Secção de Karate da ACRD do Louriçal

Este artigo foi escrito por Scott Langley, 5º Dan de karate Shotokan, Director Técnico da JKS – GB & Irlanda e, apenas o quinto ocidental graduado pelo Curso de Instrutores da JKS. Scott Langley possui mais informação no seu site em www.hombudojokarate.com. Traduzido por: Rui Silva

Scott Langley

O Controlo do Karate
O meu instrutor uma vez disse-me que a partir do momento em que eu entrava no dojo eu era dele. Entrar para o Karate é entregar-se ao Sensei durante o período do treino. Recentemente eu tenho lido, embora na internet, acerca de pessoas que têm desistido das formalidades do Karate Shotokan. Deixaram de sentir a necessidade de utilizar a terminologia que muitos de nós tomamos como garantida como sendo parte essencial do treino. Palavras como oss, sensei e zenkutsu-dachi foram dispensadas por se entenderem irrelevantes e foram substituídas pelas suas “equivalentes” nas suas línguas nativas. Estas pessoas defendem que uma palavra é apenas uma palavra, e em cada país deveria utilizar-se a sua própria língua quando se ensina Karate. Representantes do outro lado deste argumento defendem por sua vez que esta opção retira algo daquilo que nós fazemos, e colocam a seguinte questão “Até que ponto mudanças como estas alteram aquilo que fazemos em algo que já não é Karate?” É um ponto interessante e eu começo a pensar acerca da importância, se é que existe alguma, de utilizar a terminologia japonesa no dojo. Porque é que continuamos a insistir em utiliza-la, no seu conjunto, e será que a essência daquilo que é um dojo se altera simplesmente porque passamos a chama-lo de sala de treino? Vamos primeiro estabelecer a premissa de que estamos a falar de bons clubes com bons instrutores. É uma premissa difícil de fazer, uma vez que o conceito de “bom” para uma pessoa pode ser bastante diferente de o de outra. No entanto, neste caso, eu gostaria de estabelecer que “bom” significa um instrutor que apenas tem no seu coração os melhores interesses para o seu aluno e rege-se equilibradamente por uma experiência rica e variada quando ensina o seu aluno. Desde o momento em que começamos o treino no Karate que somos controlados pelo Sensei. Eles ditam os nossos movimentos com o objectivo de nos ensinar técnicas. No início, fazer oi tsuki é um algo lento e pesado. É difícil imaginar que tal movimento possa ser rápido e eficaz. No entanto, o controlo continua e nós fazemos o que o Sensei diz.

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No entanto. da mesma forma que os aspectos físicos.Secção de Karate da ACRD do Louriçal À medida que os meses passam as indicações do Sensei vão aumentando. Assim. Isto ajuda-o a conceptualizar a mecânica do corpo e aumenta a sensibilidade do corpo… Na sua essência. A introduzir uma língua estrangeira no dojo tem-se o efeito de conseguir com que o tempo no qual decorre a aula seja diferente do que acontece no “mundo real”. ao ser controlado pelo Sensei. e não importa o quanto se está cansado. ao ângulo do pé. a uma alteração. Com os anos a postura de cada um é completamente ditada. 2 . A palavra Sensei tem conotações que distinguem o instrutor de todo o resto do grupo. o peso devidamente distribuído. os aspectos mentais podem ser vistos como uma forma padrão de pensamento. que numa menor escala. o aluno torna-se capaz de aprender como controlar o seu próprio corpo. O mesmo pode ser visto com o aspecto mental do Karate… Desde o momento em que entram pela porta do dojo. curvar-se nos momentos certos. sobre o que é o Karate e como deve ser feito. refiro-me a um conjunto de pressupostos e parâmetros. O oss é constantemente utilizado para comunicar toda uma data de sentimentos. Coisas simples como mostrar a cortesia a um aluno mais velho. tudo é manipulado pelo Sensei… E eu penso. Já não é suficiente colocar o pé correctamente para a frente. Ao forçar as pessoas a aderir à cultura japonesa e ao sistema hierárquico. conduzem a forma como eles pensam. Ao forçar inicialmente o aluno a percorrer um caminho restrito. o aluno é forçado a pensar na “vida dentro do dojo” em termos diferentes daquilo que é na “vida normal”. também é importante manter a postura. os alunos são obrigados a acatar um conjunto de regras rígidas que vão para além de colocar o pé esquerdo para a frente. força-os a um conjunto estrito de parâmetros sociais aos quais eles terão de se submeter. a forma como eles se relacionam com os outros. Não falar durante a aula parece uma maneira óbvia de controlar os alunos. no entanto. também é importante ter o joelho dobrado correctamente. A vida no dojo pode ser dura e exigente. empurrar o aluno para treinar o mais duro possível porque o Sensei insiste que o aluno tem mais para dar… Todas estas situações em que o comportamento dos alunos é controlado. Ao controlar o comportamento dos alunos (o que eles podem ou não podem fazer). Ao ser completamente Pág. O controlo total do corpo. “soco-frontal” não descreve bem aquilo que é um oi tsuki. Quando eu digo referência de pensamento. isto nunca mais termina… O que está a acontecer é que o instrutor fornece (que é provavelmente uma descrição melhor do que “ensinar”) ao aluno uma referência de pensamento. o aluno é obrigado a tornar-se mais consciente das suas acções físicas. os alunos podem descobrir a forma correcta de estar e deixar-se conduzir por ela. Saber qual o lugar de cada um e saber quais os comportamentos esperados e os não esperados pelo Sensei pode ser uma tarefa assustadora. mais subtil do que isso é a utilização da língua e da cultura japonesa. com o passar do tempo. desde a orientação da cabeça. baseados numa experiência experimentada e testada. As técnicas são designadas utilizando o seu termo em japonês.

nem a língua nem a cultura serem estrangeiras. opõem-se à ideia de serem controladas no dojo. são colocadas sob a pressão de cumprir e obedecer às vontades de outra pessoa… Na sua essência as pessoas são controladas. mas não fazem ideia do que isso envolve e qual a sua dificuldade. os alunos podem vir a compreender as suas acções mentais… A partir deste ponto. A palavra controlo tem conotações negativas. Finalmente. eu penso que vem de uma necessidade básica de controlo. A maior parte dos japoneses não sabem como escrever oss ou Karate utilizando o kanji (os caractéres japoneses). Em primeiro lugar. as pessoas fazem a escolha fácil de ir até ao ginásio ou à câmara municipal. Poderia ser feita uma comparação com o ballet. Desta forma. o Karate possa dotar os alunos com (o que qualquer publicidade de Karate sempre reclamou) grande disciplina. Neko-ashi-dachi (posição do gato) é uma comparação óbvia Pág. apenas uma série de socos e pontapés. as pessoas frequentemente pensam que o Karate não é japonês. Pelo facto da interacção entre alunos e instrutor ser ditada por regras restritas. Normalmente eles utilizam o katakana (o alfabeto fonético reservado para as palavras estrangeiras) e como resultado. Isso é uma visão simples e bastante superficial daquilo que fazemos. O segundo ponto que gostaria de abordar é que o meu argumento a respeito da utilização da língua e da cultura japonesa. a coordenação do corpo é aprendida. O Karate não é apenas um conjunto de técnicas e de regras. reagindo a uma joelhada. tanto físico como mental. No entanto. questionem qualquer japonês que não seja karateca e ele dirá que a linguagem e cultura que envolvem o Karate é tão estranha como para nós. e permitem-no porque percebem a necessidade de uma ajuda e de uma condução exterior e da necessidade de ter alguém que as motive. 3 . eu penso que o Karate ficaria apenas reduzido às suas componentes físicas. poderá ser negativa pelo facto de no Japão. Tudo o que seja ter aulas com instrutores de fitness no ginásio local ou ir a reuniões de pessoas importantes. uma grande disciplina pode ser conseguida. Assim. No entanto. esperamos. vale a pena fazer notar dois pontos.Secção de Karate da ACRD do Louriçal controlados pelo seu Sensei. É uma forma de aprendizagem e uma forma de desenvolver um padrão de pensamento que mais facilmente nos permite utilizar o nosso corpo e mente. Os habitantes locais podem saber que “Pas de Chat” significa “Passo de Gato”. a partir desse momento. Mesmo em Paris. a casa do Karate. maximizando a sua eficiência. De forma semelhante ao Karate. culminando numa arte marcial que permite ao praticante ter um grande controlo sobre a sua mente e o seu corpo. no entanto. confiança e coordenação. que elas julgam ter mais conhecimentos. Ao controlarem-se os movimentos de cada um pelo Sensei. Sem a linguagem japonesa. nas boas escolas de ballet o professor pode ser bastante estrito e controlador. sem o controlo. consegue-se uma melhor capacidade para desenvolver o auto-controlo. quando as pessoas perguntam porque é que é necessário utilizar terminologia japonesa no dojo. que através de um rigoroso regime inicial de controlo. acaba sempre por encontrar algo de estranho à sua vida diária. é possível ver essas pessoas a colocarem-se regularmente sob o controlo de outra pessoa qualquer. a cultura e a linguagem que rodeiam o ballet podem parecer estranhas para os parisienses. Portanto. Em todo o mundo o francês é utilizado para ensinar esta forma de arte. mesmo que uma pessoa entre num dojo em Tóquio. muitas pessoas.

seja ela a do Samurai do Japão ou a dos Cavaleiros de Inglaterra.theshotokanway.com Traduzido por: Rui Silva Este artigo foi traduzido com a permissão do autor. que hoje praticam bom Karate Shotokan poderão assim perceber a importância destes assuntos na forma de desenvolver um bom Karate. No ocidente (e também no Japão ocidentalizado) as pessoas já não estão habituadas a utilizar esta forma de ensinar através do controlo total. qualquer tradição marcial. Então. e aqueles de nós. Pág. Porém.Secção de Karate da ACRD do Louriçal com o Karate. Retirado do site: The Shotokan Way em www. sempre teve um regime físico e mental estrito. não significa que o vocabulário empregue faça parte da utilização diária. a necessidade de ter um processo técnico compreensível foi justificada com todos os motivos que referi acima. A linguagem torna-se uma parte integral do controlo da aula. Apenas porque a linguagem possa parecer familiar. 4 .