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Aspectos da produção teórica
e da organização do arquivo de
documentos do geógrafo Milton Santos
Flavia Grimm
1
O geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001) participou ativa-
mente, por mais de cinco décadas, de importantes debates teóricos ocorridos
ao longo da história da disciplina escolhida por ele como área de estudo.
Sua obra é composta por 40 livros, 15 trabalhos de editoria, 21 publicações
menores e cerca de 380 artigos científicos, além de entrevistas, apresen-
tações, prefácios e matérias de jornal. Essa vasta produção é marcada por
continuidades e descontinuidades.
Viveu e lecionou em diferentes lugares do mundo – em cidades no
continente americano, na África e na Europa. Graduado em direito, no ano
de 1948, atuou nessa área por poucos anos. Foi também jornalista e edito-
rialista, além de ter ocupado cargos públicos administrativos. No entanto,
foi principalmente como professor e pesquisador em geografia que parti-
cipou de diferentes debates de ideias no Brasil e fora dele.
Ao longo de mais de cinco décadas, Milton Santos trabalhou incan-
savelmente na construção de uma geografia que ultrapassasse o método
descritivo
2
e fosse composta por um corpus teórico e instrumentos de
análise capazes de explicar o mundo e os lugares.
: Aluna do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana do Departamento de
Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da Universidade de São
Paulo. Desenvolve, atualmente, a pesquisa de doutorado A trajetória epistemológica de
Milton Santos: uma contribuição à teoria geográfica, sob a orientação da Profa. Dra.
María Laura Silveira e com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo (Fapesp). E-mail: flaviagrimm@usp.br
z Importantes debates foram realizados na história do pensamento geográfico sobre o
caráter descritivo da Geografia, dentre os quais destacamos aqui: CHOLLEY, André.
La geographie. Guide de l’étudiant. Paris: Presses Universitaires de France, :g¡z; LE
LANNOU, Maurice. La géographie humaine. Paris: Flammarion, :g¡g; DARDEL, Eric.
L’homme et la terre. Nature de la réalité géographique. Paris: Presses Universitaires de
France, :g¸z; BRUNHES, Jean [:g¸b] Geografia humana. Rio de Janeiro: Editora Fundo
de Cultura, :gbz; CLAVAL, Paul. La pensée géographique. Introduction à son histoire.
Paris: Société d’Édition d’Enseignement Supérieur, :g¡z; SANTOS, Milton. Por uma geo-
grafia nova: da crítica da geografia a uma geografia crítica. São Paulo: Hucitec/Edusp,
:g¡S; BERDOULAY, Vincent. La formation de l’école française de géographie (:8;c-:,:¡).
Paris: Bibliotèque Nationale, :gS:; MORAES, Antonio Carlos Robert [:gSb] A gênese da
geografia moderna. São Paulo: Hucitec/Edusp, z. ed., zooz; CAPEL, Horacio [:gS¡] Geo-
grafia humana y ciencias sociales: una perspectiva histórica. Barcelona: Montesinos, z.
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Nosso desejo explícito é a produção de um sistema de ideias que seja,
ao mesmo tempo, um ponto de partida para a apresentação de um
sistema descritivo e de um sistema interpretativo da geografia. [...]
Descrição e explicação são inseparáveis. O que deve estar no alicerce
da descrição é a vontade de explicação, que supõe a existência prévia
de um sistema. Quando este faz falta, o que resulta em cada vez são
peças isoladas, distanciando-nos do ideal de coerência próprio a um
dado ramo do saber e do objeto de pertinência indispensável.
3
É sobre sua importante contribuição para a construção de uma teoria
geográfica, a partir de um complexo sistema de ideias, que trataremos aqui.
Para isso, ressaltaremos alguns aspectos centrais de sua trajetória teórica,
que inclui a sistematização de seu arquivo de documentos
4
.
Um tópico fundamental na edificação desse complexo sistema de
ideias é o constante processo de mediação entre a teoria e as manifestações
do real. Se o mundo não é o mesmo nos diferentes momentos históricos, o
arcabouço teórico precisa acompanhar tais mudanças para não perder seu
valor de explicação e análise. Dessa forma, há um incansável esforço de
revisão do próprio sistema conceitual por parte do autor. Inúmeras pesquisas
empíricas, feitas e dirigidas pelo geógrafo, são um dado dessa realidade. Elas
podem ser agrupadas, de maneira bem ampla, em três grandes temas de
interesse: Bahia, urbanização do Terceiro Mundo, território brasileiro.
No primeiro grupo, que corresponde aproximadamente à produção
científica feita durante os anos 1950 e 1960, incluímos reflexões a respeito do
processo de organização da zona cacaueira no sul da Bahia; da formação da
rede urbana do Recôncavo e as mudanças provocadas no centro da cidade
do Salvador, consequência de uma nova dinâmica urbana que marcou o
contexto posterior à Segunda Guerra Mundial. No segundo grupo, podemos
reunir pesquisas, realizadas principalmente ao longo das décadas de 1960-
1970, voltadas para a compreensão da especificidade da urbanização nos
países do Terceiro Mundo. Aqui encontram-se estudos sobre diferentes
cidades brasileiras (Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, entre outras) e
outras latino-americanas (Lima, Caracas, Guadalajara, Medelín), bem como
algumas cidades de diferentes países do continente africano (Dar-es-Salaam,
ed., :gSg; e SPOSITO, Eliseu. Geografia e filosofia: contribuição para o ensino do pensa-
mento geográfico. São Paulo: Editora Unesp, zooç.
ç SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. São Paulo:
Hucitec, :ggb. p. :¸-:b.
¡ O arquivo de documentos corresponde a uma parte do Acervo Milton Santos, que inclui
sua biblioteca. O acervo foi doado, pela Sra. Marie-Hélène Tiercelin dos Santos, ao Ins-
tituto de Estudos Brasileiros (IEB) onde estará futuramente disponível para pesquisa.
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Tunís e Dakar). Pesquisas, que correspondem a uma parte da produção reali-
zada durante a década de 1980 e início dos anos 1990, voltadas para a análise
do processo de urbanização brasileira – incluindo as mudanças ocorridas na
cidade de São Paulo e o fortalecimento de seu papel como metrópole nacional
– também podem ser incluídas no segundo grupo.
O terceiro agrupamento, referente ao grande tema “território
brasileiro”, inclui investigações sobre a formação do território e suas espe-
cificidades atuais, desde aspectos de sua configuração territorial, de seu
uso a partir de atores com diferentes recursos sociais, políticos e econô-
micos, ao seu papel na divisão internacional do trabalho. Nesse grupo,
estão reunidos trabalhos realizados a partir de meados dos anos 1980 e
ao longo de toda a década de 1990, deixando claro que, na realidade,
essa preocupação sempre esteve presente em sua atividade docente e de
pesquisa. Um outro importante detalhe a ser considerado é o fato de que,
além das pesquisas elaboradas pelo próprio Milton Santos, outras tantas
por ele orientadas, desde seu retorno ao Brasil, possuem um papel decisivo
no processo de teorização do geógrafo baiano
5
.
Outro aspecto central de sua trajetória intelectual foram os intensos
debates conceituais realizados, em diferentes momentos históricos, na
própria geografia (no Brasil e no mundo), com as demais ciências sociais e
com a filosofia, e ainda com algumas ciências exatas, mais especificamente
a teoria da física. Contemporâneo a debates que ocorreram em diferentes
correntes filosóficas, tais como o estruturalismo, a fenomenologia e o exis-
tencialismo, Milton Santos dialogou com todas elas sempre em busca de
inspiração para a construção de seu próprio sistema teórico.
Paralelamente ao exercício constante da mediação entre teoria
e aspectos do real e do diálogo com diferentes ideias na geografia e fora
dela, o autor voltou-se para a elaboração de uma epistemologia particular
6

¸ A partir de seu retorno definitivo ao Brasil, em :g¡¡, Milton Santos lecionou na Univer-
sidade Federal do Rio de Janeiro, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Univer-
sidade de São Paulo e, a partir de :gSç, no Departamento de Geografia da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da mesma instituição. Em cada uma delas, até o
ano de zoo:, orientou alunos de graduação, de mestrado e de doutorado, além de liderar
equipes de pesquisa.
b Se tradicionalmente a epistemologia é considerada como uma disciplina especial no
interior da filosofia, já que cabiam aos filósofos as pesquisas realizadas nessa área do
conhecimento, posteriormente ela caminhou no sentido de reconhecer epistemologias
particulares às ciências [JAPIASSU, Hilton. Introdução ao pensamento epistemológico.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, ç. ed., :g¡g]. Gaston Bachelard (La formation de l’esprit
scientifique. Contribuition à une psychanalyse de la conaissance objective. Paris: Vrin,
:g¡o), no ano de :gçS, já propunha a existência de “teorias regionais”, voltadas para os
próprios objetos científicos. Partindo da ideia de uma reflexão epistemológica que, ali-
cerçada na filosofia, parta das próprias disciplinas, Michel Foucault (Las palabras y
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dessa área do conhecimento. Para o geógrafo, um dos requisitos centrais
para edificar essa epistemologia interna à disciplina era estabelecer uma
coerência interna e externa a ela. A primeira seria sustentada por um corpus
teórico, enquanto a segunda estaria voltada para a discussão sobre o papel
da geografia frente às demais esferas do conhecimento.
A coerência interna da construção teórica depende do grau de
representatividade dos elementos analíticos ante o objeto estudado.
Em outras palavras, as categorias de análise, formando sistema,
devem esposar o conteúdo existencial, isto é, devem refletir a
própria ontologia do espaço, a partir de estruturas internas a ele.
A coerência externa se dá por intermédio das estruturas exte-
riores consideradas abrangentes e que definem a sociedade e o
planeta, tomados como noções comuns a toda a História e a todas
as disciplinas sociais e sem as quais o entendimento das categorias
analíticas internas seria impossível.
7
Nota-se, portanto, o relevo dado pelo autor à determinação do objeto da
geografia, no caso o espaço geográfico, como ponto de partida para alcançar
as coerências interna e externa. É a partir do objeto, segundo Milton Santos,
que se define o corpus da disciplina, ou seja, um sistema conceitual e um
método que, juntos, devem permitir a operacionalidade.
Na realidade, o corpus de uma disciplina é subordinado ao objeto
e não o contrário. Desse modo, a discussão é sobre o espaço e não
sobre a geografia; e isto supõe o domínio do método. Falar em objeto
sem falar em método pode ser apenas o anúncio de um problema,
sem, todavia, enunciá-lo. É indispensável uma preocupação ontoló-
gica, um esforço interpretativo de dentro, o que tanto contribui para
identificar a natureza do espaço, como para encontrar as categorias
de estudo que permitam corretamente analisá-lo. Essa tarefa supõe
o encontro de conceitos, tirados da realidade, fertilizados recipro-
camente por sua associação obrigatória, e tornados capazes de
utilização sobre a realidade em movimento. A isso também se pode
las cosas. Una arqueología de las ciencias humanas. Barcelona: Planeta-Agostini, :gS¡)
falava, em :gbb, em “regiões epistemológicas”. Jean Piaget (L’epistemologie et ses vari-
étés. In: _____. (Direction). Logique et connaissance scientifique. Paris: Gallimard, :gb¡)
propõe a existência de uma “epistemologia regional” ou “epistemologia interna”, volta-
da justamente para uma reflexão sobre os conflitos internos a cada esfera do saber.
¡ SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. op. cit., p. :g.
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chamar a busca de operacionalidade, um esforço constitucional e
não adjetivo, fundado num exercício de análise da história.
8
Para realizar esse esforço interpretativo de “dentro”, mais uma
vez a mediação entre teoria e aspectos do real mostra-se fundamental.
Também os diálogos (como já foi mencionado anteriormente) estabele-
cidos com a própria geografia e demais ciências sociais e, sobretudo, com
a filosofia, fertilizaram esse esforço. Nesse processo, o autor realizou um
rico exercício de internalização de categorias externas à geografia
9
, que
favoreceu a dinamização de seu arcabouço teórico e, consequentemente,
a própria discussão epistemológica da geografia.
Dessa forma, a internalização (acompanhada de uma releitura) de
categorias como técnica, tempo, temporalidade, período, totalidade, tota-
lização, ação, objeto, norma, evento, forma, função, processo, estrutura,
formação social, divisão do trabalho, universalidade e particularidade,
entre outras, é fundamental na trajetória teórica do autor. Dentre essas,
a categoria técnica – que não pode ser entendida de maneira isolada
10

