SAMIZDAT

http://samizdat.oficinaeditora.com outubro 2011 ano IV
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Lorca

García

Participe da Revista SAMIZDAT
A Revista SAMIZDAT está de volta e contamos com a sua participação para manter o alto padrão das publicações. Aceitamos e estimulamos a participação de autores estreantes, pois o nosso objetivo é apresentar a maior diversidade possível de autores, gêneros e textos. Instruções para envio de obras 1 - Cada escritor poderá inscrever somente um (1) texto literário para publicação, de qualquer gênero - conto, crônica, poesia, microconto - e/ou qualquer número de textos teórico, como artigos de teoria literária, resenhas de livros, ou entrevistas, além de traduções de textos literários em domínio público, sob licença Creative Commons ou com a expressa autorização do autor. A temática é livre. O autor também deve enviar uma breve biografia. 2 - O limite máximo para cada texto literário é de mil (1000) palavras, ou 4 páginas em A4, fonte Times ou Arial 12, espaçamento 1,5. O envio dos textos não implica na aceitação automática, a seleção dependerá da quantidade de textos enviados, da qualidade literária e da disponibilidade de espaço na revista. A revisão dos textos é de responsabilidade de seus autores. O texto não precisa ser inédito. 3 - Os textos devem ser enviados até o dia 31 de janeiro de 2012 no corpo do e-mail para revistasamizdat@hotmail.com. Por favor, não enviar arquivos anexos. 4 - Os textos selecionados serão publicados na edição 32 da Revista SAMIZDAT na segunda quinzena de fevereiro de 2012, no site http://samizdat.oficinaeditora.com/ Os autores recusados não serão notificados da decisão. 5 - Os textos serão publicados sob licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas e o autor não será remunerado. O envio de textos implica na aceitação por parte do autor destes termos. 6 - os organizadores da edição especial se reservam o direito de não publicar a revista, caso o número de submissões não seja o suficiente para o fechamento da edição. Contamos com a sua participação! Atenciosamente, Henry Alfred Bugalho Editor

SAMIZDAT
ano IV outubro 2011

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ficina

García Lorca
e o Modernismo

Espanhol

Euclides da Cunha
e A Guerra de Canudos
O revés de Uauá requeria reação segura. Esta, porém, preparou-se sob extemporânea disparidade de vistas entre o chefe da força federal da Bahia e o governador do Estado. Ao otimismo deste, resumindo a agitação sertaneja a desordem vulgar acessível às diligencias policiais, contrapunha-se aquele, considerando-a mais séria, capaz de determinar verdadeiras operações de guerra. De tal modo, a segunda expedição organizou-se sem um plano firme, sem responsabilidades definidas, através de explicações recíprocas entre as duas autoridades independentes e iguais. Compôs-se a princípio de 100 praças e 8 oficiais de linha, e 100 praças e 3 oficiais da força estadual. Assim constituída, seguiu, a 25 de novembro, para Queimadas, sob o comando de um major do 9.° Batalhão de Infantaria, Febrônio de Brito. Simultaneamente o comandante do Distrito apelava para o governo federal requisitando, para a aparelhar melhor, 4 metralhadoras Nordenfeldt, 2 canhões Krupp, de campanha, e mais 250 soldados: 100 do 26° Batalhão, de Aracaju, e 150 do 33º, de Alagoas. Todo este aparato era justificável. Sucediam-se informações alarmantes, dando, dia a dia, realce à gravidade das coisas. À parte os exageros que houvessem, delas se colhia a grandeza do número de rebeldes e os sérios empecilhos inerentes à região selvagem em que se acoitavam. Estas novas, porém, baralhavam-nas sem número de versões contraditórias agravadas pelos interesses in-

Federico García Lorca (Fuente Vaqueros,1 Granada, 5 de junio de 1898 – entre Víznar y Alfacar, ibídem, 18 de agosto de 1936 ) fue un poeta, dramaturgo y prosista español, también conocido por su destreza en muchas otras artes. Adscrito a la llamada Generación del 27, es el poeta de mayor influencia y popularidad de la literatura española del siglo XX.

E o melhor da
novíssima geração

de autores do
Brasil e Portugal

SAMIZDAT 31
outubro de 2011
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Autores Adriana Vargas Daniel Delgado Queissada Emanuel R. Marques Erik K. Weber Henry Alfred Bugalho João Francisco João Manuel da Silva Rogaciano Joaquim Bispo July Anne A. Fernandes Léo Borges Lucas Pooch de Quadros Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Maristela Deves Mateus Medina Samuel Congo da Costa Telmo Marçal Zulmar Lopes

Editorial
Há pouco mais de ano havíamos publicado a edição de despedida da Revista SAMIZDAT. Foram 30 edições e centenas de textos publicados diariamente no blog do projeto. Acredito que nós, escritores, sentimos mais saudades da SAMIZDAT do que nossos leitores. Nestes nossos tempos, há tanta oferta e tamanha diversidade, que um tomba e milhares de outros se levantam e ocupam o lugar. Quantas revistas literárias surgiram posteriormente aos moldes da SAMIZDAT? Eu não saberia dizer, mas pessoalmente conheço pelo menos uma dúzia. Nunca tivemos a ilusão de ser insubstituíveis. Talento e labor é o que não falta entre os incontáveis aspirantes a escritores ao redor do mundo. Quase todos nós continuamos nossos trabalhos, alguns em silêncio, outros já obtendo os primeiros resultados destes anos de trabalho. Assistir às conquistas destes talentosos escritores que já compuseram, um dia, a equipe da SAMIZDAT enche-me de orgulho por já ter estado ao lado deles, lutando por um lugar ao sol. Não somos insubstituíveis, mas também não somos descartáveis. Enquanto restar vigor e esperança, estaremos por aqui. Nunca é tarde demais para recomeçarmos. Henry Alfred Bugalho

Textos de: Euclides da Cunha Federico García Lorca

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Sumário
Por que Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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reComeNdaÇÃo de Leitura Norwegian Wood, de Haruki Murakami autor em LÍNGua PortuGueSa Os Sertões
Euclides da Cunha

10 12

CoNtoS Desdémona

Joaquim Bispo Maria de Fátima Santos Henry Alfred Bugalho João Francisco Léo Borges

18 22 26 28 32 36 38 42 44 48

Morro Vermelho Estranha Vida Grande Prato

Invisibilidades A Dança do Copo

Emanuel R. Marques Maristela Scheuer Deves

Uma Cidade Desassombrada Mais um Funeral O Carrossel

Lucas Pooch de Quadros João Manuel da Silva Rogaciano Erik K. Weber

O Poder Animal

Triatlo

Zulmar Lopes Samuel Congo da Costa

50 54

Todos aqueles que sobraram

traduÇÃo García Lorca

58

teoria LiterÁria Literatura em tempos de internet: utopia ou distopia? 62
Henry Alfred Bugalho

PoeSia Antirreflexo

Daniel Delgado Queissada Mateus Medina

66 68 70 65 74 76

A Rainha Sangrenta Sufoco

July Anne A. Fernandes Adriana Vargas

O crime do teu corpo Vácuo
Marcia Szajnbok Telmo Marçal

O escritor

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

Inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Recomendação de Leitura

Henry Alfred Bugalho

Norwegian Wood,
de Haruki Murakami
10 SAMIZDAT outubro de 2011

Dois estereótipos básicos que povoam a imaginação do Ocidente quando se fala em Japão são: os samurais, e de um povo sistemático e extremamente bem comportado. Justamente por isto que os livros de Haruki Murakami representam um divisor de águas nesta nossa compreensão equivocada da “Terra do Sol Nascente”. Seus personagens são muito mais próximos da gente do que imaginávamos, com os mesmos conflitos, mesmos dramas, mesmas esperanças, até os mesmos gostos, só que com olhinhos puxados. Talvez Murakami seja o mais ocidental dos autores japoneses, mas o mais provável é que ele apenas tematize a condição humana, o que imediatamente nos une, brasileiros, americanos, japoneses ou indianos. “Norwegian Wood” foi o romance que trouxe notoriedade a Murakami em

1987. O título, inspirado na canção homônima dos Beatles, já antecipa muito do clima do final dos anos 60, da rebeldia e do rockand-roll. O protagonista é Toru Watanabe e acompanhamos sua juventude através de alguns flashbacks. O universo de Murakami pertence ao domínio da memória, daquelas recordações indeléveis que nos tornam as pessoas que somos hoje. Watanabe é um jovem em busca de um rumo. A universidade não o agrada, não tem muita ideia de como será seu futuro, sabe que gosta de música e de literatura, mas, de resto, é como um Holden Caulfield (de “O Apanhador no Campo de Centeio”) à procura da própria identidade. Watanabe pertence a uma geração movida a sexo, música e bebida, e o acompanhamos através de seus amores e decepções, por

todo o turbulento processo de passagem da adolescência para a idade adulta. O grande mérito de Haruki Murakami, além de retratar o Japão com um novo olhar, é o de representar as inquietações de todos os jovens neste processo de transição, dos medos e da aquisição de responsabilidades. Os diálogos entre os personagens são brilhantes e de um realismo impressionante, possivelmente extraídos da própria história pessoal do autor. “Norwegian Wood” é uma leitura agradável e rápida, porém de uma profundidade existencial que destoa de sua aparente acessibilidade. Murakami consegue a proeza de propôr profundas questões sobre a vida, sem ser tedioso ou complexo. É simples e belo, como a vida deveria ser.

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Autor em Língua Portuguesa

Os Sertões
12 SAMIZDAT outubro de 2011

Euclides da Cunha

(Excerto)

A guerra das caatingas
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais — guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heróico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias — se tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores. Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em

revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu. E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... As caatingas não o escondem apenas, amparamno. Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas, nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas, prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados. É que nada pode assustálos. Certo, se os adversários imprudentes com eles se afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se vão, marchando, tranqüilamente heróicos... De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro... A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra,

um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada vêem. Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras. E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora, irrompendo de toda a banda. Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de batalhões constritos na vareda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouvese uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas... Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis batendo em cheio nas fileiras. A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz; — e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A força, de baionetas caladas, rompe,

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impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o antagonismo formidável da caatinga. As seções precipitamse para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que Ihes arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos... Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras... Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a ordem dispersa do com-

bate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; —enquanto em torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem inflexivelmente os projetis do adversário. De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu. As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos... Reorganiza-se a tropa. Renova-se a marcha. A coluna estirada a dois de fundo deriva pelas veredas em fora, estampando no cinzento da paisagem o traço vigoroso das fardas azuis listradas de vermelho e o coruscar intenso das baionetas ondulantes. Alonga-se; afasta-se; desaparece. Passam-se minutos. No lugar da refrega , então, surgem, dentre moitas esparsas, cinco, dez, vinte homens no máximo. Deslizam, rápidos, em silêncio, entre os arbús-

culos secos... Agrupam-se na estrada. Consideram por momentos a tropa, indistinta, ao longe; e, sopesando as espingardas ainda aquecidas, tomam precípites pelas veredas dos pousos ignorados. A força vai prosseguindo mais cautelosa agora. Subjugam o ânimo dos combatentes, caminhando em silêncio, o império angustioso do inimigo impalpável e a expectativa torturante dos assaltos imprevistos. O comandante rodeia-os de melhores resguardos: ladeiam-nos companhias dispersas, pelos flancos: duzentos metros na frente, além da vanguarda, norteia-os um esquadrão de praças escolhidas. No descair de encosta agreste, porém, escancela-se um sulco de quebrada que é preciso transpor. Felizmente as barrancas, esterilizadas dos enxurros, estão limpas: escassos restolhos de gramíneas; cactos esguios avultando raros, entre blocos em monte; ramalhos mortos de umbuzeiros alvejando na estonadura da seca... Desce por ali a guarda da frente. Seguem-se-lhe os primeiros batalhões. Escoam-se, vagarosas, as brigadas pela ladeira agreste. Embaixo, coleando nas voltas do vale estreito já está toda a vanguarda, armas fulgurantes, feridas pelo sol, feito uma torrente escura transudando raios...

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E um estremecimento, choque convulsivo e irreprimível, fá-la estacar de súbito. Passa, ressoando, uma bala. Desta vez os tiros partem, lentos, de um só ponto, do alto, parecendo feitos por um atirador único. A disciplina contém as fileiras; debela o pânico emergente; e, como anteriormente, uma seção se destaca e vai, encosta acima, rastreando a direção dos estampidos. O torvelinho dos ecos numerosos, porém, torna aquela variável; e os tiros não revelados, porque o fumo não se condensa naqueles ares ardentes, continuam lentos, assustadores, seguros. Afinal cessam. Soldados esparsos pelos pendores pesquisam-nos inutilmente. Volvem exaustos. Vibram os clarins. A tropa renova a marcha com algumas praças de menos. E quando as últimas armas desaparecem, ao longe, na última ondulação do solo, desenterra-se de montões de blocos — feito uma cariátide sinistra em ruínas ciclópicas — um rosto bronzeado e duro; depois um torso de atleta, encourado e rude; e transpondo velozmente as ladeiras vivas desaparece, em momentos, o trágico caçador de brigadas... Estas seguem desenfluídas de todo. Daí por diante velhos lutadores têm pavores de crianças. Há estre-

mecimentos em cada volta do caminho, a cada estalido seco nas macegas. O exército sente na própria força a própria fraqueza. Sem plasticidade segue numa exaustão contínua pelos ermos, atormentado no golpear das ciladas, lentamente sangrado pelo inimigo, que o assombra e que foge. A luta é desigual. A força militar decai a um plano interior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-selhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo. Então — nas quadras indecisas entre a "seca" e o "verde", quando se topam os últimos fios de água no lodo das ipueiras e as últimas folhas amarelecidas nas ramas das baraúnas, e o forasteiro se assusta e foge ante o flagelo iminente, aquele segue feliz nas travessias longas, pelos desvios das veredas, firme na rota como quem conhece a palmo todos os recantos do imenso lar sem teto. Nem lhe importa que a jornada se alongue, e as habitações rareiem, e se extingam as

cacimbas e escasseiem, nas baixadas, os abrigos transitórios, onde sesteiam os vaqueiros fatigados. Cercam-lhe relações antigas. Todas aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades, lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados. O umbu desaltera-o e dá-lhe a sombra escassa das derradeiras folhas; o araticum, ouricuri virente, a mari elegante, a quixaba de frutos pequeninos, alimentam-no a fartar; as palmatórias, despidas em combustão rápida dos espinhos numerosos, os mandacarus talhados a facão, ou as folhas dos juás — sustentam-lhe o cavalo; os últimos lhe dão ainda a cobertura para o rancho provisório; os caroás fibrosos fazem-se cordas flexíveis e resistentes... E se é preciso avançar a despeito da noite, e o olhar afogado no escuro apenas lobriga a fosforescência azulada das cumanãs dependurando-se pelos galhos como grinaldas fantásticas, basta-lhe partir e acender um ramo verde de candombá e agitar pelas veredas, espantando as suçuaranas deslumbradas, um archote fulgurante... A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

