiros heróis. obtém-se o gráfico de latitudes e rumos empregado nas navegações dos séculos XV e XVI sob a designação de carta náutica ou carta hidrográfica. e assim foi-se levado a recorrer às cartas rectangulares de Marino de Tiro. de que era Grão-Mestre. São estes os antigos portulanos. referidas a uma escala arbitrariamente escolhida. dois números determinam a sua posição no mar relativamente ao lugar de onde partiu. que era menos prático e não era apropriado à navegação no mar alto. Mas estas cartas não serviam para a navegação por latitudes e rumos. que se tome para origem dos rumos. que estava fora da parte da Terra que então se julgava habitável. Mais tarde empregaram-se para o mesmo fim os rumos e as latitudes. D.

Qualquer que seja porém a origem da introdução em Portugal deste sistema de representação da esfera. melhorando a colocação de pontos que nela representam lugares já registados. Mas o distinto escritor espanhol D. entre eles. segundo disseram mais tarde os monges do mosteiro mencionado. na sua Historia de la Matematica en España. quando veio auxiliá-lo em Sagres. como adiante veremos. Ora. só é possível aproximadamente. porque repartimos as agulhas que. E esta é a razão por que foi necessário na carta os rumos de norte-sul e quaisquer outros do mesmo nome serem linhas direitas equidistantes. para nós notável. que tem a singularidade. e então já este sistema de cartas seria certamente conhecido em Sagres. porque. Para se resolver difinitivamente a questão. Tanto o historiador português como o historiador espanhol encontraram a notícia da referida carta num livro de notícias sobre alguns conventos da Espanha. em trinta e duas partes iguais e podemos governar a uma parte destas quanto espaço queremos.da esfera é representado pelo ponto de intersecção da recta correspondente ao seu paralelo com o que representa o seu rumo relativamente à Origem dos rumos na esfera. Outra carta maiorquina célebre. Entre as cartas planas rectangulares célebres do século XV. que com a terceira linha. a de Gabriel Valseca. Vera atribui-o a lapso do Padre Vilanova. escrito pelo Padre Joaquim Vilanova. Henrique. dá notícia de uma carta de latitudes e rumos construída em 1413 pelo cartógrafo maiorquino Matias de Vila Destes. de estar referida ao Paralelo de Lisboa. António Vera. Depois acrescenta: 21 . o certo é que aos portugueses cabe a honra de serem os primeiros a empregá-lo com regularidade nas navegações e de aperfeiçoarem as cartas registando nelas novos lugares da Terra. com o fim de fazer passar a carta por mais antiga do que realmente era. por serem os ditos meridianos representados por linhas direitas e equidistantes. nos representam o horizonte. E. no século XVI pôde Pedro Nunes escrever no seu Tratado em defensam da carta de marear as palavras seguintes: As nossas cartas são muito diferentes das que usaram os antigos. onde aquele sistema é desenvolvidamente analisado. foi roubada pelos franceses quando invadiram a Península. Por outra parte. do mesmo sistema. etc. formam de dentro e de fora ângulos iguais. figura também a que o italiano Toscanelli remeteu em 1474 a um cónego da Sé de Lisboa. publicada recentemente. enquanto que Stokler o atribui a falsificação cometida pelo desenhador. de tal modo que. forma com os novos meridianos igual ângulo ao com que partimos. conhecendo o sistema de Marino para a representação da esfera por meio do Tratado de Geografia de Ptolomeu. inclui as ilhas de Cabo Verde. em 1819. mas infelizmente isto não é possível. Poderia pois ter sido este sistema de cartas indicado ao Infante por Jácome de Maiorca. o qual diz que a vira na Cartuxa de Val de Cristo. Assim foram. que representa o universo. faz sempre a rota com os meridianos ângulos iguais. progredindo as navegações com as cartas e as cartas com as navegações. seria necessário examiná-la. A sobreposição deste gráfico de latitudes e rumos ao gráfico de latitudes e longitudes de Marino. em todo o lugar. e considerara-a como falsificada na data pelo motivo que vamos dizer. que em 1413 ainda não tinham sido descobertas. quando já começara o período de brilho das navegações portuguesas. perto de Segorbe. Tem-se afirmado que D. assim mesmo na carta. sem embargo que no processo do caminho mudem os horizontes e as alturas. o nosso Garção Stockler tinha já falado desta carta. assim como o caminho que fazemos. que é aquela por que se faz o caminho. Para explicar este facto. de modo a obter uma carta de latitudes. longitudes e rumos. e portanto anterior à fundação da Estação de Sagres. na menção que este escritor faz de lugares registados na carta. só apareceu em 1439. o fez reviver para uso da náutica. e depois nunca mais se soube dela. no seu Ensaio histórico.

e a que fez Mestre João. e então publicou em Leiria. Entre as aplicações que depois se fizeram dele. uma obra com o título de Composição Magna. em 1500. professor em Salamanca. cerca do ano de 1477. Ora. com mais precisão e desenvolvimento. Como obteve José Vizinho a tábua de declinações do Sol de que depende a aplicação do referido método? Provàvelmente por meio de Abraão Zacuto. os astrolábios luxuosos e complicados descritos nos Libros del Saber foram reduzidos a um humilde instrumento de madeira. É um livro hoje raro. João II. José Vizinho tinha relações com Zacuto. fez à Guiné em 1485. que fora seu mestre. os astros e a bússola puderam dizer à nau a direcção em que devia seguir para levar o nauta ao porto do seu destino. que existe na Biblioteca Pública de Évora. Zacuto tinha composto em língua hebraica. que compreendia as que são necessárias para determinar as declinações do Sol em cada ano. quanto foram estreitas as relações entre o astrónomo espanhol e o cosmógrafo português. Vê-se pelo que acabamos de dizer.Não se pode fazer de linhas curvas um planisfério que tão conforme seja ao nosso modo de viajar. Zacuto veio pala Lisboa. quando nos ocuparmos das obras de Pedro Nunes. cosmógrafo e médico de D. foi aplicado na náutica lusitana pela primeira vez pelo judeu José Vizinho. Este Almanach foi depois a origem de todas as tábuas de declinação do Sol que os pilotos levavam nas naus. quando é conhecida aquela altura e a declinação do Sol no dia da observação. onde ocupou o cargo de cosmógrafo do Rei. quando aí abordou na sua primeira viagem a Índia. na Alemanha. um exemplar que existe na Biblioteca de Augsburgo. no qual suprimiram todas as peças que não eram necessárias para aquela medida. D. Os Cosmógrafos de D. em 1492. onde eram expostos numerosos assuntos de Astronomia e onde era dada uma colecção de tábuas astronómicas. em 1496. Para medir a altura dos astros. aconselharam os mesmos cosmógrafos o astrolábio. Voltaremos a falar das cartas náuticas. e poderia por isso obter uma cópia das tábuas de que precisava. É interessante notar aqui que o Almanach perpetuum foi um dos quatro primeiros livros publicados em Portugal depois da invenção da imprensa e o primeiro no que respeita às Matemáticas. na ocasião de esta armada aportar a terras de Santa Cruz. os quais aconselharam para esse fim a observação da altura do Sol na sua passagem pelo meridiano do lugar e o emprego de um método exposto nos Libros del saber de Astronomia de Afonso X. relações que tiveram como consequência ficarem os seus nomes gloriosamente ligados na história da Náutica lusitana. O método para a determinação das latitudes de que acabamos de falar. ficaram especialmente assinaladas a que fez Vasco da Gama na ilha de Santa Helena. muito empregado pelos Árabes para diversos fins e minuciosamente descrito na mencionada obra do Rei castelhano. Este método determina a latitude. para o experimentar. como é esta carta. a sua colecção de tábuas com explicações para as usar traduzidas em latim por José Vizinho. sob o título de Almanach perpetuum celestium motuum. e a tradução em castelhano dos Cânones (regras para o seu uso). João II encarregou os seus cosmógrafos de procurar uma solução para o problema da determinação da latitude em qualquer lugar do globo terrestre. instrumento de origem grega. 22 . Mais tarde. e por isso Joaquim Bensaúde fez reproduzir em 1915. pela fotogravura. João II Não sendo o modo de orientação das naus por meio da estrela polar aplicável quando os portugueses quiseram navegar para além do Equador. médicoastrólogo da armada de Pedro Álvares Cabral. De facto. Assim. mas por meio deste humilde instrumento. em uma viagem que.

dos principais lugares por onde os nossos primeiros navegadores passaram. que nasceu em Lisboa em 1447 e depois se retirou para a Espanha. As duas mencionadas edições do Regimento do astrolábio foram publicadas no século XVI. professor na Universidade de Salamanca. para as que se referem a outro período qualquer do mesmo número de anos. que compuseram novos Regimentos náuticos. e Pedro Nunes mostrou que. e por isso Joaquim Bensaúde as incluiu na sua magnífica colecção de reproduções fac-similadas de obras preciosas relativas àquelas navegações. foi recentemente publicado na Revista da Academia das Ciências de Madrid por Cantera Burgos. encontrado por Joaquim Bensaúde na Biblioteca Nacional de Munique. mas outras tinham já sido decerto compostas para as viagens realizadas nos fins do século XV. Como a declinação do Sol varia lentamente de ano para ano. notável pela abundância de informações e rigor da crítica. João II. expressas em graus. tábuas que foram calculadas por meio do Almanach de Zacuto. João II.E ajuntarei ainda que a Compilação Magna de Zacuto foi traduzida em castelhano por João de Salaya. Convém por fim notar que um dos inspiradores de Zacuto na composição desta obra foi. além disto. do qual se conhecem dois exemplares. uma tábua para o cálculo das distâncias percorridas e dos desvios em longitude no movimento do navio por cada rumo da Rosa dos ventos e uma lista de latitudes. até que eram substituídas por outras. Contêm ambos os exemplares as regras para a determinação das latitudes por meio das passagens meridianas do Sol e por meio da Estrela polar. Os regulamentos das antigas navegações portuguesas foram reunidos em um livro intitulado Regimento do astrolábio. um tratado de Astronomia e um tratado sobre instrumentos para a observação dos astros. ordenado por D. Os dois livros de que acabamos de falar. Compôs este judeu tábuas astronómicas. carta que nada diz sobre prática da navegação e que certamente ali foi colocada para levantar o espírito dos marinheiros. são documentos preciosos para a história das navegações portuguesas. das regras dadas nos primitivos para determinar as latitudes por meio da Estrela polar. O segundo exemplar encerra. as regras para conhecer as horas da noite por meio da Ursa menor e para conhecer as horas das marés. as tábuas de declinação do primeiro Regimento continuavam a servir para alguns anos e as do segundo para alguns períodos de quatro anos. mais antigo. O exemplar de Munique contém no fim uma tábua de declinações do Sol para um ano bissexto. e que o manuscrito desta tradução. expressas em graus e minutos. e outro. o exemplar de Évora contém uma tábua das declinações do Sol. preciosa para aqueles tempos. As doutrinas das duas edições do Regimento do astrolábio foram aperfeiçoadas depois por alguns cosmógrafos. calculadas por meio do referido Almanaque. o astrónomo judeu Jehuda Iben Verga. lista que no Regimento de Munique se estende até ao Equador e no de Évora até terras da Ásia. onde se dão regras para se passar das tábuas de declinação do Sol referidas ao período de quatro anos que vai de 1473 a 1476. com aproximação cada vez menor. encontrado por Luciano Cordeiro na Biblioteca Pública de Évora. segundo ele diz. mais completo e mais perfeito. fazendo-lhes saber quanto as navegações portuguesas eram admiradas no estrangeiro e as esperanças que nelas se tinham. escritas neste Almanaque. que talvez não tenham sido divulgadas para conservar o segredo das nossas navegações. existente na Biblioteca desta Universidade. para um período de quatro anos que vão de um bissexto ao seguinte. 23 . só são exactas as duas que se referem às suas passagens pelo meridiano do lugar da observação. pertencentes a duas edições diferentes: um. como suplemento a uma notícia sobre Zacuto. Contêm ainda os dois livros um pequeno tratado da esfera celeste para instrução dos pilotos e uma carta dirigida pelo sábio geógrafo alemão Monetário a D.

Martin Behaim. descobrir as Américas. Podemos porém acrescentar que. Parece que Behaim era apenas um fidalgo ilustrado que. com a qual compôs uma carta esférica representativa do mundo então conhecido. que o geógrafo inglês Ravenstein tinha já anteriormente combatido. nas Décadas. códice que foi depois reproduzido em Portugal por Valentim Fernandes. Pequeno em extensão como a Grécia. mas não foi por eles inventada. falaram das origens daquele saber. do emprego das tábuas de Zacuto aparecem sinais evidentes nas duas edições do Regimento do astrolábio encontradas em Munique e Évora. Dois dos nossos escritores quinhentistas. Portugal foi. Este conceito pode aplicar-se à gente Lusa. da América e da Ásia banhadas por mares que as nossas caravelas percorreram em viagem triunfal. a sua origem é portuguesa. Afirmam eles que Behaim ensinou aos portugueses o método para determinar as latitudes pela observação da altura meridiana do Sol e que. e fixar rotas para ir de praia a praia. na filosofia e na ciência. Infelizmente. as tábuas de declinação do Sol dadas no Regimento do astrolábio estão em desacordo com as tábuas das Efemérides do primeiro e harmonizam com as tábuas do Almanaque do segundo. Ficou pois assente a segunda versão. e descobrir neles numerosas terras. constituíram um império mais vasto do que todos aqueles que até então se tinham visto.Encanta observar que. Joaquim Bensaúde. que se encontra em Nuremberg. e. João II veio a Lisboa e que se dizia discípulo do célebre Regiomontano. é justo acrescentar que se deve ao mencionado historiador da fundação da Astronomia náutica. que. e um códice. navegar até à Índia. Gaspar Correia. a nossa gente só pôde seguir os mestres daquele povo. escrito em latim. fruto de narrativas que lhe fez Diogo Gomes. Dizia Renan que a civilização do povo helénico apareceu como um milagre na história do Mundo. subindo mais em audácia. o segundo a Behaim. que no tempo de D. a pena ilustrada de Garção Stockler fortaleceu no seu Ensaio histórico e a pena poderosa de Humboldt espalhou por todo o mundo. trouxe de Nuremberg as tábuas astronómicas do seu mestre. sem lograr imitá-los. e João de Barros. não ficámos em cultura científica atrás dos outros povos que foram beber a sua ciência nas fontes heleno-árabes. como ela. o segundo era douto e foi ouvido. Ao terminar estas considerações. onde Alexandre Magno tinha levado por terra os seus exércitos. as tábuas do Sol de Regiomontano e Zacuto diferem entre si. porque os dois astrónomos adoptaram para valor da obliquidade da Eclíptica números diferentes: ora. As listas de latitudes que encerram são documentos historicamente preciosos e são ainda troféus de glória a recordar terras inexploradas das costas da África. que em longa viagem pelos oceanos navegaram até à Índia. até aos meados do século XVI. mas não conseguira extinguir. com tão modestos Regimentos e com humildes astrolábios de madeira. em vez de nos trazer ciência astronómica. O primeiro era inculto e não foi atendido. berço de heróis. nas Lendas da Índia. dilatando mais as suas conquistas do que o herói macedónico. Com efeito. Esta versão sobre a origem do saber dos Lusos em Astronomia náutica foi divulgada pelos alemães com certo orgulho. e. Enquanto que nem um único vestígio aparece do uso das tábuas de Regiomontano na Náutica portuguesa. ao começar o século XIX. 24 . para o poderem aplicar. circundando a África. porque fazem evocar a memória dos primitivos conhecimentos em ciência da navegação dos nossos avós. levou de Portugal para o seu país ciência geográfica. Alguns historiadores têm atribuído um papel essencial na fundação da Astronomia náutica a um fidalgo alemão. Mas recentemente tudo isto mudou. e. e. O primeiro atribuiu-o a Zacuto. o ter terminado completamente com a lenda da intervenção da ciência germânica na náutica lusitana. puderam marinheiros audazes percorrer a vastidão dos mares. seguindo para ocidente. realizar o glorioso feito da circumnavegação do Mundo! Aqueles livros devem ser sagrados para os portugueses.

Coimbra. marinheiros experimentados para as executar e capitães valentes para assegurar o domínio dos portugueses nas terras que descobrissem. Todas as expedições lusas desde o seu início em Sagres até ao século XVI foram sàbiamente organizadas e correctamente executadas. além desta ciência. Assim como na terra há estradas para ir de lugar a lugar. menciona Pedro Nunes no Tratado em defensam da carta de marear o facto de as cartas das nossas navegações darem para valor da diferença de longitude entre as Canárias e o Cabo Gardafui. e legou-lhe ainda os planos das grandes viagens que depois se fizeram. Resultou da colaboração de Zacuto com José Vizinho e é uma aplicação das doutrinas de origem greco-árabe contidas na obra de Afonso X. A ciência daquele grande geómetra e astrónomo só influíu na ciência portuguesa no século XVI. D. 1931. 25 . diz Pedro Nunes. prejudiciais à civilização do Mundo. Manuel. porque nas suas obras bebeu Pedro Nunes alguns dos seus conhecimentos. pertinácia inexcedível. o grande cosmógrafo diz que os Portugueses não foram àquele Cabo por terra. A Escola astronómica de Toledo foi um foco de luz que iluminou a nossa Península inteira e foi ainda ao longe iluminar a Alemanha. Depois é que apareceram mercadores ambiciosos. segundo o que mais convinha em cada ocasião9. «Não iam a acertar. determinados pelas correntes marítimas e pelo regime de ventos. como vimos. os nautas portugueses foram os primeiros a estudar estes caminhos no que respeita ao Atlântico. Joao II. oitenta e três graus. a Astronomia náutica é obra ibérica e a sua origem está nos Regimentos das navegações portuguesas. Antes de passarem aos mares do oriente estudaram o regime dos ventos no Atlântico e navegaram nele. estava fundada a ciência da navegação pelos astros e estava mesmo já experimentada. o Tratado de Tordesilhas. Portugal recebeu luz directa desta Escola. Para fazer sobressair a importância desta coincidência. É um erro. e de terras descobertas pelos seus pilotos. obra dos seus cosmógrafos. A confirmar a arte e ciência com que navegavam os Portugueses. legou ao seu sucessor. a trazer à Europa produtos da Índia em navios mal construídos.Em conclusão. mas infelizmente os seus sucessores não puderam conservá-la. Quando morreu D. O povo luso revelou nas suas prodigiosas navegações coragem heróica. evitando assim conflitos entre estes dois países. para se ir de praia a praia. segundo diz Ptolomeu no primeiro livro da sua Geografia». que Ptolomeu tinha obtido por meio de medidas feitas por viajantes em terra. aumentou a herança. «navegando 9 Veja-se a este respeito uma notável conferência de Gago Coutinho reproduzida no livro intitulado Terceiro Jubileu da Academia das Ciências de Lisboa. aventureiros por interesse. excessivamente carregados e rotineiramente dirigidos. chamado pelos antigos Aromata. que regulava a divisão entre Portugal e Castela novas terras que se descobrissem. Este grande monarca. como veremos. herdeiro afortunado de tudo isto. mas por mar. Os navegadores que iam primeiro informavam os que iam mais tarde das observações que tinham feito e de que estes podiam aproveitar-se. Ora. que são as cousas de que os cosmógrafos hão-de andar apercebidos. ora perto ora longe da costa. inteligência viva e notável saber técnico para construir e manobrar as naus e para as dirigir nos mares pela bússola e pelos astros. não precisou de receber de além Reno luz reflectida por meio de Regiomontano e Behaim. muitos dos quais naufragaram. também no mar há caminhos. que fechou com chave de ouro o primeiro ramo de uma dinastia que com chave de ouro fora aberta. mas partiam os seus mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de Astrologia e Geometria. o mesmo valor. Têm sido os antigos portugueses algumas vezes considerados como simples aventureiros audazes.

procurar a paz aonde Jeová o levar. que. lastimamos que o seu autor não nos tenha deixado o registo da série de medidas que fez para chegar à coincidência inesperada que mencionámos. De nada lhe valeram os serviços que fizera às nossas navegações com as suas tábuas e com o seu ensino. Vamos aqui reproduzir. deixou a Península. Os continuadores de Zacuto e José Vizinho na obra de aplicação da Astronomia à Náutica Depois de Zacuto e José Vizinho. Como eco da sua passagem por Túnis. não querendo ser apóstata nem hipócrita. ficou a notícia. e passando tantas tormentas e diversidade de tempos. João II. ora havendo vista da terra e muitas vezes não a vendo e lançados tanto ao mar como convém para passar o Cabo da Boa Esperança e poderem tornar a cobrar o norte». Muitos destes infelizes. que ora os lançam para uma parte. aproveitou estes serviços a náutica portuguesa porque o Almanach perpetuum de Zacuto não teria sido talvez composto se não aproveitasse aos astrólogos. casada com Pedro Anes. Os outros partiram e foram os mais felizes. Comove pensar na grandeza de alma e na viveza de fé deste judeu célebre. abjuraram. Aceitando esta conclusão. e vai à aventura como o Ashavero da lenda. onde nascera. lá foi seguindo na sua peregrinação até Túnis e depois até à Síria. dada pelo notável astrónomo italiano Ricci de que ali se encontrou com o célebre hebreu e dele recebeu lições. nas catacumbas o seu Jesus. doou mais tarde algumas terras. nas crenças e na desdita. João II. o que a respeito destes portugueses célebres escrevemos nos nossos Panegíricos e Conferências. mas a sua demora neste cargo não foi longa. iluminando-os com a sua ciência astronómica na preparação das navegações lusitanas. dando aos astrónomos os meios de que careciam para viver. ora para a outra. onde nasceu. chamado por D. e depois de Portugal. Expulso primeiramente da Espanha. onde foi procurar nos islamitas de Damasco a tolerância religiosa que não encontrara entre os cristãos da Ibéria . para não sairem da pátria adoptiva. quando esta viagem estava em preparação. como os cristãos tinham adorado. a nova pátria que adoptara. em conclusão: «as navegações de Portugal são as mais certas e melhor fundadas do que nenhumas outras». 26 . que o encarregou de compor o horoscópio da viagem de Vasco da Gama à Índia. João III. reparando a ingratidão de seu pai. Depois da morte de D. Agora. porque teve de sair de Portugal com os seus irmãos na raça. quando falámos da Sintaxe astrológica de Ptolomeu. mas continuaram a adorar em segredo o seu Jeová. O certo é que foi cosmógrafo deste monarca e que colaborou com os cosmógrafos portugueses. e Francisco Faleiro. ocuparam se com sucesso da arte e da ciência de navegar Duarte Pacheco Pereira e João de Lisboa. em um livro impresso em 1535 em língua castelhana. antes de continuar esta doutrina é justo que consagremos uma recordação a esse hebreu sem pátria que se chamou Zacuto. Há quem diga que este astrónomo veio para Portugal quando os judeus foram expulsos da Espanha e há também quem afirme que viera antes disso. com ampliações e melhoramentos. No caso actual. quando o referido monarca mandou expulsar do seu reino os judeus que não abjurassem da sua fé religiosa.com tamanhos rodeios como se fazem em tão comprido caminho como é o da Índia. e acrescenta depois. Deixou em Portugal uma filha. Manuel. também em segredo. passou Zacuto a ser astrólogo de D. a quem D. Dissemos. que a Astrologia judiciária prestou grandes serviços à ciência dos astros. em obras que foram recentemente publicadas. Um destes foi Zacuto.

Duarte Pacheco. com a descrição dos regulamentos de navegação de que fez uso. situadas na direcção do diâmetro do prato da bússola que passava pelo zero da escala. Deixou-nos num livro notável. formado por três regras. Negociou hàbilmente o tratado de Tordesilhas. estudo que abriu com a determinação da linha de declinação nula (a que chamou meridiano vero). João II e foi um dos heróis das conquistas da Índia celebrados por Camões. que se podem desdobrar em seis considerando separadamente os casos em que o Sol está ao norte ou ao sul do Equador. é uma colecção notável de escritos relativos a vários assuntos de ciência e arte de navegar. as coordenadas geográficas que mediu. por cima da ilha de S. os roteiros das viagens que realizou. cujas funções variadas exerceu. conceitos de sã filosofia sobre o estudo da natureza. intitulado Esmeraldo de situ orbis. e. foi adoptado pelo autor da edição do Regimento do astrolábio existente na Biblioteca de Évora. teve algumas vezes dificuldade em destinguir se estava ao norte ou ao sul da referida linha. Pensou e escreveu nas naus em que navegou. anteriormente citado. entre a ilha de Santa Maria e a ponta da ilha de S. navegando nos mares equatoriais. entre os quais assinalaremos um que se refere aos seus estudos sobre a declinação da agulha magnética e outro que se refere ao emprego na náutica da constelação do Cruzeiro do Sul. mostrando que esta linha passa nos Açores. sob o título de Livro da marinharia. correspondendo quatro ao caso cm que o observador está ao norte do Equador e quatro ao caso em que está ao sul desta linha. O Dr. João de Lisboa foi ao mesmo tempo insigne como cosmógrafo e como marinheiro. um dos assassinos de D. Na parte da obra de João de Lisboa relativa aos regimentos náuticos. Para fazer as observações enfiava a Estrela polar pelas duas fendas na ocasião da sua passagem pelo meridiano. A agulha magnética marcava-lhe então a declinação pedida. que devemos aqui assinalar. que se reduzia a uma bússola em cuja caixa estavam abertas duas fendas verticais estreitas. Miguel. Para realizar as suas observações de declinação magnética. publicada na História da Colonização do Brasil de Malheiro Dias. Ines de Castro. que fosse independente da situação do observador a norte ou a sul do Equador. Luciano Pereira da Silva consagrou a este livro e ao autor uma notícia notável. Nos astrolábios então usados o quadrante em que se 27 . obra já por nós citada. a valentia do guerreiro e o ânimo do nauta. alvores de uma filosofia científica. espalhados por todo o livro. O manuscrito que Duarte Pacheco deixou do Esmeraldo só foi divulgado pela imprensa em 1892. Este marinheiro cosmógrafo merece figurar na história da Geografia física como autor da primeira série de observações regulares para o estudo da distribuïção sobre a superfície da Terra das linhas de igual declinação magnética. Este novo regimento. as observações que fez sobre o regime das marés. Vicente. Estavam nele associados o alto espírito do filósofo. que foram o seu observatório. Na parte desta obra relativa aos Regimentos náuticos. explorou as costas da Guiné. e foi uma das maiores figuras da Epopeia marítima lusitana. Na edição do Regulamento do astrolábio existente na Biblioteca de Munique. Nos mares austrais empregava um processo análogo. recorrendo às Estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul. A obra que nos legou. a sagacidade do diplomata. Esta obra só foi divulgada pela imprensa em 1903. apropriada aos novos horizontes abertos nas ciências pelas navegações por novos mares e pelas observações de novos fenómenos do mundo. atravessou o Atlântico em missão secreta que lhe confiou D. Para o aplicar basta conhecer os dias do equinócio. nas ilhas de Cabo Verde.Duarte Pacheco era descendente de Diogo Pacheco. Foi por isso levado a organizar um novo regimento para a solução do problema mencionado. empregava um aparelho rudimentar. livre do escolasticismo então dominante. e entre o Cabo da Boa Esperança e o Cabo Frio. Ora. nota-se uma modificação importante nas regras para a determinação das latitudes pela observação da altura meridiana do Sol que devemos também aqui mencionar. nota-se uma modificação importante nas regras para a determinação das latitudes por meio da observação da altura do Sol ao meio dia. vêem-se oito regras para aquela determinação.

aproveitáveis no cálculo das latitudes pelas novas regras que apresentou. Francisco Faleiro era um judeu. de Vénus sobre os fleumáticos e de outras quimeras bebidas na Sintaxe astrológica de Ptolomeu. É que. observando as alturas do Sol com um instrumento assim graduado e orientado. natural da Covilhã.lia a medida das alturas estava dividido em graus e a origem da divisão estava no diâmetro que se colocava horizontalmente. e quimeras astrológicas em que Faleiro parece acreditar. onde se fala da influência de Saturno sobre os melancólicos. mas Faleiro ficou atrás do célebre monge inglês. que se coloca verticalmente e de modo que a sua projecção sobre o prato passe pelo seu centro e pela origem da sua divisão. Não há que estranhar. quer no domínio animal e vegetal. o regimento da determinação das latitudes por meio deste astro se reduz a duas regras muito simples. Nos quatro capítulos da Primeira Parte são expostas fantasias de Física peripatética. e que foi depois Director da Escola Náutica de Sevilha. E contém finalmente as indicações habitualmente dadas nos Regimentos de navegação daqueles tempos. onde publicou em língua castelhana uma obra intitulada Tratado de la esfera y del arte de marear. quer no domínio físico. A Segunda Parte do livro é mais importante do que a primeira e serviram-lhe em parte de modelo. O instrumento a que acabámos de nos referir. a sua sombra ao meio dia é uma recta que faz com a direcção da agulha um ângulo igual a declinação magnética. estava muito enraizada no espírito do povo inculto e mesmo de muitas pessoas cultas a crença na influência dos astros sobre o que se passa na Terra. apropriado aos pilotos. acompanhou Fernão de Magalhães. nos outros capítulos são descritas a Esfera celeste e os seus movimentos de um modo elementar e simples. Entre as doutrinas novas que encerra. Serviu de modelo a esta parte do livro o tratado De sphera de Sacrobosco. os Regimentos das navegações portuguesas de que anteriormente falámos. reduz-se a um prato circular graduado. que se coloca horizontalmente. para a compor. o livro tem duas partes: a primeira consagrada à descrição da esfera celeste. notam-se uma colecção de preceitos práticos para dirigir os navios no mar e a descrição e uso de um instrumento para determinar a declinação da agulha magnética. Como o título indica. admitidas naqueles tempos. Surpreende ver nesta obra de ciência duas páginas consagradas à Astrologia. com a indicação do rumo a seguir para navegar de qualquer delas para as outras e com a indicação do regime das marés na foz de alguns rios. a uma agulha magnetizada que se move à roda do centro do prato e a um fio de arame tendo a forma de semi-círculo com diâmetro igual ao do prato. com seu irmão Rui. mas os assuntos comuns são nela melhor expostos do que naqueles Regimentos. Contém ainda o Livro da Marinharia uma longa lista de terras. mais perfeito do que o de João de Lisboa há pouco mencionado. tinham sido sumos sacerdotes de tais crenças Aristóteles e Ptolomeu. João de Lisboa propôs fazer-se aquela medida em meio limbo do instrumento dividido em cento e oitenta partes iguais. as tábuas de declinação do Sol para quatro anos sucessivos e outras quatro tábuas de distâncias do Sol ao Polo para os mesmos anos. a segunda ao estudo da arte de navegar. Ora. Colocando este instrumento de modo que o fio de arame fique no meridiano do lugar. quando este se retirou para a Espanha. que. no tempo em que foi escrita. e dispostas de modo que as partes correspondentes à origem da divisão e a cento e oitenta fiquem no diâmetro horizontal e na direcção norte-sul. 28 . Mostrou que.

Como dissemos em outro lugar. A edição de 1563 foi reproduzida pela fotogravura na Collection de documents para a historia das navegações portuguesas publicada por Joaquim Bensaúde e forma o tomo sétimo desta preciosa colecção. patriotas e cristãos fervorosos. Observaram-se novos fenómenos físicos e novas formas de fenómenos conhecidos. Mas entre aqueles grandes portugueses e o sábio monarca castelhano há diferenças essenciais. e procurava desvendar mistérios do Cosmos. D. mas aumentada.Este livro de Faleiro é muito raro. Os seus autores. escrito em castelhano por André Ly de Saragoça. o período da sua formação. fazem lembrar Afonso X de Castela entre os seus astrónomos em Toledo. João II . melhorada e adaptada pelo tradutor às conveniências do nosso país. que na Idade-Média se aplicava só à indústria astrológica. Traçou-se nas linhas gerais o mapa da Terra. para o infinito. árabes e judeus. de que brevemente nos ocuparemos. tradução em português de um livro. Com a agulha de marear estudou-se o magnetismo terrestre. Notou-se o regime das mares em vários portos. ao agricultor sobre as épocas para as sementeiras. novas plantas e novas formas de vida». O monarca e o infante português pediam ao astrolábio que lhes ensinasse a navegar na amplidão dos oceanos. principalmente nas obras de Ptolomeu e nos Libros del saber de Astronomia de Afonso X. João trabalharam também para as ciências. Afonso olhava para o alto. Nota final Não há nas obras e regulamentos náuticos mencionados nas páginas anteriores invenções de Matemática que a história desta ciência tenha de registar. Estes olhavam para os mares tenebrosos e procuravam penetrar nos seus segredos. no meio dos seus cosmógrafos. o rei espanhol pedia-lhe que lhe ensinasse o caminho que os astros seguem nos seus complexos movimentos na imensidade dos céus. «as grandes viagens do século XV e XVI tiveram sobre as ciências influência notável. Afonso X quase se esqueceu do seu reino. com o mesmo título. Observaram-se as correntes marítimas. práticos insignes. Contém este livro. Henrique e D. Convém assinalar também neste lugar o Reportório dos tempos de Valentim Fernandes. foram extraídas do Almanaque de Zacuto pelo aritmético Gaspar Nicolas. No primeiro período da historia das Matemáticas em Portugal. novos animais. teve na Náutica uma aplicação sã e digna. o Infante D. que acabámos de considerar. simplificando os instrumentos e traduzindo os métodos com grande acerto em preceitos práticos. Mas. trabalhando para Portugal e para a Cristandade. empregaram instrumentos e métodos antigos que fizeram reviver e frutificar. e aos astrólogos para os diversos fins da sua indústria. preso pela intensidade do seu amor às ciências. 29 . Estes métodos e aqueles instrumentos encontravam-se nas obras dos geómetras e astrónomos gregos. Henrique entre os pilotos de Sagres e D. Teve este livro onze edições. sendo a primeira de 1518. procuraram tirar delas proveito para a dilatação dos domínios de Portugal e da cristandade. além de informações úteis ao clero para fixar os dias das festas móveis. Os regulamentos náuticos desta edição foram extraídos da edição do Regimento do astrolábio existente em Évora e as tábuas de declinação do Sol que se encontram nele. João. D. e por isso Joaquim Bensaúde o fez reproduzir pela fotogravura na sua Collection de documents para a história das navegações portuguesas. A Astronomia. informações interessantes sobre a história das divisões do tempo e os regulamentos que os pilotos precisavam conhecer para navegar. Henrique e D. Viram-se no Céu novas constelações e na Terra novas raças. tirados dos Regimentos náuticos anteriormente mencionados.

30 .Com estas observações começaram os Portugueses a estender o estudo da Natureza para além dos limites a que o tinham levado os Helenos e os Árabes com observações feitas sòmente no velho mundo.

que. pelo seu espírito intolerante. deu-lhe cronistas insignes. Este terrível desastre feriu mortalmente Portugal. Seguiu-se D. deu-lhe também heróis do pensamento: deu-lhe Camões. sucumbiu com o exército português nos areais malditos de Alcácer-Quibir. Nenhum país o excede em fama e poderio. a cuja agonia assistiu um velho decrépito. 31 . É ele um povo de eleição cujos marinheiros navegaram em frágeis caravelas. Veio depois D. deslumbra todo o mundo então conhecido. está este país no auge da sua glória. que fechou funebremente a dinastia que auspiciosamente abrira D. por isso aquele manto. até à Índia. Henrique. o Homero das suas glórias. vícios e erros que começaram a manifestar-se no reinado de D. apesar dos defeitos que cobre. que lhe deu a glória de um povo de heróis. Sebastião. como presente apropriado ao seu papel nos Oceanos. que organizaram a ciência da navegação do seu tempo e prepararam a ciência da navegação do futuro. que lhe havia de dar no futuro a honra de um povo colonizador. E assim sucumbiu miseramente uma nação que menos de um século antes subira a uma glória épica que fora o assombro do mundo. quanto mais se estendia. Demais. Álvaro Tomaz. caíram no domínio do ambicioso Filipe II de Castela. a Terra para eles da Promissão. mais e maiores vícios e erros cobria. com a sua febre de heroísmos. João III e continuaram a aumentar no reinado de D. aumentaram no reinado de D. habilmente dirigidas. período que coincide com o século XVI. Aparece logo a abri-lo um aritmético insigne. que teve a ventura de ver partir e regressar os heróis que primeiro aportaram à Índia e pôde ter a vaidade de ser o chefe supremo de tal gente. depois de manchado de sangue na Mauritânia. João I. deu-lhe cosmógrafos eminentes. que conservou e mesmo aumentou os domínios que herdou de seu pai. O manto dos seus reis. Manuel. monarca venturoso e vaidoso. Não aconteceu o mesmo no segundo. cometeu o erro nefasto de introduzir em Portugal e proteger a sinistra instituição do Santo Ofício.História da cultura das Matemáticas em Portugal no século XVI Estado de Portugal no século XVI No segundo período da História da cultura das Matemáticas em Portugal. Abriu o período D. não lhe deu somente heróis na navegação e na guerra. mas que. É que o manto real. e até ao Brasil. a Providência. Eis o cenário histórico em que vai passar-se o segundo período da história da cultura das Matemáticas em Portugal. aritméticos No primeiro período da história das Matemáticas em Portugal não apareceu cultor algum destas ciências que se ocupasse de assuntos diferentes da sua aplicação à náutica. ou talvez mal aconselhado. generosa para este povo. Depois as terras de Afonso Henriques. para narrar os feitos na terra e no mar dos seus soldados e marinheiros e. Sebastião. Álvaro Tomaz e Gaspar Nicolas. em que vamos entrar. sagradas para os Portugueses. Manuel. transformou-se em sudário da dinastia e do reino. A semente espalhada pelos seus antecessores do século XV germinara e está produzindo frutos maduros que aqueles estão colhendo. pretendendo ajuntar aos seus domínios e aos domínios da cristandade as terras da Mauritânia. o Cardeal D. João III.

que certamente prestou bons serviços no século XVI. teorema que. e. compreendida entre a maior e a menor velocidade do primeiro ponto. mas que. dá um resultado que se tem atribuído a Galileu. e foi publicado pela primeira vez em 1519 e o seu autor chamava-se Gaspar Nícolas. a Biblioteca Nacional de Lisboa possui um exemplar recentemente adquirido. publicado em Paris em l509. onde este célebre geómetra estudara o movimento do ponto por meio da representação sobre um plano da relação entre a velocidade e o tempo relativamente a dois eixos de coordenadas. e é ao ilustre professor da Universidade de Madrid Rey-Pastor que devemos a notícia dele. multiplicar e dividir números inteiros e fraccionários. A soma dos espaços percorridos pelo ponto durante os diversos intervalos é uma série com lei determinada que o autor do livro estuda para diversas hipóteses daquela lei. Percorrendo-o com atenção. subtrair. Não nos foi possível obter qualquer informação biográfica a respeito do autor. outros são interessantes curiosidades numéricas. No livro do matemático português. a regra de falsa posição. O livro de Álvaro Tomaz é ainda notável pela habilidade com que o autor soma nele algumas séries numéricas e pelo engenho com que determina limites para o valor de outras que. A intervenção das séries nas questões de cinemática estudadas no livro considerado explica-se do modo seguinte. Dá-lhe um interesse especial a circunstância 32 . O movimento uniformemente variado corresponde ao caso de velocidades em progressão aritmética. empregando para isso a regra de três. Abre este tratado por alguns capítulos sobre as regras para somar. divide-se o tempo em intervalos em progressão geométrica. para extrair as raízes quadradas dos números inteiros e para somar progressões. No modo de estudar estas questões. no século XIII. nota-se que o livro mencionado é um excelente manual de Aritmética prática. fez os seus estudos em França. se não podiam somar naqueles tempos. O livro de Álvaro Tomaz é muito raro. Ainda há bem poucos anos era completamente desconhecido em Portugal. aplicado ao movimento variado. sem teorias. considera-se como constante a velocidade do movimento durante cada intervalo e consideram-se as velocidades correspondentes aos diversos intervalos como ligadas por uma lei. no tratado De latitudinibus formarum. Seguem-se depois numerosos problemas de que o autor dá as soluções. Esta obra foi comentada no século XIV por Biagio de Parma e era muito conhecida nos tempos de Álvaro Tomaz. O livro mais antigo consagrado em Portugal à Aritmética tem por título Tratado da pratica Darismetica. Diz-se que era natural de Guimarães.É este matemático autor de uma obra intitulada Liber de triplice motu. a linha descrita poderia ser percorrida no mesmo tempo por outro ponto com velocidade constante. entre os quais assinalaremos o seguinte: em qualquer movimento variado de um ponto. sabe-se que nasceu em Lisboa e que foi professor em um colégio da capital da França. provavelmente saiu cedo de Portugal. Alguns destes problemas são de utilidade na vida. muito claro e simples na exposição das doutrinas. por dependerem de logaritmos. fora dado antes pelo mencionado matemático Oresme e reproduzido em um manuscrito daquele célebre pintor e sábio. e ali ficou a ensinar. pelo que diz no prefácio. segundo creio. bebida em um excelente livro que em 1926 consagrou à historia dos matemáticos espanhóis do século XVI. segundo se vê em um excelente trabalho de Marcolongo sobre Leonardo de Vinci. etc. a teoria de Oresme é estudada por um método aritméticogeométrico engenhoso e dão-se nele teoremas notáveis. Ocupou-se Álvaro Tomaz no livro mencionado do movimento do ponto sobre o plano e a sua doutrina a este respeito está estreitamente ligada à que fora dada por Oresme. e ainda de outras que ainda agora se não sabe somar.

