Sociedade Frankestein

Ciro Marcondes Filho

A SOCIEDADE FRANKENSTEIN

São Paulo

1991

Um Frankenstein tecnológico nos ameaça. Pelo menos é o que cremos. Vivemos já num mundo de máquinas de transportar, de fabricar, de pensar. Frankenstein, nosso duplo, esse mundo-máquina que criamos, assume pouco a pouco sua autonomia e seu poder. Lucien Sfez

Primeira Parte................................................................................................................................................ 5 O DESTINO DE UMA ILUSÃO................................................................................................................... 5 1. A Crise do Pensamento Esclarecido................................................................................................. 5 2. O antiiluminismo................................................................................................................................. 8 3. O desencanto estético..................................................................................................................... 11 Segunda Parte............................................................................................................................................. 15 O FRANKENSTEIN TECNOLÓGICO....................................................................................................... 15 Traços gerais da sociedade..................................................................................................................... 17 1. Crescimento louco, multiplicação e morte....................................................................................... 17 2. Vivência imaginária.......................................................................................................................... 17 3. Ficcionalização da memória............................................................................................................. 18 4. Esvaziamento do ser........................................................................................................................ 18 5. Substituição dos sistemas lógicos................................................................................................... 19 I - Tecnologias e meios de comunicação.................................................................................................19 1. Tecnologias...................................................................................................................................... 19 1.1. A velocidade.............................................................................................................................. 20 1.2. A transformação da cidade....................................................................................................... 22 1.3. O novo status do saber............................................................................................................. 24 2. Meios de comunicação.................................................................................................................... 24 2.1. O processo televisivo................................................................................................................ 25 2.1.1.. A visão.............................................................................................................................. 25 2.1.2. A televisão.......................................................................................................................... 28 2.1.3.. O tempo televisivo............................................................................................................ 29 2.1.4. A densidade televisiva....................................................................................................... 29 2.1.5. A linguagem ...................................................................................................................... 29 2.2. A Informação............................................................................................................................. 31 2.3. Rock.......................................................................................................................................... 32 3 - Teoria em ruinas............................................................................................................................. 33 3.1. Velhas teorias da comunicação................................................................................................ 33 3.2. Nova teoria da comunicação.....................................................................................................36 3.3. Os conceitos da Era Frankenstein............................................................................................ 37 3.3.1. A circularidade................................................................................................................... 37 3.3.2. Superfície........................................................................................................................... 37 3.3.3. Autonomia do objeto.......................................................................................................... 39 3.3.4. Movimento.......................................................................................................................... 41 II - História, tempo, política...................................................................................................................... 41 1. Fim da história.................................................................................................................................. 41 2. O tempo............................................................................................................................................ 43 3. A política........................................................................................................................................... 44 4. O Estado orbital............................................................................................................................... 46 5. O "locus" do poder........................................................................................................................... 47 III. O ser enfraquecido.............................................................................................................................. 48 1. Assassinato de Deus....................................................................................................................... 49 2. Multiplicação e fracionamento infinito.............................................................................................. 50 3. A desestabilização dos sujeitos....................................................................................................... 51 4. A nova esquizofrenia........................................................................................................................ 53 IV. Cultura pastiche e vazia..................................................................................................................... 55 1. Cultura do cinismo e da indiferença ................................................................................................ 56 2. Coletividade interativa...................................................................................................................... 58 3. O corpo e a morte............................................................................................................................ 59 4. O processo econômico.................................................................................................................... 60 Terceira Parte............................................................................................................................................... 64 PARA ONDE VAI O HOMEM .................................................................................................................. 64 1. Teorias e estratégias........................................................................................................................ 64 1.1. Corrente histórico-humanista, voluntarista............................................................................... 64 1.1.1. A esquerda hegeliana........................................................................................................ 64 1.1.2. A teoria de Juergen Habermas.......................................................................................... 66 1.2. Corrente estruturalista............................................................................................................... 68 1.3. Corrente pós-moderna.............................................................................................................. 70 2.O oráculo de Freud........................................................................................................................... 73 Bibliografia.................................................................................................................................................... 77

3

A técnica e seus desdobramentos na sociedade. foram minadas pela própria forma de a técnica de autoimpor-se no social. De Deus. o desenvolvimento de todos os meios de transporte e comunicação. Esta liquidou a imagem de que no homem sua aparência poderia ser negada ou contraposta a uma estrutura íntima última. no destronamento da cultura erguida sobre a imagem de Deus. da razão.Primeira Parte O DESTINO DE UMA ILUSÃO 1. de fato promoveu o crescimento industrial. Técnica. usando-se da ciência. na possibilidade de uma natureza permanente e imutável no homem passaram. do objetivo sobre o subjetivo. a ideologia que se desenvolve a partir de seu uso e de sua instrumentalização tornaram possível. de fato. entretanto. a concepção baseada na filosofia clássica de que no homem existiriam "estruturas estáveis" . depois desta expansão da técnica. nas mãos do homem. bem como a inovação no campo artístico. mas superou-as excepcionalmente.que só não eram claramente perceptíveis porque o homem no seu processo social estaria encoberto por uma nuvem de alienação provocada originalmenmte pelo processo de trabalho . na cultura. isto é. não previam que seus desdobramentos questionariam a natureza do espírito social da própria época moderna. capacidades. a ser tidas como mera ficção. exploração e domínio. na história. Os objetos têm autonomia. Em outras palavras: a crença na existência de Deus. a expansão dos bens de consumo. do material sobre o imaterial. ele pode muito pouco. impôs uma verdade positiva de que as coisas são como são e qualquer recurso transcendente de explicação seria tido como misticismo. A onipotência tornou-se impotência. impõem-se ao homem e não se subjugam. bem como consagrou a afirmativa de Nietzsche. do concreto sobre o abstrato. ou seja. ele arrancou os poderes absolutos e determinou com isso o declínio da metafísica: a nova era passa a ser a do homem dominando a máquina. de que Deus estava morto. instituições e objetos deixaram claro. A técnica. força de interferir no meio. o aumento das facilidades das próprias sociedades humanas e em todos os âmbitos da vida cotidiana. Isto é. A existência de uma ontologia do ser teve sua origem nos mecanismos de antropomorfização da própria sociedade. e. no século XX. As esperanças excepcionais que os homens atribuiram à técnica. por derivação. Nele foi inculcado que possuia poderes. A Crise do Pensamento Esclarecido O homem da Era Moderna era marcado pela ilusão da onipotência. A técnica não só deu conta das aspirações humanas em realizar suas intenções de expansão. A ontologia. O domínio posivito da natureza e do meio decretava que nada mais de sobrenatural poderia interferir na ação racional humana com vistas à realização de seus nobres fins sociais.assim como a metafísica. que os poderes humanos têm alcance restrito: demonstraram que o homem não pode tudo. 4 . em primeiro lugar. a erosão dos princípios filosóficos que haviam sido erguidos no começo do século XVII.

prescindindo de uma sombra religiosa. Quanto mais se desenvolvia a ciência e a técnica. como barbáries sem rédeas pela história. O homem. demonstrando que independente ou além de o homem conseguir dar conta da sua realidade. a possibilidade de felicidade final. acontecimentos. evolução. porque justificava-se por si mesmo. funcionaram também como aval do exercício da ciência. violência. marcante especialmente na filosofia idealista. Aquilo que para o Cristianismo era a redenção. Havia se desfechado aí o golpe mortal e radical contra todas as formas de misticismo. o homem poderia através da inteligência e do uso de sua racionalidade abarcar todas as formas do real. no liberalismo e no socialismo. fatos inexplicáveis. genocídios e ameaça planetária puseram em cheque a capacidade da administração racional da sociedade. opostamente.Isto quer dizer que na Época Moderna havia se instaurado um inchaço nas possibilidades do sujeito. especialmente no após-guerra. a história funcionava como continuação do pensamento religioso e sua filosofia. numa ideologia. ao contrário. que lhe garantia o critério de legitimidade. isto é. que justificava os meios de acordo com os 5 . a salvação. num agir ético-político passando a uma legitimação em si mesmo . dizia Hegel. ao contrário. entretanto. irrupções fogem absolutamente de seu controle e de sua atuação. executar o domínio da natureza. imprevisíveis. como o foram o marxismo e o liberalismo. Tratava-se de um metarrelato e uma razão superior. ideologia. Com isso. O conceito de verdade subordinava-se a uma estrutura lógica maior. o saber racional e a possibilidade de o homem. da moral e da arte. incontroláveis. todos os conceitos de sustentação do pensamento iluminista começaram a cair por terra neste final de século. inspiraram-se. a liquidação final das ideologias legitimadoras ou das "metanarrativas". Os sistemas políticos fanáticos e radicais. progresso. Semelhante destino tiveram os conceitos de verdade. Tinha prestígio e status. ideológica ou abstrata. surgida na Época Moderna. O real é racional. segundo ela. através dele. do direito. Em primeiro lugar. as classes ou as revoluções deveriam realizar a tarefa histórica de construção terrena de uma utopia social. Estes grandes discursos legitimadores da ação política. a razão já que estava associada a um espírito iluminista e. O desenvolvimento da técnica. Sobreviveram. não passava de uma reformulação ou modernização do pensamento e da utopia cristã. inadministráveis. menos se poderia dizer que elas deveriam se basear num estatuto externo a elas. o conceito de razão não tem mais sentido. os eventos. transferidas para a margem da sociedade. É por isso que o desenvolvimento técnico acabou por realizar. foi tornando cada vez mais débil este tipo retaguarda filosófica. As crises históricas e os caminhos desastrosos a que conduziram os desenvolvimentos técnicos e as tecnologias. Nesse sentido. O sujeito transcedental era o homem ou o proletariado que deveria realizar a utopia histórica. na mais absoluta irracionalidade. história. A partir da experiência destes. atribuindo à capacidade humana a possibilidade de dar conta de todas as ocorrências terrenas. segundo seus próprios parâmetros. para o campo desprestigiado das crenças e ilusões. e especialmente as formas de dominação. e por suprimir o respaldo que se baseava numa filosofia especulativa. opressão. o pensamento materialista do século XIX transferiu para agentes humanos historicamente determinados.

de finalismo e de a história tender à realização de algum princípio. desaba também a noção de totalidade que. ele não passa de um personagem que fala uma língua que já encontra dada . exercia uma força terrorista sobre o conjunto dos demais discursos. Ele supunha um processo evolutivo em que uma sociedade medieval seria substituída por uma mercantilista mais desenvolvida e esta por uma sociedade industrial capitalista. como mencionado. acabando com as ilusões de o planeta estar no centro do sistema solar. já desde Copérnico e Darwin que não se justifica tal preponderância filosófica e histórica do homem. nada altera. Desmorona-se também a noção de sujeito histórico e mesmo a de indivíduo. na medida que ao integrar todos os componentes sob sua lógica. reduzia todos os fenômenos a leis gerais de funcionamento e da mesma forma "explicáveis" segundo seus princípios determinantes. já que este baseava-se na noção de linearidade ou de determinação. e Darwin. latente/manifesto. A história deveria dobrar-se a essa idéia criada pelos homens e seguir um rumo pré-programado. cai por terra também o conceito de história. Ou seja.fins pré-determinados. A radicalização deste ponto de vista deu-se com Lacan. essência/aparência. buscando trazer à luz aquilo que se apresentava como mistificador. Com a crise dos grandes discursos genéricos. Entretanto. derivada basicamente da dialética. na noção da história. obteriam ainda no início deste século um novo complemento a partir de Freud. ainda mais avançada. Ingenuamente achavase que se poderia colocá-la sobre os trilhos. Com a crise do conceito de verdade. nada faz. política e lógica social. A concepção de uma ontologia e a idéia de um desmascaramento estão igualmente subordinados às possibilidades do real ser racional. uma revisão de todo o pensamento. alienação/desalienação. A concepção de evolução ascendente do social entra em crise na medida em que os próprios valores que embasavam essa evolução já eram determinados pelo estágio em que se vivia. reduzindo o homem a um mamífero cujos ancestrais eram símios. assim como citoyen e burgeois. Vem abaixo também o conceito de ontologia. que participa de um mundo simbolicamente estruturado 6 . estava contida uma idéia de finalização. que por meio do método estruturalista iria levar às últimas consequências a determinação do inconsciente enquanto responsável pelas ações humanas: o homem nada é. que implicavam. porque se baseava numa lógica marcada por opostos. ao contrário. fazendo parte. cuja teoria iria demonstrar que sequer os pensamentos e a ação dos homens lhes pertenciam. Progresso e evolução seriam os indicadores da correção ou não desse rumo. de uma estrutura inconsciente genérica da sociedade. A noção de totalidade introduzia um componente simplificador em todas as relações sociais e era da mesma forma aglutinador. Copérnico. de se chegar através da conscientização política ou do trabalho intelectual ao "fundo" das coisas. fazem parte de uma lógica em que o homem obtém destaque dentro do conjunto social e se afirma como ser dominante. favorecia o desenvolvimento do pensamento ortodoxo e mesmo fanático em termos de ideologia. da qual o homem não passava de um mero representante. a partir de uma crítica ao místico na sociedade. Por outro lado. Indivíduo. sociedade que os homens acreditavam fosse se realizar necessariamente. encobridor ou falseador de uma determinada realidade. idéia.

O antiiluminismo ------------------------------------------------------Modernismo História. especialmente Nietzsche e Weber. de fato. Tampouco tem sentido para esta época a aspiração de autonomia em oposição a uma totalidade coisificada. Mas não somente Heidegger pensou prematuramente a questão da expansão da técnica e a crise do modelo iluminista. marxista) ------------------------------------------------------7 . em que nenhum dos conceitos anteriores pode ser reativado. não pode assim ser caracterizada como "superação". demasiado humano. a chamada "experiência estética autêntica" não tem mais espaço. como um corte. trata-se de encontrar seu verdadeiro lugar como um "sujeito emagrecido". com Heidegger. no século XX. que a crise deste humanismo ocorre no ápice da técnica. ao contrário. reduz-se o espaço efetivo de intervenção humana: a automação. instala-se uma nova ordenação lógica dando novo estatuto à técnica. autônomo. com a sofisticação e o refinamento dos sistemas técnicos. pode-se acreditar. Cada vez mais a técnica ocupa um lugar próprio. 2.que. Nietzsche dizia que dentro do conceito de modernidade está implícita a idéia de sua permanente superação. Todas estas categorias estavam marcadas pelo conceito de verdade ou de essência irredutível. A época atual. Em Humano. Dentro deste mesmo princípio.pelo Outro e cuja função não é nada mais do que dar conta de um destino e de um dever já fixo e determinado. a substituição das atividades vitais. Há de ser vista. Heidegger dizia que já não é mais hora de se pensar o homem como um personagem forte e heróico. ou da contraposição de necessidades forjadas e necessidades verdadeiras. posicionaram-se de forma precursora em relação aos desdobramentos que só hoje podemos sentir em sua profundidade. como pressupunha o pensamento hegeliano-marxista. já instalando uma ruptura com a modernidade. evolucionismo ou progresso. Outros autores. que faziam parte dos princípios iluministas. não se podendo mais pensar em termos de história e desmoronado as bases do humanismo. auxiliava e garantia um melhor rendimento. e se no começo da Revolução Industrial ela apenas fazia com mais perfeição e rapidez o trabalho em série. a organização total da vida nas sociedades segundo normas técnicas. eficiência e produtividade do trabalho social. Em lugar destas duas categorias que centravam o pensamento da Idade Média até a Idade Moderna. O momento desta inversão do papel da técnica .é a época em que já não se pode falar mais de superação crítica. Nem o de reapropriação nem o de recuperação das origens e dos fundamentos. instituem um novo quadro em que o homem vai do centro à periferia. Superação Ontologia Humanismo (Incl. Assim. segundo irá se expor durante todo o desenvolvimento deste livro é a marca do surgimento de uma nova era em que o homem toma consciência das ilusões passadas e tem que reconhecer sua pequena estatura .

enfraquecimento do Naquilo que para o modernismo corresponde à história ou à possibilidade de superação e de uma ontologia. na idade pós-metafísica. ao contrário das possibilidades humanistas. ou seja. O mundo verdadeiro torna-se fábula e com isso dissolve também o mundo aparente. Sob este conceito apresenta-se a proposição de niilismo completo. Não há mais um Grund (fundamento) a ser falsificado ou desmentido. o homem de volta a si mesmo: "Na recuperação das forças levadas aos céus não há emancipação da humanidade mas crescente autonegação". vivendo a morte de velhos significantes junto com o niilismo completo da pósmodernidade. este parece que foi o resultado do desenvolvimento da técnica na época atual em que Deus desapareceu. Anti-humanismo. o homem passa a oscilar entre extremos de êxtase e decadência. Não existe o conceito de avançar no sentido do progresso e da evolução. ou seja. Heidegger. vê nisso. Nietzsche situa o niilismo completo e o caminho do homem não em direção a um fim previamente determinado por um discurso maior mas em direção ao X. É de Nietzsche a afirmação de que "Deus está morto". propõe a consideração do mundo como fábula: a fábula perdeu seu sentido. Daí ser tudo "errância" sem qualquer relação com uma verdade fundamental. O pensamento utilitarista e a crença no progresso. em Nietzsche encontramos. pois não há mais verdade que a revele como aparência. É também de Nietzsche a crítica mais veemente às concepções da metafísica. numa situação em que o fim dos valores supremos não é substituído por outros valores em que o próprio conceito de valor torna-se supérfluo. de fato. quando previu também que a superação das idéias de Deus não traria necessariamente. 8 . Na eliminação da entidade metafísica. a que o modernismo atribuía uma capacidade de interferência e realização. como imaginava o marxismo. a superação da morte de Deus dá-se com a fase do predomínio da técnica como uma espécie de sua continuação em outro plano. igualmente negador desta "inflagem" do ser. um caminho circular do eterno retorno. Em Crepúsculo dos deuses. que se refere à superfluidade dos valores últimos. Em Heidegger. um equívoco já que os homens para ele já estão excessivamente debilitados. ao contrário. vão novamente tornar os homens escravos e. Em relação ao sujeito histórico. Deus é assassinado quando o saber já não deseja mais chegar às causas últimas.Nietzsche Eterno retorno ao X) Niilismo completo (Homem > do centro ------------------------------------------------------Heidegger Fim da Metafísica (Pós-Metafísica) Ser ------------------------------------------------------No quadro estão apresentadas duas dimensões básicas do pensamento antiiluminista. que são sistematicamente criticados por Nietzsche.

isto quer dizer que voltando-se a ela. aparece com proeminência a posição de Martin Heidegger. e com isso perdeu-se o sentido ético e da unidade da vida. aparece a figura de Max Weber. como outro grande pensador contemporâneo que radicalmente questiona o mito da racionalidade ocidental. p.26). da opressão. em vez de dar conta das exigências e das aspirações humanas de bem-estar e de progresso. ao contrário. caracterizada pela Ge-Stell ou imposição universal e provocação do mundo técnico (Vattimo. a saber. O Iluminismo para Weber não passava de uma ilusão. da burocracia e da impessoalidade. ao mesmo tempo que afirmando pressupostos antiiluministas. não houve melhoramentos humanos com a tecnologia e a pressão das forças produtivas não conduziu à revolução. Diante da transposição da circularidade vertiginosa em que o homem e o ser perderam todo o caráter metafísico por força da técnica (no Ereignis). os pensadores marxistas deste século. remodelar o próprio meio e construir seu futuro. que ocupou o lugar do misticismo. Resultado disso é o que Max Weber caracterizou como "processo universal de desencanto". através do agir racional. levou. Para Heidegger. a razão desembocou numa forma de dominação e opressão. e nada mais do que ela compõe a essência oculta da metafísica ocidental. para tanto. como possibilidade real de desenvolvimento das forças econômicas e sociais. Daí a acepção heideggeriana de que a essência da técnica é algo de natureza não técnica. a técnica. uma possibilidade de o homem desembaraçar-se desta realidade que o nega e desta metafísica que o encobre. ou seja. 9 . a concepção mais realista de Weber. urge no presente momento viver de forma radical a própria crise do humanismo. à ação racional com vista a fins (Zweckrationalitaet). inimigo da postura racional do Iluminismo. Marx acreditava categoricamente nas possibilidades do homem de. atingir-se-ia o fim e a realização da própria metafísica. Ele prevê. já abandonavam essa visão romântica da razão e assimilavam o contrário. Atrás da razão escondia-se a lógica da dominação. A razão. Sua proposta é a da destruição da metafísica como forma de chegar às origens. Em substituição a elas a razão foi usada para aumentar o controle ("netro e instrumental") do mundo. numa situação em que Deus está morto. Não obstante. no conceito de Verwindung. já que faziam parte do pensamento mágico. Errado estava Marx que encarava a razão do ponto de vista positivo. não ofereceu em contrapartida um bem-estar psicológico nem material ao homem. ao Seinsvergessenheit. especialmente os que se mantiveram alinhados à corrente hegeliana e que foram portanto herdeiros de Lukács. a técnica assume para o homem a posição de uma nova divindade. é preciso assumir esta qualidade da técnica como algo não técnico e entregar-se a uma espécie de "cura de emagrecimento" na qual o homem assumiria sua franqueza. Partindo de concepções filosóficas diferentes e rejeitando tanto o pensamento niilista quando o existencialista.Assumindo uma postura igualmente crítica em relação à técnica e às expectativas de um sujeito heróico que pudesse domesticá-la. As superstições foram liquidadas. A racionalidade. Ela seria o máximo desdobramento desta.

p.Na modernidade. Os principais intelectuais deste século que se pautaram pela continuidade do pensamento marxista no campo da filosofia e da crítica da cultura. na crise da modernidade estética. Para este.187). Bentham e Mill. O desencanto estético A crise talvez mais marcante e transparente da chamada Era Moderna estaria situada na sua expressão estética. só haveria uma possibilidade de observação. É o período que coincide com a expansão da fotografia. No primeiro período do modernismo. fato que Juergen Habermas critica em sua tentativa de reapropriação da razão. A autonomização da razão instrumental passou a ser vista. especialmente no período em que eles próprios sofreram sua expansão nas mãos dos Estados totalitários e fanáticos. em que a racionalidade e a relação com os bens materiais assumem um aspecto nuclear. A partir da metade do século passado configura-se uma segunda e mais marcante forma de se encarar a arte. Originalmente seguindo as idéias de Georg Lukács dos anos 30 e sua posição ímpar no desenvolvimento do materialismo histórico em confrontação com a tendência materialista dialética em expansão na União Soviética. particularistas. a concepção de arte estava ainda dominada pelos enciclopedistas e por uma relação exageradamente unívoca em relação ao processo artístico. Igualmente os homens desta nova era. uma forma de representação. A partir daí os autores ingressam numa trajetória de negatividade. logo sentiram os rumos desastrosos da técnica. ou seja. fruidores sem coração". são caracterizados por Weber como "especialistas sem espírito. sofreu também os revezes desta virada das perspectivas otimistas em relação à racionalidade. impressionistas de representação. Engrossavam essas fileiras também filósofos como Comte. uma "armadura férrea" (Weber. como uma decorrência funesta do desenvolvimento da razão e as chances otimistas de Marx foram descartadas. refutando qualquer espécie de revalidação mais positiva das possibilidades da racionalidade voltada a fins. 10 . Não obstante. a auto-reflexão racional significava um instrumento criativo nas formas de luta para se atingir a realização do Estado socialista. os pensadores da Teoria Crítica assimilaram e deram continuidade às possibilidades da crítica à reificação através da razão e da filosofia da consciência. 3. Para estes.1973. o grupo que se denominou Teoria Crítica da Sociedade. então. fez com que o manto de tornasse. para Max Weber. ao lado da aceitação da multiplicidade de formas de representação. haveria a possibilidade de uma racionalidade positiva quando orientada e articulada pelo mundo vivido (Lebenswelt). aquilo que significava a preocupação com os bens materiais. que num primeiro momento era visto como um "leve manto" do qual se poderia despojar a qualquer momento. A arte rebela-se contra esta perda de espaço representativo e parte para processos desviantes. segundo suas palavras. que monopoliza a possibilidade de reprodução exata do real por meios técnicos.

a essência última. assim como. É exatamente nesse momento que se trava o debate que 11 .É a época em que surgem os teóricos do modernismo. No século XX. segundo a qual. portanto. a posição dos artistas era de reação às inovações técnicas e às tranformações sociais e políticas que a ela estavam relacionadas. que também na filosofia ocupava uma posição de destaque. os projetos e os propósitos de Gropius foram de fato aplicados pelos engenheiros de Hitler na construção de moradias e instalações para controle político. No primeiro momento. contudo. o artista deve desempenhar um papel criativo na definição de uma "essência da humanidade" assim como um papel heróico no que Nietzsche chamava de "destruição criativa". Para Baudelaire. a expressão viva do componente ontológico da cultura. que assinalam as marcas que distinguem este fenômeno artístico dos outros ciclos culturais. nos dois autores. até antes da I Guerra. mas também de Dos Passos e Hemingway nos Estados Unidos. como Baudelaire e Flaubert. das comunicações.20). Ele realizaria na prática o que Kant havia proposto em relação o juízo estético: ponte entre a razão prática e o conhecimento científico. De fato. o construtivismo e o realismo socialista. Partindo disso. o significativo aumento do maquinário e a urbanização das cidades. A isso se somam o desenvolvimento das redes comerciais. tecnocráticas e racionalistas. Com a expansão da técnica. Sua última forma é a do alto modernismo. Ao lado dessa tendência sobreviveram correntes que rejeitavam a adesão aos regimes fascistas: o surrealismo. com os outros componentes do espírito das Luzes até chegar a um momento de absoluta perda de identidade. a arte é transitória e contingente mas ao mesmo tempo eterna e imutável. 1989. nitidamente identificado com o establishment. portanto. os próprios artistas assumem posições divergentes em relação à aceitação ou não do componente técnico na transformação da sociedade. pelas idéias positivistas. em cuja concepção as cidades e as casas seriam "máquinas para dentro delas se viver". o modernismo já começa a oscilar em posições ambíguas. É o caso do futurismo de Marinetti e de Ezra Pound na Itália. Instala-se uma tendência que mitifica as técnicas e que vai se atrelar de forma mais ou menos radical aos regimes totalitários dos anos 20 e 30. No âmbito da arquitetura. p. como a grande expansão da indústria. o acirramento da corrida armamentícia e a dilatação da própria sociedade de consumo. dos transportes. o grande aumento dos produtos culturais. contrói-se a concepção modernista de arte que vai vigorar durante esta parte do século passado (segunda metade) e boa parte ainda deste. a popularização dos bens artísticos e a massificação da própria arte. apesar da não adesão ao regime fascista. Este segundo aspecto é também de certa forma reafirmado por Flaubert para quem a arte extrai do mundo que passa os traços de eternidade que ele contém (cf. Depois da Guerra. O projeto da arte moderna sucumbe. estão Le Corbusier e Walter Gropius (Bauhaus). Encontram-se aí. a arte moderna entra em declínio. Harvey. movimento este marcado pelo expressionismo abstrato. no plano do consumo.