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Euclides Rodrigues da Cunha
(Cantagalo, 20 de janeiro de 1866 — Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1909) foi um escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo, poeta e engenheiro brasileiro. Nasceu na fazenda Saudade, em Cantagalo (Rio de Janeiro), filho de Manuel Rodrigues da Cunha Pimenta e Eudóxia Alves Moreira da Cunha. Órfão de mãe desde os 3 anos de idade, Euclides passa a viver em casa de parentes em Teresópolis, São Fidélis e na cidade do Rio de Janeiro. Em 1883 ingressa no Colégio Aquino, onde foi aluno de Benjamin Constant, que muito influenciou sua formação. Em 1885, ingressa na Escola Politécnica e, no ano seguinte, na Escola Militar da Praia Vermelha, onde novamente encontra Benjamin Constant como professor. Contagiado pelo ardor republicano dos cadetes e de Benjamin Constant, professor da Escola Militar, durante uma revista às tropas atirou sua espada aos pés do Ministro da Guerra Tomás Coelho. A liderança da Escola tentou atribuir o ato à “fadiga por excesso de estudo”, mas Euclides negou-se a aceitar esse veredito e reiterou suas convicções

republicanas. Por esse ato de rebeldia, foi julgado pelo Conselho de Disciplina. Em 1888, desligou-se do Exército. Participou ativamente da propaganda republicana no jornal A Província de S. Paulo. Proclamada a República, foi reintegrado no Exército recebendo promoção. Ingressou na Escola Superior de Guerra e conseguiu ser primeiro-tenente e bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais. Casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Frederico Sólon de Sampaio Ribeiro, um dos líderes da Proclamação da República. Em 1891, deixou a Escola de Guerra e foi designado coadjuvante de ensino na Escola Militar. Em 1893, praticou na Estrada de Ferro Central do Brasil. Durante a fase inicial da Guerra de Canudos, em 1897, Euclides escreveu dois artigos intitulados A nossa Vendeia que lhe valeram um convite d’O Estado de S. Paulo para presenciar o final do conflito como correspondente de guerra. Isso porque ele considerava, como muitos republicanos à época, que o movimento de Antônio Conselheiro tinha a pretensão de restaurar a monarquia e era apoiado por monarquistas residentes no país e no exterior. Em Canudos, Euclides adota um jaguncinho chamado Ludgero, a quem se refere em sua Cader-

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neta de Campo. Fraco e doente, o menino é trazido para São Paulo, onde Euclides o entrega a seu amigo, o educador Gabriel Prestes. O menino é rebatizado de Ludgero Prestes. Euclides deixou Canudos quatro dias antes do final da guerra, não chegando a presenciar o desenlace final. Mas conseguiu reunir material para, durante cinco anos, elaborar Os Sertões: campanha de Canudos (1902). Os Sertões foi escrito “nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante”, visto que Euclides se encontrava em São José do Rio Pardo liderando a construção de uma ponte metálica. O livro trata da campanha de Canudos (1897), no nordeste da Bahia. Nesta obra, ele rompe por completo com suas ideias anteriores e pré-concebidas, segundo as quais o movimento de Canudos seria uma tentativa de restauração da Monarquia, comandada à distância pelos monarquistas. Percebe que se trata de uma sociedade completamente diferente da litorânea. De certa forma, ele descobre o verdadeiro interior do Brasil, que mostrou ser muito diferente da representação usual que dele se tinha. Euclides se tornou internacionalmente famoso com a publicação desta obra-prima que lhe valeu vagas para a Academia Brasileira de Letras (ABL) e Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Divide-se em três partes: A terra, O homem e A luta. Nelas Euclides analisa, respectivamente, as características geológicas, botânicas, zoológicas e hidrográficas da região, a vida, os costumes e a religiosidade sertaneja e, enfim, narra os fatos ocorridos nas quatro expedições enviadas ao arraial liderado por Antônio Conselheiro.

Em agosto de 1904, Euclides foi nomeado chefe da comissão mista brasileiro-peruana de reconhecimento do Alto Purus, com o objetivo de cooperar para a demarcação de limites entre o Brasil e o Peru. Esta experiência resultou em sua obra póstuma À Margem da História, onde denunciou a exploração dos seringueiros na floresta. Ele partiu de Manaus para as nascentes do rio Purus, chegando adoentado em agosto de 1905. Dando continuidade aos estudos de limites, Euclides escreveu o ensaio Peru versus Bolívia, publicado em 1907. Escreveu, também durante esta viagem, o texto Judas-Ahsverus, considerado um dos textos mais filosófica e poeticamente aprofundados de sua autoria. Após retornar da Amazônia, Euclides proferiu a conferência Castro Alves e seu tempo, prefaciou os livros Inferno verde, de Alberto Rangel, e Poemas e canções, de Vicente de Carvalho. Visando uma vida mais estável, o que se mostrava impossível na carreira de engenheiro, Euclides prestou concurso para assumir a cadeira de Lógica do Colégio Pedro II. O filósofo Farias Brito foi o primeiro colocado, mas a lei previa que o presidente da república escolheria o catedrático entre os dois primeiros. Graças à intercessão de amigos, Euclides foi nomeado. Depois de sua morte, Farias Brito acabaria ocupando a cátedra em questão. Foi eleito em 21 de setembro de 1903 para a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Valentim Magalhães, e recebido em 18 de dezembro de 1906 pelo acadêmico Sílvio

Romero. Sua esposa, mais conhecida como Anna de Assis, tornou-se amante de um jovem tenente, 17 anos mais novo do que ela, chamado Dilermando de Assis. Ainda casada com Euclides, teve dois filhos de Dilermando. Um deles morreu ainda bebê. O outro filho era chamado por Euclides de “a espiga de milho no meio do cafezal”, por ser o único louro numa família de morenos. Aparentemente, Euclides aceitou como seu esse menino louro. A traição de Ana desencadeou uma tragédia em 1909, quando Euclides teria entrado na casa de Dilermando, armado, dizendose disposto a matar ou morrer. Dilermando reagiu e matou-o. Foi julgado pela justiça militar e absolvido. Entretanto, até hoje o episódio permanece em discussão. Casou-se com Ana. O casamento durou 15 anos. Este artigo ou seção foi marcado como controverso devido às disputas sobre o seu conteúdo. Por favor tente chegar a um consenso na página de discussão antes de fazer alterações ao artigo. O corpo de Euclides foi velado na Academia Brasileira de Letras. O médico e escritor Afrânio Peixoto, que assinou o atestado de óbito, mais tarde ocuparia sua cadeira na Academia. Encontrase sepultado no Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro. Fonte: Wikipédia

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Desdémona

Contos

Joaquim Bispo

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Quando Iago chegou a casa, a mulher, Emília, apressou-se a dar-lhe as novidades: – Já se começa a perceber muito bem qual vai ser o aspeto final do retrato da minha senhora. Ela está deitada num leito, toda nua, e do alto tomba uma chuva de ouro. Ao lado da cama, há uma velha que tenta apanhar algum desse ouro. Mestre Ticiano diz que o conjunto representa a figura mitológica de Dánae, engravidada por Júpiter sob a forma de chuva dourada. – Excelente! – rejubilou Iago. – Quando volta Desdémona a posar? – De hoje a uma semana. A minha senhora não quer dar azo a que o marido desconfie de nada. «Ah! Mal posso esperar para insinuar indignidades aos ouvidos de Otelo», congeminava Iago. «Se eu for bastante persuasivo, Desdémona será repudiada e não ficará em posição de ser insensível aos avanços de Rodrigo.» Uma semana depois, em casa de Otelo, este desvenda a Iago alguns

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dos aspetos militares que o preocupam: – O Turco está cada vez mais atrevido. Veneza está a pontos de perder Chipre e até de deixar de ser senhora do Adriático. O Conselho está a ultimar uma aliança com o Papa e com Filipe II de Espanha. Se esta aliança conseguir reunir uma grande armada, partiremos, a confrontar os asquerosos otomanos, nem que tenhamos de lhes dar batalha nas costas da Grécia. – Pensativo, continuou: – Não temo a batalha, mas constrange-me ficar tanto tempo longe da minha adorada. – Podeis ir descansado que ela não se sentirá infeliz, isto é – gaguejava Iago – terá o coração choroso, mas tudo faremos para que não pense muito em vós, isto é, que se distraia e só pense em coisas agradáveis, isto é, outras que não vós. – Meu bom Iago – esclarecia Otelo – ela ficará bem com certeza, mas vós ireis comigo. Não vos esqueçais que sois o meu alferes. – Sim, ficará bem. Disso não duvido. Fica-

rá até muito bem. Não que eu tenha alguma notícia que vós não saibais… – Que quereis insinuar? – espevitava-se o general. – Que sabeis, que eu não saiba? – Eu? Nada. Falei por falar. E mesmo que soubesse – espicaçava Iago – jamais a minha boca se abriria para denunciar a senhora da minha esposa. – A maneira como falais parece indicar que algo menos honroso se passa. Pela obediência que me deveis, dizei: o que sabeis? – impacientava-se Otelo. – E não temais pela vossa esposa, que sempre terá fidalgas a quem servir. – Se assim me intimais – condescendia Iago – só vos posso confidenciar que Desdémona se tem encontrado com um velho, a quem se expõe como Deus a deitou ao mundo. Não sei por que o faz, se por lascívia, se por comércio. – Quê? – esbracejou Otelo, sentindo-se atraiçoado. – Pois ela entrega-se a outrem? Provai o que dizeis ou despedi-vos da vida.

– Não mateis o mensageiro, senhor! Perguntai antes à vossa amada onde vai todas as semanas, neste dia. – Sim, sim, chamai-a já, que quero esclarecer este caso! – É inútil chamá-la – devolvia Iago – porque neste momento está ela a ser acariciada pelo olhar de Mestre Ticiano na Scuola Grande de S. Rocco. Parece que o Mestre tem predileção por corpos jovens e manifesta mesmo algum entusiasmo quando os seus pincéis acariciam a superfície da pintura, talvez fantasiando que acaricia a própria pele branca e sedosa de vossa esposa. – Pintura? Ticiano? Mas, pelas bombardas de popa, o que é que o velho quer de minha mulher? – surpreendiase o general. – Os velhos, às vezes, são os piores – aproveitava Iago. – Ele está a retratar vossa esposa como Dánae, engravidada pela chuva dourada de Júpiter. Isto não parece muito decoroso. – Oh, com mil raios da procela, que indignidade! Vou expor esse quadro na praça de S.

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Marcos, para que Veneza abomine essa devassa. De regresso a casa, Desdémona vê-se confrontada com a ira do marido: – Muito folgo de vos ver vestida – ironizou Otelo. – Tanto quanto sei, ainda há pouco oferecíeis o vosso corpo à lascívia dos olhares de quem o deve conhecer melhor do que eu. Desdémona quedouse muda e de olhar perplexo. Olhou em volta à procura da criada que lhe recusou o olhar. – Contai-me vós – continuou Otelo – por que vos expondes nua ao olhar de Ticiano! – Nua? – contrapôs Desdémona. – Nunca Mestre Ticiano viu o meu corpo. O meu rosto aparece num corpo nu, mas esse corpo foi o que escolhi, num conjunto de desenhos e gravuras que Mestre

Ticiano me deu a escolher, quando contratei a feitura do meu retrato. Só vou a S. Rocco para que ele retrate o meu rosto aplicado ao corpo escolhido. Agora, era a vez de Otelo ficar sem palavras. Mas, logo quis saber: – Afinal, por que bizarria andais nessas andanças? Por quê esse retrato? – Era para ser um segredo – explicou Desdémona, voltando a passar o olhar por Emília. – Vai fazer um ano que eu e vós nos unimos pela carne. Essa união do viço duma jovem como eu, com a força de um deus como vós, frutificou. Estou grávida. Sim, grávida – confirmou sorridente, perante o olhar assombrado do marido. – Quis fazer-vos uma surpresa e oferecer-vos uma imagem alegórica que evoque, todos os dias, esse primeiro encontro dos nossos cor-

pos, e o que dele resultou. O tema de Dánae foi ideia de Ticiano. Otelo ficou um bocado em estupor. Depois, berrou: – Iago! Estareis sempre na proa do barco dianteiro. Quero que os otomanos fiquem a conhecer as vossas feições. Podeis precisar dessas amizades no Inferno! Caprichosamente, quem não voltou da batalha foi Otelo, trespassado por uma bombarda turca. Desdémona, desgostosa, não resistiu à perda do seu amado. O seu corpo foi encontrado a boiar no Canal Grande. O quadro, no qual ela punha tanto empenho, acabou por ir parar a Madrid, oferecido por Ticiano a Filipe II, em agradecimento pelo apoio militar a Veneza.

Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa.

Joaquim Bispo

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Contos

Morro vermelho
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Maria de Fátima Santos

Ele designara a tarde como uma tarde muito fria e húmida. E a dizer isso, seguira adiante deixando Maria Teresa pespegada na berma do passeio. Seis passos. José Augusto tinha-os contado. – Está uma tarde muito fria e muito húmida e eu sinto-me incapaz de continuar a passear contigo, de mão dada, como se estivesse outro tipo de tarde. Assim dissera ele e, já a afastar-se, contara como se dissesse uma cegarrega: um, dois, três, quatro, cinco. José Augusto contou seis passos a andar de arrecuas, e a olhar para Maria Teresa. Ela enrolada no casacão de malha tinha o nariz vermelho de estar muito frio. Tinha também vermelhas as pontas dos dedos que José Augusto foi deixando de ter presos na sua mão. E ainda nem ele tinha terminado o primeiro passo, Maria Teresa perguntou: – Querias que estivesse uma tarde primaveril? com andorinhas a fazerem barulho? E quando José Augusto estava a dar balanço
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para o segundo passo, já a mão dela ficara dependurada no vazio da rua, Maria Teresa acrescia, em tom de espanto e de súplica: – Era uma tarde dessas que te apetecia, José Augusto?! Ela a pronunciar-lhe o nome num tom como se rezado, e o som das palavras a vibrarem vapores no ar da tarde, que era realmente uma tarde muito fria. E foi só depois de ter completado o sexto passo, que José Augusto seguiu pelo passeio – sempre em cima do passeio que ladeava a rua ao longo do rio. E José Augusto estugou o passo a esforçar-se por não pensar que ela ficava tiritando ao frio daquela tarde. Maria Teresa ficou a olhá-lo, a olhá-lo. Ela a olhar o movimento do homem a afastar-se. Não havia vivalma. Não havia uma réstia de sol. Estava um céu descido sobre o rio como colcha numa janela em fim de procissão. E ela a olhar. Já nem era José Augusto que Maria Teresa via lá ao fundo: o que ela via

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não era senão uma coisa indo. Uma coisa do tamanho das formigas que apareciam na borda da banheira. Era aos domingos. Maria Teresa, sem ter namorado, e nem uma amiga com quem fosse a uma matiné, com quem desse um passeio a ver as vistas sobre o rio. E ela abria a torneira da água quente e a torneira da água fria, e deixava que a banheira quase transbordasse, que a casa de banho ficasse um nevoeiro, e só depois se metia lá dentro, nuazinha. E ficava-se demolhando, a ler uns pedaços de revista que também amoleciam. Ou ficava a imaginar estórias nos desenhos que a água fazia nos azulejos. Ela a ver José Augusto ficar cada vez mais pequenino e o frio a entrarlhe por baixo da saia. Um dia estivera por ali sem meias. Fazia um frio danado. Fora quando? Nem se lembra. Mas lembra-se que José Augusto lhe desprendeu o cinto-ligas, com movimentos de ter dito: precisas disto? E lembra-se dele a rir-se. Ele que lhe enrodilhava a saia de fla-

nela em azul-escuro com florinhas roxas. E lembrase que foi como se estivesse saindo da banheira: ela húmida e quentinha e a sentir o frio em roda. E José Augusto a encostarse, a empurrar o corpo dele sobre o corpo dela como se fosse para que lhe desse o calor que lhe tirava a subir-lhe ainda mais a saia. Ele com as duas mãos nas suas nádegas, ele com as duas mãos a abarcar-lhe cada um dos seios. Umas mãos muito quentes, e José Augusto a encostar-se uma vez e outra. Maria Teresa ainda disse – nem se lembra bem o que terá dito, ela que estaria indecisa, que nem saberia se era mesmo o que queria. Ela talvez tenha dito: está quieto, não faças isso, e no entanto a colocar as mãos – que as mãos de Maria Teresa estariam geladas – debaixo da camisa dele. Maria Teresa e José Augusto a rodarem gestos desconhecidos. E fosse o que fosse que ela tenha dito, nem terá proferido sequer uma palavra que detivesse aqueles gestos, que detivesse os movimentos: o corpo dele e o corpo dela, cada vez mais entregues. E nessa tarde, naquele

recanto do rio, por baixo duma ponte, o céu tinhase tingido das cores do arco-íris. Era num dia de muito frio, tal e qual como o de hoje, e foram Maria Teresa e José Augusto. Tinha sido quando? Maria Teresa a ver José Augusto como se fosse uma das formigas que apareciam na borda da banheira, tenta equilibrarse na berma do passeio como se, de um lado e de outro, fosse um precipício. E não era, que Maria Teresa via muito bem que era asfalto e empedrado. E, no entanto, sabia que se saísse daquele debrum de cimento, cairia pela escarpa abaixo, rebolaria de tojo em tojo, a saia a rasgar-se nos picos, a cabeça em risco de partir-se contra um pedregulho. Maria Teresa sabia que só pararia se houvesse um monte de terra enorme, uma coisa descomunal em tons de vermelho: a queda dela a ser amortecida por um morro de formigas. E nem era o que se dava, que Maria Teresa se equilibrava muito direita. Ela a olhar fixamente a imagem, que já quase não era objecto, já nem era o José Augusto que

