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2011

Lista de Exercício de Introdução à Ciência do Sistema Terrestre
Docente: Prof. Dr. Carlos Nobre
Parte integrante dos requisitos necessários para o cumprimento dos créditos da disciplina Introdução a Ciência do Sistema Terrestre. Programa de Pós-graduação em Ciência do Sistema Terrestre (Doutorado).

Pedro Ivo Mioni Camarinha Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais Junho de 2011

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais São José dos Campos, Junho de 2011.

Questão 1 A “Ciência do Sistema Terrestre” é uma área interdisciplinar ainda em desenvolvimento conceitual. Abaixo, há duas possíveis definições de ciência do sistema terrestre: a) Nova área do conhecimento que busca entender a dinâmica das complexas interações entre sistemas naturais e sistemas sociais para fornecer conhecimentos que garantam a sustentabilidade da vida no planeta Terra global e regionalmente. b) Earth system science seeks to integrate various fields of academic study to understand the Earth as a system. It looks at interaction between the atmosphere, hydrosphere, lithosphere and biosphere. Realize uma busca na literatura por outras definições de ciência do sistema terrestre e expresse seu entendimento sobre ela. Resposta: Para responder a esta questão, primeiramente é preciso entender o que é o Sistema Terrestre (em inglês, The Earth System). Partindo da definição de “sistema”, temos que este trata-se de: um conjunto de componentes interdependentes (pessoas, células, moléculas, etc.) que estejam interligados entre si de tal maneira que produzem seu próprio padrão de comportamento ao longo do tempo, dentro de um limite definido. Um sistema pode ser alterado de diversas formas por forças externas, que podem ser inerentes também a outro sistema (ou subsistema) que esteja interconectado. Entretanto, a resposta (feedback) que o sistema terá à estas forças é uma característica própria, sendo raramente simples no mundo real (Meadows, 2001). Portanto, o Sistema Terrestre seria o conjunto de todas as componentes (e subsistemas) que atuam dentro dos limites do nosso planeta (a Terra) e que interagem entre si. Desta forma, o objetivo da Ciência do Sistema Terrestre (CST) seria a compreender a complexidade existente entre os grandes sistemas que compõe nosso planeta – naturais e sociais – para predizer e mitigar conseqüências indesejáveis para a vida. A CST pode ser considerada uma nova área do conhecimento, pois foi estabelecida justamente após a humanidade perceber a grande influência do sistema antrópico (the human system) sob todos os demais sistemas naturais e, conseqüentemente sobre si mesmo, causando efeitos desfavoráveis para a manutenção da vida na Terra, muitas vezes em escala global. Os sistemas naturais que compões a o Sistema Terrestre são divididos em quatro grandes grupos: a litosfera, a hidrosfera, a atmosfera e a biosfera. A litosfera é a parte mais externa e rochosa da Terra, composta pelas rochas e pelo solo. A hidrosfera é composta por toda a água – sólida, líquida e na forma de vapor – existente na Terra, tanto abaixo, acima ou sobre a superfície terrestre e pode ser caracterizada pelos rios, mares, oceanos, geleiras, aqüíferos e etc. A atmosfera é a camada de gases que envolve o planeta e que são retidos pela gravidade terrestre. A biosfera é o conjunto de todos os ecossistemas existentes na Terra, compreendendo todas as formas de vida, seus indivíduos e suas relações.

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Todos estes sistemas estão intimamente ligados entre si, ao ponto que uma mudança significativa em um poderá causar outra em um ou mais sistemas, como resposta (relação de causa-efeito). A intensidade e o tempo de resposta destes sistemas (delay) é variável para cada ação específica a qual o sistema é submetido. Os sistemas podem tanto absorver estas ações e se manter em um estado de equilíbrio, podem sofrer pequenas alterações e voltar ao equilíbrio ou até mesmo propagar tamanhas alterações que o levem a um novo estado, diferente do anterior. Quando estas mudanças acontecem dentro de um ecossistemai, sendo proveniente de uma fonte externa (ex: aumento da radiação solar devido a tempestades solares) ou interna a ele (ex: um incêndio devasta toda uma área florestada), são chamadas de evento. Os eventos podem ser tanto de origem/causa natural (ex: um vulcão em erupção), como causadas pelo próprio homem (ex: buraco na camada de ozônio devido a emissão de clorofluorcarbonetos utilizados como gases refrigeradores). Como as ações antropogênicas vem crescendo cada vez mais desde a Revolução Industrial, várias interferências na dinâmica destes sistemas estão sendo observadas. Independente de sua origem, os eventos agem, geralmente, primeiramente sobre um determinado sistema que, dependendo de sua interação com os outros sistemas, poderá causar novos efeitos nestes. Dependendo destas interações e da intensidade do evento, os efeitos podem ser tanto em escala local, regional ou global. Por exemplo, uma chuva intensa causando deslizamentos de terra em algumas encostas que, por sua vez, leva ao soterramento de casas e habitantes (local); o uso intensivo e degradante do solo causa em uma região causa o assoreamento de uma grande rio, diminuindo a disponibilidade de água (regional); ou então o aquecimento das águas do Oceano Pacífico (El Niño), provocando alterações climáticas em escala global. Portanto, o papel da CST é compreender como estas interações existem dentro do Sistema Terrestre, qual a intensidade dos eventos naturais e antrópicos sobre os sistemas e como são dados os feedbacks (relação de causa e efeito), visto a grande complexidade de relações e combinações que podem existir entre os eventos e os componentes do sistema terrestre, como ilustrado na Figura 1:

Figura 1 - Tipos de interações possíveis entre os subsistemas terrestres e eventos (NASA, 2004)

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Portanto, a CST trata-se de uma ciência nova e que necessita de uma visão ampla, onde a interdisciplinaridade é essencial para seu avanço, visto a que os diversos processos/fenômenos que ocorrem no Sistema Terrestre se propagam com diferentes intensidades, em diferentes escalas temporais e espaciais e por diferentes meios, sendo muitos destes são diretamente afetados pelas ações antrópicas. Visto o atual cenário em diversas partes do globo terrestre, onde podem ser encontradas situações desfavoráveis ao desenvolvimento humano e da vida em geral, a CST também tem a responsabilidade analisar o presente para propor ações mitigadores para um futuro sustentável. Como parte do avanço desta ciência, faz-se necessário também entender como era mantido o equilíbrio da vida sem a interferência humana e os ciclos aos quais a Terra é submetido no decorrer do tempo. Por fim, resumidamente tem-se que o Sistema Terra é o conjunto unificado dos componentes físicos, químicos, biológicos e social, dos processos e interações que, juntos, determinam o estado e a dinâmica do planeta Terra, incluindo a sua biota e os seres humanos. Assim, a Ciência do Sistema Terrestre é o estudo deste sistema, com ênfase na observação, compreensão e previsão de mudanças ambientais globais que envolvem interações entre terra, atmosfera, água, gelo, a biosfera, sociedades, tecnologias e economias.

Referências Campbell, N. A. Biology Concepts & Connections Sixth Edition, 2009. IGBP - Global Change and the Earth System: A planet under pressure. Springer-Verlag, 2003. Meadows, D. H. Thinking in Systems. White River Junction, Chelsea Green Publishing, 2008. NASA Exploring the Environment. Project web site, 2004. Disponível: <www.cotf.edu/ete/> Acessado em: 18 de maio de 2011.

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Ecossistema é uma ambiente biológico composto por todos os organismos vivos (sistema biótico), em uma determinada área, que interagem com os componentes sem-vida/físicos do ambiente (sistema abiótico), tais como o ar, o solo, a água e a luz solar (Campbell, 2009).

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Questão 2

A Terra como um Sistema Integrado:

Fig. 1.3. The 420000-year Vostok (Antarctica) ice core record, showing the regular pattern of atmospheric CO2 and CH4 concentration and inferred temperature through four glacial-interglacial cycles (adapted from Petit et al. 1999)

Extension of the paleo-record to 650 thousand years before present: Vostok ice core up to 420,000 before present (BP) and Dome C up to 650,000 years BP.

Os registros paleo-climáticos de 650 mil anos revelado nos testemunhos de gelo da Antártica revelam a Terra como um sistema integrado. O que você pode dizer da relação entre temperatura, CO2 e CH4 nestas escalas de tempo? Houve uma mudança de característica dos ciclos glacial-interglacial no período, comparando os primeiros 400 mil anos com o restante do registro. Explicite qual é esta diferença de períodos galacial-interglacial e procure explicar em relação à principal teoria sobre épocas glaciais. Qual o papel dos ciclos biogeoquímicos para prover pelo menos um entendimento qualitativo das variações observadas na temperatura e nas concentrações de CO2 e CH4? Como este registro seria modificado se não houvesse vida na Terra?