De um lado. Para Buerger. Habermas. a arte é uma manifestação que por seu atrelamento às concepções de mundo e ao espírito do Iluminismo e da razão não tem mais possibilidades nem esperanças de recuperação da aura perdida. No debate sobre a questão. a unidade. deixando de existir. ela já perdeu sua característica de escandalizar: já não choca. portanto. em vista também do espírito do tempo. Claro está aqui. de uma história. como nos ambientes interiores e nos próprios edifícios da paisagem urbana instala-se uma total estetização dos ambientes de vida. esperança. a arte goza de autonomia própria e aspira à transcendência. Para Lyotard.207). Sua crítica é de que Habermas tentaria fazer valer uma concepção totalmente irreal de harmonia entre as três esferas que buscariam apoiar-se mutuamente na construção do projeto estético. a arte ainda é a marca da negação contra o poder totalizador de uma sociedade unidimensional. da mesma maneira. realização). maneiras públicas de expressão artística. os ambientes gerais que compõem a cultura passaram eles próprios a se tornarem porta-vozes. Habermas busca a ordem. deixa transparecer seu objetivo unificador da história e a existência do sujeito totalizador. As três esferas não têm nenhuma identificação entre si já que a ciência não integra a vida cotidiana. político-moral e expressivo-estética. a interpretação de Habermas é absolutamente ilusória. singular. p. Andreas Huyssen e JeanFrançois Lyotard colocam-se radicalmente contra a perspectiva habermasiana.1988. a arte moderna encontra-se num dilema: ela pode recuperar aquilo que está fortemente ameaçado pela devastadora cultura da pós-modernidade mas para isso é preciso que resgate o projeto kantiano de fusão de esferas cognitiva. A arte na sociedade tecnológica deixou de ser um fenômeno específico. pulveriza-se na cultura como um todo. Para ele. Para Habermas. o "armazém de significados que se encontram em perigo"(Jay. procurando recuperar portanto a concepção de um devir. que deve ser de alguma forma recuperada. Por outro lado. Mas para a maioria dos autores que analisam o momento atual pósmoderno do desenvolvimento social. dilui-se. na sua proposta de revitalização do fenômeno estético. Isso constitui o que se convencionou chamar de "fenômeno artístico integral". Peter Buerger. de um futuro utópico de natureza finalista. a experiência geral das pessoas tornou-se estetizada. a esfera pública quando critica todos os movimentos chamados vanguardistas e a por ele caracterizada perda do referencial histórico da arte. já não atrai. Para ele. já não é capaz de 12 . que para o pensador alemão as coisas ainda se colocam em termos de uma essência perdida ou mutilada pelo processo histórico. Habermas é holista e está na verdade em busca de um "telos" (fim. Para Huyssen. que ainda vê nela a possibilidade de restauração de uma certa utopia perdida. coisa que a ciência não faz.marcará a divisão de rumos de concepções que pautarão a discussão sobre a pós-modernidade. aparece Juergen Habermas. que segue a tradição de Kant e de Adorno em relação à arte. Tanto nas pessoas como designers bodies (Kroker). como um fenômeno em si. isto é. A arte dissolve-se.

Vive-se um período do "transestético" (cf. que só sobrevive como um ritual em relação ao qual nada temos a fazer senão simplesmente crer.resgatar valores. 13 . Baudrillard. conceitos ou expressões que tornem as pessoas fixadas e marcadas por eles. tb. com o desaparecimento de todos os padrões de julgamento artístico. Faz-se uma arte em que nada há mais a ser visto. 1990).

Fotografia e cinema. direto. Paul Virilio ------------------------------------------------------Lógica formal Lógica dialética Lógica paradoxal foto. significa uma captação atual. O cinema e a fotografia. Neste caso. no momento atual das tecnologias sofisticadas. Por fim. com o privilégio da instantaneidade perde-se o componente da plenitude do conhecimento que tinha a ver com uma captação duradoura e exaustiva do objeto. cinema vídeo pintura realidade pleno atualidade conhecimento aproximado virtualidade pouco conhecimento conhecimento ------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------Lucien Sfez ------------------------------------------------------Representação Expressão Confusão "com" "em" "por" máquina organismo tautismo bola de bilhar criatura Frankenstein ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Em Virilio. instantânea que dava à representatividade uma apreensão não programada. a pintura era a expressão da realidade sob uma perspectiva formalista e através dela chegava-se a um conhecimento pleno. "transparente" do real que estava sendo representado. momentânea.Segunda Parte O FRANKENSTEIN TECNOLÓGICO Partindo de perspectivas diferentes. Paul Virilio e Lucien Sfez descrevem o quadro da passagem da Modernidade à Pós-Modernidade (ou: da era do predomínio da lógica da razão à da crise da razão) em três momentos que se completam. O primado aqui já não já mais da realidade. marcadas pela videografia e pela 14 . como intervenções técnicas na forma de se reproduzir a realidade. isto é. o fotograma. mas da atualidade. atuavam sob a perspectiva dialética da representatividade. não maquiada.

não há sujeito e é o objeto técnico que marca seus limites e determina suas qualidades. o homem domina a máquina e está com ela para seus fins. A figura é a bola de bilhar que. A terceira visão de mundo é a da confusão. A segunda visão de mundo é a da expressão. não o dominando mas a ele se adaptando. em que os objetos são o ambiente natural. da representação. atinge seu objetivo e é novamente reenviada com a conservação da plena integridade do movimento. A comunicação torna-se uma entidade metafísica. nosso mundo é introduzido por ele e o homem está no mundo. Em Sfez. p. na visão de mundo da representação. A figura desta terceira categoria é Frankenstein.12ss) 15 . em termos de comunicação. vive-se num universo. e os signos são produtivos como organismos. auto-referente. uma vez enviada. nele jogado. Os meios de comunicação traduzem o mundo. a imagem representa o emissor. (Sfez. já não se trabalha mais com a atualidade mas com um fenômeno que transcende a possibilidade de correspondência do objeto com a imagem real. Os meios de comunicação igualmente estão no mundo e o mundo está neles mas não há mais envio de mensagem . Há o predomínio da razão e as máquinas representam o homem segundo o princípio da dualidade cartesiana (corpo/espírito. 1988.holografia. exprimem a natureza. Nos meios de comunicação ocorre uma ausência de comunicação exatamente pelo próprio excesso de informação. sujeito/objeto). Está-se no campo da virtualidade e aqui o conhecimento torna-se absolutamente impreciso. é uma repetição imperturbável do mesmo no silêncio de um sujeito morto. O homem existe pela tecnologia. A tecnologia diz tudo sobre o homem e seu devir. As partes se relacionam com o todo. A figura desta segunda fórmula é a criatura.

instalase a lógica indiferente da multiplicação serial. multiplicação e morte Nos novos processos que caracterizam a época atual. Nos sistemas como os de comunicação. O imagético é o privilégio da 16 . produção e destruição. a informação na obscenidade. a individualidade. 1. apesar de morto. 1986. são testemunhas de que os próprios movimentos. 1987a) Com a morte da ilusão do sujeito e o fim das metanarrativas. desenvolvem-se. A identidade individual fractaliza-se em múltiplos pedaços como cacos de espelho. a transcendência. continua a se mover mecanicamente. a proliferação permanente caracterizam seu movimento. da finalidade e da função e tornam-se inertes. O outro passa a ser ele mesmo. da duplicação. os atores históricos. desordenado. realizando-se como histerese. 2. No decorrer da exposição eles serão melhor esclarecidos através dos exemplos e das descrições de situações. o crescimento louco. a representação de si mesmo. as formações cancerosas. o girar em torno de si mesmo. movimentos e objetos afirmam sua autonomia e auto-realização. desaparece o jogo com a aparência. Crescimento louco. sexuados mas com sexualidade inútil. hipertélicos e mortos. desaparecida a confrontação. desagregam-se indiferentes às intenções de controle racional dos homens. do circular e do autocentrado. o movimento na aceleração e na velocidade. os próprios objetos expandem-se. Também nos homens. 1983. processo que continua por inércia mesmo quando a causa desaparece. a fabricação de idênticos. É aquilo que. Só a nostalgia o restitui como "autêntico". da proliferação ao infinito. agora despidos das fantasias iluministas. as redes na proxenética. O real desaparece no hiperreal. desinvestidos de sua onipotência. (A fundamentação deste item 1 está baseada principalmente em Baudrillard: 1981. sem aura. informação. que marcam sua especifidade. que substitui a da razão humana. Os meios de comunicação são o exemplo mais claro deste processo: forma extrema de clonagem que dispensa o original e em que as coisas só existem para sua reprodutibilidade ilimitada. a ausência de regras. instala-se a lógica da divisão.TRAÇOS GERAIS DA SOCIEDADE A sociedade da racionalidade técnica. é constituída por traços gerais novos e próprios. indiferente à questão do sentido. o corpo no obeso. o ser vivo torna-se matriz artificial. Sujeitos e instituições explodem anômala e arbitrariamente e são as técnicas que "refundem" o social. o sexo no pornográfico. Os sistemas ultrapassam os limites de suas funções reafirmando com isso um funcionamento cego e automático. da multiplicação serial. de uma "grande gama de dimensões". a antecipação da morte no seio da significação viva. É a morte: o ser confunde-se consigo mesmo. da potencialização. Fim da representação sintética. Vivência imaginária A vivência na sociedade da racionalidade técnica institui o privilégio do imagético. do virtual. Sem a representação do original.

O outro. os computadores. no exercitar. o som e o tato. o conceito de (transmissão de) mensagens não existe. o culto dos modelos antigos. as tecnologias enredam os sujeitos. na concentraçãocondensação do espaço. os media passam a referir-se a si mesmos e a concepção de "mediação" é substituída pela de ficcionalização. violência explosiva descodificada. com a elevação do status do objeto. Esvaziamento do ser O enfraquecimento do ser coloca-se na razão direta da elevação do status do objeto. da esquizofrenia. As pessoas tornam-se "perdidas". da geografia. as máquinas. minimalismo são os novos comportamentos. a abolição dos tempos e o uso aleatório de símbolos históricos. o retrô. no participar.imagem. Paralelamente. no autofechamento. flexível. no correr. A memória torna-se fato disponível. dados. agora mais livremente. 3. da solidão e do desejo de suicídio. do acesso ao imaginário. 4. Ao lado da livre pilhagem do fato histórico. não se reflete no infinito. O momento desacredita os heróis. de uma ética investe no agir. que institui modelos. da televisão e do ecrã sobre a palavra. as identidades agora flutuam. as ficções tornam-se vida. de uma história. produzidos ou determinados por homens ou grupos mas acontecimentos que irrompem de forma imprevista e imprevisível. acessível. no experimentar 17 . os fatos já não são conduzidos. viradas espetaculares. os líderes. atuações numa disponibilidade absoluta da própria história. os fatos são reaproveitados. No autocentramento ocorre a negação da espacialidade. procedimentos. opera-se nos meios de comunicação a ressurreição fictícia e maquiada de acontecimentos do passado. coloca-se em seu lugar uma ética performática. São eclosões repentinas. Ficcionalização da memória A memória é construída e reconstruída a partir da televisão. este sobrepõe-se ao real. um girar sideral em que os vetores rodam acima de nós e escapam de nossa realidade. eletronicamente recuperável e os componentes da antiga historiografia têm seu contexto relativizado ao extremo. fontes. reutilizados e opera-se uma intervenção no passado. A informação não transcende. formatos. simulacros do que antes era tido como dado histórico. manipulando-se. necessidade de provar a própria existência. no pular. a realidade externa é menos investida de importância e significação. deixando de ser nosso espelho. no movimentar-se. um sujeito sem o peso de uma ontologia. Narcisismo. de surpresa. é o domínio das máscaras. Investe-se no enclausuramento. tampouco toca o real. influenciados. decreta a supressão relação de troca social. os modelos ocupam o real. o universo torna-se circular e orbital. no encapsulamento. participações. No virtual. Na circularidade. das dimensões. As simulações. É a era do "falso absoluto". Com o enfraquecimento do ser e o fim do princípio da densidade do sujeito heróico.

I . O investimento é no corpo. das categorias clássicas. prevalece o negativismo. e tudo isso cercado por uma quantidade de novos subúrbios. educação. a Ge-Stell que assinala o ocaso desse humanismo e o aparecimento do que ele chamava de Ereignis. marcado pelo enraizamento de princípios iluministas. dos fatos fundadores ocorre em contrapartida ao privilégio das coisas úteis. Tecnologias A vida social. o fim da razão abstrata. das metanarrativas. do inferior). dos resultados. Administração. da missão. o relacionamento com o mundo é marcado pela ironia. (Sfez.emoções pura e simplesmente. uma descontinuidade sem centro: "uma velha cidade com uma rede de vielas e praças. o enfraquecimento do ser. comunicação. No campo da crítica. 5. O universo torna-se pluralista. Em lugar da visão do social como uma totalidade passa-se a encarar a sociedade como equivalente àquilo que metaforicamente Wittgenstein aplicava à linguagem. No campo dos atores culturais. política e cultural das sociedades pós-industriais é inteiramente marcada pelos efeitos das novas tecnologias de comunicação e informação. As técnicas invadem todas as áreas e não só a da difusão de informação. Suprime-se a "seriedade do compromisso. o niilismo e o ceticismo. Instala-se o princípio da fragmentação. a circularidade vertiginosa em que o homem e o ser perdem seu caráter metafísico. Substituição dos sistemas lógicos A destituição dos antigos grandes códigos. indiferença e cinismo. na emoção pura. 1988. na velocidade. com ruas retas e regulares e com casas uniformes". Estamos diante de um cenário cibernético-informático que recompõe todo o real segundo novos critérios e novas formas. Atrás das emoções não há nada. lazer. na euforia e no êxtase. das consequências. ridicularização de tudo.TECNOLOGIAS E MEIOS DE COMUNICAÇÃO 1.20). da pulverização. 18 . (Investigações Filosóficas). em suma. p. embranquecimento. casas novas e velhas e casas contruídas em diferentes épocas. O homem dentro desta complexidade marcada pela sofisticação técnica vive pela primeira vez e com toda a intensidade a crise do humanismo apontada por Heidegger. do ideal" e enaltece-se o jogo e a festa. a queda do prestígio das instituições e das autoridades. do feio. É o ápice da técnica. da descontinuidade. Sua função é de agregar uma sociedade que se desintegrou. sistemas de transporte. da imposição universal e provocação do mundo técnico. Paralelamente ao investimento no agir. os gêneros e estilos misturam-se. direito. a negação do maldito e a purificação de negação: assepsia. eliminação da negatividade (do pobre. das práticas. o descrédito dos princípios. em todos os campos são penetrados pelo seu discurso.

da inovação técnica. povos. 1988. O enfraquecimento do homem vem na razão direta desse fortalecimento da técnica. A alta velocidade trouxe como consequências a acentuada volaticidade e efemeralidade das modas.15) Cada vez mais o homem constitui-se de forma maquínica como robotização humana. de roupas etc. p.1. das idéias. os bens. 19 . que criamos. inclusive a de valores. (Sfez. a busca contínua por outra coisa e no momento de sua obtenção ela como que automaticamente se dilui. já via o ferro e a madeira como "mais apaixonantes que a mulher". adquirem autonomia e poder". criação do homem. Marinetti. Como way of life é o "segundo eu" encontrado no computador. assinala esse ponto de virada na história humana. distribuição e consumo de bens e serviços. de trapaça. de cordialidade convivial. cada vez mais a máquina assume o espírito da natureza e através da inteligência artificial humaniza-se. a rotatividade dos objetos e materiais que servem nosso cotidiano. semi-carne. p.). o movimento que se opõe à permanência. uma das categorias mais decisivas da nova era da técnica. da materialidade. da mera existência física. a produção. da fixação em coisas. A rapidez do envio de mensagens e comunicados encontra um paralelo no conceito de velocidade. dos atos e dos comportamentos. É o girar. edifícios. relacionamentos estáveis. de um eterno pular de ponto em ponto. o computador é um contato quase sensual (Turkle. A velocidade Mas as máquinas não são apenas os computadores penetrando cada vez mais amplamente em todos os ambientes da vida pública e privada. de companheiro. desenvolve formas de malícia. a um ritmo crescente. a criação de material técnico. lugares. Oscila-se o tempo todo entre um estado de expectativa angustiante e de prazer e euforia que rapidamente se desfaz. semi-metal. e até mesmo da mão-de-obra. nosso duplo.173ss. vive-se contínuamente na expectativa do provável. Em alta velocidade dá-se a transmissão de informações. dos processos do trabalho. o domínio de percursos geográficos. A tecnologia nesta fase torna-se "way of life" e sensualidade. de casa. formas autênticas de fazer e se ser. A ênfase já desloca-se do conceito de "sentido".A técnica. Como sensualidade. matérias tornam-se somente componentes físicos de uma sensação. De dependente passa assumir cada vez mais contornos de autonomia e de liberdade de movimentos. precursor remoto do endeusamento da máquina. ideologias e práticas pré-estabelecidas. "As máquinas. É uma pulsação incessante pelo devir sem nenhum investimento substantivo no estar: não se está em lugar nenhum. 1. Trata-se de um processo angustiante de troca em que as pessoas são compelidas por uma pulsão incontrolável de trocar de carro. entidades e modos de comportamento flutuantes. estilos de vida.l984. É um estado de permanente flutuação acima das coisas. Estimula-se. recriando novamente a busca. Valoriza-se a instantaneidade e a descartabilidade. produtos. de emprego.

na medida que torna-a medidade de suas próprias forças de estímulo: só se investe. A velocidade de deslocamento não é mais do que a sofisticação da fuga". ao contrário. Para Virilio. fazer circular um maior número de parceiros e. de toques e de deslizes furtivos. menor é o registro real do ambiente externo. a uma vivência trágica. de uma série de afloramentos. de esgotamento. O aumento da velocidade é a curva de crescimento da angústia. cuidadora e compenetrada da experiência. de sentir o contacto muscular com as matérias e volumes em proveito. comprimidos. banaliza a morte. logicamente associada aos destinos da ontologia.43) A velocidade tornou os fatos da vida cotidiana absolutamente sintéticos. a velocidade também significa o envelhecimento prematuro. mais o ambiente se priva de significação. do qual pouco nos é dado captar e sentir. Cada vez mais o panorama que é atravessado pela autopista e através dela pelo veículo que corre deixa de existir realmente. condensados. Também os lugares mudam de significado na destruição geográfica das distâncias. p. A atenção 20 . condensadamente. Daí a sensação de tudo ter sido vivido. naquilo que nos faz reduzir o senso de tocar.Desaparecendo os clássicos componentes estruturantes da realidade de cada um (forte ligação à religião. Pode-se viajar milhares de vezes pelo mundo. 1980. ou seja. menor é o tempo que liga o ponto de chegada ao de partida. ganha-se em quantidade na razão inversa da apreensão exaustiva. p. ao contrário. (Virilio. trocar diversas vezes de ocupação. reduzidos. a busca de uma "verdade eterna" acaba funcionando como um oportuno substituto deste estado de coisas marcado pelo flutuar acima de qualquer envolvimento mais efetivo. É como um filme de rotação acelerada. em última análise. (Virilio. o renascimento religioso. pp. (idem. viver uma vida elevada a uma potência jamais imaginada no passado. que compõem um visual composto de pouca fixação. de tal forma que mediante todos os recursos que temos à disposição pelas tecnologias podemos em uma só vida viver experiências que num passado distante exigiam muitas. mais rápido o tempo passa. de ausência de prazer no novo e de uma angústia de envelhecimento precoce. que faz o jogo fascinante de brincar com ela. Quanto mais rápido o carro segue pelas estradas. 1984.. a uma ideologia política) as pessoas buscam sair da angústia do esvaziamento através de novas formas de metafísica. "Montar um animal ou sentar-se num veículo automotor é preparar-se para morrer no momento da partida e renascer na chegada . Mas este subordina-se.. Assim. só se trabalha naquilo que "inibe a morte". É uma forma de pseudomistificação numa sociedade altamente racionalizada. A era das emoções e do êxtase. tornando-se apenas uma sequência enfileirada de diagramas. A paisagem desaparece com a velocidade. Faz-se hoje muito mais do que qualquer pessoa das gerações passadas poderia fazer. como a própria angústia. em que mais o movimento se acelera. só se estimula.43-47) A saída da angústia estaria naturalmente no suicídio. isto é. a um princípio filosófico. que consiga restituir emoções que nenhum outro modelo hoje mais alcança.61) É Virilio que vai caracterizar também a velocidade como uma forma de morte. A velocidade está no costume com o conforto.

o uso do automóvel torna-se um fenômeno em si absolutamente hipertélico: busca mais locomoção do que a própria locomoção. que passam a sugar todo o capital circulante da cidade e funcionar como pólos portadores de significação e importância dentro do quadro dos signos do consumo. das pessoas que em casa ouvem rádio ou assistem TV apenas para que perto delas "algo fale". E a decrescente importância do outro como possibilidade de contacto e comunicação encontra similar no próprio declínio do ambiente. tendência esta que é registrada também em outros sistemas da Sociedade Frankenstein. comércio e nos diferentes bairros. Esta teve também como correlato o desenvolvimento da motorização. O declínio da indústria cinematográfica não se deveu apenas á expansão da televisão. 1. 1980. assiste-se.(Virilio. ao contrário. mesmo girar em círculos num quarteirão desértico ou numa pista periférica obstruída parece natural ao voyeur-voyageur. o mundo perde significação.73). Ao contrário. a miséria "desaparece". Assim são os shoppings centers. As cidades esvaziam-se não no sentido da concepção medieval de cultura e sociedade mas pelo despovoamento dos habitantes dentro do próprio espaço urbano.reeduca-se no hábito da apreensão acelerada e múltipla de estímulos. da mudança de importância do espaço geográfico urbano ou mesmo das grandes áreas rurais só poderia conduzir a uma alteração da importância das cidades. todas as existências físicas que são atravessadas seguem. em suma. nenhum destino. parar. gira no vazio. contrariamente aos transportes em comum. 21 .2. o que cria fatalmente novas condições de viagem. A transformação da cidade A lógica do desaparecimento da paisagem. a periferia é sem registro. Não ir a parte alguma. A utilização da máquina torna-se um fim em si.77) Com isso. clubes e associações semifechados. 1980. lazer. espaços turísticos privilegiados que concorrem para a verticalização de um investimento social provocando a reordenação do tecido urbano. cada indivíduo encontra o seu "lar": sua vida itinerante e permanentemente em movimento tem como correspondência tecnológica o automóvel. estacionar são operações desagradáveis e mesmo o condutor detesta ir a qualquer parte ou a alguém. como o computador e a televisão. o caminho da sua própria diluição no campo de registro do motorista. A solidão do motorista é equivalente às demais formas de solidão. alterando radicalmente o intervalo de sensações registradas. não é a priori uma questão de distâncias a cumprir. No trajeto. à ruina urbana contrabalançada pela progressiva eleição de pontos de alto investimento comercial-publicitário. visitar uma pessoa ou ir a um espetáculo parece-lhe um esforço sobrehumano". "A utilização desenfreada do automóvel e da moto não tem. como o sistema que o coloca em órbita nesta sideralização do cotidiano. da secundarização do outro. p. p. Dentro do automóvel. como "horizonte negativo"(Virilio). Além do meu carro nada mais existe. independente do que na verdade esteja sendo dito. difusa e horizontal da população nos centros de cultura. O automóvel substitui o cinema e as filas nos guichês tornaram-se as filas nos pedágios (Virilio. Em vez da expansão extensiva.

cuja função é negar o ambiente. do grafite vândalo. como o telefonema. La Villette são literalmente monumentos ou antimonumentos publicitários (Baudrillard. chega à central para depois ser reconduzido pelos cabos até o vizinho do lado. da miséria estética. As grandes cidades não prevêem espaço para o pedestre. políticas. as cidades tornam-se agora territórios-suporte. Assim. Neste sentido. Mas o fenômeno não é apenas norte-americano. Em Manhattan. às informações culturais bem como a outras pessoas realizando à distância aquilo que no passado marcava a comunicação face-a-face. 1980. totalmente reconstruída apenas para servir de propaganda de uma visão de mundo que visava bombardear o projeto socialista oriental. da organização. Mas o despovoamento urbano ocorre também com a rapidez dos transportes e dos sistemas de comunicação que acabaram por banir das cidades todos os locais por onde as pessoas poderiam circular.118).74-5) E também a publicidade ordena a arquitetura e a realização de superobjetos: Beaubourg. mas apenas como trajeto. As ruas. que era historicidade cristalizada através dos edifícios e monumentos antigos. Cada pessoa como 22 . passando a ser. Les Halles. Mudando-se sua importância como espaço de exercício de cidadania. na geometria. gigantescos painéis de poluição publicitária. haja vista a volta que faz todo o sistema de comunicação para que cheguemos a ele. como qualquer outro. como é o caso de Brasília. da mesma forma toda a sistemática de comunicação supõe necessariamente o enredamento de todos num sistema complexo para o qual a metáfora da sideralização parece ser a mais pertinente. deixando de ser o espaço de discussão pública. no espaço-tempo dos vetores e a estética da armação dissimula-se nos efeitos especiais da máquina de comunicação". como a cidade.(Virilio. a própria figura do vizinho transforma-se. torna-se espaço das populações mais desfavorecidas e a vida de fato desloca-se para espaços que já não são mais públicos mas propriedade de instituições econômicas. Na rapidez de mobilização de um ponto a outro está a marca de uma progressiva desertificação urbana. 1981. o prazo de fixação da imagem arquitetônica foi estabelecido para 12 anos. diantes de sistemas eletrônicos. que parte de nós. experimenta um reaproveitamento tornando-se pura estética de comunicação e publicidade: "a arquitetura está na armação.A cidade extensiva perde cada vez mais importância. ela nega-o e o exclui. que se impunha de forma quase espontânea contra o processo de varrimento do espapo urbano como território de convivência social. passam a ser o espaço dos ratos onde a população desapareceu. p. A própria arquitetura urbana. uma figura desconhecida e estranha. É uma presença que apesar da proximidade física distancia-se anos-luzes de nós. podem ligar-se aos centros de comércio. culturais. aos bancos. e os trens subterrâneos fazem da cidade um espaço em que pessoas transitam invisivelmente. de poder político. p. Berlim foi durante mais de 40 anos uma cidade simulacro. A rua passa a ser apenas espaço de trânsito e da velocidade. Os equipamentos eletrônicos criam com este esvaziamento uma "nova relação de comunicação" em que as pessoas dentro de suas casas. a cidade como pólis pauperiza-se. A rua não registra o ambiente. Quem atravessa as ruas com seus veículos em velocidade não a sente mais como espaço social.