possui um papel de destaque no sistema conceitual de Milton Santos.
A centralidade da técnica reúne as categorias internas e externas,
permitindo empiricamente assimilar coerência externa e coerência
interna. A técnica deve ser vista sob um tríplice aspecto: como
reveladora da produção histórica da realidade; como inspiradora
de um método unitário (afastando dualismos e ambiguidades)
e, finalmente, como garantia da conquista do futuro, desde que
não nos deixemos ofuscar pelas técnicas particulares, e sejamos
S Idem, ibidem, p. :b.
g Aqui é fundamental ressaltar que o processo de internalização implica a releitura des-
sas categorias externas para que possam compor, de maneira conjunta, a categorias e
os conceitos internos à geografia, uma teoria coerente. Tal processo não deve resultar
no uso (ou elaboração) de metáforas que, dissociadas dos conteúdos históricos, não são
capazes de explicar a realidade. Resultado: “a metáfora toma claramente o lugar da teo-
ria e impede de encontrar um método explicativo, enquanto favorece a proliferação dos
discursos.” (SANTOS, Milton; SILVEIRA, María Laura. De uma geografia metafórica
da pós-modernidade a uma geografia da globalização. Cultura Vozes, Petrópolis, n. ¡,
ano g:, p. zç, jul./ago. :gg¡.)
:o Nenhuma categoria pode ser pensada isoladamente, mas sim inserida num sistema,
no qual, cada uma delas, e nas relações com as demais, formam um corpus coerente.
Para Milton Santos (A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. op. cit.,
:ggb. p. çS), “sem dúvida, a técnica é um elemento importante de explicação da socie-
dade e dos lugares, mas, sozinha, a técnica não explica nada. Apenas o valor relativo
é valor. E o valor relativo só é identificado no interior de um sistema de realidade,
e de um sistema de referências elaborado para entendê-la, isto é, para arrancar os
fatos isolados de sua solidão e de seu mutismo.”
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:;c revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
guiados, em nosso método, pelo fenômeno técnico visto filosofica-
mente, isto é, como um todo.
11
A técnica, segundo o geógrafo, deve ser entendida em sua totali-
dade, como fenômeno técnico. A centralidade dessa categoria deve-se,
entre outros motivos, ao fato de que, ao empiricizar o tempo, ela permite
a tão buscada união entre espaço e tempo
12
.
Outra categoria central a ser mencionada aqui é a de totalidade
13
.
Evidenciando a necessidade de uma releitura, Milton Santos afirma
que é preciso “[...] retomar o conceito de totalidade, reexaminar as suas
formas de aparência, reconhecer as suas metamorfoses e o seu processo
e analisar as suas implicações com a própria existência do espaço”
14
. Tal
categoria tem papel decisivo na elaboração de uma filosofia da geografia
15
,
o que, para o autor, é fundamental na necessária construção de uma
epistemologia particular da disciplina.
O que queremos enfatizar neste ensaio é que não há dúvida quanto
ao efeito extraordinariamente dinamizador que o complexo processo de
internalização e releitura de categorias externas à geografia teve na traje-
tória teórica de Milton Santos. Tal situação se evidencia quando, na obra do
autor, buscamos a gênese e a evolução na elaboração e no uso de categorias
e conceitos tais como lugar, paisagem, região, território.
No caso da categoria espaço geográfico, podemos reconhecer dife-
rentes momentos dos debates ontológicos empreendidos pelo autor. Desde
as obras voltadas para estudos sobre Salvador, sobre o Recôncavo Baiano
:: Idem, ibidem, p. zo.
:z Discutimos, mais detalhadamente, a centralidade da categoria técnica na obra de Mil-
ton Santos em: GRIMM, Flavia. Da técnica ao fenômeno técnico: uma proposta teórica
para a geografia. Anais do XV Encontro Nacional de Geógrafos. São Paulo: Associação
dos Geógrafos Brasileiros, zooS. :¸p.
:ç A categoria Totalidade, que foi trabalhada, entre outros intelectuais, por Georg W. F.
Hegel, Karl Marx, Jean-Paul Sartre, Henri Lefèbvre, Maurice Godelier, Lucien Gold-
mann, Georg Lukács e Karel Kosik, é, para Milton Santos, “[...] uma das mais fecundas
que a filosofia clássica nos legou, constituindo em elemento fundamental para o conhe-
cimento da análise da realidade. Segundo essa ideia, todas as coisas presentes no Uni-
verso formam uma unidade. Cada coisa nada mais é que parte da unidade, do todo, mas
a totalidade não é uma simples soma das partes. As partes que formam a Totalidade não
bastam para explicá-la. Ao contrário, é a Totalidade que explica as partes.” (A natureza
do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. op. cit., p. gz.)
:¡ Idem, ibidem, p. gz-gç.
:¸ “Uma filosofia da geografia deve alimentar-se, em primeiro lugar, da noção de totalida-
de. [...] O princípio da totalidade é básico para a elaboração de uma filosofia do espaço do
homem.” (SANTOS, Milton. O espaço geográfico como categoria filosófica. Terra Livre,
São Paulo, n. ¸ [número especial “O espaço em questão”], Associação dos Geógrafos
Brasileiros, p. g-zo, :gSS.)
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e outras regiões da Bahia (durante os anos 1950) até aquelas sobre urbani-
zação no Terceiro Mundo (décadas de 1960 e 1970), encontramos sucessivas
aproximações à definição do objeto da disciplina, passando pela noção de
fixos e fluxos (década de 1980) até a ideia de conjunto indissociável de
sistemas de objetos e sistemas de ações (década de 1990). Ou, ainda, dife-
rentes avanços na proposta de periodização do meio geográfico como meio
“natural” (ou “pré-técnico”), meio técnico, meio técnico-científico
16
e meio
técnico-científico informacional
17
.
Além dos diferentes momentos no debate ontológico a respeito do
espaço geográfico, propor o seu entendimento como instância da socie-
dade é outro ponto central na trajetória epistemológica do autor.
Consideramos o espaço como uma instância da sociedade, ao mesmo
título que a instância econômica e a instância cultural-ideológica.
Isso significa que, como instância, ele contém e é contido pelas demais
instâncias, assim como cada uma delas o contém e é por ele contida.
A economia está no espaço, assim como o espaço está na economia. O
mesmo se dá com o político-institucional e com o cultural ideológico.
Isso quer dizer que a essência do espaço é social.
18
Soma-se a isso a proposição de conceitos como formação socio-
espacial, rugosidades, forma-conteúdo, circuitos da economia urbana
(circuitos superior, superior marginal e inferior), círculos de cooperação
e circuitos espaciais de produção, sistemas de engenharia e sistemas de
movimento, uso do território, e tantos outros.
No entanto, para nos aprofundarmos em aspectos centrais da traje-
tória epistemológica do autor, é preciso voltar-nos também para os contextos
históricos
19
por ele vividos, relacionando-os aos debates de ideias e às contri-
:b SANTOS, Milton. Espaço e capital: o meio técnico-científico. Anais do IV Encontro Na-
cional de Geógrafos. Rio de Janeiro: Associação dos Geógrafos Brasileiros/Seção Regio-
nal Rio de Janeiro, julho, :gS:.
:¡ Idem. Técnica. Espaço. Tempo. Globalização e meio técnico-científico informacional.
São Paulo: Hucitec, :gg¡.
:S Idem. Espaço e método. São Paulo: Nobel, :gS¸. p. o:.
:g Segundo Vincent Berdoulay, em artigo publicado originalmente em :gS:, (A abordagem
contextual. Espaço e cultura, Rio de Janeiro, n. :b, p. ¡¡-¸b, jul./dez., zooç), na elabora-
ção de uma história do pensamento geográfico, como em outras áreas do saber, são co-
muns os debates existentes entre visões internalistas e externalistas de construção do
conhecimento. Segundo o autor, para os internalistas é necessário dedicar-se mais ao
próprio conteúdo do conhecimento científico, enquanto as preocupações externalistas
voltam-se, sobretudo, para a investigação das relações que o conteúdo científico possui
com os processos sociais. O mesmo autor propõe a ideia de “abordagem contextual”
para a elaboração de estudos em história do pensamento geográfico. Dentre alguns
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buições teóricas que realizou. Ao lecionar em diferentes cidades de distintos
países, ao longo de aproximadamente treze anos (entre 1964 e 1977), Milton
Santos teve a oportunidade de conviver em vários ambientes de pesquisa
(cerca de doze universidades estrangeiras), sem contar as vivências em insti-
tuições brasileiras de ensino e pesquisa, em Salvador, no Rio de Janeiro e São
Paulo. Além disso, é muito importante ressaltar que o geógrafo baiano, ao
longo de mais de cinco décadas, viveu num mundo que passou por mudanças
drásticas, principalmente a partir da revolução técnico-científica
20
.
A partir dos debates estabelecidos, e dos contextos vividos pelo autor,
podemos reconhecer diferentes momentos de seu percurso intelectual, ou
seja, delimitar sucessivas etapas de uma produção teórica marcada pela
autocrítica constante e esforço de revisão teórica. Daí a elaboração de uma
periodização de sua trajetória epistemológica marcada por continuidades
e mudanças, situação que, de um modo geral, acompanha a trajetória de
grandes intelectuais.
Períodos
Os cincos períodos
21
que apresentaremos a seguir foram baseados
em duas variáveis principais: uma história das ideias, dos temas e
conceitos centrais trabalhados por Milton Santos e alguns dados de sua
vida acadêmica, dando ênfase aos lugares onde viveu, fator decisivo na
construção de sua visão de mundo.
Importante ressaltar que tais períodos não podem ser compreen-
didos de maneira isolada e desconexa, já que os limites entre eles não
devem ser necessariamente vistos como momentos de ruptura. Isso
ocorre porque é evidente a continuidade de temas e discussões entre os
períodos, uma vez que estes correspondem a etapas da evolução teórica e
epistemológica de um mesmo autor
22
.
pressupostos apresentados nesse recurso de método, é preciso considerar que não há
uma dicotomia radical entre fatores internos e externos da mudança científica e que
existem tanto sistemas de pensamento em mudança como continuidade de determina-
das ideias.
zo RICHTA, Radovan. [:gbS] La civilización en la encrucijada. Madri: Editorial Ayuso,
:g¡¡; SANTOS, Theotonio dos. Revolução científico-técnica e acumulação do capital.
Petrópolis: Vozes, :gS¡.
z: Para o estabelecimento destes períodos foram destacados alguns debates apresentados,
sobretudo, em livros, sendo excluídos, por ora, outros tipos de publicações científicas.
zz Acerca da trajetória teórica de Milton Santos, dentre periodizações que são referência
para o debate, mencionamos aqui os trabalhos de: SOUZA, Maria Adélia Aparecida de.
Por ouvir dizer e por querer saber: conversando com Milton. In: _____ (Org.). O mundo
do cidadão. Um cidadão do mundo. São Paulo: Hucitec, :ggb. p. zb-ç¡; SOUZA, Maria
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:;)
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O primeiro desses períodos corresponde aos anos que vão de 1948 a
1964. Em 1948, Milton Santos formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais,
apesar de sua inclinação pela geografia desde os estudos ginasiais,
quando teve contato com trabalhos do geógrafo pernambucano Josué
de Castro. Nesse mesmo ano, realizou concurso público para professor
titular no colégio municipal de Ilhéus, no sul da Bahia. Para isso, escreveu
e defendeu uma tese intitulada O povoamento da Bahia, publicada pela
Imprensa Oficial da Bahia.
Paralelamente às atividades de ensino, foi também jornalista entre
1949 e 1964, primeiramente como correspondente do jornal A Tarde, na
zona cacaueira do estado da Bahia (1949-1953), e depois como editoria-
lista (1954-1964). Destacamos, nesse período, a elaboração do livro Zona
do cacau. Introdução ao estudo geográfico (1955, com uma 2
a
edição –
revista e ampliada – publicada em 1957 pela coleção Brasiliana da Cia.
Editora Nacional).
Foi durante esse período que realizou seu doutorado em geografia
na Universidade de Strasbourg, sob orientação de Jean Tricart, com
quem estabeleceu um profícuo diálogo a partir de 1956, ano em que se
Adélia Aparecida de. Interdisciplinaridade como objetivo e a disciplinaridade como
prática: o sentido da obra de Milton Santos. In: SILVA, Maria Auxiliadora da e TOLEDO
Jr, Rubens (Orgs.). Encontro com o pensamento de Milton Santos: a interdisciplinari-
dade na sua obra. Salvador: EdUFBa e IGEO, zoob. p. ç¸-¡z; MAMIGONIAN, Armen.
Milton Santos e a geografia contemporânea (Conferência de Abertura). In: SILVA, Ma-
ria Auxiliadora da; TOLEDO Jr., Rubens o DIAS, Clímaco César Siqueira (Orgs.). En-
contro com o pensamento de Milton Santos: o lugar fundamentando o período popular
da história. Salvador, zoo¸; ABREU, Mauricio de Almeida. Sobre Milton Santos e sobre
a crescente auto-estima da Geografia brasileira. In: SOUZA, Maria Adélia Aparecida de
(Org.). O mundo do cidadão. Um cidadão do mundo. op. cit. p. ç¸-¡S; SILVEIRA, María
Laura. Milton Santos: uma obra, uma teoria. AGB Informa, São Paulo, n. bz (Encarte
especial Milton Santos. Um olhar nos ¡o anos), Associação dos Geógrafos Brasileiros, ç
o