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Resposta: O gráfico que representa a série de dados de Vostok nos últimos anos deixa claro que há uma forte correlação entre a temperatura global e as concentração de CO2 e CH4. Nos últimos 420mil anos é possível notar que os valores máximos e mínimos das três variáveis, durante os ciclos glaciais-interglaciais, correspondem a praticamente o mesmo período temporal, nas duas estações (Vostok e Dome C). Entretanto, até hoje há uma grande discussão para tentar compreender que mecanismos indutores (drivers) estão por trás de tais correlações. Seria a variação da temperatura que ocasiona em um aumento das concentração de CO2 e CH4, ou seria o contrário? Principalmente após as declarações de Al Gore (2006) em seu documentário “Uma verdade inconveniente”, esta discussão tomou conta de diversos debates sobre mudanças climáticas globais. Por um lado, o autor alega que aumentos da concentração destes dois gases de efeito-estufa (devido a queima de combustíveis fósseis) propiciaria, conseqüentemente, num aumento da temperatura global. Entretanto, existem diversos autores que tentam debater esta idéia, apontando que o indutor de tais correlações, na verdade, é a temperatura global. Ou seja, seria o aumento da temperatura global – que depende de diversos fatores, sendo a concentração de CO2 apenas um destes – que comandaria as alterações de efeito global. Assim, os dados de Vostok representariam, portanto, que os indutores (drivers) de tais alterações da temperatura global e das concentrações de CO2 e CH4 são provenientes de fenômenos astronômicos que alteram na incidência da energia proveniente do sol na Terra. Ou seja, duas grandes causas comandariam as variáveis apresentadas nas séries: a alterações na excentricidade da órbita terrestre, que faz com que o nosso planeta passe mais perto ou mais longe do Sol em ciclos de 100mil anos; e a variação do eixo de inclinação da Terra (precessão dos equinócios) que, segundo o Jansen et al. (2007), entre 800 mil anos a 200 mil anos antes dos dias atuais, a variou entre 22.05º e 24.50º ao longo de ciclos de 25.800 anos. Outro argumento para afirmar que as mudanças das concentrações dos gases da atmosfera são comandados pela temperatura está no atraso (lag) da concentração de CO2 como resposta as mudanças na temperatura, como alega Mudelsse (2001), Monnin et al. (2011), Caillon et al. (2003), entre outros. Nestes Figura 2 - Possíveis atrasos na concentração de CO2 a trabalhos, a concentração de CO2 demora partir de alterações da temperatura terrestre. (Caillon et entre 600 e 1500 anos (dependendo do autor), al., 2003.) para responder a um aumento de temperatura

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constatado, como apresentado na Figura 2. Quanto às séries de dados retiradas da base de Vostok (Polo Norte) e Dome C (Antártica), notam-se algumas diferenças não só entre elas, mas no período que antecede os últimos 420mil anos. Como explica Siegenthaler et al. (2005), a diferença entre δd (que é correlacionado para mensurar a temperatura da atmosfera) é devido à diferença da localização das duas estações, pela distância destas para o oceano aberto, suas altitudes e conseqüentemente, pela temperatura da superfície nos dois locais. Também percebe-se que há uma diminuição dos máximos de temperatura nos ciclos glaciais-interglaciais, além de serem ciclos relativamente mais longos que os outro quanto que o sucederam. Ainda não está claro o motivo por esta diferença, de forma que as principais alegações correspondem possíveis efeitos da emissão da radiação solar que, provavelmente, aumentou devido algum evento astronômico relacionado a orbita terrestre a, aproximadamente, 4 eras glaciais atrás (Siegenthaler et al., 2005). Entretanto, os próprios autores alegam que não é possível descartar a hipótese de alterações dos resultados devido a um afinamento da camada de gelo depositado. Fora isso, ainda é difícil entender a interferência da biota nestas concentrações, neste período, embora esteja claro que praticamente nos últimos 800mil anos a concentração de CO2 jamais ultrapassou 300ppm (e a temperatura correspondente para tal concentração). Por esta razão, acredita-se que a própria vida seja responsável pela auto-regulação da atmosfera do planeta, propiciando a permanência da biota mesmo após grandes mudanças climáticas (Lovelock, 2006). Neste aspecto, a vida no planeta Terra é fator essencial para que seja mantida essa periodicidade nas concentrações dos gases e numa faixa de temperatura que a vida pode ser mantida. Embora saiba-se que a radiação solar aumentou cerca de 30% desde de o aparecimento da vida na Terra, a temperatura nas camadas superficiais se mantiveram praticamente a mesma. Isto fez com que na década de 60, Lovelock formulasse a Teoria de Gaia, ainda muito contestada nos dias de hoje, principalmente devido a alegação metafórica de que nosso planeta se comportaria como um grande organismo vivo, que se auto-regula para se manter vivo. Independente da aceitação ou não de que a vida no planeta o mantém no estado de homeostase, o fato é que as atividades biogeoquímicas levaram o planeta a um contínuo desequilíbrio atmosférico, não deixando-o estabilizar em um equilíbrio termodinâmico, como os outros planetas do Sistema Solar. Se não houvesse vida, as interações entre os gases da atmosfera, associada as leis da termodinâmica, levariam o planeta a um estado de equilíbrio onde o CO2 representaria 98% de nossa atmosfera. Desta forma, parte do que controla os valores observados nas duas séries de dados deve-se aos efeitos impostos pela biota e seus diferentes feedbacks negativos. Um exemplo,a inda muito contestado desta auto-regulação, trata-se da liberação de DMS, um aerossol sulforoso, por alguns tipos de algas. Quando em temperaturas acima de uma faixa ótima, estes tipos de algas diminuem sua reprodução. Como o DMS é um aerossol, sua liberação ajudaria na formação de núcleos de condensação, aumentando as nuvens sob os oceanos, diminuindo a temperatura da superfície das águas e, portanto, favorecendo sua reprodução.

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Entretanto, se observarmos os quatro gráficos ao lado (Figura 3), notamos que os períodos de aquecimento das quatro últimas eras glaciais podem ter sido comandados por feedbacks positivos, ou seja, quanto mais quente, mas quente se torna. Isto é alegado por alguns autores, como Kirchner (2004), ao levantar que o ferro é um elemento limitante para o crescimento destas algas, principalmente nas regiões pobres em nutrientes. Desta forma, o ferro seria reposto nos oceanos pela quantidade de poeira depositada nele. Ao observar o gráfico mais abaixo da figura, nota-se que aumentou a quantidade de poeira depositada nos períodos de glaciação (menos vegetação, menos vento, menos poeira). Ou seja, nos períodos de glaciação as algas poderiam crescer mais (sob o ponto de vista deste fator limitante), e nos períodos de aquecimento ter-seia uma limitação para sua reprodução e, conseqüentemente, para a tal auto-regulação devido
Figura 3 - Comparação dos dados de temperatura, concentração de CO2, CH4 e poeira (escala invertida) (Kirchner, 2002)

aos baixos níveis de poeira depositados nos oceanos.

De qualquer forma, sabe-se que os ciclos biogeoquímicos e todas as interrelações entre o sistema biótico e abiótico são de fundamental importância para a regulação de todos os sistemas existentes em nosso planeta. A evolução natural das espécies e grande diversidade de tipos de vida parecem andar alinhadas às mudanças que a Terra é submetida mantendo um equilíbrio do planeta durante milhares de anos. Entretanto, as rápidas alterações impostas pelas ações do homem, principalmente nos últimos 150 anos, foge desta regra. É observado que foram ultrapassados todos os limites máximos antes observados da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Porém, o que intriga a ciência e tornase um grande desafio da CST é que, embora estes níveis estejam muito acima do observado no último 1milhão de anos (Figura 4), ainda não houve um aumento da temperatura global conforme era esperado pela correlação entre estas variáveis (T x CO2). Seria mais “lag” pelo qual o sistema terrestre está passando, ou seriam novos mecanismos de feedbacks realizados pela biota que ainda mantém estes níveis toleráveis?

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Figura 4 – Correlação entre o CO2 atmosférico (esquerda) e metano com a temperatura nos últimos 400mil anos, comparando com os dados para os dias atuais (“current”). (fonte: Kirchner, 2002).

Referências
Caillon, N. et al., 2003. Timing of atmospheric CO2 and Antarctic temperature changes across Termination III. Science, Vol. 299, pp. 1728-1731. Disponível em: <http://icebubbles.ucsd.edu/Publications/CaillonTermIII.pdf> Acessado em: 19 de abril de 2011. Jansen, E., J. Overpeck, K.R. Briffa, J.-C. Duplessy, F. Joos, V. Masson-Delmotte, D. Olago, B. OttoBliesner, W.R. Peltier, S. Rahmstorf, R. Ramesh, D. Raynaud, D. Rind, O. Solomina, R. Villalba and D. Zhang, 2007: Palaeoclimate. In: Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Solomon, S., D. Qin, M. Manning, Z. Chen, M. Marquis, K.B. Averyt, M. Tignor and H.L. Miller (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA. Disponível em: <http://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar4/wg1/ar4-wg1-chapter6-supp-material.pdf > Acessado em: 27 de abril de 2011. Kirchner, J. W. The Gaia Hypothesis: Fact, Theory, And Wishful Thinking. Climatic Change 52: 391– 408, 2002. Kluwer Academic Publishers. Netherlands. Lovelock, J. A Vingança de Gaia. 1ª Edição, Brasil, Editora Intrínseca, 2006 Monnin, E., Indermühle, A., Dällenbach, A., Flückiger, J, Stauffer, B., Stocker, T.F., Raynaud, D. and Barnola, J.-M. 2001. Atmospheric CO2 concentrations over the last glacial termination. Science 291: 112-114 Mudelsee, M. 2001. The phase relations among atmospheric CO2 content, temperature and global ice volume over the past 420 ka. Quaternary Science Reviews 20: 583-589. Siegenthaler, U.; Stocker, T. F.; Monnin, E.; Lüthi, D.; Schwander, J., Stauffer, B., Raynaud, D.; Barnola, J.-M.; Fischer, H.; Masson-Delmotte, V.; Jouzel, J. Stable Carbon Cycle–Climate Relationship During the Late Pleistocene. 2005. Science, v. 310, p. 1313-1317.

