UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ DANIEL ROGERS DE SOUZA FERREIRA

PRAZER COM SEGURANÇA? AS RELAÇÕES ENTRE MICHÊS E POLÍCIA NUM PONTO DE PROSTITUIÇÃO DO CENTRO DE FORTALEZA

FORTALEZA – CEARÁ 2011

DANIEL ROGERS DE SOUZA FERREIRA

PRAZER COM SEGURANÇA? AS RELAÇÕES ENTRE MICHÊS E POLÍCIA NUM PONTO DE PROSTITUIÇÃO DO CENTRO DE FORTALEZA

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Políticas Públicas. Área de concentração: Sociologia. Orientador: Prof. Dr. Geovani Jacó de Freitas

FORTALEZA – CEARÁ 2011

F383p

Ferreira, Daniel Rogers de Souza Prazer com segurança? – As relações entre michês e polícia num ponto de prostituição do centro de Fortaleza/ Daniel Rogers de Souza Ferreira. — Fortaleza, 2011. 108 p. Orientador: Prof. Drª. Geovani Jacó de Freitas. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade) – Universidade Estadual do Ceará. Centro de Estudos Sociais Aplicados. Área de concentração: Sociologia 1. Sexualidades. 2. Prostituição Viril. 3. Territórios Marginais. 4. Policiamento. I. Universidade Estadual do Ceará, Centro de Estudos Sociais Aplicados. CDD: 306.74 CDD: 306.74

Drª. Geovani Jacó de Freitas Universidade Estadual do Ceará – UECE ________________________________________________ Prof. Área de concentração: Sociologia. Maria Glaucíria Mota Brasil Universidade Estadual do Ceará – UECE .UFC ________________________________________________ Profª. BANCA EXAMINADORA ________________________________________________ Prof. Aprovada em: ____/____/______.DANIEL ROGERS DE SOUZA FERREIRA PRAZER COM SEGURANÇA? AS RELAÇÕES ENTRE MICHÊS E POLÍCIA NUM PONTO DE PROSTITUIÇÃO DO CENTRO DE FORTALEZA Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará. Antonio Crístian Saraiva Paiva Universidade Federal do Ceará . Dr. como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Políticas Públicas. Dr.

Aos putos. .

agradeço à Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) pela bolsa a mim concedida durante a realização do meu Mestrado. Aos meus amigos e aliados. Cidadania e Ética (LabVida) e do Núcleo de Pesquisas sobre Sexualidade. Gênero e Subjetividade (NUSS). pela infinidade de coisas e momentos que dividimos juntos nas noites e madrugadas do Centro de Fortaleza entre uma e outra escavacação. À professora Glaucíria Mota componente da banca de avaliação e que me acompanha desde a elaboração do meu trabalho de conclusão de curso. torcida e livros emprestados para que eu pudesse estudar para a prova de seleção do Mestrado. Aos meus professores e colegas do Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade. Aos michês que estiveram conosco em campo dividindo experiências e garantindo nossa segurança no ponto de prostituição. Meu carinho especial às Secretárias Fátima e Cristina. À Bruno Lopes que nos auxiliou na condução das entrevistas com os policias do Programa Ronda do Quarteirão. Aos grandes incentivadores Mércia Cardoso e Fernando Brito. Ao professor Crístian Paiva que contribuiu valiosamente neste processo. . liderados pela querida Cinthia Fonseca. Aos funcionários e bolsistas do MAPPS. Ao Capitão da Polícia Militar Alex Ferreira. Supervisor do Núcleo de Policiamento Comunitário pela disponibilidade em recebermos e pelos encaminhamentos que possibilitaram a realização desta pesquisa. Agradeço ao Carlos Chaym pelo incentivo. Agradeço especialmente ao meu professor orientador Geovani Jacó de Freitas. Aos pesquisadores e bolsistas do Laboratório de Estudo e Pesquisa em Direitos Humanos.AGRADECIMENTOS Aos meus pais. Aos policiais que participaram da entrevista coletiva. À Erivaldo Teixeira. Por fim. À torcida pró-dissertação organizada nas redes sociais da internet.

Aluga o que não tem e o que não é. Glauco Mattoso . No bar. Nem tudo que combina faz na cama. Se o diz. mama. Se chupa não engole. mente. "Amor!" espera ouvir. Mais jovem aparenta que o cliente. No par sempre é mamado. Seu pênis é mais canto que instrumento. Mais másculo se diz do que se sente. Se come não é quente. Seu riso é menos gozo que lamento.O MICHÊ BICHADO SONETO 505 Mais serve ao cavalheiro do que à dama. Mas cobra a fantasia e. Seu tênis é maior do que seu pé. Quer ser mais que um garoto de programa. ciumento. pago ao café. Se dá não quer.

Nossa investigação partiu de uma experiência envolvente no campo de pesquisa. espaços públicos e resevados. Palavras-chave: Policiamento. . Territórios Marginais. Prostituição Viril. conversas informais. A polícia enquanto instituição pública responsável pela manutenção da paz e segurança atua tanto na prevenção destes conflitos como na resolução dos mesmos. silêncio e confiança. Nestes locais. regidas pelo paradigma do segredo. as interações afetivo-sexuais abrangem uma gama de sujeitos dentre os quais homens trabalhadores do sexo. observação local e anotações em nosso diário de campo. frequentado por indivíduos praticantes do homoerotismo que circulam pela malha urbana da capital do Ceará. considerando a existência de um circuito homoerótico que agrega estabelecimentos comerciais. as situações de conflitos são constantes. Por meio da fala destes agentes e dos garotos de programa é possível desenhar uma teia relacional que se fundamenta nos princípios da confiança nas sociedades modernas. e é partir delas que construímos uma narrativa baseada nas experiências de ambos os grupos que se revelaram através de entrevistas.RESUMO Esta pesquisa é resultado de um esforço na tentativa de descrever como michês e policiais se relacionam num ponto de prostituição situado no Centro da Cidade de Fortaleza. Nestas circunstâncias. No universo da prostituição viril. Por entre prédios e quarteirões mal iluminados os personagens da cena noturna estabelecem entre si relações de poder tensas e complexas. Sexualidades. os michês de rua formam o grupo mais exposto à riscos cotidianos em função da sua exposição na rua.

the street male prostitutes form the most exposed group to daily risks due to their exposure in the streets. the conflict situations are constant. Between buildings and poorly lit blocks the characters of the night scene establish among themselves tense and complex power relations. silence and trust. and it is from these webs that the narrative is built. among which it is possible to find sex professionals. sexual interactions involve a great variety of individuals. On these places. Based on testimonies from these agents and from the male prostitutes it is possible to draw a relational web based on the principles of trust of modern societies. act both in the prevention of these conflicts as well as solving them. considering the existence of a homoerotic network that entails business places. The police. ruled by the paradigm of secret. informal conversations. local observation and annotations in the field diary. public and reserved spaces. based on the experiences of both groups revealed through interviews. . usually by individuals that practice homoerotism and circulate in the urban areas of Ceará‘s capital. In the universe of male prostitution. Marginal Territories. This investigation originated from an involving experience in the field of research. Under the circumstances. Male Prostitution.ABSTRACT This research is result of an effort to describe the way male prostitutes and police officers relate to each other in prostitution areas located in downtown Fortaleza. Keywords: Sexualities. as a public institution responsible for peacekeeping and safety. Police Action.

................................. Circuito homoerótico do Centro.......................................... 39 40 41 42 42 43 44 51 52 53 54 55 56 57 58 59 61 61 62 63 63 64 64 65 FIGURA 3C Contato com garoto de programa via MSN.................................................................... onde localiza-se o ―complexo de cinemas‖..................................... Entrada do Motel Plaza......................................................................... Visão aérea do ponto de prostituição destacado em vermelho............................. Fachada do templo..................................................................................................................................................................... Entrada do Cine Secret ao lado do templo evangélico....... Cabine.....LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 FIGURA 2 Detalhe da programação da sauna Califórnia......................................................... Praça do BNB.............. Disney Lanches.................................................................. Entrada de um ―cinemão‖..... 6 FIGURA 7 FIGURA 8 FIGURA 9 FIGURA 10 FIGURA 11 FIGURA 12 FIGURA 13 FIGURA 14 FIGURA 15 FIGURA 16 FIGURA 17 FIGURA 18 FIGURA 19 FIGURA 20 FIGURA 21 FIGURA 22 FIGURA 23 FIGURA 24 Ponto de prostituição masculina de rua no Centro..................................................... Esquina do ponto de prostituição pela manhã........................... ..................................................................................................................................... Entrada do Cine Secret pela manhã................................................................................... Rua Assunção..... Visão geral do ―complexo de cinemas‖........................... Site de acompanhantes................................................................................... Calçada do Mega Lanches... FIGURASala Sala de Bate-papo do site UOL........ próximo aos Táxis fica o Disney Lanches.................................. Ponto à noite.......... Contato FIGURA 4 FIGURA 5 Anúncios de garotos de programa em jornal.................................................................................................. Parte interior de um cine pornô.................. Porta do banheiro do Cine Betão......................................................................................................................................................................... na esquina o Charm Motel............................... Mega Lanches pela manhã.......................................

Gays. Trans and Intersex Association Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social Laboratório de Estudo e Pesquisa em Direitos Humanos. Gay. Bisexual. Bissexuais Travestis e Transgêneros Ministério da Educação Núcleo de Pesquisas sobre Sexualidade. Lésbicas. Travestis e Transexuais Gays.LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ABGLT BNB CBO CIOPS CEJA GLBTT GLTB GRAB ILGA INAMPS LABVIDA LGBT MEC NUSS ONG ONU PLC PNDH II PNPCDH SEDH UECE Associação Brasileira de Gays Lésbicas e Travestis Banco do Nordeste do Brasil Classificação Brasileira de Ocupações Centro Integrado de Operações de Segurança Centro de Educação de Jovens e Adultos Gays. Gênero e Subjetividade Organização Não-Governamental Organização das Nações Unidas Projeto de Lei da Câmara Programa Nacional dos Direitos Humanos II Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos Secretaria Especial dos Direitos Humanos Universidade Estadual do Ceará . Cidadania e Ética Lésbicas. Lésbicas. Transgêneros e Bissexuais Grupo de Resistência Asa Branca International Lesbian.

....... ANEXOS...........................3 4......2 4........................................................................... Se essa rua fosse minha: ordem e conflito nas esquinas................................................................................................... SEGURANÇA.....................1 3................................................................. Homens de aluguel: considerações sobre prostitutos e prostituições............ Uma questão de confiança: populações marginais e abordagem policial no centro................................................................. Atividade policial em questão: entre recusas e reconsiderações...... Das praças No escurinho do cines pornôs: onde o sexo é a melhor diversão .... Governo......................................6 3.......................................1 2........................................ território e polícia: espaço urbano e gestão das populações..... Fazendo pista: quando campo é o asfalto....................................2 2............................................... Chegando junto no pedaço....SUMÁRIO 1 1....3 3 3........................................5 3.....4 4..................................................................... Cidadania sexual e a questão das sexualidades dissidentes: entre deslocamentos para o centro e permanência nas margens....5 5 47 47 51 53 58 58 60 65 74 74 77 82 84 88 97 109 ...... A esquina dos doces prazeres......................2 1............. Transgredir para desconstruir: a movimentação homossexual no Brasil...........................................3 1............................................................................................... O momento da cidadania................................................ 11 13 13 16 19 23 23 27 33 2 2........................ SEGREDO E SIGILO................................4 INTRODUÇÃO.............. O SEXO E A CIDADE: CONHECENDO O TERRITÓRIO HOMOERÓTICO DO CENTRO DE FORTALEZA......4 3.................................................3 3............. À noite todos os gatos são pardos?............. POR ENTRE PRÉDIOS E ESQUINAS: OS PERCURSOS DA PESQUISA Centro da cidade: identificação e descobertas..............................................1 1............................1 4..................... Pactos de lealdade: o silêncio como proteção............................. Dos Bares: Boêmia e prazer no Centro...... Políticas de visibilidade internacional versus práticas de invisibilidade regional........................................................................2 3... Dos motéis............................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................7 4 4.............................

a visibilidade pública e a produção de novas leis do sexo. Travestis e Transgêneros – LGBT. trazem as reivindicações a partir das demandas dos sujeitos e entidades relacionados ao movimento de Lésbicas. Segundo relatório da International Lesbian. os quais privilegiam o exame das forças visíveis. destaca que este processo conta com a contribuição 1 No Irã.20) Weeks (1998) ao tratar da questão da constituição do cidadão sexual na sociedade contemporânea. a lei estabelece que a homossexualidade seja punida com chibatadas. Como estamos muito mais próximos/as dos poderes constituídos (e visíveis). p. sem dúvida. Hoje estamos abertamente engajados/as com representação política. neste contexto. 2007.1 Cidadania sexual e a questão das sexualidades dissidentes: entre deslocamentos para o centro e permanência nas margens O debate em torno das políticas em relação às questões da esfera sexual tem reverberado de forma contundente na atualidade. Alguns acontecimentos em torno da questão no cenário internacional têm repercutido em nosso país. outros países também condenam o comportamento homossexual com medidas que vão da prisão à pena capital. Trans and Intersex Association (ILGA). Bisexual. preferências. refere-se a atividades. cabe. e até mesmo com a pena de morte por meio do enforcamento ou apedrejamento. De acordo com o documento ―Homofobia de Estado‖ (2010) elaborado por esta organização. Portugal e Argentina aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi este ano. Dissidência sexual. Estes. interesses e barganhas. 76 países possuem legislação anti-homossexual. Bissexuais. A ―hipervisibilidade‖ do sexo na política se dá num movimento em que dissidentes sexuais se locomovem para os espaços de enfrentamento às práticas de preconceito e discriminação.11 1 INTRODUÇÃO 1. para as arenas de disputa frente ao Estado. analisar essas dinâmicas com instrumentos convencionais da ciência política. seja por conta da proximidade geográfica e/ou política. Gay. (CÔRREA. quando organizados. . Gays. outro caso relevante é o papel de destaque que o Brasil está desempenhando para salvar a iraniana Sakineh Ashtiani condenada à pena de morte em virtude da acusação de adultério 1. identidades ou orientação sexual que se contrapõem à ordem heterossexual.

e os novos desafios para as instituições herdeiras e tradições que até então haviam excluído esses novos sujeitos (. caráter mesmo creditando do ao comportamento que o patológico. 2 1998. utilizavam-se argumento homossexualismo se tratava de uma anomalia incurável e inofensiva. The moment of transgression is characterized by the constant invention and reinvention of news senses of the self. houve um aumento das condenações relativas à infração do artigo 175. A luta de muitos destes grupos era contra a criminalização da homossexualidade. no parentesco. Ambos possuem dois momentos característicos distintos: o momento da transgressão. Por este motivo. . access to welfare provision. Estes eventos vão caracterizar o que classificamos como o primeiro momento de ascensão e declínio do movimento homossexual no mundo. Estas homossexual um organizações. Este. parenting. and partnership rights. p. Mac Rae (1985). Os homossexuais condenados eram enviados aos campos de concentração. para casais do mesmo sexo. (WEEKS. e o momento da cidadania. 37) Fazendo jus a esta consideração. 5 Durante o Nazismo. Fascismo e Stalinismo na Europa). or even marriage. reivindicavam que os homossexuais fossem deixados em paz e que a população fosse esclarecida a respeito.. and new challenges to the inherited institutions and traditions that hitherto had excluded these new subjects […] the moment of citizenship: the claim to equal protection of the law to equal rights in employment.12 significativa dos movimentos feminista e de gays e lésbicas. em virtude da ascensão dos regimes totalitários (tais como o Nazismo5. acesso aos benefícios previdenciários e direitos dos parceiros. após a Revolução de 1917.) o momento da cidadania: a reivindicação pela igual proteção da lei e por direitos iguais no trabalho. ou ainda. foi reintroduzida a punição à homossexualidade que havia sido extinta no governo bolchevique. 1998. 3 Foucault (1993) faz uma análise do que ele denomina de scientia sexualis e descreve como esta produz verdades sobre o sexo por intermédio do discurso médico científico. punida em vários países europeus4. os grupos de defesa dos direitos homossexuais foram perseguidos e extintos. que 2 O momento da transgressão é caracterizado pela constante invenção e reinvenção de novos sentidos sobre si. e identificados com um triângulo rosa. que é atualmente um dos símbolos do movimento LGBTT. que punia as práticas homoeróticas Fry. Posteriormente. constatamos que os primeiros grupos de defesa de direitos dos homossexuais da Europa organizavam-se em torno de uma contraposição ao saber científico construído em torno da ideia da personagem homossexual e do homossexualismo no século XIX3.. No caso russo. tradução nossa). (WEEKS. for same-sex couples. status social. 4 Uma destas mobilizações foi a campanha contra o artigo 175 do Código Penal alemão. social status.

Importante marco neste momento de transgressão (WEEKS. na mesma data. ação semelhante foi tomada pela Associação Americana de Psicologia em 1975. o que dificultava qualquer tentativa de organização social naquele momento.13 se inicia no final do século XIX. na cidade de Nova Iorque. e lá realizaram uma marcha pelas ruas da cidade a fim de lutar pela defesa de seus direitos. desta forma. sendo lembrados todos os anos ao redor do mundo nas atuais paradas realizadas por grupos LGBTs. Na noite do dia 28. No caso do Brasil. Vale lembrar. o dia 28 foi instituído como o Dia do Orgulho Gay. Estávamos imersos em regime ditatorial desde 1964. foi o ―Levante de Stonewall‖. o mais significativo para o movimento LGBT no século passado. que nas primeiras décadas do século XIX.2 Transgredir para desconstruir: a movimentação homossexual no Brasil Em nosso País. 1998). e assim continuaram por quatro dias seguidos. e vai até o seu desmantelamento nas primeiras décadas do século XX. foi quando a Associação Americana de Psiquiatria. nos Estados Unidos. Abriam-se. e provavelmente. grupos de homossexuais de diversos locais dos Estados Unidos dirigiram-se a Nova Iorque. No ano seguinte. Outro momento de ascensão e visibilidade da causa homossexual. terreno propício para que fossem abertos espaços para as reivindicações de segunda ordem. Após o episódio. o Brasil foi palco de uma crescente intervenção dos médicos. em 1973. 1. foi uma reação contra as investidas policiais nos bares de Greenwich Village. Ocorrido em de junho de 1969. as do momento de cidadania. removeu a homossexualidade do seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais. a luta pelos direitos homossexuais também passou pelo momento de tentativa de desconstrução das ideias difundidas na sociedade sobre a figura do homossexual segundo o discurso médico. juristas e criminologistas em questões sociais que abrangiam desde a . uma conjuntura diferenciada faz com que essas conquistas se deem num ritmo menos avançado. os frequentadores do bar Stonewall Inn enfrentaram os policiais.

Sob o pressuposto da degeneração física/mental. extinta em 1976. 6 GREEN (2000). no campo das teorias biomédicas do século XIX. 2000). os homossexuais brasileiros não se organizassem entre si. 2009. por conta da ebulição política e cultural da década de 1960 e pelas experiências vivenciadas por alguns exilados pelo regime. 37) O fim da ditadura no Brasil contribuiu para que os primeiros grupos de homossexuais. divulgou em seus editorias notícias sobre a Guerra do Vietnã. no Rio de Janeiro e a organização do Somos 8 – Grupo de Afirmação Homossexual (1979). as manifestações em Paris. pudessem dar início a sua organização7. No entendimento de Foucault. (SIMÕES. o movimento hippie. Importante salientar o caráter ―afirmativo‖ inserido na dinâmica da organização. De uma perspectiva bastante ampla. FACCHINI. em São Paulo. segundo o qual existe uma cumplicidade relativa ao objeto a partir do momento em que a ―bicha‖ pressionada se reconhece homossexual e passa a ocupar seu lugar. em meio o processo de abertura democrática. TREVISAN (2000) Descrevem a perseguição sofrida pelos homossexuais nos principais centros urbanos do Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo) pelos institutos de medicina criminal que buscavam criar um método eficiente de identificação destes desviantes. homossexuais foram submetidos à tratamentos médicos e internação diversos. um grupo de intelectuais do Rio de Janeiro e São Paulo passou a se reunir com o objetivo de constituir um espaço de discussão sobre a questão da homossexualidade. 8 Homenagem à publicação de vida curta editada pela Frente de Liberação Homossexual Argentina. 9 Militante na década da Frente de Ação Homossexual Revolucionária da França. e as manifestações estudantis Green (2000). podemos considerar os modernos movimentos LGBT produtos de um processo complexo de reapropriação de reelaboração da noção de ―homossexual‖ estabelecida primordialmente. o eletrochoque e a internação. . 7 Isso não quer dizer que anteriormente a este processo. dentre os quais a consulvoterapia. Como já preconizava Hocquenghen9 (1980). Aberto este campo de possibilidade. pela ditadura de seu país Green (2000). p. Dois acontecimentos são considerados como o marcos do surgimento do Movimento Homossexual no Brasil neste período: O lançamento do número 0 do Jornal O Lampião da Esquina (1978). que mesmo afirmando não possuir pretensões políticas.14 fundação ―higiênica‖ da mulher na família até a relação entre raça e crime 6 (GREEN. a fim de garantir o controle e repressão de suas atividades sexuais consideradas impróprias e antissociais. influenciados pelos ideais disseminados nos Estados Unidos e na Europa. exemplo disso foi a publicação do Jornal o Snob na cidade do Rio de Janeiro. durante os anos 60.

mas ao mesmo tempo. dele se libertam e ultrapassam. devido à incidência dos primeiros casos nas comunidades gays norte-americanas. 359). que o fazem funcionar até o limite. abre-se um novo patamar nas relações entre as organizações do movimento homossexual brasileiro e o poder público. o Conselho Federal de Medicina teve a mesma iniciativa antes. em 1985. Trevisan (2000). MACRAE (1983). 1996. No Brasil. aconteceu de forma semelhante: em São Paulo. No Ceará. . do dispositivo da sexualidade no interior do qual estamos. A epidemia foi veiculada na mídia como peste gay. Um ano depois. Das primeiras mobilizações destes grupos. se deslocam nele. 166). organizou a primeira conferência nacional sobre o assunto em 1984. 1999. (apud ERIBON. Os primeiros grupos homossexuais haviam passado por momentos de crise interna. O Grupo Terrence Higgins. Segundo Spencer (1999). a Organização Mundial de Saúde que desconsidera a homossexualidade como doença. o Conselho Federal de Psicologia em sua resolução de 01/99 proibiu os psicólogos de colaborar em eventos ou prestar serviços com intuito de tratar e/ou curar homossexuais. Na década de 1980. em relação a ele. p. Já em 1999. a pensão da travesti Brenda Lee passou a abrigar travestis infectados e doentes de Aids. No Brasil. alguns foram aos poucos se desarticulando e outros se extinguiram por conta de divergências políticas Green (2000).15 Os movimentos ditos de liberação sexual devem ser compreendidos como movimentos de afirmação da sexualidade. o Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) promoveu ações de 10 Resposta do movimento a operação de ―limpeza‖ do centro da cidade promovida pelo delegado de polícia José Wilson Richetti FRY. em memória do primeiro britânico a morrer de Aids. destacamos a campanha contra a repressão policial em São Paulo10. p. a vinculação entre a infecção por HIV e o comportamento homoerótico deu forças a manifestações de intolerância e preconceito. Num primeiro momento. inseridas na ideia do momento de transgressão descrito por Weeks. as respostas governamentais não respondiam à altura às demandas dos principais atingidos pela doença. sob o impacto do advento da Aids. o que impulsionou a auto-organização dos grupos nos Estados Unidos. 11 Desde 1993. e a retirada da homossexualidade do Código de Classificação de Doenças do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS)11. fundado no final de 1982. Isso significa duas coisas: são movimentos que partem da sexualidade. obtiveram os primeiros recursos públicos para a causa (WEEKS apud SPENCER.

