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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO, ECONOMIA E CIÊNCIAS CONTÁBEIS CURSO DE BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO TURMAS ESPECIAIS DE PRIMAVERA

DO LESTE

PLANO CRUZADO:
DA IMPLANTAÇÃO A ESTAGNAÇÃO

Primavera do Leste - MT Outubro de 2006

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO, ECONOMIA E CIÊNCIAS CONTÁBEIS CURSO DE BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO TURMAS ESPECIAIS DE PRIMAVERA DO LESTE Disciplina: Economia Brasileira Prof.: Alexandro Rodrigues Ribeiro

PLANO CRUZADO:
DA IMPLANTAÇÃO A ESTAGNAÇÃO
Trabalho apresentado na disciplina de Economia Brasileira ao Prof. Alexandro Rodrigues Ribeiro, como requisito parcial para conclusão da disciplina. Acadêmicos: Amarildo L. Zanchet Antônio Honorato Pereira Edir Vilmar Henig Juliano Monteiro Ramos Saulo Gonzaga Ferreira Willian Padilha Cunha

Primavera do Leste - MT Outubro de 2006

2 SUMÁRIO 1.3 Economia durante o Plano Cruzado _________________________________________ 8 2. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________21 .1 Cenário da Época_____________________________________________________________ 4 2.4 O Pacote de Julho ___________________________________________________________ 14 2. O PLANO CRUZADO ____________________________________________4 2.5 O Cruzado II_________________________________________________________________ 16 3. INTRODUÇÃO__________________________________________________3 2. CONCLUSÃO __________________________________________________19 4.2 Características do Plano Cruzado ___________________________________________ 6 2.

Convém lembrar que 1985. INTRODUÇÃO O ano de 1986 foi. provocando forte apreensão no governo. despertando entusiasmo em todos os segmentos da sociedade brasileira. em novembro. A inflação zero passa a ser a meta. torna-se útil um relato sintético do comportamento da economia brasileira naquela ocasião. ocorreu a morte do Presidente eleito Tancredo Neves. apresentar de maneira geral. c) eleição. tanto às vésperas do Plano Cruzado quanto ao final de 1986. no empresariado e na população em geral. causando excesso de demanda. para o Brasil. para os governos estaduais e Assembléia Constituinte. e d) comportamento inusitado da economia. percebia-se um clima nacional de crise. Para facilitar a visualização desse clima. Pretende-se neste trabalho. abordando também alguns de seus reflexos políticos. Como resultado da combinação dos acontecimentos resumidos anteriormente. sem recorrer a métodos recessivos e agravantes da concentração social de renda. . repleto de emoções que variaram desde a euforia até a frustração. b) reforma econômica via Plano Cruzado. em fevereiro. com alterações nos hábitos de consumo e escassez de produtos.3 1. O país enfrentou acontecimentos como: a) agravamento da inflação. criando-se um vácuo político que só não gerou conseqüências desestabilizadoras por causa da repulsa generalizada a qualquer solução não constitucional. o ambiente econômico e político em que foi implantado o Plano Cruzado para atacar de forma drástica o processo inflacionário. em janeiro.

90 9. b) além de não apresentar proposta de política econômica de médio e longo prazo.00 223.10 15.10 53.30 0. vários fatores contribuíam para a configuração de um ambiente nacional tenso.20 99. o governo tampouco indicava possuir resposta imediata ao agravo inflacionário.20 1986 17.70 211. Tabela 1 Inflação no Brasil – ÍNDICE GERAL DE PREÇOS (IGP) Período Variação (%) Período 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 40.20 1.00 jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez 1985 12.20 95.60 25.50 8.30 1. Gráfico 1 e 2).80 77.1 Cenário da Época Ao início de 1986.00 11.00 20.20 12.50 0.50 416.80 8.4% em fevereiro (Tabela 1.8% em janeiro e 22.00 13.50 15.10 27. e c) sucessivas greves vinham aparecendo.00 9. atingindo 17.90 Fonte: Ipea .00 14.4 2.50 -0.60 0.60 1987 12.20 7.30 4.10 9.50 7.60 10. em uma freqüência à qual a população não estava mais acostumada. entre os quais destacam-se: a) a partir de novembro 1985 a inflação alcançou índices alarmantes.10 1.40 2.60 1.80 235.80 7.20 110.40 5.10 15.80 22.90 14.70 7. O PLANO CRUZADO 2.

