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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA
O Corpo e O Sagrado:
O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade
Leonardo Tavares Martins
CA .. lvfPINAS
2003
UNiCAMP
BIBliOTECA CENTRAL
SEÇÃO CIRCULANTI=
Leonardo Tavares Martins
O Corpo e O Sagrado:
O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade
ORIENTADOR: Prof. Dr. Wagner Wey Moreira
CAMPINAS
2003
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BffiLIOTECA- FEF
W'ICAMP
Martins, Leonardo Tavares
M366c O corpo e o sagrado: o renascimento do sagrado através do discurso da
corporeidade I Leonardo Tavares Martins. - Campinas: [ s.n ], 2003.
Orientador: Wagner Wey Moreira
Dissertação (Mestrado) -Faculdade de Educação Física, Universidade
Estadual de Campinas.
1. Educação Física. 2. Corpo e Alma (Filosofia). 3. O sagrado. I.
Moreira, Wagner Wey. II. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade
de Educação Física. ill Título.
lll
O Corpo e O Sagrado:
O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade
Este exemplar corresponde à redação final da dissertação de
Mestrado defendida por Leonardo Tavares Martins e aprovada
pela Comissão Julgadora em 06 de junho de 2003.
·· Orieniadar?rof Dr. Wagner ~ ~ Y ~ ~ e i r a
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Campinas
2003
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O Corpo e O Sagrado:
O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade
Dissertação de Mestrado defendida por
Leonardo Tavares Martins e aprovada
pela seguinte Comissão Julgadora:
ío úL__.
Prof Dr.' Gallo (Titular)