Pedro Nunes como cosmógrafo Voltemos à história da Astronomia náutica. Outro escritor dos mesmos tempos que se ocupou de assuntos matemáticos estranhos à náutica foi D. que ficaram inéditos. que não contém estas últimas doutrinas. possuído pela Faculdade de Ciências do Porto. da qual se conhece apenas um exemplar. Rey-Pastor no seu já mencionado livro sobre os matemáticos espanhóis do século XVI. enuncia-os. Este tratado representa pois um grande progresso sobre o de Nícolas. Estava em plena juventude quando se realizou a primeira circunnavegação do mundo. sem dizer o modo como as obteve. além da edição de 1519. engrandeceram. tinham sido publicados os tratados de Aritmética de Ciruelo. e. para a fazer conhecer em Portugal. e principalmente Pedro Nunes. onde foi discípulo de Brissot. a hegemonia das Matemáticas na Península ibérica vai passar da Espanha para Portugal. compôs comentários em latim às doutrinas de Óptica atribuídas a Euclides e ao tratado De incidentibus in humidis de Arquimedes. 1594. interrompida para poder apresentar alguns aritméticos. É pena que o mesmo aritmético não tenha extraído da obra de Frei Lucas a parte relativa à Álgebra. 33 . além disso. Estudou em França. Bispo de Goa. cujo valor foi assinalado com elogio pelo sr. como ele próprio diz. na Espanha. porque. ensinando as suas teorias algébricas. teve o país vizinho em Frei João de Ortega um aritmético ilustre. tinha Cristóvão Colombo descoberto a América. No ano em que nasceu. foi muito lido em Portugal no século em que foi escrito e nos seguintes. Não devemos todavia esquecer que no período em que vamos entrar.de o autor do livro ter recolhido alguns problemas considerados nas obras de Frei Lucas de Burgo. as doutrinas de Frei Lucas para a resolução das equações do primeiro e do segundo grau. para uso dos mercadores. Seria interessante comparar com eles os do aritmético português. indica as soluções e verifica-as. em Portugal. Entra em cena Pedro Nunes e. com ele. sem alterar a ordem cronológica. O livro de que acabamos de falar. Pedro Nunes apareceu na cena do mundo no alvorecer da civilização moderna. livro que contém. já então divulgadas na Espanha por Marco Aurel. sendo assim talvez o primeiro a fazer notar na nossa Península o célebre matemático italiano que depois Marco Aurel. 1573. e. antes de aparecer em Portugal o livro de Gaspar Nícolas. 1679 e 1716. depois de voltar a Portugal. Vasco da Gama o caminho marítimo da Índia e Pedro Álvares Cabral o Brasil. 1541. as regras necessárias para executar as operações numéricas e para resolver os problemas que apareciam naqueles tempos no exercício do comércio. Bento Fernandes. Na Espanha. Os livros de Frei Lucas de Burgo e de Gaspar Nícolas inspiraram outro aritmético português. não emprega a arte algébrica. Gaspar Nícolas não deduz no seu tratado as soluções dos problemas que considera. quando Portugal estava no período do seu máximo esplendor. teve outras em 1530. Francisco de Melo. Frei João de Ortega e Siliceo. publicado em 1555. Poucos anos antes de nascer. como o de Nícolas. 1502 fez Vasco da Gama a sua segunda viagem à Índia. Como dissemos nos Panegíricos e Conferências. por não ter podido obter os tratados daqueles autores. 1613. na composição do seu Tratado da arte d'Arismetica. mas não me foi possível fazê-lo.

da Arábia e da Pérsia. em 1529 foi chamado a desempenhar as funções de Cosmógrafo do Reino. como já dissemos. tão nomeado. descobrindo e passando o temeroso Cabo da Boa Esperança.quando foi nomeado Cosmógrafo do Reino. com que os antigos escritores nos ameaçavam. «De facto. por aqueles que interessavam especialmente à Náutica». puderam chegar à Índia. lhes pôde estorvar que. do que até os santos duvidavam. fundando no Brasil as primeiras colónias que Portugal teve na América. procurava espalhar feitorias e missões religiosas pelos lugares mais apropriados para aquele fim. alguns baixos ou sequer algum penedo que por nossas navegações não seja já descoberto». Entraram por ele sem nenhum receio. Era nessa ocasião Bacharel em Medicina pela Universidade portuguesa. e tinha visitado em romaria de estudo a Universidade de Salamanca. a grande Trapobana e as ilhas mais orientais. A colonização da África começou mais tarde e dá também honra aos Portugueses. de mais altas e mais discretas conjecturas que as de nenhuma outra gente do mundo. nem o descompassado frio da extrema parte do sul. de cem anos a esta parte. que traziam a Lisboa as riquezas do Levante. Tiraram-nos muitas ignorâncias e mostraram-nos ser a terra maior do que o mar. deu os passos iniciais para a formação do nosso extenso império do Ocidente. Como dissemos. perdendo a Estrela do Norte e tornando-a a cobrar. Foi com efeito nos primeiros anos depois que Pedro Nunes começou a exercer as funções de cosmógrafo que Martim Afonso de Sousa. e talvez mesmo para fixar a direcção em que havia de exercer a sua actividade científica. novo céu e novas Estrelas. cuja civilização havia de ser mais tarde. em que entre Lisboa e Calecute navegavam numerosas naus. E perderam-lhe tanto o medo. E fizeram o mar tão chão que não há quem hoje ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha. . que nem a grande quentura da torrada zona. e. compôs a grandiosa epopeia dos feitos da gente lusa na terra e no mar. Os portugueses ousáram cometer o grande mar Oceano. mas abandonou logo aquela ciência. que não poderiam satisfazer o seu espírito são. 34 . como as conquistas da Índia foram glória de um povo de heróis. são as maiores. Mas. tinham terminado as grandes descobertas geográficas dos portugueses. também no livro mencionado. que era naqueles tempos o Santuário da ciência hispânica. que primeiro o tinha descoberto e nas águas do seu mar perdera a vida.«Foi pois educado a ouvir falar das glórias lusitanas e isto não podia deixar de influir para lhe levantar o espírito. que. em que os seus soldados se batiam heroicamente com os árabes. novas terras. para se entregar completamente aos estudos de assuntos sólidos de Matemática e Física. então cheia de quimeras astrológicas. com o alto pensamento que tais palavras exprimem. mas estava em plena actividade a exploração das riquezas das terras por eles descobertas. começando. em um mesmo clima e a igual distância do Equador há homens brancos e pretos e de mui diferentes qualidades. honra de um povo de colonizadores. para cumprir os deveres do seu cargo. que era por natureza bem dotado. toda a costa do então misterioso continente. Descobriram novas ilhas. mais maravilhosas. O que era nesses tempos o império português no oriente di-lo eloquentemente o grande cosmógrafo em uma das suas obras: «Não há dúvida que as navegações deste reino. o mar da Etiópia. que pretendiam conservar nas suas mãos o comércio da Índia. E que. Este hino caloroso à gloria dos portugueses foi ouvido por Camões. a oriente e ocidente tinha sido visitada por nautas lusos e o tormentoso Cabo da Boa Esperança era já o monumento levantado na história a glória de Bartolomeu Dias. e haver antípodas. e que não há região que nem por quente nem por fria se deixe de habitar. para consolidar e utilizar os seus domínios no Oriente. Começava-se também na mesma época a prestar atenção ao comércio e navegação do Brasil. Estava-se no tempo em que Portugal. então instalada em Lisboa. Passaram o rio Ganges. o que mais é. fazendo desta cidade a rainha dos mares e o centro do comércio do mundo». novos povos. novos mares. ao abrir o século XVI.

VI) e no Tratado de Geografia (Parte I. Pedro Nunes deu forma matemática geral a esta doutrina e obteve assim o teorema seguinte: 35 . um livro precioso com os artigos seguintes: 1. no Almagesto (Parte II.° Teoria do movimento do Sol e da Lua. 4.Passemos agora a considerar as obras em que Pedro Nunes se ocupou da ciência e arte de navegar. Os três primeiros tratados são traduções do latim em português de obras de Sacrobosco. Certamente consideravam a obra do célebre monge como simples modelo clássico. e por isso muito apropriada aos médicos-astrólogos e aos pilotos. Já dissemos que João de Sacrobosco tinha composto em latim no século XIII um tratado De sphera. Pode estranhar-se que o nosso cosmógrafo. Ora. assás espalhado.° Tratado de algumas duvidas da navegação. Também pelo mesmo motivo no segundo dos tratados mencionados não citou Purbachio. Ptolomeu. 5. Para cumprir os deveres do seu cargo. mas muito simples. Este livro ainda muito usado no século XVI em toda a Europa como texto de iniciação para o estudo da Cosmografia.° Tratado em defensam da carta de marear. Entre as Notas juntas por Nunes ao Tratado da esfera há uma. sob o ponto de vista descritivo. mas cujo pensamento era de Ptolomeu. Sacrobosco reduziu a doutrina de Ptolomeu considerando sòmente a parte da Terra que no seu tempo se julgava habitável e nela sete zonas tais que a diferença da duração do dia no maior dia do ano era de meia hora e verificou numericamente que a altura destas zonas diminui quando se aproximam do Polo. clara e elementar. como dissemos. demonstrando e generalizando uma observação de Sacrobosco sobre climas.º Tratado da Esfera. cuja redacção aproveitaram. 3. foi incluído por Joaquim Bensaúde na sua colecção de documentos foto-gravados para a história das navegações marítimas. Nota em que o nosso matemático revelou pela primeira vez originalidade de espírito e habilidade no emprego dos métodos sintéticos dos geómetras helénicos. que foi traduzida em latim por Elia Vineto e junta a algumas edições da obra de Sacrobosco que se publicaram depois. Cap. Por ser útil aos astrólogos teve muita aceitação. por ter sido muito divulgado em numerosas edições. começou o nosso cosmógrafo por publicar. Ptolomeu faz das suas zonas em grupos correspondentes a meia hora e a um quarto de hora de diferença da duração do maior dia do ano nos paralelos que limitam cada uma. era uma exposição de doutrinas desta ciência. na sua tradução deste livro não cite o nome do autor e também que o não tenham citado os cosmógrafos portugueses que dele tinham extraído resumos. insuficiente sob o ponto de vista matemático.° Tratado de Geografia de Ptolomeu. Cap. Pedro Nunes traduziu-a toda e enriqueceu-a com Notas que a valorizaram muito. X) tinha dividido a parte da Esfera terrestre compreendida entre o Equador e o Círculo polar ártico em zonas tais que nos paralelos que limitam cada zona a diferença de duração do maior dia do ano é de meia hora para as mais próximas do Polo e de um quarto de hora para as outras (procurando com esta distinção evitar zonas excessivamente largas nas vizinhanças do Equador e outras excessivamente estreitas na vizinhança do Círculo polar) e tinha determinado as latitudes dos paralelos que limitam cada zona. e. Purbachio e Ptolomeu. em 1537. Estas sete zonas são as que na Geografia antiga se chamavam climas e a observação que a respeito da variação da sua largura faz Sacrobosco poderia ter sido sugerida pela divisão que. inspirada principalmente pelos livros de Ptolomeu e de alguns astrónomos árabes. por ser útil aos pilotos as passagens que estes precisavam conhecer. 2. livro. também já mencionado. que por ser hoje muito raro e procurado. tinham já sido publicadas em tradução portuguesa nas edições do Regimento do astrolabio anteriormente mencionadas e no livro sobre náutica de Francisco Faleiro.

diz que a demonstração de Pedro Nunes do teorema mencionado não merece ser conservada e substitui-a por uma prova trigonométrica. 3. referindo-se na sua História da Astronomia à Nota que acabamos de assinalar. é o objecto dos tratados cujos títulos acabamos de mencionar. também já mencionado. tais que a diferença das durações de um mesmo dia qualquer nestes paralelos tenha um valor arbitràriamente dado diminui em largura. e por alguns Geómetras árabes. Nós pensamos. Delambre. isto é. com sabor helénico. Passemos a considerar os escritos em que Pedro Nunes se ocupou especialmente da ciência e arte da navegação.A zona compreendida entre dois paralelos terrestres. A esta curva dava-se então o nome de linha do rumo e dá-se hoje o nome de loxodromia. Tudo isto merece ser notado. Convém. 36 . Diz o autor destes escritos no segundo deles que nenhuma regra que tenha fundamento na parte especulativa ou técnica pode ser bem praticada e entendida sem notícia daqueles princípios em que se funda. 2. é o mais importante deles e mesmo talvez dos que. porque é obtido por considerações planimétricas feitas sobre uma figura que está situada no plano do meridiano e sobre outra que está situada no plano de um paralelo e é rebatida sobre aquele plano. demonstrou ainda o nosso cosmógrafo uma regra geométrica. Os títulos destes escritos são: 1. outras são nele estudadas pela primeira vez. O último. nos Analemma. A exposição destes princípios. no último vê-se o sábio a divulgar as suas investigações entre os homens cultos de todos os países que se interessavam por aquelas doutrinas. antes da morte de Nunes.° De arte atque ratione navigandi.° Tratado em defensam da carta de marear. mas aquelas são apresentadas sob forma mais científica. porque de outra sorte os que dela usassem fàcilmente se enganariam. no último mostra-se este espírito em todo o seu brilho a constituir a ciência da navegação do seu tempo e a preparar a do futuro. Por isso escreveu os primeiros em português e o último em latim.° Tratado sobre certas duvidas da navegação. uma construção gráfica e um método mecânico para determinar a duração de um qualquer dia do ano em um lugar dado da Terra. o tratado De arte atque ratione navigandi . Nos trabalhos primeiramente escritos vê-se o cosmógrafo a ensinar doutrinas de náutica aos pilotos portugueses. pelo contrário. Vejamos agora as questões principais estudadas nos três livros. se escreveram sobre a ciência e arte da navegação. e que. todavia. observar que este método dos rebatimentos tinha já sido empregado em outras questões por Ptolomeu. Nos primeiros tratados revelam-se os primeiros alvores do espírito científico do grande cosmógrafo. já mencionado. que aquela demonstração constitui um exemplo interessante de síntese geométrica. não é mais complexa do que a de Delambre. situados do mesmo lado do Equador. Na Nota consagrada ao teorema de que acabamos de falar. A direcção do meridiano era dada aproximadamente pela agulha magnética da bússola. Algumas das doutrinas expostas neste tratado são a reprodução das que tinha dado nos outros dois. Na navegação daquele tempo obrigava-se o navio a seguir na superfície do mar uma trajectória tal que o ângulo da direcção do movimento com o meridiano se conservasse constante. pelo que respeita a Náutica. quando a zona se aproxima do Polo correspondente da Terra. oferecendo assim um exemplo interessante de um método clássico de Geometria descritiva moderna. sendo traduzida em estilo moderno.

Julgavam os pilotos e estava mesmo escrito na Arte de marear de Faleiro que as linhas de rumo coincidem com círculos máximos da Esfera terrestre. Ora, Pedro Nunes mostrou que as linhas de rumo são geralmente espirais esféricas que dão um número infinito de voltas à roda dos Polos da Terra e que as únicas linhas de rumo circulares são os meridianos e os paralelos, que correspondem evidentemente aos ângulos de rumo de zero e de noventa graus. E ajuntou ainda, colocando-se no ponto de vista histórico, que a não coincidência em geral das linhas de rumo com círculos da Esfera terrestre tinha já sido notada por Ptolomeu, apoiando-se para isso em duas passagens do Tratado de Geografia do grande astrónomo de Alexandria. Na primeira destas passagens, o autor delas, para obter a menor distância, isto é, a distância por círculo máximo entre Corura e Palura, na Índia, abate à distância medida, navegando entre as duas cidades, a têrça parte desta distância, para a corrigir dos rodeios do navio, isto é, segundo Pedro Nunes, do excesso do comprimento do arco da linha de rumo sobre o arco do círculo máximo cujo comprimento se procurava; na segunda passagem, o mesmo astrónomo, querendo obter o comprimento do arco do paralelo compreendido entre Chersoneso e Zabas, terras situadas na mesma latitude, não faz correcção alguma ao resultado da medida, por serem, diz Nunes, todos os paralelos linhas de rumo. Esta explicação das referidas passagens é interessante e não improvável, mas a primeira passagem é tão vaga, que não podemos ter a certeza de que tal explicação represente o pensamento de Ptolomeu. Mas se o grande astrónomo alexandrino pensou na natureza da curva de rumo, o seu alto espírito geométrico não a confundiu com círculos. O que podemos dizer com segurança é que Pedro Nunes trouxe a dita curva do campo da náutica empírica, em que era para os pilotos apenas a rota descrita pelo navio dirigido pela bússola, para o campo da Geometria para onde é a curva descrita por um ponto que corta os meridianos da esfera sob um ângulo constante, que mostrou que não é geralmente circular e que abriu a sua teoria. Os cosmógrafos portugueses que o precederam, conheciam um processo para determinar a diferença das longitudes de dois pontos da curva com uma aproximação tanto maior quanto menor fosse a sua distância; e, por meio de aplicações deste processo a arcos parciais em que decompunham um arco dado da curva, obtinham a diferença de longitudes dos pontos que o limitam com aproximação tão grande quanto queriam. Este processo equivale ao emprego da equação da curva. Esta equação, obtida mais tarde por Leibniz, depende de logaritmos, algoritmo desconhecido no tempo de Nunes, e a vantagem que teria o emprego desta equação sobre o método usado nas nossas antigas navegações para resolver o problema considerado, seria o de reduzir o cálculo numérico que exige ao cálculo por logaritmos. E acrescentemos ainda que os cosmógrafos mencionados conheciam ainda um modo de obter o comprimento dos arcos da linha de rumo com aproximação tão grande quanto se queira. Para se aplicarem estas doutrinas à navegação, continham os regulamentos mencionados na Primeira Parte deste livro duas tábuas numéricas que davam, uma a diferença de longitudes de dois lugares da curva percorrida pelo navio correspondentes à diferença de um grau em latitude, a outra o comprimento deste arco. Ora, Pedro Nunes refez, na segunda das obras mencionadas, estas tábuas, melhorando-as e inventou um instrumento, a que chamou compasso e que adiante descreveremos, para medir a razão do arco do paralelo terrestre correspondente a uma latitude dada para o raio da Terra, razão que é necessário conhecer para se aplicar a primeira tábua. Esclareceremos numa Nota, no fim deste volume, o que acabamos de dizer sobre a linha de rumo, empregando o simbolismo algébrico. Convém assinalar aqui, ao terminar esta doutrina, o facto que levou Pedro Nunes a considerar a linha de rumo, facto notado por ele próprio no Tratado sobre certas duvidas da navegação.

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Martim Afonso de Sousa, fundador das primeiras colónias que Portugal teve no Brasil, querendo, na sua volta da América, vir do Rio da Prata a Lisboa, tomou e conservou o rumo de leste, julgando que assim seguiria o círculo máximo perpendicular ao meridiano do lugar da partida e que iria encontrar o Equador num dos pontos em que aquele círculo o cortava. Notou porém com surpresa, passados alguns dias, que, em vez de se aproximar do Equador, ia seguindo o paralelo do lugar da partida. O motivo do erro do navegador está em admitir que as linhas de rumo coincidem com os círculos máximos da esfera terrestre e o motivo de seguir o paralelo do lugar de partida está na coincidência dos paralelos com as linhas de rumo correspondentes ao ângulo de 90.°. São estas as explicações que Nunes deu do facto narrado. Voltou Pedro Nunes a ocupar se da linha de rumo no segundo dos livros mencionados a propósito da sua representação nas cartas náuticas, como veremos, mas só no terceiro tratado se deteve a estudá-la, apresentando nele algumas propriedades expressas por desigualdades, relativas à variação do comprimento dos seus arcos com as longitudes e latitudes das extremidades, e ocupando-se da sua forma, do seu uso na náutica, do modo de as traçar na esfera, etc.

No tratado De arte atque ratione navigandi, apresentou Pedro Nunes um modo de navegar por arcos de círculo, representável matemàticamente, do qual a navegação pela linha de rumo é um caso limite. Apesar deste método não ter interesse prático, julgamos dever apresentá-lo aqui, por motivos que depois se verão. Um caso particular tinha já sido considerado pelo seu autor no Tratado de certas duvidas na navegação para explicar o modo de navegar por um paralelo da Terra. Supõe o autor que o navio segue uma linha formada por uma série de arcos de círculos máximos tais que os ângulos que fazem com os meridianos nas primeiras extremidades sejam iguais e tais que sejam também iguais, mas de grandeza diferente da daqueles, os ângulos que fazem os mesmos arcos com os meridianos nas segundas extremidades. A curva de rumo é o limite para que tende aquela linha, quando a diferença dos ângulos nas duas extremidades tende para zero. Para se apreciar este método, diz o autor, convém notar que um navio não segue no mar rigorosamente uma linha de rumo, porque a agulha magnética vai fazendo pequenos desvios sucessivos para um e outro lado, que o marinheiro que maneja o leme, vai corrigindo. Segue uma série de arcos de círculos máximos que formam uma linha quebrada que se aproxima tanto mais da curva do rumo, quanto menores são aqueles desvios. Nunes, para tratar a questão matemàticamente, supõe todos os desvios iguais e no mesmo sentido. Por cálculos simples, que não exporemos aqui, mas que serão apresentados em Nota no fim deste livro, mostra-se que, se um navio parte de um lugar com rumo dado e vai seguindo uma série de arcos de círculo nas condições mencionadas, podem determinar-se pela Trigonometria esférica as coordenadas geográficas das posições que vai ocupando e os comprimentos dos arcos percorridos. O nosso cosmógrafo dá-nos pois assim um novo modo de navegar, bem determinado, em que o nauta segue próximo da linha de rumo, quando a distância percorrida não é grande. Este método foi considerado como inexacto por Simão Stevin e esta apreciação foi reproduzida por Montucla na sua Histoire des Mathématiques e depois em Portugal por Garção Stockler, no seu Ensaio histórico, e Rodolfo Guimaráes, no artigo que, a respeito de Nunes, publicou nos Anais científicos da Academia Politécnica do Porto. Nós pensamos que as censuras do célebre

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geómetra de Bruges não são aplicáveis à doutrina de Pedro Nunes e que esta doutrina é exacta; o que aquele matemático poderia dizer é que não é prática. Vejamos o que diz Stevin. Este geómetra aplica a doutrina de Nunes ao cálculo do comprimento do arco de uma linha de rumo que parte do Equador com um ângulo de 45º e que termina cerca de 10° abaixo do Polo e, comparando o número assim obtido com o que dá outro método, especial para este caso por ele imaginado, conclui que o número obtido pelo método do matemático português dá o comprimento procurado com aproximação insuficiente. Ora, isto não mostra que a doutrina de Pedro Nunes é falsa, mas sim que não é suficientemente aproximada para arcos tão grandes. Indo mais longe do que Stevin, Stockler diz que certas equações que Nunes empregou, são incompatíveis com outras tiradas da equação leibniteziana da curva de rumo (ver a Nota no fim do livro). Isto é exacto, mas estas últimas equações e as de Nunes correspondem a questões diversas. As equações de Nunes correspondem a linhas formadas por séries de arcos de círculo convenientemente escolhidos, de que as linhas de rumo são limites, e as outras correspondem a estas últimas linhas. Ajuntemos que Stevin propôs, para substituir a doutrina de Nunes, uma outra doutrina que não difere essencialmente da que fora já empregada no século XV pelos pilotos portugueses e se encontra no Regimento do astrolábio, mencionado na Parte Primeira deste livro, como se verá nas Notas. Ajuntemos ainda que esta doutrina é aplicada por Stevin de um modo que não convém. Em quanto que na aplicação dela os nautas portugueses fazem depender o cálculo das longitudes do valor das latitudes, que se obtinham fàcilmente por meio do astrolábio, Stevin, invertendo o problema, faz depender o cálculo das latitudes do valor das longitudes, que, antes da invenção dos cronómetros, não eram fáceis de medir. Pedro Nunes iludiu-se em quanto ao valor da sua doutrina como meio prático de resolver o problema da navegação pela linha de rumo. Qual foi o motivo desta ilusão? Vamos tentar explicá-lo. Como dissemos, empregava-se na náutica para resolver este problema um método que equivale a considerar a curva de rumo como um polígono de lados tão pequenos quanto se queira. Ora, provàvelmente o nosso matemático, notando que às linhas rectas do plano correspondem na esfera círculos máximos, entendeu que, substituindo aquele polígono por uma linha composta de arcos destes círculos dispostos do modo que apresentou, se aproximava mais da linha de rumo do que por meio daquele polígono. Mas deu-se o contrário porque enquanto que o polígono tem os seus vértices sobre a curva, os vértices da linha que substitui a esta curva estão fora dela. Abriu pois apenas uma teoria que não teve seguimento porque a descoberta por Leibniz, por meio da antiga teoria da curva, da sua equação esférica, expressa por logaritmos, tornou a nova doutrina inútil.

Ocupou-se também Pedro Nunes nas obras consagradas à náutica da navegação por círculo máximo, dando a relação que deve ligar a latitude com o rumo em cada ponto deste círculo e dando uma regra prática para se obter o efeito desejado por meio de observações das latitudes tão frequentes quanto seja possível. As regras que actualmente se empregam neste problema de navegação, isto é, na ciência da navegação ortodrómica, coincidem com as dadas por Pedro

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Não se lembrou de reunir todas as cartas parciais em uma carta única e dar a todas a mesma largura. fazendo todos os paralelos iguais e. prestou grandes serviços nas navegações dos séculos XV e XVI. continua 10 Veja-se no fim deste volume uma Nota. sendo as de um sistema perpendiculares as do outro. e. de um lado e do outro do Equador. conservar os ângulos que estas linhas fazem com os meridianos. e por isso os pilotos tinham dificuldade em o aplicar. e algumas vezes ele próprio mais a atacou do que defendeu. O matemático português parou aqui. recomenda que se substitua a carta geral da Terra por uma série de cartas de zonas. Recomenda depois que se reúnam todas estas cartas parciais em um livro. Está neste caso a carta chamada quadrada. onde deu conselhos aos pilotos para a usarem bem e a defendeu de censuras que alguns lhe faziam. quando representa uma zona da Terra de pequena altura. com o acrescento da representação dos rumos. o paralelo médio da zona e dando à zona uma altura maior ou menor. descoberta de que Nunes esteve bem perto. quando se estende fora dos limites em que a aproximação é suficiente. O nosso matemático. a que correspondem na carta. Esta carta tinha com efeito dois graves defeitos: 1. esta carta satisfaz aproximadamente às condições gerais indicadas por Nunes. referidos a várias origens. censuras em que algumas vezes tinham razão. ainda que de um modo não completamente satisfatório no Tratado em defensam da carta de marear e no tratado De arte atque ratione navigandi. para o que bastaria empregar no traçado relativo a cada zona uma escala especial convenientemente escolhida. 2. nota-se a imprecisão que ordinàriamente acompanha a explicação de doutrinas imperfeitas. linhas rectas. tomando em cada zona para base da superfície cilíndrica que a substitui. A-pesar porém dos seus defeitos a velha carta. porque a carta lhes não dava todas as informações de que careciam para dirigir as naus com segurança. de que Pedro Nunes se ocupou com muito desenvolvimento. representando-a assim como cilíndrica. aprovando a escolha ocupou-se largamente dela em um dos escritos mencionados. 40 . exceptuando os meridianos e os paralelos. imitando o que tinham feito outrora Marino de Tiro e Ptolomeu para os mapas de regiões terrestres. onde são dadas a relação e a regra mencionadas. o nosso cosmógrafo. da qual já falámos na Primeira Parte deste livro. ao ler-se a defesa que dele fez Pedro Nunes. Estas condições são: representar por linhas rectas as linhas de rumo.Nunes.° não eram nela representadas por linhas rectas as curvas de rumo. O nosso matemático pôs nestes tratados nitidamente as condições a que estas cartas devem satisfazer. mas os livros que se ocupam delas não mencionam o nome de quem primeiro estudou o dito problema10. para serem um instrumento matemático aplicável à determinação do rumo a seguir de um lugar a outro. segundo o grau de aproximação com que se queira representá-la. O sistema de cartas planas primitivo era imperfeito. adoptada nas navegações portuguesas.° deformava excessivamente a superfície da Terra. deixou ao cartógrafo flamengo Gerardo Mercator a honra da descoberta da carta rectangular reduzida. Como os meridianos e os paralelos são linhas de rumo. resulta em particular destas condições que aqueles círculos devem ser representados nas cartas por dois sistemas de rectas paralelas. Para remediar estes defeitos. As linhas de rumo da zona são então substituídas no cilindro por hélices. Por não se lembrar disto. Mas este remédio tem ainda um grave inconveniente: não dá as ligações entre os lugares das diversas zonas. com que se resolveu definitivamente o problema da carta náutica. Com efeito. para poder representar o papel de instrumento matemático na determinação a seguir pelo navio de um lugar a outro. que é a planificação do cilindro. Com a doutrina da linha de rumo está estreitamente ligada a da carta náutica. e.

etc. também rectificado. referidas a dois eixos rectangulares. Vaz Dourado. devo observar que Pedro Nunes foi quem primeiro empregou o sistema de representação planimétrica da superfície da esfera atribuída a Sanson e conhecido pela designação de carta de Flamesteed. examina as que merecem ser examinadas. Quem conhece a história das navegações dos Lusos supõe que nos arquivos portugueses e estrangeiros devem existir muitas cartas náuticas do século XV. que neste sistema os meridianos da Terra são representados por curvas que gozam da propriedade que define as curvas actualmente chamadas linhas dos senos. os Homens. O problema da determinação das latitudes. aqueles números variam com a 41 . este modo de representação foi indicado por Nunes no Tratado em defensam da carta de marear. como resultado dos seus estudos. Começou por examinar as oito regras dadas no Regimento do astrolábio para se obter por meio da altura da Estrela polar em oito das suas posições à roda do Polo. sendo fundamental na aplicação da Astronomia à Náutica. Antes de terminar esta doutrina das cartas náuticas. biógrafa os cartógrafos que compuseram as principais (os Reineis. recordando o Visconde de Santarém. a latitude do lugar da observação. Pelo contrário. a sua latitude. «que a quase totalidade das cartas daqueles tempos. regras a que já nos referimos. dá notícia de algumas perdidas que ficaram registradas na história da náutica. mas dispensa-nos deste trabalho a publicação recente de um precioso livro de Armando Cortesão. indirectamente. Os números que figuram nestas regras tinham sido obtidos por observações feitas em Lisboa e os cosmógrafos julgavam que eram aplicáveis a todos os lugares. onde mostrou também. classifica-as. são numerosas as cartas que se conhecem do século XVI. Neste sistema de representação da Terra.ainda a servir como registo empírico de rumos e latitudes relativos a lugares pertencentes a caminhos directamente percorridos pelos pilotos. O erudito autor do livro mencionado enumera as cartas anteriores ao século XVII.) e nota. compara as que convém que sejam comparadas. que o sr. que representam o Equador e o Primeiro Meridiano. Ora Nunes mostrou no tratado De arte atque ratione navigandi que. com as suas considerações sobre ele. como se verá em uma das Notas da presente obra. preparou a descoberta de Mercator. E agora. Cortesão actualiza e ordena as indagações daquele ilustre fundador da história da cartografia portuguesa e avança muito no caminho que ele abriu. ou feitas sobre dados portugueses». É justo acrescentar que Nunes pôs nitidamente o problema da carta e que. Ora. a sua longitude e o arco que mede no meridiano. ajuntaremos. onde este assunto é estudado com desenvolvimento e documentação abundante. Voltaremos a ocupar-nos da carta náutica em uma Nota no fim deste livro. seria oportuno falar dos cartógrafos mais notáveis do século XVI. ou são genuinamente portuguesas. a cada lugar corresponde no plano um ponto cujas coordenadas são o arco que mede no paralelo do lugar. não podia deixar de chamar a atenção de Pedro Nunes. intitulado Cartografia e cartógrafos dos séculos XV e XVI. Fizemos notar este facto no nosso Elogio histórico do nosso geómetra publicado nos Panegíricos e Conferências. são pouquíssimas as que têm sido assinaladas e muitas delas estão perdidas. onde justificaremos matemàticamente o que acabamos de dizer. antes de terminar. Agora. terminada esta notícia dos trabalhos de Pedro Nunes sobre as cartas náuticas. Engana-se. quando a Estrela polar está fora do meridiano do lugar da observação. Mais tarde Flamesteed reinventou este sistema de carta e aplicou-o aos mapas geográficos. rectificado.

ajustar sobre a esfera um anel graduado que gire à roda dos pontos que representam o zénite e o nadir. não graduado. João de Castro. e a uma agulha magnética colocada em uma cavidade do prato. referido ao meridiano magnético. aperfeiçoamento do que dera Francisco Faleiro. dado pela agulha. que os experimentou nas suas viagens no Mar das Índias e 42 . Deu ainda Pedro Nunes outro método para determinar as latitudes por meio de observações da altura e do azímute. a um modo de graduar o limbo do astrolábio que nunca foi adoptado. não recorre o nosso cosmógrafo a cálculos numéricos. onde estão descritos um círculo máximo. Um destes arcos representa o complemento da latitude do lugar. os dois pontos em que corta o círculo nela traçado que passa pelo zénite. Resolve a questão muito engenhosamente por meio de um traçado gráfico feito sobre uma esfera. levando o anel à extremidade deste arco e marcando por meio dele no círculo vertical que passa por este ponto. São todos teòricamente exactos e muito interessantes. que o instrumento também dava. instrumento que se reduzia a um prato horizontal quadrado. por motivo de dificuldades da sua aplicação. circular e graduada. determinam os pontos correspondentes aos Polos da Terra. mas menos simples do que as que dera João de Lisboa. Para a escolha em cada caso. Simplificou as regras dadas no mencionado Regimento para a determinação das latitudes por meio da observação da altura meridiana do Sol. Para determinar depois a latitude do lugar da observação. modificando para isso o modo de graduar o limbo do astrolábio. medida pelo astrolábio. e por isso manda abandonar as regras correspondentes às observações extrameridianas da referida Estrela e recorrer sòmente às observações das suas passagens pelo meridiano. deu Nunes um Regimento. mas infelizmente não dão na prática resultados suficientemente aproximados. que representa o horizonte. a que acabamos de nos referir. um meio de determinar as latitudes por observações da altura e azímute do Sol em qualquer hora do dia. que passa pelo ponto que corresponde ao zénite. dividida ao meio pelo diâmetro que passa pela origem da divisão. obtémse um ponto cuja distância por círculo máximo aos polos deve ser igual ao complemento da declinação do Sol no dia da observação. Os arcos que os unem ao ponto que representa aquele zénite podem ser medidos pelo círculo graduado móvel.latitude deste lugar. como já dissemos. que dispensa o conhecimento da declinação magnética e da declinação do Sol no dia das observações. Deu. medindo assim directamente distâncias zenitais do Sol em vez de alturas. Determinava-se por meio deste instrumento primeiramente o azímute do Sol relativamente ao meridiano magnético. Os métodos dados por Pedro Nunes para determinar as latitudes por meio das alturas extrameridianas do Sol. no centro do qual estava um estilete vertical. Tomando sobre o círculo que representa o horizonte. uma circunferência sobre a esfera. e outro. Basta para isso. foram publicados no Tratado em defensam da carta de marear e no tratado De arte atque ratione navigandi. em que considera as diversas posições relativas do Sol e do observador. e. obtinha-se o azímute relativo ao meridiano astronómico. em duas posições do Sol. fazendo as notificações correspondentes nas regras para das observações deduzir as latitudes. Tomava para origem da graduação o ponto mais alto deste limbo e punha a nonagésima divisão no seu braço horizontal. deste arco. traçado que determina os pontos da esfera que correspondem aos Polos da Terra. Estas últimas correspondem. Este azímute era obtido por meio de um instrumento de sombra. a partir do círculo vertical traçado na esfera. um arco igual ao azímute do Sol. A sua insuficiência na prática foi reconhecida por D. que dispensa o conhecimento da declinação magnética no lugar da observação e um terceiro método para as determinar por meio de três observações dos mesmos elementos em três posições. e corrigindo-o depois da declinação magnética. finalmente. Tomando pois um compasso de pontas curvas e traçando com uma abertura igual ao arco da esfera que representa este complemento da declinação. um arco igual à altura do Sol. obteve outras de aplicação mais simples do que as que tinham dado José Vizinho e Duarte Pacheco.

