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1 NOÇÕES FUNDAMENTAIS DE CARTOGRAFIA E NÁUTICA ENTENDIMENTO DA EXPANSÃO ULTRAMARINA IBÉRICA Renato Pereira Brandão

Doutor em História - UFF. Professor Titular da Universidade Estácio de Sá. Resumo: O conhecimento de fundamentos em cartografia e náutica é imprescindível para o entendimento das questões referentes à expansão ultramarina ibérica. Este artigo, de cunho exclusivamente didático, tem a finalidade de fornecer estes subsídios não só aos alunos da disciplina de História Moderna: Formação de Sistemas Internacionais do Curso de Relações Internacionais da UNESA como também aos interessados na leitura dos trabalhos do autor voltados para este eixo temático.

PARA

O

I- A CARTOGRAFIA NOS DESCOBRIMENTOS 1- Noções Básicas de Cartografia A cartografia tem como objetivo representar graficamente parte da superfície terrestre de modo que a área representada seja vista de cima, como que fotografada de um balão estacionado. Contudo, diferente do que ocorre na fotografia, em uma representação cartográfica se procura manter uma relação matemática entre as distâncias que separam os acidentes existentes na área com as suas representações gráficas, definido escala, além de reproduzir o mesmo posicionamento relativo entre estes acidentes. Deste modo, as representações cartográficas são, basicamente, reproduções gráficas de acidentes naturais e artificiais onde as direções são mantidas, as distâncias representadas numa escala de redução, e, em conseqüência, as áreas representadas de forma proporcional. Os pontos notáveis são posicionados, e identificados, nas cartas por suas coordenadas geográficas. A latitude corresponde a distância em graus de um determinado ponto ao Equador, variando de 0º a 90º, expressa como positiva para o hemisfério norte, ou seguido de N, e negativa para o hemisfério sul, ou seguida de S. A longitude é a distância angular entre um meridiano de referência (atualmente o de Greenwich) e a meridiana de um local, contada de 0º a 180º para leste (E) ou oeste (W).

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Latitude

Longitude Atualmente, as coordenadas geográficas são obtidas por observações astronômicas ou por meio de sinais emitidos de satélites e interpretados por aparelhos denominados GPS (Global Position System). Antes do advento deste sistema apoiado em satélites artificiais, o cálculo das coordenadas geográficas de um ponto ainda não representado cartograficamente era feito a partir de dados obtidos por observações astronômicas, por ser possível associar a posição de um determinado ponto na Terra ao posicionamento dos astros em um determinado momento na abóbada celeste. Assim, os pontos de referência são posicionados nas cartas a partir de suas coordenadas e, a partir destes, posicionadas as outras representações que complementam a carta, como rios,

3 estradas, relevos constru€•es etc... A dificuldade maior que a cartografia se depara est‚ em representar no plano uma superfƒcie que „ considerada como esf„rica1. Nas representa€•es de ‚reas n…o superiores a 50 km de raio, podemos desconsiderar as diferen€as das dist†ncias medidas na superfƒcie esf„rica da Terra com suas representa€•es gr‚ficas feitas no plano. Todavia, nas representa€•es de ‚reas de dimens•es maiores, „ necess‚rio que as medi€•es feitas no terreno, ou seja, na esfera, sejam “adaptas” para que sejam reproduzidas no plano, ou seja, no mapa. Como a superfƒcie esf„rica n…o „ desenvolvƒvel no plano, isto „, n…o „ possƒvel fazer de uma esfera uma figura plana e contƒnua, para que sejam reproduzidas graficamente essas grandes ‚reas a cartografia utiliza-se do artifƒcio da proje€…o. Assim, a superfƒcie terrestre, ou parte dela, „ projetada diretamente sobre o plano ou sobre uma figura geom„trica que seja nele desenvolvƒvel. As mais utilizadas s…o proje€•es sobre o cone e cilindro2.