trimestre, :ggb. p. :o-::; SILVEIRA, María Laura. A Geografia de Milton, uma geografia
da vida. In: LIMA, Luiz Cruz (Org.). Conhecimento-Reconhecimento: homenagem ao
geógrafo cidadão do mundo. Fortaleza: EDUECE, zooç. p. gg-:oS; ZUSMAN. Perla. Mil-
ton Santos e a metamorfose da geografia brasileira. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri
(Org.). Ensaios de geografia contemporânea. Milton Santos: obra revisitada. São Paulo:
Hucitec, :ggb. p. zg-çb; SOUZA, Álvaro José de et alli (Orgs.). Milton Santos: Cidadania e
globalização. Bauru: Associação dos Geógrafos Brasileiros/Editora Saraiva, zooo; BER-
NARDES, Adriana. Milton Santos: breve relato da trajetória científica e intelectual de
um grande geógrafo. Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, Associação dos Geógra-
fos Brasileiros, n. ¡S, p. :çg-:¸z, dez. zoo:; PORTO GONÇALVES, Carlos Valter. Milton
Santos: ciência, ética e responsabilidade social. In: RIBEIRO, Wagner Costa (Org.). O
país distorcido. O Brasil, a globalização e a cidadania. São Paulo: Publifolha, zooz. p. :¡:-
:S¸; VASCONCELOS, Pedro de Almeida. A geografia nova de Milton Santos (:g¡¸-zoo:).
In: BRANDÃO, Maria de Azevedo (Org.). Milton Santos e o Brasil. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, zoo¡, p.:çg-:¸¡; e LÉVY, Jacques. Milton Santos/philosophe
du mondial, citoyen du local. Lausanne: Presses Polytechniques et Universitaires Ro-
mandes, zoo¡.
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:;¡ revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
conheceram no Congresso Internacional de Geografia, no Rio de Janeiro.
Sua tese, O centro da cidade do Salvador, foi defendida em 1958 e publi-
cada no Brasil em 1959. Ao retornar da França, Milton Santos começa a
organizar o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, oficial-
mente fundado em 1
o
de janeiro de 1959, que se tornaria um marco na
pesquisa em geografia na Bahia e no país
23
.
A partir de 1960, passa a compor o quadro de professores da
Universidade Federal da Bahia, como livre docente de Geografia Humana,
na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. No ano seguinte, torna-se
professor Catedrático. Milton Santos seria demitido desta Universidade
em 1964
24
. Ainda em 1960, realizou outras importantes contribuições
à geografia brasileira, ao fundar a Seção Regional da Associação dos
Geógrafos Brasileiros (AGB) na Bahia e organizar o Boletim Baiano de
Geografia, que continuaria sendo publicado até 1969. Em 1962, foi eleito
presidente da AGB, com o apoio de Caio Prado Jr.
25
Paralelamente às atividades acadêmicas e jornalísticas, que conti-
nuou realizando após seu retorno da França, em 1958, Milton Santos foi
ainda diretor da Imprensa Oficial da Bahia, entre 1959 e 1961, chefe da
Casa Civil da Presidência da República no Estado da Bahia (durante o
governo Jânio Quadros), em 1961, e presidente da Fundação Comissão de
Planejamento Econômico do Estado da Bahia, entre 1962 e 1964.
Como visto, ao longo desses anos que estabelecem o primeiro período
(1948-1964), a trajetória de Milton Santos foi marcada pela coexistência
de diversas atividades, tais como professor e pesquisador em geografia;
jornalista e editorialista; além de ocupar cargos públicos administrativos.
Quanto aos principais debates teóricos realizados pelo autor, dedicou-se,
sobretudo, ao estudo de autores clássicos da geografia (com destaque para
os franceses) que foram essenciais para a construção de uma geografia
urbana e regional da Bahia. No entanto, a partir de sua saída do país, essa
característica de acúmulo de atividades deixaria de existir, e o geógrafo
passaria a concentrar-se nas atividades de ensino e pesquisa.
zç SILVA, Maria Auxiliadora da. Criação do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Re-
gionais (:,;6-:,6,). Site da Fundação Perseu Abramo [texto elaborado em zooz]. Disponí-
vel em: http://wwwz.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=b¸S. Acesso
em: jun. zoo¡.
z¡ A Universidade Federal da Bahia homenageou Milton Santos em :gSb, conferindo-lhe
o título de Doutor Honoris Causa e o reintegrou ao seu quadro docente, em cerimônia
realizada em :gg¸.
z¸ SANTOS, Milton. Território e sociedade: entrevista com Milton Santos (entrevistadores
Odette Seabra, Mônica de Carvalho e José Corrêa Leite). São Paulo: Editora Fundação
Perseu Abramo, zooo. p. g¡-g¸.
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:;;
revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
O segundo período vai de 1964, quando o autor precisa deixar o
Brasil e aceita o convite da Universidade de Toulouse, até o ano de 1971.
Durante esses anos, Milton Santos viveu na França, onde lecionou nas
Universidades de Toulouse (1964-1967), de Bordeaux (1967-1968) e, em
Paris, tanto na Sorbonne quanto no Institut d’Études du Développement
Économique et Social (1968-1971).
Durante esses anos, podemos afirmar que os debates propostos
pelo autor eram direcionados, sobretudo, para a compreensão da especi-
ficidade do processo de urbanização do Terceiro Mundo, ultrapassando
assim o uso não questionado de teorias e conceitos voltados para explicar
tal processo nos países centrais, que é marcado por um ritmo e fatores
distintos de formação.
Dirigindo-se, então, para a análise da especificidade da urba-
nização nos países subdesenvolvidos, o autor buscou compreender a
velocidade do processo a partir de diversos fatores, tais como a orga-
nização interna das grandes cidades e as relações estabelecidas entre
estas e as regiões. Propôs, ainda, uma definição da cidade como centro
da região, preocupou-se com as disparidades regionais e também com os
processos de hierarquia urbana, cujas características se diferenciavam
enormemente entre países centrais e periféricos.
Todavia, é preciso ressaltar que o geógrafo alertava para o fato
de que, apesar de existirem elementos comuns aos processos de urba-
nização de países de passado colonial, alguns fatores asseguravam uma
personalidade própria a cada um deles.
Tais debates constam no livro A cidade nos países subdesenvol-
vidos (1965) e foram apresentados ao público de maneira mais detalhada
nas obras Dix essais sur les villes des pays sous-développés (1970) e Les
villes du Tiers Monde (1971).
Em Dix essais sur les villes des pays sous-développés (1970), o autor
buscou enfatizar a importância da geografia aplicada para os estudos
sobre urbanização. Nos ensaios que compõem esse livro, foram discu-
tidos aspectos da economia nos estudos de geografia urbana nos países
subdesenvolvidos, o papel das capitais em seus processos de moderni-
zação e aspectos da hierarquia urbana, enfatizando as possibilidades de
planejamento e intervenção.
Já em Les villes du Tiers Monde (1971) foram enfatizados os temas
urbanização, industrialização e revolução demográfica; atividade urbana
e dinamismos urbanos; as cidades e a organização do espaço nos países
subdesenvolvidos, com destaque para o papel do Estado; e ainda a morfo-
logia, o crescimento e o funcionamento do tecido urbano. Nesse livro, são
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:;6 revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
apresentados, de forma já bastante sistematizada, a teoria dos circuitos da
economia urbana, tema que seria amadurecido no período seguinte.
Outro livro que merece destaque é Le métier du géographe en
pays sous-développés (1971), voltado sobretudo para debates acerca da
epistemologia da geografia. Segundo María Laura Silveira (1996), essa
obra é uma importante síntese quanto às suas elaborações teóricas
sobre o método, pois “[...] discutindo as formas da interpretação e os
modelos, Milton Santos adverte sobre a necessidade de ressignificar as
categorias e renovar a geografia.”
26
Durante os anos passados na França, entre 1964 e 1971, o geógrafo
estreita os diálogos com a filosofia e intensifica seus debates acerca de
categorias como o tempo, período e totalidade.
Na França, Milton Santos passou a vivenciar com maior vigor a
emergência deste novo período que, naquele momento, denomi-
nava período tecnológico da história. Trabalhando com um grupo
de geógrafos franceses, decidiu recortar, ao encontrar o esquema
necessário, a temática das modernizações e suas implicações
geográficas. Nascia, desse modo, a noção de tempo, casada com as
técnicas e com os sistemas espaciais. Aí estaria o germe de mais
um problema reflexivo que o autor levará por todo o futuro: como
aproximar a noção de tempo do pensamento espacial?
27
Com sua saída da França, inicia-se o terceiro período, que se estende
até 1977, ano em que retorna ao Brasil. Durante esses anos (1972-1977),
Milton Santos foi professor e pesquisador em diferentes países, como Estados
Unidos (no Massachusetts Institute of Technology, entre 1971 e 1972, e na
Columbia University, entre 1976 e 1977), Canadá (Univesity of Toronto, entre
1972 e 1973), Peru (Universidad Nacional de Ingeniería de Lima, em 1973),
Venezuela, (na Facultad de Ciencias Económicas y Sociales e no Centro de
Estudios del Desarrollo da Universidad Central de Venezuela, em 1974) e na
Tanzânia (University of Dar es Salaam, entre 1974 e 1976).
Sem dúvida, o fato de ter morado em lugares tão diferentes repre-
sentou uma conjuntura muito especial para os avanços de suas leituras
e seus debates, bem como de pesquisas empíricas. Nesse período, o
autor fortalece os diálogos com a filosofia, filosofia da ciência, filo-
sofia das técnicas, epistemologia, epistemologia da geografia e teoria do
zb SILVEIRA, María Laura. Milton Santos: uma obra, uma teoria. op. cit., p. :o.
z¡ BERNARDES, Adriana. Milton Santos: breve relato da trajetória científica e intelectual
de um grande geógrafo. op. cit., p. :¡¡.
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conhecimento e, também, com os debates estabelecidos no marxismo, no
existencialismo e na fenomenologia.
Ao longo desses anos, ganham ainda mais força as discussões sobre
urbanização e subdesenvolvimento, levando-o à ideia de urbanização
desigual e à elaboração de uma obra que foi um marco no debate sobre a
urbanização dos países do Terceiro Mundo, L’espace partagé (1975), publi-
cada no Brasil em 1978. Ao propor a teoria dos circuitos da economia urbana,
formado pelo circuito superior (que abriga um circuito superior marginal)
e inferior, o autor explicita à geografia urbana clássica a necessidade de se
compreender a especificidade do fenômeno urbano nos países subdesenvol-
vidos, marcados pela dependência e a pobreza, resultado da própria evolução
do capitalismo e do impacto das modernizações.
O retorno definitivo ao Brasil, em 1977, estabelece o início do quarto
período que, grosso modo, corresponderia à produção teórica realizada ao
longo da década de 1980. Nessa fase, Milton Santos lecionou na Universidade
Federal do Rio de Janeiro e, depois, na Universidade de São Paulo (num
primeiro momento na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e, posterior-
mente, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Tratava-se
do retorno a um país bastante diferente daquele que o geógrafo foi obrigado
a deixar em 1964. Ainda marcado pela vigência do regime militar, o Brasil
passava por profundas mudanças em sua configuração territorial, causa e
consequência de inovações técnicas, políticas econômicas.
O contexto existente na geografia brasileira é efervescente do ponto
de vista dos debates teóricos e metodológicos. A publicação do livro Por uma
geografia nova (1978), bem como a publicação em português de O trabalho
do geógrafo no Terceiro Mundo (no mesmo ano), ambos de caráter eminen-
temente epistemológico, contribuíram, a partir de uma visão crítica, com
os debates relacionados à história do pensamento geográfico no Brasil e no
mundo. A publicação desses livros no país, entre outras obras e vários artigos
elaborados nesse momento por diferentes geógrafos brasileiros, bem como
os debates realizados a partir do III Encontro nacional de geógrafos, reali-
zado em Fortaleza, no ano de 1978, e promovido pela AGB, foram marcos
importantes para a construção e estabelecimento da Geografia Crítica no
país. Nesse contexto, destacamos a apresentação da categoria de formação
socioespacial
28
.
Ao longo desse quarto período, iniciado quando o autor retornou ao
Brasil, ganham destaque as pesquisas sobre o território brasileiro. Também
zS O conceito foi apresentado em artigo científico pela primeira vez em Society and Spa-
ce: social formation as theory and method, na revista Antipode de fevereiro de :g¡¡. No
mesmo ano foram publicadas versões traduzidas Cahiers Internationaux de Sociologie
e, posteriormente, no Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, n. ¸¡, p. S:-gg, jun. :g¡¡.
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:;8 revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
foram realizados estudos sobre a urbanização brasileira e esforços teóricos
destinados à elaboração e re-elaboração de uma teoria geográfica.
Voltados para os debates sobre a urbanização nos países do Terceiro
Mundo, foram publicados nesse período os livros A urbanização desigual
(1980), Manual de geografia urbana (1981) e Ensaios sobre a urbanização lati-
no-americana (1982). Com viés teórico-epistemológico, os livros Pensando o
espaço do homem (1982), Espaço e método (1985) e Metamorfoses do espaço
habitado (1988). Também foi publicado o livro O espaço do cidadão (1987),
cuja discussão central sobre território, cidadania e consumo participou dos
debates acerca da Constituição Federal de 1988.
Já o quinto e último período corresponde aos anos que vão de 1990 a
2001. Dando continuidade aos debates sobre a urbanização brasileira e, mais
especificamente, sobre a cidade de São Paulo, foram publicados os livros
Metrópole corporativa fragmentada: o caso de São Paulo (1990), A urbani-
zação brasileira (1993) e Por uma economia política da cidade (1994).
Antecedendo o livro A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão
e emoção (que seria publicado em 1996), devemos mencionar Técnica,
espaço, tempo: globalização e meio técnico científico-informacional (1994)
e De la totalidad al lugar (1996), também voltados sobremaneira para um
debate teórico-epistemológico.
No ano de 1991, o autor propôs o entendimento da categoria espaço
geográfico como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e
sistemas de ações
29
. Tal proposta, associada a um complexo sistema
de conceitos, seria também apresentada no livro A natureza do espaço.
Técnica e Tempo. Razão e Emoção (1996). Marco de sua construção teórico-
epistemológica, nesse livro dedicou-se, entre outros aspectos, à construção
de uma coerência interna e externa à geografia.
Vale também destacar o livro Por uma outra globalização. Do pensa-
mento único à consciência universal, publicado em 2000 – uma crítica
contundente às mazelas do atual período histórico.
Em 2001, a obra O Brasil: território e sociedade no início do século XXI,
publicada em co-autoria com María Laura Silveira, buscou construir uma
teoria do país a partir do território, apreendendo sua constituição a partir dos
seus usos e do movimento de seu conjunto e de suas partes, reconhecendo as
complementaridades existentes. Aqui, como em outros momentos, a preocu-
pação com uma mediação entre teoria e manifestações do real foi norteadora.
Merecem também destaque, nesse período, os inúmeros artigos publicados na
grande imprensa e as entrevistas veiculadas em revistas científicas e jornais
zg SANTOS, Milton. O espaço: sistemas de objetos, sistemas de ações. In: Anais do IV En-
contro Nacional da ANPUR, Salvador, maio :gg:, p. ç¸-çg.
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:;,
revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
de grande circulação que evidenciavam, entre outros temas, a ausência de
um projeto nacional para o Brasil, a crise do atual debate teórico e político no
país e o papel da Universidade e do intelectual públicos.
Apresentada a proposta de periodização da trajetória epistemológica
do geógrafo Milton Santos, queremos ressaltar que são documentos rela-
tivos ao 4
o
e 5
o
períodos que compõem, predominantemente, o seu arquivo.
Tratam-se, portanto, de documentos reunidos e sistematizados a partir de
meados da década de 1970 (após seu retorno ao Brasil).
Arquivo de documentos
Apresentaremos agora, quanto à composição e organização do
Acervo Milton Santos, algumas informações qualitativas. Este encontra-se
divido em biblioteca e arquivo de documentos
30
, reunidos em grande parte
no escritório, localizado em seu último endereço residencial. Trata-se
de um espaço físico bastante concentrado, marcado por uma minuciosa
sistematização que evidencia, entre outros fatores, a complexidade de seu
trabalho intelectual.
A biblioteca reúne, grosso modo, títulos de filosofia, história, história
do Brasil, teoria da história, história e filosofia da técnica, história das ideias,
teoria, método, teoria econômica, economia política, história das cidades
e urbanização, entre outros temas gerais. Quanto às obras de geografia,
encontram-se livros de autores clássicos (em muitos casos, raros, tais
como Eric Dardel, Maurice Le Lannou, Max. Sorre, Camile Vallaux) de
distintas nacionalidades e momentos históricos; de teoria da geografia; de
história do pensamento geográfico; de geografia econômica; de geografia
urbana, entre outros. É possível encontrar livros de autores que são, sem
dúvida alguma, centrais em sua trajetória teórica, tais como Max. Sorre,
Jean-Paul Sartre, Karl Marx ou, ainda, Jacques Ellul, Alfred Whitehead,
Alfred Schutz, entre inúmeros outros.
Quanto ao acervo de documentos, este encontra-se estruturado basi-
camente em estantes e armários, além de pilhas de documentos que, talvez,
devido à falta de espaço para serem guardadas, podem ser localizadas em
diferentes pontos do escritório (e fora dele).
ço A convite da sra. Marie-Hélène Tiercelin dos Santos, desde agosto de zoo¸, temos or-
ganizado e sistematizado as referências de consulta catalogadas no banco de dados do
Acervo Milton Santos. Esse banco de dados (em Access) foi concebido e desenvolvido
pelo professor Manoel Lemes da Silva Neto (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Pontifícia Universidade Católica de Campinas).
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Dentre os tipos de material, existem caixas de arquivo morto que
agregam envelopes, pastas e/ou documentos avulsos. Esses materiais
podem ser também encontrados isoladamente nas diversas prateleiras que
compõem seis estantes e três armários.
No que diz respeito às principais variáveis de catalogação, os
documentos são separados em impressos e manuscritos (fig. 1). Entre os
impressos (excluídos os livros que formam a biblioteca) encontram-se
textos publicados, tanto de autoria de Milton Santos, como de outros autores.
Há revistas e artigos científicos (cópias ou separatas) de diferentes autores,
artigos e matérias de jornal, material estatístico, publicado por diversas
instituições, entre outros. De autoria de Milton Santos, já foi localizada a
maior parte da produção teórica – elaborada desde o final da década de 1940
– que pode ser encontrada na forma de publicações menores, artigos cien-
tíficos, artigos de jornal (sobretudo aqueles vinculados no jornal A Tarde),
entrevistas etc. Em sua maioria, as publicações de autoria de Milton Santos
são originais, com raras exceções que foram localizadas em cópias
31
.
Já a variável “manuscritos” agrupa, no caso deste banco de dados,
documentos escritos à mão, datilografados ou digitados (fig. 2). Aqui, como
no caso dos impressos, há documentos produzidos por Milton Santos e
outros autores. Nesse último caso, é possível localizar teses e dissertações,
relatórios de qualificação (de orientandos e bancas das quais participou);
projetos científicos, versões de textos etc. Há também variados levanta-
mentos estatísticos (em grande parte, tabelas e gráficos elaborados por
orientandos) e correspondências recebidas.
De autoria própria, verifica-se também correspondências, relacio-
nadas a assuntos profissionais, versões digitadas de livros, que em alguns
casos inclui diferentes etapas de sua redação; versões de artigos científicos,
de artigos de jornal e de outros tipos de texto; levantamentos bibliográficos e
estatísticos; pareceres, projetos científicos e relatórios de pesquisa.
Quanto ao material preparado para cursos de pós-graduação,
encontraram-se programas, esquemas de aula e ainda, em alguns casos,
transcrições de aulas (feitas por orientandos). Os esquemas são um tipo
de documento importante, pois dentre eles encontram-se esquemas de
ç: Trata-se aqui de um material extremamente valioso para pesquisadores e interessa-
dos na obra de Milton Santos, já que, com exceção algumas poucas publicações, a sua
produção, elaborada desde fins dos anos :g¡o até zoo:, encontra-se aí reunida. Segura-
mente não há outra possibilidade de ter acesso a esse material em sua totalidade – que
será disponibilizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros –, tendo em vista que se refere
uma obra composta por mais de quarenta livros e cerca de çSo artigos científicos (além
de entrevistas e outras publicações), elaborados ao longo de mais de cinco décadas, em
diferentes continentes.
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:8:
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conferências, de palestras, de participação em mesas redondas e debates, de
discurso de aceitação Honoris Causa e, ainda, de arguições.
Um tipo de documento que qualitativa e quantitativamente é bastante
significativo são as notas de leitura, comentadas ou não (fig. 3). Esse registro
evidencia com muita força o que pode ser verificado nas referências biblio-
gráficas de qualquer trabalho publicado por Milton Santos: a extraordinária
quantidade de leitura, realizadas ao longo de tantos anos de trabalho intelec-
tual (lembrando que, no acervo, estão concentrados sobretudo documentos
que datam de fins dos anos 1970 em diante).
Outro ponto relevante a ser mencionado é o critério do próprio geógrafo
para a sistematização desses documentos (fig. 4). É evidente a importância
de uma organização temática (e não cronológica). Essa organização é, indu-
bitavelmente, central. Estabelecemos três grandes grupos que definem a
sistematização de caixas de arquivo morto, pastas e envelopes: categorias e
conceitos; grandes temas de pesquisa e teoria e método em geografia.
O grupo que denominamos “categorias e conceitos” é formado por
materiais, cujo tema central são, exatamente, categorias ou conceitos, tanto
internos quanto externos à geografia. São exemplos disso: Espaço; Técnica/
sistemas técnicos/ ciência e tecnologia/ meio técnico científico-informa-
cional; Tempo/ evento/ período e periodização/ cotidiano; Totalidade; Lugar/
Região e regionalização/ Paisagem/ Escala; Natureza/ Sociedade; Território/
Estado; Modo de produção/ Formação social; Forma/ função/ processo/
estrutura; Período Tecnológico/ Globalização.
Tal organização evidencia a importância do processo de internalização
de categorias externas à Geografia na dinamização do arcabouço teórico do
geógrafo (fig. 5). Necessário enfatizar, mais uma vez, que tais categorias não
devem ser entendidas de maneira isolada, seja em seu sistema conceitual,
seja em sua organização material. Um exemplo é a categoria espaço, que
pode ser a chave de entrada de uma caixa, mas também pode constar de
outras, como Tempo e Espaço; Período Tecnológico e Espaço [sistemas de
objetos/sistemas de ações]; Técnica e Espaço; Sistemas técnicos/ Espaço.
Quanto à sistematização por grandes temas de pesquisa, como
já mencionamos anteriormente, podem ser encontradas caixas com as
seguintes indicações: Bahia; Urbanização; Urbanização no Terceiro
Mundo; Urbanização brasileira; São Paulo [Economia política da cidade];
Dois circuitos/ emprego [Circuitos da economia urbana].
Já o terceiro grande grupo, que determinamos como “Teoria e
método em Geografia”, inclui caixas sobre Geografia/ Teoria e método;
História da Geografia/ História e Geografia; Teoria e Método/ sobre
Geografia; Método/ dialética/ Praxis/ conhecimento/ marxismo e
Geografia/ Marxismo (fig. 6)
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:8: revista ieb n;: :c:: set./mar. p. :6;-:8:
Dessa forma, esperamos ter apresentado algumas informa-
ções qualitativas quanto à organização do arquivo de documentos do
geógrafo (fig. 7).
Reflexões finais
Um dos pontos que queremos enfatizar neste artigo é o fato de
que era a sistematização teórica do autor que comandava a organização
material do ambiente de trabalho. Ou seja, a organização de documentos
no acervo era um reflexo de sua forma de sistematizar as ideias.
A organização temática por categorias/conceitos, que quantita-
tivamente é superior à organização de documentos por grandes temas
de pesquisa, evidencia a importância que a internalização de categorias
externas à geografia tinham na dinamização de sua produção teórica.
Chama a atenção a quantidade de documentos relacionados a estudos
teóricos e à realização de pesquisas empíricas, o que demonstra o rigor e
a disciplina de seu trabalho como intelectual crítico.
Preocupado com a contribuição que a geografia poderia oferecer
à Teoria Social Critica, esteve voltado para a análise do presente, tendo
como objetivo central pensar o futuro. Sobre essa preocupação, afirma
María Laura Silveira (1996):
[...] a ideia de futuro aparece, no enredo do autor, como um chama-
mento a discutir um caminho aberto de possibilidades, um reino da
esperança, da liberdade e do projeto. Entendendo o espaço como exis-
tência e a sociedade como o ser, sua proposta de uma epistemologia
existencial nos adverte sobre novas possibilidades... aquelas que nos
conduzam a um mundo mais humano, ao mundo da utopia.
32
Portanto, é inegável o importante papel da trajetória epistemológica
de Milton Santos na construção de uma geografia teórica. Somado à sua
extensa obra, o Acervo Milton Santos (que inclui a biblioteca e o arquivo
de documentos) representa um material precioso para a pesquisa não
apenas em história do pensamento geográfico como também na própria
história das ideias no Brasil e no mundo.
çz SILVEIRA, María Laura. Milton Santos: uma obra, uma teoria. op. cit., p. ::.
RIEB52.indb 182 05/04/2011 14:50:42