voltado à administração pública e à moral e que se colocava como instância de avaliação e de juízo acima do social. que orientava uma ética. 1.3. uma filosofia. é substituído pela simples crença que é o que passa a regulá-lo. destituído de poder. mas que está infinitamente distante delas. pelo conhecimento autônomo. que perdeu as referências. os critérios modernistas com o desenvolvimento técnico. Com o fim dos grandes códigos e da razão abstrata. A velha ciência substitui seus critérios de avaliação e de identidade anteriores. A trama enciclopédica deixa de ser objeto do investimento intelectual. 1988. 23 . O saber. da mesma forma. resgata a legitimação agora somente através do consenso dos próprios pesquisadores. normas e principalmente legitimações particulares. vai-se do "poder ser" ao "há de ser verdade" e a sociedade torna-se uma sólida trama de confiança. O novo saber. tornando os professores meros instrutores da operacionalidade técnica. O desenvolvimento da técnica e a multiplicação dos sistemas eletrônicos (hardware) alteraram radicalmente a circulação do conhecimento. Tanto quanto o âmbito estético-expressivo. cede espaço ao saber puramente operatório. simulamnos ou perdem-se na busca histérica da causalidade. a ciência passa a viver segundo critérios. a saber.36). p. pela paralogia: é aceito pela comunidade científica da área aquilo que é simplesmente plausível. uma política. sem troca com o social e incorporado às atividades econômico-empresariais. A ênfase agora recai nos meios e não mais na especulação e investe-se na otimização das performances.16). 2. apontando para a angústia da sobrevivência destes próprios saberes.estrela brilhante que se comunica pela luz com outras. marcado pela expansão técnica em todos os campos. Especialmente as ciências sociais. Trata-se agora de uma forma de comunicação numa sociedade que não sabe mais se comunicar consigo mesma e em que a coesão é contestada. diante da crise de significação e validade. O novo status do saber O impacto da plena expansão da técnica e da tecnologia na sociedade ocorre de forma intensiva no campo do saber e da ciência. que tinha seu espírito simbolizado pela Bildung. Conforme Hassan (1988. diferente do século XIX. os valores desagragam-se e os símbolos mais usados não servem mais para unificar (Sfez. os padrões da validade. independente das imposições econômicas e políticas. Meios de comunicação A técnica ocupa o lugar da comunicação humana introduzindo um novo modelo comunicacional. na procura de responsabilidade ou na "impaciência do saber" (Lyotard). O saber maior. p. O ensino tende ao aprendizado técnico-prático e as universidades cada vez mais formam competências para repassar saberes específicos e formados à la carte. regras. a esfera cognitiva é checada em sua natureza última. realizador (ou possibilitador) da "epopéia da emancipação". reduzidas e localizadas. passam a fabricar seus objetos.

na Alta Renascença. Autonomiza-se o território separado de registro e sincroniza-se com a produção de bens em seu movimento externo. O século XV foi marcado pelas representações estético-visuais do centralismo-perspectivista. Ela alimenta-se exatamente da vida íntima e do fato de tornar público este universo. se sentem. As redes de comunicação do passado. a privacidade. Maquiavel e Duerer. A começar pela expressão artística da pintura. A imagem vista de uma carruagem já não é mais a que um 24 . produção livre de conteúdos. ao seu cálculo.1. nas televisões que focalizam. Antecipava o racionalismo e desenvolvia uma arte mais ou menos similar ao desenvolvimento do capitalismo. o que recebeu maior investimento estético. eram marcadas pela privacidade. e também é a primeira manifestação de a imagem assumir o caráter de mercadoria e deixar de ser sagrada. ganha corpo a tendência de retorno ao movimento. isto é. O fenômeno da autoreferencialidade está nos jornais cuja notícia são eles mesmos. continuando até os desdobramentos de que a visão passou a ser objeto a partir da invenção da fotografia e. as formas de comunicação implodem os conceitos de esfera pública e esfera privada. pelo espaço íntimo e do sagrado. Em outro plano. fábrica de estórias. se tocam. O processo televisivo 2.É uma comunicação aplicada a uma realidade em que as pessoas já não mais se olham. adiante: 2. Mais tarde. se falam. A visão Entre todos os sentidos humanos. Mais além. O surgimento da Era Burguesa caracteriza-se pelo início da mobilidade da perspectiva. à sua rigidez. as que se articulavam no interior das instituições sociais. na reprodução eletrônica. Expressões dessa época são Da Vinci. é. do ritmo e do movimento das expressões artísticas da Idade Média tardia. ela própria. através de sua "obscenidade"(v. ela não mais funcionando como intermediação (ponte) entre o mundo e os lares. O homem enquanto pai. ela anula. falam. No momento em que a comunicação invade todas as esferas do social. a visão. opositor do precedente policentrismo.1. o olhar sempre esteve em posição privilegiada. São os media narcisos. citoyen ou bourgeois era quem defendia a relação entre público e privado. 2. do deslocamento visual. nos quais o único referente para a transmissão pública são suas próprias maquinações e fabricações. mas agora trata-se de um "movimento na rigidez". Galileu. sem dúvida alguma. É o período em que o olho descorporificado de Deus é substituído pelo do monarca. rompendo a antiga esfera auto-suficiente e autônoma do privado. como ocorre no teatro. A época de Ticiano é que dá destaque ao primeiro plano. o que foi mais explorado politicamente e mais seduzido do ponto de vista econômico foi. que representava de forma analógica a ordenação do mundo e das idéias do Período Renascentista. a intimidade e o mistério.1. polemizam consigo mesmas. mais recentemente.. tratam. A Informação). como aquilo que se move quando colocado sobre trilhos.

explorando cada espaço. do atrofiamento da distância entre centro e periferia.e observá-la em detalhes. A fotografia de certa forma faz ressurgir a aura da paisagem destruída pelo trem. Por meio da reprodução eletrônica. deixa transparente .como na fotografia . o próprio olhar torna-se limitado. Pelo fato de a imagem não estar mais parada mas ilusoriamente em movimento através dos sinais eletrônicos. que se expande também nesta época. Agora é o observador que caminha e a paisagem transforma-se à medida que ele a percorre. que recupera novamente a capacidade de o homem observar uma cena parada. em que as figuras representam o movimento. no funcionamento de sua estrutura. A técnica acaba com o "ponto central no mundo". centra-se agora num objeto técnico puro. Este desenvolvimento só será interrompido com a descoberta da fotografia. com profundidade. Saindo da paisagem. a aura desloca-se para o funcionamento. A fotografia é o ponto culminante da reprodução centralperspectivista. a intimidade. O volume de cenas que se intercalam. Em primeiro lugar. Da mesma forma que o trem. a velocidade do percurso do observador passa a reduzir a capacidade informativa do que ele vê. temse aqui a quebra da aura da cena. O movimento da imagem substitui o do olhar exaustivo da imagem. é a restituição da experiência intensiva com o mundo. que levou à destituição dos monarcas e de supressão de Deus. a arte. A forma de apreciar a paisagem através do movimento tem a ver diretamente com o declínio do tempo de retenção da imagem na memória.através da imagem e da forma como ela realiza a desintegração da unidade e o fim da perspectiva . ao outro. para o mecanismo de reprodução. a segunda natureza do homem deixa de ser a cidade. a possibilidade de o homem parar sobre cada imagem . O olhar do homem. enraizadas ou culturalmente consolidadas. no olhar fascinado a uma representação sem fundo. que levará mais tarde os homens a questionar o próprio sentido da metafísica e de sua existência enquanto seres com estruturas estáveis. para ser a própria técnica.homem parado vê numa tela ou num afresco. à natureza. cada perspectiva. retorno daquilo que o trem havia liquidado. cada ângulo.a mudança de orientação das visões de mundo. A diminuição da percepção tem a ver com a própria capacidade imaginativa. Quanto menos se vê. O processo de industrialização em seus desdobramentos com a técnica. isto é. esvai-se. a linguagem. Esta passa a simular o processo de comunicação: comunicação de quem agora já não tem mais nada a dizer. que antes da sofisticação dos sistemas de comunicação voltava-se a seu ambiente. menos se imagina. Pela primeira vez. A reprodução eletrônica da imagem traz consequências que têm a ver com a debilitação e a subutilização dos sentidos. que cada vez mais avança sobre os espaços da vivência humana. o espaço intermediário e a proximidade do primeiro plano. A carruagem marcará o início do desaparecimento do espaço intermediário. se trocam e se somam toma o lugar de uma única cena cujo tempo de observação original agora 25 .

em oposição a um imaginário cultural herdado ou constituído através de outros media. através da imagem eletrônica. de objetos. ele próprio. O computador trabalha esses números e formas. O próprio sistema fabrica multiplicidades cada vez mais diversas e distintas de imagens. iniciada pela rapidez do movimento com o trem e depois com os 26 . criando relações conceituais. intelectuais sobre as coisas que eram vistas. Com o desenvolvimento do fotograma em movimento (cinema) e no presente. Não é preciso mais basear-se num modelo. cada vez mais as imagens sobrepõem-se e constróem por si mesmas a realidade visual imaginária do receptor. Assim o resume Edmund Couchot: "Uma imagem numérica é uma mensagem reduzida a números. que garantiria a própria lógica da criação. a dificuldade progressiva de compreender o que se lê. cada vez menos as palavras são utilizadas para criar uma representação simbólica das coisas. como foi dito. Partindo dos dados de um objeto dado. as imagens poderiam ser substituídas por palavras. Este momento é radical: a partir de agora a produção de imagens deixou de ser uma característica essencialmente humana. Pode-se assim reduzir uma imagem por meio da pura elaboração de dados. Antes. (Couchot. que já pode dispensar a participação do homem.. teóricas. um conjunto próprio de imagens.. que já não tem mais nada a ver com um original. deixando qualquer possibilidade de vinculação mais densa com um conteúdo conceitual. A reprodução eletrônica das imagens fabrica.distribui-se em diversas cenas. fabricação encerrada no próprio universo do meio. num objeto real . visualiza os resultados por meio de um aparelho de vídeo ou de uma impressora. com uma profundidade de reflexão ou pensamento. As imagens é que se alteram de forma arbitrária e livre como num caleidoscópio. O olhar da era das altas tecnologias é dispersão e cintilação. pode produzir as formas de imagens e também de arte. Com a imagerie. pela dificuldade correlata de se representar. Da mesma forma. desenvolve-se um certo tipo de produção do imaginário através da máquina.. criam-se as imagens sem suporte. as imagens substituem-se a si mesmas. com mais intensidade. O homem já passa a ser um componente dispensável em todo este processo. Hoje.124). de formas que outrora caracterizavam a experiência estética ou a experimentação artística em geral. o computador pode produzir uma quantidade quase infinita de imagens. 1985. Com o final da antropomorfia da forma e a criação de formas sempre novas. sistemas eletrônicos radicalizam a liquidação da geografia. uma duplicata ópticoquímica como a fotografia. temos um processo de permanente metamorfose. criação exclusiva. Já ultrapassamos o processo em que o simulacro devora seu modelo. p. Consequência é o processo de dislexia. A imagem numérica não é mais a transposição de um modelo determinado. nem com uma referência a um sujeito. não é mais a reprodução mais ou menos exata de um original. Os sistemas eletrônicos substituem os homens inclusive nesta produção infinita de cenas.. Praticamente nesta fase eletrônica o modelo já perde totalmente sua necessidade de existência. O sistema. é uma imagem com possibilidades infinitas". com a única diferença de que nelas aqui se instala um processo criativo original.

e o mundo das técnicas e da hiperrealidade. 1988.1. regionais ou nacionais de programas de jornalismo e entretenimento para uma sociedade. especialmente os urbanos e aéreos. Isso porque. "não tem importância". não há mais vizinhança localizada. mas a crise também invadiu o teatro. O que escapa da TV. A televisão é muito mais do que a simples transmissão em cadeias locais. tampouco reprodução de ideologia. Ela não é nem a tela nem o telespectador. passaram a imitar sua linguagem. uma rapidez na decodificação de imagens visuais e uma forma de apreender o real baseada apenas neste jogo de trocas simultâneas de cenas e da construção de uma narrativa e de uma dramaturgia muito específicas. É a sociedade que é seu reflexo. O cinema é o exemplo mais flagrante deste processo. amplificando tecnologicamente todos os nossos sentidos e desenvolvendo funções sensóreas em forma processada de imagens e sons mutantes . o rádio e o jornal. pensa-se em algo que transcende o aparelho em si.2. margem de todo um sistema. mas um "complexo espaço virtual entre ambos" (Baudrillard). Por ser todo um universo. p. por um lado. diz Vincent Descombes. Quando se fala de televisão. A televisão A televisão constitui o ponto de ruptura entre o universo sociológico marcado pelas metanarrativas. sendo periferia. cada local é alcançável por qualquer outro. não tem registro. produtos de segunda ordem.277). 2. nem da forma mercadoria. Já não se mora em um determinado lugar. da possibilidade de explicar e administrar o real. a relação e mesmo a materialidade dos sistemas de transmissão. projeção e publicidade. Ela faz parte de um "gigantesco e exteriorizado sistema nervoso eletrônico. (Kroker. p. todas as coisas que escapam do seu campo ou que não são por ela absorvidos tornam-se necessariamente periferia.. seu ritmo e sua dinâmica. entram em declínio e perdem a identidade. não é reflexo da sociedade. a partir do predomínio da televisão. Ela devolve nossa própria angústia com signos simulados e hiperreais de vida". A televisão impõe à sociedade uma velocidade de leitura.268). por outro. os discursos da emancipação. O predomínio da televisão a partir dos nos 60 significou não só que ela passou a se destacar diante das demais formas de comunicação mas também a dominá-las e submetê-las. no entender de Kroker. 1988.. mas ocupa-se um espaço. É todo um mundo. Os demais meios de comunicação tornaram-se cópias da televisão. Se a extensão física territorial tornou-se um componente cada vez menos importante na era eletrônica. É portanto um universo que transcende em muito as programações das emissoras. através dos sistemas de comunicação.transportes mais rápidos. As pessoas que estão próximas não são os vizinhos. pois institui-se uma circulação de comunicados em todas as direções. por encerrar em si toda uma complexidade de sistemas de prestígio. 27 . nenhum deles tem o status da origem e da meta. a integração dos meios de comunicação torna a vivência territorial um fenômeno absolutamente imaginário. ela é o mundo real da economia e da sociedade (Kroker. do homem atuante. A televisão. Os lugares são exceção do espaço. Estas.

É um sistema de pura fascinação. 2. é um tempo de permanente fluidez. a televisão é a expressão viva e mais acabada desta. ao contrário. tempo visual que se sobrepõe a um tempo real e impõese de fato como o único tempo. 2. que mistura as mais diferentes matérias e submete-as todas a um mesmo tipo de tratamento ou "branqueamento". cf. tecnológicos. A densidade televisiva A televisão é o veículo por excelência da pós-modernidade.61). ela é a própria ideologia. A linguagem Na televisão. Nas suas "representações". Harvey. O tempo televisivo A televisão joga com a categoria do tempo operando-o de forma própria e independente dos conceitos cronológicos usuais. aponta o autor canadense. são estribilhos que se repetem.5. enraizamentos no social.1. marcado por um sequenciamento de cenas e de interrupções que seguem uma lógica própria. É um tempo artificial e manipulado. na forma como MacLuhan interpreta os meios como nossos prolongamentos em relação ao mundo exterior. Há na televisão a abolição dos diferentes tempos com a supressão da consciência do atrofiamento do presente: "só o simultâneo é o verdadeiro presente" (G. segmentada. É uma forma de liquidificador geral. 1988. no histórico. amplamente divorciados da história geográfica e material" (Taylor. p. a televisão. auto-referente. a maneira como a televisão se apresenta é como monólogo e. Em vez de ser reprodução de ideologias. o que se fala está fora de qualquer contexto externo mas. 2. agora segundo novos parâmetros. p.134). a saber. e ao mesmo tempo interiorização. Requena diz que sua fala é incessante e vazia. no cultural. investimentos intensivos. Nela tudo é como que "chapado". desejo simulado como disposições programadas. de tal forma que a sucessão de cenas constitui um novo reordenamento da existência visual. É o primeiro medium cultural em toda a história a apresentar "a realização artística do passado como colagem estruturada junto com fenômenos equiimportantes e simultaneamente existentes. falando todo o tempo.1. Ela é. 1956. como mencionado. exteriorização de nossos sentidos. densidades.Em vez de ser reflexo da forma mercadoria. aprofundamentos. Nada pára. que as pessoas acionam para funcionar durante todo o tempo e que fica falando em geral para si mesma.4.3. Diferente do congelamento fotográfico da imagem. não cessando de falar para nada dizer. Ela não conhece estruturas permanentes. tudo circula a velocidades vertiginosas e alucinantes.1. 28 . por um lado. acima de tudo. Trata-se do tempo da tecnologia. o real desaparece completamente e é sua desintegração que aparece pelo processo eletrônico do medium. tornando-as absolutamente inóquoas.. Anders.

os manifestantes em vez de fazer reivindicações de caráter social. dissolvendose logo em seguida. Para este autor. A televisão. O jornalismo é o seu melhor produto ficcional. acabaramse todos os instrumentos de sua inteligibilidade. Assim. a telenovela é a "hipertrofia cancerígena do relato"(p. ela produz também fatos culturais. Isto tem como consequência a implosão da cultura narrativa. políticos e mesmo históricos: "nossa realidade passou pelos media. em recentes quebra-quebras da cidade de São Paulo. Em Simulacros e simulações. Ela própria é que constrói o espetáculo. Da mesma forma. A televisão não tem mais contacto com o mundo exterior e no que ela apresenta e fala é ela própria o grande personagem. É conhecido o fenômeno de que no Brasil as passeatas não se constituam até a chegada dos cinegrafistas da televisão. no momento em que as câmeras são desligadas.A TV. Só quando estes põem suas máquinas a postos e começam a filmar é que se compõem os movimentos de protesto. como curva. desapareceram as condições de se julgar e avaliar os efeitos ou os crimes cometidos na história passada. produzindo-se. a telenovela segue a forma de sinuosidades que sobem e descem durante o desenvolvimento de meses ou até anos. joga com os desdobramentos narrativos segundo a maior ou menor oscilação de seu público telespectador. em vez de reproduzir a narrativa como classicamente se conhece. portavam faixas dizendo "Queremos a imprensa". a televisão demonstra. Mas não é só aí que tais fatos acontecem. perdeu sua transparência. já não dá mais para verificá-los e compreendêlos. pela sua forma não verbal. mesmo os componentes hoje mais radicais da cena política. dentro de seu caráter de absoluto tratamento de superfície de todos os fatos . então. Nas produções dramáticas revela-se também o caráter implosivo que possui a televisão diante dos fatos da cultura. Mais ainda. não se desenvolvendo desta forma. através de uma curvatura (em que de um drama originalmente instalado ocorrem seus desdobramentos até que o fato chegue a uma certa consecução). o espetacular de todo o circo sádico do terror. de tal forma que põem em dúvida qualquer demonstração ou prova a favor de qualquer tese. Não "passa" mais nada. Inclusive os acontecimentos trágicos do passado" (Baudrillard). todos os dados a respeito já sofreram um amplo processo de mutilação e de produção de modelos e de simulacros.122).pois depois de serem retrabalhados por intermédio da televisão. Assim. Baudrillard aponta o exemplo do filme "Síndrome da China" em que a televisão entra numa central nuclear e provoca um acidente. através do show de imagens. um desvio de desenvolvimento que passa a ser associado à forma cancerígena. E neste produzir constante de fatos jornalísticos. No mesmo momento em que desenvolve a pregação moral contra eles. Para Requena. de forma patológica. onde ocorre o esgotamento das eleições narrativas e um prolongamento doentio da trama original. são ao mesmo tempo criticados e enaltecidos pelo medium. de vez que todas as provas. no entender de Umberto Eco. acabando de vez com a separação entre a ficção e jornalismo. as formas de terrorismo. subtramas da trama principal e provocando-se. econômicos. Construindo-se um vício de narrativas "defeituosas" estimula-se o desinteresse 29 .

De acordo com Brecht. precisa ser submetida a uma operação específica que a dissocia de seus elementos. Conforme Dieter Prokop. A Informação Nos media em geral. As Luzes significaram para ele o terror da devassidão. os modelos dramatúrgicos da televisão trabalham com extremos de questionamento e reconstrução da ordem na sociedade. investindo-se. A fórmula do sucesso público é e será sempre uma incógnita para todos os programadores de comunicação. as ruas. 1988. em sua demolição. bem como revela um novo tipo de espírito que se instalou na França a partir da Revolução Francesa e de seu caráter. Os elementos chegam. "são divididas. A investigação policial (violação de correspondência na revolução) pretendia "esclarecer" o espaço privado como havia-se anteriormente iluminado o teatro. Apesar desse "processo industrial" de criação de bens culturais de consumo para as massas. que reúne peças de "sucesso garantido". de eliminar qualquer regra restritiva de princípios. desmontadas em seus elementos aproveitáveis: essa desmontagem das obras de arte pode ocorrer. com os quais já não se pode andar e que então são desmontados em suas unidades menores (metais. Paul Virilio faz uma interessante comparação entre o processo de iluminação da cidade de Paris e o desenvolvimento simultâneo do próprio Iluminismo. em certos aspectos. em agilidade formal. 30 . as avenidas. retorne com o êxito esperado. filmes de aventuras ou histórias de família usa-se de esquemas simplificados e de fácil assimilação para construir formalmente as tramas. mas com maior destaque na televisão. a informação ganha um caráter de "obscenidade". a ânsia de tornar demasiado visível e transparente.1931). séries criminais. em signos como componentes específicos da televisão para a montagem de seus dramas. não há nenhuma garantia de que essa colcha de retalhos.) e assim se vendem " (Brecht. o espaço público (Virilio. Prokop comenta que isso não se aplica apenas às obras de arte mas a qualquer obra que faça parte do universo televisivo. em fantasia-clichê. em primeiro lugar. É o êxtase de tudo devassar. que não só etimologicamente é a ela próximo.do telespectador em relação aos desdobramentos e construção sequencial da trama.2. para obter fácil entendimento público e imediata resposta mercadológica. segundo as mesmas leis do mercado que as dos carros que se tornaram inutilizáveis. Para exemplificar. que seja expressão adequada de uma personalidade na ideologia burguesa. 1931). Prokop cita Brecht: "Para melhor chegar ao mercado. assentos de couro. uma obra de arte. lâmpadas etc. Prokop fala em esportividade. sejam eles telenovelas. 1986). de certa forma. ao contrário.78). 2. o teatro passaram a usar da mesma maneira estes componentes formais. Ocorre que por força da influência e da dominação da televisão sobre outros meios. de certa forma. as obras feitas segundo as próprias leis. (Prokop. simplificados.p. bárbaro. Para estes produtos. isolados no mercado" (Brecht. também o cinema e.

Cada uma mora e grava num lugar diferente. da exumação de mortos. de que o olhar do homem ao seu meio. Rock O rock é a trilha sonora da pós-modernidade.Por um lado. por outro. Introduziu o show de impactos sobre impactos que pela perseverança desgastou a atenção dos assistentes. num pretenso interesse da própria sociedade. controlar. Hoje. Ao comentarmos a reprodução eletrônica. associava-se à própria ideologia do Iluminismo. Nenhuma das pessoas que fazem parte do "conjunto" de fato está presente. fazendo o equilíbrio e o 31 . p. de matérias marcadas pelo princípio do êxtase e da atividade ligeira e imediata. à sua natureza. a barbárie que se num momento tinha a ver com a iluminação da aristocracia.3. Esta se dá num espaço de absoluta simulação da copresença. Foi nisso o que o telejornalismo inovou: trouxe uma sucessão rápida de cenas. personagens secundários da cena. Por isso. apontado por Freier. A intenção de tudo explicar. decadência e também o fenômeno mais flagrante das formas atuais de esquizofrenia. de imagens. da invasão de palácios e hotéis. Foi o jornalismo que deu início à demolição da esfera privada. Nada mais era sagrado. ao seu próximo. É interessante a descrição que Mark Poster faz da virtualidade que é hoje o som do rock e seu caráter ficcional. são os meios de comunicação o "estágio obsceno da informação" (Baudrillard. que embaralhou aquilo que era pertencente ao controle exclusivo dos indivíduos. da cor. nada mais poderia ser inviolável. Excesso de informação é eletrocução. administrar supunha que nada mais pudesse ficar fora de seu alcance e ninguém mais do que o próprio jornalismo atuou para executar esta tarefa. dos cidadãos e o fez domínio de um interesse discutivelmente público. do impacto e as notícias funcionam aí como puros álibis. a produção fonográfica do rock é mais um espetáculo de ficção do que de fato de uma produção conjunta "artística". a questão da gravação do rock. É o terror da revolução.3). em que concorrem diversos intérpretes. prever. tornava-se agora o olhar ao objeto técnico. da profanação de lugares de culto e conventos. produz curto-circuito contínuo em que o indivíduo queima seus circuitos e perde suas defesas (idem. a de colocar potentes holofotes em todos so espaços que demonstravam qualquer aspecto de obscuridade. estava nas notícias: as imagens mudam e o olhar permanece. também Arthur Kroker. para quem o rock significa êxtase. até os tornarem mesmo indiferentes a essa notícia. mesmo discreto sombreado.Tratava-se da exposição de cabeças decapitadas. um olhar passivo. o vandalismo que antecede o terror instituído propriamente dito. O telejornal na era da velocidade eletrônica é cintilação da rapidez. l983. 2. na medida que já não encontrava mais obstáculos numa prática que se tornou obstinada em vasculhar todos os espaços privados na busca de uma difusão pública. Um técnico junta todas as partes da mesma música e constrói a unidade em laboratório. O exemplo disso. l988). penumbra. falou-se da mudança que representou a época dominada pelas técnicas. Steve Connor acredita que todo o terreno da música de rock é pós-moderno. da fixação de nomes de habitantes na porta dos imóveis.