no Estado de São Paulo. sendo a primeira caracterizada pelo fim do regime militar. Devido a um aumento da visibilidade destas instituições por conta da ascensão do mercado GLS e crescimento do número de paradas alusivas ao dia 28 de junho. no inicio. proporcionou-se uma relação diferenciada com as entidades do governo. o que permitiu que fossem destinadas verbas públicas às ONGs para que estas desenvolvessem projetos destinados às populações LGBTs. 1. . e surgimento dos primeiros grupos organizados. conforme analisa Rogers (2003).16 solidariedade para portadores de HIV e internos do Hospital São José 12. De acordo com Santos (2007. com objetivo de buscar implementar políticas públicas e coordenar ações em todo País. e a segunda se dá no período de enfrentamento da epidemia de Aids que abre caminho para o processo de institucionalização do movimento. a Deputada Federal Marta Suplicy apresentou ao 12 13 Unidade de saúde referência no tratamento de Aids. ―as ações desses grupos visavam a um trabalho assistencialista – a doação de cestas básicas. FACCHINI (2005) classifica este momento como a terceira onda do movimento homossexual no Brasil. no ano de 1983. roupas e remédios e organização de eventos para angariar fundos para o socorro às vítimas da doença‖. os grupos pressionavam os órgãos governamentais em virtude das suas demandas. Paralelamente. A Associação Brasileira de Gays Lésbicas e Travestis (ABGLT) é criada em 1995. Neste mesmo ano. a Secretaria de Saúde organizou um Programa de DST/Aids a partir de uma reunião com lideranças homossexuais. A exemplo disso. De acordo com Teixeira (2003). O momento da cidadania vai se constituindo durante este processo. que se fortalece nos anos 1990 com a proximidade mais efetiva das organizações do movimento homossexual e os governos 13.3 O momento da cidadania O processo de construção da cidadania homossexual no Brasil atinge outro patamar com o advento dos anos 1990 devido ao movimento de institucionalização dos grupos. abria-se espaço para a participação da sociedade civil na atuação conjunta de cogestão e proposição de políticas públicas. p. 126). Trevisan (2002) afirma que os anos 1990 presenciaram um verdadeiro ―boom guei‖. Ao assumir o formato de Organizações NãoGovernamentais (ONGs).

instituindo o Pacto de Solidariedade. instituindo a parceria civil registrada entre pessoas do mesmo sexo. travestis. foi arquivado em 2003. Em junho de 2003. Lésbicas. incluiu dentre suas propostas medidas de proteção aos direitos humanos de gays e lésbicas. em 2004. alterando alguns pontos do projeto. equipara a discriminação às pessoas que vivenciam a 14 Em tramitação desde 1995 na Câmara dos Deputados. é realizado o Seminário Nacional de Políticas Afirmativas e Direitos da Comunidade GLBTT. respeitando a especificidade de cada um desses grupos populacionais. a partir da equiparação de direitos e do combate à violência e discriminação homofóbicas. a Secretaria de Segurança Pública. teve relatoria do Deputado Roberto Jefferson. 2007). Lésbicas. com o objetivo de promover a cidadania de gays. este último. o Governo Federal.17 Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 1. a criação da Frente Parlamentar de Livre Expressão Sexual. transgêneros e bissexuais. no Estado de São Paulo. Em cumprimento a esta ação. Outro projeto lei de relevância para o movimento LGBTT organizado foi apresentado na Câmara Federal. As discussões resultaram na proposição do projeto de lei nº 5.252. através da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH). em Brasília. Bissexuais e Transgêneros. Em maio de 2002. de 2001. em 2001: o Projeto 5001/01. no Auditório da Câmara Federal. Uma das ações propostas pelo PNDH II foi a elaboração de um Plano de Combate à Discriminação contra Homossexuais. por conta dos pânicos morais que suscita (MISKOLCI. de autoria da Deputada Iara Bernardi. e o Centro de Acompanhamento de Crimes e Discriminação contra Homossexual. foi realizado o Seminário Nacional de Cidadania Homossexual. foi criado o Fórum Paulista de Gays. a segunda edição do Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH II). Já em 1999. que desde então sofre forte resistência de setores mais conservadores da sociedade. e no Rio de Janeiro.151-A/199514. Transgêneros e Bissexuais) e de Promoção da Cidadania de Homossexuais ―Brasil Sem Homofobia‖. o Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB (Gays. lésbicas. que deliberou. lançou. no salão nobre da Câmara dos Deputados. dentre outras coisas. em articulação com a Sociedade Civil Organizada. lançada no dia oito de outubro do mesmo ano. inaugurou o Disque-Denúncia Homossexual. Também no mesmo ano. que apresentou um substitutivo. . que ―Disciplina a união civil entre pessoas do mesmo sexo e dá outras providências‖.

foi elaborado o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas. o (PNDH-3) estabeleceu em suas diretrizes e objetivos o apoio aos projetos de lei de União Civil entre pessoas do mesmo sexo e do direito à adoção por homoafetivos e prevê a inclusão no sistema de informações do serviço público de todas as configurações familiares. bissexuais. Travestis e Transexuais (PNPCDH-LGBT). responsável. Como resultado das discussões. entre outras ações. a Presidenta justificou a decisão afirmando que em seu governo não faria ―propaganda de opções sexuais‖. na cidade de Brasília. Em maio de 2011. convocou a II Conferência Nacional LGBT a ser realizada em Brasília no mês de dezembro. principalmente. Bissexuais. vetou o kit anti-homofobia que seria que seria distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) a 6 mil escolas do Ensino Médio cujo objetivo era o de contribuir na discussão sobre diversidade sexual e o combate ao preconceito. por meio de decreto n° 6. foi criada a Coordenação Geral de Promoção dos Direitos de LGBT (vinculada à SEDH do Governo Federal). Logo após.18 homossexualidade ao racismo. O mesmo tem por objetivo orientar a construção de políticas públicas de inclusão social e de combate às desigualdades para a população LGBT. com o tema ―Direitos Humanos e políticas públicas: o caminho para garantir a cidadania de gays. Ainda neste mesmo ano. lésbicas. . as principais candidaturas se organizaram em tranquilizar seus eleitores firmando pactos e acordos com setores conservadores. recebeu outra identificação. tais como o aborto e os apresentados acima. travestis e transexuais‖. primando pela intersetorialidade e transversalidade na proposição e implementação dessas políticas. pela articulação junto aos 18 Ministérios cujas pastas possuem ações previstas para execução no âmbito do PNPCDH-LGBT. Gays. Ao chegar ao Senado. foi realizada I Conferência GLBT do País. No decorrer da campanha. Em junho de 2008. as últimas eleições para Presidente foram palco para polêmicas em torno do plano. no que diz respeito. sendo atualmente conhecido como Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/06. Em sua fala. em menos de uma semana. No dia 13 de outubro de 2009. às questões relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos que contemplam demandas do movimento de mulheres e LGBT.980. O primeiro ano de governo da Presidenta Dilma Rousseff começou bastante conturbado na relação com as questões da causa LGBT. Contudo.

A discussão foi retomada na Conferência Mundial contra o Racismo. informou que está trabalhando novo projeto com o acompanhamento do presidente da ABGLT. em 1993. onde foi elaborada a Declaração de Santiago. em virtude do processo de ―demonização‖ que sofreu. iniciou-se o debate sobre sexualidade e direitos humanos nos preparativos da Conferência de População e Desenvolvimento no Cairo (1994). por considerar que dificilmente o projeto original. que visa criminalizar a homofobia. a atual relatora da PLC 122. o Supremo Tribunal Federal havia decidido. a Discriminação Racial. 1. a fim de construir um texto que possa ser encaminhado à aprovação. Durante a organização. no início do mês de maio do mesmo ano. Toni Reis. a Senadora Marta Suplicy. a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância. sendo que os direito sexuais foram retirados no texto final (CORRÊA. a discriminação por orientação sexual é mencionada e exorta os Estados a preveni-la e combatê-la. . apesar da notícia de que o Projeto teria sido arquivado. o Brasil levou o tema para ser debatido.19 Por outro lado. uma conjuntura internacional na qual o Brasil está inserido e se alinha.2007). a Conferência Regional das Américas (2000). No mesmo texto. a inclusão de um parágrafo sobre a discriminação sexual proposta pelo Brasil não foi aprovada. que o mesmo continua em tramitação no Senado. dos quais podemos elencar alguns marcos.4 Políticas de visibilidade internacional versus práticas de invisibilidade regional Os avanços no campo da cidadania homossexual perpassa um plano mais amplo. 15 Anterior a esta ocasião. seja aprovado. reconhecer as uniões homoafetivas no Brasil. Na Conferência Mundial. os termos saúde sexual e direitos sexuais foram incorporados na proposição inicial. publicizou em nota oficial que. em Durban. A Conferência Mundial de Beijing (1995) desponta como o primeiro momento em que o debate sobre a discriminação por conta da orientação sexual foi realizado formalmente em um fórum das Nações Unidas15. Recentemente. Neste documento. na África do Sul (2001). A estratégia é que o novo projeto seja escrito com a colaboração de senadores que representam as bancadas evangélica e da família. Diversos fóruns de discussão política colocaram em pauta a questão dos direitos humanos das populações LGBTs. por unanimidade. na sua etapa preparatória.

um movimento de contraposição às mudanças na legislação internacional tem sido encabeçado por países de orientação religiosa fundamentalista. . Basta aplicar os princípios gerais da lei internacional existente que já foi debatida. Por outro lado. em consonância com Corrêa (2009): a evolução vertiginosa. resoluções e outros textos internacionais sobre os direitos humanos.20 O processo de discussão dos direitos sexuais apresenta três aspectos cruciais. A votação foi acirrada. convenções. p. a participação política de representantes das populações LGBT. O princípio geral do documento é o direito ao gozo universal dos direitos humanos. Recentemente. a elaboração e divulgação dos Princípios de Yogyakarta (2006) representam um avanço na busca de garantia dos direitos das populações LGBT. no sentido de aplicá-los a situações de discriminação. 2007. menos visíveis. contou com 23 votos a favor. e a capilaridade do debate em outros fóruns. Apesar da resistência ainda ressoante nas esferas de decisão política internacional. Os Princípios de Yogyakarta não são uma declaração de aspirações ou uma carta de aspirações de direitos.29). 19 votos contra e 3 abstenções. O documento compila e reinterpreta definições de direitos humanos fundamentais consagrados em tratados. Este cenário possibilitou a aproximação e o diálogo entre o Vaticano e organizações islâmicas. na Suíça (2011). o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que condena a discriminação por conta da orientação sexual. todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. adotada e ratificada pela maioria dos países membros da ONU. (CORRÊA. Fruto do trabalho de organizações do movimento organizado e uma comissão internacional de juristas. Os seres humanos de todas as orientações sexuais e identidades de gênero têm o direito de desfrutar plenamente de todos os direitos humanos. estigma e violência experimentadas por grupos e grupos em razão de sua orientação sexual e identidade de gênero. tais como os comitês de vigilância em direitos humanos. O texto foi apresentado pela África do Sul e sofreu forte oposição de outros países africanos e de origem islâmica. em Genebra. Segundo o texto (2006). O Brasil esteve entre o grupo dos que foram favoráveis à aprovação do texto. A ideia central é que não precisamos produzir definições específicas para coibir violações e proteger os direitos humanos dessas pessoas ou grupos.

estão localizados transexuais. enfatizando as relações com a polícia no centro da cidade de Fortaleza. do qual poucos desejam falar. especificamente. A partir de nossa pesquisa. Neste sistema classificatório. Discorremos sobre o processo de aproximação no campo e interação com os sujeitos investigados a partir de um entendimento que estávamos adentrando num jogo relacional. buscamos identificar seus locais de atuação e as dinâmicas relacionais internas e exteriores ao grupo. Trabalhamos na descrição de cada espaço em que se dão encontros de natureza sexual entre . o sexo heterossexual monogâmico. os prostitutos de rua. ocupa o topo da escala. Relatamos as dificuldades de entrada no espaço pesquisador. Classificamos as diversas modalidades de prostituição encontradas no município de Fortaleza seja em ambientes reais ou virtuais. Deste último grupo. lançamos nosso olhar sobre os trabalhadores sexuais masculinos. No capítulo seguinte ―Sexo e a cidade: conhecendo o território homoerótico de Fortaleza‖. sujeitos que ocupam os patamares mais inferiores de um sistema de hierarquia baseado em valores sexuais (RUBIN. No capítulo ―Por entre prédios e esquinas: o percurso da pesquisa‖ descrevemos como a escolha do objeto se relaciona com a biografia do pesquisador e com as suas escolhas no decorrer da sua trajetória acadêmica. disputa e construção de uma agenda política para nos aventurar num ambiente até então desconhecido como locus de investigação. e por fim demonstramos como os michês interpretam a questão das relações homoeróticas a partir de uma reflexão sobre as masculinidades. Este trabalho que agora apresentamos retrata justamente esse movimento de saída de uma posição confortável. de um campo familiar rumo ao um espaço onde não se deseja ser visto. Nos degraus mais inferiores. aprofundamos a ideia de mercado sexual e construímos um mapa do desejo homoerótico no Centro da capital cearense. como se deu o contato com a polícia. também conhecidos como michês. os que fazem sexo por dinheiro e aqueles que cruzam as barreiras intergeracionais. entre marido e mulher. sadomasoquistas. fetichistas. 1984). travestis. O grande desafio de nossa pesquisa foi deslocar nosso olhar dos espaços de visibilidade.21 Distantes destes espaços de disputa e interlocução há um contingente significativo de dissidentes sexuais que não reivindica identidade e tampouco visibilidade política.

nas considerações finais resgatamos toda a trajetória da pesquisa articulando com nossas análises de caráter conclusivo a fim de obter respostas às indagações que inspiraram este tudo.22 homens até chegarmos propriamente no ―ponto‖ de prostituição masculina que serviu de base para investigação do nosso estudo. representada pelos agentes do Programa Ronda do Quarteirão. internos e externos. Finalizamos observando o papel da confiança nas relações do mundo moderno. Por fim. segredo e sigilo‖ discutimos sobre a questão da organização interna do grupo de michês e suas relações com outros sujeitos e agrupamentos da cena local. e como estes buscam conviver e resolver seus conflitos. Ao mesmo tempo em que nos fazemos atentos as possibilidades de percorrer novos horizontes de investigação. . sejam eles. evidenciamos a importância que o segredo tem como forma de proteção do grupo de michês. Posteriormente. comentamos sobre como se constituem as relações de poder no campo. o que vai influenciar diretamente nos movimentos de interação entre os garotos de programa com a Polícia Militar. Em ―Segurança. Neste capítulo.

a um quarteirão da Avenida Duque de Caxias. Entre ruas e encontros anônimos. Ao tomar o Centro da cidade de Fortaleza como espaço de referência para nossa investigação. dispondo de pista de dança e cobrando pela entrada. ofereceu o mesmo serviço. muitos que tinham acabado de sair 16 O Anistia Bar era um barzinho localizada na Rua 24 de maio. A boate Divine. anterior a ida para as boates. . conforme anuncia Josso. Outro espaço a que costumava ir era a Praça do Banco do Nordeste do Brasil. desde minha adolescência tenho percorrido o local pesquisado. teve influência significativa no processo de descoberta e interação com outros indivíduos homossexuais. situado na travessa Estefânia Salgado. (1999). que funcionava na Rua Pedro I. quando comecei a cursar o Supletivo de Segundo Grau. Aberto de segunda a sábado. que se fundamenta. nos serviu como suporte para a realização do trabalho. Quando a locadora fechava. também. Minhas idas ao bairro aumentaram significativamente em 1997.23 2 POR ENTRE PRÉDIOS E ESQUINAS: OS PERCURSOS DA PESQUISA 2. estigmatizada pela localidade e pelos frequentadores identificados como homossexuais de menor poder aquisitivo.1 Centro da cidade: identificação e descobertas Primeiramente. Foi a partir dessa presença mais constante que fiz minhas amizades com outros gays que por ali encontrava. vale destacar que. Este elemento. aberta tempo depois. destacamos que o interesse por temas que giram em torno das sexualidades é algo que se apresenta desde as nossas primeiras pesquisas na graduação. por volta das 18h. dentre clientes e amigos. contribuiu para que o público do Centro migrasse para a nova casa. fui constituindo uma identificação com lugares e pessoas que por ali passavam. de certo. O fato de ―andar pelo Centro‖ naquele período. aglutinava o público GLS como local de concentração. onde juntamente com outros gays. Um dos atendentes do estabelecimento era gay e reunia em torno de si muitos outros. íamos até lá. logo após o horário das aulas do supletivo. e está atrelado a um componente. Também pude conhecer o Anistia16. que até hoje é uma das boates mais conhecidas de Fortaleza. ou simplesmente ―BNB‖. Posteriormente. Destaco aqueles que conheci na Locadora Gurgel Vídeo. a partir de relatos pessoais e fragmentos da minha história de vida. no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA) Gilmar Maia de Sousa. primeiro bar GLS que passei a frequentar. sobretudo biográfico.

em telões e/ou televisores. michês. mesmo assim. No trajeto até o ponto de ônibus. acabando por chegar junto das travestis e estabelecer relações mais próximas. não deixava de observar a movimentação dos vigilantes. O clima de harmonia presente no ambiente por vezes era rompido por conta de conflitos internos aos grupos ali presentes. dos michês. Lá. e o trânsito por alguns pontos e estabelecimentos considerados perigosos. quem passasse na rua. flanelinhas. e outros personagens noturnos. em 1995. Recordo que sentia medo das travestis. supermercados etc. pois ouvia falar que provocavam brigas e jogavam ácido nas pessoas. também denominados de ―cinemões‖. travestis. uma travesti que faz programas no Cine Majestick. saunas. Alguns funcionam em galpões e casas adaptadas no Centro. Frequentados geralmente por gays. ―cinemões‖. pude desconstruir essa ideia. me deparei por diversas vezes com sujeitos que transitavam à noite pelas ruas. lojas. ―algumas bichas chegavam aqui bem mais cedo. Por conta disso. salões de beleza. já havia perambulado pelo Centro. Vale ressaltar que. e às vezes. são salas de exibição de filmes pornográficos diversificados. e até mesmo mulheres. no cotidiano das relações. catadores de lixo. A praça do BNB funciona até hoje como um ambiente de convergência.24 do Cine Majestick17. tendo como um dos principais assuntos como a movimentação no cinema pornô e como tinha sido os programas realizados pelas travestis que ali também costumavam passar após um dia de trabalho. porque conhecidos por roubar seus clientes. também. Com o passar do tempo. travestis e seus respectivos clientes. Tratava-se do meu primeiro emprego na filial do Mc Donald’s situada à Rua Barão do Rio Branco. costumava andar rápido. Foi a partir dessa experiência que tive pela primeira vez contato com os michês. motéis. . até mesmo pela manhã‖. mas sob outras circunstâncias. anterior a este período. 17 Os cines. A partir de então. Segundo Isabele.). recebia o cuidado do grupo que se manifestava com a recomendação das mesmas em evitar o contato com determinados sujeitos. Presenciamos algumas discussões entre gays. aglomeração e passagem para outros recantos que constituem a rede de serviços presentes nas suas redondezas (leia-se: bares. A circulação na praça independe do horário. conversávamos sobre os acontecimentos do nosso cotidiano. Meu horário de saída era às 23h.

tal como modo de falar e um comportamento masculino bem acentuado. Paralelamente a estas incursões no centro da Cidade. Após ser aprovado no curso de Serviço Social. os michês andavam na direção dos mesmos e por inúmeras vezes observamos esse vai e vem constante. Certa vez. Ao mesmo tempo em que evitava qualquer aproximação com os mesmos. por conta do acúmulo de discussões e decorrente do envolvimento com a política estudantil. no segundo semestre de 1998. Em duas ocasiões que considero emblemáticas. passei a estudar questões ligadas ao gênero e à sexualidade para além da experiência particular. Na Universidade. Numa segunda circunstância. pude ter uma ideia mais próxima de como se dava essa dinâmica. Enquanto batíamos um papo. O comportamento dos clientes me passou a impressão de que ao mesmo momento que os michês eram tidos como objetos de desejo. por conta disso justificava-se o cuidado no trânsito naquele espaço e na abordagem. mas de forma bem pontual. e assim chamar a atenção de possíveis clientes. exibindo-se aos que passavam de carro. fui junto com um colega observarmos a movimentação de travestis e michês próximos ao antigo Colégio Marista Cearense. também eram considerados elementos perigosos. Assim. Ele havia conversado comigo e me dado uma carona. ou mesmo andando pelas calçadas. me afastei do cotidiano do ―BNB‖. O que mais me chamou a atenção nessa experiência foi observar a posição que os garotos de programa buscavam ocupar ao longo dos quarteirões e a forma como se movimentavam ao perceber que algum veículo se aproximava e estacionava próximo. Os carros que pude observar davam muitas voltas em torno dos quarteirões até que parassem afastados dos grupos. que ainda visitava nos finais de semana. sentia-me curioso em saber como seria o cotidiano de um garoto de programa. Usavam roupas curtas e apertadas na tentativa de evidenciar seus corpos. Tanto por meio dos debates no . o mesmo me dizia que os garotos de programa possuem algumas características bem distintas. estava me preparando para prestar vestibular na Universidade Estadual do Ceará (UECE). lembro-me de ter conversado com um homem que saía com michês.25 Eu os identificava como aqueles sujeitos que ficavam estacionados nas esquinas.

entidade onde prestei serviços como técnico. era investigar a relação das polícias no cotidiano das populações LGBTs. como também não nos deteríamos mais às ações do Município. delimitamos nosso foco no que denominamos de homossexualidades marginais: gays pauperizados. Direitos e Contextos de Vulnerabilidade da População LGBTT no Ceará (2009) e da XI Parada pela Diversidade Sexual: Percepções de Policiais sobre a Parada e populações LGBTTs (2010) 18. optamos em subtrair do público investigado as travestis e outros grupos pauperizados. além de participar de fóruns de participação e organização política do movimento de Lésbicas. tivemos a oportunidade de participar da supervisão das pesquisas da X Parada pela Diversidade Sexual: Indicativos sobre Perfil. A partir 18 Ambas as atividades vinculadas ao projeto de pesquisa novos atores. Gênero e Subjetividade (NUSS). Travestis e Transexuais (LGBT). Mais à frente. desde a época da graduação. decidimos por enfatizar a questão da segurança pública. da Universidade Federal do Ceará (UFC). No decorrer das orientações em torno do projeto inicial. dentre os quais o movimento homossexual. estive próximo de vários segmentos organizados socialmente. . Gays. a partir de então. novas demandas: avanços e recuos na Segurança Pública no Ceará. A ideia.UFC. e da possibilidade de uma inserção mais próxima no território da prostituição masculina. Bissexuais. redigi meu Trabalho de Conclusão de Curso tendo como objeto de investigação o Grupo de Resistência Asa Branca. Neste último. Fruto dessa aproximação e constituição de laços identitários. Dr. Fator relevante que influenciou na redefinição dos rumos da investigação foi a nossa participação no Laboratório de Estudo e Pesquisa em Direitos Humanos. por conta da viabilidade da pesquisa. na primeira gestão do governo da prefeita Luizianne Lins.26 seio do movimento estudantil no Centro Acadêmico Livre de Serviço Social e do Diretório Central dos Estudantes. então já formado. e no Núcleo de Pesquisas sobre Sexualidade. por meio da Coordenadoria de Diversidade Sexual. coordenada pelo Prof. Cidadania e Ética (LabVida) da UECE. César Barreira do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) . apresentei projeto de pesquisa que tinha por objetivo investigar as políticas públicas de combate à homofobia. travestis e michês que circulam pelo centro da Cidade. Como ingresso do Mestrado de Políticas Públicas e Sociedade. No desenvolvimento da pesquisa.

A fim de organizar nossos estudos em torno do objeto a ser investigado. 1996) e nos aproximar dos michês. Cabia. Precisamente. além da possibilidade de transitar pelo espaço sem chamar tanto a atenção de quem me visse ou passasse por lá. esquinas. considerada como preparatória do trabalho principal (HUGHES. Para além do que se poderia ver e se ouvir. elegemos como local de investigação uma esquina do quarteirão que provavelmente reúne a maior concentração de cines pornôs da cidade. cheiro de urina nos postes. o medo de estar ali. Definido o campo de pesquisa. por conta da necessidade de tornar possível a realização do trabalho. e o cansaço das horas em pé. O conhecimento prévio da área foi um dos fatores que facilitou neste processo. destacando o personagem do michê. a secura da boca. 2007). o cruzamento das ruas Assunção e Clarindo de Queiroz. posteriormente. Esta etapa da pesquisa é o que denominamos de ―estudo piloto‖ ou ―estudo exploratório‖. nos lançamos in loco a fim de realizar uma observação inicial da cena (CRAPANZANO. identificar as populações que compõem a cena. Inicialmente.27 desta escolha. Como já nos era advertido: . queríamos fazer uso dos demais sentidos naquele espaço. seja pela escuta do que dizem as pessoas que passavam em seus veículos. fica evidente que já existia uma ideia preliminar em torno do local de concentração dos personagens que desejávamos investigar. pelas luzes dos carros. 2005). nos lançamos no universo das pistas. paisagens obscuras do Centro de Fortaleza. definir quais seriam nossas estratégias de inserção no campo. buscamos ser afetados pelos sujeitos e pelo campo por meio de uma experiência envolvente. Partimos da observação feita por Perlongher (2008) de que ―não há melhor maneira de estudar o trottoir do que fazendo o trottoir‖. partimos de uma discussão em torno da ocupação e uso dos espaços da cidade para. nossa intenção era conhecer o pedaço (MAGNANI. seus modos e práticas cotidianas em interação com os agentes da segurança pública no local. pelo frio das ruas à noite. Num primeiro momento.2 Chegando junto no pedaço No que diz respeito à nossa pesquisa. 2.