de maneira bem ampla. ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) onde estará futuramente disponível para pesquisa. . incluímos reflexões a respeito do processo de organização da zona cacaueira no sul da Bahia. -. voltadas para a compreensão da especificidade da urbanização nos países do Terceiro Mundo. pela Sra. que inclui sua biblioteca. 3 É sobre sua importante contribuição para a construção de uma teoria geográfica. O que deve estar no alicerce da descrição é a vontade de explicação. são um dado dessa realidade. . podemos reunir pesquisas. que inclui a sistematização de seu arquivo de documentos4. Caracas. que trataremos aqui.Nosso desejo explícito é a produção de um sistema de ideias que seja. o arcabouço teórico precisa acompanhar tais mudanças para não perder seu valor de explicação e análise. realizadas principalmente ao longo das décadas de 19601970. O acervo foi doado. Razão e emoção. p. [. Inúmeras pesquisas empíricas. território brasileiro. há um incansável esforço de revisão do próprio sistema conceitual por parte do autor. Milton. bem como algumas cidades de diferentes países do continente africano (Dar-es-Salaam. Se o mundo não é o mesmo nos diferentes momentos históricos. ed..indb 166 05/04/2011 14:50:40 . No primeiro grupo../mar.. que corresponde aproximadamente à produção científica feita durante os anos 1950 e 1960. urbanização do Terceiro Mundo. em três grandes temas de interesse: Bahia. Geografia e filosofia: contribuição para o ensino do pensamento geográfico.] Descrição e explicação são inseparáveis. São Paulo: Hucitec.   SANTOS. e SPOSITO. entre outras) e outras latino-americanas (Lima. Um tópico fundamental na edificação desse complexo sistema de ideias é o constante processo de mediação entre a teoria e as manifestações do real. O arquivo de documentos corresponde a uma parte do Acervo Milton Santos. p. consequência de uma nova dinâmica urbana que marcou o contexto posterior à Segunda Guerra Mundial. Aqui encontram-se estudos sobre diferentes cidades brasileiras (Rio de Janeiro. distanciando-nos do ideal de coerência próprio a um dado ramo do saber e do objeto de pertinência indispensável. um ponto de partida para a apresentação de um sistema descritivo e de um sistema interpretativo da geografia. São Paulo: Editora Unesp. Guadalajara. Para isso. Dessa forma. Medelín).  revista ieb n  set. Eliseu. A natureza do espaço. feitas e dirigidas pelo geógrafo. o que resulta em cada vez são peças isoladas. Quando este faz falta. . Belo Horizonte e Brasília. da formação da rede urbana do Recôncavo e as mudanças provocadas no centro da cidade do Salvador. a partir de um complexo sistema de ideias. ressaltaremos alguns aspectos centrais de sua trajetória teórica. Marie-Hélène Tiercelin dos Santos. Elas podem ser agrupadas. Técnica e tempo. - RIEB52. No segundo grupo. que supõe a existência prévia de um sistema. ao mesmo tempo.

ed. na realidade. Introdução ao pensamento epistemológico. voltadas para os próprios objetos científicos. Outro aspecto central de sua trajetória intelectual foram os intensos debates conceituais realizados. voltadas para a análise do processo de urbanização brasileira – incluindo as mudanças ocorridas na cidade de São Paulo e o fortalecimento de seu papel como metrópole nacional – também podem ser incluídas no segundo grupo. mais especificamente a teoria da física. com as demais ciências sociais e com a filosofia. ]. tais como o estruturalismo. essa preocupação sempre esteve presente em sua atividade docente e de pesquisa. Paralelamente ao exercício constante da mediação entre teoria e aspectos do real e do diálogo com diferentes ideias na geografia e fora dela. até o ano de . desde aspectos de sua configuração territorial./mar. outras tantas por ele orientadas. a fenomenologia e o existencialismo. Letras e Ciências Humanas da mesma instituição. a partir de . em . no ano de . O terceiro agrupamento. . ao seu papel na divisão internacional do trabalho. - RIEB52. alicerçada na filosofia. Contribuition à une psychanalyse de la conaissance objective. já propunha a existência de “teorias regionais”. inclui investigações sobre a formação do território e suas especificidades atuais. Milton Santos dialogou com todas elas sempre em busca de inspiração para a construção de seu próprio sistema teórico. além das pesquisas elaboradas pelo próprio Milton Santos. Hilton. parta das próprias disciplinas. estão reunidos trabalhos realizados a partir de meados dos anos 1980 e ao longo de toda a década de 1990. o autor voltou-se para a elaboração de uma epistemologia particular6  A partir de seu retorno definitivo ao Brasil. Se tradicionalmente a epistemologia é considerada como uma disciplina especial no interior da filosofia.. referente ao grande tema “território brasileiro”. em diferentes momentos históricos. Pesquisas. Partindo da ideia de uma reflexão epistemológica que. possuem um papel decisivo no processo de teorização do geógrafo baiano5. posteriormente ela caminhou no sentido de reconhecer epistemologias particulares às ciências [JAPIASSU. Michel Foucault (Las palabras y   revista ieb n  set. orientou alunos de graduação. na própria geografia (no Brasil e no mundo). Paris: Vrin. políticos e econômicos. no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia. Nesse grupo. desde seu retorno ao Brasil. Em cada uma delas. de mestrado e de doutorado. Um outro importante detalhe a ser considerado é o fato de que. Contemporâneo a debates que ocorreram em diferentes correntes filosóficas. na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e. Rio de Janeiro: Francisco Alves. que correspondem a uma parte da produção realizada durante a década de 1980 e início dos anos 1990. Milton Santos lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. e ainda com algumas ciências exatas. de seu uso a partir de atores com diferentes recursos sociais.indb 167 05/04/2011 14:50:40 . já que cabiam aos filósofos as pesquisas realizadas nessa área do conhecimento. ). p. Gaston Bachelard (La formation de l’esprit scientifique.Tunís e Dakar). deixando claro que. além de liderar equipes de pesquisa.

dessa área do conhecimento. Em outras palavras. ou seja. em .  SANTOS. Técnica e tempo. Una arqueología de las ciencias humanas. p. voltada justamente para uma reflexão sobre os conflitos internos a cada esfera do saber.7 Nota-se. . cit. um sistema conceitual e um método que. devem refletir a própria ontologia do espaço. A coerência interna da construção teórica depende do grau de representatividade dos elementos analíticos ante o objeto estudado. enunciá-lo. - RIEB52. como ponto de partida para alcançar as coerências interna e externa. no caso o espaço geográfico. em “regiões epistemológicas”. Paris: Gallimard. Para o geógrafo. Milton. devem permitir a operacionalidade. ) propõe a existência de uma “epistemologia regional” ou “epistemologia interna”. que se define o corpus da disciplina. isto é. (Direction). Razão e emoção. e isto supõe o domínio do método. as categorias de análise. Essa tarefa supõe o encontro de conceitos. um dos requisitos centrais para edificar essa epistemologia interna à disciplina era estabelecer uma coerência interna e externa a ela.. Falar em objeto sem falar em método pode ser apenas o anúncio de um problema. A natureza do espaço. A coerência externa se dá por intermédio das estruturas exteriores consideradas abrangentes e que definem a sociedade e o planeta.  revista ieb n  set. tirados da realidade. a discussão é sobre o espaço e não sobre a geografia. formando sistema. Logique et connaissance scientifique. um esforço interpretativo de dentro. enquanto a segunda estaria voltada para a discussão sobre o papel da geografia frente às demais esferas do conhecimento. A isso também se pode las cosas. como para encontrar as categorias de estudo que permitam corretamente analisá-lo. op. segundo Milton Santos. Barcelona: Planeta-Agostini. A primeira seria sustentada por um corpus teórico. o que tanto contribui para identificar a natureza do espaço. p. Jean Piaget (L’epistemologie et ses variétés. portanto. ) falava./mar. fertilizados reciprocamente por sua associação obrigatória. juntos. tomados como noções comuns a toda a História e a todas as disciplinas sociais e sem as quais o entendimento das categorias analíticas internas seria impossível. o relevo dado pelo autor à determinação do objeto da geografia. Desse modo. a partir de estruturas internas a ele. Na realidade. In: _____. e tornados capazes de utilização sobre a realidade em movimento.indb 168 05/04/2011 14:50:40 . É indispensável uma preocupação ontológica. sem. todavia. É a partir do objeto. o corpus de uma disciplina é subordinado ao objeto e não o contrário. devem esposar o conteúdo existencial.

consequentemente. e sejamos   Idem. Técnica e tempo.. Razão e emoção. que favoreceu a dinamização de seu arcabouço teórico e. a categoria técnica – que não pode ser entendida de maneira isolada10 – possui um papel de destaque no sistema conceitual de Milton Santos./mar.chamar a busca de operacionalidade.”  revista ieb n  set. - RIEB52. Para Milton Santos (A natureza do espaço. tempo. “sem dúvida. isto é. entre outras. enquanto favorece a proliferação dos discursos. com a filosofia. formam um corpus coerente. é fundamental na trajetória teórica do autor. sozinha. mais uma vez a mediação entre teoria e aspectos do real mostra-se fundamental. no qual. Nesse processo. ibidem. Petrópolis. um esforço constitucional e não adjetivo. processo. A centralidade da técnica reúne as categorias internas e externas. . e nas relações com as demais.indb 169 05/04/2011 14:50:40 . função. não são capazes de explicar a realidade. Também os diálogos (como já foi mencionado anteriormente) estabelecidos com a própria geografia e demais ciências sociais e. De uma geografia metafórica da pós-modernidade a uma geografia da globalização. uma teoria coerente. como inspiradora de um método unitário (afastando dualismos e ambiguidades) e. ). p. María Laura. Dessa forma. p. mas. op. e de um sistema de referências elaborado para entendê-la. sobretudo. forma. fundado num exercício de análise da história. cit. jul. período. . desde que não nos deixemos ofuscar pelas técnicas particulares. . Dentre essas. universalidade e particularidade. para arrancar os fatos isolados de sua solidão e de seu mutismo./ago. a técnica é um elemento importante de explicação da sociedade e dos lugares. A técnica deve ser vista sob um tríplice aspecto: como reveladora da produção histórica da realidade.8 Para realizar esse esforço interpretativo de “dentro”. a categorias e os conceitos internos à geografia. ação. temporalidade. totalidade. mas sim inserida num sistema. Milton. de maneira conjunta. permitindo empiricamente assimilar coerência externa e coerência interna. p. divisão do trabalho. p. Aqui é fundamental ressaltar que o processo de internalização implica a releitura dessas categorias externas para que possam compor. ano . E o valor relativo só é identificado no interior de um sistema de realidade. norma. Resultado: “a metáfora toma claramente o lugar da teoria e impede de encontrar um método explicativo. totalização. cada uma delas. fertilizaram esse esforço. objeto. a técnica não explica nada. como garantia da conquista do futuro. SILVEIRA. a própria discussão epistemológica da geografia.” (SANTOS. evento.)  Nenhuma categoria pode ser pensada isoladamente. finalmente. Tal processo não deve resultar no uso (ou elaboração) de metáforas que. n. . formação social. dissociadas dos conteúdos históricos. . estrutura. Cultura Vozes. a internalização (acompanhada de uma releitura) de categorias como técnica. o autor realizou um rico exercício de internalização de categorias externas à geografia9. Apenas o valor relativo é valor.