00 22 3. implantou-se um choque heterodoxo por meio do qual pretendia-se atacar de forma drástica o processo inflacionário.5 0 1986 41 6. Para total surpresa do país.00 60.8 0 11 0.00 0.00 1976 40 .00 C Collor 1 80.00 0. Sob esse complexo cenário foi anunciado. 00 1978 1980 1982 1984 53 .00 77 . 00 1988 Gráfico 1 . A inflação zero passa a ser a meta.5 500.00 20.ÍNDICE GERAL DE PREÇOS (IGP) Inflação Mensal (%) 100.2 0 95 .2 0 99 .00 -20. sem recorrer a métodos recessivos e agravantes da concentração social de renda. 2 0 21 1.00 Real Verão Bresser Cruzado Color 2 40. 80 23 5.00 Variação (%) 400. pelo então Ministro da Fazenda.00 100. o conjunto de medidas conhecido como Plano Cruzado. Com isso.Inflação no Brasil . surgem novos elementos a serem considerados: .7 0 200. Dílson Funaro em 28 de fevereiro de 1986. 1 0 300.00 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 IGP-DI mensal de Jan/85 à Abril/97 Gráfico 2 – inflação mensal de janeiro de 1985 a abril de 1997. no Governo José Sarney.

2 Características do Plano Cruzado O esquema montado pelo Plano baseava-se na neutralização do fator inercial de inflação. Com o fim da indexação esperava-se romper a rigidez à retração inflacionária. Nova moeda foi instituída. funcionando assim como piso mínimo da taxa do mês seguinte. aplicando-se aos salários aumento correspondente à manutenção de seu valor médio real dos últimos seis meses. b) as contas externas apresentavam condições favoráveis. mas também o de personificar uma economia estável.6 a) a inflação passou a atuar a tal ponto como elemento desestabilizador da situação interna e de enfraquecimento da posição brasileira na renegociação da dívida externa. Instantaneamente. com repetidos saldos comerciais positivos e volume respeitável de reservas em divisas. c) não havia evidências de que a agricultura pudesse criar dificuldades de abastecimento. o Plano Cruzado rendeu abundantes dividendos políticos. associada ao congelamento de preços e salários. na qual a moeda não se deterioraria. e d) o ímpeto expansionista demonstrado pela economia nos últimos dois anos permitia prever uma tendência natural a neutralizar eventuais efeitos estagnantes do Plano. O fator inercial provinha da correção monetária aplicada às transações financeiras e comerciais. acrescido do abono de 8%. cuja diferença em relação à antiga não seria apenas o fato de equivaler a mil cruzeiros. Os preços foram congelados ao nível em que se encontravam em 27 de fevereiro de 1986. 2. com repercussões altistas sobre os preços. Outros pontos importantes a destacar: . o cruzado. seduziu a nação e recondicionou a imagem do governo. que valia a pena os riscos de um tratamento radical.

e) instituiu-se o seguro-desemprego.7 a) a ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional). destinado a prestar assistência financeira. Implícita ao Plano. entre as quais a de ter percebido salário nos últimos seis meses. seu valor permaneceria inalterado até março de 1987. no suposto . e sofreu elevação em 3 de março. como resguardo à eventual inflação.0045 para cada dia decorrido a partir de 3 de março de 1986. ao trabalhador desempregado. e f) a taxa de câmbio oficial por moeda estrangeira foi congelada. havia a intenção de obedecer algumas diretrizes: i) montagem de esquema de controle sobre o congelamento de preços. doravante automaticamente acionado toda vez que a subida acumulada do IPC atingisse 20% (o chamado gatilho salarial). b) as obrigações de pagamento expressas em cruzeiros. ii) minimizar o apelo à emissão monetária. quando seria reajustado conforme os indicadores de comportamento de preços. anteriores a 28 de fevereiro. Esse fator era diário e calculado pela multiplicação da paridade inicial (1. passou a denominar-se OTN (Obrigações do Tesouro Nacional). dividindo-se o montante em cruzeiros por um fator de conversão. o Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS) e o Fundo de Participação PIS/Pasep (fundos compulsórios vinculados aos assalariados). por 1. c) a desindexação só não atingiu as cadernetas de poupança (forma mais difundida de poupança popular). pelo período máximo de quatro meses. cujos saldos passaram a ser atualizados pelo Índice de Preço ao Consumidor (IPC). passaram a ser convertidas em cruzados na data de seus vencimentos. título que variava mensalmente servindo de indexador. todos os cidadãos foram investidos simbolicamente da função de “fiscais do Sarney”. de acordo com certas condições. para o sucesso do qual considerava-se importante a participação popular. cumulativamente.000 cruzeiros/1 cruzado). dada a impossibilidade de a fiscalização oficial cobrir o país inteiro. d) alterou-se o método de reajuste salarial. não havia limitações para negociações coletivas de aumentos salariais.