Proje€…o Cilƒndrica

Proje€…o C‰nica

Proje€…o Plana

Contudo, o processo da proje€…o resulta inevitavelmente em deforma€•es, ou nas representa€•es das dist†ncias, ou das dire€•es ou das ‚reas. Assim, em fun€…o da utilidade que se ter‚

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A forma real da Terra n…o „ regular, recebendo a denomina€…o de geŠide a correspondente ‹ superfƒcie m„dia dos mares, estendida em forma contƒnua atrav„s dos continentes. Contudo, para fins pr‚ticos, a Cartografia considera a Terra como um elipsŠide e, em mapas de menor precis…o, ou de grandes escalas, como uma esfera Os valores aceitos para o elipsŠide foram os estabelecidos por Hayford em 1909. S…o os seguintes: Raio da Terra no Equador: 6 378,38 km ; Raio da Terra nos pŠlos: 6 359,90 km ; CircunferŒncia equatorial: 40 102,84 km; CircunferŒncia meridiana: 40 035,64 km ; Elipsidade (achatamento): 1/297 Com o avan€o da Cartografia, atualmente a maioria das proje€•es empregadas „ variante das proje€•es c‰nicas e cilƒndricas, resultantes de modifica€•es analƒticas dessas proje€•es geom„tricas. Em muitos casos, s…o em tal grau modificadas que conservam muito pouco das rela€•es com as proje€•es originais.

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4 a carta, o cartŠgrafo seleciona o tipo de proje€…o a ser empregada de modo que um destes elementos venha ser representado sem deforma€•es, em detrimento dos outros dois.

2- Breve Histórico da Cartografia Náutica. Apesar do c‚lculo da latitude em fun€…o da altura meridiana do Sol e da Estrela Polar ser conhecido no Antigo Egito, onde era de grade importante por ter sua maior extens…o na dire€…o norte-sul e a id„ia da esfericidade da Terra ter surgido na Gr„cia no inƒcio do s„culo IV a.C., os grandes avan€os da Cartografia na Antig•idade ocorreram durante o perƒodo helenƒstico em Alexandria, onde a fus…o do conhecimento grego e egƒpcio permitiu estabelecer as bases da Cartografia atual. Foi l‚ que pela primeira vez se dimensionou corretamente a Terra. Esse m„rito cabe a ErastŠstenes (276-196 a.C.), geŠgrafo da Biblioteca de Alexandria, que calculou a circunferŒncia da Terra em 250 000 est‚dios (aprox. 45 000 km), ou seja, com uma precis…o de + 14%. Calculou tamb„m a obliq•idade do eixo da Terra em 23Ž 51' (o correto „ 23Ž 27’) e afirmava que se podia navegar da Espanha ‹ •ndia contornando a ‘frica. Posteriormente Hiparco de Nic„ia (146-126 a.C.) desenvolveu o m„todo de fixar a posi€…o terrestre a partir de cƒrculos de latitude e longitude e o uso das proje€•es nas cartas geogr‚ficas. Por„m, foi principalmente pelas obras do geŠgrafo Cl‚udio Ptolomeu (c.100-170) que o Ocidente herdou os conhecimentos cartogr‚ficos sistematizados pela Escola de Alexandria. Na Idade M„dia, latinos, gregos e ‚rabes veneraram os livros de Ptolomeu como se fossem sagrados. Este culto ‹ obra de Ptolomeu permaneceu por todo o Renascimento. De suas obras, a mais famosa „ a Trigonometria, que aparece unida a sua Astronomia. Esse manual de princƒpios trigonom„tricos e astron‰micos foi traduzido no s„culo IX pelos ‚rabes com o tƒtulo de Tabrir al magesthi, do qual procede Almagesto, denomina€…o com que este livro ficou conhecido no Ocidente. Descreveu duas novas proje€•es a partir de modifica€•es da proje€…o c‰nica e foi defensor da teoria geocŒntrica. Traduzida no s„culo XII do ‚rabe para o latim por Gerardo de Cremona, da Escola de Toledo, a partir do s„culo XIV as vers•es latinas dessa obra de Ptolomeu tiveram grande divulga€…o entre os eruditos do Ocidente. No intuito de atualiz‚-la, no inƒcio do s„culo XVI foi editada uma vers…o que incluƒa desenhos de paƒses nŠrdicos que n…o constavam no original. A partir de ent…o, tornou-se comum a inclus…o de novos mapas nas diversas edi€•es dessa obra de Ptolomeu. As obras de Ptolomeu continuaram editadas no s„culo XVI, com a inclus…o do continente americano.