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2ª Lista: Questão 1
Oscilações milenares e mudanças abruptas no paleo-ambiente do Sistema Terrestre. A figura abaixo do livro texto indica registros paleoclimáticos na escala milenar para dois sítios de pesquisa, indicando oscilações na escala milenar e mudanças abruptas. Estude a figura, consulte bibliografia especializada de modo a entender tão completamente quanto possível os dados apresentados. Suas respostas devem ser feitas num texto entre 1,5 e 3 páginas, com referências e um glossário de todos os termos técnicos. Fig. 2.6. Milennial scale oscillations and abrupt changes Low latitude expression of millennia scale climate oscillations taken from GISP2 oxygen isotopes, Santa Barbara basin (Site 893) bioturbation index and high-frequency variations in the CaC03 record of 70KL (Behl and Kennett 1996). Comparison of site 893 bioturbation index and benthic foraminiferal 6180 records with 6180 ice time series from GISP2, showing the excellent correlation of site 893 anoxia (lamination) events to 16 of 17 of the warm interstadials of GISP2. Bioturbation index is presented as a 49 cm (ca. 300-400 years) running average to dampen high-frequency variation and to match the resolution of the GISP2 record. Chronologies for GISP2 and site 893 were independently derived. Radiocarbon age control points (+) and SPECMAP data used for the site 893 age model are shown to the right. Numbers in 0 refer to standard data of the SPECMAP stratigraphy. The base of each core interval in Hole 893A is indicated by arrows to the left (Behl RJ, Kennett JP (1996) Brief interstadial events in the Santa Barbara Basin, NE Pacific, during the past 60 kyr. Nature 379: 243-24

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Resposta: As medições apresentadas na figura do enunciado representam registros paleoclimáticos da Groelândia (GISP2) para 60 mil anos passados determinados a partir de dos isótopos de oxigênio, onde a razão 18O/16O (oxygen isotope) de uma amostra de gelo. Estes dados podem fornecer registros detalhados das condições paleoambientais para um período de até 200mil anos atrás. A razão entre os isótopos é utilizada para determinar as características climáticas globais e seus feedbacks entre os diversos parâmetros, como temperatura, concentração de dióxido de carbono e metano, que são alterados com o clima e a resposta da biota do planeta. Pelo menos 17 episódios de mudanças climáticas abruptas – representados pelas barras amarelas - são constatados no registros apresentados, refletindo a instabilidade do clima glacial no Hemisfério Norte ao longo dos últimos 60 mil anos. Estes episódios são chamados de eventos Dansgaard-Oeschger (Dansgaard, 1984), registrados nos núcleos de gelo na Groelândia e nos registros sedimentares no Atlântico Norte (Johnsen et al., 1995) – referenciados como Site 893 na figura - sendo alguns destes também reconhecidos em outras localidades. O índice de bioturbação reflete eventos de paleo-oxigenação que ocorreram na bacia de Santa Barbara (Site 893). Este índice é extraído a partir de lâminas de sedimentos interposicionadas ao fundo da bacia, de forma que as concentrações de oxigênio impostas na época refletem o tipo de atividade biológica predominante no período. Dependendo do tipo de foraminíferos encontrados (de baixa ou alta oxigenação) a superfície laminar encontrada pode indicar a situação de anoxia ou condições oxigenadas, respectivamente. Os valores próximos de 1 representam situações de anoxia, sendo que o outro extremo, valor 4, representa as condições de oxigenação. Desta forma, pode-se notar que há uma forte correlação entre os eventos Dansgaard-Oeschger e os registros paleo-ambientais da bacia de Santa Bárbara. São observados 16 eventos de anoxia nos oceanos com alterações climáticas notórias, intercalando com períodos de oxigenação estáveis e de maior duração. Conforme apontam Behl & Kennet (1996), estes eventos causaram efeitos ecológicos e oceanográficos importantes para a dinâmica da bacia de Santa Bárbara, incluindo alterações na fauna bentônica e na composição das águas profundas. Estes mesmos autores constataram efeitos semelhantes no Golfo da Califórnia, sugerindo que estas alterações podem ter sido de maior escala e sincronizadas ao longo da margem nordeste do Oceano Pacífico. Estes resultados sugerem a sensibilidade de grandes áreas do sistema oceanoatmosfera-criosfera às mudanças climáticas de curto prazo. Estes dados refletem a interconexão entre os sistemas clima-oceano-biosfera a partir dos mecanismos de feedback constatados que, quando analisados em escalas temporais de dezenas (ou centenas) de milhares de anos, se encontram em sincronia. Embora hajam constatações de outras perturbações causadas em diferentes localidades do planeta e

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provavelmente disparadas pelas mesmas causas (eventos Milankovitch), Amman e Oldfield (2000) ressaltam que não há sincronia entre estes eventos isoladamente, ou seja, há uma defasagem entre eles. Isto representa que os mecanismos forçantes (indutores) propagamse em diferentes velocidades, causando efeitos que dependem do estado em que os sistemas se encontram, em cada região e que, por sua vez, induzem a novos feedbacks que podem atingir escalas globais (como explicado na questão do Younger Dryas).

Glossário
Anoxia: forte diminuição no nível de oxigênio da água(no caso, oceânico), uma forma extrema de hipóxia ou "baixo oxigênio". Eventos de anoxia oceânica ocorrem quando os oceanos da Terra se encontram completamente esgotados de oxigênio (O2), abaixo do nível de superfície. Também pode ser provocada por cianobactérias, provocando a morte de peixes e invertebrados. Bioturbação: Perturbação dos sedimentos marinhos causada pela ação de organismos (no caso foraminíferos), que leva modificação das estruturas sedimentares primárias da composição natural destes sedimentos. Foraminíferos bentônicos: filo de protozoários rizópodes. São unicelulares, cujo citoplasma emite pseudópodes finos, ramificados e pegajosos. São dotados de uma carapaça, ou teca, cuja constituição pode ser de calcária, quitinosa ou de partículas aglutinadas do meio, que contém uma ou mais câmaras, com uma ou várias aberturas. São, na maior parte, marinhos bentônicos, alguns pelágicos. As tecas dos fósseis são formadas pelos elementos de oceanos antigos e, assim, a análise da razão entre isótopos estáveis de O18 e C13 permitem reconstruções paleoclimáticas e paleoprodutividade dos oceanos, respectivamente. Padrões geográficos de distribuição de fósseis de planctônicos também permitem inferir antigas correntes marinhas. Além disso, a simples razão entre bentônicos e planctônicos servem para determinar se o ambiente onde as tecas foram depositadas era próximo ou distante da costa (quanto maior o número de bentônicos, mais próximo da costa). Como certas espécies e certas associações são típicas de alguns ambientes, é possível reconstruir precisamente o ambiente deposicional.

Referências
Amman B.; Oldfield F. Biotic responses to rapid climatic changes around the Younger Dryas. Palaeogeography Palaeoclimatology Palaeoecology 159:175 pp. Dansgaard W; Johnsen S.J.; Clausen H.B.; Dahl-Jensen D.; Gundestrup N.; Hammer C.U. North Atlantic climatic oscillations revealed by deep Greenland ice cores (1984). In: Hansen J.E. and Takahashi T. - Climate Processes and Climate Sensitivity. American Geophysical Union, Washington, D.C Behl, R.J., Kennett J.P. Brief interestadial events in the Santa Barbara basin, NE Pacific, during the past 60 kyr. 1996, Nature 379: p. 243-24. Johnsen SJ, Dahl-Jensen D, Dansgaard W, Gundestrup N (1995) Greenland paleotemperatures derived from GRIP bore hole temperature and ice core isotope profiles. Tellus 47B:624- 629 IGBP- Global Change and the Earth System: a planet under pressure. Springer-Verlag, 2003.

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Questão 2 Acidificação dos Oceanos. Com base no material incluído a seguir e em outros materiais sobre o assunto que você pode consultar, o que você entende pelo processo chamado de “acidificação dos oceanos”. Escreva um texto entre 1,5 e 3 páginas.

Acidificação dos Oceanos

Acidificação dos Oceanos

pH = 7.8 aragonita não se forma ameaça à 40% dos organismos marinhos de estrutura óssea

(Feely et al., 2008)

•*

2.3.2 Biogeochemical Processes

Surface Ocean pH decreases with with increasing atmospheric CO2:

Solas Science and Implemantation Plan

Time series of average surface [CO3-2] in the Southern Ocean for the PIUB-Bern reduced complexity model (Orr et al, Nature, 2005)

Vilcinskas 2000

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2.3.2 Biogeochemical Processes

From R. Buddemeier, based on Kleypas et al. 1999

2.3.2 Biogeochemical Processes

From R. Buddemeier, based on Kleypas et al. 1999

2.3.2 Biogeochemical Processes

From R. Buddemeier, based on Kleypas et al. 1999

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Resposta: O fenômeno da acidificação do oceano refere-se ao processo de diminuição do pH em suas águas que, no equilíbrio observado nos últimos milhares de ano, é em torno de 8,2, sendo considerado básico (Orr et al. , 2005). O termo “acidificar” corresponde ao aumento da concentração de íons de hidrogênio (e outros íons potencialmente ácidos) presentes na água a partir de qualquer ponto da escala de pH que varia de 0 até 14. Quando o pH está abaixo de 7 é considerado ácido (concentração íons de H+ é maior que as de OH-), de forma que valores maiores que 7 são considerados básicos e 7 seria a situação neutra. Como será melhor explicado posteriormente, este processo de acidificação ocorre através da dissolução de dióxido de carbono adicional existente na atmosfera, fato que desloca as reações químicas, liberando mais íons H+. O problema da acidificação está intimamente ligado às ações antrópicas porque o CO2 emitido para atmosfera, principalmente pela queima de combustível fóssil, pode ser absorvido pelos oceanos. Este input adicional de CO2 é transferido, primeiramente, para as camadas mais superficiais do oceano, de forma que, com o passar do tempo, o vento e a circulação termoalina ajudam a dispersá-lo em escala global (podendo levar décadas para esse ciclo se completar), e chegar até em grandes profundidades. Isto ocorre através de trocas gasosas realizadas na interface atmosfera-oceano, de forma que a transferência líquida de CO2 acontece quando há uma diferença de pressão parcial de CO2, sendo também dependente de outros fatores. Dentre estes, têm-se o coeficiente de transferência de gases, geralmente expresso como uma função não-linear da velocidade do vento cima da superfície dos oceanos, além da própria solubilidade do CO2. Já a solubilidade é uma propriedade dos gases que é inversamente proporcional ao aumento de temperatura, podendo, portanto, criar feedbacks positivos: maior emissão de gases estufa, aquecimento global, menor solubilidade do CO2, menor absorção líquida, mais dióxido de carbono na atmosfera. Porém, por mais que tenha havido um sensível aumento da temperatura global nas últimas décadas, a resposta preponderante entre estes mecanismos é que está havendo uma maior absorção de CO2 nas águas oceânicas. Acontecendo isto, o CO2 em meio aquoso transforma-se em ácido carbônico (H2CO3),podendo se dissociar e liberar os íons H+ e bicarbonato (HCO3-), conforme as seguintes equações 1 e 2, sendo que parte do CO2 pode permanecer na forma dissolvida também. CO2 (g) + H2O (aq) H2CO3 H2CO3 (aq) H+ + HCO3(eq. 1) (eq. 2)

Quando as rochas calcárias são dissolvidas, elas liberam o íon carbonato (CO32-). Este íon quando em meio aquoso acaba formando o bicarbonato e liberando o radical hidroxila (OH-), conforme a equação 3:

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CO32- + H2O

HCO3- + OH-

(eq. 3)

O problema é que, em condições naturais, há disponibilidade de íons carbonatos nas águas oceânicas, sendo que quantidades maiores de dióxido de carbono dissolvido em água correspondem num aumento da produção de ácido carbônico e, conseqüentemente, na liberação de íons H+. Ao haver essa maior disponibilidade de H+, para o equilíbrio químico das reações, é preciso mais radicais hidroxila (OH-, ver eq. 3). Ao deslocar a equação 3 para a direita, diminui-se a disponibilidade do íon carbonato (CO32-). e, em contra partida, aumenta a de bicarbonato (HCO3-). Como os processos de dissolução das rochas calcárias (CaCO3 Ca2+ + CO32- ) são comandadas por estes dois aportes de íons na água, haverá um aumento da solubilidade das rochas calcárias, fato que dificulta a calcificação. Eis aqui o ponto crucial da acidificação dos oceanos pois, com este aumento de solubilidade, há uma redução no estado de saturação da água do mar em relação à calcita e aragonita: dois tipos comuns de carbonato de cálcio que compõe muitos organismos marinhos. Desta forma, o aumento da solubilidade do carbonato de cálcio, mineral utilizado para formação de esqueletos, conchas, corais e outros calcificadores pelágicos e bentônicos, geralmente resulta em uma diminuição dos mecanismos de processamento da calcificação total (Doney et al., 2009). Com a acidez mais elevada, torna-se mais difícil para o carbonato de cálcio para formar, ou seja, será mais difícil para alguns organismos planctônicos para formar conchas, através da substância chamada aragonita. A aragonita só é capaz de ser fixada aos organismos com valores de pH acima de 7.8, de forma que até alcançar este limite seu processo de formação também é interferido. Assim, se as cascas, conchas e esqueletos se tornarem mais finas e/ou deformados, estes organismos podem ser incapazes de funcionar corretamente. Muitos destes organismos são componentes-chave da cadeia alimentar, pois são importantes na dieta de krills, peixes, lulas, pingüins, focas e baleias (Cooley et al., 2009). Eles também são importantes na remoção de carbono de águas superficiais em direção ao oceano profundo e também para a liberação de oxigênio livre na atmosfera. Processos metabólicos importantes, tais como a respiração dos peixes, também podem ser prejudicados pela acidez, pois a redução do pH diminui a eficiência da troca de oxigênio em suas brânquias (McGonigal, 2008). É estimado que o nível de CO2 na atmosfera irá dobrar em relação o seu valor antes da Rev. Industrial até meados deste século. Segundo Feely et al. (2004), as alterações da química dos oceanos está mudando mais rapidamente do que em qualquer instante nos últimos 20 milhões de anos. Atualmente, este processo de acidificação dos oceanos já reduziu o pH superfície do oceano em cerca de 0,11, o que corresponde a um acréscimo de cerca de 30% na concentração de íons de hidrogênio. É esperado que este processo ainda continue a reduzir o pH até completar 0,3 unidades até 2100 se nada for feito para conter a liberação de CO2 para a atmosfera por atividades humanas (Orr et al., 2005). Se isso vier a acontecer, a água será 150% mais ácida que em 1800 em praticamente toda a extensão do globo terrestre. Dooney et al. 2009 ressalta que as regiões oceânicas mais próximas aos pólos seriam as primeiras a se tornar subsaturadas com relação a aragonita no decorrer do

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século XXI e, posteriormente, isso também aconteceria nas regiões tropicais. Nas projeções, as águas superficiais do Oceano Austral começarão a tornar-se subsaturadas com relação à aragonita até o ano 2050, atingindo o sub-ártico do Oceano Pacífico até 2100. Acredita-se que a acidificação registrada até agora é irreversível através de práticas antropogênicas (como a adição de cal). Por outro lado, os processos naturais que poderiam neutralizar a acidificação - como a erosão das rochas em terra firme - ocorrem em ritmo lento demais para fazer diferença em escala humana (delay entre os processos). De qualquer forma, por mais que fosse interrompida a emissão de CO2 hoje, ainda levariam dezenas de milhares de anos para que houvesse a recomposição química dos oceanos ao ponto de levar aos níveis anteriores ao período industrial.

Referências
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Questão 3
Estados múltiplos de equilíbrio entre vegetação e clima. Possivelmente, o melhor exemplo da importância da vegetação como fator formador do clima pode ser derivado da mudança abrupta de vegetação no Norte da África, de savana para deserto, no médio Holoceno. Explique que tipo de interação entre a superfície vegetada e a atmosfera possa ter ocorrido que possa explicar o caráter abrupto da mudança de vegetação (texto entre 1,5 e 3 páginas).

© Springer-Velarg Berlin Heidelberg 2005

Fig. 2.60. The abrupt change from savanna to desert in North Africa during the mid-Holocene: a change in the regional flux of solar radiation at Earth's surface due to a small change in the Earth's orbit; b simulated change in rainfall ultimately triggered by the change in incident solar radiation; c change in fraction vegetation cover in response to changing rainfall; and d model predictions (solid line) and observations (broken line) of the resulting increase in wind erosion and deposition of sand off the West African coast (Claussen et al. 1999; deMenocal et al. 2000)

Source: Steffen at al., 2004. Global Change and the Earth System. A planet under preassure. IGBP Book Series. Springer Verlag Chapter 2: Planetary Machinery: The dynamics of the earth system prior to significant human influence pg. 69.

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Resposta: Comparando com o longo período de condições úmidas, (entre aproximadamente 14.500 -5.500 anos atrás), nota-se que a desertificação da região do Saara e do Sahel ocorreu abruptamente. Os registros geológicos terrestres incluem uma ampla gama de datações, geralmente indicando que a transição para condições desérticas ocorreu ao longo de poucos séculos, em algum momento entre 5000 a 6000 anos atrás, especialmente na África Ocidental. No entanto, a história do clima do Saara Oriental parece ser um pouco mais complexa, e pode mostrar uma transição um pouco mais gradual, pontuado por outras flutuações (Pachur e Wunnemann, 1996). Todavia, é extremamente difícil estimar o tempo preciso dessa alteração para as condições desérticas do clima usando registros terrestres. Apenas poucos registros terrestres apresentam boa datação, uma vez que muitos dos registros de sedimentos de épocas do início e meados do Holoceno foram sendo erodidos nos últimos 5000 anos. Talvez a melhor evidência de uma transição abrupta vem de uma estudo realizado por deMenocal et al. (2000). Os autores apresentaram resultados de um registro marinho detalhado e de boa datação, proveniente de sedimentos terrígenos (erosão de rochas, levados pelo vento até o oceano), coletados ao largo da costa da Mauritânia e, presumivelmente, reflete as condições do Saara Ocidental. deMenocal et al. (2000) mostram claramente que houve uma transição abrupta das condição úmida para árida no Saara Ocidental em torno de 5.500 anos atrás. Entre 14.800 e 5.500, houve um período de baixo fluxo de sedimentos terrígenos na região, indicando condições de chuva, cobertura vegetal extensa, e pouca perda de sedimentos por perda de solo. Mas a partir 5.500 anos atrás, um aumento abrupto na quantidade de sedimentos terrígenos foi observado no núcleo de amostragem, indicando um declínio significativo na cobertura vegetal e, conseqüentemente, um aumento significativo de sedimentos trazidos pelo vento. Este grande aumento ocorreu dentro de algumas décadas ou séculos (último gráfico da figura do enunciado). Este aumento de sedimentos terrígenos, portanto, representa uma abrupta mudança de regime climático, pelo menos em comparação com o tempo geológico considerado. Essa mudança repentina no clima, nos ecossistemas e nos lagos do Saara e do Sahel tem sido difícil de explicar detalhadamente. Explicações convencionais do clima úmido durante o final do Pleistoceno e Holoceno sugerem que mudanças na radiação solar, causada por mudanças lentas na Terra órbita (variações Milankovitch - que incluem mudanças na inclinação, excentricidade e periélio) aumentou a força das chuvas das monções de verão. Simulações climáticas feitas em diferentes modelos, utilizando Modelos de Circulação da Atmosfera (GCMs), mostram como estas mudanças na órbita da Terra poderiam ter aumentado as chuvas na região do Sahel e do Saara durante o início e meio do Holoceno (Kutzbach & Guetter, 1986; deMenocal & Rind e 1993).

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As comparações entre as simulações GCM com dados geológicos paleoclimáticos mostram padrões gerais de acordo com o esperado sobre a zona do Sahara / Sahel, sugerindo que a hipótese das variações de Milankovitch está correta (Jolly et al., 1998). No entanto, estes eventos, por si só, não explicam a mudança abrupta de regime climático 5.500 anos atrás, pois os mesmos acontecem de forma suave e em um período mais longo. Para produzir tal mudança de regime, deve ter havido uma fonte de não-linearidade forte no sistema climático que permitiria uma mudança lenta na radiação solar incidente para causar um grande e mudança repentina no clima. Uma hipótese sugere que as interações entre a atmosfera e cobertura vegetal da região podem produzir este comportamento não-linear. Em vários GCM demonstram como as mudanças nas chuvas de monção no norte da África poderiam ter sido aumentadas através de feedbacks provenientes da expansão da cobertura vegetal (Kutzbach et al. 1996; Claussen, 1998; Claussen e Gayler 1997;), aumentando as áreas cobertas por lagos e áreas úmidas. Nesta hipótese, as variações na órbita terrestre levaram a chuvas de monção maiores nas regiões do Saara e do Sahel, aumentando assim o grau de cobertura de vegetação, lagos e áreas úmidas. O aumento da vegetação e de corpos d’água tem dois efeitos importantes sobre a água de superfície e o balanço de energia: a redução significativa no albedo e uma maior capacidade de reciclar a água para voltar à atmosfera através da evapotranspiração. O decréscimo do albedo e o aumento da capacidade de reciclar a água ajudam a monção a ganhar energia adicional e Figura 5 - Feedbacks entre vegetação e atmosfera sobre o Saara umidade, aumentando, portanto, as durante o Médio Holoceno. chuvas de verão e produzindo de um feedback positivo sobre as variações orbitais Figura 5. Claussen (1998) chegou a sugerir que estes feedbacks entre o clima e a vegetação tendem a reforçar duas alternativas de estados estáveis (ou regimes) para o norte da África: o estado "Saara Verde", e o estado "Saara Desértico". Examinando várias simulações com um modelo acoplado de clima- vegetação, Claussen descobriu que o sistema climavegetação poderia sustentar apenas o regime Saara Verde a 6000 anos atrás. No entanto, para situações mais recentes, Claussen descobriu que tanto um "Saara Verde" ou "Saara Desértico" foram resultados possíveis do modelo, dependendo das condições da vegetação inicial que foi estipulada no modelo. Isto sugere que em algum momento entre 6000 anos atrás e os dias atuais, as forças orbitais da Terra modificaram o sistema clima-vegetação ao

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longo do Saara partindo de apenas um estado estável (o " Saara Verde”) para um sistema com duas alternativas possíveis de estados estáveis (o “verde” ou o “desértico”). Depois destas conclusões de Claussen (1998), os questionamentos voltaram-se para a dúvidas quanto a real possibilidade destes feedbacks do clima-vegetação (e a existência das alternativas de estados estáveis no sistema atmosfera-biosfera) terem sido responsáveis pela rápida mudança de vegetação ao deserto à 5500 anos atrás. A partir de um modelo acoplado do oceano-atmosfera-biosfera de "complexidade intermediária", Claussen et al. (1999) demonstraram como essa mudança abrupta no clima poderia ter ocorrido, mesmo quando o clima estava sendo conduzido por mudanças lentas em órbita da Terra. Até recentemente, os modelos climáticos não tinham capacidade de simular o histórico climático completo do Holoceno; pois os tradicionais modelos GCM são muito caros computacionalmente para executar repetidas 10.000 anos de simulações. Mas o aparecimento de novos modelos climáticos computacionais eficientes de "complexidade mediata" permitiram explorar a feedbacks entre atmosfera, biosfera e oceanos muito mais facilmente. Com seu modelo de clima simplificado, Claussen et al. (1999) foram capazes de reproduzir uma mudança de regime importante para o clima e cobertura vegetal cerca de 5500 anos atrás (5440 anos atrás, ± 30 anos), incluindo apenas o acoplamento não-linear entre a vegetação e a atmosfera. No modelo, uma redução gradual da precipitação das monções ( através de mudanças lentas forçadas pelos eventos Milankovitch) continuou até aproximadamente 5500 anos atrás. Depois deste período, a precipitação decaiu muito em apenas alguns séculos por causa dos efeitos dos fortes feedbacks entre clima-vegetação. Os resultados relatados por Claussen et al. (1999) sugerem que o sistema climático vegetação cruzou um limiar por volta de 5.500 anos atrás, onde reduções graduais nas chuvas (causada por mudanças lentas na órbita da Terra) foram repentinamente amplificadas por meio de mecanismos de feedback da superfície terrestre. Parece que o sistema clima-vegetação manteve um regime climático do “Saara Verde” o maior tempo possível durante o Médio Holoceno e ,logo em seguida, fez a transição para o regime do “Saara Desértico”, quando as chuvas que eram necessárias não puderam mais ser mantidas na Zona do Saara. De acordo com Claussen et al. (1999), o papel dos oceanos era relativamente pequeno. Em suas simulações, o estado dos oceanos influenciou no timing da mudança (que poderia serem um intervalo entre 5800 e 5300 anos atrás para o início da desertificação), mas os feedbacks dos oceanos não eram necessários para produzir a mudança de regime climático.

Referências

Claussen M. 1998. On multiple solutions of the atmosphere–vegetation system in present-day climate. Global Change Biol4:549 –59.

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3ª Lista: Questão 1 Explicar a equação de Clausius-Clapeyron da termodinâmica aplicada ao ar úmido. Qual a relação desta equação com o efeito estufa atmosférico? Resposta: De acordo com a equação de Clausius-Clapeyron, a pressão do vapor de saturação e a umidade específica de saturação do ar são funções quasi-exponencial da temperatura. A pressão de vapor é a pressão exercida pelas moléculas de vapor d’água no ar. Conforme o número de moléculas de vapor d’água aumenta, a pressão de vapor também aumenta, sendo esse fenômeno diretamente ligado com a energia cinética das moléculas de vapor d’água que, por sua vez, é produto da energia térmica transmitida à elas pela atmosfera. A equação de Clausius-Clayperion para a pressão de vapor de saturação pode ser descrita da seguinte forma: es = 611 Pa exp(Lv/Rv)[(1/273.15K) – (1/T)] sendo: es a pressão de vapor de saturação, Lv o calor latente de evaporação (2.5 x 106 J kg-1), Rv a constante de gás para o vapor d’água (461 J kg-1 K-1), T a temperatura, em Kelvins. A Figura 6 apresenta a variação da pressão de vapor de saturação conforme o aumento de temperatura.

Figura 6 - Variação do Vapor de Saturação sobre uma superfície líquida conforme a variação da temperatura.

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Desta forma, temperaturas mais elevadas na permitem uma maior quantidade de vapor de água na atmosfera. Estima-se que o aumento de cada grau Celsius (1 °C) aumente a capacidade de retenção de água na atmosfera em 6% (Wentz, 2007). Como o vapor d’água é considerado um dos gases mais influentes do efeito estufa, aqui está o problema. Na atmosfera, as moléculas de água capturam o calor irradiado pela terra e, em seguida, irradiam-no novamente em todas as direções, aquecendo a superfície da terra, antes de este ser radiado de volta para o espaço. Como as ações antrópicas praticamente não acrescentam vapor d’água na atmosfera, o único jeito de alterar sua concentração é conforme a equação de ClausiusClayperion. Ou seja, caso haja um aumento na temperatura global devido a outros fatores, como por exemplo, devido a elevação dos níveis de CO2 devido a queima de combustíveis fósseis, teremos um forte feedback positivo favorecendo o aquecimento global (Figura 7). O efeito de radiação do vapor de água é aproximadamente proporcional ao logaritmo da sua concentração na atmosfera. Assim, a influência de um aumento do teor de vapor de água será maior em locais onde a sua concentração é relativamente baixa em condições imperturbável, como na alta troposfera.

Figura 7 – Esquema gráfico representando o feedback positivo do vapor d’água após perturbações na temperatura atmosférica (fonte: Dessler & Sherwood, 2002).

Como apresentado na Figura 7, com o aumento da temperatura, as taxas de evaporação se elevam (aumento da umidade), podendo deixar a atmosfera saturada de vapor de água com maior facilidade. Quando isso acontece, ao encontrar núcleos de condensação, este vapor d’água “disponível” pode formar nuvens que eventualmente precipitam (há excesso de água na forma líquida). Há alguns indícios, portanto, que o aumento do vapor de água na atmosfera com o aquecimento global poderia aumentar os níveis de precipitação, principalmente nas regiões tropicais. Desta forma, a partir de modelos de simulação da interação atmosfera-biosfera prevêem incrementos nas taxas de precipitação em escala global, em torno de 1,5 – 2%, sendo este efeito ainda mais intenso nas regiões tropicais (Allen, 2002). Há, entretanto, dúvida sobre um possível feedback negativo para o aquecimento global, onde a alegação é que, dependendo do tipo e da altitude da nuvem formada, estas poderiam ajudar na interceptação da radiação solar que, conseqüentemente, diminuiria a temperatura na superfície terrestre (Dessler, 2002).

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Referências
Allen. M. R; Ingram, W. J. Constraints on Future Changes in Climate and the Hydrologic Cycle, 2002. Nature 418, p. 224. Dessler, A. E.; Sherwood, S. C. - A Matter of Humidity, 2002. Science 323, p. 1020–1021. Goosse H., P.Y. Barriat, W. Lefebvre, M.F. Loutre and V. Zunz - Introduction to climate dynamics and climate modeling. Livro online em: <http://www.climate.be/textbook> Wentz, F. J. How Much More Rain will Global Warming Bring?, 2007. Science 317, p. 233-237.

Questão 2: Descrever o evento de Younger Dryas e oferecer explicações sobre sua provável origem. Resposta: Após o término da última era glacial (Pleistoceno), na transição para o atual período interglacial (Holoceno), cerca de 12.800 e 11.500 anos atrás, a Terra passou por um período de mudanças bruscas do clima, sobretudo no Atlântico Norte, Europa e a Costa do Canadá (Muscheler et al., 2008). Pesquisas sobre este evento demonstram que num período muito curto te tempo, cerca de algumas décadas, houve um resfriamento intenso da temperatura terrestre (~7 °C), diminuindo ainda mais, gradativamente, por 1.300 anos, quase levando a um novo período de glaciação. Mais abrupto ainda foi seu término, de modo que a temperatura elevou cerca 10 °C em apenas uma década (Cuffey e Clow, 1997 ). Este evento foi chamado de Younger Dryas, que denota à uma planta arbustiva de nome Dryas octopetella, que se desenvolve em temperaturas muito baixas. O primeiro indício deste evento veio após serem encontradas camadas fósseis de tundra (habitat da Dryas octopetella) sobrejacentes a camadas de floresta (o que indica que foi precedido de uma período mais quente), na Escandinávia. Embora os primeiros estudos tenham sido voltados para o Norte europeu, o Younger Dryas - também chamado de Big Freeze - é claramente observável nos registros paleoclimáticos de muitas partes do mundo. Na Bacia de Cariaco, ao Norte da Venezuela, por exemplo, as

Figura 8 – Registros durante Younger Dryas (barra em azul) em algumas partes do mundo: GISP2 na Groenlândia, Cariaco na Venezuela e Dome C na Antártica. Fonte: Alley, 2000.

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temperaturas diminuíram cerca de 5°C no mesmo período (Figura 8), embora parte deste resfriamento possa ter sido ocasionado devido à um maior afloramento de águas gelados do subsolo, como ressalta Lea et al. (2003). Alguns estudo que apontam também para efeitos em pontos mais longínquos, alcançando até mesmo as altas altitudes do Tibet (Tschudi et al., 2002) e o Sudeste Asiático (Maloney, 1995). Em várias partes próximas aos trópicos do Hemisfério Norte, as condições impostas por tais alterações climáticas deixou o ar mais seco, devido as baixas taxas de evaporação por causa do clima frio (Wang et al., 2001). No entanto, registros do núcleo de gelo na estação Dome C indicam que na Antártica os efeitos foram outros (Figura 8). Os dados mostram que as mudanças climáticas na Antártica estavam fora de fase com aquelas observadas no Hemisfério Norte (EPICA, 2004). Em Dome C, a quantidade do isótopo de hidrogênio (deutério - δD), é correlacionado com a temperatura. O registro de deutério indica que, ao contrário dos registros Hemisfério Norte, as temperaturas foram relativamente mais frias antes do Younger Dryas, e foram aumentando durante o evento (evento chamado Antarctic Cold Reversal). Existem várias hipóteses que tentam explicar e/ou reproduzir o Younger Dryas, havendo ainda muita incerteza sobre detalhes do evento. A mais aceita atualmente foi proposta por Broecker & Denton (1989) e Broecker (2006) e ajuda também a compreender o que aconteceu na Antártica. Segundo estes trabalhos, durante a transição do Pelistoceno para o Holoceno, especificamente no início do degelo no primeiro período de aquecimento (chamado Bolling-Allerød), o derretimento gradual da Placa de Gelo Laurentide (Canadá e Norte dos Estados Unidos) formou, em sua região meridional, um grande lago - Lago Agassiz - região onde se localiza atualmente os Grandes Lagos (Figura 9). Este lago possuía uma saída de fluxo em direção ao Sul, atravessando o rio Mississippi, que transportava água doce com saída no Golfo do México.
Figura 9 - Alterações na circulação termoalina, enfraquecendo a Corrente do Golfo e NorteAtlântica. (Fonte: Uriarte, 2003).

Com o aquecimento vindo do Bolling-Allerød, houve o derretimento de uma barreira de gelo que se encontrava na porção oriental do Lago Agassiz, que não permitia o fluxo de água doce até o Atlântico Norte. Sem esta barreira, o grande aporte de água doce vindo da Placa de Laurentide começou a escoar sistema de drenagem do Rio São Lourenço, ao invés de descer pelo Rio Mississipi. Esta entrada de água doce no Atlântico Norte teria ocasionado uma forte queda na salinidade e densidade da água do mar nas camadas superficiais, o que atrasou o mecanismo de subsidência e produção em águas profundas (North Atlantic Deep Water). Conseqüentemente, houve o enfraquecimento do sistema de circulação termoalina e, com ela, da Corrente do Golfo e Norte-Atlântica

