Ciro Marcondes Filho

A SOCIEDADE FRANKENSTEIN

São Paulo

1991

Um Frankenstein tecnológico nos ameaça. Pelo menos é o que cremos. Vivemos já num mundo de máquinas de transportar, de fabricar, de pensar. Frankenstein, nosso duplo, esse mundo-máquina que criamos, assume pouco a pouco sua autonomia e seu poder. Lucien Sfez

Primeira Parte................................................................................................................................................ 5 O DESTINO DE UMA ILUSÃO................................................................................................................... 5 1. A Crise do Pensamento Esclarecido................................................................................................. 5 2. O antiiluminismo................................................................................................................................. 8 3. O desencanto estético..................................................................................................................... 11 Segunda Parte............................................................................................................................................. 15 O FRANKENSTEIN TECNOLÓGICO....................................................................................................... 15 Traços gerais da sociedade..................................................................................................................... 17 1. Crescimento louco, multiplicação e morte....................................................................................... 17 2. Vivência imaginária.......................................................................................................................... 17 3. Ficcionalização da memória............................................................................................................. 18 4. Esvaziamento do ser........................................................................................................................ 18 5. Substituição dos sistemas lógicos................................................................................................... 19 I - Tecnologias e meios de comunicação.................................................................................................19 1. Tecnologias...................................................................................................................................... 19 1.1. A velocidade.............................................................................................................................. 20 1.2. A transformação da cidade....................................................................................................... 22 1.3. O novo status do saber............................................................................................................. 24 2. Meios de comunicação.................................................................................................................... 24 2.1. O processo televisivo................................................................................................................ 25 2.1.1.. A visão.............................................................................................................................. 25 2.1.2. A televisão.......................................................................................................................... 28 2.1.3.. O tempo televisivo............................................................................................................ 29 2.1.4. A densidade televisiva....................................................................................................... 29 2.1.5. A linguagem ...................................................................................................................... 29 2.2. A Informação............................................................................................................................. 31 2.3. Rock.......................................................................................................................................... 32 3 - Teoria em ruinas............................................................................................................................. 33 3.1. Velhas teorias da comunicação................................................................................................ 33 3.2. Nova teoria da comunicação.....................................................................................................36 3.3. Os conceitos da Era Frankenstein............................................................................................ 37 3.3.1. A circularidade................................................................................................................... 37 3.3.2. Superfície........................................................................................................................... 37 3.3.3. Autonomia do objeto.......................................................................................................... 39 3.3.4. Movimento.......................................................................................................................... 41 II - História, tempo, política...................................................................................................................... 41 1. Fim da história.................................................................................................................................. 41 2. O tempo............................................................................................................................................ 43 3. A política........................................................................................................................................... 44 4. O Estado orbital............................................................................................................................... 46 5. O "locus" do poder........................................................................................................................... 47 III. O ser enfraquecido.............................................................................................................................. 48 1. Assassinato de Deus....................................................................................................................... 49 2. Multiplicação e fracionamento infinito.............................................................................................. 50 3. A desestabilização dos sujeitos....................................................................................................... 51 4. A nova esquizofrenia........................................................................................................................ 53 IV. Cultura pastiche e vazia..................................................................................................................... 55 1. Cultura do cinismo e da indiferença ................................................................................................ 56 2. Coletividade interativa...................................................................................................................... 58 3. O corpo e a morte............................................................................................................................ 59 4. O processo econômico.................................................................................................................... 60 Terceira Parte............................................................................................................................................... 64 PARA ONDE VAI O HOMEM .................................................................................................................. 64 1. Teorias e estratégias........................................................................................................................ 64 1.1. Corrente histórico-humanista, voluntarista............................................................................... 64 1.1.1. A esquerda hegeliana........................................................................................................ 64 1.1.2. A teoria de Juergen Habermas.......................................................................................... 66 1.2. Corrente estruturalista............................................................................................................... 68 1.3. Corrente pós-moderna.............................................................................................................. 70 2.O oráculo de Freud........................................................................................................................... 73 Bibliografia.................................................................................................................................................... 77

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na possibilidade de uma natureza permanente e imutável no homem passaram. Isto é. de que Deus estava morto. bem como consagrou a afirmativa de Nietzsche. Nele foi inculcado que possuia poderes. Em outras palavras: a crença na existência de Deus. de fato. Esta liquidou a imagem de que no homem sua aparência poderia ser negada ou contraposta a uma estrutura íntima última. De Deus. entretanto. A técnica e seus desdobramentos na sociedade. impõem-se ao homem e não se subjugam. A Crise do Pensamento Esclarecido O homem da Era Moderna era marcado pela ilusão da onipotência. A técnica não só deu conta das aspirações humanas em realizar suas intenções de expansão. As esperanças excepcionais que os homens atribuiram à técnica. exploração e domínio.assim como a metafísica. em primeiro lugar. a ser tidas como mera ficção. capacidades. a concepção baseada na filosofia clássica de que no homem existiriam "estruturas estáveis" . ele pode muito pouco. a expansão dos bens de consumo. 4 . mas superou-as excepcionalmente. isto é. na história. instituições e objetos deixaram claro. e. o desenvolvimento de todos os meios de transporte e comunicação. do concreto sobre o abstrato. que os poderes humanos têm alcance restrito: demonstraram que o homem não pode tudo. ele arrancou os poderes absolutos e determinou com isso o declínio da metafísica: a nova era passa a ser a do homem dominando a máquina. nas mãos do homem. força de interferir no meio. do objetivo sobre o subjetivo. depois desta expansão da técnica. ou seja. o aumento das facilidades das próprias sociedades humanas e em todos os âmbitos da vida cotidiana. a erosão dos princípios filosóficos que haviam sido erguidos no começo do século XVII.Primeira Parte O DESTINO DE UMA ILUSÃO 1. A ontologia. A técnica. do material sobre o imaterial. a ideologia que se desenvolve a partir de seu uso e de sua instrumentalização tornaram possível. Os objetos têm autonomia.que só não eram claramente perceptíveis porque o homem no seu processo social estaria encoberto por uma nuvem de alienação provocada originalmenmte pelo processo de trabalho . não previam que seus desdobramentos questionariam a natureza do espírito social da própria época moderna. no século XX. na cultura. da razão. A existência de uma ontologia do ser teve sua origem nos mecanismos de antropomorfização da própria sociedade. usando-se da ciência. de fato promoveu o crescimento industrial. A onipotência tornou-se impotência. impôs uma verdade positiva de que as coisas são como são e qualquer recurso transcendente de explicação seria tido como misticismo. bem como a inovação no campo artístico. O domínio posivito da natureza e do meio decretava que nada mais de sobrenatural poderia interferir na ação racional humana com vistas à realização de seus nobres fins sociais. Técnica. foram minadas pela própria forma de a técnica de autoimpor-se no social. no destronamento da cultura erguida sobre a imagem de Deus. por derivação.

a salvação. fatos inexplicáveis. na mais absoluta irracionalidade. entretanto. inadministráveis. executar o domínio da natureza. imprevisíveis. ideológica ou abstrata. violência. as classes ou as revoluções deveriam realizar a tarefa histórica de construção terrena de uma utopia social. Semelhante destino tiveram os conceitos de verdade. prescindindo de uma sombra religiosa. especialmente no após-guerra. ideologia. A partir da experiência destes. Estes grandes discursos legitimadores da ação política. a possibilidade de felicidade final. segundo seus próprios parâmetros. num agir ético-político passando a uma legitimação em si mesmo . genocídios e ameaça planetária puseram em cheque a capacidade da administração racional da sociedade. Com isso. não passava de uma reformulação ou modernização do pensamento e da utopia cristã. menos se poderia dizer que elas deveriam se basear num estatuto externo a elas. opostamente. ao contrário. demonstrando que independente ou além de o homem conseguir dar conta da sua realidade. funcionaram também como aval do exercício da ciência. Em primeiro lugar. a história funcionava como continuação do pensamento religioso e sua filosofia. inspiraram-se. para o campo desprestigiado das crenças e ilusões. É por isso que o desenvolvimento técnico acabou por realizar. como o foram o marxismo e o liberalismo. os eventos. numa ideologia. a liquidação final das ideologias legitimadoras ou das "metanarrativas".Isto quer dizer que na Época Moderna havia se instaurado um inchaço nas possibilidades do sujeito. surgida na Época Moderna. O homem. Tratava-se de um metarrelato e uma razão superior. acontecimentos. marcante especialmente na filosofia idealista. porque justificava-se por si mesmo. O real é racional. dizia Hegel. O conceito de verdade subordinava-se a uma estrutura lógica maior. que justificava os meios de acordo com os 5 . isto é. história. transferidas para a margem da sociedade. segundo ela. Sobreviveram. Aquilo que para o Cristianismo era a redenção. Nesse sentido. do direito. Quanto mais se desenvolvia a ciência e a técnica. a razão já que estava associada a um espírito iluminista e. opressão. evolução. todos os conceitos de sustentação do pensamento iluminista começaram a cair por terra neste final de século. Havia se desfechado aí o golpe mortal e radical contra todas as formas de misticismo. incontroláveis. O desenvolvimento da técnica. As crises históricas e os caminhos desastrosos a que conduziram os desenvolvimentos técnicos e as tecnologias. através dele. progresso. como barbáries sem rédeas pela história. Tinha prestígio e status. o conceito de razão não tem mais sentido. o homem poderia através da inteligência e do uso de sua racionalidade abarcar todas as formas do real. e especialmente as formas de dominação. o saber racional e a possibilidade de o homem. o pensamento materialista do século XIX transferiu para agentes humanos historicamente determinados. da moral e da arte. e por suprimir o respaldo que se baseava numa filosofia especulativa. que lhe garantia o critério de legitimidade. foi tornando cada vez mais débil este tipo retaguarda filosófica. no liberalismo e no socialismo. Os sistemas políticos fanáticos e radicais. O sujeito transcedental era o homem ou o proletariado que deveria realizar a utopia histórica. ao contrário. irrupções fogem absolutamente de seu controle e de sua atuação. atribuindo à capacidade humana a possibilidade de dar conta de todas as ocorrências terrenas.

ainda mais avançada. a partir de uma crítica ao místico na sociedade. Indivíduo. desaba também a noção de totalidade que. Ingenuamente achavase que se poderia colocá-la sobre os trilhos. e Darwin. como mencionado. na noção da história. ao contrário. Ele supunha um processo evolutivo em que uma sociedade medieval seria substituída por uma mercantilista mais desenvolvida e esta por uma sociedade industrial capitalista. Progresso e evolução seriam os indicadores da correção ou não desse rumo. de finalismo e de a história tender à realização de algum princípio. de se chegar através da conscientização política ou do trabalho intelectual ao "fundo" das coisas. de uma estrutura inconsciente genérica da sociedade. Vem abaixo também o conceito de ontologia.fins pré-determinados. buscando trazer à luz aquilo que se apresentava como mistificador. derivada basicamente da dialética. já desde Copérnico e Darwin que não se justifica tal preponderância filosófica e histórica do homem. Com a crise do conceito de verdade. A história deveria dobrar-se a essa idéia criada pelos homens e seguir um rumo pré-programado. fazendo parte. nada faz. idéia. A noção de totalidade introduzia um componente simplificador em todas as relações sociais e era da mesma forma aglutinador. cai por terra também o conceito de história. cuja teoria iria demonstrar que sequer os pensamentos e a ação dos homens lhes pertenciam. obteriam ainda no início deste século um novo complemento a partir de Freud. já que este baseava-se na noção de linearidade ou de determinação. Ou seja. Com a crise dos grandes discursos genéricos. que participa de um mundo simbolicamente estruturado 6 . estava contida uma idéia de finalização. exercia uma força terrorista sobre o conjunto dos demais discursos. Entretanto. ele não passa de um personagem que fala uma língua que já encontra dada . reduzia todos os fenômenos a leis gerais de funcionamento e da mesma forma "explicáveis" segundo seus princípios determinantes. favorecia o desenvolvimento do pensamento ortodoxo e mesmo fanático em termos de ideologia. assim como citoyen e burgeois. A concepção de evolução ascendente do social entra em crise na medida em que os próprios valores que embasavam essa evolução já eram determinados pelo estágio em que se vivia. sociedade que os homens acreditavam fosse se realizar necessariamente. da qual o homem não passava de um mero representante. política e lógica social. Por outro lado. encobridor ou falseador de uma determinada realidade. A radicalização deste ponto de vista deu-se com Lacan. acabando com as ilusões de o planeta estar no centro do sistema solar. alienação/desalienação. que implicavam. latente/manifesto. que por meio do método estruturalista iria levar às últimas consequências a determinação do inconsciente enquanto responsável pelas ações humanas: o homem nada é. uma revisão de todo o pensamento. A concepção de uma ontologia e a idéia de um desmascaramento estão igualmente subordinados às possibilidades do real ser racional. porque se baseava numa lógica marcada por opostos. Desmorona-se também a noção de sujeito histórico e mesmo a de indivíduo. na medida que ao integrar todos os componentes sob sua lógica. nada altera. Copérnico. essência/aparência. reduzindo o homem a um mamífero cujos ancestrais eram símios. fazem parte de uma lógica em que o homem obtém destaque dentro do conjunto social e se afirma como ser dominante.

marxista) ------------------------------------------------------7 . eficiência e produtividade do trabalho social. demasiado humano. com a sofisticação e o refinamento dos sistemas técnicos. Assim. Heidegger dizia que já não é mais hora de se pensar o homem como um personagem forte e heróico. Outros autores. evolucionismo ou progresso. trata-se de encontrar seu verdadeiro lugar como um "sujeito emagrecido". Há de ser vista. e se no começo da Revolução Industrial ela apenas fazia com mais perfeição e rapidez o trabalho em série. como pressupunha o pensamento hegeliano-marxista. Nietzsche dizia que dentro do conceito de modernidade está implícita a idéia de sua permanente superação. posicionaram-se de forma precursora em relação aos desdobramentos que só hoje podemos sentir em sua profundidade. autônomo. reduz-se o espaço efetivo de intervenção humana: a automação. ao contrário. em que nenhum dos conceitos anteriores pode ser reativado. a substituição das atividades vitais. Em lugar destas duas categorias que centravam o pensamento da Idade Média até a Idade Moderna. Todas estas categorias estavam marcadas pelo conceito de verdade ou de essência irredutível. Superação Ontologia Humanismo (Incl.que. 2. não se podendo mais pensar em termos de história e desmoronado as bases do humanismo. a chamada "experiência estética autêntica" não tem mais espaço. não pode assim ser caracterizada como "superação". Cada vez mais a técnica ocupa um lugar próprio. que faziam parte dos princípios iluministas. A época atual.pelo Outro e cuja função não é nada mais do que dar conta de um destino e de um dever já fixo e determinado. Tampouco tem sentido para esta época a aspiração de autonomia em oposição a uma totalidade coisificada.é a época em que já não se pode falar mais de superação crítica. que a crise deste humanismo ocorre no ápice da técnica. auxiliava e garantia um melhor rendimento. instala-se uma nova ordenação lógica dando novo estatuto à técnica. O momento desta inversão do papel da técnica . O antiiluminismo ------------------------------------------------------Modernismo História. a organização total da vida nas sociedades segundo normas técnicas. com Heidegger. especialmente Nietzsche e Weber. segundo irá se expor durante todo o desenvolvimento deste livro é a marca do surgimento de uma nova era em que o homem toma consciência das ilusões passadas e tem que reconhecer sua pequena estatura . ou da contraposição de necessidades forjadas e necessidades verdadeiras. já instalando uma ruptura com a modernidade. Dentro deste mesmo princípio. Mas não somente Heidegger pensou prematuramente a questão da expansão da técnica e a crise do modelo iluminista. no século XX. pode-se acreditar. Em Humano. de fato. instituem um novo quadro em que o homem vai do centro à periferia. como um corte. Nem o de reapropriação nem o de recuperação das origens e dos fundamentos.

o homem passa a oscilar entre extremos de êxtase e decadência. ao contrário das possibilidades humanistas. igualmente negador desta "inflagem" do ser. vivendo a morte de velhos significantes junto com o niilismo completo da pósmodernidade. quando previu também que a superação das idéias de Deus não traria necessariamente. propõe a consideração do mundo como fábula: a fábula perdeu seu sentido. É também de Nietzsche a crítica mais veemente às concepções da metafísica. que são sistematicamente criticados por Nietzsche. Daí ser tudo "errância" sem qualquer relação com uma verdade fundamental. como imaginava o marxismo. Não existe o conceito de avançar no sentido do progresso e da evolução. Em Crepúsculo dos deuses. vê nisso. que se refere à superfluidade dos valores últimos. este parece que foi o resultado do desenvolvimento da técnica na época atual em que Deus desapareceu. Em relação ao sujeito histórico. vão novamente tornar os homens escravos e. Anti-humanismo. Deus é assassinado quando o saber já não deseja mais chegar às causas últimas. na idade pós-metafísica. um equívoco já que os homens para ele já estão excessivamente debilitados. Na eliminação da entidade metafísica. É de Nietzsche a afirmação de que "Deus está morto". a que o modernismo atribuía uma capacidade de interferência e realização. Nietzsche situa o niilismo completo e o caminho do homem não em direção a um fim previamente determinado por um discurso maior mas em direção ao X. ao contrário. o homem de volta a si mesmo: "Na recuperação das forças levadas aos céus não há emancipação da humanidade mas crescente autonegação". enfraquecimento do Naquilo que para o modernismo corresponde à história ou à possibilidade de superação e de uma ontologia. de fato. numa situação em que o fim dos valores supremos não é substituído por outros valores em que o próprio conceito de valor torna-se supérfluo. pois não há mais verdade que a revele como aparência.Nietzsche Eterno retorno ao X) Niilismo completo (Homem > do centro ------------------------------------------------------Heidegger Fim da Metafísica (Pós-Metafísica) Ser ------------------------------------------------------No quadro estão apresentadas duas dimensões básicas do pensamento antiiluminista. O pensamento utilitarista e a crença no progresso. ou seja. Em Heidegger. Não há mais um Grund (fundamento) a ser falsificado ou desmentido. 8 . Heidegger. O mundo verdadeiro torna-se fábula e com isso dissolve também o mundo aparente. Sob este conceito apresenta-se a proposição de niilismo completo. um caminho circular do eterno retorno. em Nietzsche encontramos. a superação da morte de Deus dá-se com a fase do predomínio da técnica como uma espécie de sua continuação em outro plano. ou seja.

numa situação em que Deus está morto. aparece com proeminência a posição de Martin Heidegger. como possibilidade real de desenvolvimento das forças econômicas e sociais.Assumindo uma postura igualmente crítica em relação à técnica e às expectativas de um sujeito heróico que pudesse domesticá-la. para tanto. Daí a acepção heideggeriana de que a essência da técnica é algo de natureza não técnica. O Iluminismo para Weber não passava de uma ilusão. Ela seria o máximo desdobramento desta. através do agir racional. a técnica assume para o homem a posição de uma nova divindade. Marx acreditava categoricamente nas possibilidades do homem de. a saber. Partindo de concepções filosóficas diferentes e rejeitando tanto o pensamento niilista quando o existencialista. os pensadores marxistas deste século. p. Para Heidegger. da burocracia e da impessoalidade. urge no presente momento viver de forma radical a própria crise do humanismo. da opressão. ao mesmo tempo que afirmando pressupostos antiiluministas. ou seja. Atrás da razão escondia-se a lógica da dominação. ao Seinsvergessenheit. 9 . não ofereceu em contrapartida um bem-estar psicológico nem material ao homem. e nada mais do que ela compõe a essência oculta da metafísica ocidental. caracterizada pela Ge-Stell ou imposição universal e provocação do mundo técnico (Vattimo. Diante da transposição da circularidade vertiginosa em que o homem e o ser perderam todo o caráter metafísico por força da técnica (no Ereignis). a técnica. como outro grande pensador contemporâneo que radicalmente questiona o mito da racionalidade ocidental. à ação racional com vista a fins (Zweckrationalitaet). Não obstante. a concepção mais realista de Weber. As superstições foram liquidadas. Ele prevê. isto quer dizer que voltando-se a ela. já que faziam parte do pensamento mágico. é preciso assumir esta qualidade da técnica como algo não técnico e entregar-se a uma espécie de "cura de emagrecimento" na qual o homem assumiria sua franqueza. já abandonavam essa visão romântica da razão e assimilavam o contrário. A racionalidade. Sua proposta é a da destruição da metafísica como forma de chegar às origens. Em substituição a elas a razão foi usada para aumentar o controle ("netro e instrumental") do mundo. ao contrário. especialmente os que se mantiveram alinhados à corrente hegeliana e que foram portanto herdeiros de Lukács. Errado estava Marx que encarava a razão do ponto de vista positivo. remodelar o próprio meio e construir seu futuro. A razão. uma possibilidade de o homem desembaraçar-se desta realidade que o nega e desta metafísica que o encobre.26). Resultado disso é o que Max Weber caracterizou como "processo universal de desencanto". que ocupou o lugar do misticismo. não houve melhoramentos humanos com a tecnologia e a pressão das forças produtivas não conduziu à revolução. atingir-se-ia o fim e a realização da própria metafísica. e com isso perdeu-se o sentido ético e da unidade da vida. inimigo da postura racional do Iluminismo. levou. no conceito de Verwindung. a razão desembocou numa forma de dominação e opressão. aparece a figura de Max Weber. em vez de dar conta das exigências e das aspirações humanas de bem-estar e de progresso.

Para este. só haveria uma possibilidade de observação. que monopoliza a possibilidade de reprodução exata do real por meios técnicos. A autonomização da razão instrumental passou a ser vista. na crise da modernidade estética. uma "armadura férrea" (Weber. fez com que o manto de tornasse. em que a racionalidade e a relação com os bens materiais assumem um aspecto nuclear.Na modernidade. O desencanto estético A crise talvez mais marcante e transparente da chamada Era Moderna estaria situada na sua expressão estética. particularistas. Originalmente seguindo as idéias de Georg Lukács dos anos 30 e sua posição ímpar no desenvolvimento do materialismo histórico em confrontação com a tendência materialista dialética em expansão na União Soviética. que num primeiro momento era visto como um "leve manto" do qual se poderia despojar a qualquer momento.p. Igualmente os homens desta nova era. A partir da metade do século passado configura-se uma segunda e mais marcante forma de se encarar a arte.187). fato que Juergen Habermas critica em sua tentativa de reapropriação da razão. logo sentiram os rumos desastrosos da técnica. A arte rebela-se contra esta perda de espaço representativo e parte para processos desviantes. Não obstante. segundo suas palavras. Bentham e Mill. 3. ou seja. os pensadores da Teoria Crítica assimilaram e deram continuidade às possibilidades da crítica à reificação através da razão e da filosofia da consciência.1973. especialmente no período em que eles próprios sofreram sua expansão nas mãos dos Estados totalitários e fanáticos. Os principais intelectuais deste século que se pautaram pela continuidade do pensamento marxista no campo da filosofia e da crítica da cultura. então. A partir daí os autores ingressam numa trajetória de negatividade. como uma decorrência funesta do desenvolvimento da razão e as chances otimistas de Marx foram descartadas. Para estes. a concepção de arte estava ainda dominada pelos enciclopedistas e por uma relação exageradamente unívoca em relação ao processo artístico. fruidores sem coração". uma forma de representação. são caracterizados por Weber como "especialistas sem espírito. haveria a possibilidade de uma racionalidade positiva quando orientada e articulada pelo mundo vivido (Lebenswelt). 10 . refutando qualquer espécie de revalidação mais positiva das possibilidades da racionalidade voltada a fins. aquilo que significava a preocupação com os bens materiais. a auto-reflexão racional significava um instrumento criativo nas formas de luta para se atingir a realização do Estado socialista. sofreu também os revezes desta virada das perspectivas otimistas em relação à racionalidade. ao lado da aceitação da multiplicidade de formas de representação. o grupo que se denominou Teoria Crítica da Sociedade. É o período que coincide com a expansão da fotografia. No primeiro período do modernismo. impressionistas de representação. para Max Weber. Engrossavam essas fileiras também filósofos como Comte.

o artista deve desempenhar um papel criativo na definição de uma "essência da humanidade" assim como um papel heróico no que Nietzsche chamava de "destruição criativa". a arte é transitória e contingente mas ao mesmo tempo eterna e imutável. No primeiro momento. apesar da não adesão ao regime fascista. Para Baudelaire. O projeto da arte moderna sucumbe. o construtivismo e o realismo socialista. os próprios artistas assumem posições divergentes em relação à aceitação ou não do componente técnico na transformação da sociedade. Ao lado dessa tendência sobreviveram correntes que rejeitavam a adesão aos regimes fascistas: o surrealismo. Depois da Guerra. o modernismo já começa a oscilar em posições ambíguas. a posição dos artistas era de reação às inovações técnicas e às tranformações sociais e políticas que a ela estavam relacionadas. No século XX. É exatamente nesse momento que se trava o debate que 11 . contudo. portanto. como Baudelaire e Flaubert. A isso se somam o desenvolvimento das redes comerciais. Com a expansão da técnica. o significativo aumento do maquinário e a urbanização das cidades. Sua última forma é a do alto modernismo. portanto. Este segundo aspecto é também de certa forma reafirmado por Flaubert para quem a arte extrai do mundo que passa os traços de eternidade que ele contém (cf. a expressão viva do componente ontológico da cultura. É o caso do futurismo de Marinetti e de Ezra Pound na Itália. mas também de Dos Passos e Hemingway nos Estados Unidos. tecnocráticas e racionalistas. que também na filosofia ocupava uma posição de destaque. nos dois autores. contrói-se a concepção modernista de arte que vai vigorar durante esta parte do século passado (segunda metade) e boa parte ainda deste. o acirramento da corrida armamentícia e a dilatação da própria sociedade de consumo. com os outros componentes do espírito das Luzes até chegar a um momento de absoluta perda de identidade. como a grande expansão da indústria. No âmbito da arquitetura. os projetos e os propósitos de Gropius foram de fato aplicados pelos engenheiros de Hitler na construção de moradias e instalações para controle político. Instala-se uma tendência que mitifica as técnicas e que vai se atrelar de forma mais ou menos radical aos regimes totalitários dos anos 20 e 30. pelas idéias positivistas. segundo a qual. até antes da I Guerra. a essência última. a arte moderna entra em declínio. Encontram-se aí. a popularização dos bens artísticos e a massificação da própria arte. Harvey.É a época em que surgem os teóricos do modernismo. das comunicações. em cuja concepção as cidades e as casas seriam "máquinas para dentro delas se viver". movimento este marcado pelo expressionismo abstrato. estão Le Corbusier e Walter Gropius (Bauhaus). no plano do consumo. De fato. p. o grande aumento dos produtos culturais. Partindo disso. dos transportes. Ele realizaria na prática o que Kant havia proposto em relação o juízo estético: ponte entre a razão prática e o conhecimento científico. assim como. nitidamente identificado com o establishment.20). que assinalam as marcas que distinguem este fenômeno artístico dos outros ciclos culturais. 1989.

em vista também do espírito do tempo. Mas para a maioria dos autores que analisam o momento atual pósmoderno do desenvolvimento social. Tanto nas pessoas como designers bodies (Kroker). A arte dissolve-se. a unidade. Sua crítica é de que Habermas tentaria fazer valer uma concepção totalmente irreal de harmonia entre as três esferas que buscariam apoiar-se mutuamente na construção do projeto estético. a interpretação de Habermas é absolutamente ilusória. Para Buerger. Claro está aqui. singular. Para Lyotard. que deve ser de alguma forma recuperada. a arte goza de autonomia própria e aspira à transcendência. dilui-se. As três esferas não têm nenhuma identificação entre si já que a ciência não integra a vida cotidiana. isto é. coisa que a ciência não faz. De um lado. que ainda vê nela a possibilidade de restauração de uma certa utopia perdida. já não é capaz de 12 . deixa transparecer seu objetivo unificador da história e a existência do sujeito totalizador. Isso constitui o que se convencionou chamar de "fenômeno artístico integral". esperança. como um fenômeno em si. Habermas busca a ordem. Para ele. Peter Buerger. da mesma maneira. como nos ambientes interiores e nos próprios edifícios da paisagem urbana instala-se uma total estetização dos ambientes de vida. a experiência geral das pessoas tornou-se estetizada.1988. ela já perdeu sua característica de escandalizar: já não choca. Para Habermas. maneiras públicas de expressão artística. portanto. de uma história. deixando de existir.marcará a divisão de rumos de concepções que pautarão a discussão sobre a pós-modernidade. Por outro lado. o "armazém de significados que se encontram em perigo"(Jay. No debate sobre a questão. Habermas é holista e está na verdade em busca de um "telos" (fim. Habermas. já não atrai. de um futuro utópico de natureza finalista. p. a esfera pública quando critica todos os movimentos chamados vanguardistas e a por ele caracterizada perda do referencial histórico da arte. na sua proposta de revitalização do fenômeno estético. Para ele. realização). que para o pensador alemão as coisas ainda se colocam em termos de uma essência perdida ou mutilada pelo processo histórico. procurando recuperar portanto a concepção de um devir.207). Para Huyssen. aparece Juergen Habermas. pulveriza-se na cultura como um todo. a arte moderna encontra-se num dilema: ela pode recuperar aquilo que está fortemente ameaçado pela devastadora cultura da pós-modernidade mas para isso é preciso que resgate o projeto kantiano de fusão de esferas cognitiva. Andreas Huyssen e JeanFrançois Lyotard colocam-se radicalmente contra a perspectiva habermasiana. a arte é uma manifestação que por seu atrelamento às concepções de mundo e ao espírito do Iluminismo e da razão não tem mais possibilidades nem esperanças de recuperação da aura perdida. A arte na sociedade tecnológica deixou de ser um fenômeno específico. que segue a tradição de Kant e de Adorno em relação à arte. os ambientes gerais que compõem a cultura passaram eles próprios a se tornarem porta-vozes. político-moral e expressivo-estética. a arte ainda é a marca da negação contra o poder totalizador de uma sociedade unidimensional.

com o desaparecimento de todos os padrões de julgamento artístico. Faz-se uma arte em que nada há mais a ser visto. Baudrillard. 1990). tb.resgatar valores. 13 . conceitos ou expressões que tornem as pessoas fixadas e marcadas por eles. Vive-se um período do "transestético" (cf. que só sobrevive como um ritual em relação ao qual nada temos a fazer senão simplesmente crer.

atuavam sob a perspectiva dialética da representatividade. direto. não maquiada. instantânea que dava à representatividade uma apreensão não programada. O cinema e a fotografia. Fotografia e cinema. O primado aqui já não já mais da realidade. no momento atual das tecnologias sofisticadas. com o privilégio da instantaneidade perde-se o componente da plenitude do conhecimento que tinha a ver com uma captação duradoura e exaustiva do objeto. mas da atualidade. "transparente" do real que estava sendo representado. isto é. Por fim. a pintura era a expressão da realidade sob uma perspectiva formalista e através dela chegava-se a um conhecimento pleno. Neste caso. Paul Virilio e Lucien Sfez descrevem o quadro da passagem da Modernidade à Pós-Modernidade (ou: da era do predomínio da lógica da razão à da crise da razão) em três momentos que se completam.Segunda Parte O FRANKENSTEIN TECNOLÓGICO Partindo de perspectivas diferentes. Paul Virilio ------------------------------------------------------Lógica formal Lógica dialética Lógica paradoxal foto. significa uma captação atual. cinema vídeo pintura realidade pleno atualidade conhecimento aproximado virtualidade pouco conhecimento conhecimento ------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------- ------------------------------------------------------Lucien Sfez ------------------------------------------------------Representação Expressão Confusão "com" "em" "por" máquina organismo tautismo bola de bilhar criatura Frankenstein ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Em Virilio. o fotograma. momentânea. marcadas pela videografia e pela 14 . como intervenções técnicas na forma de se reproduzir a realidade.

As partes se relacionam com o todo. já não se trabalha mais com a atualidade mas com um fenômeno que transcende a possibilidade de correspondência do objeto com a imagem real. é uma repetição imperturbável do mesmo no silêncio de um sujeito morto. Os meios de comunicação traduzem o mundo. A comunicação torna-se uma entidade metafísica. vive-se num universo. A segunda visão de mundo é a da expressão. Em Sfez. A tecnologia diz tudo sobre o homem e seu devir.12ss) 15 . nele jogado. não o dominando mas a ele se adaptando. exprimem a natureza. em termos de comunicação. nosso mundo é introduzido por ele e o homem está no mundo. O homem existe pela tecnologia. atinge seu objetivo e é novamente reenviada com a conservação da plena integridade do movimento. A figura desta terceira categoria é Frankenstein. Os meios de comunicação igualmente estão no mundo e o mundo está neles mas não há mais envio de mensagem . Está-se no campo da virtualidade e aqui o conhecimento torna-se absolutamente impreciso. uma vez enviada. da representação. não há sujeito e é o objeto técnico que marca seus limites e determina suas qualidades. e os signos são produtivos como organismos. A figura desta segunda fórmula é a criatura. (Sfez. A figura é a bola de bilhar que. a imagem representa o emissor. em que os objetos são o ambiente natural. o homem domina a máquina e está com ela para seus fins. na visão de mundo da representação.holografia. auto-referente. sujeito/objeto). Nos meios de comunicação ocorre uma ausência de comunicação exatamente pelo próprio excesso de informação. A terceira visão de mundo é a da confusão. p. Há o predomínio da razão e as máquinas representam o homem segundo o princípio da dualidade cartesiana (corpo/espírito. 1988.

o crescimento louco. a transcendência. a representação de si mesmo.TRAÇOS GERAIS DA SOCIEDADE A sociedade da racionalidade técnica. sem aura. A identidade individual fractaliza-se em múltiplos pedaços como cacos de espelho. do circular e do autocentrado. desagregam-se indiferentes às intenções de controle racional dos homens. O imagético é o privilégio da 16 . O outro passa a ser ele mesmo. É aquilo que. Só a nostalgia o restitui como "autêntico". sexuados mas com sexualidade inútil. Nos sistemas como os de comunicação. da duplicação. é constituída por traços gerais novos e próprios. da proliferação ao infinito. multiplicação e morte Nos novos processos que caracterizam a época atual. da potencialização. Vivência imaginária A vivência na sociedade da racionalidade técnica institui o privilégio do imagético. a antecipação da morte no seio da significação viva. de uma "grande gama de dimensões". informação. as formações cancerosas. 1. da finalidade e da função e tornam-se inertes. os atores históricos. É a morte: o ser confunde-se consigo mesmo. desaparecida a confrontação. a fabricação de idênticos. Os sistemas ultrapassam os limites de suas funções reafirmando com isso um funcionamento cego e automático. movimentos e objetos afirmam sua autonomia e auto-realização. No decorrer da exposição eles serão melhor esclarecidos através dos exemplos e das descrições de situações. Crescimento louco. a ausência de regras. desordenado. processo que continua por inércia mesmo quando a causa desaparece. O real desaparece no hiperreal. o girar em torno de si mesmo. (A fundamentação deste item 1 está baseada principalmente em Baudrillard: 1981. o corpo no obeso. 1986. instala-se a lógica da divisão. desaparece o jogo com a aparência. os próprios objetos expandem-se. desinvestidos de sua onipotência. Sujeitos e instituições explodem anômala e arbitrariamente e são as técnicas que "refundem" o social. indiferente à questão do sentido. Sem a representação do original. do virtual. o sexo no pornográfico. Os meios de comunicação são o exemplo mais claro deste processo: forma extrema de clonagem que dispensa o original e em que as coisas só existem para sua reprodutibilidade ilimitada. o ser vivo torna-se matriz artificial. a informação na obscenidade. a proliferação permanente caracterizam seu movimento. o movimento na aceleração e na velocidade. 1983. a individualidade. hipertélicos e mortos. são testemunhas de que os próprios movimentos. Fim da representação sintética. desenvolvem-se. que marcam sua especifidade. agora despidos das fantasias iluministas. da multiplicação serial. 1987a) Com a morte da ilusão do sujeito e o fim das metanarrativas. continua a se mover mecanicamente. produção e destruição. que substitui a da razão humana. apesar de morto. instalase a lógica indiferente da multiplicação serial. as redes na proxenética. realizando-se como histerese. Também nos homens. 2.

atuações numa disponibilidade absoluta da própria história. fontes. no experimentar 17 . agora mais livremente. a realidade externa é menos investida de importância e significação. um girar sideral em que os vetores rodam acima de nós e escapam de nossa realidade. As pessoas tornam-se "perdidas". das dimensões. os líderes. viradas espetaculares. São eclosões repentinas. influenciados. Com o enfraquecimento do ser e o fim do princípio da densidade do sujeito heróico. no pular. É a era do "falso absoluto". Na circularidade. o universo torna-se circular e orbital. as tecnologias enredam os sujeitos. as máquinas. opera-se nos meios de comunicação a ressurreição fictícia e maquiada de acontecimentos do passado. da esquizofrenia. 4. No virtual. decreta a supressão relação de troca social. Narcisismo. minimalismo são os novos comportamentos. O outro. no encapsulamento. o conceito de (transmissão de) mensagens não existe. participações. os computadores. reutilizados e opera-se uma intervenção no passado. que institui modelos. formatos. o culto dos modelos antigos. da geografia. um sujeito sem o peso de uma ontologia. Paralelamente. acessível. Ficcionalização da memória A memória é construída e reconstruída a partir da televisão. no participar. No autocentramento ocorre a negação da espacialidade. 3. o retrô. os media passam a referir-se a si mesmos e a concepção de "mediação" é substituída pela de ficcionalização. no autofechamento. violência explosiva descodificada. não se reflete no infinito. simulacros do que antes era tido como dado histórico. Investe-se no enclausuramento. no correr. da televisão e do ecrã sobre a palavra.imagem. A informação não transcende. deixando de ser nosso espelho. necessidade de provar a própria existência. As simulações. as ficções tornam-se vida. do acesso ao imaginário. A memória torna-se fato disponível. da solidão e do desejo de suicídio. os fatos são reaproveitados. a abolição dos tempos e o uso aleatório de símbolos históricos. dados. procedimentos. eletronicamente recuperável e os componentes da antiga historiografia têm seu contexto relativizado ao extremo. Ao lado da livre pilhagem do fato histórico. produzidos ou determinados por homens ou grupos mas acontecimentos que irrompem de forma imprevista e imprevisível. os fatos já não são conduzidos. na concentraçãocondensação do espaço. com a elevação do status do objeto. no exercitar. este sobrepõe-se ao real. tampouco toca o real. de uma história. manipulando-se. é o domínio das máscaras. as identidades agora flutuam. o som e o tato. coloca-se em seu lugar uma ética performática. Esvaziamento do ser O enfraquecimento do ser coloca-se na razão direta da elevação do status do objeto. no movimentar-se. de surpresa. de uma ética investe no agir. os modelos ocupam o real. O momento desacredita os heróis. flexível.

a circularidade vertiginosa em que o homem e o ser perdem seu caráter metafísico. ridicularização de tudo. do feio. o descrédito dos princípios. das consequências. o enfraquecimento do ser. o fim da razão abstrata. (Investigações Filosóficas). em todos os campos são penetrados pelo seu discurso. eliminação da negatividade (do pobre. da pulverização. da descontinuidade. na velocidade. As técnicas invadem todas as áreas e não só a da difusão de informação. I . do inferior). O investimento é no corpo. lazer. o niilismo e o ceticismo. Atrás das emoções não há nada. a negação do maldito e a purificação de negação: assepsia. dos resultados. a queda do prestígio das instituições e das autoridades. e tudo isso cercado por uma quantidade de novos subúrbios. 1988. indiferença e cinismo. comunicação. do ideal" e enaltece-se o jogo e a festa. Instala-se o princípio da fragmentação. Administração. na emoção pura. em suma. 18 . das metanarrativas. Tecnologias A vida social. Em lugar da visão do social como uma totalidade passa-se a encarar a sociedade como equivalente àquilo que metaforicamente Wittgenstein aplicava à linguagem. Sua função é de agregar uma sociedade que se desintegrou.20). política e cultural das sociedades pós-industriais é inteiramente marcada pelos efeitos das novas tecnologias de comunicação e informação. prevalece o negativismo. das categorias clássicas. embranquecimento. O homem dentro desta complexidade marcada pela sofisticação técnica vive pela primeira vez e com toda a intensidade a crise do humanismo apontada por Heidegger. o relacionamento com o mundo é marcado pela ironia. Paralelamente ao investimento no agir.TECNOLOGIAS E MEIOS DE COMUNICAÇÃO 1. Substituição dos sistemas lógicos A destituição dos antigos grandes códigos. dos fatos fundadores ocorre em contrapartida ao privilégio das coisas úteis. (Sfez. Estamos diante de um cenário cibernético-informático que recompõe todo o real segundo novos critérios e novas formas. da missão. os gêneros e estilos misturam-se. sistemas de transporte. da imposição universal e provocação do mundo técnico. marcado pelo enraizamento de princípios iluministas. a Ge-Stell que assinala o ocaso desse humanismo e o aparecimento do que ele chamava de Ereignis. Suprime-se a "seriedade do compromisso. educação. na euforia e no êxtase.emoções pura e simplesmente. O universo torna-se pluralista. das práticas. No campo da crítica. casas novas e velhas e casas contruídas em diferentes épocas. No campo dos atores culturais. É o ápice da técnica. 5. uma descontinuidade sem centro: "uma velha cidade com uma rede de vielas e praças. com ruas retas e regulares e com casas uniformes". p. direito.

de um eterno pular de ponto em ponto. Trata-se de um processo angustiante de troca em que as pessoas são compelidas por uma pulsão incontrolável de trocar de carro. lugares. semi-metal. e até mesmo da mão-de-obra. p. o computador é um contato quase sensual (Turkle. dos processos do trabalho. dos atos e dos comportamentos. 19 .A técnica. A alta velocidade trouxe como consequências a acentuada volaticidade e efemeralidade das modas. a criação de material técnico. inclusive a de valores. p. de emprego. das idéias. povos. edifícios. nosso duplo. de roupas etc.). de companheiro. criação do homem. a busca contínua por outra coisa e no momento de sua obtenção ela como que automaticamente se dilui. entidades e modos de comportamento flutuantes. que criamos. A ênfase já desloca-se do conceito de "sentido". De dependente passa assumir cada vez mais contornos de autonomia e de liberdade de movimentos. desenvolve formas de malícia.1. os bens. Como way of life é o "segundo eu" encontrado no computador.173ss. precursor remoto do endeusamento da máquina. a produção. Oscila-se o tempo todo entre um estado de expectativa angustiante e de prazer e euforia que rapidamente se desfaz. formas autênticas de fazer e se ser. relacionamentos estáveis. adquirem autonomia e poder". o domínio de percursos geográficos. 1. uma das categorias mais decisivas da nova era da técnica.15) Cada vez mais o homem constitui-se de forma maquínica como robotização humana. Marinetti. vive-se contínuamente na expectativa do provável. matérias tornam-se somente componentes físicos de uma sensação. Estimula-se. da inovação técnica. da fixação em coisas. o movimento que se opõe à permanência. semi-carne. de trapaça. de casa. Em alta velocidade dá-se a transmissão de informações. já via o ferro e a madeira como "mais apaixonantes que a mulher". da mera existência física. estilos de vida. A velocidade Mas as máquinas não são apenas os computadores penetrando cada vez mais amplamente em todos os ambientes da vida pública e privada. da materialidade. assinala esse ponto de virada na história humana. O enfraquecimento do homem vem na razão direta desse fortalecimento da técnica. É uma pulsação incessante pelo devir sem nenhum investimento substantivo no estar: não se está em lugar nenhum. É um estado de permanente flutuação acima das coisas. produtos. 1988. Como sensualidade. "As máquinas. É o girar. a um ritmo crescente. Valoriza-se a instantaneidade e a descartabilidade. ideologias e práticas pré-estabelecidas. cada vez mais a máquina assume o espírito da natureza e através da inteligência artificial humaniza-se. A rapidez do envio de mensagens e comunicados encontra um paralelo no conceito de velocidade. A tecnologia nesta fase torna-se "way of life" e sensualidade. a rotatividade dos objetos e materiais que servem nosso cotidiano. de cordialidade convivial. (Sfez.l984. recriando novamente a busca. distribuição e consumo de bens e serviços.

banaliza a morte. que consiga restituir emoções que nenhum outro modelo hoje mais alcança. A velocidade está no costume com o conforto. menor é o tempo que liga o ponto de chegada ao de partida. como a própria angústia. Quanto mais rápido o carro segue pelas estradas. logicamente associada aos destinos da ontologia. só se estimula. A velocidade de deslocamento não é mais do que a sofisticação da fuga". Faz-se hoje muito mais do que qualquer pessoa das gerações passadas poderia fazer. Mas este subordina-se. a uma vivência trágica. a um princípio filosófico. a uma ideologia política) as pessoas buscam sair da angústia do esvaziamento através de novas formas de metafísica. viver uma vida elevada a uma potência jamais imaginada no passado.Desaparecendo os clássicos componentes estruturantes da realidade de cada um (forte ligação à religião. "Montar um animal ou sentar-se num veículo automotor é preparar-se para morrer no momento da partida e renascer na chegada . ao contrário. isto é. (idem. Daí a sensação de tudo ter sido vivido. a velocidade também significa o envelhecimento prematuro. que compõem um visual composto de pouca fixação. ganha-se em quantidade na razão inversa da apreensão exaustiva. de uma série de afloramentos. ou seja. de ausência de prazer no novo e de uma angústia de envelhecimento precoce. reduzidos. naquilo que nos faz reduzir o senso de tocar. o renascimento religioso.. A paisagem desaparece com a velocidade. menor é o registro real do ambiente externo. condensadamente. mais rápido o tempo passa. A era das emoções e do êxtase. 1980. (Virilio. p. É como um filme de rotação acelerada. 1984. pp. mais o ambiente se priva de significação. a busca de uma "verdade eterna" acaba funcionando como um oportuno substituto deste estado de coisas marcado pelo flutuar acima de qualquer envolvimento mais efetivo. Também os lugares mudam de significado na destruição geográfica das distâncias. comprimidos. É uma forma de pseudomistificação numa sociedade altamente racionalizada. que faz o jogo fascinante de brincar com ela. em última análise. de tal forma que mediante todos os recursos que temos à disposição pelas tecnologias podemos em uma só vida viver experiências que num passado distante exigiam muitas.43) A velocidade tornou os fatos da vida cotidiana absolutamente sintéticos. Cada vez mais o panorama que é atravessado pela autopista e através dela pelo veículo que corre deixa de existir realmente. fazer circular um maior número de parceiros e. só se trabalha naquilo que "inibe a morte". tornando-se apenas uma sequência enfileirada de diagramas. trocar diversas vezes de ocupação. de toques e de deslizes furtivos. na medida que torna-a medidade de suas próprias forças de estímulo: só se investe.. Pode-se viajar milhares de vezes pelo mundo. cuidadora e compenetrada da experiência. do qual pouco nos é dado captar e sentir. de sentir o contacto muscular com as matérias e volumes em proveito. condensados. (Virilio. Para Virilio. Assim. de esgotamento.43-47) A saída da angústia estaria naturalmente no suicídio. p.61) É Virilio que vai caracterizar também a velocidade como uma forma de morte. ao contrário. A atenção 20 . O aumento da velocidade é a curva de crescimento da angústia. em que mais o movimento se acelera.

73). O automóvel substitui o cinema e as filas nos guichês tornaram-se as filas nos pedágios (Virilio. nenhum destino. contrariamente aos transportes em comum. parar. em suma.77) Com isso. da mudança de importância do espaço geográfico urbano ou mesmo das grandes áreas rurais só poderia conduzir a uma alteração da importância das cidades. como "horizonte negativo"(Virilio). como o sistema que o coloca em órbita nesta sideralização do cotidiano. 1980. ao contrário. Não ir a parte alguma. que passam a sugar todo o capital circulante da cidade e funcionar como pólos portadores de significação e importância dentro do quadro dos signos do consumo. A solidão do motorista é equivalente às demais formas de solidão. Dentro do automóvel. espaços turísticos privilegiados que concorrem para a verticalização de um investimento social provocando a reordenação do tecido urbano. p. das pessoas que em casa ouvem rádio ou assistem TV apenas para que perto delas "algo fale". comércio e nos diferentes bairros. Assim são os shoppings centers. 1980. A utilização da máquina torna-se um fim em si. assiste-se. As cidades esvaziam-se não no sentido da concepção medieval de cultura e sociedade mas pelo despovoamento dos habitantes dentro do próprio espaço urbano. à ruina urbana contrabalançada pela progressiva eleição de pontos de alto investimento comercial-publicitário. Além do meu carro nada mais existe. Em vez da expansão extensiva. como o computador e a televisão. o mundo perde significação. clubes e associações semifechados. p. o caminho da sua própria diluição no campo de registro do motorista. E a decrescente importância do outro como possibilidade de contacto e comunicação encontra similar no próprio declínio do ambiente. a periferia é sem registro. o que cria fatalmente novas condições de viagem. gira no vazio. 1. cada indivíduo encontra o seu "lar": sua vida itinerante e permanentemente em movimento tem como correspondência tecnológica o automóvel. O declínio da indústria cinematográfica não se deveu apenas á expansão da televisão. o uso do automóvel torna-se um fenômeno em si absolutamente hipertélico: busca mais locomoção do que a própria locomoção. tendência esta que é registrada também em outros sistemas da Sociedade Frankenstein. estacionar são operações desagradáveis e mesmo o condutor detesta ir a qualquer parte ou a alguém. lazer. Ao contrário. visitar uma pessoa ou ir a um espetáculo parece-lhe um esforço sobrehumano". No trajeto. a miséria "desaparece". A transformação da cidade A lógica do desaparecimento da paisagem.reeduca-se no hábito da apreensão acelerada e múltipla de estímulos. 21 . mesmo girar em círculos num quarteirão desértico ou numa pista periférica obstruída parece natural ao voyeur-voyageur. da secundarização do outro. alterando radicalmente o intervalo de sensações registradas. difusa e horizontal da população nos centros de cultura. não é a priori uma questão de distâncias a cumprir.2. independente do que na verdade esteja sendo dito. Esta teve também como correlato o desenvolvimento da motorização.(Virilio. "A utilização desenfreada do automóvel e da moto não tem. todas as existências físicas que são atravessadas seguem.

Les Halles.A cidade extensiva perde cada vez mais importância. como o telefonema. como a cidade. As ruas. às informações culturais bem como a outras pessoas realizando à distância aquilo que no passado marcava a comunicação face-a-face. totalmente reconstruída apenas para servir de propaganda de uma visão de mundo que visava bombardear o projeto socialista oriental. torna-se espaço das populações mais desfavorecidas e a vida de fato desloca-se para espaços que já não são mais públicos mas propriedade de instituições econômicas. Mudando-se sua importância como espaço de exercício de cidadania. a cidade como pólis pauperiza-se. mas apenas como trajeto. na geometria. ela nega-o e o exclui. deixando de ser o espaço de discussão pública. de poder político. Mas o fenômeno não é apenas norte-americano. La Villette são literalmente monumentos ou antimonumentos publicitários (Baudrillard. como qualquer outro. o prazo de fixação da imagem arquitetônica foi estabelecido para 12 anos.118). que era historicidade cristalizada através dos edifícios e monumentos antigos. haja vista a volta que faz todo o sistema de comunicação para que cheguemos a ele. chega à central para depois ser reconduzido pelos cabos até o vizinho do lado. 1981. da mesma forma toda a sistemática de comunicação supõe necessariamente o enredamento de todos num sistema complexo para o qual a metáfora da sideralização parece ser a mais pertinente. as cidades tornam-se agora territórios-suporte. Na rapidez de mobilização de um ponto a outro está a marca de uma progressiva desertificação urbana. que parte de nós. que se impunha de forma quase espontânea contra o processo de varrimento do espapo urbano como território de convivência social. Assim. Berlim foi durante mais de 40 anos uma cidade simulacro. p. e os trens subterrâneos fazem da cidade um espaço em que pessoas transitam invisivelmente. p. políticas. da organização. do grafite vândalo. a própria figura do vizinho transforma-se. experimenta um reaproveitamento tornando-se pura estética de comunicação e publicidade: "a arquitetura está na armação. As grandes cidades não prevêem espaço para o pedestre. podem ligar-se aos centros de comércio. A rua não registra o ambiente. cuja função é negar o ambiente. no espaço-tempo dos vetores e a estética da armação dissimula-se nos efeitos especiais da máquina de comunicação". passando a ser. passam a ser o espaço dos ratos onde a população desapareceu.(Virilio. uma figura desconhecida e estranha. 1980.74-5) E também a publicidade ordena a arquitetura e a realização de superobjetos: Beaubourg. da miséria estética. Neste sentido. Em Manhattan. como é o caso de Brasília. Cada pessoa como 22 . É uma presença que apesar da proximidade física distancia-se anos-luzes de nós. A própria arquitetura urbana. gigantescos painéis de poluição publicitária. Quem atravessa as ruas com seus veículos em velocidade não a sente mais como espaço social. aos bancos. A rua passa a ser apenas espaço de trânsito e da velocidade. Os equipamentos eletrônicos criam com este esvaziamento uma "nova relação de comunicação" em que as pessoas dentro de suas casas. culturais. Mas o despovoamento urbano ocorre também com a rapidez dos transportes e dos sistemas de comunicação que acabaram por banir das cidades todos os locais por onde as pessoas poderiam circular. diantes de sistemas eletrônicos.

A trama enciclopédica deixa de ser objeto do investimento intelectual. regras. da mesma forma. que tinha seu espírito simbolizado pela Bildung. diante da crise de significação e validade. os valores desagragam-se e os símbolos mais usados não servem mais para unificar (Sfez. A velha ciência substitui seus critérios de avaliação e de identidade anteriores. O novo status do saber O impacto da plena expansão da técnica e da tecnologia na sociedade ocorre de forma intensiva no campo do saber e da ciência. Meios de comunicação A técnica ocupa o lugar da comunicação humana introduzindo um novo modelo comunicacional.3. Trata-se agora de uma forma de comunicação numa sociedade que não sabe mais se comunicar consigo mesma e em que a coesão é contestada. voltado à administração pública e à moral e que se colocava como instância de avaliação e de juízo acima do social. uma política. Especialmente as ciências sociais. realizador (ou possibilitador) da "epopéia da emancipação". que orientava uma ética. 2.estrela brilhante que se comunica pela luz com outras. simulamnos ou perdem-se na busca histérica da causalidade. 1988. os critérios modernistas com o desenvolvimento técnico. independente das imposições econômicas e políticas. O saber maior. vai-se do "poder ser" ao "há de ser verdade" e a sociedade torna-se uma sólida trama de confiança. sem troca com o social e incorporado às atividades econômico-empresariais. O novo saber. A ênfase agora recai nos meios e não mais na especulação e investe-se na otimização das performances. que perdeu as referências. normas e principalmente legitimações particulares. apontando para a angústia da sobrevivência destes próprios saberes. 1. pelo conhecimento autônomo. p. O saber. O ensino tende ao aprendizado técnico-prático e as universidades cada vez mais formam competências para repassar saberes específicos e formados à la carte.36). a saber. resgata a legitimação agora somente através do consenso dos próprios pesquisadores. O desenvolvimento da técnica e a multiplicação dos sistemas eletrônicos (hardware) alteraram radicalmente a circulação do conhecimento. diferente do século XIX. cede espaço ao saber puramente operatório. reduzidas e localizadas. Com o fim dos grandes códigos e da razão abstrata. uma filosofia. tornando os professores meros instrutores da operacionalidade técnica. Conforme Hassan (1988. os padrões da validade. a ciência passa a viver segundo critérios. mas que está infinitamente distante delas. a esfera cognitiva é checada em sua natureza última.16). 23 . p. na procura de responsabilidade ou na "impaciência do saber" (Lyotard). é substituído pela simples crença que é o que passa a regulá-lo. Tanto quanto o âmbito estético-expressivo. passam a fabricar seus objetos. marcado pela expansão técnica em todos os campos. destituído de poder. pela paralogia: é aceito pela comunidade científica da área aquilo que é simplesmente plausível.

mas agora trata-se de um "movimento na rigidez".1. tratam. O fenômeno da autoreferencialidade está nos jornais cuja notícia são eles mesmos. A imagem vista de uma carruagem já não é mais a que um 24 . São os media narcisos. se sentem. O século XV foi marcado pelas representações estético-visuais do centralismo-perspectivista. ao seu cálculo. Em outro plano. o olhar sempre esteve em posição privilegiada. à sua rigidez. isto é. ela própria. como ocorre no teatro. a privacidade. através de sua "obscenidade"(v. a intimidade e o mistério. A começar pela expressão artística da pintura.É uma comunicação aplicada a uma realidade em que as pessoas já não mais se olham. o que recebeu maior investimento estético. falam. produção livre de conteúdos. O homem enquanto pai. A Informação). O processo televisivo 2. do deslocamento visual. na reprodução eletrônica. é. como aquilo que se move quando colocado sobre trilhos.1. continuando até os desdobramentos de que a visão passou a ser objeto a partir da invenção da fotografia e. No momento em que a comunicação invade todas as esferas do social. opositor do precedente policentrismo. adiante: 2. Ela alimenta-se exatamente da vida íntima e do fato de tornar público este universo. e também é a primeira manifestação de a imagem assumir o caráter de mercadoria e deixar de ser sagrada. as formas de comunicação implodem os conceitos de esfera pública e esfera privada. É o período em que o olho descorporificado de Deus é substituído pelo do monarca. Expressões dessa época são Da Vinci. o que foi mais explorado politicamente e mais seduzido do ponto de vista econômico foi. fábrica de estórias. a visão. se falam. Antecipava o racionalismo e desenvolvia uma arte mais ou menos similar ao desenvolvimento do capitalismo. se tocam. pelo espaço íntimo e do sagrado. A visão Entre todos os sentidos humanos. Maquiavel e Duerer. mais recentemente. do ritmo e do movimento das expressões artísticas da Idade Média tardia. As redes de comunicação do passado. na Alta Renascença. citoyen ou bourgeois era quem defendia a relação entre público e privado. polemizam consigo mesmas. Galileu. ela não mais funcionando como intermediação (ponte) entre o mundo e os lares. que representava de forma analógica a ordenação do mundo e das idéias do Período Renascentista.. Mais além. 2. nos quais o único referente para a transmissão pública são suas próprias maquinações e fabricações. Autonomiza-se o território separado de registro e sincroniza-se com a produção de bens em seu movimento externo.1. rompendo a antiga esfera auto-suficiente e autônoma do privado. nas televisões que focalizam. O surgimento da Era Burguesa caracteriza-se pelo início da mobilidade da perspectiva. sem dúvida alguma. eram marcadas pela privacidade. ganha corpo a tendência de retorno ao movimento. Mais tarde. A época de Ticiano é que dá destaque ao primeiro plano. ela anula. as que se articulavam no interior das instituições sociais.

o espaço intermediário e a proximidade do primeiro plano. Da mesma forma que o trem. A carruagem marcará o início do desaparecimento do espaço intermediário.e observá-la em detalhes. é a restituição da experiência intensiva com o mundo. que recupera novamente a capacidade de o homem observar uma cena parada. A reprodução eletrônica da imagem traz consequências que têm a ver com a debilitação e a subutilização dos sentidos. no olhar fascinado a uma representação sem fundo. retorno daquilo que o trem havia liquidado. menos se imagina. do atrofiamento da distância entre centro e periferia. esvai-se. que levará mais tarde os homens a questionar o próprio sentido da metafísica e de sua existência enquanto seres com estruturas estáveis. Pela primeira vez. A diminuição da percepção tem a ver com a própria capacidade imaginativa. O olhar do homem. Pelo fato de a imagem não estar mais parada mas ilusoriamente em movimento através dos sinais eletrônicos.através da imagem e da forma como ela realiza a desintegração da unidade e o fim da perspectiva . o próprio olhar torna-se limitado. a possibilidade de o homem parar sobre cada imagem . temse aqui a quebra da aura da cena. a intimidade. enraizadas ou culturalmente consolidadas. em que as figuras representam o movimento. Quanto menos se vê. se trocam e se somam toma o lugar de uma única cena cujo tempo de observação original agora 25 . a linguagem. que cada vez mais avança sobre os espaços da vivência humana. com profundidade. que levou à destituição dos monarcas e de supressão de Deus. A fotografia é o ponto culminante da reprodução centralperspectivista. A forma de apreciar a paisagem através do movimento tem a ver diretamente com o declínio do tempo de retenção da imagem na memória. O movimento da imagem substitui o do olhar exaustivo da imagem. A fotografia de certa forma faz ressurgir a aura da paisagem destruída pelo trem. Agora é o observador que caminha e a paisagem transforma-se à medida que ele a percorre. O volume de cenas que se intercalam. a segunda natureza do homem deixa de ser a cidade. isto é. explorando cada espaço. que antes da sofisticação dos sistemas de comunicação voltava-se a seu ambiente. A técnica acaba com o "ponto central no mundo". a velocidade do percurso do observador passa a reduzir a capacidade informativa do que ele vê. Esta passa a simular o processo de comunicação: comunicação de quem agora já não tem mais nada a dizer. Saindo da paisagem. cada perspectiva.homem parado vê numa tela ou num afresco. para o mecanismo de reprodução. à natureza. que se expande também nesta época. Em primeiro lugar. para ser a própria técnica. a arte. ao outro. Este desenvolvimento só será interrompido com a descoberta da fotografia. cada ângulo. centra-se agora num objeto técnico puro. Por meio da reprodução eletrônica. O processo de industrialização em seus desdobramentos com a técnica. a aura desloca-se para o funcionamento. deixa transparente .a mudança de orientação das visões de mundo.como na fotografia . no funcionamento de sua estrutura.

. A reprodução eletrônica das imagens fabrica. O homem já passa a ser um componente dispensável em todo este processo. num objeto real . Pode-se assim reduzir uma imagem por meio da pura elaboração de dados. O olhar da era das altas tecnologias é dispersão e cintilação. Antes. O sistema. fabricação encerrada no próprio universo do meio. Partindo dos dados de um objeto dado. nem com uma referência a um sujeito. p. temos um processo de permanente metamorfose. que já pode dispensar a participação do homem. o computador pode produzir uma quantidade quase infinita de imagens. como foi dito. intelectuais sobre as coisas que eram vistas. pode produzir as formas de imagens e também de arte. de formas que outrora caracterizavam a experiência estética ou a experimentação artística em geral. deixando qualquer possibilidade de vinculação mais densa com um conteúdo conceitual. O computador trabalha esses números e formas.. não é mais a reprodução mais ou menos exata de um original. com a única diferença de que nelas aqui se instala um processo criativo original. Praticamente nesta fase eletrônica o modelo já perde totalmente sua necessidade de existência. cada vez menos as palavras são utilizadas para criar uma representação simbólica das coisas. Assim o resume Edmund Couchot: "Uma imagem numérica é uma mensagem reduzida a números. Com o final da antropomorfia da forma e a criação de formas sempre novas. Da mesma forma.distribui-se em diversas cenas. criação exclusiva. as imagens substituem-se a si mesmas. a dificuldade progressiva de compreender o que se lê. através da imagem eletrônica. A imagem numérica não é mais a transposição de um modelo determinado.. Com a imagerie. com uma profundidade de reflexão ou pensamento. criam-se as imagens sem suporte. Consequência é o processo de dislexia. de objetos. que já não tem mais nada a ver com um original. que garantiria a própria lógica da criação. teóricas. uma duplicata ópticoquímica como a fotografia. (Couchot. cada vez mais as imagens sobrepõem-se e constróem por si mesmas a realidade visual imaginária do receptor. 1985. em oposição a um imaginário cultural herdado ou constituído através de outros media.124). Os sistemas eletrônicos substituem os homens inclusive nesta produção infinita de cenas. desenvolve-se um certo tipo de produção do imaginário através da máquina. criando relações conceituais. Este momento é radical: a partir de agora a produção de imagens deixou de ser uma característica essencialmente humana. Hoje.. pela dificuldade correlata de se representar. visualiza os resultados por meio de um aparelho de vídeo ou de uma impressora. Com o desenvolvimento do fotograma em movimento (cinema) e no presente. Já ultrapassamos o processo em que o simulacro devora seu modelo. iniciada pela rapidez do movimento com o trem e depois com os 26 . ele próprio. um conjunto próprio de imagens. as imagens poderiam ser substituídas por palavras. As imagens é que se alteram de forma arbitrária e livre como num caleidoscópio. com mais intensidade. O próprio sistema fabrica multiplicidades cada vez mais diversas e distintas de imagens. Não é preciso mais basear-se num modelo. é uma imagem com possibilidades infinitas". sistemas eletrônicos radicalizam a liquidação da geografia.

a integração dos meios de comunicação torna a vivência territorial um fenômeno absolutamente imaginário. Estas. Já não se mora em um determinado lugar. 27 . por encerrar em si toda uma complexidade de sistemas de prestígio. (Kroker. nenhum deles tem o status da origem e da meta. Os demais meios de comunicação tornaram-se cópias da televisão. do homem atuante. 1988. O que escapa da TV. Por ser todo um universo. não é reflexo da sociedade. produtos de segunda ordem. nem da forma mercadoria.transportes mais rápidos. cada local é alcançável por qualquer outro. passaram a imitar sua linguagem.2. da possibilidade de explicar e administrar o real. Ela não é nem a tela nem o telespectador. A televisão A televisão constitui o ponto de ruptura entre o universo sociológico marcado pelas metanarrativas. As pessoas que estão próximas não são os vizinhos. margem de todo um sistema. Ela devolve nossa própria angústia com signos simulados e hiperreais de vida". mas a crise também invadiu o teatro. por um lado. É a sociedade que é seu reflexo. uma rapidez na decodificação de imagens visuais e uma forma de apreender o real baseada apenas neste jogo de trocas simultâneas de cenas e da construção de uma narrativa e de uma dramaturgia muito específicas. pensa-se em algo que transcende o aparelho em si. mas ocupa-se um espaço. todas as coisas que escapam do seu campo ou que não são por ela absorvidos tornam-se necessariamente periferia. Isso porque. sendo periferia. por outro. p. Quando se fala de televisão. A televisão. não tem registro. É todo um mundo. não há mais vizinhança localizada. através dos sistemas de comunicação. regionais ou nacionais de programas de jornalismo e entretenimento para uma sociedade. amplificando tecnologicamente todos os nossos sentidos e desenvolvendo funções sensóreas em forma processada de imagens e sons mutantes . Se a extensão física territorial tornou-se um componente cada vez menos importante na era eletrônica. Ela faz parte de um "gigantesco e exteriorizado sistema nervoso eletrônico. entram em declínio e perdem a identidade. especialmente os urbanos e aéreos. projeção e publicidade.277). mas um "complexo espaço virtual entre ambos" (Baudrillard). tampouco reprodução de ideologia. A televisão é muito mais do que a simples transmissão em cadeias locais. os discursos da emancipação. 2. no entender de Kroker. Os lugares são exceção do espaço. e o mundo das técnicas e da hiperrealidade.1. É portanto um universo que transcende em muito as programações das emissoras. ela é o mundo real da economia e da sociedade (Kroker. a partir do predomínio da televisão. O cinema é o exemplo mais flagrante deste processo. o rádio e o jornal. pois institui-se uma circulação de comunicados em todas as direções.. "não tem importância". seu ritmo e sua dinâmica. a relação e mesmo a materialidade dos sistemas de transmissão. 1988. O predomínio da televisão a partir dos nos 60 significou não só que ela passou a se destacar diante das demais formas de comunicação mas também a dominá-las e submetê-las.268). diz Vincent Descombes. p.. A televisão impõe à sociedade uma velocidade de leitura.

1. acima de tudo. marcado por um sequenciamento de cenas e de interrupções que seguem uma lógica própria. É um sistema de pura fascinação.5. A densidade televisiva A televisão é o veículo por excelência da pós-modernidade. desejo simulado como disposições programadas. A linguagem Na televisão. a maneira como a televisão se apresenta é como monólogo e.134). na forma como MacLuhan interpreta os meios como nossos prolongamentos em relação ao mundo exterior. O tempo televisivo A televisão joga com a categoria do tempo operando-o de forma própria e independente dos conceitos cronológicos usuais. são estribilhos que se repetem.Em vez de ser reflexo da forma mercadoria. É uma forma de liquidificador geral. o real desaparece completamente e é sua desintegração que aparece pelo processo eletrônico do medium.1.1. a televisão. p. 1956. Requena diz que sua fala é incessante e vazia. o que se fala está fora de qualquer contexto externo mas. a televisão é a expressão viva e mais acabada desta.4. 2. não cessando de falar para nada dizer. 2. 28 . aprofundamentos. tempo visual que se sobrepõe a um tempo real e impõese de fato como o único tempo. tudo circula a velocidades vertiginosas e alucinantes. É um tempo artificial e manipulado. a saber. Trata-se do tempo da tecnologia. de tal forma que a sucessão de cenas constitui um novo reordenamento da existência visual. que mistura as mais diferentes matérias e submete-as todas a um mesmo tipo de tratamento ou "branqueamento". 2. por um lado. como mencionado.61). Anders. auto-referente. Ela não conhece estruturas permanentes. no cultural. Nada pára. aponta o autor canadense. Ela é. investimentos intensivos. e ao mesmo tempo interiorização. tornando-as absolutamente inóquoas. Nela tudo é como que "chapado". Há na televisão a abolição dos diferentes tempos com a supressão da consciência do atrofiamento do presente: "só o simultâneo é o verdadeiro presente" (G. tecnológicos. Diferente do congelamento fotográfico da imagem. É o primeiro medium cultural em toda a história a apresentar "a realização artística do passado como colagem estruturada junto com fenômenos equiimportantes e simultaneamente existentes. cf. Nas suas "representações".. 1988. segmentada. ela é a própria ideologia. Harvey. falando todo o tempo. que as pessoas acionam para funcionar durante todo o tempo e que fica falando em geral para si mesma. enraizamentos no social. amplamente divorciados da história geográfica e material" (Taylor. Em vez de ser reprodução de ideologias. é um tempo de permanente fluidez. agora segundo novos parâmetros. p.3. ao contrário. no histórico. densidades. exteriorização de nossos sentidos.

desapareceram as condições de se julgar e avaliar os efeitos ou os crimes cometidos na história passada. Construindo-se um vício de narrativas "defeituosas" estimula-se o desinteresse 29 . Assim. produzindo-se. Não "passa" mais nada. já não dá mais para verificá-los e compreendêlos. É conhecido o fenômeno de que no Brasil as passeatas não se constituam até a chegada dos cinegrafistas da televisão. Só quando estes põem suas máquinas a postos e começam a filmar é que se compõem os movimentos de protesto. a telenovela é a "hipertrofia cancerígena do relato"(p. acabando de vez com a separação entre a ficção e jornalismo. A televisão. No mesmo momento em que desenvolve a pregação moral contra eles. E neste produzir constante de fatos jornalísticos. a telenovela segue a forma de sinuosidades que sobem e descem durante o desenvolvimento de meses ou até anos. através de uma curvatura (em que de um drama originalmente instalado ocorrem seus desdobramentos até que o fato chegue a uma certa consecução). Assim. de tal forma que põem em dúvida qualquer demonstração ou prova a favor de qualquer tese. no entender de Umberto Eco. todos os dados a respeito já sofreram um amplo processo de mutilação e de produção de modelos e de simulacros. através do show de imagens. Baudrillard aponta o exemplo do filme "Síndrome da China" em que a televisão entra numa central nuclear e provoca um acidente. portavam faixas dizendo "Queremos a imprensa". pela sua forma não verbal. os manifestantes em vez de fazer reivindicações de caráter social. Nas produções dramáticas revela-se também o caráter implosivo que possui a televisão diante dos fatos da cultura. não se desenvolvendo desta forma. a televisão demonstra. dentro de seu caráter de absoluto tratamento de superfície de todos os fatos . ela produz também fatos culturais. dissolvendose logo em seguida. Ela própria é que constrói o espetáculo. no momento em que as câmeras são desligadas. o espetacular de todo o circo sádico do terror. Mas não é só aí que tais fatos acontecem. então. políticos e mesmo históricos: "nossa realidade passou pelos media.A TV. Para Requena. Em Simulacros e simulações. acabaramse todos os instrumentos de sua inteligibilidade. de vez que todas as provas. Isto tem como consequência a implosão da cultura narrativa. Inclusive os acontecimentos trágicos do passado" (Baudrillard). A televisão não tem mais contacto com o mundo exterior e no que ela apresenta e fala é ela própria o grande personagem. perdeu sua transparência. Da mesma forma. em vez de reproduzir a narrativa como classicamente se conhece. de forma patológica. mesmo os componentes hoje mais radicais da cena política. um desvio de desenvolvimento que passa a ser associado à forma cancerígena. onde ocorre o esgotamento das eleições narrativas e um prolongamento doentio da trama original. O jornalismo é o seu melhor produto ficcional. Mais ainda. as formas de terrorismo. em recentes quebra-quebras da cidade de São Paulo. como curva. subtramas da trama principal e provocando-se. joga com os desdobramentos narrativos segundo a maior ou menor oscilação de seu público telespectador.pois depois de serem retrabalhados por intermédio da televisão. econômicos. são ao mesmo tempo criticados e enaltecidos pelo medium.122). Para este autor.

1931). filmes de aventuras ou histórias de família usa-se de esquemas simplificados e de fácil assimilação para construir formalmente as tramas. ao contrário. também o cinema e. de eliminar qualquer regra restritiva de princípios. as avenidas. sejam eles telenovelas. mas com maior destaque na televisão. Apesar desse "processo industrial" de criação de bens culturais de consumo para as massas. as obras feitas segundo as próprias leis.p. investindo-se. séries criminais. Prokop comenta que isso não se aplica apenas às obras de arte mas a qualquer obra que faça parte do universo televisivo. Conforme Dieter Prokop. Para exemplificar. as ruas. bárbaro.2. A Informação Nos media em geral. em agilidade formal. A fórmula do sucesso público é e será sempre uma incógnita para todos os programadores de comunicação. De acordo com Brecht. que não só etimologicamente é a ela próximo. retorne com o êxito esperado. a informação ganha um caráter de "obscenidade". os modelos dramatúrgicos da televisão trabalham com extremos de questionamento e reconstrução da ordem na sociedade.) e assim se vendem " (Brecht. o teatro passaram a usar da mesma maneira estes componentes formais. lâmpadas etc. (Prokop. com os quais já não se pode andar e que então são desmontados em suas unidades menores (metais. em signos como componentes específicos da televisão para a montagem de seus dramas. simplificados.78). que reúne peças de "sucesso garantido".1931). em fantasia-clichê. o espaço público (Virilio. A investigação policial (violação de correspondência na revolução) pretendia "esclarecer" o espaço privado como havia-se anteriormente iluminado o teatro. de certa forma. 30 . desmontadas em seus elementos aproveitáveis: essa desmontagem das obras de arte pode ocorrer. que seja expressão adequada de uma personalidade na ideologia burguesa. Prokop fala em esportividade. a ânsia de tornar demasiado visível e transparente. 2. bem como revela um novo tipo de espírito que se instalou na França a partir da Revolução Francesa e de seu caráter. Prokop cita Brecht: "Para melhor chegar ao mercado. em primeiro lugar. uma obra de arte. segundo as mesmas leis do mercado que as dos carros que se tornaram inutilizáveis. não há nenhuma garantia de que essa colcha de retalhos. Para estes produtos. isolados no mercado" (Brecht. em certos aspectos. assentos de couro. Os elementos chegam. "são divididas. Paul Virilio faz uma interessante comparação entre o processo de iluminação da cidade de Paris e o desenvolvimento simultâneo do próprio Iluminismo. precisa ser submetida a uma operação específica que a dissocia de seus elementos. em sua demolição. As Luzes significaram para ele o terror da devassidão. É o êxtase de tudo devassar. 1986).do telespectador em relação aos desdobramentos e construção sequencial da trama. Ocorre que por força da influência e da dominação da televisão sobre outros meios. de certa forma. 1988. para obter fácil entendimento público e imediata resposta mercadológica.

O telejornal na era da velocidade eletrônica é cintilação da rapidez. A intenção de tudo explicar. do impacto e as notícias funcionam aí como puros álibis. da fixação de nomes de habitantes na porta dos imóveis. decadência e também o fenômeno mais flagrante das formas atuais de esquizofrenia. em que concorrem diversos intérpretes. estava nas notícias: as imagens mudam e o olhar permanece. um olhar passivo. É o terror da revolução. 2. l983. prever. apontado por Freier. l988).Tratava-se da exposição de cabeças decapitadas. são os meios de comunicação o "estágio obsceno da informação" (Baudrillard. fazendo o equilíbrio e o 31 . para quem o rock significa êxtase. Esta se dá num espaço de absoluta simulação da copresença. Rock O rock é a trilha sonora da pós-modernidade. na medida que já não encontrava mais obstáculos numa prática que se tornou obstinada em vasculhar todos os espaços privados na busca de uma difusão pública. Um técnico junta todas as partes da mesma música e constrói a unidade em laboratório. personagens secundários da cena.3). mesmo discreto sombreado. a produção fonográfica do rock é mais um espetáculo de ficção do que de fato de uma produção conjunta "artística". da invasão de palácios e hotéis. Cada uma mora e grava num lugar diferente. tornava-se agora o olhar ao objeto técnico. dos cidadãos e o fez domínio de um interesse discutivelmente público. controlar. o vandalismo que antecede o terror instituído propriamente dito. que embaralhou aquilo que era pertencente ao controle exclusivo dos indivíduos. a questão da gravação do rock. por outro. Foi nisso o que o telejornalismo inovou: trouxe uma sucessão rápida de cenas. O exemplo disso. Hoje. p.Por um lado. Excesso de informação é eletrocução. associava-se à própria ideologia do Iluminismo. a de colocar potentes holofotes em todos so espaços que demonstravam qualquer aspecto de obscuridade. Nenhuma das pessoas que fazem parte do "conjunto" de fato está presente. Ao comentarmos a reprodução eletrônica. num pretenso interesse da própria sociedade. É interessante a descrição que Mark Poster faz da virtualidade que é hoje o som do rock e seu caráter ficcional. falou-se da mudança que representou a época dominada pelas técnicas. à sua natureza. a barbárie que se num momento tinha a ver com a iluminação da aristocracia. de imagens. Por isso. administrar supunha que nada mais pudesse ficar fora de seu alcance e ninguém mais do que o próprio jornalismo atuou para executar esta tarefa. produz curto-circuito contínuo em que o indivíduo queima seus circuitos e perde suas defesas (idem. Steve Connor acredita que todo o terreno da música de rock é pós-moderno. penumbra. da cor. Foi o jornalismo que deu início à demolição da esfera privada. de que o olhar do homem ao seu meio. Nada mais era sagrado. nada mais poderia ser inviolável. Introduziu o show de impactos sobre impactos que pela perseverança desgastou a atenção dos assistentes. da profanação de lugares de culto e conventos. de matérias marcadas pelo princípio do êxtase e da atividade ligeira e imediata. também Arthur Kroker. até os tornarem mesmo indiferentes a essa notícia. da exumação de mortos.3. ao seu próximo.

32 . Tarde). Le Bon. Por outro lado.1990. receptor.balanceamento dos instrumentos. encontramos os modelos de análise e explicação dos processos de comunicação da primeira metade deste século. assim como aqueles orientados a uma perspectiva de administração. mensagem. é onde o audiófilo quer discernir instrumentos. É a expressão mais clara de que também o som pode ser interpretado como "som virtual". mais familiarizados com a metáfora da criatura. São os modelos teóricos da visão aristocrática das massas (Charcot. separar vozes de instrumentos. O homem domina a máquina e está com ela para seus fins. Os primeiros estudos de comunicação dos anos 30 seguem a perspectiva empírico-behaviourista ou empírico-funcionalista. Trata-se da mostra de algo que jamais ocorreu. o próprio audiófilo também penetra neste mundo de modelos e simulações de forma equivalente.1. impera a dualidade cartesiana e a separação radical entre o homem e seu objeto. Velhas teorias da comunicação Retomando o esquema de Lucien Sfez. além de tentar também controlar o próprio ambiente da cena. o lugar lhe escapa. ele flutua suspenso entre pontos de objetividade"(Poster. Os primeiros estudos sobre meios de comunicação endossam este modo de interpretar o social. assim como aqueles que propuseram o quadro teórico. na qual a relação dos homens com os meios de comunicação baseava-se na fórmula reduzida do estímulo-resposta. majoritariamente associados à bola de bilhar (meios de comunicação vistos como representação). máquinaorganismo-Frankenstein). O sujeito desloca-se da sua vinculação. sentar-se no centro dos altofalantes e procurar aquilo que Poster chama de "utopia auditorial". constata-se que a performance na verdade é uma cópia que não tem original. Na visão de mundo marcada pela representação.p.11). A gravação de rock é. contudo. um fenômeno de ficção. entre os anos de 1950 a 1970. Para alguns pensadores. Em outros. de tentar encontrar um som que seja mais fiel do que o fiel. em que fundem-se na mesma cena sujeito e objeto. através da obsessão pela recaptura da linguagem musical. controle e sobmissão das massas através dos meios de comunicação. a psicologia de Pavlov servia de fundamento para se analisar os problemas da comunicação "de massa" (por exemplo. A interação ocorre através do comportamento baseado em estímulos e a psicologia experimental fornece a base epistemológica para as análises. portanto. A ênfase é a de reforçar a função daquele que no processo de comunicação assume a posição do emissor. Serge Tchakhotine). vozes isoladas dentro de um coral. 3 . ou seja. ou E-M-R). buscando administrar as oscilações da eletricidade. da sua impregnação a um certo solo. o receptor é passivo e hipnotizável e a comunicação centra-se num processo de três componentes (emissor. A partir disso. que só existe enquanto objeto de pura reprodução. organização.Teoria em ruinas 3. isolar a sala. das três visões de mundo e das três metáforas da comunicação (representação-expressão-confusão. Trata-se de uma espécie da construção da hiperfidelidade.

especialmente de tradição norte-americana. assim como pelas mais recentes. o criador de mensagens. da análise dos efeitos. sua melhor apreensão das mensagens. O princípio aristocrático de avaliar como se manifesta a massa. ou seja. as estratégias que visavam interferir no comportamento coletivo através dos meios massivos. desenvolveram-se teorias que buscavam interpretar o destinatário como o elo principal de toda a cadeia de comunicação. desenvolvem-se novas correntes que começam a analisar o processo da comunicação a partir de outros componentes. funcionavam como "sistemas de re-tratamento da mensagem e de orientação e classificação da recepção por parte das pessoas". para interferir de forma pontual em alguns aspectos e com vistas à obtenção do resultado esperado. especialmente depois dos anos 60. As principais questões levantadas pela velha teoria da comunicação eram a da manipulação. ainda no campo do empíreo-funcionalismo. Para esses pensadores. da formação de opinião. entretanto. Para esta. a saber. segundo eles. a chamada "mensagem" da comunicação é uma categoria secundária nos estudos de fenômenos de massa e de complexos de comunicação atuando sobre estas. feed-back. que passavam a dedicar interesse também no papel de papel de componentes específicos do receptor. que se centravam no papel do emissor. Da mesma forma. que deve ser estudada para explicar o sucesso ou não das formas de comunicação. na medida que trabalharam os mecanismos políticos e sociais a partir desse componente situado no outro extremo do processo de comunicação. Mais recentemente. os intermediários. Paralelamente. e o próprio receptor. como os intermediários (no mecanismo de recepção). da influência da comunicação e da mudança de comportamentos. no agenda setting (Mark Comb). Para estes o receptor é. Lazarsfeld e Katz representaram aqui uma corrente importante nos estudos de comunicação norte-americanos. 33 . Igualmente assumem uma posição crítica em relação aos seus predecessores. mensurável matematicamente. bit fazem parte deste novo espírito. como editores e programadores. separável em termos de unidades de informação e perfeitamente manipulável como um dado da física. não há só a mensagem mas toda uma atmosfera em que a mensagem está inserida. talvez por força da persistência de fenômenos inexplicados pelas primeiras teorias que investiam na importância do emissor. era o fundamento e a razão neste tipo de estudos Nos anos 50. Os conceitos de entropia. ocorre um novo desdobramento teórico das teorias empírico-funcionalistas de comunicação. vistas agora como um processo mecânico. da persuasão. acreditava-se que no processo de comunicação figuras intermediárias do mecanismo. como se esta fosse animal de laboratório.É também o mesmo tipo de investigação que servirá de base para os administradores aplicarem a social engeneering sobre as massas. A teoria do two step flow of communication nomeava os líderes de opinião como figuras que realizavam uma espécie de decodificação da mensagem para pequenos grupos e através disso propiciavam. afirmando que os efeitos produzem-se independente de uma intencionalidade do emissor e devem ser analisados na forma como estas informações são decodificadas pelo receptor. de fato. com o desenvolvimento da cibernética.

realizada pelas formas de teorias expostas anteriormente. principalmente. só vale agora o texto. o que manda. preocupados apenas com o rendimento e a administração da comunicação social em grande escala. não é certo que qualquer um fale qualquer coisa a qualquer outro. Restitui-se às coisas seu direito à superfície. Aqui.Em todas estas teorias permancece o sentido da representação: os meios de comunicação traduzem o mundo e a "mensagem". Os meios de comunicação fazem parte do universo assim como o universo está inserido nos meios de comunicação. além dos clássicos Walter Benjamin e Berthold Brecht. Adorno. significava uma concessão ao modo positivista de traduzir o real. A partir de meados dos anos 50. Em vez de privilegiar emissor ou receptor será exatamente a "mensagem" que estará no centro do interesse. a metáfora agora é outra. Quem manda. como bons hegelianos. o terceiro grande núcleo teórico de comunicação provém da chamada "Escola de Frankfurt". (Esta orientação teórica será mais extensamente apresentada na Terceira Parte. cujos pensadores principais. a perspectiva é de uma captação orgânica deste mesmo processo. a separação de emissorcanal(mensagem)-receptor. desenvolve-se na França o estruturalismo. Para a semiologia. as novas estruturas de poder daí derivadas e a anulação do pensamento crítico. 34 . Aqui opera-se uma mudança radical no entendimento do processo de comunicação e uma relativização daqueles componentes que haviam sido autonomizados dentro do modelo explicativo da bola de bilhar. mas está submetido a uma lei maior que é a do significante. empiricamente subtraído de uma totalidade. Tampouco as condições histórico-sociais têm grande peso na interpretação do texto. trata-se agora. Segundo esta nova perspectiva. quanto a ênfase linguística dos estruturalistas. originalmente criada por Ferdinand de Saussure. Max Horkheimer. O sujeito não existe enquanto unidade independente. A linguagem precede os indivíduos e estes pouco interferem nos seus desdobramentos e no seu processo de desenvolvimento. atinge seu objetivo e é novamente reenviada. desaparece o sujeito da ação. como recebe. O movimento permanece absolutamente íntegro de ponta a ponta. o homem perde sua importância e há uma imperiosidade. Ele é sua expressão. Herbert Marcuse e Juergen Habermas. Agora. Esta nova forma de interpretação da comunicação encara que homens estão no mundo e devem a ele se adaptar. Esta escola despreza tanto o modelo positivista dos norte-americanos. que em termos de análise de comunicação provocará o surgimento e o desdobramento da semiologia. importando mais conhecer-se o mecanismo global de funcionamento e não separadamente seus componentes. importa o todo complexo expressivo formado pela comunicação. Por fim. são Theodor W. A quebra de um processo de comunicação em fragmentos. "A esquerda hegeliana"). o que recebe. da questão da linguagem. são perguntas secundárias para esta orientação. uma sobredeterminação do todo. Para eles. trata-se da criatura. uma vez enviada. ou seja.

são pré-montados em laboratórios. A partir dos anos 80 entra em declínio o investimento na cultura popular. como cenas 35 . Para Umberto Eco. fazendo-o fixar-se na posição de um mero componente deste contexto. o ameaça. dizem simplesmente "eu sou a televisão". A nova era que se descortinou a partir da expansão dos meios técnicos de comunicação e informação e através da virada que estes provocaram em relação ao domínio do homem. onde o excesso produz exatamente a perda da informação. mesmo os reais. na emancipação do receptor e na apropriação dos meios técnicos com vistas à formação de uma consciência dos dominados.2. da confusão. Fabricam os dados exteriores. suas mensagens eram reconhecíveis e os destinatários. A metáfora agora é a do monstro que. O cenário que o telespectador descobre é o de sua própria natureza arcaica. Desaparecido o sujeito. vítimas da destruição ideológica. Da mesma forma. e a visão de mundo. e os eventos. tinha um plano político. diz Eco. logo demonstrou-se inútil. Mesmo os conceitos até recentemente válidos. já que se referem a uma realidade não mais existente. a metáfora da bola de bilhar como a da criatura.1984. correspondem a uma visão ultrapassada dos processos de comunicação. já nascem falsos. criado pelo homem. assim como no império de estruturas cujo efeito seria perceptível através de um centro de sentido (segunda forma).p. que funde a um só tempo tautologia e autismo no uso das tecnologias avançadas de computação e comunicação).(Eco. praticassem uma "contracomunicação" e interferissem no processo comunicacional fazendo com que a coisa invertesse seus pólos. pré-televisiva e do próprio destino solitário da eletrônica. Naquela época. A revolução da nova era era de natureza absolutamente distinta. já não poderão mais ser usados. a sociedade diz "eu sou a sociedade". exigiu uma completa reformulação e reordenação dos estudos de comunicação. também os meios de comunicação. A partir desta visão de mundo desenvolveu-se todo um trabalho político e de engajamento das correntes de oposição para fazer com que as "massas populares" executassem uma "leitura crítica" da comunicação. o emissor era centralizado. contudo. Nova teoria da comunicação Mas tanto o modelo baseado na representação como o baseado na expressão. a do curto-circuito da representação-expressão.200). deve-se rever tudo que foi feito nos anos 60 e 70 e os professores devem esquecer o conhecimento adquirido até então. ponte ou janela que liga indivíduos a fatos. abolindo a transparência. da sua ação no social e da possibilidade de uma intervenção real e efetiva neste mesmo social (primeira forma). Bastava ensinás-los a "ler" as mensagens. ela entra numa espiral delirante e tautológica. Isto. acreditava-se que os meios de comunicação eram cópias das relações de poder. porque uma espécie de "neocomunicação" impôs-se ao mundo. Referem-se a uma época em que nos estertores da modernidade ainda se poderia acreditar na independência do homem. No tautismo (neologismo criado por Sfez.3. É o momento em que a comunicação inverte seu papel e perde o sentido de contato com o mundo. é o objeto que marca agora os limites da individualidade e determina suas qualidades. Em relação à comunicação. o homem passa a existir pela técnica.

Nada de fato se comunica. A circularidade da mensagem é ainda bombardeada por um novo componente. pôr e colocar dados e em todas as direções cria um universo alucinante de dados. em que cai por terra qualquer possibilidade de formação de fato de opinião. organizadas em estúdios com jogos de luz apropriados. a velocidade. argumentar.2. mas a aceitação e a livre circulação de todas elas ao mesmo tempo. da simulação. mas múltiplos ajuntamentos e caminhos complexos.cinematográficas. o receptor não confia em nenhuma delas exatamente porque se anulam e a conclusão é só uma: o aumento das informações leva à desinformação. Na circularidade. que estava impregnado da suposição de um eu fortalecido e de um sujeito autêntico. não há começo nem fim. que a receberá novamente e as reproduzirá mais uma vez. da comutação. 3. não existem essas posições ou opiniões. extraordinariamente grande de mensagens que pelo seu próprio volume tornam a comunicação inviável. um fato econômico novo. Cria-se o circuito tautológico. Superfície A hermenêutica. duas opiniões diametralmente opostas e ao mesmo tempo fundamentadas em dados e informações confiáveis. comentar. A circularidade A circularidade da comunicação anula a existência efetiva das extremidades na relação de comunicação. a obsessão de falar. Não há correspondência necessária entre significante e significado. Quando a televisão faz enquetes em praça pública para conhecer a "opinião do povo" sobre um acontecimento. um governante. ao contrário. conhecidas do modelo empíricofuncionalista emissor-mensagem-receptor. é da relatividade total.3. A massa de informações. 36 . entra em declínio porque o signo deixa de ser lastreado por alguma carga útil ou gravidade. Quando um jornal coloca. em relação a um fato. posição dos atores pré-estudada e um texto já conhecido. o que se ouve das pessoas é a reprodução linear daquilo que a própria comunicação emitiu. em que as mensagens não passam de meras senhas em que todos se reconhecem e que na verdade operam de maneira puramente ritual. A época. a diversidade. Desse conjunto de opiniões. como processo intelectual e científico. nada muda as posições ou opiniões existentes. a cultura deixa de ser um componente de um processo social maior para ser um mecanismo que provoca a "inflagem" de toda a sociedade. A mensagem torna-se também inteiramente inóqua exatamente pela sua própria "obesidade". trazer.3. da aleatoriedade.3. Os conceitos da Era Frankenstein 3. que é seu efeito multiplicativo. 3.1. nada de fato é transmitido. Como uma rede. em realidade. os programadores de televisão irão formar novamente a opinião sobre a massa. Isso porque. tornando-se "sociedade cultural" e a cultura o medium que sintetiza toda esta mesma sociedade. pelo fato de que todos os sistemas de comunicação inflacionam o espaço com uma quantidade fantástica.

É uma forma de mutilação. as vivências repassadas pelos media não são derivações de qualquer maquinação conteudística.p. Para Baudrillard. Tudo é possível passar na televisão e nada de fato provoca qualquer efeito no receptor. pela eliminação dos riscos. do fato de que a atribuição de sentido é o mesmo que forçar o fato a uma teoria pré-concebida. de jogar com a mágica das cores e do espetáculo. a pilhagem da cultura com fins de massificação e a pilhagem do agir humano para submetê-lo a uma moral. do modo de produção que impõe esta visão de mundo e estas idéias. executa-se a liquidação de todas as formas de desmascaramento. a uma visão 37 . de qualquer sentido latente. a tentativa de negar a verdade da evidência para fazer com que os fatos se dobrem a uma verdade outra.p. por exemplo. Assim. de ilustrar. então. pela castração. os estilos de vida. externa ao fenômeno. é a pilhagem da história com fins particularistas. É o próprio princípio da simulação já mencionado. que estaria por trás dos componentes da comunicação. Na forma de intercalar notícias sérias com notícias amenas. revolucionária ou puramente abstrata. um princípio exterior. O que é sedutor no texto é sua aparência. os signos intercambiam-se entre si sem nenhuma permuta com o real. em todos esses procedimentos puramente formais do processo de comunicação é que se implanta o mecanismo de pasteurização das mensagens. cortar. de depuração daquilo que parecia estar obnubilado para. os acontecimentos não perdem o sentido mas são precedidos pelos modelos.20) A partir disso. editar. a ciência eliminou a sedução. já que o sentido remete. de qualquer jogo com a mensagem. Os modelos é que compõem de fato o quadro das cenas e dispensam absolutamente a existência do original. a pilhagem do inconsciente com fins de interpretação psicanalítica. uma norma. aparecer a verdade da coisa. mas. 1979. Na época da metafísica. real e imaginário. substituiu-a pela profundidade e pela interpretação. ao contrário. a total neutralização das notícias de um noticiário de televisão não se dá pela notícia em si senão pelo jogo de anulação recíproca dos fatos no seu sequenciamento de exposição. O manifesto e superficial volta-se sobre a "ordem profunda" para anulá-la. política ou filosófica. sequenciar. O declínio da hermenêutica torna possível ver o real como império das aparências. pela submissão de tudo o que aparece à ordem da razão e da explicação. Em todos os casos.76). a nova investigação dos processos de comunicação afirma que as visões de mundo.ao contrário. de natureza ética. manifesto/latente. legitimada por uma verdade divina. Em todos estes casos. são elaboradas através do jogo de formas. É o espaço do jogo e das cartadas. (Baudrillard. o princípio de que a forma como os fatos aparecem é a negação de como eles de fato são. no caso da hermenêutica. da "paixão pelo desvio" contra a pesquisa do sentido escondido. instituindo aí o terrorismo e a violência da interpretação (1979. introduzir um ritmo de alta velocidade nas cenas que se intercambiam. de desvendamento ideológico. Trata-se. também ele. a permanente obsessão pela domesticação. em que se misturam verdadeiro e falso. A crise da hermenêutica leva consigo o fim do próprio sentido. desnudar as aparências era uma forma usada para fazer resplandecer a verdade de Deus. Junto com o declínio do pensamento marcado pela dualidade falso/verdadeiro. Em todos os casos.

As chamadas "leituras ideológicas" de um texto. Caem por terra. não há mais influência deliberada. não guardam nenhum sentido e neutralizam toda cena e o discurso político. se ocorre o que se chama "sedução circular" é porque então ninguém mais manipula ninguém. Se existe uma circularidade na comunicação. As novas formas de manifestação dos meios de comunicação remetem a outro tipo de funcionamento. Tem sentido aquilo que se coadunava com a maneira prévia de como o cientista ou o filósofo viam o mundo. Estados ou formas de "poderes" socialmente localizáveis. 3. portanto. Autonomia do objeto Na nova teoria desaparece a polarização dominante/dominado. de uma peça teatral. não há mais persuasão. de um filme. o conceito de discurso. o componente intencional nos efeitos da comunicação extingue-se.3. reduzia todas manifestações à mera expressão dessa própria ordem. Em suma. assim como também a uma nova forma de se considerar a questão do poder. A forma como Baudrillard. por trás. dessa visão de mundo. nem a capacidade de indivíduos interferirem radicalmente no comportamento de outros através do uso deliberado dos meios de comunicação. O poder não manipula e tampouco as massas são enganadas. Para ele. absorvem signos mas não os digerem. Absorvem a energia do social mas não a refratam.3. contrariamente. A análise da mensagem. que está na mesma ordem da polarização emissor/receptor. que remetia a uma concatenação superior das falas e à sua submissão a toda uma lógica precedente. todas elas remetem a essa tentativa de violentar o real impondo-lhe um sentido. os conceitos de conteúdo e de mensagem como manifestações que estão escondidas. o da absoluta imprevisibilidade. uma destinação ideológica da mensagem. estas não são boas nem más condutoras do político. é algo que não pode ser previsto. 38 . O pesquisador violentava o real e o distorcia para impor-lhe a significação que era da sua própria metanarrativa. encara o fenômeno das massas justifica uma tal acepção de poder.exterior do próprio fenômeno. boas condutoras de informação mas de qualquer informação. nelas tudo dilui. O campo então ficava aberto a todas as formas possíveis de especulação. administrado. se retomará novamente a discussão sobre o caráter do poder na nova sociedade). por exemplo. de um programa de televisão. um poder centralizado. nunca participam: são boas condutoras de fluxos mas de todos os fluxos. O que marca seu comportamento é. construções inconscientes. controlado ou definido pelos indivíduos. de um livro. portanto. que o pesquisador achava mais correto. pela linguagem manifesta. Seu comportamento. Da mesma forma. (No item II. É novamente Umbero Eco quem declara que nas novas formas de comunicação eletrônica não há mais um poder sozinho. formas internas de um discurso não-expresso para trazê-las à luz. já que tudo é válido e portanto pode se submeter a critérios múltiplos de julgamento. de uma pintura. a análise de conteúdo buscavam exatamente através do instrumental semiológico encontrar ligações. são ao mesmo tempo passividade e espontaneidade selvagem. préprogramado. obscurecidas.

ao contrário. contudo. produzse. num mundo de desaparecimento do sujeito coletivo. São os objetos que provocam efeitos e têm repercussão perante a sociedade como fatos absolutamente inesperados. e não seus autores. uma certa forma de se opor à dominação. externa a todo o processo de industrialização. Os termos indústria cultural ou industrialização da cultura perdem também sentido porque supõem a atuação deliberada . ou seja. objetos culturais numa sociedade dada mas seu resultado é algo absolutamente imprevisível. princípio que posteriormente veio fundamentar toda uma ideologia política e uma estratégia de recuperação da "cultura popular". a crítica que faziam. deixando de qualquer forma. danificam. desenvolvem-se bens. Este era o equívoco de seu pensamento. uma certa estratégia intrínseca e inerente de insubmissão. restritas daqueles que vêem sentido no trabalho. Ou seja. que atribuiria um caráter ontológico às próprias massas. Há autonomia dos objetos em relação a seus criadores. era de que a cultura industrialmente produzida é que não era a da massa. o investimento naquilo que estaria no âmago da própria massa. é nitidamente distinta: cria-se. conduziria à idéia de que no fundo elas encerram um certo comportamento. na divulgação. relativamente "pura" para a produção de mercadorias genéricas. difusas. da ação política com vistas a um fim ideologicamente procurado. pequenas.Daí porque não de poder mais falar de uma "cultura de massas" já que esta significaria algo de residual. já que sua precedência nos remeteria novamente à concepção de um sujeito criador. na rejeição ao mundo caótico e sem eixo da era técnica ? 39 . que as manteria ainda intacta. o espaço para uma cultura à margem. então."manipuladora" de uma matéria prima original. está se tratando novamente com agentes que alteram. falsificam. ou seja. popularizam produtos de uma cultura autêntica quando a lógica. do papel histórico. de ampla aceitação popular. Adorno e Horkheimer rejeitavam a seu tempo o conceito de cultura de massas exatamente porque este supunha uma certa autonomia da massa na criação das formas culturais. Em que categoria. inserir as ações individuais. no debate de idéias.da mesma forma como no contexto anterior .

as lógicas voltavam-se para o estável. de juntar muita gente para que.30). Já não há mais o "fazer a revolução" mas o "provocar as coisas". ao que parece. crescimento. sideralização. clonagem. Provocar no sentido de "incitar". O outro lado. POLÍTICA 40 . o pequeno ato individual e de grupos reduzidos. especialmente na modernidade. ao que está em permanente mutação. espectralização. a onipresença da ruina. assim como na nova forma de ordenação do social como um todo. É a forma também como Lyotard descreve o agir: agese com golpes e contra-golpes. apenas pela agonística dos "jogos de linguagem". A esperança da utopia desapareceu. divisão. inscreve-se a ação política. o império das imagens. o do controle dos efeitos. dinâmico. as coisas mudem. o que ficava consolidado. reclama sua legitimidade. imprevisível. de cutucar. rapidez. l979.Fora do território e das práticas minimalistas. O estável. Hoje. Se antes o homem estava sobre um cavalo. seus limites reais. II . quais serão os resultados. Era a revolução. mesmo daqueles que publicamente.p. No passado.HISTÓRIA. hoje ele . o que se mantinha estruturado. a pequena estatura humana vê. as lógicas que se impõem são marcadas basicamente pelo movimento. realizando mudanças nas relações de força. mas de forma crítica. expansão. orientados contra a barbárie da destruição de qualquer razão. Isto pode também ser interpretado como avanço. o que esperar disso. E com razão. o fixo.consciente de sua insignificância . TEMPO. o permanente. velocidade. É no jogo indeterminado. voltam outra vez os agentes para novas provocações. mas também a dimensão verdadeira de seu agir. de trabalhar para que ocorram mudanças pura e simplesmente. talvez agora com muito mais maturidade. denunciam a existência de um mundo sem esperanças. O objeto impõe-se como autonomia. grupos ou classes somavam-se para construir um movimento que iria irromper numa realidade dada e provocar a alteração do status quo. que ingenuamente visam reconstruir em laboratório mundos irremediavelmente perdidos.3. entende-se que o mecanismo foi desconectado. Poder-se-ia supostamente planejá-la. multiplicação e os efeitos destes processos acelerados sobre todas as coisas. 3. aleatório que se constituem hoje as "ações socialmente relevantes". subdivisão.(Lyotard. organizá-la e ver sua realização. Movimento Na nova teoria da comunicação. No passado. pelo volume. conduzindo-o a seu destino ("a teleologia"). a primeira parte divorciou-se da segunda: homens e grupos ainda lutam por idéias e princípios mas apenas no sentido de "somar". A partir de alterações provocadas e de mudanças ocorridas. fractalização. perdeu-se: ninguém pode afirmar no que vai dar. Assim. cede lugar na era da técnica ao móvel. o contínuo. o ato político compreendia-se como curvatura em que ações de indivíduos.vê que suas ações no máximo servem para provocar a fera. que remetia à ontologia e às concepções do Absoluto.4.

de E. de teleologia ou de finalismo. real e possível nos quadros da própria sociedade.1. a historicidade impregnada nas coisas. fundamentavase em um componente ético. nas palavras. Para o escritor. demasiadamente envolvida e inundada pelas mensagens da comunicação. sem que os homens tivessem se dado conta. Mas também as idéias e os conceitos que recheiam a contrução histórica perdem sua densidade. a vivência. menos ainda sobre o futuro magicamente projetado. Sem se dar conta. Exemplo da erosão desta unicidade são os meios de comunicação. concreta. esfacelando-se em múltiplas "histórias". não há mais representação do passado histórico mas "representação" de nossas idéias e estereótipos sobre aquele passado. quando a história deixa de ter sentido como processo único para o qual caminha toda a humanidade. a história propunha-se a dar aos homens uma consecução material. da utopia ou do socialismo. em que. As ciências existiam como práticas orientadas à "emancipação do sujeito em direção à liberdade" ou ao processo de desalienação e desrepressão. O componente místico-religioso nessa ideologia não era ocasional. O declínio do conceito de história ocorre na mesma proporção em que entra em decadência a concepção unitária de totalidade. segundo ele. nos gestos. Dentro desta lógica. Harvey dá exemplo de Ragtime. Tudo o que teria acontecido após já não seria mais de forma nenhuma real. Elias Canetti apresenta em forma ficcional o salto de um período histórico para um período ahistórico: "Uma idéia dolorosa. L. De fato. Só que neste caso. não teria tido chance de perceber este ponto e quando se deu conta a história já tinha ido embora. cujos diversos "centros de histórias" multiplicam-se desordenadamente. positivo. cuja legitimação. No livro Die Provinz des Menschen. nossa experiência com filmes históricos e de ficção científica realizados nos anos 20 e 30 não revelam nada sobre aquele passado. Doctorow. especialmente no caso do saber. mas já não poderíamos perceber isso. Nossa tarefa e dever no presente seria descobrir esse ponto e enquanto não o tivéssemos ele estaria prestes a perseverar na destruição atual".como no caso de Schleiermacher filosófico. Talvez a humanidade. A substituição elementar do paraiso cristão dar-se-ia pela projeção de um "paraiso possível na Terra". teria desaparecido como num passe de mágica. Fim da história O chamado "fim da história" está intimamente associado à crise dos metarrelatos. já que a própria ideologia da religião cristã previa também um caminhar da humanidade em direção à sua própria salvação e redenção. a de que a partir de um determinado ponto preciso do tempo a história deixaria de ser real. a história significava o desdobramento progressivo. em vez de realizar a utopia no plano extra-terreno. ao contrário. demonstram apenas o imaginário daquela época. a totalidade do gênero humano teria de repente perdido a realidade. 41 . a memória. político ou . ascendente das conquistas da humanidade em direção a uma sociedade marcada pela realização da Idéia. teria ocorrido um desaparecimento incrível: tudo aquilo que havia marcado o passado.

Manipula-se para alterar e adulterar o passado. altera também o próprio sentido da antiga historicidade. A começar pela arquitetura. Para um realidade eletrônica e saturada de técnica. adaptáveis a qualquer intenção. O uso indiscriminado do passado. longínquo como recente. os fatos políticos e culturais presentes. fabricados em série de representações do passado e estas se sobreporiam às imagens realmente vividas. as ações coletivas não conseguem mais capitalizar maciçamente as pessoas (agora dispersas. algo introduziu-se de forma que o passado tenha se tornado uma categoria fictícia. a política e a guerra. Os atos políticos rompem com o sentido maior. em que a falsificação da memória é construída através de uma visão tendenciosa do passado. terminados. Desaparece a "manipulação de classe com fins de imposição de uma verdade ideológica. passam a ser o contraponto de um presente ainda não inteiramente assimilado. de sonegar informações relevantes e institui-se a manipulação aleatória e livre de tudo. de períodos marcados por fortes rivalidades. conflitos que orientavam o agir. Todos os objetos tornam-se peças disponíveis. O fim da história tem como consequência a dilaceração de tudo o que outrora fazia parte do repertório dos pesquisadores. difusamente. Desconectados do sentido da agregação factual (tendendo a um futuro previsível ou desejável). de realidade e sentido para ocupar um espaço presente esvaziado.p. aceito. A pós-modernidade é fundamentalmente uma reordenação das noções de espaço e tempo. fazendo com que sujeitos retrospectivamente e após a morte transformem seus atos e feitos. cujo historicismo tornou-se a "canibalização aleatória de todos os estilos do passado e o jogo de alusão estilística casual"(Jameson. apesar de extinta. de manter a "alienação" dos dominados. A nostalgia do passado alimenta o espírito "retrô" do presente. imaginária e mesmo "fabricada". que expurga o passado e a memória. os objetos que ainda estão carregados de uma certa dose de emocionalidade. nada mais repercute como expressão de uma tendência. meros componentes arbitrariamente organizáveis para a intenção da construção artificial. É a "velha história" que. o relato. A uma compressão da categoria espaço opera-se um 42 . congelado e sem orientação alguma. já apontada também por Eco quando fala da passadização da cultura norteamericana. ao mesmo tempo que desmorona a possibilidade de reconstrução histórica e de recuperação de documentos e fontes. nas demais "ciências humanísticas modernas" a história passou a ser vista como um espaço em que operava-se um abandono do sentido de continuidade e memória e o desenvolvimento da prática usurpatória.1984. Os homens já não têm a lembrança. de lutas. As reconstruções de guerras. não mais reunidades num projeto). mas também a historicidade. de repercussão macro-social. passam a repercutir não mais linearmente mas agora em todas as direções. os homens precisam buscar novamente no passado. que passam a sofrer uma livre e arbitrária utilização para os mais diversos fins. como também no uso presente desses mesmos dados. Tudo isso não deixa de provocar uma sensação de vazio pelo "desaparecimento do sentido". a narrativa de que fala Walter Benjamin mas teriam agora modelos prontos. Posteriormente.Algo aconteceu que mudou radicalmente nas consciências a concepção de passado.77ss). excita ainda o imaginário dos vivos.

assim como não há futuro exatamente porque a demolição da utopia do vir-a-ser. mas dinâmica. O tempo O tempo é o vetor dominante da cultura técnica e das tecnologias de comunicação. (A compressão do espaço. sendo possível viver mais intensamente (isto é. 1985. O tempo está diretamente vinculado à linguagem da televisão e dos media eletrônicos. Opera-se uma estratégia de petrificação ou congelamento do presente por um mecanismo da própria perpetuação desse presente. para a construção de uma realidade que estaria por vir. p. O mundo marcado pela técnica. É derivação e causa da rapidez das imagens. portanto. quantitativamente muito mais experiências) que se vivia no passado. A noção de tempo. faz com que mesmo as informações relativas ao passado tornem-se excessivas e por isso redundantes e esvaziadas. ganhar tempo. o fim da geografia já foram expostos na Segunda Parte: "A transformação da cidade". onde o tempo foi liquidado pela circulação pura. A técnica paralisa e os sistemas de informação esvaziam toda a pulsação vital dirigida que estaria associada anteriormente ao processo histórico. que impera nesta nova era não tem mais nada a ver com a sequência passado-presente-futuro. As experiências. exatamente porque para este a trajetória da humanidade poderia ser sintetizada em um antes (processo que se desenrolou). as imagens numéricas da TV já não conhecem mais nem antes nem depois. refuta todo este ordenamento da lógica social. Visto de outra forma. uma agora (sua interferência radical). marcante fundamentalmente para a periodização do Iluminismo. a dinâmica da alta velocidade e de ritmo alucinante do processo comunicacional. do declínio da leitura e da superficialização de toda a voda social. as imagens seguem-se umas às outras como momentos arbitrários. o tempo pára de criar continuidade da experiência. foi extinta. especialmente da televisão. as vivências condensam-se cada vez mais. como grande empresa humana. ao contrário. as atividades. Essas gerações jamais despertarão de seus sarcófagos subterrâneos". A rapidez impõe-se como necessidade e a circulação de bens e mercadorias torna-se alucinante. Não há passado porque a história."As sociedades que nada mais esperam de um acontecimento futuro e que acham cada vez menos confiança na história. tempo de envelhecimento. do destino ou de um projeto tornaram 43 .investimento maciço na categoria tempo. pois é o seu determinante rítmico. O que realizam os sistemas de comunicação e em especial a televisão é a redução da experiência à presentificação total do cotidiano.15). são hoje marcas de uma cultura da alta velocidade. Para Raulet. 2. (Baudrillard. Tempo não como tempo da história ou passado. obter o melhor tempo. atrás de seus estoques de informação e nas imensas redes alveoladas da comunicação. Aqui interessa o investimento na categoria "tempo"). captações cambiáveis de momentos que que já não respeitam nenhuma hierarquia cronológica. enterram-se atrás de suas tecnologias prospectivas. Ter tempo.

impossível a construção de uma realidade para além desta. de fato. Na nova fase política (fim da modernidade). golpes. Desaparecem os atores e. de vontade popular. na viabilidade de construção de um estado fundado na democracia de uma transparência política. esfera pública. a saber. artifícios. a crise da demonstração política ocorrida através da estetização fascista. É a fase de ouro da cena política. A política Antes do período moderno. Nossa época é marcada pelo desaparecimento ou perda de importância das instituições intermediárias que configuravam o quadro político do século passado e da primeira metade deste século. fim das instituições intermediárias e também fim do homem político. os políticos tornam-se atores destes sistemas com peso e importância pequena. com a liquidação dos monarcas ou o esvaziamento de seu poder político. de opinião pública. estão ausentes. as mães da Praça de Mayo são uma demonstração de que os verdadeiros atuantes. Instala-se o conceito de povo como soberano. 44 . de regimes inteiros ocorreu como estravazamento explosivo sem liderança. Fim da representação. em São Paulo. Eram os inúmeros jogos. a fase da representação. a descoberta de ossadas de antigos inimigos do regime vem para comprovar que no momento de esvaziamento da política só os fantasmas de uma política desaparecida é que conseguem exercer o papel de atores. sindicatos entram em progressivo descrédito assim como conceitos de cidadania e direito. como fantástica violência das coisas. o fim das grandes mobilizações de massa como formas de ostentação política. em que os governados acreditam na possibilidade de os governantes agirem em seu nome. o declínio dos sindicatos. de representatividade. estudos específicos e investigações externas ao debate propriamente político. Tal fato encontra nos indivíduos um correspondenrte homólogo. O desaparecimento do espaço público. partidos e organizações. São substituídos por técnicos nas tomadas de decisões e as definições políticas escapam ao seu controle porque são determinadas por pareceres de especialistas. dos movimentos ideológicos. As transformações espetaculares da história de certos países. que é o que se verá na próxima parte do texto. A política na era das altas tecnologias é o território sem a dimensão das grandes mudanças. 3. Ou então: sem a interferência ativa dos atores. o cenário clássico da política tornou-se espaço de micropolíticas de lobbies e de vantagens marginais e oportunistas. esta dissolve-se por ser incorporada pelo sistema de comunicação ou as próprias instituições políticas tornam-se meios de comunicação. todos estes fatos convergem para a ruptura dos componentes mediadores instalados entre o povo e seus governantes. opinião pública. A era moderna vai abrir. Ao mesmo tempo. de delegação. a política definia-se como atos e vontades do soberano. Com a expansão e absorção dos media. Da mesma forma. como lembra Virilio. astúcias de que fala Maquiavel e que correspondem a uma concepção do agir político como teatralização diante dos demais membros da sociedade. a condição esquizofrênica do homem nesta era. como explosão incontrolável. das radicais alterações.

o entrave de funcionamento. não o das "anomias" durkheimnianas mas das anomalias. portanto. estratégias. toma o lugar do palanque público e como "palanque eletrônico" é para onde convergem todos os discursos políticos clássicos. uma idéia. alterações pequenas ou grandes a serem empreendidas mas tornam-se componentes de um grande processo publicitário em que funcionam frases de impacto e jogadas espetaculares. Os políticos falam para os media na esperança de que estes repassem sua imagem para o grande público e o façam de forma benevolente. não tratam de programas. portanto. O grande divisor de águas também aqui são os meios de comunicação. não tratam de ações. impõe-se agora a dominação da máquina. aberrações sem consequência. o inimigo na acepção clássica também desaparece. enquanto unidades de produção de informações para grandes massas e como sistema que engloba todos os componentes da vida social e os reinterpreta segundo seus próprios modos de ver e trabalhar. no princípio socialista. minorias étnicas. clínica. sexuais. 1978. são puramente "denegados" já enquanto conceito: deixam de existir. A ela estão todos igualmente submetidos.Em lugar dos esquemas duais. Os critérios. sociais etc). são sua "parte maldita". não há mais quem advogue em seu favor. Primeiro. não há mais necessidade que o homem político realize atos ou programas que tenham a ver com uma transformação ou o investimento na situação nacional. um "mal indefinido". Política reduz-se a mera publicidade. no início de 1991. como fruto do mais avançado da "racionalização com vista a fins" de que falava Max Weber. Altera-se. 1983). e o inimigo. Isto fica com a programação do próprio aparelho administrativo e as estruturas que funcionam indiferentes aos sujeitos. são agora de agilidade. impessoal. habilidade e boa presença no vídeo. Diante das câmeras. em que interessa levar o público ao êxtase e à fascinação. exercida pela técnica. os homens não precisam de fato mais se comprometer com qualquer mudança substantiva. A Guerra do Golfo. negros. não trocam opiniões. as economias. A ação. não interessam ao sistema. a solução é técnica. correspondentemente. os políticos não discutem. Por isso. deu exemplos disso: ali o inimigo é apenas uma abstração. Dentro do mesmo raciocínio. 45 . o desequilíbrio estrutural. O campo que ingressamos é o da transpolítica. num jogo em que devem ser tão ou mais espetaculares que os próprios homens de televisão. bode expiatório deste inimigo abstrato: o desvio. Os que eram marginalizados e que poderiam. (Baudrillard. capitalizar um potencial de revolução e de destruição do sistema (pobres. as estratégias sociais mas funcionando apenas como álibis humanos diante de um sistema de racionalidade técnica. Eles tornam-se o novo palco da política. a fuga de rota. falha do sistema. deste "componente intermediário" é decisiva. cientificamente calculada. linhas de ação de governo. Não dirigindo as políticas. Como desapareceram os temas da política. desprovido de poder. Saddam Hussein é somente a materialização oportuna. agora também o status dos "condenados da Terra". erro de produção. das relações de classes e de dominação. velhos.

num conceito microfísico de Foucault. Mais recentemente. Medium de comunicação. abstrata e difusa. O Estado . incluindo neles as redes de jornais. A guerra propriamente dita não foi de conhecimento de ninguém.neste caso.4. Da mesma forma. Já não se pode mais interpretá-lo como um território em que ele se encontra associado à figura do governante. no momento em que se tornou oficial e aceito pela academia. é o exemplo mais claro deste objetivo. como na época de Maquiavel. hoje este tornou-se seu próprio medium. os atentados terroristas e nas situações internacionais e planetárias de guerra. o Estado como excrescência política não prevê a troca e produz pânico e terror.tornou-se o próprio medium. tampouco como multiplicação e difusão molecular. reduzido o papel do homem e das classes. rádio. o poder propriamente dito não está menos ainda nos espaços institucionalmente definidos como tal. fim das intermediações e flutuação das responsabilidades. televisão e revistas. É pólo irradiador de informações e comunicados. Ultrapassando a situação em que o Estado era dependente dos media para sua projeção no campo internacional. de que fala Baudrillard. interferindo exclusivamente na forma de o mundo tomar conhecimento e formar sua opinião acerca do desenvolvimento da guerra. não se restringe mais à infra-estrutura e às instalações físicas dos próprios sistemas de comunicação. perdeu sua violência teórica e crítica. o Pentágono . na era técnica. mas torna-se categoria genérica. já que o Estado como medium de comunicação. A instância política decide a partir de informações distantes da opinião pública e elaboradas por equipes criadas especialmente para esse fim. que passaram a ser sistemas auto-referentes. Torna-se máquina decisória com retroalimentação própria. os partidos comunistas. providenciou ele próprio a sua verdade. O que não dizer então dos sindicatos e das grandes associações trabalhistas. a qualificação do poder leva à sua própria anulação. 5. como a AFL-CIO 46 . O comportamento deste tipo de Estado da era tecnológica é mais notório em questões como a ameaça nuclear. a máquina estatal auto-regulada entra num ciclo "orbital". o próprio Estado tornase também meio de comunicação. produzindo notícias. retirando-se daí também parte de seu poder. numa situação em que as forças chamadas "aliadas" usaram-se de uma estratégia de informação muito diferente da utilizada pelos norteamericanos no Vietnã. em que o mundo do controle é dirigido a partir do sideral. É a satelização. mais uma vez. Tratava-se agora de excluir toda influência crítica ou negativa dos media institucionalizados. uma vez autorizados e participantes da vida política esvaziam-se. buscando construir e difundir imagens e fantasias de si mesmos. A Guerra do Golfo. O marxismo. O Estado orbital Desaparecidas as instituições intermediárias. O "locus" do poder Se o poder no Estado transpolítico deixa de ser troca e é apenas violência do pânico e do terror. diante da própria transformação que sofreram os sistemas de comunicação. A nomeação.

por princípio.p. O que se pode fazer é agravar um deslocamento e até desorientá-lo para se obter um golpe inesperado" (1986. por si próprio. exatamente porque sua fragmentação supunha uma forma de não-poder. Nunca está onde se convenciona situá-lo. este mesmo produto. como tampouco reduz-se às instituições que buscam fixá-lo. derrubar governos e alterar circunstâncias anteriores. O poder apareceu através exatamente desse impacto. flutuante. captar uma aspiração coletiva e genérica e a transformar em um ato sintético de impacto. Um artigo na imprensa. Uma massa. a idéia de manipulação e de influência determinada. Mas no resultado da eleição constatou-se o uso de um poder através dos efeitos que provocou. pode ou não ter repercussões que redundem em alguma forma de poder. Ela usa-se de uma forma de poder que não se acreditava estivesse concentrando. Da mesma forma que um produto cultural torna-se independente de seu autor uma vez que é posto no mercado ou ganhe difusão pública. transitório e. cada parceiro sofre um golpe que suscita um contragolpe. como já mencionado. É algo de natureza muito mais abstrata. A lógica da circularidade. Ôtomos realizam a estratégia e modificam a relação das respectivas forças. Tudo indica que o poder é algo flúido. sem o perceber. não aparece. em que os fatos são emitidos por sistemas e meios de comunicação e depois novamente refratados por uma massa de receptores e enviados de volta à televisão. nomeá-lo ou localizá-lo. indepentente do desejo. deslocante. Não porque seus autores o conseguissem intencionalmente ou munidos de algum poder. uma matéria jornalística. acima de tudo. o poder é algo que. ou melhor.dos Estados Unidos. uma declaração de uma figura eminente. Trata-se de cristalizações. A intencionalidade do autor em nada pode alterar isto. que pela sua oficialização não têm nenhuma força contestatória ou peso de desafio político. "Os átomos são colocados em encruzilhadas de relações pragmáticcas mas também deslocados por mensagens que os atravessam num movimento perpétuo. Assim. do controle dos agentes.30). mas porque puderam. E assim ocorre também com as minorias: no momento em que se institucionalizam perdem sua agressividade e violência. um livro. da administração. nenhuma direção prévia as organizou e a massa impôs um "não" coletivo que se materializou num momento dado. quando percebe uma deslocação. mina. 47 . qualquer um desses fatos pode ter ou provocar um grande impacto na situação política. um acontecimento no exterior. petrificações. formando o modelo de rotatividade. da manipulação. por exemplo. em diferentes exemplos da lógica de que a institucionalização é morte e a persistência enquanto movimento é o que mantém a pulsação vital. Lyotard diz que em lugar da velha clássica unilateralidade na transmissão de mensagens há uma forma agonística de se jogar com a linguagem. só aparece em seus efeitos. que não está necessariamente com aqueles que ocupam postos na administração ou nas grandes empresas ou na sociedade de forma geral. pode alguns dias ou semanas antes de uma eleição inverter totalmente as expectativas das enquetes de opinião e surpreender com um resultado imprevisto ou com uma votação maciça em um candidato inesperado.

neste exemplo. ela os cria. diluem-se. de não estar no lugar onde se desejaria que estivesse. exatamente por este caráter fluido do próprio poder. em que houve grande mobilização popular nas ruas das grandes cidades. perdem-se. III. como visto. No dia-a-dia dos media são construídas novas fábulas e o componente de verdade desses fatos (cenas de rua. é usado para resgatar um indício de veracidade no mundo fictício. portanto. A questão do sentido é que já não se coloca. não há um sentido falso alterando um autêntico. as cenas "autênticas" embaralham-se. já que. de uma lógica das irrupções repentinas. "O antiiluminismo"): a TV não dá uma versão dos fatos que transmite. O poder é conquistado casualmente por certos grupos. Em Habermas e Weber. nem responsável consciente e deliberado por uma virada surpreendente em seu comportamento. sem que isto pudesse ser atribuído a nenhum partido. uma vez terminado o movimento. choques violentos. organizações mas logo em seguida desaparece novamente. surpreendentes.Estamos diante. igualmente. para isso: Primeira Parte. Na edição. A auto-referencialidade dos meios de comunicação constrói diariamente novas estórias para que o público as apreenda. O SER ENFRAQUECIDO 1. O sagrado. significou também uma forma de cristalização do poder nas mãos de uma massa. da mesma forma. As massas por si assumiram o direito do não e posteriormente. o final da metafísica ocorre com a diminuição da respeitabilidade do sagrado. de nenhum agente. através da arte. O fenômeno brasileiro das Diretas-Já. O nivelamento começou com o desenvolvimento da racionalidade do mundo técnico e com ele ocorre o que Weber chama de "perda de sentido": desaparece a graduação da racionalidade entre o sagrado e o profano. No capítulo anterior. nem utilizadas como capital. a descrição feita da TV foi elucidativa para caracterizar o traço de "errância" do mundo atual (V. não estava nivelado à vida cotidiana. o fim da metafísica (Deus está morto. das viradas espetaculares que não podem ser administradas como imaginava a velha teoria do poder. Ninguém pode se considerar dono de uma irrupção repentina das massas. alteram-se como a cor dos objetos ao sofrer a mudança da fonte de luz: vale apenas seu componente formal para fazer parte imaginária de outro mundo. Para o primeiro. a idéia de verdade e de autenticidade caem fora desta lógica. como álibi da notícia. No mundo como fábula não há mais experiência autêntica. Tudo torna-se fábula. mas numa posição acima dos homens e sobrevivia de forma secularizada tanto na aura. como nas tradições filosóficas e religiosas. já não era mais possível rearticulás-la. no início dos anos 80. flagrantes de cinegrafistas). fim do interesse nas causas "últimas". no passado. Assassinato de Deus Nas páginas precedentes. massas. a história e os acontecimentos jornalísticos haviam se tornado fábula. 48 . mundo trabalhado como ficção) conduz à perda de sentido.

formas "mitificadas" de uma nova religiosidade. solitária diante de estruturas maiores e mais determinantes. O sujeito filosófico foi liquidado duas vezes. que não necessitava de argumentos. Por outro lado. as ideologias eram respostas às frustrações modernas. alavancas e sistemas. (idem. (Habermas. como vimos até o momento. e às possibilidades de usar os equipamentos eletrônicos e computadores. a humanidade esteve sempre envolta em um crime fictício. pela magia dos botões. Parece. Primeiro. como então imaginar seu assassino. pelo visto até agora. Eliminando-se os vestígios auráticos do sacro e volatizado este tipo de produção de imaginação criadora. mas marcada pela performance. trata-se um ser que não 49 . culturalmente sancionadas.p. já que matar algo que não existe é o mesmo que não matar? Logo.1981. portanto. eles também. Isso porque: (1) a religiosidade não parece ter desaparecido de fato. Elas buscavas salvar os momentos expressivos ou prático-morais reprimidos ou pós-postos no padrão capitalista da racionalização. A profanização da cultura burguesa faz desaparecer a "força irracionalmente vinculante" do místico e volatizou-se o núcleo de convicções básicas. A estrutura de comunicação da modernidade fez ruir as visões de mundo integradoras e socializadoras. que tornam-se. A espécie humana. que o pensamento de Habermas não atinge o momento particularmente atual. Havia um enraizamento do místico e do religioso de tal forma que suas orientações valorativas permaneciam impermeáveis às experiências dissonantes na esfera do cotidiano. A morte de Deus e o fim do sentido têm ainda mais um desdobramento. pelo "impossível conhecimento do assassino de um poder que não existe".499). e uma segunda. Arthur Kroker acha que ocorreu o assassinato de um Deus que de fato nunca existiu. p. num segundo. pela impossibilidade de localizar o detonador dessa própria liquidação da ontologia. agora sem nenhum conteúdo filosófico. o que se matou foi apenas uma ilusão e ela se depara agora com uma "verdade" da natureza frágil. é objeto de uma dupla negação. o conceito de um homem enfraquecido como dizia Heidegger: "do ser como tal não resta mais nada. Sua negação própria enquanto entidade que se acreditava substantiva. contudo. pelo desaparecimento da ontologia.501). Cai por terra. num primeiro momento. com suas estruturas estáveis.O nível de racionalidade do sagrado sempre esteve abaixo da racionalidade da ciência cotidiana mas sua estrutura intelectual para ele sempre havia sido melhor. então. à carência ou déficit do mundo vivido pela modernização social. a forma de entendimento torna-se tão transparente que a prática comunicativa cotidiana não garante mais espaço algum para o poder estrutural das ideologias. pelo fascínio tecnológico. que foram as imagens de mundo. Se Deus jamais existiu. enraizada. Para Habermas. o conceito platônicometafísico de homem enquanto estrutura fixa e consistente na cultura e na história. Ascende. ao contrário. o que acontece é que ela abandona o campo das entidades metafísicas e volta-se aos "bezerros de ouro" da sociedade de consumo. impotente. (2) desaparece a força integradora das ideologias mas aparece a "força integradora das redes". político. pelo agir técnico operacional. e depois.

é a lógica horizontal da duplicação em oposição à anterior. São os sujeitos que sorriem para si próprios de que fala Baudrillard em América. Uma sociedade em que desaparecendo o outro só sobram os replicantes. l987b. ou seja. As metáforas para tal descrição são diversas. A metáfora do espelho leva a um raciocínio analógico. O espelho foi usado por Jacques Lacan para caracterizar uma fase no desenvolvimento da criança em tenra idade em que ela antecipa imaginariamente a apreensão e o domínio da unidade corporal. abrir-se à cena do imaginário e à representação. Igualmente as situações públicas. o self projeta-se para si mesmo na forma do look (cenário de vestuário). O conceito de clone ou de multiplicação de idênticos significa a multiplicação sempre do mesmo e o abandono da lógica de transcendência. a fractalidade. O efeito é o desaparecimento do outro.1987). p. o espelho que se quebra. Multiplicação e fracionamento infinito A unidade do sujeito está estilhaçada. a coletividade que funciona como demonstração material de sua própria 50 . l988). de um significado individual e de um sentido existencialmente dicisivo. o conjunto. A lógica do clone significa que só há o assemelhar-se a si mesmo. l988. conhecerem o que está sendo exposto. Da mesma forma. distinguindo seus limites. É o próprio grupo. o sujeito da era informático-computacional é representado pelo clone: divide-se em múltiplos iguais é multiplicidade de egos como numa cultura biológica. Portanto. vertical. a fase do espelho em Lacan é a fase constitutiva do ego.funcionam não mais para participantes observarem. A unificação opera-se com a identificação com a imagem do semelhante como forma total.tem mais nenhum enraizamento no tempo e no espaço. de falar. em que de um ser dividido. encontrar-se em toda parte. O outro torna-se "bizarro. em que vemos refletir nossa imagem. Já não choca mais. Baudrillard. A nova sociedade produz no campo mais difuso e genérico a "quebra do espelho". É uma diferença interna que permite à criança. de se exprimir publicamente. 2. Não se tem mais a necessidade de ser. um ser rizotômico. l987a. o estilhaçamento ( cf. um ser que não é mais "arbóreo" mas vagueante pelo globo sem mover o corpo.e fabricada . Já não existe mais a expectativa de um caráter pessoal (Personhaftigkeit). da relação entre um enraizamento no espaço e no tempo e suas repercussões no abstrato. sem qualquer mistério" (Lipovetsky. de apresentar.ao infinito. visto como composto por partes separadas.151). apreenderem. São os indivíduos que têm obsessão de provar sua própria existência. mas não de ocupar a rua de forma política. é-se absolutamente indiferente a ele. Cada um desenvolve por si próprio suas imagens de si e do mundo que o odeia. de mostrar-se para o outro. O homem existe mas nada mais há por trás dele. tem angústia de se manifestar. é a transparência do sujeito que explode em fragmentos. A referência agora é somente o si mesmo. Usa-se o clone. nômade" (Deleuze/Guattari. Sua diferença é possível . No primeiro caso. chega-se à concepção de um ser unitário.

Também as máscaras tornam-se a riqueza de facetas de cada um. penetrado pelas redes. um espaço é absolutamente distinto do da sociedade na modernidade. um novo tipo de relacionamento: o sujeito se destabiliza. nesta demasiada proximidade de tudo. Estamos falando da "encefalização eletrônica". através do trabalho. pelo comando. feed back e recorrência. o sujeito torna-se um operador. se envolvesse num processo de estranhamento de si mesmo. mas peças componentes. o que ocorre é uma total interpenetração. o homem situa-se como uma peça. implícito. A desestabilização dos sujeitos A grande transformação provocada pelo mundo marcado por nossos duplos tecnológicos. ao contrário. em que o espaço vital humano reduz-se ao ecrã.. as novas tecnologias redimensionam estes marcos. está aí exatamente o novo tipo de esquizofrenia.existência. O homem integra-se no universo eletrônico e passa a fazer parte de um grande circuito. Diz Lyotard. que na televisão os telespectadores não são mais consumidores. seu carro. Um universo marcado pelo domínio. Participar nos acontecimentos sociais ou culturais passa a ser uma forma de sentir-se vivo. suprimida a última. a circularidade de questões e respostas. perfurado. intrínsecas. matéria morta. cabine informatizada.. Baudrillard afirma que o ser humano tornou-se uma sucessão de máscaras que se sobrepõem umas às outras e que. A proxenética da informação introduz esse novo conceito de proximidade. Outrora se dizia que o homem mantinha uma relação de alienação com a máquina. só há transformação. Ela precisa de provas constantes e cada vez mais contundentes. Esta funcionava como sua negação. para voltar a se reestabilizar no mundo das tecnologias. de provar a si mesmo que não se é defunto.dado como necessariamente verdadeiro. do ambiente. a condutibilidaede absoluta. só restam "células sem qualquer transcendência". No mundo fragmentado. e toda a vida exterior passa a ser vista como uma tela. O universo das tecnologias cria uma nova posição e um novo espaço de interação neste mundo. era aquilo que fazia com que o homem. troca de informação. No novo mundo. in put/out put. a coletividade é o que fascina e o próprio aparecimento do coletivo que é emocionante. usuários ou sujeitos que "a fazem". 3. um amalgamento entre os dois. pelas máquinas que instituem uma nova ordem de organização da sociedade. A existência já não é mais algo pressuposto. Na descrição do sujeito fractal. 51 . segundo o qual o homem já não é mais responsável pela produção de seus próprios limites. Se se era localizado num determinado espaço e na marca de um certo tempo cultural. problemas e soluções. fóssil. redispondo a questão do tempo e do espaço de forma absolutamente nova. As pessoas vão para assistirem a si mesmas. No mundo atual. A proxenética da informação é um complexo de fluxos e circuitos: é a proximidade de todos os lugares. um componente permanentemente atravessado. pelo controle. Para Jean Baudrillard. pelos sistemas de comunicação no chamado "universo proxenético" (Baudrillard) e ao mesmo tempo encapsulado e retomado em relação a outros universos.

Ela é troca constante de identidades diversificadas. na história e no universo de valores. o poder do significante. realizado. Mark Poster constata que estes introduzem novas possibilidades de jogar com a identidade. Como Nietzsche. (Baudrillard. de sonho. Na realidade das novas tecnologias. a quebra da temporalidade libera o presente de ações e intenções. 1990). Para ele. que o centrariam e o tornariam espaço da práxis. na sociedade. desentabilizam hierarquias e mesmo dispensam o sujeito. deslocando-o no espaço e no tempo. sem conduzir a nenhum conflito existencial. pode inventar aleatória e ficticiamente qualquer conjunto de dados de identificação que na verdade não se é mais nenhum deles exatamente. já que ele está operacionalizado. O que assinala o caráter patológico é a ruptura dessas divisões. suas dimensões heróica e utópica não têm mais para que existir. Ele se torna aberto a tudo e é transparência absoluta . a vivência de passado como se fosse presente e o embaralhamento das categorias num conceito de presente perpétuo. (Baudrillard. tem-se um ser fragmentado. é opressivo. removem antigos papéis sociais. Este pode ser qualquer pessoa e ninguém. neste isolamento do presente. que será vista mais adiante. A nova esquizofrenia Mas a grande marca distintiva da mudança de era está na transformação radical da relação com o tempo e é isso que vai definir o caráter "esquizofrênico" do homem da nova era. já que a identidade assume uma forma totalamente flutuante. Assim separado. aquele que torna tudo pequeno. ele absorve o sujeito com fantástica vivacidade. na nova era estamos diante de um "ser realizado": o indivíduo está realizado. vista como sequência de três momentos distintos (passado. marcado por uma posição na cultura. presente. 1989). voltado a um projeto ou à produção de um futuro. ele não tem mais necessidade de transcendência. não-fragmentado. 4. Em vez de projetos e utopias. Fredric Jameson estende ainda mais este conceito. o fim da metáfora do sujeito. contrariamente. de futuro. O mesmo fato ocorre com a contraposição da modernidade entre ser alienado/ser consciente. em Assim falava Zaratustra. Analisando as relações dos homens desta época com os computadores. 52 . O indivíduo tem tudo que deseja. e o que ele dispõe. este mesmo cruzamento hoje é questionado. A esquizofrenia em Lacan é descrita a partir da experiência da temporalidade. Isto marca o fim de tudo.da inevitável promiscuidade das relações que se apoderam do indivíduo e de seu íntimo. a terra tornou-se pequena e sobre ela pode saltitar o último homem. o satisfaz. futuro). um si mesmo coerente. Ele não tem mais a história projetiva. variadas. tem intensidade extraordinária e forte carga afetiva. O conceito de alienação supunha a possibilidade de seu oposto. Se no antigo mundo social a identidade (cruzamento de aspirações individuais com jogos sociais) era vista como algo fixo. não mais marcado pela alienação mas pela instabilidade esquizofrênica.

O fato serviu para que o autor ilustrasse o tipo de embaralhamento de tempos que provoca a vivência patológica com as tecnologias na era atual. tivessem sido separadas do resto do mundo. Ele é parte. portanto. Ele é esta rede. Jameson descreve a experiência de uma jovem esquizofrênica como paradigma do homem atual. em que se investe tudo nessa fascinação do presente. de novas coordenadas de espaço e tempo e de uma nova posição do homem dentro deste novo universo. As crianças que cantavam agora são prisioneiras e estão sendo forçadas a cantar. difícil de descrever. dentro da terminologia de Caillois. ele dominava a máquina. visão estereoscópica. Sente-se. amplo. Hoje. ou então.(Jameson. Ao mesmo tempo. ouve uma canção alemã. complexo de assepsia total e eliminação de todos os germes. Fora da rede. conjunto de próteses e proteções que substituem as defesas biológicas naturais. e. Ela sente que já não mais reconhece a escola e que esta se transforma em um barraco do período de guerra. As crianças tinham aula de música.Para ele. São os jogos de azar e vertigem que marcam essa nova relação do homem com o mundo e não mais o de competição e expressão. do entusiasmo. associado a uma misteriosa carga afetiva. presas nos barracos cantando.l984) Assim se configuraria. agitação de imagens fílmicas sem densidade". Estamos diante de uma total superposição de outro universo. da emoção. o "presente perpétuo" da era das novas tecnologias de comunicação. Mas pode-se muito bem imaginar o sentido positivo de euforia. portanto. a eliminação do próprio caráter 53 . uma jovem. da transformação de aspectos ou da superação de uma visão modernista do mundo em direção a algo que seja pura e simplesmente seu aprofundamento e sua transformação. cujos limites não pode mais distinguir: a vastidão amarela brilhando ao sol e as crianças. de tal forma que ela se põe a soluçar. na momentaneidade e no processo de cristalização do imediato. fechado como em uma cápsula. que. pára para ouvi-la e aí apossa-se dela uma estranha sensação. que concecta com outros indivíduos ou com a própria máquina. a situação é distinta. o mundo perde a densidade e vira "pele lustrosa. que estava no campo. ela vê um campo de trigo. Antes. universal de alta sofisticação tecnológica mas não só como terminal. Em vez de passado/presente/futuro. do impacto. Segundo o relato. É uma forma de trabalhar a cultura e os dados culturais.Em seu texto sobre o pós-modernismo e o capitalismo tardio. então. via-se num conjunto em que ele e a máquina eram ao mesmo tempo produto e produtor. diz ele. A jovem. do agora. peça de um sistema complexo. provocada por este tipo de relação com o tempo. dizia ela. tela perfurada através do qual tudo passa e nada o transforma. um "sentimento incomodante de irrealidade". de alta intensidade intoxicatória ou alucinógena. com isso. no caso da jovem. É o que alguns autores chamam de "homem-bolha". sai para dar um passeio e no momento em que passa por uma escola. como se a escola e a criança. ele está isolado. que não se trata apenas da alteração de alguns componentes. o da vivência do êxtase. tomam-na com uma ansiedade fantástica. era de caráter negativo. O presente do mundo. componente. coloca-se a diluição do passado num presente e a ausência de qualquer devir possível: só há um tempo. o significante material coloca-se diante do sujeito com redobrada intensidade.

totais e a crise das formas modernistas como a representação artística. Daí a impossibilidade de existir a melancolia. que 54 . a violência. especialmente no seu período de crise (final do século XIX) na presente sociedade em que aqueles valores tendem a desaparecer. o espaço geográfico. cap. mas principalmente sem mais a crença religiosa. só o tédio lhe resta como sensação de vazio existencial. de jornalismo. tédio de viver a vida como reprise interminável de sensações já sentidas. Mas não só isso: o homem da nova era é indiferente. é iluminado e superexposto". Cínico em relação às estratégias e aos projetos de ação e intervenção. e os suicidas. desaparecendo. Recolhido na sua própria interioridade. destrutivo. dirigidos pelo desespero de seus próprios instintos. para isso: Marcondes. A nova era suprime os componentes da realidade filosófico-existencial.1). de dois tipos de niilistas: os passivios. o universo em que tinha sentido a própria melancolia e angústia da época. como se apaga um programa de computador. A indiferença deve-se também à ameaça radical de destruição do planeta. l988. a vontade de mudança. como nunca. que já não conseguem mais identifica-se com o mundo atual e. os ideais sociais. a solidão e o desespero. do tédio e da melancolia. Resta ainda a indagação sobre os destinos das angústias. Tem-se racionalmente como verdadeiro o declínio da arte. a angústia. Nietzsche falava no niilismo completo. radicalmente só e entregue a sua própria miséria. de suas noções de sentido. sem mais a cidade. trabalhar com seus parâmetros. associada à falência do social e do ontológico.humano dos indivíduos. de seus princípios de funcionamento. o conceito de literatura. E o conceito de "novo" que ainda se retém na era tecnológica é o da modernidade. o isolamento. o choque. de política. milhões de homens na atualidade. que preferiam o nada ao nada preferir. o Teatro do Absurdo já havia apontado as marcas da tragédia do homem moderno: o vazio. (Baudrillard). Indiferente porque nada mais o choca. o sentido da ação política. que marcavam o caráter da modernidade. como o êxtase. Daí as emoções da era serem marcantemente emoções-limite. voltado às ocupações eletrônicas que se fecham num sistema computadorizado. a explosividade radical. o homem se sente. de cultura como um todo. como espaço de onde não brota mais nenhum novo. De forma bastante prematura. o vizinho. inclusive. A marca do momento é de posturas radicais extremas. A capacidade de se interessar pelo mundo externo declina com a perda de importância do outro e da realidade. a dor no sentido como se tinha na modernidade. O homem telemático não tem sequer o direito a essas sensações porque são categorias que já não fazem mais parte do seu mundo. da política. já que o declínio das ideologias e das utopias acabou com os projetos futuros. É isso que marca também a total perda de referências de milhares. tédio de tudo já ter sido visto. menos ainda. a convicção política. É o que mantém uma relação de assincronia no sentido de Bloch (V. suicida. da filosofia mas não se abre mão de seus critérios de valor. "O homem perde sua sombra.

ocorrendo o empobrecimento da cultura prática comunicativa com a penetração da racionalidade no domínio da ação. contém. desajuste. Mais do que indecifrável. e um mundo que se comporta de forma relativamente imprevisível e que detém em si um componente "ativo" no processo social. visualiza um conflito entre um sistema. Os novos conceitos. a angústia e o sofrimento não têm mais a que se referir. os sujeitos potencialmente capazes podem 55 . É o armazém do trabalho interpretativo de gerações precedentes. Sequer a categoria da insatisfação ainda sobrevive. IV. que submete a seus imperativos a forma de vida doméstica e autoregula-se a si próprio. Cultura do cinismo e da indiferença Juergen Habermas descreve a realidade social como o jogo entre duas esferas que se relacionam mutuamente: o sistema e o mundo vivido (Lebenswelt). encerra a esfera da vida privada assim como a da opinião pública. é insuportável sentir que seu tempo desapareceu repentinamente e as novas regras excluem qualquer retorno ao período precedente. colocação fora de uso. A questão. Este segundo é o que é produtor de sentido e espaço das possibilidades de ação. o mundo vivido torna-se "colonizado". Joga com elementos do passado para se afirmar no presente. abandono. para Habermas. extraídos da lógica da própria técnica (desarranjo. do culturalmente transmitido e linguisticamente organizado. por esse mesmo motivo. quando o mundo vivido submete-se ao sistema. É onde a tradição faz contrapeso aos desacertos da comunicação. atendem a esse grande contingente dos inconformados com a pura e simples eliminação do "molde" de suas culturas pela nova era e com sua colocação à margem. O homem da era tecnológica e informatizada já não encontra mais nenhum referencial para sua insatisfação além do tédio radical. A angústia é componente do universo da modernidade. pessoas com cabeças dos anos 60 circulando livremente e se chocando com frequência com outras dos anos 80 ou 90. A proposta do autor alemão. As modas retrô. sucata) dão uma noção do novo caráter da crise existencial. Uma vez desfeito este nó. portanto. Excluindo-se os componentes espirituais e existenciais da vida. Essas "trombadas cronológicas" indicam o quanto confuso e indecifrável para a maioria ainda é o presente. um componente de criatividade e de recuperação dos enquadramentos que o sistema busca continuamente lhe impor. como visto. CULTURA PASTICHE E VAZIA 1. enquanto organização. Se ele é reprodução simbólica da vida. portanto. É aí que a reprodução simbólica entra em perigo.torna os homens destes tempos simultanea e anacronicamente inseridos em várias épocas históricas. No contacto com o "sistema" (todo estruturado segundo princípios funcionais de eficiência e desempenho). está na diluição do nó que se encontra no processo comunicativo. quebra de funcionamento. obsolescência. O mundo vivido é o meio para a reprodução simbólica da vida assim como o horizonte formador de conceitos. completamente expurgados do novo social que se implantou.

os exageros. uma mistura de tendências sem lei ou princípio. a prodigiosa expansão do cultural por todo o reino do social dá-se de tal maneira. desde o valor econômico e o poder estatal até as práticas e a própria estrutura do psiquismo. sua graça. Outras tendências teóricas vão no sentido de encarar cultura como uma totalidade e uma progressiva perda de significado e de importância dos indivíduos. os conceitos e as significações do agir. Não se tem mais a mesma paciência para ouvir discursos filosóficos ou críticas densas de processos sociais ou individuais. o humor e a morte Quem chamou atenção para o caráter pastiche de nossa cultura foi Jameson. a nostalgia. da ação. E de que cultura trata-se na sociedade da técnica ? Num primeiro momento. do sujeito ou mesmo de uma totalidade parecem perder o sentido. tornaram-se "culturais". da chamada "cultura do vazio". por exemplo de Fredric Jameson e de Eberardt KnoedlerBunte. ocorre na atualidade uma situação em que a fantástica expansão do social na política. o político. deslocando o referencial para o agir instrumental-operacional. É o caso. que não têm necessariamente relação consigo mesmas. a reflexão sobre os fundamentos. os da ridicularização dos maneirismos. a ridicularização. Não de trata só da ausência do componente histórico (visto no sub-item "História"). já que não há mais a motivação oculta deste. A cultura passa a e caracterizar-se pelo cultivo mórbido do que já passou. desaparece o sujeito. Neste modo cultural. nas empresas e na economia criou uma nova ordem social.desenvolver novas formas de comunicação e superar as tendências restritivas e uniformizantes do social. O princípio da prática. privado. O pensamento filosófico. Além do fim dos estilos pessoais. Tudo é perpassado pelo componente "cultural". destilou todos estes componentes da vida moderna de tal forma que a realidade perdeu muito de seu charme. Uma sociedade cultural é uma realidade em que as diferentes esferas anteriormente autônomas (o econômico. seu impulso satírico. mesclam-se num mesmo tipo de linguagem. 56 . nem o sentimento latente da norma atrás de si. Esta deixa de ser alguma coisa localizada no espaço acima do social para ser integrante da própria generalidade da vida em sociedade. as origens. vive-se o passado por força da ausência geral e difusa de participação no presente. que poderia chamar-se "sociedade cultural". faz parte do pastiche também a nostalgia. do questionamento. Para o segundo. o estilo pessoal. particular. A ironia da cultura é marcada por componentes tais como o pastiche. a da cultura. do movimento. Para o primeiro. o social). definindo bases inclusive das próprias identidades individuais. Pastiche é um mimetismo de outros estilos. instaura-se o "cansaço da teoria". do real. As formas de cultura pastiche ridicularizam os maneirismos. da investigação dos princípios. que diferenciava um autor na multidão. a excentricidade mas de forma distinta do paródico. que tudo na nossa vida social. da participação sobrepõe-se ao da reflexão. porque o momento presente. a cultura torna-se "matriz dominante de tudo". Habermas é um dos únicos autores da contemporaneidade que ainda prestigia a possibilidade de uma autonomia de indivíduos e de uma esfera de vida.

das circunstâncias. É a cultura da leveza. oscilantes e flutuantes. na televisão .da produção da "deformação cancerígena do relato" (Requena). do sentido que os homens davam à vida leva também a que qualquer violência na atualidade dispa-se do caráter "ideológico". O desaparecimento do ontológico. tornando-se. em suma. interpretando os incidentes praticados pelos hooligans em competições esportivas. Após os incidentes históricos de 1945. É o tempo do artificialismo dos personagens. Ela é a própria ressurreição espectral de formas "que extrai frivolidade da morte e modernidade do déjà vu" (Baudrillard). do real. do vazio político e do silêncio da história.A moda funciona como o modelo clássico desta circulação contínua de signos do passado. Baudrillard. os estilos. dos agentes numa indiferença absoluta do mundo. das imagens idênticas. desapareceu a confiança no futuro e as perspectivas das massas. do histórico. o componente vivo que ainda soçobra neste território é o da violência pura em que espectadores agora invadem e tomam a cena. Em um mundo em que destituiu-se o herói e sua função épica resta somente uma pulverização dos atos sociais. do light. 57 .no produto narrativo das telenovelas . A "cultura do cinismo e da indiferença" é filha da era da chantagem e da ameaça de explosão do planeta. Há como que uma humorização geral e trabalha-se tudo sem se levar nada a sério. as diferenças alternam-se de forma infinita recompondo-se em momentos distintos como caleidoscópios mas sem nenhuma inovação efetiva. acirradas com a questão da Guerra Fria. de luta de classes) não mais se refere a projetos a ela externos. ao contrário. É um tipo de carroussel do tempo em que os componentes. violência pura. O comportamento das pessoas diante das novas formas culturais pósiluministas é marcantemente de "indiferença". afirma que esta violência surge da tela. Diferente das violências no passado (marcadas especialmente pelo traço claramente social. da castração de todos os componentes explosivos dentro dos meios de comunicação. Passam a ser eles próprios o espetáculo de uma cultura veiculada pelos meios de comunicação que já é pura "cultura morta". Seria produto da ausência de acontecimento. Se tudo isto está morto. nas ciências humanas. na literatura. a produção social de cultura acaba por incorporar um desprezo cínico que circula no social de forma ampla. da dificuldade cada vez maior de escrever e. na publicidade. Também são flagrantes na literatura as consequências da cultura pastiche. A literatura perde seu eixo preciso e vaga por territórios indeterminados. do sentido cômico na política. a humanidade não mais voltou a ser a mesma. reivindicatório. tornaram-se ainda mais céticas.

nas relações com o corpo e com a morte. inclusive com as mesmas tensões. a estar ao lado dos heróis e a sofrer com eles os mesmos tipos de pressão. Trata-se de uma mudança qualitativa excepcional. como nas formas clássicas de arte e comunicação em que. o teatro. a dança ou qualquer outra forma artística . Não se está mais numa posição cômoda e segura de quem apenas assiste. Neles. Os museus tornaram-se atração de massas e isto como decorrência da civilização técnica. 3. O envolvimento é dentro da cena. Cada um sente-se si próprio componente do conjunto que assiste. de um comportamento das massas. Isso significa que as diferenciações sexuais tornam-se irrelevantes (inversão de 58 . o desvio para práticas masturbatórias . permanecia clara em todos os momentos. Um erro pode causar consequências e nisso o participante é responsável. Beaubourg é um dos casos sempre lembrados: reanimação artificial. sobrevive. Se antes havia uma aura. um pulsar desesperado e incontrolável. Se no chamado "mundo real" a sexualidade carregou-se de pânico . Na era eletrônica investe-se no "espírito interativo" em que o indivíduo pode se transportar à cena e dentro dela viver. pela relação que cria com sistemas visuais. Uma marca clara. A coletividade fascina-se por si mesma. trabalha essencialmente com o psiquismo. dos videogames . O corpo e a morte A culturalização geral da vida tem também seus desdobramentos nas formas de sexualidade. que dotava a obra de arte de um brilho especial. 2. A separação. o perigo está também no agir errado.e pelo que se expôs acima sede insaciável de vivência contracenando com máquinas produzindo simulacros de experiência no campo da generalidade. por exemplo. inapropriado. "incinerador que absorve energia dos acontecimentos e os tritura" (Baudrillard). a literatura. quase que por conta própria. Aqui. emotividade e penetração que pudesse ter a representação. o espectador era sempre alguém que estava de um lado enquanto que os atores permaneciam do outro.Alguns monumentos da cultura morta podem ser visivelmente observáveis. assim como imprevisível e inadministrável.e que separa radicalmente a relação que hoje se tem com eles da que se tinha antes com a televisão. hoje ela transferiu-se para toda a cena do museu. angústias e emoções dos personagens originais. o cinema. que é exatamente um conceito de vivência estética total. o original deixa de ser o objeto a ser visto e a própria situação é que passa a encenar originalidade no observador. que transitam livremente e em escala mundial. No território de signos. operacionais e interativos. pois a sociedade eletrônica. além disso . jogo emocional e angústia. a vivenciá-los. indevido com a operação eletrônica. onde cultua-se exatamente aquilo que na vida cotidiana desapareceu. apesar de não material. por mais força. a performance é o componente principal.na civilização eletrônica o princípio da abstratificação do sexo irá estender-se também para outras formas imateriais. Mas cultura é também.a chantagem com a aids.é que neles as pessoas passam a "entrar nos jogos". Coletividade interativa Outro conceito próximo é o da musealização do mundo.

Ao corpo sexualmente igualado soma-se o corpo fisicamente reduzido. É uma tendência que foi originalmente apontada por MacLuhan. toques. crescimento. empenho). hoje ela tornou-se onipresente mas com outro tipo de "força plástica": o trágico é vivenciado por todos mas a morte foi denegada. local de exercitação de "cultura" e transformação em máquina produtiva (equivalente de uma estrutura maquínica de funcionamento.70) Em 1936. Isso se chocaria.p. vivenciam o processo genético de nascimento. Se naquela época a idéia de morte havia perdido sua força e sua presença plástica e se os homens. da "cultura para o outro' (para a vaidade. na consciência de todos. a consideração da iminência da morte. que via nos meios de comunicação formas de extensão dos membros e dos sentidos humanos.estereótipos. ao mesmo tempo. carícias . a humanidade ainda não havia testemunhado a experiência da chantagem atômica. Walter Benjamin dizia que há alguns séculos. multiplicação. como um prolongamento maquínico de um cérebro. naturalmente. iniciada nas lutas de emancipação feminina. Hoje ela ganha importância na medida que os sistemas de comunicação funcionam como seus substitutos modernos. torna-se um objeto estranho ao homem. os indivíduos passam a buscar a recuperação nostálgica e fictícia daquilo que foi culturalmente desinvestido. chegam mais longe. Só seres vivos morrem. A banalização da morte evoca o comportamento irônico-humorístico. reduzido a um componente de circuito eletrônico num processo de comunicação. cínico. rendimento. que se vê em todos os espaços outrora tidos como sérios (jornalismo. ao contrário. da mesma forma. contacto. A "mentalização" absoluta dos processos sociais tem a ver com um desinvestimento do componente físico do corpo. Corpo. seu efeito de choque.1936. Há perda de importância do corpo como espaço de sensações. a visão de seu processo. uma barata. 59 . o sobreinvestimento exacerbado na cultura física e/ou estética. sua radicalidade sobre a vivência cotidiana. com a chamada "cultura do narcisismo". trocas. mais eficientes.(Benjamin. age-se como se ela não existisse. A sociedade burguesa alcançou um efeito lateral: subtraiu de seus membros a visão do processo de morte. como em Kafka. ciências). Esta indiferenciação. Mas.isto é. entrou no terreno da trivialidade. toda a cultura perde. quando Benjamin escreveu esse texto. Quando a morte perde sua eficácia simbólica. A exclusão do componente especificamente humano/animal do espírito da perfeição técnica elimina. que buscavam a equiparação ao homem (ao comportamento masculino) foi radicalizada pela cultura eletrônica. sobreindexação artificial de signos distintivos para marcar o ocaso da diferenciação). um corpo que. a inspiração sexual) . neste caso.e sobreinvestimento nele como máquina. o componente trágico (a seriedade). envelhecimento e morte. a idéia de morte perdeu a onipresença e sua força plástica. política. sistemas de ação orientados a fins socialmente relevantes. as máquinas e/ou a visão de mundo maquínica só pode ver homens como equipamentos.

ela desloca-se do trabalho e passa a atuar diretamente sobre o produto e a imagem de empresa. através de mecanismos como publicidade. atravessando guerras. comportamentos que transcendem os limites do conhecido e atuam num momento da pós-história. cartelizada. indescritível e arrasador. marketing e formas de "relações públicas". nebuloso enredamento de homens. indeterminações. impondo uma "organização racional do trabalho". monopolista. da razão como crise de qualquer possibilidade de ação orientada a fins socialmente relevantes. historicamente determinado das relações de produção entram hoje numa era de flutuações. num quadro que poderia ser chamado de "orbitalização genérica". imperfeições e retardamento que caracterizavam o componente humano nesse processo. Viver o aqui e agora sobrepõe-se ao existir para um objetivo. A partir do início do século XX. chegando até o pós-guerra como uma organização que mesmo reduzindo a nada os componentes de um pensamento liberal. tudo continuará a parecer um imenso amontoado paradoxal. material. Apesar disso. sua expansão continua mais ou menos inalterada. O humor pós-moderno tem a ver com uma atitude cínica em relação a esses mesmos fins. oscilações livres. constituiu-se como forma econômica dominante. regras. instituindo um processo de mensuração das operações necessárias à produção. complexo. A confusão estabeleceu-se porque derrubado o paradigma deste sentido da ação. instituições e idéias. ela ascendeu rapidamente a status cada vez mais decisivos no processo produtivo. A ela se associa o papel atribuído à inteligência. o que é o mesmo que a barbárie. De uma participação relativamente discreta no início da expansão capitalista. do Iluminismo. Componentes que outrora faziam parte de um quadro fixo. Isso já pode ser sentido pelo componente "informação" no processo econômico. A civilização da técnica trabalha no sentido do empastelamento dessas noções. toma-se a crise da modernidade. a inteligência acoplava-se ao modo de produção. criando uma equação de desempenho máximo e eliminando todos os resquícios de erros. O processo econômico As repercussões da nova forma de organização do social também fazem-se sentir no campo da economia. acreditou-se que haviam terminado todos os sentidos possíveis. No século XIX. Enquanto não se tem os instrumentos e meios para se trabalhar esse novo. é combatido pela criação de Estados socialistas e por um forte movimento operário internacional. A barbárie contemporânea é mais desconfortante porque trabalha com situações.A recuperação do "ser para a morte"(Heidegger) ou a restituição do sentido trágico da experiência estão no plano do agir segundo um princípio de "continuidade no tempo". 4. É o momento em que o capitalismo expande-se em escala mundial. Uma terceira fase do uso da inteligência no processo produtivo reconhece-se agora após o declínio das concorrências no mercado 60 .

É a máquina que funciona por si mesma. (idem). uma relação de reciprocidade em que um produtor precisa contar com uma parcela de mão-de-obra para dar conta do produto e o trabalhador necessita do pagamento das horas-trabalho efetivamente gastas (salário) para sobreviver. Trabalhar nesta unidade industrial deixa de ser. 1986. a serem produtos propriamente. espécie de ingresso. independente da necessidade de novos investimentos. a fixação e a consolidação de grandes e macroempresas multinacionais. em alguns casos. mas exatamente na construção da abstração pura. capitais e demais componentes macro-sociais planetários escapam à nossa realidade. torna-se uma espécie de desdobramento social geral da estrutura do capital. Trata-se de uma crescente volatização do objeto. Tudo sugere que a própria produção. O investimento maior das empresas já não está mais na qualidade. Mas o processo de volatização e de flutuação indeterminada não atinge somente o capital e a produção. estilos. na marca. do ponto de vista do trabalhador. para poder mesmo "entrar no mundo" do 61 . A metáfora aplica-se tanto à unidade produtiva propriamente dita como ao aparelho de Estado e demais instituições sociais. estes sim. É a engenharia de imagens. no qual a inteligência investiu durante a expansão e consolidação do capital. quando o Estado retira-se progressivamente de cena. É o momento em que desprende-se do trabalho. O deslocamento do eixo de importância do homem para os sistemas técnicos tem seu reflexo também na própria estrutura da produção em que a robotização. passando ao trabalho de constituição de imagens abstratas dos serviços públicos que executa. na medida em que também desacoplase do processo produtivo e passa a funcionar como componente abstrato de toda a produção. representações que passam. A economia como um todo torna-se orbital. a informação funciona como seu veículo preferencial. a própria cultura. abre mão do interesse principal do grande capital para investir no plano do imaginário puro. A imagem publicitária. Ela própria se torna seu "lado humanizado". e os capitalis giram. O processo é caracterizado por "circulação frenética". como já apontado. da produção. que estava ancorada em processos sociais determinados. p. que passam a investir na inteligência para se firmarem como instituições sociais equiparando-se e. histórica e geograficamente situados.18). de relações públicas orienta-se para a constituição de núcleos genéricos e difusos em torno do nome de empresa. a mecanização. Mesmo este. Estes passam a ser o "benefício social" de sua existência enquanto empresa para a obtenção de lucro. difusa sobre todo o sistema. proliferam. Ao lado disso. a automação contribuem para que a estrutura industrial seja progressivamente assumida por organismos e equipamentos eletrônicos. pelo fato de funcionar por si mesma. sofre um desdobramento mais ou menos similar. a imagem formada através do trabalho de marketing. muito menos na utilidade de suas próprias mercadorias. Sobre nossas cabeças.internacional. senha. substituindo o próprio Estado e demais instituições de amplo alcance. multiplicam-se apenas pelo fato de estarem circulando. Trabalhar e receber salário tornam-se componentes místicos do sistema. A inteligência industrial abandona agora o produto. da geração pura e simples do lucro para tornar-se uma espécie de lógica ou ordem hegemônica. (Baudrillard.

torna-se ainda mais abstrata nas operações com cartões de crédito eletrônicos e com transações em que o dinheiro praticamente não aparece. Da mesma forma que não se tocam. como uma espécie de sangue circulante num organismo planetário genérico e difuso. não se sentem fisicamente. O sistema gira. É um processo virtual exatamente porque de fato não existe mas demonstra seus efeitos. por sua vez. Não haveria mesmo porque o processo produtivo manter-se preso a padrões materiais. que se eterniza através do sistema técnico-informacional da atualidade. Tudo funciona como uma regra de dependência e interrelações múltiplas em que todos estão necessariamente envolvidos. desagrega-se dos componentes materiais. O valor. o funcionamento autônomo da máquina produtiva. Os entrelaçamentos das grandes corporações. que o esquema antigo e original de um capitalista ou de uma família proprietária de uma empresa desaparece através da volatização de todo o regime de propriedade. que já havia perdido seu lastro material na equivalência ouro através do papel-moeda e depois mais ainda com o cheque. Esse mecanismo alucinante de girar no vazio atravessa todos os componentes da economia. trânsito. de bens financeiros executam-se plenamente e bem à distância. As operações financeiras são realizadas através de todo um conjunto de mecanismos abstratos e em geral puramente verbais. Torna-se um fato "natural".consumo e das mercadorias. O fato de algumas nações ascenderem e outras decaírem em sua posição dentro do sistema internacional não significa de forma alguma alteração 62 . As empresas como as instituições sociais clássicas tornam-se espécies de "bens comuns" apesar do regime de propriedade dita privada. A moeda. a um enraizamento na cultura. imaginária. somas de dinheiro. o fundo econômico internacional distribui-se por diversas economias do planeta e seu gerenciamento significa nada mais do que a confirmação da própria ordem internacional de poderes e privilégios. a velocidade. as formas de propriedade pulverizadas ou emaranhadas em múltiplas organizações que se entrecruzam dentro de um mesmo conglomerado demonstram. virtual. O trabalho na era da técnica torna-se uma concessão. a volatização. que originalmente encontrava-se agregado à própria mercadoria e que era mensurável pelas horas-trabalho despendidas e pela qualidade da mão-de-obra necessária à sua produção. a abstratificação dos fatos através da informação revolucionaram radicalmente o quadro social. discretamente disseminado em todos os sistemas produtivos como uma espécie de componente necessário de sua própria existência. compra e venda de moedas. na sociedade numa época em que as transformações sociais. outros componentes do processos social de produção igualmente "espiritualizam-se". Também a economia torna-se muito mais estratosférica. orbital. no qual os homens têm acesso indireto e periférico. A trama que se cria na sociedade da técnica e da sofisticação eletrônica é tal que os elos que ligam indivíduos entre si passam a ser igualmente abstratos. O lucro sobrevive como condição inerente de todo o processo de produção mas dilui-se enquanto componente explosivo da relação capitaltrabalho. Apenas sua circulação é sentida. da mesma forma como já se sentia época do capitalismo concorrencial.

importante no funcionamento desse sistema. mas um deslocamento. em última análise. 63 . estão presas e submetidas a regras fixas e a limites espaciais determinados. uma comutação de posições como as do jogo de xadrez que.

através das proposições históricas. A história aparece como "redenção". de outro. A lógica dominante é a da dialética. Os princípios filosóficos que orientam a ação e a ética deste tipo de visão de mundo são a alienação. que passou a se alinhar de forma radical e ortodoxa ao pensamento stalinista. como a repressão e a dominação especialmente no pós-guerra. especialmente em Kant. capaz de atuar sobre o socius e alterar a situação histórico-social dada na direção da construção da utopia terrena. que encontrou sua experimentação e realização efetiva no plano da história soviética.1. estava muito mais voltado para a implantação de um Estado socialista e teve em Lênin seu representante mais importante. que. a repressão.Terceira Parte PARA ONDE VAI O HOMEM 1. Hegel e Marx. A proximidade com o pensamento religioso não é casual. é que produzem as idéias e o social. O pensamento marxista desdobrou-se em duas vertentes principais que foram o materialismo dialético e o materialismo histórico. a realização da história está na consecução do princípio da Idéia. fato não acompanhado pelos seus originais seguidores. pelo pensamento hegeliano. que nos anos 20 desenvolve a oposição teórica à orientação socialista da ordotoxia soviética. O traço religioso aparece ainda de outra forma. passa a afirmar que não é das idéias que surgem os desenvolvimentos histórico-sociais mas estes. que estaria de ponta-cabeça. Corrente histórico-humanista. a dominação. vai compor aquilo que mais tarde caracterizaria a crítica ao Iluminismo e aos desdobramentos da técnica. Teorias e estratégias 1. A esquerda hegeliana É a corrente a mais diretamente herdeira do pensamento iluminista. A época do pós-guerra foi marcante também para a "guinada" teórica do próprio Lukács. O segundo. O primeiro. que vai encontrar seu paraíso na sociedade futura comunista. ou seja. a superestrutura. encontrou seu representante principal no jovem Lukács. salvação de toda uma classe social oprimida e marginalizada. ao contrário. cujo marco teórico está na filosofia idealista clássica. o valor básico funda-se no humanismo e a perspectiva estratégica centra-se no sujeito histórico. Em Georg Lukács reaparecem os princípios filosóficos desenvolvidos por Marx em sua fase jovem e os conceitos mais próximos aos Manuscritos econômicos e filosóficos. de um lado influenciada pelo pensamento de Freud e.1. Em Hegel. em que a filiação em Hegel e à esquerda hegeliana é mais evidente. Marx opera o que chamou da "inversão hegeliana". Dele irão se desenvolver os estudos teóricos mais fecundos da intelectualidade européia de lingua alemã da primeira metade do século. quando ao desvirar Hegel.1. voluntarista 1. 64 . a chamada Teoria Crítica da Sociedade.

O pensamento marxista deste início da segunda metade do século teve como teóricos mais importantes, dentro da vertente humanista, além dos reminiscentes da Escola de Frankfurt, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty e Henri Lefèbvre. Isso porque, a partir dos anos 50, na própria França iria se originar a ruptura dentro do pensamento teórico, inclusive entre os marxistas, dando origem ao pensamento estruturalista, que produziria seu próprio corpo de pensadores. De qualquer forma, os descendentes de Lukács terminariam como os teóricos de Frankfurt, sem deixar herdeiros. A esquerda freudiana, que teve como principais representantes nos anos 20 Bernstein, Reich, Fromm e Bernfeld (cf. estudo detalhado em Marcondes, 1988b), e que teve como figuras proeminentes nos anos 40 e 50, da mesma forma, os teóricos de Frankfurt, resultaria nos anos 70 e 80, numa nova corrente, já despida dos vícios da psicanálise da cultura e do consumo, ingênua ou incapaz para dar conta dos desdobramentos do capitalismo avançado de pós-guerra. Essa corrente é hoje liderada por Alfred Lorenzer. É ele que vai dividir nos anos 80 com Jacques Lacan a proeminência no cenário internacional da psicanálise de esquerda. Se a contemporaneidade tem dois seguidores fundamentais do pensamento de Freud, que souberam avançar e atualizar sua teoria, estes são Lorenzer e Lacan. Ao grupo de Lorenzer pertencem também Helmut Dahmer e Klaus Horn. Em relação aos representantes da Teoria Crítica, seu desenvolvimento iniciou-se a partir dos anos 30 na República de Weimar. Depois do exílio nos Estados Unidos e, mais tarde, de volta à Alemanha, seu pensamento concentrou-se na sociedade de pós-guerra e na expansão fantástica dos meios de comunicação e nas formas sofisticadas de repressão e domínio. A Teoria Crítica passou a trabalhar em profundidade conceitos como repressão, totalitarismo e mundo administrado. Desenvolveu estudos sobre a sociedade de consumo, as formas de manipulação e consciência manipulada. Criticou o posicionamento, na opinião de seus teóricos, submisso de toda uma grande faixa de classe média, que assumiria uma postura de "consciência feliz" dentro de sua ignorada infelicidade nas malhas de um sistema de dominação injusto e frustrante. No que diz respeito aos meios de comunicação, desenvolveram mais densa e amplamente a reflexão e a teorização sobre os novos processos de industrialização do bem cultural e de reificação da cultura, em que os objetos do homem passaram a se tornar seus senhores. Foram os primeiros a questionar, mesmo antes do desenvolvimento do estruturalismo, as possibilidades de um ego forte, como pretendia a psicologia do ego, especialmente de Karen Horney nos Estados Unidos, como sendo uma ilusão conciliatória do homem com o meio hostil. A rejeição ao desenvolvimento da técnica e seus desdobramentos como formas de opressão e de desconhecimento do homem enquanto tal seria realizada por Herbert Marcuse de forma radical. Se Adorno e Horkheimer haviam desenvolvido as teses mais contundentes da teoria crítica dos anos 40 e 50, é no final dos anos 60 que a efervescência estudantil e política nas sociedades capitalistas mais avançadas destacariam a figura de Marcuse, especialmente em território norte-americano.

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Na Alemanha desponta também nessa época e pela primeira vez, o nome de Juergen Habermas, tido como um fruto tardio desta mesma escola e cujo desenvolvimento da fase madura correspondeu a uma ruptura com a tradição clássica desta mesma escola. Há que se considerar também, antes de se fazer um comentário mais intensivo da obra de Habermas, outra corrente alemã moderna - que teve sua produção marcada especialmente nos anos 70 e 80 em Berlim junto à revista Aesthetik und Kommunikation e cuja posição teórica rompe com o pensamento clássico de Frankfurt e de seus seguidores mais modernos, especialmente Oskar Negt, Alexander Kluge e Dieter Prokop - a saber, o grupo em torno de Eberhardt Knoedler-Bunte (já mencionado na Segunda Parte, "Coletividade interativa") cuja visão tende a uma nova captação do social como um processo que transcende um campo específico da realidade para se tornar uma dimensão que cobre e alinhava todas as demais definições do social. O conceito de sociedade cultural é a ruptura com os conceitos tornados clássicos pela Teoria Crítica, como indústria cultural, indústria da consciência (Hans Magnus Enzensberger). Mais ainda, esse grupo passa a refletir radicalmente as possibilidades individuais e coletivas numa realidade que passou a ter que conviver com a chantagem nuclear. Esta variável, de forma nenhuma secundária ou descartável, não estava presente nos teóricos de Frankfurt e não aparece com destaque na teoria de Habermas. 1.1.2. A teoria de Juergen Habermas A proposta formulada pelo autor alemão, apresentada de forma muito resumida, significaria a recuperação da razão onde ela desviou seu desenvolvimento e a retomada da comunicação, ou seja, da fala, eliminando as barreiras que a impedem de se expandir plenamente. Para Habermas, a razão é um conceito que não está inutilizado do ponto de vista histórico e estratégico; deve-se encontrar uma maneira de melhor distribuí-la. Para isso é preciso que se repense as formas de uso da razão e as possibilidades de manifestação dos sujeitos na sociedade. Esse processo supõe uma nova estratégia que já não tem mais nada a ver com a filosofia da consciência - ou seja, a teleologia clássica cujos representantes principais eram Lukács e Adorno - tampouco com a filosofia do sujeito autoconsciente de Marx, que havia chegado a uma aporia. Para Habermas, a saída do dilema encontra-se na mudança do paradigma filosofico hegeliano clássico para o linguístico, o da ação comunicativa e do mundo vivido, articulado como sistema. A nova proposta epistemológica baseia-se em dois clássicos da sociologia não-marxista: Émile Durkheim e G.H. Mead. De Durkheim, Habermas extrai dois componentes fundamentais. O primeiro é o fato de que a integração social deve ser vista com o algo necessariamente associado à integração sistêmica. Não existe uma percepção de mundo subjetivo, próximo, marcado pelas relações sociais diretas e palpáveis, sem a vinculação deste com um processo maior, despersonalizado, impessoal. Em segundo lugar, de Durkheim Habermas extrai também a
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concepção de força do mundo sagrado. É deste mundo que se origina a autoridade moral das normas sociais. Por derivação, o autor alemão irá buscar exatamente aí uma espécie de "reserva cultural e tradicional dos indivíduos", que poderia torná-los capaz de fazer frente a uma imposição racionalizante e massificante de um sistema anônimo. De G. H. Mead, Habermas vai obter a estratégia comunicativa. É dele a idéia de que o discurso garante o processo de individuação. No processo comunicativo é que se instaura a possibilidade de espaços recíprocos de autoreprodução e de empatia. Uma comunidade ideal de comunicação é aquela onde há identidade de indivíduos no universal e no particular. A comunicação, portanto, pode funcionar, segundo ele, como uma espécie de ligação, mediação entre os interesses e as possibilidades individuais e sua realização no plano macro-social. Está nestes dois autores, portanto, a fonte para a construção de uma nova postura teórica, segundo ele, mais adaptada aos tempos atuais e que trabalha pela reconstituição de algo que ficou perdido no desenvolvimento da razão. Indo mais a fundo nas intenções de comunicação, Habermas interessase por lingüistas norte-americanos, em especial, Austin e Searle, e pela teoria dos atos da fala, que irá servir de suporte aos seus próprios projetos de comunicação. Esta teoria assinala que a fala é marcada por dois componentes básicos, o conteúdo proposicional e a força ilocucionária. A teoria argumentativa de Habermas tem dois planos distintos. Um, o da racionalidade comunicativa e outro, o dos próprios princípios da argumentação. A primeira refere-se a uma força racional-comunicativa vinculante, que advém de atos ilocucionários em virtude de um sistema de conexões com razões e na possibilidade de um reconhecimento intersubjetivo, baseado na convicção racional e não na força. Diz ele, que a dissolução do núcleo arcaico-normativo dá lugar a uma imagem de mundo, à universalização do direito e da moral e à aceleração dos processos de individuação. É possível através disso, portanto, que os indivíduos ainda se constituam como sujeitos. Para isso, é preciso que reconquistem a dimensão da comunicação, obtível por este conhecimento intersubjetivo de que fala o autor, a partir de um processo de entendimento mútuo em que os interlocutores reconheçam-se como indivíduos válidos e dignos da consecução do próprio projeto. Habermas é iluminista na medida em que vê o desmoronamento dos processos sagrados, sua "deslinguistização", como um mecanismo capaz de tornar os indivíduos, a partir daí, autônomos, e, por este meio, conquistarem um espaço de relevância no social. Sua teoria da argumentação é marcada por quatro requisitos de validade na linguagem e pelos objetivos que se deve considerar para o atingimento desses fins: A inteligibilidade (compreensão), definida como o conhecimento prévio anterior que os interlocutores devem possuir para obter entendimento; a verdade, ou a aceitação da validade do regime de verdade do sistema sóciocultural; a autenticidade, apresentada como a questão das "intenções dos atores", que devem coincidir com o que eles "realmente pensam". Aqui situa-se
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está marcada pela esperança de um reeguimento da razão. Instala a imperiosidade dessas mesmas estruturas e. era já traçado de 68 . Não há regras universais e os componentes do acordo são puramente convencionais. desloca o sujeito a um plano secundário e torna as estruturas o centro de referência das análises e interpretações. Louis Althusser e. ao contrário. Corrente estruturalista Originária da França de meados dos anos 50. neste caso. Rolan Barthes. a justiça. o desenvolvimento da racionalidade desviou-se do caminho e tendeu à racionalidade com vista a fins (Zweckrationalitaet. interpretava os fatos a partir de seu desenvolvimento e transformação. Inicia-se com o ingresso de Claude Lévi-Strauss no College de France e. Jacques Lacan. Se conforme os princípios literártios do Nouveau Roman. além de um significativo grupo de intelectuais de esquerda). como eles são e estão. recuperar a razão e isto se daria através do entendimento entre os homens. Aqui. Contrariamente. Tenta corrigir a interpretação do mundo até então marcada pelo forte investimento no sujeito. Em algum ponto. que na década de 30 passou seus conhecimentos a alunos como Klossowski. 1. a estragégia do autor. real e imaginário. segundo Habermas. que. em que os agentes voltariam a repensar seus planos e projetos a partir de uma postura representada pela dotação de autonomia e capacidade de intervenção de homens historicamente localizados. discernir entre normal e patológico. O estruturalismo tem origem na França e assinala uma ruptura no desenvolvimento intelectual. ser e aparência. tomando por base uma postura evolucionista de inspiração dialética.2. o primeiro Jean Baudrillard. de certa forma. e seu desdobramento literário no Nouveau Roman de Alain Robbe-Grillet. Bataille. Os atores. antes fortemente marcado pela tradição hegeliana ( o responsável pela disseminação de Hegel na França havia sido Kojève. posteriormente. o sujeito da ação desaparecia. o mecanismo funciona. As corrente historicista tinha caráter genético. a corrente estruturalista aparece como uma reação à visão humanista e voluntarista da história e dos processos sociais. com a criação da revista Tel Quel. devem ter elementos para poder avaliar. ao contrário. que representa a resposta alemã às exigências de uma ação dentro de uma sociedade caracterizada por influências radicais e altamente transformadoras das novas tecnologias de comunicação. operava-se uma recusa da continuidade cronológica clássica e descartava-se a metáfora antropológica. importa saber como a máquina. não vêm mais ao caso as determinações de natureza nem importam as projeções futuras mas apenas os componentes fixos. e ao desencanto universal. Principais figuras dessa orientação teórica foram o próprio Lévi-Strauss. segundo seu princípio. Michel Foucault. É a estratégia de bom senso. os objetos passavam a adquirir status de autonomia.o problema ético da sinceridade e da retidão. na psicanálise lacaniana. de Weber). É preciso. Lacan. Em todos esses princípios. o homem deixava de ser o próprio centro. que trata da correção do ato da fala em relação ao contexto normativo. não organizava seu destino. Por fim.

se pudesse revolver ou transformar a história. dizia ele. que tenta fazer uma fusão entre marxismo e psicanálise e colocar em prática seu projeto através de uma releitura d'O Capital. de forma a justificar que este. a figura mais conhecida do pensamento político é Louis Althusser. Althusser contraargumentava a implantação de uma sociedade socialista como uma estrutura que se sobrepunha à do capital. uma releitura do social e do sujeito nele inserido. acreditar que pelo trabalho de homens. é de Félix Guattari e Gilles Deleuze. Mais genuinamente político dentro da escola lacaniana é Cornelius Castoriadis. torna-se um sujeito "clivado". os homens não fazem a história. deste discurso estranho que está em mim e que me domina". Outra derivação do pensamento lacaniano. nos moldes estruturalistas. através de sua força conjunta organizada e consciente. em que o infans acede ao mundo social dado através da linguagem. cria uma máscara. passa a ser representado. superando os vícios e as formas ultrapassadas do marxismo clássico. estaria na inexorabilidade da sociedade sem classes como desdobramento necessário da própria sociedade capitalista. 1975. Contra o fatalismo historicista de Lukács. já que assume uma natureza que é dada externamente pelo Outro e guarda a instância do imaginário como um território perdido. Sua veemência maior está em deslocar a posição clássica do sujeito no marxismo. de Marx. a partir de então. isto é. mais precisamente. que dizia que a sociedade de classes estava grávida de sua própria superação na sociedade sem classes. para ele. no território do simbólico. que tentam reencontrar a natureza humana através da investigação da condição psíquica pré-simbólica. Lacan separa na história individual do infans um momento marcado pelo domínio do imaginário e outro. A partir daí.p.124) 69 . Seria ingênuo. na idade madura. entretanto. Para ele. o homem experimenta uma "perda essencial de si mesmo". As estratégias políticas e teóricas de filiação lacaniana investem no simbólico ou no imaginário. passando a analisar. isto é. portanto. a história não é feita por homens singularmente situados mas por classes sociais ou. Sua interpretação supõe a exclusão de todos os componentes historicistas que até então haviam composto a interpretação marxista européia. O esquizofrênico. ou seja. do estágio do homem ainda não ocupado pelo discurso social e genérico. No primeiro. agora através da exploração do imaginário.antemão pelo Outro: o lugar organizado como teia estruturante do sujeito. não era mais hegeliano e havia mesmo rompido com Hegel. a categoria fundamental desse próprio sujeito é a da autonomia. pelas próprias "relações de produção". como um caso clínico de regressão à fase pré-simbólica. "meu discurso deve tomar o lugar do discurso do Outro". Através dela. (Castoriadis. O erro de Althusser. apresentando uma leitura interna do texto de Marx. Esta fase é apreensível através do discurso do psicótico. Constituindo-se como sujeito dividido. traduzido em termos linguísticos. cuja manifestação seria o puro inconsciente. permitiria o pleno afloramento deste campo até hoje tão desconhecido e supreendente do imaginário. que através da sua Instituição imaginária da sociedade propõe.

1. A concepção de Mal aqui tem caráter difuso. na estratégia estruturalista. conforme o caso. na política. que marcaram não somente o princípio e as primeiras manifestações teóricofilosóficas do Iluminismo mas em particular a psicanálise a as ciências sociais contemportâneas. enquadrando-os dentro de uma lei maior. europeus) da supremacia técnica. Como já mencionado. o domínio amplo e genericamente abrangente dos meios de comunicação. O "novo homem" é um tipo plenamente integrado à máquina. para não se deixar dominar pelos fantasmas. Cultura.na filosofia. na arte.Trata-se de dar condições ao homem para sobrepor-se ao discurso social e genérico ou a este "lugar estruturado como teia". As fontes principais são Nietzsche. ainda que em alguns autores.3. O modelo mais sintético desta visão de mundo está na Sociedade Frankenstein. Não há mais sujeito que se autonomize mas a crença num homem enfraquecido. Heidegger e Weber. nas ciências humanas. um uso instrumental da ciência. a sedução. é no Mal que está a vida. indiferente. Sobrevive. portanto. no indeterminado. A Sociedade Frankenstein é marcada pelo investimento no superficial. da paixão. especialmente nestes que acreditam no investimento no imaginário. os programadores cuja vida toda é orientada conforme a centralidade no computador. Jean Baudrillard propõe a ressurreição do princípio do Mal (a ordem existe para ser desobedecida). passível de uma identidade. Corrente pós-moderna Embora derivado essencialmente do estruturalismo. Tratava-se de fazer uma leitura do psíquico ou do social. toda estrutura que exorcisa sua negatividade corre o riso de reversão total. na crença no imprevisível. dos objetos. a crença no gênio maligno das massas. autocentrado. a possibilidade de que homens concretos possam superar o conjunto maior apesar da força e da determinação deste sobre suas vidas. na história.datada da modernidade . que passam a recontar e a reordenar a história. Instala-se a perda das referências filosóficas clássicas . da inteligência artificial. Para ele. o pós-modernismo rompe também com esse modelo. literatura. que dava ou não 70 . da capacidade de máquinas ocuparem o lugar de homens. genérico e destituído de conotação negativo-moral que geralmente lhe é atribuída. a política e a cultura. Por exemplo. mundo de vida próprios os mantêm apartados do resto da sociedade mas ligados visceralmente à máquina. dos computadores. O exemplo mais esclarecedor está na cultura dos hackers nos Estados Unidos. Há aqui tanto os estusiastas (norte-americanos) das novas tecnologias de comunicação e informação. filosofia. As estratégias deste terceiro tipo de paradigma são diferentes de autor para autor. ficando em seu lugar uma precedência da técnica. Esta investe contra o terror e a violência da interpretação. já exposto no início da Segunda Parte (3º paradigma de Lucien Sfez) e no item "Teoria em ruinas: Nova teoria da comunicação". o sujeito se fractaliza e o comportamento é cínico. como os críticos (em geral.

(Ver. As massas realizam. Também o objeto. segundo ele. com mais detalhes. 2. "faz o jogo" do pesquisador. de controlar. classes. Em oposição a isso. opaca. Se pós-modernidade havia sido o desmoronamento dos metarrelatos. e se comporta independentemente em relação àquilo que lhe queiram imputar. de forma mais ou menos espontânea. nações. É na aparência. retoma. vinga-se. Através deste procedimento. a estratégia da sedução aponta que a jogada verdadeira está no domínio das aparências. Superfície). não se subordinando às aspirações controladoras da razão e rindo-se de qualquer investida da dominação racional. difundiu e tornou moeda corrente universal a "condição pós-moderna". a sua vontade. nega o homem e afirma-se enquanto autonomia cínica aos investimentos do aprisionamento e da domenticação. que as coisas se dão e é só ela que contém as leis desses mesmos fatos. em suma. Baudrillard procura destituir de qualquer validade as tentativas de homens. de tentar subordiná-los a visões de mundo. São realizadores das "estratégias irônicas". absoluto. Apesar dos políticos. na medida em que correspondesse a este princípio da lei maior. cabe agora nesta obra. na obra seguinte. das cartadas. no extremo oposto da pornografia e do erótico. como a sedução. exercendo assim uma soberania passiva. Não há a estratégia do desvelamento. a paixão. de administrar os fatos. É o espaço do jogo. impondo no silêncio de sua superioridade. o objeto trapaceia. Reage. ao contrário. desonhecida. dos estudos "científicos" de seu comportamento. L'Inhumain. imprevisíveis e por isso soberanas. que primeiro sintetizou. rebelase. sem direção ou programação externa. segundo ele. o humor silencioso. no outro há a surpresa. delegando o exercício do poder. Enquanto num só há o obsceno. positivamente os destinos da modernidade. improgramáveis. dos meios de comunicação. Os conceitos da Era Frankenstein. de a razão sobrepor-se aos fatos legitimando-os ou não conforme seus princípios. que os homens tentam apropriar e submeter às suas leis. o inesperado. não há o campo das profundidades. não há o jogo entre uma aparência falsa e enganosa e uma essência que estaria em seu fundo. A paixão está. o fim da possibilidade de uma ciência marcada ou legitimada por um discurso filosófico e político maior. repensar as condições da própria modernidade. em: 3. Imune a isso. obscura. os fatos em si ocorrem independente do desejo dos homens e têm dinâmica própria e incontrolável. não desejando. elas mantêm-se incaptáveis. a ruptura da viciosidade e do esvaziado. Ao contrário. agrupamentos. o desvendamento frio. também uma estratégia irônica. da paixão pelo desvio. Jean-François Lyotard. o objeto. O saber científico não passa de uma construção fictícia e o homem investe seu objeto exatamente daquilo que ele lá quer ver. ludibriando as estatísticas.autoridade ao fato estudado. 71 . o congelamento e a morte do sexo. exerce. o inefável. São as massas.

já que é seu "fruto tardio". (Lyotard. por exemplo. Desaparece o apoio no passado. pois jamais darào certo. diz ele. sua perlaboração não deixa de ter finalidade. é o que põe obstáculo à linguagem artificial. seus teóricos espelham fielmente os pressupostos de uma Sociedade Frankenstein em que as máquinas. há uma continuidade possível da modernidade através da "perlaboração" (Durcharbeiten). cuja perfeição se sobreporia aos humanos. não rompe com ela.Pós-moderna aqui torna-se a reescrita das características reinvindicadas pela modernidade. é no exercício da língua e da fala que é possível a rejeição desse universo. a força sustentadora dos pensamentos de outras épocas. pode muito bem ser denunciada enquanto tal. Os robôs. comporiam. É aquele "não bem escandido" que está exatamente nos campos que fogem às programações. substituirão o homem em tudo. Não obstante. É pelo bom senso que os indivíduos sabem selecionar no que é oferecido aquilo que lhes pode servir e deixar o resto às fantasias dos sábios. não se pode acreditar nem seguir as propostas futuristas dos teóricos da inteligência artificial . l988. Por outro lado.cuja intenção de programar o homem é fazer com que todas as atividades humanas tornem-se passos. intelectuais e poderosos. há um trabalho a se realizar com vistas a um futuro. inclusivwe no pensar e no agir. exclui-se a pretensão de basear a legitimidade da ciência e da técnica no projeto de emancipação da humanidade. mesmo momentânea e servindo ao bem-estar atual. o bom senso e o senso comum. outra corrente ganha cada vez mais corpo nas ciências do homem. é uma recusa às propostas finalistas e humanistas que estavam embutidas no conceito de modernidade. ou seja. Não se está aqui sendo guiado por um conceito de meta. A noção de projeto. cada dia mais sofisticados.39). diferente do mito. que é um trabalho sem fim e sem vontade. O projeto moderno. Não há mais uma utopia a se atingir mas. A aliança homem-máquina-homem. Derivada diretamente dos centros de pesquisa mais avançados em "inteligência artificial" nos EUA. por fim.p. uma geração de supermáquinas. previsões e controles. Junto com a lingua falada e as instituições há o espaço para a interpretação como territórios em que se pratica o exercício da recusa pura e simples da submissão. não funda sua legitimidade no passado mas no futuro. assim. é o senso comum que desafia as decisiões desses mesmos sábios. não obstante. como algo genuinamente distinto. mesmo assim. 72 . Para ele. Ele coloca-se aqui naturalmente também contra a posição de Gianni Vattimo. Nessa reescrita. Para ele. que fundamenta a pós-modernidade dentro da postura nietzschena. segundo eles. A conversação ordinária. exatamente por não considerar dois componentes absolutamernte humanos nas ações e nas decisões. Contra esses "novos filósofos" argumenta Lucien Sfez com base no bom senso e no senso comum. é deixada de lado em defesa de uma noção de "programação". Não se trata de projetar a emancipação humana mas de projetar o futuro como tal. associada a um fim histórico determinado. estágios de um processamento eletrônico-cibernético -. O que se tem aqui. não como superação da modernidade já que "superação" era uma categoria da extinta modernidade.

Apesar da aparente semelhança. a habermasiana. o autor tenta resgatar a idéia do movimento sobre a cristalização. Nas formas cada vez renovadas de acesso ao texto. mergulhamos no mundo unidimensional. As instituições.352-3). Mas é na interpretação (entendida de forma muito peculiar) que o autor expõe mais nitidamente o campo desta rejeição pura. A lingua falada é a expressão mais viva da incontrolabilidade e da impossibilidade de transformação do homem em máquina ou da dominação da linguagem humana pela máquina. diferente das formas clássicas de hermenêutica já criticadas anteriormente. Lá buscava-se a restituição de um discurso racional por homens que se respeitassem como sujeitos. Para este. 1988. por confundir símbolo com signo. A frase no original é: "Who Es war. soll Ich werden"(Onde era o id. seguido de comentários. muito menos do projeto de modernidade. Sfez argumenta que entre símbolo e signo há uma distância infinita.O oráculo de Freud No volume Neue Folge der Vorlesungen zur Einfuehrung in die Psychoanalyse (Nova série de lições sobre a Psicanálise). na maneira como compreende Sfez. já que esta não remete a conceitos. datado do início dos anos 30. já não vem mais em primeiro lugar. marcam. Por ela. da escola tautológica da Inteligência Artificial. Desaparecendo a distância. Sigmund Freud reúne entre os ensaios apresentados.p. retomada e retorno num mesmo movimento. exatamente também como negação da submissão à imagem. buscando pelo consenso formas comunicacionais contra a imperiosidade abstrata e burocrática do sistema. não há aqui nenhuma proximidade com a proposta da primeira estratégia. dizer do dito e lei do contrato. um intitulado "A dilaceração da personalidade psíquica". da racionalidade perdida.categoria menosprezada pelos "novos filósofos" . Sfez critica Simon.não é apenas duplicação do signos mas uma "reserva". através da qual o signo faz sentido. da reflexão. lá devo vir-a-ser). Ora. Aqui não há qualquer alusão à restituição da esfera pública. 2. do vivo sobre o morto. O ensaio termina com uma frase que se tornou posteriormente objeto de especulações teóricas entre intelectuais. de constituição de uma teoria do agir comunicativo. do exercício intelectual coloca-se como estratégia viável para se fazer frente a uma sociedade que já liquidou o Iluminismo e ameaça com a destruição plena da razão através do império absoluto e totalitário das imagens. que o explicam até esgotá-lo. vamos ver as possibilidades de uma contínua expansão e dilatação daquilo que é sistematicamente comprimido na sociedade da técnica. o símbolo . Contrariamente. é a função simbólica o que assegura coesão a um mundo comum. elas também. que é a mesma que separa regra de regulamento. O retorno da palavra. Não é um texto com referência interna e imóvel como uma torre de marfim mas interpretar é aqui um trabalho com renovação e repetição. visando interpretar o que Freud realmente havia dito. ambos não passariam apenas de diferentes graus da mesma coisa. (Sfez. 73 . o texto. Através da interpretação. pontos de insubmissão dos indivíduos a esquemas de maquinização.

Consciência e vontade representam. os valores conservadores sobrepunham-se incondicionalmente à vontade individual das pessoas. uma tentativa de "resgatar" o Lacan do (mal-) entendido estruturalista. segundo ele. agem e o fazem atuar. Cornelius Castoriadis tenta atualizar e recuperar a leitura lacaniana da frase de Freud. especialmente definida por Karen Horney. Está claro. a colocação do místico sob controle e a liquidação do anticientífico. cuja pretensão seria a de se sentir aliviado e não dominado pelas correntes sociais. aumentar sua organização de tal forma que possa apropriar-se de uma nova parte do id. como sujeito. reforçar o ego. O contexto em que Adorno faz a crítica a Freud é o do ataque à psicologia do ego. Theodor W. ali. 74 . Trata-se de domar o lado animal e submetê-lo à lógica do racional. "puro". que nos Estados Unidos obteve grande sucesso em sua intenção de construir um ego forte. aquele que troca seus negócios racionalmente. torná-lo independente do superego e ampliar seu campo de percepção e. que se trata de um projeto cultural baseado no primado da razão (do eu racional). A interpretação dada por Jacques Lacan seguiria um caminho distinto: "ali onde se estava. que busca o domínio das forças cegas. Dizia ele. o qual o eu deve almejar. dizendo que o ego. Diferentemente. portanto. principalmente no final do século passado e no começo deste. aqui a idéia de que existe um mundo administrado. Desaparece. além de eu (je) existe a categoria do "moi" que supõe um estágio ou uma situação de identidade controlada.(Adorno. assim. imprevisíveis e perigosas. Aqui encontramos um Freud iluminista. no econômico. recolocando-o dentro do hegelianismo das metas e dos fins. A consequência socialmente racional torna-se também individualmente irracional".O contexto em que faz a afirmação é o da prática psico-terapêutica. O id aqui poderia ser substituído por um genérico Outro lacaniano e a categoria do eu tornava-se um atributo do sujeito. tornar o ego independente do superego é o projeto da psicanálise que quer se livrar dos tradicionais fantasmas que incomodavam a mente dos homens. A razão deve tornar-se senhora da natureza bruta. 1955). dando ao homem condições de ter mais controle sobre suas práticas irracionais. cuja intenção é. uma indústria cultural que se sobrepõe aos indivíduos isoladamente tornando-os massa. Dava uma ilusão de soberania numa sociedade que o status da massa tendia cada vez mais a ser característica do homem moderno. Na linguagem de Platão. que o mandamento continha algo de estoicamente vazio e inevidente: "O indivíduo preso à realidade. são. Em Lacan. De qualquer forma. a tradição. para o autor grego. é o cavalo branco que passa a dominar o negro. em que a moral. é tão pouco imune às crises como é. Caberia então à psicanalise fazer desabrochar um homem liberado de todos estes "senhores " que o escravizavam. dominada e negada pela onipresença do Outro. domesticando ainda mais elementos do campo livre indomesticado. Esta deve estender seu território. É a capacitação do sujeito pela consciência e pela intenção a superar o poder de uma totalidade sobre ele. a consciência e a vontade devem tomar o lugar das forças obscuras que em cada um dominam. Adorno já via a frase com suspeita. devo vir-a-ser". Na década seguinte.

só que aqui trata-se de trancender uma situação de submissão em que a máquina ocupa o lugar do homem. irônicas. Lá ela discute a contraposição entre homem e máquina como uma atualização da mesma questão colocada por Freud. na idade tecnológica? Se não pode concorrer. Aqui.existe um "moi" que ainda não despontou para a a possibilidade de sua transposição à categoria de um sujeito. tornou-se privilégio da máquina e o homem como sujeito perdeu sua soberania. como Castoriadis. espirituais. a de dominar cada vez mais esses campos. a mediocridade. A máquina jamais poderá sentir dor. A leitura de Sloterdijk remete novamente à possibilidade de um ego. mesmo cínicas. do sujeito que transcende estas limitações. a possibilidade de realização do Dasein. pois são fatos que em tempo algum poderão ser representados. que a contenda será ganha. traduzido para uma linguagem técnica dos computadores. Já não se trata mais do Wo Es war soll Ich werden. apaixonar-se. o caráter médio e massa dos indivíduos. Não é por aí. por Sherry Turkle no seu livro O segundo eu (1984). tornou-se um "ser emagrecido". vazio do homem-massa. naturalmente. na medida em que o investimento progressivo e cada vez mais maciço neste campo chegou à produção destas máquinashomens. o iluminismo em sua aberração trágica. chorar. pois estes já demonstraram ser mais completos e insuperáveis. inesperadas. manter sua autonomia. Heidegger reinventaria a frase como: "Wo Man war. soll Eigentlichkeit werden". a discussão é novamente levantada. de onde havia o id. lá o ego deve avançar mais (pág. discutem-se as teorias da inteligência artifical e questiona-se o estatuto da razão. assim como alterase a própria ordem da frase. muda de figura e de caráter. Segundo a leitura de Peter Sloterdijk. à razão humana não resta outra saída senão conformar-se com seu status de inferioridade limitada e provisoriedade. a alma e o espírito. "sob o signo da razão". ao contrário. O homem só pode diferenciar-se da máquina. programados. a parte racional (pelo menos enquanto racionalidade de ações e decisões. Finalmente.265). visto que esta já desloca-se para outro campo. Desaparece a categoria do Es. Ir em busca do homem é reverter ou mesmo negar a frase freudiana. de uma consciência. esta "pequenês" do homem moderno. de uma vontade. com a máquina e os sistemas técnicos. Por outro lado. O que sobraria do homem. portanto. que seriam assim a quintessência da razão. na medida em que o Ich. sofrer. ter reações emocionais. enquanto bom senso ou senso comum). Eigentlichkeit significaria. sua identidade. não é este. naturalmente. a instância nãocivilizada de cada um. e sua tendência. fútil. Mais trágica ainda porque a razão escapa ao domínio e à esfera do homem e é incorporada pela máquina. codificados. o lado público. substituindo a palavra Es (o id) pelo termo Man. sem dúvida. que significa em Heidegger o tipo marcado pelo ego fraco. em termos de racionalidade. não-humano. aquele campo que exatamente Freud buscava 75 . e entra em cena a categoria de Man. O elemento opressor. nunca. O caminho da reabilitação humana. ou seja. Corresponde para ele àquela circunstância que exigimos quando construímos nossa existência (Dasein) num contínuo de consciência. apesar de não ser citada a frase. sua diferença em relação ao componente técnico possuindo exatamente todos os atributos que a máquina nunca poderá ter.

onde estava o id (e aqui por id interpretamos a parte emocional. é o que hoje aparece como a fonte única e mais segura para a nova identidade do homem na era eletrônica. a saber: Wo Es war. soll Es doch bleiben. irrealizável pelo sistema técnico).ocupar cada vez mais pelas investidas do ego. afetiva. lá e exatamente lá é que ela deve permanecer. a frase hoje precisa ser lida de outra maneira. Assim. o emocional-natural. 76 .

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