3%. O fim da “ciranda financeira”. -0. anteriormente. ou para a bolsa de valores. Havia empresas cujos lucros não operacionais. canalizadas às aplicações com rendimentos atrelados aos índices inflacionários.8 de o déficit público ser mantido em proporções controláveis. transformados na melhor opção de auferir bons resultados.6% e 0. Uma fonte de recursos aos investimentos em aumento de produtividade seriam as antigas aplicações financeiras. que foi consolidado em decorrência da queda da inflação: a taxa mensal em fevereiro de 1986 havia chegado a 22.3 Economia durante o Plano Cruzado Esta teve um impacto positivo.5%. baixando nos três meses seguintes para 5. provenientes dessas aplicações. os baixos níveis de produtividade em diversos ramos da economia e à heterogeneidade entre os níveis constatáveis em empresas de um mesmo setor. portanto. como visto na Tabela 1. os freqüentadores das múltiplas modalidades de captação de poupança . iii) livre fixação da taxa de juros.4%. Além disso. era lógico imaginar que agora esses recursos fluiriam para empreendimentos produtivos. Havia a expectativa de nova ênfase à questão da produtividade. Em decorrência da desindexação. Sob esse clima. 2. como conseqüência da inflação próxima à zero. que desviava de atividades produtivas volumosas somas de recursos. incentivo em investir no próprio negócio. esvaiuse a atratividade das inúmeras formas fáceis e especulativas de obter rentabilidade com o dinheiro disponível. eram superiores aos resultantes de suas atividades-fim. não havendo. várias transformações surgiram no organismo econômico. iv) balizamento de todas as decisões de política econômica no princípio de preservação da renda dos trabalhadores de até cinco salários mínimos. Assim sendo. Com o fim da correção monetária e dos rendimentos insuflados pela elevada inflação. A primeira ocorreu com os hábitos de poupança.

o que redundou em incremento também na demanda por bens intermediários. O governo tentou convencer a população de que. ao consumo. resultantes de novos lançamentos. Porém. Se essa valorização tivesse perdurado por longo tempo. via lançamento de ações. Os recursos canalizados à bolsa de valores poderiam ter sido fonte de financiamento ao investimento se utilizados na compra de ações primárias. principalmente.9 (salvo a bolsa de valores) transferiram seus ativos financeiros a outras destinações. à época de inflação elevada. talvez conseguisse induzir mais empresas a recorrerem ao aumento de capital. privilegiaram aquelas já em poder do público. como forma de financiar seus investimentos. em função dos seguintes motivos: a) a já mencionada perda de atratividade das modalidades mais populares de aplicação no mercado financeiro. os primeiros meses do cruzado presenciaram a migração das disponibilidades das famílias em direção. pois apenas refletiam a inflação. a caderneta de poupança não havia perdido rentabilidade e de que os antigos elevados índices de valorização eram ilusórios. c) mudanças fiscais que diminuíram retenção do imposto de renda na fonte. b) aumento na massa salarial em virtude da expansão do emprego e da remuneração real média. sobretudo de bens duráveis. levando as famílias a uma preferência pelo consumo. por exemplo. em conseqüência da convicção de que os produtos encareceriam. tais como aumento do consumo. A previsão de arrefecimento provinha da suposta eliminação de compras efetuadas precipitadamente pelos assalariados. Entretanto. compra de imóveis e mercado de ações. Reagindo de maneira inversa à imaginada pela maioria dos observadores. Mas ocorreu exatamente o contrário. que anteviam um arrefecimento da demanda familiar. a população transformou-se em um consumidor quase compulsivo. promovendo apenas uma transferência de posse e tendência à valorização das cotações. e .

recorriam a expedientes que permitissem aproveitar o desequilíbrio entre a oferta e a demanda: reduziam os prazos de pagamento. alguns empresários. Os que já estavam com baixa ociosidade em março. Quando a cobrança de ágio alastrou-se. principalmente entre os bens intermediários. Aqueles setores considerados prejudicados logo recorreram a mecanismos de resistência. esse gênero de salto na demanda por bens de consumo duráveis já era registrado na literatura econômica internacional. antes que eles se tornassem menos acessíveis. Assim. mais vantajoso do que poupar seria adquirir o máximo de bens e serviços. os descontos e as bonificações usuais. Adicional cobrado sobre um preço tabelado. Taxa de juros cobrada em empréstimos feitos por bancos ou por particulares. passaram a reclamar de incompatibilidade entre custo e receita. alguns observadores explicavam a explosão do consumo também como conseqüência da falta de confiança na continuidade do congelamento dos preços. Mas tão logo atingiam a plena ocupação. . antes satisfeitos com o congelamento. Na verdade. as regras foram respeitadas e os lucros aumentaram com o incremento da produção. Verificaram-se então: a redução da qualidade dos bens. a diminuição de pesos e volumes. Comissão paga ou recebida por banqueiro ou agente de câmbio pela troca de moeda estrangeira. utilizaram esses expedientes desde o início do Plano Cruzado. Logo nos primeiros meses de vigência. as reações eram diferenciadas pelo grau de adequação dos respectivos preços congelados. Também é uma comissão cobrada pela transferência de financiamento. a introdução de detalhes inúteis nos produtos que permitissem a elevação desproporcional do preço. além de cobrarem ágios. não se mostrando muito entusiasmados com o crescimento do consumo. Como reagiram as empresas ante tal sofreguidão consumista? De início. como peculiar a programas de estabilização que resultam em freada brusca no processo inflacionário. quando a procura supera a oferta. a cobrança de ágio1. e a simples retirada do produto do mercado. o congelamento de salários não resistiu à forte expansão da 1 Diferença que o comprador paga sobre o valor nominal de um título. Naqueles casos em que o congelamento surpreendeu os preços em níveis satisfatórios e havia capacidade produtiva excedente.10 d) em contraste com os motivos anteriores.

Entre 1985 e 1986. maior era a tendência da empresa em ampliar seu quadro de pessoal.3 4.9 2.4 5.11 procura por mão-de-obra.9 4. de janeiro a junho de 1986. c) grau de ocupação da capacidade instalada no instante do congelamento. Estima-se que em 1986 foram criados mais de um milhão de postos no mercado formal de trabalho. atingindo-se. ocorrendo reajustes salariais principalmente nos estabelecimentos privados cujos lucros ampliaram-se. a fim de não perderem posição no mercado.0 2. a menor taxa média de desocupação desde que o IBGE iniciou.9 2. 1986 Recife Salvador Belo Horizonte Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Fonte: IBGE.4 3. em dezembro. 1985 OUT. Conforme dados do Ministério do Trabalho.5 3.3 3. Quanto menos sujeita ao controle de preços (por exemplo. b) perda de vantagens comerciais oferecidas pelos fornecedores e pagamento de ágio. a Pesquisa Mensal de Emprego. as taxas de desemprego baixaram em praticamente todas as regiões metropolitanas do país (Tabela 2). Tabela 2 Brasil – Taxa de Desemprego. a rentabilidade dos estabelecimentos industriais e comerciais comportou-se em função de fatores como: a) intensidade do aumento salarial concedido aos empregados. montante que em 1985 como um todo atingiu 400 mil. no mercado de trabalho formal urbano foram criados 560 mil empregos. e . por Região Metropolitana (em %) OUT. 6. em maio de 1982. d) peso dos antigos lucros não-operacionais. comércio varejista de produtos leves).8 Em geral.1 4. ou mais favorecida com o preço congelado. A forte expansão do consumo induziu empresas a contratarem mais trabalhadores e a pagarem melhores salários.3 3.