. (BECKER. Mas isso significa que deve. quando ―Beto‖ (nosso primeiro interlocutor) me perguntou o que fazia ali. Da mesma forma que estávamos ali para observar. 173). 2005) entre pesquisador e atores sociais e é permeado por negociações e acordos que nos interpela a exercitar a capacidade de estabelecer com nossos informantes vínculos de confiança. (. também interagimos com a cena. 2008. os estabelecimentos e serviços que se encontram ao redor da esquina acabavam funcionando como pontos de apoio que utilizava para descansar um pouco.. Nestas circunstâncias. por volta das 23h. estava posto o desafio de romper com resistências. Pode ter de passar a noite acordado e dormir durante o dia. sofríamos o mesmo processo por parte daqueles que se faziam ali presentes. enquanto desempenham suas atividades comuns. em entrevista concedida no dia 27/01/2011). tomar um transporte seguro para casa. Como posteriormente foi reforçado: ―Você tinha que fazer amizade‖. não poderia ficar ali. fazer uso do banheiro. Costas e pé direito apoiado no poste.] o estudioso deve passar pelo menos por algum tempo observando-os em seu hábitat. Consideramos que toda pesquisa de campo se assenta num jogo de relações (MELUCCI. e isso pode ser difícil em razão de seus compromissos com família e trabalho. por . adotar horários inusitados e penetrar no que são para eles áreas desconhecidas e possivelmente perigosas da sociedade. Antes. dispostos enfileirados no quarteirão.. valendo-se. Planejávamos.) Andando de uma esquina a outra. assim como eu imaginava que os michês faziam. e caso estivesse fazendo. dentre outras coisas.28 [. porque assim fazem as pessoas que estuda. Enquanto buscávamos catalogar sujeitos a partir de suas práticas. sobretudo da empatia. Fui vestido de maneira simples: bermudas. resolvi parar encostado numa placa de trânsito. Um rapaz se aproximou de mim e perguntou se eu estava fazendo programa. pois cada observação é uma intervenção (IDEM).. (Trecho de Diário de Campo). respondi simplesmente que gostava da noite e de conhecer pessoas e lugares diferentes. Ainda acrescentei que tinha intenção de saber como era o cotidiano dos michês devido a uma experiência anterior no trabalho de prevenção de DSTs/Aids numa ONG. lanchar. pois o dono do ―cinemões‖ não permitia. Para justificar minha presença no local. Tarde da noite. me dirigi à esquina da Rua Assunção com Clarindo de Queiroz. p. por algum tempo. disso passei em frente aos ―cinemões‖. Desde a primeira incursão. pois tínhamos noção de que nossa presença em si não se limitava à observação apenas. camiseta e chinelos. que já esperávamos enfrentar. (Edson.

um rapaz passou e puxou papo. eleger aqueles que poderiam nos conceder entrevistas na próxima etapa da pesquisa. a resistência se repetia. A revelação de que estava fazendo uma pesquisa fez com que um dos interlocutores com o qual eu tive um contato mais próximo. surgia novamente a necessidade de responder a respeito e me posicionar diante alguém ou ―ser posicionado‖. como pude descobrir. (Trechos de Diário de Campo). Eu disse que estava dando uma volta e não fazia programas. branco. o homem perguntou onde eu morava. A condição para que eu estivesse no campo estava garantida.. Respondi que não e apontei para o Edson e disse que ele fazia. O motorista desligou o motor. na ocasião. outro fator implicou numa dificuldade para que eu realizasse as entrevistas com aqueles com que eu me propús. A facilidade de me fazer presente ali tinha o seu revés. se eu trabalhava ali.) Num dos retornos à outra esquina. começou a fazer programas aos 19 anos por indicação de uma . levantou-se novamente. O homem que dirigia acompanhado de uma mulher na garupa..29 meio desses primeiros contatos. Ainda acerca de minha identidade em campo. passei pelo senhor e percebi que me olhava. perguntou se eu fazia programa. Não se tratava de uma garantia com qual eu poderia contar sem que tomasse devidas posturas. (. (. não pude escapar dos questionamentos sobre quem eu era e o que estava buscando. recebi alegativas inúmeras que impossibilitariam a sua realização e por mais que apontasse alternativas de horário. fui novamente abordado por um cliente potencial. que contra-argumentou que eu ―não tinha cara‖.. Quando questionou quem eu era. a posteriori. de uma hora para outra mudasse o tom comigo. Mesmo sem ―cara‖ de michê. em outras havia quem me encarasse como potencial cliente. percebi que Beto não estava à vontade com aquilo. Até mesmo em relação a Edson (21 anos. um casal numa moto. no ato de ―fazer amizade‖.) Na volta para o ―ponto‖. e pediu que o outro fosse embora. Fui até lá. Às vezes que tentei ligar para marcar uma conversa com Beto.. com uma mão entre as pernas. na ocasião. isso logo na primeira noite: Enquanto conversávamos. mesmo assim. ―homem‖. Fora este problema. (Trecho de Diário de Campo). até então. a minha permanência segura dependia de outras circunstâncias também. disse ao passante que eu ―fazia de vez em quando‖. Trocamos um ―tudo bem‖ ele disse que estava ―vendo o que rola‖. De dentro do carro. baixou os vidros e me chamou. em algumas ocasiões havia quem perguntasse sobre programas. Vez ou outra. desempregado.

um me passou um número de celular que não recebia ligações. o diálogo com a polícia deu-se através de aproximação por intermédio de mecanismos formais. Este encaminhamento partiu em virtude da dificuldade de interpelar os agentes da segurança pública in loco. pois já havia conversado com o rapaz em questão e ele me passou informações desencontradas. entrei em contato com mais dois michês. Em um destes retornos. desde a época que namorou uma travesti). tal como Beto que fora apontado por ele como chefe do grupo. ele me relatou que tinha tentado convencer que outros colegas conversassem comigo. definimos que iríamos concentrar nossa investigação ao agrupamento de policiais pertencentes ao Programa Ronda do Quarteirão. Herlon (45 anos. começou a fazer programa entre os 17 e 18 anos. tendo em vista que uma de suas características é a permanência na mesma área de atuação. Havia modificado o nome e bairro onde morava em relação à primeira vez que conversamos. Portanto. Na ocasião. negro. Primeiramente. o primeiro michê que consegui entrevistar. Eu mesmo já desconfiava que isso pudesse acontecer. e outro que no caminho para sua residência pediu que me fosse avisado que um parente havia falecido. peguei o contato telefônico de ambos. houve um período de ―sumiço‖ que me fez repensar meu trabalho e retornar ao campo a fim de tentar convencer outros de falarem comigo em outro momento. Desta vez.30 amiga travesti que o apresentou a um homem que pagou para passar a noite com ele). . Já havíamos entrevistado Edson em sua casa por duas vezes. dos quais. Já Herlon foi entrevistado na ONG em que presta serviços Diferentemente do contato com os michês. no horário de suas atividades de trabalho. O outro era conhecido meu. se dispôs a contribuir com a pesquisa. acreditamos que teriam mais elementos para descrever as relações que estabeleciam com os garotos de programa que trabalhavam no nosso locus de pesquisa. como de fato fez. e até mesmo na ausência constante no ponto. mas todos resistiram. bissexual. trabalhava num supermercado. como pelo estranhamento que a presença dos mesmos desperta nos outros personagens da cena. O ―sumiço‖ caracterizava-se pela dificuldade de reestabelecer contato em função das chamadas que não eram atendidas. pelo celular desligado. já expunha a condição de pesquisador.

entrevistamos seis homens numa das salas do 5º Batalhão. o que nos demandaria um trabalho maior. foi esclarecido ao grupo o teor da pesquisa e nossa preocupação em resguardar o sigilo dos mesmos. convidei outro pesquisador do LabVida para que me auxiliasse na condução da conversa. Marcamos uma conversa no 5º Batalhão da Polícia Militar do Estado do Ceará mediante a qual esclareci os objetivos da pesquisa e definimos os detalhes da entrevista. por meio de telefonemas. e a requisição de que fosse encaminhado ao Supervisor do Núcleo de Policiamento Comunitário o tema da pesquisa e as perguntas que seriam realizadas. passamos a nos comunicar com o policial Capitão responsável. buscamos enfatizar não o porquê das coisas e acontecimentos. solicitando que nos fosse permitido identificar e entrevistar policiais responsáveis pelo patrulhamento que cobre a área correspondente ao ponto de prostituição. Depois de mais ou menos um mês. tanto na elaboração dos instrumentais quanto na condução das perguntas aos nossos entrevistados. 2008). michês e policiais. Para ambos os grupos. Ficou acertado que os policiais dos turnos B e C (correspondente ao intervalo de tempo que vai das 14 às 6h00 da manhã) que atuam na área fossem entrevistados coletivamente numa data a ser agendada pelo Capitão. tanto que reforçamos a ideia ao não pedir aos policiais quaisquer dados que pudessem identificá-los. No dia marcado. Laboratório vinculado ao Mestrado Acadêmico de Políticas Públicas e Sociedade. Da forma como encaminhamos. já que este havia realizado um trabalho junto aos policiais do Programa. os entrevistados em questão foram convocados pelo Comando. recebemos uma resposta positiva. Na ocasião. . Nesse processo. mas o como se davam os processos e fatos por eles relatados (BECKER. Essa estratégia foi eleita porque a outra sugestão colocada pelo Capitão foi que eu tomasse nota dos telefones dos policiais. e individualmente tentasse marcar com cada um deles um dia e horário específico para entrevista. o que nos poupou de trabalhar com eles um processo de convencimento. A partir do encaminhamento da solicitação feita pelo Comando.31 Encaminhamos um ofício ao Comandante do Batalhão de Polícia Comunitária através do LabVida.

Numa de nossas incursões. infratores e impositores de regras. Segundo Dante. buscamos dar ouvidos á outras vozes. mesmo alegando que havia lanchado naquele local semana passada. Pedi um refrigerante e a mesma respondeu que não poderia me vender. minha presença na recepção foi interditada. destacamos o dono dos ―cinemões‖. os funcionários obedeciam diretamente ao dono do cinema. Quando me dirigi à entrada de um dos cinemões para comprar um lanche. tivemos contato com outros sujeitos da cena noturna que interferiam diretamente na dinâmica local. Fiquei desconfiado da atitude. No decorrer do trabalho em campo. É da natureza do fenômeno do desvio que a dificuldade que qualquer pessoa encontra para estudar os dois lados do processo e captar precisamente as perspectivas de ambas as classes de participantes. Como já havia me advertido Edson. visto que atividade engloba a ação de outras pessoas. (Trecho de Diário de Campo). virou o rosto e seguiu em frente. Parei encostado num carro. seu patrão era bastante reticente e não aceitaria falar comigo.. voltei à rua com intuito de rever Dante e acordar com ele os detalhes da conversa. pediu que eu comprasse em outro local. O mesmo acenou negativamente com a cabeça. poderia me conceder uma entrevista. Ao chegar ao quarteirão. No entanto. não obtive êxito na concessão das entrevistas com o dono e/ou . passei por ele e vi que me reconheceu. aproveitei para conversar com um dos funcionários dos cines a fim de verificar a possibilidade de entrevistar o dono. 2010). No sábado próximo. p.175). 2008.) Perguntei se nossa conversa daria certo. e que não permanecesse na entrada. elemento que aparece na fala dos interlocutores como protagonista de situações de conflito. anotei o seu contato telefônico para que agendássemos um horário. Senti que o clima não estava bom. mas imaginei que agiu daquela forma por conta da presença do ―dono‖ (. (BECKER. sim.32 Reconhecemos o risco de tender adotar um dos pontos de vista (BECKER. Neste mesmo dia. Destes. contei uns 10 carros. De pronto. Portanto.. disse que ele. Me despedi e ele sequer respondeu. Liguei para ele na mesma noite contando que como ele havia previsto. em determinado momento. recebi um tratamento um tanto ríspido de outra funcionária dos cines. Falei que ninguém era obrigado a falar. Avistei Dante e outra funcionária falando com o dono do cinema.

p. geralmente. sujeitos e mecanismos de interação entre trabalhadores sexuais e seus respectivos clientes. normais ou não. que mediante remuneração. a prostituição viril está associada à prostituição homossexual.. De tal forma.3 Homens de aluguel: considerações sobre prostitutos e prostituições Antes mesmo de discutirmos as especificidades da prostituição viril em Fortaleza. estes. se entrega em relações sexuais. sob qualquer forma. de maneira habitual. Num âmbito mais geral. e sim ―prostituições‖ (ARAÚJO.. Fiz um pequeno relato do que tinha acontecido há pouco. com diversas pessoas do mesmo sexo ou de sexo oposto. são jovens que se prostituem sem abdicar mão dos protótipos gestuais e discursivos da masculinidade. Definiu-se como prostituto todo indivíduo. A dificuldade em conquistar a confiança dos interlocutores. [. que trazem consigo a feminilidade oposta à masculinidade exigida dos michês. As resistências e desconfianças vinham à tona mais uma vez. pois não seria bom que eu permanecesse por mais tempo ali. Um alude o ato mesmo de se prostituir [. a Organização das Nações Unidas (na reunião do seu Conselho Econômico e Social em Tóquio. de um ou outro sexo. ―Outra expressão para se referir ao profissional do sexo masculino é ‗garoto de programa‘.33 funcionários.] fazer michê alude mesmo de se prostituir..] Numa segunda acepção. que hoje não podemos falar de prostituição. (PERLONGHER. diferenciando-se das travestis. O termo michê tem dois sentidos. 2006). Segundo Perlongher (2008). Esse termo está associado mais ao indivíduo do sexo . o termo michê é usado para denominar uma espécie sui generis de cultores da prostituição: varões geralmente jovens que se prostituem sem abdicar dos protótipos gestuais e discursivos da masculinidade em sua apresentação perante o cliente.. neste caso específico. 43). acreditamos estar relacionada com o temor de possíveis consequências de suas ações. 2008. sendo que nesta ocasião acompanhadas de uma atitude mais agressiva. e recebi a recomendação de que fosse embora. no ano de 1957) sancionou o neologismo prostituto. vale ressaltar a que no universo do mercado sexual existe uma variedade de espaços. 1.

. 2006. (2000. p. p. em nenhum momento fizeram menção a termos como gay ou homossexual: ―Sou homem‖. quanto aos clientes. [. quer ver como é que é. Quer ter um relacionamento. estes foram classificados como ―homens normais‖. Para Perlongher (1987).] as pessoas. a recusa da homossexualidade vai ao encontro da demanda dos clientes (PERLONGHER. Já segundo Martinez.. O que se encontra é ―uma flutuação dos sujeitos por diferentes categorias sexuais que dependem do contexto em que se encontram a cada momento‖ (IDEM. [. estas categorias não são utilizadas como rótulo que definem sua identidade sexual. Tanto faz.] A maioria é curioso. (Herlon.] É porque garoto já vai ser uma barra pra população. (ARAÚJO. p.. De acordo com Pontes (1998. garoto de programa. garoto e michê é uma coisa só. ―sou bissexual‖. (Edson. [.73). De nada! Não vou dizer que ele é um enrustido. É a mesma coisa. p. Pode inventar esse nome de michê pra ser mais escondido. O termo ―programa‖ refere-se à atividade desenvolvida pelos garotos. Quando questionamos nossos interlocutores a respeito da orientação/identidade sexual deles e de seus clientes. hetero e bissexual que empregam para qualificar as relações sexuais que mantêm. ―homem que gosta de transar com outro homem também‖. a maioria das pessoas.. não entendem (o que é).67). Para Martínez (2000) categorizar a prostituição viril como prostituição homossexual é uma operação simplista. Entretanto. pois não se encontra facilmente uma identidade homossexual quando mergulhamos mais na temática. ―a homossexualidade é um terreno propício para as crises de identidade‖. todos eles estão sendo pagos.34 masculino que usa como forma de exposição os anúncios de jornais‖. Esta continua sendo regida pelo comportamento masculino. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). Hoje em dia eu não classifico quase nada. 2008). os michês. Entre os homens que se prostituem encontramos a incorporação tímida dos termos homo.. aquela coisa. em entrevista no dia 17 de maio de 2011). Eu acho que ele está buscando a fantasia que ele está querendo ter com essa pessoa e acabou! Ele está querendo uma relação diferente.63). ter uma curiosidade. No mercado da prostituição masculina. um gay.. ―as noções de homo/bissexualidade não necessariamente fazem parte do cotidiano popular‖.23)..

A identificação de ―viado‖ é de ―quem dá pra outro homem‖. heterossexual. uma relação que é.. compulsiva. como já nos adverte Fry (1985).. ou melhor. não ―trai‖ tanto assim seu papel sexual original. 1979. sua ―condição natural‖ determinada. tem ascendente sobre as outras: subordinadas (como é o caso da homossexualidade) cúmplices ou mesmo marginalizadas (como acontece com minorias étnicas ou grupos sócio-economicamente excluídos). constituída boa parte por homens casados.] a masculinidade é construída através das práticas. [. antes de mais.. 274). (PARKER. de dupla dominação: a da masculinidade sobre a feminilidade e a de determinado tipo de masculinidade (hegemónica) sobre os outros. A masculinidade. pois se afirmasse que era passivo o cliente desistiria do programa (Trecho de Diário de Campo). p. (ABOIM. não sacrifica necessariamente sua masculinidade culturalmente construída – pelo menos desde que ele desempenhe um papel masculino culturalmente percebido como ativo durante o ato sexual e se comporte como um homem na sociedade. 62-63). neste sentido os indivíduos deste campo estão submetidos à ―ética da reserva e discrição‖ (PAIVA.] o homossexual masculino chamado de ―ativo‖ não é tão estigmatizado quanto o chamado ―passivo‖. quase inevitavelmente desvaloriza sua própria masculinidade.. 2007). p. seja no ato sexual ou na interação social. contundo. A preocupação com a discrição pode ser percebida em situações diversas no trato com a clientela. não entra diretamente na classificação. patriarcal. Homens atentos a qualquer indício que possa denunciá- . e/ou de ―boa reputação‖.) Uma forma dominante. não assumidos. reafirme a informação. O que ―come‖ não é necessariamente identificado como ―viado‖. ao descrever o caráter hierárquico presente na dicotomia ―bicha x bofe‖. Outro elemento que agrega valor aos sujeitos é o exercício do papel ―ativo‖ nas relações sexuais.. no plural. constroem-se em relação. E mesmo que digam que são ativos e procuram por um parceiro passivo. p. constituindo uma gramática generativa da acção.. as masculinidades. O homem que adota uma atitude passiva. porque assim o fazem para testar se o outro é ativo mesmo.. pois a maioria dos clientes procura por ativos. de fêmea. não é homossexual. nos foi informados alguns esclarecimentos em torno desta questão em seu trabalho: [. [.35 No campo das relações homoeróticas. (. 58). 1999. então. O homem que se envolve em um relacionamento sexual com outro homem. discrição e virilidade são atributos que agregam valor aos sujeitos. 2008. Esta característica não seria diferente quando nos reportamos à questão da prostituição viril.] sempre que for questionado dizer que é ativo. Assim.. Numa de nossas conversas com Beto. (MISSE.

Ele falou que ele foi casado duas vezes. (Herlon. p. (PERLONGHER. o gay quer sempre ser mulher. todo escondido. quer dizer.. Mesmo afirmando que a maior parte dos clientes paga para que os michês façam o papel de ―ativo‖ nos programas.. Ele luta. não se opõe nesse sistema à feminilidade. em nossas entrevistas um dos interlocutores revelou que era versátil.. p. (2008. os discursos que constituem o macho como objeto de desejo. Este último exemplo vem reforçar a ideia de que no final das contas. ―compensada‖ pela valorização do michê másculo em detrimento do cliente ―bicha‖. [. gestuais. o ―jeito de macho‖ deve ser preservado. Nesta dinâmica. Sob esta perspectiva. independente do papel sexual exercido. que ser mulher. mas à ―bichice‖. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). comportamentais relativos a sentimentos. é a masculinidade ostentada pelos michês que os tornam atraentes para seus clientes. mandou recado pra mim. (Edson. Quer dizer. sensações ou expectativas – que possam ser relacionados ao estereótipo ―afeminado‖. É homem. Me levou para o apartamento dele. Teve dois casamentos. O homem. 230). revestidos de uma superioridade socioeconômica que pode aparecer até certo ponto. dar visibilidade à sua ―vida dupla‖. (BRAZ. o desempenho viril. . Entrei no prédio agachado dentro do carro. mas ele não vai conseguir.36 los. A valorização do ‗macho‘. 2009. a diferença é essa. dissocia-se a penetração do corpo de sua ―feminização‖: [..] a rejeição aqui é de quaisquer atributos – corporais. tu entende? Homem. melhor ser homem também. não sei se é verdade.. saí do mesmo jeito. nós saímos para o apartamento dele. Conforme também anuncia Miskolci. assim como encontramos em anúncios de jornais garotos de programa que se definem dentro da categoria nativa ―másculo passivo‖.18).. Uma pessoa me ligou.] O paradoxo do negócio do sexo entre homens se desfaz quando se entende que o que se compra e o que se vende não é apenas o corpo. Melhor palavra pra ele. ele contou toda a história dele. O gay quer ser mulher e nuca vai conseguir. retornou a ligação. nunca vamos ser mulher. que tinha gostado do meu perfil e tudo. Porque o gay hoje. [Nós] somos homens. mas um corpo marcado pela masculinidade nos moldes hegemônicos. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). Eu deixei meu telefone e a pessoa me retornou. expô-los para fora do ―armário‖ Sedgwick (2007). 2008).

.. A atividade possui certa legitimidade por servir como mecanismo de satisfação dos desejos masculinos. já que o poder de sedução e de atração é transferido e objetivado no dinheiro. Neste período. de não ser rejeitado. Esta perspectiva também é afirmada por Lenoni. (.] Já na prostituição feminina. O saber médico do século XIX já os diferenciava ao situar a prostituição masculina. psíquica ou fisiologicamente. também denominada de sodomia. fugaz. O homem normal nunca será um prostituto. frio e mecânico.. ou quase sempre. uma normal. em geral. [. que agregava pederastas. Ela existe porque existem homens anormais.. Tal comportamento se contrapunha ao modelo médico do homem-pai da família higiênica.) As fantasias dos clientes são fantasias de poder e domínio que refletem uma percepção do outro ou da outra como objeto. a prostituição masculina é percebida e tratada de maneira distinta quando comparada ao trabalho sexual exercido pelas mulheres. de não correr riscos expondo-se.. (. os que fugiam do padrão eram considerados antihomens: libertinos. celibatários e homossexuais (COSTA.. O dinheiro ―a partir do contexto de interação em que é acionado. p.37 No rol das relações homoeróticas hierarquizadas sobre o fundamento da superioridade do ―homem de verdade‖. p. mistos e praticantes do onanismo (RAGO. ativos. o dinheiro opera como instrumento que viabiliza o contato sexual entre sujeitos que. pode ser considerada como um ―mal necessário‖. (2004.) fazem com que o cliente se sinta no domínio da situação e que possa escolher entre vários produtos à disposição. 1997). expressando o reconhecimento do status masculino que o um homem ostenta‖ (OLIVEIRA. do ponto de vista . para quem [O] poder que o dinheiro proporciona de escolher e dominar o outro. 2009. como instrumento para a satisfação de uma necessidade própria à qual se tem acesso por meio do dinheiro. a mulher é sempre. em outras circunstâncias não ocorreria. 135). na exígua cifra necessária para um serviço breve. 83). 2004) A prostituição feminina.. de não ter que seduzir e atrair. provavelmente. Além das questões que dizem respeito às relações sexuais entre homens e o sistema de hierarquias que se constituem em torno das mesmas. mesmo condenada moralmente. no grupo de segunda classe da prostituição clandestina (patamar mais baixo de um mapa classificativo). Já a ocorrência da prostituição masculina estava associada à degeneração. passivos.