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Mapa de Ptolomeu No século XIII a Escola de Toledo recebe do rei Afonso X, de Castela, a incumbência de traduzir as obras de astrônomos árabes desconhecidas na cristandade. Reunidos no palácio de Galiana, cedido pelo mestre da Ordem de Calatrava, e sob a proteção deste rei que recebeu a alcunha de el Sabio, muçulmanos e judeus se puseram em colaboração para verter estas obras não mais para o latim, mas sim para o novo idioma castelhano. Dentre diversas obras, destacam-se os Libros alfonsíes de los estrumentos et de las huebras del saber de Astronomía, onde se trata da fabricação e emprego dos instrumentos astronômicos, como a esfera armilar, globo celeste, astrolábio e relógios; o Libro de las tablas alfonsíes, calendário que reúne o resultado de milhares de observações, e o Libro del saber de Astronomía onde, no tomo III, se encontra o Livro do quadrante, que ensina com todos os detalhes a construir um quadrante de madeira, e o Regimento de la altura del pólo a mediodía, onde se ensina a calcular a latitude pela altura do Sol observada ao meio-dia. Logo essas obras foram conhecidas em Portugal por meio de seu rei, D. Dinis, neto de especial predileção do monarca castelhano, a quem cedeu o Algarves em 1268. São denominados portulanos as primeiras representações gráficas de regiões costeiras utilizadas pela náutica no Ocidente. Acredita-se que tenham sido desenvolvidas por navegadores genoveses, na segunda metade do século XIII, provavelmente por influência de navegadores islâmicos. Até então, os navegantes valiam-se unicamente dos guias náuticos, manuscritos indicando, a partir de um determinado ponto de referência, a direção (rumo magnético) e distância a percorrer para se atingir um outro ponto costeiro. Por não serem feitos a partir de uma determinada projeção cartográfica, os portulanos não eram verdadeiramente cartas náuticas. Como não tinham graduações de latitude nem de longitude, unicamente uma pequena escala dividida em milhas italianas, sua utilização se fazia em complemento com as informações dos guias náuticos. Surgem em Portugal, no século XV, as primeiras representações cartográficas feitas no