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a deixara pespegada no passeio. O que ela via estava quase a ficar apenas a ideia do que tinha sido: José Augusto a dizer que estava sem vontade de passear de mão dada com ela ao longo do rio numa tarde fria e húmida. José Augusto que tinha contado seis passos enquanto lhe ia largando a mão a dizer-lhe até nunca mais sem lhe dizer sequer uma palavra. E ele tinha-se afastado sem nunca se virar para trás, sem um aceno, algum gesto que pudesse querer dizer ainda somos. José Augusto a ficar ainda mais diminuto do que as formigas, que a essas Maria Teresa via os olhos e as antenas e as patitas. Dele apenas via, na contraluz da tarde, um borrão de cor indefinida. E nem podia dizer se era preto ou se seria castanho. Que ser verde azeitona era apenas se ela fizesse o esforço de recordar a cor do sobretuMaria Fátima Santos

do que ele tinha vestido, que também era a cor do chapéu de feltro que José Augusto trazia em cima do vermelho do cabelo que ele usava cortado muito rente.

ciência disso, Maria Teresa deixou soltar uma lágrima. Mas nem deixou que escorresse cara abaixo. Limpou a lágrima com a manga e tartamudeou, a enfrentar o facto:

E Maria Teresa já nem olha senão a fita de estra– Pronto, já não tenho da e o passeio ao longo namorado. do rio. E ao constatar que era O que ainda fosse o tal e qual como havia corpo de José Augusto, dito, depois de se ouvir tinha sido sugado na murmurar: acabou tudo, lomba que se dava antes Maria Teresa parou de de começar a Ponte Nova. se tentar equilibrar na José Augusto engolido borda do passeio. pelo ligeiro declive. A Sentou-se. Calcou os óptica e a geografia a fadois pés no asfalto tanto zerem partidas ao sentido da visão de Maria Teresa. quanto calcou os cotovelos nos joelhos, e com a Foi só então que lhe saia espalhada no empedescaiu o pé direito da drado do passeio, deixou borda do passeio e Maa cara descair entre as ria Teresa foi rebolando mãos roxas do frio que encosta abaixo. fazia nessa tarde. E quando estava já encostada à terra do morro de formigas, sã e salva, Maria Teresa percebeu que nunca mais diria amo-te àquele homem. E ao ter tomado cons-

Nasceu em Lagos, Algarve, Portugal em 1948. Viveu a adolescência em Angola e reside em Lagos. Licenciada em Física, é aposentada de professora do Ensino Secundário. Já participou na SAMIZDAT e por afazeres de vida afastou-se. Tem poemas em diversas antologias, e publicou em Janeiro de 2009 um livrinho com pequenas histórias, aquelas que lhe voam no teclado: Papoilas de Janeiro é o título, com ilustrações de TCA do blogue http://abstractoconcreto.blogspot.com/ Muito material está publicado nos blogues e www.intervalos.blogspot.com e http:// tristeabsurda.blogspot.com/ Escreve pelo gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo

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Estranha Vida
Henry Alfred Bugalho

Contos

Persianas? Desde quando havia persianas em seu quarto? Immanuel pensou, ao despertar vagarosamente. Ajeitou-se e tateou o lado direito da cama. — Elena? — mas a esposa não estava ali. Na penumbra do quar-

Levantou-se e ergueu a cortina. O mundo lá fora era estranho, desconhecido — multidão, templos e trânsito caótico. Onde estava? As roupas dependuradas na poltrona não eram suas, mesmo assim,

Sobre a pequena mesa da cozinha, um molho de chaves. Apanhou-o, penteou os cabelos e saiu para um corredor que nunca antes vira. Desceu as escadas e mergulhou entre as pessoas de feições asiáticas. Onde estava? Não compreendia a língua, não sabia se orien-

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O sol atravessou a persiana e pousou sobre as pálpebras cerradas de Immanuel.

to, enquanto sua vista se habituava à pouca claridade, ele não reconheceu os móveis, nem o próprio quarto.

vestiu-as e serviam-lhe perfeitamente.

tar. Podia estar na Tailândia, em Bangladesh, na Birmânia, na Indonésia... Podia até estar em algum daqueles remotos estados independentes da Rússia, na Índia ou Filipinas. Não sabia. Na noite anterior, estava em sua casa, confortável, financiada em vinte anos, na sua cama, com sua esposa, os filhos dormindo no quarto ao lado. No dia anterior, estava no escritório, aguentando o patrão insuportável, os telefonemas intermináveis, o café intragável. Mas, hoje, nada disto havia. Sem saber, sem darse conta, havia viajado milhares de quilômetros para uma terra longínqua, estava desentranhado, arrancado de seu mundo habitual. Teve medo. Parou um transeunte, segurando-o pelo braço. — Onde estou? — perguntou, mas os olhos imbecis lhe devolveram incompreensão. Caminhou pelas ruas frenéticas, pelos mercados e becos. Não queria se perder, mas precisava

descobrir o que havia ocorrido durante a noite de sono. Será que o haviam dopado, jogado-o num avião e posto-o naquele apartamentinho? Talvez o ontem de sua memória nem houvesse sido ontem, talvez fossem dias atrás, ou meses, ou anos. Quem sabe estivera em coma durante este período? Sofrera algum acidente e perdera a memória? Seria ele quem pensava ser? Encontrou um telefone público e puxou algumas moedas do bolso. Ligaria para casa e resolveria este problema. Ligaria para casa, falaria com a esposa e, em breve, estaria novamente entre os seus. Primeiro, não conseguiu completar a ligação, depois, uma mensagem automática, em sua língua, indicava: — Este número não existe. Por favor, consulte a lista telefônica. Desesperou-se. Havia se esquecido do telefone de casa, ou seria algum problema com a telefonia? Retirou a carteira do

bolso interno do paletó e conferiu seus documentos. No passaporte, a foto era sua, mas o nome não. Constava que era de um país em que nunca havia posto os pés. Coçou a cabeça. Na vitrine de uma loja, mirou-se por vários minutos. Quem sou eu? Mais tarde, retornou ao seu quarto, sentou-se na beirada da cama e tapou o rosto com as mãos. Durante anos, sonhou com o dia em que seria livre, em que poderia viajar o mundo e viver aventuras incríveis. Este dia havia chegado, mas ele não se sentia feliz; esta tal liberdade o incomodava. Era demais para ele. Encolheu-se na cama e chorou quietinho, como quando era criança e trovejava lá fora. Uma nova vida — seu maior desejo — lhe havia sido concedida, mas Immanuel não sabia o que fazer com ela. Era uma vida estranha demais.

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-deVaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry Alfred Bugalho

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Contos

Grande Prato
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João Francisco Dantas

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A ideia veio de Grande: construir a máquina e fazê-la funcionar. Como eu disse, a ideia veio de Grande, mas a realização, não. Grande era o cara das ideias e para nós era suficiente que ele continuasse assim. Prato era o cara do fazer. Grande Prato: dupla dinâmica. Eu não faço parte dessa história como atuante. Observei tudo e anotei alguns acontecimentos. Minha memória está velha. Tenho 40 anos. Não digo que a minha memória está velha por não conseguir mais lembrar das coisas, mas que ela está velha por que essa memória, a da construção da máquina, não me acompanha mais. O mais engraçado é que todos me procuram para saber se a máquina foi construída ou não. Eu sempre digo: não lembro. Os mais jovens, que só ouviram a história pelos feitos que foram realizados para a construção da máquina, são os que mais se decepcionam quando ouvem a minha negativa. Não posso culpá-los. A própria escola não consegue esquecer o fato. A cidade não consegue esquecer. O mundo não consegue esquecer. Para eles sou uma aberração.

Todos que me ouvem argumentam: mas são apenas vinte anos... Vinte anos é muito tempo quando se viveu algo. Cada dia se acumula de tantos detalhes costurados que quando se para pra pensar não se consegue mais perceber qual o desenho do bordado. Minha mulher é que faz umas coisas meio assim. Faz, faz, faz e quando vê, não tem mais o que olhar. Melhor se afastar e ver de longe. Tudo fica lindo. Ela vende e faz sucesso. Sobre a máquina... Era o que de melhor uma mente pode pensar. Engraçado dizer isso de algo que não se sabia para que servia. Aliás, os dois sabiam: Grande Prato. No caderninho que eu tinha, anotava algo do que eles diziam. Hoje soa quase que como uma fala sagrada: fazer o molde do pedaço do espírito que o universo deixou aqui; una as partes que as vontades nos deram, mas una do lado de baixo, vontade do lado de cima é algo que não serve. Vez por outra, minha memória de tanto ser espremida dá alguns pedaços de história. Nesse momentos, eu anoto no mesmo caderninho. Mas,

ele não serve de verdade. No caderninho só tem o que eu sei, o que eu senti. Se isso servisse para os outros, já tinha dado ele para o primeiro que me perguntou. Lembro que eu vi a ideia da máquina aparecer. Grande estava sentado e olhava uma placa branca. Era dolorido ver a brancura da placa. Estávamos debaixo de sol. De longe, a placa parecia de outro mundo. Ele foi até ela. Era horrível de se ver aquele homem, grande, corpulento, movimentando os braços e ferindo a claridade. Com uma pedra vermelha, ele riscava e aos poucos foi fazendo a brancura ganhar veias. Ele começou pelo alto, desceu até o meio, segurando a pedra com as duas mãos. Parecia fazer um sacrifício. Parecia estar imolando a placa a algum deus de dentro dele. Com as duas mãos moveu a pedra para a esquerda. Tal um pai nosso, levou a pedra para a direita e ali descansou. Um círculo bem ao centro. Na direita ao alto recomeçou a descer. Parecia se movimentar em busca de nada. Eu, que estava apenas a alguns metros de distân-

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cia, me senti atraído por aquilo. O que aquele homem fazia com as mãos era um ritual. E naquele momento, era permitido a mim ver a cara de um deus. Ou, pelo menos, a manifestação desse deus. Riscos e riscos e riscos e riscos... E todo aquele movimento ia de um lado a outro sem unidade aparente. Era-me permitido perceber que a ordem não era a que este mundo queria, mas a ordem que em Grande conseguia se manifestar. Pássaro, macaco, onça, uma mistura de todas essas coisas? Isso quem viu não conseguia definir. O desenho era algo que estava além e assim continuou. Não houve por parte de Grande a vontade de guardar aquilo. Ficava exposto no mesmo local onde havia sido concebido. Prato viu o desenho. À essa época, Grande e Prato não se conheciam. Falei que eles eram uma dupla dinâmica. Quero dizer que se tornaram, ou na verdade, eu me confundi. Parece que eles nunca se conheceram. Essa mania de lembrar dos dois juntos e de chamar o tempo inteiro de Grande Prato é que

me confunde. Bem, eles... Eles... Eles fizeram aquilo. Fizeram a máquina. Isso é o que importa. Prato construiu e isso, eu vi. Esse homem viu o desenho lá, na placa, ainda debaixo do sol. Eu estava sentado no mesmo lugar. E da mesma forma que alguma coisa me atraiu para ver Grande desenhando, alguma coisa me atraiu para ver Prato construindo. Não teve palavra. Não teve pergunta sobre o que era aquele desenho. Não houve pergunta por quem desenhara. Prato viu. Pegou a primeira rama de capim seco que tinha a frente e começou a montagem. Parou quando o mato seco acabou. Mas, não parou definitivamente, ainda levaria muitos dias para construir aquilo. Ferro, bambu, cimento, tecido, plástico. A cada dia a máquina recebia um material diferente. E ao olhar aquilo tomando forma, não parecia ser de outra forma que a máquina deveria ser construída. Em Prato, com o passar do tempo, eu vi outro deus se manifestando. Não era algo para se perceber, como em Grande. Era algo que se sentia

aos poucos. No ato do entrançar, no martelar, no soldar, no amarrar. Aquele homem, construía com calma, com vagar. Era algo secreto. Algo que uma coisa que estava dentro de um e de outro tinha necessidade de fazer aparecer. A construção parecia um balé. Prato caminhava com passos curtos para a parte superior e descia, como que vendo na placa uma planta baixa. Talvez, sentindo a força dos movimentos de Grande, caminhava para a esquerda e depois para a direita refazendo o sinal da cruz. Ele subiu e realizou o círculo ao centro. Parecia seguir as pegadas do outro, mesmo sem a sua participação. Grande viu Prato construindo. Assistiu, também, como eu a materialização do algo que estava fincado na placa. Interessante perceber que eles não se falavam. Não havia interesse nenhum em conversar. Não se olhavam. Não havia o porquê, eu entendi depois. Eles se entregaram aquilo como algo que fosse superior. Falei que Grande realizava um ritual. Prato realizava outro. O primeiro era como

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uma missa. O outro era como a vida. Não lembro. Simplesmente, não lembro mais. Falei tudo isso, mas sempre amparado no meu caderninho. Pro outros, isso parece uma coisa que não se pode esquecer. Eles não se deixam esquecer. E eu, pareço fazer questão de esquecer. Na verdade, não faço questão de lembrar. Ficou pronto. A máquina ficou pronta. Era algo de uma beleza que paralisava. Lembro que a cidade, que foi tomada pela curiosidade, estava lá quando a máquina ficou pronta. Desse dia, lembro isso: ficamos parados por várias horas esperando que a máquina começasse a fazer alguma coisa. Olhando de hoje, parecíamos um bando de ridículos. O que esperávamos? Aos poucos fomos indo embora. Cada um, decepcionado ao seu modo, foi deixando para trás aquilo. Eu fiquei por último. Ouvia cada um dos comentários: Grande Prato sem utilidade, Grande Prato vazio, Grande Prato emborcado. E eu ria. Grande Prato. Eu rio muito hoje quando penso que eu me alimentei naquele Grande Prato. Eu

senti os gostos que ele proporcionou. A máquina foi abandonada. Foi-se desfazendo e seguindo seu próprio rumo. Há alguns anos, o local sofreu um incêndio e o que ainda sobrava da máquina era cinza, metal retorcido e mais nada. É um local por onde se passa e não se consegue mais imaginar qualquer coisa outra no lugar. Nem eu, nem quem tem algum apreço a história – digase de passagem que a cidade tem isso como uma grande brincadeira – consegue pensar o lugar de outro jeito. Meu Deus. Eu lembro disso. Eu lembro isso. Não faço questão de lembrar mais do que isso. Isso basta. Meu caderninho está cheio dessas impressões. Apenas impressões, pois não lembro. Desculpem tantos não lembro, mas não há outra coisa que eu possa dizer. Como eu disse, minha memória é velha. São tantas coisas costuradas que só olhando de longe é que o bordado é bonito.

