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Código civil muda planejamento sucessório
Marta Watanabe 28/08/2006 As mudanças do novo código civil - que reconhece a chamada união estável e garante ao cônjuge uma fatia maior dos bens - aliadas à facilidade cada vez maior de casar e descasar, provocaram o aumento dos planejamentos sucessórios. Desde 2003, a procura por este tipo de serviço quadruplicou em escritórios especializados e aumentou em 50% em alguns bancos.

Rafael Jacinto/Cia de Foto Luiz Kignel, advogado: "Antes do novo código civil, eu fazia de um a dois testamentos por mês. Hoje, faço de oito a dez." Com a demanda, surgem novos instrumentos para programar o destino de patrimônios superiores a US$ 1 milhão. Um deles é o "trust" que, segundo instituições financeiras, assegura ao titular dos ativos que os bens sejam distribuídos aos beneficiários de sua livre escolha. O Banco Itaú Europa Luxembourg, banco que faz parte do grupo Itaú, tem endereço eletrônico em Luxemburgo (www.itaulux.lu), mas o site foi modelado especialmente para o cliente brasileiro do private bank do Itaú. Inteiramente em português, o site menciona apenas dois instrumentos para a sucessão patrimonial oferecidos pelo Itaú International Private Bank: o uso de empresas offshore e os "trusts". Segundo o banco, "um trust pode assegurar que seus ativos sejam distribuídos aos beneficiários de sua escolha, na forma mais adequada à sua decisão, sem os habituais processos e trâmites administrativos e legais". O que os bancos anunciam como o maior atrativo do "trust", porém, é o que pode virar alvo de discórdia quando forem abertos os testamentos que estão sendo deixados hoje usando os "trusts". Isso porque a legislação impõe atualmente grandes restrições à livre destinação do patrimônio. As mudanças no novo código civil garantem ao marido ou esposa, na morte do cônjuge, não só a metade do patrimônio construído pelo casal, como era antes. Hoje o cônjuge é considerado também herdeiro. Ou

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seja, além de ficar com metade do patrimônio, também entra na divisão dos demais 50% do total de bens, ao lados dos outros herdeiros obrigatórios. Os filhos, junto com o cônjuge, são os chamados herdeiros obrigatórios para quem o titular do bem deixará, no mínimo, 25% do total de seus bens. Ou seja, se o dono do patrimônio quiser dispor livremente de parte dos bens para deixá-los a qualquer terceiro que não seja seu herdeiro obrigatório, ele só pode dispor de 25% do total de seus bens. Os demais 75% estão garantidos ao cônjuge (que terá no mínimo 50%) e aos herdeiros obrigatórios. A divisão tende a ser mais disputada quando o titular dos bens teve vários matrimônios e filhos em todos eles. Ou quando há um filho fora da união reconhecida legalmente. A polêmica está justamente na restrição que limita a 25% dos bens a livre disponibilidade. Advogados costumam dizer que aconselham os clientes que decidem usar o "trust" a respeitar as limitações, mas nem sempre isso acontece. A responsabilidade, no caso, seria do próprio dono do patrimônio, que tem uma rigorosa legislação a seguir na hora de destinar cada uma das fatias de sua fortuna. Caso aconteça, porém, o litígio tende a surgir somente após sua morte. A pergunta é: caso a limitação de 25% não seja respeitada, é possível desconsiderar o "trust"? Advogados são unânimes em dizer que o direito dos herdeiros obrigatórios existirá. O problema é saber se é possível desfazer o "trust". Especialistas em sucessão patrimonial e familiar dizem que ainda não há casos de disputas judiciais no Brasil porque o uso maior dos "trusts" para planejamento sucessório é relativamente novo. O Ministério Público endossa a informação. Mas, segundo um promotor da área de família e sucessões, a experiência com bens em off shores pode servir como referência. O planejamento com "trusts" geralmente envolve uma empresa em paraíso fiscal na qual são reunidos os ativos de quem faz o patrimônio. Segundo o promotor, em sete anos de trabalho, não houve nenhum caso de sucesso nos pedidos de informação de bens em paraísos fiscais. "Às vezes o herdeiro apresenta um extrato ou uma correspondência recebida por um banco em Cayman ou Luxemburgo como indício de que o pai tinha ativos financeiros no exterior. Os pedidos de informação aos bancos, porém, ficam sem resposta ou as instituições alegam sigilo de dados." Cássio Namur, advogado especializado em planejamento familiar do Souza, Cescon, Barrieu e Flesch Advogados, diz que as decisões acontecerão caso a caso. Ele conta que acompanhou a discussão em um processo fora do Brasil. Um empresário mexicano havia contratado um "trust" norte-americano deixando para a amante uma parcela de bens que, segundo a legislação mexicana, deveria ficar com os herdeiros obrigatórios. O "trust" foi impugnado e discutido na Justiça pelos filhos, mas o patrimônio ficou para a amante. Como o empresário morreu em Nova York , onde também tinha residência, a legislação de sucessão levou em consideração as normas vigentes no local de morte. Ou seja, as normas americanas que autorizam, inclusive, a retirada total dos filhos do patrimônio do titular. Namur ainda chama a atenção para outro risco. O que pode acontecer é o patrimônio ser alterado do momento em que o titular estabelece o "trust" até a ocasião em que morre. Se o patrimônio total se reduzir, os ativos deixados no "trust" podem acabar ultrapassando o limite de 25%. "Mesmo que a intenção inicial, no momento de contratar o 'trust', tenha sido respeitar a legislação." A tributarista Ana Cláudia Akie Utumi, do Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados, diz que é mais fácil comprovar que o "trust" passou dos limites se os ativos forem imóveis ou ações de empresas. "Caso sejam ativos financeiros no exterior, é mais difícil simplesmente porque às vezes os herdeiros obrigatórios podem não ter essa informação", diz a advogada. "É muito comum o cônjuge não ter idéia dos ativos que o parceiro tem", diz Namur. Quando é constituído, explica ela, os bens transferidos ao "trust" aparecem na declaração de Imposto de

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Renda (IR) como se estivessem sendo doados. Isso porque a propriedade dos bens passa definitivamente para a entidade. Verificar a evolução patrimonial nas diversas declaração de IR do titular seria, portanto, uma forma de levantar os bens que foram para o "trust". Mas nem sempre essa informação está disponível para os herdeiros. Muitas vezes os bancos que oferecem o "trust" como alternativa aliam a confidencialidade do contrato de "trust" à garantida também por um paraíso fiscal. O Itaú International, por exemplo, oferece o planejamento de "trust" cujo contrato, na verdade, é estabelecido com o BIE Bank & Trust. Nesse caso, o titular dos ativos transfere o patrimônio para uma companhia a ser estabelecida nas Ilhas Cayman. A propriedade da companhia passa a ser do "trust" e será administrada pelo "trustee" quando o titular dos bens morrer. O BIE Bank & Trust tem sede nas ilhas Cayman faz parte do grupo Itaú. Além de garantir confidencialidade, a empresa pode usar os incentivos do paraíso fiscal. O Banco Itaú, procurado, não se manifestou. O BankBoston International também oferece aos clientes o serviço de sucessão com "trusts" por meio da filial em Bahamas, BankBoston Trust Company Limited. É o banco localizado em Nassau que estabelece e administra os "trusts" e companhias offshore de Bahamas. Os bancos, porém, chamam a atenção para o fato de que mesmo os planejamentos com "trusts" devem seguir a legislação. Marco Navarro, responsável pela área de investimentos e planejamento patrimonial do Unibanco, diz que os interessados em usar "trusts" são direcionados para escritórios de advocacia especializados na área, exatamente para que conheçam todos os aspectos legais. Segundo Navarro, depois do código civil, em 2003, aumentou 50% a demanda por serviços de planejamento sucessório. É uma área relativamente nova no banco: o planejamento patrimonial passou a ser oferecido há quatro anos e meio. Navarro diz que é difícil estipular o patrimônio mínimo para compensar o custo de um "trust". No Unibanco, o serviço só é oferecido aos clientes do Private Banking, com investimentos no banco de pelo menos R$ 3 milhões. A procura pela sucessão patrimonial também é registrada pelos escritórios de advocacia. Luiz Kignel, especialista em sucessão patrimonial, diz que o interesse pelo "trust" aumenta em função da demanda maior que surgiu por planejar o destino do patrimônio. "Antes do novo código civil, eu fazia de um a dois testamentos por mês. Hoje eu faço de oito a dez." O advogado Cássio Namur diz que pessoas cada vez mais jovens procuram pelo planejamento sucessório. "Hoje muitas vezes um grande patrimônio já é formado aos 40 anos", explica ele. Segundo Namur, a procura acontece tanto por homens como mulheres. Geralmente por quem passou por dois ou mais matrimônios ou pelo menos um matrimônio mais união estável.

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