6 Ocidente utilizadas na navegação, as cartas de marear de graus iguais e meridianos paralelos. Traz como inovação o fato de serem feitas não mais na projeção cônica, conforme os ensinamentos de Ptolomeu, mas na projeção cilíndrica, onde a rede de meridianos é representada por um conjunto de linhas paralelas, formando com os paralelos um sistema de quadrículas retangulares. Para alguns estudiosos da história da Cartografia, teria sido Marino de Tiro (c. 100 A. D.) o primeiro a elaborar uma carta na projeção cilíndrica, formada por uma rede quadrática de meridianos e paralelos, onde todos os meridianos e o Equador estavam representados com suas verdadeiras dimensões. Contudo, não se tem conhecimento de qualquer mapa ou documento que permita relacionar o advento da projeção cilíndrica a Marino de Tiro. O primeiro mapa conhecido na projeção cilíndrica é o Mapa de Cantino, feito em Portugal, em 1502. O Cosmógrafo-mor de Portugal Manuel de Pimentel, em obra publicada em 1712, afirma ter sido o Infante D. Henrique o responsável pelo desenvolvimento da projeção cilíndrica e, portanto, inventor das cartas náuticas. Independente de ter sido ou não inventado por D. Henrique, foi certamente em Portugal onde primeiro se utilizou a projeção cilíndrica em cartas náuticas, expressando uma visão "transoceânica", por permitir a representação dos hemisférios meridional e setentrional em um único sistema. Assim, apesar de a projeção cilíndrica apresentar grandes deformações nas áreas de médias e altas latitudes, por representar o sistema de meridianos e paralelos como quadrículas retangulares, e não convergentes ao pólo, em muito facilita o posicionamento da embarcação na carta náutica e a determinação da rota a ser seguida para se atingir determinado ponto representado nessa mesma carta. O toque final na Cartografia náutica foi dado pelo cartógrafo holandês Gehard Kauffman (1512-1594), conhecido pelo nome latinizado de Mercartor, que em 1569 publicou um mapa-múndi na projeção cilíndrica conforme, isto é, que não deforma os ângulos. Mercartor obteve essa conformidade por processo gráfico ao compensar a deformação da projeção cilíndrica eqüidistante no sentido E-W por proporcional alongamento na direção N-S. A aplicação da projeção cilíndrica conforme foi fundamental para a Cartografia náutica, pois não só permite que se obtenham facilmente na carta as coordenadas geográficas como representa por linha reta a curva loxodrômica, ou seja, a curva que o navio descreve para ir de um ponto a outro da superfície terrestre, conservando sempre o mesmo rumo. Posteriormente descobriu-se a fórmula analítica da projeção cilíndrica conforme, sendo este o principal tipo de projeção adotada para as cartas náuticas até a atualidade. Assim, apesar de desde o período helenístico os cartógrafos já dominarem os princípios que regem as projeções azimutais e cônicas, e, no século XVI, a cilíndrica, devido à dificuldade na obtenção das longitudes dos pontos atingidos pelos navegadores, principais informantes dos

7 cartógrafos, os mapas dos séculos XVII e XVIII continuaram a apresentar grandes deformações, quando comparados os mapas feitos posteriormente, já que o problema da longitude só foi resolvido no final do século XVIII, com a invenção do cronômetro de marinha.

II- A Náutica dos Descobrimentos 1- A Navegação O sistema propulsor dos veleiros é formado, principalmente, pelo conjunto de velas, denominado velame. Existem dois tipos básicos de velas, as redondas e as latinas. As velas redondas, que usualmente têm a forma quadrada, são aquelas posicionadas no sentido transversal da embarcação enquanto as latinas, de forma triangular, estão posicionadas no sentido longitudinal. Não se pode velejar diretamente contra o vento. Para se alcançar um ponto situado na direção de onde sopra o vento é necessário que se navegue em zig-zag, ou a bolina. Assim, quanto maior a capacidade da embarcação de navegar à bolina, menor será seu percurso em zig-zag para atingir o ponto situado na direção do vento.

Como os primeiros navegantes praticavam a navegação costeira, o posicionamento da embarcação era obtido a partir de pontos litorâneos notáveis adotados como referências. Assim se navegou pelo Mediterrâneo que, por ser um mar fechado, não apresentava maiores dificuldades para o navegante se posicionar. Com a expansão da navegação no Atlântico, onde, muitas vezes, o