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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Contos

Invisibilidades
Léo Borges

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As pessoas estavam ali, mas Soraia não identificava mais seus rostos. No lugar deles, borrões. Mesmo angustiada, achou melhor não contar para ninguém o problema que ora lhe afligia, a não ser para o amigo Lico, o grande confidente. Curiosamente, ele e Xavier – o principal fantoche do teatrinho escolar – eram os únicos cujos rostos ainda se mantinham nítidos para a menina. – As notas baixas, conversar com pessoas que você não conhece, não fazer o que seus pais mandam na hora em que eles querem. É isso que está te machucando, Soraia. O passar do tempo ajudará na cura, mas você precisa respeitar o que seus familiares determinam – dizia Lico, sempre muito paciente. O tempo passava, mas o incômodo persistia. Para suas colegas, o olhar flutuante de Soraia nas conversas significava submissão. E elas passavam a tripudiar, utilizando a conhecida crueldade infantil. – Soraia é minha escrava. Ela é cega e faz o que eu quero! Os pais davam pouca importância para os novos cacoetes da filha; não viam que a vontade
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dela de assistir as aulas diminuía devido a um estranho transtorno visual. Também ignoravam que as professoras, e seus fantasmagóricos rostos esmaecidos, passavam a assustar Soraia mais do que tudo. – Se o boletim vier baixo vamos ter que conversar – era o que o pai se limitava a dizer. O “ter que conversar” quase sempre evoluía para tabefes, mas, de acordo com Lico, tal tratamento severo era necessário para o amadurecimento; explicava que era através dele que as preguiças e desobediências sumiriam. Melhorar as notas no espaço amedrontador em que se transformara a escola, entretanto, vinha se tornando uma tarefa difícil. Para ela, tal lugar só era interessante por causa dos fantoches – em especial, o acolhedor Xavier. O pequeno espetáculo lúdico, montado após a aula, se resumia numa cortina separando um manipulador que, com as mãos vestidas com panos coloridos em formato de rostos, mexia efusivamente os mamulengos, contando histórias e passando as tradicionais orientações de comportamento.

– Agora, crianças, vamos desenhar as pessoas que amamos – disse a professora, retirando-a dos devaneios com o teatrinho. Soraia perdeu algum tempo refletindo sobre uma pergunta aparentemente fácil. Quem ela amava? Os pais? Os safanões que levava talvez fosse a melhor demonstração de amor por parte deles, um método eficaz de educação: “nossa filha é um primor de disciplina!”. Desenharia os pais. Letícia e Carol. Embora ridicularizassem a doença que acometia Soraia, eram amigas próximas. Falavam mal de outras colegas, e até dela própria, mas isso, a fofoca com sarcasmo, era justamente a maior graciosidade de ambas. Linhas onduladas representariam Letícia e Carol. Lembrou-se também do tio João, aquele que trazia bombons. Uns minutinhos de atenção era a única coisa que ele pedia em troca. Tio João contava histórias no sofá, mas não apenas isso. Embora não mais enxergasse o rosto do homem, as mãos dele, que usualmente lhe afagavam a nuca e também as pernas, transmitiam um amor que não permitia dúvidas. Soraia teve certe-

za de que amava o tio e, por isso, também deveria colocá-lo no papel. Mas, percebia que não poderia deixar de fora amor tão genuíno quanto o que sentia por Lico, o amigo orientador, e Xavier, o fantoche conselheiro. – Soraia, o que é isso? São seus familiares? Você desenhou um amontoado de listras, mas não olhos, boca, nariz... – disse a professora, analisando o desenho. Soraia receou que a educadora a considerasse uma estúpida. – Fiquei com medo de errar, tia. – Mas, você desenhou dois rostinhos aqui no canto. Quem são? – O Xavier e o Lico. – O que representam? – Meus melhores amigos. São eles que me ajudam a enxergar. “Enxergar” pensou a professora. “Falei para desenhar pessoas que amamos e essa aqui me desenha oftalmologistas”. – Tudo bem, Soraia. Você deve gostar tanto dos seus parentes, que não saberia desenhá-los com exatidão. Mas os dois aí até que deram belos rabiscos.

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O nervosismo fez com que Soraia, olhando para o chão, concordasse. – Atenção, criançada! Hora da apresentação dos bonecos mamulengos! – comunicou um dos inspetores de rosto esbranquiçado do colégio. O coração da menina vibrava com aquele momento. As crianças se amontoavam para ver os fantoches, mas nenhuma tinha tanto carinho com eles quanto Soraia. Naquela tarde, porém, um susto grande: um dos olhos de Xavier – na verdade, os botões de alguma roupa – estava faltando. Estaria ela deixando de enxergar a face dos últimos amigos visíveis? – O que aconteceu com seu olho? – perguntou uma criança mais atirada. – Ai! A Adelaide o arrancou de mim! Enquanto algumas crianças riam do vazio no rosto do boneco, Soraia sentiu uma agonia profunda, como se, com essa nova aparência disforme, a cumplicidade entre eles começasse a desaparecer, ou pior, como se sua

doença desse um sinal de avanço. – Arranquei mesmo! Falei para ele não falar com estranhos e ele não quis saber. Então, perdeu o olho! – A Adelaide está certa! Tenho dois olhos grandes para enxergar meus amigos, para ver bem o relógio e não me atrasar em meus compromissos! Quer dizer, agora só tenho um, mas quando voltar a ter dois, aí é que não me atrasarei mesmo! Soraia não falava com estranhos, mas lembrou-se de sua impontualidade e das notas baixas. Atrasarse para as aulas era algo repudiável. Não estudar por conta de pequenos problemas visuais também. – Pensem nisso! Não falem com estranhos! Cumpram seus horários! – A voz de Xavier soava séria e imperativa. Para o deleite dos inspetores, as crianças silenciavam diante dessas ordens. Ao fim, gritos concordantes. O teatrinho continuou por semanas com o fantoche caolha. Lico a con-

fortava dizendo que nem ela e nem Xavier estavam cegos, que nunca ficariam, e que logo arrumariam um botão para restabelecer a “visão” dele. – Não, Lico. Ele está ficando como todo mundo e só falta agora você também ficar invisível... Minha esperança é meu tio, que prometeu ajudar. Nesse instante, a mãe de Soraia surge com uma boa notícia. – Minha filha, seu tio chegou e está esperando por você lá embaixo. Trouxe chocolates e uma surpresa: o botão de casaco que você pediu. A menina pulou de felicidade. – Que bom! Obrigada, mamãe! Eu sabia que tio João me ajudaria! A mulher fez que ia sair, mas deteve-se. Esquadrinhou o quarto como se procurasse alguém além da filha. Estranhamente seu semblante mudou e, dessa vez, a mãe de Soraia adotou um tom áspero: – Ah, e não quero mais saber da senhorita falando sozinha, entendido?

Léo Borges
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas "Retratos Urbanos" em 2008 pela Editora Andross.

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Contos

a daNÇa do CoPo
Emanuel R. Marques

Não posso dizer que o café estava cheio ou quase vazio, apenas saliento que havia um conjunto suficiente de pessoas para me inquietarem a mente. Aliás, nem sei se deva definir o estabelecimento com o rótulo de café ou restaurante. Mas, a certeza era a minha presença no local, placidamente acompanhando a minha negra chávena de café com um fresco copo de água enquanto reflectia, com uma especial atenção nas expressões que

Eram 21.30 e os esforços que o corpo recusava, pelo penar do trabalho diurno, eram compensados pela incansável e divagante aptidão da mente. Ouvia conversas, gargalhadas, risinhos e silêncios que só a mim, que recompensava a minha solidão na anónima companhia dos outros, podiam ser alvo de tanto interesse. A minha curiosidade incidia especialmente nas pessoas que estavam sozi-

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os figurantes exibiam.

nhas, mas no interior das suas cabeças eram confrontadas com outras que a nós, espectadores desse indivíduo, eram invisíveis. Intrigavamme as temáticas de felicidade e desolação alheias. Talvez aquilo que me despertasse esse ímpeto fosse apenas o facto e o gosto em sentir essa curiosidade e não propriamente a vontade em decifrar algo. Depois, havia também aquelas futilidades que acabam sempre por marcar presença e cha-

mar as atenções, através de qualquer gesto ou som, de modo a cativar os olhos circundantes e, desta forma, satisfazerem as necessidades de protagonismo ou os complexos de inferioridade que consomem essas pessoas. Na verdade, também estas possuíam pensamentos, momentâneos na fugacidade com que afluíam à consciencialização de si mesmos, e eram influenciados por um passado e uma ténue sombra de futuro individual, que os conduzia aqueles instantes presentes. -As mentes são demasiado complexas e obscuras! Decidi então, com uma agilidade física e mental, que através da súbita espontaneidade me impediria de recuar na minha decisão, que cativaria a atenção de todo aquele aglomerado para uma mesma situação. Ordenaria o eixo condutor, o mesmo sentido racional para todas aquelas criaturas. O copo deslizou para o chão num repentino toque de propositado descuido. Após o primeiro contacto com o solo o copo iniciou uma tilintante percussão, que captou o atento silêncio dos olhares, e terminou com um apoteótico estilhaçar

que, além de despedaçar o frágil vidro, divergiu também as opiniões – como se cada pedaço de vidro partido correspondesse à opinião de cada espectador. Apesar desta divergência qualitativa, eu soube que desde o empurrar do copo até ao final da sua deselegante dança, o centro das atenções e interrogações (Qual a causa do ruído? Será que o copo vai partir?, entre outras) havia sido manipulado por mim. Nos segundos que se seguiram ao meu espectáculo de psicologia humana, e enquanto ainda recolhia informações dos rostos e das palavras das minhas alheadas cobaias, reparei numa estranha rapariga de longos cabelos que estava sentada ao fundo daquela ampla sala. Estava de costas voltadas para toda a imensa ridicularidade que acontecia em redor e que eu conseguira incutir às outras pessoas. Parecia estar demasiado concentrada no seu monólogo com a baça parede amarela para poder desperdiçar a sua preciosidade temporal com situações absurdas, como aquela que estava a ocorrer. Esqueci imediatamente tudo aquilo que me circundava. Insisti com o empregado que era meu dever pagar pelo descuido, e

cheguei mesmo a acompanhá-lo ao balcão, para desta forma, sob o disfarce da formalidade, tentar aproximar-me o máximo possível daquela candente criatura que permanecia impávida no seu altar de reflexão e beleza. Na ebriedade da minha estupefacção ainda consegui decifrar uns penetrantes olhos negros, que me fitaram num movimento demasiado rápido para transmitir qualquer sensação mas, também demasiado lento, o suficiente para permitir que eu guardasse eternamente aquele inefável retrato. A vida é um irónico emaranhar de situações das quais nunca conseguimos antever os resultados. Ainda hoje, pela manhã, ouvi as vozes de um casal de crianças entoarem em uníssono a palavra “mãe”. A rapariga que eu vira naquela noite, levantou-se da cama e atendeu ao pueril apelo. Eu, desperto também pelas mesmas vozes, olhava o modo como Clarisse caminhava para o quarto dos nossos filhos. A rapariga sem nome, a desconhecida, que ignorara o copo era Clarisse, a mulher que hoje se deitava a meu lado. E tudo começou com a queda de um copo.

Emanuel R. Marques
Português. Formado em Comunicação Audiovisual. Já trabalhou em televisão, assim como já ganhou a vida a fazer visitas num convento e museu do séc. XV Autor de livros de poesia e do conjunto de . textos para teatro “Os candidatos e outros devaneios cénicos”. Tem colaborações em várias revistas e webzines, tanto em Portugal como noutros países Participante na exposição colectiva de pintura da “V Bienal de pintura de pequeno formato”- prémio Joaquim Afonso Madeira. Colaborador em várias exposições de fotografia e artes plásticas. Membro do projecto musical “Unquiet Lost Devotion”. Colaborador em projectos de diversos campos artísticos.

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Contos

Maristela Scheuer Deves

DESASSOMBRADA
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uma Cidade

Aquela era a cidade mais desassombrada do mundo. Vitor bem que gostaria que não fosse: ele adorava histórias de fantasmas, vampiros e outros seres sobrenaturais. Já pensou a emoção que seria encontrar almas do além vagando pelos corredores, arrastando correntes e gemendo para assustar os mais medrosos? Ele, é claro, não tinha medo de nada. Queria mais era encontrar um desses seres, só não tinha a mínima ideia de como fazer isso. Que azar, pensava, ter nascido justo ali, naquela cidadezinha esquecida por todos, onde até mesmo os fantasmas se negavam a morar. Já procurara no cemitério, na biblioteca, no porão e no sótão da casa dos avós, naquela ruela escura que todos diziam ser perigosa (e era mesmo, ele quase fora assaltado). E nada. Nadica de nada. Nem um lençolzinho branco para contar a história. – Você não encontra fantasmas porque fantasmas não existem,

nem aqui, nem em outra cidade qualquer – ria o irmão mais velho, fazendo pose de quem sabe tudo. Mas Vitor não se dava por vencido. Encontrou na internet uma comunidade virtual intitulada “eu acredito em fantasmas” e passou a participar com interesse de todos os debates. Um domingo no começo de agosto, entrou no site e quase não conseguiu acreditar no que via: um fantasma estava anunciando que procurava um lugar para morar. “Fantasma sem teto busca pessoa simpática para dividir casa. De preferência, casa antiga, mas pode ser nova também. Pode ser até apartamento, na verdade. Sou um fantasminha simpático e organizado, não faço barulho (prometo só arrastar as minhas correntes até as nove horas da noite) e sei fazer vários truques, como atravessar paredes e desaparecer no ar. Interessados, favor deixar mensagem e endereço aqui.”

Excitado, Vitor não perdeu tempo. Escreveu logo um recado, dizendo do seu interesse e contando como era sua casa: grande, antiga, com um grande porão e um sótão espaçoso. Depois, correu contar a novidade ao irmão. – Você está louco? – enfureceu–se Jacó. – Onde já se viu, dar nosso endereço assim, pela internet, para um desconhecido? E se for um ladrão? Vitor revirou os olhos. – Você por acaso já viu algum fantasma roubar? Jacó desistiu. Não adiantava tentar explicar as coisas para aquele pirralho teimoso. Enquanto isso, Vitor não cabia em si de emoção. Daquele dia em diante, quase não saía mais da frente do computador, esperando a resposta do tal fantasma sem teto. Demorou três dias até que, enfim, veio a mensagem tão esperada. “Caro senhor Vitor”, dizia o recado, “fico muito feliz em anunciar–

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lhe que a sua proposta foi a vencedora. Aqui na cidade onde eu moro não existem mais casas antigas como a que o senhor descreveu. Aliás, praticamente não existem mais casas onde possamos morar. São só prédios, altos e horrorosos, e as pessoas que moram neles não querem saber de nós, pobres fantasmas desamparados. Não acreditam na gente, nos expulsam de seus apartamentos, colocam música alta para não ouvirem as nossas correntes. Chegam até a dizer que não existimos, veja a audácia. Assim, quando comentei com meus amigos que estava me mudando, eles imploraram que eu os levasse juntos. Espero que o senhor não se importe. Nós chegaremos amanhã, à meia– noite.” Vitor ficou entusiasmado. Em vez de um fantasma, ele teria vários. Quantos seriam? Três? Quatro? Se fossem cinco, seria a glória. Quase contou ao irmão, tão contente estava, mas pensou melhor. Jacó vi-

ria outra vez com aquele papo de que fantasmas não existiam e de que era uma armadilha. Pois bem. Quando eles estivessem ali, na sua casa, ele queria ver o irmão dizer que ele era bobo. Não dormiu nada naquela noite, mas não estava cansado na manhã seguinte. A animação que sentia era suficiente para mantê–lo acordado. No almoço, no entanto, já estava irritado: as horas se arrastavam, e ainda faltava muito para a meia–noite. – Esse moleque está aprontando alguma coisa – disse Jacó, quando o irmão saiu da mesa direto para a frente do computador. – Deixa ele... Só está calado – replicou a mãe. No seu quarto, Vitor vasculhou a comunidade sobre fantasmas no site, em busca de novidades. Quem sabe o seu fantasma tivesse deixado mais algum recado. Quem sabe até tivesse resolvido antecipar o horário de chegada. Mas não – a

última mensagem era a do dia anterior. Por fim, anoiteceu. Vitor resolveu dar uma olhada no sótão e no porão. Durante a tarde, pensara em limpar um pouco esses lugares, empoeirados pelo tempo sem uso, mas resolvera deixá–los como estavam: afinal, para um fantasma, provavelmente quanto mais abandonado parecessem, melhor seria. Quando o relógio marcou onze horas, avisou que estava indo dormir. O que fez, na verdade, foi ficar acordado sob as cobertas, olhando a cada poucos segundos para o mostrador luminoso do celular, contando os minutos que faltavam para a meia–noite. Sem perceber, acabou caindo no sono. Acordou assustado algum tempo depois, com sussurros em seu ouvido. Abriu os olhos rapidamente, já se preparando para dar uma bronca no irmão pela brincadeira, mas Jacó não estava no quarto. Na verdade, parecia não ter ninguém ali a não ser ele. Mas quem

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deixara o abajur ligado? Estava uma claridade estranha no quarto... Será que ainda estava dormindo e aquilo era um sonho?

meus amigos – disse o fantasma, estalando os dedos.

A cada estalo, uma nova forma branca ia surgindo. Vitor ia con– Senhor Vitor... senhor tando: um... dois... três... Vitor, está me ouvindo? outro estalo... quatro... mais um estalo... cinO menino deu um pulo co... seis... sete... e vários ao ouvir a voz. outros estalos em sequência... e oito, nove, dez, – Quem está aí? – susquinze, vinte fantasmas surrou de volta, com ao todo apareceram, medo até mesmo de um ao lado do outro, falar alto. todos sorrindo e aba– Sou eu, senhor... Gus- nando para Vitor. Quatav, o fantasminha sem se não havia mais lugar teto. Ou melhor, agora no quarto com todos eu não sou mais sem eles ali. teto, já que o senhor O que ele faria com me acolheu – respondeu a voz, materializan- tantos fantasmas? Bem, do–se em um fantasma era o que sempre quis, não era?, pensou Vitor. branco e transparente E já que eram tantos, o bem ao lado da cama. melhor era distribuí– – Você veio mesmo – los direito. exclamou Vitor, pulan– Bem–vindos todos. do da cama, animado. Agora, vamos nos or– Claro que eu vim, ganizar... Aqui no meu não podia perder uma quarto, ficam Gustav oferta dessas. Aliás, e mais um, que isso deixe eu lhe apresentar também não é a casa

da Mãe Joana. No quarto do meu irmão – e Vitor deu um sorriso –, lá podem ficar três. No de visitas, outros três... No de meus pais, vamos deixar sem. Os outros se dividem entre o sótão e o porão, combinado? Murmúrios fantasmagóricos de aprovação, e todos rumaram para seus quartos. Logo Vitor ouviu os gritos do irmão, e se conteve para não correr até lá e dizer um “eu não falei”. No outro dia, convidou alguns colegas de escola para dormirem na sua casa, e a diversão foi grande – ao menos para ele. A partir de então, ficou conhecido como o menino mais corajoso da cidade, pois morava na única casa cheia de fantasmas naquela cidade até então desassombrada.

A gaúcha Maristela Scheuer Deves é jornalista e escritora. Autora do romance policial 'A Culpa é dos Teus Pais' e do infanto-juvenil 'O Caso do Buraco', adora ler e escrever desde criança. Também mantém os blogs Palavra Escrita (www.pioneiro.com/palavraescrita) e Maristela Deves (maristeladeves.blogspot.com).

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Contos

Lucas Pooch de Quadros

Mais um funeral
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O lugar onde
Eu cheguei próximo do fim. Já sabia que me atrasaria, eu queria me atrasar. Afinal era um enterro, quem gosta de ver esse tipo de coisas? Sim, algumas pessoas gostam, mas eu não sou desse tipo...nunca fui. segundo era meu irmão. Ambos com uma cara de choro ou de perda terrível.

a boa Literatura
é fabricada
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Cheguei ao corpo daquela mulher. Senti meu estômago apertarse e brigar com os meus pulmões, e esses lutavam para por ar dentro de O dia estava cemim. Minha garganta dendo espaço para uma fechava lentamente. Lemnoite linda que chegava brei da minha infância, lentamente. Nenhuma das brigas, das dificuldanuvem. Todo o resto do mundo não se importava des, dos choros. Vi meu pai chorando e recordei com aquele corpo, sendo enterrado. Eu estava usan- de quantas vezes ela o do um terno surrado pelo traíra. Pensei no tempo que demoraria para o tempo, não me importei primeiro verme atravesmuito em arrumar-me. sar o caixão e entrar nas Ver o corpo foi carnes dela, atravessar o a última coisa que eu sangue, os órgãos, comefiz, mas, para fazer isso, çar a comer. passei por um aglome-Ela foi uma vadia na rado de rostos tristes, vida, isso não muda com em lágrimas. Alguns eu a sua morte. Quero conconhecia, então fui obriseguir perdoar ela algum gado a distribuir alguns dia.- Disse para todos. Os ois. “ Ela foi uma amiga incrível, vou sentir muita rostos, conhecidos e desconhecidos, olharam-me falta” e outras coisas do com algum pavor. gênero eu ouvia dos rostos conhecidos. Próximo Mirei a porta e fui ao caixão, quase encosta- embora. do nele, havia dois rostos mais conhecidos ainda: O primeiro, meu pai, e o Lucas Pooch de Quadros
Estudo jornalismo, escrevo para relaxar.

ficina
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Contos

o CarroSSeL
João Manuel da Silva Rogaciano

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O recinto da feira fervilhava de vida. Os miúdos e graúdos atropelavam-se na ânsia de percorrerem todas as atrações: o labirinto; os carrosséis; os carrinhos-de-choque; a barraquinha de tiro ao alvo… - Venham dar uma voltinha no carrossel!... Universo, o melhor carrossel deste recinto!! Meninos e meninas… - gritava o Sr. Humberto, o dono do carrossel Universo. – Estrelas, planetas, cometas, tudo a girar! Venham, meninos e meninas... Nas bilheteiras do carrossel, onde o Sr. Pereira trocava o dinheiro por fichas, formava-se uma longa fila. Alguns putos, mais descarados, furavam a ordeira linha e passavam à frente dos outros.
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Soava a forte campainha, que se fazia ouvir acima da balbúrdia da feira, anunciando que a volta tinha terminado. Os miúdos da próxima volta invadiam o carrossel, como feros índios, em pé-de-guerra, ao ataque. Contra-

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riados, e literalmente expulsos pelos recémchegados, os catraios da volta anterior saiam dos assentos. Alguns miúdos permaneciam nos seus lugares, segurando de forma visível, na sua mão, a ficha que lhes daria acesso à próxima volta e que evitaria a sua expulsão pelos índios invasores. Os índios ocupavam os lugares livres, soltando gritos de guerra a plenos pulmões. A campainha dava então três toques seguidos, sinal que o carrossel iria iniciar uma nova volta. O filho do Sr. Humberto, um adolescente com ar de fuinha, cabelo rapado, piercings nas sobrancelhas e brincos nas orelhas, dava a sua volta pelos assentos do carrossel e recebia, das mãos dos miúdos, a ficha que lhes permitia efetuar aquela viagem. Rudolfo - assim se chamava o fuinha dos piercings - aproveitava para espetar uns violentos pontapés nos assentos do carrossel. Nunca se percebeu bem porquê: se fazia isso por detestar o seu trabalho, se para as-

sustar os barulhentos putos que ali seguiam na sua volta, ou se era simplesmente por pura maldade. Talvez pelo facto de ser obrigado a passar ali todos os dias da sua juventude, enquanto os outros adolescentes iam à escola e tinham a sua vida social. O fuinha era obrigado a trabalhar de manhã à noite. Se não estava a recolher fichas no carrossel, estava a desmontar o carrossel, a inspecionar o carrossel, a montar o carrossel, o carrossel, o carrossel, … Para além dos pontapés de Rudolfo, o carrossel também era atingido pela fúria dos miúdos, que se agarravam aos varões e os abanavam violentamente. Outros, gravavam na madeira dos assentos, as suas iniciais. Alguns, mais velhos, divertiam-se, grafitando os bancos do carrossel, pela calada da noite, quando a feira já tinha sido encerrada. Por vezes, os feirantes apanhavam os artistas e obrigavamnos a limpar as obras de arte acabadas de

fazer e aproveitavam para lhes dar uns sopapos. E, o que devo eu pensar? Já acompanho este carrossel há cerca de vinte anos, quando o Sr. Humberto o comprou a um feirante espanhol e o remodelou, mudando-lhe o nome de “Los Animales Salvajes” para Universo e trocando os bancos com representações de animais - já muito carcomidos e partidos - por novos bancos que representavam estrelas, planetas, cometas, satélites, naves espaciais. A miríade de corpos espaciais foi feita por encomenda, por um carpinteiro amigo do Sr. Humberto. A pintura ficou a cargo da D. Amélia, a esposa do dono do Universo. E que dotes de pintura a pobre senhora tinha – emprego esta expressão, porque a D. Amélia faleceu há dois anos, deixando todos nós mais pobres. Mas dizia eu, que nasci há vinte anos, na figura de um belo planeta azul, decorado pela mão da D. Amélia.

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Aliás, a D. Amélia decorou todo o carrossel com tanta destreza e bom gosto, que eu me sentia extasiado ao ver em roda de mim todo aquele magnífico universo, limpo, bemcheiroso, que girava, girava… Já conheci muitos recintos de feiras, muitas pessoas, muitos miúdos. Mas deixem-vos dizer um segredo: quem vê um recinto de feira, vê todos. Quem vê a populaça de uma feira, vê todas. São todos iguais entre si. Corpos amorfos procurando um pouco de alegria artificial, nesta vida rotineira... Agora, com tanta volta, com tanto barulho todas as noites, com o desmonta aqui, monta ali, os pontapés do fuinha, os grafiti, a sujidade que se acumula e se entranha por mim e pelos restantes corpos espaciais do Univer-

so, sinto-me tão mal, tão agoniado que só me apetece sair daqui. Sair e ir para um local sossegado, relaxante. Longe desta extenuante rotina. Sem fuinhas, sem índios em pé-deguerra, sem grafiti, sem poluição. Longe do rodopiante e enorme Universo. Gostaria de ingressar num Universo paralelo... Numa realidade alternativa... Tudo seria preferível à vida que levo!... Apetece-me gritar. Gritar bem alto, acima do barulho da feira, acima da campainha do carrossel, para que todos possam ouvir: - Sr. Humberto, fuinha, Sr. Pereira…Alguém... Sou eu, o planeta azul… Por favor, parem o Universo. Quero apear-me!

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
www.maosdevaca.com

O Guia do Viajante Inteligente

FIM

João Manuel da Silva Rogaciano
Engenheiro eletrotécnico, português, 45 anos. Adora ler e tem um gosto especial pela escrita. Tem obtido vários prémios em concursos e certames literários. Possui contos publicados em várias antologias brasileiras e portuguesas. www.entrelivroserascunhos.blogspot.com

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O Poder Animal
Erik K. Weber

Contos

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Quando envergou o queixo para o céu, e com palavras calculadas anunciou suas intenções, agradava-lhe a imagem do leão, do urso, da águia careca; ainda, os felinos menores, o lobo e os grandes répteis. Para isso fecharase na escuridão do Tempo, aprendendo línguas e segredos, o intrincado desenho das constelações, as fases da lua, a cabala, o novo misticismo. Tal renúncia era uma exigência, dele e das próprias circunstâncias, e as dores um descanso, se comparadas à ansiedade de uma evidência eterna e imutável – a descoberta de seu espírito animal, aquele cuja força o guiaria em vida e além dela.
Erik K. Weber

Nisso viu o Universo deixar de ser; como se aquele mundo não fosse mil, mas apenas um; como se bastasse uma chave - o que equivale a dizer que qualquer uma serviria. A única diferença era para onde ele deixava de olhar. E assim, numa das horas leves de uma conjunção há muito esperada, viu as estrelas como se desfalecesse, em paisagens dispersas. Caía, e logo se aproximava do solo e da selva, e rasgava para o denso das árvores e das folhas verdes e úmidas; no diminuir da velocidade encarou o majestoso animal digno de sua alma - a lesma.

Formado em ****** ******* pela ******* ; trabalha como censor para o ******* *******. Atualmente participa ** ** ******* visando a criação de um novo asterisco com oito pontas.
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Contos

triatLo
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Zulmar Lopes

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Tamanha agitação em torno do triatlo o entusiasmava. Os corpos femininos aboletados sobre bicicletas, suarentos em razão do esforço despendido, alguns não tão belos, outros atléticos, consumiam seu imaginário por detrás das grades de proteção do circuito em torno da orla de Copacabana. Devido sua condição, não fora difícil encontrar um local para assistir as provas. O vai e vem das atletas o distraia. Um casal postou-se ao seu lado. Conversavam em inglês. Ele trazia consigo todo o estereótipo de turista enquanto a mulher parecia nativa. Ela expressava-se em inglês sem grandes dificuldades. O homem percebeu-a jovem, bonita, vasta cabeleira tingida e bem tratada. O vestido leve revelava braços e pernas bronzeados, donde pêlos dourados brilhavam

sob reflexo do inclemente sol de quase meio-dia. Era indisfarçável a diferença de idade a separá-los e não menos oculto os já costumeiros papéis desempenhados de estrangeiro em busca de prazeres sexuais e sua garota de programa a tiracolo. Dado momento, ela perguntou ao homem do lado a respeito de certos dados técnicos da competição que se desenrolava diante do trio. O homem gentilmente explicou sobre o número de voltas que as atletas deveriam percorrer e qual o grupo de ciclistas que estava na dianteira. A moça traduzia para o estrangeiro que demonstrava satisfação pelos três primeiros lugares serem ocupados por conterrâneas norteamericanas. — Você fala inglês muito bem – disse ele à moça. — O meu é

lamentável. — Entendo mais do que falo – agradeceu timidamente para acrescentar carregada de ironia. — Ossos do ofício. E os dois iniciaram agradável conversação. Descobriram-se oriundos do mesmo bairro suburbano, dois exilados na cosmopolita Copacabana, me engana. Aos poucos foram quase deixando de lado o gringo que, entusiasmado, gritava “USA!” a cada passagem do trio norte-americano. Ele nada insinuou sobre a ocupação da jovem e ela, em contrapartida, não o perguntou sobre sua condição. Nada mais eram que um jovem casal em inocente diálogo, coadjuvado por um gringo em marcação cerrada, que a moça eventualmente trocava algumas frases para que ele não se percebesse carta fora

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do baralho. O triatlo se encerrara. As americanas conquistaram ouro e prata. Um gringo feliz pela superioridade ianque e os dois cucarachas, vértices do triângulo, entristecidos pela iminente separação. Talvez nunca mais se cruzassem. Foi quando ela surpreendentemente falou. — Susana, dois patinhos na lagoa, macaco, meia nove, uma dúzia. — Como? — Dois patinhos na lagoa, macaco, meia nove, uma dúzia. Meu número. George entende números em português. Me liga depois do pan. Ele não estará mais aqui.
Zulmar Lopes

O homem esboçou dúvida no olhar. Ela, percebendo, esclareceu.

minutos observando aquela dupla forjada pela condição de colono dominador e colonizada submissa. — O preço é de cem Mirou com especial reais, período de uma atenção o elegante cahora, mas você me minhar da garota de parece uma cara legal. programa. Em seguiQuem sabe, a gente da, sacou do bolso da não se torna amigos? camisa uma caneta e Ele sorriu. um pedaço de papel, anotando o telefone. — Posso lhe perguntar 2217-6912. Não conuma coisa? – inquiriu fiava em sua memóela com a voz carreria. Guardou número gada de sensualidade. de Susana, ligou o — Claro. motor elétrico de sua cadeira de rodas e — Você consegue, rumou para casa, já não? contando os dias para — Consigo, não se o encerramento dos preocupe. jogos pan-americanos e da volta do gringo Despediram-se. Ele ao doce ianque lar. não deixou de cumprimentar o gringo, e o casal seguiu em direção ao Leme. O homem ainda ficou por

Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem diversos prêmios literários com destaque para as menções honrosas no 11º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, 7º Concurso de Contos Luis Jardim e 23º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba. Vencedor do 33º Concurso Literário Felippe D’Oliveira na modalidade conto. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”.

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lado vampiresco, noturno, nome de “O Canto da concertista. Ele tinha diante de si sua visão ao enfim, o meu aventureiro –

Sereia de Bach”, já que a SAMIZDAT — Giulia Moon é, segundo fontes bela melodia sempre se seguras (rsrs) um nome mostrava como um fatal artístico. Como é o seu e irresistível convitepor ao nome de batismo, e além-túmulo. que a opção pela adoção

a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

estudante de meu nome GIULIA — O música, real é Sueli Tsumori. Amachamado Wolfgang “Giulia Moon” é um nickname deus Mozart. Quando que adotei quando entrei soube da maldição, não na Tinta Rubra. Ao inse alarmou, disse apenas vés de escolher, como os que gostaria de ouvir o outros, um nome romeno vampiresco com títulos de tal concerto fúnebre e de nobreza como “condessa” conhecer o seu autor. Foi e “lady”, reuni dois nomes alertado de que a história curtos que tivessem algum era verdadeira, de para as tipo de significado que mim. Eu sempre gostei do pessoas já não queriam nome “Giulia”, música, e mais estudar porque soava sensual, gracioso e fácil de ele poderia ser o próxiser pronunciado. E “Moon”, mo, e osou uma apaixoporque dia fatal estava se aproximando... Nada nada pela lua, adoro ficar devaneando sob uma disso o espantou. lua

O Rei dos

Judeus
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com crueldade, e assim por

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levantar apoiando-se um monstro que tem um no órgão, que sua mão arsenal de armas variado: atravessou como se nada a força, o poder psíquico, a sedução, a esperteza. Pode ali estivesse. Caiu sobre agir com “mão pesada” o vômito,a começando a ou com sutileza, dependendo recobrar a razão e tenda situação. Mas também tandoser sentimental, frágil, pode afastar-se daquele cheia ou ler histórias que enfim, pode ter todas Dia vinte e oito, “Toca- prenúncio da morte.as fraenvolvam noites de luar – quezas da mente humana, De bruços sobre a terra, ta e Fuga em Ré Menor”, além de achar a grafia de pois já foram humanos um prendendo-o “moon” muito legal, dito, tudo como haviamcom os sentiu algoautor, é um perdia. Para o pelo pé. Não teve cora“o”s estava Mozart dene lá lado a lado, lembrando sonagem muito estimulante, Henry Alfred BugAlHo dois olhos arregalados de gem de olhar que o ver o tro do cemitério. Com os e isso faz com para produespanto. Quando lancei o to da criação tenha grandes olhos fechados, deixava-se que era. E novamente a primeiro livro, não havia chances de ficar bom. E, voz suave suplicou: “Terextasiar com as comporazão para assinar de outra para o leitor, é aquele vilão Fazendo forma, de Johann Sebassições já que a maioria dos mine a música”. sacana (ou vilã) bonitão, meus leitores me conheuma desesperada oração e malvado que adoramos tian Bach, num estado cia como “Giulia Moon”. E mental, tateou o solo até odiar. Vilões assim sempre de euforia sobrenatural. assim ficou. Nunca publifizeram sucesso, pedra encontrar uma pois adoraSubitamente, o som se quei nada como Sueli, pois mos esses contrastes: beleza pontiaguda. Com ela, extinguiu. O jovem desGiulia continua sendo, pelo com maldade, delicadeza menos do mim, pertou paratranseoemeu dirigiu começou a desenhar no

psíquicos, força física. É

vampiros do meu livro No dia seguinte, o Kaori são os vampiros clásjovem Mozart já bebem sicos: predadores, não se encontrava pela cidade. sangue (e só sangue), não andam a luz do dia, têm “Mais um levado pelo muita da Sereia de Bach”, Canto força e capacidade de se regenerar de ferimentos. diziam. Contudo, soubeMas já escrevi contos em se na hospedaria que ele que os vampiros são seres havia partido durante a microscópicos, por exemplo. Os clichês ruins são madrugada, são e salvo, apenas após o aqueles que são mal sinistro concerto. trabalhados pelo autor.

No cemitério, ao invés do esperado músico morto, SAMIZDAT — foi encontradaMuitos apenas autores da nova geração uma inscrição com os encantaram-se na terra, parecida com causa dos de vampiros por o trecho jogos de RPG, especialalguma partitura. Desde mente “Vampiro: a Másentão, não se noticiou cara” (publicado no Brasil mais vítimas do “Canto pela Devir). Você pertenda a este grupo ou seu ce Sereia de Bach”.

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deQuase um ano após o um pseudônimo? Você publica textos como “você início das mortes, passava mesma”, diferentes dos pela região um viajante textos escritos como Giuaustríaco, excepcional lia Moon?

diante. chão a partitura do final Aquela mesma figura cade uma recente compoeu que passava as noites davérica, que levara tansição sua – a primeira a SAMIZDAT — Com tanteclando com amigos sotos autores, nacionais e tos a sucumbir, apontava- lembrar que estava em turnos e escrevendo contos estrangeiros, abordando lhe seus terríveis olhos harmonia com a música cruéis na Tinta Rubra. o vampirismo, é possível ausentes. E como todos os inacabada de Bach. Terfugir de certos clichês outros, também Mozart minando, viu quefazê-lo SAMIZDAT — Os vampido gênero, ou ao a perna www.oficinaeditora.com paralisou-se. Junto à ima- já estava o riscoCorreu o ros são um dos temas que, corre-se livre. de descade tempos em tempos, racterizar o que pôde, gem macabra, sentiu o mais rápido tema? voltam a putrefação. As GIULIA — para trás. O cheiro daser moda. A que sem olhar Bem, não existe você atribui este fascínio uma de sua composição náuseas dominaram-no, som lei que diga que tais que temos por estas criae tais características são o que o fez libertar-se da servia de trilha sonora turas? obrigatórias para um persoparalisia, caindoque as de joepara a vampiro. Acho que GIULIA — Acho nagem fuga, enquanto lhos a largos vômitos. Em ele pensavabom senso de pessoas gostam de vampiros depende do como, até o porque engasgos, tosses cada autor. Um bom senso meio a são, em primeiro e momento, aquela música lugar, vilões comfrasebom um mor- nuncafaça reconhecer que, que o havia lhe parecido ânsias, ouviu a layout. São parecidos com sem algumas características tal: “Termine a música”. tão viva e tão mórbida. os seres humanos, têm as básicas, o seu personagem Prometeu vampiro, mas vantagens dadesnortenão é um não mais tocáConfuso, juventude la. eterna, imortalidade, se alguma outra criatura. Os ado, Mozart tentou dons

ficina

Contos

Todos aqueles que sobraram
Samuel Congo da Costa
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I ‘’Bata nyonso na mbotama bazali na limeiya pe makok’’. Aristides Maia

- Monstros! A afirmação do jovem advogado Missael Da Maia trouxe Aristo para a realidade em que vivia. Ambos estavam estupefatos diante da TV, são cenas de aviões que se lançavam contra duas torres, que depois ardiam e explodiam em chamas. Aristo volta seu

olhar para o filho ao seu lado no sofá, bem queria dizer para o filho: - Eu sei meu filho, sei que tens medo...mas estou aqui ao teu lado..., mas não disse nada, na verdade preferiu não dizer, parecia que a melhor forma de se comunicar com o filho, era através do silêncio.E Aristo sentia uma angústia enorme,toda a vez que encarava Missael de frente. Pois não via no filho, toda a urgência e toda a emergência, tão comum a todas as juventudes, de todos os tempos, em todos os lugares.

O olhar que ele mesmo tinha quando tinha a idade de Missael. Queria ver outra coisa, mas não via nada, não enxergava nada em seu filho. -Filho! Isso é um ato chocante não é? Te parece um ato criminoso para ti, não parece?-Para Aristo da Maia era tão somente um ato de guerra, tão brutal com um ato de guerra poderia ser em seu contexto mais amplo e profundo. Há muito vivenciara atos tão brutais como aquele mostrado na TV, em menores proporções é

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claro, mas com toda a bestialidade que uma guerra poderia gerar. O velho soldado bem queria dizer ao filho, que passara parte da juventude e da vida adulta ouvindo certos rumores. Na verdade eram promessas, hora veladas, hora ditas abertamente em conclaves, de um ataque frontal ao centro do capitalismo imperialista ocidental, devolver todas as agressões perpetradas por séculos de escravidão, exílios, saques, estupros e massacres. Em meio a devaneios e divagações um nome, há muito adormecido em sua mente, ressurge com toda a força: Natália. A imagem dela vinha lhe assombrando depois de um longo tempo tentando-a esquecer de vez. Era com ela que Aristo um dia queria se casar e ter filhos. Naqueles anos de guerra subterrânea, tempos da chamada ‘’Guerra fria’’. Que o apanhou ainda criança na velha África, quando por diversão cantava, como criança marota que era, hinos da guerrilha perto de soldados portugueses que patrulhavam as ruas de seu país. Cantava o

hino próximo aos soldados armados de fuzil para depois sair correndo. Aristo também se recorda de seus muitos exílios forçados em diferentes países. Nos anos em que viveu na Europa e dos amigos e inimigos que fez nesses conturbados anos de luta armada. Agora senta confortavelmente em sua poltrona, revivendo em sua mente, um tempo que apesar de distante, vem atormentelo de forma tão brutal como as imagens que se passa na TV. - Pai? ‘’Tas’’ inda pra onde? Aristo hesita em olhar para trás, enquanto caminha para a varanda, temia encarar o filho naquele momento. Era uma hora muito difícil para ele, por muito tempo ficou imaginando como seria aquele ataque, aquela tal afronta ao centro do mundo capitalista. Não lhe passava na cabeça que seria um ato de terrorismo puro e simples, não poderia ser, não aos seus olhos. Pensara em algo mais profundo, mais articulado. Agora, um misto de desespero e, uma sensação

de vitória tomava conta de si ao mesmo tempo. Como soldado que um dia fora, não poderia tomar o sentimento de vingança, tinha que ser algo mais que aquilo. Lutara internamente para não sentir essas sensações, mas depois do que vivenciara, não poderia sentir outra coisa, já não era mais um soldado em combate ou militante em ação, era um ser vingado. Afinal, membros de sua própria família tombaram no meio do caminho por causa daquela gente. Para que vivessem bem e confortavelmente longe de todo o horror que eles proporcionaram a outros. Hoje aquele povo arrogante, que vivia confortavelmente, poderia sentir o que muitos outros povos indefesos, ao redor do mundo, um dia sentiram e ainda sentem, ver a própria carne arder em chamas ao vivo na T.V, um mundo de horror que eles mesmo contruiram, só que para os outros. - Como a tua mãe me faz falta numa hora desta filho...Aristide não percebe, mas fala em dialeto Kibundo. Missael não

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entendeu nada, e preferiu não fazer pergunta alguma. Mas conhecia bem aquele tom entretecido do pai, e resolveu deixar o velho sozinho consigo mesmo. Era o melhor a se fazer por ora. Todos aqueles que sobraram

contrastava com a pele amendoada de Missael. - Pai ‘’ tás’’ indo pra praia? Aristo só dá uma risada discreta, já estava cansado de falar para o filho que não lhe devia explicações dos seus atos. Pelo menos nisso o Missael lhe desobedecia, Aristo se convence, enfim, que o filho não era um caso perdido afinal de contas, havia ali uma centelha de rebeldia pelo menos. - Não me espera para o almoço! Era ríspido e amargo o tom de voz do velho soldado para com o filho. Ao descer as escadas da casa um sentimento lhe invade a alma. Era como um chamado, tinha que ir à praia de qualquer jeito, com se alguém ali o esperasse. Desde criança na África escutava essa estória sobre a Quianda e seu canto sagrado, metade mulher e metade peixe. Cantava, seduzia e matava, era essa a estória que ouvia de pescadores e marinheiros de Benguela, Bengo e Luanda. Também ouvia a mesma

ll ‘’Oh Sereia dos rios e dos lagos... Doce serpente...a banharse a mirar-se nas águas. Vem me seduzir! Embairme!Oh Quianda sagrada! Quero naufragar e morrer em teus braços! No Pelágio mais profundo quero sumir. Quero sumir e morrer em teus braços.. .Ouvir teu canto mais sagrado. Viver e morrer em teus braços...’’

estória dos ribeirinhos do rio Cuango e do rio kwanga. Começou como uma brisa fresca, típica da beira mar, mas agora esse zunido que se transformara em um canto finalmente. Aristo, materialista convicto temia estar enlouquecendo, talvez a falta da esposa que acabara de morrer de câncer, fosse a explicação plausível: - Preferia ter partido primeiro, como queria ter tomado o teu lugar Yara!Não queria ficar só neste mundo’’. Como os pés descalços, que mergulhavam na areia quente do meio dia, a brisa que lhe acariciava o rosto, Aristo sente uma sensação de paz a lhe invadir: Deus, esse cheiro de flores, as mesmas do dia do casamento com a Yara!Só posso estar louco! Aristo não sabia o porquê de estar pensando em Kibundo, fazia tempo que não falava com um patrício sequer. Ao longe uma figura etérea de uma mulher que se aproximara de Aristo o atormentou, ela parecia flutuar enquanto andava. Uma mulher de pele alvíssima e roupas

Os olhos verdes do pai se voltam para confrontar os olhos castanhos e puxados do filho, a tez branca de Aristo

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coloridas muito extravagantes, era uma romani com toda certeza, Aristo conheceu alguns na Europa e uns tantos no Brasil. Mas aquela era diferente, e à medida que aquela mulher se aproximava, uma certeza tomava conta do velho soldado. Era como nos tempos das incertezas que precediam um conflito, Aristo estava em guerra de novo, não sabia se ficava contente ou triste. - Aristo, como vai!A voz soava como um canto. - Por que falas a minha língua mulher? Onde aprendeste o meu dialeto? Aristo fala em português com a romani. - Já que queres falar a língua dos estrangeiros está bem. - O que queres de mim afinal, já não paguei o suficiente nesta vida?Vou ter que sofrer na outra vida também, é isso?

