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Artigo – Revista Veja

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O que ocorre com gêmeos univitelinos
Por Mayana Zatz

Doutora, dois gêmeos univitelinos são clones naturais porque originam-se de um mesmo zigoto. Ainda assim, alguns gêmeos deste tipo são mais semelhantes que outros. Isso ocorre por que o zigoto não consegue se dividir exatamente igual durante o processo? Também por isso, dois gêmeos jamais poderão ser exatamente iguais? (Paulo) Gêmeos idênticos jamais são iguais Por Mayana Zatz Você tem toda razão. Gêmeos idênticos não são exatamente iguais. Quem convive com eles sabe disso. Mas sempre se acreditou que gêmeos monozigóticos (MZ) ou idênticos tinham o mesmo DNA. Pois bem, uma pesquisa liderada pelo cientista americano Jan Dumanski, publicada em março no American Journal of Human Genetics, pode derrubar esse paradigma. Os pesquisadores compararam o DNA de 19 gêmeos monozigóticos e surpreendentemente eles encontraram diferenças no perfil do seu DNA, tanto naqueles muito semelhantes como naqueles diferentes ou discordantes. Essa descoberta pode revolucionar as pesquisas em doenças complexas como diabetes, Parkinson ou algumas formas de câncer. Diferenças eram atribuídas só ao ambiente Durante muito tempo acreditamos que as diferenças entre gêmeos idênticos seriam por causas ambientais. E isso inclui o ambiente uterino. Por exemplo, sabemos que a posição no útero ou a maneira como cada bebê se conecta a placenta podem determinar que um receba mais nutrientes do que o outro e portanto seja maior ao nascer. Essa diferença de peso e tamanho pode perpetuar-se durante a vida. Mas o ambiente extra uterino teria uma influência muito maior no desenvolvimento de inúmeras características ou mesmo doenças que acometem de forma diferente os gêmeos idênticos. Com o avanço da genética estamos vendo que as coisas são mais complexas. Influências ou mecanismos epigenéticos Os genes se expressam de modo diferente, de acordo com determinadas variáveis. Isto é, por mecanismos ainda pouco conhecidos denominados epigenéticos, nossos genes são ativados ou silenciados como se fossem um acelerador ou um breque. Essas alterações que não são transmitidas aos nossos descendentes — por isso o nome epigenético e não genético — podem variar entre gêmeos mesmo idênticos. Essas diferenças aumentam com a idade e com o período de tempo em que os gêmeos permanecem separados, o que comprova a influência ambiental. Mas mecanismos

comparando não só o DNA do sangue. É assim que me sinto. fumo. A variação no número de cópias de segmentos de DNA pode estar associada a genes que aumentam a predisposição para determinadas doenças em apenas um dos gêmeos. mas também de outros tecidos.epigenéticos podem ocorrer também no útero o que explicaria a existência dessas diferenças já ao nascer. toda vez que ocorria uma doença ou uma característica específica em apenas um dos gêmeos.. Por outro lado. Antes deste estudo. stress etc… na tentativa de uma explicação. poderiam ajudar a ciência a desvendar os mecanismos epigenéticos envolvidos. em que um apresenta câncer e o outro não. Se realmente for confirmado que eles não possuem o mesmo DNA. Os pesquisadores compararam o DNA tirado de sangue periférico de 19 gêmeos idênticos e encontraram variabilidade no número de cópias de segmentos de DNA. É um novo campo que se abre. gêmeos idênticos também não têm o mesmo DNA. Embora o estudo deva ser repetido com uma amostra maior. Gêmeos idênticos podem não ser idênticos O estudo liderado pelo doutor Dumanski sugere que além das influências epigenéticas. esses resultados preliminares podem revolucionar o estudo das causas de inúmeras doenças complexas como diabetes. Tenho um pôster em casa com um macaco coçando a cabeça que exclama: Quando aprendi todas as respostas eles mudaram todas as perguntas. a conclusão era de eles haviam sido expostos a ambientes diferentes. . Casos de gêmeos idênticos. Quando aprendi todas as respostas…. acredita-se que alterações epigenéticas podem ser responsáveis por algumas formas de câncer. Mal de Parkinson ou certas formas de câncer. essas diferenças podem ter uma causa genética muito mais importante. E lá iam os cientistas em busca das causas ambientais: hábitos alimentares.