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TIGRE

— Que gigantes? — disse Sancho Pança. — Aqueles que ali vês — respondeu Dom Quixote —, de braços tão compridos que alguns o têm de quase duas léguas. — Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro —, que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento,... Cervantes, Dom Quixote, 1604

Nádia estava dizendo: — Tigre. Observei fascinado os movimentos moles de sua boca enquanto pronunciava as sílabas. As rugas que se acumulavam nos cantos pareciam ter aumentado de um minuto a outro. Diante de meus olhos, minha mulher envelhecia em minúcias. — Tigre é nome de gato — emiti por fim, armando-me da melhor sensatez. Mas, no final e a despeito de minha observação, seria mesmo Tigre o nome do cachorro que minha filha se obstinara em adquirir. Isso me foi comunicado com solenidade durante o almoço no dia seguinte. O assunto agora era outro. — A Luana tá pensando em viajar com o Murilo — anunciou Nádia numa estudada gravidade de mãe. As duas me olharam em silêncio; o próximo movimento era meu. Enchi a boca de arroz — sentia-me tristemente desguarnecido em minha função de pai. — Traga o Murilo aqui para o conhecermos — sentenciei e aquilo soou razoável para todo mundo. Feliz com meu desempenho, não sei por quê, pensei difusamente em Tigre. Talvez por isso, naquela noite, tive um sonho estranho. Sonhei que agredia furiosamente Murilo, o namorado desconhecido de minha filha, e nisso era ajudado por Tigre, muito embora nenhum dos dois tivesse para mim uma figura nítida. Acordei sedento — o médico já me advertira para largar o hábito de comer antes de dormir. Fui até a cozinha beber água. Ao passar diante do quarto de Luana, ouvi um levíssimo ruído que me pareceu um ganido — ninguém me havia dito que ela já adquirira o animal. Empurrei delicadamente a porta de seu quarto, e vi-me bafejado por uma nuvem de indefinidos odores femininos vagamente assustadores. Ouvi um segundo murmúrio, dessa vez mais seco, quase um chiado. Olhei em volta, mas, afora o volume escuro sobre a cama, tudo era imobilidade e escuridão. Uma súbita sensação de que Luana estava desperta

que eu tratei de recolher o mais rápido que pude para cima da poltrona. papai? Aqui ó. ao entrar. — Responde. temendo minha reprovação. — É sério. Minha mulher e minha filha olharam-me sério. Lucas apontou aquilo e deu um gritinho agudo. Tive ímpetos de afrontá-la. nosso extemporâneo filho de dois anos. Depois de beber água na cozinha. com essa voz despreocupada que as pessoas usam para sentenciar as certezas mais passageiras. brincava entre as pernas nuas delas. Otávio — insistiu Nádia. De novo os ganidos. Pareciam divertir-se muito com alguma coisa que não me era visível. Trinquei os dentes e levei as mãos lentamente em direção à fonte dos latidos. você não tá vendo ele.. — Fala verdade. encontro minha família toda agachada sobre o tapete da sala. mordiscando as unhas . Recuei ao esbarrar os dedos numa consistência de pêlos quentes e macios. Como explicar a elas que eu não conseguia ver o cachorro? * * — Eles são muito brincalhões e precisam de carinho — Nádia lia o folheto da loja de animais enquanto retirava cutículas com os dentes. Nesse dia. Olhou em volta para se certificar de que haviam prestado atenção. mostrando os dentinhos de leite.. Olhei minha mulher com dureza — podia quase jurar que ela se divertia com aquilo. Luana. De novo os ganidos. — O que você achou dele. Só porque não pode ver. papai? — perguntou Luana com um estranho sorriso de bebê. Nádia acompanhava em silêncio. as pontas de seus dedos ficaram amareladas com a pressão. nem articular palavra. eu vivo falando pra você parar com essa mania de assaltar geladeira à noite — disse ela distraidamente. antes de voltar para a cama. emitia gargalhadas estridentes. o que deduzi pelo rosto em êxtase de meus filhos. Alguma coisa rolava pelo chão. — Não foi falta de avisar. e uma inexplicável premonição trava-me o estômago. — e levava o rosto risonho ao volume vazio entre os dedos.. chego sempre cedo.. — Luana segurou diante do rosto um monte de ar.. Imediatamente uma umidade apareceu sobre seu nariz e Luana soltou um gritinho de prazer. tinha medo de que a coisa invisível viesse brincar com meus pés.e me