Nas suas viagens fez o célebre Vice-Rei da Índia numerosas observações de declinação magnética e ainda de desvios da agulha devidos a curvas locais. como já dissemos. puderam empregar-se nesta questão os ângulos horários do Sol que estes instrumentos determinam. um navegador notável e um grande capitão. só são apropriados os métodos que dão a latitude por meio de uma única observação. na aplicação dos métodos mencionados. por meio do instrumento de sombra de Pedro Nunes. publicado em 1843. com um aparelho rudimentar. João de Castro fez dele. Camões glorificou-o no seu poema e Jacinto Freire de Andrade descreveu a sua vida em linguagem clássica e estilo conceituoso e brilhante. que primeiro dotou a Astronomia com um método para determinar as latitudes por observações extra-meridianas do Sol. Luiz. em três relatórios publicados pela primeira vez no século XIX. em vez dos seus azímutes. Os métodos de Nunes caíram diante das observações deste grande navegador. As observações de declinação magnética feitas por estes dois navegadores formam a primeira contribuïção notável ao problema da distribuïção geográfica das linhas de igual declinação. ao partir de Lisboa lhe foram oferecidos pelo Infante D. Neste Almanach encontram-se. filho de D. É interessante o capítulo que no tratado De arte atque ratione navigandi Pedro Nunes consagrou às Tábuas de declinação do Sol. Manuel. João de Castro que a declinação magnética e a longitude dos lugares não estão ligadas pela simples relação de proporcionalidade que admitiam João de Lisboa e Rui Faleiro. que dá o valor das declinações dos astros 43 . São três obras importantes para a história da Geografia. até ao método actualmente usado para determinar as latitudes por meio de observações extra-meridianas do Sol. Mais tarde. como já dissemos. D. para os usos da náutica. aproveitando os progressos da Trigonometria esférica. ràpidamente feita. como Duarte Pacheco. erros cuja importância só pode ser conhecida depois das aplicações que D. Por meio das suas observações mostrou ainda D. depois da invenção dos cronómetros. João de Castro foi o maior dos discípulos de Pedro Nunes e foi. evitando-se assim os erros provenientes dos movimentos de oscilação e avanço do navio e de um avanço durante as observações. continuando assim as observações da mesma natureza que tinham sido feitas por João de Lisboa. semelhante a uma das Tábuas afonsinas. os defeitos de construção e de funcionamento do instrumento empregado para passar das observações para o valor das latitudes. Os resultados das suas observações foram apresentadas por ele próprio. e encontra-se ainda outra Tábua. mas na queda salvou-se o engenho do insigne teórico. Roteiro de Lisboa até Suez publicado em 1833.no Mar Vermelho. Vimos anteriormente que estas Tábuas são indispensáveis para o cálculo das latitudes por meio da observação da altura do Sol e dissemos que nas navegações portuguesas se construíam por meio do Almanach de Zacuto. irmão de Francisco Faleiro. um cosmógrafo insigne. sob os títulos: Roteiro de Lisboa à Índia publicado em 1882. A esta causa de erro juntavam-se. e assim subiu se. É estranhável que o nosso cosmógrafo não tenha notado que. Tábuas para determinar as longitudes do Sol para todos os dias do ano 1473 e para os três anos seguintes e regras para destas Tábuas tirar as que convêm a outro ano qualquer. Primeiro Roteiro da Costa da Índia desde Goa a Diu. empregando para isso instrumentos que. seu condiscípulo nas lições dadas por Pedro Nunes no Paço real.

empregado nas Tábuas afonsinas. e por isso tem responsabilidade na lenda. o seu instrumento de sombras para a medida da altura do Sol e o seu compasso. adoptara para a obliquidade da Eclíptica o número 23°51’ e que. obtiveram o número 23° 33'. temos 2x/360 = 11/83. conhecida entre nós pelo nome de Nónio. supondo a obliquidade da Eclíptica igual a 23° 33'. em vez de noventa. Aqui vamos sòmente considerar a peça que juntou ao astrolábio náutico com o fim de medir fracções do grau. que goza da propriedade notável de bastar dividir os seu quadrantes em quarenta e cinco partes iguais. medindo o arco do meridiano compreendido entre os trópicos. a análise que o nosso douto matemático faz dos trabalhos relativos a esta questão escritos desde o tempo de Ptolomeu. 11 Representando por x a obliquidade da Eclíptica. É muito interessante. sob o ponto de vista histórico-crítico. na qual se fala de um varão deligentíssimo (vir deligentissimus) na correcção dos tempos sem lhe mencionar o nome. expressos em graus. No Tratado em defensam da carta de marear. com o sr. que foi adoptado por Zacuto e pelos cosmógrafos portugueses anteriores a Pedro Nunes. por outra correspondente à obliquidade da Eclíptica de 23°30’. segundo a qual esta linha tem ao mesmo tempo o movimento de precessão de Ptolomeu e o movimento de trepidação de Azarquiel. que tão útil fora às navegações portuguesas. já mencionado. para o cálculo dos senos com aproximação suficiente para os usos da náutica. aceitou Pedro Nunes a doutrina dos astrónomos de Toledo. Pelo que respeita à variação da linha dos equinócios. é igual a 23° 51’20’’ 11. vê-se. É estranhável que nesta matéria se não faça menção do Almanach de Zacuto. x=(22/83)90° = 23° 51’ 20’’ 44 . que no seu tempo estava mais próximo do verdadeiro do que o número que preferiu. os astrónomos de Bagdad. Ora. Joaquim Bensaúde. No século XVI já estes números não convinham e Pedro Nunes adoptou o número 23° 30' empregado por Regiomontano nas suas Efemérides. demorando-se principalmente no comentário dos que se devem aos astrónomos de Afonso X. Também infelizmente o nosso matemático não fala nas suas obras dos cosmógrafos portugueses do século XV. É estranhável que Zacuto não tenha adoptado o número 23°32' 30". isto é. da intervenção da ciência germânica na náutica portuguesa. a obliquidade da Eclíptica. que correu durante séculos. o seu engenho manifestar-se na invenção de instrumentos astronómicos e de métodos gráficos ou mecânicos para a resolução de diversos problemas numéricos. e portanto que metade daquele arco.correspondentes às suas longitudes contadas de grau a grau. Percorrendo as obras de Pedro Nunes. Eu penso. Talvez se refira ao célebre hebreu proscrito uma passagem da obra a que nos estamos referindo. A invenção do Nónio foi sugerida a Pedro Nunes por uma passagem do Almagesto pela qual se vê que os antigos astrónomos. e muitas vezes. nos anos 829 e 830 depois de Cristo. que talvez Pedro Nunes tenha tido receio de afrontar o fanatismo dos cristãos do seu tempo. para obter o valor dos ângulos que determina. acharam que este arco está para a circunferência como 11 para 83. Convém observar que Ptolomeu. apesar de elogiar algumas vezes o que até ao seu tempo se tinha feito em Portugal no que respeita à ciência e arte de navegar. Pedro Nunes substituíu a Tábua das declinações de Zacuto. Descreveremos nas Notas juntas a este livro o seu anel graduado. tinha dado as Tábuas de longitudes para os anos de 1537 à 1540. mais tarde. seguindo Eratostenes e Hiparco. mencionando um judeu que fora recentemente expulso de Portugal como rèprobo do verdadeiro Deus. medindo-a de novo cuidadosamente.

que em um livro publicado em 1631. O que podemos dar como certo é que Pedro Nunes. uma Nota do Ensaio histórico de Garção Stockler. Tracemos no instrumento 44 circunferências concêntricas com a que mede os graus e dividamos o quadrante de cada uma em. foi depois dada por Clávio e Vernier e que ao primeiro destes matemáticos pertence a idea essencial desta solução. Explicar uma invenção feita é muito diferente de inventar. com a qual se desloca. que no seu Astrolabium livro publicado em 1593. 88. para valor do arco do meridiano compreendido entre os trópicos. A respeito da passagem do tratado De arte atque ratione navigandi em que Pedro Nunes se referiu à invenção do seu instrumento. partes iguais. isto é. pôs o problema da avaliação das fracções do grau nas medições feitas com o astrolábio e deu a primeira solução dele. 9 da edição de 1515). ligando-o à alidade do astrolábio. . sob o título de Construction du quadrant noveau 13. fazendo acompanhar a referida passagem da tradução do latim para português. substituíu as 44 circunferências de Nunes por um arco auxiliar de uma única. 89. É instrutiva. e que outra solução. na qual este matemático indica um modo de passar do instrumento de Nunes para o de Clávio e Vernier. Mas esta passagem não se faz com tanta evidência que tire aos aperfeiçoamentos destes últimos o seu mérito. sendo as divisões contadas a partir do raio que passa pela origem da divisão da circunferência que determina os graus. E mesmo não é crível que Clávio e Vernier seguissem caminho tão longo para chegar a uma invenção que se lhes apresentou de uma maneira bem simples. discípulo do matemático português. 87. Este opúsculo é muito raro. respectivamente. sem fixar o número delas. Ptolomeu fala da obliquidade da Eclíptica no Almagesto (pág. inspirado por Ptolomeu. a este respeito.Para se explicar como se obteve para valor do ângulo medido a fracção 11/83 da circunferência. como consequência dela. . entre 47°40' e 47°45'. publicado no Jornal de Ciências Matemáticas (Coimbra. determinou o movimento do arco auxiliar. dividido em 61 partes iguais e abrangendo um arco de 60 graus do limbo do astrolábio12. faremos aqui algumas observações. e que Rodolfo Guimarães transcreveu no Instituto de Coimbra (tomo XLIX. admitiu Nunes que no astrolábio empregado estava traçada uma circunferência concêntrica com aquela em que eram medidos os graus. Diz ainda que o limbo do instrumento deve ser dividido em graus e cada grau em partes do grau. e depois por Vernier. Destas duas invenções resultou o instrumento actualmente conhecido pelo nome de nónio ou vernier. Depois acrescenta que a esta condição satisfaz o valor 11/83 da circunferência obtida por Eratóstenes (que chama Archusiano) e Híparco (que chama Abrachis). Explicada assim a passagem considerada do Almagesto. Pedro Nunes não considera a sua doutrina sobre a medida dos ângulos como invenção própria. expôs o nosso geómetra. A nos parece-nos que uma hipótese possível para explicar os números obtidos para o 12 Pode ver-se a passagem do Astrolabium em que Clávio deu a sua doutrina em um artigo de Breusing. que o seu quadrante estava dividido em 83 partes iguais e que a linha de fé da alidade do instrumento passava pela divisão 44. 1902). mas não diz que foi ele quem encontrou a fracção 11/83 da circunferência. tomo III). Pode ver-se nos Anais da Academia Politécnica do Porto (1916. o seguinte modo de obter o valor dos ângulos por meio do astrolábio. tomo XI) uma notícia bastante desenvolvida de um exemplar que se encontra na Biblioteca Nacional de Paris. 13 45 . . 1881. Dá o modo de obter este ângulo e diz que o seu valor está compreendido entre 47+2/3 e 47+3/4 do grau. Mede-se depois o ângulo dado pela circunferência que dá o seu valor com maior aproximação. mas como uma reconstituïção do método que julga ter sido empregado por Ptolomeu para aquela medida. simples e prática. O instrumento de Nunes foi notàvelmente simplificado e tornado prático pelo Padre Cristóvão Clávio.

Nós. por meio de um círculo cujo quadrante estava dividido em 83 partes iguais. e então figurariam na história o do nosso matemático com o nome de sub-divisor de Nunes e o actual com o nome de sub-divisor de Clávio e Vernier. com Delambre. trata-se de um trabalho de geometria do movimento. quando ensinava aos seus discípulos a Mecânica de Aristóteles. Não sabemos se Pedro Nunes fez construir o seu instrumento. Diz que por meio do instrumento se achou que o ângulo considerado está compreendido entre 47+2/3 e 47+5/6 do grau. Mais tarde. Poderia também cada grau estar dividido em seis partes de 10º cada uma e calcular as meias divisões por aritmética. Com efeito. nem a de vernier. A Física de Aristóteles caíu no que respeita às teorias com os progressos dos meios de observação e experimentação. com o exame de uma série de casos. Diz ele que. Tem-se discutido muito se ao instrumento actualmente empregado para medir as sub-divisões do grau se deve dar o nome de nónio ou o de vernier. como alavancas. porque estes nomes não podem separar-se na invenção deste sub-divisor. Pedro Nunes na Física Fecha o tratado De arte atque ratione navigandi um capítulo em que Pedro Nunes se ocupa do movimento dos barcos a remos. Agora vem outra questão: como encontraram Eratóstenes e Híparco o número 11/83 ? Segundo Pedro Nunes. na sua Histoire de l'Astronomie. Eu preferiria chamar aos instrumentos considerados sub-divisores dos ângulos. e portanto entre os números 11/(83+1/13) e (11+1/26)/(83+1/13) . Delambre. Felizmente a invenção do matemático português levou à de Clávio e depois ao precioso instrumento de Vernier. Não se trata neste capítulo de um trabalho de mecânica no sentido moderno. teria sido obtido. como dissemos. Não se pretende determinar o lugar que o barco vai ocupando em cada instante. considero o uso de designar nas ciências um objecto com o nome de um homem como inconveniente para a sua história. Segundo uma tradição colhida por Stockler. O único exemplar deste instrumento de que há notícia foi mandado construir por Tycho-Brahe. por levar muitas vezes a ideas falsas a respeito das invenções. considera a questão e sem mencionar o nosso matemático. em diversas circunstâncias. além das descrições dos 46 . que são aproximadamente iguais a 11/83. quem lhe chama vernier não é justo. legando todavia à ciência moderna. mas de comparar. modificando-a de modo a harmonizá-la com os números dados por Ptolomeu para limites entre os quais está o valor do arco de círculo máximo compreendido entre os trópicos. aceitamos a opinião de Delambre. atendendo ao facto de Ptolomeu falar da divisão do limbo do astrolábio em partes de grau. Nem é històricamente justa a designação de nónio. que este valor está compreendido entre 47+2/3 e 47+5/6 da circunferência. em vez de dizer. Delambre notou na Histoire de l'Astronomie. diremos que está compreendido entre 47+2/3 e 47+3/4 da circunferência e que (47+3/4)/360 se pode considerar como igual a 11/83 com um erro inferior a 13/(831440). e a isto é consagrado o capítulo mencionado. notara que aquela doutrina era exposta pelo grande filósofo de um modo obscuro e defeituoso. Além disso. mas este astrónomo renunciou em breve ao seu emprego por não lhe reconhecer utilidade prática. a dificuldade na escolha do círculo que se deve empregar para medir cada ângulo. os instrumentos astronómicos que existiam na Universidade de Coimbra foram fundidos no período de decadência científica que se seguiu à morte de Nunes para se aplicar o seu metal na construção de uma grade. A mim não me agrada nem a primeira nem a segunda designação. o deslocamento do barco ao dos remos. apresenta outra explicação. impelido pelos remos. Esta observação levou-o a procurar esclarecê-la e corrigi-la.valor do arco compreendido entre os trópicos é que cada grau do instrumento estava dividido em doze divisões de 5' cada uma e assim obteria que o valor do ângulo considerado está entre 47° mais oito divisões do grau e 47º mais nove divisões do grau. que não cita estes autores e o atribui a Ptolomeu. O caso actual é um deles. Quem lhe chama nónio não diz a verdade.

a respeito da cultura da Física de Aristóteles em Portugal. Com a sua queda. a consagrar algumas palavras aos principais Peripatéticos portugueses que se ocuparam desta ciência. que agora se pode admirar na história das ciências. extraídas dos nossos Panegíricos e Conferências: «Com Pedro Nunes e com o seu discípulo D. mas segundo diz o Dr. esquema que poderá no futuro ser substituído por outro mais perfeito. um precursor de Newton. Newton. ao terminar esta análise das Obras consagradas por Pedro Nunes à arte e ciência da navegação. Não se pode porém dizer. que o nosso físico foi. pelo qual se prevêem e calculam os seus movimentos e concorda com as observações. disse que tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria.ibros del saber de Afonso X e do Almanach perpetuum de Zacuto». constitui uma útil introdução físico-geométrica ao estudo da doutrina a que se refere. A história da Matemática e a história da Física estão tão ligadas que convém algumas vezes passar em digressão da primeira para a segunda. fez ciência positiva: deu um esquema matemático do Mundo dos astros. Não é indicado nesta obra o nome do autor. a obra intitulada . É um livro interessante e sábio. sabe-se que foi composto pelo Padre Manuel de Góis homem muito erudito.Comentarii Collegii Conimbricensis Societatis Jesus. em que fomos levados a falar de um ponto da história da Física peripatética em Portugal. porque com a feição descritiva. 47 . como afirmam alguns escritores portugueses. o interesse do comentário de Nunes diminuiu. Foi esta Física. na sua estrutura filosófica.fenómenos algumas ideas engenhosas. pagando assim a ciência náutica lusitana à ciência astronómica espanhola os serviços que recebera desta por meio dos I. que a apresentou. que com os nossos aprenderam. Newton não afirmou que a matéria atrai a matéria segundo as leis que descobriu. reduzindo-os assim a uma síntese hipotética. Para a doutrina newtoniana não é necessária a hipótese da atracção. no livro admirável que consagrou à Filosofia natural. em que o autor se ocupa de diversos fenómenos naturais e pretende explicá-los por atracções. João de Castro termina a História da fundação em Portugal da Astronomia náutica. que entrou na Companhia em 1560 e morreu em 1593. e ao físico português mencionado cabe a honra de ser um dos primeiros se não o primeiro. mas não desapareceu completamente. As doutrinas especiais deste ramo da Astronomia geral nasceram neste país e foram depois divulgadas na Espanha pelos marinheiros e cosmógrafos que do nosso país passaram ao serviço daquele e pelos cosmógrafos espanhóis Enciso e Medina. não fez hipóteses. É uma hipótese que ilumina os assuntos e por isso ficou. São prelúdios do que mais tarde se chamou atracção universal. Entra nos moldes da Física dos Peripatéticos o livro intitulado De occultis propietatibus. se o estudo dos fenómenos levar a isso. publicado em 1540 por António Luiz. vamos agora aproveitar esta ocasião. Mencionaremos finalmente aqui. repitamos as palavras seguintes. mas esta hipótese é cómoda para a exposição dela. Assim. onde são explicadas de um modo profundo as doutrinas do grande Estagirita e seus comentadores sobre esta ciência. um genial paradoxo. publicada no fim do século XVI. Lopes Praça no livro que consagrou à história da Filosofia em Portugal. Agora. professor de Filosofia na Universidade de Coimbra. com o seu livro.

obteve o grande astrónomo helénico para os seus deslocamentos valores que se aproximavam suficientemente dos movimentos que davam as observações feitas pelos meios então usados. Admitia ainda que cada esfera está contigua a duas outras e tem um movimento próprio. publicando em língua castelhana o precioso tratado da esfera e da arte de marear. puramente geométrico. primeiro herdeiro em Portugal da ciência dos Gregos e Árabes. representou as órbitas descritas pelo Sol. De facto. que por sua vez descreve a circunferência de um terceiro círculo. nos seus movimentos de translação aparente à roda da Terra. principiando pelo trabalho que consagrou à representação geométrica dada por Ptolomeu da Máquina do Mundo. Dissemos na Introdução deste livro que Ptolomeu. deu depois o seu autor uma forma física. a obra de Ptolomeu desapareceu para sempre do campo da ciência e passou ao Panteão da história. substituída na sua parte física pela de Copérnico e na sua estrutura geométrica pela de Kepler. foram expostos com grande clareza e sàbiamente ampliados por Purbáchio na obra intitulada Theoriae novae planetarum. seguindo uma idea de Apolónio e generalizando uma doutrina de Híparco. procurando afiná-la com as observações.Para este pagamento concorreu com a principal contribuição Francisco Faleiro. os raios e as velocidades dos movimentos dos círculos que entram no sistema correspondente a cada um daqueles astros. Determinando convenientemente os centros. que ficou célebre como a mais importante obra consagrada à exposição daquele Sistema. A este sistema astronómico. isto é. a máquina matemática não saiu perfeita das mãos do inventor. umas com astro outras sem astro. sem o alterar essencialmente sob o ponto de vista matemático. por curvas geradas por um ponto da circunferência de um círculo móvel. substituindo os círculos por esferas. A determinação do raio de cada esfera e . o último dos grandes comentadores das doutrinas do Almagesto. e foi necessário que outros astrónomos que vieram depois. e com ela passaram também à história a obra de Purbáchio e o comentário de Pedro Nunes. obra que Pedro Nunes enriqueceu com notas importantes em um livro intitulado In Theoricas Planetarum Georgii Purbachii Annotationes. à medida que se faziam com mais exactidão. A Cosmologia na obra de Pedro Nunes Acabamos de falar de Pedro Nunes como cosmógrafo. Mas. a continuar em Astronomia náutica a obra de Zacuto e José Vizinho e a preparar a Astronomia náutica do futuro. concêntrico ou excêntrico à Terra. notas que esclarecem ou rectificam alguns pontos do livro do sábio alemão e constituem um comentário precioso à obra do grande astrónomo de Alexandria. como matemático-filósofo. Admitia que todas estas esferas estão situadas no interior do Orbe das Estrelas e que este Orbe está situado no interior de um Orbe motor sem astros. menos de um século depois. umas concêntricas outras excêntricas com a Terra. etc. de que anteriormente falámos. Nestes aperfeiçoamentos representaram grande papel os astrónomos de Toledo e por fim Purbáchio e Pedro Nunes. Lua e Planetas. a estudar os segredos das matemáticas puras e os mistérios do mundo físico. e que o movimento resultante dessa combinação é transmitido por ela à outra esfera contigua. como era natural em questão tão complexa.dos seus movimentos de modo que os deslocamentos que resultam para os astros concordem com aproximação suficiente com as que dão as observações directas. Admitia finalmente que o Orbe sem astros dava a todo o sistema o movimento de rotação diurna e o Orbe das Estrelas produzia o movimento de precessão dos equinócios. que se combina com o movimento recebido de uma das contíguas. vamos agora vê-lo. o Sistema de Ptolomeu e os acrescentos e aperfeiçoamentos que lhe juntaram os astrónomos de Afonso X. 48 . por epiciclos. Mas. a aperfeiçoassem constante e demoradamente. cujo centro descreve a circunferência de outro círculo. é uma questão difícil que o grande inventor do Sistema realizou com engenho admirável.

O primeiro golpe no Sistema de Ptolomeu foi dado. por Copérnico no seu tratado De revolutionibus orbium celestium. como dissemos. Diremos pois apenas que Pedro Nunes mostrou nas Annotationes grande erudição e profundeza de vistas. isto é. Física que caíu no século XVII e só então. em estâncias muito engenhosas da sua grandiosa epopeia. Deixando porém o campo astronómico e colocando-nos no campo matemático. sentiram também alívio. Copérnico. Refiro-me à anotação à teoria da Lua em que se procura o ponto em que é máximo. Se o seu pensamento foi mais longe no favor ao novo Sistema. no movimento deste astro. por ser obra genial. deixando. segundo os astrónomos de Toledo. então se atribuía à esfera das Estrelas. Ser-lhe-ia porém favorável ? Não o sabemos. vendo o melindre das suas doutrinas sob 49 . Camões glorificou esta obra sublime. para o harmonizar com o resultado daquela observação. mas não nos deteremos na sua análise. quando mais tarde o referido Sistema foi substituído pelo Sistema elíptico. dando-lhe uma forma matemática semelhante à do Sistema ptolomaico.Como dissemos nos Panegíricos e Conferências. problema que se reduz à determinação do ponto de uma circunferência do qual se vê sob ângulo máximo um segmento dado de um diâmetro também dado. mas não se pronuncia sobre a verdade ou falsidade do novo Sistema. Encantado da sua beleza. descrevendo algumas das ideas do grande astrónomo helénico sobre a Mecânica do Mundo. Sob o ponto de vista matemático. O nosso matemático tinha diante de si a Inquisição. os astrónomos. Pedro Nunes não foi pois hostil à innovação coperniana. diz ele. Assim. naqueles tempos literalmente interpretada. Demais. a teoria ptolomaica é doutrina morta e por isso. que se refere à passagem do Sol à voz de Josué. porque. iluminando as doutrinas complexas dos movimentos do Sol. mas foram-no complicando e desfeiando as modificações e acrescentos que foi necessário fazer lhe à medida que se avançava na observação dos astros. a obra dos seus comentadores perdeu muito deste interesse. ainda que a obra de Ptolomeu conserve todo o seu interesse histórico. Aquela obra foi publicada no tempo de Pedro Nunes e é interessante notar a atitude que diante dela tomou o nosso geómetra. com os estudos do grande matemático Toscano. a fim de se verificar se o Sistema heliocêntrico pode determinar as posições dos astros com mais exactidão e simplicidade do que o Sistema geocêntrico. exprime o desejo de que se construam Tábuas apropriadas à nova doutrina. esta questão aos filósofos. não é possível ser examinado em curto tempo. que soam como um hino de gratidão à Astronomia pelos serviços que prestara à gente lusa. Delambre considerou as Annotationes de Nunes como o mais cuidadoso e mais instrutivo de todos os comentários feitos à obra de Purbachio. como método geométrico para determinar o movimento dos Planetas e prever os fenómenos. não sentiram só admiração pela simplicidade das leis dos movimentos planetários. o Almagesto de Ptolomeu deve ser olhado na história com a veneração que despertam as ruínas dos velhos monumentos da antiga Grécia. O Sistema ptolomaico tinha na origem simplicidade e beleza. O mencionado comentário de Pedro Nunes às doutrinas astronómicas de Purbachio e Ptolomeu é muito sábio. que dominava a Mecânica dos astros. No século XVI era clássica a Física de Aristóteles. uma destas anotações merece menção especial. Este refere-se no seu tratado De arte atque ratione navigandi à obra do grande astrónomo polaco. onde fez renascer o Sistema heliocêntrico do Mundo adoptado outrora por alguns astrónomos da Escola de Pitágoras e por Aristarco de Samos. da Lua e dos Planetas conhecidos no seu tempo e a doutrina do triplo movimento que. escrito quando o Sistema de Ptolomeu tinha já atingido grande complicação. O valor do Sistema heliocêntrico sob o ponto de vista físico fê-lo sobressair mais tarde Galileu. o arco do epiciclo compreendido entre o auge médio e auge verdadeiro. que não lhe permitiria contrariar a passagem do Velho Testamento. à sua palavra foi vedado transmiti-lo. passaram as doutrinas de Copérnico do campo de meras hipóteses geométricas para o campo das verdades demonstradas. Este problema era muito difícil para a ciência daqueles tempos e Pedro Nunes resolveu-o geomètricamente com engenho admirável.

Na sua obra. se o Sol está também ao norte do Equador. o geómetra português começa por expor algumas doutrinas de Astronomia esférica de que tem necessidade para o seu fim: duração do dia e da noite. O mesmo acontece quando o lugar está ao Sul do Equador. tem sido considerado com razão pelos matemáticos que o têm analisado como a mais bela e a mais original das obras de Pedro Nunes. distinções que hoje se evitam pela chamada regra dos sinais. seis casos distintos com seis figuras diferentes. Este problema do crepúsculo mínimo foi estudado de novo. isto é. tinha escrito um tratado sobre a explicação e representação geométrica do fenómeno crepuscular que Gerardo de Cremona vertera em latim. transformação de coordenadas astronómicas. Existe todavia para esta duração um valor médio que. Para as duas primeiras questões inspirou-se nos trabalhos de Ptolomeu e dos astrónomos árabes. e que a declinações iguais de um lado e de outro do Equador correspondem no referido lugar crepúsculos também iguais. que não conheciam o trabalho de Pedro Nunes e que consideravam o problema como muito difícil. Depois estuda e resolve o problema essencial do tratado. que já antes empregara na determinação da duração do dia e da noite. para um lugar ao norte do Equador. determinação do tempo pelas observações da altura e azímute do Sol e das Estrelas. célebre astrónomo árabe. o problema que tem por objecto determinar a duração dos crepúsculos para um lugar dado da Terra e uma posição dada do Sol. é igual ao tempo que o Sol leva a descer até 18° abaixo do horizonte. do qual depende a altura a que sobem aqueles vapores e estas poeiras. etc. considera no problema de transformação de coordenadas referidas à Eclíptica. tinha-as apresentado como simples teoria matemática e Nunes seguiu-lhe o exemplo.este ponto de vista. uma introdução física ao trabalho matemático por ele elaborado. dizendo mesmo João Bernoulli que muitas vezes pensara nele antes de o poder resolver. Sabe-se desde a antiguidade que o fenómeno dos crepúsculos da manhã e da tarde é devido à reflexão da luz do Sol sobre os vapores e poeiras suspensos no ar e que a sua duração varia por isso com o estado atmosférico. Este tratado. 50 . a duração dos crepúsculos aumenta com esta declinação e diminui quando aquela latitude aumenta. Para resolver esta questão emprega o método planimétrico de Ptolomeu. Alhazen. vamos agora ocupar-nos do seu tratado De crepusculis. Sempre rigoroso. e no problema recíproco. publicado pela primeira vez em 1541 e depois reproduzido na edição de 1566 do tratado De arte atque ratione navigandi. mais tarde. Por fim. no fim do século XVII pelos dois irmãos João e Jacob Bernoulli. segundo observações feitas por diversos astrónomos. voando alto resolve este outro problema: determinar o dia de crepúsculo mínimo para um lugar dado da Terra e a duração deste crepúsculo . Vamos aqui reproduzir o que de essencial a respeito dela dissemos nos Panegíricos e Conferências. Procura depois como varia a duração do crepúsculo com a latitude do lugar e a declinação do Sol e mostra que. por assim dizer. mas esta tradução é tão imperfeita que Pedro Nunes teve grande dificuldade (diz ele) em interpretar e reconstruir o pensamento do autor do tratado. Continuando a considerar as obras consagradas por Pedro Nunes à Cosmologia. Esta reconstrução foi junta pelo nosso geómetra ao seu livro e é.

A análise matemática é uma maravilha de simplicidade expressiva de linguagem. uma o dia do mínimo crepúsculo e a outra a duração do fenómeno. quando se dispunha para isso somente de meios elementares ? É que o matemático suíço empregou na solução o método diferencial actualmente clássico e viu-se assim enredado em cálculos de que teve dificuldade em sair. que analisou com profundeza. Além disso. considerou a exposição das doutrinas deste tratado como prolixas e as demonstrações como excessivamente longas. mas esta generalidade desorienta algumas vezes os matemáticos que a ela recorrem para obter a solução de questões particulares de Geometria. é idêntica à de Pedro Nunes. 51 . A regra que empregou para resolver este triângulo equivale à fórmula que para este caso da resolução dos triângulos se dá actualmente na trigonometria esférica. de precisão e de generalidade. regra de que voltaremos a falar. Bernoulli limitou-se a determinar aquele dia. o tratado De crepusculis e o elogiou com calor pelas invenções que encerra. Como se explica que um grande matemático. certamente para não alongar a sua exposição e a tornar mais fàcilmente inteligível as pessoas preparadas com a cultura moderna e não habituadas à leitura das obras anteriores ao uso das Matemáticas do simbolismo algébrico. Começou por vestir com vestes trigonométricas algumas das doutrinas que Nunes estudara por métodos planimétricos. que sabia aplicar com grande mestria. O resultado final do problema é simples e Pedro Nunes descobriu engenhosamente um atalho que aí conduz. Delambre. Foi assim levado à resolução de um triângulo esférico em que são dados três lados (complemento da latitude do lugar. passando à teoria do mínimo crepúsculo. A declinação do Sol no dia do fenómeno foi determinada por Bernoulli por meio de uma relação trigonométrica muito simples em que figuram a declinação do Sol no dia do fenómeno e a latitude do lugar e por Pedro Nunes por duas relações em que figuram a duração do fenómeno e o azímute do Sol no horizonte. mas como ele próprio diz no prefácio do livro. Colocando se no ponto de vista prático. afasta-se algumas vezes de Menelau. quem observar o modo como tais doutrinas foram por aquele matemático tratadas no século XVIII. na segunda. como dissemos. melhor poderá avaliar o engenho de quem com muito menor preparação as inventou no século XVI. por meio da variação do ângulo horário de uma estrela. e reduziu algumas delas à forma moderna. tinha o nosso matemático na cabeça uma massa considerável de regras bebidas em matemáticos gregos e árabes e em alguns autores contemporâneos. a exposição do eminente matemático francês é um excelente comentário ao tratado do grande matemático português. para suprir a sua falta. cuja declinação seja conhecida e cuja altura se mede. declinação da estrela e sua altura) e se pede um ângulo (ângulo horário). com simbolismo algébrico. Este modo de medir a duração dos crepúsculos foi aplicado pelo autor em Lisboa no dia 1 de Outubro de 1541 Na primeira parte do seu tratado emprega Pedro Nunes. deu ainda o matemático português um modo de medir directamente a duração dos crepúsculos. tenha tido dificuldade em resolver um problema que já fora resolvido mais de um século antes. Mas. enquanto que Nunes determinou o dia de crepúsculo mínimo e a grandeza deste crepúsculo. No tempo de Pedro Nunes ainda não tinha sido inventada. mas não deixa de recorrer a Euclides e Teodósio. depois. na sua Histoire de l'Astronomie. métodos planimétricos de Geometria pura. Ptolomeu e Geber. relações que determinam. emquanto que Bernoulli chegou lá por estrada real. emprega métodos trigonométricos. Sob este ponto de vista. onde teve de dar voltas com que não contava. em especial na parte relativa ao mínimo crepúsculo. Ambos procuraram aqueles dias pelo valor que neles toma a declinação do Sol.A solução de João Bernoulli na parte que se refere à determinação dos dias em que a duração do crepúsculo é mínima. A solução deste geómetra é pois incompleta. deformou bastante a doutrina de Nunes. no modo de empregar tais métodos. como era Bernoulli. mas.

foi a variação de uma quantidade que depende de outra. correspondem no Mundo das Matemáticas harmonias numéricas que são o encanto da razão. ocupou-se de outras. façamos aqui. a sua declinação e a latitude do lugar. uma observação. o segundo caso só se dá quando o lugar da observação esta entre o Equador e o Trópico de Câncer. no tratado De arte atque ratione navigandi. Supondo dados o rumo do Sol. Pertencem à mesma doutrina o problema do mínimo crepúsculo e o problema do máximo arco de epiciclo compreendido entre o auge médio e o auge verdadeiro no movimento da Lua. sobre o astrolábio. mencionados já por nos neste livro. Associadas a questões de Cosmologia. antes da invenção do Cálculo diferencial. Este facto foi deduzido por Pedro Nunes da consideração do triângulo esférico formado pelo meridiano do lugar e pelo círculo vertical e pelo círculo meridiano que passam pelo Sol. o movimento da sombra de um estilete vertical muda duas vezes de sentido no mesmo dia. um assunto que prendeu muitas vezes a sua atenção. ou. Ao começar a sua carreira científica. a variação das funções. Ora. por métodos geométricos especiais. sobre o planisfério geométrico. e as soluções que deles deu são obras primas de engenho e arte. que tinha composto tratados sobre triângulos esféricos. Estes tratados não chegaram até ao nosso tempo. Diz Pedro Nunes no fim do tratado que acabamos de considerar. No hemisfério austral o mesmo fenómeno dá se em circunstâncias semelhantes. encanto dos sentidos. subiu a problemas desta natureza e de tanta dificuldade. por ele apresentado no Tratado em defensam da carta de marear: No hemisfério boreal da Terra. e o Sol está a norte do zénite do lugar. no hemisfério boreal. Este conceito é aplicável aos crepúsculos. Nunes procura distinguir os dois casos e chega à conclusão de que. e que ninguém. Eu penso que o nosso matemático inutilizou os quatro primeiros depois de incluir as suas doutrinas no tratado De arte atque ratione navigandi e que certamente os capítulos que consagrou à doutrina da proporcionalidade na sua Álgebra são a reprodução da doutrina que continha o último tratado.Dissemos algures que às belezas do Mundo físico. aparecem. Nos outros casos nunca retrograda. Devemos ajuntar que Pedro Nunes foi um dos matemáticos que primeiro estudaram. conhecidas hoje pelo nome de teoria das funções. quando um lugar está situado entre o Equador e o trópico de Câncer e o Sol está ao norte do zénite do lugar. assinalando o facto interessante seguinte. nas duas obras de Pedro Nunes que acabamos de considerar. o triângulo considerado está no caso chamado em Trigonometria duvidoso e a cada rumo correspondem então um ou dois ângulos horários. Excelentes poetas têm descrito com brilho os seus variados aspectos. como em parêntesis. 52 . antes dele. mas as suas doutrinas não se perderam. algumas questões pertencentes ao domínio das Matemáticas. Pedro Nunes foi o poeta das Matemáticas que descobriu as suas harmonias numéricas. como se diz actualmente. Antes de continuar. Com efeito. sobre o modo de construir um globo para uso da navegação e sobre a doutrina da proporcionalidade. e. questões de máximos e mínimos. tratou logo de uma questão desta natureza na Nota sobre climas. junta ao Tratado da Esfera. Terminarei o que julgo dever expor aqui sobre os trabalhos de Pedro Nunes em Cosmologia.

e termina por expor por métodos planimétricos uma terceira que equivale ao teorema fundamental da Trigonometria esférica actual. divulgada pelo matemático persa Nassir-Eddin. Nas numerosas ocasiões em que empregou o último. Recordemos que. 45). tinha Ptolomeu empregado dois métodos diferentes: um deles reduzia o problema a construções planimétricas feitas sobre dois planos. mas podemos reconstruí-lo por meio de numerosas passagens das suas obras em que é aplicada a Trigonometria. Esta contribuïção começou naturalmente naquelas obras. Nunes apresenta a solução de Verner e a que dera Regiomontano nas suas Tabulae primi notis (1514. prop. a sombra do estilete anteriormente mencionado começa pela manhã a avançar e depois retrograda até tomar ao meio-dia uma posição próxima da que tinha pela manhã e depois repete-se o fenómeno ate ao pôr do Sol. diz ele. Este fenómeno. «(parece coisa de admiração)». diz ele. já nesta obra mencionado. descobrir por meios teóricos um fenómeno que os nautas que tinham viajado naquela zona não haviam ainda assinalado ! Pedro Nunes na Geometria Demos por terminada a nossa análise das obras de Pedro Nunes sobre Astronomia e sobre a aplicação desta ciência à Náutica e passamos a considerar a sua contribuïção para o progresso das Matemáticas puras. 53 . esclarece-as. e depois de lidos não rompi o que tinha escrito». Sabe-se por uma passagem das suas obras que o nosso matemático escreveu um tratado de Trigonometria esférica antes de conhecer os livros consagrados por Regiomontano e Geber a este assunto. como se lê no segundo Livro dos reis (na Bíblia) que tornou a sombra atrás dez graus em sinal de saúde de Ezechias». e. na sua variação desde o nascer do astro até ao meio-dia. Comecemos pela Trigonometria esférica. depois ajuntou: «nas regiões que estão entre o círculo de Cancro e o norte seria isto (a retrogradação) impossível. Diz com efeito no Tratado da Esfera: «Escrevi a Geometria dos triângulos esféricos largamente. um dos quais se rebatia sobre o outro. e por isso vamos examinar o substratum matemático delas. salvo por potência divina.Então o rumo do Sol. certamente porque no tratado De triangulis omnimodis Libri quinque. do matemático alemão mencionado é exposto de um modo magistral e completo aquele assunto. longe da zona onde a retrogradação da sombra se dá. antes que da Alemanha nos mandassem à Espanha os livros de Geber e Monte Régio. teve talvez em vista fazer notar que com essa doutrina não pretendia contrariar a referida passagem do Velho Testamento. que na mesma matéria falam. regra que é uma consequência imediata da proposição célebre de Menelau sobre o quadrilátero esférico. Foi isto o que disse o astrónomo. para resolver os problemas da Geometria da esfera. muda de valor e torna a retomá-lo. e nos ajuntaremos que é belo ver Nunes. O manuscrito de Pedro Nunes perdeu-se. mencionando-a. usou principalmente das regras relativas aos triângulos rectângulos conhecidos pelos trabalhos de Ptolomeu e da regra dos quatro senos. publicado pela primeira vez em 1533. Não julgou porém necessário publicar o seu trabalho. No Capítulo XX do tratado De arte atque ratione navigandi é considerado por Pedro Nunes o caso da resolução do triângulo esférico geral em que são dados dois lados e o ângulo compreendido e se procura o terceiro lado e vem isto a propósito do problema geográfico em que se pede o valor da distância por círculo máximo entre dois lugares da Terra de latitudes e longitudes dadas. como consequência disto. O nosso matemático aplicou-os ambos muito hàbilmente. o segundo é o da Trigonometria esférica. e de tarde repete se o mesmo facto. completa sob o ponto de vista lógico a primeira. simplifica-as a ambas. Talvez esta passagem da Bíblia tenha levado o nosso matemático a estudar o fenómeno que acabámos de considerar e.

das suas obras publicadas. Das soluções dadas por Pedro Nunes do segundo e quarto problemas e suas consequências. quando se conhecem o azímute do Sol. o azímute do Sol e o ângulo horário tornam-se iguais duas vezes no dia.°—Determinar a hora. 4. tem o interesse especial de ser uma aplicação do método planimétrico dado por Ptolomeu para estudar as questões de Geometria da esfera. No tratado De crepusculis. a escolha da que se deve aproveitar. já mencionada. no 54 . já aqui se deu noticia. a sua declinação e a latitude do lugar da observação. a sua altura e a sua declinação. As soluções do primeiro e terceiro.°—Determinar a latitude de um lugar. sob o título de Opus astronomicum. o azímute e a altura do Sol tomam duas vezes o mesmo valor em cada dois lugares do hemisfério septentrional. levaram-no às consequências seguintes: 1. mas Pedro Nunes faz uma observação justa ao que a respeito dele escrevera o célebre astrónomo alemão. Regiomontano já dera três soluções deste problema no tratado De triangulis e da regra correspondente à última passa-se imediatamente. em vez de o determinar por meio do co-seno. quando se conhecem o azímute do Sol. quando há duas.°—Determinar a hora. a sua altura e a sua declinação. tinha sido já considerado por Albaténio (a propósito dos problemas que tem por objecto determinar o azímute ou o ângulo horário do Sol quando são dados a altura e a declinação deste astro e a latitude do lugar de observação). como da solução de Pedro Nunes. vem (a propósito do problema que tem por objecto determinar o ângulo horário do Sol. quando se conhecem as horas. pelo Observatório de Milão. Com efeito. Entre os triângulos esféricos resolvidos por Pedro Nunes são numerosos os que estão no caso chamado duvidoso e em todos o autor estudou com cuidado a existência de uma ou duas soluções e. e isto dá-se quando a altura do Sol é igual ao valor da sua declinação nesse dia. com a diferença de determinar este ângulo por meio do seu seno verso. em 1903. 2. e a regra que dá para o resolver é equivalente à regra actualmente clássica. como se pode ver no texto e nas notas da edição latina. para este teorema.º—Em cada dia do estio. quando se conhecem a sua declinação e a latitude do lugar da observação) a resolução de outro triângulo esférico geral em que são dados os três lados e se procura o valor de um ângulo.A demonstração que. resulta da doutrina de Pedro Nunes. 2. Estão neste caso os problemas seguintes. e a regra dada pelo célebre astrónomo árabe para o resolver é equivalente ao mencionado teorema fundamental da Trigonometria esférica.°—Quando o zénite do lugar da observação do Sol está de um lado e o astro do outro do Equador. Mas o caso da resolução do triângulo esférico a que acabamos de nos referir. 3. e o mesmo acontece no inverno no hemisfério austral. considerados no Tratado em defensam da carta de marear: 1. para a fórmula empregada actualmente para o resolver. quando se conhecem o azímute do Sol. O terceiro problema já tinha sido considerado por Regiomontano. a altura do Sol e a sua declinação.°—Determinar o azímute do Sol.