8 regime de ventos e as correntes obrigavam os navegadores a afastarem-se da costa, desenvolveu-se a navega€…o por estima, onde o posicionamento da embarca€…o „ calculado em fun€…o das dist†ncias e dire€•es percorridas a partir de um ponto de referŒncia costeiro ou de uma ilha de posicionamento conhecido. Rumo „ o †ngulo que uma determinada dire€…o faz com a meridiana local, contado a partir do norte ou sul, para leste ou oeste, atingindo assim um valor m‚ximo de 90Ž. Portanto, al„m do valor angular, o rumo „ definido tamb„m pelo quadrante. Os quadrantes s…o expressos atrav„s das siglas NE (nordeste), NW (noroeste), SE (sudeste), SW (sudoeste). A dire€…o em que se navegava „ obtida diretamente pela b’ssola. A b’ssola „ constituƒda por uma caixa que cont„m uma agulha magn„tica livremente suspensa sobre um ponto de apoio e cujas pontas est…o constantemente voltadas para os pŠlos magn„ticos. Fixa no fundo da caixa encontra-se a rosa de ventos, desenhada em um cart…o, que aponta 32 rumos. O †ngulo entre dois rumos corresponde a 11Ž 15’, sendo as subdivis•es estimadas pelos utilizadores. N…o se sabe bem a origem, mas acredita-se que a sua introdu€…o na Penƒnsula Ib„rica veio atrav„s dos ‚rabes que tiveram conhecimento dela a partir dos chineses. Contudo, o campo magn„tico da Terra tem seus pŠlos prŠximos, mas n…o coincidentes, aos pŠlos geogr‚ficos, definidos pela posi€…o do eixo de rota€…o da Terra. Deste modo, a agulha imantada da b’ssola aponta n…o para o pŠlo geogr‚fico, e sim para o magn„tico. Declina€…o magn„tica „ o †ngulo entre a dire€…o apontada pela agulha da b’ssola (norte magn„tico) e a dire€…o da meridiana local, ou seja, a dire€…o do pŠlo norte geogr‚fico. Como o pŠlo magn„tico migra em torno do pŠlo geogr‚fico, a declina€…o magn„tica varia com o tempo (geralmente considera-se a varia€…o anual) e com o local, podendo ser para leste (E) ou para oeste (W). Deste modo, o rumo indicado pela b’ssola „ o magn„tico, e n…o o geogr‚fico ou verdadeiro. Assim, para seguir-se em uma determinada rota (derrota, em linguagem n‚utica) calculado a partir da carta, „ necess‚rio transformar o rumo verdadeiro em magn„tico, acrescentando ou subtraindo a declina€…o magn„tica local. Contudo, at„ o inƒcio do s„culo XVI ainda se desconhecia o c‚lculo da corre€…o da varia€…o magn„tica.

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Para o cálculo da distância percorrida é preciso saber a velocidade da embarcação e o tempo de percurso. Na época dos descobrimentos, estes dados eram obtidos de forma pouco precisa através da ampulheta, para a marcação do tempo, e da barquinha, ou barquilha, para o cálculo da velocidade. A ampulheta era constituída por dois recipientes cônicos de vidro unidos pelo vértice de modo a deixar correr a areia, ou casca de ovo moído ou pó de prata, de um recipiente para o outro em um determinado período de tempo pré-determinado. Usava-se a bordo ampulhetas de uma, duas ou mesmo quatro horas. A de meia hora era denominada de relógio. Já a barquinha era constituída por um setor de madeira preso a um cabo que, marcado com nós espaçadamente, deixava-se correr por um determinado período de tempo. Daí o nome de nó atribuído à unidade de velocidade de uma embarcação. Deste modo, dada à precariedade dos instrumentos náuticos disponíveis, a navegação por estima adotada pelos navegadores ibéricos era pouco precisa para as grandes singraduras.

Barquinha

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Com a expansão marítima para as grandes travessias oceânicas a navegação por estima necessitou ser complementada, ou ajustada, pelo periódico posicionamento da embarcação por observações astronômicas. O cálculo da latitude não constituía grande dificuldade para os navegadores no hemisfério norte, pois a altura da Estrela Polar em graus, que indica diretamente o valor da latitude, podia ser medida, na época, pelo astrolábio ou pela balestilha. O astrolábio era um complexo instrumento, desenvolvido para ser utilizado em astrologia, que fornecia a representação do céu a partir da altura de um astro em um determinado momento. O astrolábio náutico era uma versão simplificada que servia unicamente para medir a altura angular dos astros, sobretudo o Sol. Era constituído por uma rodela graduada, o limbo, suspenso por um anel.