Serge Tchakhotine). Em outros. Os primeiros estudos de comunicação dos anos 30 seguem a perspectiva empírico-behaviourista ou empírico-funcionalista. portanto. entre os anos de 1950 a 1970. A interação ocorre através do comportamento baseado em estímulos e a psicologia experimental fornece a base epistemológica para as análises. Para alguns pensadores. que só existe enquanto objeto de pura reprodução. o receptor é passivo e hipnotizável e a comunicação centra-se num processo de três componentes (emissor. majoritariamente associados à bola de bilhar (meios de comunicação vistos como representação). vozes isoladas dentro de um coral. O sujeito desloca-se da sua vinculação. A partir disso.balanceamento dos instrumentos. de tentar encontrar um som que seja mais fiel do que o fiel. Trata-se de uma espécie da construção da hiperfidelidade. organização.11). sentar-se no centro dos altofalantes e procurar aquilo que Poster chama de "utopia auditorial". Trata-se da mostra de algo que jamais ocorreu. constata-se que a performance na verdade é uma cópia que não tem original. é onde o audiófilo quer discernir instrumentos. um fenômeno de ficção. Os primeiros estudos sobre meios de comunicação endossam este modo de interpretar o social.1990.p. São os modelos teóricos da visão aristocrática das massas (Charcot. Tarde). através da obsessão pela recaptura da linguagem musical. ou E-M-R). mais familiarizados com a metáfora da criatura.Teoria em ruinas 3. assim como aqueles que propuseram o quadro teórico. além de tentar também controlar o próprio ambiente da cena. mensagem. na qual a relação dos homens com os meios de comunicação baseava-se na fórmula reduzida do estímulo-resposta. ou seja. isolar a sala. o lugar lhe escapa. Por outro lado. É a expressão mais clara de que também o som pode ser interpretado como "som virtual". O homem domina a máquina e está com ela para seus fins. separar vozes de instrumentos. Velhas teorias da comunicação Retomando o esquema de Lucien Sfez. 3 . em que fundem-se na mesma cena sujeito e objeto. receptor. a psicologia de Pavlov servia de fundamento para se analisar os problemas da comunicação "de massa" (por exemplo. encontramos os modelos de análise e explicação dos processos de comunicação da primeira metade deste século. contudo. Le Bon. das três visões de mundo e das três metáforas da comunicação (representação-expressão-confusão. da sua impregnação a um certo solo. Na visão de mundo marcada pela representação. controle e sobmissão das massas através dos meios de comunicação. A gravação de rock é. A ênfase é a de reforçar a função daquele que no processo de comunicação assume a posição do emissor.1. assim como aqueles orientados a uma perspectiva de administração. o próprio audiófilo também penetra neste mundo de modelos e simulações de forma equivalente. impera a dualidade cartesiana e a separação radical entre o homem e seu objeto. máquinaorganismo-Frankenstein). 32 . ele flutua suspenso entre pontos de objetividade"(Poster. buscando administrar as oscilações da eletricidade.

Da mesma forma. ainda no campo do empíreo-funcionalismo.É também o mesmo tipo de investigação que servirá de base para os administradores aplicarem a social engeneering sobre as massas. talvez por força da persistência de fenômenos inexplicados pelas primeiras teorias que investiam na importância do emissor. e o próprio receptor. os intermediários. não há só a mensagem mas toda uma atmosfera em que a mensagem está inserida. na medida que trabalharam os mecanismos políticos e sociais a partir desse componente situado no outro extremo do processo de comunicação. segundo eles. para interferir de forma pontual em alguns aspectos e com vistas à obtenção do resultado esperado. O princípio aristocrático de avaliar como se manifesta a massa. funcionavam como "sistemas de re-tratamento da mensagem e de orientação e classificação da recepção por parte das pessoas". da formação de opinião. Paralelamente. no agenda setting (Mark Comb). Igualmente assumem uma posição crítica em relação aos seus predecessores. que se centravam no papel do emissor. de fato. a chamada "mensagem" da comunicação é uma categoria secundária nos estudos de fenômenos de massa e de complexos de comunicação atuando sobre estas. Lazarsfeld e Katz representaram aqui uma corrente importante nos estudos de comunicação norte-americanos. desenvolveram-se teorias que buscavam interpretar o destinatário como o elo principal de toda a cadeia de comunicação. Para esta. especialmente de tradição norte-americana. entretanto. com o desenvolvimento da cibernética. desenvolvem-se novas correntes que começam a analisar o processo da comunicação a partir de outros componentes. assim como pelas mais recentes. as estratégias que visavam interferir no comportamento coletivo através dos meios massivos. feed-back. que passavam a dedicar interesse também no papel de papel de componentes específicos do receptor. como se esta fosse animal de laboratório. como editores e programadores. Para esses pensadores. a saber. afirmando que os efeitos produzem-se independente de uma intencionalidade do emissor e devem ser analisados na forma como estas informações são decodificadas pelo receptor. sua melhor apreensão das mensagens. bit fazem parte deste novo espírito. que deve ser estudada para explicar o sucesso ou não das formas de comunicação. Mais recentemente. separável em termos de unidades de informação e perfeitamente manipulável como um dado da física. 33 . A teoria do two step flow of communication nomeava os líderes de opinião como figuras que realizavam uma espécie de decodificação da mensagem para pequenos grupos e através disso propiciavam. era o fundamento e a razão neste tipo de estudos Nos anos 50. Para estes o receptor é. como os intermediários (no mecanismo de recepção). especialmente depois dos anos 60. da persuasão. vistas agora como um processo mecânico. ou seja. Os conceitos de entropia. da influência da comunicação e da mudança de comportamentos. acreditava-se que no processo de comunicação figuras intermediárias do mecanismo. o criador de mensagens. ocorre um novo desdobramento teórico das teorias empírico-funcionalistas de comunicação. mensurável matematicamente. As principais questões levantadas pela velha teoria da comunicação eram a da manipulação. da análise dos efeitos.

são perguntas secundárias para esta orientação. Adorno. não é certo que qualquer um fale qualquer coisa a qualquer outro. Os meios de comunicação fazem parte do universo assim como o universo está inserido nos meios de comunicação. importa o todo complexo expressivo formado pela comunicação. Esta escola despreza tanto o modelo positivista dos norte-americanos. como recebe. Segundo esta nova perspectiva. O sujeito não existe enquanto unidade independente. a separação de emissorcanal(mensagem)-receptor. uma vez enviada. desaparece o sujeito da ação. trata-se da criatura.Em todas estas teorias permancece o sentido da representação: os meios de comunicação traduzem o mundo e a "mensagem". Max Horkheimer. quanto a ênfase linguística dos estruturalistas. Em vez de privilegiar emissor ou receptor será exatamente a "mensagem" que estará no centro do interesse. a perspectiva é de uma captação orgânica deste mesmo processo. a metáfora agora é outra. A quebra de um processo de comunicação em fragmentos. ou seja. importando mais conhecer-se o mecanismo global de funcionamento e não separadamente seus componentes. cujos pensadores principais. atinge seu objetivo e é novamente reenviada. são Theodor W. mas está submetido a uma lei maior que é a do significante. Esta nova forma de interpretação da comunicação encara que homens estão no mundo e devem a ele se adaptar. Para a semiologia. só vale agora o texto. Herbert Marcuse e Juergen Habermas. preocupados apenas com o rendimento e a administração da comunicação social em grande escala. Aqui. principalmente. que em termos de análise de comunicação provocará o surgimento e o desdobramento da semiologia. significava uma concessão ao modo positivista de traduzir o real. Tampouco as condições histórico-sociais têm grande peso na interpretação do texto. o que recebe. Agora. as novas estruturas de poder daí derivadas e a anulação do pensamento crítico. Para eles. o homem perde sua importância e há uma imperiosidade. A linguagem precede os indivíduos e estes pouco interferem nos seus desdobramentos e no seu processo de desenvolvimento. Restitui-se às coisas seu direito à superfície. além dos clássicos Walter Benjamin e Berthold Brecht. "A esquerda hegeliana"). O movimento permanece absolutamente íntegro de ponta a ponta. A partir de meados dos anos 50. Ele é sua expressão. 34 . (Esta orientação teórica será mais extensamente apresentada na Terceira Parte. Aqui opera-se uma mudança radical no entendimento do processo de comunicação e uma relativização daqueles componentes que haviam sido autonomizados dentro do modelo explicativo da bola de bilhar. desenvolve-se na França o estruturalismo. realizada pelas formas de teorias expostas anteriormente. o que manda. Quem manda. da questão da linguagem. Por fim. uma sobredeterminação do todo. o terceiro grande núcleo teórico de comunicação provém da chamada "Escola de Frankfurt". trata-se agora. empiricamente subtraído de uma totalidade. originalmente criada por Ferdinand de Saussure. como bons hegelianos.

2.1984. mesmo os reais. A metáfora agora é a do monstro que.200). suas mensagens eram reconhecíveis e os destinatários. Nova teoria da comunicação Mas tanto o modelo baseado na representação como o baseado na expressão. assim como no império de estruturas cujo efeito seria perceptível através de um centro de sentido (segunda forma). ela entra numa espiral delirante e tautológica. acreditava-se que os meios de comunicação eram cópias das relações de poder. a metáfora da bola de bilhar como a da criatura. A partir desta visão de mundo desenvolveu-se todo um trabalho político e de engajamento das correntes de oposição para fazer com que as "massas populares" executassem uma "leitura crítica" da comunicação. tinha um plano político. a do curto-circuito da representação-expressão. diz Eco. exigiu uma completa reformulação e reordenação dos estudos de comunicação. criado pelo homem. já nascem falsos. o homem passa a existir pela técnica. A nova era que se descortinou a partir da expansão dos meios técnicos de comunicação e informação e através da virada que estes provocaram em relação ao domínio do homem. Referem-se a uma época em que nos estertores da modernidade ainda se poderia acreditar na independência do homem. da confusão. contudo. o emissor era centralizado. Naquela época. porque uma espécie de "neocomunicação" impôs-se ao mundo. vítimas da destruição ideológica. como cenas 35 .p. logo demonstrou-se inútil. onde o excesso produz exatamente a perda da informação. é o objeto que marca agora os limites da individualidade e determina suas qualidades. Para Umberto Eco. ponte ou janela que liga indivíduos a fatos. Mesmo os conceitos até recentemente válidos. A partir dos anos 80 entra em declínio o investimento na cultura popular. que funde a um só tempo tautologia e autismo no uso das tecnologias avançadas de computação e comunicação). Bastava ensinás-los a "ler" as mensagens. a sociedade diz "eu sou a sociedade". É o momento em que a comunicação inverte seu papel e perde o sentido de contato com o mundo. Em relação à comunicação. Desaparecido o sujeito. já que se referem a uma realidade não mais existente. já não poderão mais ser usados. pré-televisiva e do próprio destino solitário da eletrônica. da sua ação no social e da possibilidade de uma intervenção real e efetiva neste mesmo social (primeira forma). na emancipação do receptor e na apropriação dos meios técnicos com vistas à formação de uma consciência dos dominados. o ameaça. também os meios de comunicação. dizem simplesmente "eu sou a televisão". Isto. O cenário que o telespectador descobre é o de sua própria natureza arcaica. fazendo-o fixar-se na posição de um mero componente deste contexto. Da mesma forma. deve-se rever tudo que foi feito nos anos 60 e 70 e os professores devem esquecer o conhecimento adquirido até então.3. praticassem uma "contracomunicação" e interferissem no processo comunicacional fazendo com que a coisa invertesse seus pólos. e os eventos. No tautismo (neologismo criado por Sfez.(Eco. Fabricam os dados exteriores. correspondem a uma visão ultrapassada dos processos de comunicação. e a visão de mundo. A revolução da nova era era de natureza absolutamente distinta. abolindo a transparência. são pré-montados em laboratórios.

36 . da comutação. ao contrário. extraordinariamente grande de mensagens que pelo seu próprio volume tornam a comunicação inviável. pelo fato de que todos os sistemas de comunicação inflacionam o espaço com uma quantidade fantástica. Nada de fato se comunica.3. da aleatoriedade. A circularidade A circularidade da comunicação anula a existência efetiva das extremidades na relação de comunicação. organizadas em estúdios com jogos de luz apropriados. como processo intelectual e científico.cinematográficas. conhecidas do modelo empíricofuncionalista emissor-mensagem-receptor. da simulação.3. a cultura deixa de ser um componente de um processo social maior para ser um mecanismo que provoca a "inflagem" de toda a sociedade. um governante. posição dos atores pré-estudada e um texto já conhecido. em que cai por terra qualquer possibilidade de formação de fato de opinião. a diversidade. em que as mensagens não passam de meras senhas em que todos se reconhecem e que na verdade operam de maneira puramente ritual. o que se ouve das pessoas é a reprodução linear daquilo que a própria comunicação emitiu. Quando um jornal coloca. a obsessão de falar. Não há correspondência necessária entre significante e significado. Os conceitos da Era Frankenstein 3. pôr e colocar dados e em todas as direções cria um universo alucinante de dados. é da relatividade total. 3. Quando a televisão faz enquetes em praça pública para conhecer a "opinião do povo" sobre um acontecimento. Como uma rede. tornando-se "sociedade cultural" e a cultura o medium que sintetiza toda esta mesma sociedade. duas opiniões diametralmente opostas e ao mesmo tempo fundamentadas em dados e informações confiáveis. mas múltiplos ajuntamentos e caminhos complexos. os programadores de televisão irão formar novamente a opinião sobre a massa. em realidade.3. em relação a um fato. nada muda as posições ou opiniões existentes. que é seu efeito multiplicativo. Desse conjunto de opiniões. que estava impregnado da suposição de um eu fortalecido e de um sujeito autêntico.2. nada de fato é transmitido. trazer. argumentar. comentar. a velocidade. Cria-se o circuito tautológico. A mensagem torna-se também inteiramente inóqua exatamente pela sua própria "obesidade". A época. não há começo nem fim. mas a aceitação e a livre circulação de todas elas ao mesmo tempo. um fato econômico novo. não existem essas posições ou opiniões. 3. entra em declínio porque o signo deixa de ser lastreado por alguma carga útil ou gravidade. A massa de informações. Isso porque. Superfície A hermenêutica. A circularidade da mensagem é ainda bombardeada por um novo componente. o receptor não confia em nenhuma delas exatamente porque se anulam e a conclusão é só uma: o aumento das informações leva à desinformação. que a receberá novamente e as reproduzirá mais uma vez.1. Na circularidade.

de jogar com a mágica das cores e do espetáculo. externa ao fenômeno. pela castração. de qualquer sentido latente. desnudar as aparências era uma forma usada para fazer resplandecer a verdade de Deus. pela submissão de tudo o que aparece à ordem da razão e da explicação. Assim. a pilhagem do inconsciente com fins de interpretação psicanalítica. real e imaginário. Para Baudrillard. legitimada por uma verdade divina. de depuração daquilo que parecia estar obnubilado para.p. a tentativa de negar a verdade da evidência para fazer com que os fatos se dobrem a uma verdade outra. Tudo é possível passar na televisão e nada de fato provoca qualquer efeito no receptor. ao contrário. aparecer a verdade da coisa. no caso da hermenêutica. os acontecimentos não perdem o sentido mas são precedidos pelos modelos. os estilos de vida. política ou filosófica. por exemplo. que estaria por trás dos componentes da comunicação. os signos intercambiam-se entre si sem nenhuma permuta com o real. Em todos os casos. O declínio da hermenêutica torna possível ver o real como império das aparências. de desvendamento ideológico. a uma visão 37 . em todos esses procedimentos puramente formais do processo de comunicação é que se implanta o mecanismo de pasteurização das mensagens. a total neutralização das notícias de um noticiário de televisão não se dá pela notícia em si senão pelo jogo de anulação recíproca dos fatos no seu sequenciamento de exposição. do modo de produção que impõe esta visão de mundo e estas idéias. de ilustrar. Em todos os casos.ao contrário. um princípio exterior. a ciência eliminou a sedução. uma norma. A crise da hermenêutica leva consigo o fim do próprio sentido. introduzir um ritmo de alta velocidade nas cenas que se intercambiam. a nova investigação dos processos de comunicação afirma que as visões de mundo. revolucionária ou puramente abstrata. É uma forma de mutilação. são elaboradas através do jogo de formas. O que é sedutor no texto é sua aparência.p. cortar. em que se misturam verdadeiro e falso. mas. já que o sentido remete. Os modelos é que compõem de fato o quadro das cenas e dispensam absolutamente a existência do original. manifesto/latente. sequenciar. a permanente obsessão pela domesticação. Em todos estes casos. da "paixão pelo desvio" contra a pesquisa do sentido escondido. as vivências repassadas pelos media não são derivações de qualquer maquinação conteudística. pela eliminação dos riscos. editar. 1979.76). (Baudrillard. Junto com o declínio do pensamento marcado pela dualidade falso/verdadeiro. É o espaço do jogo e das cartadas. O manifesto e superficial volta-se sobre a "ordem profunda" para anulá-la. É o próprio princípio da simulação já mencionado. Na forma de intercalar notícias sérias com notícias amenas. também ele. executa-se a liquidação de todas as formas de desmascaramento. substituiu-a pela profundidade e pela interpretação. é a pilhagem da história com fins particularistas. do fato de que a atribuição de sentido é o mesmo que forçar o fato a uma teoria pré-concebida. de natureza ética. o princípio de que a forma como os fatos aparecem é a negação de como eles de fato são. Na época da metafísica. Trata-se. instituindo aí o terrorismo e a violência da interpretação (1979. de qualquer jogo com a mensagem.20) A partir disso. então. a pilhagem da cultura com fins de massificação e a pilhagem do agir humano para submetê-lo a uma moral.

não guardam nenhum sentido e neutralizam toda cena e o discurso político. é algo que não pode ser previsto. são ao mesmo tempo passividade e espontaneidade selvagem. de um programa de televisão. Da mesma forma. obscurecidas. portanto. Autonomia do objeto Na nova teoria desaparece a polarização dominante/dominado. por exemplo. O que marca seu comportamento é. controlado ou definido pelos indivíduos. de um livro. O campo então ficava aberto a todas as formas possíveis de especulação. se ocorre o que se chama "sedução circular" é porque então ninguém mais manipula ninguém. 3. que remetia a uma concatenação superior das falas e à sua submissão a toda uma lógica precedente. Tem sentido aquilo que se coadunava com a maneira prévia de como o cientista ou o filósofo viam o mundo. portanto. os conceitos de conteúdo e de mensagem como manifestações que estão escondidas. administrado. nunca participam: são boas condutoras de fluxos mas de todos os fluxos. As chamadas "leituras ideológicas" de um texto. contrariamente. préprogramado. o da absoluta imprevisibilidade. reduzia todas manifestações à mera expressão dessa própria ordem. absorvem signos mas não os digerem.exterior do próprio fenômeno. (No item II. boas condutoras de informação mas de qualquer informação. se retomará novamente a discussão sobre o caráter do poder na nova sociedade). O poder não manipula e tampouco as massas são enganadas. Caem por terra. Se existe uma circularidade na comunicação. As novas formas de manifestação dos meios de comunicação remetem a outro tipo de funcionamento. pela linguagem manifesta. todas elas remetem a essa tentativa de violentar o real impondo-lhe um sentido. dessa visão de mundo. de um filme.3. de uma pintura. Em suma. de uma peça teatral. Seu comportamento. a análise de conteúdo buscavam exatamente através do instrumental semiológico encontrar ligações. já que tudo é válido e portanto pode se submeter a critérios múltiplos de julgamento. assim como também a uma nova forma de se considerar a questão do poder. nelas tudo dilui. A forma como Baudrillard. encara o fenômeno das massas justifica uma tal acepção de poder. Absorvem a energia do social mas não a refratam. A análise da mensagem. É novamente Umbero Eco quem declara que nas novas formas de comunicação eletrônica não há mais um poder sozinho. construções inconscientes. não há mais persuasão. formas internas de um discurso não-expresso para trazê-las à luz. que está na mesma ordem da polarização emissor/receptor. por trás. o conceito de discurso. não há mais influência deliberada. Para ele.3. estas não são boas nem más condutoras do político. Estados ou formas de "poderes" socialmente localizáveis. que o pesquisador achava mais correto. o componente intencional nos efeitos da comunicação extingue-se. nem a capacidade de indivíduos interferirem radicalmente no comportamento de outros através do uso deliberado dos meios de comunicação. 38 . um poder centralizado. O pesquisador violentava o real e o distorcia para impor-lhe a significação que era da sua própria metanarrativa. uma destinação ideológica da mensagem.

a crítica que faziam. ou seja. no debate de idéias. Há autonomia dos objetos em relação a seus criadores. ao contrário. e não seus autores. externa a todo o processo de industrialização.da mesma forma como no contexto anterior . conduziria à idéia de que no fundo elas encerram um certo comportamento. princípio que posteriormente veio fundamentar toda uma ideologia política e uma estratégia de recuperação da "cultura popular". uma certa estratégia intrínseca e inerente de insubmissão. desenvolvem-se bens. produzse. Em que categoria. Adorno e Horkheimer rejeitavam a seu tempo o conceito de cultura de massas exatamente porque este supunha uma certa autonomia da massa na criação das formas culturais."manipuladora" de uma matéria prima original. difusas. que as manteria ainda intacta. num mundo de desaparecimento do sujeito coletivo. era de que a cultura industrialmente produzida é que não era a da massa. já que sua precedência nos remeteria novamente à concepção de um sujeito criador. na rejeição ao mundo caótico e sem eixo da era técnica ? 39 . então.Daí porque não de poder mais falar de uma "cultura de massas" já que esta significaria algo de residual. objetos culturais numa sociedade dada mas seu resultado é algo absolutamente imprevisível. Os termos indústria cultural ou industrialização da cultura perdem também sentido porque supõem a atuação deliberada . na divulgação. ou seja. uma certa forma de se opor à dominação. contudo. Ou seja. Este era o equívoco de seu pensamento. danificam. do papel histórico. falsificam. relativamente "pura" para a produção de mercadorias genéricas. é nitidamente distinta: cria-se. pequenas. inserir as ações individuais. de ampla aceitação popular. o espaço para uma cultura à margem. popularizam produtos de uma cultura autêntica quando a lógica. o investimento naquilo que estaria no âmago da própria massa. São os objetos que provocam efeitos e têm repercussão perante a sociedade como fatos absolutamente inesperados. está se tratando novamente com agentes que alteram. que atribuiria um caráter ontológico às próprias massas. deixando de qualquer forma. restritas daqueles que vêem sentido no trabalho. da ação política com vistas a um fim ideologicamente procurado.

