Escola eb 2,3 Adriano Correia de Oliveira Auto da barca do Inferno

Duas barcas para as almas

O Auto da barca do Inferno, de Gil Vicente, é uma das obras mais divertidas de toda a Literatura Portuguesa. A rir se dizem as verdades, a rir se castigam os costumes – assim o parece provar, mas bem à sua maneira, com um humor que oscila entre o cómico puro e a mais fina ironia, o autor desta “moralidade” dramática. Os alunos sabem que Gil Vicente utiliza três processos de cómico nas suas peças: o cómico de linguagem, de situação e de caráter. Mas importa saber a que outros meios recorre ele, no Auto da barca do Inferno, para construir toda a fantasia de juízos morais que condicionarão o destino das almas, nesse fim da vida terrena que leva ao julgamento dos atos praticados no mundo. A mitologia cristã instituiu três tipos de sentenças para as almas: o Paraíso como prémio daquelas que na terra praticaram o bem e que por isso merecem a santidade (caso dos quatro Cavaleiros da Ordem de Cristo, que não chegam aliás a ser julgados, pois que morreram combatendo ao serviço de Deus); o Purgatório (do latim purgare: limpar), para as almas que pecaram sem gravidade e que disso se arrependeram, sendo-lhes então dada a oportunidade de se purificarem e de seguirem depois para o Paraíso (parece ser o caso de Joane, o Parvo); por fim, o Inferno, castigo eterno dos pecadores sem perdão nem arrependimento (todos os outros: Fidalgo, Onzeneiro, Sapateiro, Frade, Alcoviteira, Judeu, Corregedor, Procurador e Enforcado). Fora, porém, desta mitologia cristã, o Auto da barca do Inferno deriva de um conjunto de símbolos que provêm da mais antiga tradição da Literatura – de Homero, o grego, e sobretudo de Virgílio, poeta latino, autor da Eneida. Virgílio é o criador da imagem visível e material do Inferno e dos Campos Elísios (Paraíso para os Cristãos), e também do caminho para ambos. Trata-se de um rio que desce até às profundezas do mundo inferior, separando-se aí em dois outros rios, e cuja travessia se faz numa barca – a barca de Caronte: a ele se tem de pagar o 1 Prof. Isabel Pessoa

outra religiosa cristã) para construir a moralidade e a alegoria do seu auto. que representa o bem e o reino de Deus. cujos valores absolutos aceita sem reserva nem distância. A intriga fundamental do Auto da barca do Inferno tem origem na imaginação do Juízo Final. O mito cristão é simbolizado pelo Anjo. Assim. mas uma moralização ou moralidade em nome ou em sintonia com a religião. antes de seguir também para o Céu. Não é uma obra essencialmente religiosa. E a espera ou permanência no cais (como sucede com Joane. preside ao destino de todos os mortos). o Parvo) bem pode significar o tal Purgatório da sua alma. cuja organização nos permite fazer uma leitura ideológica ou imaginária dos texos. o dia em que o mundo há de acabar e Deus esperará as almas para as julgar e sentenciar de acordo com os atos praticados em vida. mas um meio para separação definitiva dos bons e dos maus. o mito clássico de Caronte – o barqueiro da morte – muda-se para a figura do Diabo (personificação do mal e do Inferno. no cristianismo).3 Adriano Correia de Oliveira Auto da barca do Inferno óbulo do barqueiro. o cais de embarque das almas representa a sua presença ao tal juízo de Deus (que. embora ausente. ou seja. Os juízes presentes (Anjo e Diabo) são figuras omniscientes que não julgam: antes se limitam a revelar sentenças que parecem inscritas no destino (ou no mistério de Deus. alegações e contra-alegações de um julgamento moral. Gil Vicente joga com uma dupla mitologia (uma literária e clássica. E há nela algo de exemplar e definitivo: uma permanente atualidade. há que dizer que este auto de Gil Vicente está bem mais próximo do mundo terreno que do divino. Importa compreender que a alegoria é um conjunto de símbolos e imagens. O caminho bifurcado à esquerda e à direita leva.Escola eb 2. Por último. O Anjo e o Diabo sabem absolutamente tudo acerca do passado terreno e do futuro das almas. João de Melo 2 Prof. Isabel Pessoa . As conversas e peripécias desses recém-chegados ao cais não passam de inventários. uma hipótese acerca do grande segredo da morte. respetivamente. As duas barcas não são só um meio de transporte para o destino. o ausente da peça). um mal e um remédio para a angústia dos vivos e dos crentes. ao castigo e ao prémio eternos das almas.

Isabel Pessoa .3 Adriano Correia de Oliveira Auto da barca do Inferno 3 Prof.Escola eb 2.

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