-Por que falas assim? Se não acreditas em outras vidas além desta, soldado? -O que queres afinal de contas? - Se lembra das palavras do Carlos para o teu comandante herr Markus Wolf? - Inferno o que queres de mim afinal, não lembro, pare de me assombrar com essas coisas mortas! - ‘’Um dia, quando perdemos a guerra, quando a gente for derrotado, e não sobrar mais nada, vamos todos dar as mãos camarada “Mischa”. Aí todos aqueles que sobrarem, vão se reunir em canto escuro qualquer do planeta, para atacar aqueles imperialistas malditos. Vamos fazêlos pagar um preço alto Mischa, eu juro’’. Não foram essas as palavras soldado? - Também fala alemão romani? Sim, foram essas

as palavras, eu estava lá quando Ramírez disse para o comandante essas frases. Fui testemunha disso e muito mais, já ouvi esse discurso em várias línguas a vida toda. Mas, não quero ouvir mais, fiz a minha parte estou onde estou, falando a língua que falo. Vou perguntar de novo, o que queres de mim mulher? - Não perdes a esperança meu amor, e logo estaremos juntos de novo! Proferiu essas palavras em português bem claro e típico de quem nasceu no norte, Aristo não sabia o dizer ou pensar, aquela mulher acabara de falar com a voz de Yara. -Tenho que ir soldado já dei meu recado... A mulher andou em direção ao mar para sumir em meio às ondas, era incrível, mas ela parecia não se molhar ao adentrar no oceano.

Samuel Congo da Costa
Nasceu a 5 de Agosto de 1975. É contista e poeta na cidade de Itajaí/SC, sul do Brasil. Acadêmico do curso de Letras da Uniasselvi de Balneário Camboriu, Santa Catarina. vem contribuindo com a imprensa local e tem textos publicados em site especializado em poesia. modalidade conto.

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García Lorca
trad.: Henry Alfred Bugalho É Verdade Ai, que trabalho me custa Amar-te como te amo! Por teu amor me dói o ar, O coração E o sombreiro. Quem me compraria a mim Este cintilho que tenho E esta tristeza de fio Branco para fazer lenços? Ai, que trabalho me custa Amar-te como te amo! O céu é de cinza O céu é de cinza As árvores são brancas, E são negros carvões Os campos queimados. Tem sangue ressecado A ferida do ocaso, E o papel incolor Do monte está enrugado. O pó do caminho Se esconde nos barrancos, Estão as fontes turvas E quietos os remansos. Soa cinza-avermelhado A tosquia do rebanho, E a azenha materna Acabou seu rosário.

Tradução

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A rosa não buscava a aurora A rosa Não buscava a aurora: Quase eterna em seu ramo, Buscava outra coisa. A rosa Não buscava nem ciência nem sombra: Confim de carne e sonho, Buscava outra coisa. A rosa Não buscava a rosa. Imóvel pelo céu Buscava outra coisa.

Terra seca, terra quieta Terra seca, Terra quieta De noites Imensas. (Vento no olival, Vento na serra.) Terra Velha E da pena. Terra Das profundas cisternas. Terra Da morte sem olhos E das flechas.

De Profundis Os cem apaixonados dormem para sempre sob a terra seca. Andaluzia tem Longos caminhos rubros. Córdoba, oliveiras verdes onde pôr cem cruzes, que os recordem. Os cem apaixonados dormem para sempre.

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Da candeia

Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936) foi um poeta e dramaturgo espanhol, e uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola devido ao seus alinhamentos políticos com a República Espanhola e por ser abertamente homossexual. Nascido numa pequena localidade da Andaluzia, García Lorca ingressou na faculdade de Direito de Granada em 1914, e cinco anos depois transferiu-se para Madrid, onde ficou amigo de artistas como Luis Buñuel e Salvador Dali e publicou seus primeiros poemas. Grande parte dos seus primeiros trabalhos baseiam-se em temas relativos à Andaluzia (Impressões e Paisagens, 1918), à música e ao folclore regionais (Poemas do Canto Fundo, 1921-1922) e aos ciganos (Romancero Gitano, 1928). Concluído o curso, foi para os Estados Unidos da América e para Cuba, período de seus poemas surrealistas, manifestando seu desprezo pelo modus vivendi estadunidense. Expressou seu horror com a brutalidade da civilização mecanizada nas chocantes imagens de Poeta em Nova Iorque, publicado em 1940. Voltando à Espanha, criou um grupo de teatro chamado La Barraca. Não ocultava suas idéias socialistas e, com fortes tendências homossexuais, foi certamente um dos alvos mais visados pelo conservadorismo espanhol que, sob forte

influência católica, ensaiava a tomada do poder, dando início a uma das mais sangrentas guerras fratricidas do século XX. Intimidado, Lorca retornou para Granada, na Andaluzia, na esperança de encontrar um refúgio. Ali, porém, teve sua prisão determinada por um deputado católico, sob o argumento (que tornou-se célebre) de que ele seria “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”. Assim, num dia de agosto de 1936, sem julgamento, o grande poeta foi executado com um tiro na nuca pelos nacionalistas, e seu corpo foi jogado num ponto da Serra Nevada. Segundo algumas versões, ele teria sido fuzilado de costas, em alusão a sua homossexualidade. A caneta se calava, mas a Poesia nascia para a eternidade e o crime teve repercussão em todo o mundo, despertando por todas as partes um sentimento de que o que ocorria na Espanha dizia respeito a todo o planeta. Foi um prenúncio da Segunda Guerra Mundial. Assim como muitos artistas - e a obra Guernica, de Pablo Picasso -, durante o longo regime ditatorial do Generalíssimo Franco, suas obras foram consideradas clandestinas na Espanha. Com o fim do regime, e a volta do país à democracia, finalmente sua terra natal veio a render-lhe homenagens, sendo hoje considerado o maior autor espanhol desde Miguel de Cervantes. Lorca tornou-se o mais notável

numa constelação de poetas surgidos durante a guerra, conhecida como “geração de 27”, alinhando-se entre os maiores poetas do século XX. Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo. Fonte: Wikipédia

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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tempos de internet: utopia ou distopia?
Henry Alfred Bugalho

Literatura em

Teoria Literária

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As opiniões sobre o futuro da Literatura, e das Artes em geral, na era digital tendem a se polarizar em dois extremos. Alguns acreditam que o advento e a popularização da internet promoverão um novo apogeu cultural, permitindo que milhares, ou talvez milhões, de novos escritores que estariam anteriormente fadados à marginalidade literária possam florescer e ser reconhecidos. Por outro lado, há uma legião de apocalípticos, que prenunciam o fim da cultura como nós a compreendemos, a total extinção do mercado cultural e a invasão de obras sem nenhum valor, o que inviabilizaria, em meio a esta massiva produção de lixo, a identificação dos verdadeiros talentos artísticos. Apesar de estes dois pólos apresentarem perspectivas bastante distintas, ambas coincidem num ponto muito importante: nada mais será como antes. É crucial constatarmos que estamos numa época de profundas transformações, não somente em termos quantitativos, mas principalmente no modo como interpretamos a realidade. A internet não apenas tem alterado nossas relações pessoais e culturais, mas também está modificando

nossas estruturas mentais, a maneira como apreendemos o mundo e interagimos com ele. Psicólogos investigam as funções cognitivas das novas gerações, criadas numa época pós-internet, e estão descobrindo que, cada vez mais, habituamonos a assimilar informações fragmentárias, e que tem tornado mais árduo o esforço para concentrar-se e aprofundar-se em narrativas longas. Seria o fim das metanarrativas, como preconizada por Lyotard em “A Condição Pós-Moderna”? Estaríamos presenciando o surgimento de uma geração superficial, acostumada a apenas ler notas de rodapé? Ou este é o sinal de uma nova forma de pensar, nem pior ou melhor do que a anterior, mas que também permitirá novos horizontes científicos, tecnológicos ou culturais?

e publicação. O número de obras produzidas e publicadas nas últimas três décadas ultrapassa exponencialmente o número de obras publicadas durante todo o século anterior. Hoje, com a internet, blogs e redes sociais, um autor pode ser lido e reconhecido sem jamais ter passado pelo processo tradicional de publicação, que envolve editoras, distribuidoras e livrarias. Nunca antes foi tão fácil escrever e ser lido. Qualquer indivíduo no mundo pode ter uma ideia original, disponibilizá-la na rede e obter leitores, sem qualquer edição, censura ou obstáculos materiais. As editoras e livrarias eram um brutal sistema de triagem que relegavam às sombras vários autores muito mais talentosos do que muitos daqueles selecionados para publicação. Nas pilhas de originais recusados das editoras poderiam estar o próximo grande romance da História da Literatura, ou até mesmo o próximo grande bestseller (que é a meta de toda e qualquer editora), que os editores não conseguiriam enxergá-lo a um palmo diante dos olhos. E quanto mais atrasado o mercado literário de um país, mais brutal e arbitrária era esta

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a utopia
Para um escritor iniciante, a internet e suas possibilidades foram o maior evento transformador dos últimos séculos. O primeiro passo havia sido, obviamente, o desenvolvimento do computador pessoal, que facilitou incrivelmente a tarefa da escrita, reduzindo o tempo para redação, revisão

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triagem, e mais talentos morreriam sem ver o simples sonho de publicar um livro realizado. Ainda hoje, o mercado editorial continua tendo dificuldades para assimilar todos os autores extraordinários que têm se manifestado graças à internet, pelo simples fato de ser impossível abarcá-los todos. Publicar um livro significa investir dinheiro, e quando os recursos de uma editora são escassos, ainda é necessário realizar uma seleção do que merece ou não ser impresso. Mesmo assim, a possibilidade de autoimpressão até permite a subsistência fora do grande mercado de livros, com autores vivendo exclusivamente de suas obras publicadas independentemente. Esta crise de legitimação, pois as editoras não são mais a palavra final quando se trata de boas publicações, está conduzindo a uma quebradeira das pequenas editoras que não estão conseguindo se adaptar a esta nova realidade, ou à formação de megaconglomerados editoriais. Assim como já ocorreu no mercado fonográfico, as editoras terão de se adaptar para não morrerem. E no rastro desta crise, também aumenta a abertura dos leitores, que não buscam somente em li-

vrarias as obras que suprem suas ânsias ou necessidades, mas que recorrem, às vezes exclusivamente, á internet como fonte de informação ou para comércio. Gradativamente, a relevância de ter sido ou não publicado por uma grande casa editorial tem se reduzido, isto se é que um dia tenha sido de grande importância para os leitores o autor haver sido publicado pela editora X ou pela Y. O novo cenário cultural é o mais propício possível para um autor talentoso e que compreenda como utilizar a internet a seu favor para publicação e divulgação de seu trabalho.

a distopia
Por outro lado, os profetas apocalípticos não estão equivocados quando apontam que, com o aparecimento de um número significantemente superior de novos autores, em consequência também presenciaremos uma onda considerável de obras sem o menor valor de leitura. E não me refiro apenas a valor literário, mas ao mais básico da escrita, como textos sem nenhum tipo de coerência, mal redigidos ou meras cópias insossas e mal feitas de outras obras de sucesso.

Uma profusão incontrolável de novas obras, segundo a segundo, na internet, definitivamente torna a tarefa do leitor em localizar o que busca muito mais complicada. Quando o rol de possibilidades resumia-se a uma centena de títulos, as probabilidades estatísticas de um autor atingir seu público-alvo era muito superior aos nossos dias, quando vários milhões de textos estão disponíveis para consulta. Que consigamos, de um modo ou de outro, encontrar o que procuramos na internet é um mistério que se funda, principalmente, numa meritocracia virtual, que através dos próprios usuários da internet determina o que tem relevância ou não. Ainda é uma triagem brutal, mas provavelmente bem menos arbitrária do que a das editoras, pois, ao invés de decisões individuais, somos confrontados pelas decisões coletivas que, no final das contas, é o que realmente imortaliza ou ignora os escritores. Além disto, com a desintegração do mercado editorial, com a oferta online dos produtos culturais gratuitamente ou através de pirataria digital e com a crescente dificuldade de se capitalizar com obras literárias, presenciamos a morte

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da profissão do escritor, ou pelo menos de uma grande parte desta profissão. É fato que, excetuando certos países desenvolvidos como EUA, Reino Unido, França, ou Alemanha, por exemplo, são poucas as nações que possuem um mercado de livros tão aquecido que permita a manutenção de uma classe de escritores profissionais. O Brasil é um destes casos, onde um escritor profissional é uma exceção, ao invés de regra. Para a maioria dos autores brasileiros, a venda de livros é uma renda extra, ou não é renda alguma. No entanto, a revolução digital está comprometendo até a existência dos poucos autores profissionais, pois quando baixar gratuitamente um livro digital é uma tarefa simples, feita através de uma rápida busca na internet, por que alguém se sujeitaria a pagar 30 ou 40 reais numa livraria? Por um lado, a internet permite a manifestação de novos autores talentosos, mas, por outro, também está minando o topo desta

hierarquia, quando uma parcela crítica dos consumidores deixa de comprar os produtos culturais. Ao contrário de músicos, que ainda podem obter lucros através de shows, tudo que o escritor tem a oferecer são seus livros e textos. Se ele não consegue gerar renda através deles, ele se verá forçado a retornar ao diletantismo, ou terá de encontrar fontes alternativas de lucro.

vítima de pirataria e outros problemas ocasionados pela exposição virtual. Creio que esta seja uma característica de qualquer grande revolução intelectual; ao mesmo tempo em que abre várias possibilidades instigantes para o futuro, ela também apresenta tremendos desafios para aqueles forçados a cavalgálas. Paradoxalmente, a internet é simultaneamente uma dádiva e uma maldição para a escrita. Apresenta tantas possibilidades estimulantes, porém também está destruindo toda a estrutura que, desde a invenção da imprensa, foi arquitetada. A nossa missão, enquanto escritores, é sobrevivermos a este turbilhão, até que a poeira dos escombros se assente e possamos, com a clareza que apenas o tempo proporciona, interpretar este novo mundo.

Conclusão
Eu adoraria ter uma resposta simples para a questão: Literatura em tempo de internet: utopia ou distopia? Não tenho. Como autor em início de carreira, obtive e ainda obtenho muito proveito pelo espaço supostamente democrático da internet. Jamais teria conquistado o reconhecimento e a quantidade de leitores que angariei sem passar pela publicação tradicional. Contudo, também já fui, e sou ocasionalmente,

Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), de outros quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-deVaca”, cidade na qual morou por 4 anos. Está baseado, atualmente, em Buenos Aires, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

Henry Alfred Bugalho

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Antirreflexo
Daniel Delgado Queissada

Poesia

Memórias rasgadas Aparentemente apagadas Tinta bruta permanente Permanentemente afiada Sangra o que não deve Porém, o que não se percebe É o gosto...gostoso De quem gosta do desgosto De quem sente o assombro De tudo que não lhe convém Quando na melhor companhia A solidão lhe cai bem Memórias anuviadas Pela tinta que dimana E mancha a marcha do tempo Que devagar flui como um rio...sedento ro Espelho meu abdica desta farsa E só reflita o que for verdadeiro Sem truques, caras e bocas Apenas a face hermética...ainda presa no cativeiSangria desenfreada Sanguessugas da alma Das almas penadas que somos nós Sozinhos em nossos lençóis

Antirreflexo da felicidade Que não suporta o fim...start da vaidade Mesmo não entendendo Que o mesmo está ao lado de cada início inesperado

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SAMIZDAT outubro de 2011

Antirreflexo II (tabula rasa) Constrói a história do tempo O tempo que se inicia após o fim inesperado Já que juntos cursam por toda a eternidade E combatem o antirreflexo da felicidade Feliz seja tudo que lhe convém E o que não...amadureça longe do seu quintal Seja feliz mesmo que não convenha Pois o que se colhe verde apodrece no final Grandes novidades no museu da alma Pinturas, musas e esculturas...de carne A entrada é franca...ou quase nada Apenas deixe para trás a tinta já usada

Somos tabulas-rasas prontas Prontamente inconscientes do que nos espera O certo é que o preenchimento é inevitável Inevitavelmente recobre as manchas de outra era Uma semente cresce em seu jardim Florestas voltamos a ser Pois mesmo em terrenos inóspitos ouve-se o toque do clarim Proclamando que voltamos a ter...o que nos faltava...ser Hoje, nem tintas afiadas Nem tabulas-rasas O preenchimento inevitável aconteceu Assim é você...assim sou eu

O autor é graduado em Biologia e doutor em Biotecnologia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente trabalha no Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP) da Universidade Tiradentes (Unit) em Aracaju-SE. Mesmo com a correria da vida acadêmica, nunca deixou de lado sua grande paixão, a escrita.

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Poesia

A Rainha Sangrenta
Mateus Medina

A noite guarda segredos; é impura Como a rainha sangrenta; tem sede De sangue ela se alimenta; não dura Sempre em busca de mais; não cede Quem dela se torna escravo, Nunca mais o mesmo será Uma vez sentido o seu travo, Não há desejo de se libertar Tudo é tomado por ela, Tudo é voltado pra ela Seu ciúme apaga o dia Sobe a lua, pura agonia E para os gritos que se ouvem; a toda hora Não há mais clemência, o sol foi-se embora.

Mateus Medina tem vinte e nove (29) anos e nasceu em Salvador-BA. Poeta desde que se recorda, trabalhou com teatro por oito (8) anos, até se mudar para Lisboa, onde hoje vive e trabalha. Mantém um blog ( http://avidaemrabiscos.blogspot.com/ ) onde publica os seus poemas, criticas literárias e cinematográficas, além de reflexões.

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SAMIZDAT outubro de 2011

Poesia

MutAção
Juliana Ponciri
Socorro! Depressa! Depressa! Vou-mitar um verso! Precipita-me uma caneta, lápis ou qualquer Preciso parir esta inquietude que ao ventre rasga Blasfêmia que rompe a bolsa do silêncio... brada! Depressa! Depressa! Tá nascendo o sol no meio da cala Palavra metamórfica que religa! Rude, rasgada Ela desponta em agonia Chamam-na poesia.

Graduou-se em Educação Artística pela Universidade de Brasília.

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Juliana Ponciri é poeta, filósofa, crítica, professora e pesquisadora de Teatro e suas áreas inter/ transdisciplinares;

Poesia

Sufoco
Respiro um alívio, lágrimas, caem quentes. Procuro razão, motivo qualquer Onde a terra sufoca sementes. Preciso escrever se não sufoco Lágrimas de sangue. Anjo meu, sou seu foco Transforma-me num objeto surdo insignificante Me desperta num sonho em outro mundo, Mas onde eu possa respirar. Por onde andaste em infinitos passos Na cólera de inúmeras feridas Estou a cá ó ilustre e divina luz Que embriaga meus pensamentos E que a todo instante me conduz Pra fora de meu corpo. Onde estou? Se não mais ouviste as minhas súplicas Se não mais estou em delírio que percorreu E percorre toda minha estrutura como gotas de esforço elucida. Sufoco angústia neste silencioso papel Ouço palavras além do que posso imaginar. Desloco-me como um ser inútil. Apenas quero sorrir, livremente amar. Por onde andei? Está-se tão eufórica e perdida Neste contato de súplicas inalcançável Só me restam duvidas e pés descalços com a dor. Se eu infrinjo leis, que leis são essas? Onde a amargura desata sobre mim Como um desfecho de toda história Meio termo sem fim. Distancio-me das loucuras

July Anne A. Fernandes

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SAMIZDAT outubro de 2011

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Compreender fracassos não é o limite Limitam-me por amar incessantemente Mas não temos curas... Sufocando eis que estou aqui Diante de um raro amigo Pedindo abrigo Pra me fortalecer. Sufocando é assim que eu me sinto Suando frio, me falta o ar. Vivenciando é que eu me inspiro, O seu amor é o meu lar. E as mentiras se descrevem. Se há certezas são falsas promessas A dor, o ardor queima, sufoca. A pressão como fogo nas artérias. Estou sufocando, eis que devo continuar Colocando-me em papéis Rasgando-me como restos quaisquer Talvez para alguém me ouvir. Alguém pode me escutar?

Pois minha voz não o alcança E se houver tamanha esperança Especule a razão do que me desmonta Torna-me novamente e quantas vezes for preciso Pra fugir desse abismo, sair de mim Estou-se assim amarga, odioso devasto sangue sufocante Num objeto surdo e insignificante Eu preciso, pra não ouvir, não ouvir... Para não sentir suas pedras em mim Que a todo o momento colocam-me em um buraco negro perverso E das injúrias infames, da sua boca o sal do desprezo Cujo murmúrio é, os restos gritantes de meu corpo saltaram ao vento eterno. Eu ainda estou aqui... Dói o que fiz de mim. Olhe-me na estante, despreze-me o quanto puder Guardou-me por tanto tempo, Mas do seu medo, o sufoco, a lei que torturou Mas agora sou apenas a dor do desprezo, Páginas das piores lembranças que você me tornou.

Abraça-me o quanto puder Desfaça o nó de minha garganta Grite por mim se souber,

Ainda se importa comigo? Não sou mais eu. Tornei-me num objeto qualquer que um dia te amou.

Meu nome é July Anne Almeida Fernandes, nasci e moro em Curitiba/PR. Tenho 16 anos e sempre gostei de escrever, mas aos 12 descobri que escrever de hobby e vício se tornara uma enorme e intensa paixão que será para vida toda. Minha alma escreve poesias. Escrever é meu refúgio, é quando grito tudo que está preso dentro de mim que atormenta a mente, ou o que a deixa feliz. Escrever é rimar o amor com a luz do dia e fazer da escuridão uma bela poesia.

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Poesia

O crime do teu corpo
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Adriana Vargas

Você aí... Com um anjo chorando no peito... Posso ouvi-lo no frio de tua alma Não envelheça sem antes me sentir... Pálido... Sagaz... Pode me sentir? Pode saber sobre os ponteiros em minha garganta Se eu disse que o tempo está se apagando Com a aproximação de teus pés sangrando Na benção de teu sorriso? Sente-me? Tocaria meu corpo nu sob a luz de um abajur Nascendo em teus olhos? Saberia gritar se tua voz se calasse Se teus lábios pousassem agressivos Arranhando o céu de minha boca? Romperia o muro abstrato Arte do além Quase viscerantes ao escutar A Divina Comédia recitada no rouco lento de minha voz? Venha-te depressa... O tempo na ampuleta se derrete aos poucos Não há ninguém aqui, além de nós Toca-me... Longe das calçadas sujas de um passado que não volta Jogue a pedra de seu coração

Esvasia-se das mentiras Não volte para a casa antes de me contar teus segredos Não se exima do mal Que quebra o teu telhado Sem antes apalpar os meus seios... Sem antes entregar-se inteiramente Longe o tanto que não o fará voltar Não o fará distante do que teus olhos me rasgam Cortam meus impulsos Envenena o meu vinho Bebendo-te à miúdo Lentamente será meu... Sem ninguém para lhe ajudar Sem quebrar as garrafas de teu falso pudor Não há garantias... Não juras, nem promessas em um colar de pérolas... Quando o sublime dos desejos Instauram-se no teu “eu”... Com o insaciável meu “eu”... A unidade do perpétuo Um crime mútuo Sem redenção...

Formada em Direito pela UCDB; residente em Campo Grande – MS; vencedora do concurso regional de literatura infantil em 1980, ciranda das palavras, com o tema, brincando com as letras; escreve desde os sete anos de idade; em 2008 venceu o concurso do curso de monografia da Universidade UCDB, com o tema, O Racismo seus reflexos. Teve participações com menções honrosas em diversos concursos literários; autora de seis obras, O Segredo de Eva; O oitavo pecado; O diário de uma poetisa; O voo da estirpe; Poesia das pétalas e Suspiros a flor da pele

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VÁCUO
Marcia Szajnbok

Poesia

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para Nilza Foi para poder dormir que inventei um deus que sonhava : num tempo reverso estávamos juntas sentadas à mesa contando entre risos cotidianas migalhas foi para poder acordar que sonhei com um deus que criava: à imagem de minha vontade estavas comigo invisível, intocável presença incorpórea sussurro no ouvido foi para seguir em frente que criei esse deus que inventava: do aconchego de antigas lembranças o cheiro doce café com bolinhos abriu o portal inefável das dimensões desencontradas foi, assim, para estreitar o abismo que deus fingiu crer que era eu que sonhava: à semelhança da tua saudade lá estavas com tua menina embaladas por vago piano o olhar cúmplice e as mãos dadas

Marcia Szajnbok é psiquiatra e psicanalista. Paulistana convicta, vive feliz no caos de São Paulo. Pensa que literatura é diversão, contato e liberdade. Lê sempre e brinca de escrever de vez em quando.

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O escritor
Telmo Marçal

Poesia

Telmo Marçal é o pseudónimo literário de um escrevinhador português de contos de ficção científica e aparentados, distribuídos por vários fanzines, ezines e revistas e alguns deles agrupados na colectânea “As atribulações de Jacques Bonhomme, publicada em 2009. Nenhuma experiência prévia em poesia.

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“As atribulações de Jacques Bonhomme” A folha de papel em branco Normalizada com linhas para facilitar Tão finas e perfeitas Nunca poderiam ter sido traçadas pela rude mão humana E muito menos pela de qualquer outro bicho Por mais que jurem que os há inteligentes A folha é branca e tem linhas facilitadoras Mas o que lá escrevo não tem sabor Olho para dentro da minha cabeça Mando parar o filme que corre por trás da testa Esforço-me para obter uma imagem mais nítida Quase sangro pelas pregas da fronte franzida Mas só vejo banalidades Lugares-comuns, miudezas comezinhas, sem interesse para ninguém Sequer para mim, que as produzo e detenho direitos de propriedade O mesmo quando passei à máquina de escrever A folha enrolada ao tambor, descaída para trás em desânimo A desistir ainda antes de ser qualquer coisa A manter-se desistente mesmo depois de começada Os ricos é que tinham máquinas boas As avozinhas dos computadores Com ecrã envergonhado, memória e malabarismos Os ricos podem ter todas as coisas, por mais efémeras Nunca nada foi tão efémero como a máquina dactilografadora que quis ser eléctrica à força Os pobres são mais espertos, não quiseram tal coisa Tínhamos o nosso papel químico, para as cópias em triplicado Folhas brancas, papel químico, dedos de aranha Isso nunca me faltou Mas na ponta destes dedos, enrijecidos, certeiros Só pairavam as costumeiras banalidades Sensaboronas Onde estão os meus pensamentos profundos para ajudar na catarse da humanidade? Onde está a crónica das empolgantes aventuras, o elogio dos heróis resolutos, o sabor das demandas em lugares distantes? Os capítulos introduzidos com a descrição verosímil do espaço infinito? No primeiro capítulo coloca-se um homem Circunspecto como um ancião, impulsivo como um rebento de cabra montesa Um homem que modela todo o espaço E o reduz a uma bola de papel que despacha com um piparote Como eu aos meus rascunhos, invariavelmente insípidos Todo o tempo e todo o espaço são nada para esse homem Porque ama uma mulher que nunca fornicou nem almeja propriamente fornicar

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Tiro o homem do espaço infinito e lanço-o ao microcosmo O reino da bactéria e do micróbio Pela mesmíssima razão nada ali o assusta nem detém E a história, porque é das boas Acaba sempre bem no fim Será assim tão difícil? Tenho dois ecrãs esbeltos à altura dos meus olhos Sou o mesmo escritor, mas mais apetrechado Num dos planos faço suceder, em cor e vida Achados da frenética pesquisa, de enxurrada Enciclopédia infinita, sabedoria dos arcanos, loucura de alfarrabista O outro ecrã mostra o nada Uma desprezível intermitência, de que mal se dá conta Marca o lugar onde vai nascer a obra-prima O nada também é branco Sem linhas Se eu quiser ponho linhas, mas nem assim é mais fácil A inspiração é uma coisa qualquer que sempre me escapou Entre os dedos, entre os sonos Entre tantas coisas mais importantes que sempre tive de escrever Quando finalmente chega a hora de divagar sinto-me um pouco vazio Espremo a testa, sempre com a mesma vontade Até pingarem gotas de sangue pastoso e contaminado Teço um enredo É um princípio, algo onde me posso agarrar Para já pouco importa que seja simples Sensaborão, simplório O rapaz anda à procura da rapariga, já o faz desde sempre Senta-se à espera do comboio, também o faz desde sempre De repente ali está ela, especada à sua frente A indagar-lhe sobre a quantidade de tempo que nesse preciso instante marcam os relógios Como se isso ainda tivesse qualquer importância Acabam juntos, eu sei Embevecidos, de papo cheio Mas só depois de mirabolantes peripécias De terem perdido tudo, de entreabrirem a porta da morte De saldarem todas as dívidas, de redimirem todos os pecados Antes disso, nada feito! E eu faço tudo isto jorrar no ecrã Em carreirinhas de letras inteligentes Que se arrumam sozinhas e protestam qualquer desconforto Milhares de letrinhas Centenas de carreirinhas Provisório fim Ganho coragem para a segunda leitura Que não ilude

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Sensações requentadas Diálogos de televisão Enésimo recontar do menos inspirado descaramento da Sherazade Em perfeita continuidade com tudo o que escorreu outrora Dos aparos de lata e das pontas de carvão Que conspurca resmas de folhas de branco antigo Estou velho Os dedos de escrever entortaram em cada articulação das falanges Mas não lhes posso deitar culpas Também pouco interessa quão menos os olhos vêem Que eu sou o senhor das letras Faço-as crescer a meu bel-prazer Formalmente acuso a testa E aquilo que lhe está por trás O ingrato invisível a quem apelei durante toda a vida Para que me desse uma oportunidade Um rasgo, um legado Um vislumbre da imortalidade E tudo o que brota desse poço infecto são Bagatelas e trivialidades Sou um sobrevivente da era do tinteiro e do mata-borrão Da gloriosa época do tira-linhas De que me valeram tantos pixels E todos os bites encriptados do mundo? Franzo os músculos eloquentes da testa No espaço etéreo desabrocha um vasto rectângulo branco Sou omnisciente Invoco as ideias brilhantes O resultado de tanta sabedoria, tanta experiência Mas elas negam-se Em seu lugar projecta-se espuma Frustrações desgarradas Apontamentos soltos das memórias que me roem Ainda e sempre Teias viscosas da banalidade Que me arrepanham E puxam para a comunhão dos meus iguais Os meus simples iguais que observam todas as regras De comer e de beber Fazem os tratamentos e os exercícios Respeitam a higiene e tomam os elixires preconizados Eles é que são os verdadeiros imortais E eu apenas mais um deles Afinal A posteridade não precisa de banalidades A posteridade não precisa de mim

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Também nesta edição, textos de
Adriana Vargas Léo Borges

Daniel Delgado Queissada Lucas Pooch de Quadros Emanuel R. Marques
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Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Maristela Deves Mateus Medina Samuel Congo da Costa Telmo Marçal Zulmar Lopes

Erik K. Weber Henry Alfred Bugalho João Francisco João Manuel da Silva Rogaciano Joaquim Bispo July Anne A. Fernandes

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