É a forma também como Lyotard descreve o agir: agese com golpes e contra-golpes. No passado. O objeto impõe-se como autonomia. Provocar no sentido de "incitar". velocidade. entende-se que o mecanismo foi desconectado. a onipresença da ruina. a primeira parte divorciou-se da segunda: homens e grupos ainda lutam por idéias e princípios mas apenas no sentido de "somar". clonagem. perdeu-se: ninguém pode afirmar no que vai dar. aleatório que se constituem hoje as "ações socialmente relevantes". orientados contra a barbárie da destruição de qualquer razão. seus limites reais. as lógicas voltavam-se para o estável. E com razão. denunciam a existência de um mundo sem esperanças. mesmo daqueles que publicamente. sideralização. o contínuo. apenas pela agonística dos "jogos de linguagem". No passado. que remetia à ontologia e às concepções do Absoluto. 3. A partir de alterações provocadas e de mudanças ocorridas. a pequena estatura humana vê. multiplicação e os efeitos destes processos acelerados sobre todas as coisas. mas de forma crítica. as lógicas que se impõem são marcadas basicamente pelo movimento. mas também a dimensão verdadeira de seu agir. Poder-se-ia supostamente planejá-la. o ato político compreendia-se como curvatura em que ações de indivíduos. ao que parece. inscreve-se a ação política. o permanente. Se antes o homem estava sobre um cavalo.p. divisão. talvez agora com muito mais maturidade. rapidez. especialmente na modernidade. subdivisão. O estável.30). organizá-la e ver sua realização. realizando mudanças nas relações de força. o pequeno ato individual e de grupos reduzidos.HISTÓRIA. dinâmico. o fixo. Já não há mais o "fazer a revolução" mas o "provocar as coisas". Era a revolução. crescimento. imprevisível. TEMPO.consciente de sua insignificância .4. É no jogo indeterminado. hoje ele . o império das imagens.Fora do território e das práticas minimalistas. o que se mantinha estruturado. que ingenuamente visam reconstruir em laboratório mundos irremediavelmente perdidos. conduzindo-o a seu destino ("a teleologia"). l979. assim como na nova forma de ordenação do social como um todo. as coisas mudem. reclama sua legitimidade. espectralização. o que ficava consolidado. de trabalhar para que ocorram mudanças pura e simplesmente. Hoje.vê que suas ações no máximo servem para provocar a fera. cede lugar na era da técnica ao móvel. pelo volume.(Lyotard. Movimento Na nova teoria da comunicação. fractalização. Assim. A esperança da utopia desapareceu. quais serão os resultados. voltam outra vez os agentes para novas provocações. ao que está em permanente mutação. II . o do controle dos efeitos. de juntar muita gente para que. de cutucar. O outro lado. grupos ou classes somavam-se para construir um movimento que iria irromper numa realidade dada e provocar a alteração do status quo. Isto pode também ser interpretado como avanço.3. POLÍTICA 40 . expansão. o que esperar disso.

mas já não poderíamos perceber isso. No livro Die Provinz des Menschen. O componente místico-religioso nessa ideologia não era ocasional. real e possível nos quadros da própria sociedade. Fim da história O chamado "fim da história" está intimamente associado à crise dos metarrelatos. ao contrário.como no caso de Schleiermacher filosófico. demasiadamente envolvida e inundada pelas mensagens da comunicação. cujos diversos "centros de histórias" multiplicam-se desordenadamente. concreta. quando a história deixa de ter sentido como processo único para o qual caminha toda a humanidade. da utopia ou do socialismo. Elias Canetti apresenta em forma ficcional o salto de um período histórico para um período ahistórico: "Uma idéia dolorosa. ascendente das conquistas da humanidade em direção a uma sociedade marcada pela realização da Idéia. a vivência. não teria tido chance de perceber este ponto e quando se deu conta a história já tinha ido embora. Só que neste caso. político ou . As ciências existiam como práticas orientadas à "emancipação do sujeito em direção à liberdade" ou ao processo de desalienação e desrepressão. a de que a partir de um determinado ponto preciso do tempo a história deixaria de ser real. a história significava o desdobramento progressivo. fundamentavase em um componente ético. nas palavras. De fato. nossa experiência com filmes históricos e de ficção científica realizados nos anos 20 e 30 não revelam nada sobre aquele passado. L. Tudo o que teria acontecido após já não seria mais de forma nenhuma real. cuja legitimação. Doctorow. de E. em que. Sem se dar conta. Mas também as idéias e os conceitos que recheiam a contrução histórica perdem sua densidade. nos gestos. de teleologia ou de finalismo. não há mais representação do passado histórico mas "representação" de nossas idéias e estereótipos sobre aquele passado.1. positivo. sem que os homens tivessem se dado conta. a memória. Nossa tarefa e dever no presente seria descobrir esse ponto e enquanto não o tivéssemos ele estaria prestes a perseverar na destruição atual". Harvey dá exemplo de Ragtime. Para o escritor. O declínio do conceito de história ocorre na mesma proporção em que entra em decadência a concepção unitária de totalidade. 41 . a totalidade do gênero humano teria de repente perdido a realidade. esfacelando-se em múltiplas "histórias". Exemplo da erosão desta unicidade são os meios de comunicação. em vez de realizar a utopia no plano extra-terreno. teria desaparecido como num passe de mágica. a historicidade impregnada nas coisas. A substituição elementar do paraiso cristão dar-se-ia pela projeção de um "paraiso possível na Terra". Talvez a humanidade. já que a própria ideologia da religião cristã previa também um caminhar da humanidade em direção à sua própria salvação e redenção. Dentro desta lógica. a história propunha-se a dar aos homens uma consecução material. menos ainda sobre o futuro magicamente projetado. segundo ele. demonstram apenas o imaginário daquela época. especialmente no caso do saber. teria ocorrido um desaparecimento incrível: tudo aquilo que havia marcado o passado.

terminados. congelado e sem orientação alguma. nada mais repercute como expressão de uma tendência. Desconectados do sentido da agregação factual (tendendo a um futuro previsível ou desejável). passam a repercutir não mais linearmente mas agora em todas as direções. não mais reunidades num projeto). É a "velha história" que. Todos os objetos tornam-se peças disponíveis. Os atos políticos rompem com o sentido maior. conflitos que orientavam o agir. os objetos que ainda estão carregados de uma certa dose de emocionalidade. que expurga o passado e a memória. os homens precisam buscar novamente no passado. como também no uso presente desses mesmos dados. que passam a sofrer uma livre e arbitrária utilização para os mais diversos fins. de sonegar informações relevantes e institui-se a manipulação aleatória e livre de tudo. Manipula-se para alterar e adulterar o passado. imaginária e mesmo "fabricada". nas demais "ciências humanísticas modernas" a história passou a ser vista como um espaço em que operava-se um abandono do sentido de continuidade e memória e o desenvolvimento da prática usurpatória.p. de repercussão macro-social. excita ainda o imaginário dos vivos. A pós-modernidade é fundamentalmente uma reordenação das noções de espaço e tempo. de realidade e sentido para ocupar um espaço presente esvaziado. Os homens já não têm a lembrança. adaptáveis a qualquer intenção. aceito. o relato. a narrativa de que fala Walter Benjamin mas teriam agora modelos prontos. longínquo como recente. em que a falsificação da memória é construída através de uma visão tendenciosa do passado. Posteriormente. Para um realidade eletrônica e saturada de técnica. Tudo isso não deixa de provocar uma sensação de vazio pelo "desaparecimento do sentido". algo introduziu-se de forma que o passado tenha se tornado uma categoria fictícia. cujo historicismo tornou-se a "canibalização aleatória de todos os estilos do passado e o jogo de alusão estilística casual"(Jameson. fazendo com que sujeitos retrospectivamente e após a morte transformem seus atos e feitos.1984. A uma compressão da categoria espaço opera-se um 42 . mas também a historicidade. de períodos marcados por fortes rivalidades. altera também o próprio sentido da antiga historicidade. passam a ser o contraponto de um presente ainda não inteiramente assimilado. de lutas. os fatos políticos e culturais presentes. O fim da história tem como consequência a dilaceração de tudo o que outrora fazia parte do repertório dos pesquisadores. A começar pela arquitetura. apesar de extinta. As reconstruções de guerras.77ss). ao mesmo tempo que desmorona a possibilidade de reconstrução histórica e de recuperação de documentos e fontes. as ações coletivas não conseguem mais capitalizar maciçamente as pessoas (agora dispersas. já apontada também por Eco quando fala da passadização da cultura norteamericana. Desaparece a "manipulação de classe com fins de imposição de uma verdade ideológica. A nostalgia do passado alimenta o espírito "retrô" do presente. a política e a guerra.Algo aconteceu que mudou radicalmente nas consciências a concepção de passado. de manter a "alienação" dos dominados. O uso indiscriminado do passado. fabricados em série de representações do passado e estas se sobreporiam às imagens realmente vividas. difusamente. meros componentes arbitrariamente organizáveis para a intenção da construção artificial.

pois é o seu determinante rítmico. As experiências. 1985. A técnica paralisa e os sistemas de informação esvaziam toda a pulsação vital dirigida que estaria associada anteriormente ao processo histórico. enterram-se atrás de suas tecnologias prospectivas. O mundo marcado pela técnica. faz com que mesmo as informações relativas ao passado tornem-se excessivas e por isso redundantes e esvaziadas. especialmente da televisão. as atividades. 2. Não há passado porque a história. Aqui interessa o investimento na categoria "tempo"). p.investimento maciço na categoria tempo. O tempo O tempo é o vetor dominante da cultura técnica e das tecnologias de comunicação. o fim da geografia já foram expostos na Segunda Parte: "A transformação da cidade". assim como não há futuro exatamente porque a demolição da utopia do vir-a-ser. Para Raulet. onde o tempo foi liquidado pela circulação pura. ao contrário. sendo possível viver mais intensamente (isto é. marcante fundamentalmente para a periodização do Iluminismo. a dinâmica da alta velocidade e de ritmo alucinante do processo comunicacional. ganhar tempo. obter o melhor tempo. É derivação e causa da rapidez das imagens. como grande empresa humana. captações cambiáveis de momentos que que já não respeitam nenhuma hierarquia cronológica.15)."As sociedades que nada mais esperam de um acontecimento futuro e que acham cada vez menos confiança na história. mas dinâmica. portanto. Visto de outra forma. Essas gerações jamais despertarão de seus sarcófagos subterrâneos". O tempo está diretamente vinculado à linguagem da televisão e dos media eletrônicos. para a construção de uma realidade que estaria por vir. as vivências condensam-se cada vez mais. A noção de tempo. foi extinta. (A compressão do espaço. são hoje marcas de uma cultura da alta velocidade. uma agora (sua interferência radical). A rapidez impõe-se como necessidade e a circulação de bens e mercadorias torna-se alucinante. do destino ou de um projeto tornaram 43 . o tempo pára de criar continuidade da experiência. quantitativamente muito mais experiências) que se vivia no passado. que impera nesta nova era não tem mais nada a ver com a sequência passado-presente-futuro. exatamente porque para este a trajetória da humanidade poderia ser sintetizada em um antes (processo que se desenrolou). tempo de envelhecimento. O que realizam os sistemas de comunicação e em especial a televisão é a redução da experiência à presentificação total do cotidiano. Tempo não como tempo da história ou passado. Opera-se uma estratégia de petrificação ou congelamento do presente por um mecanismo da própria perpetuação desse presente. do declínio da leitura e da superficialização de toda a voda social. atrás de seus estoques de informação e nas imensas redes alveoladas da comunicação. (Baudrillard. as imagens seguem-se umas às outras como momentos arbitrários. as imagens numéricas da TV já não conhecem mais nem antes nem depois. Ter tempo. refuta todo este ordenamento da lógica social.

O desaparecimento do espaço público. estão ausentes. A política Antes do período moderno. o fim das grandes mobilizações de massa como formas de ostentação política. que é o que se verá na próxima parte do texto. de representatividade. de regimes inteiros ocorreu como estravazamento explosivo sem liderança. Fim da representação. A era moderna vai abrir. A política na era das altas tecnologias é o território sem a dimensão das grandes mudanças. como fantástica violência das coisas. fim das instituições intermediárias e também fim do homem político. Instala-se o conceito de povo como soberano. a descoberta de ossadas de antigos inimigos do regime vem para comprovar que no momento de esvaziamento da política só os fantasmas de uma política desaparecida é que conseguem exercer o papel de atores. a política definia-se como atos e vontades do soberano. de opinião pública. Na nova fase política (fim da modernidade). partidos e organizações. de delegação. astúcias de que fala Maquiavel e que correspondem a uma concepção do agir político como teatralização diante dos demais membros da sociedade. das radicais alterações. estudos específicos e investigações externas ao debate propriamente político. Desaparecem os atores e. 3. a fase da representação. sindicatos entram em progressivo descrédito assim como conceitos de cidadania e direito. a crise da demonstração política ocorrida através da estetização fascista. Ao mesmo tempo. As transformações espetaculares da história de certos países. golpes. É a fase de ouro da cena política. como lembra Virilio. todos estes fatos convergem para a ruptura dos componentes mediadores instalados entre o povo e seus governantes. opinião pública. Ou então: sem a interferência ativa dos atores. Tal fato encontra nos indivíduos um correspondenrte homólogo. esta dissolve-se por ser incorporada pelo sistema de comunicação ou as próprias instituições políticas tornam-se meios de comunicação. dos movimentos ideológicos. as mães da Praça de Mayo são uma demonstração de que os verdadeiros atuantes. com a liquidação dos monarcas ou o esvaziamento de seu poder político. Da mesma forma. o cenário clássico da política tornou-se espaço de micropolíticas de lobbies e de vantagens marginais e oportunistas. o declínio dos sindicatos. de vontade popular. Nossa época é marcada pelo desaparecimento ou perda de importância das instituições intermediárias que configuravam o quadro político do século passado e da primeira metade deste século. em que os governados acreditam na possibilidade de os governantes agirem em seu nome. a condição esquizofrênica do homem nesta era. como explosão incontrolável. a saber. na viabilidade de construção de um estado fundado na democracia de uma transparência política. em São Paulo. Com a expansão e absorção dos media. esfera pública. de fato. 44 . os políticos tornam-se atores destes sistemas com peso e importância pequena.impossível a construção de uma realidade para além desta. Eram os inúmeros jogos. artifícios. São substituídos por técnicos nas tomadas de decisões e as definições políticas escapam ao seu controle porque são determinadas por pareceres de especialistas.

o entrave de funcionamento. não há mais quem advogue em seu favor. não tratam de programas. o inimigo na acepção clássica também desaparece. os políticos não discutem. num jogo em que devem ser tão ou mais espetaculares que os próprios homens de televisão. linhas de ação de governo. não há mais necessidade que o homem político realize atos ou programas que tenham a ver com uma transformação ou o investimento na situação nacional. impessoal. em que interessa levar o público ao êxtase e à fascinação. Dentro do mesmo raciocínio. Política reduz-se a mera publicidade. não tratam de ações. portanto. A ela estão todos igualmente submetidos. Não dirigindo as políticas. clínica. sexuais. são sua "parte maldita". O grande divisor de águas também aqui são os meios de comunicação.Em lugar dos esquemas duais. 1983). minorias étnicas. Os que eram marginalizados e que poderiam. a fuga de rota. aberrações sem consequência. desprovido de poder. Saddam Hussein é somente a materialização oportuna. A Guerra do Golfo. impõe-se agora a dominação da máquina. (Baudrillard. não interessam ao sistema. erro de produção. O campo que ingressamos é o da transpolítica. os homens não precisam de fato mais se comprometer com qualquer mudança substantiva. Eles tornam-se o novo palco da política. A ação. uma idéia. capitalizar um potencial de revolução e de destruição do sistema (pobres. sociais etc). Como desapareceram os temas da política. Diante das câmeras. as estratégias sociais mas funcionando apenas como álibis humanos diante de um sistema de racionalidade técnica. não trocam opiniões. um "mal indefinido". Os políticos falam para os media na esperança de que estes repassem sua imagem para o grande público e o façam de forma benevolente. estratégias. 1978. portanto. a solução é técnica. Os critérios. exercida pela técnica. 45 . deu exemplos disso: ali o inimigo é apenas uma abstração. toma o lugar do palanque público e como "palanque eletrônico" é para onde convergem todos os discursos políticos clássicos. bode expiatório deste inimigo abstrato: o desvio. como fruto do mais avançado da "racionalização com vista a fins" de que falava Max Weber. Isto fica com a programação do próprio aparelho administrativo e as estruturas que funcionam indiferentes aos sujeitos. habilidade e boa presença no vídeo. velhos. o desequilíbrio estrutural. Altera-se. no início de 1991. negros. não o das "anomias" durkheimnianas mas das anomalias. no princípio socialista. correspondentemente. Por isso. enquanto unidades de produção de informações para grandes massas e como sistema que engloba todos os componentes da vida social e os reinterpreta segundo seus próprios modos de ver e trabalhar. e o inimigo. das relações de classes e de dominação. alterações pequenas ou grandes a serem empreendidas mas tornam-se componentes de um grande processo publicitário em que funcionam frases de impacto e jogadas espetaculares. agora também o status dos "condenados da Terra". são agora de agilidade. são puramente "denegados" já enquanto conceito: deixam de existir. deste "componente intermediário" é decisiva. cientificamente calculada. falha do sistema. as economias. Primeiro.

rádio. os atentados terroristas e nas situações internacionais e planetárias de guerra. providenciou ele próprio a sua verdade. tampouco como multiplicação e difusão molecular.4. reduzido o papel do homem e das classes. uma vez autorizados e participantes da vida política esvaziam-se. produzindo notícias. incluindo neles as redes de jornais. de que fala Baudrillard. retirando-se daí também parte de seu poder. o Pentágono . O Estado . É a satelização. na era técnica. o Estado como excrescência política não prevê a troca e produz pânico e terror. hoje este tornou-se seu próprio medium.neste caso. Medium de comunicação. no momento em que se tornou oficial e aceito pela academia. em que o mundo do controle é dirigido a partir do sideral. 5. interferindo exclusivamente na forma de o mundo tomar conhecimento e formar sua opinião acerca do desenvolvimento da guerra. A Guerra do Golfo. Da mesma forma.tornou-se o próprio medium. Torna-se máquina decisória com retroalimentação própria. Já não se pode mais interpretá-lo como um território em que ele se encontra associado à figura do governante. Mais recentemente. Tratava-se agora de excluir toda influência crítica ou negativa dos media institucionalizados. O marxismo. o próprio Estado tornase também meio de comunicação. como a AFL-CIO 46 . é o exemplo mais claro deste objetivo. televisão e revistas. os partidos comunistas. diante da própria transformação que sofreram os sistemas de comunicação. numa situação em que as forças chamadas "aliadas" usaram-se de uma estratégia de informação muito diferente da utilizada pelos norteamericanos no Vietnã. É pólo irradiador de informações e comunicados. que passaram a ser sistemas auto-referentes. abstrata e difusa. a qualificação do poder leva à sua própria anulação. A nomeação. já que o Estado como medium de comunicação. O que não dizer então dos sindicatos e das grandes associações trabalhistas. como na época de Maquiavel. perdeu sua violência teórica e crítica. não se restringe mais à infra-estrutura e às instalações físicas dos próprios sistemas de comunicação. mas torna-se categoria genérica. mais uma vez. a máquina estatal auto-regulada entra num ciclo "orbital". buscando construir e difundir imagens e fantasias de si mesmos. O Estado orbital Desaparecidas as instituições intermediárias. A guerra propriamente dita não foi de conhecimento de ninguém. Ultrapassando a situação em que o Estado era dependente dos media para sua projeção no campo internacional. O "locus" do poder Se o poder no Estado transpolítico deixa de ser troca e é apenas violência do pânico e do terror. A instância política decide a partir de informações distantes da opinião pública e elaboradas por equipes criadas especialmente para esse fim. num conceito microfísico de Foucault. fim das intermediações e flutuação das responsabilidades. O comportamento deste tipo de Estado da era tecnológica é mais notório em questões como a ameaça nuclear. o poder propriamente dito não está menos ainda nos espaços institucionalmente definidos como tal.

um livro. qualquer um desses fatos pode ter ou provocar um grande impacto na situação política. O poder apareceu através exatamente desse impacto. da manipulação. por si próprio. mas porque puderam. derrubar governos e alterar circunstâncias anteriores. sem o perceber. uma matéria jornalística. da administração. que não está necessariamente com aqueles que ocupam postos na administração ou nas grandes empresas ou na sociedade de forma geral. pode ou não ter repercussões que redundem em alguma forma de poder. um acontecimento no exterior. em que os fatos são emitidos por sistemas e meios de comunicação e depois novamente refratados por uma massa de receptores e enviados de volta à televisão. formando o modelo de rotatividade. Assim. acima de tudo. É algo de natureza muito mais abstrata. captar uma aspiração coletiva e genérica e a transformar em um ato sintético de impacto. ou melhor. Não porque seus autores o conseguissem intencionalmente ou munidos de algum poder. Tudo indica que o poder é algo flúido. este mesmo produto. A intencionalidade do autor em nada pode alterar isto. Lyotard diz que em lugar da velha clássica unilateralidade na transmissão de mensagens há uma forma agonística de se jogar com a linguagem. Nunca está onde se convenciona situá-lo.p. Ôtomos realizam a estratégia e modificam a relação das respectivas forças. "Os átomos são colocados em encruzilhadas de relações pragmáticcas mas também deslocados por mensagens que os atravessam num movimento perpétuo. 47 . mina. que pela sua oficialização não têm nenhuma força contestatória ou peso de desafio político. indepentente do desejo. em diferentes exemplos da lógica de que a institucionalização é morte e a persistência enquanto movimento é o que mantém a pulsação vital. Uma massa. Da mesma forma que um produto cultural torna-se independente de seu autor uma vez que é posto no mercado ou ganhe difusão pública. nomeá-lo ou localizá-lo. do controle dos agentes. O que se pode fazer é agravar um deslocamento e até desorientá-lo para se obter um golpe inesperado" (1986. por exemplo. o poder é algo que. cada parceiro sofre um golpe que suscita um contragolpe. não aparece. exatamente porque sua fragmentação supunha uma forma de não-poder. E assim ocorre também com as minorias: no momento em que se institucionalizam perdem sua agressividade e violência. Um artigo na imprensa. por princípio. como tampouco reduz-se às instituições que buscam fixá-lo. flutuante. Ela usa-se de uma forma de poder que não se acreditava estivesse concentrando. a idéia de manipulação e de influência determinada. Trata-se de cristalizações. como já mencionado. A lógica da circularidade. nenhuma direção prévia as organizou e a massa impôs um "não" coletivo que se materializou num momento dado. Mas no resultado da eleição constatou-se o uso de um poder através dos efeitos que provocou.dos Estados Unidos. quando percebe uma deslocação. pode alguns dias ou semanas antes de uma eleição inverter totalmente as expectativas das enquetes de opinião e surpreender com um resultado imprevisto ou com uma votação maciça em um candidato inesperado.30). transitório e. deslocante. uma declaração de uma figura eminente. petrificações. só aparece em seus efeitos.

exatamente por este caráter fluido do próprio poder.Estamos diante. Em Habermas e Weber. já que. o final da metafísica ocorre com a diminuição da respeitabilidade do sagrado. no início dos anos 80. O poder é conquistado casualmente por certos grupos. a história e os acontecimentos jornalísticos haviam se tornado fábula. mas numa posição acima dos homens e sobrevivia de forma secularizada tanto na aura. de nenhum agente. através da arte. no passado. das viradas espetaculares que não podem ser administradas como imaginava a velha teoria do poder. surpreendentes. alteram-se como a cor dos objetos ao sofrer a mudança da fonte de luz: vale apenas seu componente formal para fazer parte imaginária de outro mundo. é usado para resgatar um indício de veracidade no mundo fictício. nem responsável consciente e deliberado por uma virada surpreendente em seu comportamento. de não estar no lugar onde se desejaria que estivesse. ela os cria. mundo trabalhado como ficção) conduz à perda de sentido. fim do interesse nas causas "últimas". como nas tradições filosóficas e religiosas. Ninguém pode se considerar dono de uma irrupção repentina das massas. choques violentos. No dia-a-dia dos media são construídas novas fábulas e o componente de verdade desses fatos (cenas de rua. Na edição. a descrição feita da TV foi elucidativa para caracterizar o traço de "errância" do mundo atual (V. As massas por si assumiram o direito do não e posteriormente. portanto. não estava nivelado à vida cotidiana. O sagrado. No capítulo anterior. em que houve grande mobilização popular nas ruas das grandes cidades. como álibi da notícia. uma vez terminado o movimento. nem utilizadas como capital. organizações mas logo em seguida desaparece novamente. as cenas "autênticas" embaralham-se. "O antiiluminismo"): a TV não dá uma versão dos fatos que transmite. O SER ENFRAQUECIDO 1. O fenômeno brasileiro das Diretas-Já. o fim da metafísica (Deus está morto. Assassinato de Deus Nas páginas precedentes. Tudo torna-se fábula. III. A questão do sentido é que já não se coloca. não há um sentido falso alterando um autêntico. 48 . O nivelamento começou com o desenvolvimento da racionalidade do mundo técnico e com ele ocorre o que Weber chama de "perda de sentido": desaparece a graduação da racionalidade entre o sagrado e o profano. igualmente. Para o primeiro. significou também uma forma de cristalização do poder nas mãos de uma massa. sem que isto pudesse ser atribuído a nenhum partido. neste exemplo. No mundo como fábula não há mais experiência autêntica. A auto-referencialidade dos meios de comunicação constrói diariamente novas estórias para que o público as apreenda. da mesma forma. perdem-se. flagrantes de cinegrafistas). como visto. para isso: Primeira Parte. de uma lógica das irrupções repentinas. massas. já não era mais possível rearticulás-la. a idéia de verdade e de autenticidade caem fora desta lógica. diluem-se.

formas "mitificadas" de uma nova religiosidade.O nível de racionalidade do sagrado sempre esteve abaixo da racionalidade da ciência cotidiana mas sua estrutura intelectual para ele sempre havia sido melhor. eles também. com suas estruturas estáveis. ao contrário.499). A morte de Deus e o fim do sentido têm ainda mais um desdobramento. como vimos até o momento. solitária diante de estruturas maiores e mais determinantes.p. então. Sua negação própria enquanto entidade que se acreditava substantiva. o que se matou foi apenas uma ilusão e ela se depara agora com uma "verdade" da natureza frágil. o conceito de um homem enfraquecido como dizia Heidegger: "do ser como tal não resta mais nada. alavancas e sistemas. Para Habermas. Por outro lado. Arthur Kroker acha que ocorreu o assassinato de um Deus que de fato nunca existiu. a humanidade esteve sempre envolta em um crime fictício. mas marcada pela performance. A estrutura de comunicação da modernidade fez ruir as visões de mundo integradoras e socializadoras. a forma de entendimento torna-se tão transparente que a prática comunicativa cotidiana não garante mais espaço algum para o poder estrutural das ideologias. Eliminando-se os vestígios auráticos do sacro e volatizado este tipo de produção de imaginação criadora. Ascende. A profanização da cultura burguesa faz desaparecer a "força irracionalmente vinculante" do místico e volatizou-se o núcleo de convicções básicas. pelo fascínio tecnológico. (2) desaparece a força integradora das ideologias mas aparece a "força integradora das redes". Parece. num primeiro momento. pelo desaparecimento da ontologia. pelo "impossível conhecimento do assassino de um poder que não existe". trata-se um ser que não 49 . A espécie humana. enraizada. O sujeito filosófico foi liquidado duas vezes. (Habermas. agora sem nenhum conteúdo filosófico. culturalmente sancionadas. é objeto de uma dupla negação. político. que foram as imagens de mundo. pela magia dos botões.501). Cai por terra. Primeiro. como então imaginar seu assassino. (idem. Isso porque: (1) a religiosidade não parece ter desaparecido de fato. Havia um enraizamento do místico e do religioso de tal forma que suas orientações valorativas permaneciam impermeáveis às experiências dissonantes na esfera do cotidiano. p. pelo agir técnico operacional. que não necessitava de argumentos. Se Deus jamais existiu. pelo visto até agora. à carência ou déficit do mundo vivido pela modernização social. que o pensamento de Habermas não atinge o momento particularmente atual. num segundo. o conceito platônicometafísico de homem enquanto estrutura fixa e consistente na cultura e na história. e depois. o que acontece é que ela abandona o campo das entidades metafísicas e volta-se aos "bezerros de ouro" da sociedade de consumo. e uma segunda. portanto. que tornam-se. contudo.1981. as ideologias eram respostas às frustrações modernas. impotente. pela impossibilidade de localizar o detonador dessa própria liquidação da ontologia. Elas buscavas salvar os momentos expressivos ou prático-morais reprimidos ou pós-postos no padrão capitalista da racionalização. já que matar algo que não existe é o mesmo que não matar? Logo. e às possibilidades de usar os equipamentos eletrônicos e computadores.