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(correntes oceânicas de água quente). Desta forma, a porção do Atlântico Norte foi submetida, novamente, a um longo período resfriamento que durou mais de mil anos, caracterizando o Younger Dryas. Eventualmente, como o fluxo de água de degelo diminuindo, a circulação termoalina foi sendo fortalecida novamente e o clima se recuperando. O registro do Dome C na Antártica suporta a explicação proposta por Broecker. Se a circulação termoalina fosse enfraquecida, menos calor seria transportado do Atlântico Sul para o Atlântico Norte (Crowley, 1992). Isso faria com que o Atlântico Sul começasse a aquecer e do Atlântico Norte esfriar. Este padrão, às vezes chamado de "gangorra bipolar" (bipolar seesaw, em inglês), é observável quando se compara os registros do GISP2 (retirados na Groelândia) e Dome C para o período do Younger Dryas (ver Figura 8). Sob este mesmo aspecto é importante observar o segundo período de grande descarga de água doce após o Dryas recente (linha inferior vermelha). Curiosamente, esta descarga não causou mudanças climáticas semelhantes ao Younger Dryas. Uma possível explicação para isso é que, após o término do evento, a circulação termoalina tinha-se tornado mais forte, uma vez que o clima, finalmente, tinha entrado no período interglacial. Embora a teoria proposta por Broecker seja aceitável em alguns aspectos, sua maior contribuição talvez seja o argumento do enfraquecimento da circulação termoalina, embora existam várias críticas sobre a causalidade deste fenômeno. Eisenman et. (2009) alegam que não existem evidências gelológicas para afirmar que houve a retirada da “tampa” (barreira de gelo) para liberar o fluxo de água doce pelo Rio São Lourenço. Segundo estes autores, as mudanças topográficas devido ao enorme degelo da Placa Laurentide acarretariam num intenso aumento de precipitações sob o Atlântica Norte, o que já seria o suficiente para enfraquecer a circulação termoalina. Como conseqüência destas mudanças climáticas abruptas, algumas evidências apontam para a extinção de algumas espécies de animais na América do Norte, tais como mamutes, mastodontes, preguiças, antas, e muitos outros grandes mamíferos que desapareceram no início do Younger Dryas. Neste mesmo período, a civilização Clovis (ou Cultura Llano) também desapareceu. Entretanto, não se sabe ao certo se isso está ligado diretamente ao resfriamento prolongado, ao declínio na megafauna devido as suas ações predatórias, ou até mesmo a queda de um meteoro (que em algumas hipóteses também é apontado como causa do Younger Dryas). De qualquer forma, o Younger Dryas se demonstra como um dos eventos mais intrigantes para a ciência moderna, demonstrando que as mudanças climáticas globais, mesmo em um sistema dito “natural”, podem ser disparadas a partir causas regionais interconectadas a uma série de fatores que, quando ultrapassados certos limites, causam mudanças bruscas em poucos anos, podendo trazer consigo efeitos devastadores. Este indícios merecem ser melhor compreendidos num mundo onde diversos limites planetários já foram ultrapassados em apenas 150 anos.

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Referências Alley, R.B., Meese, D.A., Shuman, C.A., Gow, A.J., Taylor, K.C., Grootes, P.M., White, J.W.C., Ram, M., Waddington, E.D., Mayewski, P.A., Zielinski, G.A., 1993. Abrupt increase in Greenland snow accumulation at the end of the Younger Dryas event, 1993. Nature 362, p. 527–529. Alley, R.B. 2000. The Younger Dryas cold interval as viewed from central Greenland. Quaternary Science Reviews 19: 213-226 Broecker, W.S.; Denton, G.H. The role of ocean-atmosphere reorganizations in glacial cycles. 1989. Geochimica et Cosmochimica Acta 53, p. 2465–2501. Broecker W.S., 2006, Was the Younger Dryas triggered by a flood?: Science, v. 312, p. 1146– 1148. Crowley, T.J. 1992. North Atlantic deep water cools the Southern Hemisphere. Paleoceanography 7, p. 489-497. Cuffey, K.M. and Clow, G.D. 1997. Temperature, accumulation, and ice sheet elevation in central Greenland through the last deglacial transition. Journal of Geophysical Research 102. EPICA community members. 2004. Eight glacial cycles from an Antarctic ice core. Nature 429, p. 623-628 Maloney, B. K. Evidence For The Younger Dryas Climatic Event In Southeast Asia, 1995. Quaternary Science Reviews, v.14, p. 949-958. Muscheler, R., Kromer B., Björck S., Svensson A., Friedrich M.,. Kaiser K. F, Southon J., 2008. Tree rings and ice cores reveal 14C calibration uncertainties during the Younger Dryas. Nature Geoscience 1 (4), p.263–267. Tschudi S.; Schafer J.M.; Zhao Z.; Wu X.; Ivy-Ochs S.; Kubik P.W.; Schluchter C., 2003 Glacial advances in Tibet during the Younger Dryas? Evidence from cosmogenic 10Be, 26Al, and 21Ne. Journal of Asian Earth Sciences, v, 22-4, p. 301-306. Uriarte, A. El Younger Dryas, 2003. Site da Universidad Del País Vasco, disponível em: <http://homepage.mac.com/uriarte/youngerdryas.html> Acessado em: 02 de Junho de 2011. Wang, Y.J., Cheng, H., Edwards, R.L., An, Z.S., Wu, J.Y., Shen, C.C., and Dorale, J.A., 2001. A high-resolution absolute-dated Late Pleistocene monsoon record from Hulu Cave, China. Science 294:, p.2345-2348.

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Questão 3:
Conforme a figura abaixo da representação 3D da distribuição espacial de CO2, vemos que no equador, o CO2 atmosférico na camada limite marinha (camada da atmosfera próximo à superfície) é mais baixo que o CO2 da região do hemisfério norte. Explique a razão deste padrão de registros de CO2 atmosférico

OBS: Professor, mudei a figura porque esta tem uma projeção até 2008 (a outra era até 1998). Mas a interpretação continua sendo a mesma. Resposta: A diferença sazonal observada nas concentrações de CO2 atmosférico entre o Hemisfério Norte e a região Equatorial está relacionada com a atividade fotossintética realizada pelo tipo de vegetação dominante em cada região que, por sua vez, é fruto da diferença de radiação incidente em cada período do ano. No Hemisfério Norte predomina a vegetação do tipo decidual. Nos períodos com temperaturas mais baixas - Dezembro-Fevereiro - a alteração da inclinação do eixo de rotação da Terra faz com que menos radiação seja recebida nessa parte da superfície terrestre e diminui drasticamente a temperatura (IGBP, 2003). Desta forma, as espécies deciduais desenvolveram um mecanismo de compensação para contornar a baixa disponibilidade de água na atmosfera e solo que é comum nestes períodos, devido a baixa evaporação potencial ocasionada pela baixa temperatura. Assim, estas plantas perdem suas folhas para reduzir sua atividade fotossintética como forma de evitar a perda de água por

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evapotranspiração, pois haveria a abertura dos estômatos como forma de capturar mais CO2. Com a queda das folhas há um acúmulo de CO2 na atmosfera (+12 ppm) até que as temperaturas começarem a subir novamente. É neste período de temperaturas baixas que são observados as máximas na figura do enunciado. Em contra-partida, no Hemisfério Norte o período entre Maio-Setembro é caracterizado pela elevação da temperatura e, conseqüentemente, da umidade do ar. Portanto, essas plantas recompõem suas folhas e aumentam sua eficiência fotossintética, abrindo seus estômatos e capturando novamente CO2, fazendo com que haja uma queda na concentração de CO2 atmosférico. Na região do Equador a vegetação predominante não precisou desenvolver este tipo de mecanismo de queda das folhas, pois os níveis de temperatura e umidade do ar não sofrem alterações tão bruscas, havendo, portanto, apenas uma pequena variação (cerca de ±1 ppm) que acontece nos períodos opostos ao Hemisfério Norte. Além disso, as florestas das regiões próximas ao Equador se demonstram mais densas, capazes de manter níveis maiores de umidade em seu domínio. Há uma outra diferença observada no gráfico do enunciado, que corresponde a níveis maiores de CO2 nas regiões setentrionais. Esta diferença pode ser explicada pela maior proporção de terra que existe ao Norte do planeta e, conseqüentemente, a maior quantidade de organismos heterotróficos (que libera CO2). Estes organismos atingem máxima atividade de 1 a 3 meses após o pico de consumo de CO2 pela vegetação, como fruto do atraso do aquecimento do solo devido ao solstício de inverno.

Referências IGBP - Global Change and the Earth System: A planet under pressure. Springer-Verlag, 2003.

Questão 4: No Box 3.1 do capitulo 3 do livro (The Syndromes Approach to Place-Based Assesment) há um exemplo sobre “Syndromes of change” (Petschel-Held et al. 1999). Esta abordagem é baseada na hipótese em que processos similares de interações ou padrões do homem-meio ambiente ocorrem repetidamente em torno do planeta. Tais padrões podem ser descritos ou identificados através da análise de estudos de casos, e que eles podem ser quantitativamente modelados para avaliar as vulnerabilidades relativas de locais específicos para vários fatores de forçantes. A identificação das síndromes leva em consideração um número de fatores, de local a global. O livro dá o exemplo da Síndrome de Sahel, que se baseia no sobre uso da agricultura de habitats limitados em recursos. Este exemplo não se refere apenas a região de Sahel, mas também vê a região como um estudo de caso para um padrão de interação entre homens e natureza. Dê um outro exemplo do conceito de “Syndromes of change” e explique.

