UNI IBMR – INSTITUTO BRASILEIRO DE MEDICINA DE REABILITAÇÃO CENTRO UNIVERSITÁRIO HERMÍNIO DA SILVEIRA DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

OS DESCAMINHOS DA SEXUALIDADE: USOS E ABUSOS

Flávia Ribeiro Freschi

Rio de Janeiro, dezembro de 2009

UNI IBMR – INSTITUTO BRASILEIRO DE MEDICINA DE REABILITAÇÃO CENTRO UNIVERSITÁRIO HERMÍNIO DA SILVEIRA DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

OS DESCAMINHOS DA SEXUALIDADE: USOS E ABUSOS

Monografia apresentada ao Departamento de Psicologia do Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação – Centro Universitário Hermínio da Silveira – UNI IBMR como requisito parcial à obtenção do Título de Psicóloga. Orientadora: Profª. Raquel Staerke Calvano. Co-orientadora: Profª. Leila Maria Amaral Ribeiro.

Rio de Janeiro, dezembro de 2009

Ao Claudio, meu marido: pela presença, apoio e compreensão ao longo dessa jornada. À Yara, minha avó: por sua força e amor incondicional, e que me mostrou o prazer pela leitura. À Martha, minha mãe: presente em todos os momentos e por fazer de mim quem sou. Ao Antonio Oswaldo, meu pai: por acreditar em mim. À Cristiane e Ana Paula, minhas irmãs: por me amarem do jeito que sou e simplesmente por ser quem são.

AGRADECIMENTOS

À Leila Ribeiro, por me mostrar que não existe caminho certo ou errado, mas sim que existem caminhos. A Valéria Victorino, que ao longo desses cinco anos foi uma presença marcante e me ajudou em momentos difíceis com palavras encorajadoras. A Raquel Staerke, pela sua tranqüilidade nesses momentos finais. Aos meus companheiros de jornada, que me apoiaram, me ajudaram e se tornaram grandes amigos, em especial: Bruno Marianno, Maria Fernanda Pimenta, Barbara Salgado, Michelle Otranto e Letícia Nascimento. As minhas grandes amigas Jennifer Paixão por me tranqüilizar com sua calma, me mostrando que nada é tão difícil assim; Rachel Rivello, uma luz que se acendeu e que permanecerá na minha vida sempre; Fernanda Lima, mais que uma companheira, uma amiga, que esteve e estará ao meu lado e com quem posso contar em qualquer momento; Carol Bittencourt, pela sua amizade, leveza e uma forma de encarar a vida que me estimulam e Fabrine Martins, por sua alegria que contagia. Ao Tiago Asfora, por agüentar meu mau humor, me animar e ser compreensivo quanto às trocas de horários. A Hayda Borges, que mesmo à distância de quilômetros, está presente a todo o momento, me ouvindo, me aconselhando e, muitas vezes me fazendo enxergar a realidade. A Cynthia Almeida, por me fazer rir nas horas difíceis, celebrar os momentos de felicidade, estando ao meu lado durante a elaboração desse trabalho e por me cobrar a toda hora. As minhas sobrinhas Isadora, Laura e Joana, por me alegrarem a cada minuto em que estamos juntas. A todos, muito obrigada!

Vamos acordar Hoje tem um sol diferente no céu Gargalhando no seu carrossel Gritando nada é tão triste assim.“Vamos começar Colocando um ponto final Pelo menos já é um sinal De que tudo na vida tem fim. Vamos celebrar Nossa própria maneira de ser Essa luz que acabou de nascer Quando aquela de trás apagou E vamos terminar Inventando uma nova canção Nem que seja uma outra versão Pra tentar entender que acabou. É tudo novo de novo Vamos nos jogar onde já caímos Tudo novo de novo Vamos mergulhar do alto onde subimos. Mas é tudo novo de novo Vamos nos jogar onde já caímos Tudo novo de novo Vamos mergulhar do alto onde subimos” Paulinho Moska .

. ABSTRACT This paper comprises a study on sexual abuse and childhood. O tema é revisto através de um percurso histórico-cultural da Grécia Antiga até os dias atuais por meio de revisão bibliográfica. PALAVRAS-CHAVE: abuso sexual. The purpose is to relate sexual abuse and psychoanalytic concepts. Descreve abuso sexual que envolve crianças e adultos e algumas definições sobre o tema. Se propõe a relacionar abuso sexual e conceitos psicanalíticos. It describes sexual abuse involving children and adults and some definitions about this subject. sintomas. and also make a critical analysis of sexual relations with children through the issue of power and knowledge. infância.RESUMO Este trabalho compreende um estudo sobre abuso sexual e infância. como sintoma e ganhos secundários. childhood. such as symptom and secondary gains. bem como fazer uma análise crítica das relações sexuais com crianças através da relação poder e saber. The theme is revised through a historical-cultural course from old Greece to now days by a bibliographical review. secondary gains. symptoms. KEYWORDS: sexual abuse. ganhos secundários.

........................................................................ 18 2......................SUMÁRIO 1................................................................. 18 2.4....................................... 35 CONSIDERAÇÕES FINAIS.3...... 10 1............... 15 2.......... NORMATIZAÇÃO E CATEGORIZAÇÃO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO ..................................................................................5............................ 26 3...Os estudos das perversões e a descoberta freudiana da sexualidade infantil ............................3.2............................................... Pederastia: panorama educacional e cultural da Grécia Antiga ...................................................... 32 3.................................... PERCURSO HISTÓRICO DAS RELAÇÕES ESTABELECIDAS ENTRE ADULTOS E CRIANÇAS ....... Pedofilia: O pedófilo a espreita .... 28 3................2........ Abuso sexual e a “enformação” do indivíduo . As escolas e a repressão da criança . ABUSO SEXUAL E GANHOS SECUNDÁRIOS . 24 3....................... 38 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................. RELAÇÕES ADULTOS E CRIANÇAS: PEDOFILIA..... Abuso sexual e a visão psicanalítica ........................................1...................... O perverso polimorfo e a proibição das atividades sexuais infantis ......... 40 .... A medicalização do comportamento da criança: o normal e o patológico ................ A criança como sujeito de direitos ....................... 13 1.................................................. 10 1................................... 21 3....1............. Surgimento da noção de infância: da Idade Média a Modernidade e a necessidade de uma educação diferenciada para a criança .................. 24 3.........................................1....................................................2..............................................................

bem como no atendimento a seus pais e mães. Durante a experiência de estágio no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (SPIA/IPUB). crescer. várias questões estão envolvidas e que definições pré-concebidas não abarcam a complexidade das relações que surgem na experiência de abuso sexual. A partir de tais observações. seja pela família. “ganhar vulto. medo e segredo que surgem. Para isso definimos o que é pederastia. apresentamos conceitos psicanalíticos a respeito da sexualidade infantil e ganhos secundários. o que nos leva a pensar que esse sujeito começa a existir a partir desse lugar. seja pela sociedade. dentro do contexto de cada uma dessas sociedades. especificamente crianças que passam ou passaram por situações de abuso sexual. sendo necessário um outro olhar mais abrangente sobre esse fenômeno. Seguimos com um exame da normatização e categorização através do saber. Além disto.8 INTRODUÇÃO O presente trabalho surgiu a partir da experiência de estágio no Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (SPIA/IPUB). da Idade Média até a modernidade (ocidente). desenvolver-se”. além de “dar fôrma à”. tomar corpo. havia algo para além disto: os ganhos secundários que emergem a partir de tais situações e com isso. um panorama histórico-cultural da Grécia Antiga. Nos atendimentos a essas crianças. neste trabalho propomos traçar. o trabalho está dividido da seguinte forma: 1 De acordo com o dicionário Michaelis. através de uma análise crítica a partir da visão de Foucault sobre saber e poder. com crianças envolvidas em situação de violência doméstica. enformar significa. observamos que nestas situações. para questionar o normal e o patológico no comportamento da criança. de um indivíduo “enformado”1 num papel que lhe é designado. . ou até mesmo pela própria criança. chegando à contemporaneidade. Para melhor entendimento. a produção. pedofilia e abuso sexual. relacionando-os com a situação de abuso sexual e examinaremos as relações atuais da sociedade com a pedofilia e com o abuso sexual. notamos que além das relações de culpa. por meio de uma análise bibliográfica.

fazemos uma breve explanação sobre a sexualidade infantil. a partir da teoria da sedução e do conceito de denegação em psicanálise. Definimos o que é pedofilia e suas relações com a sociedade atual. discutimos a relação da sociedade com a pedofilia.9 No primeiro capítulo traçamos um panorama histórico-cultural da Grécia Antiga. para fundamentar o envolvimento da criança nas situações de abuso sexual. Além disto. não abarcam a totalidade desse fenômeno. Neste capítulo. sobre a medicalização da criança. a dinâmica das relações de abuso sexual a partir dos ganhos secundários que emergem em tais situações. que leva a divisão do comportamento em normal e patológico. Tentamos demonstrar. Mostramos também o impacto sócio-cultural que sobreveio com o surgimento da noção de infância a partir da Idade Média até a modernidade. além das mudanças ocorridas nas relações entre crianças e adultos a partir dos movimentos que culminaram com o nascimento da visão da criança como sujeito de direitos. que surge a partir do papel que lhe é designado. que acaba por tomar um caráter de forte condenação moral. A pedofilia e o abuso sexual são discutidos no capítulo 3. discutimos a posição em que o próprio saber científico coloca a criança nos casos de abuso sexual e enforma esse indivíduo. por meio de um saber que se impõe e é imposto como normatizador da sociedade. Ao final. que alimenta os ganhos secundários que surgem nessas relações. o que leva ao engessamento dos papéis de vítima e agressor. seguido de uma análise crítica. a partir da visão de Foucault. por meio de exemplos verificados na clínica. através da repressão do comportamento infantil. enfocamos o conceito de perverso polimorfo. Seguimos com a exposição de definições sobre abuso sexual. Isto mantém essa criança em uma suposta passividade. . que a nosso ver. proposto por Freud. No capítulo 2 analisamos o papel da escolarização na normatização e categorização da criança. para estabelecer as relações dessa sociedade com a pederastia. sob a ótica psicanalítica.