. São Paulo. ibidem.   revista ieb n  set. Jean-Paul Sartre. todas as coisas presentes no Universo formam uma unidade. buscamos a gênese e a evolução na elaboração e no uso de categorias e conceitos tais como lugar. Razão e emoção. p.” (A natureza do espaço. mais detalhadamente..] uma das mais fecundas que a filosofia clássica nos legou. para o autor.. paisagem. Ao contrário.. a centralidade da categoria técnica na obra de Milton Santos em: GRIMM. Milton. Karl Marx. em nosso método. As partes que formam a Totalidade não bastam para explicá-la. [. -.  [número especial “O espaço em questão”]. ibidem. cit. da noção de totalidade. Hegel.guiados. é. segundo o geógrafo. Henri Lefèbvre. Milton Santos afirma que é preciso “[.] O princípio da totalidade é básico para a elaboração de uma filosofia do espaço do homem. deve ser entendida em sua totalidade.] retomar o conceito de totalidade..) “Uma filosofia da geografia deve alimentar-se. para Milton Santos. mas a totalidade não é uma simples soma das partes./mar. A centralidade dessa categoria deve-se. Tal situação se evidencia quando. - RIEB52. do todo. Terra Livre. Da técnica ao fenômeno técnico: uma proposta teórica para a geografia. Discutimos. p. p. Associação dos Geógrafos Brasileiros. reconhecer as suas metamorfoses e o seu processo e analisar as suas implicações com a própria existência do espaço”14. que foi trabalhada. isto é. território. No caso da categoria espaço geográfico. Tal categoria tem papel decisivo na elaboração de uma filosofia da geografia15. O que queremos enfatizar neste ensaio é que não há dúvida quanto ao efeito extraordinariamente dinamizador que o complexo processo de internalização e releitura de categorias externas à geografia teve na trajetória teórica de Milton Santos. região. Cada coisa nada mais é que parte da unidade.indb 170 05/04/2011 14:50:41 . . F. sobre o Recôncavo Baiano   Idem. Georg Lukács e Karel Kosik. por Georg W. reexaminar as suas formas de aparência.” (SANTOS. Anais do XV Encontro Nacional de Geógrafos. ela permite a tão buscada união entre espaço e tempo12. podemos reconhecer diferentes momentos dos debates ontológicos empreendidos pelo autor. é a Totalidade que explica as partes. em primeiro lugar. op. na obra do autor. p. Lucien Goldmann.11 A técnica. constituindo em elemento fundamental para o conhecimento da análise da realidade.. . é fundamental na necessária construção de uma epistemologia particular da disciplina. n.)   Idem. . -. Desde as obras voltadas para estudos sobre Salvador. Evidenciando a necessidade de uma releitura. como um todo. ao empiricizar o tempo.. p. Flavia. ao fato de que. Segundo essa ideia. Técnica e tempo. “[. A categoria Totalidade. . O espaço geográfico como categoria filosófica. p. entre outros motivos. o que. entre outros intelectuais. pelo fenômeno técnico visto filosoficamente. Outra categoria central a ser mencionada aqui é a de totalidade13. como fenômeno técnico. Maurice Godelier. São Paulo: Associação dos Geógrafos Brasileiros.

A economia está no espaço. Ou. superior marginal e inferior).indb 171 05/04/2011 14:50:41 . Dentre alguns     revista ieb n  set. No entanto. n. sistemas de engenharia e sistemas de movimento. (A abordagem contextual. . rugosidades. . para nos aprofundarmos em aspectos centrais da trajetória epistemológica do autor. diferentes avanços na proposta de periodização do meio geográfico como meio “natural” (ou “pré-técnico”). assim como o espaço está na economia. Rio de Janeiro. O mesmo se dá com o político-institucional e com o cultural ideológico. meio técnico-científico16 e meio técnico-científico informacional17. forma-conteúdo. ele contém e é contido pelas demais instâncias. circuitos da economia urbana (circuitos superior. encontramos sucessivas aproximações à definição do objeto da disciplina. propor o seu entendimento como instância da sociedade é outro ponto central na trajetória epistemológica do autor. passando pela noção de fixos e fluxos (década de 1980) até a ideia de conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações (década de 1990). Rio de Janeiro: Associação dos Geógrafos Brasileiros/Seção Regional Rio de Janeiro. assim como cada uma delas o contém e é por ele contida. para os internalistas é necessário dedicar-se mais ao próprio conteúdo do conhecimento científico. meio técnico. -. p. Idem. Milton. Globalização e meio técnico-científico informacional. Tempo. são comuns os debates existentes entre visões internalistas e externalistas de construção do conhecimento. na elaboração de uma história do pensamento geográfico. Isso quer dizer que a essência do espaço é social. São Paulo: Hucitec. Idem. círculos de cooperação e circuitos espaciais de produção. Espaço e capital: o meio técnico-científico. como instância. O mesmo autor propõe a ideia de “abordagem contextual” para a elaboração de estudos em história do pensamento geográfico. enquanto as preocupações externalistas voltam-se. sobretudo. julho./dez. - RIEB52./mar. é preciso voltar-nos também para os contextos históricos19 por ele vividos. Além dos diferentes momentos no debate ontológico a respeito do espaço geográfico. . Anais do IV Encontro Nacional de Geógrafos.. em artigo publicado originalmente em . jul.e outras regiões da Bahia (durante os anos 1950) até aquelas sobre urbanização no Terceiro Mundo (décadas de 1960 e 1970). ). Espaço e cultura. Espaço. . ao mesmo título que a instância econômica e a instância cultural-ideológica. p. ainda. Consideramos o espaço como uma instância da sociedade. Espaço e método. e tantos outros.18 Soma-se a isso a proposição de conceitos como formação socioespacial. Segundo o autor. relacionando-os aos debates de ideias e às contri SANTOS. Isso significa que. p. para a investigação das relações que o conteúdo científico possui com os processos sociais. como em outras áreas do saber. São Paulo: Nobel. uso do território. . Técnica. Segundo Vincent Berdoulay.

. SOUZA. ao longo de aproximadamente treze anos (entre 1964 e 1977). podemos reconhecer diferentes momentos de seu percurso intelectual. acompanha a trajetória de grandes intelectuais. sobretudo. Um cidadão do mundo.  Para o estabelecimento destes períodos foram destacados alguns debates apresentados. dentre periodizações que são referência para o debate. Isso ocorre porque é evidente a continuidade de temas e discussões entre os períodos. de um modo geral.indb 172 05/04/2011 14:50:41 . situação que. Períodos Os cincos períodos21 que apresentaremos a seguir foram baseados em duas variáveis principais: uma história das ideias.). -.buições teóricas que realizou. O mundo do cidadão. principalmente a partir da revolução técnico-científica20. dos temas e conceitos centrais trabalhados por Milton Santos e alguns dados de sua vida acadêmica. In: _____ (Org. é muito importante ressaltar que o geógrafo baiano. [] La civilización en la encrucijada. mencionamos aqui os trabalhos de: SOUZA. SANTOS. viveu num mundo que passou por mudanças drásticas. pressupostos apresentados nesse recurso de método. é preciso considerar que não há uma dicotomia radical entre fatores internos e externos da mudança científica e que existem tanto sistemas de pensamento em mudança como continuidade de determinadas ideias. outros tipos de publicações científicas. por ora. Radovan. Revolução científico-técnica e acumulação do capital. delimitar sucessivas etapas de uma produção teórica marcada pela autocrítica constante e esforço de revisão teórica. no Rio de Janeiro e São Paulo. p. - RIEB52. Por ouvir dizer e por querer saber: conversando com Milton. . Madri: Editorial Ayuso. Theotonio dos. Petrópolis: Vozes. ao longo de mais de cinco décadas. em Salvador. ou seja. já que os limites entre eles não devem ser necessariamente vistos como momentos de ruptura. São Paulo: Hucitec.  Acerca da trajetória teórica de Milton Santos. em livros.  RICHTA. Milton Santos teve a oportunidade de conviver em vários ambientes de pesquisa (cerca de doze universidades estrangeiras). uma vez que estes correspondem a etapas da evolução teórica e epistemológica de um mesmo autor 22. dando ênfase aos lugares onde viveu. Ao lecionar em diferentes cidades de distintos países. Daí a elaboração de uma periodização de sua trajetória epistemológica marcada por continuidades e mudanças. p. Além disso. A partir dos debates estabelecidos. sem contar as vivências em instituições brasileiras de ensino e pesquisa. e dos contextos vividos pelo autor. Maria  revista ieb n  set. . sendo excluídos. fator decisivo na construção de sua visão de mundo. Importante ressaltar que tais períodos não podem ser compreendidos de maneira isolada e desconexa. Maria Adélia Aparecida de./mar.

Pedro de Almeida. cit.).indb 173 05/04/2011 14:50:41 . Salvador: EdUFBa e IGEO. In: SOUZA. Nesse mesmo ano. o trimestre. . apesar de sua inclinação pela geografia desde os estudos ginasiais. Milton Santos formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais. Carlos Valter. Clímaco César Siqueira (Orgs. p.). Maria de Azevedo (Org. Interdisciplinaridade como objetivo e a disciplinaridade como prática: o sentido da obra de Milton Santos. Boletim Paulista de Geografia. e LÉVY. Destacamos. ano em que se Adélia Aparecida de. p. na zona cacaueira do estado da Bahia (1949-1953). TOLEDO Jr. Milton Santos: ciência. Maria Auxiliadora da. In: CARLOS. Conhecimento-Reconhecimento: homenagem ao geógrafo cidadão do mundo. -. SOUZA. A Geografia de Milton. Ensaios de geografia contemporânea. . Em 1948. Encontro com o pensamento de Milton Santos: a interdisciplinaridade na sua obra. Associação dos Geógrafos Brasileiros. María Laura. . São Paulo: Hucitec. . Adriana. Perla. Milton Santos e a geografia contemporânea (Conferência de Abertura). p. ética e responsabilidade social. p. In: RIBEIRO. Armen. PORTO GONÇALVES. -. Milton Santos: obra revisitada. Fortaleza: EDUECE. Foi durante esse período que realizou seu doutorado em geografia na Universidade de Strasbourg. . a globalização e a cidadania. Paralelamente às atividades de ensino.O primeiro desses períodos corresponde aos anos que vão de 1948 a 1964. Editora Nacional). In: SILVA. Ana Fani Alessandri (Org. O país distorcido. MAMIGONIAN. p. São Paulo: Publifolha. -. foi também jornalista entre 1949 e 1964. Sobre Milton Santos e sobre a crescente auto-estima da Geografia brasileira.). Introdução ao estudo geográfico (1955. -. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. Encontro com o pensamento de Milton Santos: o lugar fundamentando o período popular da história. ABREU. O Brasil. quando teve contato com trabalhos do geógrafo pernambucano Josué de Castro. AGB Informa. n. Milton Santos: uma obra. primeiramente como correspondente do jornal A Tarde. Maria Auxiliadora da e TOLEDO Jr. nesse período. . Milton Santos/philosophe du mondial. Luiz Cruz (Org.).). dez. Jacques. no sul da Bahia. ZUSMAN. p. sob orientação de Jean Tricart. Bauru: Associação dos Geógrafos Brasileiros/Editora Saraiva. escreveu e defendeu uma tese intitulada O povoamento da Bahia. O mundo do cidadão.  (Encarte especial Milton Santos. Um olhar nos  anos). BERNARDES. p. In: SILVA. São Paulo. e depois como editorialista (1954-1964). Associação dos Geógrafos Brasileiros. Maria Adélia Aparecida de (Org. -. Lausanne: Presses Polytechniques et Universitaires Romandes. Milton Santos e a metamorfose da geografia brasileira. María Laura. SILVEIRA./mar. VASCONCELOS. Um cidadão do mundo. São Paulo. com uma 2a edição – revista e ampliada – publicada em 1957 pela coleção Brasiliana da Cia.).  revista ieb n  set. In: BRANDÃO. p.. Milton Santos e o Brasil. uma geografia da vida. publicada pela Imprensa Oficial da Bahia. realizou concurso público para professor titular no colégio municipal de Ilhéus. - RIEB52. .).). p. citoyen du local. Milton Santos: breve relato da trajetória científica e intelectual de um grande geógrafo. -. com quem estabeleceu um profícuo diálogo a partir de 1956. uma teoria. Mauricio de Almeida. . . Wagner Costa (Org.-. . Milton Santos: Cidadania e globalização. SILVEIRA. A geografia nova de Milton Santos (-). Para isso. a elaboração do livro Zona do cacau. . Rubens  DIAS. n. op. . Álvaro José de et alli (Orgs. In: LIMA. Salvador. Rubens (Orgs.

ao fundar a Seção Regional da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) na Bahia e organizar o Boletim Baiano de Geografia. sobretudo. em 1961. Milton. a partir de sua saída do país.fpa. em cerimônia realizada em . no Rio de Janeiro.br/portal/modules/news/article. oficialmente fundado em 1o de janeiro de 1959. Em 1962. No entanto. - RIEB52. Criação do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais (-). Milton Santos começa a organizar o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais. . tais como professor e pesquisador em geografia.conheceram no Congresso Internacional de Geografia. passa a compor o quadro de professores da Universidade Federal da Bahia. que se tornaria um marco na pesquisa em geografia na Bahia e no país23. chefe da Casa Civil da Presidência da República no Estado da Bahia (durante o governo Jânio Quadros). Disponível em: http://www.php?storyid=. que continuou realizando após seu retorno da França. Sua tese. Como visto.org. Mônica de Carvalho e José Corrêa Leite). -./mar. No ano seguinte. Ainda em 1960.  A Universidade Federal da Bahia homenageou Milton Santos em . ao estudo de autores clássicos da geografia (com destaque para os franceses) que foram essenciais para a construção de uma geografia urbana e regional da Bahia.indb 174 05/04/2011 14:50:41 . Site da Fundação Perseu Abramo [texto elaborado em ]. com o apoio de Caio Prado Jr. ao longo desses anos que estabelecem o primeiro período (1948-1964). na Faculdade de Filosofia. que continuaria sendo publicado até 1969. Acesso em: jun. realizou outras importantes contribuições à geografia brasileira. Milton Santos seria demitido desta Universidade em 196424. dedicou-se. torna-se professor Catedrático. e presidente da Fundação Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia. . p. essa característica de acúmulo de atividades deixaria de existir. Quanto aos principais debates teóricos realizados pelo autor. A partir de 1960. em 1958. conferindo-lhe o título de Doutor Honoris Causa e o reintegrou ao seu quadro docente. como livre docente de Geografia Humana. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo.  SANTOS.  revista ieb n  set.  SILVA. O centro da cidade do Salvador. Território e sociedade: entrevista com Milton Santos (entrevistadores Odette Seabra. jornalista e editorialista. entre 1959 e 1961. Milton Santos foi ainda diretor da Imprensa Oficial da Bahia. Ciências e Letras. foi defendida em 1958 e publicada no Brasil em 1959. foi eleito presidente da AGB. e o geógrafo passaria a concentrar-se nas atividades de ensino e pesquisa. a trajetória de Milton Santos foi marcada pela coexistência de diversas atividades. p. 25 Paralelamente às atividades acadêmicas e jornalísticas. Ao retornar da França. além de ocupar cargos públicos administrativos. entre 1962 e 1964. Maria Auxiliadora da.

- RIEB52. Milton Santos viveu na França. uma definição da cidade como centro da região. o autor buscou compreender a velocidade do processo a partir de diversos fatores. ultrapassando assim o uso não questionado de teorias e conceitos voltados para explicar tal processo nos países centrais. Tais debates constam no livro A cidade nos países subdesenvolvidos (1965) e foram apresentados ao público de maneira mais detalhada nas obras Dix essais sur les villes des pays sous-développés (1970) e Les villes du Tiers Monde (1971). Durante esses anos. Em Dix essais sur les villes des pays sous-développés (1970). p. Já em Les villes du Tiers Monde (1971) foram enfatizados os temas urbanização. com destaque para o papel do Estado. até o ano de 1971. então. as cidades e a organização do espaço nos países subdesenvolvidos. tanto na Sorbonne quanto no Institut d’Études du Développement Économique et Social (1968-1971). apesar de existirem elementos comuns aos processos de urbanização de países de passado colonial. sobretudo. foram discutidos aspectos da economia nos estudos de geografia urbana nos países subdesenvolvidos. em Paris. quando o autor precisa deixar o Brasil e aceita o convite da Universidade de Toulouse. o crescimento e o funcionamento do tecido urbano. atividade urbana e dinamismos urbanos. onde lecionou nas Universidades de Toulouse (1964-1967).indb 175 05/04/2011 14:50:41 . cujas características se diferenciavam enormemente entre países centrais e periféricos. são  revista ieb n  set. preocupou-se com as disparidades regionais e também com os processos de hierarquia urbana. alguns fatores asseguravam uma personalidade própria a cada um deles. é preciso ressaltar que o geógrafo alertava para o fato de que. Propôs. para a análise da especificidade da urbanização nos países subdesenvolvidos. Dirigindo-se. podemos afirmar que os debates propostos pelo autor eram direcionados./mar. enfatizando as possibilidades de planejamento e intervenção. e ainda a morfologia. Nos ensaios que compõem esse livro. que é marcado por um ritmo e fatores distintos de formação. o autor buscou enfatizar a importância da geografia aplicada para os estudos sobre urbanização.O segundo período vai de 1964. ainda. tais como a organização interna das grandes cidades e as relações estabelecidas entre estas e as regiões. Nesse livro. o papel das capitais em seus processos de modernização e aspectos da hierarquia urbana. Durante esses anos. para a compreensão da especificidade do processo de urbanização do Terceiro Mundo. industrialização e revolução demográfica. de Bordeaux (1967-1968) e. Todavia.

Peru (Universidad Nacional de Ingeniería de Lima.. epistemologia da geografia e teoria do  SILVEIRA.] discutindo as formas da interpretação e os modelos.  revista ieb n  set.. entre 1964 e 1971. a teoria dos circuitos da economia urbana. op. Milton Santos: uma obra. entre 1971 e 1972. Milton Santos adverte sobre a necessidade de ressignificar as categorias e renovar a geografia. o geógrafo estreita os diálogos com a filosofia e intensifica seus debates acerca de categorias como o tempo. epistemologia.. a noção de tempo. Milton Santos: breve relato da trajetória científica e intelectual de um grande geógrafo. - RIEB52. Na França. cit./mar. o autor fortalece os diálogos com a filosofia. a temática das modernizações e suas implicações geográficas. Nesse período. p. Milton Santos passou a vivenciar com maior vigor a emergência deste novo período que. pois “[.indb 176 05/04/2011 14:50:41 . filosofia da ciência. . Canadá (Univesity of Toronto. em 1974) e na Tanzânia (University of Dar es Salaam. entre 1974 e 1976). . tema que seria amadurecido no período seguinte. casada com as técnicas e com os sistemas espaciais. Trabalhando com um grupo de geógrafos franceses. Outro livro que merece destaque é Le métier du géographe en pays sous-développés (1971). p. Venezuela. decidiu recortar. p. Segundo María Laura Silveira (1996). voltado sobretudo para debates acerca da epistemologia da geografia. de forma já bastante sistematizada.apresentados. María Laura. desse modo. Durante esses anos (1972-1977). filosofia das técnicas. que se estende até 1977. entre 1976 e 1977). em 1973). como Estados Unidos (no Massachusetts Institute of Technology. e na Columbia University.” 26 Durante os anos passados na França.  BERNARDES. Milton Santos foi professor e pesquisador em diferentes países. o fato de ter morado em lugares tão diferentes representou uma conjuntura muito especial para os avanços de suas leituras e seus debates. entre 1972 e 1973). bem como de pesquisas empíricas. ano em que retorna ao Brasil. Sem dúvida. denominava período tecnológico da história. cit. (na Facultad de Ciencias Económicas y Sociales e no Centro de Estudios del Desarrollo da Universidad Central de Venezuela. inicia-se o terceiro período. Nascia. uma teoria. ao encontrar o esquema necessário. Aí estaria o germe de mais um problema reflexivo que o autor levará por todo o futuro: como aproximar a noção de tempo do pensamento espacial? 27 Com sua saída da França. naquele momento.. op. essa obra é uma importante síntese quanto às suas elaborações teóricas sobre o método. período e totalidade. Adriana.

bem como os debates realizados a partir do III Encontro nacional de geógrafos. formado pelo circuito superior (que abriga um circuito superior marginal) e inferior. No mesmo ano foram publicadas versões traduzidas Cahiers Internationaux de Sociologie e. resultado da própria evolução do capitalismo e do impacto das modernizações. Também  O conceito foi apresentado em artigo científico pela primeira vez em Society and Space: social formation as theory and method. na Faculdade de Filosofia. iniciado quando o autor retornou ao Brasil. Ao propor a teoria dos circuitos da economia urbana. L’espace partagé (1975). Milton Santos lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro e. na revista Antipode de fevereiro de . depois. p. n. ganham ainda mais força as discussões sobre urbanização e subdesenvolvimento. contribuíram. bem como a publicação em português de O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo (no mesmo ano). o Brasil passava por profundas mudanças em sua configuração territorial. Tratava-se do retorno a um país bastante diferente daquele que o geógrafo foi obrigado a deixar em 1964. levando-o à ideia de urbanização desigual e à elaboração de uma obra que foi um marco no debate sobre a urbanização dos países do Terceiro Mundo. na Universidade de São Paulo (num primeiro momento na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e. O contexto existente na geografia brasileira é efervescente do ponto de vista dos debates teóricos e metodológicos. posteriormente. Nessa fase./mar. grosso modo. jun. publicada no Brasil em 1978. destacamos a apresentação da categoria de formação socioespacial28. no Boletim Paulista de Geografia.indb 177 05/04/2011 14:50:42 . estabelece o início do quarto período que. foram marcos importantes para a construção e estabelecimento da Geografia Crítica no país. corresponderia à produção teórica realizada ao longo da década de 1980. O retorno definitivo ao Brasil. ganham destaque as pesquisas sobre o território brasileiro. causa e consequência de inovações técnicas.  revista ieb n  set. São Paulo. Nesse contexto. em 1977. no ano de 1978. . e promovido pela AGB. a partir de uma visão crítica. Ainda marcado pela vigência do regime militar. entre outras obras e vários artigos elaborados nesse momento por diferentes geógrafos brasileiros. Ao longo desses anos. o autor explicita à geografia urbana clássica a necessidade de se compreender a especificidade do fenômeno urbano nos países subdesenvolvidos. Letras e Ciências Humanas). também. políticas econômicas. - RIEB52. posteriormente. A publicação desses livros no país.conhecimento e. . p. no existencialismo e na fenomenologia. -. com os debates estabelecidos no marxismo. ambos de caráter eminentemente epistemológico. com os debates relacionados à história do pensamento geográfico no Brasil e no mundo. A publicação do livro Por uma geografia nova (1978). realizado em Fortaleza. marcados pela dependência e a pobreza. Ao longo desse quarto período.