observava em silêncio fez-me recuar e fechar a porta cuidadosamente. para ajeitar-lhe as cobertas. Lucas também queria segurar Tigre. Como eu previra. o cão escapou de suas mãozinhas inábeis: acompanhei com horror os olhos de Luana progredindo do espaço entre seus joelhos até meus pés. passei ainda no quarto de Lucas. — Deixa de ser bobo.. Tive vertigens. e descobriu meus olhos estatelados de horror sobre a coisa que se movia invisível sobre o chão de minha casa. Mas não podia tirar os olhos do chão. não é uma gracinha? Não conseguia me mover. Entretanto Tigre estava ao pé de minha poltrona e fazia movimentos para subir. era a oportunidade para descarregar uma aflição que ameaçava se transformar em fúria a qualquer momento. — Gui-gui-gui-gui. Como tive a bênção de arrumar um emprego próximo de minha casa. agora acompanhados de rosnados de alegria.. brinca com ele. diante de minhas dificuldades.

Tendo já uma semana que Tigre passara a fazer parte da família. exigi que. Caminhava nas pontas dos pés. Nessas horas. Ansioso. este . Podia ver nitidamente os pontos onde a carne mole de minhas mãos amassavam-se em contato com o volume do cão. Imediatamente senti uma coisa aveludada. mas qualquer objeto inorgânico com o qual ele entrasse em contato. no meio da madrugada. enquanto a pele de minha mão recobria-se de uma umidade morna. interpondo o animal entre minha vista e algum objeto. a fim de não esmagá-lo. o que reforçou minha convicção de que Nádia apenas usava o tempo da novela para se abstrair em pensamentos que eram somente dela. de alguma forma. era porque os receptores ópticos em meus olhos estavam. De repente. queria receber as carícias na barriga. pelo menos de noite. Além dos usuais procedimentos de higiene e limpeza associados à presença de um cão. acocorados sobre o tapete da sala. enquanto Nádia. A bola que as crianças lhe atiravam desaparecia diante de meus olhos tão logo ele a agarrasse entre os dentes. passei a vê-lo. com um rosto sereno e distante. Onde. À noite Luana e Lucas faziam uma tremenda algazarra brincando com ele. temendo pisar a cauda de Tigre e receber de volta seu gritinho agudo — o chão de minha casa transformarase num campo minado. marrom e pequeno. ou o fazia de propósito. Como então explicar que. Tigre retorcia-se. Coisa que logo descobri foi que não somente Tigre era para mim invisível. quero dizer. lutando contra dentinhos invisíveis que buscavam arrancar meus chinelos. Minhas rondas noturnas transformaram-se numa odisséia de horrores. Um dia o ergui diante dos olhos e pus-me a girá-lo de um lado a outro — era simplesmente espantoso. apenas o afastava de lado antes de desabar meu peso. enquanto lia uma revista. dominei o medo e levei os dedos novamente ao encontro de Tigre. ele permanecesse trancado nalgum lugar — eu não o queria correndo ao encalço de meus calcanhares quando fosse à cozinha. pegava-me a acariciá-lo distraidamente. com quem Tigre passou a dividir acomodações. voltando a se materializar no exato instante em que alguém a recebesse nas mãos. mas nada via entre elas. transido de medo. inaptos a captar a luz refletida pelo corpo de Tigre. com grandes orelhas que lhe caíam sobre os olhos também marrons. Habituara-me a tatear a poltrona antes de sentar. Às vezes. assistia à novela — curiosamente o ruído parecia não importuná-la. pezinhos almofadados sobre o piso encerado deslizavam velozmente em minha direção. Tomado de uma angústia. decidi que já era hora de me entregar ao frio exercício da lógica: se não podia vê-lo. percebê-lo com mais naturalidade. e tinha um sobressalto. * * A chegada de Tigre a nossa casa obrigou-nos a certas mudanças. Determinou-se que o lugar seria o quarto de Luana. Lucas gritou "Tigui!" e bateu palminhas. onde!? Um rosnado fino e meu coração quase parava ao contato do focinho gelado. Então me virava e encontrava minhas unhas arranhando o vazio. mole e quente me tocando. Retornava ao quarto sem nada comer. Mas ela às vezes se esquecia de fechar a porta.numa lentidão de velha fêmea saciada. e Tigre ficava à solta pela casa. acabava passando o resto da noite acordado. descoberto o montículo invisível. Abandonando o estado de sobrenatural paralisia em que até então me encontrava. minha imaginação construía um cão normal.