Astrolábio A balestilha era também um instrumento para medir a altura dos astros. Composto por duas varas de madeira ou marfim, uma maior, de seção quadrada, onde deslizava a outra menor na perpendicular. Entre os navegadores portugueses só as estrelas eram medidas com este instrumento sendo o Sol tomado com o astrolábio.

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Balhestilha

Por deixar a Estrela Polar de ser visível ao se chegar à linha do Equador, no hemisfério meridional o cálculo da latitude era feito a partir da altura meridiana do Sol ao meio-dia. Contudo, devido ao movimento de translação da Terra em relação ao Sol, este valor só representa a latitude quando do equinócio, ou seja, em 23 de setembro ou 21 de março. Fora destas datas é necessário se fazer correção a partir do almanaque solar, onde se encontra registrado a altura do Sol no zênite (ponto mais alto) nas várias latitudes para todos os dias do ano. As primeiras cartas de declinação solar utilizadas pelos navegadores portugueses, foram compiladas pelo judeu Abraão Zacutto, em 1483. Em torno de 1530, o matemático português Pedro Nunes inventou o instrumento de sombras, destinado ao cálculo da latitude por duas alturas extras meridianas do Sol. Como naquela época os astrônomos já tinham tabulado a declinação de diversas estrelas, era também possível o cálculo da latitude através da altura meridiana de uma determinada estrela, cujo valor deve ser somado ou subtraído de sua declinação, obtendo-se então esta coordenada. Contudo, por ser mais simples, o processo mais utilizado para o cálculo da latitude pelos navegadores continuou sendo o da altura meridiana do Sol tomada por meio do astrolábio ou balestilha. Já a longitude apresentava-se como um problema mais complexo e delicado, para o qual não havia solução para os navegadores dos descobrimentos. A diferença de longitude é a diferença horária, isto é, de horas reduzidas a graus, entre as passagens do Sol pelos meridianos de dois lugares. Não obstante ser tão simples, constituía grande dificuldade em tempos antigos, pois não se contou com dispositivos portáteis para comparar o tempo solar em dois lugares diferentes até a invenção de relógios movidos por meio de engrenagens. Antes então, a determinação da longitude era feita por um complexo processo de observação astronômica da conjunção planetária da Lua com determinado planeta. Afora os eclipses, a trajetória da Lua tem particularidades de, enquanto descreve sua órbita, interceptar a visibilidade de outros corpos celeste, principalmente os planetas que se movem perto do plano da eclíptica e da órbita da Lua. Assim, de vez em quando haverá uma

12 ocultação de Marte, isto é, Marte desaparecerá por trás do disco da Lua precisamente como, de quando em quando, o Sol parece mover-se por trás desse disco, em eclipse solar. Contudo, somente os astrônomos (em tempos medievais ainda astrólogos), seriam capazes de prever e determinar a diferença horária entre as observações desses fenômenos em locais diferentes. No início do século XVII, Galileu descobriu um método de se calcular longitudes a partir da observação dos eclipses das luas de Júpiter que, constatou ele, ocorrem de forma previsível. O método empregado por Galileu acabou finalmente por ser aceito logo após sua morte, em 1642, porém exclusivamente para determinações feitas em terra, por topógrafos e cartógrafos. Para a navegação náutica, contudo, o problema só ficou resolvido quando o inglês John Harrison, em 1762, inventou um relógio com um erro de apenas um segundo num mês, mesmo mantido dentro de barco em movimento. Por sua invenção, Harrison ganhou um prêmio de 10.000 libras esterlinas, que tinha sido proposto 30 anos antes.

13 2- As Embarcações.