Não se tem mais a necessidade de ser. A referência agora é somente o si mesmo. de um significado individual e de um sentido existencialmente dicisivo. chega-se à concepção de um ser unitário. o sujeito da era informático-computacional é representado pelo clone: divide-se em múltiplos iguais é multiplicidade de egos como numa cultura biológica. Usa-se o clone. distinguindo seus limites. é a lógica horizontal da duplicação em oposição à anterior. Sua diferença é possível . A nova sociedade produz no campo mais difuso e genérico a "quebra do espelho". O espelho foi usado por Jacques Lacan para caracterizar uma fase no desenvolvimento da criança em tenra idade em que ela antecipa imaginariamente a apreensão e o domínio da unidade corporal. o self projeta-se para si mesmo na forma do look (cenário de vestuário). l988). vertical. A lógica do clone significa que só há o assemelhar-se a si mesmo. a fase do espelho em Lacan é a fase constitutiva do ego. l987b. No primeiro caso.e fabricada . A metáfora do espelho leva a um raciocínio analógico. nômade" (Deleuze/Guattari. em que vemos refletir nossa imagem. de falar. mas não de ocupar a rua de forma política. de mostrar-se para o outro. Baudrillard. da relação entre um enraizamento no espaço e no tempo e suas repercussões no abstrato. O efeito é o desaparecimento do outro. São os sujeitos que sorriem para si próprios de que fala Baudrillard em América. Portanto.1987). apreenderem. São os indivíduos que têm obsessão de provar sua própria existência. O outro torna-se "bizarro. É uma diferença interna que permite à criança. de se exprimir publicamente. Cada um desenvolve por si próprio suas imagens de si e do mundo que o odeia. Igualmente as situações públicas.tem mais nenhum enraizamento no tempo e no espaço. l988. o espelho que se quebra. abrir-se à cena do imaginário e à representação. é-se absolutamente indiferente a ele. conhecerem o que está sendo exposto.151). um ser rizotômico. encontrar-se em toda parte. de apresentar. o conjunto. O homem existe mas nada mais há por trás dele. Da mesma forma. sem qualquer mistério" (Lipovetsky. Multiplicação e fracionamento infinito A unidade do sujeito está estilhaçada. o estilhaçamento ( cf. Já não existe mais a expectativa de um caráter pessoal (Personhaftigkeit). Uma sociedade em que desaparecendo o outro só sobram os replicantes. em que de um ser dividido. a coletividade que funciona como demonstração material de sua própria 50 . é a transparência do sujeito que explode em fragmentos. um ser que não é mais "arbóreo" mas vagueante pelo globo sem mover o corpo.funcionam não mais para participantes observarem.ao infinito. ou seja. 2. p. O conceito de clone ou de multiplicação de idênticos significa a multiplicação sempre do mesmo e o abandono da lógica de transcendência. É o próprio grupo. a fractalidade. Já não choca mais. visto como composto por partes separadas. A unificação opera-se com a identificação com a imagem do semelhante como forma total. tem angústia de se manifestar. As metáforas para tal descrição são diversas. l987a.

pelo comando. perfurado. intrínsecas. só há transformação. problemas e soluções. que na televisão os telespectadores não são mais consumidores. o que ocorre é uma total interpenetração. A existência já não é mais algo pressuposto. cabine informatizada. Participar nos acontecimentos sociais ou culturais passa a ser uma forma de sentir-se vivo. para voltar a se reestabilizar no mundo das tecnologias. o homem situa-se como uma peça. do ambiente. um componente permanentemente atravessado. matéria morta. A desestabilização dos sujeitos A grande transformação provocada pelo mundo marcado por nossos duplos tecnológicos. a condutibilidaede absoluta. suprimida a última. implícito. segundo o qual o homem já não é mais responsável pela produção de seus próprios limites. se envolvesse num processo de estranhamento de si mesmo. Ela precisa de provas constantes e cada vez mais contundentes. Baudrillard afirma que o ser humano tornou-se uma sucessão de máscaras que se sobrepõem umas às outras e que. um amalgamento entre os dois. penetrado pelas redes. troca de informação. Para Jean Baudrillard.. No novo mundo. pelos sistemas de comunicação no chamado "universo proxenético" (Baudrillard) e ao mesmo tempo encapsulado e retomado em relação a outros universos. pelo controle. Estamos falando da "encefalização eletrônica". Na descrição do sujeito fractal. através do trabalho. 3. só restam "células sem qualquer transcendência". feed back e recorrência. ao contrário. seu carro. Diz Lyotard. redispondo a questão do tempo e do espaço de forma absolutamente nova. nesta demasiada proximidade de tudo. O homem integra-se no universo eletrônico e passa a fazer parte de um grande circuito. um novo tipo de relacionamento: o sujeito se destabiliza. era aquilo que fazia com que o homem.. in put/out put. Também as máscaras tornam-se a riqueza de facetas de cada um. de provar a si mesmo que não se é defunto. Um universo marcado pelo domínio.dado como necessariamente verdadeiro. A proxenética da informação introduz esse novo conceito de proximidade. No mundo atual. No mundo fragmentado. a coletividade é o que fascina e o próprio aparecimento do coletivo que é emocionante. Outrora se dizia que o homem mantinha uma relação de alienação com a máquina. O universo das tecnologias cria uma nova posição e um novo espaço de interação neste mundo. A proxenética da informação é um complexo de fluxos e circuitos: é a proximidade de todos os lugares. pelas máquinas que instituem uma nova ordem de organização da sociedade. o sujeito torna-se um operador. em que o espaço vital humano reduz-se ao ecrã. está aí exatamente o novo tipo de esquizofrenia. fóssil. usuários ou sujeitos que "a fazem". Esta funcionava como sua negação. as novas tecnologias redimensionam estes marcos. Se se era localizado num determinado espaço e na marca de um certo tempo cultural. e toda a vida exterior passa a ser vista como uma tela. mas peças componentes. um espaço é absolutamente distinto do da sociedade na modernidade.existência. As pessoas vão para assistirem a si mesmas. a circularidade de questões e respostas. 51 .

já que ele está operacionalizado. que será vista mais adiante. não mais marcado pela alienação mas pela instabilidade esquizofrênica. que o centrariam e o tornariam espaço da práxis. Analisando as relações dos homens desta época com os computadores. Este pode ser qualquer pessoa e ninguém. em Assim falava Zaratustra. Para ele. Se no antigo mundo social a identidade (cruzamento de aspirações individuais com jogos sociais) era vista como algo fixo. o satisfaz. 4.da inevitável promiscuidade das relações que se apoderam do indivíduo e de seu íntimo. A nova esquizofrenia Mas a grande marca distintiva da mudança de era está na transformação radical da relação com o tempo e é isso que vai definir o caráter "esquizofrênico" do homem da nova era. desentabilizam hierarquias e mesmo dispensam o sujeito. Ele se torna aberto a tudo e é transparência absoluta . o fim da metáfora do sujeito. é opressivo. 52 . voltado a um projeto ou à produção de um futuro. O conceito de alienação supunha a possibilidade de seu oposto. um si mesmo coerente. O indivíduo tem tudo que deseja. na história e no universo de valores. aquele que torna tudo pequeno. futuro). a terra tornou-se pequena e sobre ela pode saltitar o último homem. 1990). (Baudrillard. tem intensidade extraordinária e forte carga afetiva. suas dimensões heróica e utópica não têm mais para que existir. O que assinala o caráter patológico é a ruptura dessas divisões. Na realidade das novas tecnologias. vista como sequência de três momentos distintos (passado. deslocando-o no espaço e no tempo. Mark Poster constata que estes introduzem novas possibilidades de jogar com a identidade. marcado por uma posição na cultura. sem conduzir a nenhum conflito existencial. contrariamente. removem antigos papéis sociais. ele absorve o sujeito com fantástica vivacidade. Ela é troca constante de identidades diversificadas. na nova era estamos diante de um "ser realizado": o indivíduo está realizado. Em vez de projetos e utopias. tem-se um ser fragmentado. A esquizofrenia em Lacan é descrita a partir da experiência da temporalidade. o poder do significante. Ele não tem mais a história projetiva. a vivência de passado como se fosse presente e o embaralhamento das categorias num conceito de presente perpétuo. de futuro. O mesmo fato ocorre com a contraposição da modernidade entre ser alienado/ser consciente. realizado. pode inventar aleatória e ficticiamente qualquer conjunto de dados de identificação que na verdade não se é mais nenhum deles exatamente. não-fragmentado. 1989). ele não tem mais necessidade de transcendência. a quebra da temporalidade libera o presente de ações e intenções. variadas. na sociedade. já que a identidade assume uma forma totalamente flutuante. Fredric Jameson estende ainda mais este conceito. Assim separado. este mesmo cruzamento hoje é questionado. Como Nietzsche. e o que ele dispõe. de sonho. (Baudrillard. presente. neste isolamento do presente. Isto marca o fim de tudo.

dizia ela. então. Ele é esta rede. ela vê um campo de trigo. As crianças tinham aula de música. tela perfurada através do qual tudo passa e nada o transforma. no caso da jovem. Jameson descreve a experiência de uma jovem esquizofrênica como paradigma do homem atual. As crianças que cantavam agora são prisioneiras e estão sendo forçadas a cantar. a situação é distinta. o significante material coloca-se diante do sujeito com redobrada intensidade. provocada por este tipo de relação com o tempo. do entusiasmo. do impacto. com isso. portanto. o mundo perde a densidade e vira "pele lustrosa. Ela sente que já não mais reconhece a escola e que esta se transforma em um barraco do período de guerra. Sente-se. Estamos diante de uma total superposição de outro universo. e. Em vez de passado/presente/futuro. O fato serviu para que o autor ilustrasse o tipo de embaralhamento de tempos que provoca a vivência patológica com as tecnologias na era atual. uma jovem. de alta intensidade intoxicatória ou alucinógena. portanto. difícil de descrever. pára para ouvi-la e aí apossa-se dela uma estranha sensação. cujos limites não pode mais distinguir: a vastidão amarela brilhando ao sol e as crianças. Ao mesmo tempo. que estava no campo. É o que alguns autores chamam de "homem-bolha". fechado como em uma cápsula. presas nos barracos cantando. visão estereoscópica. A jovem. ouve uma canção alemã.Para ele. peça de um sistema complexo. complexo de assepsia total e eliminação de todos os germes. amplo. conjunto de próteses e proteções que substituem as defesas biológicas naturais. Segundo o relato. que não se trata apenas da alteração de alguns componentes. em que se investe tudo nessa fascinação do presente. Hoje. da emoção. diz ele. dentro da terminologia de Caillois. sai para dar um passeio e no momento em que passa por uma escola. o "presente perpétuo" da era das novas tecnologias de comunicação.(Jameson. de tal forma que ela se põe a soluçar. ou então. agitação de imagens fílmicas sem densidade". era de caráter negativo. ele dominava a máquina. um "sentimento incomodante de irrealidade". do agora. O presente do mundo. Fora da rede. ele está isolado. São os jogos de azar e vertigem que marcam essa nova relação do homem com o mundo e não mais o de competição e expressão. componente. como se a escola e a criança. na momentaneidade e no processo de cristalização do imediato. Ele é parte. Antes.Em seu texto sobre o pós-modernismo e o capitalismo tardio. via-se num conjunto em que ele e a máquina eram ao mesmo tempo produto e produtor. universal de alta sofisticação tecnológica mas não só como terminal. que. que concecta com outros indivíduos ou com a própria máquina. a eliminação do próprio caráter 53 .l984) Assim se configuraria. Mas pode-se muito bem imaginar o sentido positivo de euforia. É uma forma de trabalhar a cultura e os dados culturais. associado a uma misteriosa carga afetiva. tivessem sido separadas do resto do mundo. da transformação de aspectos ou da superação de uma visão modernista do mundo em direção a algo que seja pura e simplesmente seu aprofundamento e sua transformação. de novas coordenadas de espaço e tempo e de uma nova posição do homem dentro deste novo universo. coloca-se a diluição do passado num presente e a ausência de qualquer devir possível: só há um tempo. tomam-na com uma ansiedade fantástica. o da vivência do êxtase.

Cínico em relação às estratégias e aos projetos de ação e intervenção. menos ainda. inclusive. que 54 . de dois tipos de niilistas: os passivios. o choque. sem mais a cidade. radicalmente só e entregue a sua própria miséria. que já não conseguem mais identifica-se com o mundo atual e. Daí a impossibilidade de existir a melancolia. de seus princípios de funcionamento. o espaço geográfico. milhões de homens na atualidade. como espaço de onde não brota mais nenhum novo. que preferiam o nada ao nada preferir. para isso: Marcondes. Nietzsche falava no niilismo completo. destrutivo. o sentido da ação política. de jornalismo. Recolhido na sua própria interioridade. E o conceito de "novo" que ainda se retém na era tecnológica é o da modernidade. O homem telemático não tem sequer o direito a essas sensações porque são categorias que já não fazem mais parte do seu mundo. É o que mantém uma relação de assincronia no sentido de Bloch (V. Mas não só isso: o homem da nova era é indiferente. os ideais sociais. De forma bastante prematura. voltado às ocupações eletrônicas que se fecham num sistema computadorizado. o universo em que tinha sentido a própria melancolia e angústia da época. a angústia. de suas noções de sentido. do tédio e da melancolia. como o êxtase. o homem se sente. A indiferença deve-se também à ameaça radical de destruição do planeta. da política. o conceito de literatura. trabalhar com seus parâmetros. associada à falência do social e do ontológico. como se apaga um programa de computador. de cultura como um todo. A capacidade de se interessar pelo mundo externo declina com a perda de importância do outro e da realidade. de política. a explosividade radical. tédio de viver a vida como reprise interminável de sensações já sentidas. A marca do momento é de posturas radicais extremas. como nunca. A nova era suprime os componentes da realidade filosófico-existencial. a solidão e o desespero. dirigidos pelo desespero de seus próprios instintos. a vontade de mudança. (Baudrillard). mas principalmente sem mais a crença religiosa.1). Indiferente porque nada mais o choca. cap. É isso que marca também a total perda de referências de milhares. o isolamento. l988. desaparecendo. da filosofia mas não se abre mão de seus critérios de valor. a violência. já que o declínio das ideologias e das utopias acabou com os projetos futuros. só o tédio lhe resta como sensação de vazio existencial. tédio de tudo já ter sido visto. Tem-se racionalmente como verdadeiro o declínio da arte. Resta ainda a indagação sobre os destinos das angústias. totais e a crise das formas modernistas como a representação artística. especialmente no seu período de crise (final do século XIX) na presente sociedade em que aqueles valores tendem a desaparecer. a convicção política. "O homem perde sua sombra. é iluminado e superexposto".humano dos indivíduos. que marcavam o caráter da modernidade. Daí as emoções da era serem marcantemente emoções-limite. e os suicidas. a dor no sentido como se tinha na modernidade. suicida. o Teatro do Absurdo já havia apontado as marcas da tragédia do homem moderno: o vazio. o vizinho.

para Habermas. é insuportável sentir que seu tempo desapareceu repentinamente e as novas regras excluem qualquer retorno ao período precedente. Excluindo-se os componentes espirituais e existenciais da vida. É aí que a reprodução simbólica entra em perigo. por esse mesmo motivo. IV. como visto. e um mundo que se comporta de forma relativamente imprevisível e que detém em si um componente "ativo" no processo social. obsolescência.torna os homens destes tempos simultanea e anacronicamente inseridos em várias épocas históricas. pessoas com cabeças dos anos 60 circulando livremente e se chocando com frequência com outras dos anos 80 ou 90. ocorrendo o empobrecimento da cultura prática comunicativa com a penetração da racionalidade no domínio da ação. Uma vez desfeito este nó. que submete a seus imperativos a forma de vida doméstica e autoregula-se a si próprio. Mais do que indecifrável. os sujeitos potencialmente capazes podem 55 . completamente expurgados do novo social que se implantou. Sequer a categoria da insatisfação ainda sobrevive. o mundo vivido torna-se "colonizado". um componente de criatividade e de recuperação dos enquadramentos que o sistema busca continuamente lhe impor. está na diluição do nó que se encontra no processo comunicativo. contém. O homem da era tecnológica e informatizada já não encontra mais nenhum referencial para sua insatisfação além do tédio radical. Joga com elementos do passado para se afirmar no presente. abandono. A questão. quando o mundo vivido submete-se ao sistema. O mundo vivido é o meio para a reprodução simbólica da vida assim como o horizonte formador de conceitos. Os novos conceitos. colocação fora de uso. A proposta do autor alemão. enquanto organização. No contacto com o "sistema" (todo estruturado segundo princípios funcionais de eficiência e desempenho). atendem a esse grande contingente dos inconformados com a pura e simples eliminação do "molde" de suas culturas pela nova era e com sua colocação à margem. sucata) dão uma noção do novo caráter da crise existencial. Este segundo é o que é produtor de sentido e espaço das possibilidades de ação. quebra de funcionamento. É o armazém do trabalho interpretativo de gerações precedentes. Essas "trombadas cronológicas" indicam o quanto confuso e indecifrável para a maioria ainda é o presente. do culturalmente transmitido e linguisticamente organizado. Se ele é reprodução simbólica da vida. CULTURA PASTICHE E VAZIA 1. desajuste. portanto. visualiza um conflito entre um sistema. A angústia é componente do universo da modernidade. encerra a esfera da vida privada assim como a da opinião pública. portanto. É onde a tradição faz contrapeso aos desacertos da comunicação. a angústia e o sofrimento não têm mais a que se referir. As modas retrô. Cultura do cinismo e da indiferença Juergen Habermas descreve a realidade social como o jogo entre duas esferas que se relacionam mutuamente: o sistema e o mundo vivido (Lebenswelt). extraídos da lógica da própria técnica (desarranjo.

A ironia da cultura é marcada por componentes tais como o pastiche. a reflexão sobre os fundamentos. o político. o estilo pessoal. É o caso. 56 . E de que cultura trata-se na sociedade da técnica ? Num primeiro momento. A cultura passa a e caracterizar-se pelo cultivo mórbido do que já passou. Não se tem mais a mesma paciência para ouvir discursos filosóficos ou críticas densas de processos sociais ou individuais. que não têm necessariamente relação consigo mesmas. tornaram-se "culturais". por exemplo de Fredric Jameson e de Eberardt KnoedlerBunte. nas empresas e na economia criou uma nova ordem social. da chamada "cultura do vazio". uma mistura de tendências sem lei ou princípio. deslocando o referencial para o agir instrumental-operacional. Não de trata só da ausência do componente histórico (visto no sub-item "História"). As formas de cultura pastiche ridicularizam os maneirismos. Pastiche é um mimetismo de outros estilos. vive-se o passado por força da ausência geral e difusa de participação no presente. a excentricidade mas de forma distinta do paródico. do questionamento. as origens. que poderia chamar-se "sociedade cultural". os conceitos e as significações do agir. O princípio da prática. instaura-se o "cansaço da teoria". desde o valor econômico e o poder estatal até as práticas e a própria estrutura do psiquismo. os exageros. que diferenciava um autor na multidão. O pensamento filosófico. faz parte do pastiche também a nostalgia. que tudo na nossa vida social. ocorre na atualidade uma situação em que a fantástica expansão do social na política. Habermas é um dos únicos autores da contemporaneidade que ainda prestigia a possibilidade de uma autonomia de indivíduos e de uma esfera de vida. do real. porque o momento presente. seu impulso satírico. particular. do sujeito ou mesmo de uma totalidade parecem perder o sentido. da investigação dos princípios. os da ridicularização dos maneirismos. o social).desenvolver novas formas de comunicação e superar as tendências restritivas e uniformizantes do social. sua graça. Para o primeiro. a da cultura. definindo bases inclusive das próprias identidades individuais. Além do fim dos estilos pessoais. destilou todos estes componentes da vida moderna de tal forma que a realidade perdeu muito de seu charme. da ação. da participação sobrepõe-se ao da reflexão. desaparece o sujeito. Para o segundo. Uma sociedade cultural é uma realidade em que as diferentes esferas anteriormente autônomas (o econômico. a prodigiosa expansão do cultural por todo o reino do social dá-se de tal maneira. a cultura torna-se "matriz dominante de tudo". mesclam-se num mesmo tipo de linguagem. já que não há mais a motivação oculta deste. o humor e a morte Quem chamou atenção para o caráter pastiche de nossa cultura foi Jameson. a ridicularização. Neste modo cultural. privado. Outras tendências teóricas vão no sentido de encarar cultura como uma totalidade e uma progressiva perda de significado e de importância dos indivíduos. nem o sentimento latente da norma atrás de si. Tudo é perpassado pelo componente "cultural". Esta deixa de ser alguma coisa localizada no espaço acima do social para ser integrante da própria generalidade da vida em sociedade. do movimento. a nostalgia.

do histórico. Se tudo isto está morto. desapareceu a confiança no futuro e as perspectivas das massas. do real. Seria produto da ausência de acontecimento. O comportamento das pessoas diante das novas formas culturais pósiluministas é marcantemente de "indiferença". reivindicatório. É o tempo do artificialismo dos personagens. nas ciências humanas. do vazio político e do silêncio da história. violência pura.A moda funciona como o modelo clássico desta circulação contínua de signos do passado. oscilantes e flutuantes. Passam a ser eles próprios o espetáculo de uma cultura veiculada pelos meios de comunicação que já é pura "cultura morta".no produto narrativo das telenovelas . na literatura. de luta de classes) não mais se refere a projetos a ela externos. das circunstâncias. É a cultura da leveza. afirma que esta violência surge da tela. o componente vivo que ainda soçobra neste território é o da violência pura em que espectadores agora invadem e tomam a cena. O desaparecimento do ontológico. Ela é a própria ressurreição espectral de formas "que extrai frivolidade da morte e modernidade do déjà vu" (Baudrillard). 57 . na publicidade. da castração de todos os componentes explosivos dentro dos meios de comunicação. Em um mundo em que destituiu-se o herói e sua função épica resta somente uma pulverização dos atos sociais. É um tipo de carroussel do tempo em que os componentes. do light. Após os incidentes históricos de 1945. tornaram-se ainda mais céticas. Há como que uma humorização geral e trabalha-se tudo sem se levar nada a sério. em suma. Também são flagrantes na literatura as consequências da cultura pastiche. acirradas com a questão da Guerra Fria. tornando-se. Diferente das violências no passado (marcadas especialmente pelo traço claramente social. das imagens idênticas. A "cultura do cinismo e da indiferença" é filha da era da chantagem e da ameaça de explosão do planeta. do sentido cômico na política.da produção da "deformação cancerígena do relato" (Requena). ao contrário. do sentido que os homens davam à vida leva também a que qualquer violência na atualidade dispa-se do caráter "ideológico". A literatura perde seu eixo preciso e vaga por territórios indeterminados. as diferenças alternam-se de forma infinita recompondo-se em momentos distintos como caleidoscópios mas sem nenhuma inovação efetiva. dos agentes numa indiferença absoluta do mundo. Baudrillard. os estilos. da dificuldade cada vez maior de escrever e. a produção social de cultura acaba por incorporar um desprezo cínico que circula no social de forma ampla. na televisão . interpretando os incidentes praticados pelos hooligans em competições esportivas. a humanidade não mais voltou a ser a mesma.

nas relações com o corpo e com a morte. o teatro. pois a sociedade eletrônica. indevido com a operação eletrônica. No território de signos. o perigo está também no agir errado. inapropriado. a literatura. pela relação que cria com sistemas visuais. que é exatamente um conceito de vivência estética total.Alguns monumentos da cultura morta podem ser visivelmente observáveis. quase que por conta própria. o espectador era sempre alguém que estava de um lado enquanto que os atores permaneciam do outro. 2.é que neles as pessoas passam a "entrar nos jogos". Na era eletrônica investe-se no "espírito interativo" em que o indivíduo pode se transportar à cena e dentro dela viver. dos videogames . o original deixa de ser o objeto a ser visto e a própria situação é que passa a encenar originalidade no observador. onde cultua-se exatamente aquilo que na vida cotidiana desapareceu. Mas cultura é também. Os museus tornaram-se atração de massas e isto como decorrência da civilização técnica.na civilização eletrônica o princípio da abstratificação do sexo irá estender-se também para outras formas imateriais. a estar ao lado dos heróis e a sofrer com eles os mesmos tipos de pressão. O envolvimento é dentro da cena. hoje ela transferiu-se para toda a cena do museu.e pelo que se expôs acima sede insaciável de vivência contracenando com máquinas produzindo simulacros de experiência no campo da generalidade. um pulsar desesperado e incontrolável. de um comportamento das massas. Se no chamado "mundo real" a sexualidade carregou-se de pânico . sobrevive. Isso significa que as diferenciações sexuais tornam-se irrelevantes (inversão de 58 . além disso . a vivenciá-los. 3. Trata-se de uma mudança qualitativa excepcional. A coletividade fascina-se por si mesma. O corpo e a morte A culturalização geral da vida tem também seus desdobramentos nas formas de sexualidade. que dotava a obra de arte de um brilho especial. jogo emocional e angústia. Cada um sente-se si próprio componente do conjunto que assiste. A separação. Beaubourg é um dos casos sempre lembrados: reanimação artificial. permanecia clara em todos os momentos. operacionais e interativos. o desvio para práticas masturbatórias . Se antes havia uma aura. "incinerador que absorve energia dos acontecimentos e os tritura" (Baudrillard).a chantagem com a aids. Uma marca clara. trabalha essencialmente com o psiquismo. Coletividade interativa Outro conceito próximo é o da musealização do mundo. angústias e emoções dos personagens originais. que transitam livremente e em escala mundial. por mais força. emotividade e penetração que pudesse ter a representação. a performance é o componente principal. apesar de não material. o cinema. assim como imprevisível e inadministrável. como nas formas clássicas de arte e comunicação em que. Neles.e que separa radicalmente a relação que hoje se tem com eles da que se tinha antes com a televisão. Um erro pode causar consequências e nisso o participante é responsável. inclusive com as mesmas tensões. Não se está mais numa posição cômoda e segura de quem apenas assiste. por exemplo. a dança ou qualquer outra forma artística . Aqui.