desenhou o que na hora me pareceu uma serpente cheia de curvas. — Um feixe de luz pode se comportar como uma onda ou como um conjunto de partículas. Eu podia estar diante de fenômeno científico de rara ocorrência. Recebeu-me com certo espanto.. Então se virou limpando os óculos: — Procure um psiquiatra. Levou o marcador ao desenho da serpente para corrigir uma imperfeição. exibiu o marcador. compreende? Fiz que sim. — Sim. O estudo dos processos dinâmicos caóticos nos ensinou que a natureza é bem menos previsível do que imaginávamos. independente da velocidade da fonte luminosa. Procurar ajuda especializada impunha-se. Estalei os dedos para atraí-lo. Luana ajudava Nádia. fiquei sério. — Viagens no tempo. contei alguns segundos. quando se trata de estudar a luz. recusando-me sua imagem. algumas assustadoras. Ele prosseguiu: — Toda a questão reside no fato de que a velocidade de propagação da luz é constante. Olhou-me com uma expressão assustada.. enquanto o cão emitia rosnados perturbados. — O que recomenda? Ele voltou-se para o quadro branco. deixava-se atravessar pela luz de outros objetos. dobras espaciais. — refleti. * * O doutor Paulo Cunha Morgado era professor de Física do irmão de uma amiga de Luana. não — ergueu as duas mãos como a evitar uma tragédia. — E. em seu gabinete na universidade. entre uma aula e outra. achando um espaço vazio entre incontáveis equações e garatujas antigas. voltando-se para mim. Foi até um quadro branco pendurado na parede e. Demorou-se olhando o desenho com uma expressão absorta. — Apenas estou dizendo que.permanecia plenamente visível. pedindo carinho. é preciso estar preparado para rever conceitos. Esse fato extraordinário tem implicações profundas.. quiçá inédito. o caos. vagamente. não. O doutor Morgado assumiu um ar pensativo. Só via suas mãozinhas remexendo o vazio. então senti a pequena cabeça encostando-se em minha mão. enquanto as duas discutiam: . Vez ou outra meu filho soltava gargalhadas. * * Lucas fazia com Tigre alguma coisa que o deixava nervoso. Aquilo me animou: — Tigre pode ter vindo do futuro? — Não. em vez de também desaparecer? O corpo de Tigre. Tigre devia estar lhe mordiscando os dedinhos. como se ali estivesse a explicação. — A natureza da luz tem sido sempre um mistério.. — Não posso ver o cão de minha filha — expliquei sofregamente. Na cozinha.