Pedro Nunes foi mais longe. a que lhe convém. as duas soluções e como que substituiu ao problema outro que só tem com o proposto o parentesco de ter dois dados comuns. como já dissemos. Menelau. etc. e com ele Ziegler e Apiano. ao terminar este assunto. Pedro Nunes notou no seu tratado De arte atque ratione navigandi o erro do célebre geómetra grego e a falta de generalidade das doutrinas. Agora. Falemos agora dos trabalhos de Pedro Nunes sobre Geometria pura. como se verá quando nos ocuparmos do seu livro de Álgebra. Com o tratado de Regiomontano e com os aperfeiçoamentos de Pedro Nunes. Pedro Nunes ocupou-se dele. acrescentemos que o nosso matemático se ocupou também com sucesso de diversas questões de Trigonometria plana.caso de o problema trigonométrico admitir duas soluções e se pretender escolher a que convém ao problema astronómico. em algumas passagens do tratado De revolutionibus. duplicação do cubo e quadratura do círculo. professor no Colégio de França. regras numéricas. mas não deu. e Copérnico. não podendo resolvê-los por meio da 14 Panegíricos e Conferências. 40. 119) que. no caso de entre os lados de um triângulo esférico que se pretende resolver estar um lado e o ângulo oposto. As doutrinas da Geometria plana e esférica aparecem espalhadas por todos os seus escritos e neles manifesta habilidade e algumas vezes engenho no seu emprego e ao mesmo tempo conhecimento profundo e extenso das obras clássicas dos mestres da velha Grécia e seus principais continuadores. obteve a solução por meio de construção gráfica feita sobre uma esfera que fizemos conhecer quando nos ocupamos do problema astronómico mencionado. foi um dos aspirantes à glória de resolver. procurou determinar. trigonométricas. em um problema astronómico desta natureza. rejeitou. dos astrónomos citados. Regiomontano foi quem primeiro notou (De triangulis. diz Nunes. ora isto. pág. a Trigonometria esférica subiu à maior altura que pôde elevar-se por meios puramente geométricos. Viète começou a aplicar-lhe o cálculo algébrico. pág. O problema astronómico da determinação das latitudes por meio da observação do azímute e altura do Sol. equivale a recorrer a quatro elementos do triângulo para obter o ângulo considerado. fundadas neste erro. os três famosos problemas da Geometria elementar: trissecção do ângulo. Dissemos que foi Regiomontano quem primeiro notou o caso duvidoso da Trigonometria esférica. em cada um deles. publicado em 1546 14. como vimos. Estudou. entre as duas soluções. equivale ao problema trigonométrico da resolução de um triângulo esférico de que são dados dois lados e o ângulo oposto a um deles e se pede o valor do terceiro lado. o principal fundador da Geometria da esfera. 55 . 1533. emquanto que Regiomontano. já considerado neste livro.. Só pôde subir mais quando depois. procurando continuar e aperfeiçoar o que sobre esta Trigonometria escreveu Regiomontano no tratado mencionado. Vejamos outro caso da resolução dos triângulos esféricos considerado por Pedro Nunes. muitos problemas astronómicos que estão neste caso e. para o resolver. manda Regiomontano recorrer à latitude do lugar. Orôncio Fineo. consideram o triângulo esférico como determinado quando se dão três elementos mesmo que dois deles sejam um lado e o ângulo oposto. por meio da régua e do compasso. no século XVII. Mas o único escrito que consagrou especialmente a este ramo das Matemáticas foi um tratado intitulado De erratis Orontii Finei. o problema pode ter duas soluções. em problemas de determinação de latitudes. Notemos a este respeito que os maiores geómetras da antiga Grécia se ocuparam destes problemas e deram deles soluções muito sábias mas que.

Ora. Para o problema da quadratura do círculo. cujos erros foram assinalados por um seu compatriota. no caso dos dois primeiros. era necessário para isso mostrar que não pode haver combinação de rectas e círculos em número qualquer que dê por determinações sucessivas de pontos de intersecção. é de simples crítica. a questão era mais difícil. mas Pedro Nunes mostrou-lhe que foi na resolução delas tão infeliz como fora nas de Geometria. 56 . naquele tempo. reduzindo-os à resolução de equações do terceiro grau. mas nenhum matemático experimentado procurava já fazê-lo. verdadeiro milagre de génio. isto é. consideraram como muito provável a impossibilidade de uma solução desta natureza. sem resultados originais. não estava ainda demonstrada a impossibilidade de resolver os problemas mencionados pelos métodos da Geometria elementar. 15 Para um estudo desenvolvido da história dos três problemas mencionados. com a fundação da Geometria analítica. Os métodos de Geometria pura são muito particulares para se resolverem por eles questões tão complexas. Mas. no caso do último. um ponto final que divida em três partes iguais o arco da circunferência que mede um ângulo dado. Apesar do que acabamos de dizer. nem lado de quadrado cuja área seja igual à de um círculo de raio dado. veja-se uma memória extensa que publicámos a este respeito no volume VII das nossas Obras sobre Matemática. nem um segmento de recta que seja lado de um cubo de volume duplo de outro cubo dado. E que. do grande matemático francês Hermite. os progressos feitos pela Álgebra depois dos trabalhos de Abel e Galois permitiram resolver esta questão no caso dos dois primeiros problemas e levaram assim Wantzel a demonstrar a impossibilidade de os resolver por meio da régua e do compasso. mas a sua leitura é instrutiva e atesta mais uma vez a grande erudição do autor nos assuntos de Geometria pura dos Helenos e a habilidade com que os manejava. por meio sòmente do traçado de rectas e círculos. transformaram-se os problemas mencionados noutros de Análise matemática. Pretendeu ainda Orôncio Fineo na sua obra resolver algumas questões importantes de Astronomia. e assim a demonstração da impossibilidade da sua solução por meios elementares reduziu-se à demonstração da impossibilidade de resolver tais equações por meio de raízes quadradas de expressões do segundo grau. Era ainda necessário mostrar que o número que exprime a razão da circunferência para o diâmetro não pode ser raiz de equação algébrica. e a uma equação transcendente. O livro de Pedro Nunes de que acabamos de falar ràpidamente. inspirando-se em uma invenção. Todavia este professor publicou depois nova edição da sua obra com outras soluções dos mesmos problemas. Assim. Com efeito. Este passo difícil deu-o o grande matemático alemão Lindemann.Geometria elementar. os métodos de Geometria pura eram impotentes para demonstrar esta impossibilidade. No tempo em que viveu Orôncio Fineo. Ora. o ensino das Matemáticas naquela cidade não estava mais levantado do que na Península Ibérica. Pedro Nunes no seu escrito põe em evidência os erros em que caíu o professor parisiense. Pode-se estranhar que em uma alta Escola de Paris ensinasse um professor de tão pouco mérito. Morreu quando terminou esta publicação e por isso não continuou a apresentar novas exposições das suas quimeras. por uma antítese surpreendente. foi necessário subir ao cume de uma montanha escarpada do mundo dos números para se poder resolver uma questão que humildemente aparecera no seu sopé mais de dois mil anos antes. há hoje ainda quem procure a imortalidade pretendendo resolver alguns dos problemas mencionados e se queixe da humanidade por não os atender e não lhes dar a glória a que julgam ter direito 15. aniquilando-lhe o trabalho.

obras que analisou muito judiciosamente e às quais fez algumas vezes justas censuras e outras vezes louvores e interessantes comentários. Entretanto. e são uma mistura de leis do cálculo e de factos aritméticos. publicando-a em língua castelhana ? Não se sabe e não vale a pena apresentar hipóteses. a última obra que publicou. mas com certas anotações que abreviam a exposição das doutrinas.Pedro Nunes na Álgebra Ocupemo-nos agora do Libro de Algebra en Arithmetica y Geometria. Nicolas. Aurel e Antich Rocha. com regras. a respeito do Estado da Aritmética e da Álgebra na Península Ibérica. a Álgebra dos Árabes entrou na Itália por meio de Leonardo de Pisa. conheciam e mencionaram nos seus livros a obra de Frei Lucas. de Gaspar Nícolas e Bento Fernandes. Dissemos na Introdução. ajudam-se reciprocamente». já considerados nesta obra. e na Espanha (segundo a Historia de los Matematicos españoles del seculo XVI de Rey Pastor) os tratados de Ciruelo. Convém recordar aqui. foram inspiradas pela ciência dos Gregos. postos em linguagem ordinária ou técnica. que se pode traduzir livremente nos termos seguintes: «É nobreza da Geometria servir a provar as contas da Aritmética. para compor o seu livro. nas obras mais importantes dos algebristas anteriores ao seu tempo. quando Nunes escreveu o seu livro. para designar a 57 . especialmente na Summa de Arithmetica de Frei Lucas de Burgo. Frei João de Ortega. onde se lê uma passagem escrita em língua castelhana primitiva. Siliceo. As obras de Frei Lucas. dos Indianos e dos Árabes. levando o geómetra a propriedades das figuras. que em Portugal tinham sido publicados os tratados. em vez de fórmulas. na Practica Arithmeticae de Cardan e na Algebra de Tartaglia. a notação ce (censo). Pedro Nunes recebeu os seus conhecimentos desta ciência pela via heleno-árabe directa e por via de Itália. Três destes autores. mas a Aritmética ajuda em compensação a Geometria. porque assim o livro ficou a figurar simultaneamente na história da Matemática portuguesa e na da Matemática espanhola. O livro de Nunes foi publicado em língua castelhana em 1567. Notemos apenas a este respeito que o livro foi publicado na Flandres que naqueles tempos estava em poder dos castelhanos. Que motivo levaria o nosso matemático a oferecer esta jóia científica à Espanha. e que o editor poderia ter imposto a condição de ser impresso em língua espanhola. como dissemos também na Introdução. para designar a sua segunda potência. Assim os dois saberes. Geométrica nos fundamentos. empregando para isso linhas. que os Árabes associaram a Álgebra dos Helenos à Álgebra dos Indianos e formaram assim uma Álgebra numérica na forma. A memória de Nunes ganhou com esta tradução. Assim. Esta união das duas ciências foi notada nos Libros del saber de Afonso X. Cardan e Tartaglia que mencionamos. de Pedro Nunes. que foi introduzida por eles na Espanha e foi ali aplicada à resolução de questões pertencentes ao domínio da Geometria. mas tinha sido composta em português trinta anos antes como o autor diz no prefacio. para designar nas equações a incógnita. tomou ali uma forma regular e ali subiu até à resolução geral das equações gerais do terceiro e do quarto grau. a Aritmética e a Geometria. para ser ali mais fàcilmente acolhido. empregavam aqueles autores a notação co (coisa). Bento Fernandes e Aurel. inspirando-se. demonstradas por meio da Geometria elementar.

empregou. Mas. Por isso mais tarde Viète. Pedro Nunes empregou as notações de Frei Lucas e. para designar o têrmo independente da incógnita. mas este célebre matemático. considerando. subtracção e extracção da raiz. que elas determinam. A Álgebra passou assim por três fases: a fase geométrica. a fase numérica e a fase literal. e como este. na Antiguidade. a língua hoje chamada sincopada.terceira. Aproveitou-o Viète e deu assim à Álgebra a sua forma técnica actual. etc. empregou a letra R. em vez de considerar equações com coeficientes literais. além disso. os números arbitrários por letras. como dissemos. que permite substituir longas regras e demonstrações por fórmulas curtas sucessivas. mais e mais. Antes de Frei Lucas escrever a sua Summa já tinha sido publicada no século XIII a obra De numeris datis. criar no seu Isagoge. a doutrinas extensas e a hipóteses largas. no que respeita à doutrina das equações. mas sòmente em questões em que a Álgebra é simples generalização da Aritmética. a doutrina de Viète é o cálculo algébrico sob forma literal e simbólica com fórmulas curtas e por isso prática. os sinais hoje usados para representar as operações de adição e subtracção. aos métodos primitivos e a doutrinas particulares e deixou na Álgebra aos matemáticos do século seguinte generalizações de que esteve bem perto. até que. Ora. No século XVI começou a falar uma língua rudimentar. e pôde. Empregou também letras para designar números arbitrários. como aquele. Podemos. que deslumbram quem as estuda. tomando a forma literal. correspondentes a um mesmo problema. acrescentar que nenhum 58 .. Para representar a incógnita de uma equação e as suas potências empregou as notações. subiram com Viète. limitou-se a empregá-las como meio de abreviar a linguagem e não pôde por isso abrir a Álgebra moderna. Para designar igualdades não empregou sinal algum. Newton. para designar as raízes. Na primeira fase. seguindo na via aberta por Jordano Nemorario e Rudolff. como são as que se referem a radicais. Descartes. como todos os matemáticos quinhentistas. já mencionadas. como é natural. a métodos gerais fecundos. As equações que ligam os números dados e os desconhecidos. como arte de transformação de operações definidas por combinações de letras. que representam números dados ou procurados. em que se vêem claramente as relações que ligam as incógnitas aos dados da questão em todo o andamento do cálculo. começou a falar a sua língua actual. Pedro Nunes estava preso pela tradição. que para ele é a essência da Álgebra. sem alteração desta índole. o cálculo literal moderno. entre os Gregos. a subtracção pela letra m (abreviação de minus menor) e. como os algebristas italianos. a notação nu (número). Mas as notações dos matemáticos italianos têm o inconveniente de dar relações extensas e não expressivas à simples vista. empregou letras para representar as operações soma. Frei Lucas ou não conheceu ou não notou o meio precioso empregado por Jordano para abreviar a exposição das doutrinas. pelo estudo de questões particulares e foram-se depois desenvolvendo lentamente. depois entre os Árabes e os Indianos na Idade Média e por fim entre os Latinos na Idade Média e na Renascença. porém. em cada uma das quais figuram as letras que representam as quantidades dadas e uma só das letras que representam as quantidades procuradas. de Frei Lucas. podem ser reduzidas por meio destas leis a outras. etc. etc. A segunda fase durou séculos e a sua língua foi como vagido de criança. Assim designou a soma pela letra p abreviação de plus (mais). sòmente equações com coeficientes da incógnita numérica. a sua língua foi a da Geometria. As Matemáticas começaram. letras do alfabeto para designar os números. e no século seguinte. A doutrina de Frei Lucas é virtualmente um cálculo algébrico rudimentar que tem o inconveniente de dar expressões longas. proporções. colocou-se no ponto de vista aritmético. sujeitos a leis que as caracterizam. no século XVII. em que Jordano Nemorario representava. com estas simplificações. a notação cu (cubo). preso à Álgebra heleno-árabe.

original em algumas demonstrações e nos métodos empregados para a resolução de numerosos problemas que encerra. Frei Lucas e Cardan. que. sendo modificadas no sentido há pouco indicado. mas é perfeita na forma. e só se esclareceu completamente no século XIX. E. mas acrescentou que não sabia explicar o motivo disto. Assim abre o seu livro com as regras para a resolução das equações do segundo grau. O nosso matemático ficou preso às demonstrações geométricas e à linguagem sincopada. Em uma Nota. mas não a sabia explicar. rigorosa nos raciocínios. quando se encontrou. por meio de artifícios em que revela grande habilidade. É bem sabido que a eliminação de que depende a solução destes problemas. Pedro Nunes recorre à Geometria. no fim deste volume. Deve todavia notar-se que admitiu no seu livro. sem a introdução de notações especiais para cada incógnita. por ele repelida. as aceitaram e interpretaram. inventadas por ele próprio. como dissemos na Introdução. A propósito destes problemas. uma correspondência em Geometria. e sobre a redução ao segundo grau de algumas equações de grau superior. mas Pedro Nunes dá soluções novas. para demonstrar as suas proposições e o rigor das suas demonstrações faz ver a influência exercida no seu espírito pela leitura dos clássicos da antiga Grécia. as notações usadas pelas notações actuais. conservando as palavras. mas na sua obra atingiu esta linguagem a sua máxima perfeição. Muitos destes problemas tinham já sido considerados por Regiomontano. Muitos dos problemas que considerou referem-se à Geometria dos triângulos e quadriláteros. que a raiz quadrada de uma expressão algébrica tem em Álgebra dois valores com sinais contrários. no século XVII. As doutrinas de Nunes sobre a resolução das equações do primeiro e do segundo grau. mas inexplicável. para se obter uma Álgebra moderna. é notável o modo como assinala o papel da Álgebra na solução de questões geométricas.matemático quinhentista se aproximou tanto como Pedro Nunes da Álgebra moderna. que se apresentava na ciência daqueles tempos de um modo muito obscuro. como facto inegável. mas ainda a outras novas. «Sem fundamento. sobre as transformações das equações com denominadores ou radicais. faremos a comparação destas construções. O nosso matemático sentia que havia alguma coisa na Álgebra que não tinha correspondente nem na Aritmética nem na Geometria. mais simples ou mais rigorosas do que as dos autores mencionados. procurando a simplicidade nunca lhe sacrificou o rigor. diz ele. Estes problemas não se referem a questões concretas de prática ordinária. Entre os problemas de que se ocupa. Diz ele: 59 . há alguns que conduzem a equações do primeiro grau a duas ou três incógnitas. clara e metódica na exposição. que só começou a esclarecer-se mais tarde. segundo regras fixas. que resolve muito hàbilmente. Para esta demonstração recorre não só às construções dadas por Euclides. mal se pode edificar ciência nos discípulos». como os matemáticos helenos. não tomou forma técnica regular antes dos trabalhos de Viète. para tal número. dão um tratado de Álgebra elementar com a forma actual. Não se encontram na Álgebra do nosso matemático invenções fundamentais. sobre as operações relativas a monómios. para as reduzir à forma inteira. Da tutela da ciência da extensão só a ciência pura dos números se libertou mais tarde. Esteve tão perto desta Álgebra que basta substituir no seu livro. Pode-se dizer que na simplicidade e rigor da exposição das doutrinas da Álgebra não foi igualado por geómetra algum do século XVI. no que respeita ao cálculo. e só presa à Geometria no que respeita às demonstrações. expressas nesta linguagem e demonstradas geomètricamente. Este cuidado com o rigor levou-o a não admitir as quantidades negativas como soluções dos problemas. Esta coisa era a noção de número negativo. ficando muito atrás dos Indianos. depois de Descartes fixar a correspondência entre as operações numéricas e geométricas e de se dar no século XIX uma noção aritmética clara de número irracional e uma teoria puramente aritmética destes números. mas sim a questões puramente numéricas ou geométricas.

posto que seja prática. uma prova deste teorema. vêm porém nela as operações seguindo as demonstrações. o que opera por outras regras não entende logo a razão da obra que vai construindo. Esta teoria foi sistematicamente exposta por Euclides nos livros V e VII dos Elementos. recorre à Álgebra. ainda até hoje não feita. Devemos acrescentar que dos problemas 34 e 53 da obra de Nunes resulta outra demonstração simples da referida fórmula de Herão. mas certamente o nosso matemático só teve em vista mostrar como se pode dar clareza e rigor à demonstração geométrica de Frei Lucas. A demonstração primitiva de Herão16 é muito mais simples do que a que de Pedro Nunes e a deste é fundada. O Padre Bosmans. que o problema depende de uma equação do segundo grau que se pode obter e resolver por meio da Álgebra Geométrica euclideana. sendo a mesma Álgebra tirada da Geometria. A teoria da proporcionalidade liga a Aritmética e a Geometria e por isso Pedro Nunes lhe deu largo espaço no seu livro. Encobrindo o artifício não se produz ciência e por este motivo convém mais esta arte da Álgebra. e neste a doutrina da proporcionalidade das grandezas expressas por números racionais. pretendendo resolver o problema em que. dizendo que não o pôde resolver por meios puramente geométricos. 60 . Porém. a este respeito. das soluções dadas por Regiomontano e Pedro Nunes dos problemas de que ambos se ocuparam. que foi sàbiamente analisada por Bosmans no artigo mencionado. II.«Quem opera por Álgebra vai fazendo discursos demonstrativos. A última parte desta passagem precisa de ser explicada. dadas a base e a altura de um triângulo e a razão dos outros lados. prop. na sua Summa de Geometria. matemático belga. Concorre muito para a grande extensão desta última demonstração a abundância de pormenores dispensáveis a quem esta familiarizado com a geometria helénica. Entre as aplicações da Álgebra à Trigonometria dadas por Pedro Nunes no seu livro encontra-se uma demonstração do teorema clássico. convém aqui observar. Lucas de Burgo tinha dado. se procuram os valores destes lados. III 1908). de Fernando de Vasconcelos p. Em uma Nota. demasiadamente longa. para o resolver. lastima em um artigo publicado nos Anais da Academia Politécnica do Porto (vol. o que é coisa de admiração» . mas que nem Regiomontano nem Pedro Nunes o souberam estudar por este meio. a qual. O autor a quem Pedro Nunes se refere é Regiomontano. não ter podido fazê-la. que Nunes censura. que. Vemos algumas vezes não poder um grande matemático resolver uma questão por meios geométricos e resolvê-la por Álgebra. que abrange a doutrina da proporcionalidade das grandezas comensuráveis e das grandezas incomensuráveis. no fim deste volume. algumas vezes mesmo ininteligível. no tratado De triangulis (liv. devido a Herão de Alexandria. por ser muito obscura. como a do célebre geómetra grego. Estranha-se a longa e complexa demonstração geométrica do teorema de Herão depois de Nunes conhecer uma demonstração simples. Ora. representando para isso os dados da questão por números. recorreram à Álgebra numérica de Frei Lucas. 437. considerando naquele a doutrina da proporcionalidade geral das grandezas inventadas por Eudoxo de Cnido. Por isso. em outra proposição segundo a qual a área do triângulo é igual a metade do produto do perímetro pelo raio do círculo inscrito. que determina a área do triângulo em função dos seus lados. 16 Pode ver-se esta demonstração na História das Matemáticas na Antiguidade. faremos a comparação. mas irrepreensível sob o ponto de vista lógico. De maneira que quem sabe por Álgebra sabe cientificamente. e substitui-a por outra puramente geométrica. 12).

que faz intervir o ângulo mencionado na sua teoria da balança. Tem-se estranhado que Euclides separe completamente a doutrina da proporcionalidade geométrica da doutrina da proporcionalidade numérica. O ponto fundamental mais delicado da doutrina geral está nas definições de razão e proporcionalidade de grandezas. ou igual. Está ligada a estas definições e é exposta de um modo muito interessante por Pedro Nunes a questão seguinte: O estudo da proposição 16. do que a este respeito se tinha escrito antes do seu tempo. E acrescentemos ainda que ao ler a interessante notícia que sobre ele deu Cantor no seu Geschichte der Mathematik se sente pesar por não ter tido o grande historiador das Matemáticas conhecimento da referida passagem da Álgebra do matemático português. Explica-se este facto pela sua intenção de conservar na exposição das referidas doutrinas. tomada certo número de vezes. com proveito de economia de pensamento e de clareza para quem as estuda. A este respeito. é um respeito recíproco de uma para a outra. a feição que a tradição lhes impunha. o que dá origem a repetições desnecessárias. chamando proporção. L. sem as ligar na exposição. II. que. Depois faz uma exposição históricocrítica. Euclides dá as definições seguintes. que são do mesmo género. Pedro Nunes não faz esta separação. na obra considerada. Peletier. Depois acrescenta: «Linhas infinitas não tem proporção com linhas finitas». muito interessante. se a conhecesse. quando a grandeza menor. mostra que aquele ângulo não pode formar razão com um ângulo finito e por isso não lhe é aplicável a doutrina de proporcionalidade. 17 18 Elementos de Euclides. diz: «Proporcionalidade é a comparação que há entre duas quantidades da mesma natureza quando são comparadas na quantidade.Pedro Nunes. t. Ver: T. o que na tradução portuguesa dos Elementos se chama razão. Ora. emquanto uma é maior ou menor do que a outra. 61 . fundando-se na segunda definição de razão dada por Euclides. pode vencer a grandeza maior.º As grandezas têm entre si razão. Ora. é interessante comparar as definições de razão de duas grandezas adoptadas por Euclides e Nunes. Coimbra. Acrescentemos que o debate sobre a natureza deste ângulo só terminou quando se teve a noção clara de infinitamente pequeno como limite de uma quantidade essencialmente variável. cuja segunda explica e completa a primeira 17: 1. este modo de ver a doutrina tinha sido adoptado por Pedro Nunes. Cardan e Jordano Nemorario. que comentou com profundeza a obra de Euclides18. 116. The thirteen Books of Euclid's Elements. 2. Analisando estas definições. levou a considerar-se como possível ser o ângulo desta recta com a circunferência diferente de zero. e que a segunda tem em vista separar da doutrina da proporcionalidade as grandezas infinitas e infinitamente pequenas. estuda profundamente a doutrina de Euclides. Chamaremos quantidades da mesma natureza quando são tais que a menor multiplicada pode exceder a maior».º A razão entre duas grandezas. inventadas em épocas diferentes. Heath. pág. sem excluir as grandezas incomensuráveis. Notaremos de passagem que esta segunda definição coincide com a proposição que actualmente se chama postulado de Arquimedes.ª do livro III dos Elementos. Pedro Nunes. 1862. onde Euclides se ocupa da tangente à circunferência. esclarece-a em muitos pontos e acompanha-a de observações históricas e críticas de muito interesse. que a primeira definição exprime que as grandezas comparadas são de natureza tal que uma pode ser múltipla da outra. discutindo as ideas sobre tal assunto de Campano. passagem que certamente teria citado e aproveitado. diz o matemático inglês Morgan.

1907-1908) e a outra nos Anais da Academia Politécnica do Porto. de cujas obras foi um dos grandes comentadores. e notícias rápidas e de duas apreciações desenvolvidas e profundas do Padre Bosmans. Convém notar que a esta definição corresponde em Aritmética a noção de igualdade na teoria dos números irracionais de Dedekind. na elegância e feliz escolha do algoritmo. nota-se em frequentes passagens o seu extenso e profundo conhecimento dos trabalhos matemáticos e astronómicos dos Gregos. Admira-se noutras o seu engenho e habilidade como matemático e a sua sagacidade como crítico. «Percorrendo aquelas obras. Vamos agora resumir. O tratado de Álgebra que acabamos de analisar tem sido objecto de muitas menções. Depois destas definições. Entre os grandes matemáticos que separam Stifel e Cardan de Viète brilha no primeiro lugar. mais simples do que as do grande matemático grego. pretendendo divulgar esta notável descoberta na Península Ibérica. Nada modificaremos. quando este período terminou. O nosso matemático. elogiou-o calorosamente e comparou-o com outros tratados notáveis da mesma ciência publicados no século XVI. principalmente de Ptolomeu. vem na Álgebra do nosso matemático uma série de teoremas de Euclides. já dominava a Álgebra de Viète e a de Frei Lucas passara ao Panteão da história. «Nunes foi um dos algebristas eminentes do século XVI. Depois de Pedro Nunes compor a sua obra e antes de a publicar.Outra definição fundamental na doutrina que estamos considerando. com demonstrações novas. indicou-a no último capítulo da sua Álgebra e comentou-a com profundeza. publicadas. não nos levou a alterar as conclusões a que nos tinha levado o primeiro. São notáveis as palavras com que fechou o segundo artigo: «Viète teve precursores. Nenhum contemporâneo o excedeu em rigor. reproduzindo o que dissemos dele no Elogio Histórico publicado nos nossos Panegíricos e Conferências. porque o novo estudo que fizemos das suas obras. Vê-se em muitas o lógico consumado. É uma glória de Portugal». para preparar o presente livro. Tartáglia não tinha conseguido encontrar exemplo algum nestas condições. Apresenta também no mesmo capítulo algumas equações com raiz racional que não se pode obter directamente pela regra mencionada. fez-se na Itália a descoberta da resolução da equação geral do terceiro grau. Judeus e Árabes. Considerações gerais sobre os trabalhos de Pedro Nunes Temos terminado a nossa análise das obras de Pedro Nunes. Quando apareceu já começava o período de decadência da cultura das Matemáticas cm Portugal. uma na Biblioteca Matemática (Leipzig. Agora admiramos o aritmético. Na apresentação das doutrinas 62 . logo o geómetra. Só Maurolico o igualou na abstracção e generalidade do raciocínio. já aqui citado. depois o astrónomo e o cosmógrafo. Pedro Nunes adopta a definição de Euclides. O ilustre autor destes artigos analisou cuidadosamente aquele tratado. a nossa opinião a respeito do valor do célebre matemático. como conclusão do que expusemos. Nunes foi um deles. é a de proporcionalidade de quatro grandezas ou igualdade de duas razões. O livro excelente que acabamos de considerar foi de pouco proveito para a ciência portuguesa. em outras o pedagogo experimentado. e. Neste capítulo analisa a regra dada por Tartáglia (chamada ordinàriamente regra de Cardan) para a resolução daquela equação e dá exemplos em que por meio desta regra se chega a soluções racionais. que anteriormente tinha estudado.

Contentou-se geralmente com soluções puramente teóricas em problemas técnicos e a ideia inicial das suas invenções nasceu mais vezes da leitura de obras clássicas do que da observação de factos exteriores. prendeu-se com demasiado respeito. regras correspondentes à maior parte das formulas que hoje a enriquecem e não estava ainda vulgarizado o uso das tangentes trigonométricas. etc. Vida de Pedro Nunes O Ensaio histórico de Garção Stockler. temos de atender a que a Trigonometria não dispunha ainda do formalismo algébrico. se continuasse a pensar nos assuntos a que estas descobertas se referem. ensina a investigar. pormenores excessivos que os desfeiam. como vimos. os mais abundantes em informações sobre a sua vida. X. O seu espírito de teórico eminente voava mais à vontade nas doutrinas de ciência pura do que nos assuntos em que a prática representa um papel essencial. mas comentou com profundeza teorias clássicas no seu tempo e aplicou com sagacidade e engenho métodos conhecidos à resolução de questões postas por ele próprio ou por sábios que o precederam. algumas vezes difuso. tanto auxílio dá à inteligência e tanta luz dá aos raciocínios. «Nas doutrinas relativas à Náutica não foi um prático. «O século XVI pode ser chamado na história da Matemática ibérica o século de Pedro Nunes. doutrinas para fins de prática da navegação que os não realizam de um modo satisfatório.é em geral claro. entre os escritos até agora consagrados ao nosso matemático. no enunciado das regras é preciso. sem fazer conhecer os modos como as tinham obtido. «Nas questões que tinham sido estudadas antes de ele as considerar. O último é. 1915). o Elogio histórico publicado por António Ribeiro dos Santos nas Memórias de Literatura da Academia das Ciências de Lisboa (t. «Nos livros que consagrou a assuntos náuticos encontram-se obscuridades e faltas de precisão que os prejudicam. Assim as invenções da linha do rumo e do nónio tiveram origem. pelo menos. Pedro Nunes. «A sua principal força nas doutrinas de Astronomia pura e a sua aplicação à Náutica estava em parte na facilidade com que manejava a Trigonometria esférica. VII. próprio dos tempos em que viveu. Mas estas imperfeições não abalam essencialmente o mérito científico destes livros. João de Castro. não subiu até à criação de métodos gerais de investigação. que são jóias preciosas com defeitos de lapidagem. Para o avaliar temos de ler a sua obra com olhos de matemáticos do seu tempo. são. Ao contrário dos geómetras gregos. não porque tivesse muitos cultores destas ciências. a este respeito. à Geometria e à Cosmologia são mais perfeitas do que aquelas. que tanta economia e precisão dá à linguagem. o 63 . publicada nos Anais da Academia Politécnica do Porto (t. parando onde pararam e deixando a sábios que vieram depois a honra de descobertas de que esteve próximo e que talvez teria feito. à autoridade dos mestres. como o foram Duarte Pacheco e D. «Como matemático teórico. mas foi uma luz que iluminou os práticos. ao mesmo tempo que demonstra. Portugal teve neste século a hegemonia das Matemáticas na nossa Península. Na exposição destas doutrinas era algumas vezes prolixo e confuso. procuravam sòmente demonstrar as regras e teoremas. e sempre interessante. algumas de muita dificuldade. procurando mais explicar as suas doutrinas do que continuá-las. na exposição dos assuntos. mas porque Pedro Nunes por si só vale por muitos. Não devemos censurá-lo por isso. tanto pelo método directo como pelo método dos rebatimentos de Ptolomeu. «Não possuía ainda aquela ciência. As obras consagradas à Álgebra. a atestar o génio de quem as imaginou. no seu estudo das obras de Ptolomeu. Nos variados ramos da referida ciência de que tratou. 1806) e a Notícia sobre Pedro Nunes de Rodolfo Guimarãáis. que. nenhum outro matemático português ou espanhol o igualou». a fim de ser entendida uma dificuldade pelos leitores pouco preparados.

que lhe permitiram entregar-se completamente à ciência. foi nomeado professor de Matemática e Astronomia deste instituto. publicado nos Panegíricos e Conferências: «A vida de Pedro Nunes não foi como a de muitos sábios que se isolam nos seus gabinetes de estudo. cargo que exerceu até 1562. para a aplicar à clínica astrológica. são todos insuficientes. aperfeiçoando regimentos náuticos. e alguns dos lentes muis insignes em Medicina e Filosofia. para se aperfeiçoar nas doutrinas que aprendeu na Universidade de Lisboa. e criou D. João III ter transferido a Universidade para Coimbra e reorganizado os ensinos. depois de D. etc. foi. Zacuto exerceu a astrologia. fez exame de Licenciatura em Medicina na Universidade de Lisboa e nos anos seguintes ensinou nesta Universidade Filosofia. No mesmo ano em que foi nomeado cosmógrafo. o qual estudara as Matemáticas em Paris. Mestre Filipe. mas é para qualificar os seus prognósticos sobre a vida e a sorte dos homens como quimeras e como superstições felizmente quasi extintas. a de um patriota. permita-se-me que transcreva aqui as palavras com que fechei o Elogio histórico do grande matemático. em 1544. como já dissemos. sem pensar nos cuidados materiais da vida. E. O nosso biografado pertencia à raça judaica e era natural de Alcácer-do-Sal. Moral. Nas obras de Pedro Nunes. Como testemunho de gratidão pelos serviços ao país e à Corte. Luiz e D. Lógica e Estatística. em 1514. no qual foi investido em 1547. 64 . depois de ter ido visitar em romaria de estudo a então muito célebre Universidade de Salamanca. Já dissemos que nasceu em 1502 e que em 1529 foi nomeado cosmógrafo do Reino. pelo que respeita a apreciações dos seus trabalhos. ano em que foi jubilado. João III para ele o lugar de Cosmógrafo-mor do Reino. que naquele tempo era também ali mestre de Ciências naturais. ensinando pilotos e reis. o primeiro professor de Astronomia da Universidade de Lisboa e Mestre João. só se fala da Astrologia na introdução ao tratado De Crepusculis. Assim eram médicos Zacuto e José Vizinho. que era então Lente de Astronomia. e escrevendo livros para uso dos mareantes. É provável que tenha ouvido Sancho de Salaya. concederam-lhe os monarcas portugueses pensões. que deu a Portugal todo o seu saber. Por isso se recrutavam geralmente entre eles os astrónomos para dirigir os trabalhos náuticos. um tratado de Aritmética. Henrique e foi também mais tarde encarregado de ensinar D. não sabemos se os outros astrónomos mencionados a exerceram também. a fazer investigações para honra do espírito humano e proveito da humanidade. sim. João III para mestre de seus irmãos D. Mais tarde. Em 1531 foi convidado por D. Sebastião. ao terminar esta biografia. que fez as observações astronómicas na viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. os primeiros organizadores dos Regimentos das navegações portuguesas. Agora. todo o seu talento e toda a sua actividade. preparando cartas marítimas. talvez tenha ouvido também as lições do Padre João Silíceo. Mas.mais rico e também o é em informações bibliográficas preciosas. Não sabemos quais foram os mestres que nesta cidade ouvira. e nesta cidade fora depois professor destas ciências e publicara. Os médicos daqueles tempos estudavam a Astronomia. Dissemos que Pedro Nunes era médico pela Universidade de Lisboa. que eram grandes. São estas as suas próprias palavras.