Dos diversos tipos de embarca€•es existentes nos s„culos XV e XVI, foram as caravelas e as naus as mais importantes utilizadas nos descobrimentos. Para o entendimento deste trabalho „ necess‚rio conhecer n…o sŠ as caracterƒsticas b‚sicas destas embarca€•es como tamb„m das galeras, que as antecedem no tr‚fego mediterr†neo. GALERA – O seu uso antecede em muito os descobrimentos, sendo os fenƒcios os primeiros a fazer uso deste tipo de embarca€…o, utilizada tamb„m por gregos, romanos e, posteriormente, pelas cidades-estados italianas. Adaptada ‹ navega€…o no Mediterr†neo, mar fechado e pouco tempestuoso, usava remos como for€a propulsora principal, sendo a utiliza€…o da vela limitada a condi€•es favor‚veis de ventos. A partir do s„c. XI as galeras passaram a usar a vela latina, de modo a permitir que as embarca€•es pudessem navegar contra a dire€…o do vento. No s„culo XVI era ainda a principal embarca€…o utilizada no tr‚fico mediterr†neo de especiarias, onde a limitada capacidade de carga era compensada pela pequena extens…o da travessia da It‚lia ao Egito e Oriente M„dio.

CARAVELA - Apesar de n…o ter chegado at„ nŠs qualquer informa€…o detalhada deste tipo de barco, sua constru€…o foi alvo de rigorosas medidas de prote€…o, sabemos que era embarca€…o de pequeno porte, rijamente construƒda de t‚buas de carvalho e pinho, possuindo de dois a trŒs mastros de velas latinas. Ao contr‚rio da galera, era forte e segura, por„m, assim como esta, era capaz de navegar ‹ bolina (contra o vento). Por esta raz…o, foi utilizada, principalmente, para as explora€•es costeiras e dos regimes de correntes e ventos. A caravela original de dois mastros,

14 denominada de latina, tinha cerca de 20 metros de comprimento por seis de boca, e a capacidade de transportar até 50 tonéis (o tonel era é uma antiga medida usada para indicar a capacidade do navio, equivalente a 1,5 m³). Posteriormente foram desenvolvidas caravelas maiores, de três e quatro mastros, utilizadas para o transporte de marfim e cativos na costa da África. A caravela de três mastros variava dos 20 aos 30 metros de comprimento e dos 6 aos 8 metros de boca, podendo transportar até 80 tonéis. Acredita-se que a caravela de quatro mastros teria chegado a ter capacidade de transportar até 150 tonéis. Como essa embarcação armava também velas redondas no mastro da proa, passou a ser chamada de caravela redonda ou oceânica, representando um tipo intermediário entre as caravelas de exploração e a nau.

Caravela Latina ou de Exploração

NAU - Até o século XIV, esse era um termo genérico para designar qualquer embarcação de maior importância. A partir de então passou a identificar uma embarcação com maior capacidade de transportar carga e artilharia do que as caravelas. Em contrapartida, quanto maior, menor era sua capacidade de navegar a bolina. No séc. XVI a nau portuguesa, em geral, tinha duas cobertas e a capacidade de transportar até 200 tonéis. A primeira coberta abrigava o porão de carga, os tonéis da aguada, os paióis de mantimentos, cabo, vela e munições. Na segunda coberta encontravam-se a vante o castelo de proa e à ré a cabine do capitão. A tripulação, formada de 25 a 30 homens, dormia no convés à chuva e vento, pois, além do capitão, somente o mestre e o piloto tinham o privilégio de possuírem camarotes. Tinha três mastros, sendo os da proa e do meio aparelhados com panos redondos, e o da popa aparelhado com pano latino. Utilizava também uma diminuta vela redonda, denominada cevadeira, armada no gurupés, pequeno mastro inclinado lançado na

15 proa. Ao longo do século XVI a nau foi sendo substituída pelo galeão, mais comprido, de menor calado, portanto mais veloz, e melhor armado.

Nau