não vejo motivos para crer que se trate de algum acidente vascular. usando a esquerda. então fomos nos sentar à sua mesa: — Sua percepção visual está correta. quando morresse. com dificuldade. Tudo isso durou cerca de meia hora. Ficamos em silêncio. é demais pedir para ver o namorado da filha? — Vocês vão botar um monte de defeitos nele. ora à direita. nunca mais saberá o que é uma música. inicialmente usando a mão direita. Seu cocô eu podia ver. mas também não podia ter certeza de que arrancara alguma coisa. Tigre soltou um ganido agudo. se você sofre uma lesão sobre o lobo occipital — levou a mão livre à parte de trás da própria cabeça —. Com a ponta dos dedos puxei um pêlo. passou a acreditar que seu braço esquerdo não lhe pertencia. pode ficar incapacitado a lidar com o conceito de cores. Por exemplo. eu sei. após sofrer um derrame cerebral maciço. destro que sou. — O que o senhor acha que poderia ser? — perguntei afinal. Vocês vão detestar ele. Imagine a angústia de andar por aí tendo pregado ao corpo uma parte anatômica estranha. Ele apertava botões e figuras iam piscando sobre a tela. Lucas começou a chorar. Como você não relatou nenhum outro sintoma. — Mãe!. Segurei uma quantidade maior deles e dei um puxão forte. * * O doutor Sérgio Milan me mandou sentar diante de uma tela branca e foi refugiar-se atrás de um painel de controle. depois.. Se a lesão é no lobo temporal — a mão deslizou em direção ao ouvido —. Nádia e Luana pararam a conversa por um segundo. Ele respondeu sem me olhar: — Todos nós temos circuitos neuronais dedicados a reconhecer classes específicas de objetos. — Também não encontrei sinais de afasia. . Será que.. ora à esquerda de uma pequena cruz preta que eu deveria olhar fixamente. depois voltaram a falar. Imaginar que meus defeituosos circuitos neuronais eram para ele fonte de prazer intelectual encheu-me de uma indistinta vaidade. afinal o recolhia todos os dias. o corpo de Tigre continuaria invisível para mim? Pus-me a idealizar experimentos. enquanto ele rabiscava seus papéis com uma indiferença polida.— Só estamos pedindo pra você trazer o Murilo aqui em casa. depois eu as escrevia. — Uma vez tive um paciente que. Primeiro eu tinha de repetir em voz alta os nomes das figuras. Nada em meus dedos. tanto no hemisfério esquerdo quanto no direito — explicou ele enquanto fazia movimentos com uma caneta em direção à minha testa. — Mais uma razão para querermos vê-lo. — Acha possível que um circuito defeituoso tenha substituído o corpo de Tigre por um espaço vazio? Ele parou de escrever e olhou a caneta em sua mão com um sorriso que me pareceu quase de deleite. Mesmo assim vou pedir uma tomografia.

tentando imaginar como seria desertar de meu próprio braço. O doutor Milan recomendou conversar com um psicanalista. renunciando ao permanente estado de espanto no qual vivia fazia algumas semanas. o contato da mão. A coisa começara no mundo da Física. coitados. gradualmente o bloqueio em minha mente se desfaria diante de meus olhos. por assim dizer. influenciado que fui pela enfermidade coletiva de minha família. * * O resultado dos exames veio cinco dias depois: meu córtex visual parecia em ordem. também ela parecia nada enxergar em minha mão. se passasse a ter uma relação mais próxima com o cão. Teorizei que. Lucas balbuciou palavras incompreensíveis. . tratá-los à base de antipsicóticos? —. Todavia. achava que a questão tinha de ver com algum bloqueio mental. meu coração acelerou na iminência da vitória. queria ver a reação deles. se é que alguma vez entrara. começando pelos latidos que eu escutava o tempo todo. — O Tigre está sujando sua calça toda. vencendo a aversão. chegando. não foi sem luta que meu espírito foi arrancado dessa tábua de salvação — os latidos. digo. Em resumo. nenhum sinal de lesão no tálamo. quando ouvi às minhas costas: — E vê se larga esse cachorro — disse Nádia quase distraidamente. Quase soltei um grito de alegria — delírio coletivo. E se também não estivesse lá a resposta. passara para o interior de minha cabeça. imerso em considerações — seria o caso de interná-los todos numa clínica. nenhum tumor sobre o trato visual. E se fossem eles. e comecei a passear com ele pela casa. Também Nádia conversou comigo naturalmente durante uns cinco minutos. o fato de o problema ter