que lhe sucedeu no cargo de professor na Universidade de Coimbra e a Manuel de Figueiredo. em estilo que encanta pelo singeleza e elegância. de quem já falámos. o segundo formado por Duarte Pacheco. Tabella ad sphaerae hujus mundi faciliorem enucleationem (Coimbra. o terceiro formado por Pedro Nunes. «Teve Portugal no seu tempo grandes figuras em todas as manifestações da actividade humana. como o seu título indica. os heróis do pensamento.«A trajectória da sua vida assemelha-se à curva representativa do poderio português no século em que viveu.. pouco depois da lúgubre derrota de D. Astrónomos e cosmógrafos contemporâneos de Pedro Nunes O maior dos cosmógrafos contemporâneos de Pedro Nunes foi D. que lhe sucedeu no cargo de cosmógrafo do reino. nem das crónicas do Historiador. nos areais de Alcácer-Quibir no tempo do Rei Desejado. 1585). A providência levou-os a todos quando a Pátria já não precisava dos cantos do Poeta. atingira o seu máximo esplendor. Francisco de Almeida. celebrou estes feitos na mais grandiosa das Epopeias. morreu quando a nacionalidade portuguesa caiu. João de Castro. o sábio. que começara a desenvolver-se nos tempos felizes da Dinastia de Aviz. mortalmente ferida. consagrado. ao cômputo dos tempos. asseguraram a obra dos do primeiro. o cronista da Índia. Frei Nicolau Coelho deixou um livro. os heróis das conquistas. quando Lisboa. nem dos cálculos do Cosmógrafo. 1593). teve a sorte feliz de assistir ao apogeu da grandeza lusitana. É um livro semelhante ao de Valentim Fernandes. em II de Agosto de 1579. a narração dos feitos gloriosos realizados pelos portugueses nos mares e nas terras por eles encontradas. André de Avelar escreveu. olhava orgulhosa das colinas em que assenta para as águas do seu rio. um livro consagrado à descrição da esfera celeste. o segundo. o primeiro. etc. D. Luiz de Camões. que Pedro Nunes desapareceu para sempre da cena do Mundo. Escreveu ainda um volume consagrado a doutrinas da esfera celeste sob o título Sphaerae utriusque. sob o título de Cronografia ou Reportório dos tempos (Coimbra. Sebastião. que o substituiu algumas vezes na regência da sua cadeira. Pedro Álvares Cabral. coberto de embarcações de variadas formas e grandeza. Os do segundo grupo. os heróis do mar. «Foi precisamente quando Portugal entrava na agonia. de que já aqui falamos. a descarregar as riquezas vindas do Levante e do Poente. 65 . 1554). os conquistadores. As principais formam três grupos: o primeiro composto por Vasco da Gama. e acabou quando ele decaiu. «Terminou então o período áureo da Matemática portuguesa. Fernão de Magalhães. ensinou aos pilotos meios para navegar longe da terra sem se perderem na amplidão dos oceanos. o historiador. João de Castro. radiante de glória e beleza. «Todos estes grandes homens formam um quadro harmónico. intitulado Cronologia dos tempos (Coimbra. a André de Avelar. o poeta.. traçou com mão de mestre. passando ao domínio de Castela». etc. o génio sublime do terceiro. quando Portugal subiu ao máximo poderio. etc. João de Barros. à cosmografia e à exposição de todas as regras para o cômputo dos tempos e para os usos da náutica. D. Vamos agora consagrar algumas palavras a Frei Nicolau Coelho. começou a declinar quando aquele poderio começava a decair no tempo do Rei Piedoso. «Quase ao mesmo tempo emmudeceu a lira de Camões e parou a pena de João de Barros. Afonso de Albuquerque. até desaparecer como nação.. Dos três mencionados no último grupo. os do terceiro grupo concorreram por modos diversos para um mesmo fim: perpetuar pelos séculos dos séculos a memória do saber e dos grandes feitos dos navegadores e dos guerreiros lusitanos. hoje muito raro. Nasceu quando este poderio crescia dia a dia no tempo do Rei Venturoso.

e o de André de Avelar. que tenhamos de assinalar. para instrução dos pilotos. foi denunciado à Inquisição e condenado a cárcere perpétuo. Avelar só apresentou os dois que as determinam por observações da Estrela nas passagens pelo meridiano. apresentou no seu Reportório os oito modos de fazer o cálculo que se liam nos primitivos Regimentos das navegações portuguesas. Além disso. que as outras são falsas19. com perto de oitenta anos. que o valorizaram. André de Avelar era filho de cristãos novos e estudou em Valladolid e Salamanca. de todos os Reportórios dos tempos que se publicaram em Portugal nos séculos XVI e XVII só merecem figurar na história da Matemática em Portugal o de Valentim Fernandes. fica um livro erudito. vê se que não há nelas pontos de vista originais. e escreveu ainda um reportório dos tempos semelhante ao de André de Avelar mas menos interessante e mais imperfeito do que o deste. emquanto que Manuel de Figueiredo. 19 Para comparar os Reportórios dos tempos de Avelar e Manuel de Figueiredo. como Nunes. para determinar as latitudes por meio da Estrela polar. a fonte dos outros. Nós pensamos que. servimo-nos da edição de 1602 do primeiro e da edição de 1603 do segundo. nem a finura de senso prático que possuíam os primitivos cosmógrafos lusitanos. as doutrinas científicas vêm misturadas em amálgama incongruente com textos do Velho Testamento. que foi o primitivo. a este respeito. ao qual juntou alguns roteiros de grandes viagens dos portugueses. Abstraindo do que nele há de metafísico e astrológico. dizendo. No fim da vida. São obras escritas em gabinetes de estudo por autores que nem tinham o espírito filosófico de Pedro Nunes. em diversas passagens de alguns destes escritos. rico em factos interessantes e instrutivos. por exemplo.Manuel de Figueiredo escreveu um tratado de Hidrografia (Lisboa. que as deformam e desfeiam. Assim. Notemos. Analisando estas obras. 1608). com fantasias de física peripatética e com abundantes quimeras astrológicas. 66 . que o autor atendeu na sua composição às doutrinas expostas por Pedro Nunes nos seus livros. e sàbiamente organizado.

vejamos o estado da herança em cultura matemática que o século XVI legou ao século XVII. Depois. levantando-se enérgico e patriota. a fé começou a tornar-se fanatismo ou hipocrisia. criando uma cadeira de Astronomia na Universidade Portuguesa. que algumas vezes parecia extinto. mas estava apenas adormecido e despertava quando a viam em perigo. que estava então instalada em Lisboa. mas ao mesmo tempo prejudicou gravemente todas as ciências. Foi o que sucedeu em 1640. monarcas quinhentistas portugueses. seguiu-se um período de decadência que se estendeu até à fundação de uma Faculdade de Matemática na Universidade de Coimbra em 1772. no século XVI. Aos períodos de formação e de brilho da história das Matemáticas em Portugal. Uma delas era o amor a Pátria. a esperança e a coragem sustentara-os nas suas derrotas difíceis e perigosas por estes mares. a fé levara os Lusos à exploração dos mistérios dos mares. onde alguns se tornaram ilustres ou foram troncos de descendentes ilustres. Agora. sigamos esta cultura na sua continuação neste século e notemos as influências que tiveram na depreciação daquela herança os erros do. pelo menos latentes. ano em que. e a ciência e a filosofia começaram a emmudecer e a escravizar-se. Esta decadência coincidiu com a decadência geral do país e as suas causas vinham actuando de longe. Concorreu principalmente para a decadência da cultura científica em Portugal o êxodo dos Judeus no tempo de D. Portugal estava sob o domínio de Castela e o povo português dormia e sonhava nas glórias do seu passado. mandando sair do reino os seguidores de Moisés que não quisessem converter-se à fé cristã. como vamos ver.A cultura das Matemáticas em Portugal nos séculos XVII e XVIII Período de decadência e suas causas Ao abrir o século XVII. Apesar de tudo isto. Saíram então de Portugal os mais dignos. a esperança e coragem começaram a transformar-se em misérias e desesperos. os que não abjuraram das crenças de seus avós. expulsou o estrangeiro das terras dos seus Avós. na alma da maioria dos Portugueses daqueles tempos estavam. virtudes dos antepassados que aclamaram D. João III. obrigando assim numerosos membros de uma raça que naqueles tempos as cultivavam com mais sucesso a abandonar os seus lares e a ir estabelecer outros em terras onde caridosamente os acolhessem. João I. respectivamente considerados na Primeira e na Segunda Parte deste livro. enumerando-as. temperado na adversidade. No século XV. entrando no assunto especial deste livro. 67 . principalmente de D. com o abatimento produzido pelas riquezas vindas do Levante e do Poente e com os erros funestos do segundo ramo da Dinastia de Avis. a ciência guiara-os como farol para se não perderem na sua imensa vastidão. Manuel I. Este monarca protegeu as Matemáticas. e espalharam-se por diversos países.

que. João III do Tribunal do Santo Ofício. não era. consideradas pelos inquisidores como heréticas. mas a intolerância da Inquisição contrariava a liberdade de pensamento. glória da Companhia de Jesus. Diz uma lenda que o grande físico. Tomaz de Aquino tinha dado remédio para tais casos. que via os Judeus representar um papel preponderante na vida social e económica daqueles tempos. foram vítimas da intolerância do terrível Tribunal. mas pronunciou-as em nome dele a ciência triunfante. com as suas fogueiras. porém. Homens bons. o mesmo naqueles tempos. com os seus autos de fé. com as suas torturas. procurava saber o que faziam. sugestionados talvez pelo ideal da unidade religiosa na Península Ibérica. prendeu-o. Se o facto que acabamos de narrar se desse em Portugal. glória do sacerdócio. Hoje os domínios da filosofia religiosa e da filosofia científica estão separadas. homens sábios. como arauto. os chamados cristãos novos. com os seus roubos. valeu-lhe um Breve de Clemente X que o isentava da jurisdição dela. de modo que entre elas só podem dar-se conflitos sanáveis. depois de abjurar. que por fim conciliaram-se a Religião e a Ciência. julgou-o e condenouo a abjurar das suas ideas sobre o movimento de rotação da Terra. 68 . Os Pontífices Romanos reprovavam os excessos das Inquisições e em Itália eram ouvidos. defendendo o Sistema astronómico de Copérnico. A primeira tentativa fundamentada para aquela separação fê-la Galileu. foi uma mistura de tragédia dolorosa e de baixa comédia. Entraram neste caminho infernal o poder civil e o poder eclesiástico. considerando a interpretação da Bíblia sagrada como susceptível de progresso indefinido. como outrora na velha Roma muitos cristãos tinham ardido nas fogueiras acesas pelo paganismo por serem fiéis às doutrinas de Jesus. glória de Portugal. em que se entendia que a Ciência deve subordinar-se à Teologia. para saber se cumpriam o seu juramento de fidelidade à lei de Cristo. porque o grande conciliador S. o castigo de Galileu seria talvez mais duro. das suas obras. A Inquisição romana ouviu-o. com as suas denúncias. no século XVIII. como nota. que durante cerca de duzentos anos perturbou em Portugal todas as actividades e com elas o progresso geral do país. O homem precisa de ciência que Ihe ilumine a mente. a grande Enciclopédia francesa. exclamou . Aquela separação começaram a realizá-la filósofos do século XVII e proclamou-a.A esta causa da decadência da filosofia e das ciências em Portugal está ligada outra: a introdução no país por D. longe de Roma. varões beneméritos da Pátria e mesmo varões beneméritos da Religião cristã. não eram escutados e as Inquisições continuavam sempre na sua carreira lúgubre de perseguições e crimes. Esta instituição. e a paz do coração de que precisa o crente. Recordemos aqui. pela extinção nela do judaismo. eram espreitados por aquele Tribunal. de que precisa o filósofo. O grande condenado não poderia pronunciar tais palavras. que passou pelas prisões daquele Tribunal e foi por ele condenado a abjurar do que dissera em algumas passagens. A este respeito ajuntemos. com os seus fanatismos. mas na Ibéria. para não correr o risco de tornar a entrar nos cárceres da mesma.E pur si muove (e contudo move-se). como exemplo. o Padre António Vieira. instituïção. que contrariava a passagem do Velho Testamento que se refere à paragem do Sol à voz de Josué. com as suas prisões. Depois. Os Judeus que se converteram real ou aparentemente ao Cristianismo na ocasião da expulsão dos seus irmãos na raça. e de religião que lhe adoce o coração. e entrou nele também o povo. a deter a sua pena douta e fecunda e a calar a sua voz protentosa. o que diziam e o que pensavam. Muitos morreram queimados nas fogueiras sinistras daquela instituïção por fidelidade à Religião de Moisés.

não olhavam para o futuro. que vamos ver. mas Santo Inácio só lhe pôde mandar dois. a educação da juventude. a Portugal. os cristãos novos tornaram-se medrosos e deixaram de manifestar o seu pensamento científico ou filosófico. depois dele. presos às velhas doutrinas dos Peripatéticos e dos escolásticos medievais.Antes de D. Ainda no tempo de D. dilata-o. de Geometria e de Astronomia e as doutrinas filosóficas e físicas de Aristóteles. Eram doutos e sabiam ensinar e ensinavam bem. melhorando a sua organização. Demais. entregou o ensino universitário e depois todo o ensino nacional à Companhia de Jesus. Manuel começou por proteger eficazmente esta cultura. desde a sua fundação. O sucessor de D. Por isso. Francisco ensinavam pelo exemplo. Pouco tempo depois da fundação desta Ordem. os filhos de Santo Inácio tomaram sobre si o encargo de ensinar principalmente pela escola. que chamou da França. porque esta instituïção representou o papel primordial na depressão do pensamento português no período histórico que estamos a considerar. como uma das suas principais missões. receando talvez que pela escola entrasse no país o vírus herético que lavrava pelo norte da Europa. Ensinava-se naqueles colégios e na Universidade (mencionando sòmente o que convém aqui notar) elementos de Aritmética. o que principalmente 69 . mas desprovidos de originalidade de espírito e fundamentalmente conservadores. transferindo a Universidade portuguesa de Lisboa para Coimbra. Mas em breve prejudicou ele próprio a sua obra. e chamando à regência das cadeiras professores notáveis pelo talento e sabedoria. com o auxílio do grande pedagogista André de Gouveia. porque. João III surgiu outro motivo para a decadência da cultura científica em Portugal. porque a intolerância. receando cair na alçada do monstruoso Tribunal. anos depois. todo o ensino universitário e depois toda a instrução nacional. e está nisto o seu principal papel e o principal motivo da sua força. como dissemos. reunidos em praças de Lisboa a observar a agonia de hebreus condenados por serem fiéis à lei moisaica. o número de membros da Ordem era ja tão grande que puderam fundar em Portugal colégios e o seu prestigio na corte subiu tão depressa que aquele monarca lhes concedeu. o clero. Por isso começaram logo a estabelecer colégios em diversos lugares do velho Mundo e nas novas terras descobertas por portugueses e espanhóis e. com as suas curtas vistas. terra mais apropriada à meditação e ao estudo. Esta Companhia tomou para si. os nobres e o povo. João III pediu ao fundador alguns missionários para irem evangelizar na Índia. e alguns dos seus mestres compuseram bons manuais para o ensino daquelas ciências e outros comentaram sàbiamente estas doutrinas. ainda em vida do mesmo monarca. que fora recentemente fundada. Demoramo-nos a falar do Tribunal do Santo Ofício. João III as Estrelas do céu alumiavam lindamente as caravelas que iam pelos oceanos à descoberta de novas terras e à conquista de almas para o Deus dos cristãos. Os frades menores de S. não ensinavam a progredir. os frades prègadores de S. as fogueiras dos autos de fé acesas pelo fanatismo alumiavam simultaneamente a corte. quase todos escolhidos pelo próprio Gouveia. Domingos ensinavam pelo púlpito. com as suas vistas largas. D. um dos quais foi o grande S. Mas a Inquisição não fez menos dano à Religião católica do que à Ciência. continuando sempre no seu plano. estreita o Reino de Cristo. Francisco Xavier. mas só ensinavam a conhecer as obras do passado. a tolerância. onde dera provas de alto valor. ainda agora procuram espalhá-los por toda a parte. não introduziram no país as descobertas que no campo da ciência e da filosofia se iam fazendo fora dele. Porém.

e continuaram a ensinar as velhas doutrinas astronómicas e físicas dos antigos mestres. Mas aquelas novas ideas filosóficas entraram e. 1799) encontram-se numerosas observações de eclipses do Sol e da Lua feitas em Pequim pelo Padre André Rodrigues e nas Philosophical Transactions of the Royal Society of London (t. em vez de enfraquecer a crença cristã. onde a Astronomia tinha tradições e era muito apreciada. 70 . no fim do século XVI da obra intitulada Commentarii Collegii Conimbricensis Societatis Jesus. Por isso os fulgores da ciência e da filosofia de além dos Pirinéus só começaram a chegar a Portugal quando no século XVIII o Marquês de Pombal reformou amplamente os estudos portugueses. pela publicação de alguns livros a ela consagrados por sábios da Ordem e pela publicação.os preocupava era a defesa do catolicismo contra as heresias e a divulgação da civilização cristã pelas terras de além-mar. como já dissemos. Revelou-se aquele interesse pela criação de uma cadeira para o ensino desta ciência no seu Colégio de Santo Antão. com a introdução das novas ideas filosóficas. nem os ecos dos aplausos aos triunfos dos que vieram substituir as que caíram. de algumas passagens dos livros sagrados. 20 Ver: Francisco Rodrigues. Mas. Jesuítas portugueses astrónomos na China. convencidos certamente de que estavam apenas diante de uma crise das doutrinas escolásticas. levantaram-na e firmaram-na. II. diante de uma vaga destruidora que passaria. O interesse da mesma Companhia pela Física. como se ameaçassem a própria igreja católica. efemérides que se referem aos anos que vão desde 1757 até 1760. 1831) encontram-se observações dos Satélites de Júpiter feitas na mesma cidade pelo Padre André Pereira. concorreram alguns dos seus membros para o progresso das ciências físicas e naturais com trabalhos notáveis nelas elaborados. revelou-se principalmente pela publicação. Ptolomeu e Alpetrágio. Na China. em Lisboa. fizeram alguns jesuítas portugueses observações astronómicas que conquistaram para eles a estima dos próprios imperadores20. Parece que se tinha medo da ciência. Não se houviram cá nem os ruídos da queda das velhas doutrinas. depois que no século XVII a Astronomia e a Física helénicas caíram. da verdade. pelo padre Eusébio da Veiga das primeiras efemérides astronómicas organizadas em Portugal. sob o título de Planetário lusitano. Porto. O seu interesse pela Astronomia era natural. mas também pelas vantagens que poderiam tirar do seu conhecimento os missionários que a Ordem espalhasse por terras de Além-mar. de que anteriormente falámos. espalhada a Ordem por terras cientìficamente inexploradas. mostrou interessar-se pelo ensino da Astronomia e da Física. Em Portugal era naturalmente este o principal papel da sua instituïção e fez ela grandes serviços ao nosso país e também a ela própria. e em Portugal continuava se ainda preso às doutrinas físicas e astronómicas de Aristóteles. Além disso. Já Galiléu tinha feito os seus descobrimentos em Física e já Kepler tinha achado as leis dos movimentos planetários. não sòmente porque esta ciência tinha conquistado foros de nobreza pela elevação do seu objecto e pelas aplicações que tinha na Náutica. separando os domínios da ciência e da religião e modificando a interpretação. viessem as heresias que lavravam além dos Pirinéus perturbar a paz religiosa. XXXVII. Nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (t. 1925. depois de tomar a direcção superior da instrução em Portugal. os Jesuítas portugueses ficaram como estonteados diante das novas ciências que as substituíram. dos deslumbramentos de luz ! Tinha-se talvez receio de que a fé científica enfraquecesse a fé religiosa. Com a expulsão da Península hispânica dos seguidores de Moisés e de Maomé tinha-se estabelecido nela a unidade religiosa e receiava-se talvez que. Convém aqui observar que a Companhia de Jesus.

e esta decadência continuou primeiramente com lentidão e depois ràpidamente. No fim do século XVI estava ainda tão viva a Astrologia que Manuel de Figueiredo e André de Avelar. Por isso foi extinta e o ensino dela entregue aos jesuítas do colégio de Santo Isidro. mas os Jesuítas do passado só se preocupavam geralmente com o fim para que tinha sido instituída a Ordem. Sebastião começaram a manifestar-se os primeiros sinais de decadência da navegação portuguesa. que assim quase se tornaram inúteis. procurando somente evitar que prejudique o que há de essencial nas suas doutrinas. declinou ràpidamente a crença nos vaticínios astrológicos. Outro facto que concorreu para a decadência da cultura matemática em Portugal foi o descrédito em que dia a dia ia caindo a indústria astrológica. Factos semelhantes se passaram na Espanha. um dos amparos da Astronomia. e já começava a despontar nas escolas portuguesas a aurora da nova filosofia científica. com a defesa do vasto império pontifício romano contra as reformas heréticas que o ameaçavam na sua unidade dogmática e com a dilatação daquele império por terras de além-mar. Eram para a Companhia de Jesus os pronúncios de acontecimentos que se aproximavam e mais tarde haviam de arrastar a Escolástica e os seus mestres em Portugal. no reinado de D. os pilotos deixaram de procurar o ensino e os conselhos dos cosmógrafos. Com tal descrédito perdeu muito a Astronomia. O monopólio do ensino português pela Companhia de Jesus acabou quando o Marquês de Pombal reformou os estudos. para a levar a quimeras. que acabaram por se tornar ridículas. Filipe II fundou uma Academia de Matemática em Madrid com o fim de preparar oficiais para o seu exército. um grande golpe. que ràpidamente crescia desde o começo das grandes navegações e pela justa reprovação pela igreja católica dos vaticínios que se referissem à alma. mas os Jesuítas de Coimbra não seguiram no ensino os progressos desta cultura. e com ela as Matemáticas. mas esta escola nada contribuíu para o progresso desta ciência naquele país. Nos colégios actuais da Companhia de Jesus são os assuntos científicos cultivados com sucesso e ensinados com proficiência. pelo progresso do espírito crítico-científico. porque se dera a outras congregações religiosas a faculdade de preparar alunos para a entrada na Universidade e tinha já sido este ensino analisado e vivamente censurado pelo Padre Luiz Verney em um livro notável sobre o Verdadeiro método de ensinar. por lhe faltar o estímulo que deu origem e impulso a esta cultura. João V. lhe consagram longos capítulos. a arte de navegar se foi tornando cada vez mais rotineira. Vejamos um último facto que concorreu para a decadência da cultura matemática em Portugal. com a queda da Física peripatética. mas com isto não se obtiveram frutos melhores. mas antes disso já recebera. em que aquela ciência se deve fundar. E como. isto é. além disso. . mas no fim do século XVII. Com este declinar da navegação decaíu também a cultura matemática em Portugal. que a Astrologia asfixiara. mas lucrou a Medicina. 71 . que no reinado anterior tinha atingido a sua máxima grandeza. que deu origem a vivas discussões.É certo que a igreja católica favoreceu sempre directamente e por meio das suas congregações religiosas a cultura científica e filosófica. No reinado de D. em livros já aqui mencionados. separando a da experimentação e da observação.

e a Península Ibérica fora a alma da Europa no período brilhante das grandes navegações. apareceram. abrasados todos por fanatismo religioso e um deles ainda por fanatismo guerreiro. as energias que restaram ao povo luso continuaram a ser aplicadas por tradição e necessidade à exploração e defesa dos vastos territórios que conservaram na América. Nas colectividades. os dois povos puderam continuar com energia e pertinácia a obra colossal da colonização da América. como no declinar do que é sublime há sempre alguma coisa de grande. foram ainda publicados outros livros sobre estes mesmos assuntos. De facto. impelido por uma força. guerreira e aventureira. aos períodos de agitação seguem-se outros de adormecimento e torpor. estacionou e outros países da Europa passaram-lhe adiante. esmagava-a a descomunidade do seu império. O ensino da arte de navegar estava tanto nas tradições nacionais que nunca se interrompeu completamente.A estes motivos especiais para a decadência da cultura científica portuguesa. Assim como o sólido. limitando a cultura das ciências matemáticas ao que era necessário para estes fins. nem às influências sectaristas que por diversos modos a assaltaram. neste declinar. mas o nível que atingiu neste período foi bem inferior àquele a que subiu no período anterior. estava abatida e desmoralizada pelo excesso de riquezas vindas das suas colónias. Cultura da Matemática no período de decadência (1600-1772) Expostos os motivos da decadência da cultura matemática em Portugal que se seguiu à morte de Pedro Nunes. como no homem isolado. Poderá haver quem afirme que a raça lusa. assim também o impulso dado à cultura da Astronomia e sua aplicação à Náutica antes da morte de Pedro Nunes continuou depois a exercer a sua acção. podemos juntar outro aplicável a diversas formas de actividade nacional. é que se fez sentir mais a decadência. Assim Portugal. muitos portugueses a cultivar com sucesso as Matemáticas. como veremos. asfixiava-a o poder absoluto de monarcas incompetentes. O futuro mostrou que não é assim. quando a força deixa de actuar. Depois no século XVII. Depois que os estudos universitários foram reformados no século XVIII. isto é. continua a mover-se em virtude da velocidade adquirida. Dissemos a este respeito no discurso inaugural do Congresso do Porto das Associações Espanhola e Portuguesa para o Progresso das Ciências: Nos voos da ciência que se realizaram no século XVII. 72 . independentemente das aplicações. e esta velocidade vai depois diminuindo em virtude das resistências que encontra. tracemos agora a história desta cultura durante o período em que esta decadência se manteve. não representaram papel importante nem espanhóis nem portugueses. apesar de tudo isto. mas esta acção foi dia a dia enfraquecendo. Vimos anteriormente que foram consagrados à Astronomia e à Náutica os últimos trabalhos publicados em Portugal no século XVI. cosmógrafos-mores do reino que publicaram a este respeito obras de algum interesse Na cultura das Matemáticas consideradas sob o ponto de vista filosófico. não sentia atracção nem mesmo tinha aptidão para as ciências que exigem pensar profundo. A raça lusa estava cansada por uma actividade desmedida sustentada durante quase dois séculos. Distinguiram-se então no seu ensino Luiz Serrão Pimentel e seu filho Manuel Pimentel. Por isso esta raça perdera a fé no seu futuro e adormecera sobre os louros colhidos. depois de ter preparado a civilização moderna. Mas. Por isso não pôde resistir aos efeitos da depressão moral produzida pelas riquezas que vieram do Oriente e do esmagamento produzido pelo excesso de poderio.

como vimos. foi necessário esperar que nascessem outros. Para uso das Escolas mencionadas. a Geometria de Euclides. E tem-nas de facto. sem originalidade apreciável. mais ou menos bem compostos. uma tradução em português do tratado publicado em França por Bélidor para os mesmos usos. Neste livro são consideradas a Álgebra. Ora a missão do bom mestre é faze-las compreender e admirar. e não serei eu quem os irá acordar. para se começar o estudo das Matemáticas são necessários impulsos de ordem económica. Geometria elementar e Astronomia. mas. Foram porem precursoras de outros institutos mais altos que se fundaram mais tarde para os mesmos fins no século XVIII. ainda no tempo de D. Perdidos. mas não inteiramente. principiam a amá-las quando compreendem o que têm de belo. Começa geralmente este estudo na juventude para se obter uma posição social que dê meios para viver e continua-se depois com interesse quando se pode avaliar o que neles há de engenhoso. se não subiram mais alto. Diz um matemático notável que a Matemática é a Música da razão. por isso. sob o título de Novo curso de Matemática para uso dos oficiais de Engenharia e Artilharia. O conceito é feliz. e apaixonam-se por elas quando sobem assaz alto para abranger o que têm de sublime. mas só os homens de génio as podem encontrar e só os homens doutos convenientemente preparados as podem compreender. porque deve ter belezas subjectivas correspondentes às harmonias que se observam no Cosmos. para se iniciar o estudo das Matemáticas. mas são apenas trabalhos didáticos. pròpriamente dita. No ensino da Geometria das cónicas e da Mecânica aplicam-se métodos analítico-geométricos elementares. é o papel que nele representam os números. sem a intervenção da Geometria analítica. e por isso foi sempre aquele estudo a principal origem dos progressos daquelas ciências. a Geometria das cónicas e a Mecânica com muitas aplicações à Artilharia.Pertencia à Universidade fazê-las progredir. a sua aplicação a Náutica e à Astrologia. No período de pobreza cientifica a que nos estamos referindo. Pelo contrario conservou fechada durante intervalos que somam cerca de noventa anos a cadeira destinada a tais ciências. E no estudo do Mundo físico que as Matemáticas tiveram sempre as suas mais belas aplicações. nem do cálculo dos infinitamente pequenos. Uma conclusão que se pode tirar deste facto é que a ciência dos números deve ser a mais bela das ciências para o homem cultivar. nasceu depois outro com a aplicação delas à arte da guerra. Ora em Portugal estes impulsos davam-nos a Náutica e a Medicina astrológica. são indispensáveis incentivos económicos. João IV. para esta aplicação. Mas estas modestas Academias e Escolas de ensino elementar nada concorreram para o progresso das ciências. Isto desculpa um pouco os Jesuítas de as terem deixado ao abandono na Universidade de Coimbra. Dormem nas estantes das bibliotecas. foi por falta de preparação conveniente. como veremos. publicou Manuel de Sousa em 1764. apareceram em Portugal alguns escritos sobre Aritmética. extintos estes impulsos. porque também eles não procuraram aproveitar mestres que criassem o amor às ciências e chamassem ao estudo dos seus progressos as pessoas que quisessem conhecê-las. repito. uma Academia de Artilharia e uma Academia de Fortificação e foram depois estabelecidas em alguns regimentos Escolas com o mesmo fim. os que se ocupam das ciências começam a estudá-las pelo que têm de útil. Uma das coisas que mais impressiona o homem douto que lança olhar atento sobre o Universo. Diremos de passagem que. não se pode gozar a Música da razão sem a conhecer profundamente. emquanto que a música dos sentidos se pode gozar sem saber tocar. e ela nada fez para isso. Como dissemos noutro lugar. Por isso. Foram com efeito criadas. os dois principais incentivos para o estudo das Matemáticas no nosso país. e que não concorreram para se introduzir as descobertas dos grandes matemáticos europeus. Como 73 . Revelam porém tais trabalhos nos portugueses daqueles tempos atracção para o estudo das Matemáticas e que. depois do ressurgimento da nossa cultura científica pela reforma dos ensinos universitários.

que esta alta instituïção científica o admitiu no número dos seus sócios22. Liam-se. por Sousa Pinto. apesar da importância que tiveram porque o seu interesse. Porto. A Matemática é ao mesmo tempo uma lógica maravilhosa que dirige o pensamento no estudo das harmonias do Mundo físico e uma língua luminosa de símbolos que exprime e fixa aquele pensamento. que foi muito elogiado no tempo em que apareceu21. e por isso estão fora do programa desta obra. por defeito de educação. Não nos deteremos a analisar estes trabalhos. publicados em 1755 nas Memórias da Academia de Berlim. progridem juntas. 1931. fixando-o. Soares de Barros. publicado por Stockler no t. o médico Jacob de Castro Sarmento. mas voltou tarde. fornece-lhe temas que o levam a estudar os domínios da sua ciência e a abrir e explorar domínios novos. Partiu e não voltou João Jacinto de Magalháis. em religião e em ciência. voam juntas. não se procurava penetrar nos mistérios do Mundo físico e por isso também se não penetrou nos segredos do Mundo dos números. o motivo do seu sucesso. está todo nos fenómenos luminosos que Soares de Barros estudou durante as observações. Mas em Portugal. e escreviam-se sobre elas monumentos de erudição artificial e subtil em fólios tão pesados como as doutrinas que encerram. cuja fama voou até à Corte dos Czares da Rússia. 1805). em compensação.já dissemos. um povo que nos séculos anteriores marchara à frente da civilização mundial. a linguagem escolhida da Matemática auxilia o físico. com o louvável 21 22 Veja-se: A vida e a obra de João Jacinto de Magalhães. que se distinguiu nos assuntos da Física experimental de um modo tão notável que as maiores Academias da Europa lhe abriram as suas portas e os maiores sábios do seu tempo procuraram as suas relações. A Astronomia e a Arte náutica devem-lhe um trabalho importante sobre instrumentos de reflexão. ávidos de sabedoria. nos tempos a que nos estamos referindo. e. trabalhando com o notável astrónomo De Lisle. onde foi clínico da imperatriz Catarina. I das suas Obras (Lisboa. Partiu e voltou. à Paris. Acrescentemos que o nosso astrónomo fez os seus estudos na Inglaterra e França e neste último país viveu muitos anos. Tomara medo ao progresso! Este abatimento da instrução em Portugal deu-se em todas as ciências e obrigou alguns espíritos de eleição. a Natureza é um livro numericamente escrito que a Matemática ensinou a ler. tornara-se. ultra-conservador em política. a países onde as ciências floresciam. Partiu e não voltou. Estava-se preso a Aristóteles e considerava-se a Física como assunto fechado pelo grande filósofo. J. Partiu e não voltou o médico Ribeiro Sanches. J. quando precisa para os seus estudos de resolver questões numérica. Os mais distintos partiram e infelizmente ou nunca voltaram ou voltaram tarde. que viveu em Inglaterra. O físico recorre ao matemático. que revelou aptidões tão notáveis para a Astronomia física nas observações que fez da passagem do Mercúrio diante do Sol em 6 de Maio de 1753 e em trabalhos sobre os satélites de Júpiter. Era professor na Universidade de Évora e saíu de Portugal a fugir à Inquisição. le 6 Mai 1753 et leur application pour la perfection de l’astronomie. de Barros e Vasconcelos: Observations et explications de quelques phénomènes vus dans le passage de Mercure audevant du Soleil observé a l'Hotel de Cluny. a fugir de um meio tão pobre em cultura e a ir buscá-la além dos Pirenéus. t. reliam-se e comentavam-se as suas obras e as dos Peripatéticos e Escolásticos que o seguiam. Por isso as ciências físicas e as ciências matemáticas caminham juntas. assim também e mesmo com mais força. assim como a linguagem comum auxilia o raciocínio. Pode consultar-se a este respeito o Elogio de Soares de Barros. foi membro do Colégio dos Cirurgiões de Londres e subiu até sócio da Sociedade Real da mesma cidade. Paris 1753 74 . E. 1. Assim. Ali compôs em português um comentário à teoria de Newton sobre as marés.

Apareceram então. neste país ensinou e voltou depois a Portugal. e por isso foram menos felizes. por falta de preparação. quando o Marquês de Pombal quis obter professores para o ensino das Matemáticas que fundou em Lisboa em 1761. Encontraram já colhidos os frutos mais fáceis de colher. ensinando-se as novas doutrinas e habilitando os alunos a continuá-las. Descartes. com a descoberta maravilhosa da lei da atracção da matéria. da exponencial. etc. começaram a ser encaminhados para cá. na Alemanha. continuou a constituição da Dinâmica. Mas. A nossa pobreza científica era naqueles tempos tão grande que. Os matemáticos portugueses chegaram mais tarde. Lagrange e Laplace. Este incomparável geómetra e físico continuou com sucesso a obra algébrica de Viète e Descartes. século das grandes generalizações e das hipóteses fecundas. que escreveu um livro notável sobre aplicações da Matemática à Engenharia. sobre chagas. abriu. de Euler. José Monteiro da Rocha e José Anastácio da Cunha. que apareceu como uma maravilha na história da filosofia natural. viu se obrigado a ir buscá-los a um país estrangeiro. subiu à constituição da Mecânica dos Mundos. começara nos fins do século XVI e raiou para ela a aurora de um novo período luminoso. sob forma mecânica de Cálculo das fluxões. fez progredir a Óptica e a Acústica. a Geometria analítica e o Cálculo dos infinitamente pequenos. dos Bernoullis e de D'Alembert. os imensos domínios da Análise dos infinitamente pequenos. a teoria geral das curvas algébricas. Neste século. reinventou o Cálculo dos infinitamente pequenos sob forma mais subjectiva. na Alemanha. Os matemáticos do século XVIII tiveram a boa sorte de colher os primeiros frutos da exploração destes domínios riquíssimos. em 1772. Newton e Leibniz. Mas os efeitos perniciosos da escravidão em que se tinha vivido. Então os maravilhosos mananciais que nas Matemáticas se tinham descoberto além dos Pirenéus. de Mac-Laurin. mas deixaram ainda muito que colher aos que vieram depois. etc. Já dissemos o que foi para as ciências o século XVII: século de linces que viam fundo e de águias que voavam alto. Os matemáticos do século XVIII encontraram diante de si vastos domínios do Mundo dos números abertos pelo génio prodigioso de Newton. século em que as ciências brilharam na França. em que se fala da influência da Lua sobre as fúrias dos maníacos. o mesmo autor ajuntou à sua sã doutrina física um prefácio com doutrinas de ciência astrológica. Manuel de Azevedo Fortes. abriu a dou trina das séries com a descoberta dos desenvolvimentos do bimónio. reformou a Universidade de Coimbra e estabeleceu nela o ensino daquelas ciências em Faculdade autónoma. continuaram a fazer-se sentir pelo motivo que vamos expor. Portugal esteve vivendo em escravidão profunda que só começou a dissipar-se quando começou a produzir os seus efeitos a reforma da Universidade de 1772. Emquanto isto se passava na Inglaterra. Então começam a aparecer na cultura da Matemática em Portugal a Álgebra moderna. dois portugueses de muito mérito. 75 . Partiu. para a Matemática portuguesa. agora começam a aparecer na sua literatura citações de Galiléu. os frutos que pendiam nos ramos mais baixos da árvore e era preciso trepar a ela para aumentar a colheita. na Holanda e na Inglaterra com um esplendor que só teve semelhante nos tempos áureos da velha Hélada. Acabou assim a longa noite que. estudou em França e Itália.. que se encarregaram deste ensino juntamente com dois italianos ilustres. outro homem de génio. na Itália. Felizmente não aconteceu o mesmo quando mais tarde. Leibniz. do seno. por uma contradição que surpreende. com o estudo das curvas de terceira ordem. e. como por milagre. e os irmãos João e Jacob Bernoulli continuavam e aplicavam as doutrinas daqueles afamados geómetras. sobre fluxos de sangue. iniciada principalmente por Galiléu. abriu.fim de fazer conhecer em Portugal a doutrina do grande fundador da Mecânica Celeste.

a agricultura e a indústria definhavam. o de João V de política de vaidade. Governaram depois as terras de nossos avós três monarcas estrangeiros. o seu período de pobreza. um louco. depois Pedro II. colégio a que já nos referimos. D. unidos em um anelo comum de independência. subindo mais. Com a revolução de 1640. O erário estava vazio e o povo empobrecido. um decrépito. e o país começou a prosperar. e por fim D. destinadas ao ensino das ciências matemáticas e físicas. legou ao seu sucessor. Com o primeiro nada ganhou a ciência. depois Conde de Oeiras e mais tarde Marquês de Pombal. D. preso a um sonhar constante na grandeza da igreja nacional. Assim. tão ligado à reforma pombalina da Universidade de Coimbra. que legou ao seu sucessor D. ao terminar esta notícia sobre o terceiro período da história da Matemática em Portugal. Os reinados de Afonso VI e Pedro II foram de política baixa. 76 . uma nação arruïnada. O faustuoso monarca pouco deixara de útil e muito deixara de estéril.. Na sua formidável obra de organização do país. Depois da tragédia de Alcácer-Quibir. três reis castelhanos. com o segundo ganhou pouco. indecisões e desditas da nossa Pátria. João IV.. ajuntemos ainda que este período coincidiu com um período de lutas. que definhava. Sebastião José de Carvalho. Depois para se valorizarem os estudos. Pelo que respeita a instrução. Henrique. o que foi politicamente Portugal no período que estamos a considerar. O comércio. um fanático. subiu ao trono português D. organizado e disciplinado. monarca faustuoso e pródigo. Quem fez este milagre? O Grande Ministro. José uma nação arruinada. João V. levantando-a assim a alturas a que nunca antes subira. com as suas loucas despesas. cujas causas tinham começado a sua acção nos tempos de D. lançou o seu olhar para a Universidade de Coimbra. e então o rei e o povo. reformou as faculdades existentes e criou duas novas. a navegação. o período do seu resurgimento. a segurança era pequena em todo o país e a indisciplina lavrava perigosamente por todo ele. só raros momentos de atenção prestara à cultura científica do seu reino. Portugal estava próspero. Eis. como já dissemos. Mas isto era pouco. uma sombra. Mas poucos anos depois de D.Agora. teve o culto Ministro cuidado especial com a instrução. reduzida a uma instituição quase inútil. começou por fundar em Lisboa um colégio destinado a ensinar as ciências aos nobres que se destinassem ao serviço militar. convencido de que ela é a base primordial de todo o sólido progresso social. . em termos breves. que convém deternos algum tempo a falar desta reforma. Manuel. João IV. João V. ocupou de novo o trono de Afonso Henriques um monarca português. O campo de visão do Ministro era largo e. bateram-se gloriosamente pela emancipação da Pátria e venceram. se manteve cerca de dois séculos. ocupou bem o trono de Afonso Henriques. Inquisidor. De oito monarcas que acabamos de mencionar só um. que a explicam. José ter subido ao poder. um imoral. O resurgimento da cultura das Matemáticas em Portugal pela reforma da Universidade de Coimbra Entremos no quarto período da história da cultura da Matemática em Portugal. José I. Só beneficiava uma classe. Lavrava a desorganização em todas as manifestações da actividade nacional. começaram os empregos públicos a ser dados a quem tinha preparação científica para bem os desempenhar. D. Seguiu-se no trono Afonso VI. D. Isto dá-nos o motivo por que a decadência das ciências.