5 -3. 93%.4 -14.3 11.3 14.9 3.3 4.2 -8.1 7.1 7.8 6. papel para impressão. em termos globais constatou-se uma expansão da oferta industrial insuficiente para acompanhar a demanda.7 1. da capacidade máxima teórica. 0.8 8.1 -4. respectivamente.3 8.7 7.7 12. em julho.2 8. Tabela 3 Brasil – Crescimento Real do Setor Industrial. Seguramente.4 0.2 21. também conspirou contra a ampliação mais vigorosa da produção.0 . metais não-ferrosos e celulose produziam a 91%. decisões empresariais contribuíram para tal desequilíbrio.9 6. que impedia o fornecimento de inúmeros bens manufaturados.6 -19. 95% e 99%. Sondagem conjuntural realizada pela FGV/Ibre. que seria duvidoso atribuí-lo apenas à expansão do consumo.1 10.8 0.0 10.9 9. Na indústria como um todo esse percentual era de 82%.6 2.5 -3.0 -5.4 6.12 e) capacidade da empresa para “burlar” o congelamento de preços.0 0.3 7. carecendo o setor industrial (Tabela 3 e Gráfico 3) de projetos suficientemente amadurecidos para proporcionar rápida expansão de oferta. não se observando programas de relevo em setores fundamentais ao crescimento.9 -19. A escassez de certos componentes.9 6. O aumento de produção baseou-se no uso da capacidade instalada.2 2. Em paralelo à reação de cada empresa ante a explosão do consumo.2 9.9 0.2 9. Após os primeiros meses do Plano. indicava que os subsetores têxtil. o estrangulamento no abastecimento de alguns produtos assumiu tamanha intensidade. O elenco de investimentos registrado contemplava ampliações e modernizações de plantas já existentes.8 9. por Segmento (em %) Bens de Bens Bens de Total Capital Intermediários Consumo Indústria 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 Fonte: Ipea.2 -11.

demonstrava pouco . 445).2 -0. fazia-se sentir a escassez de produtos como é o caso do leite. a despeito de não lhe faltar capacidade de investir. Quanto ao setor privado. das bebidas e dos automóveis. da carne. sua situação permanecia melancólica a esse respeito. contribuiu o aumento de renda real dos trabalhadores (GREMAUD.7 9. Pelo contrário.T a x a d e C re s c im e n to A n u a l. 2006 – p. -2.13 P ro d u ç ã o In d u s tria l . Em outros casos.6 8.6 -8. Para a escassez de alimentos.6 9.0 -0. 1 9 8 6 e 1 9 8 7 40 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 -1 0 fev/86 fev/87 mar/86 mar/87 ago/86 ago/87 mai/86 mai/87 dez/86 nov/87 nov/86 jan/86 jun/86 abr/86 abr/87 jan/87 out/86 jun/87 jul/87 jul/86 set/87 out/87 set/86 In d ús tria To ta l B e ns Int erm e d iá rios B e ns d e C o ns u m o N ã o-D uráve is B en s d e C ap it al B en s d e C on s um o D u rá veis Gráfico 3 – Produção Industrial – Taxa de Crescimento Anual em 1986/87. o setor público não adquiriu capacidade de poupar suficiente para posicioná-lo na vanguarda de um processo de retomada dos investimentos. Contribuindo com essa escassez houve uma queda na taxa de crescimento do setor agropecuário (Tabela 4).0 Nos cinco primeiros meses do Plano Cruzado. que acabou resultando na cobrança de ágios e no aparecimento de filas de espera pelo produto.5 2. Tabela 4 Brasil – Taxa de Crescimento Real do Setor Agropecuário (em %) ANO AGROPECUÁRIA 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 Fonte: Ipea.0 15.7 4.

Até sua exaustão definitiva. principalmente. Cinco meses de Plano Cruzado já eram suficientes para perceberse a necessidade de partir rumo a outro estágio de política econômica. assim como sobre os adquirentes de automóveis de passeio e utilitários. sem transmitir impressão de fracasso. até 31 de dezembro de 1989. nos . já a partir de maio/junho de 1986. Dada a proximidade de eleições para o Congresso/Assembléia Constituinte e governos estaduais. em novembro. nem com a envergadura do próprio Plano Cruzado. as seguintes medidas: a) Instituição do empréstimo compulsório a incidir. contudo. a base de sustentação política do governo insistiu em permanecer no mesmo filão. Era visível. no qual o congelamento de preços não jogasse o mesmo papel de antes. a necessidade de se complementarem as decisões de fevereiro. mais vulnerável tornava-se o congelamento e mais difícil à transição para outra espécie de controle. 2. Quanto mais longo.4 O Pacote de Julho Em face dos riscos inerentes à evolução da economia após fevereiro. a fim de corrigir tensões e definir aspectos ainda ameaçadores. constatando-se um panorama duvidoso quanto às chances de se superarem. as iniciativas (ou falta delas) governamentais nesses cinco meses não esboçaram estratégia condizente com a situação do país. ao definir-se o conteúdo do chamado “Pacote de Julho”.14 ímpeto expansionista. Ademais. o qual. sobre os consumidores de gasolina e álcool. novo conjunto de medidas foi anunciado em 23 de julho de 1986. os desencontros entre produção e consumo. a curto e médio prazo. tentando extrair o máximo da popularidade ainda desfrutada pelo Plano. revelou-se fraco. Em vez de transpor a fronteira em direção a um novo espaço econômico. fatores de natureza política predominaram sobre os critérios preferidos pela equipe econômica. O Pacote de Julho englobava.

pela União. c) Lançamento do Plano de Metas. direta ou indiretamente. m ju ju n/ 90 6 9 5 7 8 6 8 8 z/ 86 /8 7 /8 /8 /8 9 9 z/ 8 z/ 8 z/ 8 t/8 t /8 t/8 t/8 /9 0 .0 200. Seus recursos advêm a arrecadação prevista nos itens a) e b). Dez /85 a Jun/90 350.15 seguintes montantes: 28% do valor do consumo de gasolina e álcool carburante.0 50.0 300.0 0. Estaduais e Municipais em Poder do Público. principalmente). educação. tais como a redução do imposto de renda sobre os Certificados de Depósito Bancários (CDB) e a criação de nova modalidade de caderneta de poupança (Gráfico 4). 30% do preço de aquisição de veículos novos e de até um ano de fabricação. Depósitos de Poupança e a Prazo Fixo. cujo destino fundamental é financiar o Plano de Metas.0 100. composto de investimentos nas áreas social (saúde. até 31 de dezembro de 1987.0 7 ju n/ 87 n/ 86 n/ 89 n/ 88 de z/ 8 ar ar ar ar se se se se ju ar m de de de ju m de m Depósitos de Poupança Títulos Federais em Poder do Público m Depósitos a Prazo Fixo Títulos Estaduais e M unicipais Gráfico 4 – Depósito de Poupança – Dez/85 a Jun/90. e 10% do preço de veículos com mais de dois e até quatroanos de fabricação. de encargo financeiro no valor de 25% na compra de passagens internacionais e na compra de moeda estrangeira para fins de viagem ao exterior. Títulos Federais. sendo seu patrimônio inicial constituído por ações de empresas controladas. moradia) e de infra-estrutura (transporte e energia. e) Concessão de incentivos à poupança. 20% do preço de veículos com mais de um e até dois anos de fabricação.0 150. b) Determinação do pagamento.0 250. d) Criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento (FND).

aconteceu algo mais surpreendente: a procura pelos bens e serviços onerados. críticos duvidavam do seu desaquecimento. Assim. era incompreensível a manutenção de seu prestígio entre a população e o temor do governo em alterá-lo. no Índice de Preços ao Consumidor. prevendo apenas um redirecionamento das compras dos bens e serviços gravados compulsoriamente. agora com a novidade de expor mais abertamente pressões inflacionárias e apresentar sintomas de enfraquecimento do saldo comercial. discretamente engavetado. tais como automóveis e viagens ao exterior. Na área de poupança e investimento. em realidade. foram anunciadas mudanças conhecidas como Cruzado II. Na área de consumo como um todo. logo após o pleito de 15 de novembro. o congelamento estava sendo de tal forma desrespeitado pelo ágio e pela falta de produtos que. 2.16 f) Determinação da exclusão. explicitando a inocuidade do Pacote de Julho. Insuficientes foram às medidas. Fiéis ao diagnóstico inspirador do pacote de julho. álcool e automóveis. Naquela altura. Efetivamente.5 O Cruzado II Entre julho e novembro de 1986. mas a do resquícios popularidade congelamento de preços imobilizaram o governo. no qual o PMDB (partido governista) teve vitória avassaladora. Em outubro. o FND permaneceu inativo e o Plano de Metas. além do agravamento dos problemas de abastecimento. as novas medidas demonstravam a intenção de aumentar . acentuou-se ainda mais o perfil de comportamento da economia descrito anteriormente. discutia-se abertamente a necessidade proximidade de das drásticas eleições alterações e os na política de vigente. continuou inabalada. em benefício de outros. a economia prosseguiu indecisa. Em realidade. do empréstimo compulsório incidente sobre a venda de gasolina.