sido empurrado para dentro de minha cabeça dava-me certa liberdade de ação — com meu espírito entendia-me eu. Estava a me dirigir ao quarto de Luana. Olhei demoradamente o formulário. mostrou a mão suja de tinta. mas sem dirigir o olhar para o volume que deveria estar ao lado de meu quadril. Um dia segurei Tigre com uma mão só. Um dia tomei coragem e. passando pelo contato morno que eu sentia nos dedos toda vez que o cão pedia carinho. "A coisa é mais de espírito do que de corpo" foram as palavras que usou.Ele estendeu para mim o pedido de exames. agora estávamos a caminho do espírito. tudo não passasse de um delírio coletivo criado por meus familiares. Ainda assim. A hipótese parecia sucumbir numa barragem de evidências. aos incontestáveis montículos que eu recolhia — às vezes pisava — todas as manhãs. tudo poderia ser explicado por uma forte sugestão da qual me via prisioneiro. Minha cabeça era como um velho sótão onde eu não entrava fazia anos. do qual seria eu o único a não se contaminar. que coisa gozada. Fiquei preocupado. os outros que estavam a ver o que não existia? Talvez não existisse Tigre algum. minha próxima cobaia. minha cabeça parecia funcionar razoavelmente bem. peguei no armário a coleira e a guia e saí a passear com Tigre. fingindo naturalidade. Tinha medo de tropeçar no emaranhado de circuitos neuronais empoeirados que devia haver por lá. não enxergando aquilo que de fato existia? Esta pergunta insinuou-se uma possibilidade fantástica. de lado. onde mais procurar? Seria eu um Dom Quixote ao contrário. diante da angustiante ausência de explicações mais razoáveis. finalmente.

para meu completo horror. riam de algo. forçando Tigre aos safanões toda vez que a guia se imobilizava em minhas mãos. Ele interrompeu-me: — Fale-me de sua família. — Interessante — disse ele com um enigmático risinho de lado. interessante — repetiu. Transeuntes cruzavam. — Sim — respondi desconfiado. como se aquilo se encaixasse nalgum misterioso plano universal ao qual ele tinha acesso. Se ao menos a coleira e a guia lá estivessem para transmitir algum conforto — mas nada. Expliquei a ele que não havia muito que dizer. Minha esposa era dona de casa e se entretinha pintando paredes. Seu silêncio prolongado causou-me um incômodo. — Acha sua filha bonita? — disparou ele às minhas costas. De tempos em tempos. queria vigiar seus movimentos. olhando furtivamente de lado. Instintivamente passei a falar mais alto. como não dissesse mais nada. éramos um casal de meia-idade com uma filha adolescente e um filho pequeno que viera sem planejamento. movido por suas insondáveis solicitações de cão. pelo menos saber o que fazia. * * O nome na porta era doutor Óliver Sampaio Dantas. descobria algum resíduo que devia ser minuciosamente investigado. Que mais? Torcia os beiços no esforço de arrancar a uma vida imersa na mais cinzenta mediocridade qualquer coisa de notável. levando a passear o que não existia? Um suor frio cobriu minhas costas. contei o episódio do passeio. Eu era proprietário de um escritório de contabilidade e precisava perder peso. — Interessante. algo como um ruído de coisas se chocando. Aqueles circuitos neuronais entupidos deviam estar levando uma surra de todos os outros para fazer seu trabalho direito. cumprimentando os passantes. a invisibilidade total. Estaria eu a fazer papel de tolo. Não é fácil se ver de repente a caminhar por ruas arborizadas. que já andava com a paciência se esgotando. pareceu-me que sua voz tornara-se cínica.Os primeiros minutos foram de inenarrável desconforto. psicanalista. Outras vezes a guia esticava-se subitamente quando Tigre. Sentia uma espécie de pressão em minha cabeça. um poste nos obrigava a parar. provoquei: — Então? Ouvi-o erguendo-se da poltrona — sentávamos de costas um para o outro — e passar a andar próximo à parede. — Quantos anos mesmo tem seu filho? — Dois. Queria ouvi-lo falar. eu. tive a impressão de que pelo menos um quarto deles emitiam uns sorrisos indecifráveis com os olhos baixos. com um dos braços erguidos segurando o nada. . e. é quando via estarrecido a mancha escura se formando sobre o cimento. minha filha preparava-se para o vestibular e tinha um namorado que não queria nos apresentar. eu os perscrutava desconfiado. Se riam. e tive de voltar para casa correndo. E.

Respirou fundo. Nos últimos dias passara a ser atormentado pela idéia obsessiva de matar Tigre. Quando apaga o cão em vez de apagar a família. Durante o ato sexual. dando início ao que se convencionou chamar de superego. Sua voz soou bem próximo. seu corpinho. banhado em lágrimas. costumo pensar no cão para me excitar. Como não pode apagá-la de sua vida. agitando para mim o bilhete. esperando. já a partir de tenra idade. com medo de estar fazendo voz de mentiroso. Chegando em casa. e absorve dentro de si a autoridade paterna. Olhei em volta aflito: — Ela levou Tigre? . tão logo morresse. Adestrado por anos de prática. ele havia retornado à poltrona. — Segundo Freud o menino passa a experimentar pela mãe um forte desejo sexual. * * Deixei o consultório numa nuvem de irritação. Inconscientemente você considera sua família um estorvo a suas aspirações. sua mente apagou o cão. O processo se resolve quando a criança se descobre incapaz de vencer a competição com o pai.. Não tirava da cabeça que. tão dolorosa despedida. — Quando faço sexo com minha mulher. você volta a se satisfazer com a idéia de apagamento. — Seu superego imaturo recusa-se a aceitar as responsabilidades de pai. o que lhe causa prazer erótico. causando-me um sobressalto. o esforço intelectual o cansara. Comecei a bater os dedos irritado no apoio da poltrona. libertado enfim dos infaustos processos biológicos a manterem-no prisioneiro daquela sina trágica de cão invisível. — Desejo sexual? — É o que chamamos complexo de Édipo. Já me via acariciando. Fazia semanas não conseguia dormir direito. Fiquei em silêncio. perguntei: — E como o Tigre entra na história? Ele pensou um pouco: — Claramente você tem um caso de complexo de Édipo mal resolvido — arrematou com uma voz triunfante. que é a forma que seu inconsciente achou para representá-la. Como nunca conseguiu superar satisfatoriamente a fase do complexo de Édipo. Tive uma idéia: — Tem mais uma coisa — acrescentei. Como ele nada mais dissesse. Sua mente transfere para o cão essa frustração.— Hum. encontrei Nádia chorando com um pedaço de papel na mão: — A Luana foi morar com o Murilo — soluçou. seu macio cadáver — tão adiado encontro.. ele não gastou mais do que dez segundos para encaixar aquilo à sua lógica flexível: — Naturalmente. você está realizando o que Freud denominou sublimação. você inconscientemente ainda nutre a idéia de possuir sua mãe. apresentar-se-ia a mim fofo e peludo. Estar com sua esposa é trair aquela que foi sua primeira e única mulher. frustração e desânimo.

num súbito desabafo.Mal terminei de perguntar. porém. Ele levou um dedo para coçar o olho esquerdo sob os óculos. acabei perdendo meu emprego. Antecipando-me a essa situação previsível. então parei de procurar ajuda. Antes. eu havia preparado um devastador discurso de autocomiseração que a poria de joelhos. Fiquei sabendo pelo porteiro que eles haviam saído para jantar fora. Quase não dormia. tinha suores abundantes e as costas estavam me matando. crendo-me louco. havia um levíssimo sorriso em seus lábios escuros e finos: — Obrigado. — O senhor está se sentindo bem? — perguntou o porteiro. e você só se importa com seus problemas". Fiquei mudo. por gentileza. Minha compulsão para comer piorara. Observei fascinado no tecido de minha calça as duas pequenas ondulações nos locais onde Tigre apoiara suas patinhas alegres. Intrigado. — Fez uma pausa. tive medo. você deve ser observador. mas nunca me haviam falado dos desenhos. Ele prosseguiu: — No início quase enlouqueci. Quando terminei. era para enfeitar minha mesa de trabalho. Havia ali um pequeno jarro de porcelana. já senti o contato brusco em minhas pernas. sua voz despida de emoções parecia transportar . — Descreva-o para mim. Sabia que tinha alças. minha mulher me deixou. um senhor pardo de baixa estatura. Minha vida virou um inferno. Tive a sensação de que era a primeira vez que alguém perguntava de minha saúde sem que eu tivesse de pagar por isso. * * Cheguei a um edifício alto num bairro afastado do centro. Ele a tudo ouviu olhando imóvel através do vidro da janela. de frente para uma ampla janela de vidro blindado. Devo ter feito uma cara tão dolorida que o homem permitiu que eu esperasse ali. voz suave e grandes olhos investigadores. tinha medo de tropeçar no vaso ao caminhar pela casa. enquanto respondia com um suspiro fatigado: — Você também? Olhei-o perplexo. ele estava dizendo: — Vê esse jarro aí? — apontou a mesa de trabalho. — E. O problema é que não consigo vê-lo. trabalhava para uma multinacional. com duas alças sobre as quais haviam gravado outros desenhos. Julguei que ele não me havia compreendido. Fui a uns dez médicos diferentes. após um silêncio: — Minha mulher comprou-o numa viagem que fizemos ao Maranhão. Minha mulher dirigiu-me um olhar duro: — É só isso que você quer saber? Pensei que ela fosse choramingar: "sua família se desmanchando. Concordei em ir conversar com Luana no apartamento do Murilo. Mordi o lábio para conter uma onda de melancolia que quase me fez chorar. Mas aquele simples olhar de dor reduziu-me a pedaços junto com meus problemas. Sou bioquímico. estes diminutos. A verdade era que me sentia péssimo. Houve um que quis abrir minha cabeça para estudar. referi uma peça de porcelana marajoara verde coberta de desenhos indígenas. — Tenho um cachorro que não consigo ver — disse de olhos fechados. que eu repetisse.

— Mas por quê? Como? Ele mirou intensamente o jarro que não podia ver: — Um dos médicos a quem recorri. Apertei calorosamente a mão daquele meu confrade. Pense em alguma namorada da juventude a quem você tentava mostrar uma pequena estrela no firmamento. Observei-o saudar comedidamente os ocupantes. chegando a chorar de nervosismo ante a insistência de todos. e voltei para casa. uma vez na vida.uma resignação infinita. recusava-se inexplicavelmente a cavalgar uma bela égua malhada. . Sua calma aceitação transmitiu-me algo de uma nobreza no viver resignado. que também era um filósofo. é assim que passei a chamá-lo. Com as mãos nos bolsos. Um automóvel sinalizou para entrar. Hoje eu o deixo aí. de modo que a história ficou sem comprovação. Convenci-me de que acreditar sem ver é mais comum do que a gente imagina. "Essa menina é cheia de pirraças". Minha teoria é que a cada pessoa no mundo corresponde um objeto no universo que não pode ser visto. nesta que é a mais secreta das irmandades. depois ir sentar-se tranqüilamente em sua humilde cadeira de porteiro. ele que era detentor de mistérios incomunicáveis. ela o encontre sem nem mesmo se dar conta. nem compreende. Pense em alguém tropeçando inexplicavelmente nalgum objeto e depois fazendo cara de espanto diante do vazio. buscando horrorizado objetos ocultos espalhados pelo aposento. Observei os gestos lentos do homem ao acionar o motor do portão. As chances são de que. mas que também não há uma razão para que tal fenômeno não possa existir. descobri-lo no cachorro da filha. Lembrei-me de certo churrasco na chácara de um amigo. disse não haver uma explicação. — Mas é assustador — murmurei. Você o vê? Sabe onde ele está nesse momento? Todo seu patrimônio financeiro foi transformado em sinais eletrônicos orbitando o planeta. simplesmente acredita que um monte de equações aerodinâmicas o impedirão de se esborrachar no chão. Hoje não me procupo mais. Quando você viaja de avião. — Há outros? — Todos os outros são outros. A conversa com Osvaldo dera novos rumos a meus pensamentos. Ou. e resolveu a coisa mandando matar o animal. Pense no dinheiro que tem depositado no banco. Um homem da Idade Média o chamaria de louco por entregar a vida a algo que não vê. como aconteceu com você. — Como é seu nome? — Osvaldo. Uma pessoa pode ter a sorte de passar toda sua existência sem jamais se encontrar com seu objeto oculto. no entanto. Ele deu de ombros: — No início também achava. fascinada por cavalos. Mas o homem era um ignorante. nada disso o incomoda. sem que ela de modo algum a pudesse enxergar. indicou com o nariz o jarro sobre a mesa: — Aos poucos fui me acostumando. o modo como sua filha de quinze anos. Trata-se de um tipo de invisibilidade ao qual estamos acostumados. Também ajudou saber do sogro de um amigo meu que não podia ver um dos porcos da sua fazenda. E. a mais bonita da propriedade.

Não as culpo. por fim chorou. Também passei por isso uma vez. Pobre menina infeliz e solitária: apaixonada por cavalos. mas incapaz de enxergar a mais bela montaria da fazenda. Quando desembarcamos. no apartamento em que passara a morar com minha filha. Um resfolegar invisível veio me receber. Ele permanecia quieto num canto. Nádia observava-me de braços cruzados. A conversa começou tensa. Depois se acalmaram e passaram a falar em tom mais comedido. esfregando as mãos e olhando quase em pânico em minha direção. filho. Nádia e Luana interromperam momentaneamente a briga para me lançar um olhar reprovador. A infelicidade conjunta de milhões de pessoas ao redor do planeta tinha o poder de amenizar a minha. Só comecei a me preocupar quando percebi que Murilo ia adquirindo uma coloração acinzentada. mas minha presença parecia ser para ele fonte de um incômodo indescritível. até sentir o contato úmido em meu nariz. alguma frase tola de pacificação. combinamos ir juntos da próxima vez. Foi quando me vi obrigado a acalmá-lo com o tom mais doce que pude produzir: — Não se preocupe tanto. só serviu para fazê-lo arregalar os olhos numa procura angustiada. abaixei-me para acariciar Tigre. porém. Eu não estava só. numa seriedade infantil: — Falou com ela? Expliquei que eles não estavam em casa. ela recriminou-me por ter ido lá sem avisar. Aquilo me fez lembrar a história do complexo de Édipo. Nádia e eu. como se a respiração lhe faltasse. No final. ergui diante do rosto aquele doce e quente pedaço de nada. De vez em quando minha mulher me lançava olhares intimidadores exigindo mais participação. sentia-se traída por Luana. não devia tê-lo tratado mal. subitamente. Subi correndo as escadas de casa. eu dizia qualquer coisa. fazendo Luana chorar também. Ela então desistia de mim e voltava a se engalfinhar com Luana. Naquela sala somente Murilo e eu sabíamos do que eu estava falando. Minha voz. precisava voltar ao consultório do doutor Óliver.irritava-se o pai. . O que me permitia voltar a examinar Murilo. o rapaz pareceu ter um choque. Nádia segurou-se ao máximo. assim ela poderia se certificar de que eu não faria nada errado dessa vez. Nádia recusava-se a renunciar ao papel de mãe injuriada. estará irremediavelmente condenada a uma existência solitária e miserável. o namorado de minha filha. * * Estávamos no apartamento de Murilo. Não tanto por Nádia. Eu a enlacei pela cintura e disse que não fazia mal.