(PEREIRA. em 2002. (RIOS. de calça. O homem é tangido pela tara. no âmbito legal.] comentou que não pegava bem usar chinelos. assumido pelas decisões transcritas como dirigidos à pederastia e à homossexualidade. de acordo com nossos interlocutores. a mulher apenas pelo dinheiro. travesti (―profissionais do sexo‖) fazendo parte da família de Prestado de Serviço. camiseta e chinelos. messalina. [. garoto de programa. trajava uma camisa pólo com um brasão bordado. A prostituição masculina de rua em Fortaleza. estão bem vestidos.38 sexual. A pessoa para perceber. enquanto a prostituição feminina é permitida. A gente passa. a prática não se caracteriza como crime. 2000. quenga. p. Esta imagem foi corroborada por um de nossos informantes michês: Fui vestido de maneira simples: bermudas. a Classificação Brasileira de Ocupações incluiu a ocupação de ―profissional do sexo‖ como também as denominações ―garota de programa. é enquadrado como delito de vadiagem. trabalhador do sexo. transexual (―profissionais do sexo‖). michê. essa diferenciação se manifesta da seguinte forma: Efetivamente.91). em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).. prostituta.] Beto estava mais bem vestido que eu. ―os michês são mais discretos. Assim como nas outras modalidades de prostituição a oferta deste serviço sexual oferecido por homens pode ser encontrado tanto nas ruas.. p. mulher da vida. A diferença no trato é evidenciada quando verificamos a existência de uma ―tolerância‖ em torno da prostituição quando praticada por mulheres. o ―trottoir‖ de homens e travestis. Em comparação a travestis e prostitutas. nem percebe talvez que é um michê‖ (policial 2. como em casas voltadas para o exercício da atividade. 111) Em ambos os casos. pelo menos. 2006). rapariga. (Trecho de Diário de Campo). acontece preferencialmente no Centro e próximo a pontos turísticos da Cidade. nas páginas de classificados de jornais e no espaço virtual (a ―ciberprostituição‖) via internet (ARAÚJO. Também. pois não chega a ferir expectativas sociais a respeito da masculinidade e das relações entre os sexos. daquelas que estão na moda. 1967. apesar da condenação moral que os que se prostituem estão sujeitos. de tênis. meretriz. calça jeans e tênis branco. [.. . No âmbito do discurso jurídico..

Dos estabelecimentos desta natureza em Fortaleza. . As saunas. destacamos as saunas gays. constituindo ―geografias sexuais‖ majoritariamente associadas ao centro da cidade. no caso.com. (PAIVA. FIGURA 1 .Detalhe da programação da sauna Califórnia Fonte: www.39 No que diz respeito aos ambientes fechados. Os ―massagistas‖. Lá os programas são oferecidos sob a denominação de ―massagem‖.7).br 19 Para uma descrição mais detalhada sobre as práticas de homossociabilidade no interior do referido estabelecimento. assim como outros aparelhos de consumo e lazer voltados para as sociabilidades homoeróticas (explicitamente ou não relacionadas com o mercado afetivo e sexual) podem ser tomadas como ―zonas morais‖ de espacialização das homossexualidades nas cenários urbanos. a California Thermas Club19 é a única que faz menção ao termo boy na sua homepage.californiathermas. são também chamados de boys e portam alguma peça de vestuário que os identifica dentre os outros sujeitos que circulam pelo estabelecimento. 2009. ver Paiva (2009). p.

FIGURA 2 – Porta do banheiro do Cine Betão Fonte: Daniel Rogers. servem como ―mural‖ de divulgação de números de telefone. e-mails e endereços de MSN de garotos de programa. principalmente as dos banheiros. em novembro de 2010 . Além disso. as paredes e portas.40 Há também ocorrência de prostituição no interior dos cines pornôs. mesmo que proibidos.

―para casais‖. dentre os quais: ―másculos‖. Em seus textos. curtos e diretos. ―vips". ―de alto nível‖. deixam como contato o número de celular. ―sarados‖. FIGURA 3 – Contato com garoto de programa via MSN Fonte: Daniel Rogers. Nos principais jornais da Cidade também encontramos diversos anúncios onde são ofertados programas por indivíduos que se identificam por meios de adjetivos e das atividades que oferecem.41 Em ambientes fechados. já disponibilizam links com páginas de internet referentes a sites e blogs. e em boa parte. em dezembro de 2010 . a prostituição se caracteriza como já havia assinalado Vale (2000). pela abordagem dos que se prostituem em direção aos clientes. em sua pesquisa sobre o prostituição travesti no cine Jangada. não ao contrário como acontece nas ruas.

Acesso em 03/12/2010 .asp?id=120. ao mesmo tempo em que existem sites de acompanhantes em que são exibidos diversos perfis dentre os quais de ―garotos‖.com/classif/default. FIGURA 5 – Site de acompanhantes Disponível em: www.globo. geralmente. mulheres.br/galeria.com.desejocapital. Cabe ressaltar que os blogs. fazem propaganda de apenas um garoto de programa.42 FIGURA 4 – Anúncios de garotos de programa em jornal Disponível em: http://diariodonordeste. através de fotos e vídeos que são disponibilizados nas homepages.asp Acesso em 03/12/2010 Este mecanismo de comunicação permite que os clientes visualizem de forma mais detalhada as informações contidas nos classificados. travestis e ―transex‖.

uol. Acesso em: 28/11/2010 Das modalidades de prostituição elencadas.bps. etc. divulgando a intenção de pagar pelo sexo. identificam-se com nicknames com sufixos que indicam a atividade tais como: GP (sigla para garoto de programa). através de apelidos do tipo: keroboypagobem. FIGURA 6 – Sala de Bate-papo do site UOL Disponível em: www. a de rua (o trottoir.. Geralmente. ―fazer a pista‖) é aquela de maior visibilidade e exposição. O que acontecer ali. Porque ali.html/t=1290990711254. nestes ambientes virtuais. Da mesma forma. (Edson. dentre outros. você tá seguro. ―de aluguel‖. ajudo caras hetero..br/room. [. mamo&pagoHxH$$$. a sauna vai responder ou vocês estando errado. há aqueles que se apresentam como potenciais clientes.] ali na sauna você não corre o perigo que você corre na rua. $$. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). .43 No ciberespaço ainda é possível encontrar garotos de programa que oferecem seus serviços em salas de bate papo e site de relacionamentos.com.

pudemos perceber a persistência de uma ―branquidade‖. Lá no site.Ponto de prostituição masculina de rua no Centro Fonte: Daniel Rogers. argentinos. p. diferentemente das outras. O que pudemos averiguar em nossa pesquisa.] conhece pessoas mais bonitas e tudo mais. Ele lá [.. 2008. ―De fato. o que não é casado..44 FIGURA 7 . sabedores desses inúmeros espaços e mecanismos de contato com a clientela. Assim como Benítez (2010) encontrou nos bastidores da indústria de filmes pornôs gays. não sei. 153). buscam se utilizar destes de acordo com suas conveniências e possibilidades. em abril de 2011 A prostituição no espaço virtual. .. em entrevistada concedida no dia 17 de maio de 2011). os michês loiros (gaúchos. (Herlon. especialmente pelos clientes de classe média‖ (PERLONGHER. é que os michês. tem mais poder aquisitivo. etc) são altamente valorizados na praça.] A pessoa que está no site é meio. tem o pessoal casado.. Quer um negócio mais restrito [. estaria acessível a um público com maior poder aquisitivo em virtude do valor cobrado por programa de acordo com os anúncios. paulistas.

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Eu faço rua e faço cinema. Sauna é muito difícil eu frequentar, mas eu não faço sauna, não. Site, internet, eu tenho sim. Sou cadastrado em um site de relacionamentos, que é o disponível.com. Eu tenho uma foto minha, e já saí com duas pessoas do site.[...] Na sauna, assim, eles penam muito. No meu ponto de vista, eles estão ali querendo conquistar a pessoa, e não a pessoa querendo conquistar ele, não. Na rua é diferente. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). [Q]uando eu vou fazer uma sauna, eu faço.(...) Já faço escondido. Já na ―máfia‖. Não posso dizer que eu sou de lá fixamente, porque lá dentro já tem os fixamente. A gente tem amigos lá dentro. Que trabalham lá dentro. Algumas pessoas vão pra entrar, fazer o programa ali, escondido. Porque não pode fazer dentro da sauna. Na própria sauna porque já tem. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).

Independente do local onde em que se é ofertado o programa, os michês quando questionados sobre o que eles têm para oferecer em seus serviços e aquilo que os clientes esperam deles, para além da postura máscula, estes afirmam que vendem fantasias: realizam desejos. Segundo Edson, os clientes procuram satisfazer a ―sensação da carne‖.
A gente tá vendendo... a gente é pago para fazer o desejo deles. A fantasia, que eu digo assim, entre aspas. Que ele quer sair de casa com um cara que dê na cara dele. A maioria gosta de apanhar, que bata... Coisas absurdas. [...] Eles querem realizar uma fantasia, que eu diga assim, que eu penso: um cara vagabundo. Sei lá! Sacana, que goste de fazer a fantasia dele. Vende, vende a fantasia que ele quer. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).

Independente de quem seja o cliente: ―Vou porque eu sou garoto. Garoto não tem que botar banca. Tem que ir. Vou lá e pronto‖. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). ―Às vezes, [...] a gente não quer sair com aquela pessoa, mas, pela grana a gente sai‖. (Herlon, em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Tal como as prostitutas, o gozo no exercício da atividade não é algo que se busque, pelo contrário, a ideia é evitá-lo.
Das que tive contato, nenhuma afirmou sentir prazer com sua clientela. Pelo contrário, ―torciam‖ para o gozo rápido do cliente, haja vista a possibilidade de existência de outro na fila. Contudo, o orgasmo com o desconhecido é entendido como ―acidente de trabalho‖, e raramente acontece. As mulheres afirmam que não estão ali para isso. (BARROS, 2005, p. 2). Eles não gozam, não. Ele faz a outra pessoa gozar. Faz, mas não goza. Ele quer fazer o cliente sentir o prazer da carne. Só isso. Ele está naquele momento ali, só pra fazer isso. O cliente terminou, fez o que queria ter feito, e pronto! (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).

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Nesta dinâmica michê x cliente, além do pagamento imediato, coloca-se, ainda como recompensa financeira, a possibilidade de ascensão social por parte dos garotos de programa através de ―relações de ajuda‖ (PAIVA, 2009) com seus clientes.
Porque todo objetivo da pessoa que faz isso, é por causa disso. Querem conhecer uma pessoa bacana que ajude tanto financeiramente, e que esta pessoa dê esse rumo. Que todos os pontos das pessoas, são isso. Todos, o mesmo ponto. Se você perguntar a qualquer garoto ou garota. Todo objetivo é este. Se você perguntar por que está fazendo aquilo. É pra subir na vida. Todos eles, é o mesmo objetivo, por isso é que muitas vezes há briga, desavença, naquela esquina, é por causa disso. (Edson, em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).

Em torno desta busca e oferta de gozos e fantasias existe toda uma teia de relações que envolve pessoas e estabelecimentos que vão constituir um mercado de natureza sexual. A fim de realizarmos esta pesquisa, percorremos pelo Centro de Fortaleza procurando por pistas e que nos possibilitasse a construir um mapa do desejo homoerótico.

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3 O SEXO E A CIDADE: CONHECENDO O TERRITÓRIO HOMOERÓTICO DO CENTRO DE FORTALEZA

3. 1 Fazendo pista: quando campo é o asfalto Em nossa investida de tomar conhecimento acerca da prostituição viril, percorremos por trilhas que nos permitiram vislumbrar o cenário em que nossos personagens estão inseridos. Podemos afirmar que o trabalho sexual faz parte de uma rede, de um mercado que gira em torno do sexo (BENITEZ 2010) envolvendo uma cadeia de serviços e sujeitos diversos. Esta Noção de rede nos remete a apreender não o sujeito isolado, mas ações que são realizadas de forma articulada e na pluralidade de seus agentes, conforme enunciado Becker:
Se quisermos representar de modo adequado as atividades de um pequeno grupo, não podemos apenas focalizar as pessoas envolvidas.Cada atividade, por pequena que seja, engloba pessoas que agem juntas, e em princípio queremos representar a variedade de pessoas nessa atividade. Assim, deveríamos olhar para suas conexões com outros grupos e organizações. (2010, p.203).

Estes elementos vão estar presentes naquilo que denominamos de território homoerótico do Centro de Fortaleza. Território, que, segundo Perlongher (2005) não se caracteriza apenas pelo viés geográfico, mas que, também, se materializa conforme o comportamento daqueles que nele se encontram, impondo e propondo aos seus habitantes perfis definitivamente, perfis psicossociais.
[A] dimensão espacial concreta é básica, ela não se sustenta por si própria, não sem o necessário recurso a uma outra territorialidade, no nível dos códigos. (...) A expressão ―código-território‖ se refere à relação entre o código e o território definido por seu funcionamento. (p. 276).

Semelhante a outras cidades, o espaço urbano da capital cearense se organiza frente a uma dinâmica em que vários agrupamentos se distribuem entre locais interagindo entre si para fins diversos.
[...] estes sujeitos, através de suas práticas, se apropriam de determinados espaços do urbano por um período de tempo. No momento em que impõe a este espaço uma dinâmica própria do grupo, espacializando suas posturas corporais e suas atividades, instituem seus territórios. Estes são vistos como campos de força que delimitam um grupo interno com identidades coesas em relação a grupos externos. (ORNAT, 2008, p 44).

Nesta dinâmica. os centros urbanos tendem a assegurar um relativo anonimato daqueles que prezam pela discrição e buscam pela impessoalidade nestes contatos. Para fins de compreensão do fenômeno. p. Não se trata de um gueto gay. lançamos mão das seguintes categorias trabalhadas por Magnani (1996): pedaço. pois esta caracterização do espaço colocaria em xeque o anonimato que seus frequentadores buscam e valorizam. qualquer espaço pode servir como locus de interação. a partir das quais analisamos de perto e de dentro o processo de ocupação e o uso do espaço urbano no Centro de Fortaleza. p. uma série de espaços públicos e privados que são informalmente apropriados para encontros sexuais furtivos (tais como parques.48 No contexto mais amplo. Inicialmente. trajeto e circuito. códigos de pertença e valores/afetos vivenciados. praças. (TEIXEIRA. cinemas pornôs e dark rooms de bares e boates GLBT). (TEIXEIRA. 2009. engendrando distribuição de afeições nebulosas ou imperceptíveis. além de salas de cinema e saunas heterossexuais. 2009. p. os homens que por ali transitam constituem tramas relacionais polissêmicas. fortuitas e sem expressão identitária demarcada. Espaço de relações entre ―chegados‖ que se . Vale salientar. 2007). 13). caracterizado pela frequência de sujeitos desviantes e pelo exercício de atividades moralmente condenáveis. em específico. Nessas interações. além de diminuir as possibilidades de encontro com ―homens de verdade‖. Os ‗locais de pegação‘ compreendem. tendo em vista a dinâmica das interações de cunho homoerótico. 2005). sem publicização das práticas. o termo pedaço vai se referir a um ―ponto de referência para distinguir determinado grupo de frequentadores como pertencente a uma rede de relações‖ (MAGNANI. mancha. não fazemos alusão aos estabelecimentos voltados ao público GLS. denominadas como ‗caretas‘). estamos nos referindo a um território marginal (PERLONGHER. No âmbito das relações entre pessoas do mesmo sexo. que quando nos referimos a estes locais. banheiros e vias públicas. 2). 1996. além de espaços comerciais planejados ou adaptados para esse fim (tais como saunas gays. o campo no qual mergulhamos. 264). Estes lugares são caracterizados pela hiper-saturação de desejo homossocial (PAIVA.

lan houses... pousadas. gente que vão ao Centro para trabalhar.] que é a população flutuante. As manchas vão se referir a uma base geográfica mais ampla (MAGNANI. muitos homens casados que buscam esses locais. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). em nosso caso. Só anda à noite mesmo‖ (P2. no período noturno. ―cinemões‖. No dia. O Centro tem uma peculiaridade [. encontrando-se para realizar uma atividade ou prática predominante no espaço. um dos pontos de prostituição dos michês. Sua base física é mais ampla. 2002).. aí vem os profissionais do sexo. No interior de uma mancha é possível que se aglutine uma variedade de estabelecimentos referenciados como espaços para o exercício de determinadas atividades. casas de massagem etc. bares. 1996. praças. Segundo a fala de um policial: ―a gente pensa que o Centro é quase vazio. como tem mais pessoas. boates. Podemos pensar por meio desta categoria a demarcação espacial indicada pela ideia de ―ponto‖. As mulheres também.] o público das boates.. como proteção. cada qual com espaços e símbolos característicos. competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante (MAGNANI. estudar. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). ir ao banco [. Dentre os dez grupos identificados por Vasconcelos (2008)... áreas contíguas do espaço urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade. sex-shops. 19).49 conhecem e/ou se reconhecem como tal.] os moradores de rua à noite [. o que permite o trânsito de pessoas vindas de localidades diversas. motéis. São as machas. permitindo a circulação de gente oriunda de várias procedências e sem o estabelecimento de laços mais estreitos entre eles. estabelecendo vínculos e acordos de covivência que funcionam dentre outras coisas. o grupo dos ―homossexuais‖ e do ―comércio sexual‖ (prostitutas travestis e garotos de programa). Ao conceito de mancha podemos relacionar com o que Park (apud PERLONGHER) denomina de ―região moral‖ ―para referir-se às zonas de perdição e . foram localizados. sem que estabeleçam relações de maior proximidade entre elas.. dos mototaxistas etc. Existe uma forma de apropriação quando se trata de lugares que funcionam como ponto de referência para um número mais diversificado de frequentadores. as boates também começam a funcionar [.. das travestis. Na mancha homoerótica do Centro de Fortaleza é possível elencar banheiros.. (P1.]. p.. há uma população por aí que saí para o Centro. saunas. quem dorme cedo. Os cinemas. parceiros.

[A] noção de circuito. vai se remeter à reunião de espaços distribuídos de forma descontínua na paisagem urbana. que permite imaginar possibilidades de escolhas no interior de uma mancha. 2008. Enquanto esta última. (MAGNANI. O termo trajeto surgiu da necessidade de se categorizar uma forma de uso do espaço que se diferencia. sendo totalidade apenas pelos usuários. Já o termo circuito. caracterizados pelo determinado serviço. para finalizar. como foi visto.. como a ‗Boca do Lixo‘)‖ (IDEM. remete a um território que funciona como ponto de referência (. em primeiro lugar. 23).50 vício das grandes cidades (espécie de esgoto libidinal das megalópoles. que une estabelecimentos. 2002. fazem referência a espaços físicos e localidades estáticas. Ambas as categorias.) trajeto aplica-se a fluxos recorrentes no espaço mais abrangente da cidade e do interior das manchas urbanas. 50). p. condição residual que ecoa em alguns topônimos. 23).. reconhecidos em sua p. (MAGNANI. daquele descrito pela categoria pedaço. caracterizados pela oferta de bens e serviços voltados para exercício de atividades específicas de determinados grupos. 2002. espaços e equipamentos exercício de determinada prática ou oferta de porém não contíguos na paisagem urbana. A fim de possibilitar a compreensão do trânsito interno a estas unidades de espaço. p. . Magnani (2002) faz uso da terminologia trajeto. pedaço e mancha.

Porém. e até mesmo esperar por alguém com quem marcou um encontro. como para paquerar algum homem que porventura passe ali. 3. é possível observarmos presença mais significativa deste grupo. ao longo do dia. que dentre outras atores sociais vai aglutinar garotos de programa em torno dos seus espaços de encontro e trabalho. um dos bancos concentra um maior número de sujeitos. classificados no linguajar nativo de ―mariconas‖ que se juntam naquele pedaço tanto para rever amigos.2 Das Praças Semelhante à Praça do Ferreira. a Praça do BNB é um espaço de frequência e passagem de indivíduos homoeróticos. particularmente.51 FIGURA 8 – Circuito homoerótico do Centro Fonte: extraído do Google Earth É sob esta perspectiva que podemos falar de uma mancha homoerótica no Centro da cidade de Fortaleza. considerada como o coração da Cidade. Na Praça do Ferreira. . ao cair da noite. nos quais podemos vislumbrar os pontos de prostituição.

funciona o ―Cine Betão‖. bares e cinemões. e por fim saindo da Boate Divine já alta madrugada. que fica a poucos metros de outro estabelecimento similar. as noções de circuito e trajeto se materializaram quando observamos num mesmo dia.52 FIGURA 9 – Praça do BNB Fonte: Daniel Rogers. Cedo. e acaba por aglutinar sujeitos que transitam pelo que já denominamos circuito homoerótico. Logo em frente. vamos passar pelo Motel Charm. vimos os dois entrando em um dos cines pornôs das imediações da praça. em seguida. em novembro de 2010 A Praça do BNB fica mais próxima dos motéis. uma dupla de amigos que por coincidência. o Disney Lanches. ao descermos pela Rua Floriano Peixoto em direção à Avenida Duque de Caxias. Em uma de nossas incursões em campo. pelo Cine Star. depois. . e já na esquina da avenida encontramos o bar Mega Lanches. cruzamos em situações diversas. um pouco mais a frente pelo Plaza Motel. bebendo em um dos bares anteriormente relacionados.

gay e transexual. Caso haja necessidade. Logo na entrada. bi. novas possibilidades de enlace homoerótico. Dessa forma. é permitido que se deixe bolsas e outros objetos de mão na entrada. Como numa sala de cinema convencional.53 3. e por consequência. em novembro de 2010 Os cines pornôs. no caso daqueles . a iluminação das salas improvisadas fica por conta das telas de televisão e das áreas comuns: corredores (isso quando ainda há luz do sol) ou algum serviço de bar interno. existe um guichê onde se paga pela entrada (os valores variam de acordo com o dia e horário). são improvisados num mesmo estabelecimento filmes diversos: hetero. ou cinemões do Centro. geralmente funcionam em casas antigas adaptadas para exibição de filmes em seus vários compartimentos ou em prédios em que os espaços são divididos por compensados de madeira. Cada pessoa que acessa o ambiente equivale a uma volta na catraca.3 No escurinho do cines pornôs: onde o sexo é a melhor diversão FIGURA 10 – Entrada de um “cinemão” Fonte: Daniel Rogers. Som que denota aos que já estão dentro a chegada de outras pessoas.

acabam funcionando como cabines improvisadas. . não é raro encontrar pelo chão destes recintos embalagens de camisinhas rasgadas. assim. Além das tevês. em outubro de 2010 Em alguns cinemões. possuem ventiladores que fazem a refrigeração do espaço. Desta forma. fora os recados e desenhos pornográficos. as salas podem ser fechadas por dentro através de ferrolhos na parte interna das portas. como também nas cabines que são utilizadas para encontros mais privativos. Outra característica são as manchas nas paredes e o cheiro de esperma. além dos televisores. Da mesma forma. Outras. os banheiros são usados para o mesmo propósito.54 que o oferecem. FIGURA 11 – Parte interior de um cine pornô Fonte: Daniel Rogers. preservativos usados e pedaços de papel higiênico. as salas possuem cadeiras plásticas distribuídas de frente ao aparelho a fim de acomodar a clientela que por vezes passa maior parte do tempo transitando pelo espaço a fim de encontrar algum parceiro sexual.

. Vez ou outra o espaço é alugado para realização de festas. As divisórias de algumas cabines e salas têm pequenos furos que funcionam como olho mágico para um público chegado ao voyeurismo. de terça à domingo. a modalidade de ingresso que possibilita a entrada e saída do estabelecimento até a hora que encerre suas atividades.Cine Betão: é frequentado por mulheres que se oferecem para programas sexuais. Duque de Caxias numa ponta. aos clientes.Cine Majestick: sua estrutura é que mais lembra uma sala de cinema convencional.Cine Privê: funciona até 6h00 da manhã.Cine Encontro: nos dias de sexta e sábado fica aberto até às 6h00 da manhã.55 FIGURA 12 – Cabine Fonte Daniel Rogers. também. Oferece. se diferencia pela presença de travestis que se prostituem nas suas dependências. Tem uma área com cabines em seu interior e um pequeno labirinto de compensados que possui glory holes (buracos por onde é possível que as pessoas se toquem). . cada um deles acaba apresentando uma ou outra qualidade que os diferencia dos demais: . . Além disso. .―Complexo de cinemas‖: se caracteriza por congregar no intervalo de duas esquinas da Rua Assunção (esquina com a Av. em novembro de 2010 Além das características gerais semelhantes entre os cines. .