e e) a reduzida capacidade de investimento do setor público. como energia elétrica. e) recompor capacidade de investimento do setor público. siderurgia. a maior parte do aumento deveu-se à elevação do imposto indireto). esse aumento atinge 100%).17 a dose terapêutica. foram adotadas as medidas resumidas a seguir: a) Aumento substancial no preço de: automóveis. energia elétrica comercial. d) equacionar problemas referentes ao setor externo. tarifas postais. f) reduzir pressões inflacionárias. energia elétrica residencial. b) estimular a canalização de renda para a poupança. c) atenuar o déficit público. petroquímica. foram apontados os seguintes objetivos: a) conter o consumo. energia elétrica industrial. açúcar. aumentando os riscos de crise cambial. 30%. 10%. média de 35%. O Cruzado II foi justificado pelos seguintes fatos: a) o crescimento do consumo atingia taxas que levavam ao superaquecimento da economia. principalmente em setores cruciais. 40%. bebidas alcoólicas. 80%. b) a perspectiva de estrangulamento desastroso na oferta. cigarros. Para alcançar esses objetivos. g) preservar a renda dos que percebiam até cinco salários mínimos. Ante esse quadro. d) o comportamento preocupante da balança comercial a partir de setembro. papel. 25% (via redução . tarifas telefônicas. até 122%. 80% (considerando o empréstimo compulsório instituído em julho. celulose. 100% (no caso desses três primeiros produtos. metais não-ferrosos e comunicações. c) a persistência de volume insuficiente de investimentos. o declínio dos saldos comerciais eram atribuídos ao incremento do consumo interno. na tentativa de recuperar a oportunidade perdida anteriormente.

e muito mais do encolhimento da renda real dos assalariados. baseada no argumento de que as medidas implementadas não atendiam aos objetivos declarados. Imediatamente delineou-se uma reação contrária. A partir de então. As medidas de novembro não conduziram ao alcance dos objetivos anunciados e. cigarro etc. Certos críticos sugeriram como mais eficiente. tem-se o desaquecimento da economia com queda da demanda e profunda desestruturação das condições de oferta . e) Estímulo às exportações. por meio de incentivos fiscais e restabelecimento das minidesvalorizações cambiais (o câmbio estava congelado desde março). para conter o consumo.. b) Criação de novas modalidades de caderneta de poupança. em especial os de preservação da renda dos assalariados de menor nível e os de redução das pressões inflacionárias. gasolina e álcool. até mesmo sua extinção. ou do estímulo à poupança. provocado pela volta da inflação. c) Adiamento de parcela significativa dos investimentos estatais previstos para 1987. na verdade.18 do subsídio). o aumento no imposto de renda ou a instituição de empréstimo compulsório. demarcaram o completo esgotamento do Plano Cruzado. O declínio verificado no consumo decorreu menos do aumento nos preços de automóvel. medicamentos. mediante o impedimento da contratação de pessoal e da extinção e fusão de empresas estatais (exemplo emblemático foi o fechamento do Banco Nacional de Habitação. iniciaram-se debates sobre outras mudanças no gatilho. estabelecendo o desconto dos aumentos já obtidos pelos trabalhadores no período anterior ao disparo do gatilho. d) Redução dos gastos correntes do setor público. f) A aplicação do gatilho salarial (reajuste automático dos salários quando a inflação atingisse 20%) foi regulamentada. 60% (embutido aumento de imposto). com suas funções absorvidas pela Caixa Econômica Federal).10%.

Contudo. 3.m. 0 00 1 0 . CONCLUSÃO Embora representasse uma iniciativa empolgante. Seu fracasso pode ser atribuído tanto a problemas de concepção como de execução. 0 00 0 19 7 9 1 9 80 1 98 1 1 98 2 1 98 3 19 8 4 19 8 5 1 9 86 1 9 87 1 9 88 1 98 9 19 9 0 19 9 1 19 9 2 1 9 93 1 9 94 1 99 5 1 99 6 1 99 7 Gráfico 5 – Reservas Internacionais 1979/1999. 0 00 4 0 . 1 9 7 9 /1 9 9 9 7 0 .19 devido à longa permanência do congelamento. O Plano criou condições receptivas a uma política de desenvolvimento compatível com as expectativas despertadas pela redemocratização. A duração excessiva do congelamento. o Cruzado não substituía a necessidade de propostas abrangentes voltadas ao desenvolvimento econômico e social do país. prevalecendo à sensação de que o . 0 00 6 0 . Em abril de 1987. 0 00 2 0 . R e s e rv a s In te rn a c io n a is (L iq u id e z ). e m U S $ b ilh õ e s . 2006 – p. 446). a inflação superou os 20% a.. 0 00 3 0 . os fatores que provocaram o crescimento descontrolado da demanda e o descaso pelas contas externas com certeza contribuíram para esse desfecho (GREMAUD. o que levou à queda do ministro Funaro e à posse de Bresser Pereira. 0 00 5 0 . o que levou ao anúncio da moratória em fevereiro de 1987 para estancar a perda de reservas e reiniciar as negociações da dívida externa (Gráfico 5). Tem-se um movimento de perda de reservas em razão dos saldos negativos na balança comercial. essa oportunidade não foi aproveitada. Encerrava-se de forma desalentadora a tentativa do Cruzado.

Em realidade. este exigiria gigantesca mobilização popular ou igualmente gigantesco controle oficial. Essa sensação perdurou o tempo suficiente para promover a vitória eleitoral de novembro. embora com motivações diferentes. mas sim eliminado um fator inercial de aumento de preços e contidos certos realimentadores do processo. na medida em que o congelamento formal superou prazo razoável de vigência. Com demonstrou exceção otimismo. prevalecia a sensação de ganho real de salário. A partir de dezembro de 1986. De qualquer maneira. A respeito do congelamento. houve intenção de proteger as classes menos favorecidas na incidência dos custos de implementação do Plano Cruzado. agradava às . ambos inviáveis. imobilizando os núcleos contrários. que os o empresariado em geral preços sendo surpreendidos com congelados em níveis inadequados não manifestaram imediatamente seu descontentamento. durante a qual caberia calibrar melhor a localização dos alvos e partir para o combate decisivo. seria uma luta inglória. dos banqueiros. a rejeição empresarial adquiriu maior contundência. No início. Portanto. apesar do desgaste já flagrante nessa ocasião. A estabilidade monetária tornou-se impraticável. pois visaria impor uma estrutura de preços que desorganizava a atividade produtiva.20 processo esteve circunscrito à esfera das medidas de caráter preliminar. a aprovação era quase unânime. Quanto aos trabalhadores e à classe média em geral. a evolução foi similar à dos empresários. Houve apenas uma trégua. As medidas nas áreas de salário e de preço demonstravam intento de impor maior ônus aos estratos privilegiados. esvaziando ensaios de crítica esboçados por algumas facções sindicais. com aberta desobediência às regras em vigor. As reações de apoio e oposição ao Plano Cruzado e seus desdobramentos variaram ao longo do tempo. a inflação não poderia ter sido considerada vencida. Tampouco foram enfrentadas todas as causas da inflação. Nos primeiros meses de 1986. Mesmo com o desrespeito ao congelamento de preços.

Acesso em 02 out 2006.gov. criaram cenário adverso ao crescimento econômico. de ansiedade e desencantamento. Amaury Patrick. Dados econômicos. Conjuntura econômica. que não chegou a ser de oposição aguda.gov. Acesso em 03 out 2006.br.ibge. Carlos Alberto. 4. 2006. O Cruzado II desmoronou o apoio popular. p. Disponível em: www. São Paulo: Atlas. engendrando outro gênero de sentimento. Dados econômicos. 6 ed. . reimpressão – São Paulo: Atlas. Disponível em: www. 1986-fev. LONGO. – 2. IPEA – INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA. Economia brasileira contemporânea.br.21 famílias de menor renda a manutenção das tarifas públicas (sobretudo de transporte). p. GREMAUD. Enfim. Rio de Janeiro. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. mas. 1987.ipeadata. IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. 1994. 431-451. dos preços de certos alimentos básicos (em torno dos quais a fiscalização foi mais intensa) e dos aluguéis. mar. 37-47. o aumento da inflação e a redução do consumo privado. a economia nacional não resistiu à solidão e à exaustão do Plano Cruzado. devido a duração excessiva do congelamento. A economia brasileira de 1985 a 1994: a transição inacabada. os fatores que provocaram o crescimento descontrolado da demanda e o descaso pelas contas externas contribuíram para o fim desse plano. Durante o primeiro trimestre de 1987. talvez.