Pro f". Dra. Mara Vieira Sampaio (Titular)
Campinas
2003
Vll
Dedico este trabalho
a todos os profissionais da área da
corporeidade que têm proporcionado
uma vida em abundância àqueles que
participam de suas práticas.
!X
Recebi valiosas contribuições na construção desta dissertação. Foram sugestões, críticas e
orientações específicas ao trabalho, assim como apoio profissional e emocional, sem os quais não
teria tido condições de concluir este trabalho. Sinto-me realizado por concluir mais esta etapa e
quero repartir minha alegria com todos aqueles que participaram deste processo.
EU AGRADEÇO ...
A meus pais: Sarah e Leonardo, por terem me ensinado o que é relevante na vida; às vezes, num
discurso sem palavras. Seus valores, suas atitudes, o apoio incondicional e o constante
incentivo têm sido fundamentais para mim, obrigado;
A minha esposa e meus filhos: Marcia, Lucas e Jacqueline de forma direta e indireta, pelo apoio,
pela inspiração e pela paciência que tiveram, obrigado;
Aos queridos: Jussara, Mark, Alex e Stephanie, pelo apoio e incentivo, mesmo distante
fisicamente, mas sempre evidentes, obrigado;
À querida Yara, pelo constante apoio e incentivo, obrigado;
A meu orientador: Wagner, por aceitar este desafio e fazer parte dele. Sua postura e seu apoio
foram fundamentais, obrigado;
Aos professores: Silvio Gallo, Tânia Sampaio e Francisco Cock Fontanella, pela contribuição
efetiva nesta trajetória, obrigado;
Aos professores: João Freire, Regina Müller, Suzy Rodrigues e Walter Matias Lima por
indicarem o caminho, obrigado;
Aos colegas do Laboratório de Motricidade Humana da Unicamp: pelos encontros que foram
grandes lições para mim e pelos momentos de estudo, acolhimento, incentivo e apoio
tão significativos. Em especial, à Prof' Silvana, por promover a existência deste
espaço, obrigado;
Ao Professor Marcus Vinicius Machado, querido amigo, pelas sugestões, que sempre revelaram
sua competência e por sua constante disposição em ajudar, obrigado;
À Professora Màrcia Martins Castaldo, minha prima, por seu explícito domínio da língua
portuguesa, por seu desprendimento durante as correções e por suas sugestões, sempre
acompanhadas de carinho; foram muito valorosas, obrigado;
Aos colegas do Unasp, pelo constante apoio, obrigado;
Aos Professores: Euler Bahia, José Iran e Paulo Vaz, pela credibilidade e apoio, obrigado;
Aos Professores: Eder Leal e Paulo Araújo, pelo apoio e oportunidade, obrigado;
À bibliotecària Dulce Inês L. dos Santos Augusto, pela competente revisão, obrigado;
Ao colega Luiz Carlos Duarte Salgado, Magrão, por suas sugestões sempre oportunas, obrigado;
Aos meus alunos, por terem me ensinado muito, obrigado;
Ao Eterno e Infinito, agradeço aO Senhor Deus, por permitir que eu chegasse até aqui, obrigado.
XI
RESUMO
O Corpo e O Sagrado:
O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade
No mundo contemporâneo, o corpo tem sido tratado sob diferentes perspectivas, que vão desde a
redução da totalidade corporal, até a percepção de que o conceito de corpo é complexo e
sistêmico. O discurso da corporeidade parece ostentar a preocupação por ver o corpo de forma a
superar uma visão reducionista de corpo. Assim, podemos identificar no discurso da
corporeidade, um componente que faz entender o corpo para além dos limites impostos pelo
mecanicismo, pelas instituições, pela lei da causa e efeito. Este componente nos permite
compreender que a redução da distância entre matéria e espírito é aproximar-se do Todo
Corporal. Ao corpo, é dada a possibilidade de criar, de sonhar, de relacionar-se com o Eterno e
Infinito. Corpo e Sagrado não estão, desta forma, distantes. A partir destas reflexões, utilizamos o
referencial teórico da Análise de Discurso para identificar as aproximações entre o discurso da
corporeidade e o significado da busca pelo sagrado. A conclusão deste trabalho propõe que, para
a compreensão do Todo Corporal, é necessário superar a redução do corpo matéria, aceitando que
a abertura à transcendência pode remeter, também, a um retomo ao sagrado.
Palavras-Chave: Educação Física; Corpo e Alma (Filosofia); O sagrado.
Autor: Leonardo Ta vares Martins
Orientador: Prof Dr. Wagner Wey Moreira
Universidade Estadual de Campinas - Unicamp
Faculdade de Educação Física- FEF
Dissertação de Mestrado (junho/2003)
Xlll
ABSTRACT
The Body and The Sacred:
the Rebirth o f the Sacred in the Speech o f the Body
In the contemporary world, the body has been approached from different perspectives, ranging
from the reduction o f the corporal totality, to the perception that the body concept is complex and
systemic. Speech on the body seems to show the concern with seeing the body in a way to
overcome a reductíonist vision of it Thus, one can identify in the speech on the body, a
component that takes the understanding of the body beyond the limita imposed by the
mechanícism, by the institutíons and by the law of cause and effect This component al!ows us to
understand that reducing the distance between matter and spirit is approaching the Body as a
Whole. The body gets the possibílity of creating, of dreaming, of getting linked with the Eterna!
and the Infinite. The Body and the Sacred are not, thus, distant. Departing from these reflections,
we used the referencial of the Analysis o f Speech theory to identify the links between the speech
on the body and the meaning o f the search for the sacred. As a conclusion, this paper proposes
that, for the understanding of the Body as a Whole, it is necessary to overcome the reduction o f
the body to matter, accepting that the opening to the transcendent can send, too, to a retum to the
sacred.
Key-Words: Physical Education; Body and Soul (Philosophy); The sacred.
Author: Leonardo Tavares Martins
Advisor: Prof Dr. Wagner Wey Moreira
Universidade Estadual de Campinas- Unicamp (June/2003)
X'V
SUMÁRIO
1. Apresentação .................................................................................... 1
2. A Condição Humana: o Corpo ......................................................... 3
2.1 O Corpo Historicizado por Foucault: A uiscipiina ..................... 4
2.2 O Corpo na Contemporaneidade ............................................... 13
3. O Corpo e o Religar-se ao Tra11.scendente .................................... .26
3.1 O Sagrado .................................................................................. 27
3.2 A Religião e A Instituição Religiosa ......................................... 33
4. Corporeidade: Corpo e Sagrado ..................................................... 40
4.1 Corpo como Território do Sagrado ........................................... .41
4.2 Corporeidade, Motricidade e Resistência ................................. .47
5. Análise de Discurso e o Discurso da Corporeidade ....................... 53
- . A A' ,.1. a' n· .:;4·
::>.1 na 1se e 1scurso ............................................................... .....
5.2 A .Análise de niscurso da Corporeidade ................................... 58
-3 u . .. .. .. ...... "I"" .. .....,...
::>. maaaes ae ::Sigmncaao ............................................................ ::>'::!
5.3.1 Unidades de Significado Extraídas do Texto "Perspectivas
na Visão da Corporeidade" (T-1) ........................................ 59
5.3.2 Unidades de Significado Extraídas do Texto "Consciência
Corporal e Dimensionamento do Futuro" (T-II) ................ 63
5.4 A Análise dos Textos ................................................................. 67
5.4.1 A11alisando o Texto T -! ....................................................... 67
5.4.2 .Analisando o Texto T-1!... .................................................. 69
5.4.3 A11alisando os dois Textos .................................................. 72
5.5 Aspectos da Corporeidade e do Sagrado ................................... 76
5.5. i Aspectos da Corporeidade a partir dos Textos ................... 78
5.6 O Discurso da Corporeidade e o Renascimento do Sagrado ..... 84
6. Referências Bibliográficas ............................................................. 89
7 . .A_l1exos ........................................................................................... 95
Anexo A- Texto I: Perspectivas na Visão da Corporeidade
Anexo B- Texto li: Consciência Corporal e dimensionamento do
futuro
1
1
APRESENTAÇÃO
2
A questão inicial aqui proposta é conseqüência do questionamento sobre quais
seriam as condições para a existência humana. A que condição se submeteria a
existência para que o viver se concretizasse? A existência está condicionada ao corpo.
A partir da simplicidade da resposta, damos início a uma reflexão da abrangência deste
espaço chamado corpo.
Discutir o corpo nos garante prazer e perplexidade. Prazer, porque falar sobre o
corpo é falar sobre a existência, é falar sobre o lugar onde se constroem sonhos,
intenções, realizações, emoções, como algo bem íntimo, próprio de cada indivíduo.
Também traz perplexidade, porque contemplar criticamente o corpo não permite o
conhecimento de suas possibilidades, não permite o controle absoluto sobre suas
reações, não permite que se consiga aplicar mecanismos que façam do corpo uma
simples e bela máquina, pois este não traz repetições, não é seriado, não é igual, mas
cria, faz o diferente, pode incluir e excluir, alterar, modificar, tanto no visível, como no
invisível corporal, mas é sempre perceptível.
Não se deveria, portanto, ter certezas imutáveis ao se abordar o assunto Corpo,
pois este carrega consigo uma possibilidade de incertezas.
Com este foco sobre o corpo, a Educação Física tem sido convidada, por
diversos autores contemporâneos, a destacar a questão corporal e, neste sentido, o
termo corpo rei da de tem ganhado espaço.
O termo corporeidade traz consigo alguns valores imanentes e alguns
transcendentes e, a partir destes valores, pode-se ousar compreendê-lo mais
profundamente. Dentre os valores transcendentes, optei por um dos temas que me
despertam a atenção: a experiência com o sagrado. Haveria algum componente no
discurso da corporeidade que poderia indicar uma dimensão espiritual como constituinte
do corpo? Como a experiência com o sagrado se mostra próxima ao corpo, envolvendo-
o por completo, começo a conhecer melhor o termo corporeidade e ver a abrangência e
as possibilidades deste conceito ao identificar esta perspectiva na corporeidade.
Procuro, neste trabalho, equilibrar dialeticamente fé e razão; a fé num corpo
transcendente, que se associa à emoção ao contemplar o sagrado, com a razão que a
matéria corporal requer para ser compreendida. Proponho esta relação objetivando
manter uma unidade com a relação proposta entre corpo e sagrado.
3
2
A CONDIÇÃO HUMANA: o CORPO
4
Antes de caminhar no sentido de entender o sagrado e de como este se faz
presente ou não na constituição do humano, proponho uma leitura historicizada do
corpo, sua constituição através das relações de poder, suas negociações e suas
diferentes formas de interação, para então poder ir em direção a uma compreensão da
relação entre corpo e a experiência do sagrado e de como o discurso da corporeidade
tangencia esta questão.
Como caminhar no sentido de compreender o que compõe a existência? Partir
pelo que está dentro ou pelo que está fora do humano para compreendê-lo? Se, para
entender o ser humano, preciso ir para dentro ou para fora dele, começo a reduzi-lo e a
distanciar-me do local da existência: o corpo. Todas as realizações, sonhos, criações,
emoções, acontecem inequivocamente no corpo. Por isso, buscar entendê-lo é buscar
entender a existência.
A partir de um referencial não reducionista para a compreensão deste conceito, é
possível identificar sua constituição na contemporaneidade, bem como sua aproximação
com o conceito de sagrado.
2.1
O Corpo Historicizado por Foucault: A disciplina
Qualquer modelo de compreensão de corpo que induza a uma redução de suas
possibilidades faz com que a existência perca parte de seu complexo sentido humano. A
preocupação em entender o corpo em sua complexidade e abrangência é condição
inequívoca para poder identificar o encontro de forças que o constituem. Ver o corpo em
sua complexidade, constantemente se constituindo, como capaz de realizar infinitas
possibilidades, é o primeiro desafio.
Pretender entender o corpo e toda a sua complexidade seria ousadia, mas posso
buscar conhecê-lo, de forma singularmente plural, a partir de bases científicas e
filosóficas que não tenham a intenção de supor que a soma de seus diversos
5
segmentos nos mostrará a sua totalidade. Em uma citação de Eliade (1969, p. 22), à
qual retomarei ao discutir as questões sobre religiosidade, há um indício de como
buscar compreender o ser humano: "não existe um dado humano que não seja, ao
mesmo tempo, um dado histórico".
Então, é necessário ver o corpo historicizado, trazendo uma herança; perceber
que a sociedade tem produzido o corpo ao mesmo tempo em que é produzida por ele e
reconstruir o lugar do corpo na ciência. Para isto, é indispensável identificar como se dá
a disputa de forças externas para constituir a existência do ser humano, pois isto revela
o que representa o corpo, hoje, e como chegamos a ele.
Encontro em Foucault esta leitura historicizada de corpo, a reinserção da análise
do corpo na história e a construção de uma concepção contemporânea que identifica
uma pluralidade neste lugar antinominicamente singular.
A história à qual se refere Foucault não é uma série de fatos que nos permitiria a
auto-identificação, nem mesmo deslocamentos passados que lançariam predestinações
futuras inequívocas. "A história será efetiva na medida em que ela reintroduzir o
descontínuo em nosso próprio ser." (FOUCAUL T, 1979, p. 27). O corpo, para ser
compreendido em sua totalidade, não pode ser reduzido. Isto reitera a necessidade de
vê-lo como um corpo constituído historicamente.
Pensamos em todo caso que o corpo tem apenas as leis de sua
fisiologia, e que ele escapa à história. Novo erro; ele é formado por uma
série de regimes que o constroem; ele é destroçado por ritmos de
trabalho, repouso e festa; ele é intoxicado por venenos- alimentares ou
valores, hábitos alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria
resistências. (FOUCAULT, 1979, p. 27).
A leitura historicizada pode nos fazer ver como o corpo tem sido capturado por
poderes e saberes, ao mesmo tempo em que nos mostra o mecanismo possível de
criação de resistência contra tais poderes.
Talvez, entender o corpo como objeto a ser capturado seja o ponto de partida
para entendê-lo como um espaço recortado e palco de ações e intenções, tanto do
poder como do saber.
6
No lugar de defender os direitos do corpo, Foucault trata justamente de
historicizar essa vontade crescente de adquirir direitos sobre o corpo e
de atrelá-los ao direito de majorar os níveis de prazer. (SANT'ANNA,
2000, p. 80).
Houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto
e alvo de poder. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande
atenção dedicada então ao corpo - ao corpo que se manipula, se
modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas
forças se multiplicam. (FOUCAULT, 1987, p. 117).
Este é o ser humano concebido como máquina, pois pode ser operado e
manipulado, disciplinado e controlado e que, com isso, oferece um retomo produtivo e
padronizado.
Há, então, através das instituições sociais, um conjunto de agenciamentos para
disciplinar, para corrigir as operações do corpo que o transfonnam em um elemento
analisável e manipulável. Este processo está impregnado com a noção de docilidade. "É
dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser
transformado e aperfeiçoado." (FOUCAULT, 1987, p. 118).
Apesar de Foucault afirmar que houve, durante a época clássica, uma descoberta
do corpo como objeto, ele mesmo assegura que não foi durante o classicismo que se
inaugurou tal esquema de docilidade.Mas assegura, também, por outro lado, que, em
qualquer sociedade, o corpo tem sido objeto de investimentos e que, com freqüência,
estava "preso no interior de poderes muito apertados que lhe impunham limitações,
proibições ou obrigações." (FOUCAULT, 1987, p. 118).
Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos,
nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tomaram, no
decorrer dos séculos XVII e XVIII, fónnulas gerais de dominação.
(FOUCAULT, 1987, p. 118).
Nessa sociedade disciplinar se deu a sujeição constante dos corpos, através de
"métodos que permitiam o controle minucioso das operações do corpo." (FOUCAUL T,
1987, p.118).
7
Olhando um pouco atrás na história e identificando o que precede a sociedade
disciplinar, vemos que houve a sociedade soberana. Nesta sociedade, a relação de
apropriação se dava pela escravidão e "o corpo do rei não era uma metáfora, mas uma
realidade política: sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia."
(FOUCAULT, 1979, p. 145). O poder do soberano era a força que detinha o "direito de
apreensão das coisas, do tempo, dos corpos e, finalmente, da vida; culminava com o
privilégio de se apoderar da vida para suprimi-la." (FOUCAUL T, 1988, p. 128).
Na sociedade soberana, o direito de se apropriar dos outros, através do tempo,
da propriedade, dos corpos, era imposta pelo poder sobre a vida, pela morte.
Entretanto, mesmo sendo a sociedade soberana aquela que mostrava seu poder pela
morte, não encontramos, nela, as grandes guerras, holocaustos e os horrores de
grandes proporções, mas identificamos estas práticas na sociedade disciplinar. A guerra
na sociedade soberana não tinha a função de defender um soberano, mas ocorria para
resguardar a existência de todos; desta forma, nesse tipo de sociedade matava-se pela
necessidade de se viver. Entretanto, a lógica do poder, em seu exercício, estabelecia-se
sobre a vida.
No corpo trava-se a batalha de captura, de aprisionamento e de resistência. Esta
disputa e o adestramento do corpo como se o ser humano fosse uma máquina
produzem uma série de intervenções disciplinares e controladoras que permeia todas as
sociedades, não sendo, portanto, algo exclusivo da sociedade soberana. De fato,
podemos identificar intervenções sobre a vida confrontando-a com a morte, mesmo em
nome de Deus, através das guerras santas.
Neste sentido, no interior de cada uma das sociedades citadas por Foucault, é
possível identificar e nomear a sociedade eclesiástica.
Na sociedade eclesiástica, encontramos as estratégias de agenciamento de
poder, encontramos, também, tanto a divinização do poder, na figura do soberano,
quanto a criação e a prática de rituais em seminários e conventos da sociedade
disciplinar. A sociedade eclesiástica, assim como outras formas institucionalizadas de
poder, vai interferir diretamente no corpo, através de mecanismos de disciplinamento.
Mesmo a transição da sociedade disciplinar para o Biopoder não marcaria o fim da
8
sociedade eclesiástica. Ela apenas se adapta à nova tecnologia disciplinar e continua
exercendo poder, sob diferentes condicionantes.
A figura do rei, tão característica da sociedade soberana, está claramente
envolvida com os interesses da instituição religiosa, fazendo uma fusão da sociedade
soberana com a eclesiástica. Em muitos casos, o próprio rei se envolve com a
responsabilidade de criação de tribunais, com nomeações e com as condições para
perseguição aos hereges e proteção dos inquisidores (Bethencourt, 2000). Aos
inquisidores, que poderiam ser substituídos por interesse da ordem religiosa, cabia a
detenção dos acusados, sua entrega ao tribunal e confisco de bens, uma relação que
está bem próxima da relação de poder atuante na sociedade soberana. Neste período
da história, a sociedade eclesiástica captura pelo medo e opressão, impondo um modelo
de religião, praticando a exclusão e indignando-se com a diferença, através da
perseguição aos hereges. Os súditos ao soberano deveriam estar igualmente submissos
ao poder eclesiástico.
Neste sentido, segundo Hobbes (1979), a igreja exerce o poder coercitivo de
forma acentuada, exigindo obediência e impondo as normas.
Na transição para a sociedade disciplinar, a forma de disciplinamento é adaptada
às características da época, mas a sociedade eclesiástica continua exercendo poder,
por isto é uma sociedade que atravessa as outras sociedades descritas por Foucault.
Na sociedade disciplinar, o foco do poder está centrado diretamente no corpo, o
que é perceptível também nas estratégias da sociedade eclesiástica. São as instituições
disciplinares como mosteiros, conventos e seminários que assumem o modelo
disciplinar sobre o corpo. Na verdade, estão em questão o poder e o controle sobre o
corpo através da sociedade eclesiástica. O controle instaurado através da prática da
confissão e da penitência no período da sociedade soberana, é modificado, enfocando
muito mais o corpo, atendendo diretamente ao interesse de controle dos corpos:
Não é mais o aspecto relaciona!, mas o próprio corpo do penitente, são
seus gestos, seus sentidos, seus prazeres, seus pensamentos, seus
desejos, a intensidade e a natureza do que ele próprio sente, é isso que
vai estar agora em foco [ ... ] o novo exame [interrogatórios durante
9
confissão], vai ser um percurso meticuloso do corpo, uma espécie de
anatomia da volúpia. (FOUCAULT, 2001, p. 235-236).
Então, a confissão e a conseqüente penitência, enquanto instrumentos de
disciplínamento da sociedade eclesiástica, não se desenrolarão mais pela infração das
leis da relação, mas deverão "seguir uma espécie de cartografia pecaminosa do corpo."
(FOUCAUL T, 2001, p 237).
Assim, a sociedade eclesiástica tende a controlar os corpos através do controle
da consciência como meio de acesso a uma experiência religiosa.
Há interferência direta, desta sociedade, na constituição do significado corporal,
através de uma constante e abrangente preocupação disciplinar sobre o corpo, oculta,
explícita e até mesmo desejada, nos ritos e mitos. A sociedade eclesiástica atravessa as
sociedades identificadas e descritas por Foucault e, através de suas diferentes práticas
de poder, reforçam a idéia de cada uma das sociedades (soberana, disciplinar,
biopoder) com suas características particulares.
Na sociedade disciplinar, há uma transformação na forma dos mecanismos de
poder, ela
[ ... ] define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não
simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem
como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se
determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados,
corpos dóceis [---1- (FOUCAULT, 1987, p, 119).
O corpo submisso é um corpo sem o poder de criação, um corpo objeto, sem
espontaneidade, é corpo máquina. Para poder ser tratado desta forma, precisa estar
exercitado a fim de poder cumprir com o dever que lhe cabe, com o máximo de
rendimento possível, tendo assim uma saúde que sirva também ao aprimoramento
moraL
A metáfora dos corpos dóceis, usada por Foucault (1987) encontra um forte
paralelo na história da Educação Física, pois o corpo, no percurso de criação da
ginástica, perde seu encantamento com as atividades acrobáticas circenses, cheias de
prazer, para uma atividade institucionalizada, no qual o sentido maquinal e utilitário
predomina.
10
O homem-máquina é ao mesmo tempo uma redução materialista da
alma e uma teoria geral do adestramento, no centro dos quais reina a
noção de 'docilidade' que une ao corpo analisável o corpo manipuláveL
É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que
pode ser transfomnado e aperfeiçoado. (FOUCAUL T, 1987, p. 118).
A ludicidade, magia, risco e alegria, características visíveis do mundo
do circo deviam ser abafadas em nome do que se acreditou ser
precisão, utilidade, rendimento. Lentamente vai se construindo um
deslocamento daquele mundo encantatório feito de plasticidade e magia
para os laboratórios de análise do gesto. (SOARES, p. 1998, p. 57-58).
A ginástica, ao propor a substituição do corpo como espetáculo por um corpo
submisso, pretende estabelecer que o movimento deveria estar sujeito a condições e
limites, dilacerando a graça e espontaneidade, assumindo um papel docilizador sobre o
corpo, num processo de mudança da função do movimento e indicando um
adestramento do corpo para a utilidade. "A ginástica científica já estava sendo
considerada nos objetivos de construção de um outro mundo, onde todo o dinamismo
espontâneo seria redefinido." (SOARES, 1998, p. 62)
Neste sentido, a Educação Física cumpre o papel de ditar ao corpo uma sujeição
controlada, uma disciplina, para que possa desenvolver e aperfeiçoar o corpo enquanto
conjunto mecânico. O corpo em movimento não pode ser ousado, fazer parte de uma
festa, mas deve estar condicionado a repetições, com limites de espaço e tempo, o que
contempla a idéia de Foucault sobre o papel da disciplina e a conseqüente docilidade do
corpo.
Nesta questão da disciplina, Foucault ainda vê uma aparente ambigüidade no uso
da disciplina como criadora ou ocultadora de força. A "disciplina aumenta as forças do
corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos
políticos de obediência)." (FOUCAUL T, 1987, p. 119). A disciplina, por estes pólos, não
é ambígua, mas complementar. O corpo é, em si, uma força. Força que ainda não se
conhece em todas as suas possibilidades. Deleuze resgata esta questão em Espinoza
(1976, p. 119):
11
Espinoza abriu um caminho novo para as ciências e para a filosofia.
Nem mesmo sabemos o que pode um corpo, dizia ele; falamos da
consciência e do espírito, tagarelamos sobre tudo isso mas não
sabemos de que é capaz um corpo, quais são suas forças nem o que
elas preparam.
Assim, a disciplina exercida sobre o corpo na sociedade disciplinar diminui sua
própria essência de poder, minando sua potencialidade criadora, a essência do devir,
pois a disciplina dissocia o poder e induz, por um lado, o aumento da aptidão e da
capacidade, mas, por outro lado, suga suas possibilidades e ordena sujeição. Esta
ambigüidade de forças "estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão
aumentada e uma dominação acentuada." (FOUCAULT, 1987, p. 119).
Nos meios de confinamento identifica-se a estrutura na qual se encontra a
possibilidade de aplicar esta ambigüidade de forças. Assim, a sociedade disciplinar,
situada por Foucault nos séculos XVIII e XIX, atinge seu apogeu no século XX,
estabelecendo o poder sobre o corpo através dos espaços sociais:
o indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro, cada
um com suas leis: primeiro a família, depois a escola, depois a caserna,
depois a fábrica, de vez em quando o hospital, eventualmente a prisão,
que é o meio de confinamento por excelência [ ... ] Foucault analisou
muito bem o projeto ideal dos meios de confinamento, visível
especialmente na fábrica: concentrar; distribuir no espaço; ordenar no
tempo; compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve
ser superior à soma das forças elementares. (DELEUZE, 1992, p. 219).
Pela adequada composição espacial dos corpos e das máquinas, pela sua
disposição espaço-temporal, é, então, possível obter o máximo de rendimento com o
mínimo de desperdício. A alta produtividade, a disciplina e o controle corporal não se
restringiam aos atos mecânicos, mas já se estabelecia uma preocupação com o tempo,
a freqüência, as suas relações e, também, com a soma das fraquezas individuais, que
poderia gerar uma força produtiva, uma força disciplinada e controlada.
Outra aparente ambigüidade desta sociedade são seus dois pólos: o indivíduo e o
coletivo. Mais uma vez, são poderes complementares e não ambíguos. Estes poderes
12
cooperam na afirmação da força da disciplina sobre a força do corpo e na redução das
possibilidades humanas:
As sociedades disciplinares têm dois pólos: a assinatura que indica o
individuo e o número de matricula que indica sua posição na massa. É
que as disciplinas nunca viram incompatibilidade entre os dois, e é ao
mesmo tempo que o poder é massificante e individuante, isto é, constitui
num corpo único aqueles sobre os quais se exerce, e molda a
individualidade de cada membro do corpo. (DELEUZE, 1992, p. 222).
Com estas estratégias, é mais fácil se produzirem forças, fazê-las crescer e
ordená-las. Nos detalhes reside o segredo da superação. Assim, nos detalhes da
disciplina, na distribuição dos indivíduos no espaço, na estrutura do local, nas
localizações funcionais, na decomposição do processo, nas especializações, no tempo,
faz-se o poder. A base da microfísica do poder é uma unidade categorizada por
Foucault como celular; esta é a condição para o controle. Assim, o controle disciplinar
não consiste simplesmente em ensinar ou impor uma série de gestos definidos, mas a
rotina, através de um "rigoroso código abrange o corpo por inteiro." (FOUCAUL T, 1987,
p. 130).
Como neste modelo o corpo é tratado como coisa, aliás, coisa burra, que merece
e precisa de adestramento, cabe a recompensa aos melhores, a comparação entre eles
e, a partir disto, alguns privilégios. Tais práticas parecem não estar tão distantes de nós,
pois o corpo ainda aceita ser colocado, movido, fragmentado como peça. A maneira
como o idoso e o portador de necessidades especiais têm sido vistos em nossa
sociedade, com descaso, com poucas oportunidades, ainda reflete esta visão utilitarista
de corpo, na qual existem peças que se desgastam, peças com defeito. A disciplina
existe para que se possam extrair forças, combinando-as para a produção, sendo que
algumas peças podem ser descartadas sem prejuízo. A disciplina consegue produzir
porque primeiro estabelece um controle sobre o corpo.
O exercício do poder, a captura, dá-se precisamente no corpo: "Na verdade, nada
é mais material, nada é mais físico, mais corporal que o exercício do poder [ .. .]"
(FOUCAULT, 1979, p. 147). O corpo era o alvo na sociedade disciplinar; caminhos
diferentes levavam ao controle das possibilidades de resistência. O exercício do poder
13
sobre o corpo ainda é a maior evidência das relações de dominação, como veremos a
seguir.
I
2.21
O Corpo na Contemporaneidade \
Algumas questões despertam preocupações em relação ao conceito de corpo na
contemporaneidade: o poder ainda é força modeladora de corpo, tal como foi no
passado? O exercício do poder se dá no corpo? Como a sociedade que sucede à
sociedade disciplinar constrói o conceito de corpo?
É certo que a sociedade contemporânea já não é tão disciplinadora no sentido da
falta de liberdade de cada indivíduo, de confinamento, apesar de ainda existirem
algumas práticas como herança das estratégias de dominação disciplinar daquela
sociedade. Entretanto, identificamos um processo de transformação de valores, de
pressupostos, desde a sociedade disciplinar e seus mecanismos de sujeição ordenada
do corpo até aquilo que encontramos na contemporaneidade.
Cabe, aqui, citar alguns conceitos que fazem parte deste processo de
transfonmação, com o propósito de contextualízar as mudanças ocorridas, mas com a
clara intenção de não discuti-los em profundidade, pois correria o risco de desviar-me do
eixo central deste trabalho. Há, nesta nova sociedade, uma intenção de ultrapassar os
limites impostos por um modelo que hipertrofiou a razão como único caminho em busca
da verdade científica.
O rompimento com as certezas e o constante questionamento que deve fazer
parte do fazer científico contemporâneo, conduzem à superação da cegueira do
unidimensionamento, penmitindo ver outras perspectivas de um mesmo fenômeno.
O reducionismo imposto pelos moldes da sociedade disciplinar vai sendo
superado, não por uma mera negação, mas por uma reconstrução no sentido de alternar
o reducionismo com possibilidades e pluralidade.
14
[Este processo] não se trata, portanto, de abandonar os princípios da
ciência clássica - ordem, separabilidade e lógica -, mas de integrá-los
num esquema que é, ao mesmo tempo, largo e mais rico. Não se trata
de opor um holismo global e vazio a um reducionismo sistemático; trata-
se de ligar o concreto das partes à totalidade. (MORIN, 2000, p. 205).
Assim, há uma nova sociedade que não perde de vista a disciplina, mas que, com
características novas, estabelece um controle marcadamente sobre o corpo, e este
controle está muito mais presente através de um discurso do que de uma ação sobre o
corpo ou do corpo:
A idéia de usar o acúmulo de conhecimento produzido por muitas
pessoas trabalhando livre e criativamente, em busca da emancipação
humana e do enriquecimento da vida diária, levou a uma racionalização
do corpo, exigindo uma obliteração da sensibilidade e da sensualidade,
proporcionando o avanço, no dizer de Foucault, de uma ciência da
sexualidade que tece um discurso sobre o corpo para poder evitar uma
'ação' sobre o corpo. (Lima, 2001, p. 190).
Foucault identifica que há a intenção de captura sobre o corpo, mas dentro de um
novo contexto, pois ele mesmo identifica um novo modelo de sociedade. Apenas uma
transformação das estratégias da sociedade disciplinar não caberia na
contemporaneidade. Na realidade, Foucault
é um dos primeiros a dizer que as sociedades disciplinares são aquilo
que estamos deixando para trás, o que já não somos. Estamos
entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por
confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea.
(DELEUZE, 1992, p. 215).
A sociedade de controle é uma denominação Deleuziana ao que Foucault
indicava que seria uma biopolítica. Ou, mais precisamente, biopoder. Neste trabalho,
farei referência ao biopoder com o termo usado por Deleuze, mantendo assim o mesmo
termo 'sociedade' identificado nos outros períodos. Desta fonma, faço uma apropriação
do termo biopoder de Foucault respeitando seu sentido e intenção originais:
Biopoder é a forma de poder que regula a vida social por dentro,
acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando. O
15
poder só pode adquirir comando efetivo sobre a vida total da população
quando se toma função integral, vital, que todos os indivíduos abraçam
e reativam por sua própria vontade. Como disse Foucault, 'a vida agora
se tomou objeto de poder'. A função mais elevada desse poder é
envolver a vida totalmente, e sua tarefa primordial é administrá-la.
(HARDT, 2001, p. 43).
Por isso Foucault aponta explicitamente para esta nova sociedade como biopoder
e é Deleuze quem a identifica como a sociedade de controle, pois ela estará exercendo,
na realidade, um controle sobre a vida.
A sociedade de controle não exclui a técnica disciplinar, mas a embute, a integra
e a modifica parcialmente, pois há dois conjuntos de mecanismos que se articulam com
o intuito de se complementarem: um disciplinador e outro regulamentador.
Temos, portanto, desde o século XVIII (ou, em todo caso, desde o fim
do século XVIII), duas tecnologias de poder que são introduzidas com
certa defasagem cronológica e que são sobrepostas. Uma técnica
disciplinar. centrada no corpo, produz efeitos individualizantes, manipula
o corpo como foco de forças, pois é preciso torná-lo útil e dócil ao
mesmo tempo. Sobrepondo-se a esta, há uma tecnologia que é
centrada não no corpo, mas na vida; uma tecnologia que agrupa os
efeitos aplicados a um grupo, como sendo uma massa, próprios de uma
visão de população, procurando controlar uma série de eventos fortuitos
que podem ocorrer numa massa viva; uma tecnologia que procura
controlar, eventualmente modificar, a probabilidade desses eventos,
compensando seus efeitos. É uma tecnologia que visa, portanto, não
apenas o treinamento individual, mas também um equilíbrio global. É
sincronicamente uma tecnologia do corpo individualizado como
organismo dotado de capacidades e, por outro lado, uma tecnologia em
que os corpos são recolocados nos processos biológicos de conjunto.
(FOUCAULT, 1999, p. 297).
Há, então, um foco no corpo, que está também no conjunto de corpos, uma
preocupação com a vida. Esta fomna de poder usa estratégias nas quais tanto o corpo
como a vida estão sob controle, não sendo mais um poder de matar ou de limitar, mas
um poder de criar a norma. Mas o que ocorre ao que está fora da norma? Esta forma de
16
exercer a dominação permite o racismo, a exclusão, a rejeição daquilo que foge à
norma.
A base de ação da sociedade de controle também tem, por trás de seus
mecanismos, a intenção de dominação. Esta última é exercida através de uma disciplina
que sofreu algumas transformações, mas que ainda busca, inequivocamente, assegurar
o poder. A dominação não é mais imposta, como anteriormente, mas é proposta de
forma que não desperte rejeição. Como a dominação não apresenta aparência
disciplinar, nem é imposta, consegue ser pólo de captura pelo caráter ambicionai que a
constitui. A peça fundamental deste novo projeto de captura passa a ser o desejo.
Por isso há o investimento sobre o corpo vivo e a sua valorização. As instituições
encarregam-se da vida sem a ameaça da morte, da punição. Ainda se busca exercer
diretamente no corpo a sua força, por isto há
a proliferação das tecnologias políticas que, a partir de então, vão
investir sobre o corpo, a saúde, as maneiras de se alimentar e de morar,
as condições de vida, todo o espaço da existência. (FOUCAUL T, 1988,
p. 135).
Na construção histórica do corpo contemporâneo há, então, um foco de
dispositivos de controle sobre ele. A origem deste foco é plurívoca e, para este estudo,
cabe ressaltar a origem deste foco através da sociedade eclesiástica. Em nome do
sagrado, tal sociedade se apropria de instrumentos de disciplinamento dos corpos, seja
pelas indulgências, pelo confessionário, pela penitência, pela inquisição, pelo silêncio,
pela distância entre clero e povo, pelo púlpito. Estes dispositivos, na maneira que foram
concebidos, não são adequados às estratégias da sociedade de controle, então, alguns
são extintos e outros adaptados, mas outros são criados. Através destes, vemos a re-
invenção do desejo e as diferentes entradas do componente 'sagrado' na relação com
os corpos. Os santinhos, as velas e crucifixos se multiplicam em formas, tamanhos,
cores e transcendem para outros objetos. Há, hoje, na educação, na política, no lazer,
na literatura, na música, no vestir, uma constante venda do signo 'sagrado'. Não é mais
uma imposição, não é apropriação indevida, não é mais uma relação inquisitória, mas o
corpo se tomou um ser desejante, vai em busca do objeto. Este é um dos dispositivos
desta sociedade: criar o desejo e assim capturar o corpo.
17
A noção de sujeito desejante é uma realidade da sociedade de controle, na qual
há um despertar para uma vontade de sujeição, permitindo que o poder seja exercido
pelo caminho inverso ao identificado anteriormente. Este componente do humano, o
desejo, não é inserido nele pela sociedade de controle, mas é resgatado no ser
humano, pois sempre existiu: "o homem ocidental fora levado a se reconhecer como
sujeito de desejo." (FOUCAUL T, 1984, p. 11 ).
O desejo alcança, no ser humano, uma dimensão tão profunda, que consegue
intervir nos sonhos, no sensível, no fisiológico, no social, tocando, assim, o corpo todo.
Na sociedade de controle, também está presente a sociedade eclesiástica e esta
consegue, através do dispositivo do desejo, criar uma zona de captura, por meio de um
discurso do sagrado. O controle exercido pela sociedade eclesiástica não se limita a um
conjunto de doutrinas ou a uma instituição religiosa, mas é um mecanismo muito mais
genérico. Há um discurso de salvação, através de um novo processo de negociação e
venda, pois o sujeito deseja pagar o preço da sujeição e estar submisso. Mesmo que
este processo de submissão represente a própria sujeição associada a uma
contemplação das necessidades de uma vida melhor: o desejo de ter uma vida melhor
no além e também de salvação das desgraças desta vida. A sociedade eclesiástica
consegue se moldar aos contornos da sociedade de controle e se mostrar presente,
como uma zona de poder muito evidente.
Também veremos adiante que outros componentes do humano serão resgatados
nesta sociedade, respeitando o modelo em que está inserida mas num processo de
aparente retomo. O retomo que se dá não é em sentido de retrocesso, mas um resgate
da complexidade humana. O retomo é a afinmação da diversidade e da multiplicidade, é
um retomo para o diferente. (DELEUZE, 1976).
Enquanto na sociedade disciplinar encontramos
uma rede difusa de dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam
os costumes, os hábitos e as práticas produtivas (e com isto] consegue-
se pôr para funcionar essa sociedade, e assegurar obediência a suas
regras e mecanismos de inclusão e/ou exdusão, por meio de
instituições disciplinares (a prisão, a fábrica, o asilo, o hospital, a
universidade, a escola e assim por diante) que estruturam o terreno
social e fornecem explicações lógicas adequadas para a 'razão' da
18
disciplina [no qual] o poder disciplinar se manifesta, com efeito, na
estruturação de parâmetros e limites do pensamento e da prática,
sancionando e prescrevendo comportamentos normais e /ou desviados
[ ... ] por outro lado devemos entender a sociedade de controle, em
contraste, como aquela (que se desenvolve nos limites da modernidade
e se abre para a pós-modernidade) na qual mecanismos de comando
se tomam cada vez mais 'democráticos', cada vez mais imanentes ao
campo social, distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos [ ... ] O
poder agora é exercido mediante máquinas que organizam diretamente
o cérebro (em sistemas de comunicação, redes de informação etc.) e os
corpos (em sistemas de bem-estar, atividades monitoradas etc.) no
objetivo de um estado de alienação independente do sentido da vida e
do desejo de criatividade. (HARDT, 2001, p. 42)
Por isso, a sociedade exerce o poder com mecanismos que não se oponham ao
poder sobre o corpo, mesmo que este poder esteja na construção de desejos no próprio
corpo.
Esta idéia é confirmada no livro Para uma teoria do corpo humano:
Mas o meu corpo é, igualmente, o lugar onde se exerce o poder dos
outros. O poder é, neste sentido, a capacidade de controlar o
comportamento dos outros. Ora exercer o poder, quer o poder de
homem a homem, quer o poder das organizações, quer o poder do
Estado, é controlar os meios de satisfação e insatisfação daqueles cujo
comportamento se controla. (JANA, 1995, p. 84).
Na sociedade de controle, nunca se termina nada (DELEUZE, 1992), pois o
desejo é aquilo que transcende limites e pode fazer o corpo moldar-se, adaptar-se,
mudar, conquistar, lutar, transformar, reduzir-se, a partir de um desejo interior. Exercitar
a criação do desejo é algo presente na educação, no meio profissional e na mídia. Os
diferentes segmentos da sociedade de controle se apropriam da criação do desejo,
sempre no corpo, para exercer o poder, pois "somos, ao mesmo tempo, seres com
necessidades e seres desejantes." (ASSMANN, 1995, p. 56).
É possível associar a idéia da sujeição desejada a uma crise das disciplinas.
Essa crise propicia a mudança de um sistema fechado para um controle ao ar livre,
associando o desejo pela liberdade com o controle. Neste sentido, há uma oposição à
19
disciplina imposta. Ao invés de moldes distintos, há uma modulação presente nas
instituições, uma moldagem autodeformante, que muda continuamente, moldando-se às
suas próprias necessidades para fazer-se como real necessidade. Então o meio de
aplicar o novo disciplinamento, mostra-se tanto desejado como necessário.
Os agenciamentos coletivos que permeiam a sociedade de controle estão
presentes na empresa (que substitui a fábrica), na forma de conquista e ambição,
fazendo parte da vida do funcionário Uá não é mais um operário). O funcionário admite o
controle na medida em que deseja o desejo da empresa. Na sociedade de controle, o
essencial é uma cifra (DELEUZE, 1992) ao invés da assinatura e do número existentes
na sociedade disciplinar. A cifra é uma senha e, deste modo, com esta linguagem
numérica, permite-se o acesso ou a rejeição à informação. O dinheiro também exprime
essa mudança paradigmática e não se refere mais a uma medida padrão, mas a
modulações e trocas flutuantes e até virtuais.
Segundo Deleuze (1992), as máquinas exprimem as formas sociais capazes de
fazer nascer e exercer o poder. Então, se havia máquinas simples, alavancas e roldanas
na sociedade de soberania e máquinas energéticas na sociedade industrial, na
sociedade de controle, os corpos estão sujeitos a máquinas de informática e
computadores. "Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma
mutação do capitalismo". (DELEUZE, 1992, p. 223).
Se o poder agisse apenas pela imposição, provavelmente não seria aceito nesta
sociedade plural e transcendente. Mas os corpos estão igualmente sujeitos a uma
imposição do capital, através de mecanismos bem diversos. Se não fosse pelo desejo,
pelo querer interior, os corpos não seriam submissos às regras da mídia para possuir e
ostentar a superioridade pela posse, deixando a própria vida, o corpo, submisso a este
desejo.
Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não
ser dizer não, você acredita que seria obedecido? O que faz com que o
poder se mantenha e que seja aceito, é simplesmente que ele não pesa
só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz
coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se
considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo
20
social muito mais do que uma instância negativa que tem por função
reprimir. (FOUCAUL T, 1979, p. 8).
Como conseqüência disto, uma sociedade tão avançada tecnologicamente, tão
infonmada e informatizada, permite envolver-se pelo poder através de uma sujeição
desejada. Se o poder fosse apenas imposição, seria frágil, mas, ao contrário, mostra
sua força na invenção do desejo e do saber. O desejo cria, no ser humano, um modelo
a ser alcançado, uma apropriação adquirida por um preço. O desejo, neste caso, não é
uma simples vontade, mas é uma conseqüência da fonma de controle pelo poder.
Para compreender um pouco mais deste mecanismo, precisamos compreender
que o poder está além da questão ideológica e do centramento no aparelho do Estado.
O poder não é ideologia, mas prática, por isso atravessa a sociedade em todos os
níveis, no cotidiano, através do desejo, sendo concreto e mostrando seus efeitos no
corpo.
Onde poderia estar o foco do lugar de captura na sociedade de controle senão
exatamente no corpo? Ele mesmo está em jogo pelas instâncias de controle e acaba
sendo capturado pelo exterior. Então, um corpo tem que ser 'malhado', 'tomeado', com
um mínimo de tecido adiposo, com contamos bem definidos, o cabelo pode e, em certas
circunstâncias até deve, mudar de cor, a roupa que tem detenminada assinatura custa
mais caro e classifica o corpo dentro dela. O material precede a vida. Ao negar-se o
interior, captura-se pelo exterior, num processo cotidiano.
Mas a sujeição dos corpos não se encerra neste processo. Se quem trabalha
com o corpo não se conscientizou de que ele não tenmina em seu limite exterior, as
forças de controle já o sabem bem claramente. Acrescente-se a isto que o saber é
igualmente zona de apropriação. Por isso Deleuze (1992, p. 216) diz que "num regime
de controle nunca se tenmina nada", pois a fonmação penmanente e a quantidade
intenminável de infonmação existente, hoje, exercem um controle infindável de dentro
para fora no próprio corpo.
Mas, além do exterior e do interior, o corpo também pode ser capturado pelo
transcendente: a espiritualidade, concebida como uma característica e até mesmo como
uma necessidade do humano, pode ser porta de entrada de desejos manipulados, de
21
dominação e de controle. O corpo, em todo o seu sentido complexo, está sujeito a um
controle desejado.
No entanto, a complexidade e a dinâmica do corpo, suas infinitas possibilidades,
suas perspectivas, sua própria superação são, dialeticamente, o ponto de resistência.
Diferentes perspectivas da existência humana podem exercer tanto uma possibilidade
de resistência ao controle desejado como também podem tomar-se um local de captura.
A possibilidade de resistência é sempre real num movimento de oposição, pois o
poder não é uma potência sem limites. Alessandro Fontana e Mauro Bertani, ao
comentarem a "situação do curso" em "Em defesa da sociedade", Foucault (1999, p.
337), afirmam que:
onde há poder, há sempre resistência, sendo um co-extensivo ao outro:
" ... desde que haja uma relação de poder, há uma possibilidade de
resistência. Nunca somos pegos na armadilha pelo poder: sempre
podemos modificar-lhe o domínio, em determinadas condições e
segundo uma estratégia precisa" [ ... ] "o poder não é onipotente,
onisciente, ao contrário" dizia Foucault em 1978 respeito das análises
realizadas em La vo/onté de savoir.
Assim, pensando no poder que a instituição religiosa exerce, esta tanto pode dar
condições para que o ser humano possa sonhar, criar e exercer a sua existência,
através da fé, a realizar a sua complexidade, como também pode ocupar o pólo oposto
e ser uma zona de captura e apropriação. É possível identificar, na instituição religiosa,
através da espiritualidade presente na religiosidade, a possibilidade de dar um passo
em direção ao devir, à transcendência, como um caminho de resistência, apesar de
também poder exercer o seu oposto, como uma oportunidade de captura e de controle,
exercendo o poder controlador, através de temas sagrados. Esta ambigüidade das
instituições se faz existir diante do corpo.
Tratar a relação entre instituição religiosa e corpo, no sentido da captura, da
apropriação pelo poder não seria uma grande novidade, pois esta é uma das críticas
cabíveis a esta relação. Mas, seguindo a proposição de Foucault, de que a todo poder
cabe uma relação de resistência, retomo a relação da religiosidade enquanto pólo de
resistência.
22
A espiritualídade, possível através da religião, pode ser fonte de inspiração do
novo, de uma esperança através de uma mudança interior (Boff; 2001 ). Este processo
de mudança é um processo corporal. A substância corporal não está distante da
substância mental, não são distintas, mas compõem um todo corporal. A mudança faz
parte do ser humano, no corpo inteiro. Assim, o ser humano não é ponto de chegada,
mas caminho, num trajeto de superação individual, em busca ao ser mais. Isto é
possível a partir da superação dos limites da relação causal, identificando, por exemplo,
que a resistência esteja associada à religiosidade.
Deleuze diz que a vida, a existência, dá-se no corpo e deve ser compreendida a
partir de um instinto de jogo e complementa dizendo que a existência é um fenômeno
estético.
Estes dois temas são importantes e pertinentes ao se pensar o corpo em sua
relação com o sagrado. Caillois (1963) traçou alguns paralelos entre a relação do
homem com o jogo e a relação do homem com o sagrado, como prazer, emoção e
relação com o sensível, aos quais ainda podemos acrescentar o sentido voluntário da
relação, o espaço reservado à liberdade de expressão, o sentido de alegria, embora
exista um caráter de seriedade e a transcendência dos limites espaço-temporais.
O fenômeno estético proposto está muito mais para a complexidade e conexão
entre o corpo mistério e o corpo problema do que para a fonma. A estética não é a
proposição de um modelo ideal (e irreal), numa redução do humano, mas propõe
identificá-lo como momento de criação, tal qual no jogo. Pois ao se jogar não existe o
idêntico, nem o clone, além de se ver que o novo é sempre uma possibilidade real.
Neste sentido, é possível retomar o pensamento deleuziano, segundo o qual a criação
está para a arte assim como a arte está para a possibilidade de resistência e vemos
então o corpo, fenômeno estético, lugar de criação, como possibilidade de resistência.
A religiosidade pode disponibilizar a possibilidade de resistência até mesmo pelo
eventual caminho da crise, pois a crise também pode ser a oportunidade da criação, da
inovação e da diversidade. Corpo como aquilo que tem altura, largura, profundidade e
razão já não é suficiente. Mas o que chama a atenção é que, através dos diferentes
modelos de sociedade, dos diferentes paradigmas, o corpo não se dissolve. Ele
atravessa discursos, metamorfoseia-se e faz sentido em si mesmo como numa carta
que se desdobra infinitamente. (CUNHA e SILVA, 1999).
Há o risco de capturarmos o corpo em nosso discurso sobre ele e, ao falarmos
mais e mais dele, reduzir a sua abundante existência em si mesmo. "A esta docilidade
da linguagem equivale uma violência real exercida sobre o corpo: quanto mais sobre ele
se fala, menos ele existe por si próprio" (GIL, 1980, p. 7). Então, neste exercício de
resgatar o conceito de corpo, precisamos entender que ele não é nem máquina, nem
organismo, que não se reduz ao corpo Problema, mas caminha no sentido de corpo
Mistério. (MORAIS, 1993). Corpo Mistério, porque não conhecemos todas as
possibilidades do corpo, corpo Mistério porque as relações entre Soma, Psique e Noos
não estão isoladas (MORAIS, 2002) nem limitadas, porque o ato de criar faz parte da
totalidade humana e também porque é capaz de criar resistência, criando novas
possibilidades até então desconhecidas, ao estar diante de toda forma de poder.
Moreira (2001 ), ao tratar das metáforas do corpo, mostra que elas nos facilitam ver
como o corpo foi e é facilmente capturado, mas também ressalta que por suas
possibilidades sem limites, pode ser, também, a possibilidade de resistência.
Como o mundo contemporâneo tratou o corpo de forma segmentada, isto
desencadeou, segundo Miranda (2000), um processo de dessacralização e de
profanação, possivelmente pela laicização da sociedade, pela ocultação do sagrado e
pela exacerbação da afirmação do poder e do desejo. Os sinais do sagrado foram
perdendo espaço para outros ícones mais racionais e o corpo foi sendo controlado por
um discurso de negação da espiritualidade. O corpo e sua linguagem simbólica foram
induzidos pelo desejo de ter saúde, sexo, cosméticos, academias, marcas. Mas, como o
corpo consegue superar imposições, num movimento de resistência, e resgatar a sua
essência, redescobre em si a necessidade de uma visão que o aceite com razão, com
emoção e com espiritual idade, sempre permeados pelo sentido do devir.
Quando a humanidade assiste ao processo de hipervalorização do racional,
desarticulando os outros componentes do ser humano, quando o movimento em direção
ao racional parece estar mais forte, quando a tecnologia e a informação estão dando
quase todas as respostas ao ser humano, ele se descobre vendo que a razão não é
suficiente para dar conta da existência, de suas questões sobre sentido, sobre prazer,
24
sobre amar, assim, o sagrado parece renascer como componente do humano num
contexto de re-descoberta da complexidade humana. Não é um componente distante
mas "basta a disposição de ouvir e escutar a linguagem do corpo como território do
sagrado" (MIRANDA, 2000, p. 13) para perceber que a relação com o sagrado pode ser
algo inerente e essencial ao corpo. É um processo de resgate, no qual temos que
considerar que "as toneladas de materialismos herdadas do século passado, acrescidas
das elaborações materialistas contemporâneas, impuseram uma situação de
espiritualidade reprimida." (MORAIS, 2001, p. 111 ).
Poder ver o corpo como plural, como constituído de si mesmo dentro de um
contexto de complexidade que remete ao interno e ao externo, é ver que a
espiritualidade é um de seus componentes. Nesse momento, "seria suficiente que nos
sentíssemos motivados a considerar seriamente a dimensão espiritual do ser humano
com suas necessidades e exigências." (MORAIS, 2001, p. 111).
Dentro desta perspectiva, o corpo contemporâneo não deveria se permitir negar
sua relação com o sagrado, sua espiritualidade, sua abertura à transcendência, nem
subordinar-se às potências docilizadoras e controladoras da sociedade. Ao corpo,
convém ser o lugar de encontro (BUBER, 2001), um encontro consigo mesmo, onde os
contornos do 'si mesmo' não são os limites físicos, de tal forma que permita que a
espiritualidade contemple a possibilidade de exercer a existência. É também um
encontro com o outro, não apenas para ver o outro, mas, dialeticamente, ver no outro
um outro eu e um outro particular, perceber na relação com o outro um respeito ético às
potências, às forças de resistência que ele pode exercer. Esta relação gera
questionamentos pois:
como fazer com que o uso dos prazeres for'.aleça as potências de cada
corpo e o afeto por si sem degradar as potências dos demais corpos?
Ou, ainda, como constituir coletivos destituídos do espírito de rebanho
e, ao mesmo tempo, fortificar o afeto por si? E como cuidar do próprio
corpo sem fazer dele um exílio confortável, macio e perfumado, um
templo no qual amigos e inimigos são dispensáveis? (SANT'ANNA,
2002, p.1 08).
25
Pode-se acrescentar ainda: em que medida o renascimento do sagrado pode
contribuir para que este encontro com o outro não seja um processo de docilização e de
controle do corpo contemporâneo? Neste encontro com o outro, ainda podemos incluir o
outro-Natureza e o outro-Eterno. Para compreender melhor esta relação, dedicamos o
próximo capítulo ao estudo do sagrado e da religião, suas abrangências, suas
possibilidades e seu contexto na relação com o corpo.
26
3
Ü CORPO E O RELIGAR-SE AO
TRANSCENDENTE
27
Há três conceitos que se cruzam e que precisam estar delimitados para não se
sobreporem teoricamente. Neste exercício filosófico de construção de conceitos, não
pretendo pairar numa reflexão, mas exercer a ação criadora para gerar conceitos que
não carreguem a força de dogmas, mas como questões problematizadoras, com um
movimento relativo, capaz de criar intercessão. (DELEUZE, 1992). Nas palavras de
Deleuze: "é preciso ainda construir conceitos capazes de movimentos intelectuais."
(DELEUZE, 1992, p. 152). Estes três conceitos são o Sagrado, a Religião e a Instituição
Religiosa.
O Sagrado mostra sua proximidade com o humano pelo desejo do ser humano de
conhecer o desconhecido, pois o sagrado é o Eterno, o Infinito e o Invisível, portanto, é
algo que não se sabe com precisão como é, não tem limites, algo fora de si, para além
de si, está num plano de realizações que ultrapassa o imediatismo presente. A busca
por uma relação com o sagrado parece constituir o ser humano e, por isso, independe
de fatores culturais. Esta busca constitui a necessidade do devir, de criação de si. Neste
ato de religamento com o transcendente, figura a religião. Não é a concepção de religião
como um conjunto de dogmas ou doutrinas, de proibições ou de permissões e deveres,
mas como possibilidade de restabelecer o contato com o eterno e o invisível. Este é o
sentido da religião, religar os limites da existência humana à infinitude do Sagrado,
através de um ato meditativo, numa nova leitura do sentido da existência humana. Para
cumprir com este papel, entram as instituições religiosas, com suas regras, leis,
proibições, dogmas, muito mais próximas do ser humano, do que do eterno, embora sua
intenção primeira fosse a de prover a possibilidade de religamento, satisfazendo a
possível condição humana de estar em contato com o sagrado.
3.1
O Sagrado
Nossos olhos buscam sempre novas realidades. Nossos sentidos
aspiram a novas impressões. O infinito do desejo, insaciável no
28
humano, deve ajudá-lo a contatar com o infinito. E o corpo é um
território de encontro. (MIRANDA, 2000, p. 35).
Ousar compreender o conceito de sagrado parece estar além do possível. Em
primeiro lugar, porque, em meio à nossa herança de hipertrofiamento do racional,
busca-se uma definição clara e precisa de algo para poder entendê-lo, como se, pelo
sentir, não pudéssemos aprender e definir o que seja sagrado, particularmente como
constitutivo sensível do corpo. Esta intenção de compreender o que seja sagrado e
como o corpo se relaciona com o sagrado, requer uma visão não dicotômica e não
preconceituosa do ser humano. Em segundo lugar, porque tratar de sagrado remete
tradicionalmente aos conhecimentos atribuídos à instituição religiosa e às teologias. No
entanto, a experiência com o sagrado está acessível ao ser humano antes que a
experiência da instituição religiosa, antes que os dogmas e, por isso, buscamos
compreendê-lo como parte do humano. A questão da religião e de sua relação com o
corpo será abordada adiante. Trataremos, a princípio, da relação com o sagrado na
perspectiva que Eliade, Otto, Kujawski, Morais, entre outros, têm proposto.
Pela complexidade e abrangência do sagrado e de suas relações, corre-se o
risco de abordar o falso sagrado (LEVINAS, 2001), reduzindo a busca pelo eterno e
infinito a algo com limites e circunscrevendo a experiência de transcendência a
dogmatismos humanos. A experiência com o sagrado se evidencia na busca pelo
eterno, infinito e invisível, não necessitando ser precisamente palpável. A imaterialidade
desta relação não descaracteriza a experiência, fazendo-se, portanto, real na existência
humana. (BINGEMER, 1998).
Otto (1992) trata do sagrado como Mysterium Trememdum, como algo
absolutamente positivo que se manifesta nos sentimentos, embora seja o que está
escondido, o não manifesto, o que está por vir a ser. Para este autor, a relação com o
sagrado é um constitutivo ontológico do ser humano. Devido a isso, a possibilidade de ir
além do visível, do racional, do mensurável está presente na condição humana como
uma expeliência. Assim também complementa Elíade (1992, p. 14), afirmando que "o
sagrado manifesta-se sempre como uma realidade inteiramente diferente das realidades
'naturais'."
29
Para identificar, na experiência com o sagrado, algo real e particular ao ser
humano, inerente à sua constituição, Kujawski (1994, p. 7) chega a afirmar que "a
realidade na qual se suprime a dimensão do sagrado é realidade incompleta e mutilada"
e Brito (1996, p. 27) retoma a questão dizendo que o ser humano é "o único ser ético da
criação, com a missão de re-ligação de todas as coisas."
O sagrado requer a sua mantfestação, sua revelação, à qual Eliade (1992) chama
de hierofania. Na hierofania, um objeto qualquer deixa de ser ele mesmo e remete,
simbolicamente, a outra coisa que não é ela mesma, sem deixar de ser aquela mesma
matéria, representando o imaterial, o invisível, o poder, o saber. Assim, a experiência
com o sagrado propicia a experiência do jogo simbólico, vendo o invisível e sentindo a
eternidade, propiciando a criação e a imaginação junto com a materialidade do reaL
Viver perto do objeto sagrado desta forma aproxima o imaginário da realidade. Assim,
este contato viabiliza novas experiências e possibilidades fundamentais na concepção
abrangente de ser humano, através da ruptura da homogeneidade do espaço, do tempo
e da realidade absoluta.
O sagrado e seu oposto, o profano, não são determinados pela coisa em si, mas
pela apropriação que se faz das coisas. Um objeto não tem em si um poder sagrado,
mas representa uma experiência sagrada. É possível identificar um exemplo disto na
história de Moisés, no Antigo Testamento bíblico. Nesta citação, há a simultânea
dualidade entre sagrado e profano no mesmo objeto, no mesmo tempo. Para o povo, o
bezerro de ouro representava o sagrado, estes se prostravam e adoravam aquela
imagem. Entretanto, para Moisés, o mesmo objeto simbolizava a negação do sagrado,
um ato profano. Por isso ele derrete aquela imagem e mistura o ouro derretido na água
para o povo beber.
É possível identificar esta relação dialética entre sagrado e profano fazendo-se
presente na experiência corporal, pois seus valores não são intrínsecos. Estes valores
também se aplicam ao objeto e ao lugar sagrado, embora Eliade (1992) mencione que o
lugar sagrado guarda para o homem não devoto uma qualidade excepcional,
perceptível, apesar de não mensurável, é o olhar de cada indivíduo que provocará
reações conseqüentes de uma experiência com o sagrado, ou não. Esta relação é
sempre corporal, num sentido não reducionista de corpo, pois integra o mundo sensível
30
da experiência como entrada para o mundo das idéias, que, por sua vez, integra o
mundo do real. (VALLE, 1998).
O ser humano, imerso no recinto sagrado, sente que, ali, o mundo profano é
transcendido e o corpo passa a ser o lugar de passagem dessa experiência. É uma
relação corporal e transcendente. Esta sensação é discutida neurofisiologicamente
através das relações entre as funções cerebrais e as experiências religiosas em
momentos de oração e meditação. (NEWBERG, 2001). Esta abertura ao desconhecido
se faz concreta no corpo. O sagrado é real e traz consigo a noção de potência, como
possibilidade de vencer o material, de vencer os limites, de vencer o profano, ou seja, de
desfazer sua condição atual e produzir novas existências, num movimento de
resistência. A sensação de superação que a experiência com o sagrado oferece refere-
se à possibilidade de ver o infinito, de apropriar-se do desejo e fruí-lo, dando um sentido
de vida mais intenso do que os contornos da atual realidade, dando novos sentidos ao
corpo, à vida material.
A dualidade equliíbrio e desequilíbrio encontra no ato criador a possibilidade de
recomeço. Assim, o caos se alterna com a organização e o sagrado interfere
organizando a ansiedade causada pelo caos através da racionalidade da organização.
Há, no sagrado, uma proposta de um constante renovar, um recriar, superando-se o
impossível pela esperança e vendo a recriação como ferramenta humana para a
superação, apropriando-se de um território, material ou imaterial, para transformá-lo.
Ao tratar do sagrado, defrontamo-nos com alguns temas que se mostrarão
relevantes ao traçarmos os pontos de aproximação e de afastamento entre o discurso
da corporeidade e o conceito de sagrado. Abordaremos alguns destes temas tais como
rito, templo, mistério, espaço e tempo.
O rito, em sua riqueza simbólica do sagrado, vê, no altar, um espaço sagrado
como a reprodução da criação, da transformação do caos em cosmos e, nesse
simbolismo, o corpo é tanto altar como oferta. O corpo altar é aquele no qual tudo é
santificado, uma doação material ao infinito, renegando a posse do que é material em
favor daquilo que é eterno; já o corpo oferta é a maior prova de abnegação, no qual o
próprio corpo é oferecido como prova de sujeição ao santo. Essa sujeição, na realidade,
não assujeita, mas potencializa a vida e a possibilidade criadora e superadora. Estas
31
metáforas se corporificam em diferentes formas religiosas. O sagrado pode materializar-
se em bens, em pessoas, em locais, de tal forma que é possível identificar pessoas
lutando por questões humanitárias ou ecológicas sem apropriarem-se de armamentos,
mas usando o próprio corpo como oferta por determinada causa, revelando que a
quantidade de músculos ou de poder bélico não são suficientes para traduzir a força.
Este conceito se materializa, entre outros exemplos, na figura de Gandhi, que, pela
negação da força, mostrou uma força muito maior.
O templo, outro tema considerado ao tratar-se do sagrado, vai além de uma
construção ou imagem santificada, representa a obra dos deuses, local de habitação
divina onde humanidade e divindade se encontram, onde há isenção da corrupção
terrestre, onde ocorre a comunhão entre os homens, lugar de revelação, lugar sagrado e
consagrado para a relação com o divino.
Embora o templo seja o local público e "a cooperação seja necessária para
desvendar objetos sagrados" (MALINOWSKI, 1982, p. 69), isto não excluí o caráter
pessoal da revelação: "embora quase todas as cerimônias se efetuem em público,
grande parte da revelação religiosa ocorre na solidão". (MALINOWSKI, 1982, p. 61).
Este misto de pessoalídade e de comunidade no templo reforça tanto o caráter
individual da comunhão quanto o caráter social. Se a comunicação pessoal com o
sagrado não precisa ser audível, assim também o discurso social desta busca de
comunhão não é necessariamente verbal:
As danças que se realizam nos rituais religiosos são entendidas como
discurso não-verbal nos quais o corpo em movimento é representação
da intimidade com o sagrado, participando do convívio humano, deuses
e mortos. (MULLER, 2001, p. 92).
Assim, neste discurso não-verbal, o corpo é o próprio discurso, o corpo se faz
evidentemente presente e por inteiro nesta comunicação com o sagrado, tendo o templo
como palco de uma dramaturgia sacra.
Através da perspectiva do sagrado, o tempo e o espaço ganham uma nova
realidade: "Tal como o espaço, o tempo também não é, para o homem religioso, nem
homogêneo nem contínuo." (ELIADE, 1992, p. 59). O tempo sagrado é reversível,
retomando um tempo mítico primordial. É ontológico, não se esgotando em cada
32
reencontro com o mesmo tempo sagrado vivido. Esta idéia do eterno presente, num
aspecto paradoxal de um tempo espiralizado, faz romper o limite cronológico, dando a
oportunidade de se fazer eternizar o viver sagrado, pois é um tempo atemporal,
reversível, existencial e não cronológico. O tempo litúrgico apresenta, em seus
intervalos, uma qualidade trans-humana; pelas festas religiosas se faz um renascer, um
renovar, evocando, no presente, o passado, "não é a comemoração de um
acontecimento mítico, mas, sim, sua reatualízação." (ELIADE, 1992, p. 69). Assim, todo
ritual mítico evoca a re-criação do evento para o momento presente. Este desejo de
retomo, este reencontro com o divino, mesmo sendo visível em nossa cultura cristã no
calendário de festas religiosas, ainda é abstrato para o homem contemporâneo
ocidental, impregnado por imediatismos e racionalismos exacerbados, que impõem
limites e preconceitos.
Por isto o sagrado é, também, mistério e não problema.
O mistério do sacro é, pois, o de uma ambivalência, ou antes de uma
plurivalência que, de cada vez, o situa além das determinações e das
oposições do universo do discurso. (GUSDORF, 1960, p. 485).
Este mistério não pode ser percebido na racionalidade apenas e é interessante
notar que, com o declínio do absolutismo do racional, renasce a valorização do
espiritual. Através do sensível, o ser humano se encontra nesta experiência com o
sagrado, com o metafísico: "o sobrenatural encontra-se constantemente encolhido atrás
do sensível e tende sem descanso a manifestar-se através dele." (Caillois, 1963, p.
101).
O sensível nos atrai, mobiliza-nos e seduz em direção à sensação do absoluto,
transcendente e infinito, através dos mitos, ritos e símbolos. São estes elementos,
trabalhando no imaginário e no real do ser humano, que oferecem um caminho de
superação do caos ao manifestarem o sagrado.
"Um mundo com sentido - e o Homem não pode viver no 'caos' - é o resultado
de um processo dialético a que se pode chamar manifestação do sagrado." (ELIADE,
1969, p. 10). Embora o caos seja um componente da vida, a necessidade de harmonia
também compõe o viver, não como ordem, no sentido castrador, opressor, pois a ordem
também pode ser caótica, mas como condição de superação para encontrar um sentido
33
na vida e no viver. Isto é possível, também, pela busca de uma relação com o sagrado,
pois esta relação permite que o homem faça sua trajetória de existência em direção ao
ser mais, superando seus limites e exercendo a corporeidade em toda a sua
complexidade.
3.2j
A Religião e a Instituição Religiosa I
Pensar no sagrado nos faz pensar, entre outras coisas, em religião. Um dos
problemas iniciais ao estudar religião é que esta tem sido uma lente para ver o mundo, e
assim, tentar vê-la como um componente do mundo, carrega-nos de julgamentos
positivos e negativos. Entender este termo mostra-se complexo, pois pode significar
'ir à igreja', 'crer no alcorão', 'rezar um terço', 'amar o próximo' ou até
mesmo 'ter um estilo de vida'; mas também pode significar 'exposição
social', 'ganãncia', 'fanatismo' ou 'lavagem cerebral'. Pode ser 'devoção
ao verdadeiro Deus', mas também 'uma muleta emocional'. (PADEN.
2001 < p. 22).
É um termo ambíguo que pode estar carregado de significados secundários. Por
isso, vejo a necessidade de identificar como tem sido tratado por diferentes autores e,
então, criar um conceito que esteja mais próximo possível do sentido reaL É necessário
destacar que o sentido real é, para nós, mais um sentido atribuído pelo próprio
observador do que um sentido imanente do objeto estudado, pois a realidade material
se mostra falsificável de acordo com a perspectiva do observador. Com o intuito
semiológico de que a palavra religião transforme-se em coisa, criamos a ilusão da
realidade (BLIKSTEIN, 1985) partindo da nossa percepção do sentido real do conceito
de religião.
Apesar de lamentar a ausência de outra palavra para designar a experiência com
o sagrado, Eliade (1969, p. 9) complementa dizendo que:
34
talvez seja demasiado tarde para procurar outra palavra e 'religião'
pode continuar a ser um termo útil desde que não nos esqueçamos de
que ela não implica necessariamente a crença em Deus, deuses ou
fantasmas, mas que se refere à experiência do sagrado e,
conseqüentemente, se encontra relacionada com as idéias de ser,
sentido e verdade
Nas culturas primitivas, a própria vida era envolta por atos religiosos, pois a
alimentação, a vida sexual, o trabalho, as relações sociais possuíam valor sacramental.
(ELIADE, 1969). Embora o homem contemporâneo tenha perdido esta relação de
proximidade entre o cotidiano e a prática religiosa e exista uma aparente
incompatibilidade entre toda a tecnologia da vida atual e uma prática de fé, existe "uma
série de fenômenos aparentemente não religiosos nos quais se podem decifrar novas e
originais recuperações do sagrado." (ELIADE, 1969, p. 11), pois este faz parte do viver.
Então, o sagrado se exterioriza, de alguma forma, através da instituição religiosa, ou
não, mas sempre através da religião.
Convém, aqui, retomar o conceito de religião. Religião apresenta tanto o sentido
de uma religação (relígare) com o eterno e infinito, estabelecendo possibilidade de
transcendência, como o sentido de uma releitura (relegere) da vida, que permita um
renascimento constante e que, portanto, seja considerada além dos aspectos
dogmáticos, sectários, impondo limites, proibições e obrigações. Por outro lado, a
relação com o sagrado não passa necessariamente pela instituição religiosa, pois este é
um espaço construído muito mais sobre os limites do que sobre sua superação.
Ao se pensar na possibilidade de um renascimento do sagrado através da
Instituição Religiosa, dois tópicos devem ser considerados. Primeiro: a instituição
religiosa pode exercer seu poder como Potência de captura, através de um forte
controle sobre os corpos e também pode permitir a releitura do sentido da existência,
exercendo sua possibilidade de resistência. São pólos opostos de uma mesma
realidade: a captura e a resistência. A instituição religiosa tem-se mostrado como meio
de aproximar-se tanto de um pólo como de outro, não cabendo uma leitura simplista da
instituição, atribuindo-lhe apenas um papel social. Segundo: parecia pouco provável que
o início do século XXI assistisse a um renascimento dos valores trazidos pelas
instituições religiosas. Sendo que os últimos séculos foram o palco para o crescimento
35
do racional, parecia-se excluir da zona de valor a percepção, o sensível, o emocional e o
transcendente como possibilidades crescentes na sociedade. Desta forma, parecia
pouco provável assistirmos às conseqüências de uma relação com o sagrado através de
instituições religiosas neste início de século.
[Entretanto] quando parecia que as questões religiosas seriam
relegadas a um segundo plano, e mesmo desapareceriam, pelo avanço
da ciência e das tecnologias, explodem fenômenos religiosos de
grandes proporções que parecem apontar pare um reencantamento do
mundo. (LACERDA, 1999, p.128).
Este fenômeno é possível pelo fato de que o saber científico positivista, embora
quantificável e sujeito a provas e testes, não preenche o vazio das questões essenciais
do homem, de que o saber sobre o sagrado, que não é laboratorialmente provado, pode
consolar e dar respostas às inquietações ontológicas inerentes ao ser humano.
Então, a recuperação das dimensões da religião é extemada, também, pelas
preocupações da existência humana com sentido, o que reforça a idéia de que a religião
precede a instituição religiosa. Então, a redescoberta da importância da natureza, a
ênfase no viver o presente e a preocupação com questões sociais são exemplos do
renascimento desta releitura da vida, como conseqüência do processo de religamento
com o sagrado.
Nota-se assim que o fenômeno da busca de uma relação com o sagrado
apresenta uma complexidade, pois pode materializar-se em preocupações ecológicas,
em atos de piedade, em um encontro consigo mesmo e até em dogmas e doutrinas.
Parece haver um momento em que há a necessidade de encontrar sentido para a
vida ou para outros questionamentos da existência, tanto no sentido local, no qual a
salvação pode ser representada por alimento, restabelecimento da saúde, superação de
conflitos ou pode estar relacionada ao sentido cósmico, buscando alguma relação com
outras formas de existência (Tu Eterno - Deus). Nesta relação, há uma busca por
sabedoria, força, um novo olhar, novos valores. Isto é ser religioso, quando a busca por
uma relação com o sagrado é reativada. A grande questão é que este lugar de busca é
institucionalizado e, portanto, não está isento de interferências pessoais baseadas em
interesses pessoais ou de pequenos grupos. Por isso, a instituição religiosa consegue
36
exercer, com muita facilidade, seu poder de captura, com estratégias de controle que
estão adequadas aos moldes da sociedade de controle. A instituição religiosa sempre
soube moldar-se ao modelo de poder político e isto não é perdido no século XXI, por
isso denominamos a sociedade eclesiástica como um foco de poder que atravessa a
história. Assim, a instituição religiosa carrega um sentido ambíguo, pois pode exercer
seu poder de controle, mas também pode ser a possibilidade de resistência, ao mostrar
os caminhos de transcendência e de superação.
Na construção do conceito de instituição religiosa, tomamos o pensamento de
Durkheim (1989, p. 82) que, no entanto, faz uso do termo religião:
Quando certo número de coisas sagradas mantém entre si relações de
coordenação e de subordinação de maneira a formar sistema com certa
unidade, que não entra em nenhum outro sistema do mesmo gênero, o
conjunto das crenças e dos ritos correspondentes constitui religião.
Instituição religiosa é, então, o lugar fechado, construído, que pode remeter ao
profano, mas que também pode remeter ao sagrado, pois, na classificação das coisas
que a instituição religiosa faz, há sempre a representação de dois gêneros opostos
relativos ao sagrado ou ao profano: a salvação e a perdição, o permitido e o proibido,
céu e inferno, Deus e diabo; pode ser captura ou resistência. Se esta distinção de
opostos entre o sagrado e o profano não basta para definir o fenômeno religioso, pelo
"menos fornece a pedra-de-toque que permite reconhecê-lo com a maior segurança."
(CAILLOIS, 1963, p. 19).
Esta dualidade presente na instituição religiosa e o caráter simbólico e
transcendente, imanente a ela, revela que a experiência religiosa pode ser a estratégia
de resistência ao controle de uma sociedade racionalizada: "a pluridimensionalidade da
experiência religiosa interdiz toda esperança de a reduzir á obediência de uma
intelígibilidade discursiva, seja ela qual for." (GUSDORF, 1960, p. 485).
Nesta perspectiva, a instituição religiosa pode ser o caminho para autenticidade,
liberdade e criatividade (HALUZA-DELA Y, 2000). A instituição religiosa pode ser este
caminho, por ser uma possibilidade de encontro com o sagrado, como alternativa à
imposição do reducionismo racionalista que descaracterizou a complexidade humana e
corporal.
37
A instituição religiosa, ao trazer consigo a questão da espiritualidade, vai além de
um caminho de possibilidades diante da existência humana, embora possa algumas
vezes ficar aquém. Mas, no sentido de ir além, a instituição religiosa não é apenas uma
tradução particular da fé (BRITO, 1996), mas consegue estabelecer relações entre o
visível e o invisível. Há, por exemplo, evidências de que a espirítualidade religiosa tem
influenciado vários aspectos da saúde humana (HAMMERMEISTER, 2001), atuando
psicologicamente, socialmente e fisiologicamente, como também tem-se evidências de
sua relação com o restabelecimento da saúde fisiológica. (LANDIS, 1996). Por isso, o
fenômeno da busca de uma relação com o sagrado é complexo e muito próximo ao
corpo, pois há relações diretas com a máquina humana, assim como com os outros
aspectos que compõem a corporeidade.
Esta teia de relações que interagem no corpo através da religião, é compreendida
pelo fato de
a religião, diferentemente das outras atividades, abarcar toda a pessoa:
não apenas seu corpo e as idéias, mas também seus afetos e desejos;
não só o pensamento, mas também seu agir, numa palavra, a religião,
quando é levada a sério, atravessa todas as fibras da pessoa e as eletriza
da cabeça aos pés. A reHgião é penetrante e onicompreensiva. {MONDlN,
1997, p. 57).
É por isso que a dicotomia entre o sagrado e o profano se revela, dentro da
estrutura religiosa, como a dualidade de possibl!ldades entre resistência e captura.
Reduzir o conceito de instituição religiosa à determinação de valores, costumes, estilo
de vida e dizer que é exclusivamente local de captura de corpos é tão insuficiente
quanto imaginar que é exclusivamente local de criação, de transcendência, de
superação e, portanto, ponto de resistência.
A religiosidade, mesmo inserida numa social condicionante,
abre para horizontes de sentido relativamente autônomos com relação à
realidade social, podendo aliás, se tomar uma das principais forças de
desmistificação das formas alienantes de absolutização presente na
realidade social e na própria religião. (CRESPI, 1999, p. 16).
Esta recriação do mundo ou ressacra/ização do mundo (ABRAHAM, 1994),
possível pela religião, através da instituição religiosa, enquanto forma de mediação entre
38
finito e infinito, vai além de uma instituição humana, produzida socialmente. É pela
conexão com o sagrado que a esperança de superação das angústias herdadas dos
últimos séculos preponderantemente racionalistas e mecanicistas se faz reaL
Existe, atualmente, uma consciência profunda dos prejuízos ocasionados
para a humanidade pela estreita e incompleta visão mecanicista da
realidade, geradora de atitudes irresponsáveis, oportunistas, predatórias
e antiéticas. Atualmente, é possível perceber com maior clareza a
urgência de uma mudança de postura e de uma síntese do conhecimento
que inclua a visão espiritual. (CAVALCANTI, 2000, p. 89).
A instituição religiosa tem assumido esta possibilidade de transformação ao
abordar questões ecológicas e sociais, mostrando a necessidade da reconstrução de
valores e ações, na tentativa de reverter o processo de dessacralização da vida e recriá-
la, num contexto perto da realidade humana.
Nesta perspectiva, a religião supera tanto o religara - enquanto um reencontro
com o sagrado - quanto o relegare (VALLET, 1996) - como um ato interior de
recolhimento meditativo transcendente, numa nova leitura da vida - revelando-se numa
reintegração do finito com o infinito, do real e do possível com o ideal, do cronológico
com o eterno, do corpo com o cosmo. No entanto, é necessário ter claro que a
instituição religiosa é um lugar com limites e estes limites podem interferir sobre a
possibilidade de transcendência do ser humano, ao roubar o sensível e aquilo que não é
mensurável, pois a instituição religiosa pode burocratizar o mistério (Kujawski; 1994) e
pode acabar tomando-se um meio de apropriação e captura, um ópio desejado, ao
invés de uma fronteira de resistência.
A própria construção de dogmas e normas rígidas, g!obalizantes, faz com que se
perca o caráter comunitário, capaz de diferenciar as necessidades culturais e regionais.
A possibilidade de exercer o poder e a dominação sobre a sujeição desejada de corpos
submissos também é uma deturpação de crescimento individual através da instituição
religiosa. A corrupção pela ganância, a imposição de mentiras numa pregação sobre a
verdade, a exclusão por gênero, por raça e por recursos financeiros mesmo falando de
igualdade, têm contaminado o conceito de instituição religiosa, criando longínquos
atalhos que fazem nunca chegar ao destino.
39
O cristianismo, em suas diferentes formas de instituição, tem estado, em todas as
suas formas, contaminado pelo exercício do poder. Vale usar como exemplo a história
de Ramiro Reynaga, um líder indígena da Bolívia, por ocasião da visita do Papa àquele
país em 1985.
Ele entregou ao Papa uma carta na qual, em nome dos indígenas, dizia:
'Nós, índios dos Andes e da América, decidimos aproveitar a sua visita
para devolver-lhe a sua Bíblia, porque em cinco séculos e!a não nos
deu nem amor, nem paz, nem justiça. Por favor, Santidade, tome de
novo sua Bíblia e devolve-a a nossos opressores, porque eles
necessitam de seus preceitos morais mais do que nós. Desde a
chegada de Cristóvão Colombo, se impôs à América, com força, uma
cultura, uma língua, uma religião e valores próprios da Europa. A
espada espanhola que de dia atacava e assassinava o corpo dos
índios, de noite se convertia em cruz que atacava a alma índia'. O Papa
nada pôde dizer. Teve uma atitude digna: chorou_ (BOFF, 1998, p. 76).
Destacar a relação dialética em que a instituição religiosa está inserida não é
negar que o sagrado pode materializar-se nela. É possível identificarmos tanto a
possibilidade de uma ação de captura e dominação quanto a possibilidade de
resistência na instituição religiosa. Ela traz consigo a possibilidade de oferecer ao
homem a ação de criar, de transcender, de resistir, o lugar do devir, a possiblidade de
viver toda a corporeidade numa vida em abundância, através da religião e, por outro
lado, pode exercer o seu inverso e aprisionar, submeter, criar desejos para poder
exercer um controle mais efetivo, usando para isso mecanismos de um suposto
religamento, roubando-lhe a liberdade e oprimindo o ser humano. Esta aparente
contradição é a realidade da instituição religiosa, que evidencia-se tanto como
resistência como captura.
40
4
CoRPOREIDADE: Corpo e Sagrado
41
O corpo, conforme tratado na perspectiva de Foucault, é objeto de disputa de
forças, para poder criar nele desejos e, assim, mantê-lo sob controle. Mas é, também, o
local onde é possível haver resistência. Resistência ao entorpecimento dos sentidos,
resistência à homogeneização da percepção, resistência à lógica do mercado na esfera
da existência, resistência a todas as formas de controle e dominação.
Através da resistência se dá o momento criativo, o momento de renovação, de
superação de limites e barreiras, a possibilidade de viver em abundância. Todos estes
fatores são características do sagrado. Ver a busca por uma relação com o sagrado
como constitutivo do corpo é ver o sensível, a emoção, a razão, a motricidade, num
espaço inquestionavelmente complexo.
Por outro lado, a necessidade de uma relação com o sagrado não existe por si
só, não tem vitalidade intrínseca, o seu espaço de manifestação não é necessariamente
institucional nem cosmológico, podendo, inclusive, ser despotencializado pelo espaço
institucional, pois a instituição é, muitas vezes, um local de disputa de forças, de
canalização de poder, impondo muito mais um contmle ao corpo, do que abrindo-lhe as
possibilidades de transcendência.
O corpo em busca por uma relação com o sagrado pode ser pólo criador em seu
trajeto de relígação com o eterno e infinito. Este deveria ser o sentido de um corpo que
se percebe espiritualizado e que se permite ser território do sagrado, não no sentido de
perda de espaço, mas no sentido de conquista. O atributo de ser corpo e sua intrínseca
motricidade nos dão a possibl!idade de exercer resistência, quebrando os limites e
permitindo ter consciência da importância, do devido respeito e da complexidade do
corpo.
4.1
Corpo como Território do Sagrado
O corpo tem sido território, ao ser compreendido como posse de alguém ou de
alguma instituição. Neste sentido, o corpo perde sua vitalidade, perde seu sentido de
42
superação, perde sua graça para atender às necessidades e desejos do outro. Este
modelo de corpo-território tem sido utilizado nos diferentes segmentos da sociedade.
A sociedade soberana tinha a posse do corpo, assim como dos outros objetos. A
sociedade disciplinar exercia seu poder sobre o corpo da mesma forma que exercia
sobre as máquinas, era um território para ser docilizado. A sociedade de controle
permite os desejos e sonhos que sejam convenientes às instituições, o corpo é livre
para Ter. A relação de conquista de território continua bem evidente, pois as estratégias
de marl<eting explícitas e implícitas (num bombardeio subliminar) nos faz interpretar que
a intenção é que o corpo tenha um produto ou use uma marca ou utilize um
determinado discurso e assim ostente que é um território e posse de alguém, de um
pensador, de um estilo de vida, de uma instituição. A sociedade eclesiástica também vê
o corpo como território. Lugar de conquistas. Há um poder exercendo sua força na
direção do corpo, para que este se entregue, sem resistência, a um processo de
ocupação-entrega do território corporal. O corpo até compra esta entrega, pagando um
preço de castidade, preço de sujeição.
Ver o corpo como território, como palco de conquistas dos outros e de instituições
é insuficiente. Estas forças presentes na sociedade, em direção ao corpo, não
conseguem extinguir a possibilidade de resistência que o corpo apresenta. Esta força de
resistência não é uma posse, não é algo que o corpo tem, ele é resistência. Então, ver o
corpo território, não é ver sua entrega para a posse de outro, mas é ver o corpo espaço,
que exerce a sua existência em direção ao eterno e infinito, coisas impossíveis nesta
existência para quem se prende aos limites, às certezas, às conquistas de território.
O corpo território do sagrado é consciente, percebe-se como agente histórico,
como espaço e tempo, como possibilidade, percebe-se como resistência e, por ter
consciência de si, do outro e do mundo, consegue identificar a falta, pois esta precede a
transcendência.
A falta não é o espaço vazio para ser completado com uma posse, mas é a
oportunidade do salto em direção ao desconhecido, é a possibilidade de criação, é o
momento de superar as certezas e os limites e, por isso, caminhar em direção ao eterno
e infinito.
43
O corpo território do sagrado não é um corpo demarcado, cercado, fechado, mas
é espaço infinito e tempo eterno. Quais são os limites do corpo? Corpo sem limites é o
corpo território do sagrado. Não há restrição mecânica, nenhum portador de deficiência
tem o direito de julgar-se impossibilitado de ser território do sagrado; primeiro, porque
todos nós somos deficientes e carregamos nossas deficiências, embora alguns
aparentem tê-las em maior ou menor grau; segundo, porque a aventura de ser corpo é
uma aventura de superação, de realização, de conquistas interiores e, portanto, permitir-
se ser espaço do infinito e ser tempo eterno, ser território do sagrado, é identificar que
corpo não é apenas uma fantástica máquina ou que o espírito está distante da razão ou
que corpo material e alma são entidades distintas, mas que a existência pode se permitir
ser território do sagrado e, assim, ser mais, sem, necessariamente, ter mais.
Ver o corpo como território do sagrado, é buscar vê-lo em sua pluralidade, com a
possibilidade de resistir e de transcender, num infinito de possibilidades e identificá-lo na
condição de abertura ao infinito.
No livro Corpo: território do sagrado, Miranda (2000. p. 36) expõe, logo nas
primeiras páginas, a preocupação em contextualizar o corpo contemporâneo: "nossa
época sente-se estimulada a explorar o mistério da corporeidade" e diz que há uma
violenta dessacralização do corpo, pois este tem sofrido as conseqüências dos
mecanismos controladores da sociedade. Diz mais o autor, afirmando que há, hoje,
duas necessidades básicas ao se estudar este tema.
1) Perceber, ouvir e escutar a linguagem do corpo, que é de desintegração
de sistemas, de resistência, e identificar, no próprio corpo, o seu
espaço, território do sagrado.
2) Na apropriação do termo corporeidade, fazer uma atualização ou, antes,
um resgate urgente ao seu sentido mais amplo e entendê-lo em todas
as suas possibilidades, identificando o sagrado como um constituinte
sempre presente.
Neste processo de resgate da multidimensionalidade humana no corpo, há uma
perda de seu significado, que "só pode ser recuperado restabelecendo-se a
espiritualidade do corpo." (LOWEN, 1995, p. 13).
44
O filósofo alemão Max Scheler, em sua obra intitulada O lugar do
homem no mundo (E/ puesto dei hombre en e/ cosmos, 1989) afirma
que o que distingue o ser humano dos demais seres não se reduz a
uma questão de grau (mais inteligência, mais sensibilidade, mais
memória e coisas assim), mas é uma questão de espiritualidade.
(MORAIS, 2002, p. 46).
Esta (re) descoberta na perspectiva do corpo território do sagrado, a sua
necessidade de contato com o infinito e invisível, não significa, necessariamente, um
retrocesso, uma vez que pode ser um não-regresso a um modelo arcaico de sagrado,
mas, sim, de uma nova forma do sagrado (LIBÂNEO, 1996). Todavia, de uma ou outra
forma, é o resgate deste constituinte do corpo o que realmente importa.
Ver o corpo é ver que "todo limite é ilusório e toda determinação é negação, se a
determinação não está numa relação imediata com o indeterminado." (DELEUZE, 1992,
p. 156). Ver os limites físicos é ver apenas parte do objeto, por isso que aquele modelo
de corpo máquina é apenas uma perspectiva e não a totalidade ao se propor um estudo
do corpo, ao pretender-se buscar superar o visível e ver, no corpo, uma "complexidade
de complexidades." {JANA, 1995, p. 134).
A recuperação de sentido na existência humana e a identificação da
complexidade que se dá no corpo implicam a recuperação do sagrado como seu
constituinte. "A perda do contato com o sagrado é o surgimento da inslgnificação''
(SANTO, 1998, p. 28). Esta insignificação é também uma conseqüência do fato de que o
ser humano se esqueceu que é corpo. Até mesmo a redução, a posse, o ter um corpo é
fato esquecido, quanto mais exercer a abrangência de ser corpo.
O ser humano não conhece o próprio co, po nem sua psiquê em todos
os seus aspectos; na realidade, embora se considerando o grande
avanço científico dos últimos tempos, o homem faz pálida idéia das
potencialidades adormecidas em seu aparato psicossomático.
(MORAIS, 2001, p.114).
Se o corpo ficou reduzido à condição de objeto, à condição de território, ao ser
possuído pelos outros, explicitando interesses reducionistas, é a partir da visão de corpo
como território do sagrado que se percebe o sentido do atributo de ser corpo, a
corporeidade. Assim é que:
45
se inicia um interesse maior pelo corpo humano como sendo humano.
Isto quer dizer um corpo que experiencia, que sente, que pensa, que
percebe, que tem consciência de si mesmo, assim como da presença
dos outros. (VENÂNCIO, 2001, p.75).
O ser humano, em seu corpo, toma-se, então, sensível, revelado por diferentes
fomnas de contemplação (BRAUNSTEIN, 2001 ), na real missão de ser corpo aos olhos
da ciência. Assim, "desvendar os olhos para olhar atentamente o fenômeno
corporeidade é adentrar o domínio do impreciso, do complexo, das imperfeições e da
desordem do mundo real" (MOREIRA, 1995, p. 17), resgatando, dentre todas as suas
possibilidades, o imanente aspecto da sacralidade.
Olhar na direção do corpo território do sagrado, resgatando a sacralidade, é olhar
em direção ao corpo vivo. Que vida pode ser vivida a partir deste corpo sem limites?
O personagem central do cristianismo afirmou, a respeito de si mesmo, que sua
existência deveria prover as pessoas de uma vida em abundância: "Eu vim para que
tenham vida, e a tenham com abundância." (SÃO JOÃO, 10, p. 10). Seria possível viver
abundantemente havendo rejeição, desprezo ou privação sobre o corpo? O que
representa o viver? Uso as palavras de Rousseau (1999, p. 15), ao dizer que
viver não é respirar, mas agir; é fazer uso de nossos órgãos, de nossos
sentidos, de nossas faculdades, de todas as partes de nós mesmos que
nos dão o sentimento de nossa existência. O homem que mais viveu
não é o que contou maior número de anos, mas aquele que mais sentiu
a vida.
Viver em abundância, então, deveria estar além do fisiológico, como gostaria o
mecanicismo, deveria estar além do rito e do fomnal, como gostaria a sociedade
eclesiástica, deveria estar além do signo, como gostaria a metafísica, deveria estar além
do fomnal como gostaria a racionalidade econômica e financeira, deveria estar além da
coisa desejante e consumidora como gostaria a sociedade de controle e deveria estar
além do sujeito inerte e poço de conteúdos como gostaria a escola. Viver em
abundância se refere a todas as dimensões de nosso ser. Desta fomna, "cuidar do ser,
implica devolver ao humano, o corpo que lhe falta" (MIRANDA, 2000, p. 34), é achar a
palavra e a ação perdida, é construir e reconstruir.
46
Além disso, viver em abundância não prevê gênero, como se só alguns
pudessem gozar desta abundância. O valor do corpo, nesta perspectiva, não está em
ter, mas em exercer o ser. Não é o ser mais relevante do que o poder, do que o
controle, do que a forma, do que a raça, do que as instituições, do que os movimentos?
O controle de tempo, espaço e movimento, com um sentido de economia e
castração, presentes até mesmo no cristianismo, parecem estar ausentes nas palavras
e atos de Jesus, o Cristo. Assim, cabe destacar o seguinte trecho: "então Jesus disse
aos seus discípulos: 'Se alguém quer ser um dos meus seguidores, negue-se a si
mesmo, tome a sua cruz e siga-me'." (SÃO MA TEUS, 16, p. 24).
Quando Cristo afirma a condição, ele não está se referindo a um grupo de
estranhos ou novos contatos, mas àqueles que já eram seus seguidores, o que desperta
um questionamento centrado no negar-se. O negar-se, pelas palavras de Jesus, não é
abrir mão da existência própria, nem ignorar os ideais pessoais. O amor próprio foi
valorizado por Jesus. Ninguém deve considerar-se menor do que outra pessoa
qualquer, mas o negar-se é ver-se na natureza, como parte dela e não consentir com os
crimes contra o meio de existência; negar-se é não assumir o poder, mesmo que
religioso, para controlar e manipular as pessoas, negar-se é ver no outro um outro eu,
negar-se é abrir mão dos valores inerentes à dominação, negar-se é usar o amor no
lugar da imposição, negar-se é não ver o corpo como território de posse, mas como
espaço de transcendência, como território do sagrado.
Ao vermos as potencialidades do corpo como infinitas, entendemos por que a
divindade assume a forma corpórea:
a dimensão da corporeidade vivida, significante e expressiva caracteriza
o homem e a distancia de outros animais. Todas as atividades humanas
são realizadas e visíveis na corporeidade. É assim que a própria
divindade, em todas as tradições teológicas, precisou tomar-se
corporeidade para fazer-se visível, existenciaL Tomar-se significa
incorporar em seu modo de ser a realidade assumida, isto é, a
corporeidade. (SANTIN, 1987, p. 50).
Também é possível identificar a intervenção corporal no processo de expiação no
cristianismo. Isto não foi requerido, como intermediação de salvação aos homens nem
antes, nem após a vida do Homem-Deus, como intermediação de salvação. Mas, num
47
processo de captura, a instituição religiosa exige sacrifícios corporais, roubando a
essência da sacra!idade no corpo e roubando a validade de sacrifício de Jesus, o Cristo,
como diz Moreira (1995, p. 23):
Grande é o dilema que pracisa ser explicado pelos teólogos que ainda
exigem o corpo jardim fechado. O supremo sacrifício corporal já não foi
feito por Cristo? A salvação não é graça de Deus, por intermédio de
Cristo? Se há a continuidade da exigência de sacrifícios corporais,
posso concluir que o supremo sacrifício de Cristo não foi suficiente.
Assim, há uma disputa sobre o corpo como se este pudesse ser ocupado,
trocado, comercializado, num processo de captura, negando sua força de resistência e
reforçando a idéia de corpo objeto, mas a intenção de ver a complexidade corporal, me
faz perceber o corpo como território do sagrado como possibilidade de criação e de
resistência, como corpo que exerce sua corporeidade.
4.2
Corporeidade, Motricidade e Resistência
Entendemos que o corpo não é apenas um conjunto de órgãos, mas, na
realidade, configura-se como uma dimensão plural, aceitando a intenção do conceito de
corporeidade. Corporeidade é o atributo de ser corpo, o que não permite que aceitemos
parte dele como sendo o todo. Ser corpo pressupõe as condições para uma vida
completa, sem privilégio de uma perspectiva do viver em detrimento de outra, quer seja
em seu aspecto físico, quer seja em seus aspectos social ou espiritual. "A corporeidade
não é o tema que vai salvar o mundo" (MOREIRA, 2001b), mas pode ser a forma de
garantir uma condição mais completa de existência. Por isso, compreender a
abrangência da corporeidade se mostra relevante e imprescindível para quem trabalha
com o corpo, por não aceitá-lo reduzido com se fosse o todo e para não reduzi-lo,
desejando a constante superação de suas possibilidades.
A corporeidade não pressupõe que todas as percepções estejam ativadas em
todas as direções e dimensões, mas pretende compreender o corpo onde uma visão
48
perspectiva! não se sobreponha a outras possibilidades humanas, nem que absolutize o
relativo, num mecanismo de apropriação indevida, fazendo desaparecer do humano
algumas de suas características particulares.
Não podemos encarar o Homem sob uma perspectiva ou sob umas
poucas; temos de encarar sob tantas perspectivas quantas a nossa
cultura nos permite. Sem as hierarquizar, muito menos em função das
nossas opiniões ou das nossas informações, e sem esquecermos que a
mente só se pode desenvolver plena e equilibradamente se lhe
fornecerem assuntos para refletir, diversificados e sob o maior número de
formas possível. (TROVÃO DO ROSÁRIO, 1999, p. 49).
Esta visão contemporânea de corpo não pretende erradicar a supremacia da
visão mecanicista de corpo, inaugurando a era espiritual, nem pretende identificar que o
espírito sofre as conseqüências da matéria numa relação causal, mas reencontrar o
significado de ser corpo, permitindo seu desenvolvimento pleno e equilibrado.
No Homem total (JANA, 1995), a corporeidade é traduzida pelo redescobrimento
do sabor da vida, lembrando que o sabor (sensível) não está distante do saber
(cognição) e, portanto, que razão e emoção não estão em hemisférios separados, mas
se complementam, dando sentido ao viver. Não há fora ou dentro, mas uma
complexidade em movimento.
Já vimos que corpo, como propõe a noção de corporeidade, não é território para
ser disputado, para ser controlado, também não é espaço para ser localizado com um
GPS (Global Positionning System), nem tempo para ser medido através de cronômetro,
por anos, meses, dias, minutos e segundos. Em contraste à batalha do Ter, na
conquista do Ser, o tempo deixa de ser cronológico para ser kairológico, vivido,
aproveitado e existencializado. O espaço não é a minha posição em relação à
virtualidade dos meridianos, mas a realidade de um lugar de existência. Superar o
modelo circular de corpo para vê-lo numa espiralidade é tanto ousado como necessário,
não só na construção de conceitos, como na prática educacional, na prática da
educação física, na prática religiosa, no convívio social. Este é o trajeto de corpo
transcendente que propõe a corporeidade.
Embora seja mais fácil tratar o corpo como coisa simples, parcial, pronto, é
através da superação de possíveis confrontos, com a demanda de esforço, que
49
alcançaremos a prática da corporeidade, pois a corporeidade identifica que "o regresso
ao corpo aparece como uma exigência ética." (CUNHA e SILVA, 1999, p. 26).
A corporeidade é a quebra da simetria. Se fosse possível ver metade do corpo,
não poderia, com esta visualização parcial, concluir sobre o todo. Primeiro, porque ver
metade não me garantiria a compreensão total da metade vista (haveria de usar, no
mínimo, outros sentidos para compreendê-la). Segundo, porque a estrutura simétrica e
previsível não é suficiente para tratar o corpo, como pretendem as técnicas de
docilização que acompanham a história. O corpo não é previsível, pois não conhecemos
todas as suas possibilidades e porque aquilo que conhecemos não nos garante a
certeza do que é desconhecido.
A corporeidade não tíata daquilo que o corpo é ou daquilo que o corpo tem sldo,
pois não é um projeto acabado. O corpo vive um presente que constrói o futuro, mas
sem a pretensão da conclusão. As possibilidades corporais não se esgotam. Olhar para
o não visto que a corporeidade aponta, é permitir a fé e a razão caminharem juntas, é
permitir saborear o saber e saber o sabor, é ser espetáculo e expectador, recriando uma
unidade e integridade originais (BRAUNSTEIN, 2001) num espaço e num tempo
chamado corpo.
O conceito de corporeidade evidencia que o corpo traz em si uma potência capaz
de pequenas e grandes intervenções, através da motricidade: "O nosso corpo, como ser
dotado de movimento em direção ao mundo, é condição de possibilidade, inteiramente
nova, original e poderosa[ ... ]." (SERGIO, 1987, p. 91).
Por isso que propor um trabalho sobre a corporeidade é também propor a
motricidade, pois a originalidade da dinâmica existencial do corpo é a essência do
discurso do próprio corpo. As explicações da matéria não deveriam rejeitar o espírito,
mas permitir que as possibilidades e limitações revelassem sua co-existência através da
motricidade.
A motricidade não é simplesmente a possibilidade de movimento ou
deslocamento, mas o atributo de ser movimento e de resgatar a si mesmo:
Através do movimento, cada homem identifica-se e conta o seu
passado, já que, como agora sabemos, a mente para determinar, após
múltiplas e céleres escolhas, qual o gesto a realizar, buscou nos
50
registros arrecadados na memória as informações que o corpo lhe tinha
transmitido. (TROVÃO DO ROSÁRIO, 1999, p. 43).
A educação física tem estado preocupada com a questão do movimento humano,
entretanto, tem feito a opção por tratar do movimento isoladamente, causando uma
percepção incompleta do movimento. Por isso, cabe ressaltar que
o reducionismo que a educação física tem sofrido, por entender o
movimento como objeto de estudo, ao invés da pessoa que atua com
todo o seu eu, [exercendo sua possibilidade] psico-socio-afetiva-
cognitiva-motriz. (TRIGO, 2000, p.101).
Ao movimentar-se, tem, historicamente, estreitado a visão de corpo dentro de sua
área de atuação tanto no âmbito da prática, quanto no âmbito da reflexão crítica e da
produção de conceitos. Assim,
a dimensão conceitual da motricidade excede o simples processo
espaço temporal, para situar-se em um processo de complexidade
humana: cultural, simbólico, social, volitivo, afetivo, intelectual [ ... ] e
supostamente motor. O movimento é uma das manifestações da
motricidade, que o transborda em complexidade. (TRIGO, 2000, p. 99).
Dentro do paradigma da corporeidade, a motricidade não é apenas imanência
inconsciente, mas possibilidade de transcendência e meio para exercer, por completo, o
atributo de ser corpo.
É a mobilidade e a motilidade do corpo que permitem o enriquecimento
das percepções indispensáveis à estruturação do eu. Diminuir, mesmo
abolir esta dinâmica veicular, fiXar ao máximo as atitudes e os
comportamentos, é perturbar gravemente a pessoa e lesar as suas
faculdades de intervenção no real. (VIRILIO apud CUNHA e SILVA,
1999, p.162).
Assim, roubar a motricidade não seria a amputação de um membro, mas a
docilização e o controle dos desejos e sonhos de um corpo. Então, se a corporeidade
compreende a realidade da motricidade, é por ela que se faz possível um movimento de
resistência às forças de controle da sociedade. Ao exercer resistência, é possível ter
consciência das faltas e, a partir destas, pretender transcender, indo também em
51
direção ao eterno e infinito, exercendo, desta fonna, a espiritualidade, que cabe dentro
do conceito inicial de corporeidade. Isto não é um círculo sem lim, mas a evidência de
que corporeidade, motricidade e resistência estão dentro de um mesmo contexto de
sagrado, espiritualidade e transcendência, muito mais numa relação de
complementaridade do que de causalidade. É o encontro da dimensão visível com a
dimensão invisível do corpo (FEITOSA, 1999), para não aceitar a submissão
incondicional do corpo às potências que pretendem controlá-lo, mas propondo um
movimento de criação de resistência.
A possibilidade da existência de resistência independe das práticas de
adestramento ou das tecnologias de poder, pois se a sociedade exerce ou pretende
exercer uma relação de controle, pelo poder, basta a existência, segundo o conceito da
corporeidade, para exercer resistência. Não é a cópia do modelo da física de ação e
reação, pois não há necessária reciprocidade e igualdade de somatória de forças. Uma
força de poder pode despertar inúmeras forças de resistência ou, por outro lado, um
conjunto de forças, de poder, podem criar uma única força de resistência. O mais
interessante deste conceito é que a força de captura coexiste com a força de
resistência.
Se o poder exercido pela sociedade de controle está no sentido da vida e,
portanto, do corpo, é também a partir do corpo que há o exercício da resistência: "Pelo
corpo me apercebo do meu poder e do poder dos outros porque pelo corpo exerço o
meu poder enquanto sobre ele se exerce o poder dos outros". (JANA, 1995, p. 85).
Assim é que a motricidade se aproxima do conceito de resistência, pois é a motricidade,
enquanto fenômeno de movimento intencional e espaço de identificação corporal, que
garante a possibilidade de superação do controle que a sociedade pretende exercer.
A sociedade dispõe de dispositivos de controle (consumo, instituições religiosas,
instituições de educação, entre outras) sobre o corpo, particulannente através da
criação do desejo. Entretanto, ao propor o conceito e a prática do conceito de
corporeidade e motricidade, em toda a sua abrangência, é possível estabelecer um
movimento de resistência à docilização desejada que a sociedade de controle pretende
instaurar ao ditar as regras que o corpo deve seguir. É neste movimento de resistência
que renasce o corpo como possibilidade de ser transcendente e que pode estabelecer
52
uma relação com o sagrado. "É a motricidade que faz do ser humano um discípulo da
possibilidade e, como tal, um ser livre e libertador". (SERGIO apud FEITOSA, 1999, p.
94). Ao assegurar a liberdade do corpo, através da corporeidade e da motricidade,
estamos resguardando a perspectiva de um ser humano completo, não dicotomizado,
que permite-se estabelecer um relacionamento com o infinito e com o invisível num
movimento de resistência aos limites físicos e temporais que a sociedade poderia
instaurar sobre o corpo. Neste sentido, a resistência e a transcendência se associam à
prática da corporeidade através da motricidade.
53
5
ANÁLISE DE DISCURSO E o
DISCURSO DA CORPOREIDADE
54
É possível identificar, na Educação Física contemporânea, um segmento que
contempla um discurso sobre corporeidade, no qual há uma preocupação notadamente
não reducionista de corpo.
Com a intenção de identificar o sentido deste discurso e em que medida ele
aproxima ou afasta a idéia da busca pelo sagrado como componente do todo corporal,
busquei uma proposta que fosse além da análise de conteúdo e que pudesse resgatar a
relevância de vários componentes da construção do discurso e de seus significados. A
Análise de Discurso (AD), conforme a proposta de Orlandi (1995, 1996, 1999, 2001),
oferece um dispositivo de análise que atende a estas expectativas, por isso, proponho o
uso deste procedimento ao analisar o discurso da corporeidade, o sentido de corpo para
a Educação Física e em que medida a idéia da busca por uma relação com o sagrado
faz parte do conceito de corpo.
A AO explícita uma preocupação em identificar um processo de interpretação que
vai além do mecanicismo de resultados. Se o discurso da corporeidade propõe um
conceito de corpo para além de um corpo mecânico, não caberia flexionar a sua
interpretação a uma metodologia que atentasse apenas ao conteúdo. É necessário ir
além do que as palavras significam. Nesta perspectiva, apenas interpretar o texto
parece não ser suficiente. A intenção é compreender o funcionamento do texto, ou seja,
como o texto produz sentido e qual é este sentido.
5.1
1
A Análise de Discurso
A Análise de Discurso, como seu próprio nome indica, não trata da
língua, não trata da gramática, embora todas essas coisas lhe
interessem. Ela trata do discurso. E a palavra discurso,
etimologicamente, tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr
por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática
de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando.
(ORLANDI, 1999, p. 15).
55
A AD não se restringe à descrição, nem à interpretação, mas busca "explicitar os
processos de significação que trabalham o texto." (ORLAND!, 1999, p. 27). Assim, é
possível identificar alguns aspectos imanentes neste processo que não podem ser
esquecidos nem negados: o inter-discurso e o não dito significam na mesma medida
que o explícito e, por isso, este processo não se reduz a um mecanismo de revelação
de conteúdo. O simbólico, o significado e o real atravessam o visível e o invisível do
discurso, num sentido de aproximação e, por isso, devem ser considerados em um
processo de anáiise. Esta aproximação entre o visível e o invisível revela uma relação
de intimidade com o conceito de corpo, pois procura ir além dos !imites físicos.
O percurso da AD propõe enxergar a língua dentro das condições de produção,
observando sua relativa autonomia (BLIKSTEIN, 1994), a superação de um simples
instrumento de comunicação (BRANDÃO, 1996) e a identificando como parte do
processo histórico, rompendo com a relação idealista da linguagem. Neste processo,
fica evidente o corte saussureano e a proposta para que a análise da língua quebre as
definições positivistas de ordem semântica.
A confirmação de hipóteses, a constatação de um ponto de vista e a
previsibilidade são questões descartadas na AO. Mas procura-se identificar e sustentar
a estrutura, a forma, a regularidade, a falha, o equívoco e a contradição, não ignorando
todo o contexto de construção do discurso.
Assim, fica claro que "a relação com a linguagem não é jamais inocente, não é
uma relação com as evidências e poderá se situar face à articulação do simbólico com o
político." (ORLANDI, 1999, p. 95). "Saber que não há neutralidade nem mesmo no uso
mais aparentemente cotidiano dos signos" (ORLANDI, 1999, p. 9) é, então,
imprescindível.
Consciente da opacidade da linguagem, da não linearidade, da não neutralidade,
a materialidade da língua se apresenta não como mensagem, mas como discurso e, a
sua análise "visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos."
(ORLANDI, 1999, p. 26). Mas este sentido não é uma verdade absoluta explicitada por
uma 'chave de interpretação'. Tanto não assume esta inocência, que reconhece e
trabalha na interpretação do silêncio também. Além de o próprio silêncio significar,
56
também "não há significação possível sem silêncio." (0RLANDI,1995, p. 37). A
ausência de verbalização não é ausência de significado.
A intencionalidade da construção lingüística fica evidente tanto pelas escolhas
como pelas rejeições, pelo que foi dito, pelo que não foi dito, pelo que poderia ser dito e
não foi, então, a compreensão do sentido do discurso se evidencia no processo de
significação, pois "as margens do dizer, do texto, também fazem parte dele." (ORLANDI,
1999, p. 30).
O sujeito que vive sob as relações de poder, sob as relações de produção de
desejo da sociedade, é o sujeito que constrói o discurso. Então, a relação de forças
deve também ser compreendida como constituinte do processo de significação. Isto
inclui a compreensão das condições de produção do discurso, vendo sua materialidade,
sua formação social e o mecanismo imaginário. "O sentido não existe em si, mas é
determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio histórico
em que as palavras são formadas"_ (ORLANDI, 1999, p. 42).
A construção deste dispositivo de análise é constituída com a intenção de ver que
as possibilidades de interpretação não estejam restritas e que nenhum 'a priori' faça
parte do processo de análise.
A tarefa do analista de discurso não é: a) nem interpretar o texto como o
faz o hermeneuta; b) nem descrever o texto. Tenho dito (ORLANDI,
1988) que o objetivo é compreender, ou seja, é explicitar os processos
de significação que trabalham o texto: compreender como o texto
produz sentidos, através de seus mecanismos de funcionamento.
(ORLANDI, 1996, p. 88).
A AD está diretamente relacionada à definição da pergunta feita ao discurso.
Neste confronto com a materialidade discursiva, não existem verdades, mas
funcionamentos, o conteúdo fica em suspensão, sem um centramento ideológico por
parte do analista. Esta suspensão é não refletir "apenas no sentido de reflexo, da
imagem, da ideologia, mas refletir no sentido do pensar." (ORLANDI, 1999, p. 61). O
analista se coloca em uma "posição deslocada que lhe permite contemplar o processo
de produção de sentidos em suas condições" para ver o discurso e não, o texto.
(ORLANDI, 1999, p. 61).
57
Embora já tenham sido mencionados os elementos que permitirão a interpretação
do significado no transcorrer do processo de análise do discurso, podemos sintetizar o
procedimento em etapas. A primeira etapa é a definição da questão a ser levantada
diante do material, se esta questão não estiver clara e precisa, o ponto de chegada
poderá estar distante do objetivo do trabalho. A segunda etapa é a definição do corpus;
sua relevância é evidente: "decidir o que faz parte do corpus já é decidir acerca de
propriedades discursivas" (ORLANDI, 1999, p. 63); seu delineamento está vinculado ao
objetivo da análise, não para demonstrar, mas para mostrar como o discurso funciona
produzindo sentidos. A terceira etapa é o momento do pinçamento das unidades de
significado do corpus; com as unidades de significado, será possível anaiisar o que é
dito nesse objeto discursivo e o que é dito em outros discursos ou em outras condições
de produção; esse é o momento de "converter a superfície lingüística, o dado empírico,
de um discurso concreto, em um objeto teórico, isto é, um objeto lingüisticamente de-
superficializado." (ORLANDI, 1999, p. 66).
A quarta etapa é o momento de analisar a discursividade e identificar as famílias
parafrásticas, sua repetição e confirmação ou negação, a maneira como a freqüência
reforça a idéia; também é o momento de considerar a ocorrência do silêncio. Na quinta
etapa identifica-se o processo de significação por mecanismos como deslizamentos,
metáforas e transferências; o processo de significação também compreende o
interdiscurso, que é a relação do discurso com uma multiplicidade de discursos. Este é
um processo dinâmico de ir ao discurso e voltar à teoria, construindo assim o processo
de significação pelo dito e pelo não dito, no qual o silêncio também significa.
A sexta etapa é o estabelecimento do modo de funcionamento do discurso, no
qual cabe a compreensão das relações de exclusão, inclusão, sustentação, oposição,
migração de elementos de um discurso para outro e sua estruturação. A própria
textualidade e a tipologia do discurso, embora não sejam a finalidade da AO, fazem
parte da compreensão de seu modo de funcionamento. O sétimo e último passo tem a
perspectiva de congruência, não como fechamento e encerramento, mas dentro da
complexidade e infinitude do discurso, relacionar e concluir, pelos passos anteriores,
sua significação. É um processo de síntese, no qual o significado transparece.
58
Talvez fosse dispensável reiterar que este processo aqui descrito em passos, na
realidade, é dinâmico e flui entre a oscilação pendular e a continuidade.
Ver desta forma o discurso, enquanto processo dinâmico, superando o
mecanicismo semântico e os limites do conteúdo, favorece a compreensão da análise
do discurso da corporeidade.
A Análise de Discurso da Corporeidade
Para a análise de discurso da corporeidade e sua relação com a sacralidade,
usaremos dois textos do livro Educação Física & Esportes: perspectivas para o século
XXI (MOREIRA, 2001). Suas repetidas edições, atualmente na 10• edição, e o fato de
ser um texto usado como referência em vários concursos, justiiica sua relevância na
área de Educação Física, tanto na formação como na atualização profissional.
Na segunda parte deste livro, estão as "Perspectivas na Corporeidade", em dois
textos: "Perspectivas na visão da corporeidade", de Silvino Santin e "Consciência
corporal e dimensionamento do futuro", de Regis de Morais, os quais usaremos para a
Análise de Discurso.
A questão levantada para a análise de discurso nestes textos versa sobre o que
diz o discurso da corporeidade, em sua perspectiva para o século XXI.
A partir dos valores assegurados no discurso da corporeidade, buscamos a
compreensão da suposta relação entre a corporeidade e o renascimento do sagrado,
através de algumas questões iniciais: Como o discurso da Corporeidade, ao produzir
significados para a compreensão de corpo, intersecciona o conceito de sagrado? Seria
possível identificar no discurso da corporeidade alguns dos valores inerentes à relação
com o Sagrado, indicando assim que o corpo completo é aquele que permite-se
relacionar-se com o eterno e infinito? Em que medida o discurso sobre sagrado, ao
tratar da corporeidade, é caminho para captura, como dispositivo de controle, ou de
59
transcendência, dando a oportunidade ao corpo, de exercer o viver em abundância? O
discurso da corporeidade incluiria em seu conceito o corpo território do sagrado?
5.3
Unidades de Significado 1
A partir dos textos citados, selecionamos as unidades de significado e as
transcrevemos a seguir. Elas seguem uma ordem numérica, seguindo a ordem em que
aparecem no texto origina!. Os textos completos estão inseridos na seção com
as unidades de significado sublinhadas. Os quadros a seguir mostram, além da unidade
de significado e seu respectivo número, uma síntese, indicando a idéia central daquela
unidade. Estas tabelas servirão de base para a análise feita a seguir.
5.3.11
Unidades de significado extraídas do texto!
"Perspectivas na visão da Corporeidade"1
Número da Unidade de significado extraída do texto original Síntese da unidade de
unidade significado
significado
1 "Falar em corporeidade parece simples. Mas que corporeidade?". Corporeidade não é
conceito simples
2 "Corporeidade é um conceito abstrato, indica a essência cu a Corpcreidade e
natureza dos corpos". abstração
3
"A análise dos significados de corporeidade construídos pela Corporeidade científica
filosofia e pelas ciências nos mostra a visão do conhecimento e corporeidade vivida
racional e científico do corpo, o que nem sempre corresponde à
corporeídade vivida no cotidiano das pessoas".
I
60
4 "Dificilmente alguém se pergunta sobre o significado do próprio Significado de corpo
I
I
corpo".
I
I
5 "Pelo fato de as funções vitais da corporeidade .. .".
i
Corporeidade e vida
I
6
"É assim que o homem cresce, vivendo o corpo distraidamente".
I
Não peíCebemos o
I
corpo
7 "Resta a esperança de que, um dia qualquer, a Educação Física Educação Física e
I
seja compreendida como a cultura corporal". cultura corporal
I
8 "Agora, sim, a Educação Física e até o esporte são lembrados Educação Física e
!
I não propriamente para cultivar o corpo, mas para assegurar um desempenho corporal
'
I desempenho corporal que favoreça o aprendizado de conteúdos
I
intelectuais, dentro do espírito do velho ditado: mens sana in
I corpore sano".
I
9
"Esses fatos são lembrados com a intenção de mostrar como o Mesmo o individuo
homem espirttualízado e intelectualizado pouco valor atribui aos espirilualizado e
princípios da corporeidade". intelectualizado
esquece o corpo
10 "Não se pode esquecer que foi dentro dessa atmosfera Paradigmas da
racionalizada que a Educação Física e os esportes foram Educação Física
pensados e praticados".
11 "Em todos esses perfis corporais aparecem claramente os traços Corpo submisso e
de uma corporeidade submissa, disciplinada, desprezada, por disciplinado
vezes até abjeta. As dimensões corporais não passam de uma
categoria de valores secundários na vida humana".
12 "A imagem da corpo;e\dade de nossa cultura racionalizada, Corpo objeto
I
cientificizada e industrializada em nada garante o cultivo do corpo,
ao contrário, o reduz a um objeto de uso, um utensílio, uma
ferramenta a ser usada segundo a vontade de cada um ou, o que
é pior, conforme os interesses econômicos, políticos e ideológicos
de outros grupos".
61
13 "De que maneira seria possível estabelecer uma imagem de É possível humanizar a
corporeidade capaz de cultivar corpos humanos?". corporeidade?
14 "As ciências modernas vieíam fortalecer a ideologia da A ciência baseada na
I
racionalidade. Pela ciência atinge-se ou constrói-se o racionalidade
conhecimento objetivo, seguro e o único verdadeiro da realidade. I
·A ciência seria construída sobre os fatos, os objetos, o mundo.
Suas descobertas são as leis que resultam dos experimentos
desenvolvidos com métodos seguros e eficazes, porque
mensuráveis e demonstráveis".
15 "Mas, desde a metade do século passado, começaram a surgir Nova visão sobre
fortes questionamentos devido a esse processo único e ciência
I
monopolizador de cientificidade".
16 "Essa situação toma se dramática quando queremos estudar o O corpo pode ser
corpo humano, já que fadlmente ele pode ser reduzido a seus reduzido com facilidade
aspectos físicos ou quantitativos".
17
"Em nenhum momento da história do conhecimento racional' A radona!ização
houve preocupação em definir o corpo humano a partir do próprio distanciou o corpo dele
corpo". mesmo
18
"As ciências modernas também não se preocupam diretamente O corpo ainda é visto
com o corpo ... O corpo humano não passa de uma máquina com como máquina
reações químicas".
19 "A Educação Física recebe uma profunda inspiração dessa Como a Educação
maneira de pensar o corpo humano". Física conceitua corpo
20
"Os movimentos alternativos... estão a exigir uma revisão de Necessidade de rever
nosso modelo positivista de produção do conhecimento, não só conceitos
quando se trata do ser humano, mas também em relação a todo o
universo".
62
21 "A Educação Física está diante dessas duas alternativas. Ou j O percurso da
I aperfeiçoa as técnicas do rendimento ou se arrisca pelos valores 1 Educação Física
da estética. A decisão vai gerar conseqüências diferentes, senão I apresenta uma
I
opostas". bifurcação
'
22 "Os corpos ficam enclausurados nos horizontes estreitos de uma A corporeidade tem
corporeidade colocada, às vezes, como o oposto do espiritual, estado distante do
outras vezes restrita ao individual e, na maioria dos casos, espiritual
I
amarrada aos padrões das ciências experimentais".
23 "Há preocupações em construir o corpo guerreiro, o corpo atleta, Que corpo
mas ainda não se pensou seriamente em cultivar o corpo humano. pretendemos?
Essa tarefa precisa ser começada".
'
24 "Estamos habituados a exigir que as palavras tenham sempre um Dificuldade em dar
conteúdo claro e preciso, é o cacoete da linguagem científica; ... I precisão à
Isso, provavelmente, não acontece com o termo corporeidade". corporeidade
I
25 "A corporeidade deve -mais do que uma coisa a ser apreendida Corporeidade é desafio
-significar um desafio para a imaginação e a criatividade". à imaginação e criação
26 / "A corporeidade precisa ter a dignidade da ação sagrada e festiva Corporeidade e
e, ao mesmo tempo, a cotidianidade do esforço e do trabalho comprometimento
criativo".
27 "Para repensar e desenvolver a corporeidade é fundamental Corporeidade requer a
aprender a realidade corporal humana. Fica completamente consideração do
descartado o hábfto de entender o corpo a partir de elementos que interior
vêm de fora ... A corporeidade humana deve ir além, precisa
considerar a sensibilidade afetiva, as emoções, os sentimentos, os
impulsos sensíveis, o senso estético etc.".
28 "A corporeidade humana inspirada nessas linhas gerais precisa Corporeidade e obra de
ser um desenvolvimento harmonioso como um concerto musical arte
ou uma obra de arte".
29
1
2
3
4
"A plenitude dessa corporeidade será vivida em primeiro lugar
sob os signos da abundância. A corporeidade humana não pode
ficar presa á satisfaÇiio de suas necessidades primárias. Essa
instãncia faz parte da esfera animal. A corporeidade da
abundância é aquela que se desenvolve liberta das leis da
necessidade".
63
Corpore\dade e vida ~ ~
em abundância
I
5.3.2
Unidades de significado extraídas do texto
"Consciência Co moral e Dimensionamento do Futuro" (T -li)
Número da Unidade de significado extraída do texto original Síntese da unidade de
unidade de significado
significado
"A tematizaçao da corporeidade é, em sí mesma, complexa e Corporeidade não é
mesmo insidiosa". conceito simples
"Uma coisa é a abordagem de um corpo que se esquadrinha Corpo observável e
observacional e laboratorialmente, ... outra coisa muito distinta corpo vivido
é voltarmo-nos sobre o corpo que somos e vivenciamos, no
complexo horizonte da exístencialização".
"Eu não conheço, neste final de século, no qual nossas Relevância do tema
preocupações se voltam para os tempos vindouros, nenhum corporeidade
tema mais urgente ou relevante do que o da corporeidade".
"O corpo do homem está abrangido por ambas as Corpo problema e
mencionadas categorias. Ele é, simultaneamente, problemático corpo mistério
e misterioso, pois que, podendo ser campo de
esquadrinhamento e objeto de conhecimento, também é, em
sua existencializaÇiio plena, manancial de mistérios".
64
5 I " .. .fantástico experimento cósmico, que é o corpo. Complexos Corpo problema
I
I laboratórios bioquímicas ... ".
I
I
6
"Ocorre, porém, que nossos corpos são, antes de tudo, o Corpo mistério
nosso primeiro e mais fundamental mistério... mas não há I
cientista, seguro do que faz, que ouse uma explicação sobre a I
própria centelha vital: o que nos mantém vivos?". J
7 "Na linha da recíproca irredutibilidade entre corpo e / Ter corpo
I
I
I
consciência defendida por Descartes, encontramos na comum
I
conversação cotidiana e também em textos que se querem
I
científicos afirmações do tipo 'eu tenho um corpo' ou 'cabe à I
I
I alma pilotar essa máquina sem inteligência que é o corpo'".
8
"Somos (e não temos) um corpo. Somos um corpo como Ser corpo
forma de presença no mundo .. De todo modo convém lembrar
que a afirmação segundo a qual somos um corpo como
presença no mundo não é restritiva".
9
"Veremos que o corpo é consciente e, por isso, devemos falar Corpo consciente
em corpo/consciência; afinal, já não é lícito reduzirmos a noção
de consciência à de raciocínio, uma vez que o corpo apresenta
claramente uma consciência e uma sabedoria que não
precisam de raciocínios".
10
" ... toda atitude do ser humano é atitude corporal". Atitude humana e
atitude corporal
11 "Essa coisa de interioridade e exterioridade aparece-nos como Corpo não é interior e
artifiCial na compreensão do ser humano". exterior
12 "Dizemos nova concepção unitár.a em razão de ser A concepção unttária
especificamente filosófica e trazer as marcas históricas da não é um conceito novo
filosofia do nosso século em diálogo com as ciências, pois, no
mundo do Antigo Testamento bíblico a concepção
propriamente hebraica de ser humano é já unitária".
65
13
" não se registra um dualismo (enquanto ruptura e Dualismo e dialética ...
separação), mas uma dialética cujos pólos (carne e espírito) se
'
realizam e são superados pela totalidade e pela unidade do
I
homem vivente".
14 " ... faz um caminho de volta às origens da concepção unttária Pensamento hebraico
de homem registrada pelo pensamento hebraico bíblico (do bíblico e concepção
I
Velho Testamento). unitária
15 "Somos um corpo como forma de presença no mundo, e isso Corpo não é interior e
diz tudo. lnterioridade e extelioridade são apenas categolias exterior
de pensamento de força didática, pois o que há é um corpo
que pensa e agtta a consciência e, simultaneamente, uma
consciência que pensa e transligura o corpo".
16 'Vejo essas coisas como grandes avanços dados por nosso Século XXI e
século e que prometem, para os tempos do século XXI, amplas esperança para a
possibilidades no que diz respeito ao trato com a corporeidade
corporeidade".
17 "Sem dúvida, hoje, no Ocidente, estamos muito mais Consciência do corpo
despertos para essas coisas. E apenas começamos a
descobrir a consciência corporal".
18 "Eis por que os profissionais da corporeídade só têm diante de O percurso da
si um par de alternativas: ou seguem lidando com o corpo Educação Física
como se este fora simples coisa burra que se adestra ou apresenta uma
despertam para o fato de sermos um corpo como forma de bifurcação
estar-no-mundo sensível e inteligentemente".
19
"Se a segunda alternativa é acena, o profissional tem que O re-aprender sobre o
admitir sair da comodidade de rotinas e programas corpo significa
mecanicistas a fim de que inicie longo diálogo de espiritualização do
aprendizagem com o corpo próprio e o alheio. No que me diz corpo
respeito, chamaria isso de espiritualização do corpo".
66
20 "Nossa grande esperança é que, no século XXI, lidemos com Século XXI e
corpos espiritua!izados- no sentido de enriquecidos por todas esperança para a
as nossas significações vrtais e perspectivados em direção a co rporeidade
I
I
significações que, na condição corpórea, não podemos I
constatar e apalpar, mas sobre as quais nossas mentes
estarão mais livres para conjecturar e ter esperanças".
21 " ... e o século XXI possa dar inicio ao espiritual vivk!o nas O espiritual nas
atiTudes corporais". atitudes corporais
22
"O estudioso da corporeidade tem que se interessar, em Mudar o foco de corpo-
primeiro lugar, pelo corpo-objeto que interessa a anatomistas, objeto para corpo-
fisiologistas e médicos ... todavia, 'a posição absoluta de um só sujeito
objeto é a morte da consciência', no sentido da paralisação de
tudo o que o envolve, a ele se liga, explica-o e ultrapassa-o.
I
Eis porque a nossa reflexão tem que se aprofundar na direção
do corpo-sujeito".
23 "Vale dizer que na corporeídade encontramos a dimensão A corporeidade não
objetai .. :. rivaliza com o conceito
de corpo-objeto
24 "Tais ponderações põem-nos de novo perante uma de minhas Relevância do tema
afirmações iniciais: a de que, neste momento, dificilmente corporeidade
haveria tema mais importante para nosso crescimento reflexivo
e prático do que o da corporeidade".
25 "... e os profissionais da corporeídade, os que ensinam e Proximidade entre
preparam bailarinos, treinam atletas, fazem preparação física, Filosofia e prática na
sentirão cada vez mais nitidamente a necessidade da reflexão corporeidade
filosófica sobre o seu quê-fazer .. .".
67
5.4\
A Análise dos Textos!
A partir das unidades de signiíicado extraídas do texto e da síntese das unidades
de significado, é possível elaborar a análise dos textos. Ao cruzar e interligar as
unidades de significado, é possível a repetição, a confirmação e a negação do que
aborda a corporeidade, observando que há significado no silêncio, assim como no
discurso dito. Os dois textos são analisados independentemente neste momento,
havendo uma análise conjunta a seguir. O número entre parêntesis indica a unidade de
significado.
5.4.1
Analisando o texto T-I
No texto "Perspectivas na visão da corporeidade" (T-1), identificamos uma
preocupação inicial em constatar o que falta à corporeidade (unidades de significado
3/8/9/10/11/12/14/15/16/17/18), quer seja por compreensão historicamente tendenciosa
sobre o significado de corpo, quer seja pelo paradigma científico que faz uma tradução
de valor sobre o corpo, induzindo a um corpo submisso, docilizado, capturado pelas
instituições, pelas forças da sociedade, reforçando assim a idéia de que é necessário
questionar a corporeidade (1/4/6/13).
Este questionamento não se encerra numa mera reflexão de identificação do que
falta, mas, pela constatação do que falta, é possível dar um passo além para criar um
conceito. Este processo de criação não está distante de uma relação prática, pois, pela
relação entre educação física e corpo (7/8/19/21 ), é dado o repensar o corpo,
reforçando o papel da educação física como espaço para a busca pela compreensão do
que é corpo.
68
A criação do conceito de corporeidade está grandemente reforçada no último
terço das unidades de significado (20/22/23/24/25/26/27/28/29), o que nos faz entender
o percurso do texto, para fazer o questionamento e então propor uma forma de
compreensão do fenômeno corporeidade.
Considerando este percurso do texto, através das unidades de significado, pode-
se constatar que é pela simplicidade (1) e pela abstração (2) do tema da corporeidade,
embora elas não sejam necessariamente simultâneas, que nasce a angústia de como
revelar a compreensão deste conceito (13). A questão sobre o corpo é que, ao estudá-
lo, ele mesmo tem sido esquecido (17).
Quando percebemos que o conceito de corporeidade está carregado com os
valores permitidos pela ciência clássica (3/16/18/19), constatamos que o corpo tem sido
tratado como uma máquina construída por fatos e objetos (14), reduzindo a realidade do
corpo vivo. Embora o corpo seja vital à existência humana (5), parece estar pouco
percebido (4/6). Cabe, então, à Educação Física, enquanto área do conhecimento que
se preocupa em entender o corpo, propor atividades que revelem uma compreensão
não reducionista, mostrando uma percepção mais abrangente de corpo (7/8110), já que
se propõe a intervir nele.
A corporeidade aceita na cultura racionalizada, intelectualizada e mesmo
espiritualizada, no sentido institucional, não consegue superar o reducionismo (9/11/12),
pois está impregnada pelos valores da ciência clássica e pelas relações e disputas de
poder. Assim, a cognição e a espiritualidade se mostram como tendo sido
historicamente pólos de captura, embora pudessem ter sido usados num processo
criativo, como pontos de resistência.
O questionamento sobre os valores da ciência clássica por diferentes áreas do
conhecimento (15) abre as portas para que se faça também um questionamento sobre o
significado de corpo (20). Este questionamento, a partir deste processo de mudança de
valores dentro da ciência, em busca de um novo modelo, abre espaço para se
questionar a maneira de olhar o corpo e propor alternativas para alcançar a superação
do enclausuramento a que o corpo ficou submetido (22). Assim, é necessário tomar uma
decisão sobre qual direção seguir: ou mantém-se o padrão antigo, vendo o corpo como
máquina, analisando o seu rendimento, olhando para suas quantidades; ou olha-se o
69
corpo como um ser sensível e estético (21 ). Esta identificação de uma bifurcação, sobre
qual caminho tomar, parece estar em acordo com uma postura de questionamento,
identificando mais de uma possibilidade como resposta ao que é questionado.
Sempre houve uma preocupação com o corpo por parte das instituições
detentoras de poder, mas já é o momento de mudar a perspectiva de preocupação (23).
A preocupação em ter 'certeza' sobre a compreensão do termo corporeidade permeia o
texto (1/2/24), mas esta compreensão deve ir além da apreensão, da certeza, dos
limites, e tocar a imaginação, a criação, a alegria e o devaneio (25/26). É preciso
descartar o hábito de comprometimento pelo que vem de fora (29) e perceber a
relevância e grandeza do conceito de corporeidade (28).
Compreender a importância do conceito de corporeidade é questionar o seu
sentido e ver que, o corpo deve viver uma vida em abundância. Não viver dessa forma
implica na redução do viver (29). É também necessário ter consciência de que suprir as
necessidades básicas do corpo não é prover vida em abundância.
Olhar para a corporeidade é olhar para a vida, e vida vivida plenamente
pressupõe que seja vivida em abundância. Esta perspectiva para entender o corpo
revela que devemos aceitar a possibilidade de superação, incentivar o desafio da
criação e da imaginação e identificar o corpo tanto pelo visível como pelo invisível.
5.4.2
Analisando o texto T-Il
No texto "Consciência corporal e dimensionamento do futuro" (T-11), é possível
identificar um grande equilíbrio entre as quantidades das unidades de significado em
seus diferentes agrupamentos de sentido.
Há, a princípio, um forte questionamento do que seja corpo e qual o sentido da
corporeidade (117110/11/15), revelando que não estamos despertos para o fato de que
toda atitude é corporal, não é possível falar em razão ou emoção ou consciência como
se estivessem distantes do corpo, também não cabe ao corpo a secção entre interior e
70
exterior. Tal questionamento é pertinente, no sentido de despertar a consciência da
abrangência do que seja o corpo.
O questionamento inicial prossegue evidenciando dois aspectos da corporeidade.
Se, por um lado, existe o corpo objeto, tendo sido hipervalorizado nos séculos recentes;
há também o corpo existência, no qual se dá a maravilha da vida. Há o corpo problema,
mensurável, quantificável e o corpo mistério, no qual não é possível conhecer todos os
seus segredos. A consciência deste processo de diferenciação (2/4/5/6/8/9/13/22), que
está evidente no início do texto, atravessa-o até o fim, para mostrar que o que nos
convém, hoje, neste questionamento sobre corpo, não será alcançado num processo de
dualismo, mas na realidade dialética da corporeidade.
A proposta de encarar a corporeidade como processo dialético é reforçada
(3/16/17/20/21/24) ao evidenciar esta visão não reducionista de corpo como uma grande
esperança e por isso se mostra relevante neste novo século, colocando em evidência a
corporeidade como necessidade para o crescimento reflexivo e para a consciência do
que é a existência.
Esta nova perspectiva para a compreensão da corporeidade remete a repensar a
relação do corpo com o invisível, apontando para um renascimento de uma visão de
corpo no qual não haja separações (12/14), como um renascimento da possibilidade de
uma relação com o eterno e infinito fazerem parte da complexidade humana. Em outras
palavras, seria a aproximação do corpo com sua possibilidade de espiritualidade
(14/19/20/21) como caminho em direção ao ser completo e transcendente.
Fica evidente, neste texto, que os profissionais da corporeidade, incluindo aqui os
professores de educação física, precisam estar despertos para a urgência desta
compreensão teórica em suas práticas (18/19/25), tendo diante de si apenas dois
caminhos: ou optam pela mesmice, numa repetição sem fim, num processo inerte, sem
criação, alienante, facilitando o processo de controle dos corpos, ou avançam a fim de
identificar o corpo como fonma de estar no mundo, de fonma sensível e racional, não
usando as atividades que envolvem o corpo num sentido de captura e de redução, mas
abrindo as portas à transcendência, através de uma prática consciente.
71
Como evidencia o texto, falar sobre corpo não é tarefa fácil (1) e o primeiro
problema está em definir de que corpo se fala, pois tanto pode ser um objeto passível
de observação, como pode ser a maneira de existir no mundo (2).
A busca pela compreensão do conceito de corporeidade se mostra extremamente
relevante para os dias atuais (3). A corporeidade busca compreender o corpo, mas, ao
permanecer nos padrões da ciência clássica, o corpo tem sido apenas um fantástico
objeto. A mais perfeita máquina ainda fica aquém da funcionalidade física, química,
matemática, biológica, psicológica do corpo objeto, mas tudo isso é um corpo problema
(5/22).
De outra parte, não se pode ignorar o seu lado 'invisível', o seu inerente mistério
(4/6). Se for visto como objeto, pode ser possuído - tenho um corpo - (7), mas, se for
visto como mistério, individual e particular, ele pode ser fruído - sou corpo - (8). Não se
trata de negar um modelo para estabelecer outro a partir da oposição mas, pela
superação, ver que o corpo apresenta consciência (9), que modela e é modelada pelo
corpo (14) e que toda atitude humana é uma atitude corporal (10).
O estudo sobre corpo que pretende ser rigoroso, não deve permitir nenhum tipo
de redução, nem pelo interior nem pelo exterior, mas o profissional envolvido com a
prática corporal deveria preocupar-se em ver a totalidade (11/13). Esta postura para ver
a corporeidade, mesmo mostrando seu lado progressista (15/16), é também um retomo
à percepção de totalidade de ser humano (12).
O profissional da corporeidade deve fazer a opção pelo caminho a seguir: ou o
corpo é coisa que se adestra ou então é a forma de estar-no-mundo (18). Optando pela
alternativa do corpo mistério, há o conseqüente compromisso de ver, no corpo, o lugar
da criação, do devir, da espiritualização (18). Deve-se partir do corpo objeto, material,
conhecido, para chegar ao corpo sujeito, consciente e misterioso (21 ).
Este renascimento da visão de corpo é, também, um renascer da compreensão
da espiritualidade como componente do humano ( 12/18/19/20).
Sendo que toda prática traz em si uma construção teórica, este é o momento de
se conscientizar os profissionais da corporeidade sobre qual é a base teórica na qual
edifíca-se a prática contemporãnea da Educação Física e, com isto, facilitar a tomada de
consciência sobre a necessidade da reflexão filosófica sobre o "que fazer" na prática da
72
corporeidade (24). Isto inclui ver o corpo mistério, com seus sonhos, suas frustrações,
suas alegrias, sua ansiedade em estabelecer uma relação com o sagrado e também ver
o corpo problema, que pode ser quantificado e racionalizado.
5.4.3\
I
Analisando os dois textos (T-1 e T-11)\
É oportuno destacar que a proposta do livro, de acordo com as palavras de
Moreira, na Apresentação, é ressaltar que não vivemos mais dentro de verdades
absolutas e estáticas, mas dentro de um período de crise e, nesta crise, dá-se a
oportunidade de mudança. Dentro deste contexto de renovação na Educação Física,
surge a idéia de "oferecer possibilidades de desvendar o futuro" (MOREIRA, 2001, p. 9)
através dos textos que compõem o livro. Mesmo sendo "propiciada total liberdade aos
professores redatores dos textos, não sendo imposta uma diretriz fechada, tanto
metodológica como em função da cobrança de posturas ideológicas [ ... ]" (MOREIRA,
2001, p. 1 O), é de se esperar que os textos visualizem uma postura de perspectivas
inovadoras, que estimulem os profissionais a renovar e a transformar seus conceitos,
num processo de renascimento, de acordo com o paradigma contemporâneo de ciência,
que admite ver o fenômeno da corporeidade como a expressão da complexidade
humana.
Falar em perspectivas para um novo século remete à idéia de novidade. Da
mesma forma que o século será novo, que as idéias e as práticas sejam igualmente
renovadas. Se a premissa da Apresentação, conforme exposta no livro, aborda o atual
momento como sendo constituído por uma crise e que a crise é a condição para a
oportunidade de mudança, então, os textos em questão deverão tratar dessas
oportunidades e de como intervir para uma transformação nos conceitos e práticas da
Educação Física.
Particularmente nos textos relativos ao tema corporeidade, a perspectiva é que
estes textos proponham a superação do modelo tradicional de corpo, para que, ao
73
trabalhar com o corpo, o próprio corpo não fique esquecido e que a mecânica e as
certezas não continuem ultrapassando o humano do corpo como tem sido até aqui.
Desta forma, há coerência entre os textos usados para análise e a proposta do livro, em
buscar uma superação do modelo até aqui usado (T-1-11/14/18/19; T-11-217) e propor
uma nova maneira de ver o corpo de acordo com um novo modelo de ciência (T-1-15/21;
T-11-B/8/15).
A idéia inicial dos dois textos é deixar claro que tratar de corpo não é uma
proposta simples, mas complexa e abstrata, por mais concreta que seja e deixar claro
sobre qual conceito de corporeidade se fala (T-1-1/2; T-11-1).
Uma das preocupações, ao tratar do tema da corporeidade, é resgatar a
existência humana no corpo (T-1-3; T-11-2). A idéia do Ter prevalecendo sobre a do Ser
invadiu o conceito de corpo e isto tem fundamentado, também, as práticas de atividades
físicas. A Educação Física foi construída historicamente como uma das formas de
agenciamento para se adestrar, dominar e docilizar os corpos, não medindo esforços,
ao permitir que as tecnologias de poder usassem o corpo como máquina para ser
adestrada e controlada (T-1-8/10/11/12; T-11-7).
Se a premissa da apresentação do livro evidencia que este é o momento da falta,
da crise, também é o momento de sua conseqüente superação, num movimento de
criação e resgate da totalidade corporal. Dentro deste conceito, cabe a intervenção
filosófica, recriando o conceito de corpo. Assim, a perspectiva para a Educação Física
durante o novo século baseia-se em não se permitir ser o local da captura de corpos,
mas ter consciência da necessidade de superar o atual modelo e questionar 'como a
minha intervenção dá a oportunidade para o desenvolvimento do corpo', 'Como posso ir
além do corpo-objeto' (T-1-13; T-11-21). Evidenciando assim a preocupação da Educação
Física em entender sua possibilidade de permitir que os corpos sejam corpos em toda
sua complexidade, superando os reducionismos que têm carregado a prática da
Educação Física. Isto reforça o pensamento de Freire (2000), ao afirmar que, na difícil
tarefa de definir o que seja Educação Física, talvez a melhor opção seja dizer que
deveria ser 'ensinar a ser corpo'.
Neste momento no qual a compreensão do corpo se mostra para além de suas
reduções (T-1-16/24; T-11-14), o profissional se defronta, necessariamente, com uma
74
bifurcação, surgindo a questão sobre qual caminho seguir. Esta bifurcação é bem
definida nos dois textos e propõe como um dos caminhos possíveis a inércia, a
manutenção de relação de dominação sobre os corpos, agenciando controle e
reduzindo sua possibilidade criativa, numa visão de corpo como coisa, exercendo,
assim, o poder de captura sobre o corpo. O outro caminho possível é ver o corpo como
humano, sensível, que transpõe os limites quantitativos (T-1-22; T-11-17) e que pode,
assim, exercer resistência aos agenciamentos de poder. Os dois textos apontam para a
consciência da liberdade de escolha que temos e evidenciam que negar a possibilidade
do mistério é optar pelo processo de captura.
Na expectativa que se faça a opção pelo percurso do respeito, da
transcendência, da resistência, da superação, os dois textos apontam para este novo
caminho e para a relevância deste tema, penmitindo identificar, na corporeidade, a
possibilidade de ver o corpo sujeito (T-11-21) e, assim, penmitir que este desafio sustente
uma prática aberta à imaginação e à criatividade (T-1-25/26). Nesta visão de corpo,
renasce a visão unitária de ser humano (T-11-12), segundo a qual o espiritual vivido nas
atitudes corporais é a grande esperança para o século XXI (T-11-19, 20).
A mesma idéia apresentada no início dos textos, sobre a relevância do tema, é
retomada no final dos textos, com o reforço de esperança, para que a prática incorpore
a teoria, pela sua necessidade, nesta reconstrução do 'objeto' de intervenção da
Educação Física, o corpo (T-1-28, 29; T-11-23, 24). Esta proposta de repensar as
atividades motoras, por estes dois textos, revela uma mesma linha de pensamento com
a proposta do livro, pois procura antever perspectivas para um novo século.
Perspectivas inovadoras condizem com uma proposta para um novo século. Assim, a
reconstrução do conceito de corpo se mostra urgente.
Se aceitarmos que seja função da Educação Física ensinar o corpo a ser corpo,
cabe então a ela, bem como aos demais profissionais da corporeidade, a consciência do
que tem sido feito ao corpo e participar desta reconstrução teórica e prática.
Um discurso que se mostrasse conservador, preferindo manter os valores atuais,
por certo não se mostraria coerente com as perspectivas para o século XXI. Neste
sentido, os textos apresentam perspectivas complementares entre si sobre a relevância
do tema, sobre a necessidade de se reconstruir conceitos, sobre a importância de se
75
fazer a escolha que permita à Educação Física superar o modelo de dispositivo de
poder para controlar os corpos e trilhar uma nova prática no tratamento com o corpo,
mostrando que a busca pela superação de limites pode ser livre, que a fé e a razão não
rivalizem numa relação de excludência, que a busca por uma relação com o sagrado
possa ser uma possibilidade reaL Estas perspectivas estão em harmonia com a
proposta do livro.
Os textos analisados propõem a compreensão de corpo pela compreensão da
existência, como prerrogativa de corpo. Os textos não dizem que seja necessário evitar
o caráter objetai do corpo, pelo contrário, reforçam a idéia de que o lado quantitativo
deva ser primeiramente compreendido, mas este primeiro passo não revela a
compreensão completa do significado de corpo e, assim, o invisível, o qualitativo, o
eterno, o sensível devem ser considerados dentro da complexidade humana para se
compreender o corpo e propor atividades motoras que não reduzam o corpo apenas ao
físico.
Entender o fenômeno da existência humana, o corpo, pressupõe ver sua
pluralidade e singularidade, sua materialidade e sua espiritualidade, sua individualidade
e sua sociabilidade, seu tempo cronológico e kairológico, sua evidência e seu mistério,
suas posses e seus desejos, nada deveria ser esquecido.
O ser humano pode transcender os limites impostos por paredes, por
dogmatismos, por absolutismos, por instituições de poder, por limites de tempo, por
limites circunstanciais e se projetar para uma instância de infinitudes. Esta possibilidade
humana é possível pela compreensão de que o tempo passado é um presente já vivido
e o futuro é o presente a chegar, e que a liberdade, a esperança, os pensamentos e os
sonhos não podem ser dominados por bandeiras invasoras, que pretensamente
anseiem por tomar posse de um território. Esta condição, num movimento de
resistência, não é exatamente o que gostariam as Potências dominadoras e as
instituições que exercem forças de opressão, por isso tentou-se, por diferentes formas,
exterminar os pólos de resistência da vida, estabelecendo novas e desejadas formas de
controle. Mas a corporeidade revela a sua complexidade e sua abrangência. Ao se
defrontar com o conceito plural de ser humano, o sagrado desponta como virtualidade
real e a possibilidade de relação com o sagrado pode ser compreendida como
76
possibilidade de criação e de superação. O ideal de ver e sentir o eterno, infinito e
invisível dá condições ao humano para ir além e buscar viver a vida em abundância,
dando sentido à existência. Esta é a intenção da construção do conceito de
corporeidade: respeitar e permitir sua complexidade.
5.51
Aspectos da Corporeidade e do Sagrado
A partir da intenção de se estabelecer uma relação entre o conceito de
corporeidade e o sagrado e do que foi apresentado no capitulo três, podemos levantar
uma série de aspectos sobre o sagrado. Estes aspectos e também os aspectos
evidenciados nos dois textos analisados são destacados a seguir com o intuito de uma
confrontação conceitual entre si. Desta fonma, é possível propor as seguintes tabelas,
nas quais se delineiam convergências conceituais entre corporeidade e sagrado. Querer
provar alguma hipótese a partir desta tabela é exatamente o que não pretendo, tanto por
não aceitar a causalidade como proposta deste trabalho, como por não ter a intenção de
transfonmar em verdade universal aquilo que pode ser apenas particular. Proponho,
primeiramente, a tabela com aspectos extraídos a partir da análise do primeiro texto e, a
seguir, outra tabela com os aspectos extraídos a partir do segundo texto. Por fim, há
uma tabela em que é possível visualizar uma relação entre os conceitos extraídos dos
dois textos entre si e, destes, com alguns aspectos extraídos a partir do conceito de
sagrado proposto pelos autores visitados.
Assim, a partir da terceira tabela, é possível inferir uma relação de intersecção
entre alguns aspectos do sagrado e os aspectos da corporeidade, segundo os textos em
questão.
Se a criação, a imaginação e o sonho são pressupostos de uma relação com o
sagrado e se ver o invisível remete diretamente a um processo criativo, então, o
discurso da corporeidade propõe inequivocamente que a criação, a imaginação e o
sonho façam parte de uma prática corporal, ao propor que o corpo seja vivido como uma
77
possibilidade de mudança. O corpo que aprende, neste sentido, não é simplesmente um
repetidor de ações.
A necessidade criada, ou alimentada, de um relacionamento com o sagrado pode
surgir a partir da constatação de ausência, da falta, como num momento de crise. O
caminhar em direção ao sagrado ilumina um trajeto em direção a uma superação de
uma determinada condição. Neste processo de superação, há um resgate de
possibilidades de ultrapassar a crise. A superação, para a corporeidade, não é a
eliminação de um adversário, mas a superação dos limites que reduzem a existência,
para que a vida seja vivida em abundância. Não seria possível tratar da busca por um
relacionamento com o sagrado sem aceitar, como pressuposto, a vida. Assim, também,
não é possível, pelo menos nesta nossa existência, tratar da corporeidade sem vida. Por
isso não se aceita, no discurso da corporeidade, nenhum tipo de redução da vida, seja
por exclusão, seja por gênero, seja por racismo, seja por preconceito, pois isto remete a
uma redução da vida em sua totalidade.
Para se alcançar o ideal de um contato com o sagrado, é necessário reaprender
valores, reaprender prioridades, num processo constante de renascer com aquele ideal.
Se o conceito e a prática da corporeidade não necessitassem de constantes re-
visitações, num processo de destruir e reconstruir, retomando seus objetivos, valores,
intenções, esta prática estaria morta e, portanto, não seria corporeidade.
Toda metáfora em relação ao corpo corre o risco, se for tomada como
universalizante, de reduzir sua complexidade. Então, falar em corpo templo, confonme o
item 6 das tabelas a seguir, pode dar a impressão de construção física. Tijolo e
argamassa parecem ser suficientes, mas não é este o sentido do corpo templo.
Primeiro, porque um templo deve ser uma obra de arte, uma criação. Segundo, porque
cada visita ao templo deve marcar uma experiência nova, novos pedidos, novas
gratidões, novas situações. Também porque aquele lugar sagrado representa o caminho
de comunhão com o eterno e com o infinito. Estas justificativas já seriam suficientes
para compreender que corpo templo não é uma redução, mas uma metáfora que reforça
o ideal transcendente no conceito da corporeidade.
Se o rito tem um caráter individual pelo significado para o praticante e pelo motivo
que o leva a estar envolvido naquela atividade, nonmalmente ele ocorre em um meio
78
social, conforme o item 7 das tabelas a seguir. Não seria possível compreender a
totalidade da busca por uma relação com o sagrado se fosse levado em conta apenas o
aspecto individual; tampouco, se fosse considerado apenas o aspecto social. Mesmo
que o social seja uma criação, é neste contexto que ocorre a maioria dos ritos. O corpo
não pode ser entendido, completamente, se estiver isolado, este modelo de busca pela
compreensão do corpo já está evidente como insuficiente e parcial.
O corpo é lugar de encontro, conforme o item 8 das tabelas a seguir, quer seja
consigo mesmo, quer seja com o infinito e eterno, quer seja com o outro. Este encontro
reforça a importância do encontro do sentido da vida, pois não seria possível
estabelecer sentido para a existência no isolamento.
Por fim, uma vida plena, como propõe o discurso da corporeidade, é uma vida
vivida sem reduções, sem recortes, sem limitações. E, pelo reencontro da complexidade
humana, incluindo aqui a relação com o sagrado, é possível tratar do viver em
abundância, pressupondo-se a liberdade do corpo.
Estabelecer estas linhas de convergência entre os aspectos do sagrado e da
corporeidade, apenas fará sentido se os profissionais da corporeidade conseguirem
estabelecer uma prática que inclua estas perspectivas em suas práticas, rejeitando os
atalhos que propõem o controle e a redução do corpo num processo de captura.
5.5.1
Aspectos da corporeidade a partir dos textos
Apresentamos, a seguir, alguns aspectos que se mostram relevantes ao
estudarmos o tema Corporeidade, a partir dos textos considerados na análise e a partir
dos valores estabelecidos pelo sagrado. Ao mesmo tempo em que estes aspectos
apresentam um caminho de dualidades, também apresentam uma perspectiva de
complexidade. Podemos ver a dualidade, por exemplo, em trechos que reforçam a idéia
de que, para entender o corpo, precisamos identificar o dentro e o fora do corpo, como
sendo o individual e o social, e podemos identificar a complexidade com base em textos
I
79
que identificam o mistério, o infinito e a incerteza como componentes do todo corporaL
Propomos, inicialmente, então, a tabela 1, onde identificamos os Aspectos da
Corporeidade extraídos do texto Perspectivas na visão da corporeidade (T -1). A seguir,
está a tabela 2, com os Aspectos da Corporeidade extraídos do texto Consciência
corporal e dimensionamento do futuro (T-Il) e, por fim, a tabela 3, na qual retomamos os
aspectos da corporeidade a partir dos dois textos analisados, juntamente com os
aspectos do sagrado, extraídos do conceito de sagrado apresentado previamente. O
número indicado entre parêntesis na coluna Aspectos da Corporeidade, indica a
unidade de significado extraída do texto, a partir do qual, no processo de análise,
constituímos tais aspectos.
80
Tabela 1- Aspectos da Corporeidade a partir de T-1
N° Aspectos da Corporeidade a partir de T-I
01 o corpo, como possibilidade de mudança, é um corpo que cria, que imagina, que inventa, que
sonha (25/26).
02 há a necessidade de superar o modelo corpo-máquina, corpo-resultado (7!25).
03 perceber o corpo é perceber a vida vivida (3/5/13!23!24!29).
04 há a necessidade de se rever o conceito de corpo, ao compreender a corporeidade, para propor
alternativas (20).
05 Corpo não é conslituído exclusivamente pelo que vem de fora, nem exclusivamente pelo que
vem de dentro, não é apenas attar ou, em relação de exclusão, apenas oferta (27).
06 o templo não é uma simples construção, é uma obra de arte que se faz de acesso ao sagrado
(28).
07 ao questionar o significado do corpo, identifica-se o dentro e o fora, o individual e o social (4).
08 o corpo é o local de encontro, de prazer, de alegria (26).
09 questionar o corpo é ver o invisível, aceitar o mistério, a incerteza como componente da
existência (22!24).
10 entender a corporeidade é encontrar um sentido à vida, superando o modelo corpo-máquina
(18/6).
11 o corpo pressupõe vida e, para não reduzi-lo, é necessário ver a vida em abundância (23/29).
12 vida abundante é vida livre; livre para escolher o que acompanhará o conceito de corporeidade
(21).
81
Ta bela 2 - Aspectos da Corporeidade a partir de T- li
N° Aspectos da Corporeidade a partir de T- 11
01 é preciso retomar um longo diálogo de aprendizagem com o corpo, ver sua disposição em
superar como parte do processo criativo; o lugar do devir (13).
02 a esperança de um trato mais humanizado em relação ao corpo, é a esperança da superação
de um modelo reducionista de corpo (1 0/17).
03 Toda atitude é corporal e corpo pressupõe vida (2/18).
04 a visão da corporeidade é uma visão que retoma a totalidade humana. O renascimento da
complexidade e totalidade humana (12/14).
05 o corpo consciente é o corpo com intenção, onde sacrifício não significa um rtto repetitivo e
involuntário (11/15).
06 o reconhecimento de um corpo espilitualizado é a identificação do corpo como caminho de
transcendência (19/20/21).
07 o corpo em atividade física não é o corpo esquecido de si e envolto pela sociedade, mas é o
individual, o corpo sujetto (22).
08 o corpo deve abrir espaço não apenas pera encontro, mas para um reencontro com o
espirttual (12/14).
09 o corpo é problema e mistério. o corpo é o primeiro e o mais fundamental mistério (4/6).
1 o se defrontar com o corpo e decidir seguir o caminho da complexidade, é ver sentido na
exitência (8/18/20).
11 é pelo reencontro da espirttualidade no humano que se identifica a possibilidade de um viver
abundante (19).
12 a prática da corporeidade requer uma prática que transponha os limites das repetições e que
esteja aberta à liberdade (21/24/25).
A partir da compreensão da relação dos textos anteriormente citados (T-1 e T-11),
da identificação dos aspectos que configuram a corporeidade nestes textos, e dos
aspectos que constroem o conceito de sagrado, encontramos, entre os valores
imanentes à corporeidade, o renascimento de valores transcendentes, que remetem o
82
corpo a uma realidade que não está condicionada aos limites de tempo e do espaço da
existência. Estes valores transcendentes que se mostram bem presentes no trato com o
sagrado, revelam-se indispensáveis ao se estudar o corpo de forma não dicotômica.
Não se pode aceitar o corpo por esta perspectiva, como se fosse apenas um ser social
ou apenas um ser cognitivo. Somos, também, seres emocionais e espirituais. A tabela 3
nos permite identificar a proximidade entre os aspectos que compõem o conceito de
Sagrado com os aspectos que compõem a corporeidade a partir dos textos analisados.
Desta proximidade podemos concluir este trabalho, tratando do discurso da
corporeidade e do renascimento do sagrado.
01
02
83
Tabela 3 ;_Aspectos do Sagrado em Relação às Tabelas de
Aspectos da Corporeidade a partir de T- I e de T- li
Aspectos do 1 Aspectos da Corporeidade a partir de T-1 Aspectos da Corporeidade a partir de T-Il
Sagrado
CRIAR
IMAGINAR
SUPERAR
VENCER
O corpo, como possibilidade de mudança, é um
corpo que cria, que imagina, que inventa, que
sonha (25126).
há a necessidade de superar o modelo corpo-
máquina, (7125).
E preciso retomar um longo diálogo de
aprendizagem com o corpo, ver sua disposição em
superar como parte do processo criativo; o lugar do
devir (13).
a esperança de um trato mais humanizado em
relação ao corpo, é a esperança da superação de
um modelo reducionista de corpo (10/17).
perceber o corpo é perceber a vida vivida toda amude é corporal e corpo pressupõe vida
(3/5/13123124129). (2/18).
03 VIDA
04
05
06
07
08
09
10
11
12
RENASCER
RECOMEÇAR
CORPO ALTAR
CORPO OFERTA
CORPO TEMPLO
LUGAR
SAGRADO
INDIVIDUAL
SOCIAL
FESTAS
RELIGIOSAS
ENCONTROS
MISTERIO
SENTIDO
VIDA
ABUNDÂNCIA
LIBERDADE
DA
hã a necessidade de se rever o conceito de
corpo, ao compreender a corporeidade, para
propor alternativas (20).
corpo não é constituído exclusivamente pelo que
vem de fora, nem exclusivamente pelo que vem
de dentro, não é apenas altar ou, em relação de
exclusão, apenas oferta (27).
o templo não é uma simples construção, é uma
obra de arte que se faz de acesso ao sagrado
(28).
ao questionar o significado do corpo, identifica-
se o dentro e o fora, o individual e o social (4).
o corpo é o local de encontro, de prazer, de
alegria (26).
questionar o corpo é ver o invisível, aceitar o
mistério, a incerteza como componente da
existência (22124).
entender a corporeidade é encontrar um sentido
à vida, superando o modelo corpo-máquina
(18/6),
o corpo pressupõe vida e para não reduzi-lo, é
necessário ver a vida em abundância (23129).
vida abundante é vida livre; livre para escolher o
que acompanhará o conceito de corporeidade
(21 ),
a visão da corporeidade é uma visão que retoma a
totalidade humana. O renascimento da
complexidade e totalidade humana (12/14).
o corpo consciente é o corpo com intenção, onde
saclificio não significa um rito repetitivo e
involuntário (11/15).
o reconhecimento de um corpo espiritualizado é a
identificação do corpo como caminho de
transcendência (19/20121 ).
o corpo em atividade fisica não é o corpo esquecido
de si e envotto pela sociedade, mas é o individual, o
corpo sujetto (22).
o corpo deve abrir espaço não apenas para
encontro, mas para um reencontro com o espiritual
(12/14).
o corpo é problema e mistério. o corpo é o primeiro
e o mais fundamental mistério (4/6).
se defrontar com o corpo e decidir seguir o caminho
da complexidade, é ver sentido na existência
(8/18120).
é pelo reencontro da espirttualidade no humano que
se identifica a possibilidade de um viver abundante
(19).
a prática da corporeidade requer uma prática que
transponha os limttes das repetições e que esteja
aberta à liberdade (21124125).
84
I
5.6
1
O Discurso da Corporeidade e o Renascimento do
Sagrado
Dentro do contexto da Educação Física contemporânea, é possível identificar
uma tendência que tem contemplado e participado da construção de um aumento de
freqüência e de intensidade do discurso sobre corporeidade, no qual a responsabilidade
do conceito não está circunscrita a uma teoria, mas alcança, explicitamente, a prática. A
corporeidade não pretende falar e propor o fato de ser corpo como uma experiência
para ser controlada e determinada pelo interesse de outras pessoas ou instituições, mas
como experiência que resista à intenção de captura como fonma de estar no mundo,
como território sem fronteiras e aberto à possibilidade do infinito.
Compreender a abrangência deste conceito tem se mostrado relevante na
fonmação, na reciclagem e na contratação de profissionais de Educação Física. A
prática e a construção teórica não devem apontar na direção de apenas uma das
possibilidades do ser humano, pois uma perspectiva unidirecional exclui a pluralidade
requerida para que se compreenda o corpo completamente. Assim, a Educação Física,
hoje, apresenta uma tendência, num sentido de resistência, de propor uma prática não
reducionista de corpo.
Se a Educação Física pretende tratar de corpo superando sua limitada
materialidade, aceitando que o impossível começa a fazer parte da realidade quando é
sonhado, imaginado, criado, parece evidente que começa a abrir a perspectiva de
compreender o corpo como tendo sentimentos e carregando os sentimentos e sonhos
em todas as suas ações. "A recusa em reduzir a vida à articulação dos fenômenos
metabólicos de natureza físico-química reabilita a alma como lugar do indizível e do
inexplicável." (CUNHA, 1999, p. 63).
Sinto-me instigado, por provocações conceituais como esta última, a tentar
compreender um pouco mais a abrangência do conceito de corporeidade. Neste
sentido, tenho direcionado meu percurso acadêmico a fim de localizar o lugar do
85
indizível e aceitar o que seja inexplicável na constituição de uma visão não reducionista
de corpo.
A busca por uma relação com o sagrado, o etemo e o infinito, mostra-se evidente
nesta perspectiva. Ao olhar para o perfeito virtual, busco a realização concreta como
perfeição e, ao olhar para o transcendente, consigo superar os limites desta existência.
Se a nova ordem mundial me provoca a repartir a responsabilidade social, se, na escola,
não pretendo formar repetidores de gestos, se pretendo romper com as injustiças, se é
possível falar em pedagogia do amor, tudo isto é reforçado pela intenção em romper
com os limites das dimensões desta existência e ousar olhar e contemplar o sagrado.
Então, corpo e sagrado não são conceitos distantes. Pelo contrário, tentou-se
criar uma distância entre os dois conceitos, mas, ao retomarmos o que seja a totalidade
da existência, possível pela corporeidade, reencontramos a possibilidade da busca pelo
atemo e infinito, num renascer do sagrado, através da corporeidade, materializada em
seus discursos.
"A religiosidade, isto é, a abertura ao mistério e ao infinito faz parte integrante da
própria natureza humana." (JANA, 1995, p. 170). Se até aqui a relação entre
corporeidade e sagrado parece não estar carregada pela possibilidade de uma leitura
enviesada, o conceito de religiosidade, enquanto uma institucionalízação de aspectos
inerentes ao ser humano parece macular a beleza e a simplicidade da relação com o
sagrado.
Se entender como se dá a constituição do conceito de corpo, através da história,
revela-se fundamentalmente importante, igualmente importante é entender o sentido da
instituição, em direção ao corpo, através de seus mecanismos de intervenção, através
da história. Por isso, compreender a articulação entre sociedade soberana, sociedade
disciplinar e sociedade de controle se mostra relevante tanto para distinguir o papel do
corpo visto pela instituição, como território onde ficam evidentes seus limites, como
também pelo próprio corpo, onde então aparecem suas infinitas possibilidades, num
movimento de resistência à captura que se tenta impor.
Se a abertura ao mistério completa a experiência humana e permite a
transcendência, a busca por uma relação com o sagrado, através da instituição, acaba
por delimitar e impor o percurso, criando e controlando os estágios da transcendência,
86
traduzindo o indizível, através de ritos e mitos. Mas se a instituição religiosa tende a ser
lugar de captura, também teria condições de ser seu inverso e abrir um caminho de
novas possibilidades e experiências, mostrando que a essência da religiosidade é o
religamento com o sagrado, sem a necessidade de seguir o caminho de outras
instituições que exercem controle, fazendo assim uma nova leitura do sentido da vida.
Desta fonma, os dois textos propõem enxergar o corpo espiritualizado (T-1-22;
T-11-19/20/21), não para ver uma fumacinha fora da máquina humana, mas para
visualizar o corpo que transcende, criativo e livre. Este corpo espiritualizado exerce um
viver em abundância, sabe o sentido da relação EU-TU e tem consciência de suas
possibilidades para poder exercer sua liberdade e sua potência de resistência. Exercer a
liberdade e a potência de resistência garante ao corpo uma força que não se sujeita ao
controle das instituições. Assim, se a vida pode ser capturada pela força exercida pela
instituição, havendo um conseqüente rompimento na relação com o sagrado, o
renascimento da importância desta relação parece restabelecer o sentido mais
abrangente da complexidade da corporeidade, pois restabelece aquilo que a instituição
pretende, por vezes, roubar.
Compreender a corporeidade desta fonma revela a consciência dos caminhos que
estão diante de nós (T-1-21; T-11-18) enquanto profissionais da corporeidade. Dentre as
possibilidades diante de nossa prática ou assumimos um mecanismo de controle sobre
os outros corpos, estabelecendo um desejo de submissão pelo controle, propondo um
modelo inatingível (T-1-11/19), institucionalizando a alegria e reduzindo o prazer da
atividade física aos limites da ginástica, roubando daquilo que era arte criativa,
espontânea e intencional um prazer natural, ou, então, abrimos a possibilidade de um
renascer conceitual e prático, revendo valores, possibilidades e limites, através do trato
com o próximo, devolvendo-lhe a esperança e a liberdade, colaborando na constituição
de corpos libertos dos efeitos trágicos do reducionismo (T-11-16), dando-lhe a
oportunidade de relacionar-se com o eterno e infinito.
O renascimento do espiritual no humano, possível pela religião, mas não
necessariamente pela instituição religiosa, vai ao encontro da superação dos estreitos
limites a que o corpo ficou submetido. A prática da corporeidade deve caminhar,
portanto, justamente em direção a um resgate desta espiritualidade (T-1-22; T-11-16/20)
87
não poupando ao corpo um viver em abundância (T-1-29). O viver em abundância não é
um viver com o foco exclusivamente no individual, numa relação EU-EU, mas é estar
realizado e completo, consciente da relação EU-TU (TU/eterno; TU/semelhante;
TU/natureza) como condição ao ser mais.
Se há, por um lado, a consciência de que absolutizar o ato de criação é um
grande risco, pois não deveríamos universalizar o particular, impondo submissão a uma
linha de pensamento, a uma metodologia de pesquisa ou a uma prática pedagógica, há,
por outro lado, a plena consciência da urgência de se fazer propagar a idéia de um
renascimento de valores que alcancem o infinito, numa dicotômica relação. Esta relação
aceita a superação como possível e provoca um reencontro do humano com seu sentido
de existência. Este tipo de relação assume a corporeidade em toda a sua abrangência,
a qual inclui relações com o sagrado, com seus pares, consigo mesmo e com a
natureza. Esta relação permite criar um movimento de resistência aos interesses
institucionais, libertando o corpo do controle que sofre em todas as esferas da
sociedade.
Os profissionais da corporeidade devem estar conscientes da importância que o
renascimento do sagrado pode exercer em sua prática profissional. O discurso da
corporeidade é um convincente convite para que este renascer faça parte do conceito
de corpo e das práticas corporais. Esta importância não se resume às alterações no
âmbito do discurso, mas em toda a prática e na conseqüente construção de valores que
acompanha toda a prática. É esta mudança que se faz necessária nas atividades
corporais.
Não precisamos identificar alterações inconseqüentes ou impensadas, mas
precisamos alterar tanto os conceitos, como a prática para construir, através da
Educação Física, um corpo completo. Se a opção por fazer uso da relação com o
sagrado pode nos fazer exercer a existência de forma mais completa, minorando as
diferenças, as exclusões, os preconceitos, as rejeições e as guerras e se substituir tais
atos por compaixão, amor, proximidade, respeito fará de nós seres mais completos, por
que ousaríamos recusar esta possibilidade?
Quando a sociedade clama por valores mais justos e quando o discurso da
corporeidade proclama uma compreensão do ser humano de forma mais completa, a
88
mesma questão parece ser abordada. Inferimos disto que o renascimento do sagrado,
além de estar presente no discurso da corporeidade, mostra-se urgente e relevante
neste início de milênio. Precisamos compreender melhor a abrangência da corporeidade
e também as infinitas possibilidades que a relação com o sagrado pode proporcionar e
assim, oferecer um viver abundante através de nossa prática da corporeidade.
89
6
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Janeiro: Ed. da Gama Filho, 2001.
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ÁNEXOS
INSTRUMENTO PARTICULAR DE LICENÇA DE REPRODUÇÃO DE TEXTO
M. R. CORNACCHIA LIVRARIA E EDITORA LTDA.
Pelo presente instrumento de licença, que entre si fazem M. R.
CORNACCHIA LIVRARIA E EDITORA LTDA, empresa estabelecida na cidade
de Campinas, São Paulo, na Rua Dr. Gabriel Penteado, 253, inscrita
no CNPJ sob n° 48.181754/0001-11, neste ato representada por um
de seus soClos conforme preceitua o Contrato Social, aqui
denominada LICENCIADORA, e de outro lado, LEONARDO TAVARES
MARTINS, brasileiro, residente e domiciliado, na Rua Dois, 56,
Condomínio Seranila - Monte Mor SP, inscrito no CPF sob no
079.642.488-80, aqui denominado LICENCIADA, têm entre si, justo e
acertado o que abaixo segue.
I-
Tendo em vista que a LICENCIADORA é a concessionária dos direitos
autorais das obras EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTES: PERSPECTIVAS PARA
O SÉCULO XXI, coletãnea organizada por WAGNER WEY MOREIRA.
li-
Considerando que a LICENCIADA tem interesse em reproduzir os textos
abaixo indicados, que integra a obra, descrita no inciso I, em língua
portuguesa.
Texto:
• COSNCIÊNCIA CORPORAL E DIMENSIONAMENTO DO FUTURO- JOÃO F. REGIS
DE MORAIS
• PERSPECTIVAS NA VISÃO DA CORPOREIDADE - SILVINO SANTIN, inseridos
na obra EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTES: PERSPECTIVAS PARA O SÉCULO
XXI.
III-
A LICENCIADORA concede a licença para reprodução dos textos supra
mencionados, com as seguintes condições:
a) seja efetuada a referência completa da obra da qual se extraiu o
texto, com todo os dados dos Autores e Editora, ora
LICENCIADORA.
b) que a licença seja utilizada exclusivamente para reprodução dos
texto no anexo a dissertação de mestrado.
c) licença só tem validade no território nacional.
Página 1 de 2
IV-
Fica eleito, desde já, o foro da Comarca de Campinas, Estado de São
Paulo, Brasil para dirimir qualquer controvérsia relativa ao presente
instrumento, que é regido pelas leis brasileiras.
E por estarem justas, acertadas as partes assinam o presente
instrumento, em 2 (duas) vias de igual teor, na presença de 2 (duas)
testemunhas, para a mesma finalidade, ficando desde já autorizado
pelas partes o registro do mesmo perante os órgãos competentes.
Campinas, 04 de junho de 2003

M. R. CORNACCHIA LIVRARIA E EDITORA LTDA
ELIANE CAMARGO CORNACCH!A
..
TAVAREz;:;INS
MESTRANDO
TESTEMUNHAS
Pâgina 2 de 2
2 11ft-R. c r íl Cf\.15TJtJ9 7'i:1x.e:J M
G: /(;: l•)1-
ÁNEXO A
Texto 1: Perspectivas na Visão da Corporeidade
I
I
Capítulo I
PERSPECTIVAS NA VISÃO DA CORPOREIDADE
I. Que cotporeidade?
Silvi110 Salllill
Universidade Federal de Santa Maria
Falar em corporeidade parece simples. Mas que corporeidade?
Sempre que nós podemos expressar alguma coisa através de um tenno ou
de um conceito, pois julgamos ter certe.za do que
se está falando e, ainda, estamos seguros de que os outros nos entendem.
É o que parece estar acontecendo com o tenno corporeidade. Pela
facilidade com que o lenno entrou na linguagem acadêmica, tem-se a
impressão de que ele significa alguma coisa com muita precisão e
clareza, assim como dizemos, por exemplo, a palavra água. Quando
dizemos água, todos pensam a mesma coisa, pelo menos é assim que ha-
bituahncnte se acredita. Portanto, ao ser pronunciado o termo corpotei-
dade, todos acreditam dizer e pensar a mesma realidade.
Essa confiança do dotnfnio sobre o significado objetivoe unfvo-
co de corporcidade nparece quando passamos a definir e a descrever suas
propriedades especificas. Não há dúvidas de que, ao nos referirmos à
água, podemos descrever sua estrutura atõmica e molecular, avaliar suas
qualidades calóricas, definir seus componentes químicos etc. Esse mes:
51
mo procedimento, às vezes, é. transferido com facilidade para outros
conceitos como o de corporeidade. Dessa maneira procura-se estabelecer
seus aspectos filosóficos, sociológicos c psicológicos ou gnmntir os
padrões de nonnalidade ou anonnalidade. Essa transferência será legíti-
ma? Os conceitos de água e corporeidade pertencem à mesma categoria
gramatical? Sem dúvida, Ágúa ê um conceito concreto, um objeto
material concreto. Corporeidade é um conceito abstrato, indica a essência
ou a natureza dos corpos. O dicionário define a corporeidade como
"natureza de corpo" ou "estado corporal".
Fica então, quo os procedimentos de transferência, acima
referidos, não podem ser legítimos. Precisamos, portanto, pensar mais
profundamente o que significa corporeidade. Por isso, a pergunta: que
corporeidade? ·
Como atingir o significado ou os possíveis significados de
co1-porcidade? O hábito de recorrer ao sentido dicionarizado não esclare-
ce muito. As definições dos manuais fomecem-nos os aspectos inteligí-
veis e o domfnio cienlffico da corporeidade. A etimologia mostra-nos sua
raiz latina. Corporeidade é um derivado de corpo que, por sua vez,
significa a parte material dos seres animados ou, também, o organismo
humano, oposto ao espírito, à alma.
É interessante observar que a definição de corpo, quando se trata
de corpo humano, acrescenta de maneira explfcita sua distinção com o
esplrito ou com a alma. A corporeidade, dentro dessa ótica, é entendida
como o oposto da espiritualidade. A corporeidade passa a ser um conceito
que diz respeito a algo material.
A Ungua portuguesa mantém em seu vocabulário a raiz grega
para designar simplesmente os aspectos corporais, como doenças
ticas, ou para mostrar a unidade dos aspectos opostos, como caracteres
psicossomáticos.
Poderíamos, ainda, recorrer às diferentes fonnulações da ques-
tão da corporeidade. pela filosofia contemporânea. Jean Paul Sartre e
Maurice Merléau-Ponty, por exemplo, situam a corporeidade como a
dimensão ontológica da situação do homem como ser no mundo. Hork-
heimer aproveita os recursos da língua alemã e a profunda a compreensão
de corporeidade através da distinção entre corpo flsico- korper- e cor-po
vivo -/eib.
52
I
A análise dos significados de corporeidade constnrldos pela
filosofia e pelas ciências nos mostra a visão do conhecimento racional e
cientifico do co o, o uc nem sempre corresponde à corporeidade yividi
no cotidiano das pessoas. O importante e
corporeidade socializada.
2. A corporeidade e os homens
!., •' I, 1
A compreensão da corporeidade através de conceitos e defini-
ções de manuais precisa ser completada pela observação das imagens de
corpo que se constroem no imaginário social que, em última instância,
são as que determinam a vivência corporal. · · · ·· ·
Muito antes do pensamento lógico-racional e das ciências expe-.
rimentais, o homem fazia a experiência existencial do corpo. Muito antes
dos conceitos e dos conhecimentos científicos de corpo, cada individuo
constJ·ói para si mesmo uma imagem de corpo a partir de sua experiência
pessoal. Ainda hoje, a bem da verdade, a maioria das pessoas não tem
uma compreensão cientffica do próprio corpo, mas possui uma imagem
do corpo elaborada não a partir dos conhecimentos aprendidos na escola
e sim através da maneira de vivê-lo. ·
A experiência corporal aconteceu, e em geral continua aconte-.
cendo, de maneira espontânea sem nenhum concurso das explicações
cientificas. Dificilmente ai uém se er unta sobre o significado do
próprio corpo. Quando as pessoas começam a u trapassar os rmrtes a
mera expenencia corporal e passam a olhar o corpo, esse olhar se dá
dentro da ótica das imagens corporais existentes na ordem social.'!\
imagem de corpo não surge das experiências existenciais da vida pessoal,'
ao contrário, a primeira imagem consciente de corpo que cada um
constrói obedece aos modelos impostos pelos valores culturais vigente5:
' ., .:
Pelo fato de as funções vitais da corporeidade desenvolverem-se
de maneira espontânea não há maior preocupação com.elas, dando-lhes
pouca atenção, a não ser no momento em que aparecem problemas ou
disfunções. Não há,nem mesmo, a preocupação com o regime alimentar;
segue-se, em geral, a orientação dos clichês da propaganda de produtos
das indústrias de alimentação e não das necessidades de nutrição do
organismo.
É nsslm ue o homem cresce, vivendo o cor 10 distraidamente.
Sun ntcnçiio, desde multo cedo,.:é ntraf n, cstunu nc n e < tl'lgt< a pam o
desenvolvimento da Pouco se sabe sobre a maneira de
cultivar o corpo, tanto que a Educação Física quase não existe para as
instituições pré-escolares e, também pam as primeiras
sél'ies do primeiro grau. Desde quando as atividades recreativas são
sinônimo de Educação Física? E será mesmo que a inicia\'lio esportiva c
as pt·ótlcns esportivas gnrnntcm n Educnçiio Píslcn?
. Quando acontece o despertar da sexualidade as coisas ficam
nlndn mnls compllcndns. Os c<iucadot·os cntrnm em pnnlco ou preferem
desconhecer. O adolesceiJte é entregue a sua própria sorte ou fica à mercê
daqueles que, provavelmente, tiveram as mais desastradas e desvirtuadas
experiências de sexualidade. Resta a esperança de que, um dia qualquer,
a Educação Física seja compreendida como a cultura corporal.
Nomomentodedesenvolvera inteligê11cia, aí sim são conceiJtra-
dos todos os esforços, conduzidos por uma parafernália de métodos e
recursos didáticos com o objetivo de garantir o pleno desenvolvimento
meHial. Agora sim, a Educação Ffsica e até o esporte são lembrados não
propriamente pata cultivar o corpo, mas para assegurai· um desempenho
corp01·al que favot·cça o apt·endizado decontet'tdos intelectuais, dcntt·o do
espírito do velho ditado: mens sana in corpore sano.
Esses fatos são lembrados com a intenção de mostrar como o
homem espiritualizado e intelectualizado pouco valor atribui nos pdnci-
pios da corporeidade. Foi nesse contexto cultural que o imaginário social
estabeleceu uma imagem de corporeidade inspiradora de sua vivência
corporal. Não se pode esquecer que foi dentro dessa atmosfera raciona-
lizada que a Educação Física e os esportes foram pensados e
Imensa, fascinante e assustadora é a galeria dos perfis corporais
dos pela humanidade e atestados pela história das culturas. Em todos
esses perfis corporais aparecem claramente os traços de uma corporeida-
de submissa, disciplinada, desprezada, por vezes até abjeta. As dimen-
sões corporais não passam de uma categoria de valores secundários na,
_ylda humana. A Educação Física prestou-se para garantir essa inferiori-
dadecorpórea em nossa tradição antropológica que,no fundo, é a história
da alina, da consciência ou da razão, nunca a história dos corpos. O
próprio esporte, apresentado como a exaltação do corpo, tot·tm-sc, na
'i4
maioria das vezes, uma cínica e sádica exploração de forças e de sua
vitalidade.
A imagem da cotporeidade de nossa cultura racionalizada,
.cientificizada e industrializada em nada garante o cultivo do corpo; ao
. contrário, o reduz a um objeto de uso, um utensílio, uma ferramenta a ser
usada segundo a vontade de cada um ou, o que é pior, confonne os
mtcresscs cconunucos, polfllcos e ideológicos de outros grupos. .·,
Está na hora de perguntar: que compreensão de corporeldade
deveria orientar os exercfcios da Educação Física e fundamentar as
nossas atividades cspot'tivas? De que maneira seria possível estabelecer
tllna imagem de corporeidade capaz de cultivar corpos humanos?
3. Epistemologia e corporeidade
Foi com o surgimento do pensamento racional que a humanidac
de estabeleceu a exigência do conhecimento intelectivo da realidade
como base de sua ação prática.
É interessante observar que o pensamento lógico-racional não
tem o compromisso inocente com a busca da verdade, como se pensa; ele
se constitui no fundamento e na justificação de uma ordem social, onde
a inteligência, ou a mente, era o valor supremo. Nessa ordem social, o
homem dotado do saber i11telectual é o que se torna o verdadeiro homem
e, por decorrência, deveria também exercer o poder. Tudo ficou estabe-
lecido a partir daquilo que posterionnente chamou-se de verdade cientí-
fica. O saber construido pelo corpo não merece confiança. Os sentidos ":
a sensibilidade são enganadores. O conhecimento da experiência existen-
cial ou, como diríamos hoje, o conhecimento popular, não tem o
da cientificidade oficial.
As ciências modernas vieram fortalecer a ideologia da raciona':'
!idade. Pela ciência atinge-se ou constrói-se o conhecimento objetivo,
seguro e o único verdadeiro da realidade. A ciência seria construída
os fatos, os objetos, o tnundo. Suas descobertas são as leis que resultam
dos experimentos desenvolvidos com métodos seguros e eficazes, por-
que mensuráveis e demonstráveis.
Realmente depois da revolução copernicana foi inaugurado o
ponto de pat·tida obrigalól'io a toda epistemologia que pretenda ser
científica. O fato representou uma mudança radical no processo de
produção do saber, o que nillfluém contesta. Mas, desde a metade do
século passado, começaram a· surgir fortes questionamentos devido a
esse processo único e monopolizndor de cientiftcidade.
Acontece que a moderna começou tendo como modelo a
física, cujo objeto é o fato físico. Toda metodologia da ciência revoluci;,-
nária foi elaborada para explicar os fatos físicos. O mundo, porém, não
se reduz a fntos ffsiéos. Há utna infinidade de fenômenos que ulu·apassatn
a esfera daffsica. Pode-se fa.lar, além do conjunto dos fatos físicos, em
outros dois grandes conjuntos: o dos fatos biológicos e o dos fatos
humanos. Ainda, dentro desses três grandes conjuntos, pode-se identifi-
car séries ilimitadas de subconjuntos que, devido a sua especificidade,
dificilmente submetem-se ao mesmo tratamento homogeneizante.
Inicialmente tal problema não foi levado em consideração ou,
talvez, fingiu-se que ele não existia. Coube a Dillhey apontare esclarecer
a razão dos problemas iniciando a divisão entre ciências naturais e
ciências humanas. Hoje, essa distinção é aceita por todos, embora não
tenha resolvido o problema,já que os modelos positivistas das ciências
exatas continuam prescJJtes e ·ativos, dctenninando os rumos das ciências
l•utnnttns. Acl'cditn-scquc,scttl eles, ns ciêt1cius lttUJJatms ficattl sc111 rigor
e objetividade.
Essa situação torna-se dramática quando queremos estudar o
corpo humano, já que facilmente ele pode ser reduzido a seus aspectos
físiCos ou quantitativos. Na explicação cientffica do corpo humano há
pouca consideração com os aspectos vivos e biológicos. Quando se trata
dos aspectos especificamente humanos, a situação fica muito mais
complexa. Os conhecimentos científicos do corpo, todos sabem, 'estão
vinculados preponderantemente à ffsica, à mecânica e à fisiologia. Os
.estudos de anatomia comprovam essas perspectivas pelo fato de serem
realizados em cadáveres. Procedimentos já denunciados por Gocthe e,
em especial por Vesale na sua famosa tentativa de realizar a anatomia
num homem vivo, já que a vida seria fundamental para se obter o
conhecimento verdadeiro do corpo humano. Um cadáver jamais poderia
garantiruma cÓmpreensão completa, pois está de seu elemen-
to principal: a vida. A única coisa que se pode apreender de um corpo
morto são suas peças e suas funções mecânicas.
Muitos outros pontos podem ser questionados sobre o tratamento
do corpo humano dispensado pelas pesquisas científicas. Vamos obser-
var apenas o tipo de relacionamento que se estabelece entre o corpo
humano e as atitudes da racionalidade e da cientificidade. . . ·
Etn nenhum momento da história do conhecimento racional
houve preocupação em definir o corpo humano a partir do próprio corpo.
O pensamento filosófico grego partia da psyquíl para chegar à realidade
corpórea. O corpo era sempre entendido como o oposto da psyqué.
Sempre que se buscava uma definição do corpo- ocorre ainda hoje-
acrescentava-se o dado de que ele é o oposto da alma. Portanto, será
preciso saber o que é alma ou a psyqué para se poder saber o que é o corpo.
As ciências modernas também não se preocuparam diretamente
com o corpo, preferiram transferir para o homem os resultados obttdos
em estudos. desenvolvidos nos animais. A medicina e, em especial, a
produção de medicamentos mostram claramente que o corpo humano é
visualizado dentro dos princfpios da quhnica. O corpo humano não passa
de uma máquina com reações qufmicas.
A Educação Física recebe uma profunda inspiração dessa manei-
ra de pensar o corpo humano. A medida que a Educação Física utiliza os
conhccitnenlos da l>ioquhnicn c da Uiomccânicu com o objetivo de
melhorar o rendimento de um atleta, involuntariamente, ela abre espaço
para o uso, quando não o abuso, de drogas quhnicas, como os anaboHzan-
tcs.
Pode-se aceitar que o universo seja uma grande máquina cujo
funcionamento possa ser descrito pela linguagem matemática, mas que
a dinâmica dos seres vivos c, de modo tnuito patticufar, os mistérios da
vida humana possam ser tratados da mesma maneira, torna-se muito
diffcil de ser admitido, caso se queira preservar o fator humano.
As ciências não podem ser desprezadas, também não podem ser
aceitas como o passo mais avançado do desenvolvimento do saber
humano, muito tnenos podem ser estabelecidas como o único saber,
capaz de explicar todos os problemas e toda a realidade. Os movimentos
alternativos, fundamentados e inspirados nas perspectivas da· ecologia
estão a exigir uma revisão de nosso modelo positivista de produção do
conhecimento, não só quando se trata do ser humano, mas também em
relação a todo o universo.
Resta-nos perguntar: existem alten1a'tivas possíveis? Onde en-
contrá-las?
4. Estética e corporeidade
As ciências são consth.içÕeS humanas. Elas não são exatamente
a reprodução da realidade. Além disso as ciências são um fato social
como o Estado, a Religião, e são instituições muito recentes. Observando
esses dados, duas coisas podem ser consideradas. A primeira diz respeito
à validade da cjência. A segunda refere-se ao monopólio do conhecimen-
to clentffico. O primeiro ponto não vamos abordar por ser muito longo e
complexo. É o segundo ponto que nos interessa nesse momento, e
precisamos questioná-lo. A história das ciências mostm-nos que as
alternativas de desenvolvimento da inteligência humana estão presentes
desde o início do pensamento racional. Portanto, privilegiar a ciência é
uma atitude não muito científica, mas profundamente ideológica e
política.
O pensamento lógico-racional conduziu a mente humana à
matematização e à geometrização do universo como a fom1a de
explicar a realidade. Tal procedimento, entretanto, não .foi pacífico,
uuncn foi pncffico. Scmp1·e, a seu laclo, houve outm maneira de pensar
que, sob muitos aspectos, pode ser considerada como seu oposto.
· Essa outra maneira de pensar, que não segue os principias da
lógica racional, pode ser exposta aqui em dois O
momento consiste em ver o universo como uma hannoma mus1cal. 1 ai
atitude, para os homens das ciências, da técnica e da infonnática, parecerá
um dellrio, ou como querem alguns críticos, uma ficção absurda e
fantástica (Gomperz, 1967: 181). .
A visão hannônica do mundo tem seu começo desde os pré-
socráticos, cotn a escola pitagórica. Ela sustentou-se penosamente no
meio das ptf'.Ssões avassnladoras do poderio das modernas .
hoje, surpreendentemente reencontra um novo alento ale entre. os pm-
prios cientistas. Não é possível aqui a evolução da v1sa? que
interpreta o universo como um grande espetaculo ou concerto
e melodias. Somente é possível lembrar alguns momentos slgmfl-
cativos, com
0
objetivo de sustentar a tese de que nela estaria uma das
alternativas viáveis para o homem construir um saber capaz de com-
preendcr a realidade e de definir suas relações com o mesmo de maneira
plenamente válida.
Foram os pitagóricos que começaram a sustentar a doutrina
conhecida como a hannonia das esferas celestes. Esses filósofos coloca-
ram o ponto de partida da hannonia da esfera nos princípios da acústica
· e das relações A essas relações atribulam os caracteres da
simplicidade, da simetria c da hannonia. Os números, para eles, serviam
para garantir a audição da musicalidade dos corpos celestes, porque há
uma relação matemática entre os sons hannoniosos e as cordas vibrantes.
Assim, deve haver, segundo os pitagóricos, uma relação musical entre o
movimento dos astros e a sonoridade produzida por esses movimentos
possível de ser expressa matematicamente. Era assim que eles
viam o céu, como sendo todo número e hannonia, dizia Aristóteles
(Gomperz- Op. cit. V oi. I, pp. 181-184).
Essa consideração dos acordes musicais, principio básico da
doutrina pilagórica sobre o mundo, diz Leon Robin, propiciou-lhes a
oportunidade de descobri r e cst udar as proporções aritméticas, geotnétri·
case hannônicas. Sempre lembrando que os números não são reduzidos
às dimensões quantitativas, como querem os cientistas positivistas, tnas
eles são tntnbém, e cspeciahncntc, explicativos. O espírito da ciência
atual é absolutaJnclltc oposto ao método pitagótico. O número é tnera
simbologia quantitativa, sem nenhum valor explicativo. Foi no contexto
dessa astronomia musical, entretanto, que Aristarco, já no século III a.C.,
e pela primeira vez, conseguiu tornar-se o precursor da teoria heliocên-
trica, somente retomada em definitivo no século XVI da era cristã por
Copémico e Galileu. Deve-se, também, ao pitagórico Alcmeon, sempre
na era pré-cristã, baseandowse na compreensão musical do universo, a
primeira dissecação de cadáveres através da qual chegou à conclusão de
que o coração não é o órgão central do corpo humano, mas sim o cérebro.
(Robin, 1961: 74-85 e Gompcrz- Op. cit. V oi. I, p. 184) ..
A colnptecnsílo do mundo como uma harmonia musical não
ficou restrita aos pitagóricos. O físicoKeplcr, contemporâneo de Galileu,
foi um dos que tentaram mostrar que o universo é um grande concerto
musical em sua obra A harmonia do mundo. A visão matematizante e
geometrizante de Galileu venceu. Ela é muito mais eficaz e produtiva. A
proposta de Kcplcr não passava de ficção poética.
59
Atualmente essa mesma percepção da hannonia musical foi
invocada por um grupo de neurologistas para explicitar a sincronização
dos neurônios distantes. Wolf Singer, que lidera 15 cientistas no Instituto
. Max Planck de Pesquisa Cerebral, de Frankfurt, disse: "Na medida em
que as oscilações não são ·intyiraqtente regulares, elas são melhor
descritas como um cantarolar. Pensei que, se encontramos estruturas de
resposta rítmica, então talvez existisse a chance d.e 'que neurô1:ios
distantes entre si sincronizassem as respectivas melodias, para com Isso·
estabelecer a ligação entre sinais". (Folha de São Paulo. Cademo de
Ciência, p. 6, 24/05/91)
A doutrina da hannonia das esferas e da compreensão musical do
mundo está intimamente vinculada ao sentimento estético, que se cons-
titui no segundo momento da maneira de pensar oposta às geometriza-
ções e matematizações do universo.
Abraham Moles, referindo-se aos pitagóricos e à obra de Kepler,
garante que o método estético nas ciências e particularn;ente na astrono-
mia exerceu importante função. E isso não pode ser atnbuído a eventos
fortuitos mas ao mérito do método. Louis de Broglie, por sua vez,
' . '.
afirmou que é um falo curioso-mas inegável-que o senfllncnto eslcllco
serve sempre de guia na elaboração das teorias da nova filosofia.
centa: "Parece-me certo que o trabalho teórico é muitas vezes onentado
e guiado pelo sentimento estético". Já Einstein pensa o e afinna
que
0
senso estético não desempenha papel algum na constlltllçao de uma
teoria. A. Moles pensa que o sentimento estético, aplicado como motor
e como guia na organização dos fatos e dos conceitos. em todo
coerente, toma um aspecto místico cuja expressão e mfluencla no
domínio artístico conhecemos bem. (Moles, 1971: 146-148).
Os gregos sempre cultivaram as questões. de estética para
eles constituíam uma pal'lc fundamental da filosofia, ao lado da ct Ica, da
pollfica, da metaflsica. Hoje o conceito de estética está empobre-
cido e reduzido às fonnas exteriores de um corpo. Toma-se uuportantc
resgatar sua riqueza semântica, caso queiramos abrir que
n EducnçiíoFískn e os esportes no futuro nl encontremmsp1raçao c nova
conipreensão.
O termo eslética compõe-se de duas raízes etimológicas: U1.n? é
"aisth" que significa sensação, sentir; a outra é "elos" que s1gmf1ca
60
t
I costume, moral. Portanto, pode-se dizer que estética significa a moral ou
o costume da sensação e do sentimento. Emmanuel Kant no século XVIII
retoma as questões de estética. No sistema kantiano, estética é umjufzo
que considera as fonnas das coisas de maneira a tirar um sentimento de
prazer, destituído de fim e de utilidade. Essa compreensão de estética é
retomada por Friedrich Schiller em sua obra Cartas para a educação
estética do homem.
Será exatamente através de Schiller que poderemos recuperar a
riqueza simbólica do tenno estética. Para isso, nada melhor que ouvir
suas próprias palavras: "Para lcitorcsqucniiocsfcjnm fomiliorizodos com
a significação desse tenno tão mal-empregado pela ignorância, sirva de
explicação o seguinte. Todas as coisas que de algum modo possam
ocorrer no fenômeno são pensáveis sob quatro relações diferentes. Uma
coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa
existência e bem-estar): essa é sua índole física. Ela pode, também,
referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos conhecimento: essa
é a sua índole lógica. Ela pode, ainda, referir-se a nossa vontade e ser
considerada como objeto de escolha para ser racional: essa é a sua índole
moral. Ou, finalmente, ela pode referir-se ao lodo de nossos diversas
faculdades sem ser objetodetem1inado para nenhuma isolada dentre elas:
essa é a sua índole estética. Um homem pode ser-nos agradável por sua
solicitude; pode, pelo diálogo, dar-nos o que pensar; pode incutir respeito
por seu caráter; enfim, independente disso e sem que tomemos em
consideração alguma lei ou fim, ele pode aprazer-nos na mera contempla-
ção e apenas por seu modo de aparecer. Nessa última qualidade, julgamo-
lo esteticamente. Existe, assim, uma educação para a saúde, uma educa-
ção do pensamento, uma educação para a moralidade, uma educação para
o gosto e a beleza. Essa tem por fim desenvolver em máxima hannonia
o todo ele nossas fnculdadcsscnslvcis ccspiritunis". E SciJillct acrescenta
ainda, como explicação complementar, que "a mente no estado estético,
embora livre, e livre no mais alto grau, de qualquer coerção, de modo
algum age livre de leis e acrescento que a liberdade estética se distingue
da necessidade lógica do pensamento e da necessidade moral no querer",
(Schiller, 1990: 107). · · ' ' · '
Continuando no pensamento de Schiller, ele diz ser preciso que
fique claro que o impulso sensível (estético) precede o racional 11a
atuação, pois a sensação precede a consciência e nessa prioridade do
impulso sensível encontramos a chave do toda a história da liberdade
humatia. (Op. cit., p. 104). Acontece que o impulso sensível desperta com
a experiência da vida e o raciOnal com a experiência da lei, por isto,
segundo Schiller, a humanidade do homem não se dá com a racionalida-
de, mas com a descoberta isso é, dos valores estéticos.
A partir desse momento cot1cluir que o homem, co1'no
o tnundo, pode ser visto como harmonia com base no impulso estético e
nos sentimentos de beleza. Sua realização é viver na liberdade gerada
pela perfeição estética. O homem pode, ao contrário, ser visto, e foi o que
sempre um mecanismo detenninado por princípios e leis
da ffsica e da meCânica. Sua realizaçãO é ocupar, como uma engrenagcln,
o lugar que lhe foi detenninado no conjunto da grande máquina que é o
uniyerso. Seu suprémo ideal é atingir o máxhuo rendimento c a máxima
eficiência.
A Educação Fisica está diante dcssns duas altcnwtivas. Ou
aperfeiçoa as técnicas do rendimento ou se arrisca pelos valores da
cslélicn. A vai genw collscqiiêncins dife1·entr:s, senão opostas.
5. Educação Ffsica, esportes e corporeidade
Duas grandes áreas estão diretamente vinculadns às questões da
corporeidade por seu compromisso com a manipulação dos corpos
humanos. A pri1ncira dcssns gmndcs áreas é formacln pelas ciêncins dn
saúde c por todas as instituições ou atividades institucionalizadas com o
objetivo de tratar o ser humano doente. A segunda é constitufda pelo
conjunto de atividades que engloba a Educação Ffsica e por todas as
práticas esportivas.
As ciênciaS da saúde e as práticas médicns sempre reivindicaram
o direito de serem as únicas a poder atuar e intervir nos cmpos doentes.
Nessa área, ainda não se percebe uma maior prcocu()ação em quesüonal'
a compreensão da cotporeidade que fundamenta as iniciativas curativas
e mesmo preventivas no contexto das relações saüde e doença. Os
problemas mais graves dizem respeito, atualmente, ao avanço da chama-
da medicina estética c, de modo muito mais significativo, do aumento das
práticas dos transplantes. Todos esses temas estão exigindo uma revisão
dos conceitos de corporcidade, mas parece que tudo continua tranqüilo
62
as velhas teses antropológicas do passado. O corpo é um
snnples.mecanismo que sofre avarias, que pode ser recuperado quando
houver mteresses econômicos ou politicos. A grande maioria das popu-
lações carentes continua fora dos esquemas da corporeidade com direito
à vida saudável.
As instituições médicas continuam mantendo mn poder absoluto
sobre a saúde e a doença, sobre a vida e a morte dos corpos. Mas esse
poder. continua de que existem doenças somáticas e doenças
contmua ll1sp1rado na mentalidade de que na ponta de um
b1stun nunca foi possível espetar uma alma, uma inteligência ou uma
razão. O corpo não passa desse objeto postado submissatnellte diante do
médico- cientista e juiz- ou um resultado de exames laboratoriais. Não
se vê um corpo vivo, de pessoas. Assim, a bioquímica constituiu-se no
carro chefe dos conhecimentos e dos produtos usados para restaurar os
corp?s c doentes. A corporcidadc da bioquímica esgota-se
nos lmutes de um corpo físico, doente ou sadio. A doença e a vida nunca
s?o percebidas dentro da dinâmica da afetividade, no contexto das
slhla\'Út•s e cullul'ais.
. A Educação Ffsica c os esportes delêtn a outm fatia do poder de
ag1r sobre os corpos. A Educação Física não classifica os corpos com
critérios de doença ou saúde, mas dentro da ótica da aptidão e da
capacidade para a prática dedctemJinados exercícios. Assim, a Educação
Física age sobre o co1·po em nome do princípio da utilidade. Ela pensa no
uso do corpo. Atualmente esse uso esta quase cxclusivmnente voltado
para as práticas esportivas.
Numa observação, ainda que supe1ficial, pode-se perceber que a
Educação Física, tanto quanto a medicina, mantém-se presa a uma
compreensão de corporeidade muito limitada ao coq>O fisico. Dificil-
mente vê-se a corporeidade vinculada às questões de ordem social,
politica, econômica, ideológica, religiosa ou cultural. Os corpos ficam
enclausurados nos horizootes estreitos de uma corporcidadc colocada, às
vezes, como o oposto do espiritual, outras vezes restrita ao individual e,
na tnalotJa dos casos, amarrada aos padrões das ciências experimentais.
Por isso não é de se estranhar que existam pessoas que acreditam que os
modelos da cientificidade modema sejam ainda capazes de resolver os
problemas da Educação Física.
63
Diante desse quadro podemos traçar, ainda que um esboço
rudimentar, dois grandes painéis onde facilmente são observadas as
linhas básicas de duas imagens de corporeidade humana.
5.1. Uma corporcidade disciplinada
A corporcidade disciplinada é a conseqüência imediata da
compreensão do corpo como parte secundária do ser humano, ou seja, a
parte que deve ser sacrificada em função dos ideais verdadeiramente
humanos da humanidade, seja em relação aos indivíduos, seja em relação
à coletividade. Para que esses ideais superiores pudessem ser realizados
foi estabelecido f]UC os corpos deviam ser submissos c disciplinados.
A exaltação da racionalidade, como valor supremo do homem,
não se fundamentou em seu modo de ser, mas em necessidades e
interesses vi11culados ao estabelecimen1ode uma ordem social e cultural.
Isso acarreta uma série de conseqiiências. Por exemplo, se a racionalida-
de tem valor superior e o corpo tem um valor subaltemo, significa que
esse deve ficar submisso e dependente da razão. Significa que se os
homens que usufruem uma racionalidade mais desenvolvida e cultivada
são superiores aos demais, os outros devem-lhe submissão e obediência.
A submissão e a obediência só acontecem através de regras disciplinares,
cujas bases são defit).idas pelos princípios da racionalidade, isto é,
daqueles que pelo csttrdo c pelo conhecimento conseguiram o domínio
sobre o raciocínio lógico. Não se discute se a razão é mais justa ou mais
humana do que o coração, supõe-se, a priori, que sim. Então os instintos,
as emoções, os sentimentos precisam ser enquadrados pelos procedimen-
tos disciplinadores.
Poi assim que o corpo individual tomou-se um instnrmento a
serviço da razão e os corpos ignorantes e analfabetos foram reduzidos a
uma ferramenta nas mãos das classes dominantes.
A corporeidade disciplinadora, portanto, passou a detenninar os
treinamentos úteis para a disciplinarização e para o desempenho de
tarefas específicas. O corpo é uma força instrumental nas mãos do
homem. Essa força é útil e perigosa ao mesmo tempo. Perigosa na medida
em que é uma ameaça, útil porque se toma uma ferramenta produtiva. A
disciplina é capaz de aperfeiçoar a ferramenta e docilizar as energias do
64
corpo. Por isso a disciplina tem a tarefa de fabricar corpos submissos e
exercitados para o desempenho das tarefas específicas que auxiliem a
mente e a ordem racional, e também capazes de gestos heróicos em defesa
da ordem social vigente. A disciplina, diz Poucault, aumenta as forças do
corpo (em tennos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas
forças (em tennos polfticos de obediência) (Poucault, 1977: 127). Os
corpos disciplinados tomam-se "aptidões" e "capacidades" a serem
utilizadas para as eventualidades determinadas pelas instâncias do poder.
A história da Educação Física é longa e conhecida nessa dedica-
ção de fabricar corpos disciplinados e submissos. Em duas áreas sua
eficíên.cia foi demonstrada com maior empenho. Nt1 fonnação de corpos
gucrrclt·os c llíl fommç:lo de corpos atletas. Interessante lembrar que não
se preocupou com o c01·po trabalhador, proletário.
Na arte da guerra ela investiu em fabticarcorpos fortes, resisten-
tes, dóceis, âgeis, sempre prontos a entrar nos desfiles de marcha ao som
de tambores, em tempo de paz ou decididos a marchar corajosamente
para o supremo sacrifício nos campos de batalha.
. Poi assim que os homens superiores, guiados pela racionalidade,
julgaram que a defesa da democracia, da liberdade, da paz, da ordem e da
justiça devia ser construída sobre milhares de cadáveres a prova mais
e"<idente da eficiência da educação disciplinar imposta ao corpo.
Foi assim que o ptogressoeconômicoavançou, que os "descobri-
mentos .. de novos tnundos se tomaram possfveis e que a expansão da
civilização racional e científica se operacionalizou. Sempre e em tudo,
graças à utilização de corpos disciplinados.
Os exemplos são inúmeros. É bom lembrar alguns fatos. O
castelo de Versalhes, com seus parques e lagos, foi construido sobre
milhares de corpos camponeses vitimados pelo impaludismo. O turismo
contemporâneo só mostra as obras de arte que refletem a vida dos nobres.
São Petesburgo, apesar do objetivo de desenvolvimento econômico, foi
fundada em 1703 pelo czar Pedro, o Grande, sobre ossos humanos: 2
milhões de traba Ih adores mortos, diz a história. A ocupação do território
brasileiro, desde sua colonização, está se dando ao preço de milhares de
migrantes, camponeses, posseiros e sem-terra. Mas sempre etn beneficio
dos corpos envernizados pelo saber científico e racional.
65
Depois surgem os monumentos ao trabalhador, ao heroísmo do
pioneiro c desbravador, ao soldado desconhecido, onde são colocadas as
coroas de flores c se fazem discursos demagógicos aos corpos a11Ônimos
ltucidados pelos grandes ideais da humanidade, mas na realidade vitima-
dos por interesses gatwnciosos dos mandantes da guerra, ou pela esperan-
ça daqueles que buscam a própria sobrevivência em terras longfnquas e
desconhecidas. Lá fora, no cotidiano, continuam os corpos famintos,
abandonados, executados, desdentados, humilhados e explorados de
milhares de trabalhadores, homens c mulheres, crianças c velhos. Estes
nem mesmo ptccisatn de exercícios disciplinadores, a luta pela sobrevi-
vência já os disciplinou. E quando o desespero os levarem à revolta, as
prisões são a outra fonna de disciplinar.
Os corpos, que não abrigam uma tnzãodesenvolvidn, continuam
não valendo nada, ou valem apenas enquanto ferramentas de trabalho, em
geral para usufruto de outros homens, os da ordem econômica.
Nas atividades esportivas ocorre praticamente o mesmo fenôme-
no disciplinador. O corpo é um artefato a ser aperfeiçoado para as pr<iticas
esportivas dentro de padrões de rendimento impostos pela ciência c pela
técttica para cada modalidade esportiva.
Nos esportes, tambCtn, hão se pensa elll cultivar o corpo, mas em
treiná-lo e automatizá-lo para que possa obter o máximo de rendimento.
O corpo não vive o esporte ou o movimento, ele é apenas uma 1nãquina
ou uma peça que produz movimento dentro de uma atividade maior que
chamamos de esporte. Assim, não se corre enquanto a corrida é um
movimento agradãvcl, mas corre-se para superar barreiras, pata vencer
uma dist:lncia ou para superar um limite de tempo. Mais uma vez
constata-se que somente é posslvcl fazer isso com corpos disciplinados,
fortes, resistentes, sadios c jovens. Os outros corpos não interessam. Há
preocupações em construir o corpo guerreiro, o corpo atleta, mas aÍ
não se pensou seriamente em cultivar o cotpo humano. Essa tarefa precisa
ser começada.
5.2. Uma corporcidadc cultuada c cultivada
Estamos habituados a exigir que as palavras tenham sempre um
conteúdo claro c preciso, é o cacoete da linguagem científica; que
66
alguma coisa, um fato, uma ação, um conjunto de objetos,
Js!o e, que tenham um lido objetivo e definido. Isso, provavelmente,
nao acontece com o tenno corporeidade. Talvez não seja mteressanle.
Pode ser que a corporeidade não exista. E certo que ela não é um objeto,
urna.fonna ou untm.odelo. Não se compõe apenas dos recursos orgânicos
e A corporCJdade deve mais do que uma coisa a ser apreendida
- stgluficar um desafio para a imaginação e a criatividade,
A corporeidade deveria dar-nos uma idéia que reunisse a ação de
cultuar e a de cultivar. Assim, pode-se dizer que a corporeidade é culto
e cultivo do corpo. Não pode ser só cultivo porque pode dar a impressão
do de árvores, flores ou cereais, uma ação muito manual,
mecatuca, que acontece de fonna ex tema. Não pode ser só culto porque
pode ficar que a corporeidade seja algo pronto, acabado e completo,
• ser venerado e contemplado. A corporeidade precisa ter a
dtgntdade da ação sagrada e festiva e, ao mesmo tempo, a cotldlanidade
do esforço e do trabalho criativo.
As idéias de culto e cultivo são invocadas para nos ajudar a
não propriamente o significado de corporcidade, mas para nos
111Splrar a traçar as atividades especificas de seu desenvolvimento. O
importante não é saber o sentido, mas saber construi-la, ou melhor, vivê-
la. Essa poderia ser, c no meu entender deve ser, a tarefa da Educação
Física: cultivar e cultuar a corporcidade.
, Para repensare desenvolver a corporeidadeé ftmdamcnta\ apren-
der a realidade corporal humana. Fica completamente descartado o
luibito de entender o corpo a partir de elementos que vêm de fora. Essa
leitura direta faz-se através da escuta da linguagem corporal. O corpo é
falante, fllas sua linguagem não deve ser cientffica, nem gramatical,
muito menos matemática. Ela é, sem dúvida, cifrad,,, falta o íntérprete. A
interpretação lliio se faz pelos padrões oficiais da biologia. Também 11ão
pode ser como conjuntos de articulações, feixes de músculos, consumos
aeróbicos, número de batimentos cardíacos, pressões cardiovasculares
ou dispêndios calóricos. Não significa que esses dados devam ser
desprezados, mas eles podem ser encontrados nos outros seres vivos . .A_
corporcidade humana deve ir além, precisa considerar a sensibilidade
afetiva, as emoções, os sentimentos, os impulsos sensíveis, o senso
estético ele. Também não significa que isso seja a corporcidade humana,
67
tnas é aqui e assim que ela se manifesta e se expressa. São esses os sinais
c os elementos que precisam ser desenvolvidos, isto é, cultivados e,
portanto, orientados, estimulados, fortalecidos. Poderíamos dizer, tal-
vez, educados, c ao mesmo Íempo cultuados, isto é, mantidos livres,
espontâneos, criativos, como a obra de arte, como os valot·es estéticos.
A corporeidade hun;ana inspirada nessas linhas gerais precisa
ser um desenvolvimento harmottioso como um concerto 111usical ou uma
obra de arte em que nenhum aspecto ao alcance da criatividade de cada
vida humana possa ser esquecido ou maltratado.
Esse trabalho aparentemente paradoxal e contt·adi tório, misterio-
so até, não pode ser- realizado atrâvés de uma Educação Ffsica que
pdvilcgia as técnicas, os cxc1"CÍCÍos cstafautcs, os aulo111alismos, mas
l!llllUélllllÕO pode SCI'dCBCIIVOIViclo 1108 CBII'CÍ!OR CRJlO\'OR p,!'Otllélricos 011
das mordaças de quantificações matemáticas.
A plenitude dessa corporeidade será vivida em primeiro lugar
sob os stgnos da abundância. A corporeidade humana não pode ficar
presa à satisfação de suas necessidades rimárias. Essa instância faz parte
<a esfera animal. A corporeidade da abundância é aquela que se desen-
volve liberta das leis da necessidade. Os gregos haviam estabelecido uma
série de atividades que eles denominaram de sclwlé, ou seja, aquelas
atividades que não têm fins econômicos, lucrativos e interesseiros, e
livres da necessidade de subsistência. A scholé era inspirada na estética.
Os gregos, porém, excluíram desses prazeres estéticos a participação do
corpo e atribuíram apenas à psyqué o privilégio de usufruir tais bens de
beleza, pelo menos esta é a interpretação de nossa tradição. Mas será que
a exclusão do corpo no prazer estético não foi um artifício pata excluir a
tnaiot·ia da populnç5o, condenando-a a dedicar-se à produç:lo dos b c t ~ s de
consutno? Os bens culturais ficariam para uma classe privilegiada, ·
aquela dotada da psyqué imortal.
A corporcidadc deve alcançar, portanto, a plenitude de seu
desenvolvimento 110 estado estético, livre do mais alto grau de qualquer
coerção, apenas na fruição da perfeição estética.
A Educação Física repensada para cultivar e cultuar a corporei-
dade humana precisará inspirar-se no impulso senslvcl, na harmonia
musical, nos ideais de beleza e nos valores estéticos.
68
BIDLIOGRAFIA
SCHILLER, Friedrich _ A educação estética do homem. São Paulo,
Iluminums, 1° reimpressão, 1990.
FOUCAULT, Michel- Vigiar e punir. Petrópolis, Vozes, 1977.
ROBJN, Léon- La pensée grecque. Ed. Albin Michel, Paris, 1963.
MOLES, Abrahatn -A iniciação ciemífica. São Paulo, Edusp, 1971.
GOMPERZ, Theodor- Pensatori greci. Fircnzc, La Nuova Italia, v oi. I,
1967.
Folha de São Paulo- São Paulo, 24/05/1991. Cademo Ciência, p. 6.
69
ÁNEXO B
Texto 11: Consciência Corporal e dimensionamento do futuro
Capítulo 2
CONSCIÊNCIA CORPORAL E DIMENSIONAMENTO DO FUTURO
J. F. Regis de Morais
Faculdade de Educação da Unicamp
A tematização da corporeidade é, em si mesma, complexa e
mesmo insidiosa. Uma coisa é a abordagem de um corpo que se
esquadrinha obscrvacional e labotatorialrnente, no deslindamento de
suas estruturas anatômicas e de suas fisiologias; nesse caso, o distancia-
tneflto c certa ohjelividade po!-:sfvds, possibilitando ao estu-
dioso básica serenidade. Mas outra coisa muito distinta é volta11no-uos
sobre o corpo que somos e vivenciamos, no complexo horizonte da
existencialização. Pode ocorrer que os mais interessantes discursos sobre
o corpo façam-se em véus de fumaça que mais dificultem a "visibilida-
de" do motivo proposto; há textos sobre a realidade corporal que se afas-
tam (c nos afastam) assustadoramente da corporcidade enquanto refle-
xão.
A despeito do mérito de nos dcdícannos a tão delicado assunto,
belas c explicativas em seqliêncin jntnnis substituirão as vivências
subjetivo-objetificantes da corporcidade. Isto é: estou convicto de que
um biocnergeta tem possibilidades muito mais diretas de levar seu cliente
a profundas meditações sobre o coqJO do que um filósofo. Vejo a tarefa
desse último como sendo apenas a de alguém que reúne condições e
71
vocação para, elaborando depoimentos vários e sua própria experiência,
dar dignidade teórico-reflexiva às percepções mais ou menos profundas
da realidade corporal. Como já foi dito, pesquisa cientffica é algo que um
homem pode fazer em nome de todos os demais, enquanto que pesquisa
filosófica é algo que cada ser humano tem que fazer em seu próprio nome
e a partir de sua vida - colocando, porém, suas conclusões à roda
intersubjetiva das avaliações.
Há, também, esta coisa perversa que vem sendo praticada pelo
consumismo e que consiste em transfazer o corpo em mercadoria,
instalando-o como mais uma das levianas modas da sociedade do lucro.
Súbito, ficou na "moda" inquietar-nos com a temática corporal, como se
só recentemente houvéssemos passado a ser corpos no mundo. Todos
podemos ver as muitas explorações de marketing sobre este assunto, que '
têm resultado em rios de dinheiro e oceanos de distorções compreensivas.
. Essas aberrações do consumismo, bem como certas racionalida-
des políticas dotadas de· fanático sectarismo, todas essas coisas têm
conduzido escritores a dizer que a preocupação com o tema da corporei-
dade se configura, em nosso tempo, como uma "mania pequeno-burgue-
sa". Nesse ponto, ocorre-me expressivo momento de um texto de Rubem
Alves, no qual o pensador diz que um operário, ao sofrer uma dor de
dentes, nào a set1le com os dentes de sua classe sodlll, mas eom os seus
próprios (1982: p. 33). Contra o fato de que somos um corpo, não há
postura ideológica que o possa anular.
Ao longo de sua História da sexualidade, Michel Foucault
adverte-nos de que sempre está acontecendo algum tipo de discurso sobre
o corpo, não importando as épocas e as idades - mais ou menos
repressivas. Na exata medida em que o sentido constrói com o falar e o
calar (com o som e o intervalo, como queria Heráclito de Éfeso), os
modos de pronunciannos inquietações quanto à corporeidade ou os de
submetermos o tema do corpo à interdição, todos esses se constituem em
discursos sobre o corpo. Eis porque, diferente do anatomista ou do
fisiologista, o filósofo se aproxima cuidadosamente do tema da corporei-
dade. Curiosa é a dialética que marca a intencionalidade filosófica, pois
que o projeto da filosofia é ao mesmo tempo pretensioso e humilde;
pretensioso no sentido de que a reflexão filosófica se deseja abrangente
e aprofundada, não fugindo às exigências de sutileza dos temas a que se
72
prc•põ.e, mas humilde, por saber que uma realidade plurlvoca, multi face-
nunca se deixa enclausurar numa leitura un!Voca. V àle.dia 1r que o
iló1solonão tem o direito de imaginar sequer que a sua leitura seja a única;
. contrário, ele precisa ter claro para si que sua leitura foi o seu modo de
• aspectos do objeto de investigação. É uma interpretação, dentre
posslveis.
No que me diz respeito, vou cada vez mais descobrindo que na
trama do tecido filosófico global a verdade é claramente "a busca da
Ao filósofo compete, partindo do seu específico lugar episte-
ir ao encalço da visão que lhe pareça mais abrangente e
alcançando-a, prestar aos seus semelhantes um depoimen-
sua aventura reflexiva. Eu não neste final de século, no
em ao que a empresa
importante que pode empolgar os pensadores agora é a de organizar
e,stor1;os e expender energias na elaboração de um projeto de vida que
da próxima centúria um segmento histórico não tão sofrido e cheio
perplexidades como foi o nosso século XX. Com certeza, todas as
. de atividade do conhecimento estão convocadas para um tal gesto
responsabilidllde para com as novas e novlssimas gerações.
Corpo-problema e corpo-mistério
Preciso, aqui, retomar a idéias que utilizei em uma conferência
pron•un<:ia<la no primeiro semestre de 1991 (Unesp-Rio Claro). Tais