FIGURA 13 – Rua Assunção. em novembro de 2010 Os cinemas 24 horas. onde localiza-se o “Complexo de cinemas” Fonte Daniel Rogers. apenas para tentar encontrar algum parceiro. que abrem às 9h00 da manhã e fecham apenas às 6h00 do outro dia possuem dinâmica bastante diferenciada dos demais. Destes. Love Night House. uma frequência maior daqueles que vão ao Centro para resolver alguma coisa. . ou até mesmo. Durante o dia. alguns funcionam em regime de plantão também. há uma diversidade de público relacionada aos horários do dia. Eros e Erótico. Lipstick. em todos os casos.56 e esquina com a Clarindo de Queiroz em outra) o total de 5 cines: Secret.

apesar do discurso vigente de desaprovação. abadás. há muitos outros clientes que pernoitam até o horário de fechamento dos estabelecimentos. ―sujeira‖. vestidos com ―roupas de marca‖. bares. mas não prescindiam de uma visita mensal ao escurinho urbano do Jangada. o cinema era marginalizado tido como signo de ―vulgaridade‖.104): Segundo as opiniões coletadas em boates e bares gays da Aldeota (bairro de classe média e alta de Fortaleza). boates e casas de shows da cidade. ―ralé‖. em abril de 2011 Pela madrugada. camisas de festas. p. chaves de automóvel nos cós das calças são indicativos da presença de gays de classe média no pedaço. e a frequência àquela sala de exibição vista como inviabilizadora de uma relação estável. de acordo com o que analisa Vale (1996. a fim de pegar o primeiro ônibus ou a topic do . ―perigo‖.57 Figura 14 – Visão geral do “complexo de cinemas” Fonte: Daniel Rogers. A hipocrisia florescia no depoimento de alguns que publicamente menosprezavam o cinema. tal como em relação aos que frequentavam o extinto Cine Jangada. a quantidade de carros estacionados ao longo do quarteirão e o fluxo intenso de clientes que estão indo ou voltando de festas. Da mesma forma.

é possível encontrar alguns que dormem sentados com os pés em outra cadeira.3 Dos Bares: Boêmia e prazer no Centro Dos bares que compõem o circuito homoerótico destacam-se o Mega e o Disney Lanches. o Charm Motel Fonte: Daniel Rogers. foi relatado ainda que outros permanecem dormindo nas salas. (os que ainda o fazem) servem um desjejum simples composto por biscoitos club social e achocolatado de caixinha. distantes a poucos metros um do outro. em novembro de 2010 No Centro. Noite adentro. Na esquina. os motéis são conhecidos por oferecer seus serviços por preços mais acessíveis em comparação com os estabelecimentos mais sofisticados. ambos situados na Avenida Duque de Caxias. . independente do horário que se entre. que entram no motel a pés. Numa das conversas com um bilheteiro dos cines.58 dia que os levem para casa. 2009). FIGURA 15 – Entrada do Motel Plaza.1. mesmo quando os cine cerram suas portas para poder emendar um dia no outro. além de facilitar o acesso aos clientes que não possuem veiculo próprio. 2. indo até às 7h da manhã. Logo no raiar do dia. Frequentado por um público que não reivindica para categorias identitárias atreladas ao discurso da militância LGBT (TEIXEIRA. O pernoite costuma ser pago adiantado.

um discreto levantar de copo que funciona como convite para sentar à mesa e tomar um drink. um papo. curiosos. travestis e até mesmos casais heterossexuais que mal percebem o fluxo de desejos que se opera no local. dentre tantos outros códigos que sinalizam o desejo de chegar junto e. outros afeminados. além da estrutura física dos bares. enquanto no Disney. algo que os diferencia é a presença das travestis no Mega Lanches. na área interna do bar. são olhares. seguido de uma volta demorada pelo quarteirão. as mesas e cadeiras postas na calçada são ocupadas por homoeróticos. quem sabe dali. Em ambos os estabelecimentos. De acordo ainda com Teixeira. o número de mulheres é bem mais significativo.59 FIGURA 16 – Calçada do Mega Lanches. insuspeitos. dentre os quais discretos. próximo aos Táxis fica o Disney Lanches Fonte: Daniel Rogers. em novembro de 2010 O tráfego de uma esquina a outra pela noite é marcado pela paquera entre boêmios e transeuntes. Segundo Teixeira (2009). acenos. o binômio homem/mulher se apresenta de maneira mais evidente. .

essa decoração passa despercebida. Logo na esquina. Sendo assim. A partir desta perspectiva. instituições e estabelecimentos que configuram o mercado sexual no Centro de Fortaleza. A prostituição viril de rua é parte de todo um complexo de relações entre indivíduos. flores e borboletas. pelas pistas que nos foram colocadas em conversas informais com sujeitos que fazem partícipes da cena homoerótica fortalezense. Nesta experiência de conhecimento junto ao campo. No período noturno. existe uma bomboniere. A distância do 5° Batalhão da Polícia Militar para o ponto de prostituição é de apenas dois quarteirões. reforçamos possuir a dimensão de que esta escolha trata-se apenas de uma mera convenção metodológica.60 Ao elegermos um ponto de prostituição masculina como locus privilegiado de nossa investigação.4 A esquina dos doces prazeres Antes de falarmos do ponto de prostituição em si. Assim como o slogan da casa ―um doce prazer‖ tende a assumir outro significado. . O muro do estabelecimento é todo decorado com pinturas de inspiração infantil e cores vibrantes: uma casa de doces. tivemos a oportunidade de observar a configuração e o uso do espaço em diferentes horários. crianças. Era por volta das nove horas da manhã quando fui informado que minha conversa como Capitão Alan (responsável pelo Programa Ronda do Quarteirão na área) havia sido remarcada para depois do almoço. é que chegamos junto ao pedaço dos michês. Casa do Chocolate. traçamos um paralelo entre atividades e práticas do dia e da noite. lançamos nosso olhar sobre todo o quarteirão a fim de situá-lo dentro de uma estrutura mais abrangente. desci e fui registrando o que via. balas. 3. pirulitos. Assim.

o ―complexo de cinemas‖ não estava aberto. O silêncio quase absoluto da noite faz contraste com o barulho intenso das buzinas em meio ao transito de carros.61 FIGURA 17 – Esquina prostituição pela manhã do ponto de Fonte: Daniel Rogers. Alguns funcionários pareciam fazer a faxina dos cines e organizar o caixa e a estocagem de produtos para o dia que estava começando. . em novembro de 2010 A quantidade de carros pela manhã era bastante inferior (três apenas). Era por volta das 10h da manhã. Fonte: Daniel Rogers. apenas uma parte funcionava. em de abril de 2011 FIGURA 18 – Ponto à noite. ônibus e topics que passam pelo cruzamento. pouco lembrava a fileira de veículos estacionados em ambos os lados da rua.

62 Quase chegando à esquina com a Avenida Duque de Caxias. foi construído um corredor metálico que permite a entrada no cinema de forma mais discreta. em abril de 2011 Neste horário. mesmo em meio à multidão de passageiros. Por conta disso. bem em frente existe um ponto de ônibus intermunicipal e topics. os que passam pela rua são abordados por cobradores e camelôs (vendedores de lanches e DVDs pirata) que se situam próximos ao local em que os mototaxistas estacionam suas motos à noite. tanto na esquina como na entrada maior se observa acima uma placa que anuncia: ―Jesus está voltando. . volte para Ele antes‖. fica o Cine Secret. Uma característica bastante inusitada é que logo ao lado do Cine Secret há uma entrada que dá acesso a um templo evangélico – a Comunidade Cristã Paz e Vida. FIGURA 19 – Entrada do Cine Secret pela manhã Fonte: Daniel Rogers. O portão principal do templo fica na avenida.

63 FIGURA 20 – Entrada do Cine Secret ao lado do acesso ao templo evangélico Fonte: Daniel Rogers. são pessoas que vão ali para fazer um lanche. O público da manhã aparenta ser ―mais família‖. . em outubro de 2010 FIGURA 21 – Fachada do templo Fonte: Daniel Rogers. o Hotel Chevalier. avistamos ainda algumas casas de lanches. uma lotérica e. na esquina. do outro lado da avenida. assim como o Disney. em outubro de 2010 Nessa volta em torno do quarteirão. o Mega Lanches quase não tem movimento. almoçar. Bem de frente. assim como não há cadeiras e mesas nas calçadas. dentre outras coisas.

O período da noite é como se fosse o último ato das 24h do dia. encontramos outro cinemão. Chegando já na esquina. outros atores entram em cena atuando de um modo diverso. em abril de 2011 FIGURA 23 – Disney Lanches Fonte: Daniel Rogers. cenários e personagens. entre as esquinas do quarteirão. há uma presença significativa de salões de beleza e estacionamentos. o Cine Órion. troca de figurinos. umas três ou quatro no total. A dinâmica que se dá no jogo entre claro versus escuro pode ser comparada ao desenrolar uma sessão teatral. em que o apagar e acender das luzes no intervalo entre dois atos de uma peça traz novas situações. um portão que serve de entrada para um prédio residencial. Tomando a esquerda na Rua Clarindo de Queiroz. contamos mais lojas de doce. Quase que bem no meio. em abril de 2011 Descendo pela Rua Floriano Peixoto. A iluminação se modifica. .64 FIGURA 22 – Mega Lanches pela manhã Fonte: Daniel Rogers. apenas o mobiliário do palco continua o mesmo.

FIGURA 24 . prostitutas. ―O horário mesmo é depois que passa o movimento. Porque assim. assaltantes. começa o movimento de clientes.7 À noite todos os gatos são pardos? Quando falta menos de duas horas para a meia-noite. que desaceleram. Não tem muito movimento de transeuntes. os michês ocupam o seu pedaço a esperar pelos seus clientes. é chegado o momento em que o cruzamento das ruas Assunção com Clarindo de Queiroz tornese vitrine de exibição de corpos masculinos dispostos nas calçadas. . buzinam e acenam. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). pequenos traficantes. catadores de recicláveis. e vigilantes que fazem segurança particular. Atentos ao movimento dos carros que circulam pelo quarteirão.65 3. de pessoas passando‖. é depois de dez horas. (Herlon.Visão aérea do ponto de prostituição destacado em vermelho Fonte: Extraído do Google Earth Além dos garotos de programa. arrombadores. segundo um policial entrevistado: são travestis. outros sujeitos noturnos tomam conta da paisagem urbana.

Neste sentido. Me confirmou que existem sim. a proteção dos seus membros. o proprietário dos estabelecimentos e a própria polícia. dentre outras coisas. do mesmo modo que inexiste a constituição de vínculos de amizade no grupo devido à ausência de confiança entre eles. Em seguida. foi me explicado que o ponto costumava funcionar nos dias de sexta e sábado. momentos de aproximação. marcado pelo fluxo constante de pessoas de interesses diversificados. a discussão da categoria conflito. foi questionado o motivo da minha presença no local. e que não tem amizades com a maioria porque são perigosas. incertezas. Fora do seu círculo. acordos. Neste espaço. as relações que se estabelecem são marcadas por tensionamentos. isso não existia. são constituídas outras modalidades de interação que visam. Ao chegar ao pedaço. Ao longo da madrugada.66 Quando nos referimos ao ponto que escolhemos como locus privilegiado de nossa investigação. pois na semana era melhor ficar na Beira-Mar. na perspectiva traçada por Simmel (1983). . como há alguns quarteirões e em que não podem ficar. mas foi rechaçado pelos demais. os usuários dos serviços sexuais (prostituição e cines pornôs). os michês fecham pactos internamente na busca de garantir alguma espécie de organização coletiva da atividade que exercem. As informações e orientações a mim repassadas eram indicadores de um grau de organicidade espacial e das atividades do agrupamento de michês que ali trabalhavam. que outro garoto um tentou ser o dono do pedaço. funcionários. se havia alguma espécie de disputa pelos locais entre os michês: Segundo Beto. Silva (2006) chega a afirmar não haver rivalidade entre michês por se tratar de uma categoria flutuante. (Trecho de Diário de Campo). Como quaisquer uns dos grupos listados. Beto me advertiu que onde eu estava não era ―permitido‖ ficar a fim de evitar problemas com o dono do ―complexo de cinemas‖. acrescentamos a esta trama os moradores da rua. as ruas em que as travestis se prostituem. e de rua. e uma insegurança constante em função da sua exposição nas ruas que os tornam mais vulneráveis à ataques de criminosos. nos possibilita analisar a constituição dessas relações em nosso campo de pesquisa. Lembrou ainda. logo no primeiro contato. Perguntei pela ocupação dos espaços.

que é homem. outra pessoa. mesmo. Pra conversar. Com elas. é o mesmo que vai. eles querem resolver por eles próprios‖. vai ficar meio chato. configura-se um regime de convivência funcionando como uma espécie de sociação. vai ficar. Na busca pela resolução destes conflitos intergrupais e externos. ―fazer amizade‖. Você vai perder o que tem que fazer no teu canto. pro lado delas. se você ―bulir‖ com o território deles. não roubar para evitar ―má fama‖. pode ser o garoto. A gente pode ate ir pro lado dela. em contraposição a suas discordâncias.. Tem o espaço delas. nos informou um policial ao comentar sobre a existência de atritos envolvendo o grupo de michês e travestis: ―Não tem. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). Que elas estão concorrendo com a gente. te atrapalhar. Não pode mesmo. quem fica com travestis. (Edson. é o mesmo. O que é difícil. Quem ele vai escolher? Pode ser a mulher. isto é. assim. que é mulher mesmo. uma menina. Elas querem ser mulher. e está vestido de homem. um garoto. a própria existência do conflito contribui para no processo de elaboração de soluções (SIMMEL. Tem quem faz com garoto. O que a pessoa vai fazer. Você vai atrapalhar. Recomendações aos que se aproximam do grupo. quanto as relações duais. A gente. E daí. não usar chinelos (porque os clientes gostam de rapazes bem apresentados). porque muitas vezes dá briga. tal como resulta de um acordo entre os atores locais. não. vai e quer uma travesti. Porque a gente. tudo bem. Algumas são boas.. Elas querem ganhar a mesma coisa que a gente. Porque chega um cliente. (SIMMEL.. e mesmo que se cometa alguma ilegalidade não denunciar o colega. Esta . chamamos de ―unidade‖. de energias e de formas. não se agrupar em três ou mais pessoas na esquina (a fim de não afastar quem possa vir a se aproximar). a síntese total do grupo de pessoas.. até porque eles têm os problemas. p. Mas também. Ele mesmo que vai lá. totalmente o que a pessoa tá fazendo ali. Pra trabalhar. algumas são ruins. . tais como. podem ser interpretadas como pertencentes a alguma forma de regulamentação interna ao grupo. 1986). não pode ir pro lado delas porque vai atrapalhar. a totalidade suprema daquele grupo.125). cada um com seu território. O cliente é o mesmo. Assim. voltar novamente. mas a concorrência é a mesma. Nem a gente pode ir pro espaço delas. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Designamos por ―unidade‖ o consenso e a concordância dos indivíduos que interagem. Não tem diferença. uma forma de conseguir algum tipo de unidade. Neste sentido. 1983. continuam as brigas é melhor cada um na sua região. uma totalidade que abrange tanto as relações estritamente unitárias. separações e desarmonias.67 A demarcação territorial das ruas e esquinas é algo que se faz necessário. tem o nosso espaço. nem elas podem ir pro lado da gente. com travestis. pra poder conversar com ela. É que elas estão vestidas como mulher. (Policial 1.

68 estaria associada a um desejo de apoiar-se uns nos outros com intuito de protegerse das ameaças externas. boné e andava com um saco plástico. estava de chinelos. Olhei. De forma semelhante. avisto apenas um rapaz sentado de camisa. e estava ali. Os viu correndo para agredir o senhor que estava caído porque o mesmo havia passado por eles . escuto um barulho.. de acordo com o grau de proximidade do ponto. presenciamos o desdobramento de um conflito que resultou num ato de violência física. como são muitas vezes conscientemente cultivadas. bermudas e chinelos. De imediato. Numa de nossas incursões em campo. e fez com que redimensionássemos nossas relações no pedaço: [. O rapaz. logo me dirijo à esquina e avisto o mesmo rapaz sentado e logo mais à frente um homem caído na calçada. mas tinha um dos pés ferido e sangrando. supús que havia torcido o tornozelo na queda. tentava entender o que se passou ao longe. Então. em seguida. que já não me parecia mais morador. imaginei que fosse um morador que esperava por algum parente ou amigo. 126). percebo uma correria nas proximidades. e tentou se levantar. Neste dia. Ao me aproximar. falou que outros dois haviam atingido o homem com uma pedrada na cabeça. havia a indicação de um pelos outros segundo as atividades sexuais que estavam dispostos a realizar com os clientes. (SIMMEL. alguns se revezavam no local. som de passos apressados. O conflito acaba por contribuir nos processos de formulação de resoluções como força integradora. em outras circunstâncias. Disse que estava bem. pudemos vivenciar uma situação conflituosa. Mesmo com a declaração de que "No meio da rua. Numa dessas idas e voltas. outro agenciava novatos para que fizesse programas com um ex-michê que possuía duas lanchonetes nas redondezas. a fim de possibilitar que ambos fizessem uma quantidade razoável de programas. ―as hostilidades não só preservam os limites. quase que em frente ao prédio residencial que se localiza no mesmo quarteirão. é só você por você mesmo" (Edson. p. e voltei a perambular de uma esquina a outra. de frente à rua que faz esquina com a dos cinemões. vi que aparentava estar bêbado.. no interior do grupo. sendo que em algumas circunstâncias. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). 1983. meio que parecia ―vigiar‖ a rua a fim de proteger alguém que estava para chegar. Me assustei um pouco. os que não ―fazem casal‖ indicam os que aceitam fazê-lo.] Quando me aproximo da esquina. práticas de solidariedade se faziam presentes no cotidiano: a esquina onde ficava era o ponto mais visado tanto pelos michês como pela clientela. Ao mesmo tempo. para garantir condições de sobrevivência‖. do desparecimento gradual. Quando perguntei: ele falou que morava no Bairro Dias Macêdo. numa altura próxima: pedaços de concreto partido no asfalto.

mas não precisava ter pois medo. em outro momento me disse que morava próximo (na Av. pode ser satisfeito por meio de outras combinações e eventos além da luta. Lá. Ainda. os informei ligeiramente do caso. São uns vagabundos do Pio XII. Ficamos nós três próximos como forma de garantir nossa segurança e da vítima da agressão. e repassei informações que me pediram. Próximo a ela. De onde estávamos. ele nem queria que chamasse porque seu desejo era ir para casa. Desta forma. Mesmo assim. Eu. determinado por um propósito superior. falei pedi a água. Sugeriram chamar uma ambulância e o ―Ronda‖. nesse intervalo de tempo. deduzimos que o outro grupo não se arriscaria realizando um ataque contra nós. Sendo assim. Perguntavam o que havia ocorrido. João Pessoa). Comprei. quando levei a água. o rapaz da rua e o senhor que me acompanhou ficamos lá enquanto a ambulância não chegava. o mesmo . avistei os moradores do prédio residencial que fica bem a frente se posicionando nas janelas curiosos. Já dei uma mãozada em um deles‖. Liguei para o CIOPS. Nesse movimento. O desejo de possuir ou subjugar ou mesmo aniquilar o inimigo. ―Eles não vão vir até aqui. Foi nesse intervalo que pude sentir o quanto aquele espaço poderia se configurar como perigoso. mas fui advertido por um homem que ali estava que não deveria me importar porque era coisa de ―drogado‖. se não estivéssemos ali. (1983. o homem de uniforme disse que avistava os dois rapazes que supostamente haviam agredido o senhor.69 e dito alguma coisa que os provocou. o confronto físico foi evitado. outra moradora comentava ―ainda bem que não foi como morador. Segundo Simmel. p. O rapaz de chinelos percebeu que eu portava celulares e ouviu o som do meu mp4 que eu havia deixado ligado. Acima de minha cabeça. pediu que eu fosse ao cinema pedir água gelada para oferecer ao ferido e socorrê-lo. Quando falei do que havia acontecido ao telefone para o Edson. não há motivo para não restringi-lo ou mesmo evitá-lo. Nossa segurança foi assegurada pelo fato de que éramos em maioria naquele momento. descem pra cá para fazer assaltos. Alguns desceram as escadas e se puseram no portão. pude conversar com alguns moradores. Quando o conflito é simplesmente um meio. acrescentou que. Ainda. falei do ocorrido. mas não tinha nem condições de ficar em pé e muito menos andar até um ponto de ônibus e visto a hora. por sugestão do rapaz que já havia percebido não ser morador mesmo. desde que possa ser substituído por outras medidas que tenham a mesma promessa de sucesso. mas não me deram. 134). (Trecho de Diário de Campo). viado que mexe com morador é viado morto‖! As mesmas reforçavam a ideia de que se ligasse para a polícia. pois estávamos em maior numero. acredito que não haveria transporte. Na ocasião. os que haviam descido. e pedindo por informações. Aconselhou que eu guardasse na recepção do cinemão onde comprei a água. apesar da ameaça iminente de uma resposta violenta por parte dos agressores em função do nosso socorro ao homem que havia sido atacado. Uma senhora estava preocupada com um parente que havia ficado de chegar. o mesmo me acompanhou. Já havia abordado o agredido. eles voltariam para ―terminar o serviço‖.

tomei partido por um lado. (Trecho de Diário de Campo). Edson. respondeu que era da Maraponga (a informação não batia com à do primeiro dia que nos vimos). afirma que elas tendem a ser mantidas sobre um manto de ocultamento. Me aproximei. desta vez revelando minha condição de pesquisador. sentado do mesmo modo. Como consequência. a não ser que fosse com alguém que eu pudesse confiar: ele próprio ou o Beto. que agenciava outros garotos. quando liguei. Em sua opinião. Na ocasião.) Por volta das 3h da madrugada. Beto e Edson. eu não deveria ter ajudado no socorro ao agredido. Paulo.70 recomendou que eu não voltasse mais ao campo. resolvemos ir até à boate Divine.. anotei seu contato de telefone (celular). Tal dificuldade de interlocução já era esperada. Assim como Becker (2008).. fomos eu. o mesmo respondeu que estava sem. certa noite. fui capaz de identificar declarações desencontradas nas entrevistas e bate papos. o ―sumiço‖ e os dribles de . No final da conversa. pois mesmo não conhecendo a natureza do conflito. como o conflito de informações a respeito dos outro e sobre eles mesmos. Goffman (1988) já apontava a questão a respeito do controle de informações por parte de sujeitos estigmatizados. Ao questionar se ele morava pelas redondezas. Paulo e o ―mais antigo‖. no outro lado da esquina. Em outra oportunidade. ao falar de atividades desviantes. (. ouvi a mensagem da operadora informando que número estava impossibilitado de receber chamadas. Paulo pediu o número de telefone celular de Edson. poderia ser alvo de uma possível revanche do grupo de agressores. No caso. sendo reveladas desde que os sujeitos envolvidos sejam convencidos de que não haverá risco de que sofram algum tipo de consequência. vi quando o Edson tirou pela bermuda um celular que estava escondendo. Tinha voltado ao campo justamente no período de ―sumiço‖ dos dois principais interlocutores. Outras situações revelaram um clima de desconfiança presente mesmo entre os sujeitos mais próximos do ponto. falei que o havia reconhecido. revelou que era michê. No caminho. Aproveitei e perguntei-lhe se poderia me conceder uma entrevista. de quem se aproximava do local. por conta do temor dos desdobramentos de uma possível publicização das identidades e práticas do grupo. tive a oportunidade de reencontrar o rapaz que esteve presente no dia da agressão outra vez. Provavelmente. questionava aos que estavam no ponto se tinham interesse em fazer programa com o seu contato.

ele responde e vai atrás. Da mesma forma. tal. Ninguém pode roubar ele aqui. ―Oh.. Tipo assim. roubo. não. . lá! Tá fazendo programa! Vamos meter peia‖! (Edson. [. [É] o Beto. Porque conhece todos eles. Se estava na área. Um exemplo. questionamos se existiria alguém que exercesse o papel de liderança. você teria que ter a autoridade dele para todos te aceitarem. Em outro período. tu roubar o Edson. mas foi rechaçado pelo grupo. Quando entrevistamos Edson. um ―michê-ladrão‖ que gostava de cobrar pedágio das pessoas. obtivemos uma resposta afirmativa. tu roubar o Edson.. Um exemplo. Porque o Beto tem fama. ―Eu conheço o Edson. ao mesmo tempo em você e nos outros. tal. Herlon nos informou que houve um michê que havia se reivindicado como o ―dono do pedaço‖. ele responde sobre o que acontecer. uma dupla. ele responde sobre o que acontecer. Ao observar. Quando questionei se eu já teríamos visto este ―cafetão‖ na rua. Os outros pegar. pelos depoimentos. caso eu fosse um: Se fosse novo. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). (Edson. senão levava peia. não é pra roubar não. por que o Beto tem fama. Beto foi identificado como o líder. Que chama cafetão. se acontecer com o Edson. Porque conhece todos eles. só para saber quem era você. você tinha que chegar e fazer amizade com o dono da turma. Ele é o mais velho. encontrando o fim com o assassinato de um e prisão do outro. Beto afirmou que alguém já havia tentado algo nesse sentido. Ele responde.71 potenciais interlocutores chegaram a ocorrer e por certo frustraram algumas das expectativas em relação à pesquisa. conhecida como ―irmãosmetralha‖ agiu da mesma forma... em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). ―Eu conheço o Edson. um determinado grau de organicidade interna.] para você fazer ali. tal. se acontecer com o Edson. Ninguém pode roubar ele aqui.. não é pra roubar não. Ele é a maior limpeza.] Ele já perguntou por ti. ele anda aqui. não. Uma das questões que mais nos instigavam permaneceu incógnita Edson nos informou que havia um total que variava de seis a oito michês que faziam ponto naquele pedaço.. Quem sempre é mais velho porque é quem tem mais tempo. Ele responde. Ele vai atrás de saber quem foi. ele anda aqui. Se acontecer (algo). Por isso que todo mundo conhece o Beto. a preocupação. Não adianta você ficar ali. se a gente nem conhecer. Se a pessoa rouba. Por isso que todo mundo conhece o Beto. Ele é a maior limpeza. nunca viu. pra saber o que foi. indagamos como se dava o processo de integração de novatos no ponto. Porque o medo dele. que não foi. [. tal.

pra acontecer. Você não conhece quem é. tem. Fora as demandas internas. podem ser compreendidos como uma atitude que se espera de um líder (e demais membros) frente a um agrupamento desviante: o de mantenedor do segredo e dos pactos de lealdade que os protege. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). para não nos conceder uma entrevista. tem não. Se ele quiser roubar ou não. perguntar. (Edson. Quando você vai pela primeira vez. vai ficar se espalhando. No caso de um roubo/assalto cometido por um michê: A gente não entrega. evitando problemas com terceiros. porque. quem não é. Algumas vezes. . Porque se você contar. Por ali. Era conhecido meu. porque eles querem roubar a gente. Porque o garoto. Beto já havia afirmado o fato de não fazer amizades com as travestis. porque a gente também não vai entregar. Acontece se você não conhecer. o contato com outros personagens da noite urbana do Centro estão permeadas por uma tensão contínua.. (Edson. além da capacidade de autoproteção. Se a polícia chegar. Ele tem que guardar pra ele. seriam pessoas perigosas. O Beto também conhece. porque a gente também confia neles. evitando algum confronto. se acontecer alguma coisa. não. é uma atitude de indiferença frente aos conflitos que não os envolva diretamente. Você tá ali.72 Independente da veracidade ou não de uma versão em detrimento de outra. não sei‖. eles também são nossa segurança. não. Uma noite como essa. Eles não mexem com a gente. qualquer coisa pode acontecer com você. O ―sumiço‖ e os ―dribles‖ de Beto. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). e chegaram a namorar um com o outro) os regimes de confiança oscilam em função de interesses diversos. muitas vezes não. na hora de acontecer. (Edson. a gente: ―não sei. percebemos que mesmo entre os mais próximos (segundo Edson. Não têm brigas. A gente não vai cabuetar. Um dos mecanismos de preservação da integridade individual. mas depois vem o dele. ele. Não deve contar pra nenhum outro. segundo ele. que você não conhece. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). vai bater a policia pra saber quem é. que ela tinha roubado o cliente. que por vezes pode vir a acontecer. ele rouba. no trato com os moradores de rua e outros sujeitos que circulavam pela esquina (poderiam ser ladrões). A travesti mandou matar um garoto porque o garoto cabuetou ela. Agindo da mesma forma.. ele e Beto são bastante amigos. Às vezes. a gente é segurança deles. quando vem fazer o programa.

ouvimos uma recomendação de que não deveríamos nos envolver com o conflito porque se tratava de ―coisa de drogado‖. o motoqueiro advertiu que ―todo carroceiro é ladrão‖. Mesmo no retorno. os agentes de segurança pública são acionados com os quais outras modalidades de relações são constituídas. Na noite em que testemunhamos a agressão contra um homem na rua. pode ficar. Em situações em que as disputas se acirram para além das possibilidades do estabelecimento de acordos. . Os vigias de rua também fazem parte da cena noturna. também. muito são os que não confiam neles também. Assim.. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). não querem que a gente fique totalmente em frente deles.73 Essa atitude de suspeição perante outros indivíduos e grupos não era comportamento exclusivo dos michês.. mas não confia. eles mesmos. ao tomar um mototaxi para casa. nas outras partes. ao relatar o ocorrido. Fazem parte do grupo dos quais ―se confia desconfiando‖. Associa-se à imagem dos prostitutos viris de rua os signos da criminalidade. nem cá. no exercício de suas atividades acabam por demarcar limites territoriais. atuando na segurança particular de alguns estabelecimentos.[. A gente confia. A problemática em torno da ocupação das esquinas e do trânsito pelas ruas à noite articulado com a questão da segurança local vão configurar aquele que se mostrou como um dos principais motivos de conflito no pedaço.] eles deixam a parte. como os michês tratam com desconfiança outros grupos e sujeitos. (Edson. inibindo a prática da prostituição em alguns pontos das ruas. percebemos um ar desconfiado do atendente do cinemão quando pedi para deixar meus objetos de valor guardados com ele na recepção. A gente não pode dizer que confia. Nem lá.

era prontamente identificado. Sob a figura do michê. certas variáveis sociais e atributos contribuem para o enquadramento dos indivíduos no rol dos personagens com tendências criminosas. se dele sacar os recursos necessários à sua sobrevivência. sempre seguidos de recomendações do tipo: ―evite sair com o baiano‖. cor da pele. Os nossos pederastas das mais baixas classes. crime sempre ligado ao terreno sexual. Nas conversas nos bancos da Praça do BNB não era raro ouvir relatos sobre assaltos e furtos praticados por michês contra algum conhecido. ―aquele cara que chegou dia desses‖ e. entre eles o conhecido e já por nós descrito suadouro .1 Pactos de lealdade: o silêncio como proteção Devido. talvez. tais como o vocabulário. alguns outros. à baixa cotação do trabalho prostitucional masculino é que tantos invertidos investem pelos becos escusos do crime. apelam paras as modalidades criminosas de furtos com 20 atrativo sexual. o modo de vestir. Segundo o autor. 1967. desta forma. (IDEM. 1999). 74). . 20 Crime comum entre prostitutas: roubar a carteira do homem com quem se relaciona exatamente no momento em que o cara chega ao orgasmo. p. vivendo no meio prostitucional. a classe social. Este processo social de construção de identidades atreladas ao que representamos como ―mundo do crime‖ denomina-se sujeição criminal ―Há sujeição criminal quando há reprodução social de ‗tipos sociais‘ representados como criminais ou potencialmente criminais‖ (MISSE. SEGREDO E SIGILO 4. filiação a um grupo etc. A suspeição é um mecanismo ativado por signos que quebram a expectativa de confiança e que ativam uma atenção seletiva culturalmente acumulativa. Regras de experiências são acumuladas e orientadas para definir uma situação de ameaça ou perigo ou para sinalizar traços significantes num indivíduo. assim como em outros trabalhadores sexuais. de sua possível carga de suspeição. p. para distinguir indivíduos suspeitos.74 4 SEGURANÇA. 1988) que o aproxima das figuras do vagabundo e do criminoso. que por acaso passavam pelo local naquele momento. paira um estigma (GOFFMAN. instrução. Elementos que socialmente existem como diferenciadores e definidores de identidades são utilizados. (PEREIRA. 102).

Na ocasião da entrevista. No meio da conversa. o fato foi relembrado. elas tinham dinheiro. não sei o quê. e o outro quem acabou dormindo.) Tem gangues lá no Disney Lanches e no Bar do Zequinha (Mega Lanches). resolvemos ir até à boate Divine. É só roubo mesmo (.) ele se passa por michê. ―O mais antigo‖ comentava que ainda voltaria para o ponto mais tarde. Queima o filme da gente. dizendo que a pessoa está no ―Boa noite. mancha a imagem de todos do grupo e traz o risco de contribuir pelo fim às atividades no ponto por conta da sensação de insegurança daqueles que buscam pelo serviço.. Ao mesmo tempo em que essa preocupação com a imagem do grupo é notória na fala dos interlocutores. Eles primeiro. Lá. Ele faz ali. quando as bichas já estivessem a fim de fazer programas e bêbadas.75 A ―má fama‖ reconhecida pelos próprios michês os mobiliza no sentido de amenizá-la a fim de não prejudicar seus negócios por conta do afastamento dos clientes. fomos eu.. só uma vez. Os assaltos/furtos podem ser justificados mediante a necessidade de quem os comete. existe uma elaboração discursiva acompanhada de práticas de solidariedade que visam proteger os colegas que porventura cometam algum delito. segundo os demais garotos de programa. é ladrão‖. não. às vezes. . (Trecho de Diário de Campo). Em alguns depoimentos. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). combina lá o que é. Aproveitando-se da situação. O ―michê-ladrão‖. que às vezes está ali numa mesa vendo a saída deles. (Trecho de Diário de Campo). Edson tirou 200 reais da carteira do cliente e foi embora. dizia ele não ver problema algum porque para ele. daria para pegar os celulares delas. Tem uns garotos lá na rua. Nisso. eles como se diz? Conversam com a criatura... (Herlon. quando saiu de lá. Cinderela‖. A criatura leva para casa dele. Por volta das 3h da madrugada. e a criatura vai dizer: ―Não saia com aquele rapaz ali. ele rouba. Pessoas que eu conheço e fazem esse tipo de maldade. Paulo e o ―mais antigo‖. trocou os copos. a versão contou com outros detalhes diferentes do primeiro relato. não existe um cara que é michê e vai lá para roubar a criatura. Desta vez. funcionam como uma espécie de defesa frente a uma ameaça circunstancial. A pessoa que quer sair com ele. Edson. e sai. Edson me relatou que um cliente havia tentado aplicar o golpe ―Boa noite Cinderela‖ contra ele. que sai mesmo. (. Chegando lá. no horário de retorno das boates. Para mim. Disse que pelo espelho do banheiro do motel viu quando o cliente colocou algo no copo em que ele iria beber. mas no fim das contas o mesmo conseguiu reverter a situação. eles só fazem brigar. já é combinado com outra pessoa.

a gente não acusa.. Queria ir embora pra me deixar dentro do motel.. Eu acho assim. Isso não é um roubo como os garotos estão fazendo. Já me envolvi em um negócio. a garota. Eu pedi pra gente beber. quando uma pessoa vem pra curtir uma noite. individuais ou coletivas. voltava já. pediu pra dar uma ligada. mas assim. Ainda que. Eu pedi pra gente beber. mas isso aí não é um roubo como eu digo.) pegou o mototáxi. e também não vai poder acusar os outros. quando chegar na frente do motel abordar. (Edson. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). Aí. com remédio. e bebi. Demorou. Aí.. dar o troco. tal. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). (Herlon. Não acho errado roubar. tem essa também. Quando ela entrou no carro. que ia ali. (.. Voltou: vou sair. Quando eu vou. Eu estava com ela. Os outros não saíram com ele.. como. e bebi. A pessoa fez alguma coisa com ele.. mas assim é diferente. Foi assim. mas só faz realmente quando for pra ser. Telefono do motel. (Edson. Também não sei. e os dois caras abordam na hora que nós dois estamos saindo. mas não aqui na Clarindo.. Falei que não me envolvo. mas quando a intenção é roubar o garoto. quando eu tô saindo com ele no carro. Porque eu senti que ele ia roubar meu celular. e ele não vai suspeitar que foi eu quem mandou. Estas ações. outros depoimentos revelam casos em que estas atividades acontecem em função de uma ação coordenada a partir de pequenos acordos. a maioria. a gente não acusa nada não. ele quis me roubar. A gente acha que ele pode ter roubado porque ele tá. (. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). que não se deve acusar o outro a fim de garantir sua própria integridade. tudo bem. Quando cometidos apenas por um é algo que se evita contar. (Edson. todos vão saber. quando as pessoas vêm fazer sacanagem comigo. venho já. Aí. Todo garoto anda. Não aqui. aí digo para meu amigo: ei. como eu vou pro motel e tudo. Eu já ando preparado pra acontecer. também. dar uma volta. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). deixou tudo dele lá em cima. ―fui assaltado‖ tal. eu vou limpo. não.. vai para o outro lado e fica olhando‖. eu tava com dois remédios no meu bolso. já não mais tá ali.. Vou com o cliente.. Só dessa vez. . tal. e (. passei para o outro lado da avenida. eu já fui no ―Passeio‖. A criatura vai ter que marcar com alguém. mas assim. quando ela parou (. eu tava com dois remédios no meu bolso. uma cobertura. Aí. eu não vou deixar fazer. Tem. a pessoa que fez. que foi que aconteceu‖? Aquela coisa toda. Porque se abrir o bico. eu dei tipo assim.. E ninguém vai dizer quem é porque cada um guarda o segredo do outro. o assalto. [Q]uando a pessoa volta.. começou a bagaceira. e eu o roubei.76 Mas assim. reforçando a desaprovação de atos desta natureza pelos membros do grupo.) onde ela estava lá. tem também.. eu fui lá falar com o rapaz.) Entre nós. vou roubar aquele cara. fazem parte do repertório de segredos que deve ser mantido em prol da unidade e estabilidade do grupo. ―Rapaz.... Nós. a pessoa parou: ―Ei.) Dei ―Boa noite Cinderela‖ em alguém. Aí foi preciso.

Quando esgotadas as possibilidades de acerto. elementos característicos da racionalidade moderna. (. em algum grau.. Na modernidade.) quando transgressão e transgressor tornam-se uma só coisa. Nestes termos..64). 1999. Segundo os michês. mas para isso depende. Por vezes. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). a acusação vai repousar no indivíduo. com a ênfase posta na racionalidade da ação e no autocontrole. e a separação entre o fato e a lei torna-se maior. pois para o mesmo os que ali se encontravam eram todos elementos suspeitos. busca-se através da razão identificar no transgressor motivos e razões que o levaram à transgressão. a atitude de acusar o outro representa uma traição.. nesta situação. p. ―Ele não quer que ninguém faça programa ali‖ (Edson. o que passa a ocorrer na modernidade. (.. a polícia é chamada para intervir. as nuances apontam principalmente para um sujeito fazendo dele e de sua subjetividade. Tal atitude ancora-se num raciocínio em que sujeito transgressor e transgressão se confundem e a norma dita a lei. uma deslealdade. a mais recorrente foi em relação a não ocupação da esquina da calçada no final do quarteirão do ―complexo de cinemas‖. as acusações costumam partir de sujeitos exteriores ao seu círculo. 4. deflagrando uma série de tentativas de acordo entre as partes. o ponto de ancoramento último da acusação. O fato de partilharem a mesma condição de segregação e discriminação favorece o desenvolvimento de um sentimento de pertença entre os membros do grupo. propiciando que a denúncia seja interpretada pelo viés da delação.) é a culpabilidade do agente que . o conflito entre prostitutos e o dono dos cinemões se apresenta de maneira constante. O deslizamento de significado da denúncia para a delação se beneficia dessa cumplicidade objetiva e favorece a legitimação da ―lei do silêncio‖. são os clientes os agentes das denúncias.77 Segundo Misse (1999). mesmo que em situações raras. da ―neutralização da moral‖ das práticas acusáveis ou da imposição generalizada do medo. desde o primeiro momento até os últimos dias em que lá estivemos.2 Se essa rua fosse minha: ordem e conflito nas esquinas Das recomendações recebidas em campo. No cotidiano das relações em torno do pedaço dos michês. Por outro lado. (MISSE. a ordem partia do dono dos estabelecimentos.

ou mesmo aos que preferem transitar em ambientes mistos onde há também a presença de heterossexuais. ao contrário. não se pune o sujeito mas.. p. p..) Ele não quer que fique na porta do cinema. dono dos cines pornôs e seus funcionários. cumplicidades veladas. quando.107). 1996. Eles querem segurar para as mulheres deles não saber. [S]er apanhado e marcado como desviante tem importantes conseqüências para a participação social mais ampla e a auto-imagem do indivíduo. ao risco de assaltos e à ameaça ao sigilo dos clientes. parte considerável de outros estabelecimentos de mesma natureza expõe nas suas entradas cartazes proibindo a ingresso de garotos de programa. (VALE. Como acontecia no antigo Jangada. A mais importante é uma mudança drástica em sua identidade pública. sua razão e motivos deverão responder pela necessidade ou não de estabelecer suas ―tendências‖. Que tem pessoas casadas. Segundo as queixas feitas pelo dono. Mesmo no antigo Cine Jangada. O sigilo e a discrição dos espaços para estes clientes são elementos fundamentais que vão influenciar a sua frequência. onde a prática da prostituição travesti era permitida/tolerada.).78 está em julgamento. suspensões e expulsões‖. o cliente que tá lá pra dentro. se materializava em acordos . Segundo Parker (1999) os estabelecimentos de circulação gay oferecem uma segurança limitada àqueles que não desejam ser identificados publicamente como gays.. (Edson.) Quando é a lei que impera sobre a norma. (.. a ambiguidade das relações entre michês. As principais justificativas contra a presença dos michês próximos aos cines faziam referência à concorrência que se dava entre os dois serviços. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011). 57). 1999. é o sujeito da transgressão quem está em questão. 2008. e não apenas a transgressão..173). discretamente. Além da interdição do ponto da esquina dos cinemões. a relação ―com funcionários e gerência era marcada por ambiguidades. a sua transgressão.. É um sujeito quem é racionalmente perseguido pela acusação. (MISSE. Sua subjetividade. p. nele. e não apenas sua transgressão. O que de fato acaba acontecendo. os clientes reclamavam da quantidade de pessoas na esquina que estariam vendo quem entrava e quem saía. de estabelecêlo como acusado ou culpado. (. Que também vão ―prali‖. Ele conversa (. advertências. é a norma que dita (e reforma) a lei. (BECKER. logo.

tais como Beto e Edson. o Márcio não queria nenhum garoto de programa ali na rua. ele contratou uns caras lá para por todo mundo para ir embora. um de nossos entrevistados. tais como bares e boates. seriam convidados a se retirar. Quando conversávamos com um funcionário de um dos cinemões. porque atrapalhava a movimentação dos clientes. Na época. além de entrar no cinema para fazer programa. ali. Mesmo estando lá. houve o caso lá de uma pessoa que chegou. Dante. Apesar da tensão local. percebemos o trânsito livre de dois homens que circulavam pelo ponto e por lá ficavam tranquilamente. por conta dos roubos. A contratação de seguranças particulares é uma prática recorrente por parte de donos de pontos comerciais e estabelecimentos do Centro de Fortaleza que funcionam madrugada adentro. não seria a primeira vez que algo semelhante acontecia. Jeová falou para mim que não é o único com que o dono não ―embaçava". Então. Nesta mesma noite. que saíssem do local. Observei que o segurança abordava os que ali estavam e os mandava sair. pois sabia que era o único que não roubava. Para garantir que isso acontecesse. O ―Márcio‖ dos cinemas. Segundo o funcionário. concluí a conversa com o funcionário e me desloquei para esquina onde estava o ―michê de confiança‖. Vi quando pediu que um rapaz saísse dali. mas não chegou a acusar os outros. (Trecho de Diário de Campo). com o outro era diferente. estava comigo na recepção. pude presenciar o novo funcionário em ação. Sobre essa questão. era o único em que ele depositava alguma confiança. não era permitido que ―novatos‖ e desconhecidos do dono do cinema fizessem ponto no local. No caso específico dos cines pornôs. só podia falar por ele mesmo. mantendo assim o pacto de não acusar seus colegas. não.79 que tentavam estabelecer e no tratamento diferenciado que os últimos mantinham com alguns garotos de programa. vestido com uma jaqueta preta. De qualquer forma. e logo quando ele chegou até Vieira (michê) e fez a mesma solicitação. este tinha porte de cliente. dava voltas pelo quarteirão com sua moto orientando aos que porventura estavam na esquina. Assim. Ele não queria nenhum menino ali na rua. ele não chegou a falar comigo. Na época estava havendo . Dante dizia que não era perigoso para ele. Entre um e outro atendimento aos clientes que chegavam. quando um dos sujeitos deixou o capacete de sua moto para que ele guardasse. havia sido contratado um segurança particular. os que chegassem no pedaço.

a denúncia pública é substituída pela solução privada por intermédio da ação dos homens contratados e pelo uso da força para impedir a permanência dos garotos de programa no espaço. e ele achava que todo mundo que ficava ali estava assaltando os clientes dele do cinema. A polícia é chamada em situações em que as tentativas de acordo se esgotam. eles têm noção da grande quantidade de vigias nas ruas. Jeová. De acordo com os policiais. não. Deste modo. ―A maioria dos clientes não quer a polícia. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). trazendo demandas aos policiais: ―Qualquer problema. A acusação social que paira sob o agrupamento de michês. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). dizendo tudo que o cara fez e não quer pagar‖. pois de certa forma buscase resolver os conflitos diretamente entre as partes por diversas razões. mas os consideram importantes por conta da grande extensão de área que cobrem.80 assaltos. afirmou que não seria interessante questionar a presença do segurança particular. ―Até porque eles têm os problemas. (Herlon. eles querem resolver por eles próprios. (Herlon. Porque são casados. Teme-se o escândalo. em boa parte das vezes. Até pela questão: quem é que vai parar o cara tendo a viatura do Ronda com eles‖? (P5. ele mesmo. . ir à delegacia etc. chamar a polícia só traria transtorno. Como ―não dá para fazer tudo sozinho‖. estes acabam servindo como segurança complementar. quando no cotidiano das relações as coisas se resolviam entre eles. a ameaça do escândalo pesava no processo de resolução dos conflitos a favor das prostitutas por conta do temor da exposição dos clientes. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). chamam a polícia‖. A sua presença inibe a circulação dos clientes. (P1. não ganha a dimensão de denúncia pública. o ―michê de confiança‖. Segundo Vale (2010). a exposição. não querem se envolver com isso‖. em entrevista concedida no dia 17de maio de 2011). num primeiro momento. (P3.. ―O travesti esculacha. entre as travestis que se prostituíam no Cine Jangada. dentre as quais a preocupação com o sigilo (quando a situação envolve diretamente um cliente). Outro motivo fica evidente quando o conflito está relacionado ao dono dos cines e os michês: é a ideia de que ―chamar a polícia não resolve‖. dos cinemões e dos michês.

ninguém viu‖. Os michês como ―donos do pedaço‖ agem a partir de táticas empregadas no cotidiano que se contrapõem ao que diz respeito à norma. Tem constantemente que jogar com os acontecimentos para os transformar em ―ocasiões‖. e pelo domínio do desconhecido. Ao contrário. Neste fluxo. (CERTEAU.118). buscando assegurar sua independência e aproveitando-se das ocasiões e possibilidades de ganho. De forma diferenciada. vigiando para ―captar no voo‖ possibilidades de ganho. p. o faz por intermédio de um conhecimento anterior. 2003). 46-7). p. 2003. através de técnicas e tecnologias. Chamo de ―estratégia‖ o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder é isolável de um ―ambiente‖.46). (FREITAS. sem poder retê-lo à distância. Por tática. Ela não dispõe de base onde capitalizar os seus proveitos. O ―próprio‖ é uma vitória do lugar sobre o tempo. a tática depende do tempo. pela ausência de um estado jurídico co-institucional dos direitos sociais e da cidadania. define-se: [U]m cálculo que nada pode contar com um próprio. A tática só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua. possui o exercício da força/violência legitimado pelo Estado (WEBER. preparar suas expansões e assegurar uma independência em face das circunstâncias. pelo fato de seu não-lugar. 1990. revela-se como um território demarcado em função da dinâmica das relações estabelecidas entre sujeitos e instituições que operam no espaço. p. pela conivência e ou omissão das instituições responsáveis pela garantia da ordem e da segurança públicas. Para além disso. Mesmo não estando presente por todo o tempo no ponto de prostituição e seus arredores mais próximos. a polícia intervém no local estrategicamente. Quando intervém no território. Ela postula um lugar capaz de ser circunscrito como um próprio e portanto capaz de servir de base à uma gestão de suas relações com uma exterioridade distinta. se identificam momentos de 21 Refere-se a uma região marcada pela impunidade e insegurança ―representada por valores que lhe são fundantes: pela inimputabilidade de seus agentes violentadores. nem portanto com uma fronteira que distingue o outro como totalidade visível. 2010) constituídas no espaço da rua revelam um movimento de forças que se deslocam entre personagens através de jogos e negociações cotidianas. sem apreendê-lo por inteiro. fragmentariamente. (CERTEAU. havia a clareza da existência da polícia e de sua autoridade na mediação dos conflitos. 1990. 2004). . As relações de poder (FOUCAULT.81 O que à primeira vista poderia parecer uma ―terra de ninguém 21‖ (FREITAS. expresso pelo valor do ninguém sabe.

distanciamentos. e a partir disso. 2010. captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais. foram dispostos mais de 1500 policiais divididos em 122 equipes cada uma composta por 12 policiais. ele se prolonga. lá onde ele se torna capilar. 2010). o trabalho da polícia é reconhecido como uma instância superior na resolução de conflitos. 98). (FOUCAULT. Somente na capital cearense. 4. originalmente. O programa Ronda do Quarteirão foi pensado para oferecer uma nova modalidade de policiamento que. dentre suas características se destaca a presença ostensiva em uma determinada região da Cidade. . de 1.. ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam. eventualmente. [C]aptar o poder em suas extremidades.) As viaturas são acompanhadas por uma moto e equipadas com rádio de comunicação com o Centro Integrado de Operações de Segurança (CIOPs). (. violento.5 a 3 quilômetros de extensão. Seu trabalho está vinculado ao exercício de poder fundamentado na autoridade de um governante na gestão de uma população circunscrita a um território específico (FOUCAULT. 2009. A idéia foi colocar viaturas (carros do tipo Hylux) em áreas limites. principalmente no ponto em que.82 aproximação. p. computador de bordo.3 Governo. penetra em instituições. pactos e conflitos que envolvem dois ou mais grupos e instituições. em suas últimas ramificações. (FREITAS. território e polícia: espaço urbano e gestão das populações Na condição de agentes de segurança pública legitimados pelo Estado. inicialmente em quatro bairros da cidade de Fortaleza.. tomamos como questão fundamental percebê-lo como relação. A atividade policial é executada a partir de uma racionalidade estratégica. com grupos de policiais equipados com equipamentos de ponta. 64). (BRASIL. sendo expandido na seqüência para os demais bairros da Região Metropolitana e do Estado. Quando nos referirmos ao poder. p. corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material. p. 182). O Programa foi lançado em novembro de 2007 pelo Govero Cid Gomes (2007-2010). patrulhadas por 12 policiais que permanecem sempre na mesma área de atuação. que se revezavam nos três turnos por meio de patrulhamento preventivo e ostensivo 24horas. 2010.

seus emaranhamentos com essas coisas que são as riquezas. sexualidade. em seus laços. de um poder que vai incidir no modo como as pessoas vivem. e sua política é. [O] Estado deve antes de tudo cuidar dos homens como população. o território. 316). ao seu bel-prazer. em suas fronteiras. as substâncias. as maneiras de fazer ou de pensar e. os governos encarregam-se das relações entre os homens. o Estado pode. com suas qualidades. um aparelho de disciplina e um aparelho de Estado que opera a mecânica do poder de soberania (FOUCAULT. aquilo que o Estado cuida. envelhecimento. ao mesmo tempo. que permite quantificar os fenômenos da população possibilitando que se governe de forma racional e refletida. 2006). nessa sociedade conta com mecanismos reguladores dos processos biológicos. visando. formas de agir e pensar. Neste patamar de organização. nesse sentido. constituiu-se uma nova governamentalidade (razão de Estado22) centrada nos elementos: sociedade território e segurança. que as coisas das quais o governo deve encarregar-se são os homens. seu clima. hábitos. 290). A polícia no século XVIII é compreendida como um tipo de tecnologia das ações estatais que visava garantir meios que fizessem crescer as forças no interior 22 Segundo Foucault (2006): Razão de Estado entendida como uma racionalidade própria à arte de governar os Estados. p. ―Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma tecnologia de poder centrada na vida‖ (FOUCAULT. da gestão da vida dos indivíduos. os recursos. . 2005). Ibdem. a morte. das relações com o meio ambiente e o espaço. são os homens me suas com outras coisas ainda. Ele exerce seu poder sobre os seres vivos como seres viventes. Esta é. (FOUCAULT. são os homens com as relações com essas outras coisas que são os costumes. 135). 1999. os hábitos. busca-se racionalizá-los e regular as populações. Sendo a população apenas. uma biopolítica. Quer dizer. em consequência. necessariamente. massacrá-la. O Estado. (Id. p. enquanto ciência do Estado. as epidemias. como a polícia. é claro. sua fertilidade. enfermidades. Esta arte de governo vale-se da estatística como matriz (ou aritmética política). mortes. p. na gestão de suas vidas. ao seu próprio benefício. como a fome. com certeza. enfim. sendo a soberania exercida sobre os sujeitos que habitam um território. sua aridez. costumes.83 Na sociedade moderna. que podem ser os acidentes ou as desgraças. (FOUCAULT. dos fenômenos biológicos: nascimentos. mas em suas relações. Trata-se. 2006.

dizer que roubaram uma pessoa. em relação à polícia. busca-se resolver os problemas internos aos grupos entre os próprios michês e outros grupos marginalizados. Aquela coisa toda. e não devo nada. segundo os policiais. não confio. muito em função da questão do sigilo. em entrevista coletiva no dia 17 de maio de 2011). É o seguinte. Mas sei lá. eu tenho a certeza e a confiança. que eu não posso. Essa força é de uso interno. Os próprios policiais tem noção de que geralmente. 4. o que legalmente não compete ao exército e aos grupamentos militares. sobretudo de: . 1997). (Herlon. a gente nunca se sente seguro. no meu caso. As populações noturnas do Centro. A polícia garante competência e se destaca ao utilizar a força física autorizada para atingir pessoas ―desviantes‖ do comportamento social consentido. A gente nunca sabe como são os policiais que estão ali dentro. No universo das interações com as populações do território homoerótico. (P5. (ALMEIDA. 2004. a gente tem que. Dos seus objetivos passados. não. hoje. podemos atribuir à polícia atual a garantia da ordem interna pelo ―bem-estar‖ dos indivíduos. delimitada só para pessoas autorizadas para manter a ordem dentro da sociedade. Seu papel se diferencia na época daquele que é atribuído à instituição policial. verifica-se uma resistência à presença de policiais. 117). não se confia na polícia. p. de querer jogar a culpa para cima de mim. Então. alguma coisa assim. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).. de querer me fazer medo. De um modo geral. pode haver uma abordagem deles. Eles querem resolver por eles próprios‖. são constituídas. Que a gente nunca sabe quem está dentro da viatura. ―Até porque eles têm os problemas.. Pode acontecer várias coisas. nem mesmo para garantir a segurança de quem se prostitui na rua.4 Atividade policial em questão: entre recusas e reconsiderações A figura do policial num território marginal como os pontos de prostituição e outros espaços constituintes da mancha homoerótica do Centro de Fortaleza suscita desconforto e apreensão nos indivíduos envolvidos na situação estudada. tanto quanto do questionamento do real poder de mediação e resolução dos conflitos locais. naquela noite.84 de um Estado (FOUCAULT.

pequenos traficantes.85 uma miscigenação maior de pessoas de várias classes sociais e pessoas que querem se aproveitar também dessa grande confluência de pessoas para efetuar pequenos furtos. ou mesmo quando testemunham situações de conflitos e buscam interferir. violência e . Logo que adentrou pelos corredores do cinemão. Mulheres... (Trecho de diário de campo). [C]hama minha atenção para a cena e adianta-se no início de uma conversa. obteve a alegativa de que o agente estava ali enquanto ―cidadão comum‖. gerando certo desconforto também. Antes mesmo de conversamos sobre sua presença no local. Quando acionados de pronto..). Tanto que eles não se misturam. O primeiro contato que tivemos com um policial dentro do circuito homoerótico do Centro de Fortaleza foi num dos cines pornôs próximos à Igreja da Praça do Carmo. No Centro é mais michê e travesti. Esta expectativa negativa em torno da figura do policial suspeitamos estar associada a um histórico de relações marcado por situações de conflitos. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). a denúncia costuma partir de indivíduos estranhos à cena marginal.. imediações.. Comenta de forma provocativa que imaginava que o policial estaria ali para censurar e coibir as práticas dos frequentadores do cine. e como outros que havíamos contactado para entrevistas futuras. além de oferecer-se para fazer programas. e se estivesse ali ―como policial‖? É como se o ―estar como policial‖ o colocasse num papel que o faria recriminar os homoeróticos presentes. os travestis. No dia em que um homem foi alvejado com pedras na cabeça. nos deu alguns dribles e sumiu. Como resposta. Como por exemplo. O homem estava portando uma mochila cheia de DVDs que colocava à venda para os clientes. moradores se queixando do barulho e da nudez dos que se prostituem.. tratava-se de um ―policial-michê‖. Na realidade. meu companheiro de campo já havia iniciado um batepapo com ele. aquela figura chamou a atenção. Ainda estávamos fazendo as primeiras incursões a fim de mapear os espaços de concentração de prostitutos. os michês e esses catadores de reciclados e pessoas que se aproveitam do período noturno para efetuar furtos e arrombamentos (. É. tem as boates. (P1. os moradores sugeriram que se chamasse uma ambulância e o ―Ronda‖. elas ficam mais na parte litorânea. a questão dos programas sexuais. roubos e. Dragão do Mar. partindo do questionamento a respeito da presença do mesmo naquele local. A resposta ao questionamento coloca a seguinte indagação: como ―cidadão comum‖ poderíamos ficar tranquilos com a sua presença no cine. Traficantes. o que contrariava o desejo de quem fora a vítima da violência.

estabelecimento comercial ou empregador legítimo. 404). entre as ruas General Sampaio e Barão de Aratanha. os homossexuais estavam sofrendo uma ―verdadeira caçada‖ no Centro da Cidade. Os travestis detidos deviam provar que tinham emprego remunerado. o terror entre os homossexuais era grande. (PARKER. No trecho conhecido como ―Passarela‖. mesmo não sendo consideradas crime no Brasil. 1985) Em resposta à repressão. perturbação da ordem pública ou prática de atos obscenos em público. do dia 23 de novembro de 1988. (GREEN. As travestis tinham medo de frequentar as ruas porque a polícia as recolhiam indiscriminadamente. Os métodos empregados por ele eram batidas relâmpagos nos locais de frequência homossexual. mas aqui ainda assim atuassem na prostituição em meio período. 2000. prisões ilegais e uso da violência. Contraditoriamente.86 repressão. Segundo os entrevistados. aconteceram fatos semelhantes que se tornaram alvo de reportagem de um dos principais jornais da Cidade (ANEXO A). inicia-se fazendo referência à campanha do Governo do Estado que tinha como intuito melhorar a imagem da Polícia perante a opinião pública no primeiro mandato do então Governador do Ceará. também poderiam ser acusados de atentado ao pudor ou de perturbação da ordem pública. no momento em que se realizava um concurso de beleza. no ano de 1988. Contudo a polícia podia acusar seus praticantes de vadiagem. e foi alvo de operações de higienização nas ruas de cidades brasileiras. No final da década de 1970. Se não pudessem apresentar documentos devidamente assinados por alguma empresa. há duas semanas passadas. Um dos episódios de abuso policial descritos no jornal foi a invasão de uma boate de nome ―Feitiço‖. Se fossem presos novamente sem ter preenchido esse requisito. ficavam sujeitos até três meses de prisão de acordo com o Artigo 59 do Código Penal. organizou-se uma das primeiras manifestações de rua do movimento homossexual do Brasil. em São Paulo. A prostituição em si não era considerada crime no Brasil. os gays e travestis nunca tinham sofrido preconceito e perseguição tamanha. Em Fortaleza. principalmente por conta da Polícia Militar. sofrem a condenação moral por parte da sociedade. Os travestis que estivessem legalmente registrados e empregados. o Delegado Wilson Richetti promoveu uma campanha que visava limpar o centro das prostitutas e dos homossexuais. p. A acusação mais comum era de vadiagem. o desfile em que seria escolhida a ―Miss Playboy . tinham trinta dias para conseguir um emprego. A prostituição e a homossexualidade. Tasso Jereissati. A matéria com o título ―PM decreta guerra a homossexuais‖.

Em fila. comentou que só havia tomado conhecimento da operação policial por meio do jornal. a documentação das mesmas sequer foi solicitada. descreveu em seu diário de campo uma batida da polícia realizada na antiga boate Medhuza. O coronel falou ainda dos excessos dos homossexuais que atentavam contra o pudor. comentários sobre as drags (nós não conseguimos ouvir o que diziam. agora não vamos permitir a pederastia no Centro da cidade‖. Eles tinham algum documento. pediu que as denúncias fossem encaminhadas para sua pasta. eles finalmente ficaram satisfeitos e deixaram o local sem nenhum problema.. A reportagem ainda retratava uma série de agressões. ao ser entrevistado. com três policiais mulheres e quatro homens. (IDEM. (. Ainda afirmou que reuniria a tropa a fim de proibi-los de toda a espécie de abusos passados e futuros. tendo relações sexuais nas ruas do Centro..) Os policiais as observavam e faziam. mas os comentários eram claramente depreciativos a respeito de todo mundo que estava ali). em algumas ocasiões. . Ainda declarou ―Eu não tenho nada contra a pessoa do homossexual. o comandante do policiamento da Capital na época. ocorridas até mesmo em prédios e viaturas da polícia. Em resposta às denúncias apresentadas no jornal Diário do Nordeste. Segundo as agredidas. Denunciava-se ainda o recebimento de propina que era paga por ―travestis marginais‖ para que fossem liberadas em caso de prisão. ao visitar a Cidade de Fortaleza. extorsões e abusos sexuais sofridos nas mãos de policiais militares e civis. os policiais as guiaram até a boate ―Casablanca‖. e aparentemente uma ordem para fechar o estabelecimento caso houvesse algum menor lá dentro. entre eles. ao discorrer sobre a cultura gay nas cidades brasileiras. Por volta de 2h30min da manhã houve uma blitz da polícia. os frequentadores foram agredidos e as travestis e transformistas postas para fora na calçada. O então Secretário de Segurança Pública do Ceará. Moroni Torgan.87 Gay‖. mostrando-se em via pública e. torturas. afirmou que desconhecia ação e pediu que se formalizassem as acusações para que fossem apuradas. A casa de show havia sido alvo de uma blitz ilegal. lá fizeram o mesmo e prenderam no total de 48 pessoas. como também não apresentaram ordem de prisão. Parker (2002). Após verificarem as identidades de alguns. Evandro Ferreira.2256). p.

só para fumar pedra (.) faz aquilo. Quer tudo voltar bonito.88 Situações como as que foram descritas povoam as memórias dos michês que estão no ponto há mais tempo. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). (Herlon. Não é só nesse tipo de ocorrência. naquela hora. 23 Em algumas situações os clientes também são algozes no trato com prostitutas. a gente tem que confiar na gente mesmo. ―Já houve uma ocorrência que a pessoa lá [.. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). eles querem grana também da pessoa‖. 4.. (P3. às vezes. eram vítimas de chantagem e extorsão. não. também. não têm uma visão positiva dos garotos de programa: ―Como eu disse. que ninguém quer problema. Ela não é a segurança da gente (A polícia). travestis e garotos de programa. (Edson. . geralmente é uma pessoa desacreditada. Se por um lado os michês não confiam na polícia. tentou entrar em conflito com os policiais.. Quando questionado sobre o convívio com os policiais no ponto. . os policiais..5 Uma questão de confiança: populações marginais e abordagem policial no centro A gente não pode confiar. É porque muitas vezes eles não querem entender o nosso lado. em entrevista concedida no dia 24 de fevereiro de 2011). mostrassem suas partes íntimas a fim de chamar a atenção de clientes. uma pessoa drogada sem (. Um já tentou furar o policial com uma seringa se dizendo portador do HIV‖. Sendo que hoje ainda acontece: ―a maioria dos policiais que entra nesse rolo. Só querem entender o lado dos outros. e cuidam eles mesmos de sua segurança nas ruas. Beto falou que antigamente os policiais incentivavam que os mesmos se exibissem na rua.] partiu pra cima da polícia.) sem perspectivas de ter emprego‖ (P3. segundo os mesmos alguns tentam e chegam a agredi-los.. A segurança da gente é a gente mesmo. os michês eram vistos como pessoas mais discretas: ―Os michês são discretos. Meio difícil.. Quando estes se aproximavam para fazer programas. entendeu?‖ (P5. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Em comparação com as travestis. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). As travestis usam do ―escândalo‖ como forma de ameaçar os clientes e se proteger de situações de conflito23. não.

respondeu que era tranquilo. não. a questão da exposição‖. a ―polícia comum‖ e o ―Ronda‖ não mexia com eles. Muito difícil a vítima querer ir para a delegacia. afirmou que alguns fazem programa com travestis e michês.. alguma cooperação era possível entre seus membros. É a questão desse pessoal da área. só quer seu bem. Por exemplo. que não havia problema em estar ali. não são mulheres. (. A respeito da desconfiança na relação com os policiais por parte dos michês. (P5. Por outro lado. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Muitos deles até mais fortes do que a gente. Você chega: ―Eu fui roubado. eu quero o celular. a importância da preservação do sigilo e da discrição influencia o comportamento dos envolvidos. pressionavam para que saíssem das ruas e relatou o caso de um colega que disse ter sido tratado como um marginal pelos policiais. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Neste comparativo. (P3. muito difícil. Ainda.. Porque são homens. que estes foram muito rudes na abordagem. não quero fazer o procedimento. ninguém quer fazer o procedimento. Mais uma vez. muitos furtos e roubos quando as pessoas vêm aí fazer os programas se aproveitam da situação para roubar o celular. faz-se ainda uma diferenciação entre as ―as polícias‖. É tudo nas suas costas. o toca-fitas. dizendo tudo que o cara fez e não quer pagar. ―os de farda azul‖. deseja ter seu bem de volta.) A polícia só mexia com ―de menor‖. a situação está resolvida. ninguém quer ir ao IML. segundo ele. faz roubos. (P4. ele mesmo. ―Eu quero ir embora‖. A relação de ambiguidade entre polícia e populações marginais materializava-se em situações em que apesar das tensões entre os grupos. ―A maioria gritante não quer a exposição. e mesmo assim não saiu do ―ponto‖ porque sabia. a carteira. as forças policiais. ―Já teve a ocorrência que chegou. (Trecho de Diário de Campo).89 O travesti esculacha. Os policiais fazem referência ao fato de que a maioria das pessoas deseja resolver seus problemas sem precisar passar pelo desgaste de comparecer a uma delegacia e seguir todos os protocolos formais de uma denúncia e da apuração dos fatos. quando alguém é vítima de assalto. ―os de farda azul‖ (policiais do Programa Ronda do Quarteirão) eram tidos como aqueles com os quais tinham uma convivência mais tranquila. Quando questionei sobre a atuação da polícia em relação à presença/trabalho deles na rua. não soube especificar se o Gate ou COTAM. . em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Caso consiga recuperá-lo. Leva ele lá e deixa preso‖.

(IDEM. não. buscavam evidenciar a existência e ação do (a) explorador (a). (Edson. dizendo o que tinha ocorrido. Sem cobrar. Hoje mudou. ―Um deles é pago e o outro é na camaradagem mesmo. em relação ao que chamam de ―polícia comum‖ e o ―Ronda‖. ―Eles sabem do trabalho da gente. Segundo a fala de nossos interlocutores. Entre a rua Assunção e Praça do Carmo. Como um das características do Programa Ronda do Quarteirão é a permanência constante numa mesma área. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). não. Na maioria deles. e então juntos. ainda não. Não queria saber o que estava fazendo ali. A não ser que eles flagrem a pessoa roubando ou fazendo . Passam devagarzinho. para onde tinha ido‖. de mandar embora. devagarzinho. Rodrigues (2009) registra situações semelhantes. Porque naquela época que nós fazíamos na rua ali na Assunção. seu viado‖! Já ouvi casos de bater. negociavam proteção ou simplesmente a não fiscalização do ―negócio‖ em troca do recebimento de favores sexuais das prostitutas sem. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). 33). entretanto. acabaram ajudando. e eles mandarem embora. eles agrediam. Utilizando-se de seu poder e autoridade. os programas eram feitos em nome dos laços que se desenvolviam entre eles. não. apesar da desconfiança que ainda paira sob as relações entre michês e polícia. desde o começo.90 que os travestis ali da Duque de Caxias. segundo as falas dos michês. Eles passam pela gente‖. não acontece mais isso. eles assim. Em algumas ocasiões. (P3. que se colocavam como exploradores. se submeter-se à relação contratual estabelecida normalmente com os clientes. também. Havia ocasiões em que eram eles. (Edson.. os garotos de programa acabam por conhecê-los e vice-versa. eles já sabem o limite da demarcação das pessoas que estão fazendo o programa. Pelo menos. o papel de usuários dos serviços sexuais de prostitutos e prostitutas. eles veem a gente toda a noite. Hoje. A abordagem deles era saber o que a gente estava fazendo ali. Em certos casos. ainda não. é com garotas.. eu já levei: ―Tu tá atrás de transa é com homem. E se voltasse ali. Ao longo da minha experiência. assim. a relação entre policiais e prostitutas assumia características de colaboração. Hoje em dia. Mas hoje. antigamente. não pararam. muito bom mesmo. p. A pessoa resistir. os próprios agentes da lei. Desta relação mais próxima. está muito bom. No seu trabalho sobre prostituição e policiamento em Brasília. alguns policiais assumiam. em entrevista concedia no dia 27 de janeiro de 2011). Nunca parou. porque eles passam bem assim. Com garotos também‖. o sentimento de mudança em torno das práticas policiais se faz presente nas falas dos mais antigos prostitutos em campo. mais com garotas. O que é que a gente estava procurando A gente já levou. no meu caso. eles abordavam mesmo.

lançou luz alta em nossa direção. presente de forma mais frequente nos espaços. apesar de não tratarem do tema das sexualidades especificamente. o que contraria o interesse do dono dos estabelecimentos. Com a justificativa de que pretende proteger o sigilo de seus clientes e dos assaltos supostamente praticados pelos garotos de programa. a gente fica exposto a tudo. (Herlon. e mesmo ―não resolvendo‖ os conflitos. ―É muito normal a reação: O que tu ta fazendo? Tô fazendo programa. O principal dele gira em torno da permanência dos michês na esquina do quarteirão do ―complexo de cinemas‖. como quem buscava observar melhor a cena. o que acontece muito é que os clientes fazem o serviço lá e depois não querem pagar o combinado. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011).91 alguma outra delinqüência. (P1. e no que ele pode fazer. A preocupação de quem está na rua é não saber que tipo de policial está dentro da viatura. em entrevista concedida em 17 de maio de 2011). Hoje. observamos quando uma viatura do Ronda do Quarteirão se aproximou da esquina. a composição. . ou já morreram Ou eles próprios procuram tirar porque sujam para eles. ―Na rua. O veículo apenas diminuiu de velocidade. impede que os clientes sintam-se à vontade para abordar os michês de rua. Pode passar uns policiais. no processo de formação. Não falam nada. Este diferencial pode estar relacionado à proposta do Programa Ronda do Quarteirão que pretende atuar a partir de uma nova forma de tratar a população. por vezes. já melhorou bastante (Herlon. viram ―uma coisa bem geral‖ em Direitos Humanos. pelo menos. podem mandar a gente sair‖. simplesmente. Enquanto estávamos em campo. é chamada para fazer mediações. Tanto que aqueles mais problemáticos ou já foram presos. Aí. Segundo os policiais. quase que parando. (Edson. em entrevista concedida em17 de maio de 2011). partiu. a gente tem prendido muito pouco estas pessoas. Passam na deles‖. Segundo os policiais. num intervalo de segundos. era a cavalaria. A polícia atrapalha. A sensação de insegurança permanece. que surge o problema. inspira suspeita. Hoje. dialogando mais antes de agir. Agora. a abordagem se limita a uma advertência verbal. numa das noites com um grupo de mais ou menos quatro michês. em entrevista concedida no dia 17 de maio de 2011). Não foi esboçada nenhuma reação que pudesse expressar uma preocupação ou receio. mesmo afirmando que de certa forma a repressão diminuiu. Naquela época.

estava presente na mesa de negociações. bem alto com a gente. os quatro. Beto. Júlio. Que tem pessoas casadas. Desta vez um novo personagem se faz presente: o segurança particular dos cines pornôs. (Edson. Aí. ―Ali. a gente já conhece. ―É. Foi muito bom. (Edson. Os quatro.. mas vocês também têm que entender o lado do dono do cinema porque também tem que preservar os clientes dele‖. Chegaram logo falando. Ele disse assim: cara a cara. daqueles que tinha nos driblado. não sei o quê mais lá. permanece a mesma tensão entre michês e proprietário. o cliente que tá lá pra dentro. O dono também foi. Começaram chegando na gente logo falando um monte de coisas. a gente briga é muito.. A gente chegou e disse assim: Não. ―Essas coisas a gente respeitou‖. não tem nenhum problema. ―Não. Foi muito bom. eu. Na ocasião. A gente foi à Delegacia das Mulheres. os policiais chamavam os michês de ―garoto de programa paia‖. o suposto chefe do grupo. a gente entrou num acordo porque estava acontecendo uns problemas.. O acertado seria que os michês não ficariam em frente aos cinemas. perto do cinema. os michês e o ―dono da rua24‖ discutiram a situação. Mas ele. . mas ele deu parte de vocês. Segundo os michês. Vocês tem que ir à delegacia. em entrevista realizada no dia 17 de maio de 2011). avistamos apenas um. foi chamada a polícia. Que também vão pra ali. contra a gente. o dono dos cinemas os havia acusado de roubo. Voltando à cena. em entrevista realizada no dia 17 de maio de 2011). mas não bateram nada. Aí. Ele conversa (. em entrevista concedida no dia 27 de janeiro de 2011).O. Ele fez um B. Levados à presença do delegado.O. a acusação que ele fez foi muito grave. Neste dia. vi 24 O termo faz referência a como um dos entrevistados se reportava ao falar do proprietário dos cines pornôs. Na hora da abordagem. (Edson.. expondo seus motivos. Sua função: não permitir que os garotos de programa fiquem na esquina.92 Esgotadas as tentativas de acordo entre as partes. Quis mandar a polícia bater na gente‖ (Edson. foi todo mundo pra delegacia. Falamos por alguns instantes.). o Beto. apenas está rolando um problema porque o dono do cinema não quer que a gente faça mais programa (. no espaço onde os conflitos ―nem a polícia resolve‖. Não foi agressivo com a gente. Eles querem segurar pra as mulheres deles não saber. Acusou a gente de está fazendo ponto em frente do cinema. Todo mundo.). Ele quer acabar com a gente. Perguntando que estava acontecendo. depois. em entrevista realizada no dia 27 de janeiro de 2011). fez o B.

15). p. (2009. ―O mundo em que vivemos hoje é um mundo carregado e perigoso‖ (p.93 quando o mesmo foi interceptado pelo segurança. Naquelas circunstâncias. p. Bauman afirma: A aguda e crônica experiência da insegurança é um efeito colateral da convicção de que. em virtude da transformação que não teria ocorrido sem que houvesse existido simultaneamente duas ―reviravoltas‖: a supervalorização do indivíduo. Numa analogia próxima. A insegurança moderna fundamenta-se no pensamento de que o perigo está presente em toda lugar. Culpa atribuída ao individualismo moderno ―pelo dever individual de cuidar de si próprio e de fazer por si mesmo‖ (IDEM. como consequência da ascensão do individualismo na sociedade moderna. perigo/risco e confiança. que não havia sido previsto pelos fundadores clássicos da Sociologia (Durkheim. Tal reflexão vai de encontro com o que nossos informantes nos alertavam: da necessidade de ―responder por sim mesmo‖ na rua. a modernidade trouxe consigo um lado sombrio. com as capacidades adequadas e os esforços necessários. Esta consideração se dá em virtude de acontecimentos tais como a degradação ambiental em decorrência do desenvolvimento das forças de produção. Segundo o autor. Esta mesma sensação. gera-se uma estressante sensação de insegurança. percebemos que não iremos alcançá-la. é possível obter uma segurança completa.16) que substituiu as comunidades solidamente unidas e as corporações. Weber e Marx). caracteriza-se pelo medo do crime e dos criminosos. e das guerras que eclodiram no século XX. era arriscado permancer no local. De acordo com Bauman (2009). Suspeita-se dos outros e das suas intenções. ao remeter-se aos problemas das grandes cidades. ao abordar a questão da segurança. . e ele me disse que não ia ficar por lá. destaca que o desenvolvimento das instituições sociais propiciaram maiores oportunidades de criação de uma existência segura e gratificante para a humanidade como nunca antes. do uso arbitrário do poder político. incitar alguma espécie de conflito em meio a dinâmica permeada pela desconfiança mútua entre o garoto de programa e o segurança. Ao mesmo tempo.15). de ausência de confiança entre sujeitos e instituições se apresentava cotidianamente em meio as relações que se constituíam no pedaço. conversamos mais algumas coisas. Giddens (1991) em sua análise institucional da modernidade. Em contrapartida.

os michês tendem a garantir a segurança de seus pares. os quais. 19). (IDEM. tomamos em conjunto. o autor distingue dois tipos de compromisso: os compromissos com rosto e os compromisso sem rosto. Sobe este paradigma. p. em que os riscos se fazem presentes. p. Neste sentido. (1991. foi verificado que em grupo. Com os quais é possível estabelecer relações de confiança definida por Giddens: como crença na credibilidade de uma pessoa ou sistema.36). Quando levamos em conta que o envolvimento fundamental da confiança com as instituições de modernidade. tendo em vista um dado conjunto de resultados ou eventos. ou na correção de princípios abstratos (conhecimento técnico). e que a mesma se baseia tendo em vista um conjunto de resultados e eventos. e o relato de experiências que tratam de episódios de truculência no . devo chamar de sistemas abstratos. o contato entre sujeitos mais próximos e que partilham de uma experiência semelhante nas ruas pode ser enquadrado na esfera dos compromissos com rosto. p. (IDEM.94 seguida da fragilidade e vulnerabilidade sem precedentes do mesmo. verifica-se a produção de um sujeito desprotegido. desprovido da proteção de antigos laços. e em tempos de dissolução da solidariedade. No limiar das interações na noite urbana do Centro de Fortaleza. característica das sociedades modernas. Quando nos reportamos ao contato que se dá entre Polícia e michês. Os segundos dizem respeito ao desenvolvimento de fé em fichas simbólicas ou sistemas peritos. em que essa crença expressa uma fé na probidade ou amor de um outro. Os primeiros se referem a relações verdadeiras que são mantidas por. Ao tratar da confiança na modernidade. A ideia de que a ―polícia não resolve‖ (resultados). ―Por sistemas peritos quero me referir a sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos‖. p. é possível relacioná-lo ao contexto dos compromisso sem rosto. Mesmo nesta conjuntura.30). concluímos a falta de credibilidade da instituição frente ao grupo de prostitutos de rua. 73-4). ―A solidariedade sucedeu a irmandade como melhor defesa para um destino cada vez mais incerto‖ (IDEM. ou expressas em conexões sociais estabelecidas em circunstâncias de copresença. já que a instituição policial pode ser considerada dentro dos moldes de um sistema perito.

foi possível identificar um ―sistema de medos‖ em campo (IDEM. Aliás o medo. ao mesmo tempo que há o temor de ser vítima dela. depois de algumas semanas. De onde estávamos. Sendo assim. retornamos à rua Assunção. na prática cotidiana dos agentes de segurança é que uma instituição se legitima ou não perante à sociedade. que também é temida por conta de experiências de violência vivenciadas. caminhei até o ponto para ver se encontrava algum michê conhecido.77). Apesar das declarações que afirmam uma mudança de caráter positivo na relação entre agentes de segurança pública. 78). Neste sentido.95 trato com a população de michês (eventos) incidem diretamente na constituição de um sentimento de desconfiança declarado pelos ―garotos‖. 2009). Aquela imagem nos informava que a tática dos michês para garantir sua permanência no ponto era alternar momentos de ocupação e recuo . p. persiste uma desconfiança que se manifesta quando se denuncia que a polícia só leva em consideração ―o outro lado‖. ou de ser assaltados pelo garotos de programa. são peculiarmente consequentes nas sociedades modernas. o ar casual estudado e a calma animação do pessoal de bordo são provavelmente tão importantes na renovação da confiança dos passageiros quanto qualquer quantidade de anúncios demonstrando estatisticamente o quão segura é a viagem aérea. (IDEM. o temor do dono dos cines com a segurança e exposição de seus clientes. levamos em consideração que o Programa Ronda do Quarteirão é objeto de propaganda da segurança pública.‖ (p. na materialização. O medo dos michês frente às ameaças do dono dos cinemões em chamar a polícia. Não avistei mais o segurança particular. ―Se de um lado a polícia é necessária. p. na forma de encontros em pontos de acesso. Essa desconfiança é relatada por outros segmentos sociais (FREITAS. e afirmamos que ―Os compromissos com rosto tendem a ser imensamente dependentes do que pode ser chamado de postura dos representantes ou operadores do sistema‖. Por fim. é cada vez mais desacreditada (IDEM. 2003). havia dois rapazes que não reconheci. 90). Giddens (1991) nos alerta que os ―contatos com peritos ou seus representantes ou delegados. no caso os policiais do Ronda do Quarteirão. é no contato efetivo. Tomando como exemplo a viagem aérea. Desde o medo de alguns clientes dos cinemas e michês que temem ser identificados como homossexuais. por outro. Existe o desejo de ser protegido por ela. Do outro lado da esquina.

.96 no local. Era como se alguém os dissesse: havia chegado o momento de voltar ao pedaço.

. por muitas vezes. acertos e dúvidas. Longe de afirmar trazer uma verdade sobre os fatos investigados. opiniões e pautas de reivindicação: o campo da militância e visibilidade política. além de um esforço intelectual. Quando tratamos dos comportamentos e práticas sexuais considerados desviantes. inseguranças. Valores que se contrapõem ao cenário de efervescência das discussões em torno das sexualidades. Desafiante no sentido em que nos retirou de uma ―zona de conforto‖. e porque não dizer físico. queremos discorrer a respeito de uma interpretação: uma narrativa pautada naquilo que nos foi possível apreender em campo. momentos de insights. semanas depois em Fortaleza. Em nosso país.97 4. pois esta atitude traria risco aos valores que tanto prezam: o sigilo e a discrição. De maneira alguma reivindico autoridade para falar como representante dos sujeitos pesquisados. Vivemos num tempo de hipervisibilidade do sexo. Os sujeitos do nosso estudo em questão. vemos o debate tomar fôlego. sequer desejavam falar. das leituras de gabinete. onde os interlocutores buscam expor tranquilamente suas histórias. Assim como a proposição da criação do Dia do Orgulho Hétero na Cidade de São Paulo e. visto que reconhecemos os limites que qualquer pesquisa está sujeita. dos ―campos sossegados‖ e à luz do dia. a questão do beijo gay entre os personagens homossexuais do folhetim televisivo e a aceitação popular dos mesmos é motivo de discussões acirradas. Falamos de uma realidade recortada e interpretada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Enfim. é chegada a hora de ―fechar a questão‖. a utilização do ―kit-gay‖ nas escolas públicas brasileiras dentre vários outros assuntos que permeiam esta problemática. reflexões. em que os acontecimentos da novela das oito costumam causar comoção nacional e pautar o debate nos quatro cantos da nação. em que o que se acreditava pertencer ao campo da intimidade de cada indivíduo é posto em discussão como assunto corriqueiro nas conversas ao pé do batente. Oportunidade de trazer à tona o substrato de um esforço que nos consumiu meses de leitura. pois desafiam os limites daquilo que é compreendido como normal. nos diálogos entre passageiros do ônibus (falas do que classificamos pertencentes ao senso comum) e nas esferas mais elevadas do conhecimento e da disputa política.

E assim. ―hetéros curiosos‖. recorremos às experiências pessoais anteriores a nossa constituição como sujeito pesquisador para definir o espaço em que a inserção em campo seria menos complicada e. ora pelos governos. Destacamos que a prostituição viril de rua é apenas uma das modalidades do comércio sexual. O que importa é ser viril. Neste sentido.98 A passagem das margens para o centro das disputas políticas das questões que dizem respeito à cidadania sexual de populações até então silenciadas e reclusas é resultado de um acúmulo de lutas e resistências no decorrer da história moderna que não se encerra. a discrição e o sigilo são antes de tudo elementos indispensáveis nos processos de interação com outros homoeróticos. podemos considerar alguns avanços no campo da cidadania sexual no mundo e no Brasil. Mais que uma aparente covardia diante da possibilidade de serem ―descobertos‖ como gays ou bissexuais. ao mesmo tempo em que se busca reinventar novos sentidos sobre a mesma. a reivindicação por visibilidade por certa parcela desta população de outsiders. ter ―jeito de homem‖. verificado por iniciativas como o reconhecimento da União Civil homoafetiva e a organização das Paradas do Orgulho Gay. há os que reivindicam o direito de permanecer ―no armário‖. A fim de realizar nossa investigação que envolveu prostitutos de ruas e policiais que atuam no Centro de Fortaleza. caracterizado pela transgressão. sobretudo. o ―levantar de bandeiras‖. onde seria possível obter . São indivíduos que não querem. ou nada dizem neste universo de homens ―que curtem‖. Ao mesmo tempo em que testemunhamos toda essa movimentação. No caso da prostituição masculina autoproclamação da identidade homossexual é algo raro até porque as subdivisões das sexualidades em homo/bi/heterossexual pouco. nem se veem representados nas letrinhas da sopa LGBT. encontramos grupos que rejeitam esta postura. fora os diversos fóruns de discussão política organizados ora pela militância. e etc. e posteriormente a este momento. assume-se esta identidade desviante. A partir daí. foi necessário que construíssemos num primeiro momento um mapa da atividade homoerótica da metrópole cearense. A construção desta força política na sociedade tem como um dos seus fundamentos a autoafirmação de uma identidade e a valorização da mesma. Para estes sujeitos. reivindica-se um tratamento igualitário perante o Estado e sociedade. Num primeiro momento.

dentre os quais os policiais responsáveis pela segurança pública local. a esquina do quarteirão que concentra o maior número de ―cinemões‖ numa mesma faixa rua é o espaço de referência onde garotos de programas e outros personagens noturnos interagem entre si. Tão importante quanto a propaganda e divulgação dos estabelecimentos GLS para o público gay assumido. mesmo que sozinho. De acordo com os michês. O principal ―ponto‖ de michês do Centro de Fortaleza só começa a funcionar tarde da noite. e localiza-se numa rua detrás de uma avenida que mesmo no período noturno apresenta uma movimentação intensa. locais estratégicos. Inicialmente. Justamente. dos dias das semanas e dos códigos identitários que possibilitam a interação despercebida entre indivíduos por parte daqueles que não dominam o arsenal de gestos e vocabulários particulares dos grupos que por ali transitam. consideramos importante situar o trabalho do michê como parte integrante de um ramo de atividade que inserido num mercado sexual amplo e complexo. desde já.99 informações sobre a atividade policial. independente da presença de policiais na rua. No centro de Fortaleza há espaço para todos. distribuídos ao longo de uma faixa invisível que se intercala formando o que classificamos de circuito homoerótico. o caráter insuspeito de alguns locais são cruciais para permanência e trânsito daqueles que prezam pela discrição. Semelhante a outras metrópoles. acobertados pela escuridão da noite. um dos principais requisitos para poder encarar a noite no ponto de prostituição é a capacidade de garantir a sua própria segurança. tanto os que preferem as luzes na entrada. quanto os que não abrem mão de acessos poucos visíveis. A prostituição de rua tende a se concentrar em locais e horários menos visibilizados. Para além da delimitação geográfica. São prédios comerciais. praças. As prostituições em ambientes virtuais e espaços fechados. motéis de frequência homoerótica. justamente num trecho que intercala bares. o uso destes territórios são (re)definidos e ressignificados em virtudes dos horários. cines-pornôs. não permitiriam uma análise neste sentido. espaços públicos. escondidos por detrás dos toldos e corredores improvisados. é necessário que aquele que se pretende garoto de programa seja capaz de suprir sua . Mesmo assim. o Centro da Cidade de Fortaleza possui em seu tecido urbano porções territoriais que abrigam e congregam indivíduos praticantes do homoerotismo dentre outros personagens marginais que povoam suas ruas.

Os próprios garotos de programa são alvo da desconfiança de outros sujeitos que compõem a cena noturna. Os que já estão enturmados com o local reconhecem as figuras que podem representar algum perigo e já estabeleceram os acordos necessários para que permaneçam ali menos preocupados. isso quando se pronuncia. se algo nesse sentido ocorrer é importante que se guarde em segredo. como se espera que um não denuncie o outro. algumas de suas histórias se contradizem em algum ponto. desde seus clientes como aqueles que apenas passam pelo ponto. Mesmo assim. pois a não se sabe o momento em que alguém pode se aproximar. O michê pouco fala sobre si mesmo e seus companheiros. os michês estabelecem alianças que visam garantir a proteção entre seus semelhantes frente às ameaças e conflitos externos. No processo de inserção em campo e elegibilidade daqueles que nos concederiam entrevista. A sensação de desconfiança é uma constante. Recomenda-se que cada um fique ―na sua‖ a fim de evitar retaliações. manter-se calado é uma forma de proteger o seu segredo e de seus colegas. e a sua integridade física. De todo modo. a questão relativa ao segredo que a ser mantido. O falar pode colocar em xeque sua confiabilidade perante o grupo. nem o seu grupo. ele atravessa a sociedade como um todo de uma maneira ou outra. e mesmo assim. nos .100 defesa diante dos riscos cotidianos. Ficar no seu lugar é também algo muito importante. Internamente. Este sentimento de insegurança não é atributo exclusivo dos michês que fazem programa no Centro. já que os territórios de prostituição são definidos e delimitados por linhas imaginárias que dividem o espaço de cada grupo. A mesma ideia está presente no conselho de não se meter em conflitos que não o envolvam diretamente. os vigilantes noturnos tomam conta de alguns trechos da rua onde não é permitido que se prostituem. Para assegurar sua permanência no local se pressupõe que o mesmo seja capaz de ―fazer amizades‖. são estabelecidas práticas de solidariedade e pactos de silêncio. Qualquer estranho que se aproxime é visto com suspeita. As travestis tem seu pedaço. é recomendado que não se invada o local do outro. Para o garoto de programa que está na rua. Organizados em grupos. pois a incerteza de que retornarão para suas casas seguros não desaparece. Outro conselho é que não se deve roubar para não trazer uma ―má fama‖ ao grupo.

que fez com que fôssemos mais cautelosos em campo a partir do momento em que tomamos noção dos riscos no ambiente em que estávamos nos familiarizando. Outro fator que pesou neste processo foi a preocupação com a segurança. Enquanto eu poderia apenas ser mais um ―novato‖ no pedaço. todos somos estrangeiros um dos outros e até que se construam pontes de confiança. pois trata-se de um espaço aberto. ―sumiços‖ e justificativas para não atender nossa solicitação foram constantes. nosso comportamento quando voltamos por lá outras vezes. acessível a todo aquele que deseje e possa estar ali. a partir dele. qualquer um é suspeito. outras categorias se apresentaram num movimento que nos fez redefinir leituras. a conversa fluía facilmente. os convites para lanchar e sair juntos também. um ciclo de desconfianças ou de ―confianças líquidas‖ que envolve a todos que de uma maneira ou de outra interagem no ponto de prostituição. eu era um estranho. a terminologia grupo engloba também os representantes da corporação policial. O trânsito é livre e arriscado. A rua em si.101 pareceu elemento que veio dificultar o trabalho: recusas. Por estas e outras circunstância é que afirmamos que o campo ditou o ritmo desta pesquisa. repensar estratégias de inserção e refletir sobre os limites e possibilidades de nossa empreitada. a desconfiança era perceptível nas falas que buscavam alegar não ter disponibilidade para conversar. As relações de poder imbricadas no entorno do ponto eram tensas e instáveis. O testemunho de um incidente de agressão física mudou nossa percepção do lugar e por consequência. essas pontes são cada vez mais frágeis. Para fins de análise. ao mesmo tempo em que. Nosso estudo permitiu identificar além da existência de uma rede de relações de poder. é um ambiente desprotegido. Assim como. Para todos os efeitos. novas possibilidades também se apresentavam. Os conflitos partem justamente desta falta de confiança por parte daqueles que se sentem ameaçados em virtudes das experiências anteriores e dos . tal como o repasse de informações desencontradas. Em algum momento. Quanto mais nos aproximávamos do nosso objeto mais elementos desafiadores surgiam. Nas sociedades modernas. Por mais que se explicasse o caráter da pesquisa. A partir deste paradigma da desconfiança e do descrédito entre indivíduos e grupos é que podemos tentar desenhar a dinâmica das relações das noites urbanas do Centro de Fortaleza.

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resultados dos contatos: um deles é o dono dos cines-pornôs que desconfia da atuação dos michês na rua, que podem praticar crimes contra seus clientes e ameaçar o sigilo das suas identidades. Esta dinâmica de desconfianças e incertezas não é impeditivo para que se tente construir acordos entre os sujeitos envolvidos. Acertos em torno da ocupação da esquina onde funciona o ―ponto‖ parecem se repetir da mesma forma como costumam ser descumpridos. No que diz respeito a esta questão, a ausência da fala do dos ―cinemões‖ interferiu em nossa análise que se restringiu a uma rápida conversa com um de seus funcionários. Extrapolando os limites de acordo entre as partes, a polícia é chamada para intervir, pois entende-se que a instituição possui legitimidade para solucionar o problema, mesmo que de forma pontual. O exemplo acima citado não quer dizer que os policiais só se fazem presente quando chamados. O grupo da Polícia Militar que investigamos, o Ronda do Quarteirão, tem seu trabalho caracterizado pela presença ostensiva nas suas áreas de atuação. Segundo os próprios michês os mesmo convivem de forma mais tranquila ao comparar com as práticas das ―outras polícias‖, e com as experiências de anos atrás. Na opinião dos policiais, os garotos de programas são mais discretos e causam menos problemas se comparados às travestis. Há um entendimento por parte dos policiais, que os conflitos que possam surgir internamente no grupo de michês e com outros sujeitos que fazem parte da dinâmica do local, tendem a ser resolvidos entre as partes. Compreende-se que a presença de uma viatura haveria de inibir o pleno exercício das atividades do ―ponto‖, visto que parcela significativa dos clientes, seja dos michês, seja dos cinespornôs buscam garantir o segredo de suas ações. Apesar de das experiências negativas com outros contingentes policiais, e em épocas distintas, a falta de confiança na polícia, em nosso caso, está muito mais atrelada à ideia de que ela ―não resolve‖. Chamar a polícia, registrar um boletim de ocorrência seria apenas uma perda de tempo. São os resultados da atuação policial que não correspondem aos anseios daqueles que cobram a sua atuação. Fato reconhecido pelos policiais que confirma que por muitas vezes, as soluções que as população busca ferem o estatuto legal. A ideia de que não adianta chamar a polícia é reforçada pelos michês que afirmam que quando a polícia vai embora são eles que ficam no local e tem que dar respostas aos seus problemas. De maneira semelhante, na falta de uma solução de

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acordo com os anseios do dono dos cinemões sobre a problemática da ocupação da esquina, o mesmo vai se valer da contratação de um segurança particular. Podemos concluir então, que as relações entre michês e policiais do Ronda do Quarteirão no são permeadas pelo reconhecimento de que ambos os grupos possuem suas dinâmicas próprias e que o último só interfere de forma mais incisiva no pedaço do outro quando acionados. De modo geral, as demandas não chegam até a polícia, pois a instituição é desacreditada pelos michês que não confiam na sua capacidade de resolução dos conflitos, e apesar do modo diferenciado de atuação dos policiais ―de farda azul‖, algumas experiências passadas influenciam para que a desconfiança em relação aos representantes da segurança pública resista. Acreditamos que mais que encontrar respostas para as nossas indagações iniciais, este estudo abre a possibilidade de refletirmos sobre novos questionamentos. Os resultados nos interessam tanto quanto as interrogações que surgiram ao longo do processo, pois a partir delas é que podemos imaginar outros desdobramentos. Por fim, para cada questão que parece se fechar, outras desabrocham como flores no jardim das ideias, ao qual desejo retornar para colhêlas em buscas das respostas que as mesmas suscitam.

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109 ANEXOS .

110 ANEXO A – Reportagem do Diário do Nordeste do dia 23 de novembro de 1988 .

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