iniciada nas lutas de emancipação feminina. os indivíduos passam a buscar a recuperação nostálgica e fictícia daquilo que foi culturalmente desinvestido. hoje ela tornou-se onipresente mas com outro tipo de "força plástica": o trágico é vivenciado por todos mas a morte foi denegada. da "cultura para o outro' (para a vaidade. É uma tendência que foi originalmente apontada por MacLuhan. neste caso. empenho). que se vê em todos os espaços outrora tidos como sérios (jornalismo. uma barata. Só seres vivos morrem. reduzido a um componente de circuito eletrônico num processo de comunicação. ciências). vivenciam o processo genético de nascimento. toda a cultura perde. sua radicalidade sobre a vivência cotidiana. torna-se um objeto estranho ao homem. A sociedade burguesa alcançou um efeito lateral: subtraiu de seus membros a visão do processo de morte. A banalização da morte evoca o comportamento irônico-humorístico. contacto. Esta indiferenciação.estereótipos.1936. 59 . toques.e sobreinvestimento nele como máquina. age-se como se ela não existisse. política. as máquinas e/ou a visão de mundo maquínica só pode ver homens como equipamentos. ao mesmo tempo.isto é. chegam mais longe. sistemas de ação orientados a fins socialmente relevantes. como em Kafka.(Benjamin. A "mentalização" absoluta dos processos sociais tem a ver com um desinvestimento do componente físico do corpo. a visão de seu processo. um corpo que. mais eficientes. a idéia de morte perdeu a onipresença e sua força plástica. cínico. a consideração da iminência da morte. envelhecimento e morte. o componente trágico (a seriedade).70) Em 1936. Quando a morte perde sua eficácia simbólica. quando Benjamin escreveu esse texto. rendimento. A exclusão do componente especificamente humano/animal do espírito da perfeição técnica elimina. a inspiração sexual) . carícias . Ao corpo sexualmente igualado soma-se o corpo fisicamente reduzido. Mas. Se naquela época a idéia de morte havia perdido sua força e sua presença plástica e se os homens. como um prolongamento maquínico de um cérebro. Walter Benjamin dizia que há alguns séculos. na consciência de todos. sobreindexação artificial de signos distintivos para marcar o ocaso da diferenciação). com a chamada "cultura do narcisismo". multiplicação.p. da mesma forma. que buscavam a equiparação ao homem (ao comportamento masculino) foi radicalizada pela cultura eletrônica. entrou no terreno da trivialidade. Há perda de importância do corpo como espaço de sensações. ao contrário. crescimento. naturalmente. que via nos meios de comunicação formas de extensão dos membros e dos sentidos humanos. o sobreinvestimento exacerbado na cultura física e/ou estética. trocas. local de exercitação de "cultura" e transformação em máquina produtiva (equivalente de uma estrutura maquínica de funcionamento. Hoje ela ganha importância na medida que os sistemas de comunicação funcionam como seus substitutos modernos. a humanidade ainda não havia testemunhado a experiência da chantagem atômica. Isso se chocaria. seu efeito de choque. Corpo.

impondo uma "organização racional do trabalho". chegando até o pós-guerra como uma organização que mesmo reduzindo a nada os componentes de um pensamento liberal. A barbárie contemporânea é mais desconfortante porque trabalha com situações. A civilização da técnica trabalha no sentido do empastelamento dessas noções. é combatido pela criação de Estados socialistas e por um forte movimento operário internacional. Uma terceira fase do uso da inteligência no processo produtivo reconhece-se agora após o declínio das concorrências no mercado 60 . cartelizada. O humor pós-moderno tem a ver com uma atitude cínica em relação a esses mesmos fins. toma-se a crise da modernidade. Isso já pode ser sentido pelo componente "informação" no processo econômico. A confusão estabeleceu-se porque derrubado o paradigma deste sentido da ação. comportamentos que transcendem os limites do conhecido e atuam num momento da pós-história. complexo. indescritível e arrasador. A ela se associa o papel atribuído à inteligência. historicamente determinado das relações de produção entram hoje numa era de flutuações. regras. do Iluminismo. criando uma equação de desempenho máximo e eliminando todos os resquícios de erros. através de mecanismos como publicidade. num quadro que poderia ser chamado de "orbitalização genérica". a inteligência acoplava-se ao modo de produção. Componentes que outrora faziam parte de um quadro fixo. sua expansão continua mais ou menos inalterada. tudo continuará a parecer um imenso amontoado paradoxal. instituindo um processo de mensuração das operações necessárias à produção. É o momento em que o capitalismo expande-se em escala mundial. 4.A recuperação do "ser para a morte"(Heidegger) ou a restituição do sentido trágico da experiência estão no plano do agir segundo um princípio de "continuidade no tempo". o que é o mesmo que a barbárie. ela desloca-se do trabalho e passa a atuar diretamente sobre o produto e a imagem de empresa. oscilações livres. atravessando guerras. O processo econômico As repercussões da nova forma de organização do social também fazem-se sentir no campo da economia. No século XIX. instituições e idéias. material. imperfeições e retardamento que caracterizavam o componente humano nesse processo. da razão como crise de qualquer possibilidade de ação orientada a fins socialmente relevantes. acreditou-se que haviam terminado todos os sentidos possíveis. indeterminações. De uma participação relativamente discreta no início da expansão capitalista. Viver o aqui e agora sobrepõe-se ao existir para um objetivo. Enquanto não se tem os instrumentos e meios para se trabalhar esse novo. Apesar disso. monopolista. marketing e formas de "relações públicas". constituiu-se como forma econômica dominante. A partir do início do século XX. ela ascendeu rapidamente a status cada vez mais decisivos no processo produtivo. nebuloso enredamento de homens.

18). no qual a inteligência investiu durante a expansão e consolidação do capital. Estes passam a ser o "benefício social" de sua existência enquanto empresa para a obtenção de lucro. Ela própria se torna seu "lado humanizado". a automação contribuem para que a estrutura industrial seja progressivamente assumida por organismos e equipamentos eletrônicos. A inteligência industrial abandona agora o produto. multiplicam-se apenas pelo fato de estarem circulando. O processo é caracterizado por "circulação frenética". espécie de ingresso. para poder mesmo "entrar no mundo" do 61 . É a máquina que funciona por si mesma. a serem produtos propriamente. do ponto de vista do trabalhador. a fixação e a consolidação de grandes e macroempresas multinacionais. que passam a investir na inteligência para se firmarem como instituições sociais equiparando-se e.internacional. abre mão do interesse principal do grande capital para investir no plano do imaginário puro. O investimento maior das empresas já não está mais na qualidade. a imagem formada através do trabalho de marketing. da geração pura e simples do lucro para tornar-se uma espécie de lógica ou ordem hegemônica. A metáfora aplica-se tanto à unidade produtiva propriamente dita como ao aparelho de Estado e demais instituições sociais. proliferam. 1986. mas exatamente na construção da abstração pura. representações que passam. da produção. que estava ancorada em processos sociais determinados. na medida em que também desacoplase do processo produtivo e passa a funcionar como componente abstrato de toda a produção. Trata-se de uma crescente volatização do objeto. Trabalhar nesta unidade industrial deixa de ser. O deslocamento do eixo de importância do homem para os sistemas técnicos tem seu reflexo também na própria estrutura da produção em que a robotização. e os capitalis giram. na marca. passando ao trabalho de constituição de imagens abstratas dos serviços públicos que executa. (Baudrillard. estes sim. a mecanização. quando o Estado retira-se progressivamente de cena. torna-se uma espécie de desdobramento social geral da estrutura do capital. difusa sobre todo o sistema. A economia como um todo torna-se orbital. sofre um desdobramento mais ou menos similar. É o momento em que desprende-se do trabalho. uma relação de reciprocidade em que um produtor precisa contar com uma parcela de mão-de-obra para dar conta do produto e o trabalhador necessita do pagamento das horas-trabalho efetivamente gastas (salário) para sobreviver. histórica e geograficamente situados. A imagem publicitária. É a engenharia de imagens. Mesmo este. de relações públicas orienta-se para a constituição de núcleos genéricos e difusos em torno do nome de empresa. independente da necessidade de novos investimentos. Trabalhar e receber salário tornam-se componentes místicos do sistema. como já apontado. a informação funciona como seu veículo preferencial. muito menos na utilidade de suas próprias mercadorias. Mas o processo de volatização e de flutuação indeterminada não atinge somente o capital e a produção. senha. substituindo o próprio Estado e demais instituições de amplo alcance. estilos. (idem). a própria cultura. Ao lado disso. p. Sobre nossas cabeças. capitais e demais componentes macro-sociais planetários escapam à nossa realidade. pelo fato de funcionar por si mesma. Tudo sugere que a própria produção. em alguns casos.

como uma espécie de sangue circulante num organismo planetário genérico e difuso. A moeda. por sua vez. Também a economia torna-se muito mais estratosférica. O trabalho na era da técnica torna-se uma concessão. que se eterniza através do sistema técnico-informacional da atualidade. na sociedade numa época em que as transformações sociais. o funcionamento autônomo da máquina produtiva. o fundo econômico internacional distribui-se por diversas economias do planeta e seu gerenciamento significa nada mais do que a confirmação da própria ordem internacional de poderes e privilégios. O sistema gira. trânsito. Da mesma forma que não se tocam. imaginária. que o esquema antigo e original de um capitalista ou de uma família proprietária de uma empresa desaparece através da volatização de todo o regime de propriedade. A trama que se cria na sociedade da técnica e da sofisticação eletrônica é tal que os elos que ligam indivíduos entre si passam a ser igualmente abstratos. Tudo funciona como uma regra de dependência e interrelações múltiplas em que todos estão necessariamente envolvidos. que originalmente encontrava-se agregado à própria mercadoria e que era mensurável pelas horas-trabalho despendidas e pela qualidade da mão-de-obra necessária à sua produção. virtual. a velocidade. de bens financeiros executam-se plenamente e bem à distância. É um processo virtual exatamente porque de fato não existe mas demonstra seus efeitos. as formas de propriedade pulverizadas ou emaranhadas em múltiplas organizações que se entrecruzam dentro de um mesmo conglomerado demonstram. discretamente disseminado em todos os sistemas produtivos como uma espécie de componente necessário de sua própria existência. Não haveria mesmo porque o processo produtivo manter-se preso a padrões materiais. não se sentem fisicamente. a abstratificação dos fatos através da informação revolucionaram radicalmente o quadro social. torna-se ainda mais abstrata nas operações com cartões de crédito eletrônicos e com transações em que o dinheiro praticamente não aparece. Os entrelaçamentos das grandes corporações.consumo e das mercadorias. O lucro sobrevive como condição inerente de todo o processo de produção mas dilui-se enquanto componente explosivo da relação capitaltrabalho. O valor. a um enraizamento na cultura. somas de dinheiro. Esse mecanismo alucinante de girar no vazio atravessa todos os componentes da economia. compra e venda de moedas. desagrega-se dos componentes materiais. que já havia perdido seu lastro material na equivalência ouro através do papel-moeda e depois mais ainda com o cheque. orbital. no qual os homens têm acesso indireto e periférico. O fato de algumas nações ascenderem e outras decaírem em sua posição dentro do sistema internacional não significa de forma alguma alteração 62 . da mesma forma como já se sentia época do capitalismo concorrencial. outros componentes do processos social de produção igualmente "espiritualizam-se". Apenas sua circulação é sentida. Torna-se um fato "natural". As empresas como as instituições sociais clássicas tornam-se espécies de "bens comuns" apesar do regime de propriedade dita privada. a volatização. As operações financeiras são realizadas através de todo um conjunto de mecanismos abstratos e em geral puramente verbais.

uma comutação de posições como as do jogo de xadrez que.importante no funcionamento desse sistema. em última análise. estão presas e submetidas a regras fixas e a limites espaciais determinados. 63 . mas um deslocamento.

vai compor aquilo que mais tarde caracterizaria a crítica ao Iluminismo e aos desdobramentos da técnica. que passou a se alinhar de forma radical e ortodoxa ao pensamento stalinista. Dele irão se desenvolver os estudos teóricos mais fecundos da intelectualidade européia de lingua alemã da primeira metade do século. através das proposições históricas. O segundo. Em Georg Lukács reaparecem os princípios filosóficos desenvolvidos por Marx em sua fase jovem e os conceitos mais próximos aos Manuscritos econômicos e filosóficos. Marx opera o que chamou da "inversão hegeliana". a repressão. estava muito mais voltado para a implantação de um Estado socialista e teve em Lênin seu representante mais importante. capaz de atuar sobre o socius e alterar a situação histórico-social dada na direção da construção da utopia terrena. de um lado influenciada pelo pensamento de Freud e. que vai encontrar seu paraíso na sociedade futura comunista. Os princípios filosóficos que orientam a ação e a ética deste tipo de visão de mundo são a alienação.1. que nos anos 20 desenvolve a oposição teórica à orientação socialista da ordotoxia soviética. Corrente histórico-humanista. ao contrário. a chamada Teoria Crítica da Sociedade. que encontrou sua experimentação e realização efetiva no plano da história soviética. a superestrutura. pelo pensamento hegeliano. 64 . A época do pós-guerra foi marcante também para a "guinada" teórica do próprio Lukács. ou seja. O pensamento marxista desdobrou-se em duas vertentes principais que foram o materialismo dialético e o materialismo histórico. A esquerda hegeliana É a corrente a mais diretamente herdeira do pensamento iluminista. o valor básico funda-se no humanismo e a perspectiva estratégica centra-se no sujeito histórico. especialmente em Kant. a realização da história está na consecução do princípio da Idéia. cujo marco teórico está na filosofia idealista clássica. Teorias e estratégias 1.Terceira Parte PARA ONDE VAI O HOMEM 1. em que a filiação em Hegel e à esquerda hegeliana é mais evidente. O traço religioso aparece ainda de outra forma.1. Em Hegel. fato não acompanhado pelos seus originais seguidores. é que produzem as idéias e o social. A proximidade com o pensamento religioso não é casual. salvação de toda uma classe social oprimida e marginalizada. A história aparece como "redenção". A lógica dominante é a da dialética. voluntarista 1. quando ao desvirar Hegel. O primeiro. Hegel e Marx. como a repressão e a dominação especialmente no pós-guerra.1. que estaria de ponta-cabeça. encontrou seu representante principal no jovem Lukács. que. de outro. passa a afirmar que não é das idéias que surgem os desenvolvimentos histórico-sociais mas estes. a dominação.

O pensamento marxista deste início da segunda metade do século teve como teóricos mais importantes, dentro da vertente humanista, além dos reminiscentes da Escola de Frankfurt, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty e Henri Lefèbvre. Isso porque, a partir dos anos 50, na própria França iria se originar a ruptura dentro do pensamento teórico, inclusive entre os marxistas, dando origem ao pensamento estruturalista, que produziria seu próprio corpo de pensadores. De qualquer forma, os descendentes de Lukács terminariam como os teóricos de Frankfurt, sem deixar herdeiros. A esquerda freudiana, que teve como principais representantes nos anos 20 Bernstein, Reich, Fromm e Bernfeld (cf. estudo detalhado em Marcondes, 1988b), e que teve como figuras proeminentes nos anos 40 e 50, da mesma forma, os teóricos de Frankfurt, resultaria nos anos 70 e 80, numa nova corrente, já despida dos vícios da psicanálise da cultura e do consumo, ingênua ou incapaz para dar conta dos desdobramentos do capitalismo avançado de pós-guerra. Essa corrente é hoje liderada por Alfred Lorenzer. É ele que vai dividir nos anos 80 com Jacques Lacan a proeminência no cenário internacional da psicanálise de esquerda. Se a contemporaneidade tem dois seguidores fundamentais do pensamento de Freud, que souberam avançar e atualizar sua teoria, estes são Lorenzer e Lacan. Ao grupo de Lorenzer pertencem também Helmut Dahmer e Klaus Horn. Em relação aos representantes da Teoria Crítica, seu desenvolvimento iniciou-se a partir dos anos 30 na República de Weimar. Depois do exílio nos Estados Unidos e, mais tarde, de volta à Alemanha, seu pensamento concentrou-se na sociedade de pós-guerra e na expansão fantástica dos meios de comunicação e nas formas sofisticadas de repressão e domínio. A Teoria Crítica passou a trabalhar em profundidade conceitos como repressão, totalitarismo e mundo administrado. Desenvolveu estudos sobre a sociedade de consumo, as formas de manipulação e consciência manipulada. Criticou o posicionamento, na opinião de seus teóricos, submisso de toda uma grande faixa de classe média, que assumiria uma postura de "consciência feliz" dentro de sua ignorada infelicidade nas malhas de um sistema de dominação injusto e frustrante. No que diz respeito aos meios de comunicação, desenvolveram mais densa e amplamente a reflexão e a teorização sobre os novos processos de industrialização do bem cultural e de reificação da cultura, em que os objetos do homem passaram a se tornar seus senhores. Foram os primeiros a questionar, mesmo antes do desenvolvimento do estruturalismo, as possibilidades de um ego forte, como pretendia a psicologia do ego, especialmente de Karen Horney nos Estados Unidos, como sendo uma ilusão conciliatória do homem com o meio hostil. A rejeição ao desenvolvimento da técnica e seus desdobramentos como formas de opressão e de desconhecimento do homem enquanto tal seria realizada por Herbert Marcuse de forma radical. Se Adorno e Horkheimer haviam desenvolvido as teses mais contundentes da teoria crítica dos anos 40 e 50, é no final dos anos 60 que a efervescência estudantil e política nas sociedades capitalistas mais avançadas destacariam a figura de Marcuse, especialmente em território norte-americano.

65

Na Alemanha desponta também nessa época e pela primeira vez, o nome de Juergen Habermas, tido como um fruto tardio desta mesma escola e cujo desenvolvimento da fase madura correspondeu a uma ruptura com a tradição clássica desta mesma escola. Há que se considerar também, antes de se fazer um comentário mais intensivo da obra de Habermas, outra corrente alemã moderna - que teve sua produção marcada especialmente nos anos 70 e 80 em Berlim junto à revista Aesthetik und Kommunikation e cuja posição teórica rompe com o pensamento clássico de Frankfurt e de seus seguidores mais modernos, especialmente Oskar Negt, Alexander Kluge e Dieter Prokop - a saber, o grupo em torno de Eberhardt Knoedler-Bunte (já mencionado na Segunda Parte, "Coletividade interativa") cuja visão tende a uma nova captação do social como um processo que transcende um campo específico da realidade para se tornar uma dimensão que cobre e alinhava todas as demais definições do social. O conceito de sociedade cultural é a ruptura com os conceitos tornados clássicos pela Teoria Crítica, como indústria cultural, indústria da consciência (Hans Magnus Enzensberger). Mais ainda, esse grupo passa a refletir radicalmente as possibilidades individuais e coletivas numa realidade que passou a ter que conviver com a chantagem nuclear. Esta variável, de forma nenhuma secundária ou descartável, não estava presente nos teóricos de Frankfurt e não aparece com destaque na teoria de Habermas. 1.1.2. A teoria de Juergen Habermas A proposta formulada pelo autor alemão, apresentada de forma muito resumida, significaria a recuperação da razão onde ela desviou seu desenvolvimento e a retomada da comunicação, ou seja, da fala, eliminando as barreiras que a impedem de se expandir plenamente. Para Habermas, a razão é um conceito que não está inutilizado do ponto de vista histórico e estratégico; deve-se encontrar uma maneira de melhor distribuí-la. Para isso é preciso que se repense as formas de uso da razão e as possibilidades de manifestação dos sujeitos na sociedade. Esse processo supõe uma nova estratégia que já não tem mais nada a ver com a filosofia da consciência - ou seja, a teleologia clássica cujos representantes principais eram Lukács e Adorno - tampouco com a filosofia do sujeito autoconsciente de Marx, que havia chegado a uma aporia. Para Habermas, a saída do dilema encontra-se na mudança do paradigma filosofico hegeliano clássico para o linguístico, o da ação comunicativa e do mundo vivido, articulado como sistema. A nova proposta epistemológica baseia-se em dois clássicos da sociologia não-marxista: Émile Durkheim e G.H. Mead. De Durkheim, Habermas extrai dois componentes fundamentais. O primeiro é o fato de que a integração social deve ser vista com o algo necessariamente associado à integração sistêmica. Não existe uma percepção de mundo subjetivo, próximo, marcado pelas relações sociais diretas e palpáveis, sem a vinculação deste com um processo maior, despersonalizado, impessoal. Em segundo lugar, de Durkheim Habermas extrai também a
66

concepção de força do mundo sagrado. É deste mundo que se origina a autoridade moral das normas sociais. Por derivação, o autor alemão irá buscar exatamente aí uma espécie de "reserva cultural e tradicional dos indivíduos", que poderia torná-los capaz de fazer frente a uma imposição racionalizante e massificante de um sistema anônimo. De G. H. Mead, Habermas vai obter a estratégia comunicativa. É dele a idéia de que o discurso garante o processo de individuação. No processo comunicativo é que se instaura a possibilidade de espaços recíprocos de autoreprodução e de empatia. Uma comunidade ideal de comunicação é aquela onde há identidade de indivíduos no universal e no particular. A comunicação, portanto, pode funcionar, segundo ele, como uma espécie de ligação, mediação entre os interesses e as possibilidades individuais e sua realização no plano macro-social. Está nestes dois autores, portanto, a fonte para a construção de uma nova postura teórica, segundo ele, mais adaptada aos tempos atuais e que trabalha pela reconstituição de algo que ficou perdido no desenvolvimento da razão. Indo mais a fundo nas intenções de comunicação, Habermas interessase por lingüistas norte-americanos, em especial, Austin e Searle, e pela teoria dos atos da fala, que irá servir de suporte aos seus próprios projetos de comunicação. Esta teoria assinala que a fala é marcada por dois componentes básicos, o conteúdo proposicional e a força ilocucionária. A teoria argumentativa de Habermas tem dois planos distintos. Um, o da racionalidade comunicativa e outro, o dos próprios princípios da argumentação. A primeira refere-se a uma força racional-comunicativa vinculante, que advém de atos ilocucionários em virtude de um sistema de conexões com razões e na possibilidade de um reconhecimento intersubjetivo, baseado na convicção racional e não na força. Diz ele, que a dissolução do núcleo arcaico-normativo dá lugar a uma imagem de mundo, à universalização do direito e da moral e à aceleração dos processos de individuação. É possível através disso, portanto, que os indivíduos ainda se constituam como sujeitos. Para isso, é preciso que reconquistem a dimensão da comunicação, obtível por este conhecimento intersubjetivo de que fala o autor, a partir de um processo de entendimento mútuo em que os interlocutores reconheçam-se como indivíduos válidos e dignos da consecução do próprio projeto. Habermas é iluminista na medida em que vê o desmoronamento dos processos sagrados, sua "deslinguistização", como um mecanismo capaz de tornar os indivíduos, a partir daí, autônomos, e, por este meio, conquistarem um espaço de relevância no social. Sua teoria da argumentação é marcada por quatro requisitos de validade na linguagem e pelos objetivos que se deve considerar para o atingimento desses fins: A inteligibilidade (compreensão), definida como o conhecimento prévio anterior que os interlocutores devem possuir para obter entendimento; a verdade, ou a aceitação da validade do regime de verdade do sistema sóciocultural; a autenticidade, apresentada como a questão das "intenções dos atores", que devem coincidir com o que eles "realmente pensam". Aqui situa-se
67

real e imaginário. Corrente estruturalista Originária da França de meados dos anos 50. Bataille. segundo seu princípio. posteriormente. 1. e seu desdobramento literário no Nouveau Roman de Alain Robbe-Grillet. antes fortemente marcado pela tradição hegeliana ( o responsável pela disseminação de Hegel na França havia sido Kojève. o sujeito da ação desaparecia. Inicia-se com o ingresso de Claude Lévi-Strauss no College de France e. ao contrário. Por fim. recuperar a razão e isto se daria através do entendimento entre os homens. O estruturalismo tem origem na França e assinala uma ruptura no desenvolvimento intelectual. Principais figuras dessa orientação teórica foram o próprio Lévi-Strauss. tomando por base uma postura evolucionista de inspiração dialética. o mecanismo funciona. como eles são e estão. na psicanálise lacaniana. não vêm mais ao caso as determinações de natureza nem importam as projeções futuras mas apenas os componentes fixos. a estragégia do autor. neste caso. além de um significativo grupo de intelectuais de esquerda). Em todos esses princípios. que trata da correção do ato da fala em relação ao contexto normativo. desloca o sujeito a um plano secundário e torna as estruturas o centro de referência das análises e interpretações. Lacan. operava-se uma recusa da continuidade cronológica clássica e descartava-se a metáfora antropológica. Tenta corrigir a interpretação do mundo até então marcada pelo forte investimento no sujeito. que na década de 30 passou seus conhecimentos a alunos como Klossowski. ao contrário. Jacques Lacan. É preciso. o desenvolvimento da racionalidade desviou-se do caminho e tendeu à racionalidade com vista a fins (Zweckrationalitaet. em que os agentes voltariam a repensar seus planos e projetos a partir de uma postura representada pela dotação de autonomia e capacidade de intervenção de homens historicamente localizados. Em algum ponto. segundo Habermas. devem ter elementos para poder avaliar. o primeiro Jean Baudrillard. a corrente estruturalista aparece como uma reação à visão humanista e voluntarista da história e dos processos sociais. importa saber como a máquina. ser e aparência. Contrariamente. Louis Althusser e. era já traçado de 68 . Os atores. o homem deixava de ser o próprio centro. Rolan Barthes. com a criação da revista Tel Quel. de Weber). de certa forma. Michel Foucault.o problema ético da sinceridade e da retidão. Se conforme os princípios literártios do Nouveau Roman. não organizava seu destino. está marcada pela esperança de um reeguimento da razão. que representa a resposta alemã às exigências de uma ação dentro de uma sociedade caracterizada por influências radicais e altamente transformadoras das novas tecnologias de comunicação. a justiça. Não há regras universais e os componentes do acordo são puramente convencionais. As corrente historicista tinha caráter genético. É a estratégia de bom senso. e ao desencanto universal. os objetos passavam a adquirir status de autonomia. Instala a imperiosidade dessas mesmas estruturas e.2. discernir entre normal e patológico. Aqui. que. interpretava os fatos a partir de seu desenvolvimento e transformação.