• • bebi-as em sua estrutura básica, em textos de Gabriel Mareei,
le·vartdo•-as para desdobramentos e aplicações no campo da filosofia do
N>tn.n É sabido que Mareei faz importante distinção entre as noções de
pr·ob.lenta e mistério, considerando que problema é algo que me corta o
e me desafia em minha condição de sujeito cognoscente; problema
passlvel de equacionamento e, mesmo, eventual solução. Em
eu posso fazer de um próblema uma presa do meu conhecimento.
o mistério não me corta o passo; ele me envolve porque sou um vivente,
'ca1rrega:nd•o em mim o mistério da centelha vital que escapa aos mais
llr,gultos médicos e fisiologistas. Do mistério, eu sou a presa. Se posso
·M.uacicmaar e resolver o problema, quanto ao mistério me é dado, no
73
·· maxlmo, ter dele uma certa intuição contemplativa. Contemplando-o eu
o intuo como uma certeza tremenda; mas, ao mesmo tempo, como uma
absoluta impossibilidade cognitiva (pois, ao contrário, já não seria
mistério) (1967: 57).
O corpo do homem está abrangido por ambas as mencionadas
categorias. Ele é, simultaneamente, problemático e misterioso, pois que,
podendo ser campo de esquadrinhamento e objeto de conhecimento,
também é, em sua existencialização plena, manancial de mistérios.
A estrutura e o funcionamento do corpo, em suas complexidades,
constituem-em grande medida -a sua trama próblemática. E aí, no nível
do corpo-!Jroblema, iniciam-se grandes perplexidades para o estudioso.
Nos n;lOvllnentos muito hábeis de dançarinos e desportistas tem-se a
prnne1ra percepção dos recursos corporais em tennos de um multidire-
cionamento de ação e de uma sutileza de expressões que evidenciam, no
uma estmturação e uma dinâmica dotadas de capacidades quase
ilnmtadas. A sabedoria das articulações ósseas.e das disposições muscu-
lares faz-nos encontrar urna inteligência que caracteriza cada pequena ou
grande parte do corpo que estudemos; falando-se apenas de aspectos
macroscópicos da realidade corporal, basta detenno-nos na configuração
e nos movimentos das mãos para que o deslumbramento tome conta de
nós, À semclhnnçn de pássaros presos ãs extremidades dos membros
superiores, as mãos se flexionam para todos os lados, dobram-se sobre si
mesmas, contorcem-se, definindo-se como privilegiados elementos de
exploração e expressão: exploração do mundo e expressão do que o
mundo agita em cada eu. Sim, pois nossas mãos são, por assim dizer,
órgãos: do ter (posse que deriva do tocar), do conhecer (uma vez que elas
tocam o mundo e por ele são tocadas, construindo um saber), do
transformar (construindo, demolindo e recriando), e do dizer (na grande
riqueza da linguagem gestual).
Mas há coisas mais encantadoras que vão do macro ao micros-
cópico nesse corpo, objeto de investigação -nesse corpo-problema. Em
uma obra importante intitulada Segreti e sagezza de/ corpo,A. Sahnanoff'
lembra-nos, por exemplo, de que "o comprimento total dos vasos
capilares de um homem nonnal alcança os I 00 mil quilômetros; o
comprimento dos vasos capilares dos rins é de 60 quilômetros; a dimen-
são dos capilares abertos e distendidos em superfície fonna um total de
74
6 mil metros quadrados; a superfície dos alvéolos pulmonares em
extensão fonna quase 8milmetros quadrados" (1966: 11). Se aqui nos
dennos conta de que a circunferência da Terra mede 40 mil quilômetros,
espantar-nos-á o fato de que a capilaridade de um corpo dá duas voltas e
meia no Planeta. Certamente não chegaremos a conhecer um mais sábio
aproveitamento do espaço do que o que encontramos no corpo humano.
Voltando-nos, ademais, para a adequação das funções fisiológi-
em sua perfeita sincronia vital, aumenta-se nossa admiração ante esse
experimelllo cósmico, que é o corpo. Complexos laboratórios
btoquínucos como as grandes glândulas (fígado, pâncreas, tireóide etc),
os órgãos nobres como cérebro, os pulmões ou os rins - cada qual
c,umprindo funções indispensáveis- , enfim, tudo isso põe-nos atônitos
perante o que nos é dado esquadrinharcienti ficamente. E ainda estaremos
no nível do corpo-problema, dessa realidade com a qual podemos manter
uma relação sujeito-objeto de conhecimento.
Ocorre, porém, que nossos corpos são, antes de tudo, o nosso
primeiro e mais fundamental mistério. A cada dia somos' convocados às
alegrias da corporeidade e, ao mesmo tempo, à sua aterradora efemerida-
de; o mais competente fisiologista saberá explicar-nos aspectos sutis do
funcionamento de órgãos, aparelhos e sistemas do corpo; mas não há
cientista, seguro do que faz, que ouse utna explicação sobre a ptoprla
centelha vital: o que nos mantém vivos? O que alimenta esse impulso
primeiro? Que o meio ambiente tenha aperfeiçoado no homem o olhar
estereoscópico (de frente e em profundidade perspectivante), bem como
tenha conduzido nossas mãos às funções que hoje as caracterizam, tudo
isso está bem e podemos aprender com as investigações científicas. Fica
sempre, no entanto, a pergunta mais primitiva: que força é esta que gera
esustenta as energias básicas do viver?
Vi certa vez, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um
grande hospital, um jovem acidentado em coma profundo cujo fio tênue
vida era mantido ainda pela atual maquinaria médica. Eu estava
paquela UTI quando se aproximou do leito daquele rapaz o seu melhor
amigo, admitido ali -como eu- por extrema deferência dos médicos;
pois bem, nos monitores registraram-se imediatas alterações nos bati-
mentos cardíacos e na pressão arterial do moço quase agonizante- coisa
que se repetiu à entrada dos pais do acidentado, em outro horário.
7'i
Inevitavelmente, acudiram-me questões: afinal, o que é a vida? Como é
possível que alguém, com lesão cerebral séria e em coma profundo, reaja
às aproximações daqueles q ~ e sempre foram alvos de sua melhor
afetividade? Recorri à chefe de enfermagem, com minhas interrogações,
tendo desta ouvido curiosas ponderações no sentido de que as Unidades
de Terapia Intensiva são locais que questionam ao extremo nossas pálidas
concepções de vida. Disse-me textualmente a enfermeira: "Temqs per-
mitido sempre a entrada daquele amigo e dos pais do jovem acidentado,
pois cremos- pela vivência em UTI'e não por qualquer página científica
estudada - que esses contatos de forte apelo possam ser a última
esperança do rapaz, se é que há alguma",
Percebi nas palavras experientes daquela profissional que, aos
que têm olhos de ver, numa UTI esfuma-se a linha fronteiriça entre o
problema e o mistério-da corporeidade: Mas, aos que têm olhos de muito
ver (ainda mais atentos e apurados) nem é necessário atingir uma tal
situação limite. Estou certo de que o relato dessas observações não se
afina muito com a filosofia dos livros, a calculada filosofia dos admirá-
veis tratados tradicionais; mas também estou seguro de que, rumo ao
século XXI, temos que reconquistar a filosofia que é diretamente susci-
tada por nosso afrontamento com o cotidiano mais evidente. No dizer da
socióloga e pensadora húngara Agnes Heller, a filosofia é uma não-
cotidianidade (por ser exercício de ordenação sistemática) que, no
entanto, só se legitima se segue alimentando-se do propriamente cotidia-
no. E acrescenta Heller: "É adulto quem é capaz de viver por si mesmo
a sua cotidianidade" (1985: 18). Viver por nós mesmos a nossa cotidia-
nidade significa, entre outras coisas, darmos à letra escrita um lugar de .
honra, mas significa também não permitirmos que ela ocupe todo espaço
respeitável da nossa vida de estudiosos. Perguntar a minha pergunta é
tarefa minha. Assim a reflexão não cai do céu intelectual sobre os fatos
comuns, mas eleva-se exatamente destes.
Essa breve reflexão sobre as noções do corpo-problema e corpo-
mistério é a maneira que encontro para demonstrar, um pouco mais
aprofundadamente, a leve estrutura de cristal em que consiste o tema da
.. corporeidade. Fascinados, queremos tocá-la; mas se o nosso movimento
não é cheio de cuidados, partimo-la a um rápido mas desajeitado toque.
76
2. "Temos" ou "somos" um corpo? lnterioridade e exterioridade
cotizo categorias artificiais na compreensão do homem
Caminhou até nós, vindo de remotos tempos, um dualismo
ontológico que distingue o corpo da consciência, o organismo físico da
alma (ou essência interior). Talvez trazido do Oriente, esse dualismo
aparece antes de nossa era como, por exemplo, em Pitágoras e Platão,
prosseguindo jornada com figuras do porte de Santo Agostinho e Plotino,
após o primeiro século depois de Cristo muito bem-apoiado- no ocidente
cristão - no pensamento do apóstolo Paulo. Há hoje textos que nos
deixam a impressão de que teria sido Descartes, no século XVII, o criador
do mencionado dualismo. Leitura precária da história do pensamento e da
filosofia cartesiana. Todavia, precisamos convir em que Descartes terá
·sido aquele que, no mundo moderno, foi às últimas conseqüências na
distinção entre res extensa (extensão, corpo, matéria) e res cogitans
(pensamento, consciência racional), considerando que o filósofo em foco
foi quem atribuiu inequívoca substancialidade ao corpo, deste desenvol-
vendo uma concepção maquinal atualmente conhecida como mecanicis-
mo cartesiano.
Ora, podemos afinnar que, apesar de não ter inventado o dualis-
mo, Descartes acentuou drasticamente certa concepção instrumemalista
de corpo, que caminhava já com movimentos de pensamento nascidos na
Antigüidade. Marguerite Yourcenar, escritora belga e grande conhece-
dora do pensamento romano antigo, ao escrever Memórias de Adriano,
após cerca de 27 anos de pesquisas históricas e filosóficas, põe na pena
do imperador Adriano trechos como os seguintes: "Esta manhã, pela
primeira vez, ocorreu-me a idéia de que meu corpo, este fiel companhei-
ro, este amigo mais seguro e mais meu conhecido do que minha própria
alma, não é senão um monstro sorrateiro que acabará por devorar seu
próprio dono" ( 1980: 14) e mais adiante: ..... carne, esse instrJ.\Jento de
músculos, sangue e epiderme, essa nuvem vermelha da qual a alma é o
relâmpago" (lbid., p. 21). Uma tal concepção tem atravessado os séculos
e tem vindo até nós, revelando-se o próprio Descartes herdeiro dela. Na
linha da recíproca irredutibilidade entre corpo e consciência defendiêia
por Descartes, encontramos na comum conversação cotidiana e lambem
em textos que se querem científicos afirmações do tipo "eu tenho um
corpo" ou "cabe à alma pilotar essa máquina sem inteligência que é o
77
corpo"; a esse traço esquizóide da autoconcepção humana é que estamos
chamando de visão instrumentalista.
Gostem ou não os teóricos fi·liados a outras correntes de pensa-
mento, o que atualmente existe de mais denso e expressivo sobre o tema
da corporeidade veio de especulações muito agudas daqueles que têm
desenvolvido a chamada fenomenologia existencial. Refiro-me a filóso-
fos como Gabriel Mareei (especiahnenteem seuJoumal Métaphysique),
Georges Gusdorf (Tratado de metafísica) e Maurice Merleau-Ponty (de
modo especial em sua Fenomenologia da percepção). Através de cami-
nhos muito próprios, tais pensadores acabam alertando-nos para coisas
muito importantes; primeiro, advertem-nos no sentido de que, seja ou não
religioso o filósofo, ele precisa ter muito dato para si que a filosofia e a
ciência só estão autorizadas a se pronunciar sobre o vivente. Isto é:
questão como a da sobrevivência do espírito, neste final de século, não
deve ser abordada mais pela filosofia ou pela ciência, de vez que outras
áreas do conhecimento (como a teologia, por exemplo) se debruçam
especializadamente sobre inquietações que visem ao aquém ou ao além
do segmento de vida. Segundo, contestam a concepção instrumentalista
argumentando que no viveme o composto de corpo e consciência não
admite separações estanques.
Somos (e não temos) um corpo. Somos um corpo como fonna de
presença no mundo porque, sendo nossa presença mais apropriadamen-
te veiculada por nosso comportamento, toma-se inverídica - ou no
mínimo inacessível - no vive/lle a dicotomia consciência e corpo. De
todo modo convém lembrar que a afinnação segundo a qual
corpo como presença no mundo não é restritiva. Nela não está dito que
sejamos apenas um corpo, de maneira que pensadores religiosos como
·Mareei e Gusdorf podem abraçá-la sem que esta comprometa suas
crenças. Apenas o que se busca esclarecer é que, na complexa realidade
do vivente, o corpo pode ser a expressão densa do espírito, assim como
o espírito pode ser a expressão impalpável do corpo. Sem dúvida é esta
uma linguagem dualista, mas que me permite comunicação mais simples.
Escrevi em trabalho divulgado em 1991: "Se ferimos o espírito,
o corpo geme e se vergastamos o corpo, o espírito se enfenna e sangra.
Desafortunadamente, os torturadores- praga há muitos séculos existente
-aprenderam isso muito antes dos filósofos. No romance 1984, Georges
78
Orwell escreveu: 'No campo de batalha, na câmara de tortura, num na vi
que afunda, as questões pelas quais você luta são sempre esquecida!
porque o corpo incha até queenche o universo todo; e mesmo que voe
não esteja paralisado pelo pavor ou gritando de dor, a vida é uma luta qu
se desenrola, mornento a motnento, contra a fotne, o frio, a insônia, contr.
uma azia ou uma dor de dentes'. O sofrimento do ser humano, sej
organlsmico ou moral, incha e toma sempre o tamanho do universo todo
(1991: 5).
_ _ o leitor que, mesmo defendendo uma concep
7ao nao-mstnunentahsta e ma1s unitária do homem, utilizo-me de fonn;
· de uma linguagem dualista. "O sofrimento humano, sej1
ou moral..." AI está a linguagem da qual não logro fugir
Ocorre que, após tantos séculos de visão dualista e com o forte acento,
?ado por Descartes, naturalmente instalou-se na comunicação o qm
J? foi chamado dualismo semâmico. Simplesmente não alcançamos uma
linguagem unitária, ainda que no interesse de combater o dualismo. Há
uma linguagem para as coisas do corpo e uma outra para as coisas da
mente. Notando isso e compreendendo minhas razões, o leitor será
compassivo para com esta linguagem dual que seguirei, inevitavelmente
utilizando. '
e urna que não
qualquer atitude humana que seja puramente interior ou da subjetividade
puramente pensante; toda atitude do ser humano é atitude corporal.
.l''odetrlosmesmo dizer que, tnediante nossas reações neuromusculares, é
que nos damos conta (pensamento) de nossos conteúdos pessoais até aqui
chamados de "interioridade". Depressão, angústia, medo, como também
euforia, otimismo e tranqüilidade, são todos esses sentimentos detonados
estrutura corporal e então 'captados por nossa "interioridade".
Frio nas extremidades, suores nas mãos mostram a imediata
disso com nossos medos e sobressaltos. As dores na musculatura
costas ligam-se com a vivência das nossas inseguranças, com grande
• Quando as pessoas muito simplesmente dizem "fiquei duro
medo ou frio de pavor", há nisso verdade científica; sabe-se que 0
79
medo é letárgico, produzindo uma inibição cortical que se exprime por
quedas na pressão arterial e retesamentos musculares. Já as pessoas
dizem, por outro lado: "Fervi de raiva; eu parecia ter cobrinhas e faiscas
pelo corpo, não me continha"; isso em razão de que, na ira, o que se dá
é uma superestimulação interna (ou desinibição}, o cérebro emitindo
ordens que disparam hormônios excitantes dos batimentos cardíacos,
elevadores da pressão arterial e que predispõem a musculatura para o
movimento (agressivo).
Mesmo exemplos assim singelos põem-nos a pensar. Essa coisa
de interioridade e exterioridade aparece-nos como artificial na com-
preensão do ser humano. Eis porque quando Gusdorf entende ser o corpo
a pré-história do conhecimento e das emoções (Tratado de metaftsica, "A
encarnação"), isso guardá afinidades, por exemplo, com as idéias psica-
nallticas de Wilhelm Reich ao conceber a constituição biofisiológica do
"caráter" em tenrios de usos específicos da musculatura corporal (1989:
Parte I, cap. IV, passim, e parte III, cap. XIV, passim). Para esse
psicanalista, o acesso à chamada "interioridadj!" (a dos outros e a nossa
própria) passa necessariamente por posturas e atitudes corporais; ora,
isso é absorvido pelas antropologias filosóficas mais atuais sem maiores
dificuldades. Já que, como vimos, estas contestam a visão instrumenta-
lista do corpo, em busca de uma nova concepção unitária para o vivente.
Dizemos nova concepção unitária em razão de ser especifica-
mente filosófica e trazer as marcas históricas da filosofia do nosso século
diálogo com as ciências, pois, no mundo do Antigo Testamento
bíbhco a concepção propriamente hebraica de ser humano é já unitária
(Tresmontant, 1956: 90). Claude Tresmontant, após explicar o dualismo
sob os pontos de vista de Platão, Plotino e Descartes, apresenta-nos a
dialética do pensamento hebraico sobre o homem anotando: "A antropo-
logia bíblica introduziu uma dialética original: a carne e o esplrito, que
não têm qualquer ligação com o dualismo platônico alma-corpo, pois o
conceito bíblico de "carne", bâsâr, sarx, corresponde não tanto ao soma
platônico, mas à união do "corpo" e da "alma" (1956: 90). Carne, ainda
que significando, na linguagem mítico-poética, pó (elemento que distin-
gue o homem de Deus de forma radical), toma também e fortemente o
significado de alma vivente; o espfrito toma um sentido mais psicológico
de instância do pensamento e do órgão religioso da comunicação com
Deus- aquele que serve de repositório da força de Deus. De toda forma,
80
aqui não se registra um dualismo (enquanto ruptura e separação), mas
uma dialética cujos pólos (carne e espírito) se reallzam e são superados
pela totalidade e pela unidade do homem vivente.
Tudo isso nos permite perceber que o presente século, em termos
de reflexão antropológica da corporeidade, faz um caminho de volta às
origens da concepção unitária de homem registrada pelo pensamento
hebraico bíblico (do Velho Testamento). Apenas que não parece tratar-
se tão-somente de crença ou concepção mítica, pois que a filosofia
contemporânea absorve e desenvolve tendências hoje verificáveis espe-
cialmente nos campos da psicologia, da biologia e da psiquiatria.
Somos um corpo como fonna de presença no mundo, e isso diz
tudo. Interioridade e exterioridade são apenas categorias de pensamento
de força didática, pois o que há é um corpo que pensa e agita a consciência
jl, simultaneamente, uma consciência que pensa e transfigura o corpo -
sem que reduzamos o verbo pensar a racioclmos -lineares. Afinal, .em
inúmeros casos, úlceras gástricas são feridas abertas pelas dores morais.
abordaremos mais adiante, as tendências atuais do pensamento
· prometem avanços não-pequenos para o próximo século no tratamento
questões corporais. Ao menos as condições parÍI tanto estão d.lrgindo,
sendo que o futuro está pleno de todas as possibilidades: as boas e as más.
3. A consciência corporal rumo ao século XXI
Se não há equivoco em minha observação, foi a partir de Breuer
e Freud, que partilharam o de uma histérica, que o mundo
cientlfic:o ganhou as sementes daquilo que vicejou (e vem vicejando) com
• de psicossomática. Graças a desdobramentos psicanallticos e
• filosóficas mais atuais, a psicossomática foi deixando de ser
vista como processos de somatização (repercussão patológica no corpo)
· emoções antes nascidas em estrito e puro campo mental; como vimos,
.C<)nc:et>e-:se hoje uma tal simultaneidade entre os processos mentais e
: que a psicossomática ganhou "mão dupla" no sentido do ir e
mesmo espaço e ao mesmo tempo- isso para mantermo-nos nos
• das coordenadas de nossa dimensão. A mais avançada antropolo-
filosófica defende, como já sublinhamos, a consciência corporal,
perscrutar- de um modo que a muitos dos nossos antepassados
81
_____ uv corpo. tla lloje terapeutas que
nos ensinam cotno com nossos músculos, cotno .. escutar" o
que eles nos estão "dizendo" em variados momentos. essas coisas
como dados nosso século e
Neste momento recordo-me de quando, aos meus 45 anos de
idade, vivi o derradeiro mês que antecedeu o nascimento do meu último
filho. Na ocasião não me dava conta de qualquer alteração significativa
na disposição psíquica; minha lucidez me dizia sobre a especial felicida-
de produzida pelo filho que vinha chegando, em minha meia-idade.
Conscientemente eu celebrava minha criança que vinha 15 anos depois
do segundo filho. Ocorria-me porém estar estranhamente passando por
um período de depressão orgânica traduzida por astenia (desânimo geral)
e uma esquisita lentidão para respirar. Visitando um· clínico-geral de
excelente percepção, este me examinou e me disse que eu estava com um
quadro de hipotensiío arterial, batimentos cardíacos diminuídos em cerca
de dez pontos e diminuição do tônus muscular. Sobressaltei-me. Mas o
médico, sorrindo, explicou-me: "O senhores pera o dia do nascimento do
nenê. O corpo é muito sábio! Para que o seu misto de euforia e medo
(sempre há algum medo!) possa ser bem-suport.1do, seus sinais vitais
êstiio deprimidos em conseqüência de baixa pressão arterial, da bradicar-
dia e do forçado relaxamento muscular. Ora meu amigo, vá ser sadio
assim no infen10!" E encerrou a consulta de fonna categórica: "Nem uma
gota de remédio! Deixe seu corposersábio". Sai do consultório pensando
em um trecho de Nietzsche do Assim falou Zaratrusta (já nem lembro a
página), no qual, em outras palavras, o filósofo diz que se o corpo não
souber não há sabedoria possível.
Sem dúvida, hoje, no Ocidente, estamos muito mais despertos
para essas coisas. E apenas começamos a descobnr a consciência
corpora.
Nesse aspecto tenho especial admiração por um filósofo contem-
porâneo que nós, brasileiros, ainda não traduzimos do francês. Trata-se
de Edmond Barbotin, de quem tratei em texto de 1991 e de cujo
pensamento volto a tratar aqui. Barbotin diz, em sua obra Humanité de l'
lwmme ( 1970), que o ser humano é uma grande atitude perante a vida.
82
e fecunda atitude global que multiplica, em seu âmbito, as
lhares de pequenas atitudes cotidianas. Então, refletindo sobre a trama
atitudes que compõem a vida, Barbotin encontra e elucida duas
fundamentais que sintetizam todas as outras: a atitude fechada
aberta. Aqui dou a palavra ao filósofo em foco: "A atitude fechada se
pela flexão da cabeça para a frente, o retraimento das
para os membros e dos membros para o trouco, a imobili-
mais ou menos completa. A pessoa desliga-se do mundo e dos
qutros, tende a se eurolar, a se enovelar sobre si mesma. Tal é eminente-
menlte a postura do ser humano que ainda está para uascer. Durante a vida
a criança não vive ainda senão em si e para si, toda entregue ao
.fe•oolhirnellltobiológico preparatório à entrada no mundo" (p. 175). Para
filósofo, a atitude fechada é: concentração so_bre si, iJnobi/ização,
Barbotill observa que o escultor Rodin, ao esculpir O pensa-
''uão o imaginou em pé, de braços, peitos e olhos bem-abe11os;
.escu!lpi1u-o seutado, a cabeça projetada para a frente e o queixo caído para
a mão dobrada contra o braço e amparando a fronte. A posição
da1 e<;táitua de Rodin tem aproximações com_ a postura básica do feto
í>orot<e o corpo tem sua expressão introspectiva". (MORAIS, 1991: 6).
Já a atitude aberta é:. descentração, busca (mão estendida),
· .... n tl projeção. O movimento da vida tlta o set hl!tnano do retraimen-
iouterino e insere-se no mundo das coisas, dos animais e das pessoas.
N<>Vlllnente as palavras de Barbotin: "O tronco distende-se, os membros
So'ltaJn-•;e e conquistam seu espaço gestual; os pulmões abrem-se e a
fllJJçà.o respiratória instaura-se; o silêncio embrionário é rompido".( ... )
a pouco os olhos e os demais sentidos vão abrir-se, acolher as
:mr>ressciesvindas de em volta, conquistar seu campo respectivo" (BAR-
• 1970: 175).
Após descrever-nos de fonna precisa as duas atitudes básicas do
_h<>ment,Barbotin adverte-nos de que, uma vez vivenciadas,elas transfor-
nos ritmos fundamentais de nossa vida: sístole-diástole, ação-
repo,usc>, centrifugação e centripetaçiío de energias. A cada dia, os
llcJra:tJosde sono devolverão ao ser humano a profundidade introspectiva
recolhimento da vida embrionária (ibid., p. 175). E o filósofo pondera
as atitudes corporais identificam-se com as significações espirituais;
de musculatura tensa identifica-se com retraimentos espirituais
quallto o corpo distenso à liberdade de fruir, buscar e
aprender. Ora, nisso vamos vendo uma sabedoria sem racioc!nios que
caracteriza, em profundidade, o viver corporal.
Eis porque os profissionais da corporeidade só têm diante de si
um par de alternativas: ou seguem lidando com o corpo como se este fora
simples coisa burra que se adestra ou despertam para o fato de sermos um·
corpo como forma de estar-no-mundo sensível e .. Se a
segunda alternativa é aceita, o !em que admttlt
comodidade de rotinas e programas mecamctstas a fim de que nucte
longo diálogo de cor_po p!óprio e o alheio. No que
me diz respeito, chamana tsso de espmtuahzaçao do corpo (concordando
com Alexander Lowen, A espiritualidade do corpo, 1991). E é nesse
ponto que a perspectivação do século XXI ganha, no que tange à,
corporeidade, configuração sutil.
André Malraux, com a intuitividade do artista, afinnou
entrevista que, muito provavelmente, o terceiro milênio seria o milêmo
do espírito. Podemos imaginar tudo, menos que um homem como
Malraux tivesse uma concepção simplória de esplrito; certamente o ·
escritor não disse que o milênio vindouro seria tempo de fantasmas .e
fumacinhas imponderáveis, mas época na qual, redimindo-se de _um
dualismo metaflsico que é separação e ruptura, o homen:' a
alma viveme hebraica (a carnalidade bíblica que explodia as frontetrns
entre consciência e corpo). Momento históriCo no qual o ser humano,
superando estreitos quintais ideológicos, q_ue a é_una e
indestrutível - nisto auxiliado pela matriz eptstemtca do umve.n:o
quântico". O universo visto não mais massa de matena
estúpida em expansão, mas como uln grande e pensamento em
expansão. Sim, porque tudo se resume em energta; as
subatômicas revelam a sua condição de não-coisa, não-objeto, mas stm
de densos núcleos energéticos. É bem verdade que a matriz epistêmica do
"universo mecânico" de Newton ainda explica muito da realidade macro-
estrutural do mundo; mas também é verdade que, quando' se mergulha no
mundo subatômico, o que se encontra é um imenso "colchão" de
processos energéticos, nem mais nem menos .. E, en.tão: que
as noções de natural e sobrenatural são tambem
são do mundo e da vida; tudo é natural, mas em dtmensoes e ptanos
vibratórios muitíssimo diversificados. Uns apreensfveis por nossos
84
cáries sentidos e por nossa inteligência tateante, outros, inacessíveis aos.
nossos sentidos e à nossa imediata compreensão.
Nossa grande esperança é que, no século XXI, lidemos com
corpos espiritualizados- no sentido de enriquecidos por todas as nossas
significações vitais e perspectivados em direção a significações que, na
condição corpórea, não podemos constatare apalpar, mas sobre as quais
nossas mentes estarão mais livres para conjecturar e ter esperanças.
Nossa grande esperança é que a máquina sem inteligência 'de bt!!lcartes
se transforme apenas numa lembrança do passado, e o século XXI possa
dar inicio ao espiritual vivido nas atitudes corporais. Mais uma vez cito
Edmond Barbotin: " ... o meu corpo é o ponto de referência em relação ao
qual cada coisa toma seu lugar e toma-se situada; eis-me, pois, transfor-
mado em centro de um imenso circulo o meu ambiente: cada raio seu
define para mim uma perspectiva, e a sua circunferência é o meu
horizome. ( ... )Graças a meu corpo localizado, atraio para mim todos os
pontos do espaço: concentro-os , recapitulo-os, interiorizo-os. Em com-
pensação, tomando impulso dessa posição me projeto em direção a todos
os pontos do meu horizonte. Graças a esse ritmo o universo inteiro reside
em mim, enquanto eu habito todo o universo" ( 1970: 39).
Almejamos que o novo espiritualismo de Malraux liberte o corpo
do negativismo platbnico (corpo prisão da alma); que o liberte dos
desregramentos demolidores e auto-desrespeitantes e, quem sabe, liber-
te-o de algum modo das obsessividades maqulnicas da competição. O
côrpo espiritualizado poderá ser' a principal porta para nossa intimidade
profunda.
l: .
Como conclusão
Segundo Merleau-Ponty, "toda a vida da consciência tende a
.;,colc>ca,r objetos, pois não é consciência, quer dizer, saber de si, senão
enquanl:o se retoma e se recolhe ela mesma em objeto identificável.
Enttretantto, a posição absoluta de um só objeto é a morte da consciência,
fixa toda experiência como um cristal, que introduzido numa
,soluçÊio faz com queelasecristalizede um golpe" (1971: 84). O estudioso
tem se interessar em
objeto de conhecimento (corpo-problema), que se revela a nossos senti-
dos e nossa inteligência, a autêntica base da tematização da corporeidade
em sua globalidade; todavia, "a posição absoluta de um só objeto é a
morte da consciência", no sentido da paralisação de tudo o que o envolve,
a ele se liga, explica-o e ultrapassa-o. Eis porque a nossa reflexão tem que
se aprofundar na direção do corpo-sujeito (vivido, existencializado de
. forma individual e subjetiva); isto é: o corpo que sou é minha realidade
radical porque coincide comigo mesmo; existencializo-o como uma
aventura que sou e que é não repetível; mas um corpo que observo em
mim (ou tenho como corpo-objeto), este é uma realidade radicada em
aparências, dados e situações, tanto quanto os corpos alheios que observo
ou estudo.
Vivenciando o corpo-sujeito, sou conduzido ao que Merleau-
Ponty chama de "corpo-próprio", que é percepção subjetiva de minha
instalação no mundo, mas considerando-se agora que a realidade corpo-
ral não se esgota no organismo, senão que abarca e é abarcada pela sócio-
cultura no seio da qual transcorre minha vida. 'Assim vai se tomando
complexa a reflexão sobre a corporeidade. Vale dizer que na corporeida-
de encontramos a dimensão objetai; esta deve remeter-nos â comphcada
dimensão existencial, como individualização e como integração sócio-
cultural.
Tais ponderações põem-nos de novo perante uma de minhas
afinnações iniciais: a de que, neste momento, dificilmente haverá tema
mais importante para nosso crescimento reflexivo e prático do que o da
corporeidade. Entre dominadores e dominados da sociedade, há situa-
ções mais comodas e outras mais constrangedoras que se configuram na
vivência do corpo. De toda maneira, a dor e a morte são universais, assim
como o prazer e as alegrias. O estertor doloroso e o orgasmo são do
gênero humano, em que pesem as condições mais ou menos constrange-
doras de tal ou qual momento sócio-econômico. Na perspectivação das
décadas vindouras não é difícil visualizannos grande papel a ser desem-
penhado pela consciência corporal fora dos esquematismos dualistas que
rompam o fluxo dialético do viver; e os profissionais da corporeidade, os
que ensinam e preparam bailarinos, treinam atletas, fazem preparação
física, sentirão cada vez mais nitidamente a necessidade da reflexão
filosófica sobre o seu quê-fazer, deixando para velhos tempos o precon-
ceito tolo de que só filósofos filosofam e também desconfiando de seus
86
velhos vícios cientificistas, coisas estas que os têm relegado à posição'
"tecnicões" de um corpo que não conhecem na devida profundidade.
Não quis que este texto fosse sério, no sentido de en1
1
Jertigad
mente acadêmico. Quis que fosse um escrito elaborado a sério no senti c
'
de buscar a sensibilidade do meu presumido leitor para algumas questõ•
que, no que tange à corporeidade, venho a algum tempo levantando. Pa1
isso, senti necessidade de abdicar da impessoalidade: escrevi-o r
primeira pessoa, não descartando certos depoimentos de vida. Bela foi
experiência de tentar tudo isso. O que verdadeiramente logrei? Isso deix
à avaliação dos que lerem estas páginas.
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88
. ll

Leonardo Tavares Martins

O Corpo e O Sagrado: O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade

ORIENTADOR: Prof. Dr. Wagner Wey Moreira

CAMPINAS

2003

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BffiLIOTECA- FEF

W'ICAMP

M366c

Martins, Leonardo Tavares O corpo e o sagrado: o renascimento do sagrado através do discurso da corporeidade I Leonardo Tavares Martins. - Campinas: [s.n ], 2003. Orientador: Wagner Wey Moreira Dissertação (Mestrado) -Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas.

1. Educação Física. 2. Corpo e Alma (Filosofia). 3. O sagrado. I. Moreira, Wagner Wey. II. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física. ill Título.

....... Wagner / / ~~Y~~eira Campinas 2003 .___.lll O Corpo e O Sagrado: O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade Este exemplar corresponde à redação final da dissertação de Mestrado defendida por Leonardo Tavares Martins e aprovada pela Comissão Julgadora em 06 de junho de 2003.::::-----·/ · Orieniadar?rof Dr.. '"-.

' ~~cÍfoli~eira Gallo (Titular) ío ~ úL__. T~a Mara Vieira Sampaio (Titular) J~rJ~~~wf Campinas 2003 .v O Corpo e O Sagrado: O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade Dissertação de Mestrado defendida por Leonardo Tavares Martins e aprovada pela seguinte Comissão Julgadora: Prof Dr. Dra. Prof".

Vll Dedico este trabalho a todos os profissionais da área da corporeidade que têm proporcionado uma vida em abundância àqueles que participam de suas práticas. .

Mark. pela credibilidade e apoio. pelas sugestões. obrigado. pela contribuição efetiva nesta trajetória. obrigado. A meu orientador: Wagner.. obrigado. obrigado. obrigado. Aos Professores: Eder Leal e Paulo Araújo. por terem me ensinado muito. obrigado. pelo apoio. Magrão. pelo apoio e oportunidade. sempre acompanhadas de carinho. por seu desprendimento durante as correções e por suas sugestões. por suas sugestões sempre oportunas. À bibliotecària Dulce Inês L. assim como apoio profissional e emocional. foram muito valorosas.. obrigado. Ao Professor Marcus Vinicius Machado. obrigado. por promover a existência deste espaço. por seu explícito domínio da língua portuguesa. Foram sugestões. por aceitar este desafio e fazer parte dele. Aos professores: Silvio Gallo. agradeço aO Senhor Deus. José Iran e Paulo Vaz. Em especial. mas sempre evidentes. Aos professores: João Freire. obrigado. querido amigo. Ao Eterno e Infinito. obrigado. Seus valores. Alex e Stephanie. minha prima. à Prof' Silvana. obrigado. por terem me ensinado o que é relevante na vida. Aos colegas do Unasp. obrigado. suas atitudes. Ao colega Luiz Carlos Duarte Salgado. críticas e orientações específicas ao trabalho. obrigado. obrigado. pela competente revisão. por permitir que eu chegasse até aqui. Aos meus alunos. num discurso sem palavras. pela inspiração e pela paciência que tiveram. À querida Yara. mesmo distante fisicamente. às vezes. Aos colegas do Laboratório de Motricidade Humana da Unicamp: pelos encontros que foram grandes lições para mim e pelos momentos de estudo. . pelo constante apoio e incentivo. EU AGRADEÇO . Sua postura e seu apoio foram fundamentais. Aos Professores: Euler Bahia. Aos queridos: Jussara. o apoio incondicional e o constante incentivo têm sido fundamentais para mim. Regina Müller. À Professora Màrcia Martins Castaldo. dos Santos Augusto. que sempre revelaram sua competência e por sua constante disposição em ajudar. acolhimento. Suzy Rodrigues e Walter Matias Lima por indicarem o caminho. pelo constante apoio. pelo apoio e incentivo. obrigado. A minha esposa e meus filhos: Marcia. Lucas e Jacqueline de forma direta e indireta. obrigado. obrigado. Tânia Sampaio e Francisco Cock Fontanella. Sinto-me realizado por concluir mais esta etapa e quero repartir minha alegria com todos aqueles que participaram deste processo. incentivo e apoio tão significativos. sem os quais não teria tido condições de concluir este trabalho. A meus pais: Sarah e Leonardo.!X Recebi valiosas contribuições na construção desta dissertação.

O sagrado. a um retomo ao sagrado. um componente que faz entender o corpo para além dos limites impostos pelo mecanicismo.FEF Dissertação de Mestrado (junho/2003) . Corpo e Sagrado não estão. é dada a possibilidade de criar. A conclusão deste trabalho propõe que. Autor: Leonardo Tavares Martins Orientador: Prof Dr. Wagner Wey Moreira Universidade Estadual de Campinas . utilizamos o referencial teórico da Análise de Discurso para identificar as aproximações entre o discurso da corporeidade e o significado da busca pelo sagrado. desta forma. é necessário superar a redução do corpo matéria. de sonhar. distantes. até a percepção de que o conceito de corpo é complexo e sistêmico. de relacionar-se com o Eterno e Infinito. também. podemos identificar no discurso da corporeidade. A partir destas reflexões. O discurso da corporeidade parece ostentar a preocupação por ver o corpo de forma a superar uma visão reducionista de corpo. Ao corpo. pela lei da causa e efeito. Palavras-Chave: Educação Física. pelas instituições. para a compreensão do Todo Corporal. que vão desde a redução da totalidade corporal.XI RESUMO O Corpo e O Sagrado: O Renascimento do Sagrado Através do Discurso da Corporeidade No mundo contemporâneo. o corpo tem sido tratado sob diferentes perspectivas. Assim. Corpo e Alma (Filosofia). aceitando que a abertura à transcendência pode remeter. Este componente nos permite compreender que a redução da distância entre matéria e espírito é aproximar-se do Todo Corporal.Unicamp Faculdade de Educação Física.

the body has been approached from different perspectives. to the perception that the body concept is complex and systemic. Key-Words: Physical Education. by the institutíons and by the law of cause and effect This component al!ows us to understand that reducing the distance between matter and spirit is approaching the Body as a Whole. distant. thus. The body gets the possibílity of creating. we used the referencial of the Analysis of Speech theory to identify the links between the speech on the body and the meaning of the search for the sacred.Xlll ABSTRACT The Body and The Sacred: the Rebirth o f the Sacred in the Speech o f the Body In the contemporary world. accepting that the opening to the transcendent can send. Speech on the body seems to show the concern with seeing the body in a way to overcome a reductíonist vision of it Thus. to a retum to the sacred. Author: Leonardo Tavares Martins Advisor: Prof Dr. of dreaming. Body and Soul (Philosophy). ranging from the reduction of the corporal totality. of getting linked with the Eterna! and the Infinite. it is necessary to overcome the reduction of the body to matter. The Body and the Sacred are not. for the understanding of the Body as a Whole. too. this paper proposes that. As a conclusion. Wagner Wey Moreira Universidade Estadual de Campinas. a component that takes the understanding of the body beyond the limita imposed by the mechanícism.Unicamp (June/2003) . Departing from these reflections. one can identify in the speech on the body. The sacred.

.......2 A Religião e A Instituição Religiosa .......A_l1exos ...............................3........ O Corpo e o Religar-se ao Tra11.. 4 2.......................................................26 3.................................. 5......... ........................ 89 7 ......4· ................................5.................1 O Sagrado . 40 4... 67 5.. 67 5.........X'V SUMÁRIO 1.....2 Corporeidade..... 84 6.............4...4................................................. 59 5... 72 5...4 A Análise dos Textos .................. 5....................... 95 Anexo A................. 27 3............................1 Corpo como Território do Sagrado .. ................ Corporeidade: Corpo e Sagrado ..........:............ 3 2.......... ::>.....41 4. .....2 ........ ...... ...............................Análise de niscurso da Corporeidade .......Texto I: Perspectivas na Visão da Corporeidade Anexo B......................scendente ..... 76 5..... ::>'::! ...... Análise de Discurso e o Discurso da Corporeidade .. .................... 63 5.......1 A11alisando o Texto T -! ........Texto li: Consciência Corporal e dimensionamento do futuro "I"" ..........................2 A .................. 33 4... ::>....4..........1. ................2 Unidades de Significado Extraídas do Texto "Consciência Corporal e Dimensionamento do Futuro" (T-II) ................ A Condição Humana: o Corpo ................................................................. ....... i Aspectos da Corporeidade a partir dos Textos ........................................................... ................................... Apresentação .......... Motricidade e Resistência ............... 58 -3 umaaaes ae ::Sigmncaao.................................... 53 ......Analisando o Texto T-1!.6 O Discurso da Corporeidade e o Renascimento do Sagrado ...... ..................1 O Corpo Historicizado por Foucault: A uiscipiina ..........47 5............. 1 2............................ ................................... 13 3..................5 Aspectos da Corporeidade e do Sagrado ...............3 A11alisando os dois Textos ........... 69 5..3.....1 A A'na 1se a' e n· 1scurso ..................1 Unidades de Significado Extraídas do Texto "Perspectivas na Visão da Corporeidade" (T-1) ................. Referências Bibliográficas ...................................... 78 5...............2 O Corpo na Contemporaneidade .......................... .................................

1 1 APRESENTAÇÃO .

não permite que se consiga aplicar mecanismos que façam do corpo uma simples e bela máquina. porque falar sobre o corpo é falar sobre a existência. a Educação Física tem sido convidada. não permite o controle absoluto sobre suas reações. é falar sobre o lugar onde se constroem sonhos. pois este não traz repetições. intenções.2 A questão inicial aqui proposta é conseqüência do questionamento sobre quais seriam as condições para a existência humana. Proponho esta relação objetivando manter uma unidade com a relação proposta entre corpo e sagrado. . pois este carrega consigo uma possibilidade de incertezas. com a razão que a matéria corporal requer para ser compreendida. portanto. mas é sempre perceptível. faz o diferente. como no invisível corporal. começo a conhecer melhor o termo corporeidade e ver a abrangência e as possibilidades deste conceito ao identificar esta perspectiva na corporeidade. porque contemplar criticamente o corpo não permite o conhecimento de suas possibilidades. alterar. emoções. Com este foco sobre o corpo. optei por um dos temas que me despertam a atenção: a experiência com o sagrado. neste trabalho. próprio de cada indivíduo. Discutir o corpo nos garante prazer e perplexidade. pode-se ousar compreendê-lo mais profundamente. não é seriado. a fé num corpo transcendente. envolvendoo por completo. mas cria. o termo corpo rei da de tem ganhado espaço. que se associa à emoção ao contemplar o sagrado. modificar. damos início a uma reflexão da abrangência deste espaço chamado corpo. ter certezas imutáveis ao se abordar o assunto Corpo. realizações. neste sentido. Haveria algum componente no discurso da corporeidade que poderia indicar uma dimensão espiritual como constituinte do corpo? Como a experiência com o sagrado se mostra próxima ao corpo. tanto no visível. a destacar a questão corporal e. como algo bem íntimo. O termo corporeidade traz consigo alguns valores imanentes e alguns transcendentes e. A que condição se submeteria a existência para que o viver se concretizasse? A existência está condicionada ao corpo. equilibrar dialeticamente fé e razão. pode incluir e excluir. Procuro. a partir destes valores. Também traz perplexidade. por diversos autores contemporâneos. não é igual. Prazer. Dentre os valores transcendentes. A partir da simplicidade da resposta. Não se deveria.

3 2 A CONDIÇÃO HUMANA: o CORPO .

A preocupação em entender o corpo em sua complexidade e abrangência é condição inequívoca para poder identificar o encontro de forças que o constituem. 2. como capaz de realizar infinitas possibilidades. constantemente se constituindo. Por isso. buscar entendê-lo é buscar entender a existência. Pretender entender o corpo e toda a sua complexidade seria ousadia.4 Antes de caminhar no sentido de entender o sagrado e de como este se faz presente ou não na constituição do humano. suas negociações e suas diferentes formas de interação. criações. para então poder ir em direção a uma compreensão da relação entre corpo e a experiência do sagrado e de como o discurso da corporeidade tangencia esta questão.1 O Corpo Historicizado por Foucault: A disciplina Qualquer modelo de compreensão de corpo que induza a uma redução de suas possibilidades faz com que a existência perca parte de seu complexo sentido humano. A partir de um referencial não reducionista para a compreensão deste conceito. sonhos. bem como sua aproximação com o conceito de sagrado. sua constituição através das relações de poder. Como caminhar no sentido de compreender o que compõe a existência? Partir pelo que está dentro ou pelo que está fora do humano para compreendê-lo? Se. preciso ir para dentro ou para fora dele. Ver o corpo em sua complexidade. começo a reduzi-lo e a distanciar-me do local da existência: o corpo. emoções. proponho uma leitura historicizada do corpo. é o primeiro desafio. para entender o ser humano. acontecem inequivocamente no corpo. mas posso buscar conhecê-lo. Todas as realizações. de forma singularmente plural. a partir de bases científicas e filosóficas que não tenham a intenção de supor que a soma de seus diversos . é possível identificar sua constituição na contemporaneidade.

p. 27). Para isto. Talvez. e que ele escapa à história. é indispensável identificar como se dá a disputa de forças externas para constituir a existência do ser humano. A história à qual se refere Foucault não é uma série de fatos que nos permitiria a auto-identificação. (FOUCAULT. nem mesmo deslocamentos passados que lançariam predestinações futuras inequívocas. hoje. p. p. e como chegamos a ele. 1979. a reinserção da análise do corpo na história e a construção de uma concepção contemporânea que identifica uma pluralidade neste lugar antinominicamente singular. perceber que a sociedade tem produzido o corpo ao mesmo tempo em que é produzida por ele e reconstruir o lugar do corpo na ciência. ele cria resistências. ao mesmo tempo. ele é formado por uma série de regimes que o constroem. à qual retomarei ao discutir as questões sobre religiosidade. Pensamos em todo caso que o corpo tem apenas as leis de sua fisiologia. Isto reitera a necessidade de vê-lo como um corpo constituído historicamente. ao mesmo tempo em que nos mostra o mecanismo possível de criação de resistência contra tais poderes. Encontro em Foucault esta leitura historicizada de corpo. há um indício de como buscar compreender o ser humano: "não existe um dado humano que não seja. é necessário ver o corpo historicizado. . 22).5 segmentos nos mostrará a sua totalidade. entender o corpo como objeto a ser capturado seja o ponto de partida para entendê-lo como um espaço recortado e palco de ações e intenções. trazendo uma herança. Em uma citação de Eliade (1969. não pode ser reduzido. A leitura historicizada pode nos fazer ver como o corpo tem sido capturado por poderes e saberes. ele é destroçado por ritmos de trabalho. "A história será efetiva na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. tanto do poder como do saber. 27). 1979. hábitos alimentares e leis morais simultaneamente. um dado histórico". pois isto revela o que representa o corpo. ele é intoxicado por venenos. Novo erro. para ser compreendido em sua totalidade. O corpo. Então. repouso e festa." (FOUCAUL T.alimentares ou valores.

p. que pode ser utilizado. responde. fónnulas gerais de dominação. então. durante a época clássica. no decorrer dos séculos XVII e XVIII. p. Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos." (FOUCAULT. o corpo tem sido objeto de investimentos e que. 1987. Há. se torna hábil ou cujas forças se multiplicam. Apesar de Foucault afirmar que houve. com freqüência. se treina. se modela. p. (FOUCAULT. Encontraríamos facilmente sinais dessa grande atenção dedicada então ao corpo . Mas as disciplinas se tomaram. uma descoberta do corpo como objeto. para corrigir as operações do corpo que o transfonnam em um elemento analisável e manipulável. oferece um retomo produtivo e padronizado. nos exércitos." (FOUCAULT. também. nas oficinas também. com isso. (SANT'ANNA. um conjunto de agenciamentos para disciplinar. 80). que pode ser transformado e aperfeiçoado. disciplinado e controlado e que." (FOUCAULT. ele mesmo assegura que não foi durante o classicismo que se inaugurou tal esquema de docilidade. durante a época clássica. através das instituições sociais. . Houve. 1987. 1987. através de "métodos que permitiam o controle minucioso das operações do corpo. 118).6 No lugar de defender os direitos do corpo. 1987. 118). que. proibições ou obrigações. estava "preso no interior de poderes muito apertados que lhe impunham limitações. 2000. Este é o ser humano concebido como máquina. p. uma descoberta do corpo como objeto e alvo de poder. p. por outro lado.ao corpo que se manipula. que obedece. p.Mas assegura. 118). 1987.118). 117). "É dócil um corpo que pode ser submetido. Foucault trata justamente de historicizar essa vontade crescente de adquirir direitos sobre o corpo e de atrelá-los ao direito de majorar os níveis de prazer. em qualquer sociedade. Nessa sociedade disciplinar se deu a sujeição constante dos corpos. pois pode ser operado e manipulado. (FOUCAULT. Este processo está impregnado com a noção de docilidade.

tanto a divinização do poder. através das guerras santas. desta forma. Esta disputa e o adestramento do corpo como se o ser humano fosse uma máquina produzem uma série de intervenções disciplinares e controladoras que permeia todas as sociedades. p. na figura do soberano. p. Entretanto. portanto. encontramos. não encontramos. A guerra na sociedade soberana não tinha a função de defender um soberano. através do tempo. através de mecanismos de disciplinamento. era imposta pelo poder sobre a vida. podemos identificar intervenções sobre a vida confrontando-a com a morte. No corpo trava-se a batalha de captura. Nesta sociedade. dos corpos. também. as grandes guerras. mas ocorria para resguardar a existência de todos. a relação de apropriação se dava pela escravidão e "o corpo do rei não era uma metáfora. de aprisionamento e de resistência. mas identificamos estas práticas na sociedade disciplinar. estabelecia-se sobre a vida. Mesmo a transição da sociedade disciplinar para o Biopoder não marcaria o fim da . 1988. Na sociedade soberana. nesse tipo de sociedade matava-se pela necessidade de se viver. a lógica do poder. holocaustos e os horrores de grandes proporções.7 Olhando um pouco atrás na história e identificando o que precede a sociedade disciplinar. assim como outras formas institucionalizadas de poder." (FOUCAULT. algo exclusivo da sociedade soberana. nela. encontramos as estratégias de agenciamento de poder. 1979. mesmo em nome de Deus. da propriedade. o direito de se apropriar dos outros. O poder do soberano era a força que detinha o "direito de apreensão das coisas. De fato. Na sociedade eclesiástica. quanto a criação e a prática de rituais em seminários e conventos da sociedade disciplinar. dos corpos e. é possível identificar e nomear a sociedade eclesiástica. da vida." (FOUCAULT. finalmente. Neste sentido. 128). pela morte. A sociedade eclesiástica. mesmo sendo a sociedade soberana aquela que mostrava seu poder pela morte. não sendo. 145). vemos que houve a sociedade soberana. mas uma realidade política: sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia. em seu exercício. Entretanto. no interior de cada uma das sociedades citadas por Foucault. culminava com o privilégio de se apoderar da vida para suprimi-la. vai interferir diretamente no corpo. do tempo.

seus prazeres. cabia a detenção dos acusados. por isto é uma sociedade que atravessa as outras sociedades descritas por Foucault. Neste sentido. enfocando muito mais o corpo. Os súditos ao soberano deveriam estar igualmente submissos ao poder eclesiástico. Na sociedade disciplinar. o foco do poder está centrado diretamente no corpo.8 sociedade eclesiástica. está claramente envolvida com os interesses da instituição religiosa. fazendo uma fusão da sociedade soberana com a eclesiástica. sua entrega ao tribunal e confisco de bens.] o novo exame [interrogatórios durante . a sociedade eclesiástica captura pelo medo e opressão. Neste período da história. São as instituições disciplinares como mosteiros. Na transição para a sociedade disciplinar. o que é perceptível também nas estratégias da sociedade eclesiástica.. o próprio rei se envolve com a responsabilidade de criação de tribunais. Na verdade. sob diferentes condicionantes. seus sentidos. com nomeações e com as condições para perseguição aos hereges e proteção dos inquisidores (Bethencourt. Em muitos casos. mas a sociedade eclesiástica continua exercendo poder. O controle instaurado através da prática da confissão e da penitência no período da sociedade soberana. mas o próprio corpo do penitente. uma relação que está bem próxima da relação de poder atuante na sociedade soberana.. tão característica da sociedade soberana. a intensidade e a natureza do que ele próprio sente. seus desejos. praticando a exclusão e indignando-se com a diferença. conventos e seminários que assumem o modelo disciplinar sobre o corpo. segundo Hobbes (1979). A figura do rei. 2000). que poderiam ser substituídos por interesse da ordem religiosa. estão em questão o poder e o controle sobre o corpo através da sociedade eclesiástica. seus pensamentos. a igreja exerce o poder coercitivo de forma acentuada. a forma de disciplinamento é adaptada às características da época. impondo um modelo de religião. Aos inquisidores. atendendo diretamente ao interesse de controle dos corpos: Não é mais o aspecto relaciona!. é isso que vai estar agora em foco [. são seus gestos. é modificado. Ela apenas se adapta à nova tecnologia disciplinar e continua exercendo poder. exigindo obediência e impondo as normas. através da perseguição aos hereges.

com o máximo de rendimento possível." (FOUCAULT. usada por Foucault (1987) encontra um forte paralelo na história da Educação Física. sem espontaneidade. precisa estar exercitado a fim de poder cumprir com o dever que lhe cabe. disciplinar. 1987. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados. corpos dóceis [---1. é corpo máquina. oculta. Então. . A sociedade eclesiástica atravessa as sociedades identificadas e descritas por Foucault e. enquanto instrumentos de disciplínamento da sociedade eclesiástica... (FOUCAULT. Para poder ser tratado desta forma. cheias de prazer. 235-236). biopoder) com suas características particulares. perde seu encantamento com as atividades acrobáticas circenses. com as técnicas. explícita e até mesmo desejada. para uma atividade institucionalizada. 2001. Assim. a sociedade eclesiástica tende a controlar os corpos através do controle da consciência como meio de acesso a uma experiência religiosa. no qual o sentido maquinal e utilitário predomina. um corpo objeto. não se desenrolarão mais pela infração das leis da relação. p. p 237).(FOUCAULT. mas para que operem como se quer. segundo a rapidez e a eficácia que se determina. ] define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros. Na sociedade disciplinar. nos ritos e mitos. na constituição do significado corporal. p. vai ser um percurso meticuloso do corpo. desta sociedade. no percurso de criação da ginástica. através de suas diferentes práticas de poder. reforçam a idéia de cada uma das sociedades (soberana. mas deverão "seguir uma espécie de cartografia pecaminosa do corpo. ela [.9 confissão]. 2001. pois o corpo. uma espécie de anatomia da volúpia. tendo assim uma saúde que sirva também ao aprimoramento moraL A metáfora dos corpos dóceis. a confissão e a conseqüente penitência. não simplesmente para que façam o que se quer. há uma transformação na forma dos mecanismos de poder. Há interferência direta. através de uma constante e abrangente preocupação disciplinar sobre o corpo. O corpo submisso é um corpo sem o poder de criação. 119).

1987. mas deve estar condicionado a repetições. uma disciplina. 118). 119). utilidade. mas complementar. p. que pode ser transfomnado e aperfeiçoado. o que contempla a idéia de Foucault sobre o papel da disciplina e a conseqüente docilidade do corpo. rendimento. O corpo é. uma força. (SOARES. em si. por estes pólos. Lentamente vai se construindo um deslocamento daquele mundo encantatório feito de plasticidade e magia para os laboratórios de análise do gesto. p. Nesta questão da disciplina. A "disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência).10 O homem-máquina é ao mesmo tempo uma redução materialista da alma e uma teoria geral do adestramento. Deleuze resgata esta questão em Espinoza (1976. ao propor a substituição do corpo como espetáculo por um corpo submisso. risco e alegria. "A ginástica científica já estava sendo considerada nos objetivos de construção de um outro mundo. no centro dos quais reina a noção de 'docilidade' que une ao corpo analisável o corpo manipuláveL É dócil um corpo que pode ser submetido. 1998. 62) Neste sentido." (FOUCAULT. fazer parte de uma festa. assumindo um papel docilizador sobre o corpo. A ludicidade. que pode ser utilizado. 1998." (SOARES. a Educação Física cumpre o papel de ditar ao corpo uma sujeição controlada. pretende estabelecer que o movimento deveria estar sujeito a condições e limites. p. (FOUCAULT. p. p. num processo de mudança da função do movimento e indicando um adestramento do corpo para a utilidade. 119): . Foucault ainda vê uma aparente ambigüidade no uso da disciplina como criadora ou ocultadora de força. dilacerando a graça e espontaneidade. p. O corpo em movimento não pode ser ousado. 1987. magia. A disciplina. para que possa desenvolver e aperfeiçoar o corpo enquanto conjunto mecânico. 57-58). com limites de espaço e tempo. Força que ainda não se conhece em todas as suas possibilidades. A ginástica. onde todo o dinamismo espontâneo seria redefinido. características visíveis do mundo do circo deviam ser abafadas em nome do que se acreditou ser precisão. não é ambígua.

mas já se estabelecia uma preocupação com o tempo. A alta produtividade. Pela adequada composição espacial dos corpos e das máquinas. 1987. suga suas possibilidades e ordena sujeição. depois a caserna. ordenar no tempo. p. uma força disciplinada e controlada. por um lado. Assim. depois a escola. a sociedade disciplinar. que poderia gerar uma força produtiva. (DELEUZE. Esta ambigüidade de forças "estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada. 1992. também. por outro lado.. a freqüência. depois a fábrica. situada por Foucault nos séculos XVIII e XIX. pela sua disposição espaço-temporal. de vez em quando o hospital. eventualmente a prisão. minando sua potencialidade criadora. que é o meio de confinamento por excelência [. Nos meios de confinamento identifica-se a estrutura na qual se encontra a possibilidade de aplicar esta ambigüidade de forças.. falamos da consciência e do espírito. é. as suas relações e. então. quais são suas forças nem o que elas preparam. 219). compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à soma das forças elementares." (FOUCAULT. Mais uma vez. atinge seu apogeu no século XX. ] Foucault analisou muito bem o projeto ideal dos meios de confinamento. a disciplina e o controle corporal não se restringiam aos atos mecânicos. são poderes complementares e não ambíguos. dizia ele. Nem mesmo sabemos o que pode um corpo. distribuir no espaço. 119). tagarelamos sobre tudo isso mas não sabemos de que é capaz um corpo. cada um com suas leis: primeiro a família. pois a disciplina dissocia o poder e induz. mas. a disciplina exercida sobre o corpo na sociedade disciplinar diminui sua própria essência de poder. visível especialmente na fábrica: concentrar. o aumento da aptidão e da capacidade. a essência do devir. p. Assim.11 Espinoza abriu um caminho novo para as ciências e para a filosofia. com a soma das fraquezas individuais. possível obter o máximo de rendimento com o mínimo de desperdício. estabelecendo o poder sobre o corpo através dos espaços sociais: o indivíduo não cessa de passar de um espaço fechado a outro. Estes poderes . Outra aparente ambigüidade desta sociedade são seus dois pólos: o indivíduo e o coletivo.

(DELEUZE." (FOUCAULT. Assim. e é ao mesmo tempo que o poder é massificante e individuante. É que as disciplinas nunca viram incompatibilidade entre os dois. 1979. fazê-las crescer e ordená-las. combinando-as para a produção. o controle disciplinar não consiste simplesmente em ensinar ou impor uma série de gestos definidos. esta é a condição para o controle. pois o corpo ainda aceita ser colocado. mais corporal que o exercício do poder [. ainda reflete esta visão utilitarista de corpo. A base da microfísica do poder é uma unidade categorizada por Foucault como celular. p. é mais fácil se produzirem forças. faz-se o poder. que merece e precisa de adestramento. 130). p. mas a rotina. nada é mais físico. Tais práticas parecem não estar tão distantes de nós. caminhos diferentes levavam ao controle das possibilidades de resistência. cabe a recompensa aos melhores. 1987. constitui num corpo único aqueles sobre os quais se exerce. com descaso. no tempo. 1992. nos detalhes da disciplina. Com estas estratégias. . Nos detalhes reside o segredo da superação. através de um "rigoroso código abrange o corpo por inteiro.]" (FOUCAULT. Assim. Como neste modelo o corpo é tratado como coisa.. sendo que algumas peças podem ser descartadas sem prejuízo. nas especializações. 222). A maneira como o idoso e o portador de necessidades especiais têm sido vistos em nossa sociedade. O exercício do poder. a comparação entre eles e. p. dá-se precisamente no corpo: "Na verdade. O exercício do poder . 147). aliás. com poucas oportunidades. A disciplina existe para que se possam extrair forças. nas localizações funcionais. fragmentado como peça. isto é. peças com defeito. a partir disto. na qual existem peças que se desgastam. alguns privilégios. na distribuição dos indivíduos no espaço. na estrutura do local. movido.12 cooperam na afirmação da força da disciplina sobre a força do corpo e na redução das possibilidades humanas: As sociedades disciplinares têm dois pólos: a assinatura que indica o individuo e o número de matricula que indica sua posição na massa. O corpo era o alvo na sociedade disciplinar. na decomposição do processo. e molda a individualidade de cada membro do corpo. nada é mais material. A disciplina consegue produzir porque primeiro estabelece um controle sobre o corpo. coisa burra. a captura.

citar alguns conceitos que fazem parte deste processo de transfonmação. de confinamento. O rompimento com as certezas e o constante questionamento que deve fazer parte do fazer científico contemporâneo. conduzem à superação da cegueira do unidimensionamento. apesar de ainda existirem algumas práticas como herança das estratégias de dominação disciplinar daquela sociedade. Entretanto. tal como foi no passado? O exercício do poder se dá no corpo? Como a sociedade que sucede à sociedade disciplinar constrói o conceito de corpo? É certo que a sociedade contemporânea já não é tão disciplinadora no sentido da falta de liberdade de cada indivíduo. como veremos a seguir. mas por uma reconstrução no sentido de alternar o reducionismo com possibilidades e pluralidade. mas com a clara intenção de não discuti-los em profundidade. nesta nova sociedade. não por uma mera negação. de pressupostos. uma intenção de ultrapassar os limites impostos por um modelo que hipertrofiou a razão como único caminho em busca da verdade científica.13 sobre o corpo ainda é a maior evidência das relações de dominação. identificamos um processo de transformação de valores. pois correria o risco de desviar-me do eixo central deste trabalho. desde a sociedade disciplinar e seus mecanismos de sujeição ordenada do corpo até aquilo que encontramos na contemporaneidade. Cabe. aqui. com o propósito de contextualízar as mudanças ocorridas. penmitindo ver outras perspectivas de um mesmo fenômeno. O reducionismo imposto pelos moldes da sociedade disciplinar vai sendo superado. 2. I Corpo na Contemporaneidade \ . Há.21 O Algumas questões despertam preocupações em relação ao conceito de corpo na contemporaneidade: o poder ainda é força modeladora de corpo.

Assim. 2001. há uma nova sociedade que não perde de vista a disciplina. Neste trabalho. com características novas. p. faço uma apropriação do termo biopoder de Foucault respeitando seu sentido e intenção originais: Biopoder é a forma de poder que regula a vida social por dentro. e este controle está muito mais presente através de um discurso do que de uma ação sobre o corpo ou do corpo: A idéia de usar o acúmulo de conhecimento produzido por muitas pessoas trabalhando livre e criativamente. exigindo uma obliteração da sensibilidade e da sensualidade. (DELEUZE. Ou. 205). no dizer de Foucault. Na realidade. 215). mantendo assim o mesmo termo 'sociedade' identificado nos outros períodos. separabilidade e lógica -. (MORIN. largo e mais rico. de abandonar os princípios da ciência clássica . Estamos entrando nas sociedades de controle. 1992. estabelece um controle marcadamente sobre o corpo. Desta fonma. A sociedade de controle é uma denominação Deleuziana ao que Foucault indicava que seria uma biopolítica. levou a uma racionalização do corpo. portanto. farei referência ao biopoder com o termo usado por Deleuze. biopoder. mas de integrá-los num esquema que é. em busca da emancipação humana e do enriquecimento da vida diária. proporcionando o avanço. mas que. ao mesmo tempo. mais precisamente. tratase de ligar o concreto das partes à totalidade. O . acompanhando-a. 2000. p. 190). que funcionam não mais por confinamento. mas dentro de um novo contexto. absorvendo-a e a rearticulando. de uma ciência da sexualidade que tece um discurso sobre o corpo para poder evitar uma 'ação' sobre o corpo. pois ele mesmo identifica um novo modelo de sociedade.ordem. Foucault é um dos primeiros a dizer que as sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando para trás. mas por controle contínuo e comunicação instantânea. p.14 [Este processo] não se trata. interpretando-a. o que já não somos. Foucault identifica que há a intenção de captura sobre o corpo. (Lima. Não se trata de opor um holismo global e vazio a um reducionismo sistemático. Apenas uma transformação das estratégias da sociedade disciplinar não caberia na contemporaneidade.

(HARDT. Mas o que ocorre ao que está fora da norma? Esta forma de . vital. centrada no corpo. uma tecnologia que agrupa os efeitos aplicados a um grupo. É uma tecnologia que visa. Como disse Foucault. 2001. pois há dois conjuntos de mecanismos que se articulam com o intuito de se complementarem: um disciplinador e outro regulamentador. p. próprios de uma visão de população. Sobrepondo-se a esta. uma tecnologia em que os corpos são recolocados nos processos biológicos de conjunto. compensando seus efeitos. uma preocupação com a vida. eventualmente modificar. 297). procurando controlar uma série de eventos fortuitos que podem ocorrer numa massa viva. mas na vida. não apenas o treinamento individual. Por isso Foucault aponta explicitamente para esta nova sociedade como biopoder e é Deleuze quem a identifica como a sociedade de controle. 'a vida agora se tomou objeto de poder'. Temos. p. uma tecnologia que procura controlar. (FOUCAULT. É sincronicamente uma tecnologia do corpo individualizado como organismo dotado de capacidades e. duas tecnologias de poder que são introduzidas com certa defasagem cronológica e que são sobrepostas. A função mais elevada desse poder é envolver a vida totalmente. 43).15 poder só pode adquirir comando efetivo sobre a vida total da população quando se toma função integral. a integra e a modifica parcialmente. um controle sobre a vida. um foco no corpo. e sua tarefa primordial é administrá-la. 1999. então. desde o século XVIII (ou. portanto. A sociedade de controle não exclui a técnica disciplinar. que está também no conjunto de corpos. mas a embute. pois é preciso torná-lo útil e dócil ao mesmo tempo. desde o fim do século XVIII). como sendo uma massa. produz efeitos individualizantes. não sendo mais um poder de matar ou de limitar. a probabilidade desses eventos. Esta fomna de poder usa estratégias nas quais tanto o corpo como a vida estão sob controle. Há. que todos os indivíduos abraçam e reativam por sua própria vontade. por outro lado. há uma tecnologia que é centrada não no corpo. em todo caso. manipula o corpo como foco de forças. pois ela estará exercendo. mas um poder de criar a norma. na realidade. mas também um equilíbrio global. Uma técnica disciplinar. portanto.

as maneiras de se alimentar e de morar. não é mais uma relação inquisitória. A origem deste foco é plurívoca e. Há. para este estudo. Por isso há o investimento sobre o corpo vivo e a sua valorização. as velas e crucifixos se multiplicam em formas. tamanhos. alguns são extintos e outros adaptados. na educação. a partir de então. Não é mais uma imposição. na maneira que foram concebidos. a exclusão. Na construção histórica do corpo contemporâneo há. Em nome do sagrado. não é apropriação indevida. mas que ainda busca. por isto há a proliferação das tecnologias políticas que. (FOUCAULT. a rejeição daquilo que foge à norma. Este é um dos dispositivos desta sociedade: criar o desejo e assim capturar o corpo. cores e transcendem para outros objetos. As instituições encarregam-se da vida sem a ameaça da morte. p. tal sociedade se apropria de instrumentos de disciplinamento dos corpos. Ainda se busca exercer diretamente no corpo a sua força. A base de ação da sociedade de controle também tem. as condições de vida. Através destes. mas o corpo se tomou um ser desejante. pela distância entre clero e povo. A peça fundamental deste novo projeto de captura passa a ser o desejo. na música. uma constante venda do signo 'sagrado'. todo o espaço da existência. vai em busca do objeto. pelo púlpito. Esta última é exercida através de uma disciplina que sofreu algumas transformações. no lazer. consegue ser pólo de captura pelo caráter ambicionai que a constitui. a saúde. então. Os santinhos. assegurar o poder. nem é imposta. na política. pela penitência. vão investir sobre o corpo. não são adequados às estratégias da sociedade de controle. 1988. mas é proposta de forma que não desperte rejeição. inequivocamente. Como a dominação não apresenta aparência disciplinar. vemos a reinvenção do desejo e as diferentes entradas do componente 'sagrado' na relação com os corpos. hoje. no vestir. então. como anteriormente. um foco de dispositivos de controle sobre ele. pelo confessionário.16 exercer a dominação permite o racismo. na literatura. seja pelas indulgências. 135). da punição. por trás de seus mecanismos. pela inquisição. Estes dispositivos. pelo silêncio. a intenção de dominação. . mas outros são criados. A dominação não é mais imposta. cabe ressaltar a origem deste foco através da sociedade eclesiástica.

Na sociedade de controle. tocando. O controle exercido pela sociedade eclesiástica não se limita a um conjunto de doutrinas ou a uma instituição religiosa. a escola e assim por diante) que estruturam o terreno social e fornecem explicações lógicas adequadas para a 'razão' da . 1976). também está presente a sociedade eclesiástica e esta consegue. o corpo todo. o hospital. mas é resgatado no ser humano. Enquanto na sociedade disciplinar encontramos uma rede difusa de dispositivos ou aparelhos que produzem e regulam os costumes. Também veremos adiante que outros componentes do humano serão resgatados nesta sociedade. os hábitos e as práticas produtivas (e com isto] conseguese pôr para funcionar essa sociedade. 11 ). por meio de um discurso do sagrado. no social." (FOUCAUL T. O retomo que se dá não é em sentido de retrocesso. uma dimensão tão profunda. e assegurar obediência a suas regras e mecanismos de inclusão e/ou exdusão. mas um resgate da complexidade humana. como uma zona de poder muito evidente. Este componente do humano. criar uma zona de captura. o desejo. que consegue intervir nos sonhos. no fisiológico. a fábrica. através do dispositivo do desejo. no ser humano. pois sempre existiu: "o homem ocidental fora levado a se reconhecer como sujeito de desejo. por meio de instituições disciplinares (a prisão. é um retomo para o diferente. p. respeitando o modelo em que está inserida mas num processo de aparente retomo. O desejo alcança. O retomo é a afinmação da diversidade e da multiplicidade. a universidade. 1984. pois o sujeito deseja pagar o preço da sujeição e estar submisso. através de um novo processo de negociação e venda. A sociedade eclesiástica consegue se moldar aos contornos da sociedade de controle e se mostrar presente. Há um discurso de salvação. no sensível. assim. na qual há um despertar para uma vontade de sujeição. mas é um mecanismo muito mais genérico.17 A noção de sujeito desejante é uma realidade da sociedade de controle. permitindo que o poder seja exercido pelo caminho inverso ao identificado anteriormente. Mesmo que este processo de submissão represente a própria sujeição associada a uma contemplação das necessidades de uma vida melhor: o desejo de ter uma vida melhor no além e também de salvação das desgraças desta vida. não é inserido nele pela sociedade de controle. o asilo. (DELEUZE.

18 disciplina [no qual] o poder disciplinar se manifesta. a partir de um desejo interior.) no objetivo de um estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo de criatividade. Ora exercer o poder. p. adaptar-se.. com efeito. para exercer o poder. sempre no corpo. (HARDT. ] O poder agora é exercido mediante máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de comunicação. pois "somos. há uma oposição à . 56). distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos [. p. a sociedade exerce o poder com mecanismos que não se oponham ao poder sobre o corpo. atividades monitoradas etc.. Na sociedade de controle. quer o poder das organizações. quer o poder de homem a homem. 1992). O poder é. na estruturação de parâmetros e limites do pensamento e da prática. ao mesmo tempo. nunca se termina nada (DELEUZE.. mesmo que este poder esteja na construção de desejos no próprio corpo. quer o poder do Estado." (ASSMANN. sancionando e prescrevendo comportamentos normais e /ou desviados [ . redes de informação etc. neste sentido. em contraste. Esta idéia é confirmada no livro Para uma teoria do corpo humano: Mas o meu corpo é. Neste sentido. reduzir-se. Os diferentes segmentos da sociedade de controle se apropriam da criação do desejo. no meio profissional e na mídia. ] por outro lado devemos entender a sociedade de controle. 42) Por isso. como aquela (que se desenvolve nos limites da modernidade e se abre para a pós-modernidade) na qual mecanismos de comando se tomam cada vez mais 'democráticos'. é controlar os meios de satisfação e insatisfação daqueles cujo comportamento se controla.. Exercitar a criação do desejo é algo presente na educação. mudar. 2001. É possível associar a idéia da sujeição desejada a uma crise das disciplinas. pois o desejo é aquilo que transcende limites e pode fazer o corpo moldar-se. Essa crise propicia a mudança de um sistema fechado para um controle ao ar livre. igualmente. 84). associando o desejo pela liberdade com o controle. p. 1995. a capacidade de controlar o comportamento dos outros. o lugar onde se exerce o poder dos outros.) e os corpos (em sistemas de bem-estar. 1995. cada vez mais imanentes ao campo social. transformar. conquistar. (JANA. seres com necessidades e seres desejantes. lutar.

Segundo Deleuze (1992). Mas os corpos estão igualmente sujeitos a uma imposição do capital. p. o essencial é uma cifra (DELEUZE. produz coisas. através de mecanismos bem diversos. Na sociedade de controle. O funcionário admite o controle na medida em que deseja o desejo da empresa. forma saber. (DELEUZE. Ao invés de moldes distintos. A cifra é uma senha e. mostra-se tanto desejado como necessário. deste modo. O dinheiro também exprime essa mudança paradigmática e não se refere mais a uma medida padrão. Se o poder agisse apenas pela imposição. os corpos não seriam submissos às regras da mídia para possuir e ostentar a superioridade pela posse. que muda continuamente. 223). "Não é uma evolução tecnológica sem ser. 1992. na sociedade de controle. se não fizesse outra coisa a não ser dizer não. deixando a própria vida. você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito. pelo querer interior. alavancas e roldanas na sociedade de soberania e máquinas energéticas na sociedade industrial. Os agenciamentos coletivos que permeiam a sociedade de controle estão presentes na empresa (que substitui a fábrica).19 disciplina imposta. permite-se o acesso ou a rejeição à informação. 1992) ao invés da assinatura e do número existentes na sociedade disciplinar. Se não fosse pelo desejo. Então. Então o meio de aplicar o novo disciplinamento. induz ao prazer. na forma de conquista e ambição. com esta linguagem numérica. há uma modulação presente nas instituições. submisso a este desejo. uma moldagem autodeformante. se havia máquinas simples. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo . mas que de fato ele permeia. provavelmente não seria aceito nesta sociedade plural e transcendente. fazendo parte da vida do funcionário Uá não é mais um operário). uma mutação do capitalismo". moldando-se às suas próprias necessidades para fazer-se como real necessidade. mais profundamente. produz discurso. o corpo. Se o poder fosse somente repressivo. é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não. as máquinas exprimem as formas sociais capazes de fazer nascer e exercer o poder. os corpos estão sujeitos a máquinas de informática e computadores. mas a modulações e trocas flutuantes e até virtuais.

Então. Se quem trabalha com o corpo não se conscientizou de que ele não tenmina em seu limite exterior. além do exterior e do interior. concebida como uma característica e até mesmo como uma necessidade do humano. precisamos compreender que o poder está além da questão ideológica e do centramento no aparelho do Estado. Ao negar-se o interior. o cabelo pode e. 8). p. O poder não é ideologia. Mas. Se o poder fosse apenas imposição. um modelo a ser alcançado. não é uma simples vontade. Mas a sujeição dos corpos não se encerra neste processo. Como conseqüência disto. um corpo tem que ser 'malhado'. exercem um controle infindável de dentro para fora no próprio corpo. a roupa que tem detenminada assinatura custa mais caro e classifica o corpo dentro dela. 216) diz que "num regime de controle nunca se tenmina nada". as forças de controle já o sabem bem claramente. O desejo. uma apropriação adquirida por um preço. Onde poderia estar o foco do lugar de captura na sociedade de controle senão exatamente no corpo? Ele mesmo está em jogo pelas instâncias de controle e acaba sendo capturado pelo exterior. Para compreender um pouco mais deste mecanismo. em certas circunstâncias até deve. com um mínimo de tecido adiposo. Acrescente-se a isto que o saber é igualmente zona de apropriação. tão infonmada e informatizada. sendo concreto e mostrando seus efeitos no corpo. mas é uma conseqüência da fonma de controle pelo poder. O desejo cria. p. o corpo também pode ser capturado pelo transcendente: a espiritualidade. Por isso Deleuze (1992. através do desejo. com contamos bem definidos. ao contrário. pode ser porta de entrada de desejos manipulados. 1979. de . 'tomeado'. no ser humano. (FOUCAULT. no cotidiano. mas prática. neste caso. por isso atravessa a sociedade em todos os níveis. O material precede a vida. num processo cotidiano. mudar de cor. uma sociedade tão avançada tecnologicamente. mostra sua força na invenção do desejo e do saber. hoje. mas. pois a fonmação penmanente e a quantidade intenminável de infonmação existente. seria frágil. permite envolver-se pelo poder através de uma sujeição desejada.20 social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir. captura-se pelo exterior.

de que a todo poder cabe uma relação de resistência. ] "o poder não é onipotente. Mas.21 dominação e de controle. a possibilidade de dar um passo em direção ao devir. em todo o seu sentido complexo. desde que haja uma relação de poder. apesar de também poder exercer o seu oposto. está sujeito a um controle desejado. Nunca somos pegos na armadilha pelo poder: sempre podemos modificar-lhe o domínio. dialeticamente. Esta ambigüidade das instituições se faz existir diante do corpo. p. onisciente.. 337). através da espiritualidade presente na religiosidade. No entanto.. a complexidade e a dinâmica do corpo. sua própria superação são. Foucault (1999. exercendo o poder controlador. afirmam que: onde há poder. em determinadas condições e segundo uma estratégia precisa" [. como também pode ocupar o pólo oposto e ser uma zona de captura e apropriação. ao comentarem a "situação do curso" em "Em defesa da sociedade". O corpo. através da fé. retomo a relação da religiosidade enquanto pólo de resistência. Tratar a relação entre instituição religiosa e corpo. pensando no poder que a instituição religiosa exerce. . É possível identificar. no sentido da captura. na instituição religiosa. suas infinitas possibilidades. seguindo a proposição de Foucault. como uma oportunidade de captura e de controle. suas perspectivas. ao contrário" dizia Foucault em 1978 respeito das análises realizadas em La vo/onté de savoir. pois o poder não é uma potência sem limites. esta tanto pode dar condições para que o ser humano possa sonhar. à transcendência.. como um caminho de resistência.. há sempre resistência. através de temas sagrados. criar e exercer a sua existência. a realizar a sua complexidade. sendo um co-extensivo ao outro: ". A possibilidade de resistência é sempre real num movimento de oposição. Diferentes perspectivas da existência humana podem exercer tanto uma possibilidade de resistência ao controle desejado como também podem tomar-se um local de captura. Assim. pois esta é uma das críticas cabíveis a esta relação. há uma possibilidade de resistência. o ponto de resistência. Alessandro Fontana e Mauro Bertani. da apropriação pelo poder não seria uma grande novidade.

além de se ver que o novo é sempre uma possibilidade real. mas caminho. Mas o que chama a atenção é que. numa redução do humano. profundidade e razão já não é suficiente. Este processo de mudança é um processo corporal. não são distintas. da inovação e da diversidade. fenômeno estético. A religiosidade pode disponibilizar a possibilidade de resistência até mesmo pelo eventual caminho da crise. no corpo inteiro. o ser humano não é ponto de chegada. tal qual no jogo. A mudança faz parte do ser humano. O fenômeno estético proposto está muito mais para a complexidade e conexão entre o corpo mistério e o corpo problema do que para a fonma. Corpo como aquilo que tem altura. Pois ao se jogar não existe o idêntico. pois a crise também pode ser a oportunidade da criação. Ele . de uma esperança através de uma mudança interior (Boff. num trajeto de superação individual. pode ser fonte de inspiração do novo. dá-se no corpo e deve ser compreendida a partir de um instinto de jogo e complementa dizendo que a existência é um fenômeno estético. em busca ao ser mais. o espaço reservado à liberdade de expressão. através dos diferentes modelos de sociedade. mas propõe identificá-lo como momento de criação. a existência.22 A espiritualídade. Estes dois temas são importantes e pertinentes ao se pensar o corpo em sua relação com o sagrado. como possibilidade de resistência. Deleuze diz que a vida. lugar de criação. segundo o qual a criação está para a arte assim como a arte está para a possibilidade de resistência e vemos então o corpo. emoção e relação com o sensível. embora exista um caráter de seriedade e a transcendência dos limites espaço-temporais. mas compõem um todo corporal. aos quais ainda podemos acrescentar o sentido voluntário da relação. identificando. dos diferentes paradigmas. que a resistência esteja associada à religiosidade. A substância corporal não está distante da substância mental. é possível retomar o pensamento deleuziano. o corpo não se dissolve. Isto é possível a partir da superação dos limites da relação causal. nem o clone. por exemplo. possível através da religião. 2001 ). Caillois (1963) traçou alguns paralelos entre a relação do homem com o jogo e a relação do homem com o sagrado. o sentido de alegria. Assim. como prazer. largura. Neste sentido. A estética não é a proposição de um modelo ideal (e irreal).

academias. mostra que elas nos facilitam ver como o corpo foi e é facilmente capturado. (MORAIS. nem organismo.atravessa discursos. porque o ato de criar faz parte da totalidade humana e também porque é capaz de criar resistência. redescobre em si a necessidade de uma visão que o aceite com razão. sempre permeados pelo sentido do devir. menos ele existe por si próprio" (GIL. mas também ressalta que por suas possibilidades sem limites. um processo de dessacralização e de profanação. 1999). Psique e Noos não estão isoladas (MORAIS. cosméticos. como o corpo consegue superar imposições. isto desencadeou. Há o risco de capturarmos o corpo em nosso discurso sobre ele e. que não se reduz ao corpo Problema. . ele se descobre vendo que a razão não é suficiente para dar conta da existência. reduzir a sua abundante existência em si mesmo. (CUNHA e SILVA. ao falarmos mais e mais dele. quando o movimento em direção ao racional parece estar mais forte. 1993). quando a tecnologia e a informação estão dando quase todas as respostas ao ser humano. também. com emoção e com espiritual idade. porque não conhecemos todas as possibilidades do corpo. marcas. neste exercício de resgatar o conceito de corpo. mas caminha no sentido de corpo Mistério. Como o mundo contemporâneo tratou o corpo de forma segmentada. O corpo e sua linguagem simbólica foram induzidos pelo desejo de ter saúde. precisamos entender que ele não é nem máquina. segundo Miranda (2000). metamorfoseia-se e faz sentido em si mesmo como numa carta que se desdobra infinitamente. Moreira (2001 ). pela ocultação do sagrado e pela exacerbação da afirmação do poder e do desejo. a possibilidade de resistência. 1980. possivelmente pela laicização da sociedade. de suas questões sobre sentido. Mas. desarticulando os outros componentes do ser humano. sexo. e resgatar a sua essência. pode ser. Os sinais do sagrado foram perdendo espaço para outros ícones mais racionais e o corpo foi sendo controlado por um discurso de negação da espiritualidade. sobre prazer. Então. ao tratar das metáforas do corpo. num movimento de resistência. Quando a humanidade assiste ao processo de hipervalorização do racional. corpo Mistério porque as relações entre Soma. criando novas possibilidades até então desconhecidas. 2002) nem limitadas. 7). ao estar diante de toda forma de poder. Corpo Mistério. p. "A esta docilidade da linguagem equivale uma violência real exercida sobre o corpo: quanto mais sobre ele se fala.

é ver que a espiritualidade é um de seus componentes. assim. Poder ver o corpo como plural. Dentro desta perspectiva. um templo no qual amigos e inimigos são dispensáveis? (SANT'ANNA. ver no outro um outro eu e um outro particular.24 sobre amar. não apenas para ver o outro. . de tal forma que permita que a espiritualidade contemple a possibilidade de exercer a existência. macio e perfumado. o corpo contemporâneo não deveria se permitir negar sua relação com o sagrado. 2001). um encontro consigo mesmo. acrescidas das elaborações materialistas contemporâneas. perceber na relação com o outro um respeito ético às potências. impuseram uma situação de espiritualidade reprimida. É também um encontro com o outro. 2002. como constituído de si mesmo dentro de um contexto de complexidade que remete ao interno e ao externo. Não é um componente distante mas "basta a disposição de ouvir e escutar a linguagem do corpo como território do sagrado" (MIRANDA. mas.1 08). É um processo de resgate. "seria suficiente que nos sentíssemos motivados a considerar seriamente a dimensão espiritual do ser humano com suas necessidades e exigências. p. 111 ). Esta relação gera questionamentos pois: como fazer com que o uso dos prazeres for'. como constituir coletivos destituídos do espírito de rebanho e. p. sua espiritualidade. Nesse momento. p. 2001. fortificar o afeto por si? E como cuidar do próprio corpo sem fazer dele um exílio confortável. ainda.aleça as potências de cada corpo e o afeto por si sem degradar as potências dos demais corpos? Ou. 111). 13) para perceber que a relação com o sagrado pode ser algo inerente e essencial ao corpo. Ao corpo. 2001. o sagrado parece renascer como componente do humano num contexto de re-descoberta da complexidade humana. onde os contornos do 'si mesmo' não são os limites físicos. no qual temos que considerar que "as toneladas de materialismos herdadas do século passado. nem subordinar-se às potências docilizadoras e controladoras da sociedade. às forças de resistência que ele pode exercer. convém ser o lugar de encontro (BUBER. sua abertura à transcendência." (MORAIS." (MORAIS. ao mesmo tempo. 2000. dialeticamente. p.

ainda podemos incluir o outro-Natureza e o outro-Eterno. dedicamos o próximo capítulo ao estudo do sagrado e da religião. suas abrangências. suas possibilidades e seu contexto na relação com o corpo.25 Pode-se acrescentar ainda: em que medida o renascimento do sagrado pode contribuir para que este encontro com o outro não seja um processo de docilização e de controle do corpo contemporâneo? Neste encontro com o outro. . Para compreender melhor esta relação.

26 3 Ü CORPO E O RELIGAR-SE AO TRANSCENDENTE .

embora sua intenção primeira fosse a de prover a possibilidade de religamento. é algo que não se sabe com precisão como é. 3. Nas palavras de Deleuze: "é preciso ainda construir conceitos capazes de movimentos intelectuais. portanto. está num plano de realizações que ultrapassa o imediatismo presente. não tem limites. Neste exercício filosófico de construção de conceitos. para além de si. insaciável no .1 O Sagrado Nossos olhos buscam sempre novas realidades. Estes três conceitos são o Sagrado. Neste ato de religamento com o transcendente. mas exercer a ação criadora para gerar conceitos que não carreguem a força de dogmas. não pretendo pairar numa reflexão. (DELEUZE. 1992. 152). figura a religião. Não é a concepção de religião como um conjunto de dogmas ou doutrinas. pois o sagrado é o Eterno. Nossos sentidos aspiram a novas impressões. mas como questões problematizadoras. o Infinito e o Invisível. capaz de criar intercessão. entram as instituições religiosas. O infinito do desejo. com suas regras. a Religião e a Instituição Religiosa. proibições. de proibições ou de permissões e deveres. O Sagrado mostra sua proximidade com o humano pelo desejo do ser humano de conhecer o desconhecido." (DELEUZE. de criação de si. satisfazendo a possível condição humana de estar em contato com o sagrado. algo fora de si. Esta busca constitui a necessidade do devir. religar os limites da existência humana à infinitude do Sagrado. p. numa nova leitura do sentido da existência humana. independe de fatores culturais. Este é o sentido da religião. por isso. com um movimento relativo. A busca por uma relação com o sagrado parece constituir o ser humano e. do que do eterno. Para cumprir com este papel. 1992). muito mais próximas do ser humano. dogmas. mas como possibilidade de restabelecer o contato com o eterno e o invisível.27 Há três conceitos que se cruzam e que precisam estar delimitados para não se sobreporem teoricamente. leis. através de um ato meditativo.

Assim também complementa Elíade (1992. p. afirmando que "o sagrado manifesta-se sempre como uma realidade inteiramente diferente das realidades 'naturais'. reduzindo a busca pelo eterno e infinito a algo com limites e circunscrevendo a experiência de transcendência a dogmatismos humanos. do mensurável está presente na condição humana como uma expeliência. corre-se o risco de abordar o falso sagrado (LEVINAS. a relação com o sagrado é um constitutivo ontológico do ser humano. têm proposto. A experiência com o sagrado se evidencia na busca pelo eterno. Devido a isso. busca-se uma definição clara e precisa de algo para poder entendê-lo. não pudéssemos aprender e definir o que seja sagrado. como se. Kujawski. p. não necessitando ser precisamente palpável. embora seja o que está escondido. E o corpo é um território de encontro. Em segundo lugar. porque. Trataremos. 35). real na existência humana. pelo sentir. 1998). como algo absolutamente positivo que se manifesta nos sentimentos. buscamos compreendê-lo como parte do humano. Esta intenção de compreender o que seja sagrado e como o corpo se relaciona com o sagrado. Morais. Pela complexidade e abrangência do sagrado e de suas relações. por isso. infinito e invisível. (MIRANDA. entre outros. o não manifesto. 14). o que está por vir a ser. da relação com o sagrado na perspectiva que Eliade. deve ajudá-lo a contatar com o infinito. fazendo-se. portanto. Otto. a possibilidade de ir além do visível. a princípio." . Para este autor. No entanto.28 humano. A imaterialidade desta relação não descaracteriza a experiência. particularmente como constitutivo sensível do corpo. Otto (1992) trata do sagrado como Mysterium Trememdum. 2000. Em primeiro lugar. 2001). porque tratar de sagrado remete tradicionalmente aos conhecimentos atribuídos à instituição religiosa e às teologias. a experiência com o sagrado está acessível ao ser humano antes que a experiência da instituição religiosa. (BINGEMER. A questão da religião e de sua relação com o corpo será abordada adiante. requer uma visão não dicotômica e não preconceituosa do ser humano. do racional. em meio à nossa herança de hipertrofiamento do racional. antes que os dogmas e. Ousar compreender o conceito de sagrado parece estar além do possível.

o bezerro de ouro representava o sagrado. apesar de não mensurável. o saber. através da ruptura da homogeneidade do espaço. um objeto qualquer deixa de ser ele mesmo e remete. 7) chega a afirmar que "a realidade na qual se suprime a dimensão do sagrado é realidade incompleta e mutilada" e Brito (1996. este contato viabiliza novas experiências e possibilidades fundamentais na concepção abrangente de ser humano. representando o imaterial. simbolicamente. o invisível. num sentido não reducionista de corpo. a outra coisa que não é ela mesma. o profano. p. na experiência com o sagrado. embora Eliade (1992) mencione que o lugar sagrado guarda para o homem não devoto uma qualidade excepcional. Entretanto. no mesmo tempo. a experiência com o sagrado propicia a experiência do jogo simbólico. Assim. para Moisés. há a simultânea dualidade entre sagrado e profano no mesmo objeto. é o olhar de cada indivíduo que provocará reações conseqüentes de uma experiência com o sagrado. Nesta citação. pois integra o mundo sensível . É possível identificar esta relação dialética entre sagrado e profano fazendo-se presente na experiência corporal. mas representa uma experiência sagrada. ou não. perceptível. É possível identificar um exemplo disto na história de Moisés. Assim." O sagrado requer a sua mantfestação. sua revelação.29 Para identificar. Para o povo. inerente à sua constituição. sem deixar de ser aquela mesma matéria. no Antigo Testamento bíblico. algo real e particular ao ser humano. Na hierofania. o poder. não são determinados pela coisa em si. p. com a missão de re-ligação de todas as coisas. Estes valores também se aplicam ao objeto e ao lugar sagrado. propiciando a criação e a imaginação junto com a materialidade do reaL Viver perto do objeto sagrado desta forma aproxima o imaginário da realidade. pois seus valores não são intrínsecos. vendo o invisível e sentindo a eternidade. o mesmo objeto simbolizava a negação do sagrado. um ato profano. Esta relação é sempre corporal. Um objeto não tem em si um poder sagrado. 27) retoma a questão dizendo que o ser humano é "o único ser ético da criação. Kujawski (1994. mas pela apropriação que se faz das coisas. O sagrado e seu oposto. do tempo e da realidade absoluta. Por isso ele derrete aquela imagem e mistura o ouro derretido na água para o povo beber. estes se prostravam e adoravam aquela imagem. à qual Eliade (1992) chama de hierofania.

defrontamo-nos com alguns temas que se mostrarão relevantes ao traçarmos os pontos de aproximação e de afastamento entre o discurso da corporeidade e o conceito de sagrado. na realidade. o caos se alterna com a organização e o sagrado interfere organizando a ansiedade causada pelo caos através da racionalidade da organização. um recriar. O ser humano. de vencer os limites. renegando a posse do que é material em favor daquilo que é eterno. por sua vez. mas potencializa a vida e a possibilidade criadora e superadora. nesse simbolismo. uma doação material ao infinito. Abordaremos alguns destes temas tais como rito. de vencer o profano. mistério. em sua riqueza simbólica do sagrado. vê. dando novos sentidos ao corpo. que. já o corpo oferta é a maior prova de abnegação. uma proposta de um constante renovar. da transformação do caos em cosmos e. superando-se o impossível pela esperança e vendo a recriação como ferramenta humana para a superação. no sagrado. Ao tratar do sagrado. ou seja. A dualidade equliíbrio e desequilíbrio encontra no ato criador a possibilidade de recomeço. 2001). Essa sujeição. imerso no recinto sagrado. O sagrado é real e traz consigo a noção de potência. Há. num movimento de resistência. templo. o corpo é tanto altar como oferta. o mundo profano é transcendido e o corpo passa a ser o lugar de passagem dessa experiência. integra o mundo do real. 1998). Esta sensação é discutida neurofisiologicamente através das relações entre as funções cerebrais e as experiências religiosas em momentos de oração e meditação. dando um sentido de vida mais intenso do que os contornos da atual realidade. O corpo altar é aquele no qual tudo é santificado. espaço e tempo. no altar. no qual o próprio corpo é oferecido como prova de sujeição ao santo. Esta abertura ao desconhecido se faz concreta no corpo. O rito. de apropriar-se do desejo e fruí-lo. sente que. de desfazer sua condição atual e produzir novas existências. (VALLE. como possibilidade de vencer o material. apropriando-se de um território. A sensação de superação que a experiência com o sagrado oferece referese à possibilidade de ver o infinito. Estas . um espaço sagrado como a reprodução da criação. à vida material. não assujeita. ali. (NEWBERG. material ou imaterial.30 da experiência como entrada para o mundo das idéias. É uma relação corporal e transcendente. Assim. para transformá-lo.

92). 1982. lugar sagrado e consagrado para a relação com o divino. assim também o discurso social desta busca de comunhão não é necessariamente verbal: As danças que se realizam nos rituais religiosos são entendidas como discurso não-verbal nos quais o corpo em movimento é representação da intimidade com o sagrado. na figura de Gandhi. o corpo é o próprio discurso. Este conceito se materializa. O templo. 2001. onde há isenção da corrupção terrestre. 69). o corpo se faz evidentemente presente e por inteiro nesta comunicação com o sagrado. É ontológico. vai além de uma construção ou imagem santificada. 1982. lugar de revelação. o tempo também não é." (ELIADE. Embora o templo seja o local público e "a cooperação seja necessária para desvendar objetos sagrados" (MALINOWSKI. p. nem homogêneo nem contínuo. participando do convívio humano. Se a comunicação pessoal com o sagrado não precisa ser audível. pela negação da força. p. que. em pessoas. tendo o templo como palco de uma dramaturgia sacra. (MALINOWSKI. outro tema considerado ao tratar-se do sagrado. de tal forma que é possível identificar pessoas lutando por questões humanitárias ou ecológicas sem apropriarem-se de armamentos. (MULLER. deuses e mortos. mostrou uma força muito maior. representa a obra dos deuses. mas usando o próprio corpo como oferta por determinada causa. local de habitação divina onde humanidade e divindade se encontram.31 metáforas se corporificam em diferentes formas religiosas. p. Assim. Através da perspectiva do sagrado. revelando que a quantidade de músculos ou de poder bélico não são suficientes para traduzir a força. O sagrado pode materializarse em bens. grande parte da revelação religiosa ocorre na solidão". não se esgotando em cada . 61). neste discurso não-verbal. O tempo sagrado é reversível. para o homem religioso. o tempo e o espaço ganham uma nova realidade: "Tal como o espaço. Este misto de pessoalídade e de comunidade no templo reforça tanto o caráter individual da comunhão quanto o caráter social. onde ocorre a comunhão entre os homens. 1992. retomando um tempo mítico primordial. p. em locais. entre outros exemplos. 59). isto não excluí o caráter pessoal da revelação: "embora quase todas as cerimônias se efetuem em público.

que impõem limites e preconceitos. sim. o situa além das determinações e das oposições do universo do discurso. p. (GUSDORF. no sentido castrador. renasce a valorização do espiritual. através dos mitos. p." (ELIADE. ainda é abstrato para o homem contemporâneo ocidental. O mistério do sacro é. opressor. mistério e não problema. um renovar. Este mistério não pode ser percebido na racionalidade apenas e é interessante notar que. reversível. mas.e o Homem não pode viver no 'caos' . mobiliza-nos e seduz em direção à sensação do absoluto. 1960. de cada vez.é o resultado de um processo dialético a que se pode chamar manifestação do sagrado. o passado. o ser humano se encontra nesta experiência com o sagrado. Este desejo de retomo. uma qualidade trans-humana. num aspecto paradoxal de um tempo espiralizado. faz romper o limite cronológico. com o declínio do absolutismo do racional. pois. São estes elementos. 1969. a necessidade de harmonia também compõe o viver.32 reencontro com o mesmo tempo sagrado vivido. "não é a comemoração de um acontecimento mítico. que oferecem um caminho de superação do caos ao manifestarem o sagrado. Por isto o sagrado é. dando a oportunidade de se fazer eternizar o viver sagrado. não como ordem. 485). Assim. 69). O sensível nos atrai. Esta idéia do eterno presente. 10). O tempo litúrgico apresenta. pois a ordem também pode ser caótica. com o metafísico: "o sobrenatural encontra-se constantemente encolhido atrás do sensível e tende sem descanso a manifestar-se através dele. o de uma ambivalência. também." (ELIADE. 101). transcendente e infinito. existencial e não cronológico. mesmo sendo visível em nossa cultura cristã no calendário de festas religiosas. pois é um tempo atemporal. pelas festas religiosas se faz um renascer. todo ritual mítico evoca a re-criação do evento para o momento presente. evocando. "Um mundo com sentido . Através do sensível. Embora o caos seja um componente da vida. impregnado por imediatismos e racionalismos exacerbados. 1963." (Caillois. este reencontro com o divino. mas como condição de superação para encontrar um sentido . em seus intervalos. ritos e símbolos. no presente. trabalhando no imaginário e no real do ser humano. p. 1992. ou antes de uma plurivalência que. sua reatualízação. p.

1985) partindo da nossa percepção do sentido real do conceito de religião. Pode ser 'devoção ao verdadeiro Deus'. e assim.2j A Religião e a Instituição Religiosa I Pensar no sagrado nos faz pensar. para nós. então. criar um conceito que esteja mais próximo possível do sentido reaL É necessário destacar que o sentido real é. 22). Por isso. 3. em religião. 'fanatismo' ou 'lavagem cerebral'. 'rezar um terço'. mas também 'uma muleta emocional'. pois a realidade material se mostra falsificável de acordo com a perspectiva do observador. pois esta relação permite que o homem faça sua trajetória de existência em direção ao ser mais. entre outras coisas. p. mas também pode significar 'exposição social'. pela busca de uma relação com o sagrado. Apesar de lamentar a ausência de outra palavra para designar a experiência com o sagrado. 'ganãncia'. superando seus limites e exercendo a corporeidade em toda a sua complexidade. Isto é possível. Entender este termo mostra-se complexo. pois pode significar 'ir à igreja'. (PADEN. Eliade (1969. carrega-nos de julgamentos positivos e negativos. Um dos problemas iniciais ao estudar religião é que esta tem sido uma lente para ver o mundo. 9) complementa dizendo que: . 'amar o próximo' ou até mesmo 'ter um estilo de vida'. É um termo ambíguo que pode estar carregado de significados secundários. 'crer no alcorão'. tentar vê-la como um componente do mundo. vejo a necessidade de identificar como tem sido tratado por diferentes autores e. também. 2001 < p. criamos a ilusão da realidade (BLIKSTEIN.33 na vida e no viver. Com o intuito semiológico de que a palavra religião transforme-se em coisa. mais um sentido atribuído pelo próprio observador do que um sentido imanente do objeto estudado.

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talvez seja demasiado tarde para procurar outra palavra e 'religião' pode continuar a ser um termo útil desde que não nos esqueçamos de que ela não implica necessariamente a crença em Deus, deuses ou fantasmas, mas que se refere

à experiência do sagrado e,

conseqüentemente, se encontra relacionada com as idéias de ser, sentido e verdade

Nas culturas primitivas, a própria vida era envolta por atos religiosos, pois a alimentação, a vida sexual, o trabalho, as relações sociais possuíam valor sacramental. (ELIADE, 1969). Embora o homem contemporâneo tenha perdido esta relação de proximidade entre o cotidiano e a prática religiosa e exista uma aparente incompatibilidade entre toda a tecnologia da vida atual e uma prática de fé, existe "uma série de fenômenos aparentemente não religiosos nos quais se podem decifrar novas e originais recuperações do sagrado." (ELIADE, 1969, p. 11), pois este faz parte do viver. Então, o sagrado se exterioriza, de alguma forma, através da instituição religiosa, ou não, mas sempre através da religião. Convém, aqui, retomar o conceito de religião. Religião apresenta tanto o sentido de uma religação (relígare) com o eterno e infinito, estabelecendo possibilidade de transcendência, como o sentido de uma releitura (relegere) da vida, que permita um renascimento constante e que, portanto, seja considerada além dos aspectos dogmáticos, sectários, impondo limites, proibições e obrigações. Por outro lado, a relação com o sagrado não passa necessariamente pela instituição religiosa, pois este é um espaço construído muito mais sobre os limites do que sobre sua superação. Ao se pensar na possibilidade de um renascimento do sagrado através da Instituição Religiosa, dois tópicos devem ser considerados. Primeiro: a instituição religiosa pode exercer seu poder como Potência de captura, através de um forte controle sobre os corpos e também pode permitir a releitura do sentido da existência, exercendo sua possibilidade de resistência. São pólos opostos de uma mesma realidade: a captura e a resistência. A instituição religiosa tem-se mostrado como meio de aproximar-se tanto de um pólo como de outro, não cabendo uma leitura simplista da instituição, atribuindo-lhe apenas um papel social. Segundo: parecia pouco provável que o início do século XXI assistisse a um renascimento dos valores trazidos pelas instituições religiosas. Sendo que os últimos séculos foram o palco para o crescimento

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do racional, parecia-se excluir da zona de valor a percepção, o sensível, o emocional e o transcendente como possibilidades crescentes na sociedade. Desta forma, parecia pouco provável assistirmos às conseqüências de uma relação com o sagrado através de instituições religiosas neste início de século.
[Entretanto] quando parecia que as questões religiosas seriam relegadas a um segundo plano, e mesmo desapareceriam, pelo avanço da ciência e das tecnologias, explodem fenômenos religiosos de grandes proporções que parecem apontar pare um reencantamento do mundo. (LACERDA, 1999, p.128).

Este fenômeno é possível pelo fato de que o saber científico positivista, embora quantificável e sujeito a provas e testes, não preenche o vazio das questões essenciais do homem, de que o saber sobre o sagrado, que não é laboratorialmente provado, pode consolar e dar respostas às inquietações ontológicas inerentes ao ser humano. Então, a recuperação das dimensões da religião é extemada, também, pelas preocupações da existência humana com sentido, o que reforça a idéia de que a religião precede a instituição religiosa. Então, a redescoberta da importância da natureza, a ênfase no viver o presente e a preocupação com questões sociais são exemplos do renascimento desta releitura da vida, como conseqüência do processo de religamento com o sagrado. Nota-se assim que o fenômeno da busca de uma relação com o sagrado apresenta uma complexidade, pois pode materializar-se em preocupações ecológicas, em atos de piedade, em um encontro consigo mesmo e até em dogmas e doutrinas. Parece haver um momento em que há a necessidade de encontrar sentido para a vida ou para outros questionamentos da existência, tanto no sentido local, no qual a salvação pode ser representada por alimento, restabelecimento da saúde, superação de conflitos ou pode estar relacionada ao sentido cósmico, buscando alguma relação com outras formas de existência (Tu Eterno - Deus). Nesta relação, há uma busca por sabedoria, força, um novo olhar, novos valores. Isto é ser religioso, quando a busca por uma relação com o sagrado é reativada. A grande questão é que este lugar de busca é institucionalizado e, portanto, não está isento de interferências pessoais baseadas em interesses pessoais ou de pequenos grupos. Por isso, a instituição religiosa consegue

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exercer, com muita facilidade, seu poder de captura, com estratégias de controle que estão adequadas aos moldes da sociedade de controle. A instituição religiosa sempre soube moldar-se ao modelo de poder político e isto não é perdido no século XXI, por isso denominamos a sociedade eclesiástica como um foco de poder que atravessa a história. Assim, a instituição religiosa carrega um sentido ambíguo, pois pode exercer seu poder de controle, mas também pode ser a possibilidade de resistência, ao mostrar os caminhos de transcendência e de superação. Na construção do conceito de instituição religiosa, tomamos o pensamento de Durkheim (1989, p. 82) que, no entanto, faz uso do termo religião:
Quando certo número de coisas sagradas mantém entre si relações de coordenação e de subordinação de maneira a formar sistema com certa unidade, que não entra em nenhum outro sistema do mesmo gênero, o conjunto das crenças e dos ritos correspondentes constitui religião.

Instituição religiosa é, então, o lugar fechado, construído, que pode remeter ao profano, mas que também pode remeter ao sagrado, pois, na classificação das coisas que a instituição religiosa faz, há sempre a representação de dois gêneros opostos relativos ao sagrado ou ao profano: a salvação e a perdição, o permitido e o proibido, céu e inferno, Deus e diabo; pode ser captura ou resistência. Se esta distinção de opostos entre o sagrado e o profano não basta para definir o fenômeno religioso, pelo "menos fornece a pedra-de-toque que permite reconhecê-lo com a maior segurança." (CAILLOIS, 1963, p. 19). Esta dualidade presente na instituição religiosa e o caráter simbólico e transcendente, imanente a ela, revela que a experiência religiosa pode ser a estratégia de resistência ao controle de uma sociedade racionalizada: "a pluridimensionalidade da experiência religiosa interdiz toda esperança de a reduzir á obediência de uma intelígibilidade discursiva, seja ela qual for." (GUSDORF, 1960, p. 485). Nesta perspectiva, a instituição religiosa pode ser o caminho para autenticidade, liberdade e criatividade (HALUZA-DELAY, 2000). A instituição religiosa pode ser este caminho, por ser uma possibilidade de encontro com o sagrado, como alternativa à imposição do reducionismo racionalista que descaracterizou a complexidade humana e corporal.

através da instituição religiosa. não só o pensamento. Esta recriação do mundo ou ressacra/ização do mundo (ABRAHAM. por exemplo. A religiosidade. se tomar uma das principais forças de desmistificação das formas alienantes de absolutização presente na realidade social e na própria religião. mas também seus afetos e desejos. Há. 1994). Mas. abarcar toda a pessoa: não apenas seu corpo e as idéias. vai além de um caminho de possibilidades diante da existência humana. assim como com os outros aspectos que compõem a corporeidade. mas consegue estabelecer relações entre o visível e o invisível. evidências de que a espirítualidade religiosa tem influenciado vários aspectos da saúde humana (HAMMERMEISTER. de transcendência. podendo aliás. possível pela religião. Esta teia de relações que interagem no corpo através da religião. atravessa todas as fibras da pessoa e as eletriza da cabeça aos pés. a religião. dentro da estrutura religiosa. enquanto forma de mediação entre . Por isso. costumes. 57). é compreendida pelo fato de a religião. o fenômeno da busca de uma relação com o sagrado é complexo e muito próximo ao corpo. de superação e. estilo de vida e dizer que é exclusivamente local de captura de corpos é tão insuficiente quanto imaginar que é exclusivamente local de criação. 1999. mas também seu agir. mesmo inserida numa social condicionante. como também tem-se evidências de sua relação com o restabelecimento da saúde fisiológica. socialmente e fisiologicamente. numa palavra. ao trazer consigo a questão da espiritualidade. É por isso que a dicotomia entre o sagrado e o profano se revela. 16). 1996). p. ponto de resistência. pois há relações diretas com a máquina humana. 2001). (CRESPI. quando é levada a sério. p. embora possa algumas vezes ficar aquém. portanto. no sentido de ir além. A reHgião é penetrante e onicompreensiva. diferentemente das outras atividades. 1996). Reduzir o conceito de instituição religiosa à determinação de valores. {MONDlN. 1997.37 A instituição religiosa. (LANDIS. a instituição religiosa não é apenas uma tradução particular da fé (BRITO. como a dualidade de possibl!ldades entre resistência e captura. atuando psicologicamente. abre para horizontes de sentido relativamente autônomos com relação à realidade social.

ao roubar o sensível e aquilo que não é mensurável. mostrando a necessidade da reconstrução de valores e ações. 2000. A própria construção de dogmas e normas rígidas. No entanto. 1994) e pode acabar tomando-se um meio de apropriação e captura. p. atualmente. A corrupção pela ganância. É pela conexão com o sagrado que a esperança de superação das angústias herdadas dos últimos séculos preponderantemente racionalistas e mecanicistas se faz reaL Existe.enquanto um reencontro com o sagrado . oportunistas. produzida socialmente.38 finito e infinito. pois a instituição religiosa pode burocratizar o mistério (Kujawski. A instituição religiosa tem assumido esta possibilidade de transformação ao abordar questões ecológicas e sociais. é possível perceber com maior clareza a urgência de uma mudança de postura e de uma síntese do conhecimento que inclua a visão espiritual. a imposição de mentiras numa pregação sobre a verdade. a exclusão por gênero. faz com que se perca o caráter comunitário. A possibilidade de exercer o poder e a dominação sobre a sujeição desejada de corpos submissos também é uma deturpação de crescimento individual através da instituição religiosa. Atualmente. 1996) . geradora de atitudes irresponsáveis.revelando-se numa reintegração do finito com o infinito. ao invés de uma fronteira de resistência. têm contaminado o conceito de instituição religiosa. criando longínquos atalhos que fazem nunca chegar ao destino. g!obalizantes. do cronológico com o eterno. num contexto perto da realidade humana. 89). na tentativa de reverter o processo de dessacralização da vida e recriála. . do real e do possível com o ideal. capaz de diferenciar as necessidades culturais e regionais. por raça e por recursos financeiros mesmo falando de igualdade. (CAVALCANTI. a religião supera tanto o religara . vai além de uma instituição humana. predatórias e antiéticas. um ópio desejado. uma consciência profunda dos prejuízos ocasionados para a humanidade pela estreita e incompleta visão mecanicista da realidade.como um ato interior de recolhimento meditativo transcendente. é necessário ter claro que a instituição religiosa é um lugar com limites e estes limites podem interferir sobre a possibilidade de transcendência do ser humano. numa nova leitura da vida .quanto o relegare (VALLET. Nesta perspectiva. do corpo com o cosmo.

Vale usar como exemplo a história de Ramiro Reynaga. por outro lado. por ocasião da visita do Papa àquele país em 1985. p. Ele entregou ao Papa uma carta na qual. nem justiça. a possiblidade de viver toda a corporeidade numa vida em abundância. tem estado.39 O cristianismo. que evidencia-se tanto como resistência como captura. um líder indígena da Bolívia. 1998. O Papa nada pôde dizer. Ela traz consigo a possibilidade de oferecer ao homem a ação de criar. dizia: 'Nós. em todas as suas formas. uma língua. 76). índios dos Andes e da América. Esta aparente contradição é a realidade da instituição religiosa. se impôs à América. com força. através da religião e. usando para isso mecanismos de um suposto religamento. nem paz. uma religião e valores próprios da Europa. decidimos aproveitar a sua visita para devolver-lhe a sua Bíblia. . Desde a chegada de Cristóvão Colombo. A espada espanhola que de dia atacava e assassinava o corpo dos índios. É possível identificarmos tanto a possibilidade de uma ação de captura e dominação quanto a possibilidade de resistência na instituição religiosa. porque eles necessitam de seus preceitos morais mais do que nós. de resistir. Santidade. de noite se convertia em cruz que atacava a alma índia'. tome de novo sua Bíblia e devolve-a a nossos opressores. submeter. pode exercer o seu inverso e aprisionar. em nome dos indígenas. Por favor. contaminado pelo exercício do poder. Destacar a relação dialética em que a instituição religiosa está inserida não é negar que o sagrado pode materializar-se nela. de transcender. uma cultura. em suas diferentes formas de instituição. porque em cinco séculos e!a não nos deu nem amor. criar desejos para poder exercer um controle mais efetivo. roubando-lhe a liberdade e oprimindo o ser humano. Teve uma atitude digna: chorou_ (BOFF. o lugar do devir.

40 4 CoRPOREIDADE: Corpo e Sagrado .

resistência a todas as formas de controle e dominação. mantê-lo sob controle. a necessidade de uma relação com o sagrado não existe por si só.1 Corpo como Território do Sagrado O corpo tem sido território. o seu espaço de manifestação não é necessariamente institucional nem cosmológico. quebrando os limites e permitindo ter consciência da importância. Neste sentido. também. muitas vezes. Ver a busca por uma relação com o sagrado como constitutivo do corpo é ver o sensível. a motricidade. pois a instituição é. resistência à lógica do mercado na esfera da existência. perde seu sentido de . do devido respeito e da complexidade do corpo. para poder criar nele desejos e. assim. Resistência ao entorpecimento dos sentidos. do que abrindo-lhe as possibilidades de transcendência. conforme tratado na perspectiva de Foucault. podendo. o corpo perde sua vitalidade. é objeto de disputa de forças. Este deveria ser o sentido de um corpo que se percebe espiritualizado e que se permite ser território do sagrado.41 O corpo. um local de disputa de forças. de canalização de poder. a razão. o local onde é possível haver resistência. num espaço inquestionavelmente complexo. O atributo de ser corpo e sua intrínseca motricidade nos dão a possibl!idade de exercer resistência. de superação de limites e barreiras. O corpo em busca por uma relação com o sagrado pode ser pólo criador em seu trajeto de relígação com o eterno e infinito. ser despotencializado pelo espaço institucional. Por outro lado. ao ser compreendido como posse de alguém ou de alguma instituição. 4. Através da resistência se dá o momento criativo. a possibilidade de viver em abundância. não no sentido de perda de espaço. Todos estes fatores são características do sagrado. Mas é. inclusive. não tem vitalidade intrínseca. impondo muito mais um contmle ao corpo. a emoção. resistência à homogeneização da percepção. o momento de renovação. mas no sentido de conquista.

por isso. percebe-se como agente histórico. . é a possibilidade de criação. não é ver sua entrega para a posse de outro. A relação de conquista de território continua bem evidente. como possibilidade. ver o corpo território. em direção ao corpo. Estas forças presentes na sociedade. como palco de conquistas dos outros e de instituições é insuficiente. ele é resistência. de um estilo de vida. percebe-se como resistência e. A falta não é o espaço vazio para ser completado com uma posse. pois esta precede a transcendência. de uma instituição. assim como dos outros objetos. Este modelo de corpo-território tem sido utilizado nos diferentes segmentos da sociedade. do outro e do mundo. é o momento de superar as certezas e os limites e. não é algo que o corpo tem. era um território para ser docilizado. caminhar em direção ao eterno e infinito. A sociedade soberana tinha a posse do corpo. o corpo é livre para Ter. como espaço e tempo.42 superação. mas é a oportunidade do salto em direção ao desconhecido. Esta força de resistência não é uma posse. mas é ver o corpo espaço. por ter consciência de si. não conseguem extinguir a possibilidade de resistência que o corpo apresenta. sem resistência. O corpo até compra esta entrega. pagando um preço de castidade. Lugar de conquistas. que exerce a sua existência em direção ao eterno e infinito. pois as estratégias de marl<eting explícitas e implícitas (num bombardeio subliminar) nos faz interpretar que a intenção é que o corpo tenha um produto ou use uma marca ou utilize um determinado discurso e assim ostente que é um território e posse de alguém. Há um poder exercendo sua força na direção do corpo. a um processo de ocupação-entrega do território corporal. perde sua graça para atender às necessidades e desejos do outro. A sociedade de controle permite os desejos e sonhos que sejam convenientes às instituições. consegue identificar a falta. para que este se entregue. coisas impossíveis nesta existência para quem se prende aos limites. A sociedade eclesiástica também vê o corpo como território. às certezas. O corpo território do sagrado é consciente. Então. Ver o corpo como território. de um pensador. às conquistas de território. preço de sujeição. A sociedade disciplinar exercia seu poder sobre o corpo da mesma forma que exercia sobre as máquinas.

fechado. o seu espaço. p. Quais são os limites do corpo? Corpo sem limites é o corpo território do sagrado." (LOWEN. segundo. afirmando que há. 2) Na apropriação do termo corporeidade. no próprio corpo. fazer uma atualização ou. cercado. é buscar vê-lo em sua pluralidade. assim. de realização. 1) Perceber. 13). identificando o sagrado como um constituinte sempre presente. Miranda (2000. de resistência. sem. ser mais. mas é espaço infinito e tempo eterno. Neste processo de resgate da multidimensionalidade humana no corpo. nenhum portador de deficiência tem o direito de julgar-se impossibilitado de ser território do sagrado. ter mais. Diz mais o autor. que é de desintegração de sistemas. Ver o corpo como território do sagrado. antes. porque a aventura de ser corpo é uma aventura de superação. Não há restrição mecânica. 36) expõe. pois este tem sofrido as conseqüências dos mecanismos controladores da sociedade. e identificar. há uma perda de seu significado. que "só pode ser recuperado restabelecendo-se a espiritualidade do corpo. com a possibilidade de resistir e de transcender. porque todos nós somos deficientes e carregamos nossas deficiências. é identificar que corpo não é apenas uma fantástica máquina ou que o espírito está distante da razão ou que corpo material e alma são entidades distintas. portanto. primeiro. permitirse ser espaço do infinito e ser tempo eterno. mas que a existência pode se permitir ser território do sagrado e. . território do sagrado. de conquistas interiores e. um resgate urgente ao seu sentido mais amplo e entendê-lo em todas as suas possibilidades. logo nas primeiras páginas. a preocupação em contextualizar o corpo contemporâneo: "nossa época sente-se estimulada a explorar o mistério da corporeidade" e diz que há uma violenta dessacralização do corpo. num infinito de possibilidades e identificá-lo na condição de abertura ao infinito. duas necessidades básicas ao se estudar este tema. hoje. 1995. necessariamente. ser território do sagrado. ouvir e escutar a linguagem do corpo.43 O corpo território do sagrado não é um corpo demarcado. embora alguns aparentem tê-las em maior ou menor grau. p. No livro Corpo: território do sagrado.

o homem faz pálida idéia das potencialidades adormecidas em seu aparato psicossomático. uma "complexidade de complexidades. (MORAIS. mas. mais memória e coisas assim). embora se considerando o grande avanço científico dos últimos tempos. a posse. p. (MORAIS. à condição de território. 1992. p. a sua necessidade de contato com o infinito e invisível. se a determinação não está numa relação imediata com o indeterminado. p. o ter um corpo é fato esquecido. a corporeidade.44 O filósofo alemão Max Scheler. Esta (re) descoberta na perspectiva do corpo território do sagrado. quanto mais exercer a abrangência de ser corpo. 1998. mas é uma questão de espiritualidade. 1996). ao pretender-se buscar superar o visível e ver. A recuperação de sentido na existência humana e a identificação da complexidade que se dá no corpo implicam a recuperação do sagrado como seu constituinte. por isso que aquele modelo de corpo máquina é apenas uma perspectiva e não a totalidade ao se propor um estudo do corpo. ao ser possuído pelos outros. Ver os limites físicos é ver apenas parte do objeto. O ser humano não conhece o próprio co. é a partir da visão de corpo como território do sagrado que se percebe o sentido do atributo de ser corpo. 2002. na realidade. 156). 2001." (DELEUZE. de uma ou outra forma. 1995. p. 1989) afirma que o que distingue o ser humano dos demais seres não se reduz a uma questão de grau (mais inteligência.114). em sua obra intitulada O lugar do homem no mundo (E/ puesto dei hombre en e/ cosmos. de uma nova forma do sagrado (LIBÂNEO. Se o corpo ficou reduzido à condição de objeto. 46). no corpo. p. um retrocesso. uma vez que pode ser um não-regresso a um modelo arcaico de sagrado. "A perda do contato com o sagrado é o surgimento da inslgnificação'' (SANTO. 134). sim. Assim é que: . não significa. Ver o corpo é ver que "todo limite é ilusório e toda determinação é negação. explicitando interesses reducionistas." {JANA. Todavia. necessariamente. Esta insignificação é também uma conseqüência do fato de que o ser humano se esqueceu que é corpo. mais sensibilidade. po nem sua psiquê em todos os seus aspectos. Até mesmo a redução. 28). é o resgate deste constituinte do corpo o que realmente importa.

Isto quer dizer um corpo que experiencia. na real missão de ser corpo aos olhos da ciência. como gostaria a sociedade eclesiástica. o corpo que lhe falta" (MIRANDA. p. p. 2001 ). 2001. dentre todas as suas possibilidades. assim como da presença dos outros. como gostaria a metafísica. o imanente aspecto da sacralidade. que pensa. que percebe. p. então. de todas as partes de nós mesmos que nos dão o sentimento de nossa existência. a respeito de si mesmo. (VENÂNCIO. resgatando a sacralidade. 10). O ser humano. é achar a palavra e a ação perdida.45 se inicia um interesse maior pelo corpo humano como sendo humano. revelado por diferentes fomnas de contemplação (BRAUNSTEIN. Assim. é olhar em direção ao corpo vivo. 34). e a tenham com abundância. Viver em abundância. Desta fomna. 10. mas agir. . 1995. deveria estar além do fomnal como gostaria a racionalidade econômica e financeira. que sente. do complexo. O homem que mais viveu não é o que contou maior número de anos. resgatando. 17). implica devolver ao humano. "desvendar os olhos para olhar atentamente o fenômeno corporeidade é adentrar o domínio do impreciso. 15). de nossos sentidos.75). como gostaria o mecanicismo. é fazer uso de nossos órgãos. Viver em abundância se refere a todas as dimensões de nosso ser. em seu corpo. que sua existência deveria prover as pessoas de uma vida em abundância: "Eu vim para que tenham vida. "cuidar do ser. que tem consciência de si mesmo. Que vida pode ser vivida a partir deste corpo sem limites? O personagem central do cristianismo afirmou. p. então. deveria estar além do fisiológico. deveria estar além do signo. desprezo ou privação sobre o corpo? O que representa o viver? Uso as palavras de Rousseau (1999. Olhar na direção do corpo território do sagrado. deveria estar além da coisa desejante e consumidora como gostaria a sociedade de controle e deveria estar além do sujeito inerte e poço de conteúdos como gostaria a escola. é construir e reconstruir. p. deveria estar além do rito e do fomnal. mas aquele que mais sentiu a vida. sensível. Seria possível viver abundantemente havendo rejeição." (SÃO JOÃO. toma-se. das imperfeições e da desordem do mundo real" (MOREIRA. 2000. de nossas faculdades. ao dizer que viver não é respirar.

O amor próprio foi valorizado por Jesus. Todas as atividades humanas são realizadas e visíveis na corporeidade. mas àqueles que já eram seus seguidores. como intermediação de salvação aos homens nem antes. Assim. negue-se a si mesmo. como se só alguns pudessem gozar desta abundância. Ninguém deve considerar-se menor do que outra pessoa qualquer. significante e expressiva caracteriza o homem e a distancia de outros animais. num . em todas as tradições teológicas. ele não está se referindo a um grupo de estranhos ou novos contatos. não é abrir mão da existência própria. pelas palavras de Jesus. mesmo que religioso. cabe destacar o seguinte trecho: "então Jesus disse aos seus discípulos: 'Se alguém quer ser um dos meus seguidores. O negar-se. Isto não foi requerido. como território do sagrado. Quando Cristo afirma a condição. mas o negar-se é ver-se na natureza. nem após a vida do Homem-Deus. (SANTIN. do que os movimentos? O controle de tempo. Mas. mas como espaço de transcendência. negar-se é não ver o corpo como território de posse. negar-se é usar o amor no lugar da imposição. do que o controle. negar-se é não assumir o poder. 50). com um sentido de economia e castração. negar-se é abrir mão dos valores inerentes à dominação. O valor do corpo. o Cristo. tome a sua cruz e siga-me'. Também é possível identificar a intervenção corporal no processo de expiação no cristianismo. Ao vermos as potencialidades do corpo como infinitas." (SÃO MATEUS. como intermediação de salvação. entendemos por que a divindade assume a forma corpórea: a dimensão da corporeidade vivida. presentes até mesmo no cristianismo. do que a forma. 24). não está em ter. 16. p. existenciaL Tomar-se significa incorporar em seu modo de ser a realidade assumida. mas em exercer o ser. Não é o ser mais relevante do que o poder. 1987. nesta perspectiva. isto é. É assim que a própria divindade. a corporeidade. do que as instituições. precisou tomar-se corporeidade para fazer-se visível. como parte dela e não consentir com os crimes contra o meio de existência. do que a raça.46 Além disso. para controlar e manipular as pessoas. viver em abundância não prevê gênero. negar-se é ver no outro um outro eu. o que desperta um questionamento centrado no negar-se. nem ignorar os ideais pessoais. parecem estar ausentes nas palavras e atos de Jesus. p. espaço e movimento.

como diz Moreira (1995. negando sua força de resistência e reforçando a idéia de corpo objeto. mas pode ser a forma de garantir uma condição mais completa de existência. Ser corpo pressupõe as condições para uma vida completa. configura-se como uma dimensão plural. num processo de captura. desejando a constante superação de suas possibilidades. trocado. por intermédio de Cristo? Se há a continuidade da exigência de sacrifícios corporais.47 processo de captura. mas. aceitando a intenção do conceito de corporeidade. sem privilégio de uma perspectiva do viver em detrimento de outra. o Cristo. Motricidade e Resistência Entendemos que o corpo não é apenas um conjunto de órgãos. 4. quer seja em seu aspecto físico. o que não permite que aceitemos parte dele como sendo o todo. "A corporeidade não é o tema que vai salvar o mundo" (MOREIRA. roubando a essência da sacra!idade no corpo e roubando a validade de sacrifício de Jesus. Corporeidade é o atributo de ser corpo. quer seja em seus aspectos social ou espiritual. Assim. p. Por isso. posso concluir que o supremo sacrifício de Cristo não foi suficiente. O supremo sacrifício corporal já não foi feito por Cristo? A salvação não é graça de Deus. mas pretende compreender o corpo onde uma visão . por não aceitá-lo reduzido com se fosse o todo e para não reduzi-lo. há uma disputa sobre o corpo como se este pudesse ser ocupado. 23): Grande é o dilema que pracisa ser explicado pelos teólogos que ainda exigem o corpo jardim fechado. comercializado. mas a intenção de ver a complexidade corporal. 2001b). compreender a abrangência da corporeidade se mostra relevante e imprescindível para quem trabalha com o corpo. a instituição religiosa exige sacrifícios corporais. como corpo que exerce sua corporeidade. me faz perceber o corpo como território do sagrado como possibilidade de criação e de resistência. A corporeidade não pressupõe que todas as percepções estejam ativadas em todas as direções e dimensões. na realidade.2 Corporeidade.

Esta visão contemporânea de corpo não pretende erradicar a supremacia da visão mecanicista de corpo. lembrando que o sabor (sensível) não está distante do saber (cognição) e. Embora seja mais fácil tratar o corpo como coisa simples. não só na construção de conceitos. nem pretende identificar que o espírito sofre as conseqüências da matéria numa relação causal. no convívio social. também não é espaço para ser localizado com um GPS (Global Positionning System). nem tempo para ser medido através de cronômetro. num mecanismo de apropriação indevida. Não há fora ou dentro. 49). vivido. dando sentido ao viver. que razão e emoção não estão em hemisférios separados. mas reencontrar o significado de ser corpo. 1995). aproveitado e existencializado. é através da superação de possíveis confrontos. inaugurando a era espiritual. parcial. Sem as hierarquizar. mas se complementam. na prática religiosa. por anos. pronto. Superar o modelo circular de corpo para vê-lo numa espiralidade é tanto ousado como necessário. Já vimos que corpo. como na prática educacional. O espaço não é a minha posição em relação à virtualidade dos meridianos. muito menos em função das nossas opiniões ou das nossas informações. na conquista do Ser. não é território para ser disputado.48 perspectiva! não se sobreponha a outras possibilidades humanas. Não podemos encarar o Homem sob uma perspectiva ou sob umas poucas. 1999. como propõe a noção de corporeidade. portanto. minutos e segundos. temos de encarar sob tantas perspectivas quantas a nossa cultura nos permite. No Homem total (JANA. nem que absolutize o relativo. dias. que . p. diversificados e sob o maior número de formas possível. o tempo deixa de ser cronológico para ser kairológico. para ser controlado. com a demanda de esforço. mas uma complexidade em movimento. permitindo seu desenvolvimento pleno e equilibrado. meses. Este é o trajeto de corpo transcendente que propõe a corporeidade. a corporeidade é traduzida pelo redescobrimento do sabor da vida. mas a realidade de um lugar de existência. na prática da educação física. (TROVÃO DO ROSÁRIO. fazendo desaparecer do humano algumas de suas características particulares. Em contraste à batalha do Ter. e sem esquecermos que a mente só se pode desenvolver plena e equilibradamente se lhe fornecerem assuntos para refletir.

mas sem a pretensão da conclusão. cada homem identifica-se e conta o seu passado. através da motricidade: "O nosso corpo. Primeiro. com esta visualização parcial. O conceito de corporeidade evidencia que o corpo traz em si uma potência capaz de pequenas e grandes intervenções. mas permitir que as possibilidades e limitações revelassem sua co-existência através da motricidade. outros sentidos para compreendê-la). 1987.. porque a estrutura simétrica e previsível não é suficiente para tratar o corpo. é permitir a fé e a razão caminharem juntas. como pretendem as técnicas de docilização que acompanham a história." (CUNHA e SILVA. pois a originalidade da dinâmica existencial do corpo é a essência do discurso do próprio corpo. pois a corporeidade identifica que "o regresso ao corpo aparece como uma exigência ética. porque ver metade não me garantiria a compreensão total da metade vista (haveria de usar. 1999.. após múltiplas e céleres escolhas. As possibilidades corporais não se esgotam. Segundo. como ser dotado de movimento em direção ao mundo. Por isso que propor um trabalho sobre a corporeidade é também propor a motricidade. 2001) num espaço e num tempo chamado corpo. A corporeidade não tíata daquilo que o corpo é ou daquilo que o corpo tem sldo. já que. Se fosse possível ver metade do corpo. inteiramente nova. como agora sabemos. é ser espetáculo e expectador. concluir sobre o todo. 91). O corpo vive um presente que constrói o futuro. mas o atributo de ser movimento e de resgatar a si mesmo: Através do movimento. original e poderosa[ . não poderia. 26). As explicações da matéria não deveriam rejeitar o espírito. pois não é um projeto acabado. pois não conhecemos todas as suas possibilidades e porque aquilo que conhecemos não nos garante a certeza do que é desconhecido. A corporeidade é a quebra da simetria. ]. é permitir saborear o saber e saber o sabor. p. no mínimo. buscou nos . A motricidade não é simplesmente a possibilidade de movimento ou deslocamento." (SERGIO. Olhar para o não visto que a corporeidade aponta. qual o gesto a realizar. O corpo não é previsível. a mente para determinar.49 alcançaremos a prática da corporeidade. p. é condição de possibilidade. recriando uma unidade e integridade originais (BRAUNSTEIN.

ao invés da pessoa que atua com todo o seu eu. pretender transcender. mas possibilidade de transcendência e meio para exercer. é possível ter consciência das faltas e. ] e supostamente motor. p. intelectual [ . que o transborda em complexidade. Ao movimentar-se. mas a docilização e o controle dos desejos e sonhos de um corpo. (VIRILIO apud CUNHA e SILVA. mesmo abolir esta dinâmica veicular. Diminuir. Ao exercer resistência. indo também em . (TRIGO. afetivo. 1999. social. quanto no âmbito da reflexão crítica e da produção de conceitos. é por ela que se faz possível um movimento de resistência às forças de controle da sociedade.101). 2000. causando uma percepção incompleta do movimento. para situar-se em um processo de complexidade humana: cultural. 99). Assim. estreitado a visão de corpo dentro de sua área de atuação tanto no âmbito da prática. (TROVÃO DO ROSÁRIO.50 registros arrecadados na memória as informações que o corpo lhe tinha transmitido. fiXar ao máximo as atitudes e os comportamentos. 1999. por completo. a dimensão conceitual da motricidade excede o simples processo espaço temporal. Por isso. roubar a motricidade não seria a amputação de um membro. se a corporeidade compreende a realidade da motricidade. p.. tem feito a opção por tratar do movimento isoladamente. por entender o movimento como objeto de estudo. Dentro do paradigma da corporeidade. cabe ressaltar que o reducionismo que a educação física tem sofrido. p. tem. volitivo. a motricidade não é apenas imanência inconsciente.162).. o atributo de ser corpo. É a mobilidade e a motilidade do corpo que permitem o enriquecimento das percepções indispensáveis à estruturação do eu. A educação física tem estado preocupada com a questão do movimento humano. Assim. simbólico. p. é perturbar gravemente a pessoa e lesar as suas faculdades de intervenção no real. O movimento é uma das manifestações da motricidade. Então. [exercendo sua possibilidade] psico-socio-afetivacognitiva-motriz. historicamente. 2000. (TRIGO. 43). a partir destas. entretanto.

1995. pois se a sociedade exerce ou pretende exercer uma relação de controle. pelo poder. p. segundo o conceito da corporeidade. para exercer resistência. um conjunto de forças. Uma força de poder pode despertar inúmeras forças de resistência ou. ao propor o conceito e a prática do conceito de corporeidade e motricidade. É neste movimento de resistência que renasce o corpo como possibilidade de ser transcendente e que pode estabelecer . é também a partir do corpo que há o exercício da resistência: "Pelo corpo me apercebo do meu poder e do poder dos outros porque pelo corpo exerço o meu poder enquanto sobre ele se exerce o poder dos outros". mas a evidência de que corporeidade. particulannente através da criação do desejo. A sociedade dispõe de dispositivos de controle (consumo. Se o poder exercido pela sociedade de controle está no sentido da vida e. enquanto fenômeno de movimento intencional e espaço de identificação corporal. O mais interessante deste conceito é que a força de captura coexiste com a força de resistência.51 direção ao eterno e infinito. entre outras) sobre o corpo. A possibilidade da existência de resistência independe das práticas de adestramento ou das tecnologias de poder. Isto não é um círculo sem lim. exercendo. mas propondo um movimento de criação de resistência. (JANA. 1999). motricidade e resistência estão dentro de um mesmo contexto de sagrado. basta a existência. instituições religiosas. em toda a sua abrangência. de poder. É o encontro da dimensão visível com a dimensão invisível do corpo (FEITOSA. muito mais numa relação de complementaridade do que de causalidade. Assim é que a motricidade se aproxima do conceito de resistência. Não é a cópia do modelo da física de ação e reação. para não aceitar a submissão incondicional do corpo às potências que pretendem controlá-lo. espiritualidade e transcendência. portanto. instituições de educação. 85). pois é a motricidade. pois não há necessária reciprocidade e igualdade de somatória de forças. é possível estabelecer um movimento de resistência à docilização desejada que a sociedade de controle pretende instaurar ao ditar as regras que o corpo deve seguir. Entretanto. por outro lado. desta fonna. que cabe dentro do conceito inicial de corporeidade. podem criar uma única força de resistência. que garante a possibilidade de superação do controle que a sociedade pretende exercer. a espiritualidade. do corpo.

estamos resguardando a perspectiva de um ser humano completo. "É a motricidade que faz do ser humano um discípulo da possibilidade e. Ao assegurar a liberdade do corpo. 94). a resistência e a transcendência se associam à prática da corporeidade através da motricidade. Neste sentido. através da corporeidade e da motricidade. . como tal.52 uma relação com o sagrado. um ser livre e libertador". 1999. p. que permite-se estabelecer um relacionamento com o infinito e com o invisível num movimento de resistência aos limites físicos e temporais que a sociedade poderia instaurar sobre o corpo. (SERGIO apud FEITOSA. não dicotomizado.

53 5 ANÁLISE DE DISCURSO E o DISCURSO DA CORPOREIDADE .

1999. A Análise de Discurso (AD). proponho o uso deste procedimento ao analisar o discurso da corporeidade. no qual há uma preocupação notadamente não reducionista de corpo. 1996. ou seja.54 É possível identificar. etimologicamente. de correr por. A intenção é compreender o funcionamento do texto. É necessário ir além do que as palavras significam. E a palavra discurso. apenas interpretar o texto parece não ser suficiente. um segmento que contempla um discurso sobre corporeidade. não trata da língua. 5. A AO explícita uma preocupação em identificar um processo de interpretação que vai além do mecanicismo de resultados. por isso. de movimento. Com a intenção de identificar o sentido deste discurso e em que medida ele aproxima ou afasta a idéia da busca pelo sagrado como componente do todo corporal. 15). como seu próprio nome indica. tem em si a idéia de curso. p.1 A Análise de Discurso A Análise de Discurso. não caberia flexionar a sua interpretação a uma metodologia que atentasse apenas ao conteúdo. conforme a proposta de Orlandi (1995. na Educação Física contemporânea. (ORLANDI. oferece um dispositivo de análise que atende a estas expectativas. busquei uma proposta que fosse além da análise de conteúdo e que pudesse resgatar a relevância de vários componentes da construção do discurso e de seus significados. Se o discurso da corporeidade propõe um conceito de corpo para além de um corpo mecânico. 1 . o sentido de corpo para a Educação Física e em que medida a idéia da busca por uma relação com o sagrado faz parte do conceito de corpo. Ela trata do discurso. O discurso é assim palavra em movimento. 1999. prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando. de percurso. Nesta perspectiva. como o texto produz sentido e qual é este sentido. embora todas essas coisas lhe interessem. não trata da gramática. 2001).

Tanto não assume esta inocência. 1999. 1999. da não linearidade. que reconhece e trabalha na interpretação do silêncio também. fica claro que "a relação com a linguagem não é jamais inocente. 1999. 26). fica evidente o corte saussureano e a proposta para que a análise da língua quebre as definições positivistas de ordem semântica. Mas este sentido não é uma verdade absoluta explicitada por uma 'chave de interpretação'." (ORLANDI." (ORLANDI. este processo não se reduz a um mecanismo de revelação de conteúdo. p. 9) é. Além de o próprio silêncio significar. por isso. da não neutralidade. O simbólico. Assim. por isso. o equívoco e a contradição. não é uma relação com as evidências e poderá se situar face à articulação do simbólico com o político. pois procura ir além dos !imites físicos. Neste processo. Consciente da opacidade da linguagem. a falha. 95). "Saber que não há neutralidade nem mesmo no uso mais aparentemente cotidiano dos signos" (ORLANDI. a sua análise "visa fazer compreender como os objetos simbólicos produzem sentidos. a constatação de um ponto de vista e a previsibilidade são questões descartadas na AO.55 A AD não se restringe à descrição. a regularidade. 1996) e a identificando como parte do processo histórico. rompendo com a relação idealista da linguagem. p. nem à interpretação. A confirmação de hipóteses. imprescindível. 1994). O percurso da AD propõe enxergar a língua dentro das condições de produção. mas como discurso e. a forma. 27)." (ORLAND!. a materialidade da língua se apresenta não como mensagem. Esta aproximação entre o visível e o invisível revela uma relação de intimidade com o conceito de corpo. . mas busca "explicitar os processos de significação que trabalham o texto. p. então. p. é possível identificar alguns aspectos imanentes neste processo que não podem ser esquecidos nem negados: o inter-discurso e o não dito significam na mesma medida que o explícito e. observando sua relativa autonomia (BLIKSTEIN. o significado e o real atravessam o visível e o invisível do discurso. não ignorando todo o contexto de construção do discurso. Mas procura-se identificar e sustentar a estrutura. a superação de um simples instrumento de comunicação (BRANDÃO. devem ser considerados em um processo de anáiise. 1999. Assim. num sentido de aproximação e.

1988) que o objetivo é compreender. Tenho dito (ORLANDI. Isto inclui a compreensão das condições de produção do discurso. 1999. 42). mas funcionamentos. 1999. b) nem descrever o texto. 1999. então. é explicitar os processos de significação que trabalham o texto: compreender como o texto produz sentidos. 37). é o sujeito que constrói o discurso. p. 88). 61). A construção deste dispositivo de análise é constituída com a intenção de ver que as possibilidades de interpretação não estejam restritas e que nenhum 'a priori' faça parte do processo de análise. do texto. 30). mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio histórico em que as palavras são formadas"_ (ORLANDI. mas refletir no sentido do pensar. 1996. Neste confronto com a materialidade discursiva. sua formação social e o mecanismo imaginário. (ORLANDI. A A intencionalidade da construção lingüística fica evidente tanto pelas escolhas como pelas rejeições. A tarefa do analista de discurso não é: a) nem interpretar o texto como o faz o hermeneuta. da ideologia. Esta suspensão é não refletir "apenas no sentido de reflexo. pelo que poderia ser dito e não foi. o conteúdo fica em suspensão. ou seja. 61). pelo que não foi dito." (ORLANDI. p. pelo que foi dito. a relação de forças deve também ser compreendida como constituinte do processo de significação. pois "as margens do dizer. através de seus mecanismos de funcionamento.1995. o texto. vendo sua materialidade. sob as relações de produção de desejo da sociedade. ausência de verbalização não é ausência de significado. 1999." (ORLANDI. A AD está diretamente relacionada à definição da pergunta feita ao discurso. . O sujeito que vive sob as relações de poder. p. p. a compreensão do sentido do discurso se evidencia no processo de significação. "O sentido não existe em si." (0RLANDI. (ORLANDI. p. não existem verdades. da imagem. também fazem parte dele. O analista se coloca em uma "posição deslocada que lhe permite contemplar o processo de produção de sentidos em suas condições" para ver o discurso e não.56 também "não há significação possível sem silêncio. Então. sem um centramento ideológico por parte do analista. p.

A terceira etapa é o momento do pinçamento das unidades de significado do corpus. A sexta etapa é o estabelecimento do modo de funcionamento do discurso. o processo de significação também compreende o interdiscurso. com as unidades de significado. Na quinta etapa identifica-se o processo de significação por mecanismos como deslizamentos. esse é o momento de "converter a superfície lingüística. não para demonstrar. sustentação. pelos passos anteriores. um objeto lingüisticamente desuperficializado. sua repetição e confirmação ou negação. A quarta etapa é o momento de analisar a discursividade e identificar as famílias parafrásticas. podemos sintetizar o procedimento em etapas. inclusão. também é o momento de considerar a ocorrência do silêncio. sua significação. o dado empírico. construindo assim o processo de significação pelo dito e pelo não dito. mas dentro da complexidade e infinitude do discurso. mas para mostrar como o discurso funciona produzindo sentidos. de um discurso concreto. relacionar e concluir. O sétimo e último passo tem a perspectiva de congruência. se esta questão não estiver clara e precisa. o ponto de chegada poderá estar distante do objetivo do trabalho. p. A própria textualidade e a tipologia do discurso. Este é um processo dinâmico de ir ao discurso e voltar à teoria. que é a relação do discurso com uma multiplicidade de discursos. embora não sejam a finalidade da AO. É um processo de síntese. metáforas e transferências.57 Embora já tenham sido mencionados os elementos que permitirão a interpretação do significado no transcorrer do processo de análise do discurso. seu delineamento está vinculado ao objetivo da análise. sua relevância é evidente: "decidir o que faz parte do corpus já é decidir acerca de propriedades discursivas" (ORLANDI. oposição. 66). fazem parte da compreensão de seu modo de funcionamento. A segunda etapa é a definição do corpus. no qual cabe a compreensão das relações de exclusão. p." (ORLANDI. 1999. A primeira etapa é a definição da questão a ser levantada diante do material. migração de elementos de um discurso para outro e sua estruturação. será possível anaiisar o que é dito nesse objeto discursivo e o que é dito em outros discursos ou em outras condições de produção. em um objeto teórico. 1999. no qual o silêncio também significa. a maneira como a freqüência reforça a idéia. não como fechamento e encerramento. 63). isto é. . no qual o significado transparece.

ou de . os quais usaremos para a Análise de Discurso. é caminho para captura. ao produzir significados para a compreensão de corpo. como dispositivo de controle. em sua perspectiva para o século XXI. tanto na formação como na atualização profissional. A partir dos valores assegurados no discurso da corporeidade. atualmente na 10• edição. superando o mecanicismo semântico e os limites do conteúdo. de Silvino Santin e "Consciência corporal e dimensionamento do futuro". na realidade. A Análise de Discurso da Corporeidade Para a análise de discurso da corporeidade e sua relação com a sacralidade. de Regis de Morais. usaremos dois textos do livro Educação Física & Esportes: perspectivas para o século XXI (MOREIRA. Suas repetidas edições. enquanto processo dinâmico. ao tratar da corporeidade. Ver desta forma o discurso. intersecciona o conceito de sagrado? Seria possível identificar no discurso da corporeidade alguns dos valores inerentes à relação com o Sagrado. indicando assim que o corpo completo é aquele que permite-se relacionar-se com o eterno e infinito? Em que medida o discurso sobre sagrado. através de algumas questões iniciais: Como o discurso da Corporeidade. é dinâmico e flui entre a oscilação pendular e a continuidade. A questão levantada para a análise de discurso nestes textos versa sobre o que diz o discurso da corporeidade.58 Talvez fosse dispensável reiterar que este processo aqui descrito em passos. buscamos a compreensão da suposta relação entre a corporeidade e o renascimento do sagrado. em dois textos: "Perspectivas na visão da corporeidade". favorece a compreensão da análise do discurso da corporeidade. estão as "Perspectivas na Corporeidade". justiiica sua relevância na área de Educação Física. 2001). e o fato de ser um texto usado como referência em vários concursos. Na segunda parte deste livro.

além da unidade de significado e seu respectivo número.11 Unidades de significado extraídas do texto! "Perspectivas na visão da Corporeidade"1 Número da unidade significado 1 Unidade de significado extraída do texto original Síntese da unidade de significado "Falar em corporeidade parece simples. Corporeidade não é conceito simples 2 "Corporeidade é um conceito abstrato. dando a oportunidade ao corpo. de exercer o viver em abundância? O discurso da corporeidade incluiria em seu conceito o corpo território do sagrado? 5. Mas que corporeidade?". indicando a idéia central daquela unidade. uma síntese. seguindo a ordem em que aparecem no texto origina!.3. Os quadros a seguir mostram.3 Unidades de Significado 1 A partir dos textos citados. o que nem sempre corresponde à corporeídade vivida no cotidiano das pessoas". selecionamos as unidades de significado e as transcrevemos a seguir. Estas tabelas servirão de base para a análise feita a seguir. com as unidades de significado sublinhadas. 5.59 transcendência. e corporeidade vivida . Os textos completos estão inseridos na seção ~Anexos'. Elas seguem uma ordem numérica. indica a essência cu a natureza dos corpos". Corpcreidade e abstração I 3 "A análise dos significados de corporeidade construídos pela Corporeidade científica filosofia e pelas ciências nos mostra a visão do conhecimento racional e científico do corpo.

Mesmo o individuo espirilualizado e intelectualizado esquece o corpo I I 10 "Não se pode esquecer que foi dentro dessa atmosfera Paradigmas da Educação Física racionalizada que a Educação Física e os esportes foram pensados e praticados". desprezada. a Educação Física seja compreendida como a cultura corporal". dentro do espírito do velho ditado: mens sana in Icorpore sano".. sim. 11 "Em todos esses perfis corporais aparecem claramente os traços de uma corporeidade submissa. Corpo submisso e disciplinado 12 "A imagem da corpo. mas para assegurar um Idesempenho corporal que favoreça o aprendizado de conteúdos intelectuais. uma ferramenta a ser usada segundo a vontade de cada um ou.e\dade de nossa cultura racionalizada. vivendo o corpo distraidamente". a Educação Física e até o esporte são lembrados ! I ' Inão propriamente para cultivar o corpo. por vezes até abjeta. um utensílio. Educação Física e cultura corporal Educação Física e desempenho corporal 8 "Agora. I corpo 7 I "Resta a esperança de que. o reduz a um objeto de uso. As dimensões corporais não passam de uma categoria de valores secundários na vida humana". o que Corpo objeto I é pior. . . um dia qualquer. políticos e ideológicos de outros grupos". conforme os interesses econômicos.60 4 "Dificilmente alguém se pergunta sobre o significado do próprio corpo".". ao contrário. disciplinada. cientificizada e industrializada em nada garante o cultivo do corpo. i Corporeidade e vida Não peíCebemos o I I 6 "É assim que o homem cresce. 9 "Esses fatos são lembrados com a intenção de mostrar como o homem espirttualízado e intelectualizado pouco valor atribui aos princípios da corporeidade". Significado de corpo I I I I 5 "Pelo fato de as funções vitais da corporeidade .

O corpo pode ser corpo humano. Como a Educação Física conceitua corpo Necessidade de rever conceitos 20 "Os movimentos alternativos. ·A ciência seria construída sobre os fatos. estão a exigir uma revisão de nosso modelo positivista de produção do conhecimento. o mundo. corporeidade? A ciência baseada na racionalidade 14 "As ciências modernas vieíam fortalecer Pela ciência atinge-se ou a ideologia da constrói-se o racionalidade.. 15 I "Mas. 19 "A Educação Física recebe uma profunda inspiração dessa maneira de pensar o corpo humano". I I conhecimento objetivo. Suas descobertas são as leis que resultam dos experimentos desenvolvidos com métodos seguros e eficazes. 16 "Essa situação toma se dramática quando queremos estudar o aspectos físicos ou quantitativos".. seguro e o único verdadeiro da realidade. A radona!ização mesmo O corpo ainda é visto como máquina houve preocupação em definir o corpo humano a partir do próprio distanciou o corpo dele 18 "As ciências modernas também não se preocupam diretamente com o corpo . mas também em relação a todo o universo". .61 13 "De que maneira seria possível estabelecer uma imagem de É possível humanizar a corporeidade capaz de cultivar corpos humanos?". O corpo humano não passa de uma máquina com reações químicas". porque mensuráveis e demonstráveis". já que fadlmente ele pode ser reduzido a seus reduzido com facilidade 17 "Em nenhum momento da história do conhecimento racional' corpo". começaram a surgir fortes questionamentos devido a esse processo único Nova visão sobre ciência e monopolizador de cientificidade". os objetos. não só quando se trata do ser humano... desde a metade do século passado.

A corporeidade humana deve ir além. os sentimentos. os impulsos sensíveis. Isso. A decisão vai gerar conseqüências diferentes. consideração do interior 28 "A corporeidade humana inspirada nessas linhas gerais precisa Corporeidade e obra de ser um desenvolvimento harmonioso como um concerto musical ou uma obra de arte". a cotidianidade do esforço e do trabalho criativo".. na maioria dos casos. Que corpo pretendemos? ' 24 "Estamos habituados a exigir que as palavras tenham sempre um conteúdo claro e preciso. ' A corporeidade tem estado distante do espiritual I amarrada aos padrões das ciências experimentais".. é o cacoete da linguagem científica. Ou da estética. 27 "Para repensar e desenvolver a corporeidade é fundamental Corporeidade requer a aprender a realidade corporal humana. outras vezes restrita ao individual e.62 21 "A Educação Física está diante dessas duas alternativas. Dificuldade em dar I precisão à corporeidade 25 I "A corporeidade deve -mais do que uma coisa a ser apreendida Corporeidade é desafio -significar um desafio para a imaginação e a criatividade". não acontece com o termo corporeidade". o senso estético etc. 23 "Há preocupações em construir o corpo guerreiro.". à imaginação e criação Corporeidade e comprometimento 26 / "A corporeidade precisa ter a dignidade da ação sagrada e festiva e. senão j O percurso da Educação Física apresenta uma bifurcação aperfeiçoa as técnicas do rendimento ou se arrisca pelos valores 1 I I I 22 opostas". "Os corpos ficam enclausurados nos horizontes estreitos de uma corporeidade colocada.. precisa considerar a sensibilidade afetiva. . arte . mas ainda não se pensou seriamente em cultivar o corpo humano. Essa tarefa precisa ser começada". as emoções. às vezes. o corpo atleta. como o oposto do espiritual. Fica completamente descartado o hábfto de entender o corpo a partir de elementos que vêm de fora . provavelmente. ao mesmo tempo..

3 "Eu não conheço. no complexo horizonte da exístencialização". simultaneamente. problemático e misterioso. pois que. Relevância do tema corporeidade 4 "O corpo do homem está abrangido por ambas as Corpo problema e corpo mistério mencionadas categorias. Corpore\dade e vida em abundância ~ I 5.2 Unidades de significado extraídas do texto "Consciência Co moral e Dimensionamento do Futuro" (T -li) Número da unidade de significado Unidade de significado extraída do texto original Síntese da unidade de significado 1 "A tematizaçao da corporeidade é.. também é. complexa e mesmo insidiosa". no qual nossas preocupações se voltam para os tempos vindouros.. em sí mesma. em sua existencializaÇiio plena. A corporeidade humana não pode ficar presa á satisfaÇiio de suas necessidades primárias. Ele é. outra coisa muito distinta é voltarmo-nos sobre o corpo que somos e vivenciamos. neste final de século. nenhum tema mais urgente ou relevante do que o da corporeidade". .. A corporeidade da abundância é aquela que se desenvolve liberta das leis da necessidade". Essa instãncia faz parte da esfera animal.3. Corporeidade não é conceito simples Corpo observável e corpo vivido 2 "Uma coisa é a abordagem de um corpo que se esquadrinha observacional e laboratorialmente. manancial de mistérios". podendo ser campo de esquadrinhamento e objeto de conhecimento.63 29 "A plenitude dessa corporeidade será vivida em primeiro lugar sob os signos da abundância.

mas não há própria centelha vital: o que nos mantém vivos?". ". por isso. uma vez que o corpo apresenta claramente uma consciência e uma sabedoria que não precisam de raciocínios"..64 5 I ". que é o corpo. Atitude humana e atitude corporal 11 "Essa coisa de interioridade e exterioridade aparece-nos como artifiCial na compreensão do ser humano". . devemos falar em corpo/consciência.... toda atitude do ser humano é atitude corporal". que ouse uma explicação sobre a I J 7 "Na linha da recíproca irredutibilidade entre corpo e/ Ter corpo consciência defendida por Descartes. Somos um corpo como forma de presença no mundo . que nossos corpos são. antes de tudo..a em razão de ser A concepção unttária especificamente filosófica e trazer as marcas históricas da não é um conceito novo filosofia do nosso século em diálogo com as ciências. no mundo do Antigo Testamento bíblico a concepção propriamente hebraica de ser humano é já unitária". "Ocorre.... I cientista. afinal. De todo modo convém lembrar que a afirmação segundo a qual somos um corpo como presença no mundo não é restritiva". . o Corpo problema I I I 6 Corpo mistério nosso primeiro e mais fundamental mistério. Complexos Ilaboratórios bioquímicas .fantástico experimento cósmico. Corpo consciente 10 " . porém. pois. Corpo não é interior e exterior 12 "Dizemos nova concepção unitár. I Ser corpo I I 9 "Veremos que o corpo é consciente e. seguro do que faz. encontramos na comum conversação cotidiana e também em textos que se querem científicos afirmações do tipo 'eu tenho um corpo' ou 'cabe à I I I I Ialma pilotar essa máquina sem inteligência que é o corpo'". 8 "Somos (e não temos) um corpo. já não é lícito reduzirmos a noção de consciência à de raciocínio.

65 13 " .. No que me diz respeito. I 15 "Somos um corpo como forma de presença no mundo. hoje. amplas possibilidades corporeidade". chamaria isso de espiritualização do corpo". . estamos muito mais despertos para essas coisas. 16 'Vejo essas coisas como grandes avanços dados por nosso século e que prometem. faz um caminho de volta às origens da concepção unttária de homem registrada pelo pensamento hebraico bíblico (do Velho Testamento). mas uma dialética cujos pólos (carne e espírito) se realizam e são superados pela totalidade e pela unidade do homem vivente". no que diz respeito ao trato com Século XXI e esperança para a corporeidade a 17 "Sem dúvida. lnterioridade e extelioridade são apenas categolias de pensamento de força didática. no Ocidente. I Pensamento hebraico bíblico e concepção unitária Corpo não é interior e exterior ' 14 ".. para os tempos do século XXI. o profissional tem que admitir sair da a comodidade fim de que de rotinas longo e programas diálogo de mecanicistas inicie O re-aprender sobre o corpo significa espiritualização do corpo aprendizagem com o corpo próprio e o alheio.. simultaneamente. pois o que há é um corpo que pensa e agtta a consciência e.. não se registra um dualismo (enquanto ruptura e Dualismo e dialética separação). descobrir a consciência corporal". e isso diz tudo. O percurso da Educação Física apresenta uma bifurcação 19 "Se a segunda alternativa é acena. uma consciência que pensa e transligura o corpo". E apenas começamos a Consciência do corpo 18 "Eis por que os profissionais da corporeídade só têm diante de si um par de alternativas: ou seguem lidando com o corpo como se este fora simples coisa burra que se adestra ou despertam para o fato de sermos um corpo como forma de estar-no-mundo sensível e inteligentemente".

em Mudar o foco de corpoprimeiro lugar. a ele se liga.. explica-o e ultrapassa-o. lidemos com corpos espiritua!izados. na condição corpórea. todavia..". mas sobre as quais nossas mentes estarão mais livres para conjecturar e ter esperanças". e os profissionais da corporeídade. e o século XXI possa dar inicio ao espiritual vivk!o nas atiTudes corporais".. O espiritual nas atitudes corporais 22 "O estudioso da corporeidade tem que se interessar. sentirão cada vez mais nitidamente a necessidade da reflexão filosófica sobre o seu quê-fazer. Relevância do tema corporeidade 25 "..66 20 "Nossa grande esperança é que. Século XXI e esperança para a co rporeidade I I I 21 " . no século XXI...no sentido de enriquecidos por todas as nossas significações vrtais e perspectivados em direção a significações que. Eis porque a nossa reflexão tem que se aprofundar na direção objeto para corposujeito I 23 do corpo-sujeito". fisiologistas e médicos . no sentido da paralisação de tudo o que o envolve... treinam atletas.:. pelo corpo-objeto que interessa a anatomistas.. dificilmente haveria tema mais importante para nosso crescimento reflexivo e prático do que o da corporeidade". neste momento. Proximidade entre Filosofia e prática na corporeidade . os que ensinam e preparam bailarinos. 'a posição absoluta de um só objeto é a morte da consciência'. fazem preparação física. "Vale dizer que na corporeídade encontramos a dimensão objetai . não podemos constatar e apalpar. A corporeidade não rivaliza com o conceito de corpo-objeto 24 "Tais ponderações põem-nos de novo perante uma de minhas afirmações iniciais: a de que.

67 5. quer seja pelo paradigma científico que faz uma tradução de valor sobre o corpo. identificamos uma preocupação inicial em constatar o que falta à corporeidade (unidades de significado 3/8/9/10/11/12/14/15/16/17/18). induzindo a um corpo submisso. pela relação entre educação física e corpo (7/8/19/21 ). . Ao cruzar e interligar as unidades de significado. Este processo de criação não está distante de uma relação prática. docilizado. pelas forças da sociedade. reforçando o papel da educação física como espaço para a busca pela compreensão do que é corpo. capturado pelas instituições. O número entre parêntesis indica a unidade de significado. pela constatação do que falta. reforçando assim a idéia de que é necessário questionar a corporeidade (1/4/6/13). é possível a repetição. 5. é possível dar um passo além para criar um conceito. pois. a confirmação e a negação do que aborda a corporeidade. é dado o repensar o corpo.4. quer seja por compreensão historicamente tendenciosa sobre o significado de corpo. Os dois textos são analisados independentemente neste momento. havendo uma análise conjunta a seguir.1 Analisando o texto T-I No texto "Perspectivas na visão da corporeidade" (T-1). Este questionamento não se encerra numa mera reflexão de identificação do que falta.4\ A Análise dos Textos! A partir das unidades de signiíicado extraídas do texto e da síntese das unidades de significado. observando que há significado no silêncio. assim como no discurso dito. mas. é possível elaborar a análise dos textos.

parece estar pouco percebido (4/6). já que se propõe a intervir nele. à Educação Física. olhando para suas quantidades. que nasce a angústia de como revelar a compreensão deste conceito (13). a cognição e a espiritualidade se mostram como tendo sido historicamente pólos de captura. como pontos de resistência.68 A criação do conceito de corporeidade está grandemente reforçada no último terço das unidades de significado (20/22/23/24/25/26/27/28/29). A questão sobre o corpo é que. Quando percebemos que o conceito de corporeidade está carregado com os valores permitidos pela ciência clássica (3/16/18/19). Este questionamento. vendo o corpo como máquina. embora pudessem ter sido usados num processo criativo. abre espaço para se questionar a maneira de olhar o corpo e propor alternativas para alcançar a superação do enclausuramento a que o corpo ficou submetido (22). Considerando este percurso do texto. ele mesmo tem sido esquecido (17). através das unidades de significado. constatamos que o corpo tem sido tratado como uma máquina construída por fatos e objetos (14). então. O questionamento sobre os valores da ciência clássica por diferentes áreas do conhecimento (15) abre as portas para que se faça também um questionamento sobre o significado de corpo (20). o que nos faz entender o percurso do texto. é necessário tomar uma decisão sobre qual direção seguir: ou mantém-se o padrão antigo. mostrando uma percepção mais abrangente de corpo (7/8110). podese constatar que é pela simplicidade (1) e pela abstração (2) do tema da corporeidade. reduzindo a realidade do corpo vivo. enquanto área do conhecimento que se preocupa em entender o corpo. Cabe. Embora o corpo seja vital à existência humana (5). no sentido institucional. embora elas não sejam necessariamente simultâneas. não consegue superar o reducionismo (9/11/12). ou olha-se o . intelectualizada e mesmo espiritualizada. em busca de um novo modelo. Assim. analisando o seu rendimento. Assim. pois está impregnada pelos valores da ciência clássica e pelas relações e disputas de poder. propor atividades que revelem uma compreensão não reducionista. a partir deste processo de mudança de valores dentro da ciência. para fazer o questionamento e então propor uma forma de compreensão do fenômeno corporeidade. A corporeidade aceita na cultura racionalizada. ao estudálo.

Não viver dessa forma implica na redução do viver (29). revelando que não estamos despertos para o fato de que toda atitude é corporal. Sempre houve uma preocupação com o corpo por parte das instituições detentoras de poder. o corpo deve viver uma vida em abundância. não é possível falar em razão ou emoção ou consciência como se estivessem distantes do corpo. Compreender a importância do conceito de corporeidade é questionar o seu sentido e ver que. mas esta compreensão deve ir além da apreensão. A preocupação em ter 'certeza' sobre a compreensão do termo corporeidade permeia o texto (1/2/24). um forte questionamento do que seja corpo e qual o sentido da corporeidade (117110/11/15). a princípio. a criação. É também necessário ter consciência de que suprir as necessidades básicas do corpo não é prover vida em abundância. é possível identificar um grande equilíbrio entre as quantidades das unidades de significado em seus diferentes agrupamentos de sentido. dos limites. incentivar o desafio da criação e da imaginação e identificar o corpo tanto pelo visível como pelo invisível. Esta identificação de uma bifurcação.2 Analisando o texto T-Il No texto "Consciência corporal e dimensionamento do futuro" (T-11). sobre qual caminho tomar. 5.69 corpo como um ser sensível e estético (21 ). Esta perspectiva para entender o corpo revela que devemos aceitar a possibilidade de superação. também não cabe ao corpo a secção entre interior e . É preciso descartar o hábito de comprometimento pelo que vem de fora (29) e perceber a relevância e grandeza do conceito de corporeidade (28). mas já é o momento de mudar a perspectiva de preocupação (23). parece estar em acordo com uma postura de questionamento. da certeza. e vida vivida plenamente pressupõe que seja vivida em abundância. e tocar a imaginação. Olhar para a corporeidade é olhar para a vida. identificando mais de uma possibilidade como resposta ao que é questionado. Há. a alegria e o devaneio (25/26).4.

existe o corpo objeto. por um lado. atravessa-o até o fim. A proposta de encarar a corporeidade como processo dialético é reforçada (3/16/17/20/21/24) ao evidenciar esta visão não reducionista de corpo como uma grande esperança e por isso se mostra relevante neste novo século. apontando para um renascimento de uma visão de corpo no qual não haja separações (12/14). Tal questionamento é pertinente. Fica evidente. seria a aproximação do corpo com sua possibilidade de espiritualidade (14/19/20/21) como caminho em direção ao ser completo e transcendente. no qual não é possível conhecer todos os seus segredos. através de uma prática consciente. mas na realidade dialética da corporeidade.70 exterior. Se. há também o corpo existência. não usando as atividades que envolvem o corpo num sentido de captura e de redução. neste questionamento sobre corpo. para mostrar que o que nos convém. hoje. no sentido de despertar a consciência da abrangência do que seja o corpo. que está evidente no início do texto. mas abrindo as portas à transcendência. Esta nova perspectiva para a compreensão da corporeidade remete a repensar a relação do corpo com o invisível. sem criação. colocando em evidência a corporeidade como necessidade para o crescimento reflexivo e para a consciência do que é a existência. precisam estar despertos para a urgência desta compreensão teórica em suas práticas (18/19/25). mensurável. não será alcançado num processo de dualismo. de fonma sensível e racional. ou avançam a fim de identificar o corpo como fonma de estar no mundo. Em outras palavras. numa repetição sem fim. tendo sido hipervalorizado nos séculos recentes. alienante. facilitando o processo de controle dos corpos. que os profissionais da corporeidade. neste texto. quantificável e o corpo mistério. Há o corpo problema. . tendo diante de si apenas dois caminhos: ou optam pela mesmice. como um renascimento da possibilidade de uma relação com o eterno e infinito fazerem parte da complexidade humana. A consciência deste processo de diferenciação (2/4/5/6/8/9/13/22). O questionamento inicial prossegue evidenciando dois aspectos da corporeidade. num processo inerte. incluindo aqui os professores de educação física. no qual se dá a maravilha da vida.

ele pode ser fruído . consciente e misterioso (21 ). ao permanecer nos padrões da ciência clássica. mesmo mostrando seu lado progressista (15/16). Este renascimento da visão de corpo é. mas o profissional envolvido com a prática corporal deveria preocupar-se em ver a totalidade (11/13). biológica. mas. mas. conhecido. O estudo sobre corpo que pretende ser rigoroso. falar sobre corpo não é tarefa fácil (1) e o primeiro problema está em definir de que corpo se fala. no corpo. Se for visto como objeto.(8). o corpo tem sido apenas um fantástico objeto. A mais perfeita máquina ainda fica aquém da funcionalidade física. o seu inerente mistério (4/6). nem pelo interior nem pelo exterior. não deve permitir nenhum tipo de redução. mas tudo isso é um corpo problema (5/22). do devir. De outra parte. A corporeidade busca compreender o corpo.(7). A busca pela compreensão do conceito de corporeidade se mostra extremamente relevante para os dias atuais (3). o lugar da criação. que modela e é modelada pelo corpo (14) e que toda atitude humana é uma atitude corporal (10). individual e particular. ver que o corpo apresenta consciência (9). como pode ser a maneira de existir no mundo (2). Optando pela alternativa do corpo mistério. Não se trata de negar um modelo para estabelecer outro a partir da oposição mas. química. este é o momento de se conscientizar os profissionais da corporeidade sobre qual é a base teórica na qual edifíca-se a prática contemporãnea da Educação Física e. para chegar ao corpo sujeito. também. psicológica do corpo objeto. pode ser possuído . facilitar a tomada de consciência sobre a necessidade da reflexão filosófica sobre o "que fazer" na prática da .sou corpo . O profissional da corporeidade deve fazer a opção pelo caminho a seguir: ou o corpo é coisa que se adestra ou então é a forma de estar-no-mundo (18). Esta postura para ver a corporeidade. é também um retomo à percepção de totalidade de ser humano (12). Sendo que toda prática traz em si uma construção teórica. matemática. com isto. não se pode ignorar o seu lado 'invisível'. pela superação. da espiritualização (18). Deve-se partir do corpo objeto. um renascer da compreensão da espiritualidade como componente do humano (12/18/19/20). há o conseqüente compromisso de ver. se for visto como mistério. pois tanto pode ser um objeto passível de observação. material.71 Como evidencia o texto.tenho um corpo .

é de se esperar que os textos visualizem uma postura de perspectivas inovadoras. que estimulem os profissionais a renovar e a transformar seus conceitos. não sendo imposta uma diretriz fechada. a perspectiva é que estes textos proponham a superação do modelo tradicional de corpo. na Apresentação. dá-se a oportunidade de mudança. Isto inclui ver o corpo mistério. suas frustrações. de acordo com as palavras de Moreira. 2001. para que. Da mesma forma que o século será novo. tanto metodológica como em função da cobrança de posturas ideológicas [.3\ I Analisando os dois textos (T-1 e T-11)\ É oportuno destacar que a proposta do livro. Falar em perspectivas para um novo século remete à idéia de novidade. com seus sonhos. os textos em questão deverão tratar dessas oportunidades e de como intervir para uma transformação nos conceitos e práticas da Educação Física. surge a idéia de "oferecer possibilidades de desvendar o futuro" (MOREIRA. ao . que admite ver o fenômeno da corporeidade como a expressão da complexidade humana.4. 2001. que pode ser quantificado e racionalizado.. sua ansiedade em estabelecer uma relação com o sagrado e também ver o corpo problema. que as idéias e as práticas sejam igualmente renovadas. p. Se a premissa da Apresentação. mas dentro de um período de crise e. então. 9) através dos textos que compõem o livro. num processo de renascimento. aborda o atual momento como sendo constituído por uma crise e que a crise é a condição para a oportunidade de mudança. 5. Dentro deste contexto de renovação na Educação Física. conforme exposta no livro. é ressaltar que não vivemos mais dentro de verdades absolutas e estáticas..72 corporeidade (24). de acordo com o paradigma contemporâneo de ciência. p. Particularmente nos textos relativos ao tema corporeidade. ]" (MOREIRA. suas alegrias. 1O). Mesmo sendo "propiciada total liberdade aos professores redatores dos textos. nesta crise.

o profissional se defronta. a perspectiva para a Educação Física durante o novo século baseia-se em não se permitir ser o local da captura de corpos. necessariamente. ao tratar do tema da corporeidade. A idéia inicial dos dois textos é deixar claro que tratar de corpo não é uma proposta simples. T-11-14). dominar e docilizar os corpos. A idéia do Ter prevalecendo sobre a do Ser invadiu o conceito de corpo e isto tem fundamentado. 'Como posso ir além do corpo-objeto' (T-1-13. mas complexa e abstrata. também. ao afirmar que. na difícil tarefa de definir o que seja Educação Física. Assim. as práticas de atividades físicas. há coerência entre os textos usados para análise e a proposta do livro. com uma .73 trabalhar com o corpo. A Educação Física foi construída historicamente como uma das formas de agenciamento para se adestrar. o próprio corpo não fique esquecido e que a mecânica e as certezas não continuem ultrapassando o humano do corpo como tem sido até aqui. não medindo esforços. T-11-1). Evidenciando assim a preocupação da Educação Física em entender sua possibilidade de permitir que os corpos sejam corpos em toda sua complexidade. Se a premissa da apresentação do livro evidencia que este é o momento da falta. Desta forma. T-11-B/8/15). Isto reforça o pensamento de Freire (2000). Dentro deste conceito. T-11-217) e propor uma nova maneira de ver o corpo de acordo com um novo modelo de ciência (T-1-15/21. em buscar uma superação do modelo até aqui usado (T-1-11/14/18/19. Neste momento no qual a compreensão do corpo se mostra para além de suas reduções (T-1-16/24. da crise. T-11-21). T-11-7). por mais concreta que seja e deixar claro sobre qual conceito de corporeidade se fala (T-1-1/2. num movimento de criação e resgate da totalidade corporal. também é o momento de sua conseqüente superação. T-11-2). ao permitir que as tecnologias de poder usassem o corpo como máquina para ser adestrada e controlada (T-1-8/10/11/12. é resgatar a existência humana no corpo (T-1-3. superando os reducionismos que têm carregado a prática da Educação Física. mas ter consciência da necessidade de superar o atual modelo e questionar 'como a minha intervenção dá a oportunidade para o desenvolvimento do corpo'. Uma das preocupações. recriando o conceito de corpo. talvez a melhor opção seja dizer que deveria ser 'ensinar a ser corpo'. cabe a intervenção filosófica.

revela uma mesma linha de pensamento com a proposta do livro. sobre a importância de se . assim. pois procura antever perspectivas para um novo século. sensível. da resistência. por certo não se mostraria coerente com as perspectivas para o século XXI. T-11-17) e que pode. Os dois textos apontam para a consciência da liberdade de escolha que temos e evidenciam que negar a possibilidade do mistério é optar pelo processo de captura. exercer resistência aos agenciamentos de poder. 29. penmitindo identificar. a reconstrução do conceito de corpo se mostra urgente. Assim. Se aceitarmos que seja função da Educação Física ensinar o corpo a ser corpo. Neste sentido. 20). na corporeidade. assim. cabe então a ela. a possibilidade de ver o corpo sujeito (T-11-21) e.74 bifurcação. a manutenção de relação de dominação sobre os corpos. segundo a qual o espiritual vivido nas atitudes corporais é a grande esperança para o século XXI (T-11-19. T-11-23. Nesta visão de corpo. preferindo manter os valores atuais. por estes dois textos. exercendo. nesta reconstrução do 'objeto' de intervenção da Educação Física. os dois textos apontam para este novo caminho e para a relevância deste tema. da transcendência. assim. bem como aos demais profissionais da corporeidade. numa visão de corpo como coisa. surgindo a questão sobre qual caminho seguir. é retomada no final dos textos. O outro caminho possível é ver o corpo como humano. para que a prática incorpore a teoria. Um discurso que se mostrasse conservador. renasce a visão unitária de ser humano (T-11-12). com o reforço de esperança. penmitir que este desafio sustente uma prática aberta à imaginação e à criatividade (T-1-25/26). o poder de captura sobre o corpo. pela sua necessidade. Perspectivas inovadoras condizem com uma proposta para um novo século. A mesma idéia apresentada no início dos textos. os textos apresentam perspectivas complementares entre si sobre a relevância do tema. Esta bifurcação é bem definida nos dois textos e propõe como um dos caminhos possíveis a inércia. da superação. que transpõe os limites quantitativos (T-1-22. 24). a consciência do que tem sido feito ao corpo e participar desta reconstrução teórica e prática. Na expectativa que se faça a opção pelo percurso do respeito. agenciando controle e reduzindo sua possibilidade criativa. sobre a relevância do tema. o corpo (T-1-28. sobre a necessidade de se reconstruir conceitos. Esta proposta de repensar as atividades motoras.

exterminar os pólos de resistência da vida. como prerrogativa de corpo. num movimento de resistência. não é exatamente o que gostariam as Potências dominadoras e as instituições que exercem forças de opressão. estabelecendo novas e desejadas formas de controle. assim. O ser humano pode transcender os limites impostos por paredes. Esta possibilidade humana é possível pela compreensão de que o tempo passado é um presente já vivido e o futuro é o presente a chegar. nada deveria ser esquecido. Esta condição. que pretensamente anseiem por tomar posse de um território. suas posses e seus desejos. a esperança. por isso tentou-se. que a fé e a razão não rivalizem numa relação de excludência. e que a liberdade. por instituições de poder. Mas a corporeidade revela a sua complexidade e sua abrangência. mas este primeiro passo não revela a compreensão completa do significado de corpo e. mostrando que a busca pela superação de limites pode ser livre. o sagrado desponta como virtualidade real e a possibilidade de relação com o sagrado pode ser compreendida como . Entender o fenômeno da existência humana. pelo contrário. o invisível. seu tempo cronológico e kairológico.75 fazer a escolha que permita à Educação Física superar o modelo de dispositivo de poder para controlar os corpos e trilhar uma nova prática no tratamento com o corpo. Ao se defrontar com o conceito plural de ser humano. os pensamentos e os sonhos não podem ser dominados por bandeiras invasoras. reforçam a idéia de que o lado quantitativo deva ser primeiramente compreendido. sua evidência e seu mistério. Os textos não dizem que seja necessário evitar o caráter objetai do corpo. sua materialidade e sua espiritualidade. o eterno. que a busca por uma relação com o sagrado possa ser uma possibilidade reaL Estas perspectivas estão em harmonia com a proposta do livro. por dogmatismos. por absolutismos. o sensível devem ser considerados dentro da complexidade humana para se compreender o corpo e propor atividades motoras que não reduzam o corpo apenas ao físico. pressupõe ver sua pluralidade e singularidade. o corpo. por diferentes formas. Os textos analisados propõem a compreensão de corpo pela compreensão da existência. o qualitativo. sua individualidade e sua sociabilidade. por limites circunstanciais e se projetar para uma instância de infinitudes. por limites de tempo.

primeiramente. destes. Se a criação. infinito e invisível dá condições ao humano para ir além e buscar viver a vida em abundância. a imaginação e o sonho façam parte de uma prática corporal. há uma tabela em que é possível visualizar uma relação entre os conceitos extraídos dos dois textos entre si e. a partir da terceira tabela. Estes aspectos e também os aspectos evidenciados nos dois textos analisados são destacados a seguir com o intuito de uma confrontação conceitual entre si. outra tabela com os aspectos extraídos a partir do segundo texto. Proponho. então.76 possibilidade de criação e de superação. dando sentido à existência. 5.51 Aspectos da Corporeidade e do Sagrado A partir da intenção de se estabelecer uma relação entre o conceito de corporeidade e o sagrado e do que foi apresentado no capitulo três. é possível propor as seguintes tabelas. ao propor que o corpo seja vivido como uma . segundo os textos em questão. o discurso da corporeidade propõe inequivocamente que a criação. Querer provar alguma hipótese a partir desta tabela é exatamente o que não pretendo. O ideal de ver e sentir o eterno. tanto por não aceitar a causalidade como proposta deste trabalho. Por fim. a seguir. como por não ter a intenção de transfonmar em verdade universal aquilo que pode ser apenas particular. nas quais se delineiam convergências conceituais entre corporeidade e sagrado. com alguns aspectos extraídos a partir do conceito de sagrado proposto pelos autores visitados. Desta fonma. a imaginação e o sonho são pressupostos de uma relação com o sagrado e se ver o invisível remete diretamente a um processo criativo. Assim. a tabela com aspectos extraídos a partir da análise do primeiro texto e. podemos levantar uma série de aspectos sobre o sagrado. Esta é a intenção da construção do conceito de corporeidade: respeitar e permitir sua complexidade. é possível inferir uma relação de intersecção entre alguns aspectos do sagrado e os aspectos da corporeidade.

porque cada visita ao templo deve marcar uma experiência nova. Assim. seja por exclusão. uma criação. A necessidade criada. pode dar a impressão de construção física. Estas justificativas já seriam suficientes para compreender que corpo templo não é uma redução. como num momento de crise. reaprender prioridades. seja por gênero. Também porque aquele lugar sagrado representa o caminho de comunhão com o eterno e com o infinito. Não seria possível tratar da busca por um relacionamento com o sagrado sem aceitar. O corpo que aprende. retomando seus objetivos. Toda metáfora em relação ao corpo corre o risco. mas uma metáfora que reforça o ideal transcendente no conceito da corporeidade. Neste processo de superação. não é possível. neste sentido. Segundo. da falta. mas não é este o sentido do corpo templo. para a corporeidade. de um relacionamento com o sagrado pode surgir a partir da constatação de ausência. não é a eliminação de um adversário. não seria corporeidade. é necessário reaprender valores. Tijolo e argamassa parecem ser suficientes. nenhum tipo de redução da vida. ou alimentada. pois isto remete a uma redução da vida em sua totalidade. a vida. tratar da corporeidade sem vida. Se o conceito e a prática da corporeidade não necessitassem de constantes revisitações. não é simplesmente um repetidor de ações. seja por preconceito. no discurso da corporeidade. O caminhar em direção ao sagrado ilumina um trajeto em direção a uma superação de uma determinada condição. Primeiro. novas gratidões.77 possibilidade de mudança. porque um templo deve ser uma obra de arte. pelo menos nesta nossa existência. também. como pressuposto. Por isso não se aceita. num processo constante de renascer com aquele ideal. nonmalmente ele ocorre em um meio . novos pedidos. Então. falar em corpo templo. de reduzir sua complexidade. mas a superação dos limites que reduzem a existência. A superação. num processo de destruir e reconstruir. portanto. esta prática estaria morta e. valores. novas situações. há um resgate de possibilidades de ultrapassar a crise. se for tomada como universalizante. para que a vida seja vivida em abundância. Se o rito tem um caráter individual pelo significado para o praticante e pelo motivo que o leva a estar envolvido naquela atividade. intenções. confonme o item 6 das tabelas a seguir. Para se alcançar o ideal de um contato com o sagrado. seja por racismo.

como propõe o discurso da corporeidade. a seguir. se estiver isolado.78 social. a partir dos textos considerados na análise e a partir dos valores estabelecidos pelo sagrado.5. este modelo de busca pela compreensão do corpo já está evidente como insuficiente e parcial. precisamos identificar o dentro e o fora do corpo. para entender o corpo. tampouco. também apresentam uma perspectiva de complexidade. por exemplo. é neste contexto que ocorre a maioria dos ritos. quer seja com o outro. é possível tratar do viver em abundância. em trechos que reforçam a idéia de que. Não seria possível compreender a totalidade da busca por uma relação com o sagrado se fosse levado em conta apenas o aspecto individual. conforme o item 8 das tabelas a seguir. sem limitações.1 Aspectos da corporeidade a partir dos textos Apresentamos. rejeitando os atalhos que propõem o controle e a redução do corpo num processo de captura. E. e podemos identificar a complexidade com base em textos I . O corpo não pode ser entendido. alguns aspectos que se mostram relevantes ao estudarmos o tema Corporeidade. se fosse considerado apenas o aspecto social. uma vida plena. quer seja consigo mesmo. como sendo o individual e o social. Ao mesmo tempo em que estes aspectos apresentam um caminho de dualidades. pelo reencontro da complexidade humana. Estabelecer estas linhas de convergência entre os aspectos do sagrado e da corporeidade. Mesmo que o social seja uma criação. conforme o item 7 das tabelas a seguir. é uma vida vivida sem reduções. pressupondo-se a liberdade do corpo. sem recortes. incluindo aqui a relação com o sagrado. pois não seria possível estabelecer sentido para a existência no isolamento. Podemos ver a dualidade. quer seja com o infinito e eterno. O corpo é lugar de encontro. 5. Este encontro reforça a importância do encontro do sentido da vida. Por fim. apenas fará sentido se os profissionais da corporeidade conseguirem estabelecer uma prática que inclua estas perspectivas em suas práticas. completamente.

. onde identificamos os Aspectos da Corporeidade extraídos do texto Perspectivas na visão da corporeidade (T -1). a tabela 3. a partir do qual. no processo de análise. extraídos do conceito de sagrado apresentado previamente. com os Aspectos da Corporeidade extraídos do texto Consciência corporal e dimensionamento do futuro (T-Il) e. está a tabela 2. a tabela 1. por fim. juntamente com os aspectos do sagrado. indica a unidade de significado extraída do texto. constituímos tais aspectos.79 que identificam o mistério. o infinito e a incerteza como componentes do todo corporaL Propomos. na qual retomamos os aspectos da corporeidade a partir dos dois textos analisados. inicialmente. O número indicado entre parêntesis na coluna Aspectos da Corporeidade. A seguir. então.

aceitar o mistério. perceber o corpo é perceber a vida vivida (3/5/13!23!24!29). ao compreender a corporeidade.Aspectos da Corporeidade a partir de T-1 N° 01 Aspectos da Corporeidade a partir de T-I o corpo. apenas oferta (27). de alegria (26). a incerteza como componente da existência (22!24). há a necessidade de superar o modelo corpo-máquina. que inventa. identifica-se o dentro e o fora. Corpo não é conslituído exclusivamente pelo que vem de fora. há a necessidade de se rever o conceito de corpo.80 Tabela 1. é necessário ver a vida em abundância (23/29). para não reduzi-lo. questionar o corpo é ver o invisível. o corpo é o local de encontro. vida abundante é vida livre. que imagina. para propor alternativas (20). não é apenas attar ou. em relação de exclusão. o corpo pressupõe vida e. nem exclusivamente pelo que vem de dentro. o templo não é uma simples construção. 11 12 . de prazer. livre para escolher o que acompanhará o conceito de corporeidade (21). entender a corporeidade é encontrar um sentido à vida. superando o modelo corpo-máquina (18/6). que sonha (25/26). é um corpo que cria. corpo-resultado (7!25). o individual e o social (4). 02 03 04 05 06 07 08 09 10 ao questionar o significado do corpo. como possibilidade de mudança. é uma obra de arte que se faz de acesso ao sagrado (28).

02 03 04 05 06 07 08 09 1 o 11 é pelo reencontro da espirttualidade no humano que se identifica a possibilidade de um viver abundante (19). o corpo consciente é o corpo com intenção. o corpo deve abrir espaço não apenas pera encontro.Aspectos da Corporeidade a partir de T.11 é preciso retomar um longo diálogo de aprendizagem com o corpo. onde sacrifício não significa um rtto repetitivo e involuntário (11/15). ver sua disposição em superar como parte do processo criativo. se defrontar com o corpo e decidir seguir o caminho da complexidade. encontramos. é ver sentido na exitência (8/18/20). o corpo é problema e mistério. o corpo é o primeiro e o mais fundamental mistério (4/6).81 Ta bela 2 . mas para um reencontro com o espirttual (12/14).li N° 01 Aspectos da Corporeidade a partir de T. o corpo em atividade física não é o corpo esquecido de si e envolto pela sociedade. mas é o individual. entre os valores imanentes à corporeidade. O renascimento da complexidade e totalidade humana (12/14). a visão da corporeidade é uma visão que retoma a totalidade humana. é a esperança da superação de um modelo reducionista de corpo (1 0/17). o reconhecimento de um corpo espilitualizado é a identificação do corpo como caminho de transcendência (19/20/21). o lugar do devir (13). da identificação dos aspectos que configuram a corporeidade nestes textos. o corpo sujetto (22). e dos aspectos que constroem o conceito de sagrado. a prática da corporeidade requer uma prática que transponha os limites das repetições e que esteja aberta à liberdade (21/24/25). o renascimento de valores transcendentes. 12 A partir da compreensão da relação dos textos anteriormente citados (T-1 e T-11). que remetem o . a esperança de um trato mais humanizado em relação ao corpo. Toda atitude é corporal e corpo pressupõe vida (2/18).

tratando do discurso da . Estes valores transcendentes que se mostram bem presentes no trato com o sagrado. A tabela 3 nos permite identificar a proximidade entre os aspectos que compõem o conceito de Sagrado com os aspectos que compõem a corporeidade a partir dos textos analisados. corporeidade e do renascimento do sagrado. como se fosse apenas um ser social ou apenas um ser cognitivo. Somos.82 corpo a uma realidade que não está condicionada aos limites de tempo e do espaço da existência. também. revelam-se indispensáveis ao se estudar o corpo de forma não dicotômica. Não se pode aceitar o corpo por esta perspectiva. Desta proximidade podemos concluir este trabalho. seres emocionais e espirituais.

o corpo é o local de encontro. que imagina. a incerteza como componente da e o mais fundamental mistério (4/6). em relação de involuntário (11/15). para totalidade propor alternativas (20). questionar o corpo é ver o invisível. 06 CORPO TEMPLO LUGAR SAGRADO o templo não é uma simples construção. complexidade e totalidade humana (12/14). ao compreender a corporeidade. perceber o corpo é perceber a vida vivida toda amude é corporal e corpo pressupõe vida (3/5/13123124129). é a esperança da superação de um modelo reducionista de corpo (10/17). 12 LIBERDADE . é ver sentido na existência (8/18120). ao questionar o significado do corpo. exclusão. nem exclusivamente pelo que vem saclificio não significa um rito repetitivo e de dentro. superando o modelo corpo-máquina da complexidade. apenas oferta (27). é uma o reconhecimento de um corpo espiritualizado é a obra de arte que se faz de acesso ao sagrado identificação do corpo como caminho de transcendência (19/20121 ). o corpo sujetto (22). 05 CORPO ALTAR CORPO OFERTA corpo não é constituído exclusivamente pelo que o corpo consciente é o corpo com intenção. existência (22124). o lugar do devir (13). mas para um reencontro com o espiritual alegria (26). (28). identifica. (12/14). que aprendizagem com o corpo. O renascimento da corpo.li Aspectos do Sagrado 01 CRIAR IMAGINAR 1 Aspectos da Corporeidade a partir de T-1 Aspectos da Corporeidade a partir de T-Il O corpo.I e de T._Aspectos do Sagrado em Relação às Tabelas de Aspectos da Corporeidade a partir de T. corpo-resu~ado (7125). de prazer. é é pelo reencontro da espirttualidade no humano que se identifica a possibilidade de um viver abundante necessário ver a vida em abundância (23129). é um E preciso retomar um longo diálogo de corpo que cria.o corpo em atividade fisica não é o corpo esquecido se o dentro e o fora. (2/18).a esperança de um trato mais humanizado em máquina. vida abundante é vida livre. 11 ABUNDÂNCIA o corpo pressupõe vida e para não reduzi-lo. (18/6). como possibilidade de mudança. onde vem de fora. ver sua disposição em sonha (25126). de o corpo deve abrir espaço não apenas para encontro. o individual e o social (4). aceitar o o corpo é problema e mistério. o corpo é o primeiro mistério. (19).83 Tabela 3 . aberta à liberdade (21124125). mas é o individual. superar como parte do processo criativo. relação ao corpo. 02 SUPERAR VENCER 03 VIDA 04 RENASCER RECOMEÇAR hã a necessidade de se rever o conceito de a visão da corporeidade é uma visão que retoma a humana. há a necessidade de superar o modelo corpo. livre para escolher o a prática da corporeidade requer uma prática que que acompanhará o conceito de corporeidade transponha os limttes das repetições e que esteja (21 ). não é apenas altar ou. que inventa. 07 INDIVIDUAL SOCIAL 08 FESTAS RELIGIOSAS ENCONTROS 09 MISTERIO 10 SENTIDO VIDA DA entender a corporeidade é encontrar um sentido se defrontar com o corpo e decidir seguir o caminho à vida. de si e envotto pela sociedade.

6 O Discurso da Corporeidade e o Renascimento do Sagrado Dentro do contexto da Educação Física contemporânea.84 I 1 5. imaginado. é possível identificar uma tendência que tem contemplado e participado da construção de um aumento de freqüência e de intensidade do discurso sobre corporeidade. mas como experiência que resista à intenção de captura como fonma de estar no mundo. parece evidente que começa a abrir a perspectiva de compreender o corpo como tendo sentimentos e carregando os sentimentos e sonhos em todas as suas ações. como território sem fronteiras e aberto à possibilidade do infinito." (CUNHA. na reciclagem e na contratação de profissionais de Educação Física. "A recusa em reduzir a vida à articulação dos fenômenos metabólicos de natureza físico-química reabilita a alma como lugar do indizível e do inexplicável. apresenta uma tendência. hoje. 63). 1999. num sentido de resistência. por provocações conceituais como esta última. A prática e a construção teórica não devem apontar na direção de apenas uma das possibilidades do ser humano. a Educação Física. pois uma perspectiva unidirecional exclui a pluralidade requerida para que se compreenda o corpo completamente. Assim. Sinto-me instigado. p. a prática. A corporeidade não pretende falar e propor o fato de ser corpo como uma experiência para ser controlada e determinada pelo interesse de outras pessoas ou instituições. criado. a tentar compreender um pouco mais a abrangência do conceito de corporeidade. Neste sentido. aceitando que o impossível começa a fazer parte da realidade quando é sonhado. tenho direcionado meu percurso acadêmico a fim de localizar o lugar do . mas alcança. no qual a responsabilidade do conceito não está circunscrita a uma teoria. Se a Educação Física pretende tratar de corpo superando sua limitada materialidade. Compreender a abrangência deste conceito tem se mostrado relevante na fonmação. explicitamente. de propor uma prática não reducionista de corpo.

através da corporeidade. Por isso. revela-se fundamentalmente importante. Se a nova ordem mundial me provoca a repartir a responsabilidade social. materializada em seus discursos. tudo isto é reforçado pela intenção em romper com os limites das dimensões desta existência e ousar olhar e contemplar o sagrado. sociedade disciplinar e sociedade de controle se mostra relevante tanto para distinguir o papel do corpo visto pela instituição. tentou-se criar uma distância entre os dois conceitos. na escola. através de seus mecanismos de intervenção. Se entender como se dá a constituição do conceito de corpo. Se a abertura ao mistério completa a experiência humana e permite a transcendência. A busca por uma relação com o sagrado. se. como território onde ficam evidentes seus limites. ao retomarmos o que seja a totalidade da existência. mas. p. num movimento de resistência à captura que se tenta impor. mostra-se evidente nesta perspectiva. isto é. o etemo e o infinito. possível pela corporeidade. Então. busco a realização concreta como perfeição e. . enquanto uma institucionalízação de aspectos inerentes ao ser humano parece macular a beleza e a simplicidade da relação com o sagrado. não pretendo formar repetidores de gestos. se pretendo romper com as injustiças. em direção ao corpo. Ao olhar para o perfeito virtual. consigo superar os limites desta existência. num renascer do sagrado. como também pelo próprio corpo. 170). a busca por uma relação com o sagrado. o conceito de religiosidade. compreender a articulação entre sociedade soberana. se é possível falar em pedagogia do amor. corpo e sagrado não são conceitos distantes. 1995. igualmente importante é entender o sentido da instituição. através da história. "A religiosidade. através da história. através da instituição. criando e controlando os estágios da transcendência. ao olhar para o transcendente. Se até aqui a relação entre corporeidade e sagrado parece não estar carregada pela possibilidade de uma leitura enviesada. reencontramos a possibilidade da busca pelo atemo e infinito.85 indizível e aceitar o que seja inexplicável na constituição de uma visão não reducionista de corpo. acaba por delimitar e impor o percurso." (JANA. onde então aparecem suas infinitas possibilidades. a abertura ao mistério e ao infinito faz parte integrante da própria natureza humana. Pelo contrário.

então. mas não necessariamente pela instituição religiosa. devolvendo-lhe a esperança e a liberdade. ou. possibilidades e limites. T-11-16/20) . sem a necessidade de seguir o caminho de outras instituições que exercem controle. Assim. vai ao encontro da superação dos estreitos limites a que o corpo ficou submetido. através de ritos e mitos. mas para visualizar o corpo que transcende. o renascimento da importância desta relação parece restabelecer o sentido mais abrangente da complexidade da corporeidade. dando-lhe a oportunidade de relacionar-se com o eterno e infinito. Este corpo espiritualizado exerce um viver em abundância. Mas se a instituição religiosa tende a ser lugar de captura. T-11-18) enquanto profissionais da corporeidade. Desta fonma. possível pela religião. institucionalizando a alegria e reduzindo o prazer da atividade física aos limites da ginástica. não para ver uma fumacinha fora da máquina humana. sabe o sentido da relação EU-TU e tem consciência de suas possibilidades para poder exercer sua liberdade e sua potência de resistência. A prática da corporeidade deve caminhar. Exercer a liberdade e a potência de resistência garante ao corpo uma força que não se sujeita ao controle das instituições. roubando daquilo que era arte criativa. havendo um conseqüente rompimento na relação com o sagrado. portanto. justamente em direção a um resgate desta espiritualidade (T-1-22. T-11-19/20/21). os dois textos propõem enxergar o corpo espiritualizado (T-1-22. também teria condições de ser seu inverso e abrir um caminho de novas possibilidades e experiências. roubar.86 traduzindo o indizível. abrimos a possibilidade de um renascer conceitual e prático. se a vida pode ser capturada pela força exercida pela instituição. propondo um modelo inatingível (T-1-11/19). por vezes. revendo valores. através do trato com o próximo. fazendo assim uma nova leitura do sentido da vida. criativo e livre. espontânea e intencional um prazer natural. O renascimento do espiritual no humano. pois restabelece aquilo que a instituição pretende. Dentre as possibilidades diante de nossa prática ou assumimos um mecanismo de controle sobre os outros corpos. Compreender a corporeidade desta fonma revela a consciência dos caminhos que estão diante de nós (T-1-21. colaborando na constituição de corpos libertos dos efeitos trágicos do reducionismo (T-11-16). mostrando que a essência da religiosidade é o religamento com o sagrado. estabelecendo um desejo de submissão pelo controle.

respeito fará de nós seres mais completos. por que ousaríamos recusar esta possibilidade? Quando a sociedade clama por valores mais justos e quando o discurso da corporeidade proclama uma compreensão do ser humano de forma mais completa. consigo mesmo e com a natureza. impondo submissão a uma linha de pensamento. há. as exclusões. Esta relação aceita a superação como possível e provoca um reencontro do humano com seu sentido de existência. consciente da relação EU-TU (TU/eterno. Se a opção por fazer uso da relação com o sagrado pode nos fazer exercer a existência de forma mais completa. É esta mudança que se faz necessária nas atividades corporais. a consciência de que absolutizar o ato de criação é um grande risco. mas é estar realizado e completo. Este tipo de relação assume a corporeidade em toda a sua abrangência. O viver em abundância não é um viver com o foco exclusivamente no individual. TU/natureza) como condição ao ser mais. numa relação EU-EU. TU/semelhante. a plena consciência da urgência de se fazer propagar a idéia de um renascimento de valores que alcancem o infinito. mas em toda a prática e na conseqüente construção de valores que acompanha toda a prática. pois não deveríamos universalizar o particular. a qual inclui relações com o sagrado. os preconceitos. Esta importância não se resume às alterações no âmbito do discurso. como a prática para construir. Se há. Esta relação permite criar um movimento de resistência aos interesses institucionais. a uma metodologia de pesquisa ou a uma prática pedagógica. minorando as diferenças.87 não poupando ao corpo um viver em abundância (T-1-29). por um lado. com seus pares. através da Educação Física. Não precisamos identificar alterações inconseqüentes ou impensadas. por outro lado. mas precisamos alterar tanto os conceitos. proximidade. amor. libertando o corpo do controle que sofre em todas as esferas da sociedade. as rejeições e as guerras e se substituir tais atos por compaixão. O discurso da corporeidade é um convincente convite para que este renascer faça parte do conceito de corpo e das práticas corporais. Os profissionais da corporeidade devem estar conscientes da importância que o renascimento do sagrado pode exercer em sua prática profissional. numa dicotômica relação. a . um corpo completo.

oferecer um viver abundante através de nossa prática da corporeidade. mostra-se urgente e relevante neste início de milênio. além de estar presente no discurso da corporeidade. Precisamos compreender melhor a abrangência da corporeidade e também as infinitas possibilidades que a relação com o sagrado pode proporcionar e assim.88 mesma questão parece ser abordada. . Inferimos disto que o renascimento do sagrado.

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95 ÁNEXOS .

na Rua Dois. ora LICENCIADORA. em língua portuguesa. São Paulo. aqui denominado LICENCIADA. inseridos na obra EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTES: PERSPECTIVAS PARA O SÉCULO XXI. empresa estabelecida na cidade de Campinas. LEONARDO TAVARES MARTINS. coletãnea organizada por WAGNER WEY MOREIRA. Página 1 de 2 .INSTRUMENTO PARTICULAR DE LICENÇA DE REPRODUÇÃO DE TEXTO M. c) licença só tem validade no território nacional. brasileiro. li- Considerando que a LICENCIADA tem interesse em reproduzir os textos abaixo indicados. CORNACCHIA LIVRARIA E EDITORA LTDA.642. Gabriel Penteado. b) que a licença seja utilizada exclusivamente para reprodução dos texto no anexo a dissertação de mestrado. R. 56. Condomínio Seranila . Texto: • COSNCIÊNCIA CORPORAL E DIMENSIONAMENTO DO FUTURO- JOÃO F. têm entre si. que integra a obra.Monte Mor SP.488-80. residente e domiciliado. com todo os dados dos Autores e Editora. que entre si fazem M.SILVINO SANTIN. na Rua Dr.181754/0001-11. e de outro lado. III- A LICENCIADORA concede a licença para reprodução dos textos supra mencionados. inscrito no CPF sob no 079. justo e acertado o que abaixo segue. REGIS DE MORAIS • PERSPECTIVAS NA VISÃO DA CORPOREIDADE . Pelo presente instrumento de licença. CORNACCHIA LIVRARIA E EDITORA LTDA. R. com as seguintes condições: a) seja efetuada a referência completa da obra da qual se extraiu o texto. 253. aqui denominada LICENCIADORA. descrita no inciso I. neste ato representada por um de seus soClos conforme preceitua o Contrato Social. I- Tendo em vista que a LICENCIADORA é a concessionária dos direitos autorais das obras EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTES: PERSPECTIVAS PARA O SÉCULO XXI. inscrita no CNPJ sob n° 48.

IVFica eleito, desde já, o foro da Comarca de Campinas, Estado de São Paulo, Brasil para dirimir qualquer controvérsia relativa ao presente instrumento, que é regido pelas leis brasileiras. E por estarem justas, acertadas as partes assinam o presente instrumento, em 2 (duas) vias de igual teor, na presença de 2 (duas) testemunhas, para a mesma finalidade, ficando desde já autorizado pelas partes o registro do mesmo perante os órgãos competentes.

Campinas, 04 de junho de 2003

~.e::et-c<.~
M. R. CORNACCHIA LIVRARIA E EDITORA LTDA
ELIANE CAMARGO CORNACCH!A

~ONÂRDO TAVAREz;:;INS
MESTRANDO

~;::d//&.!! .

TESTEMUNHAS

2

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Pâgina 2 de 2

ÁNEXO

A

Texto 1: Perspectivas na Visão da Corporeidade

I

I

Capítulo I
PERSPECTIVAS NA VISÃO DA CORPOREIDADE

Silvi110 Salllill

Universidade Federal de Santa Maria

I. Que cotporeidade?

Falar em corporeidade parece simples. Mas que corporeidade?
Sempre que nós podemos expressar alguma coisa através de um tenno ou
de um conceito, scntimo~nos a~iviados, pois julgamos ter certe.za do que

se está falando e, ainda, estamos seguros de que os outros nos entendem.

É o que parece estar acontecendo com o tenno corporeidade. Pela facilidade com que o lenno entrou na linguagem acadêmica, tem-se a
impressão de que ele significa alguma coisa com muita precisão e clareza, assim como dizemos, por exemplo, a palavra água. Quando dizemos água, todos pensam a mesma coisa, pelo menos é assim que habituahncnte se acredita. Portanto, ao ser pronunciado o termo corpotei-

dade, todos acreditam dizer e pensar a mesma realidade. Essa confiança do dotnfnio sobre o significado objetivoe unfvoco de corporcidade nparece quando passamos a definir e a descrever suas

propriedades especificas. Não há dúvidas de que, ao nos referirmos à água, podemos descrever sua estrutura atõmica e molecular, avaliar suas qualidades calóricas, definir seus componentes químicos etc. Esse mes:

51

como caracteres A análise dos significados de corporeidade constnrldos pela filosofia e pelas ciências nos mostra a visão do conhecimento racional e cientifico do co o. 1 A compreensão da corporeidade através de conceitos e definições de manuais precisa ser completada pela observação das imagens de corpo que se constroem no imaginário social que. . ou para mostrar a unidade dos aspectos opostos. 2. Corporeidade é um conceito abstrato. cada individuo constJ·ói para si mesmo uma imagem de corpo a partir de sua experiência pessoal. oposto ao espírito. As definições dos manuais fomecem-nos os aspectos inteligíveis e o domfnio cienlffico da corporeidade. É interessante observar que a definição de corpo. Dificilmente ai uém se er unta sobre o significado do próprio corpo. portanto. em geral. pela filosofia contemporânea. não podem ser legítimos. Dessa maneira procura-se estabelecer seus aspectos filosóficos. a primeira imagem consciente de corpo que cada um constrói obedece aos modelos impostos pelos valores culturais vigente5: ' . a maioria das pessoas não tem uma compreensão cientffica do próprio corpo. mas possui uma imagem do corpo elaborada não a partir dos conhecimentos aprendidos na escola · e sim através da maneira de vivê-lo. quando se trata de corpo humano. A Ungua portuguesa mantém em seu vocabulário a raiz grega para designar simplesmente os aspectos corporais. dentro dessa ótica. a pergunta: que corporeidade? · Como atingir o significado ou os possíveis significados de co1-porcidade? O hábito de recorrer ao sentido dicionarizado não esclarece muito. como doenças sotn~­ ticas.. dando-lhes pouca atenção. transferido com facilidade para outros conceitos como o de corporeidade. o homem fazia a experiência existencial do corpo. pensar mais profundamente o que significa corporeidade. ainda.e cor-po vivo -/eib. sociológicos c psicológicos ou gnmntir os padrões de nonnalidade ou anonnalidade. também. Jean Paul Sartre e Maurice Merléau-Ponty. A corporeidade passa a ser um conceito que diz respeito a algo material. O importante e corporeidade socializada. psicossomáticos. Muito antes dos conceitos e dos conhecimentos científicos de corpo. acima referidos. quo os procedimentos de transferência. esse olhar se dá dentro da ótica das imagens corporais existentes na ordem social. rimentais.. a bem da verdade. Ainda hoje.'!\ imagem de corpo não surge das experiências existenciais da vida pessoal. A experiência corporal aconteceu. recorrer às diferentes fonnulações da questão da corporeidade. à alma. às vezes. cendo. acrescenta de maneira explfcita sua distinção com o esplrito ou com a alma. Precisamos. a preocupação com o regime alimentar.: Ágúa ê um conceito concreto. A corporeidade. Poderíamos. é. a não ser no momento em que aparecem problemas ou disfunções. então. O dicionário define a corporeidade como "natureza de corpo" ou "estado corporal". em última instância.nem mesmo.' ao contrário. são as que determinam a vivência corporal. . · ·· ·· · Muito antes do pensamento lógico-racional e das ciências expe-.: Pelo fato de as funções vitais da corporeidade desenvolverem-se de maneira espontânea não há maior preocupação com. n~. •' I . Quando as pessoas começam a u trapassar os rmrtes a mera expenencia corporal e passam a olhar o corpo. um objeto material concreto. de maneira espontânea sem nenhum concurso das explicações cientificas.elas. o uc nem sempre corresponde à corporeidade yividi no cotidiano das pessoas. Não há. Horkheimer aproveita os recursos da língua alemã e a profunda a compreensão de corporeidade através da distinção entre corpo flsico. A corporeidade e os homens !. situam a corporeidade como a dimensão ontológica da situação do homem como ser no mundo. Por isso. significa a parte material dos seres animados ou. o organismo humano.. a orientação dos clichês da propaganda de produtos das indústrias de alimentação e não das necessidades de nutrição do 52 I organismo.korper.mo procedimento. segue-se. Essa transferência será legítima? Os conceitos de água e corporeidade pertencem à mesma categoria gramatical? Sem dúvida. por exemplo. por sua vez. indica a essência ou a natureza dos corpos. A etimologia mostra-nos sua raiz latina. é entendida como o oposto da espiritualidade. Fica cl~ro. e em geral continua aconte-. Corporeidade é um derivado de corpo que.

porque mensuráveis e demonstráveis. também pam as primeiras sél'ies do primeiro grau. o tnundo. O conhecimento da experiência existencial ou. Os sentidos ": a sensibilidade são enganadores. conduzidos por uma parafernália de métodos e recursos didáticos com o objetivo de garantir o pleno desenvolvimento meHial. é a história da alina. por decorrência. apresentado como a exaltação do corpo. de submissa. era o valor supremo. Imensa. A ciência seria construída ~obre os fatos.:é ntraf n. Pouco se sabe sobre a maneira de cultivar o corpo. A Educação Física prestou-se para garantir essa inferioridadecorpórea em nossa tradição antropológica que. fascinante e assustadora é a galeria dos perfis corporais construi~. As ciências modernas vieram fortalecer a ideologia da raciona':' !idade. aí sim são conceiJtrados todos os esforços. uma cínica e sádica exploração de sua~ forças e de sua vitalidade. Nomomentodedesenvolvera inteligê11cia. Desde quando as atividades recreativas são sinônimo de Educação Física? E será mesmo que a inicia\'lio esportiva c as pt·ótlcns esportivas gnrnntcm n Educnçiio Píslcn? Quando acontece o despertar da sexualidade as coisas ficam . contrário. onde a inteligência. Pela ciência atinge-se ou constrói-se o conhecimento objetivo. como diríamos hoje. vivendo o cor 10 distraidamente. ele se constitui no fundamento e na justificação de uma ordem social.casos. mas para assegurai· um desempenho maioria das vezes. o corp01·al que favot·cça o apt·endizado decontet'tdos intelectuais. As dimensões corporais não passam de uma categoria de valores secundários na. a Educação Física seja compreendida como a cultura corporal. Não se pode esquecer que foi dentro dessa atmosfera racionalizada que a Educação Física e os esportes foram pensados e praticado~. É interessante observar que o pensamento lógico-racional não tem o compromisso inocente com a busca da verdade.no fundo. Está na hora de perguntar: que compreensão de corporeldade deveria orientar os exercfcios da Educação Física e fundamentar as nossas atividades cspot'tivas? De que maneira seria possível estabelecer tllna imagem de corporeidade capaz de cultivar corpos humanos? 3. ou a mente. por vezes até abjeta. Tudo ficou estabelecido a partir daquilo que posterionnente chamou-se de verdade científica. a Educação Ffsica e até o esporte são lembrados não propriamente pata cultivar o corpo. _ylda humana.cientificizada e industrializada em nada garante o cultivo do corpo. uma ferramenta a ser usada segundo a vontade de cada um ou. um dia qualquer. O saber construido pelo corpo não merece confiança. polfllcos e ideológicos de outros grupos. Nessa ordem social. Sun ntcnçiio. nlndn mnls compllcndns.. tot·tm-sc. tiveram as mais desastradas e desvirtuadas experiências de sexualidade. Resta a esperança de que. O adolesceiJte é entregue a sua própria sorte ou fica à mercê daqueles que. Agora sim. da consciência ou da razão. seguro e o único verdadeiro da realidade. Os c<iucadot·os cntrnm em pnnlco ou preferem desconhecer. disciplinada. Esses fatos são lembrados com a intenção de mostrar como o homem espiritualizado e intelectualizado pouco valor atribui nos pdncipios da corporeidade. deveria também exercer o poder.É nsslm ue o homem cresce. Epistemologia e corporeidade Foi com o surgimento do pensamento racional que a humanidac de estabeleceu a exigência do conhecimento intelectivo da realidade como base de sua ação prática. como se pensa. o reduz a um objeto de uso. A imagem da cotporeidade de nossa cultura racionalizada. um utensílio. ao . não tem o crédit~_ da cientificidade oficial. confonne os mtcresscs cconunucos. o conhecimento popular. Foi nesse contexto cultural que o imaginário social estabeleceu uma imagem de corporeidade inspiradora de sua vivência corporal. O próprio esporte. desde multo cedo. Em todos esses perfis corporais aparecem claramente os traços de uma corporeida- homem dotado do saber i11telectual é o que se torna o verdadeiro homem e. provavelmente. desprezada. cstunu nc n e <tl'lgt< a pam o desenvolvimento da inteligênci~. . Suas descobertas são as leis que resultam dos experimentos desenvolvidos com métodos seguros e eficazes. dos pela humanidade e atestados pela história das culturas. dcntt·o do espírito do velho ditado: mens sana in corpore sano. tanto que a Educação Física quase não existe para as instituições pré-escolares e. o que é pior. nunca a história dos corpos. em·m~itos. os objetos. . na Realmente depois da revolução copernicana foi inaugurado o ponto de pat·tida obrigalól'io a toda epistemologia que pretenda ser 'i4 .·.

Sempre que se buscava uma definição do corpo. Quando se trata dos aspectos especificamente humanos. muito tnenos podem ser estabelecidas como o único saber. Essa situação torna-se dramática quando queremos estudar o corpo humano. O corpo era sempre entendido como o oposto da psyqué. de modo tnuito patticufar. Um cadáver jamais poderia garantiruma cÓmpreensão completa. já que facilmente ele pode ser reduzido a seus aspectos físiCos ou quantitativos. A medicina e. os mistérios da vida humana possam ser tratados da mesma maneira. não se reduz a fntos ffsiéos. caso se queira preservar o fator humano.ocorre ainda hojeacrescentava-se o dado de que ele é o oposto da alma. A Educação Física recebe uma profunda inspiração dessa maneira de pensar o corpo humano.. à mecânica e à fisiologia. .nária foi elaborada para explicar os fatos físicos. começaram a· surgir fortes questionamentos devido a esse processo único e monopolizndor de cientiftcidade. Há utna infinidade de fenômenos que ulu·apassatn a esfera daffsica. quando não o abuso. Procedimentos já denunciados por Gocthe e. como os anaboHzantcs. O pensamento filosófico grego partia da psyquíl para chegar à realidade corpórea. O mundo. em especial por Vesale na sua famosa tentativa de realizar a anatomia num homem vivo. A medida que a Educação Física utiliza os conhccitnenlos da l>ioquhnicn c da Uiomccânicu com o objetivo de Acontece que a ciê!J~ia moderna começou tendo como modelo a física. Na explicação cientffica do corpo humano há pouca consideração com os aspectos vivos e biológicos. pode-se identificar séries ilimitadas de subconjuntos que. Os conhecimentos científicos do corpo. Acl'cditn-scquc. a situação fica muito mais complexa. embora não tenha resolvido o problema. pois está d~sprovido de seu elemento principal: a vida. As ciências modernas também não se preocuparam diretamente com o corpo. Toda metodologia da ciência revoluci. o que nillfluém contesta. desenvolvidos nos animais. fundamentados e inspirados nas perspectivas da· ecologia estão a exigir uma revisão de nosso modelo positivista de produção do conhecimento. Vamos observar apenas o tipo de relacionamento que se estabelece entre o corpo . O corpo humano não passa de uma máquina com reações qufmicas. Portanto. Pode-se fa. Pode-se aceitar que o universo seja uma grande máquina cujo funcionamento possa ser descrito pela linguagem matemática. Mas.scttl eles.estudos de anatomia comprovam essas perspectivas pelo fato de serem realizados em cadáveres. essa distinção é aceita por todos. O fato representou uma mudança radical no processo de produção do saber. em especial. · humano e as atitudes da racionalidade e da cientificidade. Ainda. Muitos outros pontos podem ser questionados sobre o tratamento do corpo humano dispensado pelas pesquisas científicas. também não podem ser aceitas como o passo mais avançado do desenvolvimento do saber humano. Etn nenhum momento da história do conhecimento racional houve preocupação em definir o corpo humano a partir do próprio corpo. 'estão vinculados preponderantemente à ffsica. devido a sua especificidade. dentro desses três grandes conjuntos. dificilmente submetem-se ao mesmo tratamento homogeneizante. a produção de medicamentos mostram claramente que o corpo humano é visualizado dentro dos princfpios da quhnica. mas que a dinâmica dos seres vivos c.lar. ns ciêt1cius lttUJJatms ficattl sc111 rigor e objetividade. As ciências não podem ser desprezadas. será preciso saber o que é alma ou a psyqué para se poder saber o que é o corpo. ela abre espaço para o uso.científica. Inicialmente tal problema não foi levado em consideração ou. Coube a Dillhey apontare esclarecer a razão dos problemas iniciando a divisão entre ciências naturais e ciências humanas. porém. talvez. involuntariamente. fingiu-se que ele não existia. Os movimentos alternativos. cujo objeto é o fato físico. A única coisa que se pode apreender de um corpo morto são suas peças e suas funções mecânicas. mas também em relação a todo o universo.já que os modelos positivistas das ciências exatas continuam prescJJtes e ·ativos. além do conjunto dos fatos físicos. em outros dois grandes conjuntos: o dos fatos biológicos e o dos fatos humanos. desde a metade do século passado. Hoje. preferiram transferir para o homem os resultados obttdos em estudos. Os . melhorar o rendimento de um atleta. capaz de explicar todos os problemas e toda a realidade. não só quando se trata do ser humano. todos sabem. de drogas quhnicas. torna-se muito diffcil de ser admitido. já que a vida seria fundamental para se obter o conhecimento verdadeiro do corpo humano. . dctenninando os rumos das ciências l•utnnttns.

Esses filósofos colocaram o ponto de partida da hannonia da esfera nos princípios da acústica · e das relações tnusi~ais. A visão matematizante e geometrizante de Galileu venceu. para os homens das ciências. 184) . dizia Aristóteles (Gomperz. baseandowse na compreensão musical do universo. O número é tnera 4. serviam para garantir a audição da musicalidade dos corpos celestes. entretanto. os pmprios cientistas. É o segundo ponto que nos interessa nesse momento. surpreendentemente reencontra um novo alento ale entre. mas sim o cérebro. hoje. ou como querem alguns críticos. e são instituições muito recentes. 59 . Foi no contexto dessa astronomia musical. mas profundamente ideológica e política. Os números. pode ser considerada como seu oposto. a Religião. 1ai atitude. conseguiu tornar-se o precursor da teoria heliocêntrica. A colnptecnsílo do mundo como uma harmonia musical não meio das ptf'. A visão hannônica do mundo tem seu começo desde os présocráticos. uma relação musical entre o movimento dos astros e a sonoridade produzida por esses movimentos possível de ser expressa matematicamente. 181-184). Essa consideração dos acordes musicais. e pela primeira vez. propiciou-lhes a oportunidade de descobri r e cst udar as proporções aritméticas. A história das ciências mostm-nos que as alternativas de desenvolvimento da inteligência humana estão presentes desde o início do pensamento racional. O espírito da ciência atual é absolutaJnclltc oposto ao método pitagótico. V oi. diz Leon Robin. pp. da técnica e da infonnática. Portanto. que não segue os principias da lógica racional. uuncn foi pncffico. · Essa outra maneira de pensar. Foram os pitagóricos que começaram a sustentar a doutrina conhecida como a hannonia das esferas celestes. explicativos. a primeira dissecação de cadáveres através da qual chegou à conclusão de que o coração não é o órgão central do corpo humano.Ssões avassnladoras do poderio das ciência~ modernas ~~ . que Aristarco. houve outm maneira de pensar que.C. deve haver.Op. V oi.Op. e precisamos questioná-lo. A essas relações atribulam os caracteres da simplicidade. cotn a escola pitagórica. Elas não são exatamente a reprodução da realidade. porque há uma relação matemática entre os sons hannoniosos e as cordas vibrantes. geotnétri· case hannônicas. já no século III a. foi um dos que tentaram mostrar que o universo é um grande concerto musical em sua obra A harmonia do mundo. com 0 objetivo de sustentar a tese de que nela estaria uma das alternativas viáveis para o homem construir um saber capaz de com- ficou restrita aos pitagóricos. também. segundo os pitagóricos. sem nenhum valor explicativo.içÕeS humanas. tnas eles são tntnbém. a seu laclo. Estética e corporeidade As ciências são consth. Além disso as ciências são um fato social como o Estado. ao pitagórico Alcmeon. Observando esses dados. O físicoKeplcr. A primeira diz respeito à validade da cjência. para eles. cit. parecerá um dellrio. da simetria c da hannonia. entretanto. Era assim que eles descre~ viam o céu.. Sempre lembrando que os números não são reduzidos às dimensões quantitativas. A proposta de Kcplcr não passava de ficção poética. 1967: 181). (Robin. principio básico da doutrina pilagórica sobre o mundo. Assim. A segunda refere-se ao monopólio do conhecimento clentffico. O pensamento lógico-racional conduziu a mente humana à matematização e à geometrização do universo como a fom1a . uma ficção absurda e fantástica (Gomperz. contemporâneo de Galileu.Resta-nos perguntar: existem alten1a'tivas possíveis? Onde encontrá-las? preendcr a realidade e de definir suas relações com o mesmo de maneira plenamente válida.correi~ de explicar a realidade. Scmp1·e. cit. . sempre na era pré-cristã. Tal procedimento. privilegiar a ciência é uma atitude não muito científica. Somente é possível lembrar alguns momentos m~ts slgmflcativos. como sendo todo número e hannonia. Deve-se. sob muitos aspectos. I. O primeiro ponto não vamos abordar por ser muito longo e complexo. pode ser exposta aqui em dois moment~s. I. Ela sustentou-se penosamente no simbologia quantitativa. p.foi pacífico. e cspeciahncntc. Ela é muito mais eficaz e produtiva. somente retomada em definitivo no século XVI da era cristã por Copémico e Galileu. Não é possível aqui descre~er a evolução da v1sa? que interpreta o universo como um grande espetaculo ou concerto ~e ~~~~~~s e melodias.. O l~rim~i~·o momento consiste em ver o universo como uma hannoma mus1cal. 1961: 74-85 e Gompcrz. duas coisas podem ser consideradas. como querem os cientistas positivistas. não .

Um homem pode ser-nos agradável por sua solicitude. referindo-se aos pitagóricos e à obra de Kepler. Abraham Moles. uma educação para a saúde. de modo algum age livre de leis e acrescento que a liberdade estética se distingue da necessidade lógica do pensamento e da necessidade moral no querer". Ou. No sistema kantiano. enfim. para eles constituíam uma pal'lc fundamental da filosofia. A. sirva de explicação o seguinte. moral. 1971: 146-148). referir-se a nossa vontade e ser considerada como objeto de escolha para ser racional: essa é a sua índole moral. assim. da pollfica. pode-se dizer que estética significa a moral ou o costume da sensação e do sentimento. que lidera 15 cientistas no Instituto . toma um aspecto místico cuja expressão e mfluencla no domínio artístico conhecemos bem. então talvez existisse a chance d. possibilitando-nos conhecimento: essa é a sua índole lógica. Todas as coisas que de algum modo possam ocorrer no fenômeno são pensáveis sob quatro relações diferentes.Atualmente essa mesma percepção da hannonia musical foi invocada por um grupo de neurologistas para explicitar a sincronização dos neurônios distantes. destituído de fim e de utilidade. 1990: 107). Portanto. Existe. de Frankfurt. (Moles. Os gregos sempre cultivaram as questões. nada melhor que ouvir suas próprias palavras: "Para lcitorcsqucniiocsfcjnm fomiliorizodos com a significação desse tenno tão mal-empregado pela ignorância. Louis de Broglie. ele pode aprazer-nos na mera contemplação e apenas por seu modo de aparecer. Toma-se uuportantc resgatar sua riqueza semântica. julgamolo esteticamente. Nessa última qualidade. Já Einstein pensa o con~rá~i~ e afinna que 0 senso estético não desempenha papel algum na constlltllçao de uma teoria. Max Planck de Pesquisa Cerebral. ainda. Para isso. . caso queiramos abrir UI~ es~açoyara que n EducnçiíoFískn e os esportes no futuro nl encontremmsp1raçao c nova conipreensão. ' '. (Schiller. uma educação para o gosto e a beleza. Emmanuel Kant no século XVIII retoma as questões de estética. Uma coisa pode referir-se imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência e bem-estar): essa é sua índole física. e livre no mais alto grau.n? é "aisth" que significa sensação. independente disso e sem que tomemos em consideração alguma lei ou fim. a outra é "elos" que s1gmf1ca embora livre. Ela pode. como explicação complementar. 24/05/91) A doutrina da hannonia das esferas e da compreensão musical do mundo está intimamente vinculada ao sentimento estético. de estética q~1~. afirmou que é um falo curioso-mas inegável-que o senfllncnto eslcllco serve sempre de guia na elaboração das teorias da nova filosofia. pode. Será exatamente através de Schiller que poderemos recuperar a riqueza simbólica do tenno estética. aplicado como motor e como guia na organização dos fatos e dos conceitos. 6. Essa compreensão de estética é retomada por Friedrich Schiller em sua obra Cartas para a educação estética do homem. (Folha de São Paulo.e 'que neurô1:ios distantes entre si sincronizassem as respectivas melodias. pode incutir respeito por seu caráter. I t costume. referir-se a nosso entendimento. ela pode referir-se ao lodo de nossos diversas faculdades sem ser objetodetem1inado para nenhuma isolada dentre elas: essa é a sua índole estética.ente na astronomia exerceu importante função. E SciJillct acrescenta ainda. O termo eslética compõe-se de duas raízes etimológicas: U1. ~acres­ centa: "Parece-me certo que o trabalho teórico é muitas vezes onentado e guiado pelo sentimento estético". em ~m. Wolf Singer. finalmente. garante que o método estético nas ciências e particularn. E isso não pode ser atnbuído a eventos fortuitos mas ao mérito do método. p. pelo diálogo. também. todo coerente. uma educação do pensamento. Ela pode. ao lado da ct Ica. de qualquer coerção. Essa tem por fim desenvolver em máxima hannonia o todo ele nossas fnculdadcsscnslvcis ccspiritunis". dar-nos o que pensar. pois a sensação precede a consciência e nessa prioridade do 60 . por sua vez. uma educação para a moralidade. que "a mente no estado estético. · ·' ' ·' Continuando no pensamento de Schiller. Cademo de Ciência. da metaflsica. elas são melhor descritas como um cantarolar. Pensei que. Hoje o conceito de estética está muit~ empobrecido e reduzido às fonnas exteriores de um corpo. que se constitui no segundo momento da maneira de pensar oposta às geometrizações e matematizações do universo. ele diz ser preciso que fique claro que o impulso sensível (estético) precede o racional 11a atuação. sentir. estética é umjufzo que considera as fonnas das coisas de maneira a tirar um sentimento de prazer. se encontramos estruturas de resposta rítmica. para com Isso· estabelecer a ligação entre sinais". Moles pensa que o sentimento estético. disse: "Na medida em que as oscilações não são ·intyiraqtente regulares.

o lugar que lhe foi detenninado no conjunto da grande máquina que é o uniyerso. ainda que supe1ficial. A doença e a vida nunca s?o percebidas dentro da dinâmica da afetividade.. O corpo é um snnples. Todos esses temas estão exigindo uma revisão dos conceitos de corporcidade.cas. Não se vê um corpo vivo. isso é. co1'no s~guindo as velhas teses antropológicas do passado. A pri1ncira dcssns gmndcs áreas é formacln pelas ciêncins dn saúde c por todas as instituições ou atividades institucionalizadas com o objetivo de tratar o ser humano doente. uma inteligência ou uma razão. ao avanço da chamada medicina estética c. amarrada aos padrões das ciências experimentais. na tnalotJa dos casos. Dificilmente vê-se a corporeidade vinculada às questões de ordem social. Ou sobre a saúde e a doença. 5. atualmente. nos lmutes de um corpo físico. de modo muito mais significativo. A segunda é constitufda pelo conjunto de atividades que engloba a Educação Ffsica e por todas as práticas esportivas. A partir desse momento 'p~démos cot1cluir que o homem. p. O homem pode. mas dentro da ótica da aptidão e da capacidade para a prática dedctemJinados exercícios. Seu suprémo ideal é atingir o máxhuo rendimento c a máxima eficiência. por isto. no contexto das slhla\'Út•s sod:IÍ~{ e cullul'ais. politica. Mas esse poder. O corpo não passa desse objeto postado submissatnellte diante do médico. que pode ser recuperado quando houver mteresses econômicos ou politicos. Atualmente esse uso esta quase cxclusivmnente voltado para as práticas esportivas. a Educação Física age sobre o co1·po em nome do princípio da utilidade. ser visto. Sua realizaçãO é ocupar. ao contrário. tanto quanto a medicina. mas com a descoberta da. esportes e corporeidade Duas grandes áreas estão diretamente vinculadns às questões da corporeidade por seu compromisso com a manipulação dos corpos humanos. As instituições médicas continuam mantendo mn poder absoluto o tnundo. 104). a humanidade do homem não se dá com a racionalidade.~eleza. ainda não se percebe uma maior prcocu()ação em quesüonal' a compreensão da cotporeidade que fundamenta as iniciativas curativas e mesmo preventivas no contexto das relações saüde e doença. econômica.cientista e juiz. Numa observação. ideológica. às vezes. cit. mas parece que tudo continua tranqüilo . do aumento das práticas dos transplantes.ou um resultado de exames laboratoriais. doente ou sadio. outras vezes restrita ao individual e. A Educação Ffsica c os esportes delêtn a outm fatia do poder de ag1r sobre os corpos. sobre a vida e a morte dos corpos. Acontece que o impulso sensível desperta com a experiência da vida e o raciOnal com a experiência da lei. Os corpos ficam enclausurados nos horizootes estreitos de uma corporcidadc colocada. e foi o que sempre fizemo~. A Educação Fisica está diante dcssns duas altcnwtivas. Nessa área. Por isso não é de se estranhar que existam pessoas que acreditam que os modelos da cientificidade modema sejam ainda capazes de resolver os problemas da Educação Física. c~tno um mecanismo detenninado por princípios e leis da ffsica e da meCânica.mecanismo que sofre avarias. A grande maioria das populações carentes continua fora dos esquemas da corporeidade com direito à vida saudável. a bioquímica constituiu-se no carro chefe dos conhecimentos e dos produtos usados para restaurar os corp?s ~lebilitndos c doentes.impulso sensível encontramos a chave do toda a história da liberdade humatia. religiosa ou cultural. Ela pensa no uso do corpo. de pessoas. A d~cisfio vai genw collscqiiêncins dife1·entr:s. continua ~om ~idéia de que existem doenças somáticas e doenças p~lqul. contmua ll1sp1rado na mentalidade de que na ponta de um b1stun nunca foi possível espetar uma alma. pode ser visto como harmonia com base no impulso estético e nos sentimentos de beleza. A corporcidadc da bioquímica esgota-se aperfeiçoa as técnicas do rendimento ou se arrisca pelos valores da cslélicn. segundo Schiller. Assim. pode-se perceber que a Educação Física. mantém-se presa a uma compreensão de corporeidade muito limitada ao coq>O fisico. Sua realização é viver na liberdade gerada pela perfeição estética. A Educação Física não classifica os corpos com critérios de doença ou saúde. Assim. Os problemas mais graves dizem respeito. Educação Ffsica. 62 63 . As ciênciaS da saúde e as práticas médicns sempre reivindicaram o direito de serem as únicas a poder atuar e intervir nos cmpos doentes. dos valores estéticos. senão opostas. como o oposto do espiritual. (Op. como uma engrenagcln.

Interessante lembrar que não se preocupou com o c01·po trabalhador. Então os instintos.idas pelos princípios da racionalidade. Isso acarreta uma série de conseqiiências. dois grandes painéis onde facilmente são observadas as linhas básicas de duas imagens de corporeidade humana. graças à utilização de corpos disciplinados. sobre ossos humanos: 2 milhões de traba Ih adores mortos.. O turismo contemporâneo só mostra as obras de arte que refletem a vida dos nobres. Nt1 fonnação de corpos gucrrclt·os c llíl fommç:lo de corpos atletas. A ocupação do território brasileiro. aumenta as forças do corpo (em tennos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em tennos polfticos de obediência) (Poucault. âgeis. cujas bases são defit). O castelo de Versalhes. Foi assim que o ptogressoeconômicoavançou. está se dando ao preço de milhares de migrantes. da ordem e da justiça devia ser construída sobre milhares de cadáveres a prova mais e"<idente da eficiência da educação disciplinar imposta ao corpo. isto é. daqueles que pelo csttrdo c pelo conhecimento conseguiram o domínio sobre o raciocínio lógico. 1977: 127). que sim. proletário. supõe-se. mas em necessidades e interesses vi11culados ao estabelecimen1ode uma ordem social e cultural. seja em relação à coletividade.cia foi demonstrada com maior empenho. significa que esse deve ficar submisso e dependente da razão. Poi assim que os homens superiores. ainda que um esboço rudimentar. posseiros e sem-terra. São Petesburgo. Na arte da guerra ela investiu em fabticarcorpos fortes. Poi assim que o corpo individual tomou-se um instnrmento a serviço da razão e os corpos ignorantes e analfabetos foram reduzidos a uma ferramenta nas mãos das classes dominantes. e também capazes de gestos heróicos em defesa da ordem social vigente. resistentes. Mas sempre etn beneficio tos disciplinadores. guiados pela racionalidade. Significa que se os homens que usufruem uma racionalidade mais desenvolvida e cultivada são superiores aos demais. Os corpos disciplinados tomam-se "aptidões" e "capacidades" a serem utilizadas para as eventualidades determinadas pelas instâncias do poder. não se fundamentou em seu modo de ser. A disciplina é capaz de aperfeiçoar a ferramenta e docilizar as energias do dos corpos envernizados pelo saber científico e racional. camponeses. 64 65 . 5. foi fundada em 1703 pelo czar Pedro. passou a detenninar os treinamentos úteis para a disciplinarização e para o desempenho de tarefas específicas. A história da Educação Física é longa e conhecida nessa dedicação de fabricar corpos disciplinados e submissos.1. da liberdade. como valor supremo do homem. Por isso a disciplina tem a tarefa de fabricar corpos submissos e exercitados para o desempenho das tarefas específicas que auxiliem a mente e a ordem racional. portanto. Para que esses ideais superiores pudessem ser realizados foi estabelecido f]UC os corpos deviam ser submissos c disciplinados. os sentimentos precisam ser enquadrados pelos procedimen- de tambores. a corpo. útil porque se toma uma ferramenta produtiva. Perigosa na medida em que é uma ameaça. Essa força é útil e perigosa ao mesmo tempo. a priori. Em duas áreas sua eficíên. julgaram que a defesa da democracia. em tempo de paz ou decididos a marchar corajosamente para o supremo sacrifício nos campos de batalha. da paz. seja em relação aos indivíduos. ou seja. de novos tnundos se tomaram possfveis e que a expansão da civilização racional e científica se operacionalizou. os outros devem-lhe submissão e obediência. . sempre prontos a entrar nos desfiles de marcha ao som parte que deve ser sacrificada em função dos ideais verdadeiramente humanos da humanidade. A exaltação da racionalidade. Por exemplo. dóceis. diz Poucault. que os "descobrimentos .Diante desse quadro podemos traçar. apesar do objetivo de desenvolvimento econômico. com seus parques e lagos. O corpo é uma força instrumental nas mãos do homem. o Grande. Os exemplos são inúmeros. foi construido sobre milhares de corpos camponeses vitimados pelo impaludismo. diz a história. Não se discute se a razão é mais justa ou mais humana do que o coração. A submissão e a obediência só acontecem através de regras disciplinares. É bom lembrar alguns fatos. as emoções. desde sua colonização. A disciplina. Sempre e em tudo. A corporeidade disciplinadora. se a racionalida- de tem valor superior e o corpo tem um valor subaltemo. Uma corporcidade disciplinada A corporcidade disciplinada é a conseqüência imediata da compreensão do corpo como parte secundária do ser humano.

Assim.2. Estes nem mesmo ptccisatn de exercícios disciplinadores. em geral para usufruto de outros homens. mas em treiná-lo e automatizá-lo para que possa obter o máximo de rendimento. Para repensare desenvolver a corporeidadeé ftmdamcnta\ aprender a realidade corporal humana. A corporCJdade deve ça daqueles que buscam a própria sobrevivência em terras longfnquas e desconhecidas. mas corre-se para superar barreiras. o senso estético ele. Isso. feixes de músculos. Também não significa que isso seja a corporcidade humana. que não abrigam uma tnzãodesenvolvidn. mas aÍ I~ não se pensou seriamente em cultivar o cotpo humano. A interpretação lliio se faz pelos padrões oficiais da biologia. E certo que ela não é um objeto. executados. Essa tarefa precisa ser começada. Não pode ser só cultivo porque pode dar a impressão do ~la!ttio de árvores. a luta pela sobrevi- . consumos aeróbicos. tambCtn. humilhados e explorados de milhares de trabalhadores. os impulsos sensíveis. desdentados.odelo. a cotldlanidade do esforço e do trabalho criativo. ou melhor. Js!o e. Uma corporcidadc cultuada c cultivada Estamos habituados a exigir que as palavras tenham sempre um conteúdo claro c preciso. c no meu entender deve ser. os da ordem econômica. uma ação muito manual. fortes. A corporeidade precisa ter a dtgntdade da ação sagrada e festiva e. que tenham um sei~ lido objetivo e definido. as prisões são a outra fonna de disciplinar. os sentimentos. acabado e completo. fllas sua linguagem não deve ser cientffica. no cotidiano. a tarefa da Educação Física: cultivar e cultuar a corporcidade. Os outros corpos não interessam. continuam os corpos famintos. A corporeidade deveria dar-nos uma idéia que reunisse a ação de cultuar e a de cultivar. mas para nos 111Splrar a traçar as atividades especificas de seu desenvolvimento. pressões cardiovasculares ou dispêndios calóricos. resistentes. ou valem apenas enquanto ferramentas de trabalho. q~•e ~recJsa ser venerado e contemplado. uma ação. ao mesmo tempo. continuam não valendo nada. pode-se dizer que a corporeidade é culto e cultivo do corpo. Também 11ão pode ser como conjuntos de articulações. flores ou cereais. O corpo é falante. ou pela esperan- Pode ser que a corporeidade não exista. que acontece de fonna ex tema. . Lá fora. nao acontece com o tenno corporeidade. Nas atividades esportivas ocorre praticamente o mesmo fenômeno disciplinador.A_ corporcidade humana deve ir além. Talvez não seja mteressanle. provavelmente.. vivêla. sadios c jovens.stgluficar um desafio para a imaginação e a criatividade. Não se compõe apenas dos recursos orgânicos mais do que uma coisa a ser apreendida abandonados. Ela é. mas na realidade vitimados por interesses gatwnciosos dos mandantes da guerra. Assim. urna. homens c mulheres. ao soldado desconhecido. mas eles podem ser encontrados nos outros seres vivos . cifrad. Não significa que esses dados devam ser desprezados.. Há preocupações em construir o corpo guerreiro. número de batimentos cardíacos. ltucidados pelos grandes ideais da humanidade. Essa poderia ser. as emoções. O corpo não vive o esporte ou o movimento. um fato. é o cacoete da linguagem científica. sem dúvida. e fl~lc~s. não se corre enquanto a corrida é um movimento agradãvcl. mecatuca. falta o íntérprete. Não pode ser só culto porque pode sigt~i ficar que a corporeidade seja algo pronto. que 66 67 . Fica completamente descartado o luibito de entender o corpo a partir de elementos que vêm de fora.. As idéias de culto e cultivo são invocadas para nos ajudar a ima~inar não propriamente o significado de corporcidade. muito menos matemática. crianças c velhos.fonna ou untm. E quando o desespero os levarem à revolta. vência já os disciplinou. O importante não é saber o sentido. onde são colocadas as coroas de flores c se fazem discursos demagógicos aos corpos a11Ônimos ~ignifiquem alguma coisa. um conjunto de objetos. nem gramatical. Mais uma vez constata-se que somente é posslvcl fazer isso com corpos disciplinados. Essa leitura direta faz-se através da escuta da linguagem corporal. O corpo é um artefato a ser aperfeiçoado para as pr<iticas esportivas dentro de padrões de rendimento impostos pela ciência c pela técttica para cada modalidade esportiva. hão se pensa elll cultivar o corpo. 5. ao heroísmo do pioneiro c desbravador. mas saber construi-la. Nos esportes. pata vencer uma dist:lncia ou para superar um limite de tempo. ele é apenas uma 1nãquina ou uma peça que produz movimento dentro de uma atividade maior que chamamos de esporte. precisa considerar a sensibilidade afetiva. o corpo atleta. Os corpos.Depois surgem os monumentos ao trabalhador.

São esses os sinais BIDLIOGRAFIA c os elementos que precisam ser desenvolvidos. Léon. p. A corporeidade da abundância é aquela que se desenvolve liberta das leis da necessidade. 68 69 . São Paulo. Essa instância faz parte <a esfera animal. não pode ser. espontâneos. São Paulo. excluíram desses prazeres estéticos a participação do corpo e atribuíram apenas à psyqué o privilégio de usufruir tais bens de beleza. livres da necessidade de subsistência. como os valot·es estéticos. cultivados e. apenas na fruição da perfeição estética. Abrahatn -A iniciação ciemífica. A Educação Física repensada para cultivar e cultuar a corporeidade humana precisará inspirar-se no impulso senslvcl. ROBJN. Ed. Albin Michel. portanto. criativos. Vozes. Paris. Edusp. condenando-a a dedicar-se à produç:lo dos bct~s de consutno? Os bens culturais ficariam para uma classe privilegiada. voi. · aquela dotada da psyqué imortal. fortalecidos. A plenitude dessa corporeidade será vivida em primeiro lugar sob os stgnos da abundância. mantidos livres. isto é. na harmonia musical. Fircnzc. Esse trabalho aparentemente paradoxal e contt·adi tório. misterioso até. La Nuova Italia.Pensatori greci. A corporcidadc deve alcançar. Os gregos haviam estabelecido uma série de atividades que eles denominaram de sclwlé. Petrópolis. Cademo Ciência. I. livre do mais alto grau de qualquer coerção. porém.La pensée grecque. ou seja. isto é. Mas será que a exclusão do corpo no prazer estético não foi um artifício pata excluir a tnaiot·ia da populnç5o. mas l!llllUélllllÕO pode SCI'dCBCIIVOIViclo 1108 CBII'CÍ!OR CRJlO\'OR p. Os gregos.São Paulo. aquelas atividades que não têm fins econômicos. 1977.tnas é aqui e assim que ela se manifesta e se expressa. c ao mesmo Íempo cultuados. 1990. 1963. A corporeidade hun. Poderíamos dizer. a plenitude de seu desenvolvimento 110 estado estético.Vigiar e punir. lucrativos e interesseiros. obra de arte em que nenhum aspecto ao alcance da criatividade de cada vida humana possa ser esquecido ou maltratado. FOUCAULT. pelo menos esta é a interpretação de nossa tradição. 1967. nos ideais de beleza e nos valores estéticos. Theodor. educados. MOLES. 6. A corporeidade humana não pode ficar presa à satisfação de suas necessidades rimárias. como a obra de arte.ana inspirada nessas linhas gerais precisa ser um desenvolvimento harmottioso como um concerto 111usical ou uma SCHILLER. portanto. estimulados. e Folha de São Paulo. Friedrich _ A educação estética do homem. os aulo111alismos.!'Otllélricos 011 das mordaças de quantificações matemáticas. Iluminums. orientados. Michel.realizado atrâvés de uma Educação Ffsica que pdvilcgia as técnicas. os cxc1"CÍCÍos cstafautcs. A scholé era inspirada na estética. 1971. 24/05/1991. GOMPERZ. talvez. 1° reimpressão.

ÁNEXO B Texto 11: Consciência Corporal e dimensionamento do futuro .

há textos sobre a realidade corporal que se afastam (c nos afastam) assustadoramente da corporcidade enquanto reflexão. no deslindamento de suas estruturas anatômicas e de suas fisiologias. o distanciatneflto c certa ohjelividade tot·tmtn~se po!-:sfvds. Mas outra coisa muito distinta é volta11no-uos sobre o corpo que somos e vivenciamos. possibilitando ao estu- dioso básica serenidade. Pode ocorrer que os mais interessantes discursos sobre o corpo façam-se em véus de fumaça que mais dificultem a "visibilidade" do motivo proposto. nesse caso. Isto é: estou convicto de que um biocnergeta tem possibilidades muito mais diretas de levar seu cliente a profundas meditações sobre o coqJO do que um filósofo.Capítulo 2 CONSCIÊNCIA CORPORAL E DIMENSIONAMENTO DO FUTURO J. complexa e mesmo insidiosa. Regis de Morais Faculdade de Educação da Unicamp A tematização da corporeidade é. belas c explicativas idt~ias em seqliêncin jntnnis substituirão as vivências subjetivo-objetificantes da corporcidade. Uma coisa é a abordagem de um corpo que se esquadrinha obscrvacional e labotatorialrnente. Vejo a tarefa desse último como sendo apenas a de alguém que reúne condições e 71 . em si mesma. F. no complexo horizonte da existencialização. A despeito do mérito de nos dcdícannos a tão delicado assunto.

mais ou menos repressivas. não importando as épocas e as idades . não fugindo às exigências de sutileza dos temas a que se prc•põ. Na exata medida em que o sentido constrói com o falar e o calar (com o som e o intervalo. Com certeza. ficou na "moda" inquietar-nos com a temática corporal.~. contrário. em nosso tempo. instalando-o como mais uma das levianas modas da sociedade do lucro. por saber que uma realidade plurlvoca. partindo do seu específico lugar episte'}nolcigi. ocorre-me expressivo momento de um texto de Rubem Alves. alcançando-a.gultos médicos e fisiologistas. pois que o projeto da filosofia é ao mesmo tempo pretensioso e humilde.stor1. . enquanto que pesquisa filosófica é algo que cada ser humano tem que fazer em seu próprio nome e a partir de sua vida . multi facenunca se deixa enclausurar numa leitura un!Voca. não há postura ideológica que o possa anular. Tais 1.os e expender energias na elaboração de um projeto de vida que da próxima centúria um segmento histórico não tão sofrido e cheio perplexidades como foi o nosso século XX. Como já foi dito. no qual o pensador diz que um operário. de atividade do conhecimento estão convocadas para um tal gesto responsabilidllde para com as novas e novlssimas gerações. mesmo. Se posso ·M. prestar aos seus semelhantes um depoimensua aventura reflexiva. o filósofo se aproxima cuidadosamente do tema da corporeidade. Essas aberrações do consumismo. como queria Heráclito de Éfeso). os modos de pronunciannos inquietações quanto à corporeidade ou os de submetermos o tema do corpo à interdição. 33).uM••~ bebi-as em sua estrutura básica. Em eu posso fazer de um próblema uma presa do meu conhecimento. considerando que problema é algo que me corta o e me desafia em minha condição de sujeito cognoscente. Curiosa é a dialética que marca a intencionalidade filosófica. ele me envolve porque sou um vivente.n É sabido que Mareei faz importante distinção entre as noções de pr·ob. retomar a idéias que utilizei em uma conferência pron•un<:ia<la no primeiro semestre de 1991 (Unesp-Rio Claro). ir ao encalço da visão que lhe pareça mais abrangente e ll~:e1:1tadlapara. no 72 73 . Corpo-problema e corpo-mistério Preciso. ao sofrer uma dor de dentes. V àle. Michel Foucault adverte-nos de que sempre está acontecendo algum tipo de discurso sobre o corpo. Todos podemos ver as muitas explorações de marketing sobre este assunto. mas eom os seus próprios (1982: p. dar dignidade teórico-reflexiva às percepções mais ou menos profundas da realidade corporal.dia 1r que o iló1solonão tem o direito de imaginar sequer que a sua leitura seja a única. problema passlvel de equacionamento e. Eis porque. mas humilde. Nesse ponto. bem como certas racionalidades políticas dotadas de· fanático sectarismo. . Há. Ao longo de sua História da sexualidade. ele precisa ter claro para si que sua leitura foi o seu modo de '. vou cada vez mais descobrindo que na trama do tecido filosófico global a verdade é claramente "a busca da y~rdade" Ao filósofo compete. suas conclusões à roda intersubjetiva das avaliações. eu sou a presa. Súbito. eventual solução.~o.lcai~Ç~•r aspectos do objeto de investigação.colocando. Do mistério.lenta e mistério. Contra o fato de que somos um corpo. todas as . também.uacicmaar e resolver o problema. todos esses se constituem em discursos sobre o corpo. o mistério não me corta o passo. como se só recentemente houvéssemos passado a ser corpos no mundo. pesquisa cientffica é algo que um homem pode fazer em nome de todos os demais. todas essas coisas têm conduzido escritores a dizer que a preocupação com o tema da corporeidade se configura.e. pretensioso no sentido de que a reflexão filosófica se deseja abrangente e aprofundada. quanto ao mistério me é dado. No que me diz respeito. esta coisa perversa que vem sendo praticada pelo consumismo e que consiste em transfazer o corpo em mercadoria. porém. le·vartdo•-as para desdobramentos e aplicações no campo da filosofia do N>tn. que ' têm resultado em rios de dinheiro e oceanos de distorções compreensivas.vocação para. diferente do anatomista ou do fisiologista. como uma "mania pequeno-burguesa". nào a set1le com os dentes de sua classe sodlll. Eu não neste final de século. 'ca1rrega:nd•o em mim o mistério da centelha vital que escapa aos mais llr. no em ao que a empresa importante que pode empolgar os pensadores agora é a de organizar e. elaborando depoimentos vários e sua própria experiência. dentre \)IJtr~as posslveis. É uma interpretação. em textos de Gabriel Mareei. aqui.

manancial de mistérios. Complexos laboratórios btoquínucos como as grandes glândulas (fígado. órgãos: do ter (posse que deriva do tocar). E ainda estaremos no nível do corpo-problema. A cada dia somos' convocados às alegrias da corporeidade e. aumenta-se nossa admiração ante esse f~ntástic? experimelllo cósmico. Mas há coisas mais encantadoras que vão do macro ao microscópico nesse corpo. mas não há cientista. que é o corpo. tudo isso está bem e podemos aprender com as investigações científicas.por extrema deferência dos médicos. pois que. À semclhnnçn de pássaros presos ãs extremidades dos membros superiores. por assim dizer. o nosso primeiro e mais fundamental mistério. a superfície dos alvéolos pulmonares em extensão fonna quase 8milmetros quadrados" (1966: 11). uma estmturação e uma dinâmica dotadas de capacidades quase ilnmtadas. problemático e misterioso. a dimensão dos capilares abertos e distendidos em superfície fonna um total de Ocorre. Sahnanoff' lembra-nos. seguro do que faz. um jovem acidentado em coma profundo cujo fio tênue ~e vida era mantido ainda pela atual maquinaria médica.e das disposições musculares faz-nos encontrar urna inteligência que caracteriza cada pequena ou grande parte do corpo que estudemos. também é. pâncreas. tudo isso põe-nos atônitos perante o que nos é dado esquadrinharcienti ficamente.cada qual c. dobram-se sobre si mesmas. no entanto. pois nossas mãos são. ter dele uma certa intuição contemplativa. em outro horário.·· maxlmo. e do dizer (na grande riqueza da linguagem gestual). já não seria mistério) (1967: 57). ademais. antes de tudo. mas. iniciam-se grandes perplexidades para o estudioso. aparelhos e sistemas do corpo. simultaneamente. Contemplando-o eu o intuo como uma certeza tremenda. ao mesmo tempo. para a adequação das funções fisiológi~as em sua perfeita sincronia vital. constituem-em grande medida -a sua trama próblemática. os órgãos nobres como cérebro. no nível do corpo-!Jroblema. Nos n. construindo um saber). a pergunta mais primitiva: que força é esta que gera esustenta as energias básicas do viver? Vi certa vez. Certamente não chegaremos a conhecer um mais sábio aproveitamento do espaço do que o que encontramos no corpo humano. podendo ser campo de esquadrinhamento e objeto de conhecimento. dessa realidade com a qual podemos manter uma relação sujeito-objeto de conhecimento. como uma absoluta impossibilidade cognitiva (pois. A sabedoria das articulações ósseas. que ouse utna explicação sobre a ptoprla centelha vital: o que nos mantém vivos? O que alimenta esse impulso primeiro? Que o meio ambiente tenha aperfeiçoado no homem o olhar estereoscópico (de frente e em profundidade perspectivante). falando-se apenas de aspectos macroscópicos da realidade corporal. do transformar (construindo. que nossos corpos são. porém. em sua existencialização plena. Sim. espantar-nos-á o fato de que a capilaridade de um corpo dá duas voltas e meia no Planeta. nos monitores registraram-se imediatas alterações nos batimentos cardíacos e na pressão arterial do moço quase agonizante. bem como tenha conduzido nossas mãos às funções que hoje as caracterizam. os pulmões ou os rins . Ele é. na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um grande hospital. O corpo do homem está abrangido por ambas as mencionadas categorias. demolindo e recriando). no ~?rpo. Fica sempre. de que "o comprimento total dos vasos capilares de um homem nonnal alcança os I 00 mil quilômetros. definindo-se como privilegiados elementos de exploração e expressão: exploração do mundo e expressão do que o mundo agita em cada eu. ao contrário. nós. do conhecer (uma vez que elas tocam o mundo e por ele são tocadas. contorcem-se. as mãos se flexionam para todos os lados. enfim. basta detenno-nos na configuração e nos movimentos das mãos para que o deslumbramento tome conta de 6 mil metros quadrados. o comprimento dos vasos capilares dos rins é de 60 quilômetros. admitido ali -como eu. Voltando-nos. E aí. à sua aterradora efemeridade. o mais competente fisiologista saberá explicar-nos aspectos sutis do funcionamento de órgãos. Em uma obra importante intitulada Segreti e sagezza de/ corpo. em suas complexidades. 7'i 74 .lOvllnentos muito hábeis de dançarinos e desportistas tem-se a prnne1ra percepção dos recursos corporais em tennos de um multidirecionamento de ação e de uma sutileza de expressões que evidenciam..coisa que se repetiu à entrada dos pais do acidentado. A estrutura e o funcionamento do corpo. por exemplo. ao mesmo tempo. objeto de investigação -nesse corpo-problema. Eu estava paquela UTI quando se aproximou do leito daquele rapaz o seu melhor amigo. pois bem. Se aqui nos dennos conta de que a circunferência da Terra mede 40 mil quilômetros. tireóide etc).A.umprindo funções indispensáveis.

se é que há alguma". pela primeira vez.. após cerca de 27 anos de pesquisas históricas e filosóficas. numa UTI esfuma-se a linha fronteiriça entre o problema e o mistério-da corporeidade: Mas. um pouco mais aprofundadamente. Perguntar a minha pergunta é tarefa minha. sangue e epiderme. tendo desta ouvido curiosas ponderações no sentido de que as Unidades de Terapia Intensiva são locais que questionam ao extremo nossas pálidas concepções de vida. corporeidade.pela vivência em UTI'e não por qualquer página científica estudada . p. Ora.\Jento de músculos. Disse-me textualmente a enfermeira: "Temqs permitido sempre a entrada daquele amigo e dos pais do jovem acidentado. Fascinados. Viver por nós mesmos a nossa cotidianidade significa. ocorreu-me a idéia de que meu corpo. com minhas interrogações. deste desenvolvendo uma concepção maquinal atualmente conhecida como mecanicismo cartesiano. Há hoje textos que nos deixam a impressão de que teria sido Descartes. encontramos na comum conversação cotidiana e lambem em textos que se querem científicos afirmações do tipo "eu tenho um corpo" ou "cabe à alma pilotar essa máquina sem inteligência que é o 76 77 . foi às últimas conseqüências na distinção entre res extensa (extensão. mas se o nosso movimento não é cheio de cuidados.. o criador do mencionado dualismo. Assim a reflexão não cai do céu intelectual sobre os fatos comuns. essa nuvem vermelha da qual a alma é o relâmpago" (lbid. Descartes acentuou drasticamente certa concepção instrumemalista de corpo. no mundo moderno.que esses contatos de forte apelo possam ser a última esperança do rapaz. entre outras coisas. o organismo físico da alma (ou essência interior). "Temos" ou "somos" um corpo? lnterioridade e exterioridade cotizo categorias artificiais na compreensão do homem Caminhou até nós. acudiram-me questões: afinal. podemos afinnar que. mas também estou seguro de que. o que é a vida? Como é possível que alguém. põe na pena do imperador Adriano trechos como os seguintes: "Esta manhã. partimo-la a um rápido mas desajeitado toque. em Pitágoras e Platão. que caminhava já com movimentos de pensamento nascidos na Antigüidade. com lesão cerebral séria e em coma profundo. pois cremos.no pensamento do apóstolo Paulo. Todavia.Inevitavelmente. prosseguindo jornada com figuras do porte de Santo Agostinho e Plotino. E acrescenta Heller: "É adulto quem é capaz de viver por si mesmo a sua cotidianidade" (1985: 18).. a calculada filosofia dos admiráveis tratados tradicionais. precisamos convir em que Descartes terá ·sido aquele que. 21). Na linha da recíproca irredutibilidade entre corpo e consciência defendiêia por Descartes.no ocidente cristão . Uma tal concepção tem atravessado os séculos e tem vindo até nós. vindo de remotos tempos. aos que têm olhos de ver. no entanto.. aos que têm olhos de muito ver (ainda mais atentos e apurados) nem é necessário atingir uma tal situação limite. Percebi nas palavras experientes daquela profissional que. revelando-se o próprio Descartes herdeiro dela. por exemplo. mas significa também não permitirmos que ela ocupe todo espaço respeitável da nossa vida de estudiosos. Leitura precária da história do pensamento e da filosofia cartesiana. apesar de não ter inventado o dualismo. Talvez trazido do Oriente. rumo ao século XXI. 2. após o primeiro século depois de Cristo muito bem-apoiado. carne. esse instrJ. este fiel companheiro. mas eleva-se exatamente destes. Essa breve reflexão sobre as noções do corpo-problema e corpomistério é a maneira que encontro para demonstrar. um dualismo ontológico que distingue o corpo da consciência. considerando que o filósofo em foco foi quem atribuiu inequívoca substancialidade ao corpo. ao escrever Memórias de Adriano. queremos tocá-la. Estou certo de que o relato dessas observações não se afina muito com a filosofia dos livros. só se legitima se segue alimentando-se do propriamente cotidiano. escritora belga e grande conhecedora do pensamento romano antigo.. honra. esse dualismo aparece antes de nossa era como. Marguerite Yourcenar. no século XVII. corpo. reaja às aproximações daqueles q~e sempre foram alvos de sua melhor afetividade? Recorri à chefe de enfermagem. temos que reconquistar a filosofia que é diretamente suscitada por nosso afrontamento com o cotidiano mais evidente. No dizer da socióloga e pensadora húngara Agnes Heller. a filosofia é uma nãocotidianidade (por ser exercício de ordenação sistemática) que. a leve estrutura de cristal em que consiste o tema da . darmos à letra escrita um lugar de . consciência racional). matéria) e res cogitans (pensamento. este amigo mais seguro e mais meu conhecido do que minha própria alma. não é senão um monstro sorrateiro que acabará por devorar seu próprio dono" ( 1980: 14) e mais adiante: .

ou no mínimo inacessível . Através de caminhos muito próprios. sej organlsmico ou moral. · mescapá~el de uma linguagem dualista. seja ou não religioso o filósofo.no vive/lle a dicotomia consciência e corpo. ainda que no interesse de combater o dualismo. o corpo geme e se vergastamos o corpo. O sofrimento do ser humano. não deve ser abordada mais pela filosofia ou pela ciência. o espírito se enfenna e sangra. angústia. na complexa realidade do vivente. Escrevi em trabalho divulgado em 1991: "Se ferimos o espírito.corpo". Somos (e não temos) um corpo. Notando isso e compreendendo minhas razões. os torturadores. medo. Georges Gusdorf (Tratado de metafísica) e Maurice Merleau-Ponty (de modo especial em sua Fenomenologia da percepção). há nisso verdade científica. sej 1 org~nísnuco ou moral. _ _ ~ote o leitor ~tentam~nte que. após tantos séculos de visão dualista e com o forte acento." AI está a linguagem da qual não logro fugir Ocorre que. "O sofrimento humano. utilizo-me de fonn. e mesmo que voe não esteja paralisado pelo pavor ou gritando de dor. Orwell escreveu: 'No campo de batalha. No romance 1984. Desafortunadamente. num na vi que afunda. tais pensadores acabam alertando-nos para coisas muito importantes. o que atualmente existe de mais denso e expressivo sobre o tema da corporeidade veio de especulações muito agudas daqueles que têm desenvolvido a chamada fenomenologia existencial. o frio. neste final de século. Apenas o que se busca esclarecer é que. advertem-nos no sentido de que.. otimismo e tranqüilidade. primeiro. Gostem ou não os teóricos fi·liados a outras correntes de pensamento. suores nas mãos mostram a imediata disso com nossos medos e sobressaltos. Depressão. assim como o espírito pode ser a expressão impalpável do corpo. toda atitude do ser humano é atitude corporal. o corpo pode ser a expressão densa do espírito. ele precisa ter muito dato para si que a filosofia e a ciência só estão autorizadas a se pronunciar sobre o vivente. por exemplo) se debruçam especializadamente sobre inquietações que visem ao aquém ou ao além do segmento de vida. Isto é: questão como a da sobrevivência do espírito. uma azia ou uma dor de dentes'.. contestam a concepção instrumentalista argumentando que no viveme o composto de corpo e consciência não admite separações estanques. . Quando as pessoas muito simplesmente dizem "fiquei duro medo ou frio de pavor". com grande fn~qüen•:ia. é que nos damos conta (pensamento) de nossos conteúdos pessoais até aqui chamados de "interioridade". as questões pelas quais você luta são sempre esquecida! porque o corpo incha até queenche o universo todo. De todo modo convém lembrar que a afinnação segundo a qual somos~ corpo como presença no mundo não é restritiva.l''odetrlosmesmo dizer que. As dores na musculatura costas ligam-se com a vivência das nossas inseguranças. como também euforia. na câmara de tortura. de vez que outras áreas do conhecimento (como a teologia. ~~ta ?ado por Descartes. mesmo defendendo uma concep 7ao nao-mstnunentahsta e ma1s unitária do homem. de maneira que pensadores religiosos como ·Mareei e Gusdorf podem abraçá-la sem que esta comprometa suas crenças. naturalmente instalou-se na comunicação o qm J? foi chamado dualismo semâmico. sabe-se que 0 78 79 . a esse traço esquizóide da autoconcepção humana é que estamos chamando de visão instrumentalista. inevitavelmente ' utilizando. Segundo. Há uma linguagem para as coisas do corpo e uma outra para as coisas da mente. são todos esses sentimentos detonados estrutura corporal e então 'captados por nossa "interioridade". Somos um corpo como fonna de presença no mundo porque. sendo nossa presença mais apropriadamente veiculada por nosso comportamento. toma-se inverídica . mornento a motnento.praga há muitos séculos existente -aprenderam isso muito antes dos filósofos. o leitor será compassivo para com esta linguagem dual que seguirei. contra a fotne. Georges e urna que não qualquer atitude humana que seja puramente interior ou da subjetividade puramente pensante. mas que me permite comunicação mais simples. Simplesmente não alcançamos uma linguagem unitária. Refiro-me a filósofos como Gabriel Mareei (especiahnenteem seuJoumal Métaphysique). contr. Sem dúvida é esta uma linguagem dualista. a insônia. incha e toma sempre o tamanho do universo todo (1991: 5). a vida é uma luta qu se desenrola. Frio nas extremidades. Nela não está dito que sejamos apenas um corpo. tnediante nossas reações neuromusculares.

da biologia e da psiquiatria. em busca de uma nova concepção unitária para o vivente. e parte III. após explicar o dualismo sob os pontos de vista de Platão. cap. o cérebro emitindo ordens que disparam hormônios excitantes dos batimentos cardíacos. Interioridade e exterioridade são apenas categorias de pensamento de força didática. isso guardá afinidades. passim). produzindo uma inibição cortical que se exprime por quedas na pressão arterial e retesamentos musculares. "A encarnação"). De toda forma. simultaneamente. por exemplo. passim. isso é absorvido pelas antropologias filosóficas mais atuais sem maiores dificuldades. faz um caminho de volta às origens da concepção unitária de homem registrada pelo pensamento hebraico bíblico (do Velho Testamento). ora. Claude Tresmontant. Dizemos nova concepção unitária em razão de ser especificamente filosófica e trazer as marcas históricas da filosofia do nosso século -~m diálogo com as ciências. e isso diz tudo. Eis porque quando Gusdorf entende ser o corpo a pré-história do conhecimento e das emoções (Tratado de metaftsica. . o que se dá é uma superestimulação interna (ou desinibição}. IV. como vimos. o espfrito toma um sentido mais psicológico de instância do pensamento e do órgão religioso da comunicação com Deus.isso para mantermo-nos nos )irnit•~s das coordenadas de nossa dimensão. Plotino e Descartes. Carne. bâsâr. isso em razão de que. na linguagem mítico-poética. sendo que o futuro está pleno de todas as possibilidades: as boas e as más. no mundo do Antigo Testamento bíbhco a concepção propriamente hebraica de ser humano é já unitária (Tresmontant. Já que. a consciência corporal. abordaremos mais adiante.C<)nc:et>e-:se hoje uma tal simultaneidade entre os processos mentais e :c~~rf>Or:ats. Graças a desdobramentos psicanallticos e rcflexõ•~s filosóficas mais atuais. o acesso à chamada "interioridadj!" (a dos outros e a nossa própria) passa necessariamente por posturas e atitudes corporais. com as idéias psicanallticas de Wilhelm Reich ao conceber a constituição biofisiológica do "caráter" em tenrios de usos específicos da musculatura corporal (1989: Parte I. que partilharam o tr~tamento de uma histérica. Apenas que não parece tratarse tão-somente de crença ou concepção mítica. mas uma dialética cujos pólos (carne e espírito) se reallzam e são superados pela totalidade e pela unidade do homem vivente. A consciência corporal rumo ao século XXI Se não há equivoco em minha observação. como já sublinhamos. não me continha". que a psicossomática ganhou "mão dupla" no sentido do ir e mesmo espaço e ao mesmo tempo. ainda que significando. toma também e fortemente o significado de alma vivente. mas à união do "corpo" e da "alma" (1956: 90). que o mundo cientlfic:o ganhou as sementes daquilo que vicejou (e vem vicejando) com v. úlceras gástricas são feridas abertas pelas dores morais. a psicossomática foi deixando de ser vista como processos de somatização (repercussão patológica no corpo) · emoções antes nascidas em estrito e puro campo mental. por outro lado: "Fervi de raiva. estas contestam a visão instrumentalista do corpo. ~uscando perscrutar. como vimos.uvu•~ de psicossomática. elevadores da pressão arterial e que predispõem a musculatura para o movimento (agressivo). aqui não se registra um dualismo (enquanto ruptura e separação). na ira.lrgindo. Mesmo exemplos assim singelos põem-nos a pensar. pois. XIV.aquele que serve de repositório da força de Deus. pois que a filosofia contemporânea absorve e desenvolve tendências hoje verificáveis especialmente nos campos da psicologia. pois o que há é um corpo que pensa e agita a consciência jl. pois o conceito bíblico de "carne". Essa coisa de interioridade e exterioridade aparece-nos como artificial na compreensão do ser humano. cap.de um modo que a muitos dos nossos antepassados 80 81 . A mais avançada antropolofilosófica defende. pó (elemento que distingue o homem de Deus de forma radical). 3. Para esse psicanalista.medo é letárgico. Ao menos as condições parÍI tanto estão d. foi a partir de Breuer e Freud. corresponde não tanto ao soma platônico. as tendências atuais do pensamento · prometem avanços não-pequenos para o próximo século no tratamento questões corporais. Já as pessoas dizem. Somos um corpo como fonna de presença no mundo. sarx. que não têm qualquer ligação com o dualismo platônico alma-corpo. Afinal. .em inúmeros casos. Tudo isso nos permite perceber que o presente século. 1956: 90). apresenta-nos a dialética do pensamento hebraico sobre o homem anotando: "A antropologia bíblica introduziu uma dialética original: a carne e o esplrito. em termos de reflexão antropológica da corporeidade. eu parecia ter cobrinhas e faiscas pelo corpo. uma consciência que pensa e transfigura o corpo sem que reduzamos o verbo pensar a racioclmos -lineares.

de musculatura tensa identifica-se com retraimentos espirituais quallto o corpo distenso iguala~se à liberdade de fruir. a imobilimais ou menos completa. Barbotill observa que o escultor Rodin.táitua de Rodin tem aproximações com_ a postura básica do feto í>orot<e o corpo tem sua expressão introspectiva". e fecunda atitude global que multiplica. sorrindo. O corpo é muito sábio! Para que o seu misto de euforia e medo (sempre há algum medo!) possa ser bem-suport. Barbotin encontra e elucida duas atitud<~s fundamentais que sintetizam todas as outras: a atitude fechada aberta..1do. Mas o médico...usc>. em sua obra Humanité de l' lwmme ( 1970). escutar" o que eles nos estão "dizendo" em variados momentos. a cabeça projetada para a frente e o queixo caído para a mão dobrada contra o braço e amparando a fronte. descentração. batimentos cardíacos diminuídos em cerca de dez pontos e diminuição do tônus muscular. ) a pouco os olhos e os demais sentidos vão abrir-se.escu!lpi1u-o seutado. os pulmões abrem-se e a fllJJçà. de braços. o silêncio embrionário é rompido". E apenas começamos a descobnr a consciência corpora. toda entregue ao .Jdf!S para os membros e dos membros para o trouco. tla lloje terapeutas que nos ensinam cotno "conversar~· com nossos músculos. as lhares de pequenas atitudes cotidianas. no qual.e e conquistam seu espaço gestual. o retraimento das ~Jttr<~mid. iJnobi/ização. Para filósofo. 175).fe•oolhirnellltobiológico preparatório à entrada no mundo" (p.o respiratória instaura-se. em minha meia-idade. centrifugação e centripetaçiío de energias.._____ ----~vua~ uv corpo. vivi o derradeiro mês que antecedeu o nascimento do meu último filho. Então. os llcJra:tJosde sono devolverão ao ser humano a profundidade introspectiva recolhimento da vida embrionária (ibid. Trata-se de Edmond Barbotin. açãorepo. 175).elas transform~om-·se nos ritmos fundamentais de nossa vida: sístole-diástole. no Ocidente. (MORAIS. Ora meu amigo. tende a se eurolar. Visitando um· clínico-geral de excelente percepção. de quem tratei em texto de 1991 e de cujo pensamento volto a tratar aqui.n tl projeção. aos meus 45 anos de idade. minha lucidez me dizia sobre a especial felicidade produzida pelo filho que vinha chegando. Tal é eminentemenlte a postura do ser humano que ainda está para uascer. em seu âmbito. seus sinais vitais êstiio deprimidos em conseqüência de baixa pressão arterial. buscar e 82 . Sem dúvida. uma vez vivenciadas. busca (mão estendida). N<>Vlllnente as palavras de Barbotin: "O tronco distende-se.. peitos e olhos bem-abe11os. Sobressaltei-me. da bradicardia e do forçado relaxamento muscular. vá ser sadio assim no infen10!" E encerrou a consulta de fonna categórica: "Nem uma gota de remédio! Deixe seu corposersábio". hoje. A posição da1 e<. ao esculpir O pensa''uão o imaginou em pé. Durante a vida a criança não vive ainda senão em si e para si. o filósofo diz que se o corpo não souber não há sabedoria possível. ainda não traduzimos do francês. essas coisas como dados nosso século e Neste momento recordo-me de quando.( . a se enovelar sobre si mesma. Barbotin diz. O movimento da vida tlta o set hl!tnano do retraimeniouterino e insere-se no mundo das coisas. Nesse aspecto tenho especial admiração por um filósofo contemporâneo que nós.. p. Após descrever-nos de fonna precisa as duas atitudes básicas do _h<>ment. que o ser humano é uma grande atitude perante a vida. acolher as :mr>ressciesvindas de em volta. estamos muito mais despertos para essas coisas. 1991: 6). brasileiros. explicou-me: "O senhores pera o dia do nascimento do nenê. A pessoa desliga-se do mundo e dos qutros. os membros So'ltaJn-•.Barbotin adverte-nos de que. Ocorria-me porém estar estranhamente passando por um período de depressão orgânica traduzida por astenia (desânimo geral) e uma esquisita lentidão para respirar. a atitude fechada é: concentração so_bre si. cotno . este me examinou e me disse que eu estava com um quadro de hipotensiío arterial.. em outras palavras. Sai do consultório pensando em um trecho de Nietzsche do Assim falou Zaratrusta (já nem lembro a página). refletindo sobre a trama atitudes que compõem a vida. · ~hMt . conquistar seu campo respectivo" (BAR• 1970: 175). . A cada dia. Conscientemente eu celebrava minha criança que vinha 15 anos depois do segundo filho. E o filósofo pondera as atitudes corporais identificam-se com as significações espirituais. Na ocasião não me dava conta de qualquer alteração significativa na disposição psíquica. Já a atitude aberta é:. dos animais e das pessoas. Aqui dou a palavra ao filósofo em foco: "A atitude fechada se pela flexão da cabeça para a frente.

n:o quântico". A espiritualidade do corpo. no século XXI. O universo visto não mais com~ u~a massa de matena estúpida em expansão. a posição absoluta de um só objeto é a morte da consciência. E.no sentido de enriquecidos por todas as nossas significações vitais e perspectivados em direção a significações que. nisso vamos vendo uma sabedoria sem racioc!nios que caracteriza. Em compensação. o terceiro milênio seria o milêmo do espírito. o viver corporal. que o liberte dos desregramentos demolidores e auto-desrespeitantes e. quando' se mergulha no mundo subatômico. Eis porque os profissionais da corporeidade só têm diante de si um par de alternativas: ou seguem lidando com o corpo como se este fora simples coisa burra que se adestra ou despertam para o fato de sermos um· corpo como forma de estar-no-mundo sensível e inteligentet~~nte . menos que um homem como Malraux tivesse uma concepção simplória de esplrito. mas também é verdade que. Nossa grande esperança é que a máquina sem inteligência 'de bt!!lcartes se transforme apenas numa lembrança do passado.e fumacinhas imponderáveis. mas como uln grande e m~ehgente pensamento em expansão. É bem verdade que a matriz epistêmica do "universo mecânico" de Newton ainda explica muito da realidade macroestrutural do mundo.r objetos.nisto auxiliado pela matriz eptstemtca do umve. Sim.. senão enquanl:o se retoma e se recolhe ela mesma em objeto identificável. chamana tsso de espmtuahzaçao do corpo (concordando com Alexander Lowen. E é nesse ponto que a perspectivação do século XXI ganha. O estudioso se interessar em tem 84 . Podemos imaginar tudo. Se a segunda alternativa é aceita. Mais uma vez cito Edmond Barbotin: " . Graças a esse ritmo o universo inteiro reside em mim. o ptofissiona~ !em que admttlt s~tr. as meno~es partlcu~as subatômicas revelam a sua condição de não-coisa. muito provavelmente.colc>ca. tudo é natural. pois.. o que se encontra é um imenso "colchão" de processos energéticos. André Malraux. não-objeto. nossos sentidos e à nossa imediata compreensão. mas época na qual. quer dizer. inacessíveis aos. enquanto eu habito todo o universo" ( 1970: 39). quem sabe. eis-me. ~a comodidade de rotinas e programas mecamctstas a fim de que nucte longo diálogo de apren~i~agem co~? cor_po p!óprio e o alheio.soluçÊio faz com queelasecristalizede um golpe" (1971: 84). saber de si. pois não é consciência. nem mais nem menos . mas sobre as quais nossas mentes estarão mais livres para conjecturar e ter esperanças. no que tange à. que introduzido numa . No que me diz respeito. não podemos constatare apalpar. Enttretantto. afinnou nu~a entrevista que. na condição corpórea. superando estreitos quintais ideológicos. lidemos com corpos espiritualizados. fixa toda experiência como um cristal. tomando impulso dessa posição me projeto em direção a todos os pontos do meu horizonte. atraio para mim todos os pontos do espaço: concentro-os . outros. Almejamos que o novo espiritualismo de Malraux liberte o corpo do negativismo platbnico (corpo prisão da alma). en. redimindo-se de _um dualismo metaflsico que é separação e ruptura. porque tudo se resume em energta. em profundidade. )Graças a meu corpo localizado. com a intuitividade do artista.. e a sua circunferência é o meu horizome. mas em dtmensoes e ptanos vibratórios muitíssimo diversificados. o homen:' te?uperar~a a alma viveme hebraica (a carnalidade bíblica que explodia as frontetrns entre consciência e corpo).. e o século XXI possa dar inicio ao espiritual vivido nas atitudes corporais.. Ora. O côrpo espiritualizado poderá ser' a principal porta para nossa intimidade profunda. liberte-o de algum modo das obsessividades maqulnicas da competição. Nossa grande esperança é que. mas stm de densos núcleos energéticos.. l: . Momento históriCo no qual o ser humano. certamente o · escritor não disse que o milênio vindouro seria tempo de fantasmas ..aprender. Uns apreensfveis por nossos cáries sentidos e por nossa inteligência tateante. p~rceb~ri~ q_ue a vi~~ é_una e indestrutível . (. corporeidade. 1991). interiorizo-os. configuração sutil. transformado em centro de um imenso circulo o meu ambiente: cada raio seu define para mim uma perspectiva. Como conclusão Segundo Merleau-Ponty. o meu corpo é o ponto de referência em relação ao qual cada coisa toma seu lugar e toma-se situada.tão: ~ercebemos que as noções de natural e sobrenatural são tambem arttfi~tats n~ são do mundo e da vida. recapitulo-os. "toda a vida da consciência tende a .

1989. todavia. REICH. 87 .A espiritua/idade do corpo. SALMANOFF.Fenomenologia da percepção. senão que abarca e é abarcada pela sóciocultura no seio da qual transcorre minha vida. Bela foi experiência de tentar tudo isso.Position et aproches concretes dumystere o/llologique. Edil Nacional. Entre dominadores e dominados da sociedade.. senti necessidade de abdicar da impessoalidade: escrevi-o r primeira pessoa. BIB!. Na perspectivação das décadas vindouras não é difícil visualizannos grande papel a ser desempenhado pela consciência corporal fora dos esquematismos dualistas que rompam o fluxo dialético do viver. sou conduzido ao que MerleauPonty chama de "corpo-próprio".Tratado de metafísica. neste momento. Paris. coisas estas que os têm relegado à posição' "tecnicões" de um corpo que não conhecem na devida profundidade. Ed. 1970. Alexander. isto é: o corpo que sou é minha realidade radical porque coincide comigo mesmo. São Paulo. Vale dizer que na corporeidade encontramos a dimensão objetai.Segreti e Sagezza de/ corpo. 1%~ . que é percepção subjetiva de minha instalação no mundo. há situações mais comodas e outras mais constrangedoras que se configuram na vivência do corpo. HELLER. São Paulo. esta deve remeter-nos â comphcada dimensão existencial. Vivenciando o corpo-sujeito.Gabriel. dificilmente haverá tema mais importante para nosso crescimento reflexivo e prático do que o da corporeidade. Milão. . a dor e a morte são universais. Aubier. MARCEL.Humanité de /'homme. forma individual e subjetiva). LOWEN. 1991 (mimeo). Tais ponderações põem-nos de novo perante uma de minhas afinnações iniciais: a de que. Livraria Freitas Bastos. a autêntica base da tematização da corporeidade em sua globalidade. tanto quanto os corpos alheios que observo ou estudo. Louvain. Não quis que este texto fosse sério. no que tange à corporeidade. deixando para velhos tempos o preconceito tolo de que só filósofos filosofam e também desconfiando de seus 86 1985. dados e situações. mas considerando-se agora que a realidade corporal não se esgota no organismo. Wilhehn -Análise do caráter. 1963. que se revela a nossos sentidos e nossa inteligência. este é uma realidade radicada em aparências. 1971. BARBOTIN. 'Assim vai se tomando complexa a reflexão sobre a corporeidade. MORAIS.-IOGRAFIA ALVES.Paris. treinam atletas. Paulina! 1982. Paz e Terra cultural. São Paulo. MERLEAU-PONTY. existencializado de . a ele se liga. em que pesem as condições mais ou menos constrangedoras de tal ou qual momento sócio-econômico. mas um corpo que observo em mim (ou tenho como corpo-objeto). 1960. Agnes. Unesp-Rio Claro. no sentido de en11Jertigad mente acadêmico. "a posição absoluta de um só objeto é a morte da consciência". Regis de . no sentido da paralisação de tudo o que o envolve. fazem preparação física. Comp. os que ensinam e preparam bailarinos.objeto de conhecimento (corpo-problema). Bompiani. O estertor doloroso e o orgasmo são do gênero humano. Rio de Janeiro. assim como o prazer e as alegrias. A. Nauwelaerts . Conferência pronunciada no 32 Simpósio de Educação Física de São Paulo. sentirão cada vez mais nitidamente a necessidade da reflexão filosófica sobre o seu quê-fazer. M. Georges. não descartando certos depoimentos de vida. Edmond . O que verdadeiramente logrei? Isso deix à avaliação dos que lerem estas páginas. Quis que fosse um escrito elaborado a sério no senti c ' de buscar a sensibilidade do meu presumido leitor para algumas questõ• que. e os profissionais da corporeidade. explica-o e ultrapassa-o. Eis porque a nossa reflexão tem que se aprofundar na direção do corpo-sujeito (vivido. Rio de Janeiro.Variações sobre a vida e a morte. Pa1 isso. venho a algum tempo levantando. Beatrice Nauwelaerts. Rubem. Martins Fontes. Cultrix 1991. São Paulo. existencializo-o como uma aventura que sou e que é não repetível. · GUSDORF. De toda maneira.O cotidiano e a história."Dimensões antropológicas da corporeidade". como individualização e como integração sócio- velhos vícios cientificistas.

Les Editions du Cerf. ll 88 . Paris. YOURCENAR. 1956. Rio de Janeiro.1 Kn. 1980. .Memórias de Adriano. Marguerite .:uviuN 11\NT. Claude -&sai sur la pensée hébrai"que. Nova Fronteira.