Este volume é o manuscrito do Estatuto com que o Marquês de Pombal dotou aquela Universidade e que ele próprio levou a Coimbra quando ali foi inaugurar. 92-93. onde todas as disposições são nitidamente explicadas e justificadas. 98. É uma Dissertação notável sobre o ensino das ciências. cada doutrina da respectiva história. e ainda que proponham aos mais distintos questões próprias para desenvolver a faculdade de inventar em alguns que a natureza tenha dotado de imaginação mais viva. obrigando a apresentar aos candidatos a estas profissões diploma de formatura. Aconselha-se aos professores e discípulos que associem ao ensino e ao estudo das ciências o da sua história. sobre os seus conceitos mais subtis. da Filosofia e da Ciência portuguesa. sobre a importância que têm para a educação do espírito. escrita em linguagem vernácula e elegante. Nas universidades portuguesas não existe cadeira alguma com este destino. concorda de um modo tão notável com as ideas modernas. e por isso vamos falar deste documento célebre na História da Pedagogia. a mencionada reforma. primorosa no fundo e na forma. pág. convém observar que nele está a indicação dos Seminários matemáticos modernos. em sessão soleníssima realizada na Sala dos Actos Grandes. escolas de investigação matemática. 77 . O Estatuto com que o Marquês de Pombal dotou a Universidade de Coimbra é um monumento que tem perto de dois séculos e todavia parece moderno. tivemos sempre o cuidado de acompanhar. considerando principalmente os artigos que se referem às ciências matemáticas e físicas. a fim de se vulgarizarem as suas disposições. como o são ordinàriamente os documentos desta natureza. Criam-se pela primeira vez prémios para estimular os alunos na luta contra as dificuldades das ciências e instituem-se honras. O que a este respeito diz. Recomenda o mesmo Estatuto que à educação teórica se junte a educação pratica. e onde se dão conselhos preciosos aos alunos e preceitos salutares aos mestres. pág. que tantos serviços prestam nas universidades onde foram até hoje criados. mas nos. ricamente encadernado e metido em luxuosa saca de prata. etc. Encontram-se nelas notas profundas sobre a estrutura destas ciências sobre a sua divisão em ramos harmònicamente ligados. quanto possível. que esclareçam as doutrinas ensinadas e os preparem para as aplicações que no futuro tenham de fazer delas. obrigando-o a olhar para o alto. 23 24 Panegíricos e Conferências. de passagem. nos cursos que professámos durante mais de meio século nas Universidades de Coimbra e Porto. Panegíricos e Conferências. Depois foi o conteúdo daquele volume impresso. para os doutores que se tornem notáveis por publicações de trabalhos de valor. Para atrair os alunos reservam-se-lhes profissões em que apliquem o que aprenderam. é um monumento de sã pedagogia e elevada filosofia.Para se avaliar esta reforma. sobre os princípios gerais que lhes servem de fundamento. determinando que os mestres obriguem os alunos a numerosos exercícios. que parece escrito por um sábio dos nossos dias. São muito notáveis as passagens do mesmo Estatuto consagradas a Filosofia das Matemáticas 24. Quem visita o Arquivo da Universidade de Coimbra vê nele um grosso volume escrito com excelente caligrafia. e notámos quanto isto interessava aos alunos. Na parte deste documento que se refere às Faculdades de Matemática e Filosofia há disposições muito notáveis tendentes a atrair os alunos para o estudo das ciências que elas ministram e para regular este estudo. para os génios. sobre o seu papel no estudo do Mundo físico. o documento melhor que se possue é o Estatuto então elaborado. Por este meio dá-se vida às teorias e eleva-se o espírito. que hoje há em algumas universidades europeias cadeiras especiais para o ensino da história das ciências. Não é23 este Estatuto um simples código de preceitos a seguir nas diversas faculdades universitárias. Recordarei aqui. A respeito desta recomendação do Estatuto pombalino. com remunerações correspondentes.

Bossut (1775). Assim. Antes da criação da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra. A Faculdade de Matemática fundada pelo Marquês de Pombal tinha quatro cadeiras respectivamente consagradas à Álgebra e Cálculo infinitesimal. Em Geometria analítica e Cálculo dos infinitamente pequenos nada se tinha publicado em língua portuguesa. subtil. pretendeu sistematizar as suas doutrinas. foi um precursor a este respeito de Monteiro da Rocha. não bastavam as prelecções dos mestres. para ter livros de texto. unindo em todo perfeito a Filosofia de Aristóteles e a religião cristã. Para uso dos alunos que quisessem aperfeiçoar os seus conhecimentos em Análise matemática. Princípios Matemáticos. Ribeiro Sanches. as obras de Álgebra publicadas no nosso país estavam todas escritas no estilo anterior à reforma de Viète. 78 . que haviam já sido traduzidos em português por Angelo Brunelli. Os teólogos modernos separam a filosofia do natural da filosofia do sobrenatural. porque os livros que tinham sido publicados cm Portugal sobre esta ciência. que vivia nesse tempo em Franca. e por isso continuaram-se a usar como compêndios durante muitos anos livros franceses. sob o título de Tratado de Mecânica. 1793. e para uso dos estudantes de Mecânica traduziu o mesmo professor. escritos para uso da Náutica. Para o ensino ser eficaz. com o seu Verdadeiro método de ensinar. Adiante a analisaremos cuidadosamente. A primeira obra consagrada à Geometria analítica e Cálculo infinitesimal de autor português foi a de Anastácio da Cunha e tem por título. 1785 e 1812) e o Tratado de Hidrodinâmica de. só conseguiu diminuir o sentimento desta religião e levar a Teologia a um formalismo seco. traduziu Nogueira da Gama em 1798 a bela obra de Lagrange: Théorie des fonctions analytiques e a interessante obra de Carnot: Méthaphysique du Calul infinitésimal. à Geometria. Os alunos iam completar os seus estudos das ciências físicas e naturais na Faculdade de Filosofia também então criada. da mente com a fé. à Mecânica e à Astronomia. O Estatuto pombalino expulsou-a das cadeiras que lhe não pertenciam. a Escolástica dominava em todas as cadeiras. mas inspirou os autores dos outros capítulos. mas. depois de se organizar.O seu principal autor foi Monteiro da Rocha. verter para português ou latim alguns livros usados em França. a obra consagrada a esta ciência pelo padre francês Marie (tradução de que foram publicadas edições em 1775. Desde a entrega dos ensinos universitários à Companhia de Jesus. sendo a última em 1826. o domínio da ciência do domínio da religião. dogmático e estéril. evitando assim nas almas dos crentes conflitos do cérebro com o coração. Mas este livro era pouco próprio para o ensino elementar. era ainda necessário pôr nas mãos dos discípulos livros apropriados a completar o que ouviram. Na cadeira de Astronomia adoptou se o tratado de Lalande. não satisfaziam ao programa da cadeira. foi um útil conselheiro. que não só compôs os capítulos que se referem às Faculdades de Matemática e Filosofia. Verney. porque a língua francesa estava então pouco divulgada em Portugal. A Igreja Católica. para a cadeira de Álgebra e Cálculo infinitesimal traduziu Monteiro da Rocha do francês para português os Élements d’Analyse mathématique de Bezout (tradução de que foram publicadas edições em 1774. com isto. e por isso se observa nas suas disposições perfeita unidade. Consideremos agora o Estatuto pombalino sob o ponto de vista filosófico. o tratado de Aritmética de Bezout foi traduzido por Monteiro da Rocha em português em 1773 e esta tradução foi reimpressa diversas vezes. Para o ensino da Geometria adoptaram-se os Elementos de Euclides. Foi por isso necessário. 1801 e 1818).

as Matemáticas puras e aplicadas e a arte de navegar. Ora. Foram elas a Academia Real de Marinha e a Academia Real dos Guarda marinhas. A subordinação da Ciência à Teologia. ficou a sua filosofia racional e a análise profunda do pensamento humano. antes da sua decadência política. à filosofia das causas dos fenómenos e dedução lógica dos seus efeitos. José. das suas medidas e das suas relações. quando corria o século XVIII. A Náutica estava tanto nas tradições nacionais que as duas primeiras escolas técnicas criadas tinham o estudo da navegação nos seus programas. que foi depois completada com a criação de escolas técnicas e com a fundação da Academia das Ciências de Lisboa. os primeiros passos para a separação dos domínios da ciência e da religião e para a futura libertação política do país. A sorte da Ciência e da Filosofia em Portugal depois da morte de D. A primeira destas escolas preparava para a carreira naval e ainda para diversas carreiras militares e civis e ensinavam-se nela. passaram a iluminar com a sua filosofia. Por isso separaramse-lhes os estudos por diferentes Faculdades. que com o Marquês colaborara e com ele aprendera. Coimbra. e as obras dos mais notáveis escolásticos. de que acabo de me ocupar. quando nos centros cultos do estrangeiro já brilhavam com esplendor o espiritualismo de Descartes e seus discípulos e o positivismo de Galileu e Francisco Bacon. a sua moral e a sua sociologia cristãs. passara depois a florescer noutros países. suprimida nelas a parte científica que caira com o desabar da Física de Aristóteles e dos Sistemas astronómicos de velha Hélada. em curso de três anos. livre de prisões teológicas. apresentara aos matemáticos novos problemas. que dominara toda a filosofia durante cerca de vinte séculos e que fora um como profeta em três religiões diversas. O comentário dos conimbricenses à obra de Aristóteles. deram-se em Portugal. ao qual fora confiada a composição da parte do Estatuto universitário consagrada a esta Faculdade. depois dos estudos e descobertas feitas depois da Renascença. as ciências náuticas e militares de que carecem os oficiais da armada e a parte indispensável das ciências auxiliares para o estudo daquelas. em 1777. onde. em pleno regime absoluto. com os seus progressos. mas a sua obra era tão forte que subsistiu e foi mesmo em alguns pontos continuada. quando além dos Pirenéus se tinha já substituído na Física. era agora inadmissível. com a reforma dos estudos da Universidade portuguesa em 1772. obra já aqui mais de uma vez mencionada. que tivera em Portugal uma situação privilegiada. começou a filosofia moderna a iluminar. Francisco de Lemos. mais ou menos arbitràriamente postas. quando além dos Pirenéus se vinham substituindo nesta ciência as hipóteses estéreis. Está neste caso a sua reforma dos estudos. autoridade nestes assuntos. também em curso de três anos. especialmente as da Águia de Aquino. o Marquês de Pombal foi deposto do poder por D. Foi seu fundador Martinho de Melo. a Faculdade de Teologia.Os escolásticos de Coimbra estavam ainda na fase medieval. Com a reforma da Universidade de Coimbra. as Faculdades destinadas ao ensino das ciências em que a observação e as experiências representam um papel essencial. José I Morto D. sintetizando-a em hipóteses fecundas. 25 Sessão inaugural do Instituto de Altos Estudos. então reorganizada pelo douto Bispo de Coimbra D. ensinavam-se. 1932. Joaquim de Carvalho. que em Portugal se manteve até meados do século XVIII. Maria I. mais elementar e mais especial. A arte naval. Das doutrinas do genial Enciclopedista de Stagira. como monumento de erudição e subtileza. a ciência do modo como os fenómenos se passam. classificado pelo Dr. 79 . que não era estranhável na Idade Média. quando a Ciência estava cheia de hipóteses. Na outra. com influência no pensamento de Descartes25 foi a última grande manifestação da Escolástica medieval.

À sua Faculdade de Matemática foi roubado. Duque de Lafões. encorajando assim e favorecendo as investigações científicas. as fronteiras de Portugal eram como uma barreira fiscal proteccionista fechada ao progresso europeu. de que adiante falaremos. artilharia e desenho. nunca mais lhe foi restituído. Mac-Laurin. ideas que tinham sido combatidas com rancor além dos Pirenéus por católicos intolerantes e cuja entrada no nosso país se pretendia evitar. Subindo agora mais alto. Publicaram-se ainda neste século XVIII dois volumes da colecção de Memórias da Academia das Ciências de Lisboa onde se encontram escritos notáveis sobre diversos assuntos de Matemáticas puras e aplicadas e. Ia-se nas Matemáticas atrás dos outros países. organizou-se o Observatório Astronómico de modo a servir simultaneamente para o ensino dos alunos e para indagações científicas. 1795). como dissemos. que criando uma ciência portuguesa. Euler. criou-se ainda em Lisboa em 1790 uma Academia real de fortificação. Pouco tempo depois. Foi um belo acto de tolerância o da Academia das Ciências de Lisboa admitindo nesses tempos no seu seio como 80 . onde o autor se ocupa de numerosas questões relativas à teoria dos números primos e de Análise indeterminada do primeiro e do segundo grau. e no estudo das Matemáticas puras subiu-se até ao ponto de se poderem estudar os assuntos neste último curso pelo famoso tratado de Mecânica Celeste de Laplace. para que não viesse perturbar o sono do país. fundaram-se as Efemérides astronómicas. Lagrange. iniquamente condenado. Em um facto porém se sentiu na Universidade a falta do Marquês de Pombal. Na Universidade criou-se um curso de Hidrodinâmica. intitulado Opúsculos de Aritmética Universal (Lisboa. directamente calculadas. por influência de seu tio o Duque de Lafões. Antes do governo do Marquês de Pombal. porque se chegara mais tarde. A fundação desta Academia foi uma consequência da reforma pombalina dos estudos universitários. sob os auspícios desta Academia publicou-se um livro de João Ferreira Cangalhas.. Penetraram assim em Portugal as ideas filosóficas dos redactores da célebre Enciclopédia francesa do século XVIII. D'Alembert. Laplace etc. Maria I foi fundada em 1779 a Academia das Ciências de Lisboa. pela Inquisição. onde eram também estudadas as doutrinas matemáticas da balística a que leva à arte do artilheiro. tornou necessária a existência de uma alta corporação que julgasse do mérito dos trabalhos que produzisse e publicasse os que o tivessem. Os efeitos benéficos da reforma da Universidade e da criação desta Academia fizeram-se sentir depressa. e tão fechada que era quase impossível o contrabando filosófico. depois quis se novamente cerrá-la. um de Astronomia esférica e outro de Astronomia newtoniana. sem o intermédio das que eram publicadas por outros países. mas já não foi possível evitar o contrabando. desdobrou-se a cadeira de Astronomia em dois cursos. continuação da Mecânica dos sólidos. Também no reinado de D. Para instruir os oficiais dos exércitos de terra. porque os emigrados políticos o faziam e o fez o próprio tio da Raínha. mas não se ia tão atrasado como era de esperar em quem chegara tão tarde. continuando o que dissemos a este respeito quando falámos do Estatuto pombalino. livro que ainda hoje pode ser lido com proveito. Anastácio da Cunha que. a fundação da Academia das Ciências de Lisboa. que ilustrara o seu espírito em meios de alta cultura do estrangeiro e lhe inspirou. consagremos algumas palavras à história do pensamento em Portugal no século a que nos estamos referindo. e sobre elas se escreviam memórias.que eram estudados principalmente na primeira das escolas mencionadas. Ainda no mesmo século publicou Anastácio da Cunha a obra Princípios matemáticos. já em Portugal se ensinavam doutrinas de Newton.

sócio correspondente o maior dos enciclopedistas. foi o vulcão que irrompeu quando as leis naturais o determinaram. mas que reviveu com o advento ao trono de D. que tiveram de emigrar. nos fins e na forma. a segunda foi algumas vezes feroz e deu os sucessos de 1793 em França. sim. que então estava subordinado à sua autoridade. a honra de ter fixado o. os privilégios desapareceram. porque tinha a protegê-lo a verdadeira filosofia. Deu origem a esta última a miséria em que o povo vivia no meio do conforto e mesmo luxo das classes privilegiadas. Tem-se atribuído à Filosofia responsabilidade nos desastres produzidos pelas revoluções que nos séculos XVIII e XIX se deram em diversos países. da Revolução francesa. o acto de tolerância do Pontífice Bento XIV. nova encarnação do espírito fanático de D. o grande D'Alembert. por meio do feroz intendente da polícia Pina Manique e pela Inquisição. e Anastácio da Cunha. que coincidiram. O povo venceu. botânicos eminentes. À Filosofia cabe. Recordemos o Padre Correia da Serra e o Doutor Avelar Brotero.. que este mal conhecia. permitiu que se lhe abrissem as portas do Instituto de Bolonha. fixaramse os direitos e deveres dos monarcas. entremos agora no objecto especial deste livro. A Filosofia representa a verdade. João III. que o Marquês de Pombal enfraquecera. Com as novas ideas filosóficas transpuseram também as fronteiras portuguesas as ideas políticas. Em Portugal as ideas de libertação do pensamento e de libertação política conquistaram adeptos entre as classes doutas. uma filosófica e outra política. para a implantação do regime liberal. independentemente de quem a proclama e do modo como a proclamam. Esta revolução foi uma mistura de duas revoluções. que se tinha imortalizado com a resolução de altos e difíceis problemas de Mecânica Celeste e com a redacção do maravilhoso discurso filosófico-científico que abre a referida Enciclopédia. como em todos os outros países europeus. representante da razão. falando dos matemáticos que floresceram no referido período. Então as revoluções estalaram. digamos de passagem. diferentes na origem. À Filosofia cabe a honra de combater a faculdade absurda de os monarcas poderem dispor livremente da vida e dos bens dos seus súbditos. Postas estas ideas gerais sobre a história do pensamento científico e filosófico durante o período que vai desde a reforma pombalina dos estudos até ao fim do século XVIII. À Filosofia cabe a honra de combater as desigualdades de uma sociedade cheia de privilégios para as classes altas e de durezas para as classes populares. Maria 1. que se não sacrificariam se os privilegiados da sorte tivessem escutado os rugidos do vulcão.. apesar de serem combatidas pelo Governo. A primeira tinha em vista emancipar o pensamento filosófico do pensamento religioso e só foi violenta quando a Inquisição interveio. que o Tribunal do Santo Oficio arrastou da sua cadeira de professor na Universidade à prisão de um convento. e de ter lembrado aos que o dirigem deveres esquecidos. e falou ao povo que trabalhava e sofria e falou às classes privilegiadas e estas classes não a atenderam. que mais tarde deram aqui origem. Não há nada mais injusto. Homens ilustres nas ciências ou nas letras foram perseguidos ou tiveram de fugir do país para evitar perseguições. Alguns outros que dividiram os seus trabalhos por este século XVIII e pelo século XIX serão considerados na secção seguinte desta obra para não fragmentarmos o que temos de dizer sobre eles. a graves perturbações sociais. direitos do povo. que. deslumbrado pela glória do celebre matemático e filósofo francês. os governos absolutos desabaram. 81 . Para isto foi necessário sacrificar muitas vidas. E mais belo foi ainda.

Outra Memória importante de Monteiro da Rocha que julgamos dever considerar aqui. Duarte Leite em um artigo que a respeito do trabalho do astrónomo português publicou nos Anais científicos da Academia Politécnica do Porto (t. X). É bem sabido que o primeiro geómetra que se ocupou deste problema foi Newton. 82 . que são obras primas de invenção. A primeira memória que escreveu é consagrada à determinação das órbitas parabólicas dos cometas. e tivera ele próprio de procurar os caminhos. antes de aparecer a de Olbers. mas conduzem a resultados insuficientemente aproximados. ano em que saíu o primeiro volume da colecção de Memórias desta Academia. Lacaille. outros. não difere essencialmente daquele que encerra a Memória de Monteiro da Rocha. estavam no último caso. mas cuja publicação tinha sido retardada até 1799. este processo. Outros métodos mais exactos foram depois dados por Euler. além disso. como sendo os primeiros inventores de um método prático para a determinação das órbitas parabólicas dos cometas.Monteiro da Rocha Monteiro da Rocha foi objecto de uma conferência que pronunciámos há anos na Academia das Ciências de Lisboa. pouco tempo depois da sua fundação. Chegou por isso tarde às alturas deste Mundo. Esta coincidência dos métodos empregados pelos dois astrónomos foi notada pelo Prof. sendo aliás modelos de elegância analítica e de interesse teórico. como vamos ver. Monteiro da Rocha está no primeiro do grupo de astrónomos a que acabamos nos referir: foi um astrónomo prático. Depois da descoberta da lei da atracção universal. o qual deu dois métodos geométricos para o resolver. Séjour e Lalande. Monteiro da Rocha começou tarde a escrever trabalhos de investigação matemática. Lambert e Lagrange em memórias extremamente notáveis. O primeiro processo prático que se deu para resolver o dito problema foi publicado em 1787 por Olbers. mas não tão tarde que o não pudesse enriquecer com trabalhos preciosos. Olbers e Monteiro da Rocha Monteiro da Rocha e Olbers devem pois figurar juntos na história da Astronomia. entrara no Mundo dos números sem guia. munido apenas de pequenos roteiros. que se tornou clássico. é consagrada principalmente à predição dos eclipses do Sol. Ajuntemos que o astrónomo português fez aplicação do seu método ao Cometa de Halley. para esta predição métodos gráficos fáceis que davam os tempos dos contactos do Sol e da Lua em um lugar dado da terra com um erro inferior a um minuto e métodos analíticos que davam estes tempos com um erro inferior a um segundo. colocando-se no ponto de vista mecânico. alguns astrónomos. com algumas modificações de espaço a espaço. continuaram a estudar os movimentos dos astros por meio de observações regularmente continuadas. Memória que tinha sido apresentada à Academia das Ciências de Lisboa em 1782. são astronòmicamente imperfeitos por motivo da dificuldade de suas aplicações. mas estes métodos. Academia de que ele foi um dos primitivos membros. Ora. ocuparam se da dedução por meio da Análise matemática das consequências da aplicação da lei de gravitação aos diversos Planetas. publicada depois nos nossos Panegíricos e Conferências. Satélites e Cometas. Tinha 48 anos de idade quando apresentou o primeiro. e foi apresentada à Academia das Ciências de Lisboa em 1782. Gastara muito tempo primeiramente em estudos teológicos e depois na organização dos estudos universitários e na tradução de livros para uso dos alunos da nova Faculdade de Matemática. colocando-se no ponto de vista geométrico. onde se mostra também que os dois métodos estão ligados ao de Lambert pelo belo teorema descoberto por Euler em 17447 que liga o tempo empregado pelo astro a descrever um arco de parábola ao comprimento da sua corda e aos vectores dos pontos extremos. e. Vamos reproduzir aqui a parte essencial desta conferência. os mais usados nesse tempo. Empregavam-se no século XVIII. Os métodos de Lahire. teorema empregado por Lambert.

são notáveis não só pelo valor das memórias que nele publicou o nosso astrónomo. Mas o método dado pelo astrónomo português é mais simples do que o do astrónomo francês. e notas do tradutor. Do mesmo modo. a melhor é uma que o Padre Pesenas publicou nas «Memórias da Academia das Ciências de Paris». que as fórmulas dadas por Monteiro da Rocha são as mais simples e as mais elegantes de todas as que conhecia. Em todos o sólido que substitui o tonel tem de comum com ele as secções extremas e a secção média. aplicando o seu método aos eclipses considerados pelo astrónomo francês. Acrescentaremos porém ainda que Monteiro da Rocha foi o fundador destas Efemérides que têm continuado a ser publicadas até agora e que os volumes que apareceram no seu tempo. Esta substituição tem sido feita de vários modos que Monteiro da Rocha enumera e examina. O tonel pode ser considerado como um sólido de revolução indifinível geomètricamente e para medir a sua capacidade. para facilitar a sua aplicação. sem o despejar. não basta reconhecê-lo teòricamente. em um opúsculo sobre o cálculo destas Efemérides. Dr. entre as soluções que se deram dele antes de Monteiro da Rocha o considerar. obteve os mesmos resultados por caminhos muito mais curtos. cheio ou não. que tem de comum com o tonel não só as secções mencionadas. Nos cinco primeiros volumes daquelas Efemérides encontram-se alguns outros trabalhos de Monteiro da Rocha de muito interesse para a prática desta ciência. Este problema só pode ser resolvido por aproximação e.O método de Séjour. foi publicado pelo astrónomo em Suplementos aos volumes das Efemérides do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra. é necessário ainda tê-lo aplicado. emquanto que Séjour refere um destes astros ao Equador e o outro à Eclíptica. Os trabalhos puramente matemáticos de Monteiro da Rocha são menos importantes do que os seus trabalhos astronómicos. como também por conterem algumas Tábuas de muita utilidade. foi o ponto de partida das investigações de Monteiro da Rocha. Não os mencionaremos aqui para não fatigar. que analisou o trabalho de Monteiro da Rocha e o comparou ao de Séjour em uma longa notícia que deu daquele na Connaissance des temps para 1807. para julgar do valor de um método. que não vinham então nas publicações análogas dos outros países. que foi Director do Observatório Astronómico de Coimbra. o mais analítico e o que conduz a resultados mais aproximados. e esta simplicidade resulta do modo como aquele considerou as paralaxes. O trabalho de Monteiro da Rocha. substitui-se-lhe um sólido de revolução geomètricamente definido aproximadamente igual em volume. tanto no caso de se querer medir a capacidade total do tonel como a de uma parte dele. Ora um sábio português. diz. publicado em 1808 em língua francesa por Manuel Pedro de Melo em um volume intitulado Mémoires sur l’Astronomie pratique. mas menos simples. problema de utilidade industrial proposto por Kepler na sua Estereometria. mas ainda duas novas secções equidistantes daquelas. Rodrigo Ribeiro de Sousa Pinto. de que acabamos de falar. como disse Delambre. correspondentes a 1804 e 1807 e foi depois reunido a outros trabalhos astronómicos do mesmo autor. julgou dever calcular uma Tábua que a torna muito prática. e da circunstância de referir o Sol e a Lua ao Equador. nas questões desta natureza. O nosso matemático emprega um novo sólido. A solução que assim obtém é mais aproximada do que as que tinham sido dadas anteriormente. Por isso Monteiro da Rocha. muito bem feitos. O primeiro daqueles trabalhos é consagrado ao problema de medição do volume do líquido contido em um tonel. que aplicou durante muitos anos o método de Monteiro da Rocha ou cálculo das eclipses que figuram nas Efemérides publicadas por este Observatório. Mas. diz que as fórmulas de Monteiro da Rocha são mais simples do que as de Séjour e que o astrónomo português. Delambre. Outro trabalho notável sobre matemáticas puras de Monteiro da Rocha é o que tem por título Aditamento à regra de Fontaine para resolver por aproximação problemas que se reduzem às 83 .

mas há questões do domínio desta última ciência em que o matemático se lança inconsideràvelmente nas asas da primeira e. aldea situada entre Douro e Minho. Estudou-a. Ora Anastácio da Cunha deu duas demonstrações geométricas muito simples desta fórmula e censurou a Academia das Ciências não sòmente por ter posto a concurso uma questão tão simples. defendendo o tema proposto o qual exigia o estudo das condições de convergência da fórmula. foram cercadas por forças militares. esclarecendo-o com exemplos bem escolhidos e tirando da sua doutrina novas regras. apesar do seu pequeno mérito. «Cada vez que tinha de resolver uma questão. Foi publicado em 1797 no volume II das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa. com outros membros da mesma ordem. ocupouse do problema das órbitas parabólicas dos cometas e deu a primeira solução pratica deste problema. consagremos algumas palavras à apreciação geral da sua obra científica. numa ocasião em que as casas que a Companhia possuía naquela cidade brasileira. ocupou-se da regra de quadratura de Fontaine e deu pela primeira vez as condições para se aplicar com confiança». como entre parêntesis. vamos agora dizer algumas palavras sobre a sua vida. Convém consagrar aqui algumas palavras. na qual entrou no Brasil. professor na Universidade de Coimbra. É uma memória cheia de doutrina sã sobre a convergência das expressões em que intervém o infinito. autor do tema posto a concurso na memória anteriormcnte considerada. na Baía.quadraturas. mais convergentes do que a de Fontaine. Coelho da Maia. Não mencionaremos aqui esta memória pelo que vale. que chega a surpreender por ser escrita nos tempos em que se tratavam tais questões com pouco cuidado e que pode ainda hoje ser lida com proveito. voando. reproduzindo o que a este respeito dissemos nos nossos Panegíricos e Conferências: «Monteiro da Rocha não concorreu de um modo eficaz para o progresso do Mundo dos números. Temos terminado a descrição e crítica das principais obras de Monteiro da Rocha. como dissemos. compôs sobre o mesmo assunto outra digna de prémio. Terminada a análise dos escritos científicos de Monteiro da Rocha. resolveu problemas mais ou menos difíceis. Respondeu-lhe indirectamente Monteiro da Rocha. pela extensão. procura encontrar por fórmulas complicadas resultados a que esta leva por caminho simples. mas também por ter premiado uma memória tão medíocre. e pertenceu à Companhia de Jesus. mas por motivo de uma polémica a que deu origem. Coelho da Maia obteve. ocupou se do problema da predição dos eclipses e deu um método mais fácil para o resolver do que os outros processos empregados no seu tempo. que foi premiada pela Academia das Ciências de Lisboa e publicada nas suas colecções (t. a fórmula de Fontaine mencionada. Não criou teorias. Monteiro da Rocha que teve pois responsabilidade em ver premiada uma memória que o não merecia. A Análise e a Geometria auxiliam-se mutua mente. Neste trabalho revelou o nosso matemático mais uma vez a finura do seu espírito e a sua habilidade prática dando um modo notável de avaliar a convergência da fórmula de Fontaine. mas nada acrescentou de notável a respeito da sua convergência. O tema ficou assim bem defendido. O seu talento tinha principalmente uma feição prática. Monteiro da Rocha nasceu em 1734 em Canavezes. ocupou-se da medida dos tonéis e deu uma solução que excede em aproximação e não é inferior em simplicidade à melhor das que tinham sido dadas anteriormente. mas que abandonou em 1759. 1. porque o autor dela não estudara suficientemente esta parte difícil da questão. mas não a corporação que premiou a Memória. em compensação. levou Monteiro da Rocha a compor aquela de que acabamos de falar. cheios de desenvolvimentos em série desprovidos de rigor. 84 . mas. Assim. 1797) sob o título de Método de aproximação de Fontaine. para a solução do problema considerado. meditava-a profundamente até encontrar a solução mais fácil e levava o seu estudo até aos últimos promenores numéricos. jovens como ele. a uma memória que. por meio de cálculos aterradores. Esta observação aplica-se a uma memória do Dr. em 1752.

Anos depois. Anastácio da Cunha tinha convivido durante a sua residência em Valença com alguns oficiais estrangeiros protestantes muito ilustrados. Em 1762. vamos dar uma breve notícia sobre as condições em que viveu. . fazendo-se admirar pelo talento e pela facilidade com que por si mesmo. quando esta reforma foi posta em execução foi encarregado da regência da cadeira de Mecânica. e depois continuou a caminhar sem mestre no estudo dos outros ramos daquelas ciências e no aperfeiçoamento dos conhecimentos que recebera naquele Colégio. perto de Lisboa. Espusemos os resultados deste estudo em uma conferência que pronunciamos em 1925 no Congresso de Coimbra das Associações Espanhola e Portuguesa para o Progresso das Ciências. o Marquês de Pombal. Os homens de talento invulgar. e morreu em Ribamar. nomeou-o professor da Faculdade de Matemática desta Universidade. adquiriu rapidamente conhecimentos extensos sobre assuntos elevados desta ciência. Francisco de Lemos. sem auxílio de mestre. que regeu com muito brilho até I de Julho de 1781 em que. em 1773. provàvelmente estudou a Aritmética. que tinham enfraquecido a sua primitiva fé religiosa. chamou-o a colaborar na reforma da Universidade. no ensino naquela Universidade revelou-se como um grande professor. Anastácio da Cunha Anastácio da Cunha tem sido apreciado de modos diferentes pelos matemáticos que têm falado dos seus trabalhos científicos. Bispo de Coimbra. a Geometria elementar e os princípios de Astronomia no Colégio da Baía. quando reformou a Universidade de Coimbra. Exerceu o ensino até 1804. em 1819. então aquartelado em Valença. que escreveu uns Recreios filosóficos. onde teve por mestre o Padre Teodoro de Almeida. Por isso o referido Tribunal condenou-o a três anos de reclusão no mosteiro em que fora educado. Para formar sobre ele o nosso juízo. fundando a sentença em factos que a Igreja Católica de hoje. larga e fecunda. e. 85 . muito apreciados no seu tempo. o que é indispensável para bem se julgar a sua obra.O seu talento revelou-se primeiramente na frequência da cadeira de Filosofia no Colégio da Baía e depois na frequência das cadeiras de Direito Canónico da Universidade de Coimbra. resolvemos há anos fazer um estudo cuidadoso dos escritos que deixou. resultados que vamos aqui resumir. antes disso. foi vilmente denunciado ao Tribunal do Santo Ofício como livre pensador. como ele era. Espanha e França assentou praça no Regimento de Artilharia do Porto. na ocasião da guerra entre Portugal. Mais tarde. informado do seu valor por D. Anastácio da Cunha nasceu em Lisboa em 1744 e foi educado no Convento dos Padres do Oratório de Nossa Senhora das Necessidades. ano em que se jubilou. onde recebeu a sua instrução em Matemática. não condena. seguidos de cinco anos de deportação em Évora. com a sua tolerância ilustrada. outros apoucando-os. Na composição do Estatuto da Universidade revelou-se como um grande organizador. Não sabemos como aprendeu as Matemáticas. o Marquês de Pombal. uns louvando-os com calor. nas observações e cálculos astronómicos revelou-se como astrónomo insigne e nas memórias que publicou revelou-se como sábio de elevado mérito. Foi um grande exemplo de actividade intensa. deixam depressa atrás os seus professores e continuam sós no seu caminho.Mas. aos dezoito anos de idade. comunicando esta resolução ao Reitor em duas cartas muito honrosas para o nomeado e ordenando que se lhe conferisse o grau de Doutor com as formalidades do estilo Foi-lhe nessa ocasião distribuída a cadeira de Geometria. tendo conhecimento dos seus méritos. tendo o grande estadista deixado o governo da nação. onde foi educado.

para que se possa conhecer o motivo dos defeitos de redacção do livro que acabamos de mencionar. como faziam ordinàriamente os antigos geómetras helenos. e para que estes defeitos sejam desculpados. a demonstrar proposições obtidas por outra arte. só diremos que o autor conseguiu assim dar-lhe. mas não é como livro didático que temos de o considerar. Os Princípios matemáticos. limita-se. No primeiro exame da mesma obra. Nota-se também que o autor emprega ordinàriamente. pela variação dos assuntos e meios de os tratar. reduzindo algumas vezes a demonstração à forma de simples verificação. Não ensina a investigar. temos de nos colocar no ponto de vista filosófico. enumera-as primeiro e demonstra-as depois pelos meios mais curtos. sobe desde as primeiras noções da Aritmética e da Geometria até aos famosos problemas de máximos e mínimos considerados por João Bernoulli e Euler e para os quais Lagrange inventou o Cálculo das variações. mas contendo todas as peças silogísticas necessárias para lhes dar rigor. e com ele o nome do autor. É com este critério que vamos examinálo. na História da Matemática em Portugal. Isto só teria vantagem no tempo em que foi publicado Para o avaliar hoje. pela originalidade da exposição. abatida por tantos desgostos. Jorge. impressos no intervalo de 1782 a 1787 são o único livro que Anastácio deixou acabado e é por ele que temos de avaliar o poder do seu espírito. a escrever e a ensinar. deter-nos-íamos um pouco na critica deste método. tendo fundado a Real Casa Pia do Castelo de S. Não chegou porém o infeliz matemático a cumprir completamente as penas a que fora condenado. que. Começamos por falar da vida atribulada de Anastácio da Cunha. Quando se percorre pela primeira vez este livro. Foi escrito para uso dos alunos do Colégio de S. porque não lhe foram restituídos os bens que lhe tinham sido confiscados e não foi reintegrado no lugar de professor da Universidade de Coimbra. quer trate das questões relativas a linhas. um interesse especial. mas na qual as proposições estão lògicamente encadeadas. pela Geometria analítica e pelo Cálculo diferencial e integral Estudando-o depois detidamente. Jorge. pelas Trigonometria plana e esférica. foi-lhe perdoada uma parte delas. sem atender à sua divisão em ramos. pela Análise algébrica. o chamou para director deste estabelecimento. ao qual o nosso geómetra assistiu vestido de hábito ridículo de penitente e com uma vela de cera amarela na mão. sem procurar saber como foram ou como poderiam ser descobertas. conservando-nos no ponto de vista em que nos colocámos. Mas ficou em completa pobreza. Diogo de Pina Manique. de modo que cada uma tem anteriormente aquelas de que depende. nota-se que este largo espaço é percorrido. nota-se com surpresa que o autor. evitando repetições e tratando 86 . temos a impressão de que o autor propôs a si mesmo o problema de expor as matérias de um curso regular de Matemáticas puras lògicamente e no mínimo espaço. para averiguar se merece ficar registado. Por motivo do seu bom comportamento. os métodos sintéticos dos antigos matemáticos gregos. e nesta casa faleceu em I de Janeiro de 1787. Nesta casa passou os últimos anos da sua vida. Ao examinar esta disposição das doutrinas. Não deduz. como é de esperar. passando pela Teoria das equações. em geral. as proposições. quanto o permitia o estado precário da sua saúde. no pequeno espaço de trezentas páginas. Nesta desordem aparente há um certo encanto. quer trate de questões relativas a números. curtas. Valeu-lhe nesta situação aflitiva o Intendente de Polícia. dando à exposição um aspecto de desordem. a pensar.Esta sentença foi lida em Auto de fé celebrado em 11 de Outubro de 1778 na Igreja do Palácio da Inquisição. no dia seguinte àquele em que emendara as últimas provas dos seus Princípios matemáticos. destinado ao ensino dos órfãos. lògicamentc. vê-se também com surpresa que o nosso geómetra misturou as doutrinas de que trata. mas. Se tivessemos de considerar esta obra sob o ponto de vista pedagógico. com demonstrações.

quer seja elementar. inferior à unidade. molde que alterou em muitos pontos. mas a sua doutrina resolve a questão da convergência da série proposta nos mesmos casos em que o teorema enunciado a resolve. que não podia satisfazer um espírito. que foi mais tarde apresentado por Cauchy. que constitui a parte mais notável da obra do nosso matemático. Esta doutrina é depois aplicada pelo nosso matemático em diversos lugares da sua obra para demonstrar a convergência de algumas séries que emprega. e dá de um modo preciso e exacto o critério para a sua convergência. a série é convergente». quer não. Anastácio da Cunha não enuncia este teorema. que imediatamente aplica à progressão geométrica decrescente. que parece ter começado a compor nesta ocasião. A sua demonstração da fórmula de Taylor tem o vício das que tinham sido apresentadas antes dele e não difere delas essencialmente. que o leva a demonstrar simultâneamente e no pequeno espaço de uma página os teoremas da soma do seno e do coseno e os desenvolvimentos em série inteira destas funções. modificando demonstrações e ligações de teoremas. Mas devo assinalar uma aplicação que faz desta fórmula no desenvolvimento do seno da soma de dois arcos. começa Anastácio da Cunha por tratar das séries de termos positivos. Mas como constituir uma doutrina geral e rigorosa das potências ? Conseguiu-o com um golpe de audácia para o seu tempo: definiu os números irracionais que têm a mencionada origem por meio da série exponencial de base qualquer. Depois. É bem sábido que só mais tarde deu Lagrange a primeira demonstração rigorosa por meio da consideração do resto da série.cada doutrina. A esta doutrina das séries está ligada a dos números irracionais representados por potências de expoente fraccionário ou irracional. Daremos alguns exemplos destas modificações em uma nota no fim deste livro. sem alterar o que nele há de fundamental. Esta doutrina era exposta no século XVIII de um modo mal fundamentado. porque é nelas que melhor se revela a finura de espírito do autor: quero referir-me ao capítulo em que trata da teoria das séries e da teoria dos números irracionais. Esta doutrina equivale ao teorema hoje clássico: «se a razão de dois termos consecutivos de uma série tende para um limite. para julgar da convergência de cada série dada. com o fim de abreviar e simplificar a exposição das doutrinas ou de aperfeiçoar ainda em alguns pontos a sua estrutura lógica. educado no culto do rigor do grande geómetra lógico de Alexandria. Eram os Elementos de Geometria de Euclides adoptados como livro de texto para o estudo desta ciência na Universidade de Coimbra. como o de Anastácio da Cunha. no lugar em que dispunha de meios para mais ràpidamente a estudar. Na parte do livro consagrada à Análise ha duas questões de que vou ocupar-me com alguma demora. quando a ordem deles tende para o infinito. Nas páginas que consagra à primeira teoria. que tinha sido obtida no século anterior por Newton pelos meios imperfeitos da Álgebra do seu 87 . Feitas estas considerações gerais passemos a analisar sucintamente o modo como são expostas algumas das doutrinas que a obra encerra. quando Anastácio da Cunha ali ensinou e foram o molde dos livros que consagrou a esta ciência nos seus Princípios matemáticos. manda comparar os seus termos com os desta progressão. Na teoria do desenvolvimento das funções em série foi menos feliz.

demonstrou que os números assim definidos gozam das propriedades fundamentais das potências dos números inteiros. Estava reservado aos matemáticos do século XIX a volta a esta tradição. e a concepção do paralelogramo das forças.tempo. Menos elogios merecem as passagens da obra consagradas à teoria geral das equações. preocupados em fazer frutificar e aumentar a grande herança legada pelos geómetras do século anterior. Os Princípios matemáticos são a única obra que Anastácio da Cunha deixou impressa. Bastaria introduzir na exposição a palavra limite. ou. implicitamente usado por Euclides na sua teoria da proporcionalidade e explicitamente enunciado por Pedro Nunes na exposição que fez da mesma doutrina na sua Álgebra. É de notar que este conceito é análogo ao de Poincaré sobre os postulados da Geometria. onde se apresentam algumas ideas sobre as noções fundamentais desta ciência tão próximas das que actualmente se adoptam. desenvolvendo para isso as grandes invenções por estes feitas. 88 . que é pobre e desordenadamente exposta. na Geometria e na Análise. o princípio da independência da acção das forças.° A regra dos sinais na multiplicação. Os postulados da Geometria racional e da Mecânica racional são limites dos postulados de Geometria física e de Mecânica física. e que a idea de separar a Mecânica física da Mecânica racional não é só hoje adoptada. e. direi enfim que o autor procurou apresentar explicitamente os postulados em que se funda. nota-se que os princípios tão subtis desta doutrina são estabelecidos com um rigor que não se encontra nos outros livros empregados no século XVIII para o seu estudo. não prestaram atenção à parte lógica das suas demonstrações. tornar explícitas algumas condições incluídas nas demonstrações e dar à intuïção geométrica um papel menos intenso. de modo a precisar rigorosamente as condições para a aplicação de cada teorema obtido. demonstrada mais tarde por Cauchy. um antigo discípulo publicou um manuscrito encontrado entre os seus papéis. fundada em postulados determinados. mas é certo que no tempo em que viveram não se tinha dado ainda uma teoria lógica assaz clara dos números negativos. da Mecânica física. 2. com a análise crítica das doutrinas dos seus antecessores. intitulado Ensaio sobre os princípios da Mecânica.° A propriedade das funções contínuas de passar por zero quando mudam de sinal. que Anastácio da Cunha. mas como uma hipótese. não quis empregar. A respeito deste último postulado. Os matemáticos do século XVIII. quebrando a tradição da forma rigorosa dos raciocínios dos geómetras gregos. empregando operações sobre séries. Notaremos neste Ensaio a separação da Mecânica geométrica. 3. mas foi estendida à Geometria. Ao terminar esta análise do livro de Anastácio da Cunha. e o nome do seu autor merece figurar na sua história entre os precursores dos analistas que mais tarde se ocuparam deles. não como uma lei natural. entre eles: 1. preso à tradição grega. Na parte dos Princípios matemáticos consagrados à Análise e à Geometria dos infinitamente pequenos.º Aquele a que actualmente se dá o nome de postulado de Arquimedes. Depois da sua morte. para reduzir a doutrina do nosso geómetra à forma moderna. notarei que Monteiro da Rocha censurou Anastácio da Cunha por ter colocado esta proposição entre os postulados da Álgebra. Anastácio da Cunha é no século XVIII um dos precursores dos geómetras que no século XIX realizaram esta obra considerável da organização lógica dos novos domínios que se tinham aberto no Mundo dos números e os seus trabalhos e o seu nome devem figurar na história brilhante desta organização. que lastimamos não ter escrito obra desenvolvida sobre tal assunto. Acabamos de analisar a obra matemática de Anastácio da Cunha e por esta análise vê-se que o seu autor foi principalmente um lógico distinto. notando. Esta doutrina de Anastácio da Cunha abre de um modo notável as doutrinas modernas sobre os números irracionais. em outros termos.

Não poderia ser. e ao seu temperamento nervoso e volúvel.Não se julgue. Não seria possível a um só homem escrever no século XVIII uma obra perfeita. 89 . Estes defeitos serão certamente desculpados por quem atender as circunstancias em que o autor passou a sua vida agitada. A revisão lógica destes assuntos foi obra de muitos matemáticos eminentes do século XIX ao matemático português cabe a honra de ter sido um dos que primeiro se ocuparam dela. que a sua obra é irrepreensível sob o ponto de vista lógico. a respeito de todos os assuntos fundamentais considerados na obra do nosso geómetra. pelo que acabamos de dizer. Não falaremos aqui nem das obscuridades nem dos defeitos de redacção e disposição das doutrinas que se encontram em alguns lugares dos Princípios matemáticos. sob aquele ponto de vista. Isto só teria importância se quisessemos analisar esta obra sob o ponto de vista pedagógico. que o levava a não se demorar no aperfeiçoamento da redacção dos assuntos.

que mais tarde se havia de chamar Lord Wellington e a quem a sorte destinava um papel primordial no seguimento da Epopeia napoleónica. diante da ameaça do bloqueio continental. O génio altivo de Bonaparte. aniquilando-lhe o comércio por meio de um bloqueio continental. e a Espanha. Comandava este exército Artur Wellesley. Esta massa formidável de gente patriota e valente. bem preparados 90 . encarnação do lendário Marte. de privações.A cultura das Matemáticas em Portugal na primeira metade do século XIX Estado político do pais no referido período Ao abrir o século XIX estava no auge da sua glória Napoleão Bonaparte. acordara também e mandara a Portugal um exército. mas mal armada e desorganizada. aonde não podia levar os seus exércitos. porque mantinha sempre os seus sonhos de iberismo. ou loucura de quem se julga omnipotente. ora aquela instrução e esta disciplina. foram-lhes dadas por instrutores ingleses. Nestas circunstâncias. a França. teve o sonho grandioso. foram obrigadas a render-se e a sair por mar a caminho da França. sofredores. que. acordou alvoraçado e soltou um grito de guerra. penetrou em Portugal sem resistência e por fim entrou na capital. semelhante a bramido de fera. como velha aliada. Mas isto não bastaria. o qual mandou marchar para Lisboa um exército francês comandado pelo general Junot. que. exército que. por uma série de vitórias brilhantes. Os camponeses portugueses que se tinham levantado por todo o país contra o exército invasor eram patriotas. que não conhecia limites ao seu poder. pelo menos nominalmente. onde já não encontrou a Corte portuguesa. e impôs a Portugal fechar os portos aos seus navios. de vencer econòmicamente a Gran-Bretanha. valentes. arrastara na sua esplêndida órbita todas as nações que cercam a França. Pretendiam dominar em Portugal a Inglaterra. a soberania. que teve como resultado final a perda de Olivença. não podia combater em batalhas campais contra os exércitos aguerridos da França. e então o povo português. e este grito correu de terra a terra desde a fronteira espanhola até às praias do mar. a fim de conservar. Formaram-se então guerrilhas populares. que mais tarde se haviam de transformar em honras de glória. Valeu-nos neste momento a Inglaterra. para serem bons soldados. porque Napoleão se julgava destinado a ser o senhor da Europa. mas. em quem estava ainda encarnada a alma heróica dos antigos Lusos. exceptuando a Inglaterra. a guerra do nosso pais contra a França e Espanha coligadas. depois de alguns revezes. Em 1808 começaram para o povo português dias mais duros. de actos de bravura. que hostilizaram fortemente as guarnições militares que o general francês espalhara pelo país. Seguiu-se uma luta curta entre o exército britânico e as tropas de Junot. depois de atravessar a Espanha. que. ao abrir o século. A notícia da entrada de Junot em Portugal estendeu-se rapidamente pelo país. faltava lhes a instrução e a disciplina militar. porque no dia anterior se tinha retirado para o Brasil. a nossa situação na política internacional era muito perigosa para nós e a primeira consequência disto foi. capazes de árduos trabalhos. que acabava de desembarcar em Vagos. sagaz e sabedor. general prudente. O nosso país hesitou e procedeu de modo que não agradou ao déspota.

que não podia ocupar dois tronos. mistura bem equilibrada de serenos soldados britânicos e de bravos soldados portugueses. sua irmã D. Não correu pois propícia à cultura científica em Portugal a primeira metade do século XIX e houve mesmo neste intervalo dois períodos inteiramente impróprios para esta cultura: o período das invasões dos exércitos de Bonaparte e o período das campanhas para a conquista da liberdade. pois que. Isabel Maria. Miguel e D. Pedro concedeu a Portugal uma constituïção liberal. As Memórias da Academia das Ciências de Lisboa revelam bem esta decadência. que penetrou pela Galiza. até aos meados do século XIX. João morreu. que encontrou muito mudado. Mais tarde. Veio primeiramente o exército comandado pelo Marechal Soult. filho primogénito do monarca português. quando D. Miguel. D. Entretanto o Brasil. D. mas a agitação política continuou. que tiveram para brilhante epílogo a vitória dos constitucionais em Almoster em 1834.para isso. e os algozes os absolutistas e fecharam este período dois anos de lutas militares entre os exércitos de D. Subiu depois ao trono português D. o maior dos Marechais de Napoleão. Carlota Joaquina. que só terminou quando terminaram as agitações que a causaram. onde o venceu em Vitória. Ao mesmo tempo D. e depois. abdicou dos seus direitos à coroa de Portugal em sua filha D. Também o estado de agitação do país durante a primeira metade do século XIX. foi obrigado a retirar disperso para Espanha por veredas escondidas das montanhas. Maria e nomeou. Além disso a publicação destas Memórias esteve interrompida desde 1800 até 1814. que continuou a exercer a sua acção benéfica nos primeiros anos do século XIX. que depois. traíu o juramento de fidelidade à constituïção e à raínha e perseguiu ferozmente os liberais. como ele lhe chamava. proclamou a sua independência sob o cetro imperial de D. em que começou um longo período de paz bem desejada e bem merecida. O exército anglo-luso expulsou-o de Portugal. repelido por soldados portugueses. preparando assim o acto final da Epopeia napoleónica. mas depois veio a decadência cientifica. onde lhe caíram as asas de Anjo. 91 . vê-se nos primeiros volumes riqueza de trabalhos que satisfaz. A última invasão das tropas francesas foi a mais importante. por motivos políticos. emquanto viveram os sábios educados naquele século. Comandava-a Massena. regressou D. Pedro. e pôde-se assim formar em pouco tempo o exército anglo-luso. percorrendo-as. perseguiu-o na Espanha. em 1820. João VI a Portugal. logo que tomou posse do governo. o Anjo da Vitória. como rescaldo de grande incêndio. constituïção que ele próprio em breve rasgou por influência nefasta sobre o seu espírito débil da Raínha D. caminhou até ao Porto. Pedro. teve a glória de o perseguir na própria França e de o bater em Tolosa. a que nos referimos. Terminadas as guerras napoleónicas. O impulso dado pelo Marquês de Pombal no século XVIII à instrução pública portuguesa com a reforma dos estudos fora porém tão enérgico. E estas invasões não se fizeram esperar muito tempo. Maria II. impediu que os estadistas que passaram pelo poder durante este período se ocupassem em melhorar a instrução nacional. convenientemente preparado para repelir futuras invasões de tropas napoleónicas. Durante a sua permanência no Brasil. foi substituída pelo infante D. para governar o reino como regente durante a menoridade dela. foi obrigado a dar ao seu país uma constituïção. cuja civilização tinha progredido muito com a permanência durante alguns anos da Corte portuguesa no Rio de Janeiro. uma pobreza que desconsola. mas. irmão de D. Seguiram-se seis anos de horrores em que as vítimas foram os liberais. Miguel. Pedro e noivo da nova raínha. as ideas políticas tinham avançado tanto no sentido liberal que. que é desnecessário aqui apresentar. a aumentar de volume a volume. Pedro.

Terminadas as campanhas da liberdade, pretenderam os vencedores reformar a instrução no sentido democrático, mas passaram o tempo em discussões estéreis e em reformas efémeras e só perto dos meados do século se conseguiu fazer a este respeito alguma coisa de sólido. Extinguiram-se então a Academia de fortificação e as duas Academias de náutica fundadas no tempo de D. Maria I e criaram-se, para as substituir, em Lisboa, a Escola Politécnica, a Escola do Exército e a Escola Naval, com organizações mais perfeitas e estudos mais desenvolvidos do que os dos institutos suprimidos. Na Escola Politécnica preparavam-se os alunos com os conhecimentos matemáticos e físicos de que precisavam para os estudos da Engenharia civil e da Arte militar, que se faziam na Escola do Exército. Nos mesmos tempos transformou-se uma Academia elementar de comércio e marinha, destinada a preparar negociantes e pilotos, em uma Academia Politécnica, que tinha por principal missão preparar engenheiros civis. Na Universidade de Coimbra, onde, no que respeita às Matemáticas, os programas se vinham alargando e levantando desde a reforma pombalina, continuaram a alargar-se e a levantar-se, desdobrando cadeiras, passando algumas doutrinas mais elementares para os liceus, criados no período considerado, prolongando a duração da formatura de quatro a cinco anos e substituindo os livros de texto primitivamente empregados por outros mais desenvolvidos e mais modernos. A nacionalização do ensino, pelo emprego de livros de texto compostos por professores portugueses só começou a realizar-se na segunda metade do século XIX.

No período que vai desde o começo do século XIX até ao nosso tempo, foram publicados em Portugal numerosos escritos sobre ciências matemáticas, mas são poucos os que merecem ficar assinalados na sua história. A maior parte deles só têm interesse didático, e, entre os que não estão neste caso, há muitos que são erróneos ou simples imitações de trabalhos estrangeiros. Pode-se ver a lista completa destes escritos no Catálogo de Rodolfo Guimarães citado na nossa Introdução ao presente livro. Vamos mencionar os que têm algum interesse cientifico, limitando-nos aos que foram compostos por autores anteriores ao meado do século XIX. Já dissemos algures que a Matemática é um Mundo de números com planaltos, colinas e montanhas. É fácil caminhar naquelas planuras e colinas, mas ha nele altos montes a cujos cumes só podem subir os montanheses experimentados e ha píncaros escarpados a que só podem subir as águias do pensamento. Ora tais águias não apareceram no período que vamos considerar, mas apareceram homens inteligentes e sábios, dotados de mais ou menos engenho, uns enamorados dos encantos da arte sintética dos Euclides, dos Newton e dos Huyghens, . . ., outros da elegância de estilo analítico dos Euler, dos Lagrange, e dos Gauss, ..., a estudar as descobertas dos grandes geómetras de diversos tempos, para as explicar ou generalizar, ou para tirar delas proveito para fins determinados. É da obra destes sábios portugueses que vamos agora ocupar-nos, começando pelos que apareceram nos fins do século XVIII, discípulos ou continuadores de Monteiro da Rocha e Anastácio da Cunha.

Analistas e Geómetras
Recordemos primeiramente Garção Stockler, que foi aluno da Universidade de Coimbra, depois professor na Academia Real de Marinha e Secretário da Academia das Ciências de Lisboa. Stockler foi ao mesmo tempo historiador dentro das Matemáticas e cultor hábil da Análise. Como historiador legou-nos o Ensaio histórico das Matemáticas em Portugal, já por nós aqui apreciado, e escreveu com brilho literário e elevado conceito científico os elogios históricos do ilustre astrónomo português Soares de Barros e do grande geómetra francês D'Alembert, que foi, como já dissemos, sócio correspondente da nossa Academia de Ciências, elogio em que este grande homem e magistralmente apreciado como matemático e como filósofo.

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Como analista, legou-nos Stockler, além de dois trabalhos didáticos sobre a doutrina dos limites e dos infinitamente pequenos, cuidadosamente redigidos sob o ponto de vista lógico, quatro memórias publicadas nas colecções da Academia das Ciências de Lisboa, nas quais se nota muita sabedoria e notável engenho, mas falta de rigor no emprego das séries. Mas este defeito não é estranhável, porque a doutrina deste algorítmo estava ainda no seu tempo em estado muito vago e o mesmo defeito se encontra em escritos de grandes geómetras estrangeiros do mesmo tempo. O que acabo de dizer aplica-se em especial à memória que em 1797 publicou nas referidas colecções: Sobre os verdadeiros princíipios do cálculo das fluxões. Nesta memória procura o autor primeiramente explicar o que a respeito destes princípios escreveu Newton e depois procura dar uma solução geral do problema da determinação das fluxões, ou, como hoje se diz, das derivadas das funções. Mas, nesta segunda parte, a sua doutrina não é rigorosa. Parte, com efeito, da possibilidade de as funções de uma variável poderem ser sempre desenvolvidas em série convergente ordenada segundo as potências desta variável, sem a demonstrar, e depois faz depender o problema da derivação de cada função especial do problema do seu desenvolvimento em série. Notarei que esta doutrina é semelhante no modo de ser tratada e na falta de rigor à que foi apresentada por Lagrange na sua célebre Théorie des functions analytiques, publicada no mesmo ano, 1797, em que apareceu a memória de Stockler, obra que por isso o nosso matemático não conhecia. Em ambos os trabalhos as derivadas de cada função aparecem como coeficientes do seu desenvolvimento em série ordenada segundo as potências do aumento da variável, sem se demonstrar primeiramente a possibilidade de um tal desenvolvimento. Convém todavia notar que a memória de Stockler é muito inferior à obra de Lagrange, onde se admira muita doutrina sã e, além disso, a beleza de forma e elegância de cálculo que este grande geómetra sabia dar aos seus escritos. Convém ainda recordar aqui que a doutrina dos desenvolvimentos das funções em série ordenada segundo as potências inteiras e positivas da variável só começou a ter rigor quando Lagrange, no seu Calcul des fonctions, entrou em consideração com o resto da série. Ajuntemos que a memória de Stockler foi atacada, ora bem, ora mal, na Monthly Review, de Edimburgo, e que, ora bem, ora mal, respondeu Stockler em um opúsculo publicado em 1800 sob o título de Lettre à Mr. le Rédacteur des Monthly Review. Outro trabalho notável de Stockler tem por título Memória sobre funções simétricas e produtos infinitos (Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, t. II, 1799). Começa o autor por dar uma demonstração das fórmulas que na Álgebra ligam os coeficientes de uma equação algébrica às somas das potências de igual grau das suas raízes, fórmulas que tinham sido dadas sem demonstração por Newton na sua Arithmetica Universalis. Esta demonstração, em que intervêm séries, é semelhante na essência, mas menos simples no cálculo, à que dera Lagrange no seu Traité de la résolution des équations numériques, livro que fora publicado em primeira edição no ano anterior e que certamente Stockler não conhecia. Depois o nosso matemático aplica as fórmulas mencionadas à transformação de produtos infinitos em séries e à transformação de séries em outras mais apropriadas ao cálculo numérico. Esta memória pertence a uma espécie de literatura matemática formalista, em parte empírica e em parte lógica que foi principalmente cultivada no século XVIII e no primeiro quartel do século XIX, na qual literatura as leis e regras relativas a somas ou produtos de um número finito de termos ou factores são estendidas sem demonstração aos casos em que este número é infinito. É interessante notar que, apesar da falta de rigor lógico, estas doutrinas levaram os matemáticos a resultados admiráveis na Física e na Mecânica dos astros. Recordemos que, com séries cuja convergência não demonstraram, conseguiram grandes geómetras dos séculos mencionados chegar à previsão de fenómenos celestes e que a comparação dos números obtidos

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por meio delas com os dados pelas observações directas dos fenómenos, mostrou que eram eficazes para o seu fim. A parte da Matemática a que nos estamos referindo, só começou a ter rigor perfeito, como já dissemos, depois dos trabalhos de revisão lógica dos princípios da Análise feitos no século XIX; mas, apesar disto, os métodos anteriores são ainda hoje aproveitados nas questões de aplicação em que a doutrina é vaga ou a lei dos termos das séries empregadas desconhecida. É bem de notar que a doutrina da segunda das memórias de Stockler mencionadas, está, no que respeita à lógica, em condições diversas da primeira, porque nesta as séries intervinham para a demonstração de uma teoria fundamental e naquela aparecem com o fim de obter resultados numéricos que estão sujeitos a verificação. As séries podem ser empregadas sem grandes cuidados, pelo que respeita a convergência, como instrumentos de indagação, mas nunca como instrumentos de demonstração. A segunda memória de Stockler está no primeiro caso, a outra no segundo. Observemos finalmente que, sem a audácia no emprego das séries, a Matemática estaria ainda hoje muito atrasada no que respeita às aplicações.

Dissemos anteriormente que nas demonstrações dadas por Lagrange e Stockler das fórmulas de Newton que ligam as somas das potências das raízes das equações algébricas aos seus coeficientes intervêm as séries. Esta doutrina sai assim fora da Álgebra, aparecendo vestida de roupagens elegantes, mas emprestadas. E todavia não é isto necessário. Com efeito, João Evangelista Torriani, professor na Academia Real de Marinha deu, em 1812, no tomo III das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, uma demonstração das referidas fórmulas que tem a qualidade importante de ser puramente algébrica. Este mesmo distinto algebrista analisou profundamente e desfez a doutrina de Wronski relativa à resolução geral das equações algébricas em um trabalho premiado pela Academia mencionada e publicado na sua colecção de Memórias (t. VI, 1819). Ocupemo-nos agora dos trabalhos de Manuel Pedro de Melo, discípulo de Anastácio da Cunha em Lisboa e depois de Monteiro da Rocha na Universidade de Coimbra e por fim professor da Faculdade de Matemática desta Universidade. Residiu algum tempo em Paris, onde teve relações com Delambre e onde publicou uma edição em francês dos principais trabalhos astronómicos de Monteiro da Rocha com anotações que esclarecem alguns pontos. O mais notável escrito que temos de Pedro de Melo é uma Memória sobre binomiais publicada nas colecções da Academia das Ciências de Lisboa (t. IV, 1815). Nesta Memória o autor começa por apresentar numerosas relações entre os coeficientes do desenvolvimento newtoniano do binómio; depois relaciona as factoriais de Vandermonde e Arbogast, isto é, os produtos de factores equidiferentes com aqueles coeficientes; e por fim, como consequência destas relações deduz muitas propriedades das factoriais e, em especial, a fórmula conhecida pelo nome de binómio das factoriais que Kramp tinha obtido por meio de uma indução imperfeita. A Memória de que acabamos de falar é digna de ser notada. Não há nela talvez fórmulas novas; mas há a unificação de duas doutrinas que se expunham por modos independentes, tornando-se uma corolário de outra. O matemático português de que estamos a falar teve a honra de ver premiado um dos seus trabalhos, consagrado à composição das forças, pela Academia das Ciências de Copenhague com uma medalha de ouro em concurso por ela aberto. Infelizmente este trabalho perdeu-se por um concurso de circunstâncias impressionantes: o manuscrito foi destruído por um incêndio que

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Não devemos também deixar de recordar aqui Mateus Valente do Couto. digna de ser lida ainda no nosso tempo. Valente do Couto. III). de que vamos agora ocupar-nos. Da doutrina porém de Margiochi. t.devorou a biblioteca daquela Academia na ocasião do bombardeamento da cidade por navios da Grã-Bretanha e a cópia que o autor conservava em Coimbra foi destruída por outro incêndio que devorou a casa que habitava. 18l4). que foi professor na Academia Real de Marinha. publicou nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (t. a demonstração verdadeira foi encontrada mais tarde pelo génio de Abel. No que respeita às séries. disse-me há anos o ilustre matemático Zeuthen. No que respeita às potências. leis que indica e que hoje se chamam propriedades combinatórias. Francisco Simões Margiochi. que a Memória perdida era certamente notável. publicada em 1812 nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (t. que podem representar números ou objectos. é necessário conhecer o limite do erro que resulta dela para cada elemento desconhecido do triângulo dado. Deve-se ainda a Valente do Couto uma dissertação filosófica notável sobre a génese das operações em Aritmética e Álgebra. porque o trabalho de Olivier foi publicado em 1826 no Jornal de Crelle e o de Margiochi fora já publicado antes. Existe outra memória de Margiochi. o autor considera as operações algébricas como combinações de letras. sob o título de Fundamentos da Algoritmia que devo aqui mencionar. mais fáceis de resolver. A conclusão é exacta. em 1821. na sua Memória. III. anteriormente aqui analisados: quero referir-me à doutrina das séries e à doutrina geral das potências. mas estão ambos em erro. atribui a Luiz Olivier o ter dado pela primeira vez aquela forma das raízes e este método. Margiochi reune em síntese geral as doutrinas relativas às quatro dos quatro primeiros graus e. O modo como Margiochi estuda estas duas questões não difere essencialmente da que empregara Anastácio da Cunha e é estranhável que o não cite. III. fica de aproveitável uma forma das raízes que o levou a um método uniforme para a resolução das equações dos quatro primeiros graus. apresentam ambos os mesmos teoremas. Ora. Com efeito. Agora vamos falar dos que consagrou àquelas ciências. Há mesmo nela doutrina muito próxima das ideas modernas no que respeita ao assunto a que é consagrada. como nesta síntese não cabem as equações de grau superior ao quarto. conclue que estas equações não podem ser resolvidas algebricamente. premiada e publicada pela Academia das Ciências de Lisboa (Memórias da Academia das Ciências de Lisboa. Secretário daquela Academia. recorrem ambos como 95 . Rodolfo Guimarães. porque há nela doutrinas que têm relações com doutrinas dos Princípios matemáticos de Anastácio da Cunha. Seguindo o caminho aberto por Lagrange na célebre Memória que consagrou às equações algébricas. considera os diversos casos de resolução dos triângulos esféricos e dá fórmulas e Tábuas para em cada caso se calcular o grau de aproximação com que se obtêm os elementos procurados. no seu Catálogo. mas a demonstração é defeituosa. 1821) um trabalho sobre a resolução geral das equações algébricas. com as mesmas demonstrações e as mesmas lacunas. mais tarde citaremos alguns dos que consagrou a esta. em que pretende mostrar que as equações de grau superior ao quarto não são solúveis por meio de radicais. 1814). e deixou trabalhos importantes sobre Matemáticas puras e sobre Astronomia. porque. sujeitos a certas leis que as caracterizam. por uma acta desta corporação se via que tinham sido muitos os concorrentes ao prémio proposto. professor na Academia Real de Marinha. publicada nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (t. Comecemos por mencionar uma Memória importante sobre métodos de aproximação em Trigonometria plana e em Trigonometria esférica. Para esta substituição ser aproveitada com confiança. seguindo uma indicação de Brocard. VII. É bem sabido que em muitas questões de Astronomia e Geodesia se substituem os triângulos pequenos por triângulos planos. Lastimando este facto.

definição a série da exponencial de Newton. trabalho que merece atenção porque nele se encontra um método para a resolução das equações numéricas do qual não difere essencialmente o que deu mais tarde. em 1819. sob o título de Ensaio sobre as brachistochronas. estudam as propriedades destas operações que são independentes da função e formam assim uma Álgebra simbólica que. a operação inversa desta. mas os resultados a que tal cálculo conduz não são nela estabelecidos com a clareza que deve ter uma boa demonstração. correspondentes a valores inteiros da variável. por meio de adições de series aritméticas. mas a exposição de Anastácio da Cunha é mais perfeita. que representam respectivamente: o valor que toma uma função quando às variáveis se dão aumentos determinados. mas a prova que pretende dar. II. publicaram conjuntamente uma Memória com o título de Cálculo das notações. Margiochi e Valente do Couto. etc. e apareceu em 1799 nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa. a operação inversa da anterior. sem contudo levar à convicção de que não se trata de um modo de demonstração. III). que. o matemático suíço Horner nas Phylosofical Transactions de Londres. seguindo ideas metafísicas de Wronsky. manejada como a Álgebra ordinária. semelhante ao de Valente do Couto. como fèz notar o falecido professor da Universidadc do Porto Dr. que muito esclarece a doutrina daquela. Lagrange e Laplace sobre certas questões desta natureza. notou a analogia entre as potencias e as diferenças de qualquer ordem das funções. Leibniz notou a analogia entre as potências e diferenciais na fórmula que dá a derivada de qualquer ordem do produto de funções. Todavia. que foi publicada em 1814 nas colecções da Academia das Ciências de Lisboa (t. é fundamentalmente falsa. 1799). 96 . Laplace quis ir mais longe. Pelo que respeita à Mecânica. Inspiraram-lhes esta Memória trabalhos de Leibniz. Lagrange. mas Lorgna mostrou que a não tinha. deixou um intitulado Reflexões sobre certas somações dos termos das séries aritméticas aplicadas às soluções de diversas questões algébricas. pretendendo criar um cálculo simbólico desta natureza com força de demonstração. mas sim de analogias. tem por autor Francisco de Paula Travassos. há pouco mencionado. Margiochi e Valente do Couto pretendem remediar os defeitos da doutrina de Laplace na exposição sistemática do cálculo das operações feito na Memória mencionada. Este método apareceu a Dantas Pereira como consequência de um estudo sobre o círculo dos valores numéricos de um polinómio inteiro. Luiz Woodhouse em uma comunicação apresentada no Congresso das Associações Portuguesa e Espanhola para o Progresso das Ciências. seguindo na mesma via. Encontra-se neste mesmo trabalho um estudo interessante sobre as operações algébricas consideradas sob o ponto de vista combinatório. À Memória de que acabamos de falar juntou outra Francisco de Paula Travassos. a diferença entre os dois estados da função. aplicando-o a diversas questões. entre outros trabalhos. Os dois matemáticos de que acabo de falar. a diferencial da função e o seu integral. já aqui mencionado. Ajuntemos que Margiochi pretende demonstrar a fórmula de Newton directamente para o caso das potências de expoente inteiro como meio de sugerir a definição de expoente qualquer. publicado nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (t. mas tratado de um modo mais abstracto. É justo mencionar também aqui José Maria Dantas Pereira. professor na Academia dos Guarda Marinhas. o único tratado de interesse que se publicou em Portugal no período a que nos estamos referindo. evita longos cálculos em vários assuntos em que intervêm estes símbolos. Os autores consideram seis símbolos. obtiveram por meios simples resultados que pelos métodos ordinários exigem longos desenvolvimentos.

º Duas Memórias importantes publicadas por Mateus Valente do Couto nas colecções da Academia das Ciências de Lisboa (t. e aprovado pela Academia de Ciências de Paris26. e.º Um opúsculo de Francisco de Paula Travassos intitulado Método da redução nas distâncias observadas no cálculo das longitudes (Coimbra. observações de fenómenos. figuram em maioria os astrónomos. João III. Não admira. Pedro II. 1823) sobre os princípios em que se deve fundar qualquer método de calcular a longitude geográfica de um lugar tendo em atenção a figura da Terra e sobre a influência do erro que pode cometer-se nos ângulos horários do Sol e da Lua quando se não atende à figura da Terra. Jorge. que não conhecia o opúsculo de Travassos. que.. de Sousa Pinto publicado no t. V do Instituto de Coimbra. As observações do astrónomo português 26 Ver um artigo do Dr. A sua cultura começara em Sagres com o Infante Navegador. 1805). pelo Observatório Astronómico fundado pelo Imperador D. Paula Travassos aplica-lhe o método de Lagrange. onde o autor apresenta um novo método para o cálculo das distâncias lunares. para assim dizer. Mas os trabalhos dos astrónomos deste período referem-se geralmente a questões de índole técnica: composição de Tábuas numéricas úteis. vivendo em tempos de maior prosperidade nacional do que os que se seguiram ao da morte do grande cosmógrafo de D. atingira o seu esplendor com Pedro Nunes e rejuvenescera com Monteiro da Rocha. o prelúdio da cultura astronómica realizada mais tarde. teve maior número de discípulos e continuadores distintos do que aquele tivera. depois por Leibniz e Euler e por fim por Lagrange. Entre os astrónomos que trabalharam neste observatório distinguiu-se Custódio Gomes Vilas-Boas. a Astronomia tinha entre nós tradições fortemente enraízadas. e com a fundação de um observatório no Castelo de S. antes de aparecerem as da Universidade de Coimbra. medidas de coordenadas geográficas. recordaremos as que se referem à determinação das suas coordenadas. Além dos serviços feitos à Astronomia com a publicação de trabalhos sobre esta ciência que lhe foram apresentados. outros prestou a Academia de Ciências de Lisboa à mesma ciência com a publicação de Efemérides para uso das navegações. É bom recordar aqui que a primeira determinação da latitude desta cidade tinha sido feita por Mestre João. Astrónomos Na lista dos sábios que em Portugal se ocuparam das Matemáticas no período que estamos a considerar. além de numerosas observações meteorológicas muitas observações de alturas do Sol e de eclipses dos satélites de Júpiter com o fim de determinar as coordenadas geográficas do Rio de Janeiro. Inaugurou-os Bento Sanches Dorta. As observações de Sanches Dorta são. Os trabalhos astronómicos foram inaugurados no Brasil pelos portugueses antes de este país se separar da nação-mãe. entre as observações que nele fez.É bem sabido que o problema da curva de mais breve descida foi considerado pela primeira vez pelos irmãos João e Jacob Bernoulli. depois da separação. 2. 97 . e nenhum deles subiu ao estudo de problemas cosmológicos difíceis ou de questões altas de Mecânica dos Mundos. Os únicos trabalhos de astrónomos portugueses posteriores a Monteiro da Rocha que oferecem algum interesse sob o ponto de vista científico são os seguintes: 1. cujos resultados foram publicadas no volume III das Memórias da referida Academia. VIII. conjuntamente com uma notícia histórica muito interessante sobre os trabalhos realizados anteriormente por astrónomos nacionais e estrangeiros no Colégio de Jesuítas de Santo Antão e no Colégio dos Nobres para determinar aquelas coordenadas. supondo que o corpo é atraído por forças quaisquer e acaba por mostrar a falsidade de duas proposições dadas por Euler no seu tratado de Mecânica. etc. que lhe aplicou o seu método das variações. R. que mais tarde foi reinventado pelo astrónomo inglês Wils Brown. que residiu muitos anos naquela colónia portuguesa e ali fez nos anos de 1781 a 1788. astrónomo da expedição de Pedro Álvares Cabral.

ciência afim da Astronomia. É à teoria dos binários que é consagrada a Memória de Daniel a que nos estamos referindo. e assim terminaremos o quarto dos períodos em que dividimos a história das Matemáticas em Portugal. quando organizou os estudos. substituiu os momentos das forças. Francisco António Ciera. A sua actividade científica. Filipe Folque . paralelas e de direcções opostas (couples).. das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa. ano em que entrou para o professorado da Escola Naval. etc. e que deste modo conseguiu simplificar e iluminar a maior parte das teorias da Mecânica. empregados antes dele pelos geómetras como meios subsidiários para deduzir as condições de equilíbrio dos corpos. Esta série de memórias constitui uma história muito bem feita da Geodesia em Portugal. Começou-se com efeito em 1784 a fazer a triangulação do reino. filho de um dos Matemáticos chamados de Itália a Portugal pelo Marquês de Pombal. professor na Escola Naval e sócio de mérito da Academia das Ciências de Lisboa. que escreveu os seus principais trabalhos nos meados do século XIX. Foi Oficial de Marinha. Bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra. Entremeou desde essa ocasião o cumprimento dos seus deveres de professor com o estudo dos clássicos das Matemáticas e com profundas meditações. As réguas empregadas nesta triangulação para medir as bases. Este distinto astrónomo publicou nos volumes correspondentes a 1843. Por dever de sucessão no título de sócio de mérito da Academia das Ciências de Lisboa. Elogio que foi publicado nas Memórias daquela corporação e transcrita nos nossos Panegíricos e Conferências. mas foram depois interrompidos durante anos e só recomeçaram com regularidade nos meados do século XIX sob a direcção hábil do Dr. É bem sabido que Poinsot. trabalho de que foi encarregado o Dr. as fórmulas que se empregaram. Estes trabalhos principiaram com bastante desenvolvimento. por binários de forças iguais. 1848. No reinado de D. Vamos falar destas Memórias. Daniel Augusto da Silva Daniel Augusto da Silva. Aqui vamos resumir o que de mais essencial dissemos sobre a vida e escritos do ilustre geómetra português no Elogio mencionado. realizada na sua sala nobre. será o último matemático de que aqui falaremos. uma série de trabalhos notáveis consagrados à referida triangulação. que foi grande. Maria I começou a cultivar-se em Portugal a Geodesia. O principal inspirador de Daniel da Silva nestes primeiros trabalhos foi Poinsot e creio poder afirmar que o geómetra português se revela neles como um continuador digno do eminente matemático francês. manejando-os com suma habilidade. e em especial na parte relativa a decomposição dos binários em outros colocados em planos coordenados oblíquos. etc.. foram inventadas por Monteiro da Rocha. 98 . os ângulos e bases que se mediram.considerado foram publicadas nos tomos I e III das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (1797 e 1812). e com isto fecharemos este livro. cujos frutos foram três Memórias notáveis que apresentou à Academia das Ciências de Lisboa no intervalo de 1850 a 1852. Daniel Augusto da Silva nasceu em Lisboa em 16 de Maio de 1814. no seu belo tratado de Estática. empregando para isso uma representação geométrica nova destes grupos de forças. A Memória que primeiro compôs tem por título Da transformação e redução dos binários de forças. começou em 1845. outras vezes serve-se destes métodos para indagações próprias. onde são indicados os triângulos que se consideram. teoria que o nosso geómetra simplificou em muitos pontos. Algumas vezes ocupa-se naqueles trabalhos com inteligência notável dos métodos do eminente matemático francês. acompanhado tudo de uma critica judiciosa. pronunciamos o seu Elogio histórico em 1916 em sessão solene desta Academia.