mais especificamente. Merecem também destaque.foram realizados estudos sobre a urbanização brasileira e esforços teóricos destinados à elaboração e re-elaboração de uma teoria geográfica. a preocupação com uma mediação entre teoria e manifestações do real foi norteadora. espaço. p. sobre a cidade de São Paulo. No ano de 1991. Também foi publicado o livro O espaço do cidadão (1987). publicado em 2000 – uma crítica contundente às mazelas do atual período histórico./mar. tempo: globalização e meio técnico científico-informacional (1994) e De la totalidad al lugar (1996). Aqui. In: Anais do IV Encontro Nacional da ANPUR. cidadania e consumo participou dos debates acerca da Constituição Federal de 1988. Razão e Emoção (1996). à construção de uma coerência interna e externa à geografia. apreendendo sua constituição a partir dos seus usos e do movimento de seu conjunto e de suas partes. os livros Pensando o espaço do homem (1982). seria também apresentada no livro A natureza do espaço. reconhecendo as complementaridades existentes. Marco de sua construção teóricoepistemológica. foram publicados nesse período os livros A urbanização desigual (1980). também voltados sobremaneira para um debate teórico-epistemológico. O espaço: sistemas de objetos. Com viés teórico-epistemológico. buscou construir uma teoria do país a partir do território. p. Do pensamento único à consciência universal. o autor propôs o entendimento da categoria espaço geográfico como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações29. Antecedendo o livro A natureza do espaço. Em 2001. Técnica e tempo. Tal proposta. Voltados para os debates sobre a urbanização nos países do Terceiro Mundo. cuja discussão central sobre território. Já o quinto e último período corresponde aos anos que vão de 1990 a 2001. sistemas de ações.indb 178 05/04/2011 14:50:42 . entre outros aspectos. Dando continuidade aos debates sobre a urbanização brasileira e. Técnica e Tempo. foram publicados os livros Metrópole corporativa fragmentada: o caso de São Paulo (1990). como em outros momentos. devemos mencionar Técnica. nesse livro dedicou-se. maio . Milton. associada a um complexo sistema de conceitos. a obra O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. publicada em co-autoria com María Laura Silveira. - RIEB52. os inúmeros artigos publicados na grande imprensa e as entrevistas veiculadas em revistas científicas e jornais  SANTOS. Salvador. nesse período. -. Espaço e método (1985) e Metamorfoses do espaço habitado (1988).  revista ieb n  set. Razão e emoção (que seria publicado em 1996). A urbanização brasileira (1993) e Por uma economia política da cidade (1994). Manual de geografia urbana (1981) e Ensaios sobre a urbanização latino-americana (1982). Vale também destacar o livro Por uma outra globalização.

É possível encontrar livros de autores que são. marcado por uma minuciosa sistematização que evidencia. queremos ressaltar que são documentos relativos ao 4o e 5o períodos que compõem.  A convite da sra. Sorre. tais como Max. Alfred Whitehead. Jean-Paul Sartre. Apresentada a proposta de periodização da trajetória epistemológica do geógrafo Milton Santos. talvez. Camile Vallaux) de distintas nacionalidades e momentos históricos. Karl Marx ou. Este encontra-se divido em biblioteca e arquivo de documentos30. Sorre. Esse banco de dados (em Access) foi concebido e desenvolvido pelo professor Manoel Lemes da Silva Neto (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas). títulos de filosofia. Tratam-se. de geografia econômica. a complexidade de seu trabalho intelectual. a crise do atual debate teórico e político no país e o papel da Universidade e do intelectual públicos. Jacques Ellul. de geografia urbana. sem dúvida alguma. teoria. história das cidades e urbanização. tais como Eric Dardel.indb 179 05/04/2011 14:50:42 . teoria econômica. além de pilhas de documentos que. reunidos em grande parte no escritório. localizado em seu último endereço residencial. a ausência de um projeto nacional para o Brasil. entre outros temas gerais. temos organizado e sistematizado as referências de consulta catalogadas no banco de dados do Acervo Milton Santos. teoria da história. Maurice Le Lannou. A biblioteca reúne. portanto. história.de grande circulação que evidenciavam. podem ser localizadas em diferentes pontos do escritório (e fora dele). quanto à composição e organização do Acervo Milton Santos. encontram-se livros de autores clássicos (em muitos casos. história das ideias. história do Brasil. economia política. Alfred Schutz. p. predominantemente. centrais em sua trajetória teórica. Quanto às obras de geografia. de história do pensamento geográfico. entre outros temas. ainda. grosso modo. Arquivo de documentos Apresentaremos agora. desde agosto de ./mar. Max. de teoria da geografia. este encontra-se estruturado basicamente em estantes e armários. Marie-Hélène Tiercelin dos Santos. - RIEB52. devido à falta de espaço para serem guardadas. Trata-se de um espaço físico bastante concentrado. entre inúmeros outros. história e filosofia da técnica. método. de documentos reunidos e sistematizados a partir de meados da década de 1970 (após seu retorno ao Brasil). entre outros. raros. entre outros fatores. o seu arquivo. Quanto ao acervo de documentos. algumas informações qualitativas.  revista ieb n  set.

encontra-se aí reunida. verifica-se também correspondências./mar. Há também variados levantamentos estatísticos (em grande parte. versões digitadas de livros. de artigos de jornal e de outros tipos de texto. já que. Aqui. pareceres. em alguns casos.indb 180 05/04/2011 14:50:42 . pastas e/ou documentos avulsos. datilografados ou digitados (fig. material estatístico. Já a variável “manuscritos” agrupa. há documentos produzidos por Milton Santos e outros autores.Dentre os tipos de material. elaborada desde fins dos anos  até . versões de textos etc. tabelas e gráficos elaborados por orientandos) e correspondências recebidas. já foi localizada a maior parte da produção teórica – elaborada desde o final da década de 1940 – que pode ser encontrada na forma de publicações menores. 2). no caso deste banco de dados. documentos escritos à mão. De autoria própria. De autoria de Milton Santos. Os esquemas são um tipo de documento importante.  revista ieb n  set. em diferentes continentes. artigos científicos. encontraram-se programas. relatórios de qualificação (de orientandos e bancas das quais participou). pois dentre eles encontram-se esquemas de  Trata-se aqui de um material extremamente valioso para pesquisadores e interessados na obra de Milton Santos. p. relacionadas a assuntos profissionais. esquemas de aula e ainda. com exceção algumas poucas publicações. com raras exceções que foram localizadas em cópias31. Há revistas e artigos científicos (cópias ou separatas) de diferentes autores. Nesse último caso. elaborados ao longo de mais de cinco décadas. Em sua maioria. é possível localizar teses e dissertações. projetos científicos e relatórios de pesquisa. 1). entre outros. Esses materiais podem ser também encontrados isoladamente nas diversas prateleiras que compõem seis estantes e três armários. entrevistas etc. tendo em vista que se refere uma obra composta por mais de quarenta livros e cerca de  artigos científicos (além de entrevistas e outras publicações). No que diz respeito às principais variáveis de catalogação. a sua produção. as publicações de autoria de Milton Santos são originais. existem caixas de arquivo morto que agregam envelopes. Quanto ao material preparado para cursos de pós-graduação. versões de artigos científicos. artigos e matérias de jornal. Entre os impressos (excluídos os livros que formam a biblioteca) encontram-se textos publicados. tanto de autoria de Milton Santos. levantamentos bibliográficos e estatísticos. - RIEB52. como de outros autores. publicado por diversas instituições. Seguramente não há outra possibilidade de ter acesso a esse material em sua totalidade – que será disponibilizado pelo Instituto de Estudos Brasileiros –. transcrições de aulas (feitas por orientandos). como no caso dos impressos. projetos científicos. que em alguns casos inclui diferentes etapas de sua redação. artigos de jornal (sobretudo aqueles vinculados no jornal A Tarde). os documentos são separados em impressos e manuscritos (fig.

4). Forma/ função/ processo/ estrutura. O grupo que denominamos “categorias e conceitos” é formado por materiais. mas também pode constar de outras. 6)  revista ieb n  set. Técnica/ sistemas técnicos/ ciência e tecnologia/ meio técnico científico-informacional. que tais categorias não devem ser entendidas de maneira isolada. Quanto à sistematização por grandes temas de pesquisa. p. São Paulo [Economia política da cidade]. Teoria e Método/ sobre Geografia. de discurso de aceitação Honoris Causa e. seja em sua organização material. É evidente a importância de uma organização temática (e não cronológica). Método/ dialética/ Praxis/ conhecimento/ marxismo e Geografia/ Marxismo (fig.conferências.indb 181 05/04/2011 14:50:42 . realizadas ao longo de tantos anos de trabalho intelectual (lembrando que. 3). Urbanização brasileira. estão concentrados sobretudo documentos que datam de fins dos anos 1970 em diante). Tal organização evidencia a importância do processo de internalização de categorias externas à Geografia na dinamização do arcabouço teórico do geógrafo (fig. 5). Essa organização é. Totalidade. Período Tecnológico e Espaço [sistemas de objetos/sistemas de ações]. Já o terceiro grande grupo. Urbanização. Modo de produção/ Formação social. exatamente. História da Geografia/ História e Geografia. Dois circuitos/ emprego [Circuitos da economia urbana]. mais uma vez./mar. Outro ponto relevante a ser mencionado é o critério do próprio geógrafo para a sistematização desses documentos (fig. Natureza/ Sociedade. inclui caixas sobre Geografia/ Teoria e método. como Tempo e Espaço. São exemplos disso: Espaço. de arguições. ainda. de palestras. que pode ser a chave de entrada de uma caixa. que determinamos como “Teoria e método em Geografia”. como já mencionamos anteriormente. Técnica e Espaço. Período Tecnológico/ Globalização. Estabelecemos três grandes grupos que definem a sistematização de caixas de arquivo morto. Lugar/ Região e regionalização/ Paisagem/ Escala. tanto internos quanto externos à geografia. categorias ou conceitos. Um exemplo é a categoria espaço. de participação em mesas redondas e debates. Necessário enfatizar. pastas e envelopes: categorias e conceitos. Um tipo de documento que qualitativa e quantitativamente é bastante significativo são as notas de leitura. grandes temas de pesquisa e teoria e método em geografia. Território/ Estado. cujo tema central são. Esse registro evidencia com muita força o que pode ser verificado nas referências bibliográficas de qualquer trabalho publicado por Milton Santos: a extraordinária quantidade de leitura. no acervo. indubitavelmente. podem ser encontradas caixas com as seguintes indicações: Bahia. Sistemas técnicos/ Espaço. seja em seu sistema conceitual. - RIEB52. Tempo/ evento/ período e periodização/ cotidiano. Urbanização no Terceiro Mundo. central. comentadas ou não (fig.

uma teoria. Ou seja. op. da liberdade e do projeto. como um chamamento a discutir um caminho aberto de possibilidades. a organização de documentos no acervo era um reflexo de sua forma de sistematizar as ideias. Entendendo o espaço como existência e a sociedade como o ser. - RIEB52.Dessa forma. é inegável o importante papel da trajetória epistemológica de Milton Santos na construção de uma geografia teórica. p. María Laura.. esperamos ter apresentado algumas informações qualitativas quanto à organização do arquivo de documentos do geógrafo (fig. afirma María Laura Silveira (1996): [.indb 182 05/04/2011 14:50:42 .. ao mundo da utopia. p. no enredo do autor.32 Portanto.. A organização temática por categorias/conceitos. Sobre essa preocupação. evidencia a importância que a internalização de categorias externas à geografia tinham na dinamização de sua produção teórica. que quantitativamente é superior à organização de documentos por grandes temas de pesquisa.. o Acervo Milton Santos (que inclui a biblioteca e o arquivo de documentos) representa um material precioso para a pesquisa não apenas em história do pensamento geográfico como também na própria história das ideias no Brasil e no mundo. Milton Santos: uma obra.  SILVEIRA. um reino da esperança. 7).  revista ieb n  set. Chama a atenção a quantidade de documentos relacionados a estudos teóricos e à realização de pesquisas empíricas. Somado à sua extensa obra. esteve voltado para a análise do presente. Reflexões finais Um dos pontos que queremos enfatizar neste artigo é o fato de que era a sistematização teórica do autor que comandava a organização material do ambiente de trabalho../mar. o que demonstra o rigor e a disciplina de seu trabalho como intelectual crítico.] a ideia de futuro aparece. tendo como objetivo central pensar o futuro. cit. Preocupado com a contribuição que a geografia poderia oferecer à Teoria Social Critica. aquelas que nos conduzam a um mundo mais humano. sua proposta de uma epistemologia existencial nos adverte sobre novas possibilidades. .