movimento ascendente que possibilita ao homem escapar as necessidades imediatas. Além disto. não somente das forças produtivas. 2006: 06). consolidou e reproduziu. político e econômico. durante séculos. cultural. . 1. fazemos um recorte dessas relações em três períodos históricos: Grécia Antiga e a pederastia como função pedagógica. e que hoje é comparada de forma confusa aos relacionamentos homossexuais e à pedofilia. foi palco de um tipo de relacionamento entre homens que teve grande influência em sua organização social. sendo que o “aprendizado quer dizer relação com o trabalho e com todo o desenvolvimento. A educação teve um papel fundamental na transformação dessas relações. PERCURSO HISTÓRICO DAS RELAÇÕES ESTABELECIDAS ENTRE ADULTOS E CRIANÇAS A visão que se tem sobre a criança e o adolescente se modifica ao longo da história de acordo com o contexto social.10 1. da Idade Média a modernidade e o despertar da noção de infância e contemporaneidade e o surgimento da criança como sujeito de direitos. O amor pelos rapazes. praticado como modo de vida.1. as relações estabelecidas entre crianças e adultos se alteram. 2007). Neste capítulo. Pederastia: panorama educacional e cultural da Grécia Antiga A Grécia Antiga. A pederastia tinha um caráter pedagógico.C. até o surgimento da noção de infância. uma paisagem teórica bastante diferente: força cósmica e individual do amor. mas também das relações sociais nas quais elas se organizam” (MANACORDA. Pois é esta que irá inserir a criança e o adolescente na sociedade adulta. principalmente entre os séculos IV e V a. Para Foucault. já que as mulheres gregas eram consideradas como desprovidas de intelecto e sabedoria. era bem aceita na sociedade e tinha como finalidade a preparação e a inserção do jovem futuro cidadão de Atenas na sociedade (DOVER.. Assim. que só poderia ser conhecido entre homens. aquisição e transmissão de um saber através de formas intensas e dos vínculos secretos da amizade (1988: 114). tal prática sexual tinha por objetivo educar o jovem para a contemplação do amor.

porém estes tinham caráter privado (MANACORDA. voltada para a política e para a guerra. A função da educação. A educação era voltada para a preparação das tarefas do poder. Pode-se dizer que eles superficialmente. As mulheres eram vinculadas ao papel de mãe e filha. de forma a reger e legitimar tal prática (FOUCAULT. as armas). em Esparta. a aceitavam porque seus pais. sejam pedagógicas. onde as crianças observavam e imitavam a atividade dos adultos. 2008). principalmente em Creta e Esparta. Lesbos e Samos. A cultura grega aceitava alternância de preferências homossexuais e heterossexuais em um mesmo indivíduo e negava implicitamente que essa coexistência criasse problemas específicos para o indivíduo ou para a sociedade. 2003). 2006). Desse modo. porém não existem dados históricos que comprovem efetivamente a origem da palavra (MENEZES. Amar os rapazes era uma prática que encontrava apoio tanto na opinião popular quanto em leis. A transmissão de valores e dos conhecimentos e a socialização da criança não eram garantidas pela família. Mas a questão primordial é entender como a homossexualidade e a pederastia se relacionavam com os valores da cultura grega clássica (DOVER. vivendo com eles. com suportes sólidos em diferentes instituições. A homossexualidade grega não previa o relacionamento entre indivíduos de uma mesma faixa etária e a distinção entre a atividade corporal daquele que está . sendo que as regras da vida moral da sociedade grega estavam ligadas aos direitos sócio-políticos. era uma tarefa confiada a um legislador para a infância (“pedônomo”). e no verbo erân (amar). realizada coletivamente. tornavam-se cidadãos atenienses. culminando no “dizer e fazer da cidade”. A palavra pederastia parece ter se originado a partir de dois termos gregos: paîs (menino). que são o “pensar” ou o “falar” (para a política) e o “fazer” a esta inerente (ou seja. Da mesma forma se tem os centros de iniciação femininos. nas tropas ou nos coros e através dessa iniciação social efetuava-se a preparação dos adolescentes para as tarefas da vida adulta do cidadão. 1988). aos meninos era dada uma educação formal. com seu mundo restrito a casa e a família (FOUCAULT. restritos aos homens-cidadãos. Os afortunados que continuavam os estudos. sejam militares.11 Na Grécia Antiga não existia uma escola formal e a educação era garantida pela aprendizagem e se dava através do treinamento para o trabalho. tios e avós também aceitavam. 2007).

erastas seriam considerados “ativos” no sentido de transmissão de saber e ter o direito de exercer suas funções como cidadão ateniense e os eromenos seriam “passivos”. As relações pederásticas pareciam trazer benefícios tanto para o erasta quanto para o eromero e sua família. Desta forma. mas sim como a perseguição de um status inferior por outro de status superior. filho de um cidadão ateniense. Dover (2008). traduzindo o papel de cada um na sociedade grega. Dover (2007) utiliza o termo grego erastes. “menina”. pois a estes cabiam o papel de receber o conhecimento e não podiam ainda exercer suas funções político-militares. fundamental para a legitimação do caráter pedagógico da relação. Quando a barba estava crescida. aos desejos e exigências de outro. Para o parceiro “ativo” (ou “dominante”). utiliza-se do termo grego erômenos. conseguir sua recompensa trabalhando o senso de justiça de um menino. As relações homossexuais na Grécia Antiga não devem ser consideradas como sentimentos recíprocos entre iguais. isentando-o da repreensão e da desonra se o objetivo da relação for o desenvolvimento de 2 Para evitar sobrecarregar o texto. O eromeno geralmente era um jovem entre 12 e 18 anos.2 Os papéis desempenhados pelo erasta (amante) e o eromeno (amado) eram diferenciados na sociedade grega. transforma-se em um modelo para o eromero e até mesmo conquistar amor. palavra que também significa “criança”. cujo significado é” amar”. ao invés do termo paides . Assim. Desse modo. “apaixonar-se”. a sociedade grega aceita as relações pederásticas como sendo uma prática de subordinação total de alguém. Geralmente o parceiro “passivo” (ou “receptivo” ou “subordinado”) é chamado de pais. normalmente mais jovem.12 apaixonado e a passividade corporal é de grande importância. particípio passivo masculino do verbo erân. podendo exercer suas funções como cidadão ateniense. normalmente sendo um homem mais velho e que se distinguia pelo conhecimento e experiência. tem-se os termos eromenos e erastas irão designar o papel que cada um ocupa nessas relações. “amante”. O erasta generoso poderia conquistar a gratidão. O eromero por sua vez. . principalmente se seu erasta pertencia a uma família poderosa e influente teria um excelente modelo a ser imitado. e que poderia escolher o erasta que gostaria para si. esperava-se que o jovem superasse seu estágio de eromeno. O erasta era um cidadão que exercia um papel ativo na sociedade. Pode-se dizer então que pederastia significa “amante de meninos”.

13 alguma aptidão. sendo que: Considerava-se que a criança. ou é o presente que uma pessoa mais jovem faz a outra mais velha que ela ama ou admira (2007: 132). pois vem do latim infantia. as particularidades infantis não eram consideradas e assim que a criança tinha condições de viver sem os cuidados de sua mãe ou de sua ama. ela ingressava no meio adulto. não teria condições de falar. A criança. tendo–se em vista a proteção da família antiga (ARIÈS. quando por meio de representações artísticas surge a figura da criança e esta se consolida ao longo do século XVII. a prática comum de um ofício. 1. e a própria etimologia da palavra infância parece demonstrar tal fato. a palavra infância carrega consigo o estigma da incapacidade. Os adultos se relacionavam com as crianças sem discriminações. as crianças eram tratadas como adultos em miniatura na sua maneira de vestir. relegando-lhes uma condição subalterna diante dos membros adultos. conhecimento ou outra forma de excelência. é considerada como propriedade da família. da incompletude perante os mais experientes. 2008). Surgimento da noção de infância: da Idade Média a Modernidade e a necessidade de uma educação diferenciada para a criança A infância sempre existiu desde os primórdios da humanidade. Desde a sua gênese. na participação ativa em reuniões. neste período. sendo absorvida por ele. antes dos 7 anos de idade. Ariès (2008) descreve que durante a Idade Média. Era um ser anônimo. que significa “incapacidade de falar”. . Sendo assim. de expressar seus pensamentos. as crianças eram submetidas e preparadas para suas funções dentro da organização social. através do contato com os adultos. e era uma prática familiar comum associar as crianças às brincadeiras sexuais. Dessa forma. porém a sua percepção enquanto construção e categoria social parece ter surgido a partir do século XII. A educação se dava a partir da aprendizagem.2. seus sentimentos. e tinha por finalidade a conservação dos bens. festas e danças. e participando livremente das suas atividades. Dover parece resumir bem o caráter dessas relações: Aceitar que o professor enfie o seu pênis entre suas coxas ou no ânus é o preço que o aluno deve pagar pelos bons ensinamentos. Isto ocorria porque não havia uma diferenciação entre as características dos adultos e das crianças.

sendo reservado aos primeiros meses e anos de sua existência e parecia ter a função de proporcionar prazer aos adultos. Dentro desse contexto moral que modificou a educação das crianças. ainda que rudimentar. um sentimento de irritação. mãe e criança. que ele chama de “paparicação”. como seres dotados de racionalidade. pois as crianças e as particularidades infantis não são mais vistas como distração e brincadeiras para os adultos. propõe a separação da criança do adulto para educá-la nos costumes e na disciplina. senão as coisas. implicando em cuidados especiais. 2006). 2006: 221). uma literatura pedagógica diferente dos livros para adultos: A elaboração de um Orbis pictus. Esse novo clima moral levou a criação de escolas. é ainda um sentimento superficial sobre a criança. porém. destacando-se aqui a invenção da arte imprensa. 2006:884). isto é. de um texto que utiliza a didática da dramatização. Essa revolução na visão da infância. Entre os séculos XVI e XVII foram marcados por um grande desenvolvimento social e econômico. Tal sentimento. a fim de que junto com as palavras chegassem as crianças. o advento da escola moderna está atrelado ao surgimento de um novo sentimento do adulto para com as crianças. Assim. que perdurou até os séculos XVI e XVII. novos modos de instrução (MANACORDA. A preocupação da família com a educação . que passaram a substituir a aprendizagem obtida pela observação dos mais experientes e do convívio com os adultos. Surgiu então. Ariès (2008) afirma que há um primeiro sentimento de infância. e que marca a relação pai. que privilegia a continuidade parental e patriarcal. pelo menos as imagens das coisas.14 sem um espaço determinado socialmente (CORDEIRO & COELHO. mas sim. 2008). e da Schola ludus. de um manual concebido como um atlas cientifico ilustrado. isto é. surge também a família nuclear conservadora. fazendo as crianças recitarem “ativamente os personagens da historia (MANACORDA. promovida por reformadores católicos e protestantes. O sentimento de paparicação passa a gerar então. dentro de uma visão mais racional (ARIÈS. que gerou grande impacto na sociedade antiga. exigindo novos modos de produção e conseqüentemente. Ainda neste momento.

ainda hoje. apesar de ocuparem um amplo espaço na sociedade ocidental e de se tornaram o centro das atenções. Conseqüentemente. A criança passa a ter um papel central nas preocupações da família e da sociedade. dentre outros campos do saber. Tais elementos são fatores imprescindíveis para a mudança de toda a relação social. agora. o que levou a luta por parte de vários seguimentos da sociedade e instituições à elaboração de leis em sua defesa. passa pelo crivo dos conceitos técnicos e científicos. Isto pode ser visto como sendo reflexo dos . da Sociologia. necessitando de cuidados e proteção diferenciados. Autores como Morelli (1997) dizem que no campo dos direitos.15 da criança fez com que mudanças ocorressem e os pais começassem. Tal concepção de indivíduo que aparece faz com que a criança seja alvo do controle familiar ou do grupo social em que ela está inserida (ARIÈS. passando a emitir um parecer científico a respeito dessa fase da vida humana. da Medicina. houve a necessidade da imposição de regras e normas na nova educação e a formação de uma criança melhor doutrinada atendendo à nova sociedade que emergia. De acordo com Cordeiro e Coelho: A noção de infância. elas continuam sendo encaradas como pessoas que necessitam de tutela total. a partir deste momento. Os genitores passam a ter mais responsabilidade sobre seus filhos. O desenvolvimento das ciências humanas e a compreensão acerca desse período da vida humana levam a consolidação do protótipo de família em fins do século XIX. A criança como sujeito de direitos A partir do surgimento da noção de infância. as crianças pertencem a uma categoria distante de uma situação estável. Para ele. 2008). asseguram maiores cuidados com o bem-estar das crianças e garantem os direitos que lhes assistem. a criança passou a ser vista como um ser que existe. tanto para a família como para os especialistas de várias áreas. dentro da coletividade e a família têm grande preocupação com sua saúde e sua educação. 1. Para Ariès (2008). a criança começa a ser vista como indivíduo social. Essa análise é respaldada e analisada à luz da Psicologia. então. adquirindo estas constatações uma maior respeitabilidade frente à sociedade (2006: 887). a encarregar-se de seus filhos.3.

Dessa forma. sendo pouco destacados os seus deveres e mostra a . promulgado em 13 de julho de 1990. moral. Seu artigo 227 afirma que: É dever da família. 3°). à liberdade e à convivência familiar e comunitária. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. com a mobilização da sociedade civil organizada. baseado na doutrina da proteção integral: A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. 6°). por lei ou por outros meios. surge o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). além de colocá-los a salvo de toda forma de negligencia. violência.16 movimentos sociais. a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico. à saúde. sendo levada em conta a “condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento” (ECA. 1990. 1991. que culminou com o reconhecimento pela Constituição de 1988 da criança e do adolescente como sujeitos de direito. Podemos dizer que o ECA passa a regular as relações adultoscrianças. à cultura. à profissionalização. exploração. com absoluta prioridade. Ribeiro (1996) chama a atenção na ênfase dada à questão dos direitos das crianças e adolescentes. sem prejuízo da proteção integral de que trata esta lei. assegurando-se-lhes. ganhou força no final da década de 80. A criança passa a ser responsabilidade da sociedade como um todo. todas as oportunidades e facilidades. art. em condições de liberdade e de dignidade (ECA. ao respeito. o direito à vida. mental. espiritual e social. que cria condições para a aplicação das exigências de tal artigo. No Brasil. à alimentação. art. em seu artigo 4° assegura o bem-estar da criança e do adolescente como um todo e garante a prioridade e a efetivação dos seus direitos. pelos direitos das crianças e deveres dos adultos com relação a elas. à educação. pela ONU em 1959 (UNICEF). à dignidade. o reflexo do movimento internacional de reconhecimento dos direitos da criança. discriminação. as relações entre crianças e adultos não passam mais somente pela educação e pelo sentimento de proteção familiar e sim. entrando em vigor em 12 de outubro de 1991. crueldade e opressão. O ECA. A partir daí. ao lazer. como a proclamação da Declaração dos Direitos da Criança.

17 necessidade de um artigo que leve aos deveres individuais e coletivos. o que não possibilita a criança crescer e se desenvolver”. pois “apontar somente para os direitos é direcionar para infantilização. .

a moral. onde tudo deve ser dito de forma que se possa regulá-lo. Gerson. com divisão por faixa-etária e gradação de conteúdos. Seu principal representante. NORMATIZAÇÃO E CATEGORIZAÇÃO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO Philippe Ariès (2006) traça um percurso histórico sobre a infância e delimita um período onde há uma passagem do despudor à inocência com relação às crianças. era um excelente observador da infância e de suas práticas sexuais. a proteção e a formação passam a ser . De um ser que não era visto com suas particularidades e misturado ao mundo dos adultos a uma criança protegida e enclausurada pelo processo de escolarização. a partir do reconhecimento da infância e da categorização e normatização do indivíduo através do saber. o pudor e a decência infantis ganham destaque e. mas com prudência. Neste sentido. A partir do conhecimento sobre o comportamento da criança. através do exame de si mesmo. ele pregava a necessidade da modificação dos hábitos da educação e a instituição de novas formas de relacionamento dos adultos com as crianças. Esse pensamento ganha força a partir do século XVI e XVII. passa-se a acreditar que a criança possui uma inocência e que deveria ser protegida para que nada maculasse tal inocência. a idéia teve origem no século XV e provocou uma mudança na disciplina tradicional das escolas. discutidos por Foucault e expostos no presente capítulo. Com a mudança de hábitos e costumes. As escolas ganham novos contornos tornando-se lugar de importância para a educação e moralização infantil. Tal fato pode ser analisado através das mudanças ocorridas na educação.18 2. Porém. Foucault (1988) aponta que com a Contra-Reforma e a incitação à confissão. 2.1. passa-se a se falar sobre sexo. Ariès (2006) nos diz que na realidade não se acreditava que essa inocência realmente existisse. que perdura até os dias atuais. assim. As escolas e a repressão da criança Com a grande reforma moral. quando a alfabetização passa a ser um valor na sociedade européia. de preparação para se conquistar a vida adulta. Segundo Ariès (2006).

aqui. Isso seria próprio da repressão e é o que a distingue das interdições mantidas pela simples lei penal: a repressão funciona. Dever-se-á evitar que crianças se beijem. Ariès propõe que a separação entre adultos e crianças. especialmente para os filhos das classes favorecidas. “passou-se a admitir que a criança não estava madura para a vida. Deve-se-á falar-lhes sobriamente. e que era preciso submetê-la a um regime especial. de injunções o investiram” (p. a uma espécie de quarentena antes de deixá-la unir-se aos adultos” (ib ibid: 194). Dever-se-á a promiscuidade entre pequenos e grandes. Para Foucault (1988). Sendo assim. à interdição de uma ou outra prática. constatação de que. sabe-se muito bem que não têm sexo: boa razão para interditá-lo. Foucault destaca que: As crianças. mas à regulação total da sociedade. que sugerem medidas práticas para preservar a criança do despudor e da imoralidade. de saberes. juvenes. não devem dormir na mesma cama com pessoas mais velhas. afirmação de inexistência e. conseqüentemente. razão para impor um silêncio geral e aplicado. decerto. teve um forte caráter pedagógico. nem para ver. moralistas e médicos. 2006: 81). a institucionalização do saber sobre o sexo tornou-o um objeto de disputa entre o Estado e o individuo. em tudo isso. sendo que “uma teia de discursos. mas também como injunção ao silêncio. moralizante e de controle ao acesso de informação. mas sim falado por . nem para saber (1988: 10). por exemplo. Foucault diz ainda que o mesmo ocorre com o sexo das crianças. mesmo que sejam do mesmo sexo (ARIÉS. dirigindo-se totalmente a atividade sexual à função reprodutiva no seio da família monogâmica e relegando ao silêncio qualquer outra expressão sexual. não há nada para dizer. que passa a não ser menos falado. como condenação ao desaparecimento. ao menos na cama: os pueri capaces doli. pullae. razão para proibi-las de falarem dele.19 reconhecidas como necessárias à infância. sendo defendidas por renovadores pedagógicos. utilizando palavras castas. Sendo assim. razão para fechar os olhos e tapar os ouvidos onde quer que venham a manifestá-lo. Foucault aponta que o controle sobre a atividade sexual da criança não se restringe. se toquem com as mãos nuas ou se olhem durante as brincadeiras: fingerent oculi in eorum decore.33).

cheios de conselhos médicos e de exemplos edificantes. também dão conselhos à família. Foucault aponta que a partir do século XVIII surgem quatros dispositivos específicos de saber e poder a respeito do sexo. sobre uma perigosa linha de demarcação. no decorrer do século XVIII _ e mais particularmente do que o dos adolescentes em geral _ um problema público. ativa. mais tarde. tiveram sua sexualidade colocada em foco. Surgiram então. em grande parte. a instituição pedagógica não impõe um silêncio geral ao sexo da criança. sobre a constatação de que essa sexualidade existe: precoce. a partir do século XVIII. que atingiram certa eficácia na ordem do poder e produtividade na ordem do saber. advertências médicas. sendo toda articulada em torno da escolarização. O que se poderia chamar de discurso interno da instituição – o que ela profere para si mesmo e circula entre os que a fazem funcionar – articulase. as famílias. Neste sentido. fazem-lhes recomendações e para eles redigem livros de exortação. pareceres. de forma a conservar a família burguesa e manter uma descendência sadia. todos devem se encarregar . Mas ainda há mais: o sexo do colegial passa a ser. as crianças são definidas como seres sexuais „liminares‟.20 outros a partir de outros pontos de vista. Com relação às crianças.esquemas de reforma e planos de instituições idéias. os médicos e. ao mesmo tempo aquém e já no sexo. surgindo assim vários silêncios que apóiam e atravessam o discurso sobre a sexualidade da criança. Segundo Foucault. pois tudo se arranja em torno dela de forma a controlá-la e discipliná-la. observações. casos clínicos. A criança e o adolescente. ditando o que pode e o que não pode ser dito. Toda uma literatura de preceitos. o autor chama atenção para a pedagogização do sexo da criança: Dupla afirmação. sendo indevida. Assim. prolifera em torno do colegial e de seu sexo (1988: 34 . mas intensifica os poderes através da multiplicação do discurso sobre o tema. coletivos e individuais. os pais. Foucault (1988) aponta que nos colégios do século XVIII há a constatação de que existe uma sexualidade infantil.35). ao mesmo tempo „natural‟ e „contra a natureza‟. inúmeros dispositivos institucionais e estratégias discursivas que giram em torno de um feixe de relações de poder. os pedagogos fazem projetos e os submetem as autoridades. os psicólogos. os educadores. permanente. de quase todas as crianças se dedicam ou são suscetíveis de se dedicar a uma atividade sexual. e de que tal atividade sexual. os professores se voltam para os alunos. traz consigo perigos físicos e morais. seja a partir da medicina. da psicanálise ou da própria pedagogia tendo em vista outras finalidades. Os médicos se dirigem aos diretores dos estabelecimentos e aos professores.

do onanismo. da finalidade e do sentido. separar e prevenir. . em A vontade de saber. O processo de medicalização irá constituir e determinar o que é normal e patológico. 1988: 37). da ausência e da presença. o sexo ganha forma e se torna um discurso e o dispositivo da sexualidade então. psiquiátrico ou mesmo jurídico. Em suas diferentes estratégias. 1988: 122). acumulando relatórios. que durou quase dois séculos (1988: 115). Neste sentido. da função e do instinto. do princípio e da falta. sob as quatro grandes formas . do real e do prazer.2. dos adolescentes perigosos e em perigo . perigoso e em perigo. falado a devoção. principalmente no que diz respeito à sexualidade infantil. através dos discursos sobre o sexo. dos pais e dos filhos. valorizado como sendo o segredo.como sendo submetido ao jogo do todo e da parte. todos esses controles sociais que se desenvolveram no final do século passado e filtram a sexualidade dos casais.21 continuamente desse germe sexual precioso e arriscado. assinalando perigos em toda parte. instaura essa idéia „do sexo‟ e o faz aparecer. coloca a questão da medicalização e categorização da sexualidade como um dispositivo de poder e saber. apoiando várias estratégias de controle. do excesso e da deficiência. que atingiram certa eficácia na ordem do poder e produtividade na ordem do saber. do fetichismo e do coito interrompido . Com isso. despertando as atenções. não foi condenado e sim. Enfim. formou-se pouco a pouco a armação de uma teoria geral do sexo (FOUCAULT. A medicalização do comportamento da criança: o normal e o patológico Foucault (1988). Foucault aponta para o surgimento de dispositivos que levaram ao desenvolvimento de controles sociais. a incitação a se falar dele (FOUCAULT. em torno do sexo eles irradiaram os discursos.da histeria. sejam eles médico. Assim. organizando terapêuticas. nas sociedades modernas. essa pedagogização se manifestou sobretudo na guerra contra o onanismo. 2. que pode se utilizar de um maior número de manobras. por sua vez. solicitando diagnósticos. intensificando a consciência de um perigo incessante que constitui.tratando de proteger. Podemos concluir que Foucault diz que o sexo das crianças.

senão o único. Tanto o comportamento infantil quanto a família passam a . uma espécie de corpo único. 2001:. vendo-a como o princípio etiológico principal. sendo efetuada principalmente pela família. já que superpõe às causas visíveis. e constituir com seus filhos. apud GIAMI. colocando a sexualidade em permanente investigação. Giami coloca que a medicalização da masturbação assenta num processo de “somatização” da sexualidade. não é explicável. mas tal processo é definido como sendo uma forma de vigilância dos comportamentos incorretos e patogênicos da criança. que passa a ocupar um lugar central no processo de medicalização. uma espécie de etiologia histórica. A masturbação infantil. 2005: 265). Desta forma. É também uma causalidade adicional. Essa vigilância é exercida. que Giami coloca como sendo a confissão dos atos. pela preocupação com o auto-erotismo infantil e com a masturbação (FOUCAULT. 2005: 265). Na perspectiva somática. dentro da família. 306 apud GIAMI. então. mais exatamente a atividade masturbatória da criança. identificáveis no corpo. Foi valorizando a sexualidade da criança. A família então se transforma em um agente de vigilância e de controle disciplinar do processo de medicalização. de todas as doenças que afetarão tanto a criança quanto o adulto e a investigação do médico irá incidir sobre tais práticas: A sexualidade vai permitir explicar tudo o que. Tal processo compreende as ações efetuadas no seio familiar ao mesmo tempo em que o controle médico exterior é exercido sobre a família. Foucault não atribui aos médicos o principal papel na colocação em prática da medicalização. sendo que o corpo e as condutas sobre ele se tornam objeto de investigação e a conduta incorreta gera conseqüências somáticas graves. com sua progenitura. ligado pela preocupação com a sexualidade infantil.22 Giami (2005) diz que Foucault classifica sistematicamente os tipos de saberes médicos sobre a sexualidade e enfatiza o grupo somático. Ainda segundo Giami. foi valorizando o corpo da criança em perigo sexual que se deu aos pais a diretriz imperativa de reduzir o grande espaço polimorfo e perigoso da gente da casa. com responsabilidade do próprio doente por sua doença” (FOUCAULT. o dispositivo da medicalização vai se aplicar inicialmente a questão da masturbação infantil. 2001: 315. de outro modo. torna-se alvo de controle disciplinar. sobretudo pelos pais.

com recomendações práticas e difundidas sobre a família. Porém.23 ser medicalizados. sendo que a medicalização não será a única forma de controle externo a qual a família é submetida. também chama um poder externo. a sexualização da família a partir do apetite incestuoso e perigoso dos pais ou dos mais velhos. vindo dos mais velhos. os pais e os adultos também passam a ser considerados como portadores de um perigo sexual devido aos desejos e aos comportamentos incestuosos a respeito de sua prole. um controle exterior sobre a família.. . a sexualidade. A medicalização passa a ser um processo que coloca em ação os saberes médicos e psiquiátricos.. não é em absoluto uma decisão de tipo médico: é de tipo judiciário (FOUCAULT. 2005: 267). [. desta vez. apud GIAMI. oferecendo disposições permanentes desenvolvidas com os pais e exercendo ao mesmo tempo. Em compensação.] Mas. essa sexualização em torno do incesto possível vindo de cima. no outro caso. 2001: 345-346. ou antes.

Os estudos das perversões e a descoberta freudiana da sexualidade infantil A criança passa a ser reconhecida como possuidora de uma sexualidade a partir dos escritos de Freud. 3. 2006). pressupostamente tão “inocente” quanto à criança.24 3. ABUSO SEXUAL E GANHOS SECUNDÁRIOS Atualmente. expostos em todo tipo de mídia. Assuntos como estes parecem despertar grande comoção e revolta nas pessoas em geral e até mesmo em profissionais de saúde e educação.140). RELAÇÕES ADULTOS E CRIANÇAS: PEDOFILIA. pretendemos discutir. iremos expor a ligação desses assuntos com a sexualidade infantil e com as relações entre adultos e crianças. por meio de um estudo minucioso sobre os desvios em relação ao objeto e ao alvo sexual. de início. inclusive. É provável que. a partir de alguns conceitos psicanalíticos. Freud faz um estudo das perversões e coloca que a pulsão sexual não se acha vinculada nem a um objeto nem a um objetivo específico e pode satisfazer-se por meio de variados objetos e objetivos. e entender porque tais assuntos despertam tanto pavor. a pulsão sexual seja independente de seu objeto. o autor descreve as perversões. enquanto desvio das pulsões sexuais sem função de reprodução. a ênfase na necessidade do entendimento de tais fenômenos e restaura-se o horror da população. a pedofilia e o abuso sexual são temas recorrentes. diante da pedofilia. sendo que “todo cuidado é pouco. pois são seus membros que insidiosamente a praticam” (SILVEIRA. . Em os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ([1905]. 2006). Além disto. No primeiro capítulo desse artigo.1. o uso da escolha de crianças para exemplificar a grande variação de objetos sexuais e afirmar que a importância está na pulsão sexual e não no valor do objeto. e tampouco deve ela sua origem aos encantos destes” (p. a pedofilia e o abuso sexual. assim somos instruídos a “afrouxar o vínculo que existe em nossos pensamentos entre a pulsão e o objeto. Neste capítulo. Freud utiliza. o que dá lugar ao surgimento de algumas perversões e. Deixa-se de lado assim.

Desse modo. possa variar de intensidade e ser acentuado pelas influências da vida” (p. segundo Freud. sob cada sintoma neurótico subjaz um impulso pervertido inconsciente. diz que esse engano tem tido graves conseqüências e que “Um estudo aprofundado das manifestações sexuais da infância provavelmente nos revelaria os traços essenciais da pulsão sexual. cuidados estes que 3 “Trata-se de uma parte da pele ou da mucosa em que certos tipos de estimulação provocam uma sensação prazerosa de determinada qualidade” (FREUD [1905]. mas também das perversas. tendo um caráter auto-erótico. diz que as manifestações pulsionais da criança não estão dirigidas a um objeto externo. 2006:172). Freud associa os órgãos sexuais à micção e aos cuidados com o corpo infantil feitos pelo adulto. mas sim a satisfação no próprio corpo. 2006: 162). Neste sentido. Assim. e procedemos ao estudo do jogo de influências que domina o processo de desenvolvimento da sexualidade infantil até seu desfecho na perversão. sendo que a neurose é o negativo da perversão. sendo que a satisfação foi vivenciada antes para que se tenha a necessidade de repeti-la. desvendaria sua evolução e nos permitiria ver como se compõe a partir de diversas fontes” ([1905]. que é estimulada perifericamente. Além disto. o alvo sexual se acha sob o domínio de uma zona erógena. No primeiro capítulo desse ensaio. 2006) salienta que o sintoma na neurose surge não apenas das pulsões sexuais normais. Freud ([1905]. com objetivo de obter prazer. No segundo dos Três Ensaios sobre a Sexualidade. .25 A partir do estudo das perversões. mesmo que nela todas as pulsões só possam emergir com intensidade moderada. a partir de um estímulo específico. Freud. nesse capítulo. “enquanto disposição. ou seja. nosso interesse volta-se para a vida sexual da criança. Tais manifestações se originam a partir de uma função somática. Freud conclui que há algo de inato na base das perversões. 2006). a criança busca a satisfação em uma zona erógena3. Vislumbramos assim a fórmula de que os neuróticos preservaram o estado infantil de sua sexualidade ou foram retransportados para ele. Freud aponta para “Que essa suposta constituição que exibe os germes de todas as perversões só é demonstrável na criança. Porém. porém. Ainda no mesmo capítulo. 162). na neurose ou na vida sexual normal” ([1905]. Freud coloca que a idéia popular é a de que a pulsão sexual só se manifesta a partir da puberdade.

sendo “que a sexualidade pervertida não é senão uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados” (FREUD. 179). 2006: 179). como objetivo independente (p. Desta forma. 2006) o exame das características da sexualidade infantil é de suma importância para o estudo da sintomatologia da neurose e as inclinações para a perversão sexual tem origem na infância. Na Conferência XX4 ([1917].26 se tornam fonte de grande excitação e satisfação. que trata a criança prematuramente como um objeto sexual e que. quando foi abandonado o objetivo da reprodução e permanece a obtenção de prazer. Porém. 3. “dando mais valor à sedução do que aos fatores da constituição e do desenvolvimento sexual” (p. esta pode ser senão uma vida sexual de tipo pervertido. são levadas a 4 A Vida Sexual dos Seres Humanos. Tal influência pode provir de adultos ou de outras crianças” (FREUD [1905]. contudo. em circunstâncias que causam forte impressão. [1916-17]. 2006:316). as crianças são desprovidas daquilo que transforma a sexualidade em função reprodutiva. Freud aponta para a semelhança entre a atividade sexual infantil e as perversões sexuais e diz que Esta semelhança. constituindo-se como fator externo para o retorno da atividade sexual. é evidente: se de fato uma criança tem vida sexual.321). Realmente consideramos pervertida uma atividade sexual.2. O perverso polimorfo e a proibição das atividades sexuais infantis No segundo capítulo dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ([1905]. Por outro lado. Freud coloca que as crianças. sob a influência da sedução. Freud coloca que talvez tenha superestimado tal influência. pois exceto quanto a alguns detalhes obscuros. 2006). sendo que “Em primeiro plano situa-se a influencia da sedução. . 2006). o abandono da função reprodutiva é o aspecto comum de todas as perversões. segundo Freud ([1905]. ensina-a a conhecer a satisfação das zonas genitais – uma satisfação que ela fica quase sempre obrigada a renovar pelo onanismo.

e procura satisfação no próprio corpo da criança. pois a sociedade sujeita a vontade individual a uma ordem idêntica à sua. já que as barreiras morais. A disposição perversa polimorfa se constitui então de Determinado números de instintos parciais que. mas perseguem as manifestações daquilo que negam que exista. buscam a obtenção de prazer. se comportando de maneira auto-erótica. Freud diz que a sexualidade infantil surge ligada à satisfação das principais necessidades orgânicas. 2006:321). já de um objeto externo. que são relacionadas a algo vergonhoso e que deve ser mantido em segredo. então. porém. Porém. [1916-17]. com a completa irrupção do . já que a obtenção de prazer abandona a função de reprodução. Nessa conferência. Isto leva a disposição perversa polimorfa. A educabilidade só chega ao fim então. Isto demonstra a predisposição à perversão. como a vergonha e o asco ainda são inexistentes. onde se cria um ideal de que elas são assexuais e chega-se ao ponto da ciência proclamar isto como verdade. independentes uns dos outros. em parte. [1916-17]. Entre esses órgãos muito cedo assumem relevo os genitais (FREUD. Freud aponta para a proibição das atividades sexuais das crianças. 2006: 320). “a criança é obrigada a trocar o prazer pela respeitabilidade social” (FREUD. adiando o pleno desenvolvimento do instinto até que a criança atinja um certo grau de maturidade intelectual. Freud diz que as crianças estão sob a influência da educação. As crianças passam a ser vistas como puras e inocentes. de forma cindida. nos parece que Freud explica de forma mais evidente tal disposição. e tal busca pela satisfação é executada numa medida correspondente a sua imaturidade. em parte. com a máxima severidade (FREUD [1916-17] 2006: 318). É por demais estranho que as pessoas que negam a existência da sexualidade nas crianças nem por isso se tornem mais brandas em seus esforços educacionais. do próprio corpo do indivíduo e.27 todo tipo de transgressão possível. as crianças são obrigadas a renunciar a essas fontes de prazer. Na Conferência XX. em determinado momento. de forma a assumir a tarefa de domar e restringir o instinto sexual.

impulsos sexuais ou comportamentos envolvendo atividades sexuais com crianças pré-púberes. a palavra vem do grego páidos. 5 Pedofilia versus pedofobia: o errôneo conceito de pedófilo. No entanto. geralmente com 13 anos ou menos. Segundo ele. Entretanto. Disponível em http://jbonline. “de outro modo. portanto. a qual incide sobre crianças. . ou ainda prejuízo no funcionamento social e ocupacional do indivíduo. a pedofilia é um transtorno da preferência sexual. 2006: 317). pedófobo é aquele que não gosta de crianças.com. a pedofilia resulta em um sofrimento clinicamente significativo. 3. é necessário definir do que se está falando quando se usa o termo pedofilia: se da atração (filia) pelas crianças ou de investidas corporais excessivas dirigidas a elas. que quer dizer criança. geralmente prépúberes ou no início da puberdade. amor. No âmbito da conceituação psiquiátrica (DSMIV/APA). a pedofilia é um transtorno da sexualidade caracterizado pela formação de fantasias sexualmente excitantes e intensas. ela deve ter no mínimo 16 anos e ser ao menos cinco anos mais velha que a criança. Pois o sentido etimológico da palavra pedofilia. Já o termo pedofobia se origina do grego “páidos=criança+phobós+ia (fobia)=horror.asp#.br/pextra/2009/06/17/e170617519. 6 Optamos por utilizar o presente artigo para explicar o sentido etimológico do termo pedofilia por não encontrarmos o étimo da palavra nos dicionários da língua portuguesa. Acesso em 17 de agosto de 2009. JB on line. sendo fobia o antônimo de filia. “com total ausência de libidinagem”. distinguindoo do termo pedofobia.28 instinto sexual.3. aversão. Andrade (2009) 5 coloca que a etimologia da palavra pedofilia demonstra muito bem o erro no emprego do termo. Ainda segundo essa classificação. philós e ias (filia).terra. para que uma pessoa seja considerada pedófila. não expressa qualquer relacionamento do ponto de vista sexual com as crianças. que significam amizade. Pedofilia: O pedófilo a espreita Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10/OMS). o instinto romperia todos os diques e arrasaria todo o trabalho da civilização laboriosamente construído” (FREUD [1916-17]. antipatia”. empregado isoladamente. como bem coloca Silveira (2006). pois. Portanto. gosto. pedofilia é amor por crianças e pedófilo é aquele que gosta de crianças6.

terra. inclusive seus pais. 1525). em seu artigo. sem os complementos exigidos pela semântica. a pedofilia Para conotar crime pede. que aparece revestido da pejoração sexual. Ainda segundo este dicionário. Com isto. Um indivíduo. Ele foi denunciado por um casal por beijar a . Andrade. Segundo Andrade (2009). por conta disso. 7 O caso mais recente teve grande repercussão na mídia. tendem a passar de pedófilos a pedófobos”. todos aqueles que gostam de crianças. a etimologia grega da palavra é utilizada. Um italiano de 40 anos foi preso em flagrante. aqueles que gostam de crianças com total ausência do sentido libidinoso. e qualquer aproximação de um adulto a uma criança passa a ser vista como uma conotação sexual 7. não teremos nenhuma sombra de dúvida de que estamos diante dum sujeito portador duma disfunção que foge aos padrões normais da convivência social. o que implica em “imprimir forçosamente um infundado significado libidinoso e malicioso ao termo pedófilo”. comprovadamente assim diagnosticado. pelo triste receio de serem estupidamente e criminosamente mal interpretados. Desta forma. pedofilia é definida como realmente é: sem qualquer sentido libidinoso. acusado de pedofilia e estupro. em Fortaleza.asp#. Acesso em 17 de agosto de 2009). Parafilia representada por desejo forte e repetido de práticas sexuais e de fantasias sexuais com crianças pré-púberes” (p. professor Gilberto Velho. chamaria desviante (JB online. e. disponível em http://jbonline. reclama e exige um complemento: maníaco sexual ou libidinoso. Andrade diz que os autênticos pedófilos. Ele enfatiza ainda que o emprego equivocado e abusivo do termo. “negando-lhes afeto. formando as expressões: pedófilo maníaco sexual e/ou pedófilo libidinoso. Andrade critica o uso do termo pedofilia sem nenhum embasamento semântico. Psiq. pedófilo “diz-se daquele que sofre de pedofilia”.com. passam a se afastar das crianças. coloca que na primeira edição do referido dicionário.br/pextra/2009/06/17/e170617519. se dá principalmente pela mídia televisiva. mas o sentido do verbete está de acordo com a classificação dos manuais de psiquiatria e não define a palavra em seu sentido real. rotular de pedófilo aquele que se relaciona sexualmente com crianças. Casos recentes demonstram tal fato. Ou a quem o eminente antropólogo. que passa a ser usado com extremo sentido pejorativo. Nesta edição.29 O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1999) define pedofilia como “[de ped (o) + filia] S f. é incriminar de forma desavisada e ingênua. certamente.

Podemos entender então. a vida sexual da criança (FREUD. Tal teoria foi fundamental para os avanços das concepções de realidade psíquica e fantasia. A mulher dele e mãe da menina confirmou na delegacia que se tratava de um carinho comum entre pai e filha. Roudinesco (1998) diz que Freud.137). ao lado da realidade prática. pois propunha um ponto duvidoso entre o fato de que as histéricas ouvidas por Freud não mentiam ao narrar as seduções de que foram objetos quando crianças e que nem todos os pais são violadores de seus filhos. partiu da representação de que a palavra sedução é a essência da relação entre dominador e dominado. baseado na violência moral e física. Logo descobrimos que estas fantasias serviam para dissimular a atividade auto-erótica dos primeiros anos da infância. 2001: 470). descoberta correlativa da elucidação progressiva da sexualidade infantil” (LAPLANCHE E PONTALIS. como mostra a teoria da sedução. em toda vastidão.com/cidades/mat/2009/09/03/italiano-beija-filha-de-8-anos-empraia-de-fortaleza-e-preso-em-flagrante-767449064.globo. O delegado optou por lavrar o flagrante com base no artigo 217-A da nova lei que trata dos crimes contra a dignidade sexual. Então. Silveira (2006) aponta que apesar de todas as suas incongruências. a teoria da sedução tem o mérito de não suprimir os papéis ativos do sedutor e do seduzido. o fato novo é exatamente que eles fantasiem essas cenas. é preciso levar em conta. Acesso em 28 de outubro de 2009. a criança também filha de 8 anos na boca. ele teria acariciado as partes íntimas da menina. Ainda segundo esse casal. em 1897. Segundo Freud.30 Esses casos. 1914. Isso explicaria a origem da neurose como sendo resultado de um abuso sexual real. pois “descobre que as cenas de sedução são às vezes produtos de reconstruções fantasísticas. por trás destas fantasias surgiu. portanto. para embelezá-los e transportá-los para um nível mais elevado. Porém. 2001: 470). que de acordo com Silveira (2006).asp. . Freud coloca em dúvida tal teoria. que a partir da teoria da sedução. O italiano argumentou que deu apenas um “selinho” na boca da filha e fez carinhos como qualquer pai. apud LAPLANCHE E PONTALIS. é incompatível com a obra freudiana. enquanto brincava com ela. Fonte: Jornal O Globo. e Silveira propõe que a psicanálise teria muito mais a ganhar se “continuasse questionando sobre quem deve ser „protegido‟ nesse caso. uma realidade psíquica. Disponível em http://oglobo. a criança do adulto ou vice-versa?” (p. apresentada no início da psicanálise. Se é verdade que os histéricos tiram seus sintomas de traumatismos fictícios. explorados exaustivamente pela mídia parecem levar em conta a “inocência” da criança. para construir a teoria da sedução.

9 A mídia. passando por uma questão moral. cada indivíduo é colocado a se por em vigilância e a vigiar uns aos outros. o recalcado não é aceito. no fundo. tivessem de sufocar uma secreta inveja daqueles que as experimentam (FREUD [1916-17]. 2006: 326). Magno como sendo denegação projetiva. através da pedagogia. através de uma lógica da negatividade. Acesso em 15 de julho de 2009.31 possui um papel ativo. D. pois se passa a investir um poder em um campo de saber específico. Foucault (1988) coloca que a partir da institucionalização do sexo. que constituem a sua realidade psíquica. através da produção de fantasias. Ainda segundo Silveira. A denegação é. o público e a pedofilia. o sexo deixa de ser uma questão leiga e passa ser um negócio de Estado. afetaria o equilíbrio do funcionamento psicológico do indivíduo. e neste processo há uma dupla 8 Segundo Roudinesco (1998: 647). que envolve todo o corpo social. Ao mesmo tempo projetamos sobre o(s) outro(s) o que está sendo denegado. Edição 545 de 7 de julho de 2009. Disponível em www. Alonso (2009)9 explica tal mecanismo como sendo uma das formas mais comuns da comunicação cotidiana e descrita pelo psicanalista M. portanto. . 2006) coloca que as perversões sexuais estão sujeitas a uma condenação que afeta até mesmo a teoria e permeia a avaliação científica.com.observatoriodaimprensa. o que nos leva a pensar novamente no conceito de denegação: É como se ninguém pudesse esquecer que elas não são apenas algo repulsivo. da medicina e da economia. 1998:145). a libertação de um pensamento limitado pela ação do recalque8. Assim. que fazemos com freqüência sem nos darmos conta.br. que caracteriza “um mecanismo de defesa através do qual o sujeito exprime negativamente um desejo ou uma idéia cuja presença ou existência ele recalca” (ROUDINESCO. mas também monstruoso e perigoso – como se as pessoas as sentissem como sedutoras e. produtora de prazer. Tal estado de vigilância constante nos leva a pensar no conceito de denegação proposto por Freud. Assim. transformando-se em fonte de desprazer”. sendo reconhecido de modo negativo. Com relação a essa questão Freud ([1916-17]. recalque é “o processo que visa manter no inconsciente todas as idéias e representações ligadas às pulsões e cuja realização. esta categorização por parte da psiquiatria leva a uma punição generalizada. Denegar é afirmar pela negação algo que está em nós.

e. ou uso errado. abuso envolve poder.4. o que é apontado é rejeitado e depois projeta-se sobre uma outra pessoa ou grupo de pessoas aquilo que se está denegando. abuso sexual indica a separação. que afirma que “etimologicamente. excessivo ou injusto” e abusar como “usar mal ou inconvenientemente de. o uso delinqüente da sexualidade. Usar mal ou inconvenientemente de situação de superioridade”. um uso errado e um uso excessivo.32 ação: primeiramente. Gabel. Neste sentido. que aparece com bastante nitidez na costumeira denegação projetiva sobre a pedofilia em que vivemos e que fomentamos diariamente. A Organização Mundial de Saúde define o abuso sexual da seguinte maneira: . a confiança que o pequeno (dependente) tem no grande (protetor). O abuso sexual supõe um disfunção em três níveis: o poder exercido pelo grande (forte) sobre o pequeno (fraco). a ambivalência que a sociedade tem com essa questão. ou seja. 3. não deixa claro de que forma a sexualidade do adulto abrange a questão e no que tange a sexualidade infantil. mas também a da criança. coação e/ou sedução. por isso. portanto. já que é uma forma de utilização abusiva da autoridade que o adulto detém sobre a criança e “envolve não só a sexualidade do adulto. o atentado ao direito que todo individuo tem de propriedade sobre seu corpo (GABEL. 11). no entanto. levando a vitimização da criança. sendo que é ao mesmo tempo. 1992:. Abuso sexual e a “enformação” do indivíduo O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1999: 19) define abuso como sendo um “mau uso. a culpa parece ser o grande problema em tais situações. coloca sobre essa última o peso de uma grande culpa” (p. é uma forma de transgredir. Tal definição vai ao encontro com o pensamento de Gabel (1992:10). Além disto. Gabel (1992) afirma ainda que o abuso sexual de crianças é um dos aspectos dos maus-tratos mais difíceis de delimitar. aborrecer. a quem quiser ver. destacadamente a relação de amor e ódio. o afastamento do uso normal”. 10). envolvendo recusa e projeção. Alonso (2009) diz que Fica assim exposta. que ultrapassa limites e. Valer-se ou aproveitar-se de.

a violência sexual Consiste em todo ato ou jogo sexual. 1992: 11) e “comportamentos que implicam uma proximidade corporal excessiva e erotizada. reforçando a idéia de vitimização da criança. Petrópolis: Autores & Agentes & Associados. tais como: “atividades sexuais inadequadas para idade e o desenvolvimento psicossexual da criança à qual é imposto por coerção. Esse fenômeno violento pode variar desde atos em que não se produz contato sexual (voyeurismo. De acordo com o Ministério da Saúde. Em primeiro lugar Gonçalves coloca a questão de que atos designados como abuso ou violência sexual podem ou não envolver contato físico. relação heterossexual ou homossexual cujo agressor está em estagio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança ou o adolescente. 2002. apud GABEL. 2002. Gonçalves (2004). apud Gabel. Tem por intenção estimulá-la sexualmente ou utilizá-la para obter satisfação sexual. . Por que?! Quem?! Quando?! Como?! 3ª edição. Gabel (1992) segue expondo algumas outras definições.33 A exploração sexual de uma criança implica que esta seja vítima de um adulto ou de uma pessoa sensivelmente mais idosa do que ela com a finalidade de satisfação desta. mitos e realidades. A cartilha da ABRAPIA10 que se propõe a derrubar mitos e mostrar a realidade nos casos de abuso sexual infantil parece não levar em conta a sexualidade infantil e o papel da criança nesses casos. a partir de tal definição parece relativizar e circunscreve alguns pontos que a seu ver merecem discussão nos casos de violência sexual contra crianças. ou que transgridem os tabus sociais” (KEMPE. Apresenta-se sob forma de práticas eróticas e sexuais impostas a criança ou ao adolescente pela violência física. ofensa ao pudor e voyeurismo. O crime pode assumir diversas formas: ligações telefônicas obscenas. Cartilha: Abuso sexual. 1992: 11). 1992: 11). nas quais o voyeurismo ou o exibicionismo são impostos a criança” (ROUYER. 2004: 293). Engloba ainda a situação de exploração sexual visando lucros como é o caso da prostituição e da pornografia (BRASIL. até diferentes tipos de ações que incluem contato sexual sem ou com penetração. imagens pornográficas. exibicionismo. Sendo assim. incesto ou prostituição de menores (OMS apud GABEL. apud GONÇALVES. violência ou sedução. não se deve esperar que haja necessariamente um sinal corporal 10 ABRAPIA (Revisão: Lauro Monteiro Filho). produção de fotos). ameaças ou indução de sua vontade. relações ou tentativa de relações sexuais.

da presença ou ausência de figuras de apoio para a criança e da proximidade do vínculo entre a criança e aquele que o agrediu. Tais fatos acabam por colocar em xeque o papel dos adultos significativos. a revelação do abuso sexual intrafamiliar pode contar com a oposição do próprio núcleo familiar. O abuso sexual é considerado por alguns autores a forma extrema da violência contra a criança. perdura por certo tempo e é praticado por adultos com quem a criança mantêm importante relação afetiva. Isso leva a família a dificuldades de manter íntegras as suas funções e a sua capacidade de apoiar e proteger a criança. “ou mesmo a dificuldade em realizar rupturas afetivas que a revelação do abuso impõe” (GONÇALVES. pois o mais comum é que o abuso sexual tome a forma de manipulação ou sexo oral ou que ocorra através de um jogo de sedução gradual.34 visível. contribuem para consolidar a percepção de que a violência sexual contra a criança deve ser alvo de forte condenação moral (2004: 294). Essa convergência entre o senso comum e a academia. que são uma busca na expressão mais sadia da sexualidade da criança. Outro ponto importante é a referência a diferença entre os estágios de desenvolvimento entre a criança e o autor da violência sexual. mas por outro lado. no caso do agressor ser o provedor da família. Esta percepção pode produzir excessos que acabam por colocar em foco os jogos sexuais entre iguais. 2004: 296). e produz uma sensação de incômodo na maioria das pessoas. a consciência contemporânea condena com grande rigor toda e qualquer forma de violência sexual contra crianças. Isto ocorre porque muitas vezes o abuso sexual acontece no contexto familiar. Porém enfatiza que tais respostas estão submetidas a certas condições de contexto e devem ser analisadas caso a caso. Gonçalves (2004) segue expondo alguns efeitos produzidos pela violência sexual nas crianças. descritas pela literatura. Segundo Gonçalves. pois a reação da criança irá depender da duração do abuso. Além disto. particularmente dos membros da família. que é o que permite distinguir a violência dos jogos sexuais entre crianças ou adolescentes. fortalecida além do mais pelas inúmeras campanhas que têm sido veiculadas na mídia em todo o mundo. pois isto acarretaria muitas vezes a perda do esteio econômico. Gonçalves coloca que os jogos sexuais fazem parte do desenvolvimento da criança. .

3. 2004). e se compõe como um benefício primário (LAPLANCHE & PONTALIS. . Para uma criança muito nova. neste caso.5. Alguns pais. repetidas vezes. por assim dizer. em tais situações. se impõe como um sintoma12 familiar. 12 Podemos pensar em sintoma como sendo uma representação. proposto por Freud em 190911. 2006: 385).14. vemos que há algo mais além dos benefícios primários que possam advir dos casos de abuso sexual. pois traz uma modificação vantajosa das relações com o meio através da satisfação encontrada no sintoma. Abuso sexual e a visão psicanalítica As situações de abuso sexual podem ser remetidas ao conceito de romance familiar. demonstraram se utilizar da situação de 11 Laplanche & Pontalis (2004: 464). “o ego obtém um certo „ganho proveniente da doença‟”. Além disto. No entanto. que constitui a fuga para a doença. Nestes casos. Segundo Freud ([1916-17] 2006: 283). se torna útil e adequada. pudemos constatar tal fato. “se comprova que a doença. todos “os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente” (FREUD [1916-17]. o agressor. que aparece nas relações de dependência com o agressor. o que acaba por reforçar tal situação. enaltecendo. uma tentativa de satisfação de um desejo ou medidas para impedir tal satisfação. A situação de abuso sexual então. através de relatos durante as seções. essa condenação – que acentua o valor transgressor da violência sexual e contribui para acentuar a culpa e a vergonha – só pode ser atribuído pela sociedade e pela família (2004: 296). 13 Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (SPIA/UFRJ). Durante a experiência clínica no SPIA13. 2006: 265). porém ela não alcança o pleno significado sexual do ato e Desconhece por completo sua condenação moral. uma função secundária que reforça novamente a sua estabilidade” (FREUD [1916-17].35 Gonçalves coloca por último a questão da idade da criança à época do abuso. sendo acompanhado de uma vantagem externa que beneficia o sujeito e assume um valor real. o contato sexual pode ser desagradável ou mesmo assustador. e adquire. onde o sujeito altera de forma imaginária seus laços familiares. que acaba por manter ou reviver as situações de abuso sexual.

[1926]. constando do arquivo morto do SPIA. seja para a proibição da visitação do genitor que supostamente cometeu a agressão. a resistência se manifesta quando a criança faz algum deslocamento em relação à posição de vítima em que é colocada. Com relação a isto. os pais retiram os filhos da psicoterapia. Nas neuroses obsessivas e na paranóia. Podemos dizer que isto explica o surgimento do ganho secundário nos casos de abuso sexual. porque é especialmente limpo ou especialmente consciencioso. não certas vantagens. mas uma satisfação narcísica sem a qual.36 abuso sexual dos filhos para conseguir benefícios. fazendo-o sentir que ele é melhor que outras pessoas. como vaga em creche ou escola e atendimento médico ou psicoterápico com maior rapidez. as formas que os sintomas assumem tornam-se muito valiosas para o ego porque obtêm para este. . Não surge para a criança outro lugar que não o de abusado. Freud ([1926]. de outra forma poderia passar. assume o abuso e descreve com fidedignidade o que os pais contam a respeito. 2006). Isto 14 Todos os casos citados foram encerrados. seja de destituição de pátrio poder. 2006). adaptando-se a ele de forma a tirar o máximo proveito possível para se adaptar as exigências reais. Na clínica. é buscado atendimento psicoterápico somente para a obtenção de laudos técnicos para processos judiciários. Em outros casos. Tais fatos alimentam a situação de abuso e reforçam a posição da criança no papel de vítima. 2006: 102). Freud ([1916-17] 2006: 384) diz que “tudo aquilo que contribui para o ganho proveniente da doença haverá de intensificar a resistência devido à repressão e aumentará as dificuldades do tratamento”. diz que o ganho secundário aparece como uma resposta do ego ao sintoma já formado. lugar este em que ela própria ganha voz e se constitui. As construções delirantes do paranóico oferecem aos seus agudos poderes perceptivos e imaginativos um campo de atividade que ele não poderia encontrar facilmente em outra parte (FREUD. Com isto. Os sistemas que o neurótico obsessivo constrói lisonjeiam seu amor próprio. Há relatos clínicos em que a criança incorpora o discurso dos pais. pois tal ganho ajuda ao ego na incorporação do sintoma e na fixação deste (FREUD [1926]. pois a estabilidade da doença familiar é ameaçada e pode levar a perda dos ganhos secundários que alimentam tal situação.

pois correlacionam o abuso ao problema de aprendizagem. a criança também acaba por aceitá-la. Neste sentido. porém. aceita-a. logo se verifica que o ego fez um mau negócio ao optar pela neurose.37 demonstra que a partir das vantagens que a situação de abuso traz. sendo que seus pais buscam todo tipo de ajuda. então. expõem que tentam dar o máximo de atenção e carinho ao filho que passou pela experiência de abuso e não sabem por que a criança não melhora e não consegue aprender. mas provavelmente importam em aumento de desprazer. e os sofrimentos ligados aos sintomas são. pois verificamos casos em que as próprias crianças se utilizam do fato para obter algum tipo de ganho. Via de regra. O ego preferiria libertar-se desse desprazer dos sintomas. talvez. Há casos relatados de crianças que apresentam problemas de aprendizagem. . o ego. Freud diz que O ego passa agora a comportar-se como se reconhecesse que o sintoma chegara para ficar e que a única coisa a fazer era aceitar a situação de bom grado. sem duvida. 2006: 101). devemos considerar atentamente esse aspecto” ([1916-17] 2006: 384). que o ego não era tão completamente ativo como imaginava ser. Ele pagou caro demais por um alívio do conflito. um substituto equivalente dos tormentos do conflito. A esse respeito. em atendimento. e tirar dela o máximo proveito possível. Isto se revela na clínica e podemos afirmar que não só os pais se beneficiam da situação de abuso sexual. Isto mostra. sem desistir do ganho que lhe dá a doença. Freud diz que: “Na medida em que a neurose traz vantagens. não traz apenas vantagens. Esses pais. Ele faz uma adaptação ao sintoma – a essa peça do mundo interno que é estranha a ele _ assim como normalmente faz em relação ao mundo externo real (FREUD [1926]. Isso nos deixa claro que a criança aceitou o problema e com isso garante a atenção e proteção de seus pais. e isto é justamente o que não pode obter.

com uma visão da criança como um mini-adulto. A partir da constituição do abuso como um sintoma familiar. assexual. nota-se uma contradição: por que a necessidade de vigilância se a criança é assexual? A concepção freudiana nos parece dar conta dessa questão. que a partir do lugar que lhe é assegurado. A condenação moral então. alimentando um sintoma familiar. Alguns autores relativizam os sintomas e seqüelas. toma corpo. com suas relações pederásticas aceitas livremente pela sociedade da época. a nosso ver. passiva diante do que lhe é imposto pelo saber médico.38 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da revisão bibliográfica. com isso. enforma a criança. se referindo em algum momento a criança que sofreu abuso como sendo vítima e como portadora de seqüelas. num papel passivo e. passando a existir a partir da sua vitimização. Passaram pela Idade Média. mas de alguma forma afirmam que isso ocorre. pois é a partir dos estudos de Freud que a sexualidade infantil passa a ser considerada. de acordo com a bibliografia consultada. essas relações atendem a interesses da sociedade da época. O estudo da sexualidade infantil é. incorporada às atividades sexuais dos adultos. A nosso ver. Percebe-se que em todos os períodos históricos. de grande importância para a compreensão da pedofilia e do abuso sexual. O que observamos é que essas definições acabam por ir ao encontro do que a sociedade pensa sobre o abuso sexual. muitas vezes. se modificou também a noção que se tem sobre a criança e o seu sexo. Surge então. Essas referências listam “sintomas” que podem indicar que a criança esteja sendo abusada e “seqüelas” decorrentes do abuso. uma infância. a criança é passiva diante da situação. verificamos que as relações entre crianças e adultos se transformaram ao longo do tempo e. a . pois mostra que a criança não é passiva. Neste sentido. E culminaram com o surgimento da noção de infância e a normatização e categorização do comportamento infantil. controlando ativamente o comportamento sexual infantil. Toda a literatura revisada sobre abuso sexual parece não levar em conta a sexualidade infantil. Estas transformações ocorreram desde a Grécia Antiga. cujo principal agente de vigilância é a família. que acaba por incorporar esse discurso. ganha vulto. cresce e se desenvolve. e muitas vezes participa ativamente da situação.

sendo explorado excessivamente pela mídia. Com isso.39 criança se coloca no lugar de vítima. deve ser punido como tal. O olhar do psicólogo no atendimento a esses casos deve partir de um olhar diferenciado. a categorização pela psiquiatria acaba levando a uma punição generalizada. foge aos padrões normais da convivência social. promovendo uma verdadeira “caça as bruxas”. Pois. sendo necessário definir do que se está falando realmente. como “monstro”. . segundo Silveira (2006). Não surge para eles outro lugar a não ser o que lhes foi designado. e muitas vezes se beneficia das modificações que esse sintoma acarreta. a família e o agressor. Em alguns casos. como diz Freud em os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ([1905]. para proporcionar ao indivíduo a sua reinvenção e possibilitar a saída dessa enformação. Se considerarmos que a pulsão não tem destino nem objeto definidos. podemos explicar o desejo por crianças. Isto acaba por expor a ambivalência com que a sociedade trata a questão: se por um lado condena. ela passa a receber mais atenção da família e o próprio abuso se constitui como sendo a forma que ela encontra para satisfação de seus desejos. sendo um crime e. E a partir desse lugar que eles ganham voz e se constituem. 2006). reafirmando a sua posição. deve-se ter muito cuidado ao conceituar e falar sobre pedofilia. Magno conceitua como denegação projetiva. Porém há leis que regulam as relações entre crianças e adultos e a pedofilia. o “pedófilo” se torna porta-voz de um desejo inconsciente de todo corpo social. fala a exaustão sobre casos dessa natureza. o que leva a um processo contínuo de negação e projeção. que M. porque o papel do pedófilo passa a existir a partir de um campo de saber específico. livre de qualquer condenação moral. Porém. causando grande comoção e revolta nas pessoas em geral. Tais fatos alimentam a situação de abuso e reforçam os papéis em que são colocados a criança. portanto. o que gera um engessamento dos papéis de vítima e agressor. D. no sentido de investidas corporais excessivas contra crianças. Vimos também que o termo pedofilia é usado erroneamente.

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