onde entrou neste mesmo ano como sócio correspondente. Darboux e Daniel foi cuidadosamente feita por Fernando de Vasconcelos em uma Memória notável publicada no tomo VII dos Anais da Academia Politécnica do Porto. Möbius julgava que todo o sistema de forças que está em equilíbrio em quatro orientações diferentes. Daniel da Silva deu a proposição que deve substituir a proposição fundamental de Möbius e organizou-o completamente. organizou-o de um modo completo. A comparação dos trabalhos de Möbius. Em conclusão o capítulo de Mecânica chamado Astática é principalmente obra portuguesa. que deve substituir o de Möbius. se ocuparam deste assunto. Daniel da Silva sem conhecer aqueles trabalhos estudou o mesmo assunto. ocupou-se da mesma questão em uma comunicação feita. publicada em 1837. mas limitou-se a abri-la e Minding enriqueceu-a com um teorema notável. ambos o expuseram em estilo sóbrio. mostrando que há em geral quatro posições de equilíbrio e só quatro. Vinte e cinco anos depois da publicação da Memória do nosso matemático. foi confirmado pelos autores que. Minding. Daniel da Silva chegou a um resultado diferente. A terceira das Memórias de Daniel da Silva anteriormente mencionadas tem por título Propriedades gerais e resolução das congruências binómias. em 1876. Podemos resumir a história da Astática nos termos seguintes: Möbius ocupou-se dela. Este último enunciado. Darboux. foi publicado em 1851 e abriu ao autor as portas desta casa. predominando na Memória do geómetra português os primeiros. na sua Estática. a qual encerra ainda outros resultados interessantes que não vêm nem no trabalho de Möbius nem no de Darboux. Quero referir-me à determinação da orientação das forças de um sistema a que corresponde o seu equilíbrio. Há no trabalho de Möbius uma proposição fundamental que devemos fazer notar. à Academia das Ciências de Paris e em um trabalho publicado em 1877 nas Memórias da Sociedade de Ciências Físicas e Naturais de Bordéus. Os métodos usados por Daniel e Darboux para estudar a Astática são diferentes. claro e elegante. sem conhecer esta Memória. mas as proposições que deu estão contidas quase todas na Memória do geómetra português. em que o autor se revelou pela primeira vez como matemático de grande valor. porque é falsa e na Memória de Daniel encontra-se a que deve substituí-la. No primeiro trabalho há apenas demonstrações novas de doutrinas conhecidas. constitui actualmente um capítulo de Mecânica racional a que se dá o nome de Astática. e determina as diversas circunstâncias notáveis que acompanham esta mudança de orientação das mesmas forças. mas errou em uma proposição fundamental. Möbius abriu-o. e foi apresentada à Academia das 99 . e. Este trabalho é muito mais importante do que aquele de que primeiro falámos. deve estar em equilíbrio em todas as outras orientações. ambos estudaram o assunto com profundeza. A teoria importante a que é consagrado este trabalho. na de Darboux os segundos. a qual tem hoje aplicações notáveis em algumas questões de Física. Ambos empregaram simultâneamente meios geométricos e analíticos.O segundo trabalho composto por Daniel da Silva tem por título Memória sobre a rotação das forças em torno dos pontos de aplicação. mostra ele como variam os efeitos das forças aplicadas a um corpo. A impressão que produziu no espírito do nosso geómetra a circunstância de se encontrar na invenção de uma teoria importante com dois matemáticos eminentes estrangeiros exprimiu ele de um modo comovedor em uma carta que me dirigiu em 1877 e que se pode ler nos nossos Panegíricos e Conferências. o segundo constitui um estudo cheio de originalidade e profundeza de uma questão que a si mesmo propusera. penetrando nele profundamente. Apresentado à Academia das Ciências de Lisboa. publicado no tomo XV do Jornal de Crelle. Nesta bela e importante Memória. quando estas forças giram à roda dos seus pontos de aplicação. depois do geómetra português. conservando-se porém constantes os ângulos que fazem entre si.

no século XIX. Contém ainda a mesma Memória outros resultados notáveis relativos à alta teoria dos números. uma apreciação dela muito desenvolvida e muito bem feita. publicou na Revista de Física. no século XVIII. Lagrange. Gauss e Poinsot. em todas as quais há alguma coisa de original. Alasia. Legendre. A este respeito o autor conhecia os trabalhos de Euler. vamos reproduzir aqui o que dissemos nos nossos Panegíricos e Conferências: Alguns matemáticos empregam todos os seus esforços na exploração de novas regiões do Mundo dos números ou no estudo daquelas que outros anteriormente abriram. até que em 6 de Outubro de 1878. como a Memória sobre Mecânica há pouco mencionada. e o seu nome passou à história da ciência portuguesa. a sua alma desapareceu da cena do mundo. interessantes investigações sobre propriedades e cálculo das raízes modulares. Foi com efeito Daniel da Silva quem primeiro deu um método para resolver os sistemas de congruências lineares. O autor apresenta com efeito nela demonstrações novas das fórmulas dadas por Euler e Poinsot para determinar o número de números primos com um número dado que lhe são inferiores. Outros vão principalmente buscar ao Mundo dos números os elementos de que carecem para estudar o Mundo físico. onde ficou a ocupar um lugar distinto. uma fórmula nova para determinar a soma daqueles números. uma grave doença impediu-o de continuar a trabalhar. Actuária e Física. que o seu nome merece figurar na lista dos que a fundaram. a este respeito. foi o da resolução das congruências binómias. e enriqueceu-a com resultados tão importantes e gerais.Ciências de Lisboa em 1852. e foi também quem primeiro fez o estudo geral das congruências binómias. teoria pertencente simultâneamente ao domínio da alta Aritmética e da alta Álgebra. mas teve de descer a assuntos mais modestos. até que. Está neste caso Monteiro da Rocha. um matemático italiano de muito mérito. Esta Memória importante ficou. Apresentou então a Academia das Ciências de Lisboa uma Memória intitulada De várias fórmulas novas de Geometria analítica relativas aos eixos de coordenadas oblíquas e Notas sobre diversas questões de Geometria. Quem leu este livro notou de certo que nesta história sobressaem quatro nomes: Pedro Nunes. e Daniel da Silva. Viveu em luta pertinaz com aquela doença que o não deixava entregar-se quanto queria a ciência da sua predilecção. Depois de os escrever. Está neste caso Anastácio da Cunha. Matemática e Ciências Naturais de Pavia. Mecânica. O principal assunto que considerou. injustamente esquecida durante cerca de meio século. Outros matemáticos procuram segurar lògicamente domínios anteriormente explorados. Final Está terminado o nosso programa: expor a história da cultura das Matemáticas em Portugal desde a origem até ao meio do século XIX. 100 . honra que tem sido indevidamente atribuída ao distinto aritmético inglês Smith. no século XVI. do que brilhara nos trabalhos anteriores no manejo dos métodos da Geometria pura. em 1903. É um trabalho sobre a teoria dos números em que o autor não brilha menos no manejo do cálculo. uma generalização de um teorema célebre de Fermat e Euler. que só em 1861 se ocupou deste assunto. Monteiro da Rocha e Anastácio da Cunha. Está neste caso Daniel da Silva. Pertencem à alta Aritmética os assuntos estudados pelo nosso matemático nesta Memória. Mais tarde melhorou um pouco e pôde continuar as suas indagações científicas. etc. a demonstração directa de uma fórmula de Gauss. É interessante compará-los e. a que este grande geómetra chegou por um caminho indirecto e que julgava difícil obter por meios directos. Acabamos de falar dos principais trabalhos de Daniel da Silva.

Pedro Nunes deu àquele Mundo a sua Álgebra. foi procurar nestas ciências o que têm de belo. Daniel da Silva deu ao Mundo dos números a sua Astática. Está neste caso Pedro Nunes. e foi lã buscar os elementos para resolver os problemas propostos à Astronomia pela Náutica do seu tempo e para resolver diversas questões da Física Celeste. o espírito de Pedro Nunes.. inspirado ao mesmo tempo pelas teorias da ciência grega e pelas necessidades das navegações portuguesas. o seu talento tinha principalmente uma feição prática. foi procurar nelas o que têm de útil. foi aí procurar simultâneamente o belo e o útil. FIM 101 . resolveu com habilidade notável problemas geométricos e astronómicos mais ou menos difíceis. um realista. Daniel da Silva. Anastácio da Cunha deu-lhe os Princípios Matemáticos. não criou teorias. poeta das Matemáticas. sem se importar com as aplicações deste capítulo da Mecânica racional. Monteiro da Rocha não concorreu para o progresso do Mundo dos números. que ficou célebre entre as obras consagradas a esta disciplina que fazem a passagem da Ciência helénica para a Ciência moderna. a par de grandes defeitos há ideias finas para o seu tempo sobre a exposição rigorosa das doutrinas então clássicas. Monteiro da Rocha. livro onde. e deu-lhes também as suas belas investigações sobre as congruências binómias. que outros fizeram depois.Outros enfim contribuem com os seus trabalhos ao mesmo tempo para o progresso do estudo do Mundo físico e do Mundo dos números.

O assunto central é a resolução de equações. as linhas de rumo são curvas em espiral que se aproximam dos pólos dando um número infinito de voltas em redor deles. que tem reunido com periodicidade aproximadamente anual (a 7(a) reunião teve lugar em Coimbra em Novembro de 1995). Esta obra de Pedro Nunes está actualmente a ser objecto de pormenorizada análise por Anabela Simões Ramos. culminando no De arte atque ratione navigandi (Opera. Jaime Carvalho e Silva. Bosmans. Destacamos a seguir algumas obras de Pedro Nunes: 1) Numa sucessão de estudos. 3) Uma das obras maiores de Pedro Nunes é o Libro de Algebra en Arithmetica y Geometria (Antuérpia. após a transferência definitiva desta para Coimbra. por autores nacionais e estrangeiros. esclareceu que as linhas de rumo isto é. Desta obra se ocupou longamente um especialista na história da Álgebra quinhentista. 1. Nesses trabalhos o matemático francês expunha "soluções" para vários problemas clássicos. 1566). Pedro Nunes enuncia duas propriedades desejáveis para os mapas: a de preservação de ângulos. 1546. sem prejuízo da necessidade de estudos e investigações adicionais. o primeiro ocupante da nova cadeira de Matemática da Universidade. com ênfase em pontos que têm merecido. Basileia. e devem continuar a merecer. Uma eventual inspiração de Mercator em Pedro Nunes permanece matéria de controvérsia. João Filipe Queiró Departamento de Matemática . Estes requisitos são exactamente o que tornou o grande mapa do mundo de Mercator (1569) tão útil na navegação. e a representação de linhas de rumo por linhas rectas. destaca-se em primeiríssimo plano a figura de Pedro Nunes (1502-1578). Basileia 1592) contém uma lista de severas correcções de Pedro Nunes a dois trabalhos do matemático francês Oronce Fine (1494-1555).APÊNDICE Algumas notas Sobre a História da Matemática em Portugal António Leal Duarte. o Tratado em defensam da carta de marear (Lisboa. 1537). Nesta conferência procede-se a um brevíssimo sumário dos três grandes períodos em que se pode dividir a História da Matemática em Portugal. a atenção dos matemáticos portugueses interessados nestas questões.Universidade de Coimbra. a quadratura do círculo. e aliás em toda a História da Matemática portuguesa. Os seus livros têm sido analisados e comentados. incluindo a duplicação do cubo. Portugal (texto da conferencia a apresentar no Encontro HEM 96 de Braga) Nos últimos oito a dez anos. e. 2) A obra De erratis Orontii Finæi (Coimbra. H. 1567). as rotas seguidas quando se mantém constante o ângulo com a agulha magnética não são geodésicas (arcos de círculos máximos) e compreendeu a sua verdadeira natureza: com excepção de casos triviais (os meridianos e os paralelos) em que são circulares. e na sequência do entusiasmo que acompanhou as comemorações do 200° aniversário da morte de José Anastácio da Cunha. Pedro Nunes. na sequência de uma pergunta de Martim Afonso de Sousa regressado de uma viagem ao Brasil. a construção de polígonos regulares (todas questões só completamente esclarecidas no século XIX) e mesmo a determinação da longitude. Num dos estudos em que tratou das linhas de rumo. na publicação de trabalhos de índole vária e sobretudo na criação de um Seminário Nacional de História da Matemática. A Matemática em Portugal antes de 1772 (João Filipe Queiró) Neste período. concluindo-se com alguns comentários sobre a nossa historiografia da Matemática. que redigiu em espanhol. tem-se observado um interesse crescente pelo estudo da História da Matemática em Portugal. Esse interesse traduziu-se na realização de alguns colóquios temáticos. é hoje possível ter uma ideia da importância e do significado da obra do grande matemático português. 102 .

o professor de Coimbra Joaquim de Carvalho. "Fuera de una y otra nación [Portugal e Espanha] vivió espiritualmente". Traço distintivo são a abstracção e generalidade com que são tratadas as teorias e apresentados os problemas. incluindo o aplauso de Tycho Brahe e as citações que dela faz Clavius. muito resumido e incompleto. Esta apreciação é adequada também ao Libro de Algebra e. Aritmética. são os nomes de Grienberger (mais tarde sucessor de Clavius no Colégio Romano). no caudal dos conhecimentos exactos que constituem património da Humanidade" (Anotações ao De Crepusculis. entrando e fluindo. (A este respeito. náutica e cartografia. em particular italianos e alemães. Capassi e Carbone. 1542. estando a série interrompida há quase 40 anos. Pedro Nunes é o nosso primeiro exemplo de cientista "puro". Para ajudar a assegurar esse serviço. agora em resposta a uma pergunta do príncipe D. Os dois últimos estão associados à criação do Observatório Astronómico do Colégio de Santo Antão. Importante obra de transição antes de Viète (Bosmans diz de Pedro Nunes que foi "um dos algebristas mais eminentes do século XVI"). No Colégio jesuíta de Santo Antão. 4) No livro De Crepusculis (Lisboa.sobretudo do 1° grau ao 3°. e merece bem uma reanálise moderna (há um estudo muito recente de Carlos Vilar). Borri (que na primeira metade do século XVII divulgou entre nós as manchas solares e Galileu). diz Joaquim de Carvalho que ela "logrou a consagração inerente às explicações científicas. Pedro Nunes foi cosmógrafo-mor do Reino a partir de 1547. Basileia. que ficaram manuscritas. Henrique o futuro Cardeal-Rei . alguns com trabalhos de astronomia. para quem as exigências de precisão e rigor são uma constante. praticamente desde a morte do seu grande impulsionador. diz J. determinou a data e a duração do crepúsculo mínimo para cada lugar no globo. em que são frequentes as suas defesas altivas da superioridade do saber científico. que chegou a ter frequência apreciável.) O matemático português foi. etc. foram publicados quatro. pública. um cargo criado nessa data. 1573) analisou Pedro Nunes. já se vê). São estudadas as operações com polinómios. Para além da Matemática aplicada à navegação. sobre outras actividades matemáticas em Portugal nos séculos XVI a XVIII. nomeadamente em Coimbra. é interessante referir as querelas que teve com contemporâneos. Geometria. por exemplo a tempo do 5(o) centenário do nascimento de Pedro Nunes. Teve traduções em latim e francês. na verdade. Uma das obrigações do cosmógrafo-mor era uma aula diária de Matemática (aplicada à náutica. em cumprimento do encargo dado pelo Rei D. a toda a obra matemática de Pedro Nunes. Este problema ocupou os irmãos Bernoulli século e meio mais tarde. aí se estudava Astronomia. O cargo foi abolido em 1779 para dar lugar à Academia Real de Marinha. 1571. em Lisboa. O De Crepusculis foi por vários comentadores considerado a obra-prima de Pedro Nunes. "a extensão do crepúsculo em diferentes climas". 1926). Capassi partiu em 1729 para o Brasil com outro professor jesuíta. 1943). um caso único. João V de elaborar o mapa do grande Estado 103 . Stafford. por vezes públicas. Estancel. vieram muitos professores estrangeiros. Coimbra. vol. funcionou desde fins do século XVI até ao século XVIII uma Aula de Esfera. e os raciocínios com letras são independentes de considerações geométricas. Diogo Soares. tiveram os jesuítas aulas de Matemática. A Academia das Ciências de Lisboa iniciou nos anos 40 um notável projecto de publicação das Obras de Pedro Nunes. nomeadamente "práticos". em vários colégios. muitas vezes anonimamente. Gomes Teixeira faz interessantes observações comparativas dos métodos usados pelo português e pelos irmãos suíços. o Libro de Algebra foi muito conhecido e citado na Europa (entre outros por Wallis). neste século e no seguinte. Além de Santo Antão e da Universidade de Évora. Madrid. em 2002. Pedro Nunes adopta a notação literal. Dignos de registo. II. Seria uma pena que a publicação não fosse completada. “Obras de Pedro Nunes”. Dos seis volumes previstos. Entre outros resultados. Rey Pastor (Los matemáticos españoles del siglo XVI. Deixamos a seguir um apontamento. Lisboa. Ao mencionar as repercussões da obra na Europa. aliás não só em Portugal como em toda a Península Ibérica. Pela primeira vez aparecem demonstrações algébricas gerais rigorosas.

Dentro e fora do país. da Congregação do Oratório. Parece inequívoco que. efemérides astronómicas. Quanto à situação geral do País. Manuel de Azevedo Fortes. Todos estes autores merecem análises modernas (só o último deles foi estudado em trabalhos recentes. nas nossas escolas. surgem vários portugueses interessados nas modernas tendências científicas. no período que nos vem interessando. Pormenor a reter é o de que muitas destas obras existem apenas em manuscrito. José Soares de Barros e Vasconcelos. cometas). Aí se observa que as Ciências em geral e a Matemática em particular tinham atingido na Universidade um nível muito baixo. de Resina Rodrigues e Ana Isabel Rosendo). A Matemática em Portugal de 1772 a 1910 (Jaime Carvalho e Silva) A Reforma em 1772 da Universidade. atlas e cartas (incluindo plantas de fortalezas). Já o jesuíta suíço João König. Com o patrocínio do Estado ou nas escolas da Companhia de Jesus. Data desta altura a criação da Aula de Fortificação e Arquitectura Militar. com a guerra da independência. a Matemática portuguesa não acompanhou nem tomou parte nos grandes avanços da época. Em Dezembro de 1770 é nomeada a Junta da Providência Literária. geometrica e analytica (Lisboa. com a sua Recreação Philosophica. menos ainda é preciso evocá-la como pano de fundo para tudo o resto. astrónomo em Lisboa. Muito mais tarde. 1737). os nomes de Jacob de Castro Sarmento (com uma newtoniana Theorica verdadeira das marés. multiplicam-se os sinais de uma mudança de ambiente. Interessante é a frequência de registos de observações astronómicas (eclipses lunares. mesmo da Matemática elementar. representa a maior alteração qualitativa e quantitativa do panorama da matemática em tão curto espaço de tempo alguma vez empreendida em Portugal. ou aplicada. aritmética aplicada a actividades financeiras.transatlântico. autor de uma Logica racional. entre outros. Desta breve resenha o que ressalta é a feição prática. astrónomo muitos anos em Paris. por cá não haver quem o fizesse. Nota-se uma clara predominância de obras dedicadas a temas dentro do que se poderá chamar Matemática Aplicada: náutica. têm interesse os estudos de Matemática aplicada à artilharia em unidades e academias militares. Londres. abandonou o ensino quatro anos depois. 1744). estudam-se matérias vistas como correspondendo a necessidades concretas imediatas do País. para elaborar um mapa de Portugal. o que produzia uma explícita atitude de recusa genérica da novidade na instrução. Ocorrem. 2. desde 1537 definitivamente instalada na cidade de Coimbra. Manuel de Campos e Inácio Monteiro. por ordem do Governo. geometria aplicada à fortificação. que apresenta o seu relatório em Agosto de 1771 no "Compêndio Histórico do Estado da Universidade". A elaboração de mapas é aliás uma das vertentes principais da actividade matemática neste período. Também em Santo Antão se deu atenção a estes tópicos. recebem impulso os estudos de Matemática aplicada às actividades militares. e os jesuítas Eusébio da Veiga. no século XVIII. vaga há muito tempo. que ela sugere sobre o estudo da Matemática em Portugal neste período. Na primeira metade do século XVIII. engenheiro. chamado em 1682 para ocupar a cadeira de Matemática da Universidade de Coimbra. Os seus reflexos na nossa vida matemática (ou falta dela) decorrem basicamente do facto de que os grandes progressos científicos da época estiveram em geral associados a propostas filosóficas contra as quais as autoridades políticas e religiosas nacionais estavam em prevenção constante. entretanto. O quadro mental e cultural português no período em causa está suficientemente documentado e estudado e não é necessário recordá-lo aqui. e ao não cultivo da Matemática "Pura" poderá ser associada a necessidade frequente de recrutar professores estrangeiros para assegurar o ensino. de tal modo que nos 60 anos anteriores à Reforma a única cadeira de Matemática de toda a Universidade não 104 . A consulta da lista dos trabalhos matemáticos redigidos em Portugal ou por portugueses neste período revela um panorama análogo. A partir de meados do século XVII. Teodoro de Almeida.

) não serão por mim attendidos em opposição alguma. nos Estatutos da Universidade aprovados em Outubro de 1772 com grande pompa e solenidade e na presença do Ministro do Rei D. com um rigor notável." E são mesmo indicadas penas para quem diminuir a importância dos estudos matemáticos: "Todos aquelles. que façam às cadeiras das suas respectivas Faculdades. desde 1807. que Ellas não somente e em rigor. como na sublime e admiravel especulação das suas doutrinas. 1832-1833 e 1833-1834 (outras instabilidades políticas posteriores também se reflectiram na 105 . mortos outros. A Matemática é colocada numa posição muito elevada nesses Estatutos: "Têm as Mathematicas uma perfeição tão indisputável entre todos os conhecimentos naturais.sciência importante ao bem comum do Reino. sejam criadas duas novas Faculdades: a de Matemática e a de Filosofia (Natural). Para se ter uma ideia melhor da amplitude desta formação.. e ornamento da Universidade. e a de diferencial de uma função. toda a actividade científica foi grandemente reduzida. assim na exactidão luminosa do seu Método. Nesse documento a Matemática era considerada ". pelo que é de salientar o aspecto multiplicador que teve a criação da Faculdade de Matemática em Coimbra. muitos professores foram forçados a abandonar o seu lugar. Um dos principais impactos da criação da Faculdade de Matemática foi na formação de especialistas em Matemática.. eis o quadro dos doutoramentos em Matemática na Universidade de Coimbra até ao fim do século XIX: Muitos dos doutorados ficaram professores da Faculdade de Matemática. até 1834. Muitos dos bacharéis e licenciados chegaram também a professores dessas escolas. que viria a ser bispo de Pequim e aí membro do muito importante Tribunal da Matemática. e Navegação. Uma das primeiras pessoas a doutorar-se depois da Reforma de 1772 foi Frei Alexandre de Gouveia. a definição de série convergente.. o Marquês de Pombal.tinha tido titular. 1828-1829. "Principios Mathematicos". o engenho. e a sagacidade do Homem. que directa ou indirectamente apartarem ou dissuadirem a alguem dos estudos mathematicos. o grande motor de todas as transformações. de formação essencialmente autodidacta. data do fim da guerra civil. Os alunos acorreram em pouco número. Infelizmente o impacto não foi tanto quanto o idealizou o Marquês de Pombal ou Monteiro da Rocha. data do início das Invasões Francesas. chegando mesmo a Universidade a estar fechada nos anos lectivos de 1810-1811. foi pouco lido e não parece ter influenciado grandemente o desenvolvimento da matemática. onde pretendia fornecer bases rigorosas a toda a Matemática da época. ou com propriedade merecem o nome de Sciencias. 1831-1832. que trabalhou em Métodos Numéricos e Astronomia. e José Anastácio da Cunha. aí se encontra pela primeira vez. que escreveu um tratado. merecem menção especial pelos trabalhos originais que produziram: José Monteiro da Rocha. a definição da função exponencial a partir da sua série de potências. exilados uns. mas outros tornaramse professores das diversas Academias Militares e das Academias Politécnicas de Lisboa e do Porto. Infelizmente o seu livro. (. a publicação de textos de matemática foi muito dificultada e a instabilidade política não foi propícia." Para a nova Faculdade de Matemática são contratados dois professores italianos e dois portugueses: estes. José I. mas também são as que tem acreditado singularmente a força." Não admira assim que. apesar de ter tido duas edições em língua francesa. redactor dos Estatutos e primeiro Director da Faculdade de Matemática.

O professor Luis da Costa e Almeida propôs mesmo ao Conselho Superior de Instrução Pública. Apesar da oposição da Universidade. que recolheu recensões 106 . não é vã nem estéril. Só depois do fim da guerra civil foi possível avançar com novas Reformas ao nível educativo. embora só a partir de 1797 começassem a aparecer os primeiros trabalhos de Matemática. "equivalente ao serviço de regência da cadeira". Contudo. Até meados do século XIX. Maria I. revelando que a matemática portuguesa estava a par da matemática produzida na época. Anastácio da Cunha. Dantas Pereira ou Daniel da Silva. dando uma real divulgação aos trabalhos portugueses. profundas e constantes. embora seja curta". que fosse atribuída uma "remuneração pecuniária" aos professores encarregados da composição dos compêndios. as principais publicações de matemática foram praticamente as das Memórias da Academia das Ciências. Os Estatutos de 1772 determinavam que se editassem livros para cada uma das cadeiras. não sem algumas dificuldades.funcionamento da Universidade. onde se preconizava a criação da "Congregação geral das sciências para o adiantamento. "esta quadra da história dos conhecimentos matemáticos em Portugal. Garção Stockler. o primeiro livro de texto original português que teve real impacto internacional foi o "Curso de Analyse Infinitesimal" em três volumes (1887-1892) de Francisco Gomes Teixeira. A Academia iniciou a publicação das suas Memórias em 1787. não é de todo falha de interesse. sendo o primeiro justamente de José Monteiro da Rocha sobre o problema de Kepler da medição de pipas e tonéis. Esta Academia teve uma actividade considerável até sofrer também o impacto das Invasões Francesas e da Guerra civil. A maioria dos trabalhos de Matemática publicados em Portugal nos fins do século XVIII e princípios do século XIX devem-se à Academia das Ciências. A Universidade e a Academia das Ciências retomaram a sua actividade. tendo estado ainda fechada em 1846-1847. com três escolas portuguesas a formar matemáticos e de algum modo a competir em brio entre si. como aconteceu com Monteiro da Rocha. até aos fins do século XVIII e depois nos primeiros anos do século XIX até que as perturbações políticas. mas muito poucos originais foram produzidos. É verdade que em Portugal eram recebidas as melhores publicações da Europa culta. Só a partir de 1857 começaram a ser obrigatoriamente publicadas na Universidade as dissertações de doutoramento. A investigação científica estava contemplada nos Estatutos de 1772. tendo também muitos artigos de matemáticos estrangeiros sido por este meio publicados em Portugal. desde o seu renascimento após a reforma da Universidade de Coimbra em 1772. mas frequentes vezes matemáticos portugueses desenvolviam métodos que eram mais tarde redescobertos por outros. é que se desenvolveram verdadeiramente as relações dos matemáticos portugueses com os seus colegas europeus. por iniciativa de Francisco Gomes Teixeira. Esbocemos ainda um breve panorama das publicações matemáticas em Portugal. progresso e perfeição das sciências naturais". fundada em Lisboa em 1799 pelo Duque de Lafões. Como afirma Luís Woodhouse na conferência de abertura da Secção de Ciências Matemáticas do Congresso conjunto das Associações Portuguesa e Espanhola para o Progresso das Ciências que se realizou em Coimbra em 1925. Só com o lançamento do Jornal de Sciencias Matematicas e Astronomicas em 1877. assim como noutros períodos mais curtos). Estavam assim criadas as condições para um salto qualitativo do desenvolvimento da matemática em Portugal. Foram feitas várias traduções. A Faculdade de Matemática e a Faculdade de Filosofia da Reforma Pombalina dariam origem à Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. tio da Rainha D. onde se encontram muitos trabalhos de interesse. Contudo tal intenção nunca passou do papel e os contactos com matemáticos estrangeiros eram muito limitados. acabaram por desagregar e dispersar os elementos vitais da sciência matemática portuguesa. em 1886. em 1837 foram fundadas as Academias Politécnicas de Lisboa e do Porto que em 1911 dariam origem às Faculdades de Ciências das também então criadas Universidades de Lisboa e do Porto.

Se se procurar. por motivos políticos. com excepção de Pedro Nunes. demitidos da Função Pública e obrigados a exilar-se fora do País.extremamente favoráveis no Bulletin des Sciences Mathématiques e no Bulletin of the American Mathematical Society. de um organismo especificamente encarregado da investigação científica. se tornam conhecidos fora de Portugal). Ruy Luís Gomes e Hugo Ribeiro). que foi adoptado durante muitos anos na Universidade e na Academia Politécnica do Porto. Infelizmente esta actividade foi em grande parte suspensa. A Matemática em Portugal desde 1910 (António Leal Duarte) Ao examinarmos a actividade matemática em Portugal até aos finais do séc. de facto. Actualmente existem em Portugal várias escolas de matemática de craveira internacional. por A. essa comunidade e a sua actividade são praticamente desconhecidas no estrangeiro. Sebastião e Silva). que só virá a ser criado em 1929 com o nome de Junta de Educação Nacional. Essa quebra inicia-se nos finais do séc. no caso da Álgebra. Sebastião e Silva. XIX com Gomes Teixeira. Este organismo. por Vicente Gonçalves e. XIX. em 1923. Mas. apesar de publicados em revistas portuguesas e por vezes escritos em Português. no caso da Análise. 3. de que se destacam as de Análise Funcional e Equações Diferenciais (iniciada por J. Nos anos cinquenta e sessenta devemos referir a acção de J. Este livro. Tiago de Oliveira). o qual pode ser considerado o introdutor da Álgebra Moderna em Portugal. Mira Fernandes (com vários trabalhos sobre Geometria Diferencial e Cálculo Tensorial publicados em revistas italianas) e J. XX que outros matemáticos portugueses começam a ser conhecidos no estrangeiro e a publicar os seus trabalhos nalgumas das melhores revistas estrangeiras da especialidade. são criadas duas novas Universidades e são criados ou reformulados outros institutos superiores. mas será já no séc. a principal característica que se nos apresenta é a do isolamento em que a comunidade matemática portuguesa quase sempre viveu. algumas das quais eram contribuições originais do próprio Gomes Teixeira. Vicente Gonçalves (cujos trabalhos. Almeida Costa. pois muitos dos seus principais animadores foram. levadas a cabo pelos governos republicanos. vê-se que há exactamente quatro obras de alguma dimensão que se podem considerar "Histórias da Matemática em Portugal": 107 . pelo Ministro da Instrução Pública. Refirase por exemplo A. de Álgebra (uma iniciada por A. Com as reformas educativas. quer como investigador e formador de uma nova geração de Matemáticos. nomeadamente na reformulação dos programas do ensino secundário. A historiografia da Matemática em Portugal (João Filipe Queiró) Justifica-se neste momento uma reflexão sobre os rumos que os estudos de História da Matemática poderiam ou deveriam tomar no nosso país. Ao contrário. António Sérgio. Nos anos trinta deste século assiste-se a uma modernização do ensino com a publicação de novos compêndios. a primeira característica que a actividade matemática nos apresenta durante o séc. Almeida Costa e outra iniciada por Luís de Albuquerque) e de Estatística (fundada por J. XX é a quebra deste isolamento. entre outras. É a esta geração que se deve a criação da Sociedade Portuguesa de Matemática e da conceituada revista de investigação Portugaliae Mathematica. Os anos quarenta vão ser extremamente férteis no que diz respeito à actividade matemática graças a uma nova geração de matemáticos (entre os quais se contam Aniceto Monteiro. a missão de enviar bolseiros para o estrangeiro. quer também como pedagogo. terá. 4. introduziu em Portugal muitas noções de análise avançada. Também na década de sessenta o ensino universitário passa por uma grande actualização de planos de estudo com a introdução de novas disciplinas (como a Topologia). talvez mais importante do que este aumento do número de Escolas seja a tentativa de criação.

por seu lado. na nota histórica com que se inicia a sua obra. e nessa leitura é praticamente um axioma que os dois séculos anteriores a Pombal foram uma época de trevas. entre os poucos nomes relevantes. Rodolfo Guimarães retoma ponto por ponto. Portugal tem na Matemática um período de esplendor no século XVI. Esta visão é reflectida exactamente no Ensaio de Stockler. Quanto a Stockler. digamos assim. tem como objectivo listar todos os textos matemáticos de autores portugueses. e essa visão tende a obscurecer certos períodos e a distorcer a abordagem ao nosso passado. Gomes Teixeira. A visão em causa é a visão. do liberalismo. e esse período é hoje estudado e analisado como qualquer outro na História de Portugal. 108 . que em Portugal esteve ligado ao florescimento da arte. Quase 100 anos depois da publicação do Ensaio de Stockler. O negrume é ainda maior quando se pensa no Humanismo de meados do século XVI. É significativo que nos últimos 60 anos não haja uma única tentativa de síntese neste terreno. O que se vai dizer a seguir não pretende menorizar estas personalidades e as suas obras. até à Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra. que influencia qualquer leitor que tente obter informação sobre o assunto. ou nas conquistas . ou publicados em Portugal. depois de uma nota histórica. da cultura e da ciência que acompanhou a era dos Descobrimentos. que. 1900-1909 História das Matemáticas em Portugal . que são basicamente as indicadas. Muito natural e compreensivelmente. "dominante" da História geral de Portugal no século XIX. 1819 Les Mathématiques en Portugal . esta visão tem uma leitura quase "de combate" sobre o passado recente.António Ribeiro dos Santos. foi um pioneiro. de obscurantismo. em que aparecem figuras importantes como José Anastácio da Cunha. e estrangeiros domiciliados em Portugal. Monteiro da Rocha e Daniel da Silva. O estudo da História Geral do nosso país evoluiu muito do século passado até hoje. sem nova informação. e cada um a seu modo foi importante contribuição para os estudos de História da Matemática no nosso país. É a visão das Luzes. recorde-se. dedica grande parte da sua História à análise aprofundada de quatro grandes figuras. Rodolfo Guimarães e Gomes Teixeira (o texto de Ribeiro dos Santos é um pouco marginal nesta questão) reflectem uma visão que se poderia chamar "antiquada" da História de Portugal. redutora.Rodolfo Guimarães. A visão atrás descrita. de intolerância e de ignorância. chegando quase a transcrever partes do livro anterior. Mas na História da Matemática não se saiu do sítio! A visão geral continua a mesma. a mesma visão. até ao fim do século XIX. Guimarães e Teixeira. parece hoje esgotada. em que se destaca Pedro Nunes.Francisco Gomes Teixeira. no caso o nosso passado matemático. uma maneira de ver as coisas. Anastácio da Cunha. Como os estudos sobre autores particulares e pontos de pormenor são raros (devem citar-se. Fique desde já claro que todos os quatro textos citados são de grande valor. mas a visão geral é ainda a mesma. e remetendo-nos permanentemente às mesmas fontes. E é significativo porque as "Histórias" existentes de alguma forma fixam um paradigma. sem prejuízo do grande valor e importância de autores como Stockler. Neste momento é apropriado ter as ideias claras e propor o que pomposamente se poderia chamar uma "mudança de paradigma".Memorias históricas sobre alguns matemáticos portugueses. temo-nos visto reduzidos à repetição sem fim dos mesmos pontos de vista. e o seu Ensaio foi obra marcante. não imita nem transcreve. depois um período de decadência que dura 200 anos. Pedro Nunes. A verdade é que os livros de Garção Stockler. por exemplo. a distância aumentou em relação à época da Inquisição e da influência dos jesuítas na sociedade portuguesa. Quanto a Gomes Teixeira. Ora bem.Francisco de Borja Garção Stockler. 1934 Atente-se nas datas. os de Vicente Gonçalves e Luís de Albuquerque). além de Gomes Teixeira. Rodolfo Guimarães. é de 1819. Em particular. da influência da Revolução Francesa. 1812 Ensaio histórico sobre a origem e progressos das Matemáticas em Portugal .

A continuar assim. Nada disto será feito se não houver ninguém que o faça.Mantiveram-se os matemáticos portugueses no século XIX minimamente actualizados em relação à Matemática europeia? Termine-se com o óbvio. Estes são os períodos que menos atenção têm recebido e surgem quase envolvidos numa aura de mistério. teve isso ligação essencial com o esforço dos Descobrimentos. Quem sabe se dentro de alguns anos que nunca poderão ser poucos não se estará em condições de escrever uma nova História da Matemática em Portugal? 109 . em 1578. longos períodos e muitos autores permanecerão em obscuridade na História da Matemática em Portugal.A confirmar-se um panorama de grande pobreza na nossa Matemática no período 15781772. de algumas hipóteses. e também do século XIX. ou tratou-se de uma singularidade absoluta? . Estudo da recepção em Portugal dos grandes avanços matemáticos dos séculos XVII e XVIII. Exemplos (entre outras possíveis): . Tudo isto dentro da consciência perfeita de que a História da Matemática em Portugal tem que ser uma História de fontes primárias. 3) Estudo. Temos de acreditar que esta é uma tarefa que vale a pena. mais ou menos numerosa. 2) Prioridade àquilo que se costuma chamar "História positiva": listagem de autores e obras (estendendo e completando o extraordinário trabalho de Rodolfo Guimarães). em 1772. com total abandono da repetição acrítica de fontes secundárias. Estudo dessas obras.Se sim. programa de edição (ou reedição) das mais significativas. a rotina das grandes viagens oceânicas. de matemáticos quinhentistas. anestesiante. que sugere queda de alguma (ainda que pouca) altura? Por outras palavras. as necessidades concretas resultantes do contacto com os territórios de destino e respectivas populações? . pior. que poderiam servir de baliza e orientação neste esforço. estudo das teses de Coimbra e das comunicações e memórias da Academia das Ciências de Lisboa. em particular a matemáticos portugueses. e a Reforma Pombalina.irremediavelmente datada e. localização de obras impressas e em manuscrito e sua microfilmagem. será adequado o uso da expressão "decadência".Existiu ou não ênfase quase exclusiva na "Matemática Aplicada" em Portugal nos séculos XVI a XVIII? . Para tal mudança adiantam-se como possíveis as seguintes linhas: 1) Prioridade ao estudo do período que medeia entre a morte de Pedro Nunes. e que ela cabe a matemáticos. com base no material recolhido. Quanto ao século XIX. terá Pedro Nunes sido o expoente de uma plêiade.

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