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Resposta
A abordagem de Síndrome das Mudanças Globais é baseada na hipótese que semelhantes interações entre o desenvolvimento humano (ou padrões de desenvolvimento) ocorrem repetidamente ao redor do planeta e podem ser qualitativamente modelados para representar vulnerabilidades de locais específicos à diversos fatores indutores. Esta análise utiliza diversos fatores, tanto de escala local, quanto global. As síndromes seriam o conjunto de processos naturais e antrópicos que levam a um estado altamente degradante do meio ambiente e que pode ser explicado através das interações entre a estrutura econômica, social, cultural, tecnológica, climática e ambiental da região. Quando uma síndrome é identificada, é possível fazer uma modelagem a partir de todos os fatores atuantes que são identificados. Este padrão observado, que corresponde a um conjunto de variáveis de diferentes campos da ciência, é então utilizado como base para as análises conseguintes. Estas análises visam correlacionar o quão próximo (ou distante) destes padrões estão os outros locais do globo, a partir da realidade observada em cada “ponto” modelado do espaço, onde a resposta seria a espacialização da vulnerabilidade (ambiental, social, cultural, econômica e climática) de cada região em desenvolver a síndrome analisada. Neste tipo de modelagem também é importante definir, qualitativamente, a relação entre os diversos fatores que a compõe. É visto que a identificação da sinergia entre estes fatores leva não só a uma melhor acurácia do modelo, como também ajuda na identificação/valoração de variáveis que apresentam uma alta complexidade de se mensurar. Além disso, uma completa descrição destas interações se faz necessário pois, devido a diversidade das características sociais e econômicas, uma mesma interação entre dois fatores não reproduz, necessariamente, a uma mesma resposta. Ou seja, é preciso que as interações entre os fatores sejam identificadas a partir da sua interferência para o desenvolvimento de um sintoma específico daquela síndrome, sendo descartadas situações que fogem deste contexto. Portanto, ainda que o modelo em questão não aponte uma vulnerabilidade para o desenvolvimento da síndrome em sua totalidade, é possível representar vulnerabilidades específicas de cada sintoma. Muitas vezes, estes sintomas se arranjam de formas diferentes em outros locais, podendo causar novas síndromes. Nestes aspecto, foram catalogados 16 tipos de síndromes das mudanças globais (Figura 10), onde a mais conhecida trata-se da Síndrome de Sahel, que foi o estudo de caso pioneiro nesse tipo de abordagem, sendo a Síndrome de Superexploração a escolhida para ser discutida.
Figura 10 - Principais tipos de Sindromes (Schellnhuber.1997)

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Síndrome de Superexploração dos Ecossistemas Naturais

A Síndrome de Superexploração é caracterizada pela transformação de ecossistemas naturais através da superexploração dos recursos biológicos. Alguns ecossistemas (como florestas, savanas, etc.) são superexplorados sem levar em conta sua capacidade de regeneração (resiliência), resultando em graves danos ao equilíbrio natural. Importantes efeitos desta síndrome podem ser de âmbito global, tais como o efeito de estufa através de emissões líquidas de CO2 induzidas por alterações na cobertura de terra, a perda de biodiversidade, e migração transfronteiriça conforme a escassez local dos recursos explorados (Houghton, 1999). Uma outra conseqüência da Síndrome de superexploração é o efeito negativo sobre o crescimento econômico no país onde a síndrome se desenvolve. Essencialmente, esta interação reflete a ameaça à consolidação de uma base econômica de um certo país, devido ao aumento das disparidades econômicas internacionais que vão ocorrendo quando é estabelecida uma crise pela superexploração – conseqüente escassez de certos recursos. O único feedback que oferece um impacto global relevante e que afeta a dinâmica da síndrome é o aumento de acordos internacionais e criação de instituições através do aumento conscientização ambiental. Este feedback, que pode enfraquecê-la, compete com o mecanismo central da síndrome: persistindo as forças motrizes (indutores), a Síndrome de Sobrexploração é reproduzida na Região B vizinha, quando se esgotou a Região de A devido a completa exploração de seus recursos (chamado "efeito sparkler" por Petschel-Held, 1999). A maior causa antrópica pode ser exemplificada pelo uso das florestas por empresas multinacionais na indústria madeireira, as quais não concebem um plano de gestão para o longo prazo, mas sim para curto prazo, voltando-se para maximização do lucro. Muitas vezes, como no caso Brasil, isso acontece de forma ilegal e migrando por diversas áreas conforme há a devastação da mata nativa. Portanto, o fator político também reflete características importantes para o desenvolvimento da síndrome, principalmente quanto a presença do Estado nas questões ambientais e a existência de subsídios para promover esses tipos de atividade. Além disso, segundo Ludeke et al. (2004), a corrupção é um fator importantíssimo para o desenvolvimento da síndrome, de forma que induz diversas ações de forma indiscriminada, motivadas pela impunidade. A influência de uma empresa em agravar a síndrome está diretamente ligada à sua área de atuação (por exemplo, internacional) e sua ineficiência operacional (gerando desperdícios). Na Indonésia, por exemplo, em meados da década de 1990, apenas 43% da madeira cortada foi efetivamente transformada em produtos, sendo os outros 57% resíduos (lixo). Conforme Dudley et al. (1996), em países em desenvolvimento recémindustrializados, a proporção da quantidade de resíduos gerado é um pouco mais favorável, representando 45% do total explorado. A exploração excessiva dos recursos biológicos que não estão proibidos (ou até mesmo aqueles que são incentivados) pela política nacional pode ser estimulada,

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basicamente, por dois fatores: primeiro, o uso para o aumento de energia (lenha, como no caso da Índia) e matérias-primas (produtos de madeira); segundo, mudanças quanto a sua demanda. Ao olhar para a lógica do processo da Síndrome de Superexploração, seu ponto de origem é um mercado lucrativo, que é diretamente impulsionado pelo aumento da demanda global (globalização dos mercados). No últimos anos, além da alta demanda combinada com grande poder de compra nos países industrializados, tem havido também uma crescente demanda doméstica por parte de países recém-industrializados em desenvolvimento (ex: Malásia), que está ligado a disseminação global dos padrões ocidentais de estilo de vida e consumo. Em alguns países industrializados no passado recente, a demanda por madeiras de regiões tropicais tem caído ou está estagnada. Isto é conseqüência de parâmetros que foram alterados no comércio mundial (como aumento dos acordos internacionais), e também resultado de mudanças comportamentais dos consumidores e/ou uma sensibilização crescente para os problemas globais na opinião pública. O debate sobre a introdução de um processo para classificação dos produtos (certificação) é característico desse comportamento, de forma que mercados internacionais começaram a exigir alguns “selos” de qualidade para que haja a comercialização destes recursos (no caso da madeira, uma certificação reconhecida é dada pelo Forest Stewardship Council - FSC). As tecnologias empregadas na colheita e processamento de recursos e a forma de consumo desempenham um papel crucial na determinação do montante da demanda. De um lado, tem-se a automação e mecanização, onde a ampla disponibilidade da motosserra ou equipamentos pesados para o processamento de madeira são exemplos desse fenômeno (ou seja, o acesso facilitado destas tecnologias favorece a síndrome). Por outro lado, tem que ser considerado que as manobras possíveis por parte do Estado pode levar a uma situação em que a infra-estrutura oferecida, que favorece a superexploração, deixa de ser acessível (ex: proibir tráfegos de veículos pesados em estradas que cortam regiões que devem ser preservadas). Uma outra força motriz que favorece bastante para a Síndrome de Superexploração é o endividamento internacional, comum em países em desenvolvimento (Khan e McDonald, 1995), que pode enfraquecer a relação de responsabilidade do Estado sob as atividades de exploração quando se tornam dependentes destas (principalmente na questão de impostos) para contornar seu endividamento. Uma última conseqüência ao tratar a madeira como recursos, é a ameaça causada às comunidades indígenas. Muitas vezes, seu direito de propriedade é extinto quando as florestas tornam-se propriedade do governo e, como comumente acontece no Brasil, as reservas oferecidas à estas comunidades não oferecem proteção suficiente para resistir as ações de exploração. Ao destruir seu habitat, muitos índios se deslocam para assentamentos rurais ou urbanos, onde estão sujeitos a marginalização social e econômica.

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Referências Dudley, N.; Jeanrenaud, J. P.; Sullivan, F. - Bad Harvest? The Timber Trade and the Degradation of the World’s Forests, 1996. Earthscan, Londres. Khan, J.R.; McDonald, J.A.. Third-world debt and tropical deforestation, 1995. Ecol. Econ. 12(2), p. 107–123. Lüdeke, M. K. B., Petschel-Held G., Schellnhuber H. J. Syndromes of global change: The first panoramic view, 2004. GAIA 13(1):42-49. Petschel-Held, G., A. Block, M. Cassel-Gintz et al. 1999. Syndromes of global change: A qualitative modelling approach to assist global environmental management. Environmental Modeling Assessment, 4. p. 295–314. Schellnhuber, H. J.; Block, A.; Cassel-Glintz, M.; Kropp, J.; Lammel G.; Lass, W.; Liekamp, R.; Loose, C.; Ludeke, M. K. B.; Moldenhauer, O.; Petschel-Held, G., Plochl, M.. Syndromes of Global Change, 1997. Publicado em: Gaia 6(1): 19-34.