"meu discurso deve tomar o lugar do discurso do Outro". Para ele. como um caso clínico de regressão à fase pré-simbólica. isto é. para ele. na idade madura. se pudesse revolver ou transformar a história. que tentam reencontrar a natureza humana através da investigação da condição psíquica pré-simbólica. traduzido em termos linguísticos. apresentando uma leitura interna do texto de Marx. os homens não fazem a história. de Marx. o homem experimenta uma "perda essencial de si mesmo". a categoria fundamental desse próprio sujeito é a da autonomia. superando os vícios e as formas ultrapassadas do marxismo clássico. As estratégias políticas e teóricas de filiação lacaniana investem no simbólico ou no imaginário. a partir de então. entretanto.p. já que assume uma natureza que é dada externamente pelo Outro e guarda a instância do imaginário como um território perdido. em que o infans acede ao mundo social dado através da linguagem. No primeiro. que tenta fazer uma fusão entre marxismo e psicanálise e colocar em prática seu projeto através de uma releitura d'O Capital. (Castoriadis. mais precisamente. Lacan separa na história individual do infans um momento marcado pelo domínio do imaginário e outro. A partir daí. Constituindo-se como sujeito dividido. no território do simbólico. Sua interpretação supõe a exclusão de todos os componentes historicistas que até então haviam composto a interpretação marxista européia. do estágio do homem ainda não ocupado pelo discurso social e genérico. agora através da exploração do imaginário. uma releitura do social e do sujeito nele inserido. pelas próprias "relações de produção". permitiria o pleno afloramento deste campo até hoje tão desconhecido e supreendente do imaginário. dizia ele. O erro de Althusser.antemão pelo Outro: o lugar organizado como teia estruturante do sujeito. Sua veemência maior está em deslocar a posição clássica do sujeito no marxismo. cria uma máscara. nos moldes estruturalistas. passa a ser representado. ou seja. de forma a justificar que este. estaria na inexorabilidade da sociedade sem classes como desdobramento necessário da própria sociedade capitalista. passando a analisar. Através dela. Mais genuinamente político dentro da escola lacaniana é Cornelius Castoriadis. Althusser contraargumentava a implantação de uma sociedade socialista como uma estrutura que se sobrepunha à do capital. que dizia que a sociedade de classes estava grávida de sua própria superação na sociedade sem classes. que através da sua Instituição imaginária da sociedade propõe. deste discurso estranho que está em mim e que me domina". Seria ingênuo. acreditar que pelo trabalho de homens. Esta fase é apreensível através do discurso do psicótico. torna-se um sujeito "clivado". é de Félix Guattari e Gilles Deleuze. portanto. O esquizofrênico. Outra derivação do pensamento lacaniano. a história não é feita por homens singularmente situados mas por classes sociais ou. a figura mais conhecida do pensamento político é Louis Althusser. 1975. Contra o fatalismo historicista de Lukács. isto é. através de sua força conjunta organizada e consciente. não era mais hegeliano e havia mesmo rompido com Hegel.124) 69 . cuja manifestação seria o puro inconsciente.

enquadrando-os dentro de uma lei maior.datada da modernidade . na política. conforme o caso. os programadores cuja vida toda é orientada conforme a centralidade no computador.Trata-se de dar condições ao homem para sobrepor-se ao discurso social e genérico ou a este "lugar estruturado como teia".na filosofia. Esta investe contra o terror e a violência da interpretação. a possibilidade de que homens concretos possam superar o conjunto maior apesar da força e da determinação deste sobre suas vidas. Heidegger e Weber. Por exemplo. genérico e destituído de conotação negativo-moral que geralmente lhe é atribuída. filosofia. As estratégias deste terceiro tipo de paradigma são diferentes de autor para autor. Instala-se a perda das referências filosóficas clássicas . como os críticos (em geral. dos computadores. a sedução. que passam a recontar e a reordenar a história. é no Mal que está a vida. portanto. na história. Há aqui tanto os estusiastas (norte-americanos) das novas tecnologias de comunicação e informação. que dava ou não 70 . A Sociedade Frankenstein é marcada pelo investimento no superficial. passível de uma identidade. da capacidade de máquinas ocuparem o lugar de homens. a crença no gênio maligno das massas. dos objetos. Como já mencionado. A concepção de Mal aqui tem caráter difuso. o pós-modernismo rompe também com esse modelo. Sobrevive. Para ele. ficando em seu lugar uma precedência da técnica. O "novo homem" é um tipo plenamente integrado à máquina. As fontes principais são Nietzsche. já exposto no início da Segunda Parte (3º paradigma de Lucien Sfez) e no item "Teoria em ruinas: Nova teoria da comunicação". Jean Baudrillard propõe a ressurreição do princípio do Mal (a ordem existe para ser desobedecida). o domínio amplo e genericamente abrangente dos meios de comunicação. toda estrutura que exorcisa sua negatividade corre o riso de reversão total. Corrente pós-moderna Embora derivado essencialmente do estruturalismo. da paixão. no indeterminado. especialmente nestes que acreditam no investimento no imaginário. nas ciências humanas. na crença no imprevisível. Não há mais sujeito que se autonomize mas a crença num homem enfraquecido. Cultura. indiferente. um uso instrumental da ciência. ainda que em alguns autores. europeus) da supremacia técnica. 1. da inteligência artificial. na estratégia estruturalista. o sujeito se fractaliza e o comportamento é cínico. para não se deixar dominar pelos fantasmas. Tratava-se de fazer uma leitura do psíquico ou do social. autocentrado.3. na arte. O modelo mais sintético desta visão de mundo está na Sociedade Frankenstein. a política e a cultura. mundo de vida próprios os mantêm apartados do resto da sociedade mas ligados visceralmente à máquina. O exemplo mais esclarecedor está na cultura dos hackers nos Estados Unidos. literatura. que marcaram não somente o princípio e as primeiras manifestações teóricofilosóficas do Iluminismo mas em particular a psicanálise a as ciências sociais contemportâneas.

exercendo assim uma soberania passiva. A paixão está. exerce. nações. que os homens tentam apropriar e submeter às suas leis. 2. a sua vontade. impondo no silêncio de sua superioridade. como a sedução. rebelase. Em oposição a isso. vinga-se. São realizadores das "estratégias irônicas". Se pós-modernidade havia sido o desmoronamento dos metarrelatos.autoridade ao fato estudado. não há o jogo entre uma aparência falsa e enganosa e uma essência que estaria em seu fundo. imprevisíveis e por isso soberanas. o objeto. positivamente os destinos da modernidade. o humor silencioso. São as massas. a ruptura da viciosidade e do esvaziado. não há o campo das profundidades. os fatos em si ocorrem independente do desejo dos homens e têm dinâmica própria e incontrolável. Jean-François Lyotard. Não há a estratégia do desvelamento. Reage. da paixão pelo desvio. classes. É na aparência. no extremo oposto da pornografia e do erótico. ao contrário. Enquanto num só há o obsceno. também uma estratégia irônica. Apesar dos políticos. o fim da possibilidade de uma ciência marcada ou legitimada por um discurso filosófico e político maior. de administrar os fatos. O saber científico não passa de uma construção fictícia e o homem investe seu objeto exatamente daquilo que ele lá quer ver. retoma. cabe agora nesta obra. em suma. que as coisas se dão e é só ela que contém as leis desses mesmos fatos. não desejando. segundo ele. Baudrillard procura destituir de qualquer validade as tentativas de homens. e se comporta independentemente em relação àquilo que lhe queiram imputar. opaca. obscura. a paixão. em: 3. agrupamentos. Imune a isso. dos meios de comunicação. As massas realizam. na obra seguinte. de controlar. "faz o jogo" do pesquisador. (Ver. repensar as condições da própria modernidade. Também o objeto. difundiu e tornou moeda corrente universal a "condição pós-moderna". É o espaço do jogo. sem direção ou programação externa. Os conceitos da Era Frankenstein. que primeiro sintetizou. desonhecida. ludibriando as estatísticas. elas mantêm-se incaptáveis. das cartadas. o objeto trapaceia. de a razão sobrepor-se aos fatos legitimando-os ou não conforme seus princípios. de tentar subordiná-los a visões de mundo. improgramáveis. o inesperado. delegando o exercício do poder. no outro há a surpresa. não se subordinando às aspirações controladoras da razão e rindo-se de qualquer investida da dominação racional. segundo ele. L'Inhumain. Através deste procedimento. o congelamento e a morte do sexo. Ao contrário. na medida em que correspondesse a este princípio da lei maior. 71 . o inefável. nega o homem e afirma-se enquanto autonomia cínica aos investimentos do aprisionamento e da domenticação. o desvendamento frio. a estratégia da sedução aponta que a jogada verdadeira está no domínio das aparências. dos estudos "científicos" de seu comportamento. absoluto. com mais detalhes. de forma mais ou menos espontânea. Superfície).

comporiam. pois jamais darào certo. exatamente por não considerar dois componentes absolutamernte humanos nas ações e nas decisões. assim. seus teóricos espelham fielmente os pressupostos de uma Sociedade Frankenstein em que as máquinas. Derivada diretamente dos centros de pesquisa mais avançados em "inteligência artificial" nos EUA. Não obstante. O que se tem aqui. é deixada de lado em defesa de uma noção de "programação". Contra esses "novos filósofos" argumenta Lucien Sfez com base no bom senso e no senso comum. Nessa reescrita. Não se está aqui sendo guiado por um conceito de meta. uma geração de supermáquinas. não obstante. associada a um fim histórico determinado. l988. pode muito bem ser denunciada enquanto tal. não rompe com ela.Pós-moderna aqui torna-se a reescrita das características reinvindicadas pela modernidade. há um trabalho a se realizar com vistas a um futuro. outra corrente ganha cada vez mais corpo nas ciências do homem. é o senso comum que desafia as decisiões desses mesmos sábios. Ele coloca-se aqui naturalmente também contra a posição de Gianni Vattimo. é no exercício da língua e da fala que é possível a rejeição desse universo. diz ele. A noção de projeto. A conversação ordinária. O projeto moderno. Os robôs. cuja perfeição se sobreporia aos humanos. Junto com a lingua falada e as instituições há o espaço para a interpretação como territórios em que se pratica o exercício da recusa pura e simples da submissão. já que é seu "fruto tardio". sua perlaboração não deixa de ter finalidade. a força sustentadora dos pensamentos de outras épocas. A aliança homem-máquina-homem. o bom senso e o senso comum. é uma recusa às propostas finalistas e humanistas que estavam embutidas no conceito de modernidade. 72 . É pelo bom senso que os indivíduos sabem selecionar no que é oferecido aquilo que lhes pode servir e deixar o resto às fantasias dos sábios. exclui-se a pretensão de basear a legitimidade da ciência e da técnica no projeto de emancipação da humanidade. Não se trata de projetar a emancipação humana mas de projetar o futuro como tal. mesmo momentânea e servindo ao bem-estar atual. Por outro lado.39). inclusivwe no pensar e no agir. por exemplo. Desaparece o apoio no passado. diferente do mito. Para ele. (Lyotard. por fim. que é um trabalho sem fim e sem vontade. Não há mais uma utopia a se atingir mas. é o que põe obstáculo à linguagem artificial. É aquele "não bem escandido" que está exatamente nos campos que fogem às programações. não funda sua legitimidade no passado mas no futuro. estágios de um processamento eletrônico-cibernético -. que fundamenta a pós-modernidade dentro da postura nietzschena. previsões e controles. substituirão o homem em tudo. mesmo assim. não se pode acreditar nem seguir as propostas futuristas dos teóricos da inteligência artificial . cada dia mais sofisticados. segundo eles.p. intelectuais e poderosos. Para ele. como algo genuinamente distinto. ou seja.cuja intenção de programar o homem é fazer com que todas as atividades humanas tornem-se passos. não como superação da modernidade já que "superação" era uma categoria da extinta modernidade. há uma continuidade possível da modernidade através da "perlaboração" (Durcharbeiten).

Ora. Contrariamente. As instituições.O oráculo de Freud No volume Neue Folge der Vorlesungen zur Einfuehrung in die Psychoanalyse (Nova série de lições sobre a Psicanálise). Sigmund Freud reúne entre os ensaios apresentados. por confundir símbolo com signo. mergulhamos no mundo unidimensional. visando interpretar o que Freud realmente havia dito. Para este. da racionalidade perdida. pontos de insubmissão dos indivíduos a esquemas de maquinização. retomada e retorno num mesmo movimento. de constituição de uma teoria do agir comunicativo. não há aqui nenhuma proximidade com a proposta da primeira estratégia. lá devo vir-a-ser). Nas formas cada vez renovadas de acesso ao texto. seguido de comentários. dizer do dito e lei do contrato. Mas é na interpretação (entendida de forma muito peculiar) que o autor expõe mais nitidamente o campo desta rejeição pura. 73 . o autor tenta resgatar a idéia do movimento sobre a cristalização. A frase no original é: "Who Es war.352-3). o texto. O retorno da palavra. do exercício intelectual coloca-se como estratégia viável para se fazer frente a uma sociedade que já liquidou o Iluminismo e ameaça com a destruição plena da razão através do império absoluto e totalitário das imagens.não é apenas duplicação do signos mas uma "reserva". na maneira como compreende Sfez.p. Sfez argumenta que entre símbolo e signo há uma distância infinita. O ensaio termina com uma frase que se tornou posteriormente objeto de especulações teóricas entre intelectuais. vamos ver as possibilidades de uma contínua expansão e dilatação daquilo que é sistematicamente comprimido na sociedade da técnica. da reflexão. marcam. (Sfez. A lingua falada é a expressão mais viva da incontrolabilidade e da impossibilidade de transformação do homem em máquina ou da dominação da linguagem humana pela máquina. ambos não passariam apenas de diferentes graus da mesma coisa. Aqui não há qualquer alusão à restituição da esfera pública. Sfez critica Simon. um intitulado "A dilaceração da personalidade psíquica". do vivo sobre o morto. 1988. Por ela. o símbolo . que o explicam até esgotá-lo. elas também. diferente das formas clássicas de hermenêutica já criticadas anteriormente. que é a mesma que separa regra de regulamento. a habermasiana. já não vem mais em primeiro lugar.categoria menosprezada pelos "novos filósofos" . Desaparecendo a distância. muito menos do projeto de modernidade. já que esta não remete a conceitos. da escola tautológica da Inteligência Artificial. através da qual o signo faz sentido. Não é um texto com referência interna e imóvel como uma torre de marfim mas interpretar é aqui um trabalho com renovação e repetição.Apesar da aparente semelhança. buscando pelo consenso formas comunicacionais contra a imperiosidade abstrata e burocrática do sistema. exatamente também como negação da submissão à imagem. soll Ich werden"(Onde era o id. 2. Lá buscava-se a restituição de um discurso racional por homens que se respeitassem como sujeitos. Através da interpretação. é a função simbólica o que assegura coesão a um mundo comum. datado do início dos anos 30.

tornar o ego independente do superego é o projeto da psicanálise que quer se livrar dos tradicionais fantasmas que incomodavam a mente dos homens.O contexto em que faz a afirmação é o da prática psico-terapêutica. a consciência e a vontade devem tomar o lugar das forças obscuras que em cada um dominam. aqui a idéia de que existe um mundo administrado. cuja pretensão seria a de se sentir aliviado e não dominado pelas correntes sociais. De qualquer forma. reforçar o ego. principalmente no final do século passado e no começo deste. que busca o domínio das forças cegas. recolocando-o dentro do hegelianismo das metas e dos fins. aumentar sua organização de tal forma que possa apropriar-se de uma nova parte do id. são. O contexto em que Adorno faz a crítica a Freud é o do ataque à psicologia do ego. os valores conservadores sobrepunham-se incondicionalmente à vontade individual das pessoas. Na linguagem de Platão. uma tentativa de "resgatar" o Lacan do (mal-) entendido estruturalista. o qual o eu deve almejar. uma indústria cultural que se sobrepõe aos indivíduos isoladamente tornando-os massa. no econômico. Em Lacan. Desaparece. para o autor grego. Diferentemente. aquele que troca seus negócios racionalmente. Dava uma ilusão de soberania numa sociedade que o status da massa tendia cada vez mais a ser característica do homem moderno. Esta deve estender seu território. é o cavalo branco que passa a dominar o negro. Consciência e vontade representam. torná-lo independente do superego e ampliar seu campo de percepção e. Cornelius Castoriadis tenta atualizar e recuperar a leitura lacaniana da frase de Freud. A consequência socialmente racional torna-se também individualmente irracional". segundo ele. Trata-se de domar o lado animal e submetê-lo à lógica do racional. Adorno já via a frase com suspeita. imprevisíveis e perigosas. que se trata de um projeto cultural baseado no primado da razão (do eu racional).(Adorno. portanto. ali. assim. 74 . devo vir-a-ser". Dizia ele. O id aqui poderia ser substituído por um genérico Outro lacaniano e a categoria do eu tornava-se um atributo do sujeito. domesticando ainda mais elementos do campo livre indomesticado. agem e o fazem atuar. a tradição. dando ao homem condições de ter mais controle sobre suas práticas irracionais. Aqui encontramos um Freud iluminista. especialmente definida por Karen Horney. como sujeito. Está claro. Na década seguinte. "puro". A razão deve tornar-se senhora da natureza bruta. em que a moral. cuja intenção é. 1955). A interpretação dada por Jacques Lacan seguiria um caminho distinto: "ali onde se estava. além de eu (je) existe a categoria do "moi" que supõe um estágio ou uma situação de identidade controlada. é tão pouco imune às crises como é. a colocação do místico sob controle e a liquidação do anticientífico. Theodor W. Caberia então à psicanalise fazer desabrochar um homem liberado de todos estes "senhores " que o escravizavam. dominada e negada pela onipresença do Outro. É a capacitação do sujeito pela consciência e pela intenção a superar o poder de uma totalidade sobre ele. que nos Estados Unidos obteve grande sucesso em sua intenção de construir um ego forte. que o mandamento continha algo de estoicamente vazio e inevidente: "O indivíduo preso à realidade. dizendo que o ego.

Ir em busca do homem é reverter ou mesmo negar a frase freudiana. soll Eigentlichkeit werden". a discussão é novamente levantada. ter reações emocionais. sem dúvida. visto que esta já desloca-se para outro campo. enquanto bom senso ou senso comum). discutem-se as teorias da inteligência artifical e questiona-se o estatuto da razão. que a contenda será ganha. à razão humana não resta outra saída senão conformar-se com seu status de inferioridade limitada e provisoriedade. O elemento opressor. chorar. apaixonar-se. a alma e o espírito. aquele campo que exatamente Freud buscava 75 . espirituais. do sujeito que transcende estas limitações. a parte racional (pelo menos enquanto racionalidade de ações e decisões. mesmo cínicas. programados. na idade tecnológica? Se não pode concorrer. Eigentlichkeit significaria. Lá ela discute a contraposição entre homem e máquina como uma atualização da mesma questão colocada por Freud. de uma consciência. codificados. Mais trágica ainda porque a razão escapa ao domínio e à esfera do homem e é incorporada pela máquina. tornou-se um "ser emagrecido". O caminho da reabilitação humana.existe um "moi" que ainda não despontou para a a possibilidade de sua transposição à categoria de um sujeito. assim como alterase a própria ordem da frase. o iluminismo em sua aberração trágica. com a máquina e os sistemas técnicos. ou seja. sua identidade. Segundo a leitura de Peter Sloterdijk. O que sobraria do homem. o caráter médio e massa dos indivíduos. sofrer. na medida em que o investimento progressivo e cada vez mais maciço neste campo chegou à produção destas máquinashomens. traduzido para uma linguagem técnica dos computadores. A máquina jamais poderá sentir dor. só que aqui trata-se de trancender uma situação de submissão em que a máquina ocupa o lugar do homem. Não é por aí. que significa em Heidegger o tipo marcado pelo ego fraco. naturalmente. ao contrário. a mediocridade. lá o ego deve avançar mais (pág. tornou-se privilégio da máquina e o homem como sujeito perdeu sua soberania. e sua tendência. não-humano. em termos de racionalidade. nunca. O homem só pode diferenciar-se da máquina. na medida em que o Ich. irônicas. Por outro lado. Finalmente. inesperadas. a de dominar cada vez mais esses campos. o lado público. muda de figura e de caráter. e entra em cena a categoria de Man. sua diferença em relação ao componente técnico possuindo exatamente todos os atributos que a máquina nunca poderá ter. por Sherry Turkle no seu livro O segundo eu (1984). portanto. "sob o signo da razão". pois são fatos que em tempo algum poderão ser representados. vazio do homem-massa. esta "pequenês" do homem moderno. manter sua autonomia. naturalmente. Heidegger reinventaria a frase como: "Wo Man war. como Castoriadis.265). a instância nãocivilizada de cada um. Já não se trata mais do Wo Es war soll Ich werden. Corresponde para ele àquela circunstância que exigimos quando construímos nossa existência (Dasein) num contínuo de consciência. que seriam assim a quintessência da razão. de uma vontade. não é este. de onde havia o id. Aqui. A leitura de Sloterdijk remete novamente à possibilidade de um ego. substituindo a palavra Es (o id) pelo termo Man. apesar de não ser citada a frase. a possibilidade de realização do Dasein. fútil. Desaparece a categoria do Es. pois estes já demonstraram ser mais completos e insuperáveis.

lá e exatamente lá é que ela deve permanecer. 76 . soll Es doch bleiben. o emocional-natural. Assim. onde estava o id (e aqui por id interpretamos a parte emocional.ocupar cada vez mais pelas investidas do ego. a frase hoje precisa ser lida de outra maneira. afetiva. é o que hoje aparece como a fonte única e mais segura para a nova identidade do homem na era eletrônica. irrealizável pelo sistema técnico). a saber: Wo Es war.

Paris.4-5. Dahmer. Ein soziologisches Experiment". Comunicação & política. Rocco. l983. São Paulo. 1982. Frankfurt. Gallimard. n.(l984). Grasset./oct. U. J. (l955): "Acerca de la relación entre sociologia y Jansen. l984. Rio de Janeiro. l987. J. V. 33/34 (l985). l987. Paris. Eco. 1981.(1936): "O Narrador". In: Les immateriaux. et alli.9 (23-4). S. Hyman. B. 1958. Paris.8-16.(1987): A Thousand Plateaus. Le Mythe et l"Homme.) Teoria critica del sujeto. Caillois. l989. Traverses. Galilée. jun/dez. Univ. B. Brasiliense. Bataille. Munique. Nova Fronteira. T.(1979): "Dé-localisation.63-81.(1984). Siglo XXi. D. l984. In: Pierre Furter/Gérard Raulet (Org. Rio de Janeiro. _____(l986): América.7.l975. (1989). Le Jeu et les Hommes. S. Baudrillard. Press. pp. _____(l988): "Asphyxie de la communication". Brasiliense. Paris.89. l984. (1985): "Hybridations". 1989. Abril (Os Pensadores).(l985): O ânus solar. W.Paulo.). Paulo. Lisboa. Connor.109-114.l986. Rendez-vous en France. l979. _____(l978):Ò sombra das maiorias silenciosas. _____(1985): "L'an 2000 ne passera pas". Couchot. Basil Blackwell. Rocco. 77 psicologia". Oxforf. Benjamin. 1985. Analytische Sozialpsychologie. Adresse aux utopistes".Bibliografia Adorno. Capitalismus and Schizophrene. sept. pp. In: Anders. F. 1979. Viagem na irrealidade cotidiana. C. Textos filosóficos. 1986. G. _____(1983): Les stratégies fatales. Communication as Culture. pp. Minn. R.W. S. Galilée. Materialien zur Theorie des Films. Deleuze. _____ (1958). G. H. E.67/68. Paris. n. _____(1981): Simulacres et simulation. W.(l976): L'echange symbolique et la mort. (1938). _____(l987b): "Das fraktale Subjekt". (1989): Postmodernist Culture. Paris. V. (l956): Die Antiquiertheit des Menschen. _____(l977):Esquecer Foucault. Minneapolis. 1938. Paris. G.l956. _____(l989): "Rencontre". Carey. l985. l97l. . In: Benjamin.(1931): "Der Dreigroschenprozess. Ästhetik und Kommunikation. Brecht. Galilée./Guattari. _____(1987a): L'autre par lui-même. Univ. Frankfurt/M. l989. (1975): A Instituição imaginária da sociedade. p. Boston. Castoriadis. (Org. Stratégies de l'utopie. 1985. _____(1979): De la séduction.l976. H. Descombes. São Paulo. Suhrkamp. In: Prokop.

The Univ.(1988): Zukunft. Madri. J. of Chicago Press.(1984): "Postmodernism or the Cultural Logic of Late Capitalism". cit. 78 Postmodern oder der Kampf um die Knoedler-Bunte. São Paulo. (l984): Der eingeschraenkte Blick und die Fenster zur Welt. H. (1988): "Fazer sentido": As atribulações do discurso pós-moderno". A. Taurus. Lacan J. (1988): The Postmodern Scene. Kroker. demasiado humano). C./Wulf. 1984. (l979): O pós-moderno. Relógio d'Ôgua.l989. Goetzendaemmerung (Crepúsculo dos ídolos) e Wille zur Macht (Vontade de Poder). Poststructuralism and Social Context. 1988 op.146. M. 1986. Requena. Hassan. Escritos. l987. _____(l888). 1888. M. Siglo XXI. 1971. Habermas. Kemper. Kamper. Ôtica (Grandes Cientistas Sociais. Plon. Perpectiva.(1990): The Mode of Information. Rio de Janeiro.Paris. 1927. J.Paulo. M. (1971): "La cosa freudiana". I.S. Catedra. _____(l885). 1990. D. A linguagem da sedução. 1988. G. em Kamper/Wulf. New Left Review. F. 1987. D. A. (1927). R.53). Houndmilles. 1885. ano 18. (1880). l988.24. fora de comércio.P. Jonas Verlag.(1984): "Mapping the Postmodern".(1987): "Tendenzen einer Kultugesellschaft". S.). 67/68. vol. Nietzsche. Marburg. Prokop.Frankfurt/M. Lisboa. Harvey. Heidegger. Lyotard. Menschliches Allzumenschliches (Humano. Revista Crítica de Ciências Sociais. Galilée.(1989): Le contagion des passions. C. Marcondes Filho. F. Lipovetsky. José Olympio. l888. Guillaume. 1885. Jameson. _____(1988b). 1988. . 1986. 1988. 1989. (1987): "Editorial: Kulturgesellschaft". _____(1988): L'Inumain. Aesthetik und Kommunikation. março de 1988. Basis Blackwell. P. Mexico. (1988): El discurso televisivo.G. 2 vols.Paulo. J. 1984. Oxford.(1986): Sociologia. l988. A produção social da loucura.(1988a).F.(1981): Teoria de la acción comunicativa. 1987. (Org. Madri. cad.(1988): A era do vazio. Poster.(1989): The Condition of Postmodernity. Huyssen. E. 1984. Also sprach Zarathustra. Paris. Sein und Zeit. New German Critique 33.Freier. 1988.(Assim falava Zaratustra). n.

(1980):Esthétique de la disparition. I. Galilée.1988. Paris. Heidelberg. Balland. P.(1973): Die protestantische Ethik. 1984. Frankfurt. _____(1984): L'horizon negatif. Galilée.(1987): O fim da modernidade. Os computadores e o espírito humano. Paris. 1973. L. Turkle. Presença. (1984): O segundo eu. 79 . por J. Paris. _____(1988): La machine de vision. 1980. P. S.(1983): Kritik der zynischen Vernunft. Weber. Presença. Porto. Suhrkamp. Paris. 1989.Sfez. Vattimo. G.(1988): Critique de la communication. Seuil. M. Sloterdijk. Winckelmann. 1988. Virilio. Ed. 